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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
FACULDADE DE EDUCAÇÃO FÍSICA
ESTÍMULOS AMBIENTAIS
NO DESENVOLVIMENTO SENSÓRIO-PERCEPTIVO-MOTOR
DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA MENTAL:
AVALIANDO SUA INTERFERÊNCIA
JAQUELINE COSTA CASTILHO MOREIRA
CAMPINAS- 2005
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ESTÍMULOS AMBIENTAIS
NO DESENVOLVIMENTO SENSÓRIO-PERCEPTIVO-MOTOR
DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA MENTAL:
AVALIANDO SUA INTERFERÊNCIA
Monografia apresentada à Faculdade de Educação
Física para obtenção do título de especialista em
Atividade Motora Adaptada Modalidade Extensão sob
a orientação do Professor Dr. José Luiz Rodriguez.
Orientador Prof. Dr. José Luiz Rodriguez
Campinas-2005
4
AGRADECIMENTOS
- Primeiramente a Deus, força soberana e imprescindível;
- Ao meu orientador Prof. Dr. José Luiz Rodriguez, que acreditou, acolheu e
acompanhou permanentemente esse projeto;
- Aos amigos e professores Gisele Maria Schwartz e Luiz Lorenzetto pela
colaboração, apoio e valorização da perspectiva ecológica humana;
- À coordenação da s-graduação, representada pelo Prof. Dr. Paulo Araújo e
Elizabeth Malagodi;
- A todos os meus amigos da especialização em “Atividade Motora Adaptada” por
permitirem a troca de experiências, conhecimentos, livros e muitas risadas;
- Ao historiador José Eduardo Heflinger Jr. por possibilitar um levantamento histórico
e turístico da cidade de Limeira;
- A todos meus familiares pelo apoio e compreensão nos momentos de necessidade;
E em especial:
- A todos os funcionários, diretoria e alunos da ARIL, principalmente do CHTP, sem
os quais não seria possível esse trabalho.
5
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho
...ao meu Marido Octávio e Filha Marina, que suportaram pacientemente minhas
ausências e que apesar disso, sempre estiveram presentes como base e fonte de
apoio em todos os momentos;
...aos meus Pais adotivos Luiz e Carmem, falecidos, que permitiram através de seus
esforços que eu chegasse até aqui;
...a minha Amiga e Profª Drª. Gisele Maria Schwartz, motivadora do início ao fim
dessa especialização;
...ao meu Orientador, facilitador e amigo Prof. Dr. José Luiz Rodriguez, pela
paciência, sobriedade, sensibilidade, força e resistência sempre presentes para
amenizar minha ansiedade e conduzir-me nos meus desvios de percurso.
6
LISTA DE ABREVIATURAS;
- ARIL – Associação de Reabilitação Infantil Limeirense
- CHTP – Centro de Habilitação e Treinamento Profissional
- AVD – Atividades de Vida Diária
- AVP- Atividades de Vida Prática
- DM – Deficiente Mental
7
LISTA DE ANEXOS
1. Ficha de Avaliação e Evolução da Educação Física 144
8
SUMÁRIO
RESUMO...............................................................................................
xv
ABSTRACT..........................................................................................
xvi
LISTA DE QUADROS, GRÁFICOS E FIGURAS................................
I. INTRODUÇÃO............................................................................
09
10
11
13
II. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Capítulo 1: O ambiente
Capítulo 2: As interações ambientais e o desenvolvimento sensório-
perceptivo-motor
Capítulo 3: A deficiência mental
16
52
62
III. METODOLOGIA EMPREGADA 73
IV. OBSERVAÇÃO EM CAMPO
4.1. Ambiência do Município de Limeira (SP):Características Geo-
sociais
4.2. Ambiência do objeto de estudo: ARIL- Associação de
Reabilitação Infantil Limeirense
4.3. Os itens observados: Atmosfera ambiental, arranjos espaciais
e sociais
V . DISCUSSÃO....................................................................................
VI . CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................
VII . REFERÊNCIAS.............................................................................
VIII. ANEXOS........................................................................................
82
86
99
128
135
136
146
9
RESUMO
O presente trabalho trata de um assunto muito discutido na atualidade, porém pouco
sistematizado. As formas como percebemos o ambiente e que interagimos física e
socialmente representam um grande passo no trabalho com pessoas com deficiência
mental. O objetivo desse trabalho é sistematizar esse conhecimento para,
posteriormente, utilizá-lo na averiguação das condições de estímulos adequados a
determinados locais. O estudo requereu uma revisão bibliográfica através de
palavras-chave nas bases e catálogos, SPORT DISCUS ERL (SD-ERL), SCIENCE
DIRECT (SD), SCIRUS, SCIELO, NUTESES, UNIBIBLIWEB, além da consulta em
bibliotecas da USP/ Ribeirão Preto, UNICAMP/Campinas e UNESP/Rio Claro. Uma
observação enfocando a teoria ecológica foi realizada em escola especial a
ASSOCIAÇÃO DE REABILITAÇÃO INFANTIL DE LIMEIRA (ARIL). O público
observado foram alunos adolescentes de ambos os sexos do Centro de Habilitação e
Treinamento Profissional (CHTP). Esse estudo permitiu a identificação de variáveis
ambientais que colaboram para o potencial desenvolvimental de ambientes que
trabalhem com pessoas com deficiência mental; identificação de estímulos
ambientais favoráveis e desfavoráveis, percepção e interação variadas com o
ambiente em função das sensibilidades expandidas e desenvolvimento motor. A
principal conclusão remete à projeção de uma escola que contemple as variáveis
ambientais físicas, a ambiência, os arranjos físicos e sociais mais adequados ao seu
público.
Palavras-chave: estímulos ambientais, desenvolvimento, deficiência mental.
10
ABSTRACT
The present work deals with a matter very discussed at the present time, however a
little systematized. The forms how we notice the environment and how we interact
physics and socially with it represent a great step in the work with people with mental
deficiency. The objective of this work is to systematize that knowledge in order to use
it later on the verification of the conditions of appropriate incentives to certain places.
The study requested a bibliographical revision through word-keys in the bases and
catalogs SPORT DISCUS–ERL (SD-ERL), SCIENCE DIRECT (SD), SCIRUS,
SCIELO, NUTESES, UNIBIBLIWEB, besides the consultation in the libraries of
USP/RIBEIRÃO PRETO, UNICAMP/CAMPINAS and UNESP/RIO CLARO. An
observation focusing the ecological theory was accomplished at special school, the
ASSOCIAÇÃO DE REABILITAÇÃO INFANTIL DE LIMEIRA (ARIL). The observed
public was adolescent students of both sexes of the CENTRO DE HABILITAÇÃO E
TREINAMENTO PROFISSIONAL (CHTP). This study allowed the identification of
environmental variables that collaborated for the potential desenvolvimental of
environments working with people with mental deficiency; identification of favorable
and unfavorable environmental incentives, perception and interaction varied with the
environment in function of the expanded sensibilities and motor development. The
main conclusion sends the projection of a school contemplating the physical
environmental variables, the “ambiência”, the physical and social arrangements more
appropriate to this public.
Key words: environmental incentives, development, mental deficiency.
11
LISTA DE QUADROS, GRÁFICOS E FIGURAS
Figura 1: Teoria ecológica de Bronf
21
Quadro1: Sistematização dos termos usados no estudo ambiental. 32
Figura 2: Arranjos espaciais de Neufert 33
Figura 3: Arranjos espaciais de Marcozzi 34 – 36
Figura 4: Dinâmica de arranjos espaciais 37 - 39
Figura 5: Arranjos espaciais de Destrooper e Vayer 41
Figura 6: Fotos ilustrativas do Arranjo espacial nos grupos 3 e 4
(3-4 anos) nas fases do estudo de Bomfim
42
Figura 7: Arranjo espacial de Mantoan 43
Quadro 2: Sinopse das alternativas de ambiente de aprendizagem para
deficiência mental sugeridas por Kirk e Gallager
46
Figura 8: A relação entre sensação, percepção, indivíduo e meio
ambiente
54
Figura 9: Grau de excepcionalidade X Ambiente de aprendizagem 68
Figura 10: Pessoas deficientes no Brasil 71
Figura 11: Vista aérea da cidade de Limeira (SP) 83
Figura 12: Vista dos aclives da cidade de Limeira (SP) 83
Figura 13: Praças da cidade 86
Figura 14: Fazendas históricas da região 86
Figura 15: Loja Artesania da ARIL 88
Figura 16: Alunos do CHTP 90
Figura 17: Equipamento Adaptado 93
Figura 18: Jogos e brinquedos criados na ARIL 94
Figura 19: Variedade de bolas 94
Figura 20: Arcos e triângulos criados na ARIL 94
Figura 21: Bolas de materiais, conteúdos e volumes diferenciados 94
Figura 22: Atividades da Terceirização 97
Figura 23: Aclive na entrada do CHTP 100
Figura 24: Declive na entrada principal
100
12
Figura 25: Entrada principal com a recepção e o estacionamento 101
Figura 26: Bloco da ARIL 102
Figura 27: Parquinho de areia e brinquedos de madeira 103
Figura 28: Bloco 1 104
Figura 29: Piscina, arquibancada para mães e elevador 107
Figura 30: Sistema de escoamento 107
Figura 31: Equipamentos 107
Figura 32: Quadra poli-esportiva 108
Figura 33: Equipamentos 109
Figura 34: Materiais em quadra 109
Figura 35:Vestiário com adaptações 110
Figura 36: Academia 111
Figura 37: Trabalho de artesanato dos alunos do CHTP 114
Figura 38: Atmosfera do CHTP 115
Figura 39: Atmosfera do CHTP 115
Figura 40: Vista do CHTP, entrada interna 117
Figura 41: Vista do CHTP, mesa do monitor a frente 117
Figura 42: Arranjo espacial esquemático CHTP 118
Figura 43: Vista das mesas usadas no lazer, balança de pesagem 120
Figura 44: Arranjo espacial composto pó rede de vôlei submersa 122
Figura 45: Arranjo espacial observado 122
Figura 46: Sala de TV 126
Figura 47: ARIL e seu entorno 128
13
I. INTRODUÇÃO
“Pouco a pouco, compreendemos que o ambiente em que vivemos tem uma
influência significativa sobre nós. A importância da família e da sociedade de
um modo geral para o desenvolvimento da criança excepcional tem levado a
uma série totalmente nova de tentativas no sentido de treinar os pais e de
criar um ambiente de aprendizagem o mais favorável para a criança" (Kirk &
Gallager, 1994, p. 463).
Muitos estudos multidisciplinares desenvolvidos na área da Educação
Especial, citando Heimstra (1978), Haeussler & Rodríguez (1979), Morato (1993),
Kirk & Gallager (1994), apontam que aspectos como: sensibilidade, motricidade,
comportamento e ambientes devem ser levados em consideração no
desenvolvimento das pessoas e em especial das pessoas com deficiência mental.
De acordo com Assmann (1996, p.57):
“Toda proposta de “Educação Fundamental” inclui, antes de mais nada, a
maneira como se encara a capacitação básica dos seres humanos, para
ativarem seu próprio potencial humano. Isto se inevitavelmente, a partir da
própria Corporeidade, dentro de uma bio-ecologia social determinada.”
Buscamos estabelecer a relação entre as palavras-chaves: ambiente, pessoas
com deficiência mental e desenvolvimento sensório-perceptivo-motor. Eles o
variáveis qualitativas nominais, que apesar de não manterem necessariamente uma
relação de ordem entre si; quando articuladas, geram uma série de implicações
sociais, políticas e econômicas, que interferem diretamente na vida da população em
discussão.
Localizado o problema na literatura, nossa preocupação é fazer um
levantamento analítico bibliográfico acerca do que foi publicado sobre o assunto,
dentro das limitações de seu âmbito; seqüenciando vários autores, justificados pela
busca de contribuições nessa área no decorrer dos últimos vinte anos, intuindo
delinear novas possibilidades de pesquisa.
14
Tem-se como justificativa a intrínseca relação entre o comportamento humano
e o ambiente. Um conhecimento mais complexo, acerca da percepção ambiental é
necessário, para compreensão do agir humano e para planejar enfrentamentos mais
adequados.
O desenvolvimento desse projeto apresenta uma relação custo-benefício que
o justifica, pois a sistematização das variáveis ambientais tornam possíveis novas
formas de percepção e sensibilização. Essa atitude acrescentaria inovações ou
optimização no uso dos espaços, nas formas de mediação e interação das relações
sociais.
Gallahue (2001) reconhece a importância das condições do ambiente físico e
das percepções das atividades, papéis e relações interpessoais que um indivíduo
tem dentro de um ambiente comportamental, para o desenvolvimento sensório-
perceptivo-motor. Esse autor inter-relaciona seu modelo desenvolvimentista, com os
de outros autores, Kephart, Piaget e Bronfenbrenner. Gallahue também assevera
que: “A magnitude dessa relação e as condições necessárias para o melhor
funcionamento de cada área, porém, estão à espera de pesquisas científicas
minuciosas e mais bem controladas” (Gallahue, 2001, p. 381).
Diante desse quadro, identifica-se a necessidade de maiores investigações a
esse respeito.
O objetivo geral deste estudo limita-se a sistematizar o conhecimento
existente sobre o papel que o ambiente representa no desenvolvimento sensório-
perceptivo-motor das pessoas com deficiência mental.
Os objetivos específicos são:
- Classificar os tipos e variáveis que interferem nos ambientes e
investigar os subsistemas gerados por eles;
- Identificar as relações possíveis entre o homem e o ambiente, as
condições e tempo de relacionamento;
- Categorizar as condições de estímulos ambientais;
- Verificar a existência de um padrão de qualidade ambiental
(ambiência);
- Estudar as metodologias empregadas e os efeitos das intervenções
propostas pela ARIL- Associação de Reabilitação Infantil Limeirense,
15
segundo os itens: atmosfera ambiental, arranjo espacial e arranjo
social.
Para obter esses dados, o design da pesquisa contemplou as seguintes
perguntas:
1) Qual o papel que o ambiente representa no desenvolvimento sensório-
perceptivo- motor das pessoas com deficiência mental?
2) O que é preciso fazer para responder esta pergunta?
3) O que é necessário saber sobre: ambiente, estímulos ambientais,
desenvolvimento sensório, perceptivo e motor, sensibilidade, percepção, motricidade,
pessoas com necessidades especiais, legislação, educação especial, pessoas com
deficiência mental, aprendizagem, comportamento adaptativo, neuroplasticidade,
psicologia ambiental, ecologia humana e pesquisa experimental?
4) Dentro das três palavras-chaves: ambiente, desenvolvimento sensório-
perceptivo-motor, pessoas com deficiência mental, quais são as variáveis
interferentes em cada uma?
5) Como podem ser classificadas essas variáveis?
6) Como sistematizar a literatura e integrá-la?
7) De que forma pode-se analisar o material existente quanto as associações
positivas e negativas?
8) Quais o os problemas, ameaças, oportunidades, riscos e contra-
indicações?
9) Quais serão as discussões trazidas à tona, quais as soluções e
recomendações que poderão ser encontradas?
16
II. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
CAPÍTULO 1: O AMBIENTE
1.2. Revisão Histórica e Conceitual:
Para uma melhor compreensão deste estudo, utilizou-se o conceito de
ambiente da psicologia ambiental, que se referenda pela integração das dimensões
espaciais com as estruturas sociais. Tomando por base, o comportamento humano
moldado profundamente pelo ambiente, a psicologia ambiental e a ecologia humana
tornaram-se conhecimentos cada vez mais necessários para a compreensão das
causas do agir humano, bem como para o entendimento dos efeitos dessa contínua
influência no ambiente.
Para Heimstra e McFarling (1978, p. 02) a psicologia ambiental é uma
“disciplina que trata das relações entre o comportamento humano e o ambiente físico
do homem”.
Segundo esses autores, o estudo das conseqüências ambientais para o
homem, aumentará a capacidade de predizer e controlar as alterações ambientais e
suas conseqüências.
Lee (1976, p. 42) sugere que o ambiente é formado por esquemas sócio-
espaciais. Enfatiza a relação do ambiente com a “representação interior de objetos
físicos e sociais numa forma integrada”, ou ainda com estruturas sociais isomórficas,
de formas semelhantes às estruturas espaciais. O autor aponta a privacidade, o
espaço pessoal e o comportamento territorial como variáveis ambientais relevantes
para os seres humanos. Lee entende como privacidade, a condição de acesso ótimo
por outros ao eu (grupo); espaço pessoal como áreas espaciais em torno do corpo,
com fronteiras mentais e onde qualquer intrusão por outros é indesejável e
comportamento territorial sendo uma “estruturação do espaço estático (através do
qual se movimenta o espaço pessoal) a cujo respeito uma pessoa experimenta um
certo sentimento de posse” (Lee, 1976, p. 47).
17
O mesmo autor salienta a importância da percepção das zonas espaciais
usadas em interação social (íntima – de 0 a 0,50 m, pessoal – de 0,50 – 1,0 m, social
- de 1,5 a 3,5 m e pública de 3,5 a 7 m) e a possibilidade de esquemas espaciais
centrados no ego e outros centrados nos domus (domicílios).
Lee (1976) defende outras idéias tais como a de que um certo grau de espaço
é requisito para toda atividade humana; a necessidade de ter que compartilhar algum
espaço como pressuposto para a geração de completos sistemas sociais que
permitam essa repartição e, finalmente, a hipótese, ainda sem resolução, sobre o
comportamento territorial e a agressividade. A compreensão do “ambiente”, para
esse autor é permeada pela dualidade entre o comportamento “instintivo”, portanto,
inerradicável, em confronto com o comportamento “aprendido”, aquele que pode ser
mudado.
1.2. Variáveis que interferem nos ambientes e categorias de relacionamento
homem e ambiente:
Reichardt (1975) especifica como variáveis que interferem nos ambientes:
1) Variáveis físicas: clima, ar, água, detritos, ruídos, condições
habitacionais, ambientes espaciais, térmicos, visuais e acústicos;
2) Variáveis biológicas o humanas: interações com animais,
vegetação;
3) Variáveis biológicas e demográficas humanas: número de
habitantes, taxas de natalidade e mortalidade, mobilidade, situação
sanitária, dados epistemológicos;
4) Variáveis sociais: estratificação sócio-econômica, condições de
intimidade, segurança, instituições e serviços;
5) Variáveis econômicas: valor em capital das habitações, entre
outros;
6) Variáveis estruturais e combinadas: importância da forma e da
estrutura do ambiente.
7) Reações fisiológicas e psicológicas à densidade e da necessidade
de espaço, já conhecidas das pessoas.
18
Enfim, de uma maneira multidisciplinar, autores provenientes da arquitetura,
psicologia, ecologia, administração, como Neufert (1981), Kotler (1979), Carvalho
(1985), Pinto-Coelho (2000), chegam a um consenso quanto as variáveis físicas.
Em síntese, esses autores elencam como as mais relevantes: a localização
geográfica do ambiente pesquisado; as condições físicas de conforto luminoso,
acústico, térmico, visual, espacial, de circulação de ar; sua acessibilidade; trajetos;
entornos e condições relacionais por elas provocadas.
Como a questão das condições físicas de conforto pode parecer um tanto
quanto subjetiva, Neufert (1981) e Carvalho (1985) estabeleceram algumas
recomendações quantitativas desse conforto em interiores de vários locais.
Destacam-se os seguintes índices para as escolas:
- Luminosidade: 120 luxes;
- Acústica: 42 dB (citados em Carvalho, 1985, p. 113) ;
- Térmico: “o preferendo térmico do homem encontra-se entre os 1e
os 32ºC“ (Carvalho, 1985, p. 121);
- Espaço necessário na superfície de construção: 20 a 25 m², e como
superfície de aula acima de 1,5 a 2 m² a 6 m², segundo Neufert (1981,
p. 213);
- Ventilação: “Com a cubicação normal das aulas, 6 m³ por aluno, o ar
deve ser renovado de 3 a 5 vezes por hora” (Neufert, 1981, p. 213).
Overton e Reese (1977) determinaram três categorias de relação homem e
ambiente: submissão do homem ao ambiente, no qual o ambiente é o agente de
mudança e o comportamento humano é o objeto da adaptação; o ambiente como
construção humana, forma bastante comum de idéias, bastante pretenciosa, por
constituir a natureza humana como fator condicionante da existência ou não de um
ambiente eo sistema interdependente ambiente-homem, que considera que ambos
os sistemas, se interam reciprocamente, exercendo influências formativas
simultâneas.Não poderia deixar, ainda, de ser evidenciada a perspectiva sociológica
complementando a discussão das categorias de relação homem e ambiente.
Parsons (citado em Kates, 1975) ressalta a importância da cultura, por
considerá-la um conjunto de sistemas simbólicos pelos quais os indivíduos e grupos
19
se orientam em relação ao meio, ou em relação aos seus semelhantes, em termos
de comunicação, conteúdos constitutivos e expressivos, manifestações de atitudes,
concepções morais e axiológicas.
Acompanha esse pensamento Bourdieu (citado em Calhoun, 1993), que
sugere formulações acerca da organização diferenciada do espaço social e do
ambiente, por dois princípios entrecruzados o capital econômico e o capital cultural
em sociedades avançadas. Originados das relações entre classes dominantes e as
dominadas (definidas pelo volume de seu capital), e por aquelas entre frações rivais
da classe dominante (opostas pela composição de seu capital). Para esse autor, a
cultura é uma forma de capital, por garantir também, outras possibilidades de
interações com o ambiente.
Para o mesmo autor, a ação das estruturas sociais sobre o comportamento
individual se de dentro para fora e não o inverso. A partir de sua formação inicial,
em um ambiente social e familiar, que corresponde a uma posição específica na
estrutura social, os indivíduos incorporariam um conjunto de disposições para a ação.
Esse conjunto, o autor chama de habitus familiar ou de classe, que passaria a
conduzi-los ao longo do tempo e nos mais variados ambientes de ação.
A tendência em agir de acordo com um conjunto de disposições típica da
posição estrutural na qual foram socializados, reitera os habitus, da mesma forma
que os perpetua, como é o caso das dinâmicas atuais de coexistência social urbana:
fechadas, restritas, individuais, desumanizantes e não corpóreas. Por outro lado, o
capital cultural, adquirido através da experiência, do aprendizado e do
desenvolvimento, pode influenciar o “habitus”, até mesmo modificando-o.
Bronfenbrenner (1996), enfatiza a relação entre o ambiente e o
desenvolvimento humano, concebendo a pessoa como um todo funcional. O autor
argumenta que os diversos processos psicológico, cognitivo, afetivo, emocional,
motivacional e social relacionam-se de forma coordenada uns com os outros;
existindo conexões sociais entre os vários ambientes e possibilidades de
desenvolvimento a partir dessas interações.
20
Bronfenbrenner entende que o desenvolvimento abrange uma larga escala de
contextos ambientais, dentre eles:
“o Microssistema (a família, a escola, o bairro e o grupo de amigos);
o Mesossistema (interação entre vários ambientes dentro dos
microssistemas);
o Sistema externo (ambientes sociais nos quais o indivíduo não
desempenha papel ativo, mas é afetado por suas decisões);
o Macrossistema ( a cultura na qual um indivíduo existe)
e o Cronossistema (os eventos histórico-sociais da vida de um indivíduo)”
(Galahue, 2001, p. 42)
21
Figura 1 – Teoria ecológica de Bronfenbrenner (Gallahue, 2001, p.43).
Na perspectiva de Gallahue (2001) aponta que a base da premissa ecológica
de Bronfenbrenner é a interpretação do ambiente pelo indivíduo, o que orienta seu
comportamento.
O conjunto de interações, possibilitadas por esses sistemas não lineares,
descontínuos e dinâmicos, é o que Guattari (1997) preconizou como as Três
Ecologias. Contrariando a facilidade de uma visão estanque e pontual, o autor
evidencia a necessidade, do “pensar” transversal das interações entre os
ecossistemas, a mecanosfera e os universos individuais/sociais.
22
1.3. Subsistemas, períodos de relacionamento, formas de enfrentamento, tipos
de ambientes:
Heimstra e McFarling (1978) dividem os ambientes em: construído pelo
homem (ou modificado) e natural (ou geográfico). Os autores não os consideram
mutuamente exclusivos, mas sim, como parte de uma continuidade, numa série de
dimensões. Para eles, as relações entre comportamento e ambiente são como ruas
de mão dupla, pois tanto o ambiente físico influencia o comportamento humano,
quanto o homem modifica o ambiente físico.
O ambiente construído ou modificado pelo homem é aquele onde o espaço é
ocupado com diversos tipos de edificações e moradias. O ambiente natural sugerido
por esses autores, trata o somente das áreas geográficas, áreas naturais e
parques, mas das pequenas ou grandes áreas de recreação, que são ambientes
naturais simulados, construídos para propiciar às pessoas algum contato com
árvores, espaço aberto e água corrente.
Como o ambiente pode ser composto por vários subsistemas, é difícil isolá-los
e determinar suas relações. Esse fato, constitui o maior problema da psicologia
ambiental.
Wohlwill (citado em Heimstra e McFarling, 1978, p. 06) distingue três formas
de comportamento frente às condições de vida urbana e rural. São elas: as
diferenças determinantes de comportamento entre o homem do campo e o da
cidade; as qualidades associadas a um ambiente particular como efeito no
comportamento e a personalidade do indivíduo. São comportamentos típicos de
cidade grande, a hostilidade de um motorista de ônibus urbano frente a um trãnsito
caórico, ou a apatia dos trauseuntes em face à violência e as dificuldades das
relações afetivas e atitudinais; quer sejam de aproximação, esquiva e adaptação
entre as pessoas.
Os períodos de relacionamento com qualquer ambiente podem ser
classificados como temporários ou permanentes. Porém, a busca no relacionamento
temporário com o ambiente natural não é claramente entendida, e pode ser muito
complexa. o bastam razões como querer fugir da cidade, buscar paz e
tranqüilidade. O “fugir de tudo” precisa ser sistematicamente estudado, pois como
23
Driver (citado em Heimstra, 1978) sugere como “estresse ambiental”, típico de áreas
urbanas, pode criar não as necessidades apontadas acima, mas também a busca
de novos meios de enfrentamento, por opção ou por imposição, o que merece
maiores estudos.
Reichard (1975) sugere o termo “ambiência”, referindo-se a qualidade do
ambiente quanto à percepção; adaptação (que ocorre por processos socioculturais);
reversão (alteração da ambiência ou mobilidade em direção ao outro ambiente) e
preferências relativas a tempo (ações de curto, médio e longo prazo).
Apesar de envolver julgamentos e outras avaliações qualitativas, autores
como Kates (1975) definem “ambiência” como a forma que o homem percebe o seu
meio ambiente e as atitudes adotadas para com ele. O autor salienta que há
diferença entre os homens que vivem em um mundo natural, os que vivem em um
mundo artificial, os que o horizonte não apresenta qualquer obstáculo ou entre os
quais o horizonte natural é limitado, podendo-se “observar nas cidades onde a
população comprime-se dentro de limites, a intriga política” (Kates, 1975, p. 174). É
interessante destacar que esse autor, apoiando-se nas pesquisas de Lowenthal e
Prince, narra o cuidado “quase turístico” que os ingleses têm com sua paisagem:
“A paisagem feita pelos ingleses é (segundo Lowenthal e Prince), ao mesmo
tempo, variável com o terreno e a atmosfera, extremamente aberta e mutável,
enquanto inpregnada de regularidade. Nela, o homem multiplicou os artefatos
das sebes
1
e murinhos que separam os campos; os conjuntos imobiliários, as
pequenas residências dos arrabaldes e as vilas geminadas, as estações
balneárias, as regiões industriais e mineiras, as propriedades e os parques,
constituindo isso, em conjunto,“um mundo de beleza ordenada”. ( Kates,
1975, p. 173)
Machado (1984), amplia o leque de possibilidades, ao discutir os efeitos no
homem das modificações físicas, psicológicas e sociais de ambientes construídos.
Cita as diferenças entre os homens da montanha, do vale, da planície e do litoral, em
1
Cerca de arbustos.
24
termos de adaptação ao ambiente físico, habitação, alimentação, ritmo adaptado de
vida, psicologia, relacionamentos e organização social.
Focado no ambiente infantil, Lee (1977) evidencia a limitação das
representações internas do espaço físico-geográfico das crianças pequenas, por
distinguirem apenas: o “esquema” do lar, seu raio de ação (composto pelo entorno da
residência); o ambiente escolar onde passam grande parte de seu tempo e o trajeto.
Gallahue (2001), lamenta a complexidade da sociedade moderna, por reduzir
ainda mais esse ambiente infantil ao individualismo, ao sedentarismo e a
passividade. Para ele: “Muitas crianças crescem em cidades grandes, moram em
edifícios de apartamento, estudam em creches lotadas e em ambientes escolares
que não encorajam ou promovem o aprendizado por meio do movimento” (Gallahue,
2001, p. 366).
Gallahue, Lee e Bourdieu, apesar das abordagens diferenciadas, acrescentam
a questão da cultura, a discussão do ambiente.
Lee (1977) ao introduzir o capítulo sobre influências sócio/espaciais da
aprendizagem enfatiza que:
(...) o planejamento de edifícios pode exercer a sua mais potente
influência sobre o comportamento de um modo indireto, isto é
facilitando ou promovendo formas particulares de organização social.
Em lugar algum isso é mais evidente que nos edifícios educacionais” .
(Lee, 1977, p. 91)
Rodrigues (1998) citando Keogh, relembra a relação espaço/movimento. O
primeiro resultado dessa interação é direta: a criança aprende a mover-se num
espaço próprio seu espaço corporal. A segunda relação reflete um resultado
indireto, pois a criança move-se para aprender, interagindo com o espaço exterior, o
ambiente. Para Rodrigues:
(...) Nesta relação, a motricidade se apresenta como algo forte e
objetiva, não como simples intermediária, mas sim como a própria
25
essência da relação do eu com o meio e com o envolvimento.” (
Rodrigues, 1998, p.13)
Gallahue (2001), corrobora com o pensamento anterior ao relacionar o
ambiente, ao desenvolvimento/ontogenia. O autor afirma que:
Embora possa haver a tendência biológica para o desenvolvimento
de certas habilidades por causa dos processos filogenéticos, é
simplista concluir que somente a maturação será responsável pelo
desenvolvimento motor. A extensão ou o vel até o qual qualquer
habilidade motora voluntária é dominada depende, em parte, da
ontogenia ou do ambiente” (Gallahue, 2001, p. 67)
De qualquer forma, desde que haja integração das dimensões espaciais com
as estruturas sociais e relacionamentos entre elas, todos os tipos de ambientes são,
também, ambientes de aprendizagem, em maior ou menor grau, dependendo das
condições de estímulos.
1.4. Condições de estímulo:
Estímulos, na Neuroanatomia, são todas as modificações em um receptor
nervoso provocadas por agentes internos ou externos (pressão, calor, luz ou
mensagens químicas) ao organismo. A corrente elétrica gerada a partir deles, ou
ainda, os sinais elétricos se propagando pelo axônio, são os impulsos nervosos
(Machado, 2000).
Na Psicologia, todo comportamento que excita ou ativa é considerado
estímulo. É consenso entre os autores (Hauessler e Rodriguez, 1979), que
ambientes privados de estímulos afetivos e sensório-motores causam graves efeitos
negativos no desenvolvimento global das crianças.
Na Pedagogia, muitos estudos têm sido feitos ao longo dos anos sobre os
efeitos relativos do estímulo, da privação e da experiência sobre o aprendizado.
Segundo Galahue (2001), tem-se debatido a dicotomia “natureza versus
educação”, apresentando atualmente uma tendência de respeitar a importância
26
individual de cada uma delas, bem como de reconhecer as influências
complexamente entrelaçadas da maturação e da experiência.
Tendo como pressuposto a Etologia, ciência que estuda o hábito dos animais
e da sua acomodação às condições do ambiente, os trabalhos do anatomista italiano
Michele Gaetano Malacarne no século XVIII, representam as primeiras experiências
de estimulação ambiental, utilizando animais de laboratório.
No final da década de quarenta, Hebb (citado em Gonçalves, 1997), avaliou o
papel do ambiente em direcionar o comportamento. Expondo um grupo de animais
de laboratório em ambientes de elevado nível de estimulação e outro em semi-
isolamento, desenvolveu a teoria da eficácia em melhorar o desempenho em tarefas
e aprendizagem, através da inserção destes animais em ambientes enriquecidos.
Gonçalves (1997), em revisão bibliográfica salienta que muitas outras
pesquisas surgiram após Hebb, como as de Forgays e Forgays em 1952, Denenberg
em 1968, Barnes em 1972, Weinberg em 1978 e Lima em 1988. Através desses
estudos, Gonçalves comprovou a hipótese de que o ambiente enriquecido era eficaz
em melhorar o desempenho de animais de laboratório (ratos, gatos, cachorros, etc)
como, também, em outros testes comportamentais como atividade locomotora,
esquiva inibitória e exploração.
Sagan (1977), utilizando a nomenclatura “ambiente enriquecido”, cita as
experiências sobre as transformações cerebrais durante o aprendizado, do psicólogo
americano Mark Rosenzweig e seus colaboradores, divulgadas em 1972. Para tanto
foram criadas:
(...) duas populações diferentes de ratos de laboratório uma em
ambiente enfadonho, repetitivo, empobrecido; a outra em ambiente
variado, estimulante e enriquecido. O último grupo mostrou um
acentuado aumento na massa e na espessura do córtex cerebral,
assim como alterações concomitantes na química cerebral. Esses
aumentos ocorreram tanto nos animais maduros quanto nos jovens.
(Sagan,1977, p.45)
Para Sagan, os resultados demonstraram que alterações fisiológicas
acompanham a experiência intelectual e mostram como a plasticidade pode ser
anatomicamente controlada, demonstrando a importância do ambiente enriquecido.
27
Renner (1987), estudando ambientes enriquecidos e empobrecidos, em ratos,
macacos e cachorros, organizou evidências sobre a responsividade tanto neural
quanto dos sistemas comportamentais, nas manipulações externas de caráter geral
do ambiente. Considerando a complexidade dos termos “enriquecido” (enriched
environment) e “improvisado/empobrecido (improverished environment), o autor
alertou para sua relatividade semântica. Descrevendo seus experimentos, define seu
ambiente empobrecido como uma pequena gaiola com dois sujeitos por trinta dias
com um bebedouro e um único ferro fixado em cada um dos lados. o ambiente
enriquecido tratava-se de um espaço de 72 metros quadrados, com
multicompartimentos, túneis, pontes, objetos freqüentemente jogados, exposto a
variações climáticas. O autor comenta ainda que as condições empregadas em seu
laboratório foram bastante moderadas, mas que poderiam variar grandemente
passando dos níveis “condições extremas de privação sensória” à “condições
altamente perigosas”.
Acompanhando a linha de Renner, os pesquisadores Carmo & Silva (1997)
adotaram também os termos “ambiente enriquecido e empobrecido”. Esses autores
citaram inúmeros trabalhos, que mostravam “os efeitos do ambiente enriquecido ou
empobrecido sobre a bioquímica e estrutura do Sistema Nervoso Central, como
também sobre o comportamento dos animais" (Carmo & Silva, 1997, p. 98-99).
Dentre as alterações comportamentais houve o aparecimento precoce de
sexualidade, aumento de peso corporal, menor nível de emotividade, maior rapidez
para reagir a estímulos aversivos, estresse crônico, inclusive originados a partir das
interações sociais. Esses autores subdividiram o termo “Ambiente Diferenciado”,
distinguindo-os por suas condições: “padrão” (mais de um animal confinado com
alimento), “empobrecido” (animal isolado individualmente com alimento),
“enriquecido” (vários animais agrupados em gaiolas onde são colocados objetos,
“brinquedinhos”, trocados diariamente), ou ainda formado por grandes áreas
chamadas de “campo aberto”, com vários animais, e “brinquedos” de troca diária,
próximos as condições ambientais da natureza.
28
Entretanto essas descobertas representam pesquisas com animais, não
necessariamente os resultados seriam os mesmos se as investigações fossem
realizadas com pessoas.
Simultaneamente, em 1978, a Unesco (Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e Cultura) alertava para a importância da estimulación
temprana (estimulação tardia) e a importância do ambiente no desenvolvimento das
crianças de risco, principalmente o ambiental. Haeussler e Rodriguez (1978),
pesquisadoras vinculadas à Unesco, fizeram uma compilação dos diversos
programas em curso para crianças latinas.
No Brasil, Carmo e Silva (1997) realizaram um paralelo entre esses efeitos e
a estimulação ambiental em humanos desde de 1973, apontando através de revisão
bibliográfica, importantes descobertas sobre o assunto. Entre elas: os efeitos
positivos de desenvolvimento mental, que têm sido observados, não apenas em
crianças prematuras, mas também com crianças com algum tipo de deficiência e com
crianças institucionalizadas; reconhecimento da importância da interação mãe -
criança; recuperação substancial de processos de linguagem pós lesões corticais; a
necessidade de apenas duas horas diárias de estimulação para obtenção desses
efeitos; aumento da capacidade adaptativa geral, e a condição mais relevante, para
que os benefícios ocorram, a necessidade do envolvimento ativo do indivíduo com o
ambiente. Como exemplos de estimulação ambiental foram citadas: a estimulação
psicomotora através de massagens, manobras, relaxamentos, exercícios que
permitem treinamento motor adequado a faixa etária, exercícios com bola, como
método preventivo das manifestações clínicas de crianças de risco; o todo Petö,
que através da educação condutiva estabelece a ortofunção em adultos e crianças
que apresentem desordens motoras, utilizando-se do estímulo à exploração do meio
ambiente de forma conduzida, no alcance de um objetivo traçado, cada vez mais
perto do nível esperado; e outros como associação do método Bobaath à
estimulação pela música e musicoterapia na medicina interna em pacientes com
alterações psiquiátricas (os dois últimos em fase experimental).
Gallahue (2001) amplia a noção de ambientes diferenciados e a questão dos
materiais e equipamentos, utilizando os termos “recursos” e “limitadores de nível”. Os
29
recursos tendem a promover ou a encorajar a alteração desenvolvimentista. São
eles: o apoio assistido, a solidariedade, o encorajamento e a instrução orientada. E
os limitadores de nível, são todos os obstáculos que servem para impedir ou retardar
o desenvolvimento.
Acompanhando outra tendência de classificação de estímulos ambientais,
Morato (1993) propõem dentro dos ambientes de aprendizagem: o ambiente
convencional, meio no qual é solicitado ao aluno uma passagem rápida da fase de
relação por experimentação e concretização para outra fase essencialmente
perceptiva visual, reduzida às duas dimensões da folha de seu caderno e o ambiente
experimental, meio que propõem sistemáticas situações de aprendizagem ativa e
concreta a partir do próprio corpo do aluno e da sua relação com os objetos no
espaço, utilizando a manipulação e a locomoção. Em sua pesquisa em crianças com
trissomia 21, verificou que os ganhos se revelaram superiores no grupo de crianças
sujeitas ao ambiente experimental e que os efeitos do programa em ambiente
convencional não foram significativamente diferentes das medidas pré-programa.
Morato concluiu que um programa que se utilize de ambientes experimentais é mais
adequado pela sua natureza ativa, interativa e auto-estruturante, do que um
programa em ambiente convencional.
Simultaneamente, as pesquisas etológicas com animais, “Barker e Wright em
1954, introduziram a perspectiva ecológica no vocabulário das pesquisas de
desenvolvimento humano” (Bronfenbrenner 1977, p. 275).
Compactuando com esse tipo de abordagem, Cratty (apud Gorla, 2001, p.12),
cita que “uma criança precisa contar com um ambiente que a prepare e a estimule
para usar todas as suas capacidades e quanto mais ricas forem as situações vividas,
melhor se dará o desenvolvimento do esquema corporal”.
Dessas discussões, surge a psicologia ambiental, que vem trazendo
conhecimento da adaptabilidade de nossa espécie na grande diversidade de
condições ecológicas de tempo e espaço a que somos submetidos (Bronfenbrenner,
1977).
Uma questão polêmica é até que ponto a estabilidade ambiental é benéfica
para o desenvolvimento. Defendendo a estabilidade do meio como um fator favorável
30
ao relacionamento da pessoa com o mundo, Destrooper & Vayer (1986),
preocupados com a dinâmica da ação educativa para crianças inadaptadas,
salientam sua importância tanto em relação a presença de um adulto, como a sua
intervenção. Acreditam os autores que essa relação presença/intervenção do adulto
colabora na autonomia de conduta e autodiretividade da criança; como também no
plano material, pois a interação adulto/criança nos espaços de ação e na
manipulação dos objetos que ocupam esses espaços resultam na constituição do
universo infantil.
Diferentemente dos autores acima, Correa (1997, p.133) afirma que: ”a
aprendizagem realizada sob condições de alta interferência contextual promove
melhor retenção e transferência do conteúdo aprendido do que a aprendizagem feita
sob baixa interferência contextual”. Alta interferência está relacionada às práticas
variadas, que envolvem variações de uma única classe de movimentos provocando
adaptação e as práticas randômicas, seqüências práticas na qual os indivíduos
realizam uma multiplicidade de tarefas diferentes, inclusive classes de movimento,
sem ordem específica, assim evitando, ou minimizando, repetições consecutivas de
qualquer tarefa única. E a baixa interferência relaciona-se a prática constante,
repetição de uma única classe de movimento, ou em blocos, quando os indivíduos
treinam repetidamente a mesma tarefa.
Esses apontamentos podem ser corroborados nos estudos de Poulton (1957),
Gentile (citados em Magill, 1984); Magill e Hall (citados em Correa, 1997).
Schmith & Wrisberg (2001) também se posicionam quanto à previsibilidade
ambiental. Enfocando habilidades e ambientes, esses autores, denominam como
habilidade fechada ou tarefa autocompassada, aquela que é executada em ambiente
previsível ou parado e que permite que as pessoas planejem seus movimentos com
antecedência. O estímulo em cada uma destas situações, aguarda a iniciativa do
executante. Uma habilidade aberta ou tarefa externamente compassada ou forçada,
por outro lado, é aquela que executada em ambiente que está em movimento,
imprevisível ou variável durante a ação. Requer a adaptação dos movimentos das
pessoas em resposta às propriedades dinâmicas do ambiente. O executante deve
agir sobre a ação do estímulo.
31
Acrescenta-se a essa discussão, Parlebas (citado em Serrano, 2000)
enfocando o meio como: doméstico e selvagem. O autor define o meio selvagem
como um ambiente instável, no qual existe a necessidade de interação com os
elementos caóticos e com movimentos motores abertos em resposta às propriedades
dinâmicas do ambiente. O meio doméstico é um contraponto ao selvagem,
composto por ambiente estável, com elementos previsíveis e rotineiros, que
requerem uma certa automação de movimentos e uso de habilidades motoras
fechadas. Ao relacionar o meio com o soma e o psique, esse autor, amplia a
discussão para o campo da sociologia, criando os termos Sociomotricidade (apud
Garcia, 1999) e Praxiologia Motriz, ao tratar de atividades relacionais.
E finalmente, colaborando com as reflexões sobre o tamanho que ocupa o
ambiente e a estimulação por ele provocada, os autores Connoly e Smith (apud
Lee, 1976, p.98) e Tavares (2003). Eles salientam que os espaços vastos, promovem
maior quantidade de atividade motora, como correr, saltar, cabriolar, ao mesmo
tempo que, observam que nos espaços confinados, de dimensões limitantes tanto
em seu aspecto arquitetônico como organizacional, provocam uma grande influência
na: “forma como nos sentimos, a forma como as pessoas se sentem e fazem
contato” (Tavares, 2003, p. 91).
Além dessas discussões, outra grande dificuldade enfrentada pelos
pesquisadores do ambiente, que é representada pela ausência de uma
sistematização dos termos utilizados para classificação.
A seguir, partindo da literatura estudada, foi esquematizado um quadro
sintético com evidências para sistematização do estudo ambiental :
32
Quadro 1 - Sistematização dos termos usados no estudo ambiental:
VARIÁVEIS
EXTERNAS QUE
INTERFEREM NO
AMBIENTE
-Físicas: localização geográfica, relevo, clima, ar, água, formas de poluição variadas (sonoras,
visuais, etc.), detritos, ruídos, condições habitacionais, ambientes espaciais, condições de
conforto (térmico, visual, acústico, ventilação, pressão, luminosidade);
-Biológicas não humanas: interações com animais, vegetação;
-Biológicas e demográficas humanas: mero de habitantes, taxas de natalidade e
mortalidade, acesso, fluxo de pessoas e veículos, mobilidade, situação sanitária (esgoto,
despejo, refugo, lixo), dados epistemológicos;
-Sociais: estratificação sócio-econômica, habitus social e familiar; condições de intimidade,
privacidade, espaço pessoal, comportamento territorial, segurança, instituições e serviços;
-Econômicas: valor em capital das habitações, entre outros;
-Estruturais e combinadas: importância da forma e da estrutura do ambiente: sinalização
interna e externa; condições de conforto térmico, acústico, visual, barreiras arquitetônicas,
materiais usados na construção, dimensionamento, disponibilidade da área; condições técnicas;
entorno;
-Reações fisiológicas e psicológicas, reação das pessoas à densidade, à necessidade de
espaço, zonas de ocupação espacial, estresse ambiental;
CATEGORIAS DE RELAÇÃO
HOMEM & AMBIENTE
- Submissão do homem ao ambiente;
- Ambiente como construção humana;
- Sistema interdependente.
SUBSISTEMAS AMBIENTAIS E SUAS
RELAÇÕES COM:
Arquitetura: Construído ou modificado, natural ou geográfico;
Habilidades motoras: Doméstico ou selvagem;
Condições de vida: Urbano ou rural.
PERÍODO DA RELAÇÃO COM O AMBIENTE Temporário ou permanente.
FORMAS DE ENFRENTAMENTO DO AMBIENTE Optativo ou impositivo.
TIPOS
Lar, entorno, escola, local de trabalho, local de lazer, trajetos, outros.
AMBIÊNCIA
Qualidade do ambiente:
Percepção; adaptação; reversão; preferências relativas ao tempo.
CONDIÇÕES
DE ESTÍMULO
Estável ou instável;
Convencional ou experimental;
Confinado ou vasto;
Arranjo espacial aberto ou semi-aberto X fechado;
Empobrecido, padrão, enriquecido, diversificado ou campo aberto;
Integrado ou compartimentalizado.
Fontes: Heimstra e McFarling (1930); Lee (1976); Reichard (1975); Neufert (1900) e Carvalho