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HUÉLINTON CASSIANO RIVA
DICIONÁRIO ONOMASIOLÓGICO
DE EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS USUAIS
NA LÍNGUA PORTUGUESA DO BRASIL
São José do Rio Preto
2009
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HUÉLINTON CASSIANO RIVA
DICIONÁRIO ONOMASIOLÓGICO
DE EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS USUAIS
NA LÍNGUA PORTUGUESA DO BRASIL
Tese apresentada ao Instituto de Biociências, Letras e Ciências
Exatas da Universidade Estadual Paulista, Câmpus de São José
do Rio Preto, para obtenção do título de Doutor em Estudos
Lingüísticos (Área de Concentração: Análise Lingüística)
Orientador: Profª. Drª. Claudia Maria Xatara
São José do Rio Preto
2009
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COMISSÃO JULGADORA
Titulares
Profª. Drª. Claudia Maria Xatara - Orientador
Profª. Drª. Claudia Zavaglia
Profª. Drª. Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa
Profª. Drª. Maria Cristina Parreira da Silva
Prof. Dr. Oto Araújo Vale
Suplentes
Prof. Dr. Bento Carlos Dias da Silva
Profª. Drª. Diva Cardoso de Camargo
Prof. Dr. José Horta Nunes
À minha mãe Cleuza,
eterno amor.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus, pela luz e alento em todas as horas;
a Santa Rita de Cássia, pela saúde, Santo Antônio de Sant’anna Galvão, pela intercessão na
realização de um sonho, a São João Batista, pela oportunidade, a Nha Chica, pela
benevolência;
especial agradecimento a minha querida e, Cleuza Adir Maffei Riva, o raio de sol que me
alimenta, incentiva, protege, conforta, aquece, afaga e que jamais se extingüirá dentro de
minha alma;
a minha orientadora, Profª Drª Claudia Xatara, o farol que sempre guiou esta pequena
embarcação até o encontro de um porto seguro e por me fazer manter os pés no chão sem
nunca me impedir de sonhar e me expressar;
a minha família: meu pai Heládio (in memoriam), irmãos, Heládio Riva Júnior, Gicele
Fernanda Riva e Quemile Sara Riva, sobrinhos, Jhony, Kevin, Vinícius e Yuri, sobrinho-neto,
João Pedro: todos eles me dão a esperança que me revigora e incentiva a continuar na batalha;
a Profª Drª Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa por sua generosidade ao se disponibilizar
a debater o trabalho realizado até então no SeLin (2008) e pela colaboração com esta
pesquisa, na defesa;
a Profª Drª Claudia Zavaglia, pela contribuição com a pesquisa, no exame de qualificação e
defesa e por ser, acima de tudo, uma fonte de inspiração;
a Profª Drª Maria Cristina Parreira da Silva, pelo seu olhar atento sobre cada detalhe de minha
pesquisa, na participação no exame de qualificação e na defesa desta tese;
o Prof. Dr. Oto Araújo Vale, pela valorosa contribuição dada no aparo das arestas na defesa
deste trabalho;
a Profª. Drª. Diva Cardoso de Camargo, suplente para a defesa do trabalho, pelo irrestrito
apoio no exame de qualificação especial e incentivo no dia-a-dia acadêmico;
a queridíssima amiga Mariana Pizzolitto: no riso, no choro, na saúde, na angústia; por todas
nossas vidas, juntos, na superação;
os amigos que, direta ou indiretamente, colaboraram desde o mestrado até o doutorado, para a
conclusão desta pesquisa: Ana Amália Carnelossi (a professora que me alfabetizou), Ana
Maria Ribeiro, Ailton Silva, Beatriz Facincani Camacho, Carlos Alberto Pellarin, Deni
Kasama, Dogmar Lima Espúrio, Dr. Milton Maguollo Jr., Eder Aparecido Marquini, Elaine
Ayusso Appendino, Ivan Rogério Bizari, Jades Cleber Lima (in memoriam), Joamir Roberto
Barboza e Sandra Shilley Tozzo Barboza, João Carlos Campos, Juliano Lázaro Villa, Leandro
Melo da Silva, Léia Rodrigues de Souza, Lucas José d’Antônio, Profª Drª Lucimari Bizari,
Marcelo Ricardo Sbaes, Maria Cristina de Oliveira, Mario Henrique Benedito Gonçalves,
Neisi Massuia de Souza, Paula Falcão Pastori, Paulo e Lourdes Pizzolitto, Paulo Ricardo
Soriano, Pe. George Deptula, Pe. José Tozzo, Pe. Paulo Roberto Matias, Priscila Paula
Pellarin, Prof. Dr. René G. Strehler, Rosana de Cássia Delatore, Rosana Pereira, Tatiana
Helena Carvalho Rios, Thaís Alessandra Sachetti;
os professores Dr. Bento Carlos Dias da Silva (suplente) e Dr. José Horta Nunes (suplente),
Prof. Dr. João Moraes Pinto Junior (do Laboratório de Lexicografia da Unesp de Araraquara)
e demais professores do Programa de Pós-graduação em Estudos Lingüísticos da Unesp de
São José do Rio Preto (SP);
os sempre solícitos funcionários da Seção de Pós-graduação do IBILCE Unesp - de São
José do Rio Preto (SP) e também os funcionários da Biblioteca da mesma unidade;
a FAPESP, pelo constante apoio, desde a graduação até o doutoramento, para a realização de
minhas pesquisas.
Especial agradecimento ao Prof. rard Petit pela atenção e colaboração com o meu trabalho
no estágio desenvolvido no LDI (Lexiques, Dictionnaires, Informatique), na Université Paris
XIII, e também ao diretor do mesmo laboratório, Prof. Salah Mejri, pela generosa recepção
como estágiário no LDI.
A magia da linguagem é o mais perigoso dos encantos
Edward George Bulwer Lytton
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................12
CAPÍTULO I As expressões idiomáticas ..............................................................................15
1.1 Considerações acerca da Fraseologia .....................................................................15
1.2 A definição de expressão idiomática ......................................................................21
1.2.1 Conotação ................................................................................................23
1.2.2 Cristalização ............................................................................................26
1.2.3 Indecomponibilidade ...............................................................................32
1.3 Tipologia das expressões idiomáticas ....................................................................40
1.3.1 Natureza estrutural ...................................................................................41
1.3.2 Casos especiais ........................................................................................42
CAPÍTULO II – O dicionário fraseológico .............................................................................45
2.1 O dicionário fraseológico – um dicionário especial ...............................................46
2.2 O tratamento lexicográfico dos fraseologismos .....................................................47
CAPÍTULO III – Onomasiologia .............................................................................................59
3.1 As teorias dos triângulos e a onomasiologia ..........................................................59
3.2 A inter-relação entre a onomasiologia e a semasiologia ........................................63
3.3 A lexicografia onomasiológica ...............................................................................66
3.3.1 As EIs e a onomasiologia ........................................................................72
CAPÍTULO IV – Material e Métodos ......................................................................................76
4.1 A Web a serviço da Lingüística de Corpus ............................................................76
4.1.1 Tecnologia e Lexicografia .......................................................................78
4.1.2 O advento da Lingüística de Corpus .......................................................80
4.2 O uso de corpora em pesquisas lexicográficas .......................................................82
4.2.1 A importância da Web para a Lexicografia .............................................84
4.3 A Web e a freqüência dos idiomatismos ................................................................88
4.4 A Web e a contextualização de idiomatismos ........................................................93
4.5 Organização macro e microestrutural ..................................................................102
CAPÍTULO V Dicionário onomasiológico de expressões idiomáticas usuais na língua
portuguesa do Brasil ................................................................................................110
CAPÍTULO VI – Análise dos resultados ...............................................................................269
6.1 A organização onomasiológica e a compreensão das EIs ....................................271
6.2 EIs e identidade cultural .......................................................................................275
6.2.1 As EIs e identidade cultural brasileira ...................................................282
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................285
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................................288
ANEXO ....................................................................................................................................296
LISTA DE FIGURAS E GRÁFICOS
FIGURA 1 Cartazes do filme “Phone Booth” .........................................................................36
FIGURA 2 Capa da revista “Veja”, de 26/06/2003 .................................................................38
FIGURA 3 Triângulo de Ogden e Richards (1972, p. 32) .......................................................60
FIGURA 4 Triângulo de Ogden e Richards por Blikstein (1990, p. 24) .................................61
FIGURA 5 Triângulo de Ullmann (BLIKSTEIN, 1990, p. 28) ...............................................61
FIGURA 6 Trapézio de Heger (BLIKSTEIN, 1990, p. 31) ....................................................63
FIGURA 7 Esquema de Heger (BABINI, 2001, p. 34) ...........................................................65
FIGURA 8 Exemplo de busca no Laboratório de Lexicografia ..............................................95
FIGURA 9 Exemplo de busca por concordância no WebCorp ...............................................98
FIGURA 10 Exemplo dos dados apresentados pelo WebCorp ...............................................99
FIGURA 11 Exemplo I de busca por concordância na Web .................................................100
FIGURA 12 Exemplo II de busca por corncordância na Web ..............................................101
GRÁFICO 1 Conjunto total de expressões idiomáticas ........................................................279
GRÁFICO 2 Conjunto total de Conceitos ............................................................................280
LISTA DE ABREVIATURAS
Cf
Conferir
coloq.
Coloquial
cult.
Culto
DB
Dicionário Bilíngüe
DBLG
Dicionário Bilíngüe de Língua Geral
DF
DFB
Dicionário Fraseológico
Dicionário Fraseológico Bilíngüe
DLG
Dicionário de Língua Geral
DM
Dicionário Monolíngüe
DP
Dicionário Plurilíngüe
EI
Expressão Idiomática
euf.
Eufêmico
hip.
Hiperbólico
iron.
Irônico
LC
Lingüística de Corpus
LDI
Lexiques, Dictionnaires, Informatique
LE
Língua Estrangeira
LL
Laboratório de Lexicografia
orig.
Origem comprovada
orig. sup.
Origem suposta
pej.
Pejorativo
UF
Unidade Fraseológica
UL
Unidade Lexical
vulg.
Vulgar
RESUMO: Neste trabalho, de cunho essencialmente lexicográfico, privilegia-se a linguagem
do dia-a-dia para propor um modelo de dicionário de expressões idiomáticas do português do
Brasil, sob uma perspectiva onomasiológica. É extremamente importante indicar as relações
analógicas ou sinonímicas existentes entre os diferentes idiomatismos que se referem a um
mesmo conceito. Observa-se que, embora muitas expressões relacionadas a um mesmo
conceito sejam basicamente sinônimas, os idiomatismos possuem nuanças diferenciadoras
que regem seu uso.
PALAVRAS-CHAVE: Onomasiologia, Lexicologia, Fraseologia, Expressão Idiomática.
ABSTRACT: In this work, with an essentially lexicographic feature, focused on the current
language in order to present a model for a Brazilian Portuguese idiom dictionary from an
onomasiologic view. It is extremely important to display the analogous or synonymy relations
between the idioms which belong to the same fields. We were able to verify that, although
many idioms subsumed under the same concept are basically synonyms, their use is governed
by the nuances that distinguish them.
KEYWORDS: Onomasiology, Lexicology, Phraseology, Idioms
RÉSUMÉ: Dans cette recherche, essentiellement lexicographique, nous privilegions le
langage cotidien pour proposer un modèle de dictionnaire d’expressions idiomatiques de la
langue portugaise du Brésil, sous une perspective onomasiologique. Il est très important
d’indiquer les relations analogiques ou synonymiques existantes entre de différentes
expressions idiomatiques qui concernent un seul concept. Nous remarquons que malgré la
similarité conceptuelle entre plusieurs expressions, celles-ci ont des nuances différenciatrices
régies par l’usage.
MOTS-CLÉS: Onomasiologie, Lexicologie, Lexicographie, Phraséologie, Expressions
Idiomatiques
12
INTRODUÇÃO
Nesta pesquisa de doutorado, intitulada Dicionário onomasiológico de expressões
idiomáticas usuais na língua portuguesa do Brasil, iniciada em 2006 e financiada pela
FAPESP Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (processo 04/16010-
6), tivemos como objetivo elaborar uma obra lexicográfica especial dos idiomatismos mais
freqüentes em nosso país, em um percurso onomasiológico.
Na verdade, demos continuidade aos estudos realizados na graduação (bolsa de
Iniciação Científica do CNPq/PIBIC - de 1999 a 2000) e no mestrado com a dissertação
Proposta de dicionário onomasiológico de expressões idiomáticas (também financiada pela
FAPESP, processo 01/11549-6) e à colaboração que demos para a elaboração do PIP -
Dicionário de provérbios, idiomatismos e palavrões (XATARA e OLIVEIRA, 2002), do
Dictionnaire d’expressions idiomatiques (XATARA, 2007) e do Novo PIP - Dicionário de
provérbios, idiomatismos e palavrões em uso (XATARA e OLIVEIRA, 2008). Portanto, cabe
lembrar que nossa tese é um desdobramento dos estudos lexicológicos e/ou lexicográficos
realizados em conjunto com o Grupo de Lexicologia e Lexicografia Contrastiva do CNPq,
formado por professores e pesquisadores da área.
No presente trabalho, abordamos primeiramente a Fraseologia e os idiomatismos
como uma unidade fraseológica, no capítulo I. Os estudos fraseológicos, conforme
explicaremos no decorrer deste trabalho, oferecem-nos subsídios para entender os
idiomatismos como unidades lexicais pluriverbais, de uso comum e freqüente, sendo uma das
lexias complexas mais empregadas na linguagem cotidiana, como veremos adiante. Por isso,
nosso projeto lexicográfico observou a priori os critérios que norteiam a caracterização e
13
identificação das unidades tratadas, como a conotação, cristalização e indecomponibilidade, e
ainda sua tipologia para esclarecimento de sua constituição estrutural.
No capítulo II, destacamos as peculiaridades de um dos dicionários especiais da
língua geral, o dicionário fraseológico. Em seguida, no capítulo III, tratamos da
Onomasiologia, que orientou a perspectiva lexicográfica escolhida.
Após tratar desses princípios teóricos, reservamos o capítulo IV para questões
metodológicas. Esclarecemos que o ponto de partida para a nomenclatura do dicionário
proposto foi o Dictionnaire électronique d’expressions idiomatiques français-portugais-
français (XATARA, 2007) do qual fui colaborador, que traz um recorte das expressões
atestadamente usuais, tanto em português quanto em francês. A essa nomenclatura
acrescentamos algumas outras EIs também freqüentes e atestadas, como “espírito de porco”.
Nesse capítulo ainda discorremos sobre o limiar de freqüência das expressões idiomáticas, a
busca por concordâncias em corpus eletrônico e na Web, ambiente que constatamos ser o
mais adequado para a extração de ocorrências que exemplificaram os idiomatismos nos
verbetes elaborados.
No quinto capítulo, apresentamos o dicionário propriamente dito: um conjunto de
expressões idiomáticas dispostas onomasiologicamente, definidas e contextualizadas.
No capítulo VI, procedemos a análise dos dados obtidos, discutindo questões
acerca da relação entre identidade cultural e idiomatismos e os aspectos pragmáticos dos
mesmos, além de classificarmos se expressões idiomáticas levantadas possuem prosódia
semântica positiva, negativa ou neutra. Dentro desse contexto, percebemos que a estruturação
onomasiológica da língua geral é passível de ser realizada, apesar de não existirem universais
semânticos consensualmente aceitos, ou seja, em nossa análise dos resultados esclarecemos
que apesar de haver um predomínio de idiomatismos de matriz negativa, essa avaliação é
subjetiva e pode variar, dependendo do contexto em que cada idiomatismo se insere.
14
Em todo o percurso de pesquisa trabalhado até o momento, demos destaque às
expressões idiomáticas porque acreditamos que essas unidades representem um importante
objeto de discussão e de tratamento lexicográfico.
Apesar de haver variantes regionais de determinados idiomatismos, sobretudo em
países como o Brasil, de grandes dimensões, as maiores dificuldades referentes ao uso dessas
expressões estão na decodificação de seu sentido conotativo, problema que se verifica tanto
em crianças no início da aprendizagem da língua materna quanto em usuários estrangeiros que
buscam estudar a língua portuguesa. Assim, acreditamos que um dicionário que traga as
expressões idiomáticas freqüentes em português brasileiro, com sua definição, exemplos e
notas de uso, possa ser útil especialmente a esses usuários. E inserimos ainda outro elemento
facilitador para a busca das expressões no dicionário, a saber, as expressões idiomáticas em
uma ordem alfabética a partir de conceitos-chave, visto que o percurso onomasiológico
evidencia as relações existentes entre as diferentes expressões que se referem a um mesmo
conceito ou as relações de sinonímia entre elas, as possíveis motivações que levam ao
surgimento de novas expressões idiomáticas e pode, até mesmo revelar determinados aspectos
culturais da língua refletidos pelos idiomatismos.
Consideramos, portanto, gratificante a possibilidade de esta pesquisa vir a
representar uma contribuição no mercado das obras de referência brasileiras.
15
CAPÍTULO I
AS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS
A priori, é importante delimitar a unidade lexical (UL) de que vamos tratar, as
expressões idiomáticas (EIs) ou idiomatismos. Assim, reconhecemos sua natureza como um
determinado tipo de lexia complexa resultante de uma combinação restrita, que se situa no
universo dos fraseologismos da língua geral e não na Fraseologia concernente aos domínios
técnicos-científicos especializados. Propomos a seguir um detalhamento dessas observações
iniciais.
1.1 Considerações acerca da Fraseologia
As combinações fixas de palavras são realidades tão antigas quanto as línguas
naturais, aliás mais utilizadas na produção textual do que as livres (GROSS, 1988), mas foram
os estudos de Saussure, publicados em 1916, os primeiros a apontar para a existência de
combinações não-livres, as quais foram chamadas de “agrupamentos” (SAUSSURE, 1969).
Para ele, tratava-se de sintagmas compostos por mais de uma unidade consecutiva que
estabeleciam um encadeamento de caráter linear e podiam corresponder a palavras, a grupos
de palavras, a lexias complexas de qualquer dimensão ou espécie.
Bally (1951), por sua vez, relata as particularidades dessas combinações,
afirmando que para uma análise mais apurada da evolução de uma língua, é imprescindível
observar seu uso no cotidiano e seu modo de falar. Indica ainda que é comum, na linguagem
coloquial, a presença de um grande número de expressões formadas por uma combinação
16
estável, na qual uma decomposição semântica se revela contrária ao pensamento gico do
usuário. Portanto, Bally foi quem primeiro atentou para a existência de expressões fixas e de
combinação estável, observação que permitiu uma melhor delimitação dos objetos de estudo
abarcados pela Fraseologia, campo definido por ele como uma submacroárea da Lexicologia.
A respeito das pesquisas lexicológicas, sabe-se que não o vocabulário de uma
língua é objeto de estudo, mas também todos os aspectos que o envolvem, como seus
significados e a relação com outras áreas de descrição, a Fonologia, a Morfologia e a Sintaxe.
Assim, cabe à Lexicologia abordar as ULs como geradoras e ao mesmo tempo reflexos de
sistemas culturais, ou ainda como instrumentos de construção e detecção de uma “visão de
mundo”, de uma ideologia, de um sistema de valores.
A fim de destinar um domínio dentro da Lexicologia, que tratasse especificamente
do objeto de estudo e análise de nossa tese, Bally instituiu, então, os primeiros passos da
Fraseologia, subdividida em Fraseologia popular, para estudar os idiomatismos, colocações,
provérbios e afins, e em Fraseologia técnico-científica, que agrupou as expressões
terminológicas (XATARA, 1998).
Bem mais que os lingüistas ocidentais (dentre esses destacam-se, como pioneiros,
o alemão Thun (1975) e o norte-americano Weinrich (apud RWET, 1983), os principais
seguidores de Bally, quanto ao aprofundamento dos aspectos teóricos dessa nova área, são os
russos, como Vinográdov que define Fraseologia como estudo das leis que restringem a
combinação das palavras e dos seus significados (apud ETTINGER, 1982, e TRISTÁ
PÉREZ, 1988).
A partir das pesquisas dos russos, então, estudaram-se os princípios de disposição
e de processamento do material lexicográfico e inclusão das unidades fraseológicas (UFs); os
critérios de seleção, distribuição e definição dos fraseologismos; a análise e classificação do
caudal fraseológico incluído nos dicionários gerais; o processo de arcaização e de
17
representação das UFs sinônimas e suas variantes; e as características estilísticas dos
fraseologismos (CARNEADO MORÉ, 1985).
Em se tratando da realidade latino-americana, a Fraseologia desenvolveu-se
inicialmente na Colômbia, com Zuluaga (1980) e em Cuba, com os trabalhos de Carneado
Moré (1985) e Tristá Pérez (1988).
No Brasil, também verificamos grande interesse nessa área para mencionar
apenas os pioneiros: Cf. CAMARGO & STEINBERG (1986), TAGNIN (1987, 1989),
XATARA (1994, 1998), RONCOLATTO (1996, 2001) ALVAREZ (2000) e VALE (2002).
Assim, podemos contar com avanços significativos nos estudos das UFs do português, seja
isoladamente, seja em contraste com outras línguas estrangeiras (LEs). As pesquisas, em
âmbito nacional, avançam por diversos segmentos dentro da Fraseologia, desde a elaboração
de dicionários especiais, monolíngües ou bilíngües, aos estudos sobre diferentes tipos de
organização dessas UFs nos dicionários, passando pelo mapeamento dessas UFs e pelo
aprimoramento das tecnologias utilizadas para lidar com elas, além de estudos no que
concerne à freqüência das lexias complexas nos mais diversos tipos de corpora e na Web.
De fato, o estudo desse ramo da lingüística vem adquirindo uma importância cada
vez maior, tanto do ponto de vista teórico, na investigação das regras lexicais, semânticas e
gramaticais, como do ponto de vista prático, no ensino/aprendizagem das línguas maternas e
estrangeiras, na elaboração de dicionários.
Alvarez (2000) leva-nos a compreender a Fraseologia como um ramo da
Lingüística que tem por objeto de estudo a análise de combinações de palavras que formam
novas ULs ou que têm o caráter de expressões fixas.
No entanto, é pertinente atentar que, de acordo com Roda (1993), cuja posição
teórica é também compartilhada por Alvarez, não há consenso sobre o alcance da Fraseologia,
uma vez que encontramos autores que consideram que os estudos fraseológicos abarcam
18
provérbios (Quando a esmola é demais o santo desconfia ou Devagar com o andor que o
santo é de barro), locuções (posto que ou desde que), gírias (na boa ou de boa) e aforismos
(Seria cômico, se não fosse trágico), enquanto outros limitam-na às EIs, sem que seja
estabelecida, com clareza, nenhuma diferenciação entre esses termos. Portanto, a Fraseologia,
não possui limites claros devido à heterogeneidade (manifestada em maior ou menor grau) das
ULs que pode abranger e que dificilmente contêm características definidoras precisas,
dependendo do ponto de vista do pesquisador sobre o fenômeno lingüístico analisado
(COWIE, 1998; RUIZ, 1998).
Questiona-se ainda se os estudos fraseológicos abarcam apenas construções com
mais de uma UL ou também de lexias simples, como as gírias monoverbais. Para Câmara Jr.
(1996), por exemplo, a gíria abrange as ULs simples e as complexas e seu estudo cabe, sim, à
Fraseologia. Mas para a maioria dos autores, a Fraseologia incluiria, dentre as unidades
estudadas, apenas as expressões gíricas, descartando as gírias monoverbais, que escapam aos
propósitos dessa área, voltada à análise das combinatórias lexicais. Como nosso trabalho não
objetiva analisar tal fenômeno, mas apenas os idiomatismos, não trataremos de encerrar esse
tema, tampouco buscar uma definição exata do campo em que se enquadram as pesquisas
sobre as gírias, sobretudo por considerarmos esses estudos, dentro ou não dos saberes da
Fraseologia, um fértil campo para a análise lingüística, ainda a ser explorado com
profundidade.
De modo geral, no entanto, não se questiona que idiomatismos, colocações e
provérbios sejam UFs da língua comum e podemos esboçar uma tentativa de estabelecer
fronteiras entre essas unidades. Assim, consideramos que o fraselogismo tido como EI,
essencialmente conotativo, distingue-se das combinatórias usuais ou colocações, porque estas,
apesar de também serem expressões cristalizadas, correspondem a unidades lingüísticas de
sentido denotativo, caracterizadas pela co-ocorrência léxico-sintática de seus elementos ou
19
restrição léxica entre seus elementos (como apoio incondicional, intimamente ligado, jurar
solenemente [TAGNIN, 1988]). Não se deve confundir, porém, combinação lexical restrita
com uma combinação apenas freqüente de dois ou mais lexemas (IRIARTE SANROMÁN,
2000), uma vez que a colocação que representa não pode ser previsível ou determinada por
certas regras, mas pode ser apenas descoberta e explicada a posteriori (BLANCO, 2008).
Nesse universo das colocações, muitos estudiosos enquadram as perífrases verbais
com verbos suportes - cujos argumentos não têm restrição -, de mera função nominativa, e
que correspondem ao modelo SV + SN, sem transformação dos significados dos componentes
(um carrega noções gramaticais e outro, semânticas, por exemplo: bater em retirada, correr o
risco, dar um passeio, tomar uma decisão [Cf. (GREIMAS, 1960; LIPSHITZ, 1981; TRISTÁ
PÉREZ, 1988]). É o que Wotjak (2008) chama de colocação em sentido amplo.
Nos últimos dez anos, por um lado a investigação sobre as colocações traz
importante contribuição para o ensino de LEs e, por outro, a maioria dos projetos
lexicográficos especificamente sobre colocações se orienta pela Teoria Sentido-Texto (que
considera o uso da colocação dentro de um contexto) de Mel'čuk et al. (1995) e que evidencia
claramente a importância das considerações pragmáticas (BLANCO, 2008).
Os ditados, por sua vez, considerados elementos não conotados, ou os provérbios,
elementos conotados, enunciam verdades eternas, a chamada "sabedoria dos antigos", na
forma de simples constatações, apresentadas em uma estrutura ao mesmo tempo clara e
fechada; assim é o caso do ditado Quanto mais se tem, mais se quer para exemplificar um
enunciado denotativo, em contraposição ao enunciado conotativo Em terra de cegos, quem
tem um olho é rei (GREIMAS, 1960). Na verdade, para as especificidades tanto estruturais
quanto semânticas, estilísticas e pragmáticas de ditados, provérbios, aforismos, anexins,
refrões, preceitos, máximas, desenvolveu-se a Paremiologia, que pode ser vista como uma
subdivisão dentro dos estudos fraseológicos.
20
que se distinguir ainda, os clichês ou chavões, definidos aqui como criações
literárias que se banalizaram pelo uso (o astro do dia, na primavera da vida); estereótipos ou
lugares-comuns que são frases feitas ou fórmulas de emprego muito freqüente, revelando uma
falta contra a verdade, por constituírem uma crença simplista (ETTINGER, 1982, DUFAYS,
1991) e se fundamentarem na ignorância e no preconceito, ainda que representem concepções
de valor predominantes em uma dada comunidade cultural (Homem é tudo igual; As crianças
não pediram para nascer; Lugar de mulher é na cozinha); fórmulas situacionais ou sentenças
usadas em situações de comunicação específicas (Não seja infantil!, Você brincando...
[TAGNIN, 1987; XATARA, 1994]).
Para Mel'čuk (2007) é surpreendente, aliás, como depois de tantos anos de estudo
e discussões sobre os mais diversos aspectos da Fraseologia, não se tenham elaborado
definições formais dos conceitos pertinentes, estabelecido uma tipologia formal das UFs e
fixado uma terminologia universalmente aceita. Mas a maior parte dos estudos não deve
mesmo se debruçar mais sobre questões relativas à classificação das mesmas do que sobre
questões relativas ao seu uso.
Apesar de ainda não existir consenso sobre os limites da Fraseologia no que
concerne aos objetos de estudo que ela pode abarcar, em nosso trabalho, partimos do
pressuposto de que todas as EIs fazem parte da Fraseologia porque, conforme dissemos
anteriormente, as EIs são lexias complexas (formadas por mais de uma UL - o que caracteriza
o termo “expressão”), com particularidades expressivas, como conotação e cristalização
relativa. Dentro desse contexto, é pertinente afirmar que uma EI não deve ser confundida com
um expressão terminológica porque as EIs são conotativas e fazem parte do léxico geral, o
que não ocorre com as expressões terminológicas que, apesar de fixas e com variabilidade
restrita, não são conotativas e pertencem a campos específicos da língua, isto é, fazem parte
da língua de especialidade.
21
1.2 A definição de expressão idiomática
Dentre todas as UFs existentes, selecionamos as EIs como objeto de estudo desta
tese.
Concordamos com Biderman (2001) quando ela nos diz que os idiomatismos são
combinatórias de lexemas que o uso consagrou numa determinada seqüência, ou seja,
desconsiderando suas partes como unidades semânticas e cujo significado não se dá na
simples somatória dessas partes. Os significados literais podem, em boa parte dos casos,
ajudar a entender o significado conotativo da expressão. Assim, apesar de o sentido de uma EI
não estar ligado exclusivamente ao sentido de suas partes constituintes, é importante atentar
para os casos nos quais as ULs que a constituem, direcionam seu uso.
Em decorrência desse fato, pode-se concluir que a EI não é apenas um
aglomerado de idiossincrasias lexicais (escolhas pessoais), mas combinações convencionais
de relações sintático-semânticas regulares, aceitas e reconhecidas por um grupo (CORBIN,
1983; TAGNIN, 1988). casos, por exemplo, de EIs que são cristalizadas no imperativo
como calma, Bete! e que não podem ser modificadas. Assim como EIs que são
cristalizadas com o verbo no presente ou no passado, como em A porta da rua é serventia da
casa ou O gato comeu sua língua. Constatamos, portanto, que existem idiomatismos dos mais
variados tipos e, por esse motivo, apresentamos mais à frente, no item 1.3, uma descrição
tipológica de EIs presentes na língua portuguesa do Brasil, no que concerne à sua natureza
estrutural e em alguns casos peculiares.
De acordo com Tristá Pérez (1988), as EIs são, em sua maioria, combinações de
palavras que, devido ao seu constante uso, perdem o sentido denotativo de cada um de seus
termos constituintes e adquirem um sentido global conotativo. casos da coexistência de
22
ambos os sentidos, ou seja, o denotativo e o conotativo, que serão identificados a partir do
contexto em que estão inseridos, como por exemplo pegar fogo, cujo sentido denotativo é a
descrição do fenômeno que consiste no desprendimento de calor e luz produzidos pela
combustão, o ato de queimar, incendiar, ao passo que seu sentido conotativo refere-se ao
conceito ENTUSIASMO ou AGRESSIVIDADE e descreve, no primeiro caso, o estado de
exaltação e, no segundo, um momento em que existe a possibilidade de conflito.
Segundo Tagnin (1989), a convencionalidade é definida como aquilo que é aceito
de comum acordo e pelo uso e que pode ser encontrada em diversos níveis como o sintático, o
semântico, o pragmático. Ela salienta ainda que, para um aprendiz que se preocupa com o
conhecimento apenas das regras sintáticas e do léxico da língua, ater-se a uma leitura
composicional permitirá que ele conheça parte do idioma, deixando de lado especialmente a
idiomaticidade, um dos aspectos da convencionalidade.
de acordo com Náray-Szabó (2008), as EIs podem ser classificadas
considerando seu caráter pragmático-discursivo. Assim, o autor distingue idiomatismos
evocativos, ou seja, que refletem a realidade de modo mais ou menos objetivo (por exemplo,
estar com a cabeça rodando), avaliativos, que expressam as impressões que se tem da
realidade (como em isso não lhe cai bem) ou dialógicos, que são utilizados apenas em uma
situação particular o caso de Você brincando! que terá ocorrência após a fala de um
primeiro interlocutor). Nos dois primeiros tipos de fraseologismos encontramos uma
idiomaticidade semântica; no último, uma pragmática.
Para subsidiar este trabalho, consideraremos, no entanto, a definição de Xatara
(1998). Assim, tratamos como EIs as lexias complexas (expressões), com sentido conotativo
(figurado, metafórico), cristalizadas pela tradição cultural (lexicalizada) e que são
indecomponíveis quanto às restritas possibilidades de substituição que podem ser feitas entre
seus termos constituintes (variabilidade restrita).
23
Embora as línguas disponham de meios para expressar objetivamente os
acontecimentos, os sentimentos, as idéias, as EIs originam-se da vontade do usuário de
comunicar experiências de maneira mais expressiva ou pitoresca, de ser mais persuasivo, de
despertar o cômico ou o irônico, por meio de combinatórias inusitadas que são unidades
funcionais significativas do discurso, constituídas por seqüências estereotipadas de lexemas.
Por exemplo, para enfatizar um estado exacerbado de nervosismo, pode-se optar pelo
idiomatismo espumar de raiva ou ficar uma pilha de nervos em detrimento das paráfrases
“ficar nervoso” ou “enervar-se”, enfatizando, assim, a intensidade do sentimento de raiva que
ele descreve.
A seguir, passamos a detalhar as três características fundamentais das UFs
idiomáticas: conotação, cristalização e indecomponibilidade.
1.2.1 Conotação
Um idiomatismo aponta uma representação figurada da realidade, como um meio
de caracterização pitoresca do que se pretende expressar. Assim, ainda que uma expressão
também possa ser interpretada denotativamente, como é o caso de abrir o olho, sujar as mãos,
quebrar o galho, haverá sempre a produção de um efeito especial, com a transferência do
sentido denotativo para o conotativo.
Abrir a torneira pode, por exemplo, se relacionar ao conceito TRISTEZA, com o
sentido de chorar, ou significar literalmente que um indivíduo abriu a torneira. O mesmo
acontece com a EI puxar o tapete, pois é perfeitamente possível se referir, denotativamente,
ao ato de puxar ou arrastar um tapete e, conotativamente, referir-se ao conceito TRAIÇÃO.
Nesse último caso, é interessante mostrarmos que, apesar de haver o sentido denotativo para
puxar o tapete, a combinação dessas ULs com o sentido conotativo indicando a traição é
24
muito mais frequente do que aquela com o sentido denotativo. Na Web, encontramos 20.100
ocorrências
1
para tal EI e, em uma análise em 10% desse total de resultados elencados pelo
Google, confirmamos que em 95% dos casos a referência é ao ato de trair outra pessoa.
Podemos afirmar, pois, que para uma expressão poder ser considerada idiomática,
seu significado dependerá dessa transferência de sentido para um âmbito semântico que não é
o do objeto designado por ela. Por isso, de acordo com Pottier (1987), coexistem em uma EI
ao menos dois empregos da mesma lexia, o que justifica seu sentido metafórico. Também
para Greimas (1960), a cada segmento da cadeia lexemática, convenciona-se a atribuição de
um significado segundo, ou pelo menos um primeiro nível de abstração, que constitui a
transferência de significado de um lugar semântico a outro, sem que o significante sofra
alteração.
Para Roncolatto (2001: 16 e 17), “a conotação é, sem dúvida, uma característica
primordial das EIs. [...] As EIs são frutos de um processo metafórico de criação.” Assim, se
tomarmos a EI dançar conforme a música, não podemos apresentar seu significado partindo
dos significados individuais de seus termos pois, se o fizermos, não teremos o sentido
conotativo referente à expressão como um todo. “Dançar” é executar movimentos corporais
de maneira ritmada, em geral, ao som de uma música; bailar, e “música” é a arte e ciência de
combinar os sons de modo agradável ao ouvido ou qualquer composição musical
(FERREIRA, 1999). Portanto, para a compreensão do idiomatismo desejado, é necessário que
haja o deslocamento, para um nível abstrato, da imagem a que se refere à EI. Dessa forma
pode-se analisar um grande número de ULs complexas e cristalizadas, as chamadas
expressions figées, mas dentre essas apenas as conotativas serão consideradas EIs.
ainda de se considerar a questão dos diferentes graus de conotação proposta
por alguns pesquisadores, como Xatara (1998), que indica uma possível subdivisão gradual no
1
<www.google.com.br> ; acesso em 10/08/2008.
25
sentido figurado de um idiomatismo, ou seja, os idiomatismos são forte ou fracamente
conotativos. Tal classificação é variável e é realizada com base na busca mais detalhada pelo
significado de cada termo da EI e, em seguida, pelo significado dos termos em conjunto.
Roncolatto (1996) e Alvarez (2000), por sua vez, preferem utilizar os termos
transparência e opacidade. A primeira autora nos diz que a idiomaticidade se relaciona à
opacidade da expressão, ou seja, uma UF é idiomática quando é fixa e não transparente. A
segunda acrescenta que:
os fraseologismos são ULs múltiplas que apresentam vários graus de transparência semântica
que vão de uma maior transparência a uma total opacidade. Desta forma, acredita-se que a
proporção de termos opacos e transparentes, assim como a freqüência relativa das diferentes
formas de motivação podem proporcionar valiosos critérios para a classificação dos termos nas
línguas, aspecto esse esboçado por Saussure, que distinguiu dois gêneros de idiomatismos: o
lexicológico onde predominam as palavras opacas, e o gramatical, que prefere os termos
motivados. (p. 70)
É em virtude da impossibilidade de concretização, na realidade extralingüística,
da idéia transmitida pela EI, que se pode dizer que o idiomatismo opaco é aquele em que,
devido ao seu alto grau de metaforização, não a possibilidade de recuperação, ou criação,
da imagem à qual ele se refere. O contrário também é verdadeiro, pois são transparentes os
casos de EIs em que o seu significado é construído pela soma entre componentes de
significação denotativa, semanticamente presentes, e outros de significação conotativa.
É o que acontece com as lexias custar os olhos da cara (refere-se ao conceito
DINHEIRO, intrinsicamente relacionado ao verbo “custar”) ou rápido como um foguete (o
conceito RAPIDEZ é resgatado pelo adjetivo “rápido”), uma vez que se referem
denotativamente a idéias de fato manifestadas nas expressões: temos respectivamente o
sentido denotativo de “custar” e “rápido”, o que entretanto não anula o sentido conotativo dos
complementos dessas unidades léxicas.
26
Em suma, as mesmas idéias apresentadas por Saussure ao tratar do processo de
evolução pelas quais passam as palavras em geral, com a mudança ou distanciamento do
sentido que originalmemente as gerou, também podem ser aplicadas às EIs, que passam por
sucessivas mudanças lingüísticas no decorrer do tempo.
Assim, determinados idiomatismos mudam integralmente de sentido, por conta de
fatores extralíngüísticos, sociais, culturais, e passam a ser opacos, dada a distância entre seu
sentido como um todo dos significados de suas partes constituintes. Outras EIs preservam
essa relação e são consideradas transparentes por trazerem entre suas partes constituintes,
termos motivados, que direcionam seu significado.
1.2.2 Cristalização
O elenco de EIs de uma comunidade lingüística encontra-se em sua memória
coletiva, em nível individual e social, como modo de dizer tradicional. E, para que uma lexia
complexa possa, então, ser identificada como EI, é necessário que seu uso seja, ou tenha sido,
freqüente por um considerável número de pessoas, processo este que denominamos
“cristalização”.
Considerando como lexicalização “a transformação de um sintagma constituído
de morfemas livres em um sintagma fixo (ou lexia), comutável, do ponto de vista
paradigmático, no interior de uma classe lexemática” (GREIMAS; COURTÉS, 1979, p. 254),
podemos afirmar que a freqüência do emprego de uma EI pela comunidade de usuários é o
fator responsável pelo processo de lexicalização de um idiomatismo (XATARA, 1998).
De acordo com Rios (2004):
[...] em um primeiro momento, podemos pensar que as conotações idiomáticas são criadas na
fala. No entanto, nesse momento, elas são apenas uma realização do sistema como outra
27
qualquer. Essas realizações no plano da fala só passarão a constituir EIs quando passarem para
o plano da norma, isto é, quando passarem para o dizer tradicional, comum e constante da
língua. Daí uma das características obrigatórias das EIs: sua cristalização. (p. 45)
Por isso não se pode tratar qualquer expressão presente em nossa língua como
idiomática, mesmo que tenha relativa fixidez e sentido conotativo.
Com a enorme ampliação do poder das mais variadas formas de mídia e o
agigantamento do público atingido por elas, não são poucos os casos em que idiossincrasias
são difundidas com rapidez a ponto de serem temporariamente fixadas como parte do saber
coletivo. Porém, com o freqüente uso, essas expressões, caracterizadas por serem peculiares
de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, deixam de ser freqüentes ou deixam de ser aceitas
consensualmente por uma grande comunidade de usuários, ou seja, passam a ser expressões
utilizadas apenas em determinada região do país (caso dos regionalismos) ou pelo grupo de
uma determinada faixa etária (expressão datada; de um período específico), ou mesmo como
uma gíria que, temporariamente migrou ao grupo de EIs e, com a diminuição significativa de
seu uso, volta a se circunscrever apenas a um grupo de pessoas, muitas vezes apontando para
sua extinção.
O slogan não ser uma Brastemp, tão utilizado nos anos noventa em propagandas
de eletrodomésticos da marca Brastemp para a comparação com outras marcas, transformou-
se em uma EI a partir do momento em que passou a ser usual para grande parte da população
brasileira e deixou de ser apenas uma expressão para a promoção do produto que vendia.
Porém, nos dias de hoje, tal EI já não é tão freqüente quanto era no período em que foi criada.
Trata-se, pois, de uma expressão amplamente difundida e que, com a mudança do slogan da
empresa em questão, teve uma redução significativa em sua freqüência que nos leva a pensar
em sua possível extinção, caso não haja uma retomada desse mote para a propaganda dessa
empresa. No entanto, é meramente especulativo afirmar que isso ocorra porque, como no
28
exemplo que descrevemos abaixo, a longevidade de uma expressão pode ser muito maior do
que seus criadores imaginaram.
Um interessante exemplo para ilustrar a idéia de que para a cristalização de uma
EI são necessários um período maior de tempo e uma quantidade considerável de usuários que
atestem seu amplo uso, é a expressão arder no mármore do inferno, da telenovela “O clone”,
escrita por Glória Perez e veiculada pela Rede Globo de televisão no ano de 2001. Tal
expressão, embora conotativa e fixa, depois de ampla difusão no ano de transmissão da obra,
passou a ter cada vez menos registros em quaisquer corpora e mesmo na Web. De fato, no
ano de 2001, em uma busca realizada na Web, o resultado foi de mais de 10 mil ocorrências,
em 2006, em nova pesquisa realizada por meio do motor de busca Google, encontramos
373 ocorrências. O que nos faz deduzir que a cristalização é, também, característica
primordial para a definição de EI, uma vez que criações idiossincráticas podem desaparecer a
qualquer momento. O número de ocorrências na Web para a expressão citada tende a oscilar
(mas não se multiplicar enormemente), sobretudo por conta do crescimento incessante das
informações da Web e do aumento no número de dados replicados em toda www.
É preciso ressaltar, no entanto, que não se pode decretar veementemente que uma
EI deixará de existir por conta do distanciamento da motivação inicial que a criou. Assim,
virar o disco, EI largamente utilizada para descrever o momento em que um indivíduo muda
de assunto em uma conversa ou insiste em falar sobre um determinado assunto causando
desconforto nos interlocutores, pode existir indefinidamente apesar de sua criação ter sido
pautada no fato de que os discos, ou LPs (long-plays), hoje objetos de uso restrito, possuiam
dois lados (o A e o B) com músicas, o que não ocorre com o CD (compact disc) e outras
tantas novas formas de armazenamento de música que vemos atualmente no mercado. A baixa
freqüência de uma EI, portanto, não se associa diretamente aos argumentos que motivaram
sua gênese mas à sua ampla ocorrência ou difusão entre as pessoas ou nas mídias em geral.
29
Falar que alguém não vira o disco pode continuar a ser um idiomatismo freqüente,
independentemente se o seu sentido seja ou não opaco. Um exemplo de longevidade de uma
EI é espírito de porco, que é de origem bíblica e designa o indivíduo que promove
constrangimento ou aquele que é considerado desagradável. Embora freqüente ainda hoje,
esta EI não retoma sua motivação inicial, o episódio em que Jesus Cristo expulsa demônios de
um grupo de pessoas e esses demônios tomam uma manada de porcos.
Dentro desse quadro, em que julgamos pertinente descrever o grau de
cristalização de uma EI, cabe-nos citar que, em nosso trabalho, confirmamos por meio do
percurso onomasiológico, que existem EIs que o polissêmicas, justamente porque possuem
mais de um sentido sem que, na maioria dos casos, se saiba qual o sentido primeiro que tais
expressões adquiriram em sua criação e porque ambos os sentidos são usuais. São os casos,
por exemplo, de olhos fechados, que é uma EI freqüente tanto para indicar o conceito
CONFIANÇA quanto FACILIDADE; o mesmo ocorre com de pernas pro ar, indicando
DESORDEM ou ÓCIO, ou ainda esfregar na cara, para indicar CONFIRMAÇÃO ou
CRÍTICA.
Algumas EIs, porém, com o passar do tempo mudam completamente de sentido,
ou perdem um dos sentidos que designava (caso de uma EI polissêmica que perde um dos
sentidos) e o novo significado apaga o anterior. No Houaiss (2001) encontramos, por
exemplo, dentre tantas UFs apresentadas no verbete “cama”, a EI cair da cama, com o sentido
que poderíamos apresentar em nosso trabalho, dentro do conceito FRACASSO, indicando
“falhar ou ter uma surpresa ruim”. Porém, atualmente, as ocorrências encontradas na Web
para este idiomatismo, ou são denotativas ou descrevem o ato de acordar cedo, como no
exemplo, “Caiu da cama! Romário chega cedo, mas avisa: nem sempre irá ao clube de
manhã”
2
. Assim, não se pode dizer que o sentido apresentado no Houaiss (2001) esteja errado,
2
<http://www.jornaldebrasilia.com.br/impresso/noticia.php?IdNoticia=315224&edicao=1806> ; acesso 10/12/2008.
30
mas que se trata de um uso menos freqüente na Web nos dias de hoje e que, em um período
determinado, o sentido de FRACASSO foi o mais freqüente. Indistintamente, o mesmo
poderá ocorrer com nosso dicionário, justamente porque se trata de um trabalho que prioriza a
coleta dos idiomatismos mais freqüentes na Web entre 2004 e 2008 e não um trabalho
diacrônico que pretenda apresentar todas as EIs da ngua portuguesa do Brasil e todos os
sentidos que tais idiomatismos possuem.
Há, pois, uma consagração ou cristalização não apenas da forma do idiomatismo,
mas também de seu significado. Porém, são inúmeras as EIs que, consagradas em uma
determinada forma, podem ter mais de um significado dentro de uma mesma comunidade
lingüística. É o caso da EI botar pra fora que, dependendo do contexto no qual está inserida,
pode significar desabafar, expor a opinião, ou despedir alguém (SERRA E GURGEL, 1995).
Podem coexistir, ainda, significados diversos em comunidades lingüísticas
diferentes nas quais se fala o mesmo idioma. É comum se observar esse caso nos
idiomatismos que se originaram de gírias e que, por vezes, difundem-se com mais de um
significado. Portanto, são considerados idiomatismos regionais quando o atingem o âmbito
nacional, não são decodificado pela maior parte da população do Brasil. Enquanto a EI ser fim
de festa é conhecida em nosso país, por conta de sua difusão nas principais mídias, como a
descrição do indivíduo que costuma sair de reuniões ou festas apenas quando estas terminam,
sair no lixo é a EI de mesmo sentido (“E eu gosto de sair no lixo! [risos] Entro de
madrugada e saio no lixo! Se for pra ficar até de manhã eu fico!”), no entanto é utilizada
apenas em parte da região Nordeste do Brasil e em alguns outros estados de outras regiões
3
.
A consagração do uso de uma EI pela tradição cultural da comunidade lingüística
em que ela se encontra é imprescindível para que o idiomatismo seja considerado como tal.
3
<http://clarissapacheco.wordpress.com/2008/07/06/danca-conquista-terceira-idade/> ; acesso em 06/07/2008.
31
Dessa forma, podemos afirmar que, ao menos em um primeiro nível de abstração, existe
estabilidade na significação de uma EI.
Sobre a dinamicidade das EIs, Alvarez (2000) nos diz que,
[...] as expressões idiomáticas refletem o lado dinâmico da língua, a sua adaptação constante às
necessidades comunicacionais do momento, tanto que podem desaparecer logo depois de seu
surgimento, se bem que muitas ficam e se incorporam ao inventário lexical da língua. [...] São
precisamente as mudanças que ocorrem na ordem social que influem no envelhecimento dos
fraseologismos que são quase sempre efêmeros [...] (p. 73)
A significação conotativa primária que se refere à EI vestir o pijama de madeira é
“morrer” e, assim, podemos dizer que essa significação é fixa, pois não há a possibilidade de a
expressão possuir o sentido metafórico que não o apresentado. É interessante lembrar que
uma expressão similar à apresentada anteriormente, abotoar o paletó de madeira e que, apesar
de existir a possibilidade de se mesclar seus elementos constituintes, por exemplo vestir o
paletó de madeira ou abotoar o pijama de maneira, essas duas supostas variantes são pouco
freqüentes porque uma idiomaticidade pragmática (o uso prefere “vestir” para “pijama” e
“abotoar” para “paletó”) e a idiomaticidade semântica que concentra o sentido de MORTE se
concentra na UL “madeira” (presente em ambas), uma alusão ao caixão utilizado para se
enterrar defunto.
Em outras palavras, acreditamos que de fato os significados de qualquer que seja
o item lexical não têm estabilidade ou fixidez diacrônicas (tal qual uma palavra, a EI
também não possui significação fixa), ou seja, na evolução semântica de uma língua,
também as EIs podem mudar de significado, perder ou acrescentar significações.
Sincronicamente esse fenômeno não ocorre porque os significados são
convencionalizados socialmente e não individualmente.
32
Assim, podemos entender que, embora existam diversas EIs relacionadas ao
conceito universal de morte, como, por exemplo, bater as botas, dormir o sono eterno, passar
desta para uma melhor, para essas não há possibilidade de outro emprego que não aquele com
o sentido de “morrer”, mesmo que as imagens que cada uma possui sobre a morte sejam
particulares.
Para tanto, citamos Xatara (1994), cujas palavras resumem as considerações que
acabamos de fazer:
[...] o obscurecimento de seus elementos formadores manifesta a espessura simbólica e
metafórica de uma linguagem que é condensada, presente por toda parte, embora
discretamente. Nessa linguagem aflora o inconsciente, em que os significantes, desprovidos de
seu sentido próprio, agem confusamente por sua própria conta. A EI é, assim, o lugar em que o
discurso se faz língua, em que o social se faz símbolo. (p.129)
1.2.3 Indecomponibilidade
Podemos afirmar que as EIs constituem lexias complexas indecomponíveis, de
distribuição única ou limitada, pois as partes que as constituem não se dissociam sem
prejuízo na interpretação semântica, a qual, como dissemos, não pode ser calculada com
base nos significados individuais de seus componentes.
Para que certas lexias complexas possam ser consideradas idiomáticas, é
necessário que elas constituam uma combinatória fechada, ou seja, que substituições por
associação paradigmática somente ocorram em restritas possibilidades (Xatara, 1998).
Exemplificando, a EI achar-se o centro do universo, referente ao conceito PRESUNÇÃO,
oferece algumas possibilidades de variação dos termos que a constitui, e que são possíveis
porque não comprometem o sentido conotativo do idiomatismo. Pode-se substituir o verbo
“achar-se” por “sentir-se”, dependendo do contexto em que se aplica a expressão; pode-se,
ainda, substituir “centro” por “umbigo”, e “universo” por “mundo”. Em todos esses casos não
33
perda no sentido da EI, ou seja, o da descrição do indivíduo que acredita ter maior
importância que outros. Porém, essa variabilidade é restrita porque pragmática e
estilisticamente nem todas as substituições são “aceitáveis”. Por exemplo, achar-se o centro
do universo (cerca de 350 mil ocorrências no Google) ou sentir-se o umbigo do mundo (por
volta de 14 mil ocorrências no mesmo motor de busca) não causam estranheza, fato que não
ocorre com a variante sentir-se o umbigo do universo (apenas 580 ocorrências). Tal
“estranheza” repousa no fato de que a combinação entre os substantivos “umbigo” e
“universo” ainda não é totalmente recorrente.
Fica evidente, portanto, que determinadas substituições são permitidas mas que
existe um limite para essas mudanças. No exemplo anterior, para que não haja uma perda no
sentido conotativo da EI, é necessário que o verbo somente seja substituído por outro verbo,
também pronominal, e que indique que esse sujeito, agente desse verbo pronominal, seja
alguém que acredite estar em um local, condição, situação ou estado de superioridade. Assim,
podemos encontrar variantes com os seguintes verbos, achar-se, considerar-se, definir-se,
encontrar-se, olhar-se, sentir-se, ver-se etc., porém essa variabilidade é sempre parcial.
Nos casos de possíveis distribuições, escalas de variabilidade que
correspondem a graus de cristalização (XATARA, 1994). Depende desse grau de cristalização
a possibilidade de esses elementos aceitarem variações, do tempo verbal e da modalidade de
asserção (Ele se fez de rogado. / ...vai se fazer de...); do modo e da pessoa do verbo
provável que ele se faça de rogado. / Quando nos fizermos de rogado...); do artigo (Ela armou
o [um; maior] barraco.); do possessivo (Ele não confiou no seu taco. / Eu confio no meu
taco.), além da inserção de advérbios (O negócio vai [muito] mal das pernas / Antes da festa,
ele [] estava [meio] alto.); e permutas lexicais (Ele luta como um leão [onça, tigre, touro]).
Se por um lado é viável a inserção de alguns elementos em uma construção
idiomática, sem prejuízos para seu sentido, principalmente nos casos em que apenas o eixo
34
sintagmático muda e não há variação e comprometimento da idiomaticidade da expressão, por
outro, essas variações podem ocorrer apenas com determinadas EIs, que são mais ou menos
recorrentes dependendo da interferência de fatores extralingüísticos.
Para a EI mudar de time, por exemplo, encontramos hoje
4
, em ginas de língua
portuguesa do Brasil, cerca de 22.300 ocorrências. Na análise artesanal de cerca de 10% desse
total, recuperamos que a origem desse idiomatismo está diretamente ligada ao futebol e tinha
apenas significado denotativo, ou seja, descrevia apenas o esportista que literalmente
“mudava de time” por motivo diverso e passou a trabalhar em outra equipe de futebol. Dentro
desse contexto futebolístico, a rivalidade acirrada entre determinadas equipes (por exemplo, a
rivalidade existente entre as equipes paulistas Corinthians e Palmeiras ou entre as equipes do
Rio Grande do Sul, Internacional e Grêmio) fez com que tal EI deixasse o domínio do esporte
e migrasse para o senso geral, mas com o sentido de TRAIÇÃO (vale lembrar que essa EI é
muito comum em textos políticos, sobre a mudança de partidos, o rompimento de alianças
partidárias).
Em seguida mudar de time também passou a ser uma forma pejorativa de
descrever o indivíduo que anteriormente considerado heterossexual, passa a ser rotulado como
homossexual (mudança de sentido comprovada com dados extraídos da Web). Trata-se, pois,
de um longo caminho percorrido por esse idiomatismo: em sua gênese, como uma expressão
denotativa, em seguida envereda pela gíria (restrita ao meio futebolístico), até chegar a duas
acepções freqüentes, ambas relacionadas à uma quebra de expectativa (mudança de equipe de
futebol, mudança de partido político, “mudança” de orientação sexual) gerando uma
frustração e, conseqüentemente, um sentimento ligado à TRAIÇÃO e MUDANÇA.
Mesmo em se tratando de EIs que apresentam o traço da indecomponibilidade,
algumas variações podem ocorrer para atender a necessidades sintáticas que correspondem a
4
<www.google.com.br> ; acesso em 17/09/2008.
35
adequações textuais e para atender a necessidades estilísticas. Ilustrando o primeiro caso,
temos uma EI com variação do pronome possessivo (confiar no meu [seu] taco), e o segundo
caso, uma EI com demonstração de grande expressividade (armar o maior barraco).
Assim, outras EIs que não admitem tais variações, como, por exemplo, passar
a faixa, que não pode ter, entre seus termos, nem acréscimos, nem tampouco substituições,
sem que acarrete prejuízo semântico para o entendimento da expressão. Se disséssemos: “O
diretor não resistiu às pressões da oposição e passou a faixa verde e amarela”, certamente
causaríamos estranheza no ouvinte por termos acrescentado os adjetivos verde e amarelo ao
idiomatismo. Nesse caso o significado da EI, que é deixar um cargo, ficaria seriamente
comprometido, fato este que comprova que há indecomponibilidade e variações das EIs
apenas em casos específicos e com determinadas partes constituites do idiomatismo.
No entanto, ressalta-se que, embora a indecomponibilidade seja um dos cernes
definicionais de EI, a possibilidade de ruptura do sintagma com fins estilísticos e tal
“violação” está diretamente relacionada à oralidade, mesmo que utilizada na modalidade
escrita. Algumas dessas ocorrências, apesar de parecerem insólitas, são maneiras que a
imprensa encontra, sob a forma de manchetes de jornais ou revistas, ou a publicidade em
geral, de orientar a atenção do leitor, seja por meio da estranheza, seja para realizar um
trabalho mais persuasivo. Assim, as rupturas nas EIs são corriqueiras porque são direcionadas
a um determinado público que compreende o primeiro sentido do idiomatismo, que é o
conotativo, e percebe que uma distorção proposital do idiomatismo dentro daquele
contexto. Tais “distorções”, aliás, são formas comuns de despertar a curiosidade e instigar à
reflexão. Exemplos desse fenômeno são as “traduções” de títulos de filmes no Brasil: “Por um
fio” (dirigido por Joel Schumacher, em 2002) para “Phone Booth”, nos Estados Unidos, e
“Cabine telefônica”, em Portugal. A escolha do título no Brasil foi muito elogiada porque,
embora o filme realmente se passe todo ao redor de uma cabine telefônica, a EI por um fio
36
aqui no Brasil indica RISCO e esse é o ponto nevrálgico de todo o filme: o protagonista
permanece ao telefone e com o risco iminente de ser assassinado, ou seja, literalmente por um
fio (Cf. cartazes do mesmo filme apresentados nos Estados Unidos, Portugal e Brasil,
respectivamente).
Phone Booth (EUA) Cabine Telefônica (POR) Por um fio (BRA)
FIGURA 1 Cartazes do filme “Phone Booth”
O contrário ocorreu com o filme francês “Le placard”, de 2001, dirigido por
Francis Veber, em que o título escolhido no Brasil foi “O closet”, o que não indica ao
espectador se tratar de uma comédia cujo tema é justamente os conflitos sobre a sexualidade
do protagonista, fato que poderia levar à exploração da EI sair do armário.
A utilização de idiomatismos como títulos de filmes no Brasil é extremamente
comum. Trata-se da maneira encontrada pelas distribuidoras nacionais ou internacionais de
atingirem seu público-alvo com mais perspicácia.
O que pudemos verificar é que os filmes que se utilizam de EIs em seus títulos
são, em geral, filmes de ação, comédia, pornográficos, ou longas-metragens de animação e
não filmes de arte ou chamados filmes autorais.
37
Dentre tantos, destacamos “Golpe Baixo” (The Longest Yard, 2005), de Peter
Segal, “Entrando numa fria maior ainda” (Meet the Fockers, 2004) de Jay Roach, “De bico
calado” (Keeping Mum, 2005) de Niall Johnson, “O bicho vai pegar” (Open Season, 2006) de
Roger Allers e Jill Culton, “O mar não está pra peixe” (Shark Bait, 2006) de Howard E. Baker
e John Fox, “Por água abaixo” (Flushed Away, 2006) de David Bowers e Sam Fell.
Cabe citar, ainda, casos de ruptura da idiomaticidade com fins estilísticos e, nesse
caso, as variações são aceitas quando permitem que o interlocutor compreenda, além do
significado conotativo primeiro do idiomatismo, em que se observa seu núcleo semântico
fixo, as alterações propositais que o levam a uma significação outra, também passível de ser
captada pelos usuários da língua.
Na verdade, a utilização de idiomatismos nos mais variados tipos de mídias, sejam
eles apresentados tal qual a maioria da população conhece, sejam apresentados em suas
formas variantes, vem confirmar que este tipo de lexia complexa é uma das formas mais
expressivas que um falante encontra de comunicar um idéia, vender um produto, chamar a
atenção etc., que existe em uma língua.
A revista Veja, de 25 de junho de 2003, por exemplo, traz em sua reportagem de
capa, o seguinte subtítulo “A vida fora do armário”. Para que o leitor da revista compreenda a
lexicalização distorcida, é necessário que ele saiba que a expressão sair do armário significa
tornar pública sua orientação sexual. No caso citado, a revista disponibilizou ao leitor ainda
um segundo subtítulo que proporciona a compreensão do primeiro, que é o seguinte, “GAYS -
conflitos existenciais e desafios cotidianos dos que tiveram coragem de assumir a
homossexualidade”.
Vejamos a seguir, na figura 2, a capa da revista em questão:
38
FIGURA 2 Capa da revista “Veja”, de 26/06/2003
Embora não caiba aqui nos atermos aos reais propósitos da alteração do último
idiomatismo citado, podemos salientar que a opção por uma EI promoveu, como dissemos,
uma comunicação muito mais expressiva na descrição do tema central da reportagem e, além
disso, possibilitou a utilização de uma gama maior de opções de recursos gráficos para o
enriquecimento da matéria de capa. Foi utilizada a imagem de uma fechadura, dando ao leitor
a impressão de que ele está observando dois rapazes abraçados, pelo buraco da fechadura, ou
seja, mostra-nos como é a vida fora do armário daqueles que assumiram ser homossexuais.
39
Em outra edição da revista Veja, de 22 de janeiro de 2003, vê-se a EI ninguém
quer largar o osso (variante de não querer largar o osso). Embora, nesse caso, não tenha
havido uma alteração do idiomatismo, observamos que não são poucos os casos em que as EIs
são a opção para grandes matérias jornalísticas. Novamente a revista Veja disponibilizou aos
leitores, como subtítulo, para a melhor compreensão do idiomatismo, uma paráfrase, “Os
militares e juízes fazem pressão para manter aposentadorias privilegiadas.”
Nota-se, como diz Alvarez (2000), que algumas variações fraseológicas podem
“violar” ou não o sentido da expressão, dependendo do caso. É bom atentarmos para que uma
substituição ou inserção de um termo não comprometa o sentido geral do idiomatismo.
Em geral, essas rupturas são feitas propositalmente, quando se conhece o público-
alvo, desde o telespectador de um programa humorístico, até um consumidor de um produto, a
quem se destina a informação.
É impossível, pois, interpolarem-se, em uma EI de distribuição única, elementos
que lhe são alheios, por exemplo, cair do cavalo [branco], de pernas [torneadas] para o ar,
com cara de quem comeu [muito] e não gostou [de nada] etc.
Muitas vezes, por se tratar de modificações para a criação de trocadilhos ou
expressões de caráter humorístico, não comprometimento em sua significação, porém é
necessário que, para se compreender esse segundo grau de dificuldade, conheçamos a EI na
forma primitiva e original.
Se em uma propaganda de algum tipo de produto alimentício, por exemplo,
tivéssemos o slogan “você não vai precisar recarregar a bateria sempre” conseguiríamos
entender o trocadilho se conhecêssemos tanto o sentido denotativo da expressão, o da
necessidade de se recarregar ou trocar a bateria, por exemplo, de um carro ou de um telefone
celular, quanto o seu sentido conotativo, o de recuperar a energia gasta (por meio do
40
descanso, de uma bebida energética, de um alimento). Portanto, embora a EI tenha sido
deformada para tornar-se um slogan, não houve comprometimento do sentido conotativo.
Vemos, portanto, que a cristalização de uma EI na memória coletiva dos usuários
de uma língua garante seu automatismo, mas isso não leva seu receptor a pensar em sua
interpretação: é a criatividade do falante ou escritor a responsável para que o idiomatismo seja
aplicado em um contexto claro que permita a compreensão de seu sentido idiomático.
Convém ressaltar, ainda, que o discurso idiomático tem uma verdade assegurada
pelo seu saber implícito. Nem a situação, nem o contexto responsabilizam-se,
individualmente, pelo estabelecimento de um significado outro que faz de uma expressão
qualquer, uma EI (ALVAREZ, 2000).
Por fim, o freqüente emprego dos idiomatismos evidencia que a linguagem
coloquial é permeada por recursos imagéticos vindos da subjetividade, criatividade e herança
cultural do homem. Devido a sua ampla ocorrência no uso cotidiano da língua (fala, literatura,
mídia), é indispensável que se faça um estudo sistemático das construções e dos elementos
lexicais constituintes dos idiomatismos.
Visto que os estudos fraseológicos vêm adquirindo cada vez mais importância,
tanto do ponto de vista prático, no ensino/aprendizagem de línguas e elaboração de
dicionários, como do teórico, na investigação das regras léxicas, semânticas e gramaticais
concernentes a ULs dessa natureza, apresentamos, a seguir, uma análise tipológica dos
idiomatismos considerando critérios correspondentes aos aspectos morfossintáticos e
semânticos das EIs da língua portuguesa do Brasil.
1.3 Tipologia das expressões idiomáticas
A classificação tipológica das EIs que retomamos, embora não se trate da única
classificação de idiomatismos realizada, é a de Xatara (1998), em virtude de sua adequada
41
abrangência para nosso trabalho. Por conta disso, revisitamo-la aqui para ressaltar como as
EIs podem ser agrupadas por subtipos, seja por semelhanças estruturais seja por identidade de
relações semânticas.
O mapeamento completo de todas as estruturas morfossintáticas dos
idiomatismos, assim como de outras UFs, é importantíssimo sobretudo por conta desse
diálogo que diversos ramos da Lingüística atualmente mantêm com a informática, por
exemplo, na elaboração de léxicos computacionais, um segmento de grande interesse para as
pesquisas lingüísticas que objetivam abranger uma quantidade cada vez maior de lexias
complexas dos mais variados tipos e sua utilidade prática, como a sistematização das buscas,
desambiguação, tradução (VALE, 2002).
1.3.1 Natureza estrutural
No que concerne à natureza morfossintática, que ratifica o princípio da
complexidade lexical, identificamos EIs verbais, nominais, adjetivas, adverbiais e frasais.
Verifiquemos alguns exemplos dessas estruturas:
a) sintagmas verbais: bater as botas ou sentar a mão. E podem ocorrer EIs elípticas nas quais
não se explicita um dos elementos do sintagma frasal: saber (...) por alto ou tomar todas (...).
b) sintagmas nominais: cara de cavalo; rato de biblioteca.
c) sintagmas de função adjetiva com ou sem construções paralelas: são aquelas EIs que
funcionam como adjetivos mas que modificam o substantivo, caso de homem de bem, que
42
qualifica o indivíduo honesto, ou mulher de verdade, para designar a que assume grande
responsabilidade ou tem postura rígida.
d) sintagmas de função adverbial: a EI de cara, por exemplo, que é uma locução adverbial
conotativa, é empregada em determinados contextos nos quais pode ser substituída por
advérbios como “subitamente” ou “repentinamente”, por exemplo: abandonar de cara, falar
de cara.
e) sintagmas frasais, exclamativos ou interrogativos: com fogo no rabo?, por exemplo, é
usada para questionar sobre grande agitação de um indivíduo.
1.3.2 Casos especiais
Consideramos, abaixo, alguns tipos de EIs, no que concerne a algumas relações
semânticas, em razão de sua alta freqüência na língua portuguesa do Brasil contemporâneo.
a) EIs alusivas: São aquelas em que a necessidade de uma incursão de conhecimentos
enciclopédicos para que se esclareça sua significação. Por exemplo: beijo de Judas,
idiomatismo alusivo à Bíblia, quando o apóstolo, cognominado Iscariote, identifica Jesus, em
meio aos apóstolos e soldados, desferindo-lhe um beijo e indicando sua traição. Há, entre
outras referências na Bíblia (1962), o evangelho de São Mateus, capítulo 26, versículos 47, 48
e 49:
47 - Estando ele ainda falando, eis que chega Judas, um dos doze, e com ele uma grande
multidão de gente com espadas e varapaus, que eram os ministros enviados pelos príncipes dos
sacerdotes e pelos anciãos do povo; 48 - Ora o traidor tinha-lhes dado este sinal, dizendo:
43
Aquele a quem eu der um ósculo, esse é que é: prendei-o; 49 - E chegando-se logo a Jesus lhe
disse: Deus te salve, Mestre. E deu-lhe um ósculo. (p.1172)
b) EIs análogas: São as EIs similares em seus termos constituintes e com sentidos próximos,
como pôr a limpo, que pressupõe o esclarecimento de informações desconhecidas ou mal
explicadas e pôr em pratos limpos, que indica aclarar uma questão ou fato confuso, sem
deixar dúvida.
c) EIs depreciativas: Trata-se de idiomatismos com sentido pejorativo. Olho de peixe morto é
um exemplo de EI que faz alusão à feiúra ou à inexpressividade dos olhos de alguém em
comparação aos olhos dos peixes.
d) EIs comparativas: São as EIs que têm como núcleo a comparação, tendo em sua estrutura
propriedades adjetivas ou verbais e elementos comparativos: livre como um pássaro, que
indica LIBERDADE por meio da comparação com o modo de viver de uma ave.
e) EIs hiperbólicas: São as EIs que apresentam valor expressivo e afetivo, geralmente absurdo
e exagerado. Por exemplo, a EI matar cachorro a grito descreve, com exagero, a situação
dificultosa em que um indivíduo se encontra.
f) EIs irônicas: Trata-se de um dos efeitos de sentido da antífrase, procedimento expressivo
determinado pelo contrário do que se diz. A EI rei ou rainha da cocada preta é irônica porque
tem em seus termos constituintes a designação usada para indicar um(a) monarca (“rei” ou
“rainha”, dependendo do gênero do indivíduo a que se refere) mas que, ironicamente,
descreve o grupo sobre o qual detém o poder com um doce típico do Brasil e de fácil preparo.
Assim, apesar de “rei” ou “rainha” carregarem sentidos positivos ligados ao poder (nobreza,
44
soberania), “cocada” é uma guloseima comum que, embora muito apreciada no Brasil, não
exige grandes méritos culinários em seu preparo e, por isso, a articulação com “rei/rainha”, o
chefe de Estado investido de realeza, é irônica pois ironia é uma figura de linguagem que
emprega inteligentemente contrastes para ressaltar efeito humorístico.
g) EIs negativas: São as expressões usadas exclusivamente na forma negativa, sendo
impossível passar para a afirmativa, como é o caso de não dar a mínima, referente à falta de
importância dada ou recebida por alguém a algo. Em ambas, não possibilidade de uma
inversão para uma asserção afirmativa.
h) EIs situacionais: São as EIs utilizadas em um contexto social determinado ou
desencadeadas por uma situação específica, notadamente usadas em designações de ameaças
ou provocações. Por exemplo, vá lamber sabão!, EI desrespeitosa usada para pedir que
alguém se retire por desacordo com comportamento, ação ou idéia.
Com base nas características intrínsecas das UFs idiomáticas e das observações
levantadas neste capítulo, podemos dizer que chegamos a uma delimitação de EI, a unidade a
ser tratada no dicionário fraseológico proposto nesta pesquisa, a saber: uma lexia complexa
(expressão), com sentido conotativo (figurado), cristalizada pela tradição cultural
(lexicalizada) e restrita possibilidade de variação. Assim, discorreremos no capítulo seguinte
sobre as peculiaridades de um dicionário fraseológico, que é uma obra lexicográfica especial.
45
CAPÍTULO II
O DICIONÁRIO FRASEOLÓGICO
É freqüentemente complexo estabelecer a classificação das obras lexicográficas
dentro de um tipologia rígida porque são muitos os elementos que entram na composição de
um dicionário para que ele seja classificado apenas como um tipo de obra. O Dicionário
gramatical de verbos (BORBA, 1990), por exemplo, é um dicionário monolíngüe,
semasiológico, sincrônico e especial ao mesmo tempo. A classificação em tipos e subtipos
dependerá, portanto, do enfoque adotado pelo lexicógrafo.
Considerando o tipo de nomenclatura selecionada, teremos dicionários de ngua
geral, dicionários terminológicos ou de especialidade e dicionários especiais (analógico,
ideológico, histórico, etimológico, fraseológico, de freqüência, de sinônimos e antônimos, de
falsos cognatos, de regência verbal, de regência nominal, de neologismos). Vale atentar aqui
que a distinção entre dicionário analógico e ideológico não é consensual para grande parte dos
lexicógrafos, porém acatamos a esse respeito as definições de Haensch et al. (1982): esses
autores nos indicam que o dicionário analógico apresenta uma seleção de conceitos
organizados alfabeticamente e divididos em campos semânticos, enquanto que os dicionários
ideológicos são aqueles que possuem sistemas de conceitos não organizados alfabeticamente.
Segundo Boutin-Quesnel (1985), o dicionário especial é um dicionário de língua
que descreve as unidades lexicais selecionadas por algumas de suas características.
46
Para Boulanger (1995), nos dicionários especiais, a seleção das ULs registradas é
feita com base em uma ou duas características específicas, no plano funcional ou semântico,
sendo que suas informações são sempre do mesmo tipo.
2.1 O dicionário fraseológico – um dicionário especial
No que concerne a um dicionário fraseológico (DF) da língua comum, o tipo de
obra que tratará dos provérbios, das expressões idiomáticas, das gírias, da linguagem erótico-
obscena, das injúrias, xingamentos e blasfêmias, das expressões interjetivas, é preciso,
primeiramente, dar conta de uma literatura especializada riquíssima e abundante no que diz
respeito a alguns temas, como o dos provérbios por exemplo, ou se dispor a partir de um
arcabouço teórico incipiente, como é o caso das blasfêmias. É preciso, em seguida, decidir
entre inventariar o maior número possível de fraseologismos, ou descrevê-los mais
minuciosamente. Assim, teremos ou um dicionário que traz um grande acervo daquele
determinado tipo de unidade lexical e, se bilíngüe, “apenas” acompanhado de propostas de
equivalência, ou teremos um dicionário de menores proporções quanto ao número de
entradas, mas podendo apresentar contextualizações das unidades lexicais levantadas. É
preciso, em terceiro lugar, definir quais as fontes a serem utilizadas: se documentais, com
base em bancos de textos; ou se secundárias, com base em uma grande coletânea de outros
dicionários. Aqui iremos observar que enquanto o inconveniente de uma fonte documental é o
fato de haver necessidade de um número muitíssimo grande de ocorrências em um banco de
textos, suficientemente abrangente para que dele se extraiam os fraseologismos
representativos de uma comunidade lingüística, o inconveniente das fontes secundárias é,
muitas vezes, a não-marcação da freqüência do uso de determinados fraseologismos,
sobretudo quando se trata de dicionários bilíngües (DBs).
47
Isso posto, é possível certificar-se de que os fraseologismos não se esgotam em
um, três ou dez dicionários. Especialmente em se tratando de língua portuguesa e, ainda mais,
em língua portuguesa do Brasil em contraste com qualquer ou quaisquer Les pois, uma
grande lacuna a ser preenchida por esses dicionários especiais, que abordem mais detalhada e
completamente diversos tipos de ULs, revelando diferentes tipos de dificuldades para o
usuário comum, para o tradutor ou para o aprendiz e o professor, uma vez que o
ensino/aprendizagem de LE tem sofrido modificações que devem ser assimiladas, como a
utilização da tecnologia em sala de aula, a disponibilização de grande quantidade de dados na
Web, o crescente número de dicionários on-line.
Além disso, os dados a serem trabalhados são muito volumosos, pois a linguagem
fraseológica brasileira é riquíssima e amplamente presente em nossa linguagem coloquial, e as
opções estruturais adotadas para se apresentarem os dados fraseológicos coletados são
também diversificadas, muitas vezes com enfoques e desdobramentos completamente novos.
Considerando essas dificuldades, acreditamos que a elaboração de um dicionário
de idiomatismos orientado onomasiologicamente é pertinente porque acrescenta informações
à Fraseologia em geral e enriquece, ainda mais, a Lexicografia brasileira.
2.2 O tratamento lexicográfico dos fraseologismos
Vários estudiosos da linguagem intuíram a existência dos fraseologismos e a
inclusão de elementos fraseológicos aparece ensaiada em muitos verbetes dos vocabulários
da Idade Média, mas começa a se efetivar nos DBs do século XVI, especialmente no
Dictionnaire françois-latin (1541), de Robert Estienne (VERDELHO, 1995).
A importância desses estudos é inegável, porque as UFs são unidades de base,
como as palavras simples, devendo ser integradas sistematicamente no inventário dos
48
elementos lexicais constitutivos das estruturas semiológicas da linguagem. E, justamente por
representarem um dos problemas prioritários da descrição léxica, o tratamento lexicográfico
dos fraseologismos, seja em dicionários de língua geral (DLGs), seja em dicionários especiais
(DEs), revela problemas teóricos (definicionais), práticos (apresentação nos dicionários de
língua geral) e técnicos (nos casos de obras lexicográficas em CD-ROM ou on-line).
Quanto à Fraseografia propriamente dita, que se incumbe da produção dos DFs, o
trabalho de Sinclair, entre os anos 1980-87, tem a relevância ratificada por Moon (2008), pois
ele foi um dos primeiros lexicógrafos que teve a preocupação de documentar, em seu projeto
Cobuild (apud Moon 2007), os padrões fraseológicos encontrados em corpus, e apontar para a
prática lexicográfica a interdependência da Fraseologia e do significado e os problemas do
insatisfatório estatuto da palavra ortográfica.
No entanto, o sistema de inclusão dos fraseologismos nos DLGs ainda não é
sistemático, normalmente havendo objeções quanto à extensão da nomenclatura, se as UFs
vierem como entradas, ou quanto à extensão dos verbetes, se vierem como subentradas.
Os dicionários monolíngües (DMs) muitas vezes não delimitam claramente essas
combinações freqüentes e fixas (BÁRDOSI, 1992; HEINZ, 1993), incluindo as UFs somente
em sua microestrutura, e somente um pequeno número dessas unidades cristalizadas constam
num DB e são especificadas com traduções também freqüentes e cristalizadas - sempre que
possível -, a fim de se favorecer a construção de enunciados na LE.
De um modo geral, pode-se confirmar que não sistematização das UFs que
estão contempladas na grande maioria dos dicionários. Nos DLGs brasileiros, na maioria dos
casos, são apresentadas EIs ao lado de colocações, provérbios, expressões regionais, sem
qualquer distinção clara.
No Houaiss (2001), dentro do verbete “pressão”, por exemplo, encontramos
pressão alta ou pressão atmosférica, ao lado da expressão gírica marcar sob pressão
49
(indicada na obra citada como circunscrita ao meio futebolístico e que confirmamos em busca
realizada na Web) e também a EI sob pressão. Não encontramos, todavia, nessa mesma
entrada, nem sofrer (muita) pressão, tampouco pressionar contra a parede, ambas freqüentes
na Web
5
(sofrer muita pressão: 7.450 ocorrências com o verbo no infinitivo; 7.803 com o
verbo no passado simples; e pressionar contra a parede: 326 ocorrências com o verbo no
particípio passado).
A busca por uma EI em DLGs deve ser feita, em geral, buscando-se por uma
palavra-chave presente no idiomatismo. No verbete “pão”, por exemplo, encontramos tanto
pão dos anjos como pão da alma referindo-se à eucaristia e outras EIs como pão, pão, queijo,
queijo, que significa fazer algo sem rodeios ou subterfúgios, a pão e água, designando falta
de comida, a pão e laranja, que significa estar na miséria, ou ainda, tirar o pão da boca de
(alguém), com sentido de privar dos meios de subsistência.
Pode-se constatar que, no caso dos idiomatismos deixar (colocar, pôr) a pão e
água (mal alimentado, com comida escassa ou deixar pouca comida como forma de punição)
e a pão e laranja (indivíduo que está em penúria, quase na miséria), buscamos pela palavra-
chave “pão” porque, se buscássemos por ‘laranja’ não encontraríamos tais EIs, pois, apesar de
possuírem duas palavras-chave, a prioridade foi elencar as EIs dentro do verbete “pão”, ou
seja, pela primeira palavra-chave.
STREHLER (2003) apresenta justamente uma explicação interessante sobre a
questão que envolve o funcionamento do paradigma e a necessidade de se recorrer a uma
interpretação cultural para preservar possíveis analogias, inclusive exemplificando com a
expressão a pão e laranja e com sua variante a pão e banana:
5
<www.google.com.br> ; acesso em 10/09/08.
50
Num primeiro tempo, importa entender que o paradigma é constituído por objetos da classe de
frutas. Em seguida, notamos que, para ascender ao significado ‘ficar na miséria’, precisamos
entender que bananas e laranjas são, para um brasileiro, objetos quase tão comuns quanto o
pão. (p. 149)
O detalhe importante é que a pão e banana não consta no Houaiss (2001) e sua
freqüência é baixa na Web, cerca de 51 ocorrências apenas na busca realizada no Google em
toda a Web e, cerca de 14 ocorrências apenas em páginas brasileiras (uma opção oferecida por
esse motor de busca para uma “pesquisa avançada”).
Sobre a questão das palavras-chave dos idiomatismos, o mesmo ocorre com a EI
botar a boca no mundo ou no trombone, que poderia fazer parte de ambos os verbetes de suas
palavras-chave “boca”, “mundo” ou “trombone”. No Aurélio (1999) a EI está em “boca” e
não em “mundo” ou “trombone”, o que dificulta ou atrasa a pesquisa do consulente porque,
com a variação de tal EI na modalidade oral, fica difícil saber com precisão em qual entrada
consta tal EI, como se pode observar no verbete “boca” transcrito abaixo:
[...] Boca da noite. O princípio da noite, o anoitecer. Boca da serra. Bras., S. Desfiladeiro ou
garganta que dá acesso ao planalto. Boca do sertão. Bras., SP. Cidade ou simples povoado que
antecede uma região desbravada. Boca do estômago. Pop. Parte externa e anterior do corpo,
correspondente à cárdia. À boca pequena. Em voz baixa, às caladas, em surdina, em segredo.
Bater boca. Bras. Discutir, altercar. Botar a boca no mundo. Dar gritos, gritar, bradar. De
boca. Sem comprovação por escrito; oralmente. De boca aberta. Muito surpreendido,
espantado, pasmado. (FERREIRA, p. 212)
No Azevedo (1988), como exemplo do que ocorre em DBs, podemos encontrar,
como parte da entrada gato, os idiomatismos fazer gato e sapato de alguém ou passar como
um gato sobre as brasas. No entanto, a obra não apresenta a EI como cão e gato, bastante
usual e que figura na entrada do substantivo chat (gato) do mesmo dicionário, mas na direção
francês-português. A entrada chat é bem maior que a entrada gato e, por isso, apresenta maior
51
número de acepções e de idiomatismos relativos a esse animal e que poderiam muito bem ser
incluídos na direção português-francês.
Sabe-se que pesquisadores que apontam para a uma realização, quase utópica,
de um DB “ideal”, em que o léxico de duas línguas se apresente com base em regras sintáticas
(distribucionais e transformacionais), semânticas e pragmáticas (contextuais e situacionais).
Para nós, no entanto, esta pesquisa não busca uma obra lexicográfica “ideal”, mas uma obra
adequada ao objetivo que nos propusemos realizar. Um dicionário que contenha todas as
características anteriormente citadas não é exeqüível do ponto de vista comercial (o tamanho
da obra e o preço estão diretamente relacionados e dificilmente se consegue transformar um
livro de dimensões gigantescas em produto de consumo) e um trabalho on-line, apesar de
poder disponibilizar uma enorme quantidade de dados, deverá ser alimentado freqüentemente,
por toda a vida dos responsáveis e, mesmo assim, não dará conta de todos os desdobramentos
que uma língua, organismo vivo, possui.
Quanto à elaboração de dicionários especiais de EIs, constatamos que é uma
prática que ainda carece de sistematização e poucos combinam a classificação alfabético-
semasiológica e onomasiológica, para darem conta, ao mesmo tempo, do aspecto funcional
que é o da eficácia e rapidez da procura de uma expressão, e do aspecto (epistemo)lógico que
é o da busca de uma UF a partir da noção capaz de "condensar" em uma palavra ou conceito-
chave a significação do fraseologismo em questão (como enfatizou GALISSON, 1984, e
DUNETON & CLAVAL, 1990, para o tratamento das EIs).
Se quisermos chegar à elaboração de um DF, primeiramente devemos saber quais
unidades identificar para compor a nomenclatura desse dicionário. Os subsídios para que
sejam feitas as segmentações necessárias e se descrevam a natureza e a composição de
quaisquer ULs encontram-se nos estudos lexicológicos e, mais precisamente, nas pesquisas
52
fraseológicas (KRIEGER, 1993). Foram esses estudos que nos subsidiaram no capítulo
anterior, para a delimitação das EIs.
De qualquer forma, embora as classificações sejam de grande utilidade para o
lexicógrafo, não interessam por si mesmas ao usuário, e a terminologia utilizada tende a não
transparecer no produto final da prática lexicográfica dos DLGs (IRIARTE SANROMÁN,
2000). Por isso, nesses dicionários, normalmente todas as UFs constam ao final do verbete,
sob o rótulo de “locuções”, termo demasiadamente genérico, encerrando qualquer forma
funcional de organização dos elementos disponíveis da língua (como é o caso de “às pressas”,
“desde que”) e não uma maneira de exprimir algo que implique alguma retórica ou supõe
alguma figura. Mas nos DFs, a delimitação da UF tratada pode transparecer no próprio título
da obra.
Em relação a DFs bilíngües, o lexicógrafo, além de identificar combinatórias
como uma unidade de tradução mínima pois embora sejam lexias complexas, são as menores
unidades de funcionamento sintático (MOLINIE, 1986), deverá propor um equivalente que
não se reduza às mesmas paráfrases apresentadas pelos DLGs, precisando suas condições de
emprego. Assim, para faire naufrage au port, por exemplo, temos que encontrar nos DFs,
além da paráfrase definicional “ver todos os projetos desfeitos quando mais prometiam
realizar-se”, um equivalente fraseológico caso exista, como “morrer de sede na beira do
poço”. nos casos em que a lexia complexa de uma cultura não encontrar corrrespondente
na outra, é aconselhável que se reduza a explicações parafrásicas (RÉZEAU, 1990).
Isso posto, intentamos discorrer sobre a organização dos fraseologismos nos
dicionários, à semelhança do que propõe Alvarez (2000).
Em relação à organização macroestrutural de um DF, comecemos a levantar
características e problemas na seleção da nomenclatura.
53
Essa seleção, como a de qualquer outra nomenclatura em qualquer tipo de
dicionário, submete-se a um princípio filológico: a UF a ser inventariada deve figurar em uma
fonte "autorizada". Sabemos que na Lexicografia tradicional, as fontes utilizadas dificilmente
se baseiam no discurso anônimo do cotidiano ou nos usos escritos espontâneos, mas se
restringem aos discursos escritos valorizados socialmente, como o literário e o científico,
considerados como duráveis ainda que de escolha aleatória (REY & DELESALLE, 1979). A
maioria dos DFs, no entanto, deve-se valer justamente de fontes que retratem a linguagem
coloquial, pois esta é que se serve abundantemente dos fraseologismos. Na atualidade, vários
pesquisadores (COLSON, 2003; KILGARRIFF & GREFENSTETTE, 2003) propõem a Web
como o corpus mais adequado para extração de UFs porque, apesar de ser rotulada como uma
fonte secundária de dados lingüísticos, trata-se de uma fonte de fácil acesso, atualizada
constantemente, rica em linguagem coloquial e, portanto um fértil terreno que não pode ser
abandonado para uma produção lexicográfica como a nossa. Assim, dicionários já existentes e
Web podem ser articulados para servir como parâmetro ou ponto de partida para investigações
lexicográficas.
de se considerar ainda que um fraseologismo pode ter um emprego inusitado,
raro ou corrente quanto à sua freqüência no atual estágio sincrônico da ngua. A freqüência
poderia ser um critério para que uma EI constasse num DLG; já nos DFs a nomenclatura pode
ser estendida a unidades menos usuais, vinculadas geralmente a conceitos que perderam
vigência e deixaram de satisfazer a necessidade de expressividade dos usuários (CARNEADO
MORÉ, 1985), desde que devidamente marcadas, o que viria a testemunhar o registro lexical
fraseológico de outras épocas. A questão, porém, que resta ainda resolver, de modo mais
consensual entre os lexicógrafos, e com maior cientificidade, é qual deve ser o limiar de
freqüência que garanta, ou exija, a presença de qualquer UL em um dicionário, ou das UFs em
dicionários específicos, visto que, na verdade, a freqüência é condicionada por diversos
54
fatores, como o meio social, a situação, as preferências pessoais (MESSELAAR, 1988). Mas,
de acordo com Colson (2003), podemos selecionar como a freqüência mínima para um
idiomatismo ao menos uma ocorrência a cada milhão de palavras.
No que concerne à disposição das entradas selecionadas, cabe decidir pela
organização alfabética das palavras-chave, núcleos ou bases dos fraseologismos ou da
primeira palavra de cada UF. A organização pelas palavras-chave, favorita dos DLGs, traz o
inconveniente de uma busca mais trabalhosa para o consulente, pois muitas vezes a palavra-
chave que foi considerada pelo dicionarista não foi a primeira escolha do usuário. Aliás ou
convenciona-se que essa palavra determinará, em grande medida, o significado da expressão,
pois constitui o seu centro semântico e leva consigo a maior força ou carga metafórica
(ALVAREZ, 2000), ou se convenciona uma ordem de classe gramatical, com os substantivos
das UFs, por exemplo, prevalecendo como palavra-chave sobre os verbos e estes sobre os
adjetivos e assim por diante. Já a organização pela primeira palavra do fraseologismo revela
um problema de segmentação (o início da UF para o consulente [por exemplo, “estar na flor
da idade”] pode não ser o mesmo que o dicionarista utilizou [“na flor da idade”]). Desse
modo, parece realmente não haver um critério totalmente favorável ao usuário como defende
Welker (2004) em prol das palavras-chave. Outra consideração a se fazer é que em um DF
não cabe o mesmo sistema de lematização que o adotado nos DLGs, pois lexias complexas
utilizadas no plural ou em determinado tempo ou pessoa verbal devem ser assim
lematizadas.
Quanto à microestrutura, na maioria dos DMLGs, a compreensão das definições
completa-se apenas eventualmente com indicativos que esboçam - muito grosseiramente -
uma configuração dos usos da língua. Nos DBs, esses indicativos, quando aparecem, muitas
vezes não são suficientes se não forem acompanhados por traduções que também observam as
mesmas marcas na LE, sejam elas marcas de freqüência de uso, de espaço, de tempo e sociais.
55
Um aspecto diacrônico é a filiação histórica de uma UF, com a determinação de
sua origem e datação do primeiro emprego conhecido, ou ainda da evolução semântica pela
qual passou sua motivação original. Em DF de perspectiva sincrônica, contudo, não importa
determinar, por exemplo, as motivações que levaram à criação da UF "pulo do gato". Aliás, é
muito comum dicionaristas apresentarem explicações fantasiosas como, nesse caso, da
história de um gato que ensinou tudo o que sabia a uma onça, menos dar um pulo para trás, o
que justamente o salvou do ataque de sua aprendiz. Mas é justamente essa dificuldade
“embrionária” que respalda a vários estudiosos não se referir a determinadas expressões
fraseológicas, como idiomáticas, no sentido restrito de “originárias” daquele idioma em
questão, ao que contra-argumentamos com a noção lato de idiomático, compreendido
enquanto fraseologismos “empregados” por usuário daquele idioma.
As diferentes acepções de uma mesma UF devem também ter atenção dos
lexicógrafos de dicionários especiais (como mostrar os dentes que pode significar «mostrar
agressividade» ou «sorrir abertamente»), ainda que a polissemia não ocorra abundantemente
na fraseologia, pois uma UF tem no geral menos mobilidade contextual que uma UL
qualquer, isto é, não se manifesta livremente em relação semântica e gramatical com outras
palavras (CARNEADO MORÉ, 1985). Por outro lado, muitas vezes encontramos as mesmas
idéias com diferentes formulações fraseológicas (casos de fraseologismos similares ou
sinonímia: levantar acampamento e puxar o carro), ou idéias contrárias (casos de
fraseologismos opostos ou antonímia: perder / ganhar). O mesmo ocorre entre mais de uma
língua, sendo equivalentes interlingüais por exemplo os provérbios: Uma andorinha não
faz verão, Una golondrina sola no hace verano, Una rondine non fa primavera, Une
hirondelle ne fait pas le printemps. Por isso Lausberg (1981) diz que os fatos convergentes
(os sinônimos fraseológicos) são a prova da unidade na diversidade, mas que o número de
UFs totalmente convergentes entre línguas diferentes é bem reduzido, mesmo em se tratando
56
de UFs formuladas por povos diferentes mas que falam uma mesma língua: é o caso do
idiomatismo brasileiro “carne de vaca”, em contraposição ao português vulgar de Lineu.
No que diz respeito aos exemplos para cada fraseologismo, além de todas as
características dos exemplos de qualquer UL em DLG, que podem ser muito ricos em
informação gramatical, pragmática ou sobre a combinatória lexical, verifica-se que eles têm a
função de determinar se o sentido da UF é autônomo ou dependente do contexto. Assim, o
exemplo de um fraseologismo autônomo apenas ilustra seu uso (como é o caso para passar
desta para uma melhor), pois sua definição bastaria para dar a entender o sentido de “morte”.
o exemplo do fraseologismo dependente do contexto é o que lhe determinará o próprio
caráter fraseológico (como cruzar os braços que em contexto denotativo não mais se trata de
uma UF [TRISTÁ PÉREZ, 1988]).
Além do significado, é importante informar sobre as restrições transformacionais
e de combinabilidade dessas unidades polilexicais ao usuário do dicionário. Assim ele fica
sabendo que, por exemplo, tirar um barato não ocorre na voz passiva, e que o sujeito dessa
expressão verbal sempre é humano.
Quanto ao espaço, impõe-se a questão dos domínios geográficos diferentes,
qualificando os empregos como regionais. Essas marcas correspondem à expansão da
nomenclatura em relação à uma norma "central" e são delicadas tanto na descrição de
fraseologismos de um idioma falado em países de grandes dimensões, caso do Brasil, como
em países menores mas com várias “etnias” bem delimitadas, por exemplo, a Espanha.
Em relação às marcas sociais ou diastráticas, não critério realmente preciso
para se distinguirem os diversos níveis de língua ou marcas estilísticas. Uma vez que as
fronteiras entre os níveis são cada vez mais questionáveis, alternam-se dentre os dicionários e
suas definições não têm valor absoluto (HEINZ, 1993). Segundo Bárdosi (1992), dever-se-ia
utilizar menos classificações, mas bem escolhidas e claras, para qualificar unicamente o que
57
se afasta de modo evidente e pronunciado de um uso lingüístico neutro, no sentido amplo do
termo. Assim, teríamos principalmente o vel culto (em que o fraseologismo, como “ou vai
ou não vai”, é utilizado em uma linguagem formal, com um vocabulário mais rebuscado), em
contraposição ao nível coloquial (no caso de UFs como “ou vai ou racha”, encontradas em
linguagem informal, que revela intimidade entre os interlocutores, em uma situação de
comunicação descontraída [PEYTARD & GÉNOUVRIER, 1970]) e ao nível vulgar (como
“ou caga ou sai da moita”, mais adequado para classificar fraseologismos que chocam,
estando mais associados a uma intencionalidade situacional do que a identificação de um
grupo sociolingüístico). E além dos níveis e registros de língua, um DF não poderia deixar de
apontar os valores das unidades descritas, apresentando nuanças de efeito pejorativo (emprego
que manifesta uma atitude hostil como em “politiqueiro” para desonestidade, “judeu” para
designar pessoa avarenta ou “perua” para mulher que almeja vestir-se com elegância mas
exagera e se torna extravagante), irônicos (emprego da antítese para se dizer o que pensa
como em “sutil como um elefante numa loja de cristais”).
Além da tradicional classificação semasiológica, seria muito útil, para DFs que
assumissem a função de atenderem às necessidades de produção textual, uma ordenação
onomasiológica que agruparia os fraseologismos relacionados sob conceitos-chave que
dessem conta de sua significação. Por exemplo: o conceito EMBRIAGUEZ reuniria a série
bêbado como um gambá, encher a cara, encher a lata, entortar o caneco, estar alto, estar
chumbado, estar mamado, meio alto, passar da conta, tomar todas.
Segundo Binon e Verlinde (no prelo), a organização onomasiológica é
fundamental porque facilita não apenas a integração da UF, mas também sua memorização.
No que se refere especificamente à Fraseografia bilíngüe, deparamo-nos
inevitavelmente com o viés da Tradução e do Ensino-aprendizagem de línguas. Como indica
Lerat (1995), os tradutores compartilham a mesma convicção que professores de LE e
58
lexicógrafos: o domínio de uma língua passa pelo domínio de suas UFs, o que também é
enfatizado por Borba (2003). No ensino/aprendizagem de uma LE, a absorção de vários tipos
de UFs mostra maior domínio do idioma estrangeiro, dando fluidez ao discurso do aprendiz,
além de revelar aspectos culturais da sociedade que utiliza da LE estudada.
Roberts (1996) acredita que a aprendizagem de fraseologismos em LE, para os
quais ainda o existem estratégias pedagógicas adequadas, é fonte de grande dificuldade,
pois carregam uma carga cultural compartilhada (GALISSON, 1988), comumente
compreendida entre os nativos. Por isso os DBs deveriam reservar-lhes uma atenção especial.
Binon e Verlinde (no prelo), não concebem um dicionário que se pretenda pedagógico sem
um tratamento cuidadoso e detalhado das UFs. Como na maioria das vezes isso não se
verifica de modo sistemático nem satisfatório, seja nos DBLGs seja nos plurilíngües (DPs)
para aprendizes de LE, cabe mesmo ao DF bilíngüe descrevê-los e propor UFs equivalentes,
apesar das divergências lexicais e culturais entre fraseologismos de línguas diferentes, uma
vez que as línguas têm imagens diferentes para expressar conceitos suficientemente próximos
para serem adequados à tradução (LOFFLER-LAURIAN, PINHEIRO-LOBATO; TUKIA,
1979). Mas o lexicógrafo de DFBs deve lembrar que o usuário não fará uma consulta apenas
para buscar a equivalência, mas sim para levar a cabo as tarefas de decodificação
(compreensão), de codificação (produção) ou de tradução de formas que pertencem a um
discurso.
59
CAPÍTULO III
ONOMASIOLOGIA
De acordo com Babini (2001), o termo “onomasiologia” foi usado pela primeira
vez por A. Zauner em um estudo, nas línguas românicas, dos nomes das partes do corpo
humano.
Babini apresenta ainda o verbete de Vittorio Bertoldi, responsável pelos verbetes
concernentes à lingüística sobre a onomasiologia, constantes da Enciclopedia Italiana di
Scienze, Lettere ed Arti, de 1935. Pela definição de Bertoldi, a onomasiologia é entendida
como um aspecto particular de busca lingüística que, partindo de uma idéia determinada,
examina os vários modos com os quais foi encontrada uma expressão na língua.
3.1 As teorias dos triângulos e a onomasiologia
Dentre as muitas diretrizes que cercearam a onomasiologia, retomamos o triângulo
(fig. 3) de Ogden e Richards (1972, p. 32), pois é freqüente a discussão (não somente na
Lingüística, mas na Antropologia e também na Psicologia) acerca da relação estabelecida
entre “signos” e “coisas”, dentro do processo cognitivo, para se chegar ao questionamento
mais amplo sobre a “natureza” e o “lugar” do acontencimento semântico, ou seja, de que
forma e em qual lugar se firma a relação entre significante e significado dentro da mente
humana: questões levantas desde o advento da Lingüística e discutidas ainda hoje sem que
haja definição consensual.
60
Triângulo de FIGURA 3
Ogden e Richards (1972, p. 32)
Por esse motivo, Ogden e Richards (1972) propõem um triângulo que relaciona
“símbolo”, “pensamento” (ou “referência”) e “referente”. Tal tradição de tomar o triângulo na
representação da relação acima citada, apesar das críticas, ainda se mantém, porém, houve
uma tentativa por parte de Baldinger (1966) de dar os créditos apenas a Ullmann. Para tanto,
Blikstein (1990) retifica essa imprecisão, ainda que Baldinger afirme que o seu ponto de
partida tenha sido o triângulo de Ullmann:
O apego ao modelo de Ullmann é tão ofuscante que Baldinger chega a obliterar a formulação
original de Ogden e Richards, colocados sintomaticamente entre parênteses no título da
Primeira Parte de Teoría Semántica: “El Triángulo de Ullmann (Ogden e Richards)”. Os
parênteses podem causar espécie, indicando a falta de rigor ou de precisão no que respeita às
bases teóricas de Baldiger (afinal, o triângulo é de Ullmann ou de Ogden e Richards?), mas
esse aparente “lapso” científico é muito mais um sintoma de que a adoção do esquema de
Ullmann, insistentemente proclamada por Baldinger. (grifos no original, p. 29)
Blikstein (1990, p.29) acrescenta ainda que, “na verdade, o que Baldinger chama
de “triângulo de Ullmann” é ainda o triângulo de Odgen e Richards... com outros nomes e,
para tanto, basta observar a sua reprodução em Teoría Semántica.
61
Na mesma obra, Blikstein apresenta o triângulo de Ogden e Richards (fig 4), e
explica que, dentro desse modelo, o significado fica no vértice da referência, ou seja, “a
realidade extralingüística não seria decisiva para a articulação do significado dos signos; o
que importa é que a relação entre símbolo e referência seja correta e até lógica(p. 25, grifos
originais).
FIGURA 4 Triângulo de Ogden e Richards por Blikstein (1990, p. 24)
Na figura 5 temos o Triângulo de Ullmann
FIGURA 5 Triângulo de Ullmann (BLIKSTEIN, 1990, p. 28)
62
Baseado nos estudos de Saussure e sobretudo no triângulo apresentado por Ogden
e Richards, Ullmann (1964) propôs tal triângulo (fig. 5) que relaciona o “nome”, o “sentido” e
a “coisa”.
No caso em que se considera a UL composta por “forma” e “conteúdo”, este
esquema mostra que a significação liga o “nome” (a “forma”) ao conceito. O “nome” liga-se à
“coisa” por meio do “conceito”.
Há, porém, o caminho inverso, em que a designação vai do “conceito” ao “nome”
(à “forma”), ou seja, o “conceito” é designado por diferentes “nomes” (diferentes “formas”).
Para nós, a teoria dos triângulos é pertinente porque nos permite compreender,
principalmente, a interdependência existente entre a semasiologia e a onomasiologia: a
significação, que parte da “forma” (“nome”) para chegar ao “conceito”, e à “designação”, que
parte do “conceito” para chegar à “forma” (“nome”).
Sobre essa interdependência, Baldinger (1966) propõe que “a posição no campo
semasiológico determina ao mesmo tempo a posição no campo onomasiológico” (p. 26) e, por
isso, o ideal seria representá-la por dois triângulos diferentes, para ilustrar que um dicionário
de estrutura partindo da forma alfabética e outro partindo do conceito têm sua importância e,
por vezes, se complementam.
Posteriormente Heger (1965) criticou Baldinger por este ter mudado o sentido
primário do triângulo de Ullmann (na verdade o triângulo de Ogden e Richards com uma
pequena alteração) e propôs o também conhecido trapézio (fig. 6), que tem a vantagem de
não desfazer a unidade do signo lingüístico (conjunto de significações ligadas a um mesmo
monema).
63
FIGURA 6 Trapézio de Heger (BLIKSTEIN, 1990, p. 31)
Para Blikstein (1990),
É evidente que Heger conseguiu divisar melhor as etapas da estruturação do conteúdo do
signo, desde a substância fônica (ou significante) até o conceito: a substância nica liga-se
primeiro a um monema (ou unidade significativa) e este, por sua vez, deverá conduzir o
significado (conjunto de todas as significações), depois ao semema (conjunto de semas, ou
traços semânticos) e finalmente ao conceito. (p. 31)
Com base nessas observações, entendemos que a onomasiologia e a semasiologia
se complementam porque inter-relacionam as relações humanas, em suas diversas formas de
manifestação (cultura, história, economia, sociedade) diretamente com a língua, sob duas
formas de estruturação, organizadas onomasio ou semasiologicamente.
3.2 A inter-relação entre a Onomasiologia e a Semasiologia
Embora as críticas à onomasiologia recaiam sempre sobre a subjetividade dessa
forma de estruturação, é a própria língua que permite que façamos comparações, dentro de um
mesmo idioma ou entre idiomas diferentes, a partir de uma base estrutural.
64
Ao longo da evolução da Lexicologia e da elaboração de obras lexicográficas, a
onomasiologia era comumente questionada (e muitas vezes deixada de lado) porque se
supunha que os dicionários onomasiológicos (analógicos, ideológicos) não apresentavam a
objetividade dos dicionários semasiológicos, organizados em uma estrutura alfabética.
Defendia-se que na onomasiologia havia certa “abstração”, uma subjetividade
idiossincrática, na classificação extralingüística e tais críticas negligenciavam as vantagens
epistemológicas de uma obra organizada onomasiologicamente (por temas, campos
semânticos, conceitos), que, de certa forma, nos incita a uma análise lingüística mais profunda
da língua.
No mais, não poderíamos deixar de dizer que um dicionário de EIs
onomasiológico certamente trará vantagens porque além de permitir o agrupamento de
idiomatismos sinônimos (ou parcialmente sinônimos), terá, ao final da obra, as mesmas EIs,
elencadas alfabeticamente, para facilitar a consulta. Portanto, como nos disse Feller (1926,
apud BALDINGER, 1966, p. 35), “o problema é duplo: será necessário partir da palavra para
atingir o pensamento (semântica), e partir do pensamento para atingir as palavras
(onomasiologia)” e o que propomos em nosso trabalho é tanto estrututar as lexias complexas
por meio de conceitos (buscando desvendar relações semânticas) quanto facilitar a consulta
com um índice remissivo alfabeticamente organizado.
Para Baldinger (1966),
A onomasiologia estuda igualmente uma estrutura, isto é, as posições recíprocas das diferentes
designações e por isto reconhecemos, como no caso da estrutura semasiológica, um centro de
um ou de diversos pólos com um campo objetivo, afetivo ou misto ao seu redor. (p. 26)
65
Esclarece, ainda, que:
A estrutura semasiológica (ou campo semasiológico) define-se como um grupo de sememas
(=significações) ligado a um significado que, por sua vez, se liga por consubstancialidade
quantitativa a um monema (mas ligado freqüentemente a diferentes sistemas conceptuais).
A estrutura onomasiológica (ou campo onomasiológico) define-se como um conjunto de
sememas (=significações) ligado a um conceito - que é determinado por sua posição num
sistema conceptual - mas, fazendo parte de diferentes significados, ligados por
consubstancialidade quantitativa a diferentes monemas. (p. 33)
Assim, a estrutura onomasiológica, diferentemente da semasiológica, que é
baseada na polissemia, baseia-se nas relações sinonímicas, pois adota a perspectiva daquele
que fala, “daquele que deve escolher entre diferentes meios de expressão” (BALDINGER,
1966). Já a semasiologia prefere a perspectiva daquele que ouve, ou seja, o próprio
interlocutor deve determinar, dentre todas as significações possíveis de uma unidade lexical, a
que ele entende como resposta à sua dúvida.
Segundo o esquema de Heger (1965), o ponto de partida do percurso
semasiológico é o significado de um monema (unidade mínima dotada de significado),
enquanto que no percurso onomasiológico acontece o inverso, pois se parte dos conceitos ou
semas para encontrar os diferentes monemas (Cf. fig. 7):
SEMASIOLOGIA ONOMASIOLOGIA
---------------> <---------------
SIGNIFICADO SEMEMA CONCEITOS
l-------------------------l-------------------------l
FIGURA 7 Esquema de Heger (BABINI, 2001, p. 34)
66
Pottier (1992) nos propõe um interessante modelo do processo gerativo da
enunciação, segundo o qual o ponto de vista se situa no enunciador (ou emissor) na direção
onomasiológica, em que se vai da intenção de dizer ao enunciado, ao contrário da direção
semasiológica, que vai do enunciado à sua interpretação.
O enunciador tem, então, como ponto de partida o mundo referencial. Na medida
em que intenciona dizer algo, ele começa a conceitualizar sua intenção. Essa conceitualização
deve ser posta em signos por meio de um processo de semiotização. A essa passagem, da
conceitualização à semiotização, o autor chama de fenômeno de designação, fenômenos nos
quais se estabelecem relações entre o mundo referencial e os sistemas de línguas naturais. E a
enunciação é, como se vê, a passagem das virtualidades da língua ao discurso realizado.
Sousa (1995) entende que a onomasiologia parte de uma noção, um objeto
determinado, e se propõe a estudar comparativamente os caminhos que essa noção seguiu até
chegar a uma palavra ou expressão. Processo semelhante ocorre quando lidamos com grupos
homogêneos de noções (como partes do corpo, relações de parentesco, hierarquias militares)
presumindo que dentro de cada grupo, as mudanças de significação se produzam com
freqüência e produzam certos caracteres comuns.
3.3 A lexicografia onomasiológica
No que se refere ao dicionário onomasiológico, que parte de conceitos e de
determinadas matérias para indicar o termo que corresponde a eles, em virtude das relações
mútuas existentes entre esses conceitos, muitas vezes é denominado dicionário de conceitos,
dicionário de matérias, dicionário analógico, dicionário ideológico.
A onomasiologia refere-se a aspectos ligados à denominação, pois parte da idéia
ao signo, e os estudos sobre a onomasiologia desenvolveram-se principalmente no domínio
67
das línguas românicas. Nesses estudos, o ponto de partida era, geralmente, o latim, que serviu
para definir as noções utilizadas para comparar as diferentes línguas românicas.
Acerca da produção de uma obra onomasiológica, diz Baldinger (1966),
[...] a onomasiologia (em combinação com a evolução estrutural sobre o plano dos conceitos,
sugerida sobretudo por Coseriu) que promete realmente resultados novos. Ela nos faz ver a
estrutura lexical de uma e mesma língua e possibilita a comparação entre diferentes nguas
numa base estrutural. [...] A onomasiologia estuda a realização lingüística de conceitos em
qualquer domínio do léxico. (p. 34)
Para Babini (2001), o dicionário onomasiológico deve resolver o problema inverso
daquele de um dicionário semasiológico, ou seja, para uma idéia (noção ou conceito)
conhecida, busca-se a unidade lexical ou termo que a exprima. Um dicionário
onomasiológico, ou de perspectiva onomasiológica, é portanto, um repertório no qual se pode
passar da idéia (noção ou conceito) à unidade lexical.
Embora os dicionários conceituais, como são os onomasiológicos, não sejam tão
abundantes quanto os dicionários formais, é importante ressaltar que ocupam um lugar muito
importante no quadro dos repertórios lexicográficos, justamente por oferecerem informações
de um viés oposto ao das obras semasiológicas.
Babini (2001) analisa, na mesma obra, o Dictionnaire Onomasiologique des
Langues Romanes de Henry Vernay e mostra que o autor se propõe a elaborar um repertório
lexical, comparando as diferentes línguas românicas de um ponto de vista sincrônico e
utilizando-se de um método onomasiológico e não somente de um trabalho etimológico.
Em outras palavras, no que diz respeito ao percurso que permite encontrar uma
unidade lexical ou terminológica com base em seu conteúdo semântico (“idéia” ou “noção”),
Babini apresenta seis possibilidades de escolha e estas também podem ser usadas
68
simultaneamente: a) pelo sistema nocional ou plano de classificação das idéias (conceitos)
apresentando-os no início das obras; b) pela classificação sistemática das entradas; c) pelo
conteúdo semântico das entradas; d) pela sinonímia; e) pela antonímia; f) pela analogia.
No nível na macroestrutura podemos constatar a freqüência de determinada
unidade lexical e decidir sobre sua inserção ou não no dicionário. Dentro da microestrutura de
um dicionário podemos encontrar, dependendo do tipo de obra que se está consultando, a
transcrição fonética ou pronúncia, a etimologia, as propriedades sintáticas, as acepções, as
restrições de uso, as colocações, entre outras. Então, sempre que possível, tanto a macro
quanto a microestrutura devem tentar abranger todos os percursos onomasiológicos
apresentados anteriormente. Por isso, é preciso realizar um grande trabalho de estruturação do
léxico de uma língua ou de um vocabulário de um determinado domínio.
A fim de analisarmos uma obra lexicográfica que revela o percurso
onomasiológico, tomemos como exemplo o Dicionário analógico da língua portuguesa, do
Padre Carlos Spitzer, produzido em 1936. Constatamos que, embora tenha sido idealizado na
primeira metade do século XX, houve uma grande preocupação quanto à coerência na
apresentação das entradas, 688 no total, para que existisse uniformidade na obra que foi
organizada analogicamente.
Para ratificar essa preocupação com a coerência na produção de um dicionário, é
explicitado no dicionário de Spitzer (1936) que:
[...] é próprio do sábio e do filósofo abarcar os conceitos gerais duma multidão de coisas
reduzindo tudo à mais rigorosa síntese, para logo, espraiando-se, selecionar e dividir, e tornar
depois a agrupar as partes em torno das novas divisões, até esgotar todos os meios disponíveis
e próprios para a realização do objetivo escolhido. (p. 7)
De acordo com Babini (2001, p. 85), o dicionário de Padre Carlos Spitzer foi
publicado 14 anos depois de sua morte e a introdução dessa primeira edição da obra (reedidata
69
em 1952) não fora escrita pelo autor. No entando, Spitzer traz um interessante “Plano de
Classificação” (p. 11), no qual apresenta “todo o vasto e complexo mundo das idéias,
reduzindo-as e sintetizando-as no estreito âmbito das categorias filosóficas” (p. 7); em seguida
reduz as seções em idéias gerais e finalmente agrupa as palavras e locuções de nossa língua.
Spitzer esclarece ainda, na página 10, que se propôs a colecionar as palavras e
locuções da língua, não as dicionarizando alfabeticamente, mas partindo das palavras para as
idéias, associando-as pela ligação ideológica e partindo das idéias para as palavras e locuções.
Acrescenta também que a obra teve a finalidade de apresentar “a palavra ou locução que se
ignora ou que fugiu da memória e não dar a explicação ou sentido da palavra ou locução. Para
esse fim existem os dicionários comuns.”
Familiarizar-se com o “Plano de Classificação” (p. 11), da obra de Spitzer, facilita
a pesquisa e faz com que o leitor assimile as associações existentes entre as seis classes
apresentadas (I - Relações abstratas; II - Espaço; III - Matéria; IV - Faculdade cognoscitiva; V
- Faculdade volitiva e VI - Faculdade afetiva), e os 688 subgrupos referentes a essas seis
classes. O autor ainda subdivide os 688 subgrupos em substantivos (S.), adjetivos (A.), e
verbos (V.) para que o consulente apresse sua consulta buscando também pela categoria
gramatical.
Outro aspecto muito interessante da obra póstuma do Padre Carlos Spitzer é que,
embora datada de 1936, abarca muitas EIs e as relaciona com os grupos e as classes
apresentadas, mostrando-nos que o percurso onomasiológico é muito importante quando a
dúvida não se restringe à busca de uma paráfrase ou de um sinônimo.
Por exemplo, as EIs ser da mesma farinha (atualmente ser farinha do mesmo saco
ou ainda ser do mesmo barro esta última, de origem bíblica são mais freqüentes), ser pau
da mesma ginjeira, ou ser da mesma panelinha estão dentro da categoria verbo (V), dentro da
70
subdivisão Igualdade na espécie (15), que integra a Seção II (Relação), que faz parte da
Classe I, a de Palavras que exprimem relações abstratas. (p. 13)
É importante observar, contudo, que essa obra pode não apresentar determinada
EI como é usada nos dias de hoje, mas trata-se de um inventário feito de maneira muito
apurada e moderna para seu tempo.
Assim, o consulente que buscava sanar sua dúvida acerca do significado da EI ser
da mesma farinha ainda encontrava outras EIs equivalentes e fazia a escolha quanto à melhor
significação da expressão, com sinônimos apresentados também na subdivisão Igualdade de
espécie. Observe-se como foram apresentadas as EIs citadas no dicionário em questão:
15. Igualdade na espécie - S. (substantivo) igualdade, uniformidade, conformidade,
homogeneidade, homologia, concordância, consonância, harmonia; V. (verbo) concordar,
harmonizar-se, convir, conformar, igualar, homologar, são da mesma panelinha, são paus da
mesma ginjeira, estar parelho, fazer parelha, correr parelhas, emparelhar, ser da mesma
farinha, espécie, casta, raça; A. conformidade, igual, uniforme, homogêneo, homólogo,
harmônico, de uma peça, da mesma massa, cré com cré, com lé; tal ou qual, uma espécie de.
(grifos originais, p. 30)
Há ainda obras desse tipo mais atuais, como é o caso do Dicionário de provérbios,
idiomatismos e palavrões (XATARA e OLIVEIRA, 2002).
A perspectiva adotada pelas autoras para a apresentação da terceira parte do
dicionário, a de “palavrões”, é onomasiológica pois, “os termos relacionados em cada campo
léxico apresentam traços de semelhança entre si, embora possam pertencer a normas ou
registros lingüísticos diferentes” (p. 275).
Há, na obra de Xatara e Oliveira, uma divisão dos “palavrões” em oito campos
léxicos erótico-obscenos: 1. A relação sexual; 2. As fases da relação sexual; 3. Os parceiros;
4. Os órgãos genitais; 5. As principais zonas erógenas; 6. As posições; 7. Outras práticas
sexuais; 8. A prostituição e uma subdivisão mais específica em cada um dos campos léxicos
71
citados, como, por exemplo, no segundo campo, em que As fases da relação sexual,
subdividem-se em A excitação; A sedução; O orgasmo; O coito interrompido; A impotência e
a frigidez.
Como há, no final da obra, um índice remissivo para a busca dos palavrões, pode-
se, além de ter a dúvida sanada quanto à correspondência em francês ou em português,
estabelecer as possíveis relações existentes entre uma palavra e outra. Ao buscarmos, no
índice remissivo, pelo verbete “volúpia”, é indicado que este faz parte do campo A excitação,
que faz parte do grupo 2. As fases da relação sexual, e que se pode usar muitos outros termos
para designar o mesmo ato, tanto em português, como no caso de aceso, apetite sexual, em
ponto de bala, aquecimento, quanto em francês, affriander un homme, affrioler, aiguillon de
chair, aimer le cotillon.
No Dicionário geral e analógico da língua portuguesa (BIVAR, 1948) podemos
observar a minuciosidade com que os coordenadores apresentam a obra, no que concerne à
parte analógica do dicionário (segunda parte), logo na “Nota dos Coordenadores” observa-se:
Pela sua orgânica especial e pela extensão dos elementos que reúne, constitui este dicionário
inteira novidade entre nós, e destina-se a preencher uma lacuna que desde muito se faz
sentir em Portugal. [...] Acentuamos, no entanto, que não houve da parte do autor a
preocupação de apresentar uma sistematização filosófica ou científica, mas antes uma
classificação prática, acessível ao maior número de pessoas e, por isso mesmo, de fácil
compreensão. (p. XI)
Seguido à “Nota dos Coordenadores”, um interessante modelo para a consulta
tanto do dicionário analógico, não tão comum na época, quanto do dicionário geral,
[...] Pretende-se conhecer a palavra que define medo doentio de atravessar pontes. a) No
dicionário analógico ou no texto procura-se o capítulo “Sentimentos e Qualidade do Homem”,
e neste os grupos de Medo com os 4787 a 4794. Aí, correspondente ao 4792, o grupo
Fobias que, para receio mórbido de atravessar pontes, a palavra gefirofobia. b) No
72
dicionário geral, a seguir à definição de qualquer palavra que designe medo, fobia ou idéia
afim, encontra-se o 4792 ou outro muito próximo que permite chegar ao grupo das fobias.
(p. XIII)
3.3.1 As EIs e a Onomasiologia
Quanto às EIs especificamente, no mercado inúmeras obras lexicográficas que
organizam essas UFs semasiologicamente, seja em língua portuguesa, caso do Dicionário de
expressões populares brasileiras (FRANCO, 1967) - trabalho que não engloba apenas os
idiomatismos tal qual os definimos -, seja em trabalhos bilíngües, como a seção de EIs em
língua francesa e portuguesa do Novo PIP (XATARA e OLIVEIRA, 2008). Assim,
idiomatismos que têm o mesmo significado geralmente não são inter-relacionados. Por
exemplo, as EIs bater as botas, fazer viagem sem chapéu e sono eterno, que significam
“morrer” são apresentadas em diferentes entradas e, seja pela ordem alfabética da primeira
palavra, seja pela palavra-chave da expressão, ficam distantes umas das outras.
Nos dicionários orientados pelo processo da semasiologia, o consulente tem por
objetivo sanar sua dúvida com relação ao significado do idiomatismo apresentado. Em uma
obra onomasiológica, ao consulente são disponibilizadas informações para a codificação da
língua em geral.
Justamente a recuperação dessa rede semântica é uma das vantagens de um
dicionário onomasiológico, pois a onomasiologia dispõe as EIs ao redor de um mesmo
conceito, como SUCESSO, por exemplo, e evidencia as relações existentes entre elas. Com
esse agrupamento de EIs que, ao menos em parte, dividem o mesmo campo semântico, a
possibilidade de comparação dos idiomatismos e a análise das informações apresentadas em
cada verbete, tais como, definições, concordância, informações enciclopédicas apresentadas
entre colchetes, tais como, níveis de uso (se coloquial, culto, eufêmico, irônico, pejorativo,
73
hiperbólico, vulgar) e/ou a origem comprovada (se advindas da Bíblia ou de acontecimentos
históricos, por exemplo) ou ainda de origem suposta (com referências a possíveis analogias
existentes entre o significado da EI e suas partes constitutivas). Assim, as especificações
estilísticas dos idiomatismos de significação correlata estarão dispostas dentro de cada
verbete, como parte das nuanças diferenciadoras que regem o uso dos idiomatismos.
Tanto a EI comer o pão que o diabo amassou quanto descer ao fundo do poço,
significam DIFICULDADE, em maior ou menor grau se comparadas entre elas ou mesmo
com outras EIs que significam “sofrer” como em maus lençóis ou na corda bamba, mas todas
poderiam ser agrupadas nesse conceito. Em sua busca, além de o consulente chegar à
informação desejada com relação ao significado do idiomatismo ele ainda encontraria uma
gama de informações que certamente enriqueceriam sua consulta.
Quando a obra prefere contemplar o idiomatismo por uma de suas palavras-chave
fica difícil saber em qual verbete encontrá-lo, pois expressões que o possuem apenas
uma palavra-chave, como é o caso de estar com um nó na garganta; portanto, nesse exemplo,
em qual entrada deveríamos buscar a EI? Buscando em ou em garganta? Além disso,
quando encontramos a EI procurada não temos a chance de relacioná-la a outras EIs que, em
muitos casos, poderiam ajudar no esclarecimento da dúvida ou até substituí-la, se o interesse
fosse encontrar um idiomatismo sinônimo ou um equivalente mais próximo ao buscado.
Câmara Jr. (1996), trata da onomasiologia como um método de pesquisa que
consiste em reunir as expressões existentes em uma língua para traduzir determinada noção.
Com isso, parte-se de significados, capazes de ter expressão lingüística, para se chegar a
formas lingüísticas, ou seja, a partir de um conceito, idéia ou noção, um usuário de uma
língua pode chegar a uma EI para se expressar.
Embora muitas EIs sejam sinônimas por terem basicamente o mesmo significado,
atentamos para as nuanças que diferenciam uma da outra e, assim, pudemos constatar que o
74
uso é regido por essas sutis diferenças. Por exemplo, embora as EIs, ser mão fechada, ser
seguro, avarento como um turco, sejam usadas para caracterizar a AVAREZA, elas possuem
diferenças que determinam seu uso. Em ser mão fechada, há a referência ao ato de segurar e
reter o dinheiro nas mãos, além de manter uma relação de antonímia com a EI ser mão aberta,
enquanto que ser seguro não tem sentido pejorativo e faz referência àquele que controla seus
gastos e é econômico. Já na EI avarento como um turco uma marca cultural no que se
refere a “turco”, relacionado, no Brasil e em outras culturas, à sovinice.
Para Caramori (2000),
As expressões idiomáticas comportam-se como se estivessem em uma roda (roda temática), de
mãos dadas: virar uma fera pode parecer mais assustador do que ficar uma arara, mas, em
determinados contextos, elas serão facilmente intercambiáveis. Mais arriscado ainda é dizer até
onde vão os semas de cada uma delas que se comportam como laranjas nas mãos de um
malabarista, ora agarro um deles, ora todos, ora deixo-os em movimento (ficar de bico calado,
ora em silêncio, ora em segredo, ora silêncio e segredo). (p. 66)
Podemos concluir que o agrupamento onomasiológico proposto dos idiomatismos
que apresentaremos certamente virá a ser útil tanto ao consulente comum, à procura dos
significados das expressões quanto àquele interessado em saber qual expressão melhor se
encaixa na resposta à sua dúvida.
Um dicionário dos idiomatismos mais usuais na língua portuguesa do Brasil em
uma perspectiva onomasiológica é extremamente útil por facilitar que se estabeleçam as
relações analógicas intralinguais existentes entre os idiomatismos. É, pois, por meio dessas
relações analógicas que noções de um mesmo domínio poderão ser agrupadas em conceitos.
Além disso, a partir de um trabalho como este, monolíngüe, há a possibilidade real de
inúmeros desdobramentos em pesquisas lexicológicas que permitirão que se comparem
diferentes aspectos culturais existentes dentro de uma mesma língua, falada em diferentes
75
países, caso dos países lusófonos, além de pesquisas contrastivas relacionando cultura e
língua por meio das EIs.
76
CAPÍTULO IV
MATERIAL E MÉTODOS
Conforme dissemos anteriormente, esta tese é um prosseguimento tanto de nosso
trabalho de mestrado, Proposta de dicionário onomasiológico de expressões idiomáticas
(RIVA, 2004-a) como também de outras tantas pesquisas acerca dos idiomatismos que
realizamos (na graduação, em artigos científicos publicados, na participação em eventos, em
dicionários bilíngües publicados sobre o tema), sempre com o objetivo primordial de produzir
uma obra lexicográfica e buscar novos caminhos para a estruturação onomasiológica das EIs
da língua portuguesa do Brasil.
Para tanto, esclarecemos que tomamos como ponto de partida a nomenclatura do
Dictionnaire électronique d’expressions idiomatiques français-portugais-français
(XATARA, 2007), que traz um recorte das expressões comprovadamente usuais, segundo
critérios que apresentamos neste capítulo, na língua portuguesa de nosso país.
Discorremos também sobre o limiar de freqüência das EIs e a utilização da World
Wide Web como o ambiente mais adequado para a extração de ocorrências, escolha feita após
pesquisas realizadas em diferentes corpora eletrônicos, como o SketchEngine, on-line, ou o
Laboratório de Lexicografia da Unesp de Araraquara (LL), corpus fechado.
4.1 A Web a serviço da Lingüística de Corpus
Ao observarmos as pesquisas lexicográficas realizadas duas ou três décadas
atrás, vamos confirmar as dificuldades que tiveram lexicógrafos da época, nos mais variados
77
tipos (e instâncias) de trabalhos feitos nesse período. É certo que, naquele tempo, nem mesmo
a manipulação de corpora lingüísticos era fácil, o que dirá das análises que podemos fazer,
hoje, sobre questões relacionadas à freqüência de uma unidade lexical (simples ou complexa),
seu grau de lexicalização.
Como uma das preocupações das pesquisas lingüísticas era a análise adequada de
grandes quantidades de dados, que eram coletados e analisados manualmente e, em geral,
armazenados em fichas, é evidente que a possibilidade de erros era maior do que a de hoje
(BERBER SARDINHA, 2004).
Com o desenvolvimento de novas tecnologias esse problema foi superado e, nessa
nova forma de abordar a língua, passou-se a observar os múltiplos desdobramentos das
pesquisas lingüísticas e encarar mais de perto a língua como um fenômeno social, cujo uso é
heterogêneo e que é passível de estudos empíricos por meio de corpora.
O pesquisador pode observar a ngua, inferir regras ou investigar padrões que a
própria língua apresenta, em um ambiente autêntico e natural. Confirma-se, então, que essa
abordagem surge como um novo modo de investigação lingüística, envolvendo aspectos
teóricos e/ou filosóficos e contribuindo para diversas áreas de estudo e pesquisa, caso da
Lexicografia, Ensino de línguas, Tradução, entre outras.
Admitindo que no cenário atual é impossível não pensar na tecnologia como
ferramenta para alguns tipos de pesquisas lingüísticas, apresentamos as escolhas que
nortearam nosso trabalho, ou seja, a relação entre a Tecnologia e a Lexicografia, do advento
da Lingüística de Corpus (LC) até o uso de corpora em pesquisas lexicográficas
(confirmando a importância de consultar um corpus para testar hipóteses ou fornecer
evidências) e indicando maneiras de se analisar a Web como corpus para a Lexicografia e
algumas ferramentas que auxiliam na extração de concordâncias da Web.
78
4.1.1 Tecnologia e Lexicografia
Atualmente é quase impossível pensar na realização de qualquer atividade no
âmbito da Lexicografia ou da Terminologia sem recorrer à informática. O universo
tecnológico não é mais restrito às atividades práticas, mas também ao mundo da ciência e da
cultura, de tal maneira que, hoje, ciência e cultura também estão ligadas à tecnologia. Sobre
esse novo olhar sobre a relação entre a tecnologia e o acesso a grandes quantidades de
informação, concordamos com Zavaglia (2002) que nos diz que,
A introdução do computador no quotidiano das pessoas afetou a sua maneira de enxergarem o
mundo, transformando-as em seres mais conscientes e exigentes não somente com o mundo ao
seu redor mas também com o mundo além-mar, sem fronteiras, atingível e acessível, em
segundos, por meio da Internet, a rede mundial de computadores (p. 17)
Sobre a transformação pela qual passou a Lexicografia com a chegada das novas
tecnologias, Biderman (2001) resume,
A Lexicografia e a Terminologia são indubitavelmente as áreas do conhecimento lingüístico
que mais se beneficiaram com as informações propiciadas pelos corpora de língua escrita e
falada e pelas ferramentas computacionais. Para configurar o lemário de um dicionário, por
exemplo, são muito úteis, tanto para incluir palavras novas como para excluir palavras
desusadas. E também: para detectar as diferentes acepções em que as palavras estão sendo
usadas, para detectar as co-ocorrências entre vocábulos, a combinatória sintática etc. E mais
ainda: fornecem material muito útil para identificar a fraseologia e expressões idiomáticas,
detectar neologismos e obter exemplos reais do uso lingüístico (p. 92).
Em geral, o lingüista vai além das Ciências Humanas ao buscar na tecnologia as
melhores formas de se pesquisar seus objetivos. As principais ferramentas eletrônicas
utilizadas pela LC e que têm participação de lingüistas e lexicógrafos são: processadores de
79
texto, corretores ortográficos, dicionários eletrônicos, dicionários de vários tipos em suporte
informatizado, tradutores automáticos, identificadores de voz, sistemas de indexação para
diversos tipos de serviços de documentação.
Muitos desses softwares foram desenvolvidos para finalidades que nada m a ver
com a Lingüística, porém, sabiamente, transformaram-se também em ferramentas para se
observar fenômenos lingüísticos.
A Lexicografia busca o melhor aproveitamento das ferramentas informáticas, com
enormes capacidades de armazenamento, recuperação e tratamento exaustivo de grandes
quantidades de informação, para fazer uma lingüística empírica jamais vista antes e para dar
conta dos usos reais de uma língua.
O constante desenvolvimento da informática possibilita que uma quantidade cada
vez maior de informação possa ser manipulada. Tal fato conduz, tanto os pesquisadores
ligados à tecnologia como os lingüistas, à necessidade de uma profunda reestruturação
metodológica e à elaboração de novos princípios teóricos que possam abarcar as novas
maneiras de se descrever os fenômenos lingüísticos.
O desenvolvimento dos sistemas automáticos exige uma nova orientação, diferente
das que representam as investigações tradicionais, que se caracterizará por uma maior
exatidão em detrimento da generalização.
O principal problema que se coloca agora é o de fornecer ferramentas para a
criação de novas classificações e ordenações, uma nova taxonomia que permita uma recolha
sistemática de dados e sua rigorosa classificação ou ordenação.
Uma das grandes revoluções provocadas pela aplicação das novas tecnologias ao
trabalho do lexicógrafo é a possibilidade de utilização de grandes corpora como fonte de
informação empírica para a análise e descrição lingüística, ultrapassando, assim, a prática de
80
estabelecer regras com base na própria intuição do lingüista ou apenas de dados parciais
(SARMIENTO, 1995).
4.1.2 O advento da Lingüística de
Corpus
As pesquisas em corpora vieram possibilitar um confronto entre a teoria e os
dados empíricos da língua. De fato, o corpus pôde mostrar como uma língua natural funciona
dentro de uma determinada escala.
A teoria chomskyana, responsável pelo estabelecimento de um novo paradigma na
Lingüística, privilegiou o estudo da competência lingüística do falante em detrimento de
questões relacionadas ao desempenho. Tal fato foi um dos maiores empecilhos para as
pesquisas baseadas em corpus e para a criação de corpora informatizados (BERBER
SARDINHA, 2004).
É importante lembrar que os corpora já existiam antes do computador, porém as
duas principais diferenças entre os primeiros corpora e os atuais é que os primeiros, além de
não serem eletrônicos (seus dados eram coletados e analisados manualmente), davam ênfase à
sua aplicação pedagógica. Já a maioria dos corpora construídos a partir dos anos de 1970 teve
suporte tecnológico e as pesquisas relacionadas a eles passaram a priorizar a descrição da
linguagem.
Com o desenvolvimento da LC, a teorização sobre corpus se consolidou. Embora
não haja consenso sobre que conjunto de dados textuais pode ser considerado corpus, é
consenso entre pesquisadores que um corpus deve ser constituído de textos naturais
(autênticos e independentes), excetuando aqueles criados por programas de geração de textos.
Embasando-nos em Laviosa (2002), podemos definir LC como um ramo da
Lingüística Geral que envolve a análise de corpora passíveis de leitura automática, formados
81
por textos corridos e que utilizam vários softwares elaborados especificamente para análise
lingüística.
A LC tem questionado vários aspectos até então intrinsecamente estudados pela
Lingüística, tais como os conceitos de langue/parole apresentados por Saussure, a dicotomia
competência/desempenho estruturada por Chomsky, que considera a
competência/introspecção do falante como base para o estabelecimento de regras e descrições
na língua, além de outras dicotomias que não priorizam as evidências coletadas por meio de
pesquisa em corpus.
Com essa nova abordagem, a língua passa a ser vista não como um sistema de
normas e regras, mas como um fenômeno social, cujo uso é heterogêneo e pode ser
empiricamente estudado com corpora. O pesquisador pode observar e inferir as regras e
padrões que a própria língua apresenta em um ambiente autêntico e natural.
Definir a LC não é uma tarefa simples, pois há lingüistas e pesquisadores que
questionam sua descrição como disciplina ou metodologia, outros que não a consideram como
uma área de pesquisa mas como uma base metodológica para estudos lingüísticos, e ainda
aqueles, felizmente a maioria, que defendem a idéia de que a LC representa mais do que uma
metodologia de pesquisa.
Halliday (apud TOGNINI-BONELLI, 2001), por exemplo, enfatiza que a LC
reúne compilação de dados e teoria, conduzindo a uma mudança qualitativa em nossa
compreensão do que vem a ser língua. Como podemos ver, essa abordagem surge como um
novo modo de investigação lingüística, envolvendo tanto aspectos filosóficos quanto teóricos,
além de contribuir para diversas áreas de estudo e pesquisa.
No cenário atual, quando se pensa na criação de corpora ou numa pesquisa
baseada em corpus, são considerados os seis itens apresentados por Sanchez (apud BERBER
SARDINHA, 2004): a) composição (um corpus deve ser um conjunto de dados lingüísticos
82
sistematizados de acordo com critérios pré-estabelecidos); b) origem (os textos que o compõe
devem pertencer ao uso oral ou escrito da ngua, ou a ambos); c) extensão (a quantidade de
ocorrências deve ser extensa em amplitude e profundidade); d) representatividade (o corpus
deve conter uma seleção de textos representativos da totalidade do uso lingüístico ou de
algum de seus âmbitos); e) formatação (o corpus deve ser informatizado de uma maneira
adequada aos objetivos da pesquisa); f) propósito (a análise do corpus deve propiciar
resultados vários e úteis para sua descrição e análise).
A prioridade das pesquisas da LC não é descrever a linguagem como esquemas
nos quais as lacunas sintáticas possam ser preenchidas para se pensar em possibilidades, mas
se voltar à descrição do que realmente é empregado pelos falantes e atestado pelo uso,
visando demonstrar probabilidades.
Os lingüistas constataram a importância de consultar um corpus para testar
hipóteses ou fornecer evidências na pesquisa lingüística. Por isso, pouco a pouco, começou a
febre da construção de imensos corpora das mais diversas línguas modernas e antigas.
A LC trabalha dentro do quadro empirista, que admite a origem do conhecimento
na experiência, em oposição à idéia racionalista que defende o conhecimento como advindo
de princípios pré-estabelecidos. Dessa forma, a LC veio comprovar por meio da observação e
de estatísticas que a variação na língua não é aleatória e que conjuntos de traços
lingüísticos variáveis sistematicamente com relação a restos típicos de contextos
comunicativos específicos.
4.2 O uso de corpora em pesquisas lexicográficas
Independentemente do tipo de dicionário, é tendência entre lexicógrafos trabalhar
a partir de corpora, os mais extensos e variados possíveis, para que sejam possíveis
83
generalizações em relação a usos ou capacidade de combinação lexical, assim como ter uma
base real para afirmar quais acepções são mais importantes e quais as mais secundárias ou
menos freqüentes (BERBER SARDINHA, 2004).
a partir de exemplos extraídos de um corpus é que se pode ter a certeza de que
as acepções e usos de uma unidade lexicográfica presente num dicionário é de fato real, ou
seja, a busca por informações semânticas e pragmáticas de qualquer que seja a unidade lexical
observada pelo lexicólogo, encontra fundamentação nas informações extraídas de seu uso
real, disponibilizado em um ou mais corpora.
Pesquisas lexicográficas recentes defendem que não se pode continuar a trabalhar
em lexicografia baseando-se apenas em fontes secundárias, isto é, em dicionários ou
vocabulários existentes, mesmo que estes sejam verdadeiras referências na descrição de
determinado fenômeno lingüístico.
Também acreditando que necessidade de uma articulação entre a pesquisa feita
em dicionários com outra realizada com base em um corpus, Xatara et al. (2006)
complementa que
Especialmente no que se refere à Lexicografia, a exploração de corpora traz contribuições para
a determinação da nomenclatura por meio da freqüência obtida de cada item lexical candidato
à entrada, à ordem dos sentidos no verbete por meio da especificação das acepções mais
usuais, às diferenças e semelhanças entre os itens lexicais e sua conseqüente remissão para
outros itens, à ilustração dos sentidos por meio da seleção de contextos etc (p. 272).
Do mesmo modo, a LC acredita que o lexicógrafo não deve fazer uso apenas de
sua competência lingüística, por meio da introspecção, para construir os dicionários, mas
utilizar um corpus ou diversos corpora suficientemente representativos para corroborar suas
84
intuições: “Este parece ser o ponto mais favorável para a operação de introspecção na
avaliação de evidências ao invés de criá-las” (SINCLAIR, 1991, p. 39)
6
.
O mesmo se aplica aos dicionários bilíngües, ou seja, para evitar imprecisões com
falsos equivalentes que se perpetuam em pesquisas feitas de dicionário para dicionário, é
imprescindível a extração de abonações de textos reais, atestados pelo uso, e não partir de
diferentes definições de acepções tomadas de um ou de vários dicionários. O importante é,
portanto, selecionar os equivalentes com base em exemplos, e não elaborar os exemplos a
partir dos equivalentes selecionados.
Estamos convencidos de que algumas das hipóteses ou das crenças construídas por
métodos dedutivos, baseados na introspecção do falante nativo, não conseguiriam ser
validadas num corpus representativo. E no campo da Lexicografia, é evidente que a
informação contida nos dicionários mudaria substancialmente se estes fossem elaborados
considerando dados e generalizações fornecidos por um corpus de textos, melhor ainda, da
informação (morfossintática, semântica, pragmática) fornecida por bases de dados elaboradas
por meio de corpora.
Porém, se de um lado consenso quanto à necessidade de os trabalhos
lexicográficos serem baseados em corpora, valorizando os aspectos pragmáticos da língua e
que podem ser evidenciados em tais obras, de outro divergência à idéia de se encarar a
Web como um grande corpus lingüístico, ponto sobre o qual refletimos a seguir.
4.2.1 A importância da Web para a Lexicografia
Se pensarmos em questões relativas à extensão e à representatividade que deve
possuir quaisquer corpora lingüísticos, podemos classificar a Web como o maior corpus
6
This seems to be the most favourable point for the operation of introspection — in evaluating evidence rather than
creating it.”
85
existente e o mais abrangente dos corpora hoje estruturados. Isso é bastante relevante para
pesquisas que enfocam palavras de ocorrência baixa, para sentidos considerados raros ou
mesmo para combinações de palavras (KILGARRIFF & GREFENSTETTE, 2003).
Por meio de cálculos feitos com base em dados fornecidos pelos principais
motores de busca que estão disponíveis na internet, Grefenstette & Nioche (2000) apresentou
informações concernentes ao tamanho da Web até aquele ano. Estima-se que havia cerca de 4
bilhões de palavras na língua portuguesa do Brasil, considerando os 14 milhões de brasileiros
que utilizam com freqüência a internet e as 3,4 milhões de páginas com domínio “.br”
existentes.
O Prof. Dr. Tony Berber Sardinha, da PUC de São Paulo, revelou outros dados a
respeito do tamanho da Web e de seu uso como corpus, na conferência
7
Lingüística de
Corpus e Lingüística Computacional: contribuições para os estudos lingüísticos. De acordo
com Berber Sardinha, na Web 48 bilhões de palavras em inglês (mais de 50 % do total de
ocorrências), enquanto que em português 1,1 bilhão (nossa língua tem menos palavras na
Web do que o alemão: 3 bilhões, francês: 2,7 bilhões, espanhol: 1,8 bilhão e também do
italiano: 1,3 bilhão).
Essa disparidade de dados, apresentados pelos pesquisadores acima, é fruto da
imprecisão das funções de contagem disponibilizadas atualmente pelos motores de busca.
Outra questão a se considerar vincula-se, entretanto, a aspectos negativos da
utilização da Web como corpus, freqüentemente levantados pelos estudiosos: a ausência da
modalidade oral, presença de grande quantidade de assuntos relacionados à informática,
difusão exacerbada de idiossincrasias e grande quantidade de “erros”. Mas é importante
7
Apresentada dia 17 de agosto de 2006, no VI Seminário de Estudos Lingüísticos (SELin), evento promovido pelo
Programa de Pós-Graduação em Estudos Lingüísticos, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de São José do Rio Preto –
SP. Os slides estão disponíveis em <www2.lael.pucsp.br/~tony>
86
lembrar que, ao contrário do que se pensa, a quantidade de imprecisões lingüísticas (erros
ortográficos, por exemplo) presentes na Web é bem menor do que quaisquer formas padrão.
Se desconsiderarmos a Web como um corpus apenas por conta da presença dos
chamados “erros” de ngua, então, seria preciso considerar a possibilidade de existência de
um corpus ideal, produzido artificialmente e sem a presença de desvios. No corpus do
Laboratório de Lexicografia (LL) da Unesp de Araraquara, por exemplo, inúmeros casos
de concordâncias que trazem formas não-padrão da língua portuguesa do Brasil, como neste
trecho da peça Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri: “– Tem um porém... / –
Tião: Qual ? / Jesuíno: Se a greve for certa, o pessoá vai xingá a gente de tudo quanto é
nome!”.
Ainda outra crítica ao uso da Web como corpus recai mais especificamente sobre a
questão da composição. Para a LC, deve um corpus ser um conjunto de dados lingüísticos
sistematizados de acordo com critérios pré-estabelecidos. Os textos disponíveis na internet
são, ao contrário, parte de um aglomerado de informações sem organização prévia e sem
comprometimento com a pesquisa lingüística.
Acreditamos, contudo, que a polêmica não deva se encerrar tão brevemente. É
provável que as teorias a respeito desse ponto venham a mudar a definição de corpus ou, ao
menos, incluir que as pesquisas em corpora tenham que considerar também a Web como
corpus adequado para determinadas pesquisas.
No caso da pesquisa de freqüência e ocorrências de fraseologismos, por exemplo,
sobretudo os que constituem lexias complexas e figuradas da língua geral (provérbios,
expressões idiomáticas, gírias etc.), é imprescindível utilizar a Web como base de dados.
Nessa linha teórica, encontramos Colson (2003, p. 47), que reforça essa utilização
da Web como único corpus lingüístico a que se pode aplicar o padrão por milhões de palavras
(per million words - PMW) para a medida da freqüência desses fraseologismos, pois 70% das
87
expressões idiomáticas frasais, por exemplo, têm freqüência inferior a 1 PMW e sua
ocorrência jamais seria demonstrada em quaisquer dos outros corpora existentes, o que o
autor comprovou em pesquisas com idiomatismos do inglês e do francês.
Também Sinclair (1991, p. 19) havia indicado a necessidade de um imenso
corpus para um estudo estatístico das colocações, que pudesse assegurar evidências
suficientes sobre os cálculos freqüenciais e Berber Sardinha (2004, p. 45), por sua vez,
anunciou esse advento, acrescentando às vantagens da extensão e da riqueza tipológica de
textos e idiomas, as facilidades de acesso por quaisquer usuários, sem a necessidade de
programas de armazenamento.
De fato, as bases textuais conhecidas não registram grande quantidade de textos
coloquiais, que são a maior fonte para se observar o uso dos fraseologismos e mesmo
programas de gerenciamento de bases textuais, como WordSmith Tools, FolioViews ou
Hyperbase, não são eficazes na identificação dessas lexias complexas.
Com isso, devido à presença de muito material escrito que denota a linguagem
cotidiana corrente (textos de propaganda, entrevistas e conversas e muitos outros que circulam
na mídia impressa), a dimensão da Web corresponde mais adequadamente tanto para atestar
um fraseologismo em contexto real, quanto para acrescentar importantes informações
concernentes à sua significação e uso.
Mesmo que a Web não tenha sido organizada com o propósito de ser uma fonte de
informações para os lingüistas, sobretudo por trazer textos que não provêm de fontes
fidedignas (contenham imprecisões, erros ortográficos), por conter excesso de repetições e
informações temporárias, além de não ter sido produzida seguindo uma linha textual
previamente selecionada, algumas vertentes da Lingüística (caso da Lexicografia que trata de
UFs) estão passando a encarar a Web como passível de análise.
88
A heterogeneidade dos dados disponibilizados na Web, abarcando uma
diversidade inimaginável tipologia textual e níveis de linguagem, serve de justificativa para
que a Web não seja desprezada. Fletcher (2005, p. 1) defende a mesma posição ao afirmar ser
a Web “um inesgotável reservatório de textos, capazes de serem lidos por uma máquina na
maioria das línguas escritas no mundo, disponíveis para a compilação de corpora ou para a
consulta direta como um corpus.”
Fundamentalmente, a Web é hoje o maior banco de dados disponível no mundo e é
largamente difundida e utilizada pela facilidade de acesso e pela amplitude de campos do
conhecimento que abrange.
Trata-se, pois, de um retrato da língua em uso, com possibilidade de análises
semântica e pragmática por conta da ampla tipologia textual que apresenta.
4.3 A Web e a freqüência dos idiomatismos
O primeiro problema que se apresenta no dicionarização das UFs e especialmente
dos idiomatismos é a questão da seleção da nomenclatura. Se acreditarmos que as UFs em
dicionários gerais e, mesmo nos específicos, devam ser as mais usuais na língua, deveremos
observar o critério de freqüência. Mas nenhuma das obras de referência consultadas explicitou
a freqüência dos fraseologismos levantados na linguagem contemporânea.
Para se considerar esse critério, deve-se definir antes de mais nada o próprio limiar
de freqüência: o número de ocorrências que indicará se uma UF deve realmente ser inserida
em um dicionário. Em seguida cabe escolher em qual base textual ou corpus esse limiar será
aplicado.
De fato, tanto para a organização de material lexicográfico concernente às UFs,
como para sua sistematização no ensino e aprendizagem de LEs, poderiam ser previamente
tratadas as questões acerca da freqüência e uso dessas unidades. É necessário, para pesquisas
89
que não priorizam a diacronia, que se determine um limiar de freqüência para se observar os
fraseologismos em uma base textual suficientemente representativa da linguagem coloquial,
registro por excelência desse tipo de unidade lexical. Assim, revela-se muito pertinente a
utilização da medida de ocorrências PMW, e da Web que se impõe como a maior base textual
a que se pode ter acesso.
mais de 30 anos, para a elaboração do primeiro dicionário de freqüência do
português (DUNCAN, 1972), foi estabelecido como 20 o limiar mínimo de ocorrência para
uma palavra ser considerada freqüente em grupos de um milhão de palavras. Mas ainda aqui
se trata de lexias simples ou compostas, não de lexias complexas.
Apenas em 2003, com os estudos de Colson, a comunidade científica recebe as
primeiras investidas no que diz respeito à medição da freqüência de EIs, pois o pesquisador
belga observara que as EIs freqüentes do inglês, francês e alemão seguramente correspondiam
ao menos a 1 ocorrência a cada milhão de palavras. O problema que se confirmava, então, era
a ineficiência, para uma pesquisa freqüencial PMW, nos bancos de corpora eletrônicos
existentes porque a maioria dos textos contidos neles não retratavam a linguagem coloquial,
ninho dos fraseologismos. Assim, 70% das EIs frasais buscadas têm nesses corpora
freqüência inferior a 1 PMW e muitos idiomatismos nem são detectados. Dessa forma,
conclui-se que é necessário trabalhar com corpora de bilhões de ocorrências.
Para tanto, somente a Web corresponde na atualidade a uma base textual com tal
capacidade (COLSON, 2007), além de viabilizar facilmente esse tipo de pesquisa em
qualquer idioma. Essa assertiva corroborou as indicações de Sinclair que em 1991 já acenava
para a necessidade de um corpus lingüístico bem mais amplo do que qualquer um
estabelecido, a fim de se evidenciar o tratamento estatístico de fraseologismos. Por sua vez,
Kehoe & Renouf (2002), Kilgariff (2003) e Berber Sardinha (2004) também consideram que a
Web se configura como o corpus que reúne a maior e mais variada quantidade de textos.
90
Em nossas pesquisas de freqüência observou-se os dados reunidos por Grefenstette
(2000, 2004), por Evans et al. (2004) e pela União Latina (2006), que estimam que há na Web
cerca de 157 milhões em francês da França e 56 milhões em português brasileiro. Dessa
forma, aplicando o coeficiente de 1 PMW, foi estabelecido o limiar de freqüência em 56
ocorrências para o português e 157 para o francês, visto que normalmente cada EI ocorre pelo
menos uma vez em cada página da Web.
Essas ocorrências equivalem, na realidade, aos resultados oferecidos por
intermédio do buscador Google, que na prática funciona como um gerenciador de texto.
Evidentemente tomou-se o cuidado de excluir do número total de resultados aqueles
duplicados ou os que traziam as EIs empregadas em sentido denotativo. Além disso, foram
priorizadas as páginas do Brasil para se restringir ao português brasileiro.
A lexia complexa rato de biblioteca é um bom exemplo para ilustrarmos um caso
de busca por concordância para ilustrar um idiomatismo em um dicionário. A busca se deu na
Web, por meio do Google, no site SketchEngine, apesar de estar on-line, exige uma assinatura
anual para o uso, e num corpus fechado, no Laboratório de Lexicografia da Unesp de
Araraquara (LL).
Na versão eletrônica do Houaiss (2001), encontramos no verbete rato, em sua
quarta acepção, a definição que segue, “indivíduo que assiduamente freqüenta determinado
lugar”, seguido dos exemplos “<r. de biblioteca> <r. de praia> <r. de igreja>”
8
. Em uma
busca que realizamos no corpus do SketchEngine encontramos 3 ocorrências para rato de
biblioteca. Recortamos, mantendo o grifo que destaca cada concordância, os três trechos para
demonstrar essa EI nesse corpus, com um seu banco de dados mais de 12 línguas (dentre elas,
alemão, chinês, esloveno, espanhol, francês, inglês, italiano, japonês) e, para o português, um
total de 66.319.147 ocorrências, cujas fontes são a Cetenfolha e o Cetempúblico:
8
abreviação de “rato” foi mantida como no original “r.
91
1) “Lívido, é um privilégio criar personagens sobre uma vivência que quase se consegue tocar,
além disso, com os dramaturgos vivos a amassarem essa argamassa que é a memória recente.
Desde o olisipógrafo Vicente Corvo (o rato de biblioteca) , do jornalista desportivo Atrito
Lívido, tipo lapa, exagerado e coscuvilheiro (referência a alguns intelectuais da nossa praça
que frequentavam os jornais) [...]
2) Irão for mais tolerante. Stoned Again (Rolling Stones) Heaven &amp; Hell, vol I, 1990, vol
II, 1991 (Velvet Underground) Alan Duffy, cérebro do pequeno selo Imaginary e uma espécie
de rato de biblioteca em termos de história do rock`n'roll, realizou finalmente o seu sonho,
quando em Junho de 88 editou Fast And Bulbous em homenagem a Captain Beefheart.
3) Austin é um rato de biblioteca que mastiga a informação recolhida e quase não tem
contacto com o mundo exterior. DeLuxe, seu superior hierárquico, pareceres finais,
comenta situações, acrescenta uma moralidade aqui [...]
Como se pôde observar, no Houaiss (2001) exemplos de outras duas
ocorrências (“rato de igreja” e “rato de praia”) para ilustrar que rato de qualifica o indivíduo
que freqüenta com assiduidade um local determinado ou que conhece muito bem um lugar.
Ainda em uma busca no corpus do SketchEngine constatamos que não ocorrências para
nenhuma dessas duas EIs.
Confirma-se que neste corpus a freqüência de rato de igreja ou de praia é nula, já na pesquisa
por “rato de + (substantivo)” encontramos outras designações de lugares, como “esgoto”,
“laboratório”, “lojas importadoras de cds”, “teatro”, todas pouco freqüentes na Web.
Devido à baixa freqüência que têm as EIs em quaisquer corpora pesquisados
por nós (RIVA, 2004-a), foi necessário considerar a Web como um banco de dados para a
extração de concordâncias e medição de freqüência, pois, mesmo com os problemas
existentes nesse local e a discordância de grande parte dos lingüistas sobre se trabalhar com
dados extraídos dela, não poderíamos apresentar dados tão díspares como os encontrados em
diferentes corpora fechados para ilustrar verbetes de um dicionário que trata de um fenômeno
92
lingüístico menos usual na escrita, sobretudo naquela que segue a norma culta de nossa língua
(por exemplo em corpora de textos jornalísticos ou de literatura), mas que é abundante da
modalidade oral (XATARA et al., 2006). Nesse ponto a Web é privilegiada porque é um
gigantesco terreno escrito que é encarado pelo usuário com despretensão e, em muito casos,
dá a liberdade de se buscar uma proximidade com a oralidade.
Continuando a busca, agora na Web, pelos mesmos exemplos citados acima,
obtivemos no Google, 31.700 ocorrências para “rato de biblioteca”, 6.210 para “rato de praia”
e 646 para “rato de igreja”. Dessa forma, consideramos imprescindível uma análise lingüística
em uma base de dados que consiga nos fornecer parâmetros mais abrangentes para a definição
estatística da freqüência de uma UF pouco recorrente em corpora fechados, caso das EIs. Para
“rato de” encontramos na Web 1.880.000 ocorrências, porém, para tal formato (forma mais
reduzida desse idiomatismo e que, apesar de não ser o caso da maioria das ocorrências na
Web, ainda assim, guarda um sentido figurado), percebemos um sem-número de
concordâncias não-conotativas.
Assim, incluímos em nosso dicionário, rato de biblioteca, como a EI mais comum
na descrição do indivíduo que freqüenta com assiduidade ou conhece bem uma biblioteca,
referente ao conceito CONHECIMENTO. Há, portanto, uma interpretação conotativa que
considera a referência denotativa de parte da EI para alcançar o sentido metafórico buscado.
Não caberia em tal idiomatismo a substituição de rato por outro animal, pois se criou uma
analogia entre o roedor e o homem, ou seja, aquele que conhece bem o local (esse sim,
substituível) que freqüenta. Para enriquecer tal análise, cabe a concordância abaixo, extraída
do site www.jornalexpress.com.br
9
:
9
Disponível em <http://www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=7070&id_noticia=969> ; acesso
09/set/2008.
93
Identificar um "rato de biblioteca" não é tarefa das mais complicadas. Além da observação,
algumas perguntas simples podem elucidar rapidamente a dúvida. Por exemplo: se a pessoa
disser que vai à biblioteca todos os dias, adora "fuçar" em todas as estantes, mais de um
livro por semana e, na maioria das vezes, lê apenas por prazer, certamente, você encontrou um
desses "ratos".
Quanto ao servidor para gerenciar as buscas, o Google impõe-se por sua
incomparável capacidade de buscar em mais de 4,28 billhões de páginas de texto, embora isso
não chegue a corresponder nem a 1% da internet que possui bilhões de catálogos de lojas,
informações detalhadas, relatórios oficiais e bancos de dados acessados quando se
preenche formulários.
O maior entrave na busca pelas EIs, entretanto, é o modo de se efetuar a busca:
normalmente tenta-se reduzir o idiomatismo ao menor núcleo fixo para não considerar as
pequenas variações nas EIs de distribuição restrita ou no caso das EIs verbais, digitando-se
esse núcleo entre aspas ou substituindo um termo no meio desse núcleo por um asterisco.
Assim, a busca “o pão que o * amassou”, para verificar a freqüência de “comer o pão que o
diabo amassou” e suas variantes, chegou a 836 ocorrências, muito mais do que se a busca
tivesse sido da EI completa e no infinitivo, cujo resultado ficaria em apenas 252 ocorrências.
4.4 A Web e a contextualização de idiomatismos
A maioria dos dicionários fraseológicos não traz sistematicamente contextos nas
propostas de seu tratamento lexicográfico.
Para facilitar a busca e organizar os resultados, atualmente existem muitos tipos de
concordanceadores que permitem ao pesquisador/consulente a visualização de trechos de
textos que estão presentes em um corpus e que disponibilizam a UL procurada dentro de um
94
recorte de co-textos. No que se refere a EIs, entretanto, o problema é a otimização desses
concordanceadores, por conta de seu alto grau de metaforização.
Assim, para a busca e extração de contextos para ilustrar o uso dos idiomatismos
ainda não um concordanceador adequado, que facilite a escolha de um bom exemplo
contextual e que realmente ateste as especificações do lexicógrafo, no entanto, alguns estão
sendo desenvolvidos, caso do trabalho de Colson e também do trabalho de Berber Sardinha
10
,
que visa otimizar as pesquisas em corpora, e as pesquisas de sua equipe, com o chamado
“Corpus Brasileiro
11
”.
A utilização da Web também para a contextualização das EIs não se deu
aleatoriamente. Durante o mestrado (Cf. RIVA, 2004-a), a prioridade foi trabalhar com um
corpus de ngua fechado e suficientemente grande para a extração de concordâncias para um
dicionário de idiomatismos. O problema é que encontramos, no mencionado LL de
Araraquara, abonações para apenas 75% das EIs de nossa nomenclatura, mas outros
idiomatismos evidentemente freqüentes não constavam no corpus do LL, apesar de suas 200
milhões de ocorrências.
Um exemplo é a EI dançar conforme a música, para a qual buscamos ao menos
uma concordância, extraída do LL, com o sentido de ADAPTAÇÃO, considerando-se não
apenas seu infinitivo, mas também as flexões dos verbos em pessoas, números e tempos.
Contudo, não encontramos nenhuma ocorrência dessa EI, ou de outras como abraço de
urso, meter o pau ou puxar o tapete (v. fig 8: busca realizada em 18/09/2008 no LL).
10
Conferência intitulada “Desafios das novas tecnologias para a Lingüística de Corpus: simplicidade e capacidade de ir além
da freqüência e da co-ocorrência”, apresentada no dia 06 de novembro de 2008, das 14 às 15h15, no VII Encontro de
Lingüística de Corpus, na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de São José do Rio Preto – SP.
11
Comunicação intitulada “O Corpus Brasileiro” e apresentada por Tony Berber Sardinha (PUCSP), em co-autoria com José
Lopes Moreira Filho (PUCSP-PG), Eliane Alambert (PUCSP-PG), no dia 06 de novembro de 2008, às 10h50, no VII
Encontro de Lingüística de Corpus, na Universidade Estadual Paulista (UNESP) de São José do Rio Preto – SP.
95
FIGURA 8 Exemplo de busca no Laboratório de Lexicografia
Tal fato levou-nos a operar a Web como de fato o corpus mais representativo em
termos de busca por fraseologismos, e ela revelou-se indubitavelmente valiosa tanto para
atestar a ocorrência de todas as EIs supostamente freqüentes que não constavam no LL em
contextos produzidos naturalmente, quanto para acrescentar importantes informações
concernentes à significação e uso de cada uma delas.
Embora tenhamos procurado estabelecer por dedução a maioria dos conceitos aos
quais uma EI pode se referir, ocorreram casos em que foi a concordância o melhor balizador
para ratificar, ou retificar, a significação dos idiomatismos levantados.
A definição da listagem de conceitos priorizou a precisão na identificação do
conceito com o idiomatismo, por esse motivo conceitos como AGRESSIVIDADE,
AGRESSÃO, RAIVA, todavia, na maior parte das vezes, preferimos generalizar um pouco
96
mais os conceitos, pois como tratamos de idiomatismos necessariamente freqüentes, poderiam
ocorrer vários casos de apenas uma EI para determinado conceito, ou seja, teríamos um bom
número de conceitos exclusivos para idiomatismos “filhos únicos”. Assim, que o percurso
onomasiológico adotado para a elaboração deste dicionário foi pensado a partir de conceitos
mais abrangentes, como APARÊNCIA, abarcando expressões que descrevem fisicamente o
indivíduo (não ser de se jogar fora ou pintor de rodapé), independentemente se de forma
agradável ou o, ou a partir de conceitos marcadamente opostos, por exemplo, BELEZA
(lindo de morrer) e FEIÚRA (feio de doer), nos casos em que seria indubitável a
interpretação, positiva e negativa, de tais EIs, respectivamente.
Assim, ao trabalharmos com a Web enquanto corpus para extração de
concordâncias, comprovamos a grande variedade de dados passíveis de investigação ou
descrição, em nosso caso, das UFs complexas. A Web pode revelar, por exemplo, elementos
que dizem respeito, sobretudo à freqüência (abordagem pragmática) e ocorrências (seleção de
exemplos para abonação), mas também ao mapeamento morfossintático (descrição das
construções com que os fraseologismos se apresentam) e às especificações semânticas
(determinação das acepções realmente usuais).
No caso específico do WebCorp, ferramenta on-line de busca que permite o acesso
à Web como um corpus, cuja versão reformulada foi disponibilizada no final de 2002, além
do acesso a linhas de concordância, tem-se a especificação do endereço eletrônico de cada
uma delas. O problema constatado na utilização do WebCorp é, principalmente, a lentidão na
busca por UFs ou ULs pesquisadas. Em casos de EIs com alta freqüência, a espera passa de
dez minutos e como nosso trabalho partiu, a priori, de aproximadamente 6 mil EIs em uso no
Brasil, esse fator por imprescindível para a escolha do google como motor de busca.
97
No mais, também no WebCorp réplicas de resultados de busca: por vezes uma
mesma concordância é apresentada mais de uma vez como ocorrência em um texto e aparece
dentro das estatísticas disponibilizadas ao final da pesquisa.
Entretanto, apesar da gigantesca quantidade de ocorrências disponíveis, apenas o
minucioso crivo do pesquisador-lexicógrafo decidirá se a UL buscada pode ser utilizada como
abonação em um dicionário.
A seguir, a título de ilustração, apresentamos a busca por concordâncias na Web da
expressão puxar o tapete, por meio do www.webcorp.org.uk e dados sobre a freqüência desse
idiomatismo no www.google.com.br, que confirmam que, na maioria dos casos, essa EI é
utilizada com sentido conotativo, referência direta ao conceito TRAIÇÃO, e que nos usos
desse sentido figurado de rompimento da confiança são evidenciadas as relações de trabalho.
Assim, o pesquisador pode observar os recortes de co-textos, apresentados em
forma de concordância e que estão ao redor do idiomatismo, além do site de onde provém a
expressão recolhida e da data, quando conhecida, que atesta a inserção daquele texto na Web.
Caso haja interesse em conhecer na íntegra os sites e os textos indicados nas
concordâncias, basta clicar no endereço eletrônico em destaque, seguindo os mesmos
procedimentos feitos na maioria dos motores de busca em uso.
Reproduzimos a seguir (fig. 9)
12
o uso da ferramenta WebCorp na busca por esse
idiomatismo, cujo campo semântico é TRAIÇÃO.
12
Disponível em <http://www.webcorp.org.uk/cgi-bin/webcorp2.nm> ; acesso 09/06/2007.
98
FIGURA 9 Exemplo de busca por concordância no WebCorp
Ao final de uma busca, o WebCorp fornece dados sobre a pesquisa, dentre os quais
se destacam o número de concordâncias geradas (130 concordâncias) e o número de páginas
da Web acessadas (199 páginas), como se vê na figura 10
13
.
13
Disponível em <http://www.webcorp.org.uk/cgi-bin/webcorp2.nm>, Acesso 09/06/2007.
99
FIGURA 10 Exemplo dos dados apresentados pelo WebCorp
em uma pesquisa feita por meio do Google, constata-se que, de um total de 986
ocorrências, 95% têm sentido conotativo de traição. Confirma-se, dessa forma, que o sentido
metafórico desse idiomatismo prevalece sobre o sentido denotativo que o mesmo possui.
Ainda nesse mesmo exemplo, a expressão puxar o tapete poderia ser incluída no
dicionário especial de idiomatismos com uma das abonações selecionadas pela ferramenta de
busca. Cabe ao lexicógrafo acessar os endereços eletrônicos dispostos pelo Google, para
averiguar qual o co-texto que melhor confirme ou elucide a definição da expressão.
Como exemplo, a figura 11 traz um texto de Kátia Ricardi de Abreu chamado,
“Puxando o tapete... de quem, afinal?”, que apresenta o idiomatismo apenas no título de um
100
artigo
14
. O lexicógrafo pode, então, descartar ou não esse texto para uma abonação de
dicionário. O ideal é que se faça um recorte de co-textos que seja uma complementação das
informações do verbete que está sendo produzido. Dessa forma, evita-se tanto a necessidade
de inferências na concordância (ao incluir informações outras que não são originais do texto)
quanto cometer o erro de apresentar no dicionário uma concordância pouco funcional no que
diz respeito à sua suficiência para significado do idiomatismo.
FIGURA 11 Exemplo I de busca por concordância na Web
Uma opção mais adequada e que serve, portanto, como abonação para o
idiomatismo em questão, aparece no terceiro site disponibilizado pelo Google na figura 12. O
14
Disponível em <http://carreiras.empregos.com.br/carreira/comunique_se/col_leitor/070302-puxar_tapete_katia.shtm> ;
acesso 10/06/07.
101
conteúdo, revelado pela figura 12, revela várias ocorrências de puxar o tapete, sempre
referindo-se ao tema “traição” no campo profissional.
FIGURA 12 Exemplo II de busca por corncordância na Web
Apresentamos um trecho desse texto, (da fig. 12) de autoria de Paulo César
Fonseca, escrito em 12 de julho de 2005, e que se encontra disponível no site do AOL
notícias, na coluna AOL Fórum. Destacamos, em itálico, as várias vezes em que aparece esse
idiomatismo.
Alguém já puxou o seu tapete na empresa? Comente este artigo / Caros amigos, recebi vários
e-mails de profissionais que se queixam de colegas que puxam o tapete dos outros para se
promover. Em ambientes profissionais, não é raro ouvirmos alguém comentar que, em algum
momento, um determinado colega lhe puxou o tapete”. Isso ocorre em qualquer ambiente de
trabalho, seja em uma pequena ou em uma grande empresa, e até arrisco dizer que esse fato
lamentável já aconteceu com cada um de nós. Mas por que isso acontece? O que leva um
trabalhador a tomar uma atitude tão lamentável como essa contra o próprio colega? [...] Puxar
102
o tapete do companheiro de equipe, embora não seja uma regra, mostra o quão incompetente o
profissional é, pois, em vez de alcançar uma posição melhor por merecimento, ele o consegue
por meios escusos momentaneamente, fazendo com que a equipe perca credibilidade, respeito
e integração.
15
É interessante notar que o título da matéria citada apresenta uma EI modificada (ao
invés de “tapete” a opção foi “capacho”). Trata-se de uma idiossincrasia (visto que não
outras ocorrências similares na Web
16
até então) que não impede o leitor de compreender o
contexto da matéria, uma mistura do campo semântico TRAIÇÃO, por meio da utilização da
EI puxar o tapete, com SUBMISSÃO (ou subserviência), analogia que pode ser construída a
partir do substantivo “capacho”.
4.5 Organização macro e microestrutural
A natureza da obra lexicográfica - semasiológica ou onomasiológica - é
estabelecida pela adoção de um determinado tipo de macroestrutura, sobretudo no que diz
respeito a sua nomenclatura ou conjunto das entradas, e de microestrutura, isto é, o conjunto
de informações.
A organização onomasiológica proposta, permite-nos oferecer ao consulente uma
busca diferenciada, que possibilita a apresentação das analogias existentes entre determinados
grupos de EIs. A onomasiologia é, portanto, útil, tanto por disponibilizar o significado das
expressões, como as relações analógicas que idiomatismos de um mesmo domínio podem
apresentar ao serem agrupados ao redor de conceitos.
15
Disponível em <http://noticias.aol.com.br/negocios/colunistas/paulo_cesar_fonseca/2005/0001.adp> ; acesso em 10/08/06.
16
<www.google.com.br> ; acesso em 26/12/08.
103
Para Caramori (2000), no que concerne à organização onomasiológica de um
dicionário, não uma classificação, ou “pirâmide”, que agrupe todos os conceitos de uma
língua, pois também é subjetiva, por vezes idiossincrática, a divisão conceitual do mundo.
Dessa forma, organizamos em um percurso onomasiológico 1.562 idiomatismos
considerados freqüentes na língua portuguesa do Brasil. Três pontos significativos precisam
ser lembrados: 1) os trechos de textos extraídos da internet compreendem um período de 5
anos (de 2004 a 2008), começando do final de nosso mestrado até o último ano de nosso
doutorado; 2) as abonações são mantidas tal qual se apresentam originalmente nos textos
disponíveis na Web (possíveis alterações foram feitas apenas no que diz respeito à ortografia
por conta de imprecisões na digitação e abreviaturas foram colocadas por extenso o que
não altera o conteúdo do texto); 3) elaboramos um Índice Remissivo (semasiológico) dos
idiomatismos para auxiliar a pesquisa do consulente, decidimos por manter tal índice em uma
ordenação alfabética descontínua para facilitar nosso trabalho nesse momento, assim,
aproveitamo-nos da ferramenta de ordenação descontínua disponível no software “Word” e
que leva em consideração os “espaços em branco” na organização alfabética. Por exemplo, a
todo vapor RAPIDEZ” vem à frente de abaixar a cabeça SUBMISSÃO”. Na organização
alfabética contínua, esses dois itens apareceriam invertidos porque o “espaço em branco” é
desconsiderado e o verbete é lido como um todo, podendo ser imaginado na forma seguinte:
“abaixaracabeçasubmissão” e atodovaporrapidez”. A organização alfabética descontínua
poderá ser modificada, passando para a contínua, caso seja uma exigência editorial ou mesmo
para uma disponibilização eletrônica de nosso dicionário, trabalho que poderá ser feito a
posteriori.
Sobre a macroestrutura, partimos de nossa dissertação de mestrado (RIVA, 2004-
a), onde elencamos um conceito para cada um dos cerca de 6 mil idiomatismos da língua
104
portuguesa do Brasil. Dessa forma, estabelecemos todos os conceitos veiculados por
idiomatismo e chegamos a um total de 1.100.
A determinação de um conceito para cada EI baseou-se em orientações colhidas
em todos os dicionários consultados e por meio de informantes (falantes do português e
usuários “comuns” da ngua). O passo seguinte foi estabelecer as EIs mais freqüentes em
nosso país, partindo das estatísticas apresentadas no item 4.3 desta tese, para chegarmos,
assim, a cerca de 400 conceitos que agrupam as 1.562 EIs mais usuais no Brasil.
Na relação desses 400 conceitos levantados, preocupamo-nos, primeiramente, em
homogeneizar “substantivos” como conceitos. Para EIs que anteriormente descrevemos por
meio de adjetivos, como “agradável”, preferimos AGRADABILIDADE, (encher os olhos),
aqueles que anteriormente elencamos na forma verbal, caso de “agredir” ou “contemporizar”,
preferimos, para o primeiro, ou AGRESSÃO (pular no pescoço ou quebrar a cara), quando
as EIs se referem ao ato de agredir, ou AGRESSIVIDADE (mostrar as garras ou mostrar os
dentes), nos casos em que as EIs indicam a disposição para a agressividade e, para o segundo
exemplo, optamos por CONTEMPORIZAÇÃO (colocar panos quentes). Para advérvios
como “nunca” ou “sempre”, o melhor foi criar o conceito FREQÜÊNCIA e deixar para a
microestrutura (dentro das informações inseridas entre colchetes) referências à “constância”,
desde que o mundo é mundo, ou à “impossibilidade” temporal, ficar para as calendas gregas
ou no dia de São Nunca.
Assim, a homogeneização dos conceitos foi uma das prioridades de nossa tese, ao
lado da escolha pelo trabalho com as EIs mais freqüentes no Brasil. Esses dois itens são,
essencialmente os dois pontos que divergem de nossa dissertação de mestrado, trabalho que,
como o próprio nome diz, Proposta de dicionário onomasiológico de expressões
idiomáticas (Cf. RIVA, 2004-a), pautou-se na possível idéia de se desenvolver um trabalho
onomasiológico com idiomatismos.
105
Confirmada essa possibilidade, esforçamo-nos em avançar no trabalho buscando,
principalmente, uniformidade e precisão nos dados que serão disponibilizados aos
consulentes. Portanto, no que tange à macroestrutura, buscamos a homogeneização dos
conceitos por meio de “substantivos”, o que é justificável porque os “substantivos”
mostraram-se mais abrangentes, ou seja, permitem que se agrupe em torno deles um maior
números de EIs, sem deixar de lado seu significado. Por exemplo, se na dissertação havia os
conceitos “morrer”, que não pode ser desdobrado em sub-conceitos como “assassinar”
(estourar os miolos), “cemitério” (ir para a cidade dos pés juntos) ou “doença” (estar com o
na cova), em nossa tese, optamos pelo conceito MORTE porque este permite que todas
essas EIs fiquem lado a lado e o consulente tenha a oportunidade de compará-las, inclusive
com outros idiomatismos que tratam da morte, encontrando uma resposta adequada à sua
dúvida, ou seja, para falar da morte com ironia: vestir o pijama de madeira; usando um
eufemismo: passar desta para uma melhor; para expressar de maneira pessimista uma opinião
sobre a saúde de alguém: estar nas últimas.
Em suma, sobre a mascroestrutura de nosso dicionário, decidimos apenas pelos
substantivos, dispostos alfabeticamente, e apresentados em negrito e letras maiúsculas para
que se destaquem antes das EIs que agrupam, por exemplo: EXCITAÇÃO, EXCLUSÃO,
EXEMPLO, EXIBICIONISMO, EXPANSÃO, EXPERIÊNCIA, EXPLICAÇÃO etc.
Acreditamos, pois, que a rigorosa observação de todas essas peculiaridades
permitirá, em pesquisas futuras, a elaboração de trabalhos mais amplos e que venham a
contemplar o maior número possível de EIs ou de outras UFs, apresentando, de modo mais
abrangente, como os idiomatismos se organizam dentro da língua portuguesa do Brasil, nos
outros países lusófonos e em trabalhos contrastivos.
Um interessante dicionário de UFs, no caso, um dicionário de provérbios
organizado onomasiologicamente, é Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs
106
(DELICADO, 1651), um trabalho que apresenta cerca de 4 mil provérbios (ou adágios)
“reduzidos a lugares comuns”, ou seja, agrupados ao redor de temas e com o intuito de listar,
mesmo que subjetivamente, esse tipo de UF. Essa possibilidade de organizar também outras
UFs por meio de conceitos já ocorre há muitas décadas e, como se observa na obra de
Antonio Delicado, trata-se de uma maneira de se pensar e estruturar a cultura por meio de
uma língua. Na obra citada, por exemplo, conceitos como BONDADE, estabelecido para
provérbios como Cada cuba cheira o vinho que tem; POBREZA, para Neste mundo
mesquinho quando ha para pam, nam ha para vinho; VERDADE, para A verdade ainda que
amarga se traga etc.
Assim, concluímos que não apenas um mecanismo único para se elaborar uma
obra de expressão onomasiológica, pois variação na “visão de mundo” dos lexicógrafos e
a possibilidade de se estruturar de diferentes formas o repertório lexical a ser tratado. Uma
obra lexicográfica que pretenda organizar a língua geral por meio de conceitos-chave sempre
será, senão em sua totalidade, parcilamente subjetiva. É possível que os consulentes todos de
uma obra desse tipo concordem com a existência do conceito MORTE (embora exista a forma
culta “falecimento”), mas conceitos que foram escolhidos com base nas definições das EIs
e das concordâncias utilizadas para exemplificar seus usos e que podem não ser aceitos
consensualmente.
Nossa preocupação foi traçar uma macroestrutura que seja precisa e que, no caso
de possíveis variantes, seja compreensível o fato de que se trata de uma arquitetura altamente
subjetiva. Por exemplo, no Pequeno dicionário de idéias afins (SARGENTIM, 2007)
encontramos para a “idéia” IGNORÂNCIA (p. 80): desconhecimento, estupidez, imperícia,
incapacidade, incultura, falta de instrução, pedantismo, charlatanismo, burrice, incompetência,
conhecimentos gerais.
107
Em nosso trabalho privilegiamos os conceitos IGNORÂNCIA e
INCOMPETÊNCIA porque, embora dividam em parte o mesmo campo semântico,
INCOMPETÊNCIA (com em ser um monte [de merda]) pressupõe inaptidão ou
incapacidade enquanto que IGNORÂNCIA (para de visão estreita) descreve aquele que não
possui conhecimento, cultura ou estudo. Por conta disso o objetivo foi realizar um trabalho
consistente e uniforme, priorizando substantivos como conceitos, pois, na proposta anterior
(Cf. RIVA-a, 2004), quando também mantivemos verbos e adjetivos como conteitos, a
estruturação mostrou-se menos objetiva.
Sobre a microestrutura, definimos sua arquitetura da seguinte forma:
a) entrada (em itálico e em negrito, para destacar o idiomatismo alistado);
b) ® (seta, para indicar a definição do idiomatismo apresentado);
c) definição (em alguns casos repetição da definição da EI porque acreditamos que mesmo
se o dicionário for impresso, não se pode assegurar que o consulente verá outro verbete para
comparação, senão aquele buscado por ele. Essa restrição no que tange à repetição de algumas
definições é editorial, portanto, posterior ao trabalho. Também não achamos funcional
parafrasear as definições das EIs simplesmente para os idiomatismos não terem explicações
idênticas, pois muitas definições podem ser, de fato, absolutamente as mesmas);
d) nuança: entre colchetes “[ ]”, contendo informações como veis de uso (coloquial: coloq.;
culto: cult.; pejorativo: pej.; eufêmico: euf.; hipérbólico: hip.; irônico: iron.; vulgar: vulg.)
e/ou informações concernentes a origem comprovada (orig.) ou origem suposta (orig. sup.),
com o intuito de introduzir ao usuário elementos alusivos que lhe facilitem a memorização da
expressão.
e) contexto, introduzido pelo símbolo ♦” e com a expressão em itálico, no corpo da
abonação. Por exemplo, para entregue às moscas, relativo ao conceito ABANDONO”,
108
temos as seguintes nuanças “[sujeito: coisa; recorre à imagem daquilo que está abandonado e
atrai moscas]” e o seguinte recorte de co-textos “A Finep-RS já está há seis meses entregue às
moscas. Desde a sexta-feira, 30 de junho de 2006, quando o coordenador Vanderlan
Vasconselos deixou o cargo para concorrer a deputado estadual pelo PSB [...]”, além da
referência e da data do acesso em que foi feita a extração do trecho
“(http://www.baguete.com.br/colunasDetalhes.php?id=2318 ; acesso em 10/10/07)”.
A opção por símbolos como a seta (“”), o losango (“♦”) e até mesmo os
colchetes (“[ ]”), foi feita para que cada verbete de nosso dicionário trouxesse informações
bem delimitadas (EI, significado, informações gerais, concordância, endereço eletrônico da
concordância), sem uma aglomeração de dados que pudesse confundir o consulente. É
evidente que, se essa obra vier a ser disponibilizada on-line, existe a possibilidade de que os
símbolos citados sejam substituídos ou eliminados, para que a digitalização seja feita da
maneira mais eficaz e para que a consulta seja otimizada. O mesmo pode ocorrer caso o
trabalho seja publicado por alguma editora, que pode propor alterações de caracteres com
vistas a uma adequação a normas editoriais, feitas a posteriori.
Dessa forma chegamos ao seguinte modelo de verbete:
entregue às moscas abandonado, esquecido [sujeito: coisa; recorre à imagem daquilo que es
abandonado e atrai moscas] A Finep-RS esseis meses entregue às moscas. Desde a
sexta-feira, 30 de junho de 2006, quando o coordenador Vanderlan Vasconselos deixou o cargo
para concorrer a deputado estadual pelo PSB [...]
(http://www.baguete.com.br/colunasDetalhes.php?id=2318 ; acesso em 10/10/07)
Conforme já dissemos, ao final da obra, disponibilizamos ao consulente um índice
remissivo das EIs contempladas em nosso trabalho, sobretudo para que o consulente pudesse
encontrar com facilidade o idiomatismo buscado e para atender a normas editoriais, que
primam pela clareza na organização de obras lexicográficas. Porém, um indíce remissivo em
uma obra onomasiológica é útil também por permitir outro enfoque sobre o fenômeno
109
lingüístico tratado. Assim, o dicionário proposto possibilita também a observação de
idiomatismos polissêmicos, caso de última palavra, que indica ATUALIDADE ou
DEFINIÇÃO; trazer à luz, EXPLICAÇÃO, NASCIMENTO ou REVELAÇÃO; sem mais
nem menos, MOTIVO ou IMPREVISTO; sujar a barra, PROBLEMA ou REPUTAÇÃO;
encher a cabeça, ENGANO ou IRRITAÇÃO.
No capítulo seguinte apresentamos o produto resultante de toda esta pesquisa, o
Dicionário onomasiológico de expressões idiomáticas usuais na língua portuguesa do Brasil,
com 1.562 EIs, agrupadas em quase 400 conceitos.
110
CAPÍTULO V
DICIONÁRIO ONOMASIOLÓGICO DE EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS
USUAIS NA LÍNGUA PORTUGUESA DO BRASIL
A
ABANDONO
deixar de lado ® abandonar, desprezar, desconsiderar [orig. sup.: alusão àquilo que
denotativamente não se utiliza mais] Se deixar de lado a teimosia, poderá viver um dia feliz no
amor. (www.diariosp.com.br/servicos/horoscopo/default.asp?day=9&month=7&year=2001 ;
acesso em 18/11/04)
deixar na gaveta ® não utilizar algo por certo tempo [orig. sup.: alusão à desorganização de objetos
guardados em gaveta] Aqueles projetos antigos que você deixou na gaveta, achando que
jamais teria oportunidade de colocá-los em prática.
(www2.opopular.com.br/anteriores/04jun2003/servicos/horoscopo.htm ; acesso em 18/11/0)
deixar pra ® relevar, despreocupar-se [orig. sup.: alusão àquilo que denotativamente não se
utiliza mais; freqüente também na forma negativa] Ás vezes as coisas vão acontecendo e a
gente tenta deixar pra lá, mas essas coisas acabam se acumulando e chega uma hora que você
não agüenta mais [...] (www.annandinha.blogger.com.br ; acesso em 19/11/04)
entregue às moscas abandonado, esquecido [sujeito: coisa; orig. sup.: alusão à imagem daquilo
que atrai moscas] A Finep-RS está seis meses entregue às moscas. Desde a sexta-feira,
30 de junho de 2006, quando o coordenador Vanderlan Vasconselos deixou o cargo para
concorrer a deputado estadual pelo PSB [...]
(http://www.baguete.com.br/colunasDetalhes.php?id=2318 ; acesso em 10/10/07)
jogado às traças abandonado, esquecido [orig. sup.: alusão à traça, um inseto que corrói alguns
tipos de objetos] É uma vergonha a situação do ensino no Brasil, simplesmente jogado as
traças!!! (www.ime.usp.br/~weslley/sobremim.htm ; acesso em 02/06/04)
ABSURDIDADE
é o fim da picada para expressar surpresa ruim [expressão freqüente no presente] Será que
uma partida de futebol é mais importante do que um ano letivo de nossa Universidade. Se for,
realmente é o fim da picada! (www.gazetadooeste.com.br/raiosx.htm ; acesso em 30/04/04)
é o fim do mundo para expressar surpresa ruim [hip.; orig.: bíblica; referência ao fim do mundo,
citado no livro do Apocalipse] É o fim do mundo! Ou seremos engolidos pelos buracos negros
ou enfrentaremos dinossauros devorando Ferraris e apavorando a Disneylândia.
(http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/11/textos/107/ ; acesso em 30/12/2008)
sem pé nem cabeça → idéias sem uma seqüência lógica [orig. sup.: alusão à imagem de uma figura
insólita, sem partes do corpo como ou cabeça] ♦ Os planos econômicos, a princípio, parecem
algo confuso e sem sentido. Mas, à medida que nos aprofundamos em seus detalhes,
111
percebemos aliviados que estamos diante de um todo sem nem cabeça. (www.abbra.eng.br/
piadas46.htm ; acesso em 04/09/04)
ACONTECIMENTO
estar a caminho prestes a acontecer [expressão freqüentemente seguida de sujeito nas terceiras
pessoas, do singular e do plural] ¨ Novas atualizações da Microsoft estão a caminho. Sete falhas
serão resolvidas com novas atualizações a serem lançadas dia 14 de fevereiro.
(http://magnet.pro.br/mercado/setebrechasmspatch/ ; acesso em 16/10/08)
pano de fundo → conjunto dos acontecimentos vividos [alusão ao cenário do Teatro] MONTANHA
GELADA: Tendo como pano de fundo a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, o filme segue
a história do soldado desertor Inman (Law) que, após um grave ferimento na luta entre unionistas
e confederados, busca reatar sua ligação com a namorada Ada Monroe (Kidman), filha de um
pastor protestante. (http://www.cenafinal.com.br/cenateca/cenatecar2.asp?cod=2311 ; acesso
em 30/04/04)
ADAPTAÇÃO
dançar conforme a música ajustar-se à determinada situação [orig. sup.: alusão ao ato de se
dançar de acordo com a música ouvida] Dois filmes separados por 20 anos mostram a
revolução de Bernardo Bertolucci, um diretor que se recusa a dançar conforme a música.
(http://www.rabisco.com.br/53/tango.htm ; acesso em 30/04/08)
no vai da valsa adaptar-se a uma circunstância [cult.; alusão à imagem da valsa, que é uma
dança executada em pares] Aqui é tudo no vai da valsa. Em razão disso, certamente Nelson
DeMille não sobreviveria, pois seu herói John Corey morreria de fome.
(http://www.metalnet.com.br/colunas.php?id=39 ; acesso em 30/12/08)
ADMIRAÇÃO
de (se) tirar o chapéu ® admirável [alusão ao cumprimento, não tão comum hoje em dia, de se tirar
o chapéu para reverenciar outra pessoa] Essa banda é realmente digna de se tirar o chapéu e
merece o respeito e admiração de todas as pessoas ligadas ao rock [...]
(www.portaldorock.com.br/especiallurkers.htm ; acesso em 26/11/04)
ADULTO
homem feito → jovem que se torna adulto [alusão ao completo desenvolvimento físico de um
indivíduo] Não se assuste quando chegar a hora em que você descobrir que seu filho é um
"homem feito". (www.dominiofeminino.com.br/ filhos/filassustando.htm ; acesso em 30/05/04)
AFINIDADE
alma gêmea ® pessoa com quem se tem profundas afinidades, geralmente em relacionamento
amoroso [orig. sup.: Mitologia Grega; afirmava-se que os homens eram poderosos seres duplos
chamados “andróginos”, com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas. Os deuses, com o
intuito de preservar poder deles, decidiram punir aquelas criaturas dividindo-as em duas e
criando, homens e mulheres] (...) pelo judaísmo o casamento é sagrado (...) e que Deus
reservou para cada pessoa a sua escolhida, a sua alma gêmea.
(www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=388&p=0 ; acesso em 07/05/04)
AGITAÇÃO
com fogo no rabo ® muito agitado [vulg.] Se o Spielberg lança algum filme, você fica com fogo no
rabo para assistir. (www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=276&cat=Discursos ;
acesso em 30/08/04)
112
da virada ® indivíduo agitado ou com constante mau humor [sujeito: pessoa; expressão usada,
em geral, depois do verbo ser] Você é da pá virada? Quem nunca foi zoado na vida??
Chegou a sua vez de zoar alguém! (http://www.chongas.net/chongas/2005/02/14/voce-e-da-pa-
virada/ ; acesso em 26/12/07)
estar com a macaca estar muito excitado, alterado [orig. sup.: alusão ao animal que tem
comportamento agitado] Stelio Frati, devia estar com a “macaca”, quando criou esta obra
prima, um asa baixa que é um verdadeiro caça disfarçado.
(www.aviacaoexperimental.pro.br/aero/aviaodados/falco.html ; acesso em 04/05/04)
estar com o diabo no corpo estar com muita energia [apesar da figura do diabo ser vista
negativamente, esta expressão tem caráter positivo] Você jogou bem, mas aquele dia o Ramon
estava com o diabo no corpo. (www.futebolinterior.com.br/paginas/chat.php?chat_id=83 ; acesso
em 30/08/04)
estar com todo o gás estar disposto, com energia [orig. sup.: alusão à imagem daquilo que é
movido a gás] Ela está com todo o gás : fez de quase tudo na vida e permanece como
testemunha viva da história da indústria...
(quatrorodas.abril.com.br/classicos/grandesbrasileiros/1104_kombi.shtml ; acesso em 10/09/04)
fora de si → transtornado, sem conseguir se controlar [orig. sup.: alusão ao indivíduo desequilibrado;
descreve o indivíduo agitado por fúria ou extasiado] Fora de si, ele se levanta, procura debaixo
da cama, dos móveis; derruba uma cadeira; e, no meio do quarto, olha em torno, sem
compreender. (www.olharliterario.hpg.com.br/asgemeas.htm ; acesso em 28/05/04)
AGRADABILIDADE
doce como mel ® suave, meigo [de matriz comparativa; mel reitera a agradabilidade de algo ou
alguém] Eu sabia que o meu nome soava como poesia e era doce como mel, mas não sabia
que viraria tema pra uma música [...] (www.todkra.blogger.com.br/ ; acesso em 27/11/04)
encher os olhos agradar, atrair a ateão [orig. sup: alusão ao ato de se admirar a beleza por
meio da visão] ♦ O Aeroporto Regional em Jaguaruna já começa a encher os olhos de empresas
de todo o país que vêem na obra uma excelente oportunidade de investimentos.
(www.jaguaruna.sc.gov.br/aeroporto.php ; acesso em 07/04/04)
mostrar os dentes sorrir abertamente [orig.: alusão ao ato de sorrir facilmente] Além disso ele
deve chegar e sair sério da sala de aula, pois mostrar os dentes para os alunos significa correr o
risco de “perder o respeito sobre eles”. (www.ufsm.br/gepeis/ana6.htm ; acesso em 02/05/05)
AGRESSÃO
acabar com a raça agredir. [pej.; indica agressão física] ¨ A sogra está louca para acabar com a
raça de Everest, que abandonou sua filha com milhões de dívidas.
(kubanacan.globo.com/Kubanacan/0,6993,TKI0-2723-114216,00.html ; acesso em 05/04/04)
levantar a mão ameaçar bater [orig. sup.: alusão à mão, parte do corpo utilizada para agressão
física] Quero que ele saiba que tem alguém olhando por mim e que se ele levantar a mão na
minha direção isso não ficará impune.
(www.belezapura.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=4&infoid=170 ; acesso em
12/06/04)
pular no pescoço brigar com alguém [expressão freqüente depois do substantivo vontade para
indicar desejo de agressão física] Outras horas me da vontade de pular no pescoço de quem
encontrar pela frente (até quem me dá bom dia). Me ajudem, o que eu posso fazer para melhorar
o meu humor nesses dias?
(http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20090228023910AAP8F0Q ; acesso em
20/12/084)
113
quebrar a cara de → bater violentamente em alguém [agressão física] ♦ Derrubou a porta e quebrou
a cara do vizinho. (www.navedapalavra.com.br/contos/homemcansado.htm ; acesso em
13/01/06)
quebrar o pau brigar verbal ou fisicamente [agressão física ou verbal] Planeta Atlântida não é
ringue de palhaço. Os "esquentadinhos" que adoram esses lugares para quebrar o pau, é bom
procurarem briga em outro lugar. (www.marcocezar.com.br/gente_zuera_017.php3 ; acesso em
01/07/04)
sair no braço bater em alguém em uma briga [socar] Do nada virou um tapão na cara do meu
amigo, e quis sair no braço com ele.
(ww2.mtv.com.br/clube/colunas_n/colunas.gen.php?txtid=515 ; acesso em 02/09/04)
sentar a mão agressão física [socar ou estapear alguém] Outro que eu quase sentei a mão foi
um mané que leu meia zia de quadrinhos na vida e estava reclamando que colocaram o Rei
do Crime negro no Demolidor. (http://www.sobrecarga.com.br/node/view/10707 ; acesso em
08/08/08)
só não chamar de santo agressão verbal [iron.: pressupõe que o vocabulário utilizado em
discussão seja chulo] ♦ Da vergonha de 66, na Inglaterra, sobraram seis que foram campeões do
mundo em 70 - inclusive Gérson, que a torcida o chamou de santo.
(http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=389CIR001 ; acesso em 08/08/08)
xingar (alguém) de tudo quanto é nome agressão verbal [hip.: pressupõe que o vocabulário
utilizado em discussão seja chulo] ♦ Ok, eu o xinguei de tudo quanto é nome, mas será que vale
mesmo a pena perder um jogador que o cnico considera titular por esse valor?
(http://movimentocarlitorocha.blogspot.com/2008/08/sada-de-jorge-henrique.html ; acesso em
10/10/08)
AGRESSIVIDADE
espumar de raiva → mostrar agressividade [hip.; orig. sup.: alusão ao sintoma da doença conhecida
como “raiva”, que acomete cães, gatos, morcegos, cujo sintoma perceptível é o salivar
excessivamente] O chefe começou a espumar de raiva. - Tá convencido agora? - Dalila
perguntou. O chefe rosnou e saiu voando para a cadeia.
(http://uk.geocities.com/universodasfabulasoutros1/ai_tem_coisa.html ; acesso em 08/08/08)
mostrar as garras mostrar agressividade [hip.; orig. sup.: alusão àqueles animais que possuem
garras retráteis] O atual governo começa a mostrar as garras. o conseguindo censurar a
imprensa, ataca o mal pela raiz: quer censurar as palavras.
(www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=2785 ; acesso em 11/05/05)
mostrar as unhas mostrar agressividade [orig. sup.: alusão àqueles animais que possuem garras
retráteis] Quem sabe o brasileiro começasse a mostrar as unhas pras injustiças sociais, tão
distantes da compreensão da maioria das pessoas.
(proteus.limeira.com.br/tiroequeda/forum.php?nnot=114 ; acesso em 02/05/05)
mostrar os dentes mostrar agressividade [orig. sup.: alusão à imagem da face de um animal que
rosna e range os dentes quando está para atacar, por exemplo, os cães] Mas para que o
inimigo saiba do potencial que temos é preciso instigá-lo e mostrar os dentes de tigre enraivecido
[...]. (www.correiodovale.com.br/cidada.htm ; acesso em 18/07/04)
pegar fogo agitação de um grande número de pessoas que indica possibilidade de conflito [hip.;
agressividade generalizada] foi que o negócio pegou fogo! Os peraltinhas acharam de
agarrá-lo, dando chute, pernada, dedada, beliscada, mordida, e ele revidando tudo no maior
bafafá... (http://www.meiotom.art.br/machado1c.htm ; acesso em 18/12/084)
soltar faísca mostrar agressividade [hip.; orig. sup.: alusão à imagem do indivíduo que fica com
os olhos avermelhados quando está com raiva excessiva] E que sua administração estava indo
muito bem e outros afagos que deixaram o candidato do PT soltando faísca.
114
(http://www.maskate.com.br/?pg=ver.news&id=1862 ; acesso em 08/08/08)
AJUDA
dar um empurrãozinho ® ajudar alguém a se estabelecer, a conseguir fazer algo [iron.; alusão ao
ato de empurrar algo ou alguém com o sentido de impulsionar] ♦ Isso serve somente para dar um
empurrãozinho em quem gostaria de aprender sobre este instrumentos.
(www.mvhp.com.br/teclado11.htm ; acesso em 09/05/05)
estender a mão oferecer ajuda [orig.: blica; um dos pressupostos primordiais da blia é ajudar
o próximo e o ato de estender a mão para auxiliar é uma imagem recorrente em suas parábolas]
Projeto de voluntariado de Universidade Aberta à Terceira Idade, no Rio, estimula idosos
saudáveis a estender a mão a quem vive em asilo. (www.maisde50.com.br ; acesso em
19/05/04)
tábua de salvação último recurso em uma situação de desespero [orig.: bíblica; referência às
tábuas da salvação, onde Moisés escreveu os dez mandamentos ditados por Deus] Volto a
repetir, cuidado com as suas expectativas e a responsabilidade que você atribui ao
relacionamento, para ser a sua tábua de salvação, pois as chances de você se decepcionar
aumentam assim. (www.parperfeito.com.br/ThaisResponde/opshow/id3600/p-1/f-1/n-1/ ; acesso
em 15/09/04)
ter peito ter coragem, audácia, firmeza [orig. sup.: aquele que enfrenta situação adversa e não
foge, dando as costas aos problemas] Precisa ter peito para lutar contra o que está errado e,
claro muita coragem para mudar. (200.101.6.26/modules/Inicial/adm.php ; acesso em 01/11/04)
ALEGRIA
rir às bandeiras despregadas rir muito sem parar [cult.;] ♦ [...] espasmos de benevolência,
pungentes diálogos com inexistências, propostas desavergonhadas de reconciliação, tudo isso
me faz rir às bandeiras despregadas. (www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=17389
&cat=Artigos ; acesso em 05/05/05)
sorriso colgate sorriso perfeito, deixando à mostra belos dentes [orig. alusão ao slogan da marca
de creme dental Colgate, que passou a designar aquele que sorri bastante] Amanhã vou fazer
uma visita de rotina ao dentista, para dar um trato em meus dentinhos... vou voltar para
faculdade com um sorriso colgate [...] (www.a_smile_like_yours.zip.net ; acesso em 14/09/04)
AMOR
amor à primeira vista ® paixão repentina por algo ou alguém [orig.: alusão àqueles que se
apaixonam por alguém logo quando o vêem] ♦ Não existe amor à primeira vista, o que existe sim
é a pessoa certa no momento certo. (www.mensagensvirtuais.com.br/msgs.php?id=2202 ;
acesso em 17/05/04)
dar o céu ® querer fazer até o impossível por quem se ama [hip.] Quero te dar o céu e o mar e
tudo o que você sonhar porque eu te amo demais. E só você me faz entender que o amor é tudo.
(geocities.yahoo.com.br/ce_123br/estouem.html ; acesso em 16/09/05)
ANÁLISE
estar no ar estar sendo cogitado [euf.] Uma pergunta está no ar: os faltosos serão punidos?
(clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=175103 ; acesso em 09/09/05)
ANDAMENTO
dar o tom ® determinar a conduta a ser seguida [orig. sup.: alusão ao momento em que músicos
buscam sintonia para uma apresentação] ♦ A música ritual intercalada com o silêncio ajuda a dar
o tom proposto pelo espetáculo, complementado pela iluminação.
(www.se.sesc.com.br/noticias.asp?idmateria=98 ; acesso em 07/11/04)
115
APARECIMENTO
pôr o nariz pra fora sair de dentro de casa [orig. sup.: alusão à imagem daquele que observa
algo ou alguém como se estivesse espiando] Hoje sequer pus o nariz pra fora, e isso está me
deixando louca, porque é culpa de um mal-entendido muito, muito chato.
(acre.cubosolar.com/2004_04_01_arquivo.html ; acesso em 09/05/05)
voltar à baila ser novamente comentado nas rodas [cult.] Sim, na época isso foi muito
comentado, especialmente na Ásia, até porque uma velada competição política entre
Cingapura e Tailândia. Depois o assunto esfriou, embora recentemente o tema tenha voltado à
baila: Não é segredo que a Skyteam, por exemplo, teria muito a ganhar com novas parceiras na
Ásia. (www.jetsite.com.br/mostra_gente.asp?codi=39 ; acesso em 15/11/04)
voltar à cena ser novamente comentado nas rodas [orig. sup.: alusão ao momento de retornar à
cena, no teatro] Eu acho que a proposta inicial do punk tem que voltar à cena hoje em dia.
(www.portaldorock.com.br/entrevistainvasores.htm ; acesso em 05/05/05)
APARÊNCIA
dourar a pílula ® tentar melhorar a aparência de algo [euf.; orig. sup.: difunde-se a história de
que, nas antigas farmácias, as pílulas eram embaladas em papéis dourados que melhoravam
sua aparência] [...] não tente dourar a pílula, pode passar um quê de falsidade, de falsa modesta,
de arrogância, de piedade, etc. (www.agilitymarketing.com.br/artigos/artigo_jasen1.htm ; acesso
em 28/11/04)
nos trinques cuidadosamente vestido [orig. sup.: alusão a trinque, o cabide em que eram
expostas mercadorias de mascates ou vendedores de roupas] Para um turista desavisado do
Brasil, por exemplo, deparar-se com uma gari nos trinques pode parecer estranho.
(www2.correioweb.com.br/cw/2002-03-16/mat_36581. htm ; acesso em 26/10/04)
cintura de pilão ® cintura muito fina [orig.: alusão ao formato dos pilões usados para triturar
alimentos ou outras substâncias sólidas] [...] um pouco de maquiagem, dentes postiços tortos
escondendo seu sorriso perfeito e uma dieta de batatas fritas para aumentar sua cintura de pilão.
(ultimosegundo.ig.com.br/useg/ cultura/artigo/01466600,00.html ; acesso em 02/08/04)
cintura de vespa ® cintura muito fina [orig.: alusão à forma do corpo da vespa] Reeditando este
look, Dior lança o New Look em uma forma de ampulheta, dando à mulher a cintura de vespa
muito retirada de seu guarda-roupa.
(www.zinecultural.com.br/home/s_moom_zoom.php?exibir=texto&cod=6325 ; acesso em
02/08/04)
em forma em boas condições físicas [orig.: alusão àqueles que estão saudáveis e com o corpo
moldado por ginástica] Aqui você encontra dicas para manter o seu corpo sempre em forma,
bonito e com muita saúde. (www.ultralink.com.br/forma/forma.shtml ; acesso em 03/04/04)
estar de cara nova ser reformado, reformulado [iron.; orig. sup.: alusão àquele que faz cirurgia
plástica] A linha de cervejas Eisenbahn está de cara nova. Pela primeira vez desde a criação
da marca, três anos, os rótulos ganharam novo design [...]
(www.eisenbahn.com.br/main/noticia. php?noticia=110&rolagemIE=0&maisNot= ; acesso em
23/02/06)
estar de roupa nova ser reformado, reformulado [sujeito: pessoa ou coisa; orig. sup.: alusão
àquele que compra roupas novas] Desde a semana passada o cartão-postal mais famoso do
Brasil está de roupa nova. Durante o dia, quem visita a estátua do Cristo Redentor, no Rio de
Janeiro, pode ver o monumento novamente em sua cor original. (www.opps.com.br/veja.html ;
acesso em 11/04/05)
não ser de se jogar fora → ter certa beleza, sensualidade [iron.] A carne é fraca, mas não
devemos facilitar. Afinal de conta eu não sou uma mulher de se jogar fora.
116
(www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=2450&cat=Teses_Monologos ; acesso em
07/05/05)
nariz de tucano nariz pontudo e recurvado [pej.; orig.: alusão à ave de bico muito grande] João
Francisco é meu amigo de boteco. Mas é feio. Muito feio. Tem orelhas de abano (uma maior que
a outra), nariz de tucano e, além de tudo isso, é vesgo. (www.morfina.com.br/terminais.
asp?texto=372&edicao=23 ; acesso em 11/03/06)
olho de peixe morto olhar daquele que parece estar com sono, olhar parado e considerado feio
[pej.; orig.: alusão à imagem dos olhos de um peixe morto] E o terapeuta lá, com aquele olho
de peixe morto, caído, quase bocejando, ouvindo, pela oitava vez, naquela mesma tarde, a
mesma nauseante história de amor. (http://www.releituras.com/marioprata_menu.asp ; acesso
em 02/01/08)
ovo frito seio pouco volumoso [pej.; orig.: alusão à imagem dos ovos fritos, ou seja, pouco
salientes] Os seios grandes voltaram com tudo. E com tantas modelos e atrizes apelando para
o seio artificial, o implante de silicone virou febre e se transformou no tema de um concurso da
rádio Jovem Pan. O concurso “Ovo Frito Nunca Mais” promete doar um implante de silicone para
quem melhor convencer os organizadores.
(www2.uol.com.br/tododia/ano2000/julho/dia15/triboz.htm ; acesso em 08/04/05)
para inglês ver apenas aparentemente [orig. sup.: faz referência à época em que a Inglaterra
estabeleceu um prazo para o fim do tráfico de escravos. O cumprimento do prazo estipulado não
ocorreu com facilidade por conta da confusa lei elaborada pelo então Ministro da Justiça, Padre
Feijó] Ele lembra que, para ser obedecida, a lei tem que fazer sentido, não podendo ser
somente “para inglês ver”. (www.netrodas.com.br/entrevistas.asp?id=295 ; acesso em 11/12/05)
perna de saracura perna fina e longa [pej.; orig.: alusão à imagem da saracura, ave de pernas
finas e alongadas] Sofri assédio sexual nesta viagem - bancos apertados permitiram que
sentasse no fundão com as pernas de saracura esticadas no corredor.
(www.studiosim.com.br/mauris/arquivos/inca_99.doc ; acesso em 12/04/05)
pintor de rodapé pessoa de estatura baixa [pej.; orig.: alusão àquele pintor que fica abaixado
para pintar o rodapé de uma casa] Claro que um pai alto pode ter um filho pintor de rodapé,
mas seria uma exceção estatisticamente falando. A correlação pai alto = filho alto é forte.
(www.coleguinhas.jor.br/ 2003_12_07_picadinho2_arquivos.html ; acesso em 12/06/04)
saco de batata pessoa gorda e de aparência [pej.; orig.: alusão à imagem de um grande saco
de batatas] Eu usaria camiseta masse tivesse baby look, odeio essas coisas que te deixam
parecendo um saco de batata. (www.tamoindo.com/mutacao/forum_
posts.asp?TID=3327&PN=15&TPN=2 ; acesso em 09/01/06)
ser pele e osso estar muito magro [pej.; orig.: alusão à aparência daquele que está muito
magro; hip.: descreve também indivíduo doente] Eu apanhei gastroenterite, estive 10 dias sem
comer e uma semana a soro, estava muito cansada e não tinha forças, era pele e osso.
(pegadas.online.pt/index.php?accao=forumler&msg=4840&forum=6 ; acesso em 10/09/04)
APERFEIÇOAMENTO
aparar as arestas ® solucionar as diferenças que prejudiquem relacionamento [orig. sup.: alusão à
extinção das diferenças, simbolizadas na expressão por arestas] Mais uma sugestão:
conversar, tentar resolver desentendimentos e aparar as arestas da relação são maneiras
eficientes de resgatar o prazer de ficar junto.
(www.terra.com.br/mulher/sexo/laura/2004/03/17/000.htm ; acesso em 21/05/04)
APOIO
viga mestra → aquilo de que depende a existência, o equilíbrio de algo ou de alguém [orig.: alusão à
viga que recebe maior peso em uma construção] A tecnologia da informação aparece como
117
uma grande aliada, representando a viga mestra para o tratamento adequado da informação de
forma a transformá-la em [...]. (www.cgi.unicamp.br/zope/ database/pdf/CTC-
GestaoDeDados.pdf ; acesso em 13/11/04)
APTIDÃO
seguir suas inclinações entregar-se às suas tendências [orig. sup.: inclinações como sinônimos
de aptidão] ♦ Cada qual deve ser livre para seguir suas inclinações e cumprir seu próprio destino,
desde que esse seja um ato legítimo que o prejudique aos semelhantes.
(hospedagem.infolink.com.br/nostradamus/c08q023.htm ; acesso em 02/09/04)
ARREPENDIMENTO
morder a língua arrepender-se de ter falado o que não devia [orig. sup.: alusão ao doloroso e
involuntário ato de morder a própria língua] Muitos, entre os quais me incluo, vão morder a
língua por terem dito um certo dia que a Internet é um mundo sem dono e incontrolável.
(www.an.com.br/2000/set/08/0evi.htm ; acesso em 11/04/05)
voltar atrás desistir de continuar e voltar à situação anterior [orig. sup.: alusão ao ato de voltar a
uma posição anterior à última] Não estou a fim de ninguém. Sinto falta de um companheiro,
mas tenho plena certeza de que não quero voltar atrás na minha decisão.
(www.vaidarcerto.com.br/enviar.php?depcod=3678 ; acesso em 15/11/04)
ARROGÂNCIA
empinar o nariz → adotar postura de arrogância ou superioridade [orig. sup.: alusão ao gesto que se
considera demonstrativo de arrogância] A qualidade mais valiosa neste mundo habitado por
celebridades, personal trainers e marxistas, é com certeza o talento para empinar o nariz com
desprezo. (www.wunderblogs.com/cgi-bin/mt-comments.cgi?entry_id=3356 ; acesso em
05/04/04)
olhar de cima ostentar superioridade sobre outrem ou sobre algo. [orig. sup.: alusão ao indivíduo
que olha os outros soberba] ♦ Afinal de contas, não somos um país hegemônico como os
Estados Unidos, que podem se dar ao luxo de olhar de cima para tudo, tropeços eleitorais à
parte. (an.uol.com.br/2001/jan/15/0opi.htm ; acesso em 31/03/04)
ASTÚCIA
arma secreta ® meio astucioso de se sair bem de uma situação [orig. sup.: militar; alusão ao ato de
possuir uma arma não conhecida para atacar ou contra-atacar] Jovem surfista quer fazer da
dificuldade sua arma secreta. (www.amputadosvencedores.com.br/jovem_surfista.htm ; acesso
em 22/04/05)
ATENÇÃO
abrir os olhos ® estar bem atento [orig. sup.: alusão de olhos como símbolos de atenção] Mas
como esse é um negócio milionário, onde o governo é o maior beneficiário e a sociedade a maior
prejudicada, o consumidor deve abrir bem os olhos. (an.uol.com.br/2000/dez/11/0evi.htm ;
acesso em 05/04/04)
aviso aos navegantes ® aviso amigável para alertar alguém em relação a algo [orig.: comum na
terminologia naval; alusão à prática de alertar a tripulação de embarcação frente o perigo]
Aviso aos navegantes : todas letras, poesias e músicas de Arnaud Mattoso estão registradas e
protegidas pela Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro [...]
(www.arnaudmattoso.com.br/tex.php?flag=2 ; acesso em 06/02/06)
dar ouvidos ® levar em conta [orig. sup.: alusão de ouvidos como forma de dar atenção] ♦ Há muito
tempo deixei de dar ouvidos às bobagens que ele diz. (www.samba-choro.com.br/s-
c/tribuna/samba-choro.9901/0276.html ; acesso em 07/11/04)
118
de antenas ligadas ® prestando atenção em tudo que está ao redor [orig. sup.: alusão de antenas
como forma de estar atento] ♦ O importante é você estar sempre de antenas ligadas, percebendo
tudo o que está acontecendo a sua volta [...]
(revistaturismo.cidadeinternet.com.br/guardian/capitulo10.htm ; acesso em 17/11/04)
ficar de orelha em ficar atento [orig.: alusão ao ato de levantar as orelhas de alguns animais,
comportamento relacionado à defesa ou caça e pressupõe atenção] O governo, pois,
desacredita a própria política, fazendo com que o investidor fique de orelha em com o que
possa acontecer. (clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=166350 ; acesso em
17/09/05)
olho do dono as atenções do patrão com o próprio negócio, seu engajamento pessoal [orig.: vem
do provérbio O olho do dono é que engorda o gado] Olho do dono mantém a empresa, mas
não assegura a continuidade [...] (www.farmaexpo.com.br/grade_far.html ; 08/04/05)
ter bom ouvido (musical) distinguir com facilidade os sons, ser sensível para a música [orig.:
aptidão para a música] ♦ É necessário alguma formão para participar do Coralusp? Não. Não é
necessário sequer ler partitura. Precisa ter bom ouvido e gostar de cantar.
(www.ipen.br/scs/orbita/2003_05_06/entrevista.htm ; acesso em 27/10/04)
ATUALIDADE
última palavra o que de mais novo sobre algo [hip.; orig. sup.: alusão àquilo que é o mais
atual, moderno] Integrar a qualidade ambiental nos planos futuros é a ultima palavra em
desenvolvimento sócio-econômico para humanidade. (www.manna.com.br/manna.swf ; acesso
em 11/11/04)
ATUALIZAÇÃO
pôr em dia atualizar [orig. sup.: alusão ao ato de contar os fatos ocorridos mais recentemente]
O descanso semanal é um hábito milenar, que oferece a chance de pôr em dia a necessidade
biológica atrasada e acumulada. (www.icb.ufmg.br/lpf/4-156.html ; acesso em 14/06/04)
AUDÁCIA
ter topete ser muito audacioso [orig. sup.: alusão aos animais que possuem grandes cristas e se
impõem, caso de algumas aves; a variante menos freqüente ser topetudo] Ultimamente,
vem mostrando que a reeleição é coisa para quem tem topete.
(www.tvebrasil.com.br/os10mais/destaques/chicocaruso/hicocaruso.htm ; acesso em 22/04/05)
AUTENTICIDADE
a céu aberto ® ao ar livre, sem proteção ou disfarce [orig.: alusão aos locais para eventos em locais
abertos ou a fatos realizados diante de um público] Avenida Paulista é museu a u aberto.
Palco de protestos e shows, vitrine do mercado financeiro, cartão-postal de São Paulo...
(www.jornalexpress.com.br/ noticias/detalhes.php?id_jornal=8006&id_noticia=1252 ; acesso em
16/04/04 )
AUTO-CRÍTICA
olhar para o próprio rabo cuidar da própria vida, julgar-se a si mesmo em vez de julgar o
próximo [orig.: vem do provérbio Macaco não olha para o próprio rabo] ♦ Como eram só estorihas
a gente parece ter deixado pra e, olhando pro próprio rabo, nos convencendo de que
diferente", que nosso mundo não é distópico [...]
(www.brunoaccioly.com.br/weblog_arq/000068.html ; acesso em 29/03/05)
olhar para si mesmo cuidar da própria vida, julgar-se a si mesmo em vez de julgar o próximo [na
forma reflexiva, tem caráter positivo; na forma imperativa, é uma repreensão] Outros ainda
passam o tempo cuidando da vida alheia. Outros passam a comer tudo o que vêem pela frente.
Tudo isso para não ter tempo de olhar para si mesmo.
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(www1.uol.com.br/cyberdiet/colunas/030214_psy_fuga.htm ; acesso em 19/05/04)
AUTORIDADE
de pulso ® decidido, resoluto, autoritário [sujeito: pessoa; orig. sup.: alusão àquele que é mantém
decisão] Eu levo muito em consideração o presidente, que é uma pessoa de pulso, não se
deixa levar por pressão da imprensa, da torcida.
(http://esporte.uol.com.br/reportagens/especial_94.jhtm ; acesso em 25/12/08)
homem de pulso indivíduo firme, enérgico e que se impõe por sua autoridade [variante: de pulso
firme] Para eles, para comandar um grupo cheio de estrelas como a Seleção, era necessário
um homem de pulso. E isso o novo técnico tem de sobra.
(www2.uol.com.br/JC/_2000/2010/es2010_6.htm ; acesso em 11/04/05)
ter a última palavra dizer algo que põe fim ao debate [orig. sup.: alusão ao fato de que aquele
que toma a decisão efetivamente é o chefe ou o superior em uma hierarquia determinada]
Além de tagarela, gostava de ter sempre a última palavra numa discussão.
(www2.uol.com.br/cienciahoje/chc/chc141h1.htm ; acesso em 11/11/04)
AVALIAÇÃO
na berlinda em uma situação delicada, passando por uma nova análise [orig. sup.: alusão à
brincadeira infantil “jogo da berlinda”, em que uma criança se afasta enquanto as outras fazem
comentários sobre ela. A criança que está na berlinda ouve os comentários e escolhe o que mais
lhe agradou, em seguida escolhe um possível autor para o comentário e para subistituí-la] A
formação dos professores esna berlinda. Ela tem que ser mudada profundamente, porque
senão perdemos o compasso. (www.universiabrasil.net/materia.jsp?materia=2468 ; acesso em
27/08/04)
AVAREZA
economia de palitos → economia sórdida e irrisória [iron.; alusão ao ato de economizar algo
relevante] É uma economia de palitos em troca de mais uma concessão ao mercado financeiro.
Não faltam alternativas às privatizações. (www.joaoalfredo.org.br/detimp.asp?det=241 ; acesso
em 15/09/05)
enfiar a mão no bolso dar dinheiro a contragosto [orig. sup.: alusão à palavra bolso é freqüente
para se tratar de avareza, dinheiro ou economia] Eu nunca vi um banco abrir mão dos seus
lucros ou um político enfiar a mão no bolso e dar 1 real, ao menos, em benefício do País.
(www.familia.arantes.nom.br/reversodoavesso/index.asp ; acesso em 33/02/06)
ser mão fechada avarento [orig. sup.: alusão àquele que retém coisas de valor nas mãos] Se
alguém achar um bom patrão me avise, além do Silvio Santos da Globo e do Bill Gates eu não
conheço e o Silvio é judeu mas não é mão fechada.
(http://www.autoracing.com.br/forum/index.php?showtopic=11624 ; acesso em 10/12/08)
AZAR
a bruxa está solta ® designação de um curto espaço de tempo com acontecimentos ruins [orig.
sup.: a imagem da bruxa remonta a crendice popular e tem conotação negativa] Renata..
caraca.. a bruxa solta mesmo por aí, heim?? Espero que tudo entre nos eixos...
(http://www.digiscrappersbrasil.com.br/forum/showthread.php?p=31673 ; acesso em 29/11/07)
com o esquerdo ® com azar [orig. sup.: o lado esquerdo é relacionado com freqüencia a algo
negativo] Não se pode afirmar que começou com o esquerdo, mas com certeza não é um
jogo que figuraria entre os melhores. (www.pernambuco.com/ diario/2003/07/09/info14_0.html ;
acesso em 10/09/04)
maré de azar definitivo, irreversível [orig. sup.: alusão de maré com um período de tempo
passageiro] ♦ Nunca tive uma maré de azar tão grande. Perdemos a consistência do time titular e
120
teremos de ganhar ritmo de jogo durante a primeira fase.
(www.gazetaesportiva.net/reportagem/volei/rep013.htm ; acesso em 29/04/05)
121
B
BAJULAÇÃO
jogar confete(s) exaltar algo ou alguém [orig. sup.: alusão ao ato de jogar confetes como forma
de homenagear alguém] Habituada a dar entrevista para revistas especializadas em jogar
confete nos famosos, durante duas horas Sheila foi bombardeada com perguntas
inconvenientes. (www2.uol.com.br/trip/128/tripgirl/05.htm ; acesso em 03/10/05)
lamber as botas bajular alguém para ter alguma vantagem [pej.] Sempre achei o ato de lamber
as botas de alguém um ato repugnante, mas concordei e lambi suas botas até que ela mandou
que eu parasse. (geocities.yahoo.com.br/tualisi/conto10.htm ; acesso em 14/04/05)
lamber os s → bajular alguém para ter alguma vantagem [pej.] [...] a MTV será uma das
primeiras emissoras a ir lamber os pés da banda, pedindo entrevistas e a presença do Brian e
do Roger em algum programa.
(www.queennet.com.br/QN/html/modules.php?name=Forums&file= viewtopic&p=8831 ; acesso
em 14/04/05)
BELEZA
colírio para os olhos bonito de se ver [orig. sup.: alusão à sensação de bem-estar que o colírio
proporciona aos olhos] Um colírio para os olhos nesta noite de sábado. Brigitte Bardot, como
Deus a criou, em O desprezo (Le mépris, 1963), de Jean-Luc Godard.
(http://setarosblog.blogspot.com/2008/09/um-colrio-para-os-olhos.html ; acesso em 14/12/08)
de parar o trânsito dotado de grande beleza [hip.; orig. sup.: alusão àquele(a) que é capaz de
chamar a atenção de muitas pessoas por conta de grande beleza] ♦ Marronzinhas da CET são de
parar o trânsito, Me multa , por favor! Me chama de infrator !Se no meio de uma avenida
movimentada um motorista gritar isso pela janela do carro, tenha certeza de que ele não é um
“barbeiro” confesso.
(http://oglobo.globo.com/diariosp/post.asp?t=marronzinhas_da_cet_sao_de_parar_transito&cod_
Post=143775&a=532 ; acesso em 10/12/2008)
lindo(a) de morrer → muito bonito [hip.; sujeito: pessoa ou coisa] Ele é lindo de morrer e chama-se
SAM e aposto que qualquer um de nós não se importava nada de estar com ele. Mas acreditem,
estar com ele é possível. (http://revistagay.blogs.sapo.pt/tag/mais+sensual ; acesso em 14/04/08)
122
C
CALMA
acalmar os ânimos tranqüilizar. [orig. sup.: ânimos como sinônimo de humor ou estado de
espírito] ¨ (...) o próprio secretário norte-americano de defesa, senhor Donald Runsfeld, foi à
televisão para acalmar os ânimos dos exagerados.
(www.alainet.org/active/show_text.php3?key=3552 ; acesso em 16/04/06)
calma, Bete! uso iterjeitivo para pedir calma, paciência [interjeição; orig.: trata-se de parte de um
verso da música “Bete frígida”, da banda brasileira Blitz] Calma, Bete! Calma! Estou terminando
o meu segundo livro, por isso não tenho postado minhas famosas crônicas.
(http://liberdadesutra.blogspot.com/2006/05/calma-bete-calma.html ; Acesso 10/06/08)
sossegar o facho aquietar-se, acalmar-se [orig. sup.: facho em alusão a agitação, um tipo de
material inflamável usado para iluminação ou sinal] Gente, vocês hoje estão numa agitação só.
Vamos sossegar o facho até o fim da aula! (www.saci.org.br/?modulo=akemi&parametro=11494 ;
acesso em 14/09/04)
tirar o do acelerador levar uma vida mais calma [orig.: alusão ao ato de deixar de acelerar o
veículo] A ordem é tirar o do acelerador e dar um tempo na correria. Senão, daqui a pouco
você vai ficar no maior estresse. (www2.uol.com.br/simbolo/atrevida/0500/h_sagitario.htm ;
acesso em 14/04/05)
CANSAÇO
com a língua de fora ® muito cansado, exausto [orig. sup.: alusão aos animais que, quando
cansados, ofegam e colocam a língua para fora da boca, caso dos cães] Há desde percursos
de altíssima exigência, daqueles de deixar qualquer um com a língua de fora, até os apropriados
para a terceira idade. (www.estadao.com.br/turismo/noticias/2001/out/17/204.htm ; acesso em
27/08/04)
com os bofes de fora ® muito cansado, exausto [vulg.] Nunca tinha visto o Luiz ficar com os
bofes de fora. No final ele comentou que nunca tinha encontrado um lugar tão ruim para subir.
(sentidos.com.br/canais/materia.asp?codpag=6559&codtipo=1&subcat=95&canal=seuespaco ;
acesso em 21/09/05)
estar de saco cheio não suportar mais algo que incomoda [vulg.] Acho que todo mundo da
minha idade já deve estar com o saco cheio de quando o pai ou a mãe chega e pergunta: - Você
está namorando o Joãozinho? (www.webcanal.com.br/colunas/arturdecarvalho15.htm ; acesso
em 04/04/04)
estar o sem energia, sem forças [hip.; orig. sup.: pó em alusão àquilo em que um cadáver
humano se transforma com o passar do tempo] ♦ Ontem à tarde também teve treino de luta lá na
academia [...] nem preciso dizer que estou o pó, né? (www.patriciafalara.turmadobar.com.br/
index.asp?op=1&PaginaAtual=15&Categoria=0 ; acesso em 24/09/05)
estar um caco estar muito cansado, sem energia [hip.; orig. sup.: caco em alusão ao fragmento
de algo que se quebrou] A partir daí, é fácil ficar ansiosa, tensa e desesperada, imaginando
que no dia seguinte vai estar um caco se não conseguir dormir.
(www.unisite.com.br/saude/euquerodormir.shtml ; acesso em 21/09/05)
123
estar um trapo estar muito cansado, sem energia [hip.; orig. sup.: alusão ao pedaço de pano
velho, desgastado, em referência à aquele que está mal, feio ou cansado] ♦ Não consegui dormir
à noite, pensando na vida. Estou um trapo, preciso de café.
(www.caetano.eng.br/rigues/archives/2003_07_06_archive.html ; acesso em 24/09/05)
CAPACIDADE
jogar na cara fazer algo de propósito para mostrar a alguém que se é capaz [orig. sup.: jogar
como sinônimo de mostrar] A intenção de Juca ao se casar com Van Van era a de jogar na
cara de Antônia que havia conseguido uma mulher bem melhor do que ela.
(dirce.globo.com/Dirce/canal/0,6993,IP1255-700,00.html ; acesso em 02/06/04)
CARÁTER
espírito de porco indivíduo mau-caráter, que causa constrangimento ou cria problemas [orig.:
bíblica; alusão à sujeira ou impureza em que vivem os porcos. citações diretas nos textos
bíblicos do Antigo e do Novo Testamento, por exemplo, quando Jesus expulsa demônios que
ocupam algumas pessoas e esses espíritos possuem porcos, que se precipitam num barranco e
morrem] Na publicação sobre o Festival do Camarão teve um espírito de porco que deixou um
comentário no mínimo agourento. Esse tem que usar colírio diet.
(http://clubedojet.blogspot.com/2008/06/esprito-de-porco.html ; acesso em 10/12/2008)
estar no sangue ser inato [orig.: alusão à hereditariedade] Para entrar nessa área é preciso
gostar do novo e estar sempre experimentando novas tecnologias. Isso tem que estar no sangue!
(www.timaster.com.br/revista/materias/main_materia.asp?codigo=717&pag=2 ; acesso em
18/05/04)
CASAMENTO
pedir a mão de pedir alguém em casamento [orig. sup.: alusão ao fato de que é nos dedos das
mãos que os noivos colocam as alianças] Alguns rapazes ainda seguem a tradição de pedir a
mão da moça ao pai dela e alguns casais optam por ficar noivos entre eles e depois apenas
comunicam o fato [...]. (www.solteiroscristaos.com.br/noivos/significado.htm ; acesso em
29/05/04)
CELIBATO
ficar pra titia ficar solteira [pej.] Sei que corro o risco de ficar pra titia, estou com 23 anos e o
tempo não perdoa ninguém. (www.kritz.blogger.com.br/2004_02_08_archive.html ; acesso em
24/05/04)
CENSURA
olhar (de) atravessado olhar com hostilidade, desaprovação [orig.: vem da expressão culta e
pouco usual olhar de través] Desde que o Governo anunciou a necessidade de se economizar
energia, muita gente passou a olhar atravessado para o coitado do microcomputador.
(www.terra.com.br/informatica/especial/apagao.htm ; acesso em 02/04/04)
CERTEZA
está no papo é muito fácil vencer [orig. sup.: alusão à lábia, astúcia] Se não acontecer nenhum
acidente de percurso, a taça já está no papo. (www.brasil2000fm.com.br/colunavertebral.php ;
acesso em 02/05/04)
estar na direção certa saber como conseguir, realizar algo [orig. sup.: alusão à direção que se
deve seguir para se conseguir chegar ao lugar pretendido] A diretoria acredita estar na direção
certa para cumprir a meta de cortes fixada no final de 2003. (www.bbc.co.uk/
portuguese/economia/story/2004/04/040412_dupontcass.shtml ; acesso em 07/06/05)
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no fundo considerando bem, em última análise [variante hip.: no fundo, no fundo] No fundo, o
que temos é uma falsa impressão de que o mundo e as coisas realmente evoluem.
(www.revistatpm.com.br/colunas_tpm/ index_materia.php?id=117&col=6 ; acesso em 25/10/04)
ter como líquido e certo ter certeza absoluta sobre algo [orig. sup.: vem das Ciências Jurídicas e
designa aquilo que pode ser provado de forma incontestável] E têm como líquido e certo que o
crescimento dos EUA irá mais uma vez tirar a economia mundial do colapso.
(livrecomercio.embaixadaamericana.org.br/?action=artigo&idartigo=164 ; acesso em 21/02/06)
COBIÇA
comer com os olhos ® olhar com cobiça [hip.] Assim que entrei no banco de trás do carro,
comecei a comer com os olhos aquela linda mulher.
(www.apimentado.com.br/contos/lerconto.php? categoria=Orgias&conto=734 ; acesso em
09/05/05)
devorar com os olhos ® ollhar fixamente, com grande interesse, cobiça ou indignação [hip.] ♦ Meus
queridos macacos chocaram tanto as pessoas do trem que elas simplesmente se puseram a me
devorar com os olhos. Não riram, não estavam achando graça,
(www.releituras.com/kmansfield_menu.asp ; acesso em 16/09/05)
COERÇÃO
apertar o cerco ® seguir ou perseguir a curta distância, exercendo uma pressão física ou moral
[orig. sup.: cerco como forma de restrição] Desta vez não se trata apenas de prender camelôs
e, sim, apertar o cerco a quem fabrica ou comercializa produtos de origem ilícita.
(www.direitonaweb.com.br/dweb.asp?ctd=1372&ccd=1 ; acesso em 21/05/04)
cercar por todos os lados ® convencer alguém a todo custo [hip.] Procura-se cercar o leitor por
todos os lados, de literatura à auto-ajuda.
(www.estadao.com.br/divirtase/noticias/2001/dez/22/108.htm ; acesso em 13/04/05)
colocar contra a parede ® acuar, encurralar [hip.; orig. sup.: parede indica impossibilidade de se
defender por não haver maneira de se desvencilhar daquele que está na posição de opressor]
A globalização dos anos 90 colocou contra a parede símbolos do capitalismo brasileiro.
(www.fgvsp.br/vestibulares/cur_espec/ provas_aplicadas_ceahs/rc2_97.htm ; acesso em
2802/06)
encostar na parede acuar, encurralar [orig. sup.: parede indica impossibilidade de se defender
por não haver maneira de se desvencilhar daquele que está na posição de opressor] Ela vai
tentar te encostar na parede e querer saber por que você não ficou no emprego anterior, por que
nunca trabalhou, do que não gosta numa empresa [...].
(www.bb.com.br/appbb/portal/pjv/unv/PrimeiroEmprego.jsp ; acesso em 07/04/04)
estar com a espada na cabeça estar sob forte pressão [hip.; orig. sup.: alusão ao risco que se
corre quando alguém ameaça õutra pessoa com uma espada, sobretudo contra a cabeça] A
maioria lucro, mas os promotores sempre estão com a espada na cabeça, pois não para
prever se será lucrativo ou não.
(www2.uol.com.br/tenisbrasil/profissional/entrevista%20paulo%20ferreira.htm ; acesso em
06/02/06)
forçar a barra impor algo a alguém contra sua vontade [sujeito: pessoa] Mas é importante que
entrem em um acordo mínimo de convivência, sem forçar a barra, um respeitando o limite do
outro. (www2.uol.com.br/topbaby/conteudo/secoes/gravidez/368.html ; acesso em 28/05/04)
pressionar contra a parede coagir alguém ou pressionar pessoa(s) para revelar informações
[hip.; orig. sup.: parede indica impossibilidade de se defender por não haver maneira de se
desvencilhar daquele que está na posição de opressor] É preciso reconhecer que o governo
Bush nunca mostrou muito interesse na diplomacia multilateral, a não ser quando outros países o
pressionaram contra a parede, como aconteceu com o Iraque. No domínio da economia, porém,
125
não há outra escolha a não ser buscar parceiros.
(http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2003/1/14/noticia.35183/ ; acesso em
10/12/08)
ser colocado contra a parede ser pressionado a tomar uma decisão, a agir [orig. sup.: parede
indica impossibilidade de se defender por não haver maneira de se desvencilhar daquele que
está na posição de opressor] Três meses atrás o diretor comercial da subsidiária brasileira de
uma das maiores empresas do mundo foi colocado contra a parede.
(www.dana.com.br/colunas.asp?idcoluna=196&codCol=18 ; acesso em 28/02/06)
sob pressão que está sendo coagido; obrigado a fazer algo [orig. sup.: alusão às vítimas de um
opressor ou de uma situação de grande opressão] Sob pressão, homem tenta fugir
atravessando a fronteira dos Estados Unidos após cometer um assassinato.
(http://www.guiadasemana.com.br/trailer.asp?/Sob_Pressao/TRAILER/FILME/DVD/&a=1&ID=11
&cd_film=939 ; acesso em 10/12/08)
COERÊNCIA
ter uma palavra manter escrupulosamente aquilo que foi dito [orig. sup.: palavra como forma
garantia] Os diáconos devem ter uma palavra, devem ser firmes e confiantes, devem saber
o que diz [...]
COMIDA
estômago de avestruz ® aquele que come demais [orig.: alusão ao fato de que o avestruz possui
grande estômago e ingere qualquer objeto cuja cor ou forma lhes chame a atenção]
Resumindo: eu tenho estômago de avestruz, pois mesmo comendo de tudo e em grande
quantidade e com prazo de validade vencido, etc e tal, eu não passo mal.
(http://rosinhamonkees.com/?p=1245 ; acesso em 08/01/08)
COMPARAÇÃO
colocar no mesmo saco ® considerar, julgar uns e outros do mesmo modo [pej.; forma de
comparação negativa] Não é adequado colocar no mesmo saco a situação argentina, brasileira
e uruguaia. (www.unicamp.br/unicamp/ unicamp_hoje/ju/agosto2002/unihoje_ju186pag06.html ;
acesso em 10/05/05)
pesar na balança ponderar e ver se vale a pena [orig.: alusão ao instrumento que permite a
equiparação] Quando surge uma proposta tentadora, chega a hora de pesar na balança itens
como salário, ambiente de trabalho, afinidade com as tarefas, benefícios [...].
(www.timaster.com.br/revista/materias/main_materia.asp?codigo=86 ; acesso em 11/06/04)
pôr na balança colocar duas coisas em comparação [orig.: alusão ao instrumento que permite a
equiparação] Queremos colocá-la em debate. Temos que pôr na balança quanto custa o
prejuízo ambiental e os interesses petrolíferos.
(www.envolverde.com.br/terramerica/teste/ter11402e.htm ; acesso em 15/06/04)
COMPLICAÇÃO
bola de neve ® problema que se agrava progressivamente [orig.: alusão à imagem da bola de neve
que, na medida em que rola montanha abaixo, aumenta de tamanho e tem conseqüências mais
graves] ♦ Uma desavença até certo ponto inesperada entre as elites se transformou em uma bola
de neve, por ocasião da sucessão presidencial de 1930.
(www.mec.gov.br/seed/tvescola/historia/entrevista_3b.asp ; acesso em 10/03/06)
crescer como bola de neve ® complicar-se progressivamente [hip.; orig.: alusão à imagem da bola
de neve que, na medida em que rola montanha abaixo, aumenta de tamanho e tem
conseqüências mais graves] [...] os consumidores que optam por esses instrumentos de crédito
acabam não conseguindo arcar com os custos e vêem suas dívidas crescerem como bola de
126
neve. (www.estadao.com.br/ext/financas/servicos/bancos1d1.htm ; acesso em 14/06/04)
reação em cadeia ® problema que se agrava progressivamente [orig.: física nuclear; série de
reações em que um dos agentes que a produz é, por sua vez, produzido por uma reação e
origem a outras reações, e assim sucessivamente] É justamente esse tipo de reação em cadeia
que o grupo busca, agora em seu novo disco: Febre Confessional.
(http://www.reacaofaclube.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html ; acesso em 29/11/07)
COMPORTAMENTO
ovelha desgarrada aquele que se desviou de certa linha de conduta [orig.: bíblica; refere-se às
parábolas em que se diz que a atenção deve ser voltada às ovelhas desgarradas do rebanho]
Ele é um dos novos que vão legislar em nossa cidade a partir do ano que vem e está triste
porque, pelo visto, tem ovelha desgarrada na parada.
(www2.uol.com.br/jornalasemana/edicao107/arpoando.htm ; acesso em 15/05/05)
COMPREENSÃO
colocar-se na pele de ® colocar-se no lugar de alguém [orig. sup.: pele, órgão tátil, em alusão à
sensação de se imaginar noutra pessoa] Afinal, se colocando na pele de alguém fica bem mais
fácil entender essa pessoa, não é? (www.canalkids.com.br/saude/ vocesabia/setembro02.htm ;
acesso em 09/05/05)
estar na pele de estar no lugar de alguém [orig. sup.: pele, órgão tátil, em alusão à sensação de
estar vivendo como outra pessoa] Estar na pele de um ladrão o é muito fácil. Você es
sempre na mira de diversos guardas e tem que usar suas armas com cautela ou então, não usá-
las. (www.magnet.com.br/classic/byo/thief.html ; acesso em 14/05/05)
COMUNICAÇÃO
boca suja ® indivíduo que utiliza com frqüência vocabulário chulo, palavrões [orig. sup.: suja em
alusão à palavra obscena] Eu confesso que meu português está longe de ser perfeito, mas
minha boca suja o perde para ninguém. (http://americanabocasuja.blogspot.com/ ; acesso em
12/12/08)
desfiar o rosário ® falar tudo o que pensa e estava guardado [iron.; orig. sup.: alusão ao rosário,
objeto usado para oração; indica seqüência ininterrupta de repreensão] E Veloso, em seguida,
pôs-se a desfiar o rosário das calúnias de que fora vítima em Candeias [...]
(www.biblio.com.br/templates/AmadeuAmaral/apulseiradeferro.htm ; acesso em 26/11/04)
língua solta pessoa que fala demais, exageradamente [orig. sup.: alusão ao ato de falar
exageradamente a ponto de tornar-se indiscreto] Tom Peters, o língua solta, volta a atacar de
passagem pelo país, o polêmico guru questionou o valor das escolas de negócios.
(www.icoletiva.com.br/icoletiva/secao.asp?tipo=edtec&id=70&n_page=26 ; acesso em 19/06/04)
pedir a palavra solicitar oportunidade para falar [orig. sup.: palavra como sinônimo de fala]
Guilherme foi chamado para entregar o Troféu a Guga que, ao pedir a palavra para agradecer,
se emocionou e chorou. (www.igk.org.br/noticia 2003.php?codigo=000038 ; acesso em 29/05/04)
CONCEPÇÃO
colcha de retalhos ® algo constituído por elementos de natureza diversa [orig. sup.: alusão às
colchas feitas com retalhos dos mais variados tipos de pano e que transformam-se num todo]
A história e o roteiro risíveis são como uma colcha de retalhos, de tantos lugares-comuns e
poucas surpresas.
(www.cinemaemcena.com.br/crit_cinefilo_filme.asp?cod=491&codvozcinefalo=1396 ; acesso em
10/09/04)
CONCILIAÇÃO
127
estender a mão ter uma atitude cordial e conciliadora [orig. sup.: alusão ao ato de dar a mão
como cumprimento para indicar a paz] E agora foi mesmo um grupo filiado na Internacional
Socialista que, num autêntico golpe de teatro, decidiu estender a mão a Haider para que ele
possa continuar a governar a Caríntia. (botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/2004_03.html ; acesso
em 06/06/05)
fazer uma ponte conciliar [orig. sup.: alusão à união de dois pontos distintos feita por uma ponte]
Neste artigo mostro o quanto a prática que venho tendo com o Bonsai me leva a fazer uma
ponte entre essa Arte e as minhas atividades como psicoterapeuta. (www.jlbelas.psc.br/op-
texto.htm ; acesso em 13/03/05)
CONCISÃO
em duas palavras resumidamente, em poucas palavras [hip.] ♦ Isso é uma história muito
comprida que não se pode resumir assim, em duas palavras.
(www1.folha.uol.com.br/folha/almanaque/entcaioprado.htm ; acesso em 05/04/04)
em uma palavra resumidamente, em poucas palavras [hip.] Em uma palavra, poderíamos dizer
que o que de mais característico no mundo de hoje é o desaparecimento da permanência.
(cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S000967252003000400003&lng=pt&nr
m=isso ; acesso em 16/05/04)
CONCLUSÃO
fechar o parêntese r fim a uma digressão [orig.: alusão ao sinal de pontuação utilizado para
delimitação de frase ou período] Em um próximo capítulo, nesse mesmo canal, voltaremos ao
delicadíssimo tema. Agora, me permita fechar o parêntese.
(diegocasagrande.com.br/pages/artigos/view.php?uid=218 ; acesso em 03/03/06)
CONCORDÂNCIA
aceitar as regras estar de acordo [orig.: alusão às regras que as competições possuem e que
devem ser seguidas] ¨ (...) com o único propósito de declarar para o resto do mundo que a
América Latina é sua área de influência exclusiva e deve aceitar as regras do jogo.
(www.fenafar.org.br/telas/BOL/alca.asp ; acesso em 16/04/06)
aceitar o jogo ® aceitar o que foi acordado [orig.: jogo entendido como competição sujeita a regras]
[...] que quem confunde moral com política esconde em si uma inclinação totalitária e
intolerante, incapaz de conviver e aceitar o jogo democrático.
(www.olavodecarvalho.org/convidados/0171.htm ; acesso em 16/04/04)
acertar os ponteiros concordar [orig.: alusão ao ato de ajustar as horas de um relógio] ¨ Apesar
das divergências, os dois países líderes do bloco começaram a acertar os ponteiros na última
semana. (ultimosegundo.ig.com.br/useg/economia/ artigo/0,,1419313,00.html ; acesso em
16/04/06)
casamento branco ® união o consumada [orig.: Ciências Jurídicas; acordo entre duas pessoas
que se casam mas não mantém relações sexuais] A pesquisadora percebeu também que, para
aliviar o preconceito, alguns professores adotaram o casamento branco como passaporte de
aceitação. (www.usp.br/agen/bols/2003/rede1283.htm ; acesso em 09/05/05)
de braço dado ® de acordo com [orig. sup.: alusão à imagem de pessoas que andam de braços
entrelaçados] [...] que ser honesto, pois acredito que a honestidade é essencial para quem quer
governar. Depois, estar realmente de braço dado com o povo, estar bastante atento às suas
necessidades para que ele possa supri-las. (www.nitideal.com.br/newnit/index.php?display=
MATERIAS&action=2&id=1210 ; acesso em 22/04/05)
dizer amém ® concordar, consentir [orig.: alusão à resposta dada em liturgias religiosas e que
indica concordância incondicional] É verdade também que eu não desejava um filho vivendo
128
como um carneirinho a meu lado, a dizer amém a todas as minhas ordens e idealizações.
(www.cazuza.com.br/sec_textos_list.php?language=pt_BR&id=9&id_tipo=3 ; acesso em
27/11/04)
entrar no esquema aceitar as regras impostas por um grupo, uma sociedade [orig. sup.:
esquema como sinônimo de jogo, entendido como competição que segue regras] Para se
publicar, você tem que entrar no esquema, ser amigo dos caras e, claro, eles não vão contratar
ou dar chance a quem não faz parte da turminha deles.
(www.cavernadobk.blogger.com.br/2003_09_28_archive.html ; acesso 18//04/04)
entrar no jogo aceitar as regras impostas por um grupo, uma sociedade [orig.: jogo entendido
como competição sujeita a regras] ♦ Para entrar no jogo, o País precisa alinhar os esforços rumo
à qualificação de pessoas para a absorção de uma boa parcela da demanda existente por esse
tipo de serviço.
(http://www.administradores.com.br/entrevistas/para_o_brasil_entrar_no_jogo/12066/ ; acesso
em 04/12/07)
estar do mesmo lado compartilhar das opiniões de alguém, de alguma entidade política, social
ou ideológica [lado como sinônimo de equipe; orig. sup.: alusão à imagem de um jogo entendido
como disputa em que os competidores podem se dividar em equipes] Depois de uma hora e
meia de conversa, não se chegou a qualquer conclusão, mas ficou claro que todos estão do
mesmo lado. (www.adunb.org.br/materias_2004/ unb_mec_mesmo_lado.htm ; acesso em
27/11/04)
estar no mesmo barco estar na mesma situação delicada que outrem, ser companheiro [orig.
sup.: alusão àqueles que dividem uma mesma embarcação e, por isso, correm os mesmos
riscos] Amar é olhar juntos na mesma direção, é uma unidade, companheirismo, é estar no
mesmo barco. (www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=9848&id_noticia=117 ;
acesso em 18/05/04)
fazer coro → manifestar-se verbalmente com outras pessoas, juntar-se a elas [orig. alusão à
imagem da arte do canto em coro, que pressupõe consonância] Diz que ninguém pode deixar
de fazer coro contra esse mundo assustador que anda pintando por aí.
(www.laboratoriopop.com.br/col_marianatimoteo/col_marianatimoteo_20040114.html ; acesso
em 22/05/04)
fazer o jogo de compactuar com alguém ou algo [orig. sup.: jogo entendido como competição em
que um indivíduo pode escolher uma das equipes para participar] Santoro é, desde a
campanha presidencial de 2002, acusado de ´fazer o jogo´ do então candidato tucano José
Serra. (noticias.uol.com.br/uolnews/minuto/ ult335u4423.jhtm ; acesso em 22/05/04)
jogar o jogo aceitar o que foi acordado [orig.: jogo entendido como competição sujeita a regras]
Com alguma freqüência o professor não quer jogar o jogo que a direção da escola e as
burocracias governamentais lhe impõem. (www.polbr.med.br/arquivo/cientif3.htm ; acesso em
02/06/04)
ponto pacífico o que pode ser facilmente verificado [orig. sup.: alusão à decisão consonante
tomada a partir de um ponto determinado] E, se naquele momento considerávamos como
ponto pacífico a necessidade de construção de uma nova política necessariamente intersetorial
em Saúde do [...]. (www.diesat.org.br/artigos/artigos_lacaz.htm ; acesso em 12/06/04)
CONFIANÇA
abaixar a guarda ® parar de se preocupar, descuidar-se [orig. militar; alusão aos momentos
específicos em que o grupo recebe ordem para desfazer a constante vigilância] A
conscientização é a principal responsável pelo excelente resultado alcançado em 1997. No
entanto, não se pode abaixar a guarda para a febre aftosa. (an.uol.com.br/1998/jun/07/0ecc.htm ;
acesso em 30/03/04)
129
abrir o (seu) coração ® confiar seus sentimentos, desabafar [orig. sup.: alusão ao coração como
símbolo do amor, onde ficam os sentimentos] Com o amigo você pode abrir o seu coração e
contar os seus segredos, expor sua intimidade, contar os seus sonhos sem temor de ser
ridicularizado. (www.sfnet.com.br/~central/osquatroniveisderelacionamentocomdeuswalter.htm ;
acesso em 05/04/04)
braço direito ® pessoa de confiança que ajuda em vários assuntos [orig. sup.: direita é a posição
convencionalmente retomada para se referir à confiança; na litugia católica há a referência a esta
posição, quando Jesus Cristo permanece sentado a direita de Deus] Se estivesse de capacete,
com certeza o impacto seria menor, mas vai botar na cabeça de adolescente que ele precisa
usar capacete. (www.leonardomelo.blogger.com.br ; acesso em 14/06/04)
confiar no seu taco ® sentir-se competente, confiante [orig. sup.: alusão ao jogo de sinuca, ou
bilhar, em que os jogadores utilizam tacos para realizar as jogadas] Se você se acha preparado
e confia no seu taco, não se acanhe em argumentar. (rodrigomuniz.blogspot.com ; acesso em
17/09/04)
dar sua palavra ® prometer [orig. sup.: palavra como forma garantia] ♦ Na campanha, a prefeita deu
sua palavra a Mercadante de que não entraria na briga pelo Palácio dos Bandeirantes.
(www.cruzeironet.com.br/ run/4/147107.shl ; acesso em 08/11/04)
de olhos fechados ® em total confiança, sem ter verificado [orig. sup.: alusão à confiança na
destreza depositada em alguém na realização de algo, mesmo que sem o auxílio da visão] ♦ Eles
acharam que a Câmara ia aprovar tudo de olhos fechados, como acontecia antes [...]
(www.tribunadobrasil.com.br/?ntc=10703&ned=1558 ; acesso em 26/02/06)
de palavra ® que honra seus compromissos [orig. sup.: palavra como forma garantia] Eu sou uma
pessoa de palavra, cumpridor dos acordos que eu celebro. (www.asseta.net/oprogressodetatui/
edicao162/siqueira.htm ; acesso em 25/11/04)
deixar na(s) mão(s) de ® deixar algo ou alguém sob a responsabilidade de alguém [orig. sup.:
mão(s) indicando responsabilidade] [...] e conclui que é bom deixar na mão de quem entende
mesmo. (www.estaile.com/forum/viewtopic.php? topic=610&forum=3 ; acesso em 18/1104)
fazer testemunhar como verdadeiro [cult.; orig. Ciências Jurídicas] Prova pessoal é toda
afirmação pessoal consciente, destinada a fazer dos fatos.
(www.mp.sp.gov.br/justitia/CRIMINAL/crime%2038.pdf ; acesso em 09/11/05)
palavra de honra declaração verbal de compromisso para com alguém [cult.; orig. sup.: palavra
como forma garantia] Os atiradores, abaixo assinados, declaram, sob palavra de honra, que se
comprometem a cerrar fileiras com a máxima disciplina e a defender até à morte a atitude do
glorioso Estado de São Paulo, que, ou vencerá ou lutará até ver tombado o seu último soldado.
(www.novomilenio.inf.br/santos/h0186a.htm ; acesso em 29/04/04)
CONFIRMAÇÃO
esfregar na cara → fazer algo de propósito para mostrar a alguém que se é capaz [orig. sup.: alusão
ao ato conotativo de se friccionar um objeto na face de alguém] To superávit, para esfregar
na cara deles e obrigá-los a oferecer uma festinha para nós, talvez na tradicional data nacional
do Halloween. (www.estadao.com.br/ecolunistas/ ubaldo/04/06/ubaldo040627.htm ; acesso em
02/06/04)
provar por A mais B apresentar provas para uma afirmação [orig. Matemática; alusão à
confirmação de dados por meio de resultados reais] A mesma realidade se verifica no mercado
americano, onde quem busca investimentos para iniciar um novo negócio tem de provar por A
mais B que seu modelo empresarial é viável. (www.informationweek.com.br/editorial/
artigo.asp?id=14185 ; acesso em 19/06/04)
CONFUSÃO
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balaio de gato confusão, desordem [orig. sup.: alusão à confusão que vários gatos provocariam
se colocados em um balaio] Advogado do Diabo, filosofia, religião, amor e alma. Sempre é um
balaio de gato meu amigo. A vida é essa confusão. Nós é que temos que colocar em ordem.
(http://paremomundo.wordpress.com/2007/12/08/o-que-e-amor-e-qual-e-o-espelho-da-alma/ ;
acesso em 02/01/07)
fazer onda → provocar alvoroço, criar caso [orig. sup.: alusão às ondas nos mares, indicando
agitação deste por conta de tempestade ou outro fenômeno natural] Logo no primeiro dia, para
fazer onda com o novo chefe, saiu-se com essa: - Chefe, o senhor nem imagina o que me
contaram a respeito do Silva. (www.palavrasdocoracao.com.br/as_tres_peneiras.html ; acesso
em 22/05/04)
fazer uma salada confundir as coisas e provocar mal-entendido [orig. sup: alusão à mistura de
ingredientes em uma salada] Gente, a mulher fez uma salada que só! Nem sabia mais do que
estava falando, ou melhor nem sabia o nome dela, pois deu uns dois nomes. [...]
(www.sk.com.br/forum/display_message.asp?mid=6968 ; acesso em 12/11/05)
saco de gatos → confusão, desordem [menos freqüente que a variante balaio de gato] ♦ Então, para
apreender esse excesso, a bagunça, o saco de gatos.
(pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2375,1.shl ; acesso em 21/04/05)
trocar as bolas confundir-se, não dominar uma tarefa complexa [sujeito: pessoa] Pior mesmo é
quando, muitas vezes, sem perceber, o profissional fica tão envolvido com aquele grupo de
amigos do trabalho que começa a trocar as bolas.
(www.crossing.com.br/clipp/matnew/sg040521.htm ; acesso em 10/05/05)
CONHECIMENTO
abrir a cabeça ® aceitar novas idéias [orig. sup.: alusão à cabeça como centro do intelecto] Nunca
perca a oportunidade de viajar para o exterior. É uma experiência que faz você crescer, abrir a
cabeça e sentir que pode qualquer coisa.
(www.univates.br/handler.php?module=univates&action=view&article=1106&dbname=&sys_date
= ; acesso em 02/04/04)
abrir os horizontes ® conhecer coisas novas [orig. sup.: alusão ao conhecimento de outros lugares
que perpassam o horizonte e que os olhos não podem enxergar] O trabalho em conjunto com
outras turmas serve ainda para abrir os horizontes para outras realidades, vividas por crianças e
adolescentes. (www.aprendebrasil.com.br/projetos/clone/conheca.asp ; acesso em 05/04/04)
conhecer como a palma da mão ® conhecer algo ou alguém nos detalhes [orig. sup.: alusão à
parte do corpo humano mais facilmente observável pelo próprio indivíduo] [...] mostra que o
histórico militante da política goiana mantém-se afiado com a realidade política do Estado, que
conhece como a palma da mão.
(www.jornalopcao.com.br/index.asp?secao=Destaques2&idjornal=43 ; acesso em 17/09/04)
conhecer o terreno ® conhecer bem tudo o que envolve um assunto ou as intenções de uma
pessoa [orig.: militar; alusão ao ato de se verificar detalhes sobre um inimigo antes do confronto]
Ele não conhecia o terreno. Não era guerrilheiro nem policial. Era um caminhante da vida. Livre
e solto no ar. O vento indicava seu rumo. [...] (http://grito-rbu.blogspot.com/ ; acesso em
30/12/08)
de cabeça ® de