novo tirar fogo: uma faiscazinha chamuscou o isqueiro e Manuel Alves soprou-a delicadamente,
alentando-a com a principio, ela animou-se, quis alastrar-se, mas de repente sumiu-se. O arrieiro
apalpou o isqueiro, virou-o nas mãos e achou-o úmido; tinha-o deixado no chão, exposto ao
sereno, na hora em que fazia a fogueira no pátio e percorria as dependências deste.
Meteu a binga no bolso e disse:
- Espera, diaba, que tu hás de secar com o calor do corpo.
Nesse entremente a zoada do sino fez-se ouvir de novo, dolorosa e longínqua. Então o cuiabano
pôs-se de gatinhas, atravessou a faca entre os dentes e marchou como um felino, sutilmente,
vagarosamente, de olhos arregalados, querendo varar a treva. Súbito, um ruído estranho fê-lo
estacar, arrepiado e encolhido como um jaguar que prepara o bote.
No teto soaram uns passos apressados de tamancos pracatando e uma voz rouquenha pareceu
proferir uma imprecação. O arneiro assentou-se nos calcanhares, apertou o ferro nos dentes e
puxou da cinta a garrucha; bateu com o punho cerrado nos feixos da arma, chamando a pólvora
aos ouvidos e esperou. O ruído cessara; só a zoada do sino continuava, intermitentemente.
Nada aparecendo, Manuel tocou para diante, sempre de gatinhas. Mas, desta vez, a garrucha,
aperrada na mão direita, batia no chão a intervalos rítmicos, como a úngula de um quadrúpede
manco. Ao passar junto ao quarto de teto esboroado, o cuiabano lobrigou o céu e orientou-se.
Seguiu, então, pelo corredor a fora, apalpando, cosendo-se com a parede. Novamente parou
ouvindo um farfalhar distante, um sibilo como o da refega no buritizal.
Pouco depois, um estrépito medonho abalou o casara-o escuro e a ventania - alcatéia de lbos
rafados - investiu uivando e passou à disparada, estrondando uma janela. Saindo por aí, voltaram
de novo os austros furentes, perseguindo-se, precipitando-se, zunindo, gargalhando
sarcasticamente, pelos salões vazios.
Ao mesmo tempo, o arrieiro sentiu no espaço um arfar de asas, um soído áspero de aço que ringe
e, na cabeça, nas costas, umas pancadinhas assustadas... Pelo espaço todo ressoou um psiu,
psiu, psiu... e um bando enorme de morcegos sinistros torvelinhou no meio da ventania.
Manuel foi impelido para a frente à corrimaça daqueles mensageiros do negrume e do
assombramento. De músculos crispados num começo de reação selvagem contra a alucinação que
o invadia, o arneiro alapardava-se, eriçando-se-lhe os cabelos. Depois, seguia de manso, com o
pescoço estendido e os olhos acesos, assim como um sabujo que negaceia.
E foi rompendo a escuridão à caça desse ente maldito que fazia o velho casarão falar ou gemer,
ameaçá-lo ou repeti-lo, num conluio demoníaco com o vento, os morcegos e a treva.
Começou a sentir que tinha caído num laço armado talvez pelo maligno. De vez cm quando,
parecia-lhe que uma coisa lhe arrepelava os cabelos e uns animálculos desconhecidos
perlustravam seu corpo em carreira vertiginosa. No mesmo tempo, um rir abafado, uns cochichos
de escárnio pareciam acompanhá-lo de um lado e de outro.
- Ah! vocês não me hão de levar assim-assim, não - exclamava o arrieiro para o invisível. - Pode
que eu seja onça presa na arataca. Mas eu mostro! Eu mostro!
E batia com força a coronha da garrucha no solo ecoante.
Súbito, uma luz indecisa, coada por alguma janela próxima, fê-lo vislumbrar um vulto branco,
esguio, semelhante a uma grande serpente, coleando, sacudindo-se. O vento trazia vozes
estranhas das socavas da terra, misturando-se com os lamentos do sino, mais acentuados agora.
Manuel estacou, com as fontes latejando, a goela constrita e a respiração curta. A boca semi-
aberta deixou cair a faca: o fôlego, a modo de um sedenho, penetrou-lhe na garganta seca,
sarjando-a e o arneiro roncou como um barra-o acuado pela cachorrada. Correu a mão pelo
assoalho e agarrou a faca; meteu-a de novo entre os dentes, que rangeram no ferro; engatilhou a
garrucha e apontou para o monstro; uma pancada seca do cão no aço do ouvido mostrou-lhe que
sua arma fiel o traia. A escorva caíra pelo chão e a garrucha negou fogo. O arneiro arrojou contra o
monstro a arma traidora e gaguejou em meia risada de louco:
- Mandingueiros do inferno! Botaram mandinga na minha arma de fiança! Tiveram medo dos
dentes da minha garrucha! Mas vocês hão de conhecer homem, sombrações do demônio!
De um salto, arremeteu contra o inimigo; a faca, vibrada com ímpeto feroz, ringiu numa coisa e foi
enterrar a ponta na tábua do assoalho, onde o sertanejo, apanhado pelo meio do corpo num laço