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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
As Mulheres no Reinado de Momo: lugares e condições femininas no
carnaval de Porto Alegre (1869-1885)
Caroline P. Leal
Porto Alegre
2008
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CAROLINE P. LEAL
As Mulheres no Reinado de Momo: lugares e condições femininas no
carnaval de Porto Alegre (1869-1885).
Dissertação apresentada como requisito para obtenção do
grau de Mestre, pelo Programa de Pós-Graduação em História
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Orientador: Profa. Dra. Margaret Bakos
PORTO ALEGRE
2008
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CAROLINE P. LEAL
As Mulheres no Reinado de Momo: lugares e condições femininas no
carnaval de Porto Alegre (1869-1870)
Dissertação apresentada como requisito para obtenção do
grau de Mestre, pelo Programa de Pós-Graduação em História
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Aprovada em ___ de _____________ de _______
BANCA EXAMINADORA
___________________________
Dr.ª. Margaret Bakos
Orientador – PUCRS
________________________________
Dr.º René Gertz – PUCRS
________________________________
Drº. Benito Schimidt – UFRGS
PORTO ALEGRE
2008
AGRADECIMENTOS
Agradecimentos especiais a minha orientadora, Dra. Margaret Marchiori Bakos, por sua
incansável dedicação e direcionamento a este projeto de pesquisa e análise, me fazendo perceber
que nossos trabalhos são para nos “fazer feliz”.
Também a essa ilustríssima e grandiosa instituição educacional, Pontifícia Universidade
Católica, que a mim muito bem recebeu e às condições que me foram direcionada pelo CNPq, as
quais eu acredito que tenha, verdadeiramente, aproveitado.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade
Católica pelas instigantes aulas que foram de grande proveito para esta pesquisa.
Aos professores do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, em especial Drº. Benito Schimidt e Drº. ReGeertz, responsáveis pela formação do meu
arcabouço teórico e intelectual e que tiveram profunda responsabilidade pelo desenvolver de
minha jornada acadêmica.
A todos esses personagens reais que fundamentaram a concretização deste trabalho, o meu
muito obrigada!
RESUMO
Mulheres e carnaval: este é o tema tratado nesta dissertação. Porto Alegre, por volta do
último quartel do século XIX, passa a sofrer uma transformação no que se refere a sua maneira de
render louvores ao deus Momo: surgiam as sociedades carnavalescas Esmeralda e Venezianos;
até então a data era comemorada sob a forma do entrudo, na qual as mulheres tinham ativa
participação. Desta forma, este trabalho tem como objetivo analisar a participação das mulheres
no carnaval de Porto Alegre, de 1869 a 1885, apontando para os diferentes lugares e condições
que elas ocuparam nestes festejos.
Palavras-Chave: Mulheres; carnaval; cidade.
ABSTRACT
Women and carnival: this is the topic this dissertation. Porto Alegre, around the last
quarter of the nineteenth century, is undergoing a transformation with regard to their way of
rendering praise to God Momo: arose carnival companies - Emeralda and Venezianos; until then
the date was celebrated in the form of entrudo, in which women had active participation. Thus,
this paper aims to examine the participation of women in carnival of Porto Alegre, from 1869 to
1885, pointing to the different places and conditions which they occupied in these celebrations.
Key words: Women; carnival; city.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Ilustração 1 – Lito de Araújo Guerra ............................................................................. p.100
Ilustração 2 – Bisnagadas ................................................................................................p.103
Ilustração 3 – Entrudo .....................................................................................................p.105
Ilustração 4 – Cenas Domésticas .................................................................................... p.122
Ilustração 5 – Esmeralda .................................................................................................p.135
Ilustração 6 – Alegria Veneziana ....................................................................................p.149
Ilustração 7 – Carnaval de 1885 ......................................................................................p.165
Ilustração 8 – Till Eulenspiegel em detalhe ....................................................................p.167
Ilustração 9 – Lorilei em detalhe .....................................................................................p.172
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ..........................................................................................................................p.9
CAPÍTULO I MULHERES E ENTRUDO: o protagonismo da participação feminina no
carnaval de Porto Alegre................................................................................................... .........p.26
1.1 – Entrudo e Carnaval: da Península Ibérica para Porto Alegre.............................................p.26
1.1.1 – As origens da brincadeira ...............................................................................................p.26
1.1.2 – Sua Chegada no Brasil ....................................................................................................p.28
1.1.3 – O entrudo em Porto Alegre .............................................................................................p.29
1.2 – O Entrudo e as Mulheres ...................................................................................................p.31
1.2.1 – O Saneamento Físico e Moral da Cidade: a moralização do comportamento
carnavalesco ...............................................................................................................................p.31
1.2.2 – Culpada! A condenação da Ex-Marquesa de Monte Alegre .........................................p.34
1.2.3 – Delicadas mãozinhas e rudes limões de cheiro................................................................p.39
1.3 – Entrudo, Imprensa e Repressão ..........................................................................................p.44
CAPÍTULO II – JÁ É O CARNAVAL: vem à luz Esmeralda e Venezianos e o ideal de
passividade feminina ..................................................................................................................p.54
2.1 – Surgimento da Esmeralda e Venezianos ...........................................................................p.54
2.2 – As mulheres e as Sociedades Carnavalescas .....................................................................p.71
CAPÍTULO III DE PLATÉIA A PARTÍCIPES: a presença feminina nas tradicionais
sociedades carnavalescas porto-alegrenses ................................................................................p.86
3.1 – Os bailes ............................................................................................................................p.86
3.1.1 – Mulheres e Bisnagas:a permanência do entrudo nos bailes das sociedades ..................p.92
9
3.1.2 A participação das mulheres na diretoria das associações e na organização dos bailes
...................................................................................................................................................p.110
3.1.3 Práticas e discursos sobre o comportamento das mulheres entre as camadas populares: o
universo dos bailes públicos .....................................................................................................p.113
3.1.4 “Debaixo da máscara, imagine o meu amigo, o que não farão os pelintras”: a ordem na
folia e o controle sobre as mulheres .........................................................................................p.116
3.2 – Desfiles ............................................................................................................................p.123
3.2.1 – As Mulheres nos préstitos das sociedades ....................................................................p.126
CAPÍTULO IV–DECADÊNCIA X INFLUÊNCIA ...............................................................p.139
4.1 – A falência das tradicionais sociedades ............................................................................p.139
4.1.1 – O entrudo e as mulheres ...............................................................................................p.141
4.1.2 – Crise financeira .............................................................................................................p.147
4.1.3 – Disputas Internas ..........................................................................................................p.154
4.2 – Surgem outras Sociedades ..............................................................................................p.158
4.2.1 – Germânia ......................................................................................................................p.159
4.2.2 – A presença feminina na Germânia ................................................................................p.171
CONCLUSÃO .........................................................................................................................p.176
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................p.179
LISTA DE FONTES ...............................................................................................................p.186
ANEXOS ..................................................................................................................................p.189
INTRODUÇÃO
Carnaval. Para uns significará a esperada oportunidade de vestir uma bela fantasia e ser admirado.
Para outros, tal idéia é inconcebível, mas pode ser substituída por ensaiar uns passos desajeitados, de
sunga ou biquíni mesmo, ao som de uma banda. Alguns associam a idéia de carnaval a uma ou várias
latinhas de cerveja. Outrora foi moda cheirar lança-perfume e quem o faça ainda hoje, em nome do
carnaval.
Para um dirigente de escola de samba, carnaval significa trabalho e tensão. Para o folião
descompromissado, a oportunidade de paquerar e ser paquerado, chegando sempre que possível às vias de
fato. Para uma velha baiana do Império Serrano, o carnaval era o único dia do ano em que encontrava um
ex-namorado da juventude, hoje componente da velha-guarda, com quem não se casara. Muitos neste
período do ano têm coragem de viver plenamente sua sexualidade, permitindo-se atitudes censuradas
durante o resto do ano
1
.
Festa de múltiplos sentidos e significados que se transformaram ao sabor do tempo e do
espaço. O extrato acima retrata a diversidade presente no carnaval carioca atual, mas que também
podia ser experimentada há mais de um século: para uns era uma forma de civilizar a cidade, para
outros o único momento que tinham para aproveitarem sua sexualidade; outros, ainda, viam nesse
período a oportunidade de se adequarem aos modelos divulgados ou dar uma brejeira escapadela
dos olhares sempre atentos dos pais. Sociedades, bailes, préstitos, entrudo, mascarados,
bisnagadas: eram assim as festas por volta do último quartel do século XIX, na capital da
Província de São Pedro.
No atual carnaval brasileiro de escolas de samba e trios elétricos percebe-se uma
intensa participação das mulheres durante os festejos. Elas saem de destaques nas escolas de
samba, passistas, porta-estandartes, vocalistas e dançarinas nos conjuntos musicais que animam
os blocos no carnaval baiano em uma exaltação ao belo, às formas femininas e à sensualidade.
Mas teria sido sempre assim? Durante o século XIX as mulheres participavam desses festejos?
Como teria sido seu envolvimento com a festa em tempos de entrudo? E quando surgiram as
sociedades carnavalescas teria havido alguma mudança? Estes foram os primeiros
questionamentos e curiosidades que, por assim dizer, levaram a esta pesquisa.
1
VALENÇA, Rachel. Carnaval: pra tudo se acabar na quarta-feira. Rio de Janeiro:Relume-Dumará: Prefeitura,
1996, p.7.
11
Em meados da década de setenta do século XIX, Porto Alegre era uma pequena cidade
que começava a se desenvolver e para obter os ares da modernidade era preciso reformá-la não só
fisicamente, como nos hábitos, condutas e valores. Então, encontramo-nos com o carnaval! Nele,
igualmente, se tentaria estabelecer uma nova forma de festa, o chamado carnaval veneziano.
Duas foram as representantes iniciais desse folguedo: a Sociedade Carnavalesca Os Venezianos e
a Esmeralda Porto-Alegrense. Essas agremiações, compostas por homens influentes daquela
sociedade, acreditavam estar trazendo uma maneira mais civilizada de fazer o carnaval, pois até
então, ele era celebrado sob a forma do entrudo, brincadeira que estava sendo atacada de rude,
insalubre e grosseira.
Através das pistas que nos foram deixadas do passado, dos dados “aparentemente
negligenciáveis, [procuramos] remontar a uma realidade complexa não experimentável
diretamente”
2
e com isso novos questionamentos surgiram: quais eram os lugares e as condições
que as mulheres ocupavam durante os festejos carnavalescos na cidade de Porto Alegre, entre os
anos de 1869 e 1885? Quais eram os espaços de atuação que seriam socialmente desejáveis às
mulheres durante o carnaval e de que maneira elas se comportavam diante da prescrição de
condutas morais? Existiu espaço e formas de resistência apresentadas pelas mulheres diante de
tais imposições? Tendo em vista as questões acima arroladas, este trabalho tem como objetivo
analisar as condições e os lugares que ocupavam as mulheres durante os festejos carnavalescos,
destacando o processo de transformação desta festa, nesta cidade e suas influências sobre as
práticas femininas. Pretende-se abordar as tentativas de moralizar e adequar os comportamentos
femininos aos espaços e condutas estabelecidas com o surgimento das sociedades carnavalescas e
as posturas daquelas mulheres diante de tais condicionamentos. O período abordado por esta
pesquisa compreende os anos entre 1869 ano em que o entrudo, após algumas décadas de
abrandamento, ressurge na capital da Província de São Pedro, tendo sido este renascimento
atribuído a uma figura feminina – e 1885, ano marcado pela ausência dos venezianos, que deixam
de apresentar seu préstito e realizar seus bailes, representando o declínio e a falência das
tradicionais sociedades carnavalescas
3
.
Como este se trata de um trabalho que parte de uma perspectiva da análise de gênero, é
necessário fazer uma breve discussão em torno desta questão a fim de aprofundar tais conceitos.
2
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais: Morfologia e História. São Paulo: Cia. Das Letras, 1990, p. 152.
3
A sociedade Esmeralda, que juntamente com os Venezianos representava as tradicionais sociedades carnavalescas
irá desaparecer em 1892, mas – tal qual sua co-irmã – enfrentava uma crise desde a década de 1880.
12
Em princípio, deve-se ter em mente que o nero é uma categoria que se constrói sempre em uma
perspectiva relacional, em função da oposição estabelecida entre masculino X feminino. Assim,
estamos trabalhando a idéia de gênero entendida como uma categoria na qual “a diferença entre
masculino e feminino tida] como resultado de uma organização social da relação entre os
sexos, logo distanciando-se dos determinismos biológicos”
4
, pois as relações de gênero são
construções históricas e culturais, imbricadas no sistema simbólico das representações.
Essas representações, ao mesmo tempo em que são elaboradas a partir da experiência de
homens e mulheres em sociedade, ajudam a configurar estas mesmas experiências e a torná-las
inteligíveis, refazendo-se a todo o momento, pois
os homens e as mulheres reais não cumprem sempre os termos das prescrições
de sua sociedade ou de nossas categorias de análise. Os historiadores devem
antes de tudo examinar as maneiras pelas quais as identidades de gênero são
realmente construídas e relacionar seus achados com toda uma série de
atividades, de organizações e representações historicamente situadas
5
.
Assim, ao longo deste trabalho, procurou-se observar que as prescrições sobre os
comportamentos femininos nos festejos carnavalescos não eram rigorosamente aceitas e
incorporadas pelas mulheres, que permaneciam fiéis a antigos costumes condenados tanto pela
imprensa quanto pelas sociedades carnavalescas que queriam estabelecer lugares e condições
para as mulheres diferentes daqueles ocupados até então.
Bourdieu propõe analisar os ‘gêneros’ como habitus sexuados”
6
, ou seja, como a
incorporação das disposições culturais do princípio de divisão sexual dominante sobre os agentes
sociais, resultado de um extraordinário trabalho coletivo de socialização difusa e contínua no qual
“as identidades distintivas que a arbitrariedade cultural institui se encarnam em habitus
claramente diferenciados”
7
. Para Bourdieu
as aparências biológicas e os efeitos, bem reais, que um longo trabalho coletivo
de socialização do biológico e de biologização do social produziu nos corpos e
nas mentes conjugam-se para inverter a relação entre as causas e os efeitos e
fazer ver uma construção social naturalizada [...], como o fundamento in natura
4
SCOTT. Joan. Gênero: uma categoria de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v.16, n.2, jul/dez
1990, p.15.
5
Ibid., p.15.
6
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 2005p.6.
7
Ibid., p.34.
13
da arbitrária divisão que está no princípio não da realidade como também da
representação da realidade e que se impõe por vezes à própria pesquisa
8
.
As pré-disposições culturais de uma sociedade é que formariam, portanto, o que é ser
homem e o que é ser mulher. Na relação de forças material e simbólica entre os sexos, é
destinado aos homens uma posição de dominação, onde o princípio dessa relação de dominação
reside em instâncias como a “Escola ou o Estado, lugares de elaboração e de imposição de
princípios de dominação que se exercem dentro mesmo do universo mais privado”
9
.
Entender gênero como habitus sexuado”, conforme Bourdieu, nos induz a discutir a
própria noção de habitus trabalhada por esse autor. Para ele, o habitus é o conjunto de
disposições culturais incorporadas a partir das estruturas materiais de um determinado período
histórico e da posição ocupada pelos diferentes agentes no espaço social, ou seja, “as estruturas
mentais através das quais eles apreendem o mundo social, [que] são em essência produto da
interiorização das estruturas do mundo social.
10
As disposições dos agentes, as estruturas mentais
através das quais eles entendem e percebem o mundo social e, por conseguinte, a si mesmos,
formariam o que Bourdieu chamou de habitus. Desta forma, “através do habitus temos um
mundo de senso comum, um mundo social que parece evidente”
11
, pois, segundo ele,
o habitus produz práticas e representações que estão disponíveis para a
classificação, que são objetivamente diferenciadas; mas elas são
imediatamente percebidas enquanto tal por agentes que possuam o mesmo
código, os esquemas classificatórios necessários para compreender-lhes o
sentido social
12
.
Neste sentido, tal conceito ajuda-nos a compreender tanto a permanência dos costumes
entrudescos entre o sexo feminino quanto as críticas sofridas por este modo de brincar o carnaval
pela elite porto-alegrense, que reivindicava a existência de um carnaval mais moderno,
sofisticado, atribuindo ao entrudo a pecha de jogo bárbaro e incivil. Ao longo dos capítulos, tal
conceito será de grande utilidade para que possamos compreender os fenômenos aqui estudados.
O carnaval não é, efetivamente, um daqueles temas tradicionalmente contemplados pela
historiografia. Até pouco tempo atrás, os estudos que no Brasil procuravam analisar os festejos
8
Ibid., p.9 e 10.
9
Ibid, p.11.
10
Id. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004, p.158.
11
Ibid., p. 159.
12
Ibid, p.158 e 159.
14
carnavalescos vinham através de profissionais com formações em outras áreas das ciências
sociais, demorando algum tempo para que os historiadores de ofício descobrissem o carnaval
como objeto historiográfico. A partir de então, entretanto, proliferaram trabalhos com a temática
carnavalesca e esta passou a ser do interesse de diversos campos disciplinares, não no Brasil,
como também nos mais diversos países do mundo.
Um dos estudos mais importantes sobre o carnaval é a obra A Cultura Popular na Idade
Média e no Renascimento
13
, de Mikhail Bakhtin, na qual o autor através da compreensão da
produção literária de Rabelais chegou à cultura cômica popular na Idade Média e no
Renascimento, e ao seu símbolo, o carnaval. Esta festa – que ocupava um lugar muito importante
na vida do homem medieval “ignora toda distinção entre atores e espectadores”
14
, pois o
carnaval “existe para todo o povo”
15
. Possui um caráter universal, “é um estado peculiar do
mundo: o seu renascimento e a sua renovação, dos quais participa cada indivíduo. Essa é a
própria essência do carnaval, e os que participam do festejo sentem-no intensamente”
16
. É o
momento em que o povo penetrava “temporariamente no reino utópico da universalidade,
liberdade igualdade e abundância”
17
. Nele, ocorria “o triunfo de uma libertação temporária da
verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas,
regras e tabus”
18
. Suas origens remontam ao Paganismo greco-romano, identificado com as
Saturnais e Matronálias e tal festa é vista em oposição às tradicionais festas religiosas cristãs,
pois, para Bakhtin, “o mundo infinito das formas e manifestações do riso opunha-se à cultura
oficial, ao tom sério, religioso e feudal da época”
19
. A despeito de tais afirmações de Bakhtin,
referindo-se a uma realidade histórica distante da estudada aqui, em nosso carnaval – pelo menos
no das sociedades as fronteiras entre atores e espectadores parecem bastante nítidas: os que
desfilam e os que assistem, em um distanc