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2 O INSUSTENTÁVEL PESO DO VIVER EM “MARIDO”
Lídia Jorge, em seu conto “Marido”, elabora o que Calvino chama de “insustentável
peso do viver” (CALVINO, 1990, p. 37). Comprova isso o seu relato sobre a morte de Lúcia,
no qual abstrai da ação todo o ruído do drama pessoal da personagem, acrescido de seu
conflito com os vizinhos. A abstração se dá, sobretudo, a partir do uso reiterado, como se verá
no excerto abaixo, de palavras que evocam a ideia de silêncio.
A simbologia do nome Lúcia traz em sua origem a ideia de luz e de fogo, considerado
este por muitos povos como “sagrado, purificador, renovador” (BECKER, 1999, p. 133),
sendo que “seu poder destruidor muitas vezes é interpretado como meio de renascimento para
um nível mais elevado” (BECKER, 1999, p. 133). Essa ideia, associada à insistente presença
da vela, “símbolo da luz, da alma individual e da relação entre espírito e matéria” (BECKER,
1999, p. 293) e à estrutura marcante das orações (“Ave Maria” e “Salve Rainha”), dá à morte
da personagem uma dimensão leve, como se percebe no fragmento abaixo:
Ela vira-se, sai da cama, esfrega-se na parede, o fogo primeiro não alastra, depois de
repente alastra, cola, passa ao cabelo, ela remove-se no chão, na carpete da sala,
junto da porta, ainda abre a porta, mater, vita, ó doçura, ventris tui nobis post hoc
exilium, ostende! Ó clemens, ó pia, advocata, em silêncio, dulcis Virgo Maria! A
porta está aberta para toda a chama. A chama da porteira sai pela escada de serviço
abaixo, correndo sem ruído até ao oitavo, ao sétimo, ao sexto. Só no quinto a chama
da porteira pára. Crepita. É a porta do advogado do quinto. Sem barulho, fica à porta
do advogado, das testemunhas e da lei. A Regina assim quer que fique. Regina
acocorada sobre ela, no quinto, de asas abertas sobre o quinto, e o marido no
décimo. Ainda terá a vela? Abre as asas, advocata, levanta vôo, leva a porteira,
condu-la na maca, ergue-lhe a vista, Regina, separa-a definitivamente da cama, do
balde e do fogão. Separa-a dos dez andares que o prédio tem, separa agora, et nunc,
et sempre, et séculos, das janelas abertas, cheias das silhuetas dos inquilinos lilases e
brancos pela fúria da última madrugada. Levem-na, Regina e Rex, com vossas
quatro mãos, vossos quatro pés, deste lacrimarum Valle, eia ergo, ad nos converte.
Levem-na sem ruído, sem sirene, sem apito, sem camisa, sem cabelo, sem pele, post
hoc exilium, ostende.
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Percebe-se que a ação ganha uma dimensão suave através do uso de uma linguagem
que remete ao silêncio e à lentidão, como a projeção em câmara lenta de uma cena
verdadeiramente rápida, barulhenta e trágica.
Devido às sutilezas utilizadas na elaboração textual, “Marido” é um desses textos que
exigem uma leitura atenciosa e perspicaz, diferentemente da postura da personagem Lúcia
que, apesar de todos os conselhos recebidos dos vizinhos, mantém inalteradas as suas
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JORGE, Lídia. Marido e outros contos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1997, p. 23-24. Todas as citações
serão dessa edição, indicadas doravante apenas pelos números das páginas.