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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
Programa de Pós-graduação em Letras
A ARTE DE UM VITRAL:
fragmentos do cotidiano em Adélia Prado
Raimunda Alvim Lopes Bessa
Belo Horizonte
2008
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Raimunda Alvim Lopes Bessa
A ARTE DE UM VITRAL:
fragmentos do cotidiano em Adélia Prado
Dissertação apresentada ao programa de Pós-
graduação em Letras da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, como
requisito parcial para obtenção do título de
Mestre em Letras - Literaturas de Língua
Portuguesa.
Orientadora: Prof. Dr. Suely Maria de Paula
e Silva Lobo
Belo Horizonte
2008
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FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Bessa, Raimunda Alvim Lopes
B557a A arte de um vitral: fragmentos do cotidiano em Adélia Prado / Raimunda
Alvim Lopes Bessa. Belo Horizonte, 2008.
137f.
Orientadora: Suely Maria de Paula e Silva Lobo
Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Programa de Pós-Graduação em Letras
1. Prosa brasileira. 2. Prado, Adélia, 1936- 3. Mulheres na literatura. 4.
Identidade. I. Lobo, Suely Maria de Paula e Silva. II. Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Letras. III. Título.
CDU: 869.0(81)-3
Dissertação defendida publicamente no Programa de Pós-graduação em Letras da
PUC MINAS e aprovada pela seguinte comissão examinadora:
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Prof
. Dr. Lúcia Helena de AzevedoVilela
(UFMG)
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Prof. Dr. Melânia Silva Aguiar
(PUC Minas)
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Prof. Dr. Suely Maria de Paula e Silva Lobo
(Orientadora – PUC Minas)
Belo Horizonte, ____de junho de 2008
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Prof. Dr. Hugo Mari
Coordenador do Programa de Pós- graduação em Letras
PUC Minas
Para aqueles que conseguem perceber a Poesia no cotidiano.
AGRADECIMENTOS
A Rodrigo, pelo estímulo, paciência e companheirismo.
Às nossas filhas Fernanda e Beatriz, pelo carinho e paciência por esperar que volte a
lhes dar atenção.
Aos meus pais, que se preocupam, torcem e pedem a Deus por mim.
Ao padre Onofre Araújo Filho, sj, pelo incentivo, inspiração e confiança.
Aos meus irmãos, pelo interesse, apoio e torcida para meu êxito.
A Maria Letícia Machado, amiga e companheira nesta construção.
Aos amigos e colegas, pela amizade, carinho e apoio constantes.
A professora Suely Maria de Paula e Silva Lobo, pela dedicação e companheirismo na
orientação deste trabalho.
A professora Melânia Silva Aguiar, pela orientação dada no parecer, que abriu novas
possibilidades.
A todos os professores do Mestrado em Letras literaturas da PUC Minas,
especialmente Ivete Walty, Maria Nazareth Fonseca e Márcia Morais, pelas palavras que
permaneceram ecoando durante o processo.
“Eu não sei bem o que está acontecendo. Estou em
silêncio. Mas tenho certeza que ter falado bastante
me ajudará a descobrir”. (FILANDRAS, p. 139)
Adélia Prado
RESUMO
Esta dissertação apresenta uma leitura de Solte os cachorros, Cacos para um vitral e
Filandras, três das obras em prosa da escritora mineira Adélia Prado. Essas narrativas são
expressão de uma existência cotidiana, verificável, a partir de fragmentos de histórias simples,
corriqueiras e pessoais, resultantes de um olhar e uma voz femininos. Essa voz busca a
afirmação de uma identidade na compreensão do mundo e de si mesma. A escrita adeliana, na
investigação dessas três obras, possibilitou visualizar e perceber como a construção da
linguagem resgata a poesia das experiências comuns do dia-a-dia, dando forma verbal às
imagens que refletem o inconsciente.
Palavras-chave: Prosa, Cotidiano, Feminino, Identidade, Adélia Prado
Linha de pesquisa: Modernidade e pós-modernidade na literatura
ABSTRACT
This study presents a reading of Solte os cachorros, Cacos para um vitral and Filandras,
three pieces of work in prose, by Adélia Prado, the writer from Minas Gerais. These
narratives express aspects of daily existence, verifiable from fragments of simple, current and
personal stories resultant from a feminine look and voice. That voice searches for assurance
and understanding of one’s own identity in the world . In the analysis of these three pieces of
work, Adelia’s writing has allowed for visualizing and apprehending how the construction of
language preserves the presence of poetry from common daily experiences, giving verbal
form to the images which reflect the unconscious.
Key words: Prose, Daily life, Feminine, Identity, Adélia Prado
Research line: Modernity and post-modernity in literature
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................9
CAPÍTULO 1 – A PROSA DE ADÉLIA PRADO ..............................................................15
1.1 Um dedo de prosa.............................................................................................................15
1.2 Mudando o rumo dessa prosa .........................................................................................20
1.3 Mais dois dedos dessa prosa ............................................................................................24
CAPÍTULO 2 – A VOZ DO COTIDIANO..........................................................................37
2.1 Compreendendo o cotidiano...........................................................................................37
2.2 Uma voz feminina na vida cotidiana...............................................................................41
2.3 Coordenadas do cotidiano em retratos de mulher .......................................................47
CAPÍTULO 3 – COTIDIANO: MEMÓRIA, TEMPO E ESPAÇO..................................79
3.1 Cotidiano: um mundo memória......................................................................................79
3.2 Coração: museu da memória feminina...........................................................................84
3.3 Em busca do tempo e do espaço perdidos ......................................................................98
CAPÍTULO 4 – UMA ESCRITA DE DESDOBRAMENTOS.........................................107
4.1 A questão existencial: Quem sou eu?............................................................................107
4.2 Mulher desdobrável, Eu Sou .........................................................................................115
4.3 Uma escrita desdobrável, um ser de linguagem .........................................................125
CONCLUSÃO.......................................................................................................................128
REFERÊNCIAS ...................................................................................................................131
9
INTRODUÇÃO
“[...] pois é, gente, o que está escrito aí é um modo de dizer.”
(PRADO, 2006, p.34)
“[...] é um casulo, um casulo alongado e está rompido. [...] dentro dele o passarinho
mínimo debatendo-se, um beija-flor de biquinho amarelo que saiu por fim e adejou.”
(PRADO, 2006, p. 14)
Este trabalho fundamenta-se, basicamente, na análise do cotidiano retratado nas obras
em prosa de Adélia Prado: Solte os cachorros, Cacos para um vitral e Filandras.
Esse cotidiano é visto, às vezes, sem amargura, com fé e confiança nos eventos
rotineiros do dia-a-dia, outras, é visto como algo pleno de mistério, no qual o estranho e o
aparentemente inexplicável se fazem presentes, em uma perspectiva feminina, uma das
características da voz da autora.
Foi a partir dessa idéia que se pensou em desenvolver um estudo que pudesse trazer
reflexões sobre esse assunto e que permitisse uma leitura significativa sobre essa escritora,
que tem sido considerada uma das mais importantes autoras brasileiras contemporâneas. Tal
estudo é uma tentativa de entender como o discurso dessa prosa poética insere-se na rede de
discursos literários e culturais, da qual ele participa e com a qual dialoga.
Em Solte os cachorros, tem-se uma narrativa constituída na primeira pessoa do
singular, sem identificação nominal dessa voz que fala. A narradora dirige-se a um
interlocutor, também sem identificação, com quem fala de seu presente, recorda momentos
de seu passado e permite que se construa uma imagem: uma mulher entre 40 e 42 anos de
idade, enfrentando a crise da chegada da velhice. É uma mulher anônima, envolvida em seu
mundo cotidiano, mas atenta ao que ocorre à sua volta. Desdobramentos dessa mulher
constituem as personagens que aparecem nas outras obras.
Cacos para um vitral é uma narrativa em terceira pessoa. A narradora conta a vida
miúda e quase anônima da personagem Maria da Glória Fraga. Ao mesmo tempo em que (re)
constitui, a partir de fragmentos da história de vida dela, a estrutura da pessoa Maria da
Glória, trata da própria criação literária, constituída, também, de elementos, de fragmentos
que vão configurando uma determinada unidade.
Em Filandras, outra narrativa em primeira pessoa, várias histórias do cotidiano
permitem construir a vida de seus personagens. Destacam-se as mulheres, mais uma vez
10
envolvidas em situações aparentemente corriqueiras, mas que espelham a própria existência
da mulher. Todas elas recebem um nome e são identificadas também por suas ações e seus
lugares dentro de uma comunidade.
A escolha da autora e dessa temática decorre de vários motivos. É importante
esclarecer que, em finais do século XIX e, daí em diante, no século XX, algumas escritoras
começavam a ganhar destaque na literatura brasileira. Os trabalhos, então produzidos,
traziam uma especificidade relacionada à esfera feminina: os temas e a forma como eram
abordados marcam uma fase de afirmação da voz e busca da identidade da mulher.
Wanderley et al (2001) afirmam que a eclosão da literatura de autoria feminina ocorre
durante o período da ditadura, quando a produção cultural não deveria, de forma nenhuma,
intervir nas questões políticas. Foi nessa década que o mercado editorial literário se abriu de
maneira inusitada para a escrita que explorasse especificamente a condição feminina nos seus
aspectos de conflitos, em um cotidiano de família experimentado e internalizado, mas não
criticado politicamente.
Alguns críticos literários chegam a dizer que isso conferia à literatura de autoria
feminina dessa época uma aparência de neutralidade, de interesse apenas em um universo
limitado, o que, de certo modo, impedia a censura de perceber aspectos de natureza política
em algumas escritoras, como na obra de Nélida Piñon. Mais ainda: essas escritoras, sem fazer
nenhuma revolução declarada no campo da política tradicional, fazem-na, no entanto, sub-
repticiamente, por meio de um evoluir constante e de uma procura por autodefinição e
identidade do feminino. A representação da mulher que se autodescobre a cada dia e que se
organiza interiormente como mulher constitui essa visão sobre a questão do feminino, tema
estimulante e de grande interesse nos estudos da literatura contemporânea.
É nesse contexto que, a partir da década de 70, surge a obra de Adélia Prado: mãe,
esposa e dona de casa de Divinópolis, interior de Minas Gerais, que transforma em arte
literária atos corriqueiros da esfera da domesticidade. Sua poesia nasce da vida cotidiana, da
experiência de cada dia, de momentos significativos da existência, da memória, da beleza e do
vivido, elementos sentidos pelo leitor como capazes de o resgatar da rotina, do seu aspecto de
simples transitoriedade e impermanência.
Logo, parece interessante mencionar que foi Affonso Romano de Sant’Anna, poeta e
crítico mineiro, o primeiro a receber os manuscritos da autora e quem, a seguir, os submeteu à
apreciação do poeta Carlos Drummond de Andrade.
Ao tomar conhecimento do trabalho de Adélia Prado, Drummond impressionou-se de
tal forma que indicou seu nome a um editor. Publicada, é então tida como uma súbita e bela
11
aparição na literatura brasileira contemporânea, quase um caso de fenômeno literário. Assim,
a relevância dessa pesquisa justifica-se, também, pelo impacto que o aparecimento da obra de
Adélia Prado causou nessa época, bem como pelo suporte encontrado nos dois grandes nomes
da literatura brasileira aqui citados.
A partir da visão de dona de casa mineira, Adélia faz das pequenas ações e
acontecimentos do dia-a-dia parte da matéria de sua obra e consegue envolver o leitor na
simplicidade do que é a vida de cada um. A esse respeito, a própria autora diz: “A
contemplação das coisas simples é uma coisa maravilhosa, e quem não faz esse mergulho não
sabe o que está perdendo. O cotidiano me oferece serviço até o último dia de minha vida”.
(2004)
Este trabalho está dividido em quatro capítulos, subdivididos em três partes cada um,
abordando os principais temas da autora, sem se desviar da temática central o cotidiano.
Acerca das temáticas caras à autora dialoga-se, aqui, em dados momentos, com teóricos das
áreas da Literatura, Lingüística, Psicologia, Filosofia, História, Sociologia e Antropologia.
Construídos a partir de pesquisa bibliográfica, foram utilizados alguns pressupostos
teóricos numa abordagem literária e, para isso, contou-se com a indispensável verificação da
postura de teóricos como Michel de Certeau, Ecléa Bosi, Lima Vaz, Massaud Moisés,
Michelle Perrot, Blanchot, Todorov, entre outros, sobre questões aqui discutidas.
No primeiro capítulo, como o próprio título já anuncia a prosa de Adélia Prado, optou-
se pela nomenclatura tradicional, prosa, no que se refere ao corpus selecionado, prosa
genericamente entendida como oposta ao verso. Na verdade, acredita-se que o texto
“prosaico” de Adélia é todo permeado de poesia. A distinção entre a prosa e a poesia é um
tema recorrente no âmbito dos especialistas da matéria, suscitando inumeráveis postulações
teóricas. É também muito freqüente o estudo da mescla entre os dois gêneros, sob o rótulo de
prosa poética, denominação historicamente recente.
A poesia lírica da tradição cedeu lugar, sobretudo a partir do século XIX, a uma
concepção de poesia enquanto ato de linguagem. É o trabalho com a linguagem que enfatiza a
elaboração da mensagem de modo a ressaltar o seu significado.
De modo geral, pode-se dizer que a produção em prosa permite à escritora uma
reflexão secularizada a respeito da condição feminina, do ser mulher, e traz o sentido de
gênero como representação das relações sociais entre os sexos, e de como esse gênero se
constrói socialmente, a partir da cultura, da ideologia e das práticas discursivas.
No segundo capítulo, A voz do cotidiano, será tratada a construção de uma visão
feminina de mundo. O cotidiano que permeia toda a obra da escritora mineira e que revela a
12
esfera doméstica, o que de mistério na vida corriqueira, na vida de gente comum vista pela
ótica de uma voz poética que é a de uma mulher, mãe e dona de casa.
E quais são os elementos constitutivos desse cotidiano na autora aqui em estudo? Em
Adélia Prado, este é o cotidiano da “mineiridade”, está representado na família, na tradição,
na religiosidade, na linguagem, nos objetos, nos hábitos e costumes, nos elementos da terra e
na própria terra, no conjunto, enfim, de traços formadores do povo mineiro.
São as relações entre a mineiridade e a identidade cultural expressas na literatura que
serão vistas em Adélia, que, segundo Lucas (1991), tem uma prosa constituída “de coisas
miúdas do interior” de Minas. Os pequenos episódios, apontamentos poéticos, exercícios
literários, notas e meditações são todos fragmentos do cotidiano com que Adélia constrói sua
poética, inserindo Divinópolis e Minas Gerais em uma sociedade nacional.
Em seguida, no terceiro capítulo, Cotidiano: memória, tempo e espaço, pode-se
verificar que, no desnudamento da rotina da vida mineira, a literatura de Adélia nutre-se do
tempo e da memória como elementos imbricados com função de presentificar o passado e
resgatar em ambos os momentos significativos do cotidiano.
A partir de um discurso intimista, os inevitáveis desprazer e frustração cotidianos não
impedem a elaboração e a avaliação de projetos que se multiplicam e se transformam sempre
que brota uma lembrança ou um sentimento. Vivenciando sonhos, pensamentos, percepções e
tentativas de ser, participa-se da construção cotidiana e mutante das relações que transformam
a existência. Para tanto, passado e presente associam-se, num intercâmbio infindável de
reflexões e de ações, compondo diferentes trajetórias e possibilidades de existir.
As adversidades do cotidiano familiar não impedem que as expectativas sociais de
gênero se expressem e influenciem a construção da subjetividade feminina.
Também as lembranças fortes que denotam significações da infância associadas à
convivência com pai, mãe, irmãos e demais familiares fazem parte da construção da
subjetividade material e cultural, baseadas no universo simbólico e que, sendo produtos
sociais, têm uma história.
Por constituir uma espécie de relato, Glória, Afonsa ou Adélia acabam por reconstruir
o passado com base nas ocorrências e nos sentimentos gravados na memória, nas duas formas
que essa memória pode assumir: a voluntária e a espontânea. A narrativa revela a apreensão
das experiências julgadas relevantes por parte da autora como testemunho e como impressões
que outros lhe deixaram na memória. O que se constrói a partir daí é uma narrativa bastante
próxima do lirismo, em uma reconstituição das lembranças que restaram da vivência do dia-
a- dia.
13
Ao registrar essas lembranças, um escritor adota uma perspectiva semelhante à de
Proust ao imergir “em busca do tempo perdido”. Deleuze (1987, p.11) afirma que o essencial
da Recherche não reside no esforço da memória para recuperar o passado ou apenas numa
reflexão sobre o tempo, mas em uma indagação da verdade.
Por fim, no quarto e último capítulo chamado Uma escrita de desdobramentos, será
abordado o texto a partir do que pode ser um princípio estruturador, originado do poema
“Com Licença poética: Mulher é desdobrável. Eu sou”.
No texto prosaico de Adélia, a reflexão gira em torno do ser feminino que irrompe no
real como vivência e experiência, como voz no cotidiano de uma sociedade desigual, plural,
esfacelada; essa voz busca valorizar a vida a partir do outro e constituir uma alteridade que
nunca se afasta de sua própria experiência. A dicção feminina volta-se para dentro de si
mesma e realiza uma auto-reflexão na qual as frustrações, os sentimentos e os conflitos
ocorrem nos espaços internos, familiares.
A experiência do desdobramento é parte da constituição do ser humano, da sua auto-
experiência como sujeito que se interroga sobre si mesmo. Buscando uma resposta para a
questão existencial “Quem sou eu?”, essa prosa traça o caminho percorrido por um eu
feminino na sua existência, representando sua experiência pessoal e sua visão diante do
mundo e da vida cotidiana.
A escrita adeliana, na construção de uma linguagem feminina, trabalha com os
elementos do universo privado e do resgate de elementos culturais, tais como a naturalidade, a
sensorialidade, o misticismo, a oralidade, a afetividade, o erotismo e a religiosidade. Fábio
Lucas (1991) afirma que “como Rosa, Adélia estiliza a linguagem popular”. Isso porque
Adélia aproveita literariamente as duas formas de linguagem, coloquial e popular, e as
recupera revestindo-as de novas cargas de significação.
O que se tem no texto adeliano é a revelação de algum aspecto da vida anônima, dela
mesma e de seus semelhantes, no cotidiano que é o de todos nós. A narrativa reflete a
continuidade da vida, circular e contínua. São várias histórias, fragmentos de história que
acabam por constituir uma única: a história da vida dos que habitam o universo narrativo ou o
de qualquer um de nós.
Vale esclarecer que, mesmo tendo vivido sempre em Divinópolis, interior de Minas, e
sua cidade natal, Adélia consegue reafirmar em sua obra a universalidade da existência
humana. Exemplifica-se tal afirmação com as palavras da própria autora: “As paixões
humanas são iguais em todo lugar”. (2004)
14
Assim, justifica-se este estudo que, por apresentar abordagens significativas e, às
vezes, pouco destacadas, pode constituir-se como uma contribuição à leitura da obra dessa
autora contemporânea.
15
CAPÍTULO 1 – A PROSA DE ADÉLIA PRADO
“(...) se eu pretender e fizer um esforço para libertar minha prosa de
qualquer lírica, então vou escrever a coisa mais horrível do mundo. Minha prosa
nasce assim, não é que eu inclua poesia nela.” (Adélia Prado)
1.1 Um dedo de prosa
O ser humano comunica-se, principalmente, através da prosa. Daí, ser a prosa a
expressão natural da linguagem escrita ou falada, que é representada graficamente com linhas
inteiras de páginas preenchidas. Apresenta modo contínuo e ritmo mais natural, mais
identificado com o da fala habitual. É dessa maneira que se usa a linguagem, diariamente.
Nessa perspectiva, prosadores somos todos nós.
Ao se perceber a necessidade de buscar uma possível chave para a compreensão da
natureza da prosa e da poesia sob diferentes aspectos, recorre-se às questões desses gêneros
literários, prosa e poesia, que sempre foram objetos de pesquisa por parte dos teóricos da
literatura. Assim, serão apresentadas aqui definições do termo prosa, sua etimologia e
considerações feitas acerca da relação entre a prosa e a poesia ao longo da história e através
de posicionamentos e comentários críticos.
Veja-se, a seguir, a definição dada a prosa em dois dicionários de uso bastante
corrente:
Prosa.[do latim prosa (subentende-se oratione], ‘discurso que vai em linha reta até o
fim’, ao contrário do que se com o verso, que volta quando completo. S.f.1. A
maneira natural de falar ou de escrever, sem forma retórica ou métrica, por oposição
ao verso. 2. fig. Aquilo que é vulgar, trivial, positivo ou natural.3.fam. astúcia,
manha, lábia,conversa fiada.4.lit.V. seqüência.5. conversa, palestra (...)
(AURÉLIO, 1986, p. 1404)
Prosa. 1 expressão natural da linguagem escrita ou falada, sem metrificação
intencional e não sujeita a ritmos regulares p.op. a verso e a poesia 2 p.ext. aquilo
que é material, cotidiano, sem poesia (a p. da realidade )3 conversa informal (tive
dois dedos de p. com o compadre ) 4 BN. Infrm. Ato de namorar 5 mús. forma de
música religiosa antiga proveniente da seqüência e que consistia numa adição de
palavras e música a uma melodia conhecida 6 aquele que se gaba ou aparenta gabar-
se, com ou sem fundamento, de merecimentos próprios ou dotes pessoais; vaidoso,
convencido, fanfarrão 7 que ou aquele que é dado a falar ou a conversar demais;
conversador. P.literária LIT a narrativa de ficção, dos romances, novelas e contos
p.poética obra em prosa em que, no todo ou em partes, a invasão do eu do autor,
introduzindo um ponto de vista lírico à narrativa. Ter boa prosa, 1.ter muito
16
palavreado, muita lábia 2. ser um interlocutor interessante e agradável (...)
(HOUAISS, 1984, p.2314 e 2315)
Etimologicamente, o termo prosa é peculiar da arte literária. Deriva do latim pro
versus (pro diante, versus vertido). Significa vertido para frente, ou seja, que a frase
continua sem retornar ao esquema anterior, ao contrário do que faz o verso poético.
Prosa (do latim prosus –a, –um) significa oração solta, no sentido contrário da poesia,
que é uma operação presa ao metro, obrigada ao retorno. O objetivo do retorno poético é criar
associações evocativas de imagem. A prosa refere seu tema sem evocação. O caráter direto da
expressão em prosa, o que faz por mimese, é o que a define.
É importante destacar que, historicamente, a poesia remonta aos inícios da cultura
ocidental e presidiu no Ocidente o nascimento das literaturas nelas predominando durante
séculos. A prosa desenvolveu-se mais tarde, referência feita à prosa literária, pois a prosa
eloqüente (a oratória) e a prosa discursiva (de filósofos, cientistas e historiadores) existem
desde a antiguidade. Esses textos eram, algumas vezes, mesclados de poesia. Lembrando,
ainda, que o verso era empregado indistintamente como expressão ideal de arte e de todo
pensamento não artístico. Entretanto, com o desenvolvimento e a preponderância da prosa
literária, a prosa passa a ser valorizada também como expressão da arte, ao mesmo nível da
poesia.
Em síntese, prosa é a expressão natural da linguagem escrita ou falada. Não está
sujeita a ritmo nem a rima, nem a verso, nem a número de sílabas. É mais utilizada na
linguagem do cotidiano e quando se quer expressar o pensamento racional. Prosa é o nome
que se à forma cnica porque é chamado um texto escrito, geralmente, de modo contínuo,
formando linhas inteiras, ocupando todo o espaço da folha de papel e organizadas em frases,
parágrafos, capítulos, partes. São exemplos de prosa o romance, o conto, a novela, a crônica.
E mais, na prosa tradicional, o ritmo torna-se largo, irregular, ligado a uma ordem lógica e
compõe-se de unidades sintáticas encadeadas.
Nessas definições encontra-se referência a um aspecto formal e também a um tipo de
conteúdo. Por designar uma forma e também um tipo de conteúdo, pode-se considerar “prosa”
como uma palavra de significado duplo, pois se contrapõe a verso enquanto texto escrito sem
preocupações estéticas com divisões rítmicas, métricas, rimas etc. e por ser também um texto
em que a função poética não é a função lingüística predominante.
A prosa contrapõe-se ao “verso” no aspecto formal, e em relação ao conteúdo “prosa”
contrapõe-se a “poesia”. Enquanto “verso” denomina a forma do texto, cujo conteúdo é a
17
poesia, o termo “prosa” designa tanto a forma como o conteúdo do tipo de texto que
denomina. Assim, poesia e prosa, de um lado, e verso e prosa de outro.
Para Martins (1953, p. 50), a prosa e o verso “são formas tecnicamente diferentes da
expressão literária”, o que permite distingui-las com um simples golpe de vista.
A distinção entre poesia e prosa esbarra inicialmente numa dificuldade com o
vocabulário: a um tipo de expressão literária -se o nome de verso e a seu aspecto dito
oposto chama-se prosa. A um tipo de conteúdo literário dá-se o nome de poesia e ao outro
tipo, prosa.
Dessa forma, os textos literários podem ser divididos em dois grandes grupos: os
textos em verso e os textos em prosa. Moisés (1977, p. 41) diz que a ser aceito o emprego
rigoroso da palavra gênero e do conteúdo a que ela remete, tem-se somente dois gêneros: a
poesia e a prosa. E que, a partir de um critério que engloba a unidade forma-conteúdo, “os
gêneros seriam a expressão, a estrutura de dois modos de ver o mundo: o voltado para fora – a
prosa –, e o voltado para dentro – a poesia”.
Bonnet, citado por Moisés (1977., p.41), também admite apenas dois gêneros, mas
substitui a prosa pelo romance. E Pessoa apud Moisés (1977, p.75) considera a questão do
mesmo ângulo, mas adota o vocábulo “forma” como sinônimo de “gênero”: “A arte, que se
faz com a idéia, e portanto com a palavra, tem duas formas – a poesia e a prosa”
Não se confundiria formalmente um texto que está escrito em prosa com o que está
escrito em verso, enquanto formas técnicas. A distinção poesia prosa literária era
incontestada até a época do neoclassicismo, porque se fundamentava no aspecto formal do
texto mais do que no efeito produzido.
Para Vossler (1947, p. 236), “a distinção entre poesia e prosa é algo exterior, formal”
e acrescenta que “atrás da relação externa sem dúvida há de esconder-se outra interna”.
Segundo Middleton (1951, p.65) a poesia identificar-se-ia com a emoção, “a poesia é a
expressão natural dos mais violentos modos de emoção pessoal”, a prosa é “veículo para a
apelação do juízo”. Hegel (1964, p.24), por sua vez, distingue a poesia da prosa na medida em
que esta “divisa a vasta matéria que lhe oferece a realidade sob o aspecto racional da causa e
efeito, do fim e do meio, ou sob outras categorias do pensamento obtuso, enfim sob relações
de exterioridade e finitude”. E Croce (1967, p.21-22), no seu projeto de filósofo, crítico e
historiador da literatura, busca a identidade da poesia no confronto com a prosa preconizando
uma distinção interna: “a poesia é a expressão de afetos e sentimentos assim como a prosa é a
“determinação do pensamento”, ou seja, uma é a linguagem do sentimento e a outra a
18
linguagem da inteligência, respectivamente, e completa dizendo que, como a inteligência é
também, em sua concreção e realidade, sentimento, toda prosa tem um aspecto poético.
Críticos e historiadores literários vêm há tempos procurando estabelecer distinção
entre a poesia e a prosa, ou entre o verso e a prosa, mas a questão da fronteira entre os dois
gêneros ainda não se esclareceu o suficiente para se estabelecerem conceitos unânimes.
Os teóricos divergem quanto aos conceitos de prosa e nem sempre discriminam com
nitidez a mescla entre os gêneros, praticada desde a antiguidade, sem que disso se tivesse
plena consciência, muito menos nomes ou rótulos.
A prosa pode ser vista também como expressão por mimese, ou seja, através da
semelhança, da representação. A desenvoltura da expressão em prosa é decorrente do recurso
mesmo que adota a semelhança, ou mimese, imitando diretamente as formas dos objetos a
expressar, sem os expedientes intermediários da poesia.
A poesia explora a ambigüidade e a multiplicidade de significados, tomando a palavra
em si e rodeando-a, tirando-lhe o máximo significado entre o som e o sentido. A poesia
expressa o tema indiretamente, primeiro, expressa por meio da prosa, um objeto estímulo, o
qual num segundo tempo estimulará o surgimento da imagem que é o tema visado pela
poesia.
Na prosa, uma referência direta ao objeto; na poesia, há, também, referência ao
objeto, mas o que importa é o que esse objeto trará através de associações. A expressão em
prosa é caracterizada por propriedades que a descrevem como expressão desenvolta, lógica e
exata. A desenvoltura consiste na espontaneidade psicológica com que exprime seu objeto. A
prosa não obedece a padrões, como acontece na poesia, estrutura regida pelo verso e pelo
ritmo que devem excitar a associatividade. Pelo contrário, a prosa é linear, imediata, direta.
Para Middleton (1951, p.67), “a virtude específica da prosa é ser organizadora; e é
uma virtude que a poesia não pode ter: se a tem, não é poesia, mas prosa em verso”. A
logicidade da prosa acontece por causa da semelhança entre a expressão e o objeto expresso
que prontamente faz que um indique ao outro.
Quanto à linguagem, a poesia conserva, até certo ponto, a ordem lógica necessária à
inteligibilidade, ainda que esta não seja essencial, mas a ordem lógica é muito necessária na
prosa, já que ao prosador interessa antes a realidade objetiva, que o cerca do que é seu mundo
interior, caótico e vago. Mais ainda: “A representação prosaica está submetida às leis da
precisão e da inteligibilidade” diz Hegel (1964, p. 99). A linguagem da prosa retrata,
descreve, narra, fixa os aspectos “históricos” visíveis, que estão ao alcance da observação de
todos; é a linguagem denotativa. A prosa opera, também, com o auxílio do contexto, portanto
19
a partir da coerência interna do objeto, e apresenta quadros mais claros do ponto de vista da
compreensão racional do que oferece, ou seja, o(s) processo(s) mediante o objeto trabalhado
se dá (dão) pelo contexto operacional da mente, através de conexões lógicas.
A exatidão da prosa é o seu ideal ainda que lhe escape por vezes. Poder ser (quase)
exata faz da prosa um instrumento de expressão da ciência. A exatidão decorre da lógica com
que se operam os procedimentos da prosa. Assim não acontece com a linguagem poética; a
conotação associativa a envolve de significados imprecisos e que podem dar margem a muitas
interpretações, pois a poesia acrescenta aos recursos miméticos da expressão fundamental os
da associatividade.
Como mencionado, a prosa é a expressão resultante da mimese, através da qual a
significação indica, por obra de semelhança, o objeto assemelhado. Nesse sentido, a prosa é
uma expressão por representação direta pela conexão estabelecida entre o significante e o
significado.
Tendo a expressão em prosa indicado o objeto, este poderá, por acréscimo, despertar
imagens na memória. As operações de articulação entre a expressão e o tema se dão de
maneira diversa na prosa e na poesia. Enquanto a prosa se faz nas operações de articulação
entre a expressão e o tema aos recursos fundamentais da expressão mimética, a poesia se
distende até a associatividade.
Na prosa, a arte opera utilizando semelhanças, apontando direta e logicamente para o
tema. Mas, na verdade, prosa e poesia são apenas duas modalidades de se exercer a expressão
artística. A arte não consiste naquilo que separa entre si a prosa e a poesia, mas em algo que
se encontra no fundamento de ambas, quer dizer, na sua capacidade de exprimir algo, seja por
mimese, seja por associatividade.
Por outro lado, poesia e prosa têm em comum alguns aspectos como os que
caracterizam a literatura: ser expressão dos conteúdos da ficção, da imaginação, do
subjetivismo. Considerando-se a poesia como a expressão do “eu”, Moisés (1977) vai nos
dizer que o sujeito, o “eu”, volta-se para dentro de si, fazendo-se espetáculo e expectador ao
mesmo tempo. E que a prosa é a inversão disso, ela é a expressão do “não-eu”, do objeto.
Nesse caso, o sujeito que pensa e sente está agora dirigido para fora de si próprio, buscando
seus núcleos de interesse na realidade exterior, tendo assim autonomia em relação ao sujeito.
Para completar essa idéia, cita Bonnet (1977, p.56), para quem ao sujeito interessam agora
novos “eus” e as coisas do mundo físico. Por se tratar de um comportamento estético literário,
o subjetivismo permanece, pois é a conduta do “eu” diante do mundo exterior, é como o eu”
“vê” a realidade. Na prosa, o espetáculo passa a ser o que está fora do “eu”, no plano físico, os
20
focos de atração são os outros. O mundo exterior que a prosa nos apresenta é organizado
dentro de uma gica, não a lógica discursiva, mas a lógica estética. Isso quer dizer que a
inteligência e consciência atuam no modo como o prosador reconstrói o mundo, a seu modo,
mas segundo uma coerência lógica.
Assim, o prosador, ao criar ficção, constrói um universo, um microcosmo fictício, de
onde ele retira elementos para fazer funcionar sua imaginação; organiza um mundo a partir
dos elementos colhidos na observação do “não-eu” e inventa e monta a história que serve de
base para o mundo ali representado.
Moisés (1977, p.60) conclui que “a roupagem externa é insuficiente para marcar os
limites entre a poesia e a prosa”. E que “poesia e prosa andam juntas na mesma obra” porque,
além de não serem posições estanques pois não uma linha divisória entre o “eu” e o
“não-eu” – , também estão ambas baseadas na subjetividade e na “deformação” da realidade.
Vossler (1947, p.247) completa essa noção dizendo que, na verdade, “poesia e prosa
atraem-se de tal maneira que, embora às vezes se afastem uma da outra canalizando suas
águas separadamente como dois braços dum rio, logo voltam a fortalecer-se mutuamente em
novas confluências e novos traçados”.
1.2 Mudando o rumo dessa prosa
Tomando o rumo da fronteira entre poesia e prosa literária, pode-se dizer que a linha
que as separa é bastante tênue, existindo formas intermediárias, como a chamada “prosa-
poética”. Nesse binômio “prosa poética”, a ênfase geralmente recai na prosa e, portanto, no
aspecto narrativo, uma vez que essa se configura quando a narrativa é permeável à poesia. Em
síntese, a prosa poética é a fusão do enredo e da poesia, a narratividade desenvolvida em
ambiência lírica.
“Um encontro de águas vindas de afluentes e convergindo para o mesmo mar”
(MOISÉS, 1977, p. 29), eis a prosa poética.
“A poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade...” (Caetano
Veloso). Está-se, pois, diante de um tipo específico de prosa, assinalado pela fusão de poesia e
prosa. A poesia entra na prosa, a prosa entra na poesia. E essa interpenetração de elementos de
uma e de outra remota à antiguidade greco-latina. A essa prosa tingida de poesia empresta-se
o nome, desde 1540, de stile poétique ou já de prose poétique. (MOISÉS, 1977, p.21)
21
Um objeto expresso pela prosa, mesmo que desperte associativamente outras imagens,
pode manter-se como eixo principal da expressão. Eis quando se a prosa poética: no
momento em que esta, por meio de sua expressão direta, não é capaz de esclarecer e
complementa-se pela associação das imagens, sem, contudo, lhe ceder o primado na operação.
Essa prosa com alguma poesia é, portanto, a prosa poética, ou seja, a prosa com alguma
imaginação evocativa.
Historicamente falando, originou-se na França, no século XIX, como forma poética
específica e teve como fundadores os poetas Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud e Stéphane
Mallarmé. No entanto, a história dos vínculos entre a prosa e a poesia registra que é antigo o
uso desse discurso híbrido, às vezes independente da vontade dos autores, mas que a crítica
dessa fusão é contemporânea ao advento da estética romântica.
Do pré-romantismo para cá, assistiu-se a uma revolução do conceito do poético:
enquanto a prosa literária tende a poetizar-se pelo uso de imagens, símbolos e ritmos, a poesia
aproxima-se cada vez mais da prosa literária pela renúncia aos esquemas métricos, rítmicos,
estróficos, sem a periodicidade do retorno fônico e o paralelismo sonoro que caracteriza a
poesia tradicional. O moderno conceito de poeticidade está centrado num objeto ou numa
realidade apreendida, sentida e descrita artisticamente, mais do que em esquemas formais.
A partir do século XIX, a prosa poética aparece na obra dos românticos, alcança o
auge com o simbolismo, e essa “simbiose” prolonga-se até o século XX com as mudanças
ocorridas por conta das vanguardas.
Ainda no século XIX, a prosa poética irrompe em Portugal. Garrett atribuiu à narrativa
uma descontração marcada por traços poéticos. Mas é com Eça de Queirós, na obra Prosas
Bárbaras (1903), e a prosa simbolista que o lirismo ganha destaque na textura do enredo,
fazendo predominar a prosa poética.
Com a geração do Orpheu (1915-1927) progride a tendência fusionista entre a prosa e
a poesia numa ficção ainda mais puxada ao mistério existencial e aos planos duplos, como
Mário de Sá Carneiro com Céu e fogo (1915) e Confissões de Lúcio (1914) e Fernando Pessoa
com o Livro do Desassossego (publicação póstuma em 1982).
O grupo Presença (1927 1940)
1
exercitou-se na prosa poética. Quando se pensa em
vanguardas, destaca-se o Surrealismo, que conduz a mescla entre os dois gêneros aos
extremos psicanalíticos de labirintos oníricos e ao entrelaçamento dos planos do real.
1
Segundo Modernismo da Revista Presença (1927-1940): José Régio, Branquinho da Fonseca, Miguel
Torga, Vitorino Nemésio e outros.
22
no Brasil, a prosa poética desponta mesmo entre os românticos, Gonçalves Dias,
Álvares de Azevedo e, sobretudo, José de Alencar. Nos fins do século XIX, a prosa narrativa
impregna-se de poesia, plano estético do simbolismo.
na literatura moderna, os espaços literários multiplicaram-se, e nota-se que a
fronteira que define a poesia e a prosa tornou-se mais flexível. Esse discurso híbrido está
presente na ficção introspectiva e intimista dos anos 30, tendo maior destaque na década de 50
com Clarice Lispector, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, entre outros.
Contemporaneamente, a produção literária, seja dos autores já consagrados pela mídia,
seja daqueles que ainda buscam espaço no mercado editorial, recria de tal forma a linguagem
que se torna tênue a diferença entre gêneros e os tipos textuais, evoluindo para a prosa-poética
ou poética-prosa ou qualquer outro nome que se queira dar, porque, ao que parece, não
uma unanimidade em aceitar nomenclaturas, nem a crítica literária conta ainda dos
“produtos” resultantes do hibridismo dos discursos. É um texto mestiço que talvez merecesse
outro nome. Prosa poética? Poesia prosaica? Proesia? Por que não? Quem define? Em vista
disso, continuar-se-á usando o nome mais conhecido, ‘prosa-poética’.
Como se tem observado, as narrativas contemporâneas buscam apropriar-se do
poético, através do qual os significados do objeto enfocado e da palavra podem ser
transgredidos e atualizados. Essa pluralidade de tendências e estilos caracteriza tanto na
poesia, quanto na prosa, o período contemporâneo.
A partir dos anos 70, vão se quebrando limites entre os gêneros literários, que se
desdobram e acabam incorporando técnicas e linguagens, antes fora de seus domínios.
Romance e conto, conto e crônica, crônica e notícia, poemas em prosa, autobiografias com
lances romanescos, narrativas com contornos de cena teatral... Tudo isso constitui a
pluralidade de tendências e estilos que inovam as linhas tradicionais, desenvolvendo novas
técnicas e trabalhos lingüísticos que apresentam estrutura fragmentária.
Houve, nessa mesma cada, uma “enxurrada”, no mercado editorial, de narrativas
que atendessem às necessidades desse mundo moderno e que se prolongou nas cadas
seguintes marcadas por narrativas curtas, condensadas, novas técnicas, subversão da
seqüência narrativa, interiorização do relato, colagem de flashes e imagens, fusão entre poesia
e prosa, evocação de estados emocionais, flagrantes do cotidiano, textos memorialísticos e
autobiográficos, experimentais e metalingüísticos.
Nota-se que, nesse momento, o conto e o romance são gêneros notadamente marcados
por essas características, mostra de que a existência de situações híbridas e de mudança de
23
estatuto dos textos são questões que a teorização literária atualmente contempla, permitindo
mostrar a fluidez das fronteiras do campo literário.
Percorrendo a trajetória recente da literatura brasileira, comprova-se a força da
narrativa, que vem resistindo em um mundo cada vez mais interligado pelas redes planetárias
de comunicação, marcado pela supremacia da imagem e da mídia, pela informação rápida e
pela ausência de fronteiras.
Moisés (1997, p.29) enumera “previsíveis” conseqüências para o rumo dessa prosa:
1) a intriga amortece, tornando-se muitas vezes um fio débil ou subterrâneo,
opostamente linear e explícito das narrativas realistas ou o-poéticas; 2) a primeira
pessoa do singular, do narrador ou das personagens, comanda o espetáculo; mesmo
quando o foco narrativo se localiza na terceira pessoa, o tom é o da primeira; 3) a
narrativa é um espetáculo rememorado, por entre névoas de incerteza, ou sutilezas
oníricas, como se transcorresse no interior do eu”: a narrativa desdobra-se na mente
de quem a vai tecendo, como se desfiasse o novelo da memória, se abandonasse ao
devaneio ou pervagasse os confins do sonho; 4) a vagüidade, ocasionada pela
ambigüidade do relato,conduz as reminiscências; 5) o pormenor fabulativo banha-se
numa luz espectral, difusa, irreal; 6) a metáfora de vasta amplitude associa-se a
uma lógica da frase que é a um tempo da emoção e do arcabouço histórico; 7)
tudo se passa como se a frase verbal se transmutasse em frase musical, em que o
sentido, dado pela narração, se emoldurasse de sons, ou se os sons e os significados
se comungassem numa emissão vocabular ; 8) a tessitura dos acontecimentos,
por natureza extrospectiva, mergulha na introspecção, como se, afinal, o mundo de
fora, o “não-eu”, e o mundo de dentro, o “eu”, de repente se coordenassem num só,
anulando as diferenças em favor de uma unidade bifronte, formada pelo seu
intercurso; 9) por fim,`a semelhança da poesia e ao contrário da prosa de ficção
habitual, a metáfora é de imediata ressonância: enquanto na prosa stricto sensu o
sentido das metáforas somente se declara ou se mostra no término da narrativa, na
prosa poética, o sentido, ou, quando não, o enigma do sentido, logo salta à vista.
Nesse tipo de texto literário, o conjunto de elementos significativos conflui para o
resultado que é a construção do sentido. Nessa relação entre prosa e poesia, embora cada uma
conserve suas especificidades, uma diluição das fronteiras rígidas e inflexíveis da
classificação tradicional e do cânone, o que pode ser observado no aparecimento do nero
híbrido, que é a prosa poética. Esse hibridismo, recodificado recentemente como característica
da contemporaneidade, além de associado a identidades construídas, ambíguas, impuras,
heterogêneas e deslocadas, pode ser observado nas manifestações literárias, na estética, na
construção de personagens e/ou narrativas propriamente ditas.
Busca-se, então, o termo híbrido em Bakthin (apud COSER, 2005, p.173), que o
aplica à análise da linguagem no romance. Para ele, hibridação vem a ser a mistura ou
encontro de duas linguagens sociais diversas dentro do mesmo enunciado. Pode ser usada
intencionalmente numa forma artística, como o romance ou (o conto), cujo terreno discursivo
24
mostraria uma duplicidade de vozes, sotaques, linguagens, consciências e épocas que ali
colidem, negociam e proliferam.
1.3 Mais dois dedos dessa prosa
Com base nas teorias mencionadas, percebe-se que o processo criativo de construção
literária na prosa de Adélia Prado baseia-se no fato de que certa tensão entre a prosa e a
poesia. A autora faz uma mescla entre os gêneros (prosa/poesia, poesia/prosa), de modo a ser
possível questionar como se estabelecem os limites entre os neros literários, que o texto
vai se construindo de forma híbrida.
Assim, a prosa poética de Adélia Prado é mescla da prosa comum cotidiana – marcada
pelas ocorrências próprias do texto em prosa e por estrutura parecida com a do romance ou do
conto, como enredo, personagens, ação, espaço e tempo acrescida de aspectos poéticos
como ritmo, exploração de imagens e de fonemas supra-segmentais. Tem-se, assim, a
estrutura da prosa, linear e horizontal, unida à estrutura poética, vertical, resultando numa
pluralidade de significações superpostas e entrelaçadas que cruzam fronteiras apenas
teoricamente demarcadas e desmarcadas por outras teorias como essas que pretendem
conceituar a prosa poética.
Em Adélia Prado, poesia e prosa completam-se, cumprindo cada qual sua função e
mostrando-se como uma das formas de expressão da autora. A própria Adélia usa o termo
poéticas para mencionar a sua criação literária. É a própria escritora quem vai afirmar que sua
prosa é constituída por partes do processo em curso, quando da produção da poesia. Assim,
sua prosa, formalmente catalogada pelos editores como romance ou contos, é eivada de
fragmentos de poesia, que se concretizam numa continuidade inusitada, mantendo as funções
específicas de cada um desses gêneros. A separação poesia e prosa não é externa às obras,
mas está a ecoar ontologicamente a própria criação.
Hohlfeldt, em Cadernos de Literatura, abordando a obra da autora em estudo, diz:
Em que pese a multiplicidade dos textos, a arte é sempre um processo parcial de
compreensão da realidade, desdobrando-se em diferentes caminhos, processo que,
por isso mesmo, se concretiza numa continuidade fragmentada. No caso de Adélia
Prado, esta variedade e esta fragmentariedade assumem feições formais específicas –
as poéticas e os fragmentos de prosa cada qual com uma diversa perspectiva de
abordagem da realidade. (p.112)
25
Entre os textos das poéticas – os poemas e os fragmentos de prosa – isto é, os
romances, há uma inter-relação, uma vez que são os fragmentos de poesia que vão constituir a
prosa adeliana. Romance ou conto, o que seja, não descaracteriza a essência (poética) dos
textos, apenas enunciando a existência de narrativas não-poéticas e de narrativas poéticas que
diferem da forma habitual da poesia, que é o poema.
Desse modo, o tom do texto modifica-se, acentuando-se o prosaico. A prosa tinge-se
de lirismo sem perder sua marca própria, a narratividade. Para Bakhtin, a prosa poética é um
discurso moldado pelo arranjo de vozes através das quais ressoa a voz do poeta prosador. É
preciso, por isso, contextualizar o texto prosaico adeliano para que se possa melhor entendê-lo
e valorizá-lo.
Consta que a produção literária de Adélia Prado é constituída de catorze livros
publicados, sendo que seis deles são de poesia e oito em prosa, incluindo um infantil. Desde
1976, a autora vem apresentando volumes de poesia e prosa, sendo os últimos quatro livros
em prosa, como pode ser visto na cronologia da obra adeliana:
OBRAS ANO DE PUBLICAÇÃO
POESIA
1. Bagagem 1976
2. O coração disparado 1978
3.Terra de Santa Cruz 1981
4. O pelicano 1987
5.A faca no peito 1988
6. Oráculos de maio 1999
PROSA
1. Solte os cachorros 1979
2. Cacos para um vitral 1980
3. Os componentes da banda 1984
4. O homem da mão seca 1994
5. Manuscritos de Felipa 1999
6. Filandras 2001
7. Quero minha mãe 2005
8. Quando eu era pequena (infantil) 2006
No texto em prosa, Adélia vai experimentando variações formais e mantendo uma
unidade nos temas abordados: acontecimentos do cotidiano uma matéria-prima aos quais
busca dar uma determinada articulação, ainda que fragmentária, e que constituem seus contos
ou romances, como querem os seus editores.
Entre as obras em prosa citadas, foram eleitas três para esta análise:
Solte os cachorros (1979) é o primeiro livro em prosa catalogado pelos editores como
de contos. Está organizado em três blocos: o primeiro constituído por 26 capítulos curtos, o
26
segundo reunindo dois contos e o terceiro reunindo pequenos textos que fogem a uma
definição única de gênero. São contos, crônicas, narrativas, poemas em prosa e poemas na
forma de versos.
O segundo, Cacos para um vitral (1980), que surgiu um ano após o primeiro livro de
prosa de Adélia, é designado como romance pelos editores. Esse livro é de fundamental
importância para o entendimento da criação literária da escritora. Dividido em dois
fragmentos, nele a autora define poesia e prosa e dá um testemunho de sua poética.
O terceiro, Filandras (2001), catalogado como livro de contos, apresenta 43 histórias,
interligadas, no entanto, por fios que permitem ao leitor construir uma história única.
Nas três obras em análise, um dos recursos utilizados pela autora para expressar a
criação do seu projeto estético é a metalinguagem.
A partir do século XX, parece ser uma tendência da arte explicar no próprio texto o
significado do fazer literário. Muitos escritores da contemporaneidade discutem
metalingüisticamente (o discurso como condição e como reflexão) a própria espécie narrativa
de que se utilizam. Esse recurso lingüístico permite que o texto se dobre sobre si mesmo, em
um movimento de refletir-se, pensar-se, explicar-se metaforicamente ou não. Em Adélia, essa
experiência e reflexão são uma constante, pois se tem a todo o momento esse movimento no
texto.
Em Solte os cachorros (1979), a poesia é definida como aquilo que determina o
destino, que dota, predestina e indica-lhe sua vocação literária:
O que me fada é a poesia. Alguém já chamou Deus por este nome? Pois chamo eu
que não sou hierática nem profética e temo descobrir a via alucinante: o mundo
poético da salvação. (p.15) / Por que Deus me poupou? Não virei bêbado, perdoai
virei poeta. (p.114)
Esse segundo excerto dialoga com Bandeira (2001) em seu poema Testamento:“[...]
fiz-me arquiteto? Não pude! Sou poeta menor, perdoai!”.
Adélia disse uma vez que fica sem poesia quando seus olhos, olhando para uma
pedra, vêem uma pedra, porque a poesia está em tudo, a poesia que pode ser construída com o
material desprezado pela cultura, empobrecido pela ideologia e criada com o que de mais
comum e banal. “Nosso amor é como bosta de búfalo, cai, mas não racha. Como vê, nem o
excremento é nosso, se lhe pega a poesia.” (PRADO, p.12)
O “eu” evidencia a sensação, o sentimento ao fazer o texto poético e, mesmo não
conseguindo, demonstra inquietação e angústia por às vezes não materializá-lo.
27
O que eu sinto na gestação do poema? Aponta o lápis que te digo... (p.61) / A
ovelha pronta para o sacrifício, ela sabe balir, ela sabe falar, ela escreve, vai parir o
poema, começar tudo outra vez (P.63) / As vezes eu penso: nunca mais vou dar
conta de escrever uma poesia. (P.83) / Fui dormir umas vezes tão feliz, que, se
soubesse minha força, levitava. Em outras, tanta foi a tristeza que fiz versos. (p.113)
/ Um verso só, um verso perfeito e eu dispensava os músicos, os criados, o
massagista. (p.84 )
A poeta refere-se também ao sentimento de expectativa em relação ao leitor, à
recepção do seu texto:
[...] tem piedade de mim, me concede escrever um verso bonito, pôr ele no jornal e
dizer pras pessoas que leram e gostaram: muito obrigada, muito obrigada. (p.83) /
Tou com tanta raiva [...] que anunciei esta manhã pra ferir meus amados: vou
queimar toda crítica sobre meus textos. Que me importa? Que se lixem. Que se
danem. Que se arrebente tudo. A banalidade, o mais absoluto anonimato. (p.58)
Ler Cacos para um vitral (1980) é admirar vitrais compondo uma narrativa. Essa
indeterminação que é do mundo da poesia está no título da obra. A metáfora serve para o
romance, que é construído de fragmentos da vida da personagem que vão se configurando ao
longo do tempo numa determinada unidade. Um fragmento combinado com outro, assim é
constituído um vitral, assim é a criação literária de Adélia:
No caderno de Glória: um romance é feito das sobras. A poesia é núcleo. Mas é
preciso paciência com os retalhos, com os cacos. Pessoas hábeis fazem com eles
cestas, enfeites, vitrais, que por sua vez se configuram novos núcleos [...] O centro
da gema é mais central, mais gema que sua própria beirada? O centro tem outro
centro? (p.65 e 66)
Adélia mostra ao leitor a diferença entre a poesia e a prosa. A poesia é o núcleo, o
romance, as sobras. Entretanto, com as sobras configuram-se novos cleos num círculo
permanente de relacionamento entre as duas formas: texto poético e texto prosaico estão
intimamente relacionados na estética adeliana: “Remexendo papéis, Glória achou uma
anotação com sua letra: retalho de poesia excelente prosa. Não se lembrava mais porque
escrevera aquilo. Retalho de poesia dá excelente prosa [...](p.102) O conceito de prosa é
retomado como parte da poesia, “a sobra”, os “retalhos”. É o desmembramento ou
desdobramento de parte do processo da poesia que produz o texto denominado prosa.
A autora retoma também a questão da recepção, do efeito produzido pelo texto
literário. Às vezes, a literatura diz o que não se dá conta de dizer.
[...] disseram os críticos e ah!ah!ah! sobreviveram tripudiando sobre a poesia dela,
sua alma desnudada em público, seu nome em letras grandes[...](p.63) / Glória não
se importava nem um pouco, transtornada com o livro que acabava de ler. Sentia-se
como se houvesse feito uma descarga de si mesma [...] Era incomum o que sentia.
28
Regressava de si ao seu próprio encontro [...] As palavras de um livro produziam a
transformação. Palavras que nela até então foram também PALAVRAS POR
DIZER. (p. 66 e 67)
Redescreve as sensações do cotidiano como faz comida ou reza. E continua a definir
poesia, a poesia ruim e a função dos poetas em:
Fazer poema é tão fácil, mas é preciso garimpar de um cargueiro de livros, um livro,
um só, ou de um poema um verso, um que retenha o clarão, o som da língua
divina.[...] A poesia é meio burra, estúpida,incomoda como um cocô não é produto
meu, enquanto não posso escolher fazer ele ou não.Ele se faz dentro de mim
(horror). Portanto, ouro = poesia = fezes = obra divina. Poesia ruim, esta sim, co
de minha própria autoria, vergonha inominável. Tenho vontade de partir os queixos
dos poetas que se acreditam criadores de sua própria obra. Vaidosos demais, não se
vêem apenas portadores, vasos (vaso remete a vaso sanitário e/ou a vaso sagrado que
contém o precioso sangue). (p.85)
O fazer poético é colocado como expressão divina, o que torna o poeta apenas um
instrumento dessa graça de Deus. Há poesia ruim, fezes e a poesia do sacrifício da ovelha
(dialoga com o excerto da p.63 de Solte os cachorros), do “vaso sagrado que contém o
“precioso sangue”.
Em Filandras, ainda que sutilmente, a autora recorre, através de sua personagem,
Olinda, ao conceito de prosa constituída de fragmentos, de partes, de pequenos
acontecimentos da vida. “[...] minha vida dá um romance, dona Ceres”. (p.101)
No conto “Teses”, uma jovem estudante pede ajuda à personagem Célia numa
pesquisa escolar sobre ‘A mulher e seu condicionamento de explorada pelo machismo’ e o
diálogo que acontece entre as duas vai revelar um (pre)conceito:
Serve uma poesia? Perguntei já com um autor na cabeça. Não, poesia não, poesia é
sempre coisa muitocomo é que é gente?– muito assim de leve, não é? E eu quero
uma coisa forte[...].Meio macha?[...] Eu estava gostando da tortura: então, você quer
um texto em prosa? Em prosa? Repetiu como se ouvisse língua estrangeira. Não,
decidiu categórica, Não. Não é em poesia, nem em prosa [...] Quero é um artigo de
umas vinte linhas, tipo artigo de jornal[...] (p. 129)
É com ironia que a personagem apresenta as definições de poesia como “coisa” leve,
de mulher. A poesia vista como gênero menor. E a prosa? O que é a prosa? Meio macha?
Acabou neutra nesta história, que talvez o artigo de jornal fosse o gênero macho... E os
gêneros machos, por isso, talvez, sejam gêneros de maior estatuto...
No trecho que se segue do conto “Caixa preta”, a autora contempla ainda a questão do
uso da palavra, do fazer poesia, da necessidade da expressão escrita:
29
Pode ser uma estética o detalhismo compulsivo, pode ser pobreza, carência, busca de
amor e reconhecimento às inflorescências de sua alma sensível, recurso para
espichar a conversa, gozar de atenção, pedido de socorro e pior, talvez,
arrependimento pelos dons que usou. Sei que é um poeta, o tio Lute, temente a Deus
e a velório em sua própria casa. Lembrei de contar a Teodoro que toda vez que ia a
são Paulo visitar a filha, ia diretamente ao aeroporto pra ver descer e subir avião.
Vou pedir a Teodoro que o procure mais, que o ajude a esvaziar a caixa-preta. Tio
Lute é daqueles a quem as palavras matam. (p. 61)
Não é tarefa deste trabalho questionar a classificação dos textos dentro do universo
dos gêneros das formas em prosa, mas apenas caracterizá-los enquanto estruturas narrativas
que mantêm suas características fundamentais, além das especificidades da narrativa poética
adeliana. Seja em qual forma foi concebida, é formada de ingredientes reveladores de uma
estética. “Eu não faço essa distinção. Eu vejo os textos, não importa se são poemas ou prosa”.
(Cadernos de Literatura, p.26)
2
/ “O que me interessa, no fundo, é que os livros sejam
poéticos, não importa se eles estão em forma de prosa ou em versos”. (CDL, p.30)
O formalismo lhe é estranho. Preocupam-na os fins, não os meios: “O meio é
divertimento, lacrimoso, teatro, intervalo, ensaio geral, piquenique dificultoso, onde fatos
memoráveis acontecem.” (CV, p.85)
O narrador, ou melhor, as vozes femininas que contam as histórias estão, nas obras em
análise, na primeira pessoa do singular (Solte os cachorros e Filandras). É como se o “eu”
estabelecesse uma conversa com o leitor. “Tem hora que sinto vergonha de me preocupar com
coisinha miúda... (SC, p. 53), Fui convidada e achei bom. Ia comer lula. Ia, porque não comi.”
(Fil, p. 75)
As vozes que narram o todas de mulheres, personagens que sabem que precisam
aceitar a condição medíocre do ser humano e amá-la com toda sujeira, pecado, excremento e
com a preocupação escatológica”, “palavra escalafobética”. (SC, p.25 e CV, p.85). Através
delas, Adélia tem voz e voz a todas as mulheres do mundo, tornando sua prosa uma
narrativa extremamente pessoal.
E mesmo quando o foco narrativo se localiza na terceira pessoa, o tom é o da primeira,
como acontece em Cacos para um vitral.
Não por acaso, as narradoras, explícitas ou não, em primeira ou terceira pessoas,
funcionam neste caso batizadas com nomes próprios que funcionam como disfarces
da própria escritora, na verdade são o desdobramento de uma personagem, ainda
que não necessariamente a pessoa privada de Adélia Prado, mas com toda a certeza
sua máscara e persona [...] (CDL, P.74)
2
A partir daqui, a fim de evitar repetições dos nomes das obras, serão utilizadas abreviaturas para os títulos dos
livros de Adélia, bem como para o Caderno de Literatura (CDL), Solte os cachorros (SC), Cacos para um vitral
(CV), Filandras (FIL).
30
Todo texto é uma retomada de outros textos constituindo assim um mosaico de
citações conforme diz Kristeva compartilhando o pensamento de Bakhtin que, além de
considerar o fenômeno do dialogismo no contexto literário, tem como base de seu pensamento
a intertextualidade.
Nesse entrecruzamento de vozes, podem-se identificar os textos adelianos em diálogo
com ditos e provérbios populares: “Porque o que abunda não vicia...” (SC, p. 19) / “Sol com
chuva casamento de viúva” (SC, p.101) / “[...] eu era feliz e não sabia”. (Fil, p. 69) / “[...]
entro seca e saio torrada.” (Fil.p.16)
Com referência a outros textos, como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa:
“No livro mais lindo que vi escrito por mão de homem, um Riobaldo segue dizendo: Podia
ser tudo no mundo uma função de religião, essas coisas em solene, grave, os cantos [...]”.
(SC, p.46).
Da prosa poética de Guimarães Rosa, retoma o personagem Diadorim, no final,
quando da descoberta de que era uma mulher, Maria Deodorina “que nasceu para o dever de
guerrear e nunca ter medo”. E a narradora: “Porque sou igual Maria Deodorina Bittencourt da
Fé Marins a que nasceu pra muito amar sem ter gozo de amor.” (SC, p.85).
Finalizando, em Solte os cachorros, no conto intitulado A caçada, além da epígrafe,
Adélia retoma Carlos Drummond de Andrade através do poema José, em sua estrofe: “[...]
mas você não morre, você é duro José!” Quando a autora dialoga diretamente com o poeta
através do uso do vocativo: “Ela é dura, Carlos, ela não morre!” (SC, p. 124)
E epígrafes de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e bíblicas: “Esses
alvoroços de doçura”. João Guimarães Rosa (SC, p.99) / “Poesia, o perfume que exalas é tua
justificação”. Carlos Drummond de Andrade (SC, p.123) / “Esta é a confiança que temos em
Deus: se lhe pedimos alguma coisa segundo a Sua vontade, Ele nos ouve”. I João 5,14 (SC,
p.79)
São muitas as referências a outros textos, autores, personagens e até a paródias como
as das obras Dona Flor e seus dois maridos e As Minas do Rei Salomão:
Que jeito deram Abelardo e Heloisa, Dante e Beatriz, Anita e Garibaldi? (SC, p.90 )
/ [...]minha imaginação já está inventando Hamlet.(Fil, p. 22 ) / [...] igual Lacoonte
entre as cobras no seu livro de história? (CV, p.75) / Glória misturava ele com
Castro Alves... (CV, p.63 ) / [...]corajoso como entrar na cova dos leões... (CV, p.75)
/ Dona Flor e suas duas pétalas? As Tinas do Rei Salomão? (SC, p. 65
)
31
Vinicius de Moraes, com “Enjoadinho, poema que se tornou muito popular, diz:
“Filhos? Melhor não tê-los...” Ao que a narradora, de certa forma, replica: “Filhos? Melhor é
tê-los e encanecer por esculpir suas renovadas formas”. (CV, p.70)
Embutidas em textos da própria autora, as referências continuam a se fazer presentes.
Com a música popular brasileira: “Com que roupa é o samba que eu canto mais [...]” (SC, p.
65), “[...] cantando feito Tialzi: Quando o carteiro chegou [...]” (CV, p. 77 ). Com outros
textos da própria autora: “O sonho encheu a noite, extravasou pro meu dia, encheu minha vida
e é dele que vou viver, porque sonho não morre”. (SC, p.111), que retoma o poema
“Explicação de poesia sem ninguém pedir” (PRADO, 2006, p.48): Um trem é uma coisa
mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia. Atravessou minha vida, virou só
sentimento.
O discurso blico, uma constante, faz-se através de citações, epígrafes, orações e
cantos:
[...] porque no livro bíblia, logo na primeira página, está escrito: Deus fez o homem
e o fez macho e fêmea e isto quer dizer que somos iguaizinhos no valor. (SC, p.82) /
Depõe sobre Deus o teu fardo e ele te sustentará. (CV, p.105 ) / Meu grande Santo
Antônio, ostenta teu poder, as graças do Altíssimo, me queira conceder... (Fil,
p.87)/Dai a César o que é de César (SC, p. 34).
Essa última citação, usada popularmente como um dito, foi retirada de um trecho do
evangelho: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Nesse entrecruzamento de textos, encontram-se, ainda, trecho do hino nacional:
“Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heróico o brado retumbante” (CV,
p.70,71), o uso de palavras em línguas estrangeiras: “Gracias a la vida.” (CV,p.72), “[…]
descabelada devoradora de hombres” (SC, p.85) / “Um derrière esplêndido” (Fil, p.51), “Este
pensamento é double-face [...]” (SC, p.19) / “a palavra pai em castelhano era padre e veio do
latim que era pater.” (CV, p.73) “E também muitas expressões em latim, em função da
religiosidade que permeia o cotidiano narrativo em análise: Eppur si muove.” (CV, p.88) / “In
hoc signo vinces” (CV, p.88) / “[...]olhe bem: soli Deo” (SC, p.73), “[...] introito e ite missa
est” (SC, p. 83)
Esse texto prosaico, que apela para recursos de expressão poética, concentra na
linguagem a força dessa expressão. Adélia trabalha com o aproveitamento literário das formas
de linguagem coloquial e popular. Pelo registro que faz dos acontecimentos cotidianos, são
encontradas seriedade e comicidade nesse material lingüístico constituído de expressões
32
banalizadas, linguagem simples, comum, que, recuperadas pela poesia, revestem-se de novas
cargas de significação.
Desta forma verifica-se, mais uma vez, o procedimento metalingüístico, que assume
diversas faces na estrutura da narrativa literária e é usado no texto para explicar a adequação
ou inadequação da linguagem ao contexto:
[...] falo assim, um pouco por literatura, força de expressão... (SC, p.49) /
Escatológica é palavra escalafobética de surpreendentes sentidos, que não quero ver
rotulando minha obra, que nem por obra ser merece exame clínico. Porque pundonor
eu tenho, o que me falece é a prudência. A matéria pode ser prima ou plástica, as
palavras também, com um pequeno pormaior: Você pede desculpas, eu, por
ruborizá-lo, peço onze, superabunda-me a vênia nesta língua engraçada, onde até a
pita abunda. (SC, p.25 e 26) / A minha reputação, dentro do possível ilibada, mo
impede? Usava esta linguagem fora do meu natural pra ele não me interpretar
errado, me julgando desrespeitosa (SC, p. 27)
Os recém-letrados falam sempre: ‘ou seja’ e ‘esta colocação’;categoria de gente
eternamente acabando de se formar[...] (CV, p.25) / Não falou tá, não; foi está, com
todos os ‘esses’. (CV, p.37) / “Uma vez rotularam-me: escatológica. Inflei de
orgulho até que me apresentaram aos vários sentidos desta palavra esquipática (que
não sei o que é, mas cai onomatopaicamente bem neste contexto). (CV, p.85) / [...]
mãe eu laia e a Fostina invinha, ela envinha aqui? Que é isso, existe o verbo lair e
envir? A senhora também fala assim. Falo mesmo.Então[...] (CV, p. 58) / Glória
teve vontade de estapear Claudina que veio lhe devolver um livro de Guimarães
Rosa, dizendo com sua fala embatumada: um autor assim não ajuda em nada a
melhorar o vocabulário. Ele escreve popular demais. Claudina fazia curso de letras e
dizia poblema. Não valia a pena discutir com ela. (CV, p. 54),
Conversando com Teodoro tio Lute usa sempre ‘você’ .(Fil, p.61)
A personagem Glória, de Cacos para um vitral, faz uma anotação em seu caderno que
uma idéia da relação da palavra e seu uso, ou seja, de como se pode usar a palavra de
acordo com o contexto e com a necessidade de expressão. A metalinguagem, mais uma vez,
aparece não para evidenciar a postura de esperança ou desencanto diante da palavra, como
também para salientar o seu vínculo com o cotidiano:
[...] de vez em quando aprendo certas palavras que admiravelmente se prestam a
todo uso. Por exemplo: defasagem. Quando aprendi dizia defasagem do ensino,
defasagem da burocracia, defasagem da família e ridiculamente leite defasado em
vez de leite coalhado. Agora é aglutinação. Aglutino idéias, forças, mas não ponho o
leite pra aglutinar, porque também já é demais, embora seja mais próprio com
relação a leite coalhado do que o anterior e infeliz defasado que usei e me
envergonho. Vive-se com tão poucas palavras! Como é possível! Eu mesma, que
pretendo escrever, conheço pouquíssimas. [...] (CV, p.80)
Como quem conta um “causo”, vai seguindo a narrativa, cheia de falas que permitem
o uso da linguagem do homem simples, do interior: “Descobri quando o capiau chegou pra
33
mim e disse, como se lesse a ata da coroação: “dona inda que mal pergunte, com o perdão da
palavra, onde mesmo que fica a latrina qu’eu to obrando mole e solto hoje que tá uma
derrota.” (SC, p.18) / “Eita ferro!” (Fil. P.137)
Outras vezes narradora e/ou personagem usam um vocabulário mais culto:
[...] um fóssil autêntico de minha vida pregressa. Parece que sou sempre agora
assim, advindo, abvoltando nessa sapiencial idade conselheira? (SC, p.73) /
Anselmo no assunto execrável (...) a quase impertinência. (SC, p.89) / Eu quero a
saudade na reunião de literatos discutindo a metáfora (SC, p. 52).
A linguagem está identificada à idéia que transmite; o fato de que recria o falar
cotidiano aparece nos diálogos, na fala de pessoas que contam episódios e acontecimentos do
seu dia-a-dia. A linguagem falada é livre, espontânea, obediente aos fluxos emocionais e aos
estímulos do diálogo dos acontecimentos, e relaciona-se, no texto, próxima a uma escrita
lógica, discursiva, dialética. A comicidade está justamente aí, no que ela tem de mais simples
e espontânea, que é afetiva e emocional. É também marcada pela fala característica de
determinada região, o “provincianismo”, isto é, os “vícios” da fala rural, do “caipira”.
Não se entrará aqui em questões lingüísticas de linguagem desprestigiada,
marginalizada; pelo contrário, a poesia resgata a linguagem que se fala porque ela molda um
modo de ver o mundo. A língua, assim como a poesia, permeia tudo, nós somos a língua que
falamos.
Outro ponto, vertente importante no trabalho com a linguagem em Adélia, é a
subversão que ela faz do uso da norma culta, tradicionalmente muito vinculada à norma
literária (linguagem escrita), permitindo-se representar na literatura a coloquialidade da
língua: “Também sou filha de Deus, uai. (SC, p.28) / Eu dei, uai, eu não ridico idéia pra
ninguém. Idéia é coisa que solta no ar, apanha quem tem jeito, ? (SC, p.31) / Tinha
coragem de gritar: Ocês dois aí, vão parar com essa pouca vergonha. (SC, p.85) / O homem
do gás passou gritando: aogás, aogás...” (CV,p.67)
É muito comum na linguagem oral não se pronunciar a palavra inteira, por reduções:
[...] ce põe muita força no lápis. (SC, p. 96) / [...] tava muito alegre... (SC, p.97) / Hoje tou
interpretando (CV, p. 64) / Disse que era istrés que eu tive e precisava era de muito passeio...
(Fil, p.47) / vai me dando ‘jeriza’... (Fil, p. 137) / Copiado por Gabriel, do sanitário da
rodoviária: PEDE NÃO HORINAR NO VÁS. (CV, p.102). Esse último exemplo mostra a
escrita ortográfica representando a fala, muito comum nas placas de lugares públicos em
cidades pequenas.
34
E aglutinada com a palavra mais próxima: Me dá o raio da ficha aí, pos’quecer esse
trem não. (CV, p.65)
Percebe-se também uma espécie de luta da autora com a linguagem:
[...] preciso da língua pra falar. Mas não é porque estou sozinha que vou dizer olha
eu aqui, Deus, baratear o texto. Falo assim: meu Deus, eis-me aqui[...] disse ‘eis-me
e depois ‘dá’ no lugar de dai, mas não é desrespeito, é fluxo de sentimento que não
tolera preocupação com a gramática e – percebo de novo- faço isto desde o primário,
se corrigir tiro a seiva da coisa. (Fil, p.17)
E a linguagem em uso, em funcionamento enquanto código:
Me uma pena dessas aí! Que pena?Tinha pena nenhuma na minha fantasia! Que
é aquilo de eu falar que a fantasia era da escola? Estava tudo invertido, invertido e
verossímil como nos meus sonhos! Ele pedia uma pena que eu não tinha, eu falava
que a pena que eu não tinha era da escola e ninguém estranhava, era um
código funcionando! (Fil, p. 26)
O caráter da palavra poética não se associa apenas ao seu aspecto icônico ou
metafórico, mas também à mediação imagética e às diversas mediações discursivas: o tempo,
o modo, a pessoa, o aspecto, faces todas que a predicação verbal e imagética configura.
A prosa poética utiliza recursos rítmicos e sonoros da língua, aqueles com os quais o
poeta geralmente trabalha em seus versos, e Adélia os transpõe para a prosa, esta marcada
pelo lirismo e imagens essencialmente poéticas.
A linguagem é um objeto privilegiado sobre o qual converge a busca do efeito
estético. Ressalta-se, então, a questão da heterogeneidade e os múltiplos sentidos no domínio
da palavra, pois o projeto estético da autora consiste também em revigorar as palavras e
inserir nelas um novo poder de significação. A recriação contínua e interação concordante
entre as palavras, ritmos e sons por meio dos versos estimula a re-descoberta dos significados
inseridos como mensagens essenciais das coisas que conta.
O pai reforçava: canteiro quadrado não; sem poesia. (CV, p.11)
[...]um senhor meio velho apontou pra o lado que o sol esconde, falando vigia
aquelas nuvens, ‘tão que é ouro. (SC, p. 108) / Eu não te largo, Expedito, até
você virar expert. Dito?(SC, p.108) / Me abaixo para pôr no ouvido o teu relógio de
pulso, o que bate é teu coração. Me abraça, José, me abraso. Ai, com você me caso.
(SC, p. 19) / Vopede desculpas, eu por ruborizá-lo, peço onze. Superabunda-me
a vênia nesta língua engraçada, onde até a pita abunda. (SC, p.26)
[...] eu procurei o traseiro da Oldalisa e nada de Olda, mesmo a Lisa, magra e
murcha. (Fil, p.52) / O apelido dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem
pôs, se chamava Rosiva, a perigosa. (FIL, p.52)
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Adélia ‘brinca’ com as palavras numa espécie de jogo, explorando as possibilidades
sonoras. Pode-se ver isso em Bakhtin (1986, p. 130), para quem uma palavra não tem sempre
um sentido: “[...] se um complexo sonoro qualquer comportasse uma única significação
inerte e imutável, então não seria uma palavra, não seria um signo, mas apenas um sinal. A
multiplicidade das significações é o índice que faz de uma palavra uma palavra.” Para o eu”
dos textos prosaicos em análise, Deus mostra-se através da poesia e poesia em tudo, por
isso há uma exploração de palavras e expressões que evidenciam, de qualquer modo, a
disponibilidade permanente da autora para explorar as sonoridades e os diversos e novos
sentidos das palavras.
O ser humano relaciona-se com o cosmos com certa dose de lirismo, e o texto
artístico, que é mimesis, não pode ignorar tal verdade. Sendo assim, a palavra comum não é
suficiente para dizer, é preciso transcender para sugerir aquilo que permanece além das
palavras no mais profundo do ser. A leitura dessa prosa segue o caminho dos significantes,
que, por mais que seja comum, traz sempre algo inusitado que convoca a ultrapassar o(s)
sentido(s) evidente(s) do texto. Isto porque o texto sempre diz mais do que aparenta e,
constituído como objeto de reflexão, ao tratar de um outro ficcional e verossímil, dissimula o
estar falando de si, mesmo teorizando artística e metaforicamente suas referências verbo-
imagísticas.
A prosa adeliana, vista por essa perspectiva, constitui rico material para realização
poética como escritura ou processo de produção de sentido. A importância da leitura da
superfície é justamente por ser o lugar em que se concentram os efeitos estéticos que dão
acesso às camadas mais recessivas do processo de significância. É uma proposta literária que
promove a simulação de experiências fundamentalmente humanas e leva o leitor a seguir por
este caminho (da leitura), guiado por sua memória afetiva e por sua própria bagagem de
experiências.
São estabelecidas projeções da visão feminina do mundo e do universo, buscando
quebrar a imagem instaurada pela cultura ocidental, na qual predomina “uma visão dualista da
mulher: a Eva pecadora e a Virgem imaculada: a santa, que morre pela e a tentadora, que
induz o homem ao pecado; a mãe gentil e piedosa e a amante gananciosa, destruidora de
lares...” (KUPSTAS, 1993, p.09)
Tenta-se não moldar a mulher a isto ou àquilo, mas se permite o ser mulher, essa que
foi sempre a grande sobrecarregada no desenrolar da história e a quem, na luta por conquistar
o espaço que lhe é de direito, nunca foi dada a possibilidade de livrar-se das funções sociais
que lhe são atribuídas através de um secular processo ideológico.
36
Whitaker (1988, p.80) assim expressa as funções da mulher:
Quanto à mulher, deve conciliar o inconciliável: ser mãe, esposa, governanta,
administradora da casa, serviçal dos filhos e, ao mesmo tempo, profissional. Médica
ou professora, engenheira ou faxineira, haverá sempre um malabarismo, maior ou
menor, para equilibrar a dupla jornada de trabalho ou, o que é pior, as jornadas
superpostas, processo pelo qual a mulher vai e vem de uma esfera de trabalho para
outra, ora atendendo clientes, ora resolvendo problemas dos filhos, ora levando-os
ao dentista ou apanhando-os na escola, representando papéis sociais que lhe esgotam
as energias.
As mulheres escritoras constroem, principalmente, personagens femininos para falar
sobre tudo isso, o que constitui uma forma de escrita considerada, hoje, particularmente
feminina, pois contém materiais que pertencem à esfera privada e cotidiana que, durante
muito tempo, foram considerados assuntos de menor relevância: coisas de mulher!
Essa literatura de autoria feminina tem sido voltada para uma visão de mundo que é
pessoal, intimista, confessional e imaginária. Os testemunhos literários femininos sejam
romances, contos, poemas, diários ou mesmo crônicas e escritos políticos ocupam-se do
cotidiano, do doméstico e da intimidade, caminhando na direção do aprofundamento do Eu
psicológico.
37
CAPÍTULO 2 – A VOZ DO COTIDIANO
“O grande tema é o real. E onde é que nós temos o real? É na cena cotidiana. Eu
só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O
cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong - Kong, só que vivido em
português”.
(Adélia Prado, em entrevista concedida ao professor Jean Lauard, Universidade
de São Paulo, 05/11/93)
2.1 Compreendendo o cotidiano
Percebe-se em Adélia a concepção de que a poesia está vinculada ao cotidiano e de
que a temática do que, aparentemente, seria simples e banal é valorizada pela escritora no
reconhecimento do lirismo da própria vida nos bastidores desse dia-a-dia.
Seus textos são expressão, em uma linguagem prosaica, de retratos instantâneos do
cotidiano doméstico e íntimo que se buscará compreender nas suas particularidades e
minúcias. Nesse cenário destaca-se o papel da mulher como quem estrutura e organiza a vida
familiar e social. E, por trás dessa aparente simplicidade, além de toda uma reflexão estética,
há uma valorização do cotidiano no social, fazendo com que aquilo que é aparentemente banal
apresente uma consciência poética e até mesmo uma postura política.
Em Adélia Prado encontra-se um projeto literário, verificável a partir da absorção do
ocasional, do corriqueiro como emissários de sentidos latentes, questões do dia-a-dia e
memórias. É uma proposta literária cuja linguagem opera na confecção e na afirmação de uma
identidade, cravando o Eu num solo mais palpável, composto de gênero, autobiografia e
ideologia. Nessa literatura torna-se evidente o material do qual ela é feita: a condição da
mulher, a forte impregnação da religiosidade cristã e do cotidiano doméstico, familiar e
social.
Compreende-se esse cotidiano como uma representação de um quadro de
transformações por que vem passando a sociedade nos últimos tempos, gerando a crise dos
paradigmas tradicionais e levando a pessoa ao questionamento de sua identidade e existência.
Essa crise de identidade da(na) história tem possibilitado a (re)descoberta do
cotidiano, através de um modo de olhar diferente os hábitos físicos, gestuais, alimentares,
afetivos e mentais. Entretanto, a descoberta mais significativa surgiu de questionamentos
38
políticos no âmbito do cotidiano sobre as transformações da sociedade, o funcionamento da
família, o significado dos fatos e gestos cotidianos e o papel das mulheres.
Dessa forma, através de uma redefinição do político dá-se o deslocamento da esfera do
espaço público para a esfera do privado e do cotidiano. Uma politização do dia-a-dia que
permite a valorização desse cotidiano e das experiências antes excluídas. Com as mudanças, a
demarcação entre público e privado foi traçada de modos distintos, de tal forma que
atividades familiares e públicas mesclam-se em alguns momentos e diferem-se em outros.
“O cotidiano se apresenta como um campo de múltiplas possibilidades e interseções que se
aproximam e diluem as polaridades público/privado, razão/paixão, tempo/espaço,
sujeito/objeto”. (DIAS, 1992).
Pode-se afirmar que o cotidiano é um elemento inserido nessa dinâmica de
transformações sociais, econômicas, políticas e culturais que trouxe à luz um mosaico
constituído de tramas de vida, constituição de sujeitos, construção de práticas cotidianas,
literatura, folclore, música, memórias... Tudo isso numa estrutura de fragmentação e
diversidade extremamente abrangente.
E mais, esse contexto ampliou as possibilidades de articulação e de inter-relação entre
diferentes verdades, sensações e discursos, dando espaço às histórias de gente sem papel
reconhecido, sem lugar e sem voz dentro do discurso tradicional da história, particularmente
as mulheres que procuraram re (cobrar) um lugar, questionando a dimensão de exclusão a que
estavam submetidas pelo discurso masculino. Tendo sido, por muitos séculos, excluída do
espaço público, a mulher teve seu espaço privado confirmado como o locusda realização
das suas potencialidades femininas, do doméstico e do íntimo.
Partindo da premissa de que o cotidiano é muito mais do que um conjunto de hábitos,
rotinas e acontecimentos triviais e comuns, questiona-se: O que é esse cotidiano?
Certeau (1986, p. 31) define-o como a contemplação de certo momento da história de
uma sociedade:
O cotidiano é aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos
pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão do presente. Todo dia
pela manhã, aquilo que assumimos, ao despertar, é o peso da vida, a dificuldade de
viver nesta ou noutra condição, com esta fadiga, com este desejo. O cotidiano é
aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio-
caminho de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. Não se deve esquecer
este “mundo-memória”, segundo a expressão de Péguy. É um mundo que amamos
profundamente, memória olfativa, memória dos lugares da infância, dos prazeres.
[...]
39
Já Lefèbvre (1982, p.96) recorda sua riqueza e sua miséria:
Riqueza da vida cotidiana: nela se esboçam as criações mais autênticas, os estilos e
os modos de vida que reúnem os gestos e as palavras correntes à cultura. Nela se
opera a renovação incessante dos homens: o nascimento e a formação das crianças, a
passagem das gerações.” (...) “Miséria e pobreza: a vida cotidiana constitui a
repetição dos mesmos gestos, o levantar-se pela manhã, preparar o café, sair,
caminhar pelas ruas, sempre as mesmas todas as manhãs, atravessar as praças,
também as mesmas, tomar a condução, perder-se na multidão, ler o jornal, entrar
pela mesma porta na mesma fábrica, no mesmo escritório.” Essa dialética da
unidade e do conflito se caracteriza, todavia, pela “apropriação (pelos próprios
homens) da vida em geral e de suas próprias vidas em particular”. Na medida em
que o cotidiano se afigura também como o “o domínio da felicidade e da
infelicidade, do acaso, do destino e de suas combinações surpreendentes, o
romanesco e o extraordinário se fundem aí com o trivial”. Ou seja, a vida cotidiana é
o locus do movimento dialético “feito de contradições sempre resolvidas e sempre
renascentes.
É muito comum que a maioria das pessoas se perca no cotidiano, nas repetições, na
rotina e no automatismo dos dias que se sucedem, mas é nesse mesmo cotidiano que se
encontra um caminho em busca da desalienação, processo que Dias
(
1982, p.96) afirma ser
dialético:
Verdadeiro caleidoscópio, a vida cotidiana desenha a paisagem sobre a qual os
homens erigem sua existência, seus sonhos e tristezas, grandezas e frustrações.
Atores e expectadores, os seres humanos se alienam e tomam consciência de si e dos
demais nesse processo que se repete a cada manhã, aparentemente igual mas
dialeticamente sempre diverso. O cotidiano é assim, sempre necessariamente
dialético [...]
Esse caráter fragmentário, principalmente devido a sua monotonia e repetição, a
impressão de estar fora dos acontecimentos históricos. Na verdade, os acontecimentos
históricos são gerados e partem do seio da vida cotidiana, retornando a ela sob a forma de
efeitos. É Heller (1972, p. 20) quem confirma que “a vida cotidiana está no ‘centro’ do
acontecimento histórico: é a verdadeira ‘essência’ da substância social.”
A vida rotineira, nesse sentido, é um dos principais pontos de partida para a
compreensão da ideologia e sua reprodução no campo do social. Os elementos ideológicos,
em sua origem, podem ser encontrados na esfera do privado: a casa, os costumes, as tradições,
os hábitos familiares, a educação dos filhos etc.; quer dizer, estão presentes na organização da
vida cotidiana.
O ser humano nasce inserido em sua cotidianidade. O crescimento e
amadurecimento do indivíduo significam que ele tenha adquirido todas as habilidades
imprescindíveis para a vida cotidiana da sociedade, desde a manipulação das coisas até a
40
assimilação das formas de intercâmbio ou comunicação social, ou seja, os costumes, as
normas e a ética. O ser humano aprende e apreende os elementos da cotidianidade vivendo em
grupo (a família, a escola, os amigos, os vizinhos etc.). Dessa forma, a vida cotidiana é a vida
do indivíduo que se encontra em relação com sua própria individualidade e com sua
genericidade humana. Ambas coexistem estruturando e caracterizando a vida cotidiana. O fato
de nascer lançado na cotidianidade continua significando que os seres humanos assumem as
funções dessa vida e as exercem paralelamente.
Em Adélia, o cotidiano é a vida seguindo seu curso... “Tudo se repetiria ritualmente,
como mantras benditos, as saudações, o até mais, o até logo, até que cresci, me casei com
moço formado e Benedito cresceu e se casou com moça operária. Tivemos filhos, dores,
sustos, sonhos[...]” (FIL., p. 39). Assim o cotidiano assume o valor de História, no sentido de
expor os atos humanos mais simples e comuns, constituindo a matéria de que ela, a história,
também é feita.
Todos a vivem, sem nenhuma exceção, ninguém pode desligar-se inteiramente da
cotidianidade e, ao contrário, não quem viva tão somente na cotidianidade, embora essa o
absorva preponderantemente. A vida cotidiana é a vida do indivíduo. Heller (1972, p. 17), em
seu estudo sobre a vida cotidiana, define-a como:
a vida de todo homem[...] é a vida do homem inteiro;ou seja, o homem participa na
vida cotidiana com todos os aspectos da sua individualidade, de sua personalidade.
Nela, colocam-se em “funcionamento” todos os seus sentidos, todas as suas
capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões,
idéias, ideologias.
Aqui, não mais como trivial, o cotidiano é visto como uma possibilidade de
recuperação de outras experiências. Enfocando o mundo a partir da experiência comum, a
vida cotidiana, além de hábitos e rotinas, tem revelado um universo de tensões e movimento,
no qual as tramas de vidas apresentam-se como vivências possíveis e diferentes dimensões de
experiência e cheio de mudanças e permanências, descontinuidade, fragmentação, amplas
articulações e infinitas possibilidades que continuamente se (re) compõem.
Também afirma a autora:
A vida cotidiana é, em grande medida, heterogênea; e isso sobre vários aspectos,
sobretudo no que se refere ao conteúdo e à significação ou importância de nossos
tipos de atividade. São partes orgânicas da vida cotidiana: a organização do trabalho
e da vida privada, os lazeres e o descanso, a atividade social sistematizada, o
intercâmbio e a purificação. (HELLER, 1972, p. 18)
41
Tal afirmação esclarece que um dos aspectos importantes do cotidiano é sua
heterogeneidade. São várias atividades diferentes dispostas hierarquicamente por
determinação do sistema ideológico e cultural e que é garantido pelo trabalho cotidiano da
mulher.
Perrot (1998, p. 10) diz que “nas sociedades que pensam o político, enquanto os
homens têm o seu santuário referendado pelo público e pelo político, as mulheres têm a casa
referendada pelo privado e pelo coração”. É, pois, a mulher quem estrutura, organiza e dirige
o cotidiano familiar. E mais, é ela quem faz o elo entre a esfera do privado com o social: os
amigos, a escola, os vizinhos, etc. essa condição feminina inclui, necessariamente, o cotidiano
da vida doméstica feminina, pois é nela que se encontra grande parte de suas determinações
socioculturais.
Todavia, relega-se à mulher um conjunto, desvalorizado em certos aspectos, que
engloba o familiar, o individual, o privado, o pessoal e o doméstico.
2.2 Uma voz feminina na vida cotidiana
Será tratada agora a construção de uma visão feminina de mundo, salientando que a
condição de vida das mulheres é marcada, principalmente, por meio do seu papel na
estruturação da vida cotidiana. Fundamental, contudo, é ser ela quem propicia e conduz a
interiorização dos papéis sociais: das normas, dos hábitos e até da sexualidade dos membros
da família.
Lefébvre (1991, p.23) diz que “é muito mais a mulher cotidiana: mais capaz de
cólera, de alegria, de paixão e de ação, mais vizinha das tempestades, da sensualidade, dos
laços entre a vida e a morte, das riquezas elementares e espontâneas.”
No entanto, na maioria das vezes, a mulher não tem consciência do seu poder, sente-se
relegada ao âmbito familiar, com um cotidiano desvalorizado socialmente, monótono, pobre e
sem sentido. Tanto não tem consciência de sua tarefa social que ela mesma, na transmissão da
ideologia e da sexualidade, acaba perpetuando sua própria opressão e desvalorização.
Nesse sentido, a família é usada para a dominação masculina. O trabalho doméstico é
organizado para poupar os homens (filhos e maridos) das tarefas da manutenção: a comida, a
limpeza, a disposição dos objetos etc. É a mulher quem deve cumprir o cotidiano, pois tudo
deve ser feito para permitir a estabilidade necessária para o trabalho público do homem.
42
Apoiado nessa estrutura cotidiana ‘feita por mãos femininas’, a figura masculina
tomou as rédeas do curso da história determinando o papel em que a figura feminina deveria
atuar. A mulher foi por longos anos subjugada ao domínio patriarcal. Foi vista, às vezes,
como uma mãe benévola, mas também como uma fêmea selvagem e incontrolável. Dessa
forma, para não perder o controle, o homem tentou dominá-la com que não lhe davam voz,
nem vez.
Tudo na e da mulher sempre foi bem controlado e seus deslizes punidos. Na Idade
Média, era, muitas vezes, vista como bruxa. As mulheres que tinham atitudes e se
comportavam diferentemente do modelo tido como ‘normal’ e ‘ideal’ foram queimadas em
fogueiras, torturadas e marcadas.
No século XIX, a mulher foi associada à natureza, e vista mais uma vez como ser
inferior ao homem, já que, como a natureza, o homem também podia dominar. “A mulher está
no centro de um discurso excessivo, repetitivo, obsessivo, largamente fantasmagórico, que
toma de empréstimo as dimensões dos elementos da natureza” (PERROT, 1998, p.187). E
Godoy completa tal afirmação mostrando alguns exemplos dessa associação mulher-natureza:
Neste traçado destaca-se a mulher-fogo, devastadora das rotinas familiares e da
ordem burguesa, mulher das febres e das paixões românticas, é a encarnação da
mulher ígnea que deixa apenas fumaça e cinzas. Encontra-se também a mulher-água,
fonte de frescor para o guerreiro e inspiração para o poeta, doce, passiva, amorosa,
sonho dos pintores impressionistas. A mulher-terra, nutriz e fecunda, estabilizadora,
civilizada, mulher-matriz, guardiã. (2001, p.227)
Entretanto, o século XX caracteriza-se, em muitas sociedades, por movimentos de
constantes alterações em valores, práticas e papéis; e a literatura tem evidenciado também
continuidades em todos esses aspectos. A partir da década de 70, enfatiza-se nova forma de a
mulher ser considerada. A imagem do ser frágil e necessitado de proteção masculina, sob o
domínio dos sentimentos, atuando na intimidade e presa aos cuidados com a prole, ganha
outros contornos. A mulher é um ser em construção, na busca do seu desenvolvimento e
realização de potencialidades. Esse caminho traçado pela evolução é marcado por
continuidades ao lado de rupturas.
Apesar disso, ainda hoje não foi dada à mulher a possibilidade de livrar-se das funções
sociais que lhe são atribuídas, continua carregando a culpa da humanidade, afinal foi uma
mulher (Eva) quem levou o homem (Adão) a comer a fruta do pecado e, devido a sua
curiosidade e desobediência, foram expulsos do paraíso.
43
Whitaker (1998, p. 84-85) explica que esse “processo ideológico através do qual se
culpa o oprimido pela opressão que sofre” torna-se mais compreensível quando se observam
os mecanismos de controle que acompanharam a mulher no decorrer de sua história, fazendo-
a internalizar toda a culpa:
Assim, quando a mulher trabalha fora do lar, ela se sente culpada por abandonar os
filhos na creche ou aos cuidados da babá. Quando, contrariamente, é dona de casa,
se sente culpada por não participar do orçamento doméstico e não ter atividade que a
torne mais interessante aos olhos do marido e dos filhos. Quando abandona os
estudos para seguir o marido, se sente culpada por não progredir intelectualmente.
Quando é talentosa e resolve optar pela carreira, se sente ainda mais culpada por ser
mais preparada do que o marido. Quando o casamento vai mal, se interroga aflita
para descobrir em que teria fracassado como mulher. Quando os filhos cometem
transgressões graves, é acusada de ter cometido erros graves no seu papel
preferencial, o papel de mãe.
Apesar de todo avanço da sociedade moderna em relação à mulher, ainda não se
conseguiu erradicar do imaginário familiar o status e a importância da mulher dissociada dos
afazeres domésticos e dos papéis de mãe e esposa, tarefas que na sociedade capitalista não
agregam valor de mercado. A mulher ainda vive uma dicotomia: de um lado, a busca da
afirmação da individualidade do ser humano, explícita na busca por espaços no mercado de
trabalho; de outro, as obrigações e responsabilidades da mulher na estrutura familiar, próprias
da condição social e culturalmente introjetadas como adequadas ao gênero feminino.
“Essa mulher” é próxima de nós o suficiente para nos identificarmos com ela. É
encontrada na vizinha, nas amigas, na cunhada, nas colegas de trabalho, nas profissionais de
todos os dias etc. Essa mulher é a que trabalha, cuida da casa, tem filhos para educar, marido
para “cuidar”, família para atender. É quem escolhe o que consumir, em que partido votar;
assim exerce diversos papéis quase ao mesmo tempo.
Foi com o patriarcalismo radicalizado na não-tolerância (apropriação, controle,
domínio, sujeição, discriminação sexual e guerra) que o mundo chegou onde se está; e foi
com a mulher cumprindo de forma, quase sempre, tolerante o que lhe era exigido, que se
chegou às mudanças paradigmáticas do findar do século XX até agora.
Em Adélia percebe-se o valor dado à “sina feminina”, a importância do ser mulher em
suas especificidades, o que aos olhos feministas pode parecer alienação ou submissão. A
consciência do papel feminino:
Quero morar na roça ou em cidade pequena onde as mulheres
são faceiras, depois casam, depois põem o cabelo pra trás da orelha e desgraçam a fazer
biscoito de polvilho, sulcam a cara no tacho, no forno, na cama, pra agradar marido, agradar
neto.” (SC, p.8)
44
Por outro lado, emerge a consciência de outras possibilidades:
Emancipada eu não quero ser, quero é ser amada, feminina, de lindas mãos e boca
de fruta, quero um vestido longo, um vestido branco de rendas e um cabelo macio,
quero um colchão de penas, duas escravas negras muito limpas e quatro amantes:
um músico, um padre, um lavrador e um marido (SC, p.27)
No entanto, a análise não é tão simples quanto parece; em sua obra está explícita uma
luta, ainda de que forma velada, de todas as mulheres contra uma implicação decorrente de
sua existência.
Ser mulher ainda dificulta muito as coisas. Muita gente boa ainda pensa, em pleno
século quase vinte e um, que mulher é seu oco. Fosse assim, a gente não tinha
coração nem cabeça, precisava nem ser batizada. Mas digo que tem e igualzinha à
dos homens: boa e ruim. (SC, p.27)
Mais ainda, quando a personagem Glória está fazendo uma reflexão sobre o
movimento das professoras em greve: “Ah, mas um grande número marchou sem garantias,
saiu para o temporal sem uma sombrinha sequer e era belo ver o ser humano de repente
iluminar-se.” (CV, p.52)
Assim, fica a proposta de se repensar a identidade da mulher não como uma cópia às
avessas do processo do homem, mas como experiência específica e própria da condição de ser
mulher. Não se pretende substituir o masculino pelo feminino, mas que ambos tenham seu
lugar, que o que foi invisível até agora se torne visível e transformável.
Em todas as épocas e das mais variadas maneiras, o mundo feminino foi apoio e
espaço concretizador das idéias, crenças, conquistas ou inovações do mundo masculino. Hoje,
um dos elementos-chave da mudança em processo é o próprio mundo feminino, é a própria
condição de mulher que tenta se redescobrir e reequacionar em sintonia com as novas forças
imperantes. Como diz Colasanti (1981):
[...] somos mutantes, mulheres em transição. Como nós, não houve outras antes. E as
que vierem depois serão diferentes. Tivemos a coragem de começar um curso de
mudanças. E porque ainda está em curso, estamos tendo que ter a coragem de pagar
por ele. [...] Saímos de um estado que embora insatisfatório, embora esmagador,
estava estruturado sobre certezas. Isso foi ontem. Até então ninguém duvidava do
seu papel. Nem homens, nem muito menos mulheres. [...] Mas essa certeza nós a
quebramos para poder sair do cercado.
Através dessa perspectiva é que se pode compreender melhor as transformações que,
nestes últimos anos, vem se processando na voz feminina. Com mais força, do século XX
45
para cá, essa voz vem se fazendo ouvir. Uma das maneiras de expressão dessa voz feminina
se dá no âmbito da literatura, lembrando que as circunstâncias sócio-históricas (conseqüências
e reflexos daí advindos) são fatores determinantes na produção da literatura. Desde os anos
70, a produção literária das mulheres vem despertando crescente interesse, inseridas que estão
num contexto mais amplo: o da emergência do diferente, de vozes divergentes e da descoberta
da alteridade ou do outro.
Destacam-se, aqui, as mudanças que vêm alterando o mundo e mudando os conceitos
que definiam social, econômica e politicamente a figura da mulher, e a força com que essa
literatura feminina vem se impondo à crítica como um fenômeno especial que desvela a
transformação do mundo feminino facilitando a compreensão do que é a literatura feminina,
como ela se constrói e por que trilha determinados caminhos. Não é por ser produzida por
mulheres ou falar sobre mulheres, mas por ser uma linguagem feminina.
Trata-se da transformação da condição de subjugada da mulher e das tentativas de
romper com os discursos sacralizados pela tradição, nos quais a mulher ocupa, a sua revelia,
um lugar secundário em relação ao ocupado pelo homem. Tais discursos não só interferem no
cotidiano feminino, mas também acabam por fundamentar os cânones críticos e teóricos
tradicionais e masculinos que regem a literatura.
A partir dessas indagações, muito que se buscar na natureza da criação poética e
ficcional das escritoras e procurar compreender em que medida a linguagem, a estrutura e a
vibração da matéria poética respondem às exigências e preocupações dos novos tempos.
No que se refere ao nível do discurso, algumas das características da literatura
contemporânea podem ser apontadas como características femininas, tais como a palavra
fragmentada, a tendência a impregnar a palavra escrita com elementos da oralidade, a
insistência no próprio emissor (o discurso voltado para o sujeito que fala), a projeção da
linguagem ao nível simbólico, a tendência a explicar o universo em vez de interpretá-lo, a
predileção pelo detalhe, o relato popular de pequenos acontecimentos do dia-a-dia, objetos e
fatos rotineiros etc.
se pode pensar na criação artística ou literária se se pensar na cultura em que ela
está imersa. É através dessa perspectiva que se pode falar em uma literatura feminina dentro
das coordenadas do sistema sociocultural que estabelecem o ser-mulher.
Com relação ao feminino, aqui se refere a uma categoria de análise das dimensões
socioculturais das relações entre os seres humanos, contrapondo-se a sexo, que traz
conotações da biologia.
46
O feminino refere-se ao papel de gênero para descrever condutas atribuídas às
mulheres no contexto da cultura (diferenças sociais e culturalmente construídas e sustentadas
pela tradição) diferenciando os gêneros masculino e feminino. O conceito de gênero, valendo-
se dos estudos sobre a mulher, vai abranger maneiras distintas de se falar em universo
feminino: dando ênfase ao papel da cultura, outras ao de uma subjetividade intrinsecamente
feminina, e outras, desenvolvendo teorias próprias dentro de matrizes teóricas clássicas.
As vozes femininas que se fazem ouvir no âmbito literário, a partir dos anos 60,
apresentam um traço comum que as aproxima e identifica, embora apresentem variadas
tendências de estilo, processos ou tema. É o que Coelho (1993, p. 17)
vai chamar de:
Consciência experimentalista, no sentido do reajustamento da linguagem às
solicitações dos novos tempos e o impulso dinâmico de integração do ser humano e
da poesia no processo histórico em desenvolvimento. Isto é uma nova confiança na
condição humana (apesar de sua miséria e efemeridade) em virtude da sua possível
transcendência através da arte e do espírito. Ou ainda, uma nova interrogação do ser-
poeta e do ser-da-poesia.
A autora citada vai listar mulheres que, na poesia dos anos 60 e 70, realizaram essas
novas buscas e experiências e as apresentam na sua criação literária: Hilda Hilst, Núbia
Marques, Eunice Arruda, Lélia Coelho Frota, Maria José Giglio, Lupe Cotrim Garande,
Renata Pallottini, Stella Leonardos, Fúlvia Carvalho Lopes, Ivete Taunus, Lúcia Ribeiro da
Silva, Yeda Schmaltz, Myriam Fraga, Neide Archanjo, Cora Coralina, Lais Correia de
Araújo, Stella Carr, Ilka Brunhilde Laurito.
Contudo, é no decorrer dessas últimas décadas que, surge a consciência crítica da
mulher em relação a si mesma e à tarefa que lhe caberia desempenhar nos âmbitos da criação
literária e da sociedade em mudança. É novamente Coelho (1993, p.19) quem explica que
“Diluem-se as fronteiras entre poesia e ficção, uma vez perdida a lógica ordenadora das coisas
e seres, vê-se impulsionada pela intuição e tenta organizar em discurso a fragmentação do
mundo que lhe cabe expressar.”
A partir de então, muitas poetas passam a escrever ficção: Edith Pimentel Pinto, Núbia
Marques, Hilda Hilst, Yeda Schmaltz, Heloisa Maranhão, Stella Leonardos e Adélia Prado.
Destaca-se Adélia Prado, sobre quem se realiza este estudo e cujos textos, também,
configuram-se enquanto Bildungsroman, ou seja, romances de aprendizado.
Ao tematizar o conflito entre o “eu” e o mundo, o Bildungsroman voz ao
individual, ao subjetivo e à vida privada e manifesta a necessidade de expressar o mundo e,
por outro lado, a necessidade de superá-lo. Na definição dada por Flora (2007), os momentos
47
da história pessoal das protagonistas vão representar sua compreensão do mundo e de si
mesmas numa dimensão histórica do tempo interiorizada e que durante o processo (romance)
vai revelando a vida em confronto com propósitos, certezas, experiências e memórias que
favorecem aquilo que é universal no ser humano. Enfim, o Bildungsroman foi recentemente
problematizado como a (im)possibilidade de ajuste entre o eu e o mundo, experiência
dolorosa e dilacerante na contemporaneidade. É também crescente a visibilidade feminina na
literatura atual, propiciando numerosos romances que questionam o lugar da mulher na escrita
e na cultura.
É assim que Adélia escreve a fala comum do dia-a-dia, que expressa o cotidiano e que
é o material de sua experiência e sua descoberta. Sua narrativa expõe dilemas, modos de vida,
identidades, posições sociais de mulheres às voltas com suas sinas humanas.
2.3 Coordenadas do cotidiano em retratos de mulher
Adélia Prado, embora mais conhecida como poeta, é autora de oito narrativas de
ficção, listadas anteriormente. O poético instala-se, também na prosa, a partir do cotidiano,
da província, do ato mais simples, da rememoração dos acontecidos recuperados por uma
recordação criadora.
Uma característica constante em seus livros, especialmente os selecionados para esta
análise, é que se organizam sob uma idéia condutora central, desdobrando-se em blocos ou
pequenos textos meticulosamente ligados entre si.
Assim: Solte os cachorros (1979) é o primeiro livro de prosa de Adélia Prado. O título
remete à expressão popular “soltar os cachorros”, que significa dizer o que se quer, o que vem
à mente, como num desabafo: “Quem o grito primal paga caro o analista, quem o grito
vai preso, quem escreve feito eu esgota o zumbido de seu ouvido, mata um a um os
marimbondos, com agulha fina, nos olhos.” (SC, p. 10) Base da teoria do psiquiatra Arthur
Janov
3
, a terapia do Grito Primal é uma maneira intensa de reviver e encenar experiências
pessoais, o que a autora faz através de sua literatura. A narradora, uma mulher de 40 anos,
3
Janov, 1975, em o Grito Primal, faz o paciente passar de um isolamento completo a sessões individuais e
depois em grupo, em que é convidado a reviver aos gritos de desamparo e de chamado do bebê, e a reagir às
emoções traumatizantes a ele correspondentes. (D. Anzieu, Dicionário de Psicologia, (org.) Roland Doron e
Françoise Parot,1998, p. 377)
48
abre o verbo e fala sobre amor, relacionamentos, religião, vida e morte. O verbo, no tempo
presente do modo subjuntivo, atua como uma “sugestiva ordem” para que o/a outro/a fale
também, assim como a narradora em primeira pessoa, sem identificação da personagem que
não recebe um nome.
O livro de contos, segundo seus editores, está organizado em três blocos: “Solte os
cachorros”, “Sem enfeite nenhum” e “Afresco”. O primeiro recebe o mesmo tulo de todo o
volume e é constituído por 26 capítulos relativamente curtos. Leva uma epígrafe de João
Guimarães Rosa: “A cachorrinha pegou a latir, nesse ofício que quase todo cão tem de ser
presumidamente valente”. Referência clara ao título e ao que ele significa “com licença de
João Guimarães Rosa”. (p. 5)
O segundo bloco recebe o nome de “Sem enfeite nenhum” (p.87) e reúne dois contos.
O título desse bloco ilustra a proposta estética da autora de sua arte não estar interessada em
erudição, apuro formal ou labor no ato de criação. Denomina também a simplicidade na
linguagem e nos temas narrados. A epígrafe é do evangelista João: “Esta é a confiança que
temos em Deus: se lhe pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve.” (p.89)
O terceiro bloco, por sua vez, é denominadoAfresco”, nome bastante sugestivo, uma
vez que, nas artes plásticas, pode designar a pintura que de certo modo corresponde à forma
literária narrativa constituída de fragmentos. São doze textos curtíssimos numa miscelânea
de contos, crônicas, poemas em prosa e poemas em versos. Novamente, a epígrafe é de
Guimarães Rosa, com quem a autora dialoga em muitos momentos de sua escrita: “Esses
alvoroços de doçura”. (p. 99)
Cacos para um vitral (1980), narrativa em pessoa, em que a narradora se diferencia
da personagem Maria da Glória, é a representação da vida comum e miúda da personagem,
uma professora, casada com Gabriel, que vai se revelando e se impondo no decorrer de cada
história, cujos temas são caros à autora: a vida no interior e seu cotidiano. A vida de Maria da
Glória vai sendo reconstituída através dos fragmentos de vida e se confunde com a própria
criação literária feita de “retalhos, de cacos”. Explicado através das anotações da personagem:
“um romance é feito das sobras. A poesia é o núcleo. Mas é preciso paciência com os
retalhos, com os cacos”. (p. 65) “[...] retalho de poesia dá excelente prosa.” (p. 102).
Dividida em dois fragmentos, essa obra traz a compreensão de toda a criação de
Adélia, sua prática é uma revelação íntima entre o texto poético e o texto prosaico. Dos
fragmentos (retalhos, sobras, cacos) constrói-se o texto. Um fragmento combinado com outro
fragmento configura uma determinada unidade, bem traduzida através da metáfora do vitral
aludido no título da obra.
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A narrativa varia entre comicidade e seriedade, conseqüência mesma dos registros de
expressões populares, crendices, linguagens, causos e acontecimentos do dia-a-dia. Toda a
construção desse romance, assim como o desenvolvimento da literatura de Adélia Prado, tem
o evento cotidiano e o desdobramento de seus muitos núcleos constitutivos como integrantes
da construção literária.
O terceiro livro em análise, Filandras (1999), é catalogado como um livro de contos.
São 43 textos ou histórias e cada um recebe um título, todos muito significativos dentro da
temática apresentada, como Uma dor, A irmã da cozinha, Femina, Luz em resistência, Grupo
de oração, Lembranças, Perfeições, Dona doida, O desbunde, De afrodisíacos, A dama
confusa, A caixa preta, Análises, O almoço, Queijos, Antônios, Corpo, O terceiro olho, O
tempo, entre outros.
Podem, certamente, ser lidos separadamente e ganham nova dimensão se lidos como
unidade, por estarem sutilmente interligados por detalhes da narrativa. Nessa espécie de
quebra-cabeça literário, Adélia volta a temas recorrentes: o dia-a-dia previsível e trivial, a
visão e voz femininas, a vida provinciana e a religiosidade, na representação explícita de sua
própria experiência.
Quando a proposta é unir fios, pequenos detalhes revelados que permitem construir a
vida de seus personagens, a autora reafirma a questão da fragmentação: um fragmento que se
une a outro configurando uma unidade. É a partir dessas fragmentações que nasce o texto na
sua inteireza, no seu todo, ainda que do fragmento. A epígrafe desse volume também é de
Guimarães Rosa: “Qualquer amor é um pouquinho de saúde, remédio contra a loucura
Lido em Guimarães Rosa.” (p.5)
Assim como acontece nas obras anteriores, o título Filandras é bastante sugestivo e
adequado à proposta literária da autora. Segundo o dicionário: “Filandras (do lat. Filu, ‘fio’)
1. fios delgados e longos; 2. Ervas marinhas que aderem à carena dos navios; 3. Flocos que
esvoaçam pelo ar e cobrem os vegetais[...]”(AURÉLIO, 1986, p.777) .
São esses fios que interligam as histórias de mulheres simples do interior e seu
cotidiano de amor, desejo, coisas e gentes. O livro é formado a partir da tessitura de histórias
cuja espinha dorsal apóia-se na relação das mulheres com um mundo particularmente
feminino. Nas três obras em estudo, os temas são conseqüentes da observação feminina desse
mundo particular: o mundo doméstico.
O que se tem no texto adeliano é a revelação de algum aspecto da vida anônima, dela
mesma e de seus semelhantes. A narrativa reflete a continuidade da vida, circular e contínua.
“A vida é sem parar, a vida inteira, a vida doida, a mão de pilão socando. Que lufa-lufa nas
50
ruas de Hong-Kong!” (SC, p. 23) São várias histórias, fragmentos de história que acabam por
constituir uma única: as histórias da vida dos que habitam o universo narrativo ou o de
qualquer um de nós.
Adélia volta o seu olhar sobre as pessoas e as coisas, para a vida comum e sua
diferenciação indefinida, que constitui o vivo do sujeito. Aceita como dignas de interesse, de
análise e de registro aquelas práticas ordinárias consideradas insignificantes. “Quero muito
entender o que aconteceu, registrar o que experimentei sem que nada de extraordinário
acontecesse.” (FIL, p.42). É que o cotidiano representa também o lado menos heróico da
nossa existência. Uma vasta gama de experiências que servem para situar o indivíduo em
meio às suas coordenadas existenciais. Existir que se realiza ao rés-do-chão e cujo cotidiano é
o espaço próprio das vivências sem fronteiras, porque aqui ou em outro lugar no mundo o
cotidiano é igual.
Será que em Portugal eles sabem que passar cera no barbante faz ele ficar forte?Será
que alguém nos estados Unidos já pôs no socador: sal, alho, pimenta-de-bode, salsa,
um grão de pimenta- do- reino e afogou feijão com este tempero? Será? Glória
assuntava este tipo de coisa. Deslumbrou-se quando a estudante americana esteve
em sua casa e esqueceu no banheiro um sutiã de alça repregada com linha de cor.
Ela pensou: na América do Norte, o mesmo que no Brasil! Isso lhe confirmava o
instinto: a humanidade formava um gado só.Ah! Que delícia! Somos farinha do
mesmo saco. (CV, p. 87)
As protagonistas são sempre mulheres e enfrentam o cotidiano: a casa, os filhos, o
marido, o envelhecimento, enfim, a domesticidade e o dilaceramento interior, buscando nos
mundos externo e interno ajuntar os pedaços, os fragmentos, o direito à multiplicidade. Nesse
espaço, o doméstico, no qual sempre coube um lugar às mulheres, usualmente, não se
atenção às suas ocupações cotidianas. É preciso que “essas coisas” sejam feitas, portanto
alguém tem que fazê-las e de preferência será uma mulher: [...] sobrava para mim, mocinha,
a tarefa de, tal qual minha mãe, ser boa por amor de Deus.” (FIL, p.8)
Achou sua irmã Silvia torcendo as fraldas no pequeno quintal, conversando com
Raul. No fogão tinha arroz e bola de carne que Glória comeu com gosto. Era bom na
casa de Sílvia. Suas sobrinhas tão pequenas e diligentes, ajudando a mãe como gente
grande [...] (CV, p. 22)
A mulher é vista como a encarregada principal na estruturação da vida nuclear, na
vida doméstica, na reprodução e nos cuidados aos bebês e crianças. Segundo Massi (1992,
p. 148),
51
a menina encontra a identidade feminina na interiorização gradual do modo de ser
familiar e da função da mãe na vida cotidiana; ela apreende o que é ser uma mulher
no contexto de sua identificação secundária com outros modelos femininos (mãe,
irmã mais velha, amigas, professoras, etc.).
As meninas, desde muito cedo, por terem sido cuidadas por uma pessoa do mesmo
gênero, interiorizam como a mãe os significados relativos a esse gênero, como fantasias e
auto-imagens inconscientes sobre sua feminilidade. A identificação da menina é contínua
com a mãe e o que define sua feminilidade é o apego a essa mãe; por outro lado, a identidade
masculina vê-se ameaçada pela intimidade e pelos relacionamentos emocionais e pessoais. A
personalidade masculina é definida em termos da negação da feminilidade. (1992, p. 147,
148)
[...] Glória, Maria e Ritinha sofriam o peso da cozinha e da casa enquanto Gabriel e
os meninos continuavam sendo homens.Culpa minha, pensou Glória, que não
conseguia educá-los bem. Odiava nos serviços domésticos a excomunhão
automática dos machos, o privilégio. As mulheres eram injustiçadas. Por isso
enraivecia-se, bruta, megera: Francisco queime os papéis do banheiro. Mãe, pelo
amor de deus, pode falar todas as palavras certinhas, mas não fala ‘papéis’ não. O
menino obedecia com raiva, a tromba virada, humilhado por fazer serviço de
menina. (CV, p.29)
Esse ‘serviço de menina’ agrupa atividades relacionadas ao papel da mulher e vai
sendo vivenciado e internalizado desde cedo pelas crianças, gerando e reproduzindo em nível
ideológico os papéis sociais. O cotidiano dos homens depende da organização, e dos cuidados
da tarefa feminina, e a mulher acredita ser sua tarefa, sem a qual se sente inútil.
Furioso, Gabriel tirava a roupa suja do cesto atrás das meias de futebol. Achou-as
sujas e molhadas. Olha aqui, dizia a Glória, com as meias e um par de tênis na mão,
não agüento de raiva, aposto que foi o João, precisa de cadarço, ele desveste um
santo pra vestir outro. Você viu se foi ele? disse Glória [...] Toda quinta-feira a
mesma agonia, o abrir e fechar de gavetas,cadê meu isso, meu aquilo, ela tranqüila,
vendo televisão. Envergonhou-se, sem préstimo, ordinária. (CV, p.32,33)
O relacionamento com a figura materna produz diferenças nas experiências de relação
de meninas e meninos e isso explica parte significativa das diferenças de personalidades
masculina e feminina.
Um dia Glória surpreende-se enormemente. Ele levantou cedo, arrumou a cozinha
da véspera, forrou a mesa, fez o café, bebeu e foi para a escola. Milagre dos
milagres, Francisco machinho machista, sem que ninguém mandasse, lavou os
pratos feito um homem que não deve explicações a ninguém. Glória se sentiu como
um cavalo cansado ganhando um torrão de açúcar e dançou na cozinha. (CV, p. 29)
52
Vale citar aqui Freud, com a sua teoria sobre as mulheres que invejam o pênis,
trazendo-lhes o sentimento da falta. Adélia aborda tal desejo e, de forma bem humorada e
‘transgressora’, faz referência ao falocentrismo (contendo idéias patriarcais, evidentemente do
poder do homem sobre as mulheres): “Em pequena eu quis muitas vezes ser menino, por
causa da molinha que eu não tinha, achava poderoso e nunca, em nada, eu quis ficar por baixo
de ninguém, por baixo que eu digo é inferior.” (SC, p.81)
E refere-se, também, diretamente, ao aspecto físico masculino e seu funcionamento:
“Mistério maior eu acho no sexo masculino é a sobra mesmo, capaz de propulsão desde a
mais tenra vida, procurando o quê? [...]” (SC, p. 81). Para a identidade sexual, a concepção
anatômica sempre teve peso. Entretanto hoje se sabe que a estrutura cultural, a ideologia
interiorizada, as crenças sócias e a força da fantasia e do simbólico têm importância na
constituição da identidade de gênero.
É um assunto difícil de deslindar, esse de macho e fêmea. É mais difícil entender
coisa do que alma.[...] Machismo existe, aí sorrateiro, enfiado em tudo quanto é
canto.Se você quiser fazer um comentário obsceno.Que faça.Quero é desabafar.
Tou cheia de agüentar o papa, o presidente da República, o ministro, o prefeito, o
magnífico reitor, o açougueiro, o padeiro, o padre, o meu pai, o meu avô, o meu
irmão, o meu filho, o pai do meu filho, o anjo Gabriel, Satanás, tudo homem. Zuzu
barbeiro dizia: minha sogra é mulher, minha mulher é mulher, minha filha mulher é
mulher. Na casa dele só tinha ele de homem. Mas Zuzu era muito engraçado, falava
pra gente rir. Eu falo é sério e falo com crédito porque desde pequenina eu gosto
muito de homem. Nunca achei graça em brinquedo de menina, não vou em chá
de amizade, clube onde homem não entra. Penso que estou certa porque no livro da
Bíblia,logo na primeira página, está escrito: Deus fez o homem e o fez macho e
fêmea” e isso quer dizer que somos iguaizinhos no valor. A boa diferença é pra
obrigação e amenidades. E olha, num tempo de escravidão como era aquele, tinha
que ser muito inspirado mesmo pra escrever uma coisa bacana dessas. Quase dois
mil anos, e muita gente por não entendeu. Porém concordo: tem que ser muito
homem pra entender. Por falar em homem, tem algum por aqui? (SC, p.82)
É, pois, com humor que a narradora termina sua reflexão sobre o feminino e o
masculino, e a brincadeira está em acordo com o tulo dado ao texto reafirmando que ‘soltar
os cachorros’ é poder expressar suas idéias e sentimentos sem censura.
Como foi abordado, não é o sexo anatômico que determina o desejo sexual,
tampouco é esse que origem ao comportamento sexual. Vale reforçar a idéia de que a
identidade de gênero (masculinidade e a feminilidade) não é determinada essencialmente
pelas diferenças anatômicas ou biológicas. Com relação a esse tema, a narradora em questão
usa o discurso religioso contra ele próprio: se todos os homens são iguais e a lei de Jesus é
para todos, por que a ‘excomunhão’ de alguns?
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No caderno: e os homossexuais? Daqui muitos anos saberei. Mãe e Mestra, nossa
Igreja deve tomar a todos, a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e e todos os homens, “o jugo
suave e o fardo leve”. O papa lança novo anátema sobre eles. Que será feito do
moço que dizia em lágrimas: quero seguir a lei de Jesus e não consigo, tenho
vontade de me suicidar. Qual é a lei de Jesus? “Desate-o e deixe-o ir”. “Vinde a mim
todos os que vos achais sobrecarregados”. Não sei o que fazer com o rapaz
delicado[...] (CV, p.82)
Desse modo, a sexualidade e a relação entre homem e mulher são elementos
recorrentes nesse universo da vida feminina e são retomados, de certo modo, nos textos
adelianos, nos quais a autora, com sensibilidade, retrata uma parcela da vida íntima das
mulheres.
Sexo é assim: a gente viaja de carro com um homem estranho, ele esbarra o cotovelo
na gente, sem intenção, mas com complacência, igual deus permitindo o mal no
mundo. Errei dizendo complacência, porque Deus não se compraz com o mal. Se
assim for, melhor é o Bezerro de Ouro que assiste e gosta de danças e comeria e
sexo à la vontê, o qual continuo explicando: a gente vai fechar a janela de noite pra
dormir e o céu todo estrelado, o Cruzeiro do Sul, limpinho, então aquela
vontade no corpo de passear no espaço, de mãos dadas com um sexo oposto.(SC,
p.84)
Essa fala, por exemplo, revela que as mulheres sentem-se constrangidas de revelarem
algumas das sensações básicas do relacionamento afetivo. E usam, como estratégia
compensatória para o desejo reprimido, o sonho.
Ela sonhava muito e sonhos como aqueles hidratavam sua vida, perto do que
suspeitava ser a bem aventurança, o sentir dos eleitos do céu. Não houvera sexo no
sonho. O moço estava próximo e fremia, olhava-a mais que com os olhos. Não
houvera sexo, mas um eriçar de mais profundas coisas, imperturbavelmente coisas
de homem e de mulher. (CV, p. 14)
Outra reflexão, também presente no discurso narrativo, refere-se à mudança de
paradigma. “Há pessoas cujos corpos nos apelam. No futuro se poderá fazer sem escândalo o
que desejei fazer agora, pensou ela, tocar o homem, reter sua mão, à toa, porque é bom,
porque o sangue gosta. Dentro da igreja ou não.” (CV, p. 16)
Afora o uso da linguagem: “Com referência a encontros sexuais relação é uma palavra
feia. Dizer ‘ato’ é fresco como dizer membro, parece médico piedoso falando pra curso de
noivos. As palavras do povo, sim, são engraçadas e honestas.” (CV, p.55)
Percebe-se certa confusão na procura pelo prazer com o proibido, com o medo de
tornar público aquilo que é considerado proibido e errado. Freqüentemente o feminino
sucumbe às imposições do bom comportamento social que ainda entende como problemáticas
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as diferenças entre sexo para reprodução e prazer sexual. Por isso, descrever as relações
afetivas e sexuais implica compartilhar com outros sentimentos e sensações que, no curso da
história, foram cerceados ou omitidos. Segundo Bataille (1987), o prazer é aquilo sobre o que
é difícil falar. O prazer, principalmente o dos corpos, é definido pelo segredo. Não pode ser
público. Tal experiência prazerosa situa-se fora da vida de todos os dias, permanece separada
da comunicação que se faz das emoções. Trata-se de tabu. “[...] por que nós, sendo homens e
elas, sendo mulheres, pode dar ocasião não mesmo da tentação, mas do povo incomodar”.
(CV, p.42) Sempre há transgressões, o que faz com que nada seja completamente tabu.
“Exatamente o que era me escapava, podia ser coisa de homem e mulher. Felicitei-me por
estar viva e participar de segredos tão excitantes.” (FIL, p.51) Mas, apesar de tudo, o prazer
fica sempre como algo de exterior, numa separação do mundo em que se está. Assim, a
experiência prazerosa leva ao silêncio. E o que se tem, no plano do prazer, é a linguagem do
prazer, que é negação da proibição.
Maria Luzia perguntou sem rodeios: orgasmo é o gostoso, não é mesmo? É, disse
Glória, estudando a cara dela, e riu. É sério, ela disse, toda vida tive vontade de
conversar esse troço com você. sabe, o Adriano é bom demais, paciencioso
comigo, mas neste tipo de assunto ele, ele, ele sabe aquilo que ele sabe. Pra
encurtar a conversa, desde que a gente casou, o negócio dele é dum jeitinho só. Eu
morro de aflição! O que você vai pensar de mim, Glória? Vou pensar nada, Luzia,
a gente é amiga e prima, pode contar comigo. Então, Maria Luzia continuou: eu não
sinto nada. Nada, nadinha mesmo? Nadinha. Bom que tá. Uma vez a gente tinha
vindo do aniversário da Clotilde, ele meio tonto, ele ai, meu Deus, que treco difícil
de falar, ele encostou o dedo, não sei se foi por acaso, se foi sem querer, naquele
lugarzinho da gente, o clítoris. Glória deu uma gargalhada, Maria Luzia se
envermelhou toda. Como é que pode, disse Glória, uma marmanja dessa falar
clítoris. É clitóris, Luzia, clitóris. Ah, a outra disse recuperando-se, você sabe o que
é, não sabe? Pois é, quando ele esbarrou a gente tava deitado, né? Eu também
aproveitei que tava meio tomada e sujiguei a mão dele no cli - tó – ris. Foi o melhor
dia. Mas depois passou. Acho que ele tem vergonha de repetir a proeza. Eu também
tenho. Ah, se eu fosse homem! Criei coragem de te contar isso porque eu achava
que mulher que não sentisse o negócio na vagina era anormal e errada [...] (CV,
p.45)
Seguindo essa linha de pensamento, através da literatura, Adélia traduz o paradoxo de,
ao contrário do que vê o cristianismo, não considerar o prazer humano como excrescência. Ao
contrário, aborda a vida a partir daí, da experiência marcada pelo prazer. O prazer de viver.
Procura superar a acentuação do prazer como pecado e a conseqüente culpa.
Glória pensou com delícia. Ela bem sabia o que Lúcio apreciava nela, o mesmo que
Luís, Albano, o mesmo que Alexandre. [...] Glória encabulada[...]Ela sentindo a
pressão no seu pulso e a enorme perturbação, o começo do que foi delícia e grande
sofrimento.[...] Foi um tempo difícil adoeceu e culpou-se, culpou-se por causa de
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Gabriel, dos meninos. Que bobagem, Refletia agora. Se fosse hoje saberia aproveitar
sem dor: um homem e uma mulher. (CV, p.29, 30)
Percebe-se, assim, que sua narrativa varia entre a elaboração literária pretensamente
sutil e o relato mais ‘nu’, que usa descrições mais naturais: “Anselmo Vargas beijava Sônia
Margot na novela das sete. O menininho da Matilde pediu: mãe, muda o programa. Meu
pintinho fica ruim.” (CV, p. 96) E outro mais realista: “Diz ele que foi uma coisa tão
esquisita – esquisita, não –, tão encantada que ele ficou de pau duro”. (FIL, p. 54)
Vale salientar que Em Solte os cachorros, no bloco denominado “Afresco”, podem ser
encontrados cinco textos que retratam a sensualidade e os múltiplos aspectos do amor, a saber
quando a narradora retrata cinco homens, que o particularizados por um nome: Américo
(Uma valsa para dançar), Expedito (Aluno e mestre), Antônio, Francisco e José. Nesses textos
não é negado o fato de que o feminino tem desejos sexuais e de que não se contenta com a
doçura dos lábios do príncipe encantado. Dentro dessa ótica, a narrativa trabalha com a
linguagem simples e busca por uma forma de expressão textual que contemple ao mesmo
tempo poesia e ‘tesão’, revelando desejo e romantismo. Adélia figura o corpo masculino,
numa inversão do preconceito de que a materialidade desejante e a sedução seriam
exclusivamente do masculino; em sua escritura, é também do feminino, é do humano.
Américo, eu te amo, Américo [...] você é um colosso Américo, tem tudo pra me
agradar. [...] Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite [...] (p. 105)
Expedito, tímido, fala às vezes o que não quer: você tem pernas tão bonitas, boas pra
gente bater um papo. Ai, que susto, Expedito paradão. Você bem que quer, hein?
(p.109)
Tuas mãos são lindas mãos de homem, capazes das maravilhas que podem as mãos
dos homens nas mulheres? [...] faz café. Faz silêncio. Faz amor carnal [...] Me toca
pra eu sossegar, que eu loba, obedeço mansa. (p. 115)
Que pretíssimos olhos, hein? [...] Ó Francisco, Francisco, Chico Violinha,
gravetinho de homem incendiado. Faz boneco de neve pra espantar a luxúria?
(p.117)
Por começo quando quero entender a minha paixão. [...] Teu paletó de veludo
cobre teu braço peludo. [...] (p. 119)
O “Êxodo”, por sua vez, apresenta a perspectiva da sexualidade como manifestação da
beleza de Deus. A quebra de qualquer tipo de interdição (do proibido, do pecado, nesse caso)
é saudável, uma vez que concorre para mudar comportamentos e estabelecer novos veis de
relacionamento da mulher com seu próprio corpo e com o outro. Quando se colocam em
xeque os limites do proibido, contribui-se para estabelecer as bases de uma mudança social. O
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aspecto negativo está na mercantilização dos corpos, não na liberdade de ser o que se é.
Fundamental é agir, mostrar, demonstrar, exercer o desejo.
Caminhava sem reprimir as ancas, balançando o devota o que Deus deu que eu
até pensei: coisa bonita é o corpo! A idéia beatífica passou no meu sexo sem me
perturbar nem um pouquinho: ora, eu pensei, foi Deus quem fez a cabeça e o
assento, que bom. (p.101)
É importante ressaltar que as personagens, as mulheres que falam nos textos, revelam
uma multiplicidade de assuntos sob o ponto de vista feminino e ao longo da sua trajetória.
Destituída de qualquer poder social, à mulher restavam os atributos do corpo para capturar
o olhar do outro, do homem, e subjugá-lo ao seu erotismo. Essa era a possibilidade de a
mulher não se submeter ao desejo do homem e da sociedade machista que a restringia ao
espaço privado e controlado pela família.
Isto implica o esforço natural e necessário de conseguir e manter o amor: um
decotezinho mais brejeiro, batom Anaconda de brilho, um puxadinho de nada a
lápis crayon no cantinho dos olhos, fazer aquela cara que eu sei fazer, pondo
minha alma todinha num certo modo de baixar e levantar os olhos, primeiro
oblíquo, depois direto, porque eu gosto em particular da humanidade. É muito
divertido comerciar com os homens, estimulante como nenhuma outra coisa é. Eles
ficam encantadores, querendo pegar a gente em falso. Isso o homem comum.
Imagine os santos! Fico em estado de loucura, tentação tentada. (SC, p.51)
Como eu ia dizendo, homem é fraco e mulher é forte, fortíssima. Move os dedos do
pé, ele diz: meu amor. Move os lábios, ele diz: casa comigo. Move o que está
fadado a mover-se e ele diz: pede o que quiseres. Se a gente for doida, pede a
cabeça de João Batista numa bandeja de prata. Se for santa, não pede nada e vai
transformando o mundo devagarinho, passando trator, destocando, arando,
semeando. (SC, p. 86)
A revolução pode acontecer sutilmente, de forma paciente, prudente e obscura. É
assim com Adélia, que não se conforma em ser a mulher submissa do cânone patriarcalista,
nem a militante do anticânone feminista. “Eu acredito que o lugar do feminino é o segundo
mesmo. O feminino é que é a possibilidade”. (CDL, p.38)
Os homens são fragmentos, muito mais que as mulheres, porque são inteiros em
suas frações e contornáveis. Qualquer mulher aprende mais depressa. Homem ou faz
discurso, ou é ministro, ou chefe de departamento, ou donos. Mulher faz tudo.
(CV, p. 28)
Analisando por esse prisma, as mulheres aceitam o sofrimento, o “carregar a cruz”
como parte integrante de suas vidas, mas têm consciência da dimensão do feminino: Eu
tenho a Via - Crucis e a Via Láctea.” (SC, p.10). Essas mulheres são personagens focadas, na
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prosa adeliana, como seres comuns, cuja vida cotidiana passa invisível’: “A banalidade, o
mais absoluto anonimato, comprar quiabo na feira com as pernas cheias de varizes, ninguém
me olhando nem uma primeira vez”. (SC, p.57)
A narradora/personagem está falando de seu anonimato como escritora. Ao mesmo
tempo, torna-se explícita a aparente ‘desimportância’ das ações femininas que compõem o
dia-a-dia.
A mulher com varizes compra quiabos na feira. Ninguém vê. A mulher põe seu
vestido de malha sintética e vai dar aula de Moral e Cívica. Ninguém vê. Recorta do
jornal cheia de alegria a criticazinha do seu livro e vai pregar no caderninho de
recortes. Ninguém vê [...] (SC, p.60)
foi constatado que a vida cotidiana da mulher é quase sobreposta à ordem do
privado. E, ao enfrentar o cotidiano, as mulheres, vivendo diferentes papéis, têm que lidar
com a casa, os filhos, o marido, a comida, a própria sexualidade, os conhecimentos populares,
a religião, o corpo, o envelhecimento... tudo que faz parte de ser mulher!
As mulheres, personagens adelianas, contam sua vida concreta, cotidiana, mas contam
também o que está no imaginário.
Natureza de mulher é de obedecer, de admirar, de servir, natureza de formiga, de
abelha operária e gata no borralho, senão, meu Deus, não sobra espaço pra ela virar
Cinderela. Até a princesa da Inglaterra, que deus a tenha, arranjou o que fazer nas
creches do mundo, não agüentava mais. (FIL, p. 64)
Logicamente, o papel da mulher não deveria estar vinculado ao serviço doméstico,
mas é assim que é compreendido pelas mulheres: como serviço de mulher ou biologicamente
determinado às mulheres. Essas personagens encenam diversas figuras femininas socialmente
anônimas que vivem um cotidiano humilde e, quase, insignificante.
É verdade que sou uma mulher inscrita no seu ciclo. Mas dura demais. Quero é
neste dia mesmo, prenhe do meu mênstruo não vazado, escutar dos meus: esta é
minha mãe; não agora, minha mulher vai fazer um café. Sorrindo, servindo-os
como a pombos, com arrulhos, milho e água fresca, andando no meio do revoar
deles, sem pisar nenhum; inocente do pensamento que vou gerar nos homens: é uma
mulher que se pode contar com ela à noite. Assim, riquíssima e útil, a alta-tensão,
por fim domesticada. (SC, p.17)
Enfim, sempre coube à mulher não apenas ser uma dona-de-casa exemplar, mas
também tornar agradável a vida do marido e filhos (“dos meus”) com sua assistência, seus
cuidados e seu interesse. A domesticidade é conseqüência do domínio masculino; é baseada
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essencialmente na institucionalização e na internalização de normas sancionadas pela
coletividade. A esfera privada ocupada pelo tipo ideal feminino (vida serena, doméstica e
controlada pelo patriarcado) seria, assim, o recosto para o homem, que age na esfera pública.
“Não faço melhor porque tenho de dar aula de Moral e Cívica, cozinhar, comparar produtos
de beleza e fazer exame ginecológico: fora as férias, quando aproveito pra me tornar objeto de
cama e mesa, me distrair um pouco. “(SC, p. 86
)
No entanto, as mulheres testemunham que a racionalidade patriarcal fugiu ao controle
do homem e do tanto que ele, agora, depende de um bem-estar doméstico propiciado pela
mulher. Mostram-se como “pedregosa” e “caçadeira de chifre em cabeça de cavalo” por
romantizarem o papel feminino, em vez de simplesmente aceitarem a sina, as tarefas
cotidianas de mulher, mãe, esposa e dona de casa:
[...] ri pra dentro pensando que eu sou fácil. Não sou. Eu sou muito pedregosa,
caçadeira de chifre na cabeça de cavalo, caçadeira de indaca. Em vez de casar e
cuidar dos filhos, pôr espinafre moído na sopa deles pra eles ficarem fortes, pregar
com linha dupla os botões na camisa do meu homem, eu fico teologando em latim,
fico querendo um Romeu constantemente na minha janela, falando e tocando violão
pra mim como se eu fosse a única mulher desta terra e a mais bonita, sem a qual
homem algum pode viver. Ó meu Deus, no fundo é isso mesmo que eu quero, é
por isso que tantas vezes uso seu santo nome, em socorro do meu humano amor.
(SC, p.51)
A experiência do cotidiano de uma mulher é multidimensional e contém uma miríade
de facetas como um caleidoscópio, sempre mutante. São muitos retratos de mulheres:
Gosto de passar brilho nos lábios e levantar a sobrancelha com uma escovinha. [...]
Não sou tão anacrônica como creio e gostaria. Tenho um gravador de boa marca e,
quando ninguém está vendo, ponho fita de rock e ensaio aqueles galeios juvenis,
estralando os dedos, fazendo a cara própria de nem vem que não tem’, que toda
bobice juvenil sabe fazer. Ali, não perdi a mola das articulações, ainda dobro o
corpo sem gemer, ah, isso dobro mesmo (SC, p. 49)
A Soninha chega a qualquer hora, resolvi ter paciência com ela, que venha e encha
quantas latas quiser de pão de queijo, cada um faz o que sabe, não é mesmo?
Continuarei a mulher que sempre fui, mas de um jeito, como direi, salvífico,
oferecendo ao homem a margem suportável de perigo, mistério e sofrimento. (FIl,
p.79, 80)
A freira de olhos baixos esperava o ônibus, sua roupa semicanônica, nem curta nem
comprida, bege-e-branca, estúrdio véu na cabeça [...] nada combinava com nada. A
boca da irmã falando trejeitava ao pornográfico. Seria ela um demônio fantasiado?
(CV, p. 26)
Cleonir não pergunta nada, Cleonir faz, faz, sem parar. Gilcéria tem curso superior
mas é uma boba arrematada. Maurina é chata. Hilária foi agraciada com o milagre
de desaparecer o câncer no ovário e saiu do prodígio como entrou, ingênua,
simplória, comilona, alegre com disco, piquenique, novela (CV, p.34)
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[...] se todo mundo faz uma discreta abertura, o que ela faz mesmo é um rasgão na
saia, da cintura até no pé; é assim, feito nós, com marido, filho, responsabilidade de
casa! Minha vingança é que todo mundo sofre. Coitada, apanhou um verniz porque
trabalha em butique. É chegar em casa, acabou-se a princesa, é umbigo no fogão
feito eu, ô tristeza esse mundo. (CV, p. 36)
As mulheres da roça eram sulcadas, no entanto... aquela femeazinha seca que vendia
na porta legumes e colcha de tear era uma assim, marcada de sol, vincada, abria um
pouco a boca quando escutava, o queixo avançado, meio prognata, e aquele jeito era
de mulher querendo o que só os homens têm. Uma comadrezinha com o sexo
palpitante, aquela doninha sem cosméticos. Por decreto nenhum o homem dela
aceitava ficar sem ela se eu tivesse ficado na roça ia ser a rainha do milharal, Glória
pensou. (CV, p. 59)
Exigia distância com os empregados, a piteirona na boca, toda cheia. Quem?[...] A
chefona. Eu tinha que ficar interpretada, então eu entro no escritório, com todo o
respeito para falar com a mulher, e no meio da minha fala, provando que não tava
me ouvindo, a peruzona rosna no maior pouco-caso: a minha capa aí... (CV, p. 59,
60)
Dulce não sabe prender os namorados. Agrada demais, se enfeita e eles se vão. E
não há como explicar a ela o jeito de segurar as pessoas. (CV, p. 61)
Tais dimensões do cotidiano feminino não têm a mesma validação das
tradicionalmente dominadas pelos homens nos campos do intelecto e da palavra escrita.
O gerar, dar à luz e o cuidar. Cuidar de bebês e crianças, orientar filhos adolescentes,
cuidar dos pais na velhice e ser companheira do marido durante toda a vida. A maternidade,
hoje aparentemente opcional, constitui ainda o componente central, definidor da identidade
feminina. A figura da mulher está vinculada de forma inevitável à função de mãe.
Deixam os coitadinhos dos inocentes ao deus-dará, não tocam a mão em vara, nem
correia, a fim de ser moderninhos, e no fim é essa desorientação, psicologia em cima
dos coitadinhos que não têm culpa de nada. (SC, p. 38)
O que vai ser de nós? Do meu particular destino? Dos filhos que eu gerei? Visito um
por um nas suas camas: Deus te abençoe, Deus te abençoe [...] O que vai ser Pelo
reino deste mundo meu coração suspira, pela saudável beleza, pela longa vida, meus
filhos, rebentos de oliveira, ao redor da minha mesa. (SC, p. 63)
Um dia li uma coisa o bonita sobre preocupação de mãe que nunca esqueci: “uma
mulher fugia de um perigo muito grande carregando seus filhos, dois nos braços,
dois segurando na saia e um maiorzinho atrás. Topou com uma montanha e gritou: Ô
montanha, abre e esconde uma mãe com seus filhos, em nome de Deus.” (FIL,
p. 138).
Gabriel sofrendo, sem saber o que fazer com a fera desgrenhada: não chega perto de
mim não! Rezava como os dementes, arrependida, Gabriel alisando a barriga dela:
João é um nome bonito, você não acha? (CV, p. 84)
A maternidade cria vínculos afetivos e emocionais, o trabalho das mulheres é um
trabalho emocional:
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Assim triste, não! os sobressaltos, sim, as horas turvas da noite, quando se pode
acordar com os passos felinos de alguém seguindo nossa filha, nosso rapaz pelas
esquinas do mundo. Filhos? Melhor é tê-los e encanecer por esculpir suas renovadas
formas. Maria é poço profundo e Rita é uma cascatinha. E Júlio? E Francisco? E
João? [...] A carta de Ritinha, os nomes dos cachorros, a saúde das risadas de João,
diamantezinhos no cascalho da vida que Maria da Glória recolheu. (CV, p. 71)
Uma vez que a figura da mulher foi construída em torno do ideal da maternidade, era a
figura da devoção e doação ao outro, marido e filhos; por outro lado, se assim não fosse, era
identificada aos atributos de egoísmo e infidelidade. A mãe retratada nas obras de Adélia é
uma mulher que também erra e falha, é uma figura humana, não aquela divinizada pela
ideologia masculina:
Foi chegando em casa a menina pediu: mãe, estuda comigo dois capítulos que hoje
tem prova de Ciências. Glória esforçou-se pra mostrar ânimo e companheirismo
sentando-se com a filha e ao mesmo tempo abrindo no colo a revista que a atraía.
(CV, p. 12)
Aquele dia o menino conversava comigo. Ele tinha o hálito carregado. Eu, sua mãe,
não fui capaz de suportar a pequenina miséria de sua garganta inflamada, como
qualquer boa mãe suporta. Que hálito ruim, que hálito ruim o seu. De tal jeito falei
que o menino apunhalado saiu de perto de mim. Foi pro quintal e ficou sentado,
mudo como um homem grande. Um menino de sete anos! Sofri horrivelmente,
querendo gerar ele de novo, pra nunca mais errar. (CV, p.16)
[...] a mamãe nunca foi carinhosa, não lembro dela me dar um beijo. Diferente do
papai, toda vida uma abraçação com a gente! Mas viviam bem, não viviam? Dava
pra agüentar. Piorou tudo quando a Suely nasceu. Mamãe nunca, nunca se
conformou com o defeito da menina. Lembro muito bem ela novinha, mamãe parece
que tinha nojo dela, não acarinhava, como as mães fazem com os nenenzinhos, não
deu leite no peito pra ela, eu percebia tudo. [...] Filho aleijado é pra toda noite a mãe
ir pra beira da cama dele, alisar até ele dormir, ficar com a mão no aleijão do menino
pra passar o amor pra ele. [...] A mamãe nos gerou uma vez. Se não fosse papai,
tínhamos secado todos [...] (CV, p.56,57)
Imagino a Nica, com a casa cheia de moças, toda a vida fazendo pastel pra fora, na
maior compostura, resolveu pôr chifre no Gomes, coitado do panaca. (SC, p. 57)
Embora gerar, dar á luz e cuidar de um filho não esteja necessariamente vinculado ao
casamento, para as mulheres foi imposta essa condição. Dessa forma, encontrar um
companheiro e todo o ritual do casamento fez parte ao longo da história do universo feminino.
Mesmo hoje, quando a mulher tem um trabalho e nem sempre constitui um “lar” como suas
mães, permanece a expectativa de encontrar uma identidade na família.
[...] procurando um lugar, dentro de si, dentro da casa, pra recompor o que vira na
igreja e lhe fizera enorme bem: ajoelhado à sua frente o casal com os filhos. A
mulher saudável, o homem belo, o menino e a menina graciosos, comportando-se
[...] Via esta coisa inacreditável: uma família feliz! (CV, p. 15)
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a Ção [...] ela tem muito medo de casamento, eu não. Marido não batendo na gente,
passar necessidades não me assusta. Não tive é sorte, mas como vodiz, ainda
posso ter. (CV, p.17)
boa Fostina? E a Colacinha, já casou? Casou sem ser moça, o noivo dela falou
você é mulher não é? Então não faço questão. Gosto, caso assim mesmo. Colacinha
prometeu que tomava pra criar um filho de mulher a toa se Deus Nosso Senhor desse
a indulgência de vim regra nela, a regra veio nela, já fitou drávida. (CV, p. 41)
[...] seu casamento novo, ela atirando pires no cimento, Gabriel era culpado de tudo,
da distância a que estava de sua casa, de seu insuportável enjôo, da ruindade que era
casamento, casamento que ia ser um céu, como pensava, de mãos dadas com ele em
frente ao Armazém Paris e não era o céu. (CV, p. 83)
A vida conjugal é fantasiada antes da experiência concreta, e a mulher idealiza a
relação do casal e familiar, iludindo-se quanto às dificuldades a serem enfrentadas no futuro.
Com dez anos de casamento ainda recebia carta dela assim: continuo uma geladeira.
Dez anos? Isso tudo? Não apavora não. Emprestou-lhe Construa seu casamento, ser
feliz é um dever. (CV, p.46)
Você disse que ele é viúvo? A primeira dele não podia com uma vassoura. Eu tenho
saúde de ferro. Mesmo ele ganhando bem e tendo casa de laje, vou continuar
vendendo os produtos até ser nomeada. Faço doce, crochê, enfeite pra festa. Preciso
é de orientação [...] o casamento, se não sair em janeiro, sai em fevereiro ou março,
um desses três. (CV, p. 60,61)
[...] você sabe, marido depois de um certo tempo de casamento fala certas coisas
com a mulher. O seu não fala? (FIL, p. 53)
[...] quarenta anos nas costelas, pensava, filho namorando, achando que Semana
Santa pode ser aproveitada em beira de rio com turma de amigos. Era demais!
Escorregava do programa que traçara pros filhos, antes mesmo do casamento. A
vida castigava sem dó! (SC, p. 11,12)
O criar um espaço sagrado no lar; fazendo o trabalho e as tarefas domésticas.
[...] eu vou subindo pra dar banho nos meninos. (CV, p. 31) [...]
a Cleonir andando atarefada, engordurada de pastéis, nanica e azafamada a caminho
do bar, da cozinha do bar, das contas do bar .(CV, p. 31,32)
Ritinha briga com Maria por causa do serviço da casa, Júlio e Francisco jogam
vareta e escapam aos serviços de menina’. Ritinha me cobra jurisprudência da
situação. Eu tenho preguiça de começar de novo a mesma peleja: homem é igual a
mulher etc. tenho dor nas costas, a empregada nova veio dois dias e desapareceu
(CV, p.85)
Celina cultivava horta, erva-de-cheiro e roseiras, faz biscoitinhos e geme. (CV,
p. 100)
Riqueza pra mim era se eu pudesse não levantar de manhã cedo, com alguém
fazendo as coisas pra mim, soltando o cachorro, pondo o feijão no fogo, coando e
levando o café na cama pra mim. Tem maior conforto não. (SC, p. 29)
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De novo? Aquele desespero de limpar o quintal de cabo a rabo, sentindo raiva outra
vez, desconforto de existir. (FIL, p. 143)
O alimentar e nutrir, amamentar, buscar alimentos, cozinhar, servir à mesa.
Empoleirava-se no sofá, cobria as pernas para amamentar Júlio recém-nascido.
(CV, p. 27)
Glória sentou-se pra almoçar com o marido e os meninos, a fome desvanecida. (CV,
p.30)
A mulher explicava fazendo o gesto: eu estrelo tudo pra ele comer porque sofreu
derrame na espinha e não levanta, tou pedindo pano pra forrar as costas dele. Estrelo
sopa, estrelo feijão e ele toma na mamadeira. A estrela de lata fixada num cabo,
invenção genial para amassar o feijão [...] (CV, p. 62)
E preservar a integridade da mente, do corpo e da “alma”. Além de cuidar dos outros,
cuidar de si mesma, ou seja, preservar a autonomia feminina sobre seu corpo e mente.
Joana telefonou: descobri a salvação pra nós. Dizem que tem um creme, receita de
cirurgião plástico, pra parente não sei de quem, o creme é até pra hemorróida, mas
dizem que pra ruga não tem melhor, agente passa e é quinze anos de menos, minha
filha. tem um cheiro de peixe muito ruim.[...] Glória olhou-se no espelho e
pensou: é bem possível. Uma notícia daquelas deixava-a animadíssima. (p. 12,13)
Foi lavar a cabeça no tanque para ir à festa no Clube Estrela Dalva.( ) A mulher
dizia ao balconista: se não tivesse salto de madeira eu levava, até que do modelo
agradei, mas salto de pau não amolga, dá dor nas pernas. Glória achou muito bonito
o cuidado da mulher com ela mesma, seu capricho em presentear os pés com sapatos
macios. (CV, p. 40)
Cega eu não sou, quando olho pra trás enxergo as demasias, sei o porquê de cada
cicatriz da minha alma circundada. Mas vou sobrevivendo. (SC, p. 46)
É quando me acalmo e vou cuidar do meu serviço. Sobrando tempo, apasso um
alisante na minha cabeça de couve-flor, encomendo um vestido que por este ou
aquele discreto pormenor me faz mais juvenil. Como fazem muitas senhoras
mineiras (SC, p. 75)
Para Adélia, a religiosidade é um dos caminhos para se buscar o significado para o
estar no mundo e o equilíbrio entre as esferas da vida racional, afetiva e social. Essa
religiosidade é expressão da vida cotidiana e se manifesta a partir da consciência para
perceber a divindade das coisas.
Como expressão de que a consciência humana registra sua relação com o inefável, a
religiosidade traz a convicção nos poderes transcendentes. Essa transcendência povoa a
cultura humana. “Eu acho que o homem é religioso como é bípede. Tem Deus no começo e no
fim. No meio fica a gente esperneando.” (SC, p.50) O céu pegando tons de crepúsculo, com
pouco o motorista ligava o rádio na Ave Maria [...] (CV, p. 79)
63
A religiosidade na obra de Adélia, segundo Lucas (1991, p.282), “ora se povoa de
poesia, ora se deixa entrever seu estado agônico de luta. Deus é um referente que se mistura
ao destino dos homens.” O que se pode perceber claramente nos contos Luz em resistência”.
(FIL, p.17-19) e “Ascese e aspirina” (FIL, p.79,80). Na prosa da escritora a religiosidade pode
se expressar:
a) através de conceitos morais e éticos:
“[...] e tem coisa que eu não concordo: mexer com família, usar roupa curta em
terço”. (CV, p. 89)
Desde os começos a Lei do amor está escrita, mas como está simples, ninguém quer.
Interpretam, interpretam e discriminam por cores, por fé, por raça, por sexo. Eu sou
do que deus fez, é mais seguro. (SC, p. 14)
[...] quem apanha flor ou gabiroba verde, quem mata passarinho desagrada Nosso
Senhor que faz tudo para o nosso bem [...] (SC, p. 45)
b) como crenças, valores e práticas:
[...] o mundo é um vale de lágrimas e o nosso lugar é no Reino de Deus (CV, p. 9)
Com ela, a maceração de ser cristã. A adoração do santíssimo não combinava com a
vida formidável fora. Jesus no ostensório tinha um olho severo. Quem não estava
na vida, ela ou Deus? (CV, p. 34)
Como é que se graças a Deus, sem culpa, sem ficar humilhado por seu amor e
bondade? (CV, p.35)
Era verdadeiro: os simples veriam a Deus. (CV, p. 58)
[...] existe Deus! (CV, p.62)
[...] ó, medalhinha de Nossa senhora que carrego no pescoço. (CV, p. 64)
Tirou o credo, a salve rainha, o pai nosso e seguidamente as três cantaram,
acompanhadas de um grupinho, O Senhor é meu pastor, Segura na mão de Deus e
com minha mãe estarei. (CV, p. 95)
Os galos começavam, ele confirmava o amanhecer porque fazia o pelo - sinal [...]
(CV, p.106)
Se não derem um jeito no padre Quevedo explicando tudo à luz da parapsicologia, o
catolicismo no Brasil se esfarela. (SC, p. 9)
Uma tribulação ser espírito reencarnado. Valença que Deus é pai e me conhece [...]
(SC, p. 21)
Passaram na cidade um filme que todo mundo foi ver, até minha mãe quase que foi,
se chamava O lírio do pântano e contava a vida de Santa Maria Goretti [...] (SC, p.
45)
64
[...] Porque sei que devo abrir o evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo e fazer tal
qual. Mas, vigia, é nas pequenas coisas que me estrepo. (SC, p. 49)
Eh, eh, pensei, vai ser difícil e lembrei-a da precisão de praticar uma ‘caridade
discernida’ conforme aprendemos as duas no último curso CAMINHO DA
PERFEIÇÃO. (FIL, p. 33)
Meu pai saía de madrugada para “adorar o santíssimo” [...] (FIL, p.90).
c) como uma expressão da vida:
É porque a vida é boa e um dia todo mundo vai ficar junto no céu, aproveitando.
Cantou entusiasmada: A minha alma tem sede de Deus/Pelo Deus vivo suspira com
ardor/Quando irei ao encontro de Deus/E verei Tua Face,Senhor.[...] Estava alegre
por causa de tudo. (CV, p. 13)
Ao abraço da paz o homem virou-se e pegou na mão de Glória e bem
explicitamente: a paz de Cristo esteja com a senhora. (p.15) Uma paixão
transbordante por tudo que existe. (CV, p. 79)
A crucificação de Jesus está nos supermercados, pra quem queira ver. Quem não
presta atenção está perdendo. (SC, p. 13)
Pobreza é o paiol de Deus, ela quem tempo da gente se enrabichar com passo-
preto, horta de couve e outros pequenos luxos. (SC, p. 14)
Minha alegria foi tanta que escondi um pouco, pra não quebrar harmonia. Como se
faz com a força das águas numa usina, ordenei-a [...] (FIL, p. 25)
É tempo de penitência diz o calendário litúrgico. (FIL, p. 26).
A vida é perfeita. (FIL, p. 124)
As manifestações religiosas, muito comuns no interior do país, retratam a busca pelo
sagrado. Essas manifestações: as romarias a Aparecida do Norte, missa campal, procissões,
festa do santo padroeiro, via sacra, terços, novenas, congregação mariana, presépios,
congados etc. fazem parte da tradição cultural de um povo, porque religião e cultura são
entrelaçadas.
Na entrevista com os senhores romeiros, em Aparecida do Norte, o padre
confundindo ele com fazendeiro de posses, peregrinando com a família. (CV, p. 64)
[...] foi na Aparecida do Norte e quando o ônibus parava ele descia [...] (CV, p. 92)
[...] lendo nas novenas com muita força e entoação, principalmente as partes que
falavam da ignorância e cegueira de todas as seitas. (CV, p. 73)
O Rei do Congado, cara mongol e sem dentes, dança seriamente. Quem dormir com
esse velho não perde a dignidade, é um velho de primeira. Se o Rei morrer na festa,
ele disse, a gente enterra, cumpre a obrigação e volta pro congo. O que não pode
esperar é a dança.(CV, p. 81)
65
Quando inauguraram a luz elétrica na minha casa, meu pai convidou os vizinhos e
serviu acompanhado, depois de rezar o terço, onde se contemplou no segundo
mistério glorioso como Jesus, quarenta dias após sua ressurreição, subiu ao céu na
presença de sua mãe santíssima e dos apóstolos.(SC, p. 11)
E, em especial, como expressão da arte poética:
Sou miserável, mas quando escrevo ‘sou miserável’ a miséria diminui um pouco.
Aquilo que não é eu, ou melhor, aquilo que não sou eu, este aquilo me salva e seu
nome é GRAÇA. Pousada em minha carcaça, fazemos, carniça e ave, um até
formoso conjunto. Se o livro for bom, não tem jeito de parecer tão feio quanto a
vida, pois é o amor quem sustenta a bela narração do horrível. O poeta a tarde
melancólica sobre Santo Antônio do Monte e escreve: paira no ar uma saudade
triste...Nas tetas da suposta tristeza, todos vêm mamar alegria. Artista nenhum gera
sua própria luz, disto sei, e quem me contou não foi o sangue nem a carne, mas o
Santo Espírito do Senhor. (CV, p.101)
Os contos em análise contêm tipos que compõem retratos de mulheres: a jovem, a
esposa, a mãe, a sedutora, a avoada, a racional, a insegura, a velha, a professora... Essas
mulheres, personagens de Adélia, são todas mulheres do mundo. Mesmo sendo mulheres
simples do interior, revelando miudezas do seu cotidiano, são repletas de nuances e fases que
são da natureza do ser-mulher e fundamentais para a existência de seu mundo e de sua
identidade.
Observa-se, contudo, que essa mulher que se (pre) ocupa das miudezas do cotidiano
não está alienada do que acontece além da província. Ela tem consciência de que o mundo é
uma coisa só: “Quem viaja de jato acha que põe o mundo no bolso, ilusão fugaz. Minha mãe
nunca foi em Belo Horizonte e a vida dela foi um microcosmo.” (SC, p. 8) e que todos os
acontecimentos estão ligados, constituindo a história de cada um e de todos: “Esta coisa
horrível aconteceu, muitas coisas horríveis aconteceram e acontecem e vão acontecer e ficar
apenas acontecidas” (SC, p.43)
E se posiciona demonstrando sua indignação diante da realidade. A indignação do
cidadão brasileiro, entre quatro paredes, no âmbito doméstico: “o povo tem medo demais de
falar as coisas, vive marretado de tudo quanto é lado.” (SC, p.68) O povo sabe aquilo que
se revela na sua vida pessoal ou o que é sentido no cotidiano coletivo. E a indignação vem das
dificuldades encontradas nas práticas diárias e nos relacionamentos familiares e sociais.
Eu, se fosse governo, subia num tamborete, batia palma e gritava bem alto pra todo
mundo escutar: cala a boca, gente, escuta aqui. Obrigava todo mundo a ficar quieto
primeiro e explicava o meu programa administrativo. Governo não é Deus, muito
pelo contrário, é o tipo da coisa que precisa de ajuda. Não ia fazer nada sozinho, que
eu não sou bobo. Escolhia pra meus ajudantes gente que tivesse duas coisinhas à-
toa: honestidade e competência. Feito isso, falava pra eles: faz um levantamento do
66
nosso país, aí, isto é, varre a casa primeiro. Depois conferia numa assembléia, que
não ia ter recesso enquanto não me dessem por escrito, quantos meninos sem escola,
quanto pai de família sem emprego, quanto homem e mulher que fosse amarelo,
feio, sem dente, sem saúde, sem alegria. Me aparecesse tudo anotado no papel. Bom,
depois dava um descanso de meia hora pras câmaras alta e baixa e ia de novo
presidir eles arranjarem um meio de acabar com essa tristeza toda, em primeiro lugar
com o problema da comida. Porque vou te dizer: passar fome não é coisa pra gente,
não; passar fome é de uma desumanidade tão exagerada, que pensar bole com a
bile de quem tiver um grão de consciência. Eu não tenho poder nenhum, de política
eu não entendo. (SC, p.77)
A fome é um problema social decorrente da injusta distribuição de riquezas e não falta
de alimentos. O que causa repúdio e indignação. Outros acontecimentos ressaltam que, se, por
um lado, os fatos da vida pública são divulgados pela mídia, por outro, as práticas,
experiências e vivências permanecem no âmbito da vida privada. O ponto de convergência
está onde valores e práticas pessoais confrontam-se com valores políticos que, por sua vez, se
refletem negativamente no âmbito doméstico. Assim, na economia: “[...] ônibus agora é três
cruzeiros. Ó vida cara!” (CV, p.9). Na divisão social, a percepção do contraste e a constante
descoberta da consciência social tornam-se visíveis:
O povo quer emprego, principalmente os pais de família! Não aceitamos esmolas,
quero justiça social! Justiça social! (Fil, p. 110)
[...] aqui o povo ou tem dois carros ou é pobre de quase pedir esmola. Gente normal
feito nós tem pouco. (CV, p. 23)
O social é uma descoberta penosa, a consciência do coletivo, não é Gabriel? Vo
não acha? Não pensa assim também, hein,Gabriel ? Hein? Hein?” (CV, p.28)
Estava longe da inocência de sua infância quando desejava resolver o problema dos
pobres com uma praça bem grande cheia de tanques, bucha e sabão. Agora, bem
sabia o que deveria fazer. (CV, p.37)
Descoberta sobre a qual a personagem Maria da Glória filosofava, ironicamente:
‘o inconsciente coletivoele me parece um personagem[...] ‘o inconsciente coletivo’
como ‘o sobrenatural de Almeida’ que o cronista inventou para justificar o
injustificável, o sem explicação[...] Confio no inconsciente coletivo, simpatizo com
ele, deposito nele inabalável confiança. Descobri-lo me descansou da angústia [...] O
inconsciente coletivo quer um país com rebanhos e lavouras de milho, viola,
namoro, noivado, casamento, dor de parto, panelas fumegantes e o que mais urge pra
todo ser humano, em qualquer canto do mundo, suspirar e dizer: Gracias a la
vida.(CV, p. 72)
A personagem de Cacos para um vitral participa e chega a liderar uma greve de
professoras por melhores salários e condições de trabalho:
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Glória falava às professoras em greve: o governo não poderia substituir uma classe
inteira. Era importantíssimo emperrar a máquina burocrática, não se assinasse o
ponto em hipótese nenhuma. Nosso único dever será permanecer unidas, paradas,
firmes. (CV, p.51)
Menciona uma greve de metalúrgicos em São Paulo ao falar da personagem Cleonir,
sempre envolvida em muitos afazeres: “Cleonir resolvia tudo e parece que não sofria. Não
sabia que os metalúrgicos de São Paulo estavam em greve [...]” (CV, p. 31)
E ainda na participação cidadã do sistema de eleição:
Tenho pra mim que coisa melhor pro povo ainda é eleição. (CV, p. 35)
Mal acabo de votar e quem é que eu acho bem na porta do Grupo? A Ção do Sete
Espadas, no maior descaramento, distribuindo pros eleitores cédulas e mais cédulas.
E fora da lei, da metragem de distância permitida. [...] porque a diaba é do partido
contrário ao nosso. (CV, p. 37)
Como cidadã atenta, observadora dos problemas sociais, a questão da moradia não
passa despercebida pela personagem: “Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no
interior do Estado.” Viajava de ônibus, observava: “Sol Farto e os moradores desses conjuntos
habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias,
aproveitavam para esquentar o couro rodeados de criança e cachorro”. (FIL, p. 119)
E refletia. Tal reflexão leva a uma construção poética:
Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem
empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os
governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes
e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade
discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes.
Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da
estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daquele
sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá,
homem, repara se viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale
nascer. (FIL, p. 121)
A política sempre foi vista vinculada ao espaço público da rua, das leis e das relações
impessoais tratando do indivíduo cidadão, cuja essência está nos valores de autonomia,
independência e igualdade.
Pois nosso país assinou a Carta dos Direitos Humanos, não assinou? Nós somos um
país rico, cujo tamanho abarca a Europa inteira e ainda sobra terra pra leilão. Não é
assim? Então pelo amor de deus, o que que eu posso fazer pra ter sossego, pra
recuperar umas coisinhas que desenvolvimento nenhum nunca vai me dar? (SC,
p. 78)
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Todo indivíduo antes da rua tem como seu referencial o espaço da casa, da família e
das relações pessoalizadas e daí se percebem mais os contrastes, as injustiças e ocorre a
indignação popular frente às tentativas de transformar direitos em privilégios e distinção, ou
seja, poucos usufruindo em prejuízo dos interesses legítimos de outros.
A narradora critica o surgimento de partido político como partido de uma classe,
porque acredita que não é a disputa classista de poderes que vai amenizar as desigualdades
sociais, e reconhece a necessidade das leis:
Ò-vida, meu Deus. Pior é que eu perdi a inocência para os partidos, então quando
falam em ‘os estudantes’ou ‘as donas de casa’ eu saio no meio do discurso, seja
quem for, porque não acredito que a humanidade se salvará por uma de suas classes.
Não quero ser governada por operários enfatuados, deslumbrados por terem a chave
do cofre. Quero que me governe um homem bom e justo, que cuide para que
chegando a noite todo mundo vá dormir cedo e cansado com tanto trabalho que tinha
pra fazer e foi feito. Nem me importa se quem manda é rei vindo em linha direta de
Salomão, mesmo sendo bonito, ou presidente ascendido das classes trabalhadoras.
(SC, p.14)
Lei boa é lei que a gente mesmo inventa, é, porque sem lei não tem graça nenhuma,
seja amor ou trânsito (SC, p. 85)
A autora/narradora assume uma postura crítica em relação à Escola que faz eco ao
contexto político e histórico vigente. A competição, o modo como a aprendizagem formal
pode atrapalhar a criatividade e a vontade de aprender e a situação dos professores:
A escola é boa, Murilo? Nada. E religião? Chatice, a professora isso, desde o
começo do ano: manda abrir o livro e: façam o resumo, façam o resumo. Todo dia
façam o resumo. (CV, p. 23)
O menino detectava por força de sua inocência e sofrimento o mecanismo diabólico
das escolas e escrevia eu não sou industrializado, um inconsciente grito de socorro.
(CV, p.70)
O que é que eu faço, em que língua vou fazer um comício, uma passeata que
irrompa nos gabinetes, nas salas dos professores que tomam cafezinho e arrotam sua
incomensurável boçalidade sobre os meninos desarmados? Fazem política os
desgraçados, brigam horas e horas pela aula a mais, pelo qüinqüênio, o milênio da
arrogância, frustração e azedume. Deus te abençoe, filhinho, vai pra escola,seja
educado e respeitador, honra teu mestre. Mestre? Onde é que tem um mestre no
Brasil pra que eu lhe beije as mãos? não basta ser gente pra encanecer de dor?
Ainda têm as escolas que se aplicar neste esmero de esvaziar dos meninos seu desejo
de bois, grama e pequenos córregos? [...]Ó Senhor presidente, ó senhor ministro,
escuta: o menino foi à escola e escreveu à sua mãe: Estou desesperado. Escute quem
tenha ouvidos: os meninos do Brasil fenecem entre retórica e montanhas de papel e
medo. (SC, p.47, 48)
Meu filho saiu de casa pra estudar na escola Seu Saber é pra Vencer. Escola parece
guerra. (SC, p.61)
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Crítica explícita às propostas educacionais contemporâneas e ditas ‘inovadoras’:
[...] porque não vou salvar a escola do Brasil [...] porque não quero colaborar com
esta mania estúpida das escolas trabalharem o folclore, ‘trabalharem o social’e o que
mais seja, nestas ocasiões fixas como calendários lunares: trabalhinhos, textinhos,
exposiçõezinhas, tudo como num ritual de boas maneiras. (p. 130) Ela periga tomar
bomba. Está aí, vou contribuir para que ela tome bomba, para que volte este
acontecimento formidável da escola antiga a Bomba, e recuperemos todos a
capacidade de sentir medo e respeito. (FIL, p.131)
Para a narradora: “Escola é uma coisa sarnenta, fosse terrorista, raptava era diretor de
escola e por três dias amarrava no formigueiro, se não aceitasse minhas condições.” (SC, p. 7)
Alguém disse que o escritor é como uma antena de seu tempo. Assim é Adélia,
“antenada” para os acontecimentos externos que têm ligação direta com os acontecimentos
cotidianos domésticos que revelam muito da história, da economia, da política e da educação.
Dessa forma, acaba por contribuir com a introdução de mudanças nas relações pessoais e no
cotidiano de forma que, em especial, as mulheres avancem nas ações coletivas, o que as leva a
avançarem também na conquista de novos espaços e novas relações de gênero, processo esse
que tende a mudanças sociais.
Vale ressaltar que essa literatura de voz feminina ganhou destaque na mesma época
em que surgem movimentos sociais com liderança feminina amplos, como o movimento
contra a carestia e o movimento de luta por creches, conforme Blay (1987). Outro lado dessa
mesma questão vem à tona: o aumento do trabalho extradomiciliar mal remunerado da
mulher, a desigual condição na relação entre homens e mulheres no interior da família de
todas as classes sociais, inclusive na classe trabalhadora.
Não se pretende aqui levantar questões relativas aos movimentos sociais liderados por
mulheres ou sua entrada para a política partidária, mas apenas desvelar a inter-relação entre as
experiências vividas nos espaços privado e público que contribuem com um novo paradigma
político partindo do cotidiano doméstico, feminino e privado para uma abertura social: a
saúde, a sexualidade, a violência, a educação, a economia e outros temas voltados à memória
da produção feminina que eclodiram em reivindicações em locais de moradia, associações
comunitárias, clubes de mães etc., e assim ganharam a esfera pública, tornando-se questões
políticas e reivindicações mais amplas de cidadãs. Algumas das grandes mudanças ocorridas
na sociedade brasileira vieram da real situação das mulheres em seu cotidiano.
Na contemporaneidade, tudo é efêmero e descartável. Esse fenômeno é componente
ideológico da mudança dos valores que focam, agora, a cultura do consumismo, a busca
70
constante por prazer e ‘coisas novas’. Mas o prazer é momentâneo e as emoções efêmeras.
Quando tudo se esvai, retorna-se à busca frenética por prazeres, emoções e coisas.
Essa cultura não satisfaz nunca, perpetua desejos em relação ao que não se tem e
desvaloriza o que é velho ou antigo, inclusive as tradições e as pessoas, porque em nossa
sociedade uma ideologia que permeia as relações e a vida social camuflada nessa rejeição
pelo velho. O indivíduo considerado velho é o que produz menos e/ou tem menos tempo para
produzir segundo a lógica capitalista. É, então, abandonado, isolado, relegado, aposentado, se
não tem ou não consegue mais executar tarefas diversas, entre elas as domésticas. Tal
constatação é bastante cruel: “Glória teve vergonha de parecer velha. Parecia-lhe que tal coisa
desabonava os parentes, desabonava o Brasil”. (CV, p.25)
Na cultura ocidental, o sujeito se constitui tentando satisfazer as expectativas e ideais
dos outros (principalmente dos pais), e/ou identificando-se com os valores da sociedade e da
cultura. No mundo contemporâneo, as identificações do sujeito de meia-idade e do velho não
correspondem mais a um nem a outro. Diante disso, o sujeito no processo de envelhecimento
torna-se impotente para superar o modelo vigente que prioriza juventude, o belo, o forte, o
poderoso: “Na loja a balconista havia dito: a senhora precisava mesmo é de artigo de malha?
Senhora! Tenho que botar isso na cabeça. Sou uma senhora. Uma senhora.” (CV, p.61)
Essa visão afeta dramaticamente a mulher de meia-idade. O conto “O tempo” retrata
essa realidade: é uma mulher para quem ser velha e ser mulher retorna ao Eu como fato
irreversível e doloroso e também como marcas temporais do corpo:
Havia chegado à terceira idade e continuava desinteressada de esportes, ginástica,
clubes de dança, enfim, do que cheirasse a lazer para velhos que, divertindo melhora
a saúde e prolonga a vida’. Ignorava teimosamente a ginecologia preventiva e seus
hormônios sintéticos, com a mesma hostilidade que dedicava aos sucos de frutas
artificiais. A linha do maxilar, o pescoço, o ao redor dos olhos e da boca deviam cair
e engelhar a seu tempo e em paz. Até que a filha chegou da rua com as fotografias
da festa e ela levou um susto enorme. Tirou incontinente o seu retrato da proteção de
plástico e rasgou-o com brutalidade. [...] Lembrou-se de seus trinta anos, então
lembrando-se dos quinze e dos quinze dizendo ao diretor da escola: quando eu era
menina...Que brincadeira era aquela?[...] O que é mesmo que a chateava? Onde era
exatamente o ponto que doía tanto? A vergonha. Ser velho dá vergonha e
vergonha porque é impudico, arrazoou fugindo do problema. [...] Deu-se conta de
um sentimento ruim, o de que além de velha pecava pela rejeição de sua velhice e
pecava feio, aumentando-se por conseqüência e castigo em mais velhice e mais
feiúra. [...] a Neusa Helena, sua colega de escola que não via quarenta anos.
estava a mais bonita da sala, redonda e feliz, a cabeça tombada no ombro do
namorado arranjado no Clube da Terceira Idade, recomendando às senhoras que
fizessem como ela, assim, assim e assim. (FIL, p. 125-127)
O tempo é apreendido como linear e irreversível, de efeitos devastadores. “Porque é
engraçado, é engraçadíssimo tecer rede pra pegar tempo. É fora de série de gozado a gente pôr
71
meia grossa e um vestido aberto até na cintura e ir dançar com oitenta anos, cantar com voz
picotada pra tropeçar no final e cair no fosso da orquestra.” (SC, p.74)
Ainda dominado pela cultura machista, a beleza física é o principal atributo de valor
para a mulher no mundo contemporâneo.
No confronto entre o eu ideal e a realidade corporal, a mulher na idade madura
seu corpo mudar dia a dia e não corresponder mais aos padrões da sociedade;
presentificam-se a incompletude e a castração, que quebram as imagens narcísicas
constituintes do eu. Aliadas a isso, surgem, numa avalanche, fantasias de
aniquilamento, ligadas ao eu fortemente desvalorizado. Junto com a beleza física
perdem-se a saúde plena e a extensão infinita do futuro; instala-se inexoravelmente o
sentido de finitude. (JORGE, 1999, p. 18)
Para a mulher que vai envelhecendo, não mais atributos estéticos que a tornem
atraente aos olhos da nossa sociedade. E cada sinal do tempo é percebido e lastimado:
Glória teve um pensamento desagradável: estaria mesmo envelhecendo de modo
desencadeado? Em fotografias recentes aparecia como que com a cabeça obrigada
para a frente como os corcundas. As pintas no dorso das mãos não chamaria sardas,
sem escrúpulos. Freqüentemente dores nas costas. (CV, p. 15)
Na meia idade e na velhice, quando a imagem que o espelho ou a fotografia devolve é
a que prenuncia o aniquilamento e a destruição do ser, a mulher percebe a velhice, a princípio,
em termos de estética. As mulheres experimentam a menopausa e, conseqüentemente, uma
alteração anatômica e conceitual da vida. Elas tentam manter a beleza facial através de
cosméticos, hidratantes e até mesmo cirurgia plástica.
[...] trouxe pra nós duas o Preparado H. O quê? Perguntou Glória. O creme pra
rugas, criatura, já esqueceu? Comprei tubos. (CV, p..39)
Joana telefonou: O que que você tá achando do Preparado H? Ainda não deu pra ver,
disse Glória, e você? Acho que bom pra pele é ter quinze anos. (CV, p.44).
Depois, percebem a velhice em termos da funcionalidade do corpo e da dificuldade de
lidar com as perdas deste e a fratura do eu ideal e das imagens de beleza, onipotência e
perfeição. O conto “Femina” é uma síntese dessas questões femininas que acompanham a
mulher no processo de envelhecer: menopausa, avó tomando conta de netos, depressão,
tintura de cabelos, osteoporose...
A Ivete ligou dizendo-se preocupada com a Ester deprimida demais. Grande
novidade, deprimido na minha família, já sabia. Está amolada diz ela, porque os
filhos não deixam mais os meninos pra ela vigiar, achando que es velha, não
72
agüenta mais o batente. Imagina, ela disse, criei os filhos e não agüento dois netos?
É claro que não está deprimida por causa disto, está é sofrendo daquela doença
ingrata, a de mil sintomas de total gravidade e gravidade nenhuma, porque nem é
doença, é menopausa, um ‘meno male’, afinal. Não tem cura é democrática, nos põe
os olhos levemente aflitos, buscando na ex-colega de escola nossa imagem perdida,
a doente sem doença, como me chamou o doutor. Também arrumei agora uma
cabeça zonza, a idéia exata de ter um parafuso frouxo, ou, no meu caso, apertado
demais, me doem as articulações dos maxilares, como se eu tivesse um cabresto.
Várias vezes por dia fico de boca aberta para ter um descanso. Não acho graça em
quase nada, em dez minutos esgoto qualquer passeio e quero voltar para o meu
quarto. O homeopata será que escarnecendo de mim?– falou: olha dona Afonsa,
nada de hormônios, envelhecer é isto mesmo, a gente vai se mineralizando, chegou a
dizer o que – no pensamento dele é de uma lógica brutal, que a osteoporose é sinal
de progressiva espiritualização. Pior é que concordo: “Tu és pó e em pó te tornarás”,
somos cinza, caminhamos no inverso sentido de uma fênix. Deveras, muita paz
não relutar contra o destino, fatalidades repousam. Em minha casa diziam: velha
saliente: está na hora é de pegar um rosário e ainda caçando indaca de namoro’.[...]
Sabina vai pensar que a estou criticando por tingir o cabelo, não é nada disso, juro
que não.Só tento dizer que a alma não envelhece, mas é quase impossível que me
entenda. (FIL, p.9, 10)
Esse conto também apresenta uma possível saída para todos os impasses e dilemas da
mulher diante do próprio envelhecimento, aqui é a religiosidade como transcendência do eu. É
preciso investir em alguma coisa que ultrapasse a própria vida, a vida eterna, caminho
encontrado na arte e na religião.
As mulheres são julgadas amiúde por sua beleza e juventude, o seu valor como
companheiras pode diminuir à medida que ficam maduras. Neste mundo não espaço para
rugas, cabelos grisalhos e o volume corporal da idade. Uma mulher quanto mais velha é
considerada menos desejável sexualmente que outra mais jovem. No conto “O desbunde”,
Oldalisa, personagem que encarnava a mulher ‘boa’, de corpo atraente e formas esculturais,
volta à cena alguns anos depois viúva e avó, e assim diz a narradora: “Ter encontrado a
Oldalisa expropriada de seu dote mais tentador deixou Teodoro bem filosofante sobre as
agruras do corpo.” (FIL, p. 52)
A insatisfação com o corpo é vista pela via estética, pela aparência física e também
pela saúde. “Meu braço dói, deve ser reumatismo. Será que fico velha sem fazer aquele
vestido?” (SC, p.83). A magreza e a beleza são como veículo, um passaporte, uma garantia de
aceitação e ascensão social, garantia fantasiosa e falsa. As mulheres continuam a ser
estimuladas a corresponder à ditadura dos desejos de outrem e não aos delas próprias. Sentir-
se velha é sentir-se mal, é sentir-se humilhada. Fico preocupada com a velhice, porque velha
glutona ninguém agüenta, eu principalmente. Choro muito de humilhação.” (SC, p. 21)
Os processos de significação e geração de sentidos que permeiam o envelhecimento
das mulheres evidenciam atitudes e comportamentos de quem a velhice como problema
social, uma doença e, como estereótipo, ser a mulher velha dependente e improdutiva. Isto é,
73
quando a combinação de gênero e idade pode ter efeitos prejudiciais na sua qualidade de vida.
“Este mês completei setenta. [...] Fui sentar neste sofá baixo, quem disse que me levanto
agora? Encaranguei assim foi de reumatismo, minha filha, e tombo levei foi em frente à
funerária do Fernando[...].” (CV, p.90) Existe doença pior, a dona Eunice do Clécio,
coitadinha de arteriosclerose, esquecida de tudo.” (CV, p. 90)
O velho, quando deixa de ter um papel ativo na sociedade, passa a ser a memória da
família e do grupo social. No caso de dona Eunice, até esse lugar a doença lhe tirou. A
rememoração como experiência à qual o sujeito imprimiu suas marcas e sensações,
diferentemente dos outros, traz também os sofrimentos. A lembrança nem sempre é agradável
e traz benefícios.
Diante do envelhecimento, o sujeito muitas vezes não se reconhece como imagem. Na
meia idade e na velhice, o espelho devolve uma imagem ligada à deteriorização, que
prenuncia o aniquilamento do ser. O corpo físico, que é destino de prazer, de angústia e de
morte, assim o é em função da dualidade corpo-alma. O corpo se torna essa “realidade” e
assim existe porque está fadado à morte, à destruição total do ser.
Se isto me livrasse de ficar triste por estar envelhecendo[...] No batente mesmo, na
dura realidade, ficar velha me dá muita jeriza, vontade de parar com tudo e ficar
assistindo na pirraça.[...] Tem hora que parece que nasci com este corpo duro[...]
Parece que sou sempre assim, advindo, abvoltando nessa sapiencial idade
conselheira? Eu quero descobrir o que é que me incomoda tanto, como se tivesse a
anágua aparecendo. Os achaques? O pardo e o branco que me visitam e cada dia
melhor se abancam na minha pele, córnea e cabelos? O lugar no ônibus cedido, a
parte macia do frango: um grão de imoralidade aí. Danem-se tudo e todos que se
acercarem com um olho condescendente, outro sorriso, pra me pedir opinião devido
a eu estar ficando longeva. Envelheço feio, diferente de companheira minha a quem
admiro e invejo. Ela,... digna esposa e mãe, breve futura sogra e avó. Eu não, vez em
quando perco a capacidade de figurar exato minha imagem e cometo as
sandices...(SC, p.74)
A angústia causada pela degeneração sistemática do corpo e o envelhecimento que
muda o lugar social do sujeito são fatos que retornam ao Eu como consciência do irreversível
e da finitude, causa de dor enorme, explícita num desabafo da personagem Glória:
Somos seres destinados a deteriorização, ao fim: Nada não é continuado, ficar
velho é que não pára. (CV, p. 36)
Glória chegou da rua e se estirou na cama: não agüento ficar velha, Gabriel, não
agüento. Ele disse: deixa eu cortar sua unha, todo mundo fica velho. Mas eu fico
pior. [...] Mais alguns anos, não existiremos mais. (CV, p. 61)
Hoje, faço coisas incríveis. Também estou muito velha e aprendi a arriscar. (SC,
p. 45)
74
Mas o envelhecimento é um processo muito diferenciado, revela-se uma experiência
angustiante e penosa, por um lado, e enriquecedora e plena de significações por outro (quando
o eu procura o reconhecimento de sua beleza para além da corporeidade, como outra
possibilidade estética para a expressão de seu estado de velhice, revelando-se como
maturidade, experiência, equilíbrio):
Com quarenta anos a amiga ensinava a menininha de vinte o jeito de manter um
homem iluminado atrás de sua faísca. (CV, p. 61,62)
Glória preparou a viagem reparando que se espaçavam cada vez mais os círculos de
angústia.[...] mas Glória tinha certeza, era a maturidade, o equilíbrio enfim. (CV,
p. 84)
Hoje, faço coisas incríveis. Também estou muito velha e aprendi a arriscar. (SC,
p. 45)
Em Solte os cachorros a narradora é uma mulher vivendo a crise da chegada da
velhice: “Quarenta anos é demais para uma mulher.” (p.7), uma mulher que vive a vida
anônima e cotidiana de uma cidade pequena entre alegrias e tristezas. [...] a vida é uma
maravilha, não fosse a velhice. Juventude de espírito eu não quero, acho muito ridícula a alma
fazendo trejeitos. viu mangueira velha? É assim que eu quero.” (p.9), “Tou ficando velha,
tou ficando nervosa, aflita com tanta ganância dos grandes e dos miúdos, com tanta perda de
tempo e de vaidade.” (p.14)
Em Cacos para um vitral é forte o tom melancólico que vem do sentimento de
envelhecer, uma trajetória no sentido da morte. Interessante observar que o livro inicia e
termina com a morte.
O envelhecimento é a proximidade com a morte. E, segundo Certeau (2004), a morte
não se nomeia. Escreve-se no discurso da vida sem que seja possível atribuir-lhe um lugar
particular. É condição de possibilidade da evolução que os indivíduos percam o seu lugar, é a
lei da espécie. “Do ponto de vista biológico, a morte é naturalíssima.” (SC, p. 9)
A morte designa o fim absoluto de qualquer coisa de positivo: um ser humano, um
animal, uma planta, uma amizade, uma aliança, a paz, uma época. Não se fala na
morte de uma tempestade, mas na morte de um dia belo. Enquanto mbolo, a morte
é o aspecto perecível e destrutível da existência. Ela indica aquilo que desaparece na
evolução irreversível das coisas. [...] Ela é revelação e introdução. Todas as
iniciações atravessam uma fase de morte antes de abrir acesso a uma vida nova. [...]
Os místicos, de acordo com os médicos e os psicólogos notaram que em todo ser
humano, em todos os seus níveis de existência coexistem a morte e a vida, isto é,
uma tensão entre forças contrárias. A morte em um nível é condição de uma vida em
outro nível. [...] A morte exprime a evolução importante, o luto, a transformação dos
seres e das coisas, a mudança, a fatalidade irreversível. (CHEVALIER, 2005, p.
621-622)
75
O morrer é uma experiência una, não há respostas para nossas possíveis indagações. O
ser humano só desvenda o segredo, provavelmente, quando chegada a sua vez. “Quando pude,
finquei meu pé ao pé de um moribundo, até que se finasse, pra conferir o trânsito de sua alma.
Não vi. Foi tão cotidiano morrer quanto respirar todo dia.” (SC, p.25)
Apesar de irreversível e de sua concretude, a morte pode ser compreendida, sentida e
chorada, é possível a sua aceitação. Causa de sofrimento e aprendizagem, apreende-se, a partir
daí, lições de vida e de amor das pessoas que fazem parte do mundo particular de cada um.
Num diálogo entre mãe e filha, comprova-se a afirmação anterior: “Ritinha: Mãe, se eu
morrer cê chora? Glória: ih! Choro até secar.” (CV, p.55)
A morte comum” ou “natural” é banal por estar vinculada ao sujeito individual e à
célula familiar. Cada família enterra seus mortos, o “grupo” não tem nenhuma participação
nela. É um qualquer que partiu:
Ele serve no máximo de álibi aos vivos, à sua superioridade evidente de vivos com
relação aos mortos. É a morte plana e unidimensional, fim de percurso biológico,
saldo de uma dívida: entregar a alma [a Deus] como um pneu, continente esvaziado
do seu conteúdo. Que banalidade! (BAUDRILLARD, 1996, p. 221)
Quando alguém morre, as atitudes práticas, burocráticas, financeiras e racionais são
providenciadas pelos que ainda estão vivos.
[...] será que não fazia mesmo diferença ser enterrado ou não de meias? Este é
certamente um problema de vivos. A morte é de outra ordem de coisas. Respeitar o
desejo do morto é problema de vivos. O que era a morte? Às vezes o corriqueiro, às
vezes o absoluto terrível. (CV, p.55)
A morte violenta ou catastrófica provoca emoção profunda por envolver o grupo. A
morte é social, pública, coletiva e explorada pela mídia. Essa morte parece provocar uma
satisfação intensa e coletiva. Ela fascina pela artificialidade da morte, como um acidente
mortal. Parece difícil compreender que a mesma morte que causa medo e horror também atrai
e fascina.
O horror da morte é a emoção, o sentimento ou a consciência da perda de sua
individualidade. Emoção-choque, de dor, de terror ou de horror. Sentimento que é de
ruptura, de um mal, de um desastre, isto é, sentimento traumático. Consciência
enfim, de um vazio, de um nada, que se abre onde havia plenitude individual, ou
seja, consciência traumática. (MORIN, 1997, p. 33)
76
Dessa forma acontece uma explosão com vítimas fatais na pequena cidade de
Partidário. O relato popular do fato ilustra a comoção geral e o “gozo” que transforma a morte
em evento social.
Matilda telefonou: voaram dois barracões de foguetes em Partidário. Estou
preocupada com a Sílvia. Estão dizendo que morreram alunos do Colégio Estadual.
Vamos lá, Glória. Acharam pequena multidão em frente ao cemitério, guardas
vigiando o portão, pessoal de televisão trepado nos muros, um ar de festa na cidade,
o povo como bicho espantado das tocas fazendo grupinhos. Os caminhões de
transportar foguetes chegaram com os caixões. Ninguém viu os mortos... dizem que
tinha criança trabalhando, dizem que amanhã iam entrar de férias, dizem que a moça
noiva tinha saído e voltou para apanhar sombrinha quando a pólvora estourou,
dizem que do irmão do dono acharam a cabeça separada do corpo. Tem um
caixão sem nome, porque dentro tem pedaços, um dedo com uma aliança, três
pernas e metade de um braço. Passou um homem com a mão na cabeça, pai das duas
moças mortas. Um rapazinho chorava, o noivo da noiva. Quando a polícia obrigou o
povo a abrir um corredor pra passagem dos caixões ele entrou no cemitério com o
lenço na cara, franzino, ínfimo, coxo. Matilde tremia olhando o pai das mortas: que
coisa horrível, coitado do homem, cadê um padre pra rezar com esse povo, meu
deus? Alguém pra fazer uma leitura da Bíblia! Que horror! Todo mundo parado pra
assistir desgraça, isso?Matilde descontrolava-se. Maura que estava com elas
disse: de corsei música e reza comum. Tirou o credo, a salve-rainha, o pai- nosso
e seguidamente as três cantaram, acompanhadas de um grupinho, O senhor é meu
pastor, Segura na mão de Deus e Com minha mãe estarei. Parciam testemunhas de
Jeová cantando sem respeito humano, enquanto treze caixões baixavam ao
pó.[...]Um homem miserável feito à imagem e semelhança de deus estava de em
Partidário, vendo enterrar seu irmão. (CV, p.95, 96)
Atualmente, os dias são gastos tentando-se aproveitar a vida e encontra-se a morte
estando-se totalmente despreparado. É comum morrer sozinho ou cercado de “técnicos” em
um hospital. Enquanto culturas que festejam a morte com rituais e festas, celebrando a
vida, na cultura brasileira é diferente. Até meados do século XX, era costume morrer em casa,
na própria cama, cercado por parentes. O velório era, quase sempre, realizado em casa e havia
toda uma preparação para se passar por esse momento, o que conferia um sentido ao
sofrimento e à morte. Toda a arrumação da casa, da comida, a chegada de parentes, amigos,
vizinhos e conhecidos, cânticos e orações preparados para o velório tornavam-no um
fenômeno social, que ajudava a diminuir o impacto provocado pela perda do outro e
funcionava como fator de agregação daquele grupo social. Tradição muito forte nas cidades
do interior do Brasil. No interior, ainda hoje, os velórios são marcados pelo acontecimento
doméstico.
Iniciando o romance Cacos para um vitral e no conto “Amarelos”, de Filandras,
descrições desses velórios em cidadezinhas, provavelmente interior de Minas, nos quais
podemos identificar elementos ainda de uma atitude diante da morte que nos remete a uma
77
temporalidade diferenciada. Nesses lugares, conserva-se um conjunto de visões diante da
morte e dos mortos que muito se assemelha às do século XIX.
Dona Zilá morreu um mês depois. Sofrera ataque de madrugada, às oito já estava no
caixão, com flores das pernas pra baixo, vestida com muita compostura. Glória
olhou um pouco a defunta entrou no quarto, na copa, na cozinha de dona Zi O
banheiro fedia por causa de um defeito no esgoto e Lalita, filha da morta,
desculpava-se : logo hoje que essa coisa deixou pra enguiçar. Os enterros são iguais
e diferentes, pensou Glória. Tem os de pouco choro, iguais a este, os de chorão, os
de chorinho e os de curtição, quando defunto é importante e vai pra mara-ardente
dos lugares públicos, todo mundo sentindo demais e sentindo coisa nenhuma,
porque esses enterros viram festa e o morto fica meio esquecido, sem direito ao
choro desmanchado, que é o melhor. Do chorão, com gesto de braço levantando e
abaixando, Glória não gostava. Dos enterros que vira assim, pessoal descabelado e
clamando, com poucos dias encontrava com os chorões na rua, cuidando da vida, no
maior alívio, as moças rebolando, irmãos e cunhados mordendo-se por causa de
herança [...] (CV, p.7, 8)
Uma das marcas da cultura funerária no Brasil é a concepção de que o morto é
abandonado pela alma no último suspiro, e o velório liga-se à necessidade de que o morto e a
alma tenham companhia no momento imediatamente posterior ao passamento. Cabe aos vivos
não abandonar o morto, estar de sentinela ou vigília, rezando e pedindo por aquela alma. A
presença nos velórios era tão importante no século XIX, que quanto mais gente o defunto
conseguisse arregimentar em seu enterro, mais importante ele era. Nos lugares onde essa
tradição ainda se mantém, rezadeiras, padres e a população em geral são estimulados a irem
aos velórios, seja pelos comes e bebes, pela cachaça ou, algumas vezes, até por dinheiro.
Também é histórica a incumbência, dada às mulheres, do culto aos mortos e o cuidado
dos túmulos. Florir os túmulos dos seus no dia de finados é costume instaurado ainda no
século XIX. Essa prática acentuou-se por causa das guerras nas quais muitos homens morriam
e restava às mães, viúvas e filhas, enlutadas e chorosas cuidarem dos seus mortos.
Mais uma vez, na descrição do velório de “Amarelos”, pode-se acompanhar as
providências que os vivos têm de tomar, a iniciativa dos conhecidos do morto que ajudam nos
afazeres e a descrição do constrangimento causado num momento de silêncio e perplexidade
diante do inevitável, a morte:
um momento em que todos na sala calam-se, olhando o bico dos sapatos. Nesta
hora, qualquer acontecimento é bem vindo. Uma borboleta gigante que saia atrás da
cortina, ou um mosquito que sobrevoe o cadáver são recebidos com íntimo regozijo.
Alguém pressuroso sairá a espantá-los, todos acompanhando atentos e por um
minuto a dor arrefece, por um minuto descansa-se. Os periquitos no viveiro
começam grande algazarra e outro se lembra socorrido– é preciso dar de comer
aos bichos, botar água pro cachorro. E café, de madrugada esfria e antes que
escureça acho bom pegar uns colchões emprestados. Qualquer providência tem um
halo de cósmica dimensão porque: um homem morreu.[...] Pois este homem morreu.
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Amarela está sua face, a fraca luz da tarde, o perfil das pessoas sob a chama dos
círios. Sua mulher à cabeceira deu um grande uivo, sangrando a pele do mundo: Ó
meu Deus! Olhei bem o seu rosto e supliquei como a que uivava, “Salva-nos porque
perecemos...” Entre os pés de latão que suportavam os círios a faixa de luz amarela
bateu na cruz de alumínio. Alguém cochichou: os colchões já chegaram e fiz mais
café. (FIL, p. 133-135)
Para conviver com a idéia de sua finitude, o homem precisa acreditar na
complexidade de tudo que o rodeia no universo.
Em recente encontro de Adélia Prado com seu público, no Museu de Artes e ofícios
em Belo Horizonte, a autora em análise disse: “Toda arte, como toda poesia, é um anteparo.
Uma significação da morte. Se fôssemos eternos, não precisava fazer poesia. A arte e a
religião oferecem significado para a morte. Vida e morte são uma coisa só.” (27/11/2007)
E quem sabe Deus e poesia são tudo de que se precisa quando “a morte nos visita e
nós abrimos a casa, precisamos de companhia e força para chorar.” (FIL, p. 135). Quando a
vida torna-se morte, a própria existência e parte da história do homem tornam-se memória.
Ficam registrados em álbuns de fotografias, nos objetos, nos relatos escritos ou orais, na
lembrança da sua fisionomia, gestos, atos, feitos e palavras. E assim não será esquecido,
tornando-se memória.
79
CAPÍTULO 3 – COTIDIANO: MEMÓRIA, TEMPO E ESPAÇO
“O que a memória ama fica eterno.” (PRADO, Adélia. Para o Zé. In:
Poesia reunida, 1991, p. 99)
3.1 Cotidiano: um mundo memória
Torna-se necessário ver o cotidiano em conexão com o tempo e a memória, porque, no
desnudamento da rotina da vida mineira, a literatura de Adélia nutre-se do tempo e da
memória como elementos imbricados com função de presentificar o passado, iluminar o
presente e resgatar em ambos os momentos significativos desse cotidiano. Parece paradoxal,
mas em Adélia é assim, o cotidiano não é só presente, é passado e memória.
A escritora assegurou em um de seus poemas que “o que a memória ama fica eterno”.
Assim, tempo, espaço e memória são tramas na tessitura do texto adeliano, tecidos nas
relações que se materializam na família, no trabalho, na devoção e na diversão. “Oh, eu me
lembro, eu me lembro e escrevo antes que esqueça [...]” (SC, p.24). É preciso escrever para
lembrar, pois, a memória escrita prolonga a vida, escreve-se para não esquecer.
A narrativa adeliana tem como suporte a condição humana de sujeitos que vivenciam a
história de sua experiência de vida. Essa temática abrange tempo, memória e narrativa. A
narradora do ‘conto’ “Uma dor” rememora uma história de família: “Tinha uns doze anos
quando apareceram em nossa casa e ficaram [...] faz cinqüenta anos. O pai e a mãe já
morreram, Ariela casou-se, Celina foi para o convento, fiquei sozinha [...]” (FIL, p.7- 8).
Essa memória é a capacidade humana para reter e guardar o tempo que se foi,
salvando-o da perda total. A lembrança conserva aquilo que se foi e não retornará jamais.
Vivem todos essa experiência do tempo à qual se dedica o escritor francês Proust (1992, p.
149) em sua obra: Em busca do tempo perdido, na qual narra a redescoberta do tempo perdido
ao degustar uma madeleine.
Para Proust (1992), o cheiro ou o gosto de um bolinho caseiro é a memória das
emoções, uma memória dita involuntária, diferente da memória chamada de voluntária. A
segunda funcionaria como uma despensa de lembranças de onde se pode escolher a mais
conveniente para evocar, racionalmente, um determinado momento do passado. Já a memória
involuntária surgiria por acaso, no contato com objetos aparentemente banais, e “coisas” do
80
cotidiano, como a madeleine. A realidade que surge dessas evocações traz de volta todas as
sensações relativas ao momento evocado.
O escritor liga diretamente a impressão à criação poética, já que acredita que a
memória involuntária, não sendo dirigida pela razão e por não tentar evocar lembranças
através de um esforço da vontade, seja essencial para a poesia.
Na prosa poética de Adélia, o poético inscreve-se também por meio da memória. O
lírico gerado é conseqüência das lembranças, da admiração do cotidiano e das implicações
afetivas geradas por tal admiração. Essa prosa poética alimenta-se da memória,
presentificando emoções vividas. Ao se falar da memória, pode-se partilhar desde o terreno da
lembrança dos mais singelos atos do cotidiano, das mais antigas impressões da infância até os
mais diversos quadros sociais, próximos ou distantes no espaço.
[...] e retalhos de reprimida soando nos ouvidos como o mais doce carinho: passa
pra dentro, sua absoluta, é hora de se comportar como uma moça. Minha mãe
severa e triste, meu pai alegre: deixa a menina, ela é crescida mais ainda é muito
boba. (FIL, p. 39)
Essa narrativa constitui forma privilegiada de se apreender aspectos da constituição da
memória individual e coletiva, da dinâmica social e discursiva de quem se é. É narrativa de
histórias de vida, uma narrativa do eu que quer se conhecer.
Quem narra sua história, a história de outros, inscreve a si mesmo e ao outro na
história e busca dar um sentido a sua própria existência. As lembranças ajudam a construir a
imagem de si mesmo. Quem narra vai se descobrindo à medida que relata e escreve. E faz
reflexões que levam a re-significados sobre o seu lugar no mundo.
Para Proust (1992), a memória é a garantia de identidade, o eu é a reunião de tudo o
que o homem foi e fez e tudo o que ele é e faz. No entanto, há um cruzamento entre os modos
de ser de um indivíduo e de sua cultura na interação entre a memória pessoal, familiar e
grupal, constituintes de uma memória social.
A memória é o conjunto de impressões, imagens, lembranças e experiências que se
re-atualizam no tempo presente através da linguagem. Ou seja, a linguagem, por meio da
memória, resgata o que ficou para trás e se tornou irresgatável, em sua realidade palpável. Ela
se dá a partir de um olhar do presente, de consciência, discursos, ponderações e juízos atuais.
Das múltiplas possibilidades de pensar a memória, destacam-se as relações entre
lembrar e narrar lembranças. Estas enfatizam outras possíveis possibilidades de releituras,
81
uma nova visão e versão do acontecido. Bosi (1994, p. 55)
fala dessa questão, dos vários
pontos de vista e dessas versões:
Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar,
com idéias e imagens de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é
trabalho. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão agora à
nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência
atual. [...] O simples fato de lembrar o passado no presente, exclui a identidade entre
as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de pontos de vista.
A memória está associada a fragmentos e a histórias descontínuas, tanto de um
indivíduo quanto de uma sociedade em sua totalidade. Cada pessoa é tudo aquilo que foi
apreendido, visto, conhecido, ouvido e ainda transmitido. Dessa forma, a memória de um
indivíduo está ligada à do grupo e esta à tradição.
Aquele que recorda e narra a sua vida deixa transparecer uma memória que não é
apenas sua. Além da dimensão pessoal e introspectiva da memória, também uma dimensão
coletiva ou social. A memória, segundo Halbwachs (1990, p.25-52), implica o ser social do
homem. Segundo ele, a singularidade do pensamento individual emerge dos entrecruzamentos
das correntes do pensamento coletivo. A memória individual alimenta-se da memória
coletiva, porque o ato de lembrar não é autônomo, mas enraizado no movimento interpessoal
das instituições sociais a que o indivíduo pertence: a família, a classe social, a escola, a
religião, a profissão, etc.
Nesse sentido, as lembranças do indivíduo emergem em seu contato com os outros
ou originam-se de situações sociais, não em termos do contexto em que estão inseridas,
mas por serem fatos históricos. Exemplo disso é quando a narradora de Solte os cachorros se
lembra... “Quando inauguraram a luz elétrica na minha casa, meu pai convidou os vizinhos e
serviu café acompanhado, depois de rezar o terço, onde se contemplou no segundo mistério
glorioso como Jesus [...]” (p. 11)
É uma memória coletiva ou social sem, contudo, extinguir sua singularidade e
subjetividade, pois é o sujeito que rememora quem atribui valor aos acontecimentos coletivos,
organiza, re-atualiza esses acontecimentos, cria o enredo. A questão do valor coloca-se,
portanto, como uma questão de memória: a lembrança torna valioso o objeto lembrado; mais
do que isso, o objeto torna valiosa a lembrança, redesenhando as fronteiras do esquecido que
se mostra, então, pleno de atualidade.
A memória na narrativa de Adélia Prado traz algumas imagens que acabam por
relacionar literatura, história e cultura. São imagens de um cotidiano revelador de
82
pensamentos individuais e coletivos, hábitos, crenças e símbolos que trazem à tona as
peculiaridades do povo do interior de Minas Gerais. Nessa memória estão presentes o cheiro,
o sabor, as cores, a gente, o passado, os traços culturais e a paisagem de um espaço geográfico
visualizado pelo eu. Esse eu que o mundo e o observa, descrevendo-o cheio de marcas do
passado e do presente.
A memória, nesse caso, estaria também ligada a fatos externos ao sujeito, ou seja,
internaliza-se aquilo que se recebeu do externo. E cada um guarda em si o que mais lhe
marcou desse tempo, em que as sensações, as intuições, as idéias, as reflexões, os sentimentos
e as paixões que lhe são despertadas são inspiradas de acordo com o seu convívio com o
grupo, e estariam fixadas em sua memória que, por sua vez, estaria relacionada com as
percepções produzidas pela coletividade.
Essa memória, muitas vezes, conta a verdadeira história de um lugar, pois se trata de
lembranças e de recuperação de traços da tradição.
A memória, algo em constante construção, inacabada e aberta, é, de certa forma,
livre. Embora haja instâncias reguladoras, formadoras e preservadoras da memória, atuando
através de um controle”do pensamento das pessoas pela mídia, religião, estado e história
também existem experiências íntimas singulares e profundamente marcantes, que se
sobrepõem a esse controle. Essas são geradoras de uma memória e de um discurso repletos
de “pessoalidade” e ficam longe daquilo que as instâncias formadoras e mantenedoras da
memória consideram digno de ser lembrado.
Dessa forma, o registro das atividades do cotidiano rememoradas na narrativa
analisada, tais como objetos, roupas, imagens, gestos, comida e a própria fala (ou oralidade)
recuperam um passado menos vinculado a essas esferas institucionalizadas do poder.
Pela intervenção da memória constrói-se a narrativa secreta da vida do indivíduo, que
se separa da narrativa oficial. Tenta-se legalizar essa construção não em relação ao mundo
exterior, mas também em relação ao próprio mundo individual.
A memória apóia-se na narração, pois esta é o registro das vivências. É por essa
memória e através da linguagem (na narrativa oral ou escrita) que as lembranças tornam-se
presentes.
Lembrei disso tudo porque tou aqui no salão Red River cortando o cabelo e é tempo
de Quaresma e eu tou aflito por causa da chateza que vai ser a Semana Santa aqui no
Divino. Preferia muito mais, quando eu morava no Partidário, a mãe mais o pai
obrigando a gente a fazer jejum, lendo na hora da comida as passagens da Paixão.
Muito mais verdadeiro. (SC, p. 69)
83
O sujeito que narra pode escolher o que quer e o que pode contar entre os fatos, uma
vez que nem todas as lembranças são “convidadas” e também se torna impossível narrar tudo
se lembrando apenas das partes significativas do passado, porque memória é o que foi
gravado com um sentido ou com um significado para o indivíduo e para os todos os outros. A
narrativa leva o eu ao ato de lembrar e de recordar, à reflexão de sua existência efêmera neste
mundo. “Hoje estou melancólica e suspirosa como minha mãe, choveu muito, a água invadiu
este porão de lembranças, bóiam na enxurrada a caminho do rio. Deixo que naveguem, pois
não as perderei. O rio é dentro de mim.” (FIl, p. 39)
Viu-se que a memória fundamenta-se na propriedade de conservar algumas
informações, é a reserva de conhecimento sobre uma vivência, geralmente relacionada ao
passado e de cunho individual, a princípio. A memória individual passa à memória social,
como ato mnemônico e sob a forma do comportamento narrativo. Esse discurso tem caráter
confessional e através de reminiscências apreende a memória individual, que constrói a
memória coletiva e relaciona o privado ao público. Um exemplo é este trecho: “Foi antes da
revolução dos Beatles, antes da minissaia, quando escândalos políticos não vazavam nos
noticiosos da TV. Era um moço pacato e, para o gosto das meninas estudadas, que nem eu
[...]” (FIL, p. 29)
Como consciência da diferença temporal, passado e presente, a memória é uma
forma de introspecção, cujo objeto é interior ao sujeito: seleciona-se e escolhe-se o que se
lembra; e a lembrança tem, assim como a percepção, aspectos afetivos, sentimentais,
valorativos (há lembranças alegres e tristes, saudade, remorso e arrependimento).
É, pois, na memória que estão registradas essas vivências de uma pessoa, na sua
individualidade e em meio ao seu grupo familiar e social. É como a caixa preta do conto que
leva esse título.
[...] todo mundo tem na cabeça uma caixa preta igual às do avião, não tem? Hein?
Caixa preta? É. Lembra aquela vez no sítio do Augusto, eu cortava umas canas e
você passava uma nata de cimento no piso em frente à porta da cozinha? Sei, e aí?
Lembro até que se referiu a um buraco na parte baixa da porta e falou batendo a
colher no balde de massa [...] Teodoro admirava-se dos detalhes frescos de um dia
que já ia longe demais [...] Me lembro do dia, sim, mas do assunto, não. [...] já, uai,
não me lembro que mulher mais não. [...] Disse que não se lembrava e não tem
caixa preta na cabeça. Não percebeu, mas a história me deixou triste [...] Caixa preta
na cabeça! ele mesmo, o atormentado da memória [...] Vou pedir a Teodoro que
o procure mais, que o ajude a esvaziar a caixa preta. (FIL, 59-61)
A memória, assim como o cotidiano, está imbricada nas relações de gênero e é
produto de uma história. A memória, assim como a existência da qual ela é prolongamento, é
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profundamente sexuada, como afirma Perrot (1989, p. 17-18). A partilha da memória obedece
a uma definição dos papéis sexuais. Sobre a família e o cotidiano que se pergunte às
mulheres! Esse aspecto das coisas lhes cabe. Na rememoração, as mulheres são em suma os
porta-vozes da vida privada.
Imagina, limão antigamente era um tutu! A mãe chegava a falar: mulher não deve
passar nem debaixo do pé. Na horta da mãe Rola, limão perdia. Escondido dela eu
lambia limão, raspava rapadura no copo com água, espremia limão por cima e bebia
as copadas. Um dia ela me pegou comendo as rodelas que eu punha na boca, feito
hóstia e ralhou: Cê fica hética, menina. E eu falei: tica? Ela explicou: é, seca feito
anzol. (CV, p. 43, 44)
Os modos de rememoração das mulheres estão ligados à sua condição, ao seu lugar na
família e na sociedade. Na medida em que as práticas socioculturais constituem a memória,
nela estão imbricadas as relações masculino/feminino, que são produto de uma história. É
percebido que cada gênero se organiza e se inscreve socialmente a sua maneira, redesenhando
e (re)significando seu próprio passado, configurando seu próprio discurso e construindo sua
própria identidade.
3.2 Coração: museu da memória feminina
É ao mundo mudo e permitido das coisas que as mulheres simples da classe média,
assim como a autora/narradora confiam sua memória. Esse mundo é o do cotidiano, é a
matéria mais humilde com que se dedicam à roupa, aos objetos, às bugigangas, aos presentes
recebidos por ocasião de aniversário ou de uma festa, aos objetos trazidos de uma viagem ou
de excursão, ‘lembrancinhas’ que povoam os cantos da casa como pequenos museus da
memória feminina.
As mulheres têm paixão pelos porta-jóias, caixas e álbuns nos quais encerram seus
tesouros: rastros da infância e histórias de família, uma história do privado, voltada para o
íntimo. Dessa forma, a memória feminina é uma memória familiar, semi-oficial.
Lembrava-se da casa e nada era bom a não ser João aprendendo os nomes das peças
de xadrez e Juninho mamando, os olhinhos achinesados, Gabriel lhe dando um
estojo de unhas e uma caixinha de música, tentando aproximar-se, vencer a muralha
de angústia. Em Bom Sucesso pusera maiô pela primeira vez por insistência de
Joana, que argumentava com obstinação. comprara o livro A cartuxa de Parma,
fez ela mesma seu primeiro vestido sem mangas, um ano antes de Maria nascer.
(CV, p. 27, 28)
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Os instantes privilegiados podem ser revividos pela rememoração de um lugar
privilegiado, de felicidade, representado pela casa e vivido pelos membros da família: Olha,
antigamente, quando chovia encarreirado igual chovendo agora, eu gostava de pedir à e
pra fazer mingau de fubá. A gente bebia e se enfiava debaixo das colchas pra escutar chuva e
ser feliz.”(SC, p. 78).
A roupa de cama, mesa e banho, assim como o vestuário constituem uma forma de
acumulação de lembranças. Lembra-se da roupa, da cor, da espessura, da maciez, dos detalhes
apreendidos pela memória num momento significativo:
Meu pai contava o que era uma de suas auto-reconhecidas finuras, outra era comer
de faca: antes de eu conhecer sua mãe, assim que vim pra Areias, chegava do serão
preto de graxa, e comadre Figeninha tinha arrumado minha cama com lençol
cheirando de limpo. Nunca que tive coragem de deitar nele. (FIL, p. 37)
Usei o jogo novo de lençóis sem lavar, sabendo que deveria fazê-lo, seria mais chic,
mas quis aquela coisa infantil de lençol novo com cheiro de goma. (FIL, p.148)
Ela ia jovem e sem cotovelos. Zanzava pra baixo e pra cima na Avenida Afonso
Pena, tomava coquetel, comprava colcha piquê no Sobradão do Torra, o moço
mostrando peças pra enxoval, jogos de toalha com estampa de cartas de baralho [...]
(CV, p.10)
Enquanto a roupa de cama, mesa e banho pertencem à esfera íntima, o vestuário
pertence à esfera pública. Perrot (1989) diz que o vestuário está ligado às aparências que cabe
às mulheres preservar. A roupa pode dizer muito sobre a existência pessoal e social das
pessoas.
No trecho a seguir vêm à memória lembranças da cor, da textura da roupa, das
pessoas, da época histórica e religiosa:
Foi nesse tempo eterno, porque cíclico, num março muito antigo, que tia Marinita
fez para mim e meu irmão as roupinhas roxas. Me lembro do pano ralo, de sua
transparência barata conformando-nos ao tempo litúrgico do sofrimento de Cristo.
(FIl, p.123)
A moda, uma forma de civilidade, é um código ao qual convém submeter-se, é uma
tirania exercida sobre o corpo, principalmente das mulheres. “Esse dever, do qual algumas
desfrutam prazer, outras tédio profundo, educa a memória. Uma mulher inscreve as
circunstâncias de sua vida nos vestidos que ela usa, seus amores na cor de uma echarpe ou na
forma de um chapéu.” (PERROT, 1989, p. 14)
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A roupa fixa também a representação dos acontecimentos que fazem bater o coração.
É comum a lembrança de algo do tipo: Naquele dia eu usava... A memória das mulheres é, às
vezes, trajada.
Não puxava até o ombro o elástico da blusa russa, deixava o decote refolhoso
afogando meu pescoço, doida pra não esconder meu colo, mas frei Hilário advertira:
não deixe aparecer o começo dos seios, pra não dar maus pensamentos nos rapazes.
Por que obedecia, se perguntava Glória, repregando a alça do vestidinho de Rita,
leve pano sem forro que a menina usava como um vestido de primeira comunhão.
(CV, p. 88)
Era assim certamente que Gabriel a via sempre, a ‘Glorinha do João Fraga’, uma
menina que tinha um vestido xadrezinho vermelho, que ele viu pela primeira vez [...]
(CV, p.98)
A importância das aparências faz com que as mulheres sejam mais atentas, prendam-
se mais aos detalhes e saibam narrar a vestimenta com riqueza de detalhes. “Pelos olhos elas
pensam atingir a alma. É por isso que elas se recordam de suas cores, às quais os homens são
normalmente indiferentes” (PERROT, 1989, p. 15)
Dona Fina caminhava na minha frente com um vestido de pano tão mansinho, de
pala marrom, e o resto, um voal com flor parecendo sininho, de três cores,
alaranjado, vermelho e azul. (SC, p.107 e 108)
Anda no último grito da moda, combinando direitinho a blusa com a calça, com o
colarzinho, com o xale, com o salto do tamanco [...] o brincão de argola de ouro
misturado com a travessa de lata prendendo o cabelão dela. Mas essas coisinhas é
quase que a gente que vê, homem não enxerga de jeito nenhum [...] (CV, p. 36) A
mulher tinha um vestido esverdeado, punho e gola bordados à maquina. (CV, p.22)
Firme em definidos e perfeitos contornos, rebelde ao disfarce das saias e anáguas
daquele tempo [...] (FIL, p. 51) O tecido maravilhoso, a cor, o talhe, discrição que se
anuncia discrição, a modéstia das verdadeiras linhagens, enfim comprara um brasão.
(FIL, p. 57) Uma agorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de
calcinha comprida de tergal (FIL, p. 119) Camiseta e bermuda não favorecem a
ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. (FIL, p.119,120)
A memória é o mecanismo de que o ser humano dispõe para resgatar o passado, e
assim afirmar sua identidade. O sujeito só se constrói através da rememoração e, à medida que
vai construindo suas memórias, também vai construindo, através dos implícitos, uma memória
social. Muitos acontecimentos cotidianos são registrados pela nossa memória imediata, mas,
se não forem significativos, caem no esquecimento; outras informações recebidas podem
durar uma vida inteira, é a nossa memória de longo prazo. Os fatos da infância são, em geral,
os últimos a serem esquecidos, pois a emoção é a principal causa desse registro. “Quando
menina, minha mãe doida pra me ver normalista, me instruiu: ‘Fala com sua professora que
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você é pobre, tem muitos irmãos e seu pai ganha pouco e isso, isso, isso’. Era tudo verdade,
mas.” (FIL, p. 148)
Quem rememora tece uma relação afetiva com o passado, com tendência a mitificá-lo.
O “espaço” de lembrança pode ser trazido por objetos, pela casa onde se conviveu com a
família... Ali o sujeito encontra suas vivências e volta para o tempo daqueles a quem amou,
cujas marcas convivem incorporadas às suas e são demonstradas ao expressar suas
lembranças.
Eu erro com os meus, comigo erraram meu pai e minha mãe com um detalhezinho
que eu não posso esquecer: quando tive aftosa, aquela doença de gado, eu era
cavalona, o pai me punha no colo pra me distrair, andava comigo na beira do
ribeirão mostrando uma coisa, outra, apanhando um ramo com uma florinha,
limpando minha baba roxa de violeta genciana, falando vai sarar fia, vai sarar,
logo. A mãe era um estrago de braba, mas quando eu lembro dela me castigando
com safanão do pente na cabeça e me fazendo dois molhos de cachinhos pra eu ir
bonita pra escola, me um engasgo, uma saudade sem remédio, uma vontade de
ser pobre igual antigamente, pra escutar ela falar: ficando mocinha, umas
roupinhas melhores... e o pai: moça bonita precisa disso não... Eh, meu deus, quanto
jeito que tem de ter amor! (SC, p.39)
Toda lembrança vive em estado latente e potencial, podendo ser chamada pelo
presente a qualquer momento. “Que saudade do pai, Glória sentiu escutando a arenga da
Fostina.” (CV, p. 42) Esse chamado pode vir em forma de uma imagem fugidia, uma música,
um odor, um sabor... Nosso comportamento alimentar, tão profundamente arraigado na vida
cotidiana, parece coisa simples, mas também tem seu espaço na memória, porque cada
“hábito alimentar compõe um minúsculo cruzamento de histórias no invisível cotidiano:
gestos, ritos, opções, hábitos herdados, costumes repetidos.” (CERTEAU,1999, p. 234)
Conforme se encontra em Certeau (1999, p.249-250), come-se, é claro, aquilo que se
pode consumir, aquilo que se gosta de comer. Come-se o que as mães ensinaram a comer, de
tal forma que “é mais lógico acreditar que comemos nossas lembranças, as mais seguras,
temperadas de ternura e de ritos, que marcaram nossa primeira infância”.
No adulto, através dos comportamentos alimentares e de suas variações de pessoa para
pessoa, superpõem-se histórias (cultural, social, familiar) e suas memórias.
Eu mais a Cotinha minha irdoidas de alegres. Antes de dormir íamos com a
Luzinete e a Luzimar pra cozinha investigar panelas. Mais bom que tinha era quando
sobrava da janta deles, macarrão goela-de-pato, aquilo cozido na pura água, sal e
gordura.(CV, p. 94)
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Juntas, elas inspiram hábitos, costumes, preferências e lembranças. “Às vezes tenho
vontade de lembrar minha meninice: comprar arroz quebradinho, pra fazer engorduradinho
numa panela que foi da minha mãe e tem a virtude de roxear o arroz.” (SC, p. 13) E revelam a
condição social:
Glória contava a menina: no meu aniversário o papai trazia uma rosca diferente, a
gente comia com manteiga... Pão com manteiga em aniversário? Ritinha
insuspeitava dos estreitos limites até hoje marcando sua pobre mãe, receita com dez
ovos, biscoitos que levavam muita manteiga, fazendo ela virar a página atrás de
coisas mais simples, mais econômicas, até hoje era assim, inevitável.(CV, p.103)
[...] chega em casa com os bife já tirado e na geladeira e manda eu fritar dois
pra ele sozinho. Eu e os meninos comemos sem carne e sem mistura, afora couve e
chuchu porque é verdura que em casa. Não acostumo com passar falta. (Fil,
p. 101)
Guardam-se memórias fiéis ao maravilhoso tesouro dos sabores da infância. Por mais
simples que tenham sido, são sabores da felicidade perdida, doces sabores do tempo passado:
“Tenho umas lembranças de eu comendo farofa de jiló e pouco depois do almoço,
arrombando lata de leite em pó, do menino que a mãe criava, lembro eu lembrando de pão
com manteiga, a mãe fritando dois ovos pra mim.” (SC, p. 19)
Certeau (1999, p. 247) ainda afirma que “todos os prazeres da boca são duplamente
sujeito às leis da oralidade: como absorção de alimento, prazer do paladar e como suporte de
uma atividade da linguagem: prazer da fala que descreve, nomeia, distingue, compara e
desdobra.” Ainda, “Com a boca entendo de tudo, capim, feijão cru, milho, talo de couve, a
parte de dentro da casca de bananas e certas partes do frango, de menor cartaz.” (SC, p.19).
A memória da comida também é a do desejo de comer algo que agora é proibido, que
é do gosto pessoal, mas não é saudável, comem-se as representações sociais da saúde. Existe
lembrança também da comida boa, bem feita, gostosa, que não é mais assim. Uma memória
do razoável e do desejável:
O médico falou comigo: não coma sal se quiser viver mais. Peco, se comer assim
mesmo? Os cemitérios da minha terra não dão vontade. (SC, p. 10) Pensa que eu
tenho o gosto de comer um torresmo gordo desses? Quem me dera! [...] Zilu faz uns
bifico à-toa esturricado, não tem gosto de carne, não tem gosto de nada. Vai na
horta, é três folhica de cebola, diz que é pra dar cheiro. Não pica uma couve
com vontade, pra encher a peneira, não faz uma salada mais enfeitada, pra derramar
na travessa [...] (SC, p. 29,30) Pôr espinafre na sopa deles pra eles ficarem fortes [...]
(SC, p. 51)
A dieta vale, menos sal [...] Glória fingiu que não viu aquele dia ele pondo sal na
comida, de um montinho escondido atrás do filtro. (CV, p. 105)
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A comida é elemento quase sempre presente nas recordações; faz parte da imagem de
alguém de que se gosta, de um momento, de determinadas situações. “Pastéis é de quê? A
mocinha não teve piedade: tem de carne, de queijo e de beijo. Brigadinho, falou com o
coração aos pulos e agora com perigo de esquecer o que viera fazer na cidade.” (FIL,p..99)
As emoções presentificam-se como conseqüência da lembrança de um espaço nomeado,
enriquecida por outras trazidas pelos sentidos da visão e paladar. Como nesses exemplos de
Cacos para um vitral:
Laudelina chegou bem na hora em que Glória cobria o bolo de Ritinha. [...] As latas
de doce abertas, os meninos feito formiga nos farelos [...] ( p. 16) [...]No fogão tinha
arroz e bola de carne[...] ( p.22) Todo dia, dona Pífia, na hora do recreio, toma
guaraná na nossa frente, guaraná com pastel.(p.23) Um dia, levou uvas pra ele,
brancas, grandes, de carne dura. (p.41) A mãe fazendo café com biscoito [...] (p.42)
Glória viu a mulher tirar do saquinho plástico uma colher de massa escura e comer.
(p. 75) [...] o meninozinho dele assistiu tudo, segurando a marmita, morreu sem
almoço, o coitado [...] comer era importante demais... choraram com ele, as panelas
no fogão[...].(p. 75) Estou lembrando quando a gente noivava e você mandava a
Glorinha do João Fraga levar pão pra mim no portão da oficina ( p.100)
Convém dar um destaque ao poema “A menina do olfato delicado”
4
como
exemplificação. A menina, por ter visto um animal imundo na rua e por estar enjoada com os
cheiros que sente, recusa-se a comer: “quero comer não, mãe.” E a comida era arroz com
feijão e macarrão sem massa de tomate. Esse ‘macarrão sem massa de tomate’ é resgatado
pela memória em Cacos para um vitral:
Gente pobre da roça não usa luxo de massa de tomate, mas faz o macarrão branco
mais gostoso deste mundo. Hoje sou uma pessoa de posses, a comida de dia de
semana na minha casa não faz diferença da comida de dia de domingo. A gente
acostuma com coisa boa, vicia o paladar no bem bom, esquece até de dar graças.
(p.94)
O efeito que uma lembrança provoca na memória de um grupo (coletiva) ou de uma
pessoa (individual) é semelhante: desencadeia uma série de reações, recobra sentimentos,
lembra coisas feitas, pessoas, lugares, coisas ditas, carinhos, ódios, desejos.
É importante lembrar que a memória, como guardiã de toda a bagagem de
conhecimento, tanto de uma pessoa na sua individualidade, quanto de uma sociedade, é capaz
de dizer sobre identidade e configurar um determinado lugar, pois através dela se pode
resgatar uma história e entender comportamentos, costumes e tradições de um povo.
4
O poema “Menina do olfato delicado” faz parte do livro de poesia Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1991, p. 110
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Questão de comida também, tenho a honra de ter sido eu que arranjei as novidades.
Não passava disto: tutu de feijão, arroz, macarronada, frango; tutu de feijão, arroz,
macarronada. Se tavam com paciência ou a visita era mais importante, tinha batata
cozida e depois passada na gordura quente e um molho com o caldo do frango,
bastante pimenta, cebolinha verde e massa de tomate. Que era gostoso, era. Tinha
um casal de marca de vinho, tretou-relou envinha as garrafas de vinho Vênus e
Amável. Hoje dizem que até câncer o ordinário do vinho dava. Imagine, e a gente
bebendo e dando bicota! Inventei salada de frutas. em casa dava abacate pra
perder, mamão, limão também. O dia que eu misturei tudo foi um sucesso e foi
aquele disparate, aquela fazeção de salada que não parava mais. Agora maionese já
foi depois deu casada que comi. Quase fiquei doida, tirei a receita e fiz aenjoar.
Um tio meu torceu o nariz pra aquela coisa fria, ele disse: com gosto de coisa
nenhuma, mas eu insisti: com este calorão, gente, essa empanturração de tutu com
macarronada, tem dó, isso aqui é mais leve, pode comer frio. Foi indo, foi indo, hoje
ele é o primeirão a gostar. Negócio de comida é mistério grande, muito importante.
(CV, p. 93)
A comida traz uma marca regional que tem relação com a história do lugar e com a
tradição mantida pelo povo. Entre essa memória de gostos e cheiros, prevalece a presença da
comida também como parte da cultura mineira: a hospitalidade e o hábito de servir a comida à
família, aos amigos e às visitas. A cozinha é, dessa forma, o espaço da casa propício às
relações sociais e culturais. “[...] mas fazei, ò Deus, depois desta noite eles sentarem na
cozinha e beberem o café juntos, engasgados e sem palavras como os que se amam.” (CV, p.
100) Através dela, das conversas ao redor da mesa e das receitas tradicionais, as pessoas
reencontram suas raízes (identidade) e os pratos trazem uma marca regional. Como o queijo,
“alimento- elemento” da história de Minas e herança cultural do povo mineiro, assim também
os doces, bolos...
Repetiu café com bolo, três vezes, fora queijo e doce. (CV, p. 18)
De banana não tem hoje não, tenho feito doce de mamão com cidra. (FIL, p.
15,16)
Só queijo, do serro, canastra, palmira, da roça, até importado, daquele bem amarelo,
pintado com tinta púrpura, defumado[...] Quanto a Teodoro e eu, comemos menos
queijo que antes. (FIL, p. 82,83)
[...] massa compacta e fumegante do angu.(SC, p.81)
por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos [...] (SC, p.105)
Mais do que a comida, o eu reencontra na lembrança do passado a própria vida, a vida
familiar simples que preenche a memória por presenças humanas, e às vezes eternas na
experiência do cotidiano. As figuras do pai, da mãe, e do avô caracterizam a apresentação do
cotidiano amparada nas relações familiares. O tempo presente– dos pais e avô mortos– volta
ao passado, numa reprodução das cenas vividas, das sensações e sentimentos que reforçam a
idéia do cotidiano como principal matéria-prima na obra da escritora em análise.
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No conto “Sem enfeite nenhum”, a narradora rememora a figura da mãe, seu jeito de
ser, seus hábitos, os cremes que usava, a doença e a morte prematura.
A mãe era desse jeito: [...] sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira
do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor. [...]
Era a mulher mais difícil a mãe. Difícil, assim, de ser agradada. [...] Rodeava a gente
estudar [...] Achava estudo a coisa mais fina, e inteligente era mesmo, demais
até.[...] Gostava de ler de noite em voz alta, junto com a tia santa, os livros da Pia
biblioteca, e de um não esqueci pois ela insistia com gosto no título dele, em latim:
Máguina pecatrís. Falava era antusiamo e nunca tive coragem de corrigir [...] Bom
também era ver ela passando creme Marsílea no rosto e Antisardina 3, se
sacudindo de rir depois, com a cara toda empolada. Sua mãe é bonita, me falaram na
escola. E era mesmo, o olho meio verde. Tinha um vestido de seda preto e branco e
um mantô cinza que ela gostava demais. Dia ruim foi quando o pai entestou de dar
um par de sapato pra ela.[...] pior foi com o crucifixo.[...] Morreu sem fazer trinta e
cinco anos[...] Fiquei hipnotizada olhando a mãe. no caixão tinha a cara severa de
quem sente dor forte, igualzinho no dia em que o João nasceu. Entrei no quarto
querendo festejar e falei sem graça: a cara da senhora parece que com raiva, mãe.
Era raiva não. Era marca de dor. (SC, p. 98)
Em outros momentos, sua figura está atrelada aos afazeres domésticos ou ao excesso
de religiosidade.
A mãe levantou pra fazer ca[...] A mãe, porque estava com do pai, fez arroz
doce. (CV, p.75)
Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e
várias vezes por dia era isto: meu Jesus, misericórdia... A senhora triste, mãe? Eu
falava. Não pedindo a Deus pra ter dó de nós. Tinha muito medo da morte
repentina e, pra se livrar dela, fazia as nove primeiras sextas feiras, emendadas. De
defunto não tinha medo, de gente viva, conforme dizia. Agora, perdição eterna
tinha horror, pra ela e pros outros. (SC, p. 95)
A mãe ficou meio sem saber se era ortodoxo pôr bilhete de rameira no meio de
nossos imaculados papéis, mas foi vencida pela misericórdia, olhou para o Toninho
nosso, meu irmão e disse: coitada, ela também é mãe, e qual é a mãe que não quer
ver o filho são? Deus é pai, leva o bilhete da Maria Corrêa também. (FIL, p. 86)
A figura paterna é sempre lembrada com admiração. Retrata um homem comum,
simples, trabalhador, bom pai, religioso, sensível às ‘coisas’ do cotidiano e sábio em seus
ensinamentos. A figura paterna é alvo de uma apreensão de traços espirituais, porque a
imagem do pai caminha com os indivíduos através da vida.
Glória sentia com aquilo a mesma sensação que provocava o matinho detrás da
janela de tia Palmira, samambaia misturada com buquê de noiva, moita de azedinha
e funcho. O jardineiro de tia Palmira, o xarope de dona Cessa, seu pai reformando a
casa... na platibanda a gente põe assim uns fingimentos de estrela, eu mesmo faço,
de massa forte. Pra canteiro, acho melhor forma de meia lua e doce de leite...Que
espécie de coisa eram tais coisas? O pai reforçava: canteiro quadrado não;sem
poesia. (CV, p. 11)
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Meu pai ensinava: ninguém pode viver sem ilusão. Mas eu, que conheci ele muito
bem e conheço a vida, sei que não é ilusão o que ele queria dizer. Ilusão é coisa
fraquinha, ilusão é bolha de sabão. Ele queria falar é sentimento, coisas que
consolam e dão paciência, me fazem sossegar no ponto, esperando a glória de Deus.
(CV, p. 37)
Como o pai na mesa, batendo o osso no garfo pra tirar o tutano, de tal modo
embebido e completo que ela entendia o que era uma forma, o inteiro sem
fragmentos. Desejou ser assim. Desejara sempre. (CV, p. 38)
“Ó trindade de Nazaré, digna do respeito mais profundo...Glória reviu o pai
cantando, segurando o pálio, de terno e gravata, revestido com a opa, barba feita,
unhas do pé e mão cortadas[...] (CV, p. 64)
Uma ocasião depois das chuvas, o tampo da fossa afundou. A mãe levantou pra
fazer café, deu com a cratera, os paus que a protegiam apodrecidos, alguns caídos no
buraco desbarrancado, a massa da coisa exposta. O pai não foi pra oficina aquele
dia, pra fazer o conserto. Desceu ele mesmo o buraco horrível e cavou, limpou,
calçou, arrumou dormentes novos sobre o vão. Glória admiradíssima daquilo,
corajoso como entrar na cova dos leões [...] Glória não entendia, invejava o pai, sua
inacreditável saúde. (CV, p. 75)
Meu pai saía de madrugada para “adorar o santíssimo”. Usando opas vermelhas, por
uma hora inteira ficavam, ele e os adoradores, diante de um sacrário aberto,
louvando e pedindo graças. (FIL, p. 90,91)
Essa memória que traz as figuras materna e paterna registra a forma de falar
(expressão oral) através da qual se davam as relações íntimas e familiares.
Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho dos peitos, o pai chegou pra
almoçar, estudando terreno, e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio
saliente: companheiro meu ta vendendo um relogim que é uma Gracinha, pulseirinha
de crom’, danado de bom pra Do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio
de pulso e vestido de bolér. Nem bolero falou direito de tanta antipatia. Foi água na
fervura minha e do pai.(SC, p. 95)
E a imagem dos pais juntos traz enorme prazer: “De noite percebi que meu pai contava
a história pra minha mãe, ele também com um gozo desconhecido na voz. Escutei eles rirem,
o que me dava sempre enorme felicidade.” (FIL, p. 30)
A figura do avô ressurge a partir de um lugar. É a lembrança da horta do avô que traz
de volta cheiros, medos, brincadeiras, o irmão menino, as frutas... e a figura do avô da
horta”. Fatos sociais e históricos mesclam-se a essa memória de infância, como a chegada do
rádio para a família e a apresentação da maior cantora do Brasil na época. É interessante
observar que, entre os parentes evocados, a figura do avô tem um relevo tão grande quanto o
dos pais.
Indo à casa de Jucineide, Glória atravessou a linha e seguiu à esquerda, paralela à
estrada de ferro, revendo o que tinha sido em sua infância a grande horta do avô. A
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bela terra roxa encravada de canteiros, o ar cheiroso de cebolas, ela e Alberto
ajudando. Vai na mina encher a moringa, seu coração sobressaltado de medo das
lagartixas parecendo cobras... pencas de banana-roxa, résteas de cebola e alho na
casinha baixa. Vome limpa, Alberto se punha de quatro, o avô regulava o jato da
mangueira se divertindo: pronto. Da sua mão o pessoal da Rede comprava lotes que
ele vendia pro coronel Dorvil. Corria o dedo no mapa, ajudava a escolher, chamava
Glória e Alberto pra medir o terreno. Os dois meninos seguravam a trena pra ela no
cerrado cheio de frutinhas, a macega cheirosa com borboletas. Ele com carinho e
pito: mas não vai ser professora? Glória, mocinha, não sabia cubar o terreno, em
apuros com o avô querendo achar a área do lote onde moravam, um chão
acidentado, o fundo fazendo geometria sem nome conhecido, um triângulo aleijado,
de que o avô queria saber a área pra acerto de escritura e papéis. De tempos em
tempos lembrava-se de cubar o terreno’, Glória desgostosa, contas e mais contas,
não acertava, logo ela que estudava no Ginásio, com a obrigação de saber a
especiosa coisa.[...] O avô desapontado, todos desapontados, porque a futura
professora não entendia de cubar aquele barranco ingrato. Enfim, admitiram para
alívio da menina, é mesmo coisa custosa, serviço pra agrimensor, pode deixar’... O
‘avô da horta’, pondo pimenta pra curtir. Que cheiro ruim, vovô, tem que pôr
vinagre? Então mija no vidro, menina chata. O ótimo dia que chegou da loja com o
rádio desembrulhado debaixo do braço, o rádio Piloto que entronizou no guarda-
louça, falando uma semana sem parar que não perdêssemos a cantora Isaurinha
Garcia, a maior cantora do Brasil.[...] (CV, p. 76,77)
As lembranças de família não se restringem aos pais e avô, incluem mais parentes,
amigos, vizinhos até o animal de estimação. Cada família tem uma maneira de ser, “um
espírito seu”, lembranças e segredos que não passam das paredes domésticas. Essas
‘peculiaridades’ tornam esse grupo coeso, estabelecendo nculos que atam o indivíduo à sua
família e valorizam a diferença de cada um dos seus membros.
[...] até meu tio pode. Ele, pode ser senhora ou senhorita, convida a sentar é assim:
abunde-se. É muito engraçado, porque é mido e sensível. [...] Na minha família
todos são de muito chorar, até um coral fizemos. [...] Às vezes me flagro sentada,
um modo de inclinar a cabeça, próprio do pessoal do meu avô materno [...] (SC, p.
83, 84) / A fala monocórdia de tio Melquias garantia a segurança de domingo. (FIL,
p.38)
O que é enfatizado por Bosi (2004, p.425-426), ao dizer:
Vai-se formando de cada um, em s, uma imagem complexa e rica de nuanças
capaz de abranger mudanças de comportamento que parecem inexplicáveis aos de
fora. Temos de um parente a imagem prescrita pela sociedade com seus respectivos
papéis: o irmão, a mãe, o pai, com regras de desempenho que devem ser seguidas. E
outra imagem mais espontânea e sensível, sempre em reconstrução. Não é raro que
as duas concepções se confrontem e uma faça ver as deficiências da outra. A
imagem social já fixada pode ser minada pela escavação de uma experiência pessoal
mais rica e profunda. Os parentes se afastando e morrendo, as testemunhas
desaparecendo, a imagem empalidece, as lacunas crescem. Em cada fase da vida vão
se alterando de leve os traços do parente em nossa lembrança.
Nessa memória de infância e família também estão presentes tios e primos. As
lembranças do grupo doméstico persistem matizadas em cada um de seus membros.
94
Tia Efigeninha, ire comadre do meu pai, padrinho do Benedito, primo da minha
idade. (FIL, p. 37)
Mal respondendo ao meu ‘benção, tia’ ela destampou emendando: tá sabendo que eu
fiquei doida? (FIL, p. 47)
Tia Mona e tia Virgínia ficavam sempre juntas e adoravam a hora dos pedidos,
porque se julgavam umas católicas muito finas e trocavam cotoveladas e olhares
quando a pobre da Concessa pedia uma ‘graça particular’, querendo ser fina como
duas zombadeiras.Particular, sei ta pedindo é pra casar, diziam as duas.Também
loucas pra casar[...] (FIL, p. 85, 86)
Só a influência de Glória sobre Neusa sua prima impediu que ela comprasse por uma
fortuna a coleção de discos com mensagens espirituais. Neusa era maçante, literária
e boa, da espécie que provocava em Glória ira e em seguida remorsos. (CV, p.91)
Por que era tão triste a casa de tia Celina, aquela casa limpa e cheia de folhagens?
Celeste é doente, está certo, mas em tantas casas de doentes tinha visto alegria. Tia
Celina reza, e Anésio também e Luís e Odete e Celeste e Celininha. [...] Luís tinha
roupinhas, bailinhos, namorozinhos sem horizonte. Era tudo pequeno, o emprego da
Odete, a ambição de Celininha. Só amargura era grande. [...] Glória e Matilde
conversavam sobre os tios. (CV, p.98, 99)
Minha prima Aparecida quer porque quer um barracão de laje, neste mundo ainda.
(SC, p. 23)
Tia Dalica ralhava, dando bons conselhos, passeando comigo mais meu irmão
Tavinho, mostrando a natureza [...] (SC, p. 45)
Num trecho que narra um reencontro com as amigas da infância, a narradora assusta-
se com a imagem delas. Moisés (2006, p. 184) explica dessa forma esse reencontro com o
passado:
É o que nos acontece quase todos os dias: sempre que voltamos ao lugar da infância,
reassistimos aos filmes da primeira adolescência, revisitamos a escola das primeiras
letras, reencontramos um amigo de infância, relemos o poema que outrora nos
fascinou é fatal a decepção: já não somos os mesmos, e enxergamos tudo com os
olhos de hoje. A velha sensação, que era de nós próprios diante do objeto,
desapareceu, para dar lugar a outra, de insatisfação, porque mudamos radicalmente,
num processo incessante até a morte.
É o que faz a personagem Glória em Cacos para um vitral: examina criticamente as
amigas e vai formando uma imagem dela mesma, mas busca no tempo uma outra imagem
perdida no passado, melhor e mais agradável, trazendo-a de volta ao presente.
Glória encontrou Elba no varejão. Mesmo com a cara castigada, avó de netos, era
bonita, da beleza que acende homens. Glória encontrava Elba, Solange, Marcília, ao
primeiro olhar assustava-se, estaria, ela também, tão velha? À medida que
conversavam, olhando-as atentamente, o rosto antigo delas aparecia, desvanecendo o
choque do primeiro momento. Elba, Solange, Marcília e ela eram de novo quatro
95
meninas indo para a escola, tão bonitas de juventude e inocência. [...] Elba falava
dos filhos. Glória tinha pensamentos bíblicos que redimiam as rugas e as cebolas
que ambas carregavam. Sentiu desejo de patins, maiôs, vestido de baile. Chegou em
casa, fez máscara de cenoura e pôs no rosto [...] (CV, p.97,98)
Na constituição da memória familiar, são importantes os contatos com outros grupos.
Uma família pode ter morado longos anos num mesmo lugar, formando nculos estreitos
com a vizinhança, o que comprova o dito conhecido popularmente: “o vizinho é o parente
mais próximo”. Desse modo, se tornam amigos, compadres, compartilham momentos de suas
existências deixando lembranças que se confundem na memória dos acontecimentos do
núcleo familiar.
[...] apunhalada com a morte da vizinha de tantos anos, vizinha de cerca que ontem
mesmo, falou dona Cessa, fez três grandes encomendas de pastéis. (CV, p.8)
[...] dona Zi era boa, trinta anos vizinhas sem uma malquerença, por pequena que
fosse. (CV, p. 9)
meu avô padecia disso e virou anedota em casa imitar nosso pai em lágrimas,
contando a peleja de quando compadre Jerônimo ficou mal de vida e resolveu fazer
uma fábrica de vassouras no fundo do quintal. Primeiro acabou com o galinheiro,
pra ter onde botar a fabriqueta, ocasião em que nos regalamos com inacreditáveis
galinhadas, pois levou logo três das mais gordas pra nós. [...] Apesar do compadrio
deles conosco, achava esquisito mandarem três galinhas de uma vez, três vassouras,
uma travessa funda de macarronada, parecendo que o pai e a mãe eram baroneses e
eles um não sei quê. O pai presenteava também, mas coisa de confiança, um pedaço
de fumo de rolo, um cacho de bananas, coisa leve e a mãe me desorientava de
felicidade quando mandava: chama a mercezinha pra vocês comerem um puxa-
puxa. Não durou três meses a fábrica. Mudaram de casa e de ofício[...] (FIL, p. 114)
O animal de estimação é, muitas vezes, tratado como se fosse um membro da família.
Por isso, faz parte desse universo de lembranças da infância e da vida adulta também. São
momentos compartilhados como elementos enriquecedores da existência. É muito comum ter
um cachorro em casa, especialmente no interior, onde as pessoas moram em casas com
quintais e criam bichos. Ter um cão de estimação significa também modificações no cotidiano
de uma família, pois essa convivência implica trabalho para o dia-a-dia, como alimentação,
asseio e outros cuidados, mas o animal também suscita nas pessoas relações de afeto. Um
cachorro requer cuidados, é dependente; por outro lado, ele retribui a atenção e os cuidados
recebidos com carinho, dando e permitindo o exercício do afeto. Isso prova que os homens
são capazes de estabelecer, com outros seres vivos, laços de afeição e carinho. Assim, a
capacidade de amar define a própria condição do ser humano, assim como a capacidade de
reter elementos na memória.
96
(...) era cachorrinho feioso, o meu, preto, com duas manchas amarelas na testa,[...]
O Zuleigo era diferente, cachorro educado, podia saber, se ele choramingasse
relando as patas na saia da minha mãe era porque os porcos tinham arrebentado com
a cerca e estavam correndo na direção da mina pra fuçar. Minha mãe dizia assim:
vai lá, Zuleigo, e toma conta. Ele baixava as orelhas, saía tinindo e entortava os
porcos de volta pro chiqueiro. Quando caíam no buraco que eles mesmos tinham
cavoucado, o Zuleigo empacava na vigia ao pai ou a e tomarem o expediente
de tirar os porcos de lá. Era até engraçado o Zuleigo de soldado sentinela. [...] O
Zuleigo morreu porque um vizinho nosso tinha cachorrada de caça que mordeu nele
até matar. [...] O Zuleigo, quando minha mãe não estava em casa, chamava meu pai,
ia no serviço dele avisar que os porcos furaram a cerca, esperava a ordem e saía
tinindo pra tocar eles de volta.[...] igual o Zuleigo eu nunca vi mais não. (FIL, p.
15, 16)
Os objetos de uso cotidiano podem ou não ser muito expressivos. Eles podem ser de
algum modo os guardiões da memória. Tornam-se peças, como vasos recipientes de uma
história da percepção, da sensibilidade e da formação das emoções...
A memória de uma família é constituída, também, por objetos que representam uma
experiência vivida, uma história de algum membro familiar, ou, ainda, por envelhecer com
seu possuidor e assim se incorporar à sua vida. Há o relógio da família, jóias, cristais,
porcelanas, mas também “coisas” preciosas e de valor inestimável, por trazerem de volta
alguma lembrança: uma caneca, um terço, a colherzinha de infância, uma foto. Todos os
objetos, valiosos ou “preciosos”, acompanham as pessoas, dão-lhes a impressão de
continuidade. Quando perdidos, perdem-se também com eles o testemunho das vivências e
histórias passadas. Os objetos funcionariam como a madeleine de Proust (1999),
desencadeando o processo de rememoração de cenas do passado, outras vezes compondo o
cenário da lembrança.
[...] enquanto olhava o álbum. estava ele fantasiado, saiote de viva cor, tiara,
colar de dentes e lança. Sorria como o vira sorrir antes que a vida lhe vincasse a
testa. Pois é, ele me disse, não acredito, até hoje não acredito que esse dsou eu.
Estaria tão distante de si mesmo que lhe custava assim reconhecer-se?(p. 25) nossos
pais conversavam na sala e porque éramos parentes, não sentia vergonha da música
da manivela moendo o café atrás da porta.(FIL, p. 38)
O indivíduo que recorda é o memorizador que reteve objetos das vivências passadas
que são, só para ele, significativos dentro de um tesouro comum.
Também sabemos, por experiência própria, que duas pessoas sentem de modo
diverso o mesmo objeto, e por isso guardam dele impressões por vezes opostas.
Uma delas tem reação pronta, imediata, como se desprovida de maior sensibilidade,
enquanto a outra contempla e “sofre”, quem sabe sem perceber o alcance do fato que
vivencia. A marca será diferente para cada um, porque seu tempo interior segue
ritmos específicos. (MOISÉS, 2006, p.184)
97
Nos dois trechos a seguir, as personagens estão envolvidas com objetos comuns, de
utilização cotidiana. Tais objetos, para elas, parecem ter um valor especial, diferentemente
talvez do que teria para outra pessoa.
Peça que achava bonita era cinzeiro. Tanto fez que comprou um na moda, uma louça
fosca, parecia mais a castanha dum coco. Pus na mesinha de centro, mas o pai
costumado sem esses luxos jogava a cinza era no chão mesmo. Eu tinha muita
vergonha do cinzeiro ficar limpo porque então não dava o toque’. Quando vinha
visita era bom, o cinzeiro ficava cheio e eu tinha cuidado de, arrumando a casa,
conservar ele com a cinza. Hoje fico é aflita com cinzeiro sujo, penso de outra
forma.(CV, p. 92)
[...] um aparador de vasilhas, feito com tela de arame [...] Não gostava de casa sem
aquele adendo, pensando logo que o dono era um insensível [...] não importava meu
próprio pai não fazer a peça em nossa casa, que sabia ser aquela uma necessidade
e exigência das mulheres. (FIL, p. 37)
Fatos inesperados, como a expectativa por receber uma visita ‘importante’ e as coisas
planejadas não darem muito certo, também deixam suas marcas na memória. Nesse caso, o
que foi desconcertante, frustrante ou decepção, naquele momento vivido, é revivido, hoje,
com um sentimento bem diverso daquele. O mal-estar daquele momento é visto com bom
humor, o acontecimento, agora revisitado, é engraçado.
A visita chegou, simpáticos, e para meu infortúnio, chiquésimos, tudo o que faziam
ou diziam achava condescendente. Esforcei-me e, depois do jantar, quando
estávamos na sala – eles vendo televisão como nós – a senhora deu um grito
agoniado: olha, olha, olha o camundongo. Não falou rato, mas camundongo. O
marido comportou-se à altura, como um inglês de cepa. Quase morremos, eu e o
Teodoro. Havia, antes de irmos para a sala, acendido o forno para fazer umas
torradas que eu serviria com chá. Pois de saiu o rato. Com o forno sapecando-lhe
o pêlo, com tanto lugar na casa, achou de comparecer na sala. Alguém me
ajuda?(FIL, p. 148,149)
A emoção que emerge no presente permite ao indivíduo situar-se no tempo e espaço
do passado e, assim, pode-se reconstruir através da memória, e a partir de pequenos
fragmentos do cotidiano, toda uma existência. “Às vezes, quando as coisas pegam a ficar
agoniadas demais, me agarro numa lembrança que mesmo ela pra me organizar a coragem
[...]” (SC, p. 46)
98
3.3 Em busca do tempo e do espaço perdidos
A noção de tempo implica a noção de espaço; o contrário também se dá, que todo
espaço vincula-se ao tempo que nele transcorre. Os dois se conjugam, a exterioridade
(espacialização do tempo) e a interioridade (temporalização do espaço). Esse misto de tempo
e espaço faz o caminho da memória.
Enveredando por caminhos aparentemente percorridos, é a memória que faz
percebê-los, agora, com outras significações, nas múltiplas faces que adquiriram com o passar
do tempo e com os deslocamentos espaciais. A memória permite que se aproprie de um
tempo-lugar, de muitos dos seus acontecimentos, de fatos e de suas imagens. “É uma
memória viva, capaz de unir-se à imaginação”, diz Fontenelle, e acrescenta ainda que “a
historicidade da memória do espaço adeliano integra ficção e realidade, divino e humano,
resultando em uma relação espaço-temporal contaminada pela essência do poético.” (2002,
p.107)
No ir e vir das recordações, as pessoas são projetados no tempo que é passado e no
espaço que foi vivido. Esse passado, como tempo vivido, pode ser reconstruído a partir das
lembranças trazidas ao presente pelas sensações. São trazidas à tona sensações já vividas e
então se recria e reconstrói-se passado, mas filtrado pelos indivíduos. Fontenelle (2002,
p. 108) diz que o tempo adeliano é viagem, um modo de ir e vir porque é o eterno.
Poulet (1992, p. 17) vai dizer que a busca não é somente do tempo, mas também do
espaço perdido. E compara, ambos, tempo e espaço, às contas de um colar que se desfez.
Metáfora para o fracionamento dos seres que são fragmentos em uma totalidade.
Uma das causas dessa fragmentação é o caráter intermitente da memória, e, de modo
geral, de todos os sentimentos. Há de se procurar as informações que fazem falta aos
indivíduos nesse tempo perdido para que se reencontrem.
Voltando, mais uma vez, à metáfora do “vitral”, é como reconstruir a partir dos
“cacos”, partes da existência humana, do que sobrou consciente ou inconscientemente na
memória. Essa reconstrução resulta em uma ficção apresentada como verdadeira, ou, no caso
de Adélia, seria mais uma verdade apresentada como ficção? “À narração da própria vida é o
testemunho mais eloqüente que a pessoa tem de lembrar. É a sua memória.” (BOSI, 2004,
p. 68) Fato é que realidade e ficção misturam-se, porque, na memória, às lembranças reais
juntam-se as lembranças fictícias.
99
Essa narrativa dos acontecimentos que compõem o dia-a-dia é o resultado de uma
construção que assemelha o mundo lingüístico do texto com a “vida real”. A pormenorização
do cotidiano é explorada através do fluxo de consciência e baseada nas reminiscências fixadas
na memória. O tempo construído pelo discurso apresenta-se, na realidade, fragmentado e
submetido ao fluxo da consciência de quem narra uma história.
A narrativa apresenta uma ficção que existe como se fosse real, e apresenta
fragmentos da vida e seres humanos “reais”. Segundo diz Reuter (1996, p. 151):
O efeito do real se apóia também em retomadas de indicações espaço-temporais
comuns ao texto e ao extra-texto (recorte cronológico, datas, horas, lugares...) Ele
serve também, com muita freqüência, de um emaranhamento entre História e
história do romance, por intermédio de personagens “referenciais”, que aparecem no
texto em meio a personagens fictícias, a acontecimentos marcados pela História que
constituem balizas, a lugares onde se desenrolaram essas ações. Este dispositivo
explica a recorrência de nomes, de lugares ou de pessoas, favorecendo um
sentimento de identificação entre ficção e real.
Espaço e tempo encenados nessa “narração prosaica” podem ser apreendidos nas suas
relações com o “real”, dando a impressão que eles o refletem. Para ilustrar, tome-se o conto
“Crônica ligeira de BDL”, que narra as lembranças de um lugar. O trajeto dessa memória traz
de volta pessoas, acontecimentos e o espaço onde estes ocorreram. A descrição feita das
pessoas, do lugar e dos fatos do passado mostra que esses elementos ocupam um espaço além
do lugar, marcam o espaço da emoção, das dores e alegrias trazidas por essa vivência.
BDL, que significa beira-de-linha, lugar do meu nascimento, era degenerável. Quem
aprendesse a andar, atravessava os dormentes dava no botequim. O Lucrécio bebia,
o Louro irmão da Fia bebia, o Edgard do Romão bebia, o Edgar Preto, que
suicidou horrível no teto baixo da cozinha, bebia, a Nazaré bebia, o Trombada bebia,
o Jupira que pôs placa de Casa familiar na casa dele, bebia, a mulher dele bebia, o
Bené bebia, a Bernardina bebia, o Tõezim, que tocava violão com perfeição desde os
doze anos, bebia. Até meu pai, uma vez, pra agüentar as realidades do enterro de um
moço que veio podre de febre da Bolívia, bebeu. Até eu, que tive gripe asiática e
ensinaram que era bom, bebi. Bebiam as locomotivas, de farra com maquinista e
foguista. Descarrilhavam. Galinhas tontas morriam nos trilhos. Nem parece que
nunca estive em Paris, tão cheia é esta minha estória. Em BDL tive raivas tão
grandes, que fiz rolar uma pedra. Fui dormir umas vezes tão feliz, que, se soubesse
minha força, levitava. Em outras, tanta foi a tristeza que fiz versos. Os padres
pelejaram em BDL, eu pelejei. Vi os crepúsculos mais tristes, a poeira mais grossa, a
lama mais sem conserto. Mortes e enterros [...] Uma parte de BDL é lembrança
conservada no álcool. (SC, p. 113-114)
Se o lugar é onde as pessoas crescem e se formam para enfrentarem o que de vir,
tempo e espaço supõem ligações com as origens e, então, com o passado, onde se buscam os
princípios identificadores, elementos integrantes da memória.
100
As indicações de tempo e lugar constroem a impressão de que as histórias narradas são
verdadeiras. Esse realismo apresenta-se como partes da vida extraídas da história de pessoas
reais. Desse modo, o tempo é dotado de um antes e um depois, que existem fora do espaço da
narrativa e que remetem o texto a algo passado (lembranças, recordações familiares, ‘causos’,
acontecimentos anteriores...). Isso implica personagens e cenas típicas que, segundo Reuter
(1996, p.151), têm a função de justificar essas informações: médico, padre, amigo da família,
amigo de infância, vizinhos, cenas familiares como almoço, enterro, casamento, Natal,
aniversários...
No caderno de Glória, escrito em 26.11.72: eram umas nove e meia da noite quando
a enchente enlameou o barraco da Ção Preta. (CV, p.91) Glória e Gabriel passeavam
em Belo Horizonte quando viram [...] (cv, p. 73) Na entrevista com os Senhores
Romeiros,em Aparecida do Norte, o padre confundindo ele com fazendeiro de posse
peregrinando com a família. (CV, p. 64 )
Os lugares caracterizam a narrativa como real, porque a descrição, os elementos
típicos, os nomes e as informações que remetem a um saber cultural são recuperáveis fora do
espaço da narrativa. Na prosa de Adélia, muitos lugares recuperados pela memória nas
histórias narradas são cidades marcadas no mapa de Minas Gerais.
Quero sair daqui e trabalhar num escritório em Bambuí. Por que Bambuí,
filha?(p.25) [...] Desastrou o carro perto de Juiz de Fora, ficou esparramada na
estrada[...](p. 60) a ida com Gabriel em Capitólio [...] (p.97)... o rapaz foi em
Capitólio no casamento do primo e ficou conhecendo uma moça por nome
Mariinha. Casou com ela e vieram morar em Campos altos...[...] Sanica falava
Campos Altos e Glória pensava[...](p.100) Com o pai e Gabriel na janela de sua casa
em Bom Sucesso[...](CV, p. 105)
Diamantina é ali mesmo. O mundo é ali mesmo. A vida é num instante. Espero.
Mesmo que não venha, já chegou. (SC, p. 112) (grifos meus)
Interessante observar que as cidades pertencem a uma mesma região ou estão bem
próximas, o que caracteriza um conjunto de características comuns, como hábitos e costumes
de um povo. Dessa forma, focaliza-se o espaço como região delimitada (espaço geográfico),
com suas características singulares (mito da “mineiridade”), bem retratadas na prosa de
Adélia como conhecedora in loco e, por ser, ela também, uma habitante da região.
Todos tiritavam: nunca vi tanto frio como em junho deste ano! Celebrávamos Santo
Antônio e os muito doentes mesmo, ou os declarados ateus, não iam ao Santuário
que ficava lotado. De primeiro a treze de junho rezávamos a trezena e os santo
antoninhos contrapartida das coroadeiras de maio– entravam ao final da missa,
vestidos de frade, para levar os lírios[...] A cada ano o mesmo encantamento, sua
curta vida relatada dia por dia[...] (FIL, p. 85)
101
O espaço referência, onde se desdobram e se repetem os gestos elementares do
cotidiano, é, antes de tudo, o espaço doméstico, o espaço da casa, valorizado como um
território pessoal e privado. É a partir desse microcosmo familiar que se guardam na memória
lugares e pessoas de um tempo passado. A cozinha, a sala, o quarto, o quintal..., o lugar
seguro, do descanso, da reflexão, das vivências afetivas, das explosões...
Várias vezes por dia fico de boca aberta para ter um descanso. Não acho graça em
quase nada, em dez minutos esgoto qualquer passeio e quero voltar para o meu
quarto. (FIL, p. 9)
[...] Estou sentada em minha cama, em semi-obscuridade e me percebo com a cabeça
entre as mãos...(FIL, p. 17)
Na minha cama, depois que Neneca dormiu, foi a minha vez de saborear tudo,
economizando ponto por ponto daquela história[...](FIL, p. 30)
É no espaço íntimo da casa, espaço por excelência feminino, que o eu lírico do sujeito
adeliano se manifesta. A localização geográfica dessa casa, embora com práticas cotidianas
universais, situa-se no Brasil, no interior do estado de Minas Gerais. A visualização desse
espaço é recorrente em Adélia.
minha mãe maquinando com[...] meu tio, pra me mandar pro hospício em Belo
horizonte. (p. 108) Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do
Estado.(FIL, p. 119)
Em São Paulo pareço mais nova ou mais velha, de modo diferente do que pareço
aqui na minha terra. Por isso fico aflita pra voltar dos centros grandes e olhar minha
cara no espelhinho que eu gosto.(CV, p. 33)
Foi quando Júlio começou a sofrer no cursinho em Belo Horizonte que seus olhos se
abriram.(CV, p. 69)
O pai tá pra Belo Horizonte tirando chapa que o doutor mandou.(CV, p.105)
A metrópole é evocada constantemente como o lugar diferente da província, Belo
Horizonte representa a grande cidade, principal centro do estado, onde se concentram os
grandes hospitais, escolas, comércio, novidades e o centro burocrático e administrativo da
vida em sociedade. “Quando era professora de grupo, volta e meia ia em Belo Horizonte
desencrencar papéis e ficava olhando as professoras na fila[...]Zanzava pra baixo e pra cima
na avenida Afonso Pena, tomava coquetel [...] (CV, p.10)
a província, cidade pequena, interiorana, representação de atraso em relação ao
progresso, contrasta com a modernidade da metrópole.
102
Por causa do que via em Partidário, Glória escrevia a Dom Calixto: Por amor de
Deus, mandasse pra lá um padre que parasse junto do povo. Pregador que aparecesse
no Partidário prometendo curar berne e coceira levaria o povo pelo bico [...] (CV,
p..96)
[...] a ida com Gabriel em Capitólio, o crepúsculo, a noite, a serra com nus
brilhando, a dupla de caipiras se esgoelando. (CV, p..97)
Contudo, a província é o lugar ao qual pertence o eu dessa prosa poética: “Viagem
feliz de nascer, viver e morrer e ir pro céu, pegar o ônibus em Belo Horizonte e chegar são e
salvo em casa.” (CV, p.80)
Adélia, além de situar-se na província, reinveste seus elementos em signos de
imanência. A esse respeito, Fontenele (2002, p.114) comenta:
À província, (valorativamente negada pela modernidade, visualizada como signo do
atraso, representada como margem, como uma espécie de “fim” ou de “resto” do
mundo, além de condenada ao anonimato geográfico) as personagens vão conferir
visibilidade, tirando-a do isolamento em relação aos lugares que, socialmente, são
tomados como seus outros, (ou seja: como código referencial ou modelo ideal: e,
não apenas, como simples alteridades) outorgando-lhe, também, uma particular
universalidade.
Essa universalidade supervaloriza o cotidiano, enriquecendo o tempo e o espaço,
porque consegue ultrapassar a banalidade dessas práticas cotidianas: “Uma esperança que de
Minas Gerais dá pra escutar até em Nova Iorque.” (CV, p.65). “Minha mãe nunca foi em Belo
Horizonte e a vida dela foi um microcosmo.” (SC, p. 8)
As funções dos lugares são múltiplas, eles são urbanos ou rurais, passados ou
presentes, privados ou públicos, eles se organizam, formam sistemas e produzem sentidos.
Fontenelle (2002, p. 106) completa essa idéia quando diz que:
o habitante do espaço poético-ficcional de Adélia Prado [...] é possuidor de um
lugar no universo, um país, um domicílio;ou ainda, de lugares subjetivos; tem pai,
tem marido, filhos,namorados. Possui crenças, sob a forma de religião; enfim trata-
se de um ser de múltiplas referências, portanto, sempre seguro de sua localização
física, social ou subjetiva.
As histórias narradas e as ações habituais dos moradores referem-se sempre a lugares
inseparáveis dos eventos neles ocorridos. A casa, a escola, o hospital, o consultório médico, a
igreja, a praça, as ‘vendas’ (armazéns, botecos...), a vizinhança, o bairro, todos compõem
cenários para as cenas cotidianas que ficam gravadas na memória.
Viu da janela do ônibus o Gil Canedo no Bar/Bicha, rodeado de rapazinhos.(CV, p.
21) No canteiro à porta da cozinha de tia Madelena [...] Achou Jucineide chorando
alto no quintal (CV, p. 52) Os meninos discutiam na cozinha por causa de um
103
refresco (CV, p. 66) Glória fora uma vez à Igreja Batista a convite de dona Zilá.(CV,
p.72)[...] da ruindade que era casamento, casamento que ia ser um céu, como
pensava, de mãos dadas com ele em frente ao armazém Paris e não era céu, exilada
de sua terra, da cachorrinha Lolô, do espaço entre a goiabeira e o tanque, coisas que
aquela cidade de nome ridículo não tinha. (CV, p.83,84) O doutor não fechava a
porta do consultório[...] (CV, p. 94)
Andava comigo na beira do Ribeirão. (SC, p. 39) [...] depois do que vi na casa do
meu tio, nos arredores da maior cidade do Brasil. (SC, p.54) Saiu da Igreja, achou
Anselmo na praça esperando por ela.(SC, p.92)
Acordei no hospital, o médico me segurou lá por sete dias. (FIL, p.47).(grifos meus)
Essas referências constituem uma forma de situar, de produzir um espaço para o ser. O
ser é, porque ocupa um espaço. Oliveira e Santos (2001) reiteram Fontenelle (2002), quando
dizem que, se é criada uma personagem, será posicionada relativamente a outros elementos do
texto. Desse modo, é situada nas relações do espaço físico (geográfico), temporal (histórico),
social (relações com o outro), existencial (psicológico) e lingüístico (formas como é expressa
e se expressa) e que são coordenadas que erigem a identidade do ser.
Espaço e tempo são rearranjados pela memória como o espaço-tempo do
desdobramento de vivências. Assim, casas, quintais, ruas, bairros, cidades tornam-se locais
privilegiados para a emergência das recordações.
As indicações temporais, de modo similar às marcas de lugar, podem situar o texto
como se fosse real, quando elas são precisas e correspondem a divisões, calendário ou
acontecimentos comprovadamente históricos.
O tempo é estruturado por oposições, como aqui/lá das indicações espaciais, e
articula-se como agora/ontem, que se destacam na memória como presente/passado. “Antes,
quando era mais pitimbada, sapato novo era manqueira, calo d’água e sofrimento, aquela
feiúra. Hoje não, compro sapato de qualquer moda, ando, ando, nem uma bolha não me
dá.”(SC, p.37) (grifos meus)
O tempo é organizado em torno de um acontecimento, com valor social ou privado,
preenchido por acontecimentos coletivos, centrados numa família ou num indivíduo.
“Três horas já, mãe, não sai café não?”(CV, p. 15)[...] bem no meio da novena do
Espírito Santo aconteceu tudo quanto foi azar dentro da igreja!(SC, p.31) Com dez
anos de casamento ainda recebo carta dela assim: continuo uma geladeira. Dez anos?
Isso tudo? Não apavora não. (CV, p.46)
Contudo, o tempo que prevalece na narrativa dessa prosa poética é o da memória. Um
tempo que é interior, sem medida e em constante devir, é o tempo da duração emocional. Essa
104
narração da memória é carregada de subjetividade, mas é um grande ‘acervo’ de experiências
e vivências pessoais que constituem esse sujeito que narra o que o ser humano traz dentro
de si.
Essa memória pressupõe um tempo descontínuo, em que a noção de passado/presente
desaparece porque o tempo interior não é rigoroso, transcorre numa ordem determinada pelo
desejo ou pela imaginação do narrador ou das personagens, e sua essência está intimamente
relacionada ao conflito humano no dia-a-dia de sua existência. O passado existe se
presentificado pela memória, pois esta traz à consciência seus registros e traços . “Seria um
domingo bom. A mãe fazendo café com biscoito, Júlio e o pai enchendo folhas e folhas de
contas [...]” (CV, p.42)
Bosi (1994) esclarece que a memória é dividida por marcos nos quais a significação da
vida se concentra. “Começava dezembro e começava também o alvoroço na minha alma, a
cada ano e até hoje renascente. Primeiro as chuvas, mesmo as mais fortes, pacíficas, depois os
figos [...] Oh! Mês bendito, meu aniversário e o natal!” (FIL, p.151) A forte impressão
deixada por esse conjunto de lembranças é a duração do tempo que nelas se opera, recobrindo
as horas do relógio e impondo uma duração nova.”Há ruas inteiras de quaresmeiras floridas. É
tempo de penitência, diz o calendário litúrgico.” (FIL, p. 26)
O tempo é de resgatar a experiência, mas é também um tempo de elaboração que
distingue o cotidiano de uma mera vivência. “E por toda a vida viu neste episódio um grande
acontecimento, guardando-o como a um tesouro, sem saber mesmo por quê.” (FIl, p.133)
Ao romper a barreira do tempo, cria-se a possibilidade de resgatar a memória como
um ensinamento a ser re-utilizado. É que muitas das “impressões” e vivências marcam a
transformação e/ou o desgaste que a passagem do tempo provoca no sujeito.
Hoje faço coisas incríveis. Também estou velha e aprendi a arriscar (SC, p. 45)
Abaixou o espelho em frente da poltrona e resolveu olhar-se. A ruga vertical no
meio da testa, a cada dia mais funda. Amanhecia já com ela, como se tivesse
dormido a noite inteira com aquele ar preocupado. (FIL, p. 118) Sou humana, e,
quando era inocente ganhei um vestidinho roxo pra me conformar ao sofrimento de
Cristo. Hoje não é mais preciso, me visto das minhas dores e basta esta violeta para
que eu chore meus crimes. (FIL, p. 124)
É um tempo cíclico, “Dezembro volta.” (FIL, p.152), como uma sucessão de etapas
em que a história do indivíduo é dividida em períodos (o casamento, uma paixão, a perda de
pessoas amadas etc.). Mas não se consegue fixar tais divisões na data de um tempo exterior; é
como viver todos os dias o ciclo noite e dia. No entanto, para cada um há um sentido
diferente.
105
O natal começara. Comadre Efigeninha armou o presépio, o pai falou, amanhã
passamos lá. Dezembro transbordava de mim, meu aniversário, o presépio com as
pedras, o capim de arroz brotando das latinhas, ai meu Deus, a areia mais fina e
branca, tão bom como ver nas calças apertadas as pernas do menino rico. Minha mãe
tirava a lixa dos figos e meu pai queria saber quem mexera de novo[...] Estão mortos
ele, a mãe, tia Efigeninha e até Benedito[...] (FIL, p. 152)
A morte desses parentes encerra uma etapa da vida, passou, as pessoas que viveram
com esse eu que narra não existem mais, a não ser na história reconstruída pela memória.
Foi naquele tempo...
Essa narrativa do cotidiano ancorada na memória constitui-se em possibilidade de (re)
construção da imagem e da identidade. “Adma hoje me perguntando o mesmo que
quarenta anos me pergunta sem sair do lugar. Logo hoje, eu tão enjoada[...]”(p. 143)
“Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje não. Quero vinho de
todos os barris.” (SC, p. 105)
Enfim, essa busca pelo espaço-tempo perdido acaba numa redescoberta de si mesmo
(identidade) em meio aos “cacos”da história de vida. “Mudei em alguma coisa sim. Tempos
atrás pedia tira meu medo, Deus. Hoje digo, estou com medo, meu Pai, me abraça.” (FIL, p.
79) Um minuto de estrondo à idade reencontrada[...] porque hoje sou de novo uma
mulher[...](SC, p. 41)
A literatura de Adélia é como uma extensão do corpo da memória, compreende que a
experiência poética também é experiência mítica que transcende a escrita e a memória,
manifestando-se como um sentimento de estupefação e de êxtase diante da vida.
Ô vida misteriosa!(FIL, p. 32)
Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daquele sai de
seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá,
homem, repara se viu céu mais estrelado e mais bonito que este? Para isto vale
nascer! (FIL, p.121)
A vida é perfeita. (FIL, p. 124)
Ô vida impossível de entender, boa demais. (FIL, p. 139)
Essa narrativa, por refletir a continuidade da vida, faz-se circular, contínua, sem fim.
Esse espaço-tempo interior percorrido pela memória, como visto, tem suas dimensões e seu
ritmo próprios e ordena o fluxo da vida (psíquica) em termos de percepção, representação,
memória, emoções e pulsões.
106
Embora sem constituir um enredo único e linear, essas histórias tornam possível ao
leitor percebê-las como tendo um encadeamento entre elas, realçando um tom intimista e
confessional na voz de um ser que deseja conhecer e conhecer-se numa busca possível do seu
eu como algo completo e inteiro.
107
CAPÍTULO 4 – UMA ESCRITA DE DESDOBRAMENTOS
“Vivo minha vida em órbitas crescentes, que se expandem para além de
tudo no mundo...talvez nunca consiga chegar à última, mas esta será
minha busca... Venho rondeando deus, rondeando a antiga torre e
rondeando por mil anos... e ainda não sei se sou um falcão, uma
tempestade, ou uma bela canção.” (Rainer Maria Rilke)
4.1 A questão existencial: Quem sou eu?
Este capítulo vai abordar questões relativas à constituição, à estrutura mesmo da
pessoa, do ser na sua identidade, alteridade e diferença, o ser que é uno e é múltiplo e que se
prolonga no espaço e no tempo.
Prolongar-se, ou melhor, desdobrar-se é visto como princípio estruturador originado
da própria caracterização de Adélia, eu lírico, narradora e personagem que se define a partir
do poema “Com licença poética”, assim: “Mulher é desdobrável. Eu sou.”
5
Esse desdobramento abrange dois significados complementares: a multiplicidade,
abertura para o outro, e a unidade, recuperação de si mesmo como ser inteiro, síntese de corpo
e alma.
Este ser, que busca uma resposta para sua angústia existencial através do
experimentado e do vivido, é um sujeito situado no tempo e no espaço da sua realidade
subjetiva. Interrogante sobre si mesmo, essa busca pelo Ser recai na relação do ser humano
com o mundo. Não eu que seja apenas eu, nem aqui que seja somente aqui, muito menos
agora que seja apenas agora, tal a circularidade e continuidade da vida. E a vida é o
cotidiano e nela o eu só existe nas relações e pelas relações com os outros.
Ao falar do cotidiano e da memória desse cotidiano, percebe-se a interação entre o eu
e os outros porque é nessa relação que o eu se acha situado. A lembrança torna-se o único
meio de conduzir o indivíduo até “versões” dele mesmo. E dessa forma descobrir, nessa troca
interpessoal que é o nosso cotidiano, a estrutura do Ser.
5
Último verso do poema “Com licença poética”, que abre o volume do livro de poemas Bagagem. (São Paulo,
ed. Siciliano, 1997, p. 11)
108
Sobre isso, Todorov (1996, p. 127) explica: “[...] à troca presente juntam-se trocas
anteriores antigas ou recentes, e possíveis trocas futuras tudo devidamente refletido no
psiquismo da pessoa que deseja o reconhecimento.” Para ele, esses encontros anteriores e
posteriores são capazes de transformar ações, hábitos, costumes e postura diante da vida,
porque estão correlacionados à multiplicidade interna do ser humano, no qual diversas
instâncias estão sempre ativas.
Quantos anos tem a humanidade? Que estou fazendo que ainda não desviei aviões,
dinheiro, vendi meu corpo a preço de banana? O tempo ruge. Quero vender é a alma,
virar comerciante, plantar dois mil pés de laranja, comprar adubos, arranjar um
caminhão pra pegar as frutas na chácara e levar pra São Paulo. Faço dupla sertaneja,
tenho um programa no rádio e só canto música de minha autoria. (SC, p. 9)
O autor apresenta essa identificação do ser múltiplo ao longo da história: sábios e
conhecedores da alma humana desde outros tempos fizeram tal distinção “o ser humano não
só é inconstante e volúvel, é também múltiplo”. Os românticos ficaram fascinados pela
imagem da dualidade, o homem e sua sombra. Já Willian James
6
diferenciava o “eu material”,
o “eu social”, o “eu espiritual” e o “puro eu”. O homem conhece contemporaneamente, o
inconsciente e o consciente, a que Freud conceitua de ego, id e superego.
Jung fala de si e de mim, de anima e de animus, de persona e de imago, observando
que, ao lado das imagens dos outros, que o indivíduo tem interiorizadas (imago), ele produz
uma imagem para os outros (persona, máscara, eu de fachada). Essas imagens, embora
inversas, coexistem, porque se mesclam: a imagem recebida (interiorização dos outros) e a
produzida (exteriorização do eu). (p. 128) Contudo, para o autor, apenas tal ou tal faceta do
ser humano é persona. Mas se sabe, por experiência, que é produzida uma multidão delas
conforme as situações e contextos vivenciados.
Nesse sentido, “o eu é o outro”. Ao que explica Todorov (1996, p. 137): “A
pluralidade interna de cada ser é a correlação da pluralidade das pessoas que o rodeiam, a
multiplicidade de papéis que cada uma delas assume, é uma característica que distingue a
espécie humana. Ao falar da palavra e da psicanálise em sua obra, Kristeva (1987,
p. 67-68) aborda a questão da descoberta do outro. “A descoberta do outro em si estabelece-
me primeiro em mim mesmo.” A humanidade, ainda na infância, se separada da mãe, não
pode sobreviver senão contando com o Outro: o pai. Uma outra face do ser humano procura o
outro no seu próprio discurso, “o outro está em mim: eu sou um outro.”
6
William James (1842-1910) psicólogo e filósofo norte-americano. Escreveu sobre aspectos da psicologia
humana, do funcionamento cerebral à experiência religiosa (explicada como experiência do interior
subjetivo,como entusiasmo individual ou sentimento de felicidade no contato com o divino).
109
Tais questões apontadas por Kristeva (1987) possibilitam um diálogo com a escrita
literária, uma vez que, à sua maneira, a literatura tem o poder de revelar “verdades”:
experiências, vivências, desejos..., que permitem, além do conhecimento de si mesmo,
também se conhecer o outro, tema associado, principalmente, ao fenômeno do
desdobramento.
Como mencionado, o cotidiano desdobra-se em ‘milhares’ de artifícios, e para Ser é
preciso desdobrar-se e dar conta” desse cotidiano. É na vida cotidiana que se encontram
múltiplos ecos seus... outros de si mesmo. O mundo compreende uma vida cotidiana na qual
o ser humano cria novas formas de sua presença a partir das experiências, é, pois, na relação
do sujeito com o mundo que se busca Ser.
Todas as pessoas prolongam-se no espaço e no tempo na tentativa de relacionar-se a
essa vida caleidoscópica. Vale salientar que o caleidoscópio permite que sejam olhadas
formas que estão constantemente mudando e criando novas combinações. A esse respeito,
Todorov (1996, p. 151) lembra:
Cada pessoa, já múltipla por si mesma, encontra pessoas o complexas quanto ela.
Cada aspecto nosso exige uma nova regulagem de nosso aparelho de contato social,
ou pelo menos uma readaptação. Portanto, existe em nós um admirável mecanismo
com muitas nuances de grande complexidade, possibilitando-nos orientar-nos
“automaticamente” diante de cada troca particular. Vivemos em constante e
permanente negociação e o comércio humano exige a convocação e a cooperação
das diversas instâncias do eu. Essas instâncias são intersubjetivas, isto é, produzidas
pela interação com os outros; nenhuma dentre elas provém das profundezas de nosso
ser individual. Não é apenas tal ou tal faceta de nosso ser que é social, é toda a
existência humana.
A questão da identidade, construída, múltipla e passível de atualização acompanha a
construção de um sentido para nossa trajetória. Retoma-se, então, a questão da memória, na
qual está ancorada a origem do homem e de onde provêm partes do processo de
(re)construção da história do nosso ser, envolvendo desde aspectos biológicos aos culturais e
englobando as memórias históricas, pessoais, coletivas e aspectos psicológicos, além dos
filosóficos.
Estar dessa forma situado no tempo e espaço – é base de sustentação para momentos
de crise, quando questões muito inquietantes afligem, como: “Quem sou eu?e “O que serei
após a morte?” Essas indagações projetam-se na arte e sugerem representações do
desdobramento do eu que simultaneamente pensa e é objeto de sua própria reflexão.
110
[...] assistia-se existindo, exaurida, desejando ser expulsa de si pra gozar a existência
como coisa, bicho e algumas pessoas parecem gozá-la.
[...]
Muitos anos mais tarde, muitos anos mesmo, num instante de graça, surpreendeu-se
tão absolutamente em si mesma que não tinha mais a consciência de si, um momento
em que escrevia. Sentiu-se visitada de Deus! Então é assim que se é. Eu também
sou, possuo um ser perceptível aos outros e não perigo de que me desintegre em
fragmentos de areia. Que belo dia foi aquele, o de sua epifania. Glória lembrava-se e
agradecia de novo, tinha um ser. Era ela mesma um ser. (CV, p. 38,39)
Ao buscar uma unidade interna, o eu faz uma espécie de viagem pela memória,
buscando sua “bagagem”, ou seja, os ‘eus’ que foi, vistos hoje pelo olhar do eu que é. Ao
refazer essa trajetória através da rememorização, faz uma (re) construção de si.
No mundo contemporâneo, fala-se, cada vez mais de identidades plurais ou
identidades em constante devir. O eu da prosa adeliana tenta reunir ao redor de um eu
coerente (possível?) as identidades diferentes, assumidas em diferentes momentos e em
função de variáveis: elementos nacionais, culturais, de gênero, de classe social, de posição
política e religiosa, enfim dos vários eus que formam o “sujeito mosaico” de nossa era.
Se eu pudesse ter mais um filho, seria uma coisa clara e definida a dor, o choro, o
morro de fralda suja. Mas não posso, por uma série de motivos. Não acreditava de
jeito nenhum que ficava velha, não acreditava mesmo. Não ligava pra sair, pra
passear, porque eu tinha uma falta de história que garantia. Era olhar pro oeste,
que beleza de tarde! Dos poentes que eu vi jamais me curarei. Quem sou? (SC,
p. 34)
Essa “falta de história” pode ser vista como falta de consciência de si, de
autoconhecimento, pois é pela consciência que o ser humano se define e se reconhece como
Ser: “Cega eu não sou, quando olho pra trás enxergo as demasias, sei o porquê de cada
cicatriz da minha alma circundada. Mas vou sobrevivendo. Sobrevivendo não. Soa herege e
sem fé. É vivendo mesmo e descobri porquê [...] (SC, p. 46)
A experiência do desdobramento, observável na prosa de Adélia, é parte das
dimensões da auto-experiência do ser humano como sujeito que se interroga sobre si mesmo.
Essa situação do ser humano como sujeito e sua auto-experiência são temas da Antropologia
filosófica, que busca definir as estruturas fundamentais do ser humano.
O discurso antropológico filosófico servirá de base para a melhor compreensão desse
eu adeliano, cuja voz busca a literatura como manifestação de um ser em crise diante do
mistério do mundo e da vida. “Tenho que imaginar em mim um jeito novo. Eu falo muito, eu
sei disso, mas é só porque ainda não achei minha forma.” (SC, p. 50)
111
Vale salientar que, de acordo com Lima Vaz, a construção sistemática da
Antropologia filosófica começa pelo eu, justamente na sua articulação dialética entre três
categorias: “o corpo próprio” (entendido como dimensão constitutiva e expressiva do ser), “o
psiquismo” e “o espírito”, ou, ainda, que as dimensões fundamentais da realidade na qual o
ser se situa como sujeito são o mundo, a sociedade (os outros) e o próprio eu.
Em cada uma dessas esferas observam-se três formas de relação (também dialéticas)
que constituem o homem em face da realidade: relação de objetividade, dada ao corpo
próprio; relação de intersubjetividade, dada ao psiquismo, e relação de transcendência dada ao
espírito. Desse modo, Mundo, História e Absoluto são os três termos das relações
constitutivas da situação do ser com a realidade.
Pelo corpo (físico, biológico, totalidade intencional) o ser está presente no mundo.
“[...] mas tenho um corpo e de algum modo ele se coloca no espaço, impossível não perceber
a importância essencial do corpo [...]” (FIL, p. 17). No entanto, essa presença, não é a
presença total do homem e nem implica a relação de identidade do homem consigo mesmo,
exprimindo o seu ser. Por isso, para se buscar essa identidade, é preciso ir além das fronteiras
do corpo: “Corpo, este hóspede estranho da alma. Tenho fome, ele diz ao espírito, necessito
descanso, grita a margem do desespero, não quero morrer, não me deixa morrer, me leva
contigo, alma piedosa.(FIL, p. 89)
O psiquismo aparece numa posição mediadora entre o corporal e o espiritual, pois é
onde começa o ser interior e onde começa a delinear-se a consciência de um eu. O psíquico se
organiza segundo um espaço-tempo que não coincide com o espaço-tempo físico e biológico
ao qual se liga o corpo, mas tem dimensões e ritmo próprios.
É tão surpreendente o figurino psíquico da Ester que não me admiro nada se ela,
bom, vou parar, aqui minha imaginação está inventando o Hamlet. Acho que
precisa de um psicólogo dos bons, com so de couro e mecanismo de encerrar
sessão sem olhar no relógio, Santa Maria!Em todo caso, como sua melhor amiga,
posso lhe adiantar que talvez o pai agisse assim porque, eh, eh, descarrilei de novo,
NÃO SOU PSICÓLOGO. Que mania eu tenho de analisar. (FIL, p. 22, 23)
O psíquico ordena o fluxo da vida em termos de percepção, representação, memória e
pulsões, apresentando, dessa forma, uma presença mediata do homem no mundo e do homem
a si mesmo mediatizado pelo mundo interior do próprio psiquismo. Mais claramente, o
psiquismo é o sujeito exprimindo-se na forma de um eu psicológico, unificador de vivências,
estados e comportamentos.
112
Sinto falta de uma boa missão, o que pode ser desculpa para fugir de chateações
miúdas que me põem de ânimo assassino. (SC, p.34)
Olha como vivo dilacerada (corto dilacerada, palavra bonita), olha como eu vivo
esbodegada de tanto bater a cabeça. De um lado o que eu quero: me tornar ALTER
FRANCISCUS. Não é ALTER CLARA ou ALTER TERESA, não, é Francisco
mesmo. (SC, p. 57)
Se não existisse para mim, quanto para Immanuel Kant
7
, a lei moral dentro de nós e
o céu estrelado sobre nossas cabeças, me avessava de vez. (SC, p.74)
o espírito é o nível no qual o ser abre-se necessariamente para a transcendência no
sentido de que é um ser estruturalmente aberto para o outro. A experiência espiritual é uma
experiência fundamental, segundo a qual o homem está presente para si mesmo e está
presente para o mundo.
Qual de nós estará mancando na engrenagem do mundo? (CV, p. 82)
Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem
autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era
platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo.Contra céu azul e cheiro de mato
verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do
mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. (FIL, p. 120, 121)
Assim, a forma especificamente humana ou a expressão e manifestação do ser
pertencem, na sua origem, ao espírito. É por esse meio que os outros níveis do estar-no-
mundo do homem elevam-se a uma presença propriamente humana ou a um ser-no-mundo.
“Só pelo espírito o homem opera humanamente e produz obras propriamente humanas”.
(2006, p.191.v.I) e, dessa forma, o espírito que implica vida, inteligência, razão, liberdade e
consciência-de-si pertence à estrutura transcendental do ser.
Eu gosto tanto da minha alma, fico admirada dela sobreviver sem minha mão curta
de unhas cortadas no toco. Minha alma gosta de música, chega ao extremo de bordar
com linhas de cores suaves toda a frente e manga de vestidos, tão diferente de mim a
minha boa alma. (SC, p. 84)
Se corpo e psíquico trazem o traço da finitude e dizem respeito à multiplicidade do
ser, o espírito traz a infinidade do Uno.
Era a pessoa mais infeliz do universo se não tivesse ressurreição da carne. Mas
porque tem, mesmo ficando velha e torta como tou ficando, eu saio assobiando e
pulando num pé só, de tanta satisfação. Corpo é fora de série. Veja se estou errada:
7
Immanuel Kant (1724-1804) filósofo alemão. Muito conhecido pela sua teoria sobre uma obrigação moral
única e geral, que explica todas as outras obrigações morais que temos. “Age de tal modo que a máxima de tua
ação possa tornar princípio de uma legislação universal”.
113
eu amo a Deus em espírito é com meu corpo, porque quem levita é ele, é ele quem
fica extático na montanha sagrada e recebe os estigmas e as tábuas da lei. (SC, p. 82)
Pior é que concordo: “Tu és e em te tornarás”, somos cinza, caminhamos no
inverso sentido de uma fênix. (FIL, p.10)
Os atos que especificam essa experiência espiritual manifestam-se em variadas formas
na história da cultura em suas diversas formas, como a religião, a arte, o saber, a vida social e
a literatura, entre outras.
A literatura de Adélia é, também, manifestação da experiência religiosa. A forma
especificamente humana ou a expressão e manifestação do ser pertencem originariamente ao
espírito, visto aqui como princípio interno da vida ou como forma superior de vida.
Dizem, o mais triste no passarinho engaiolado é que ele ainda cante, ou assim, que
na mesma: que é triste demais, por engraçado e insolvente, o homem rir de si
mesmo. Eu não e acho este pensamento demoníaco por falta de qualquer humildade.
A hora da tentação vem e passa, se recobra o juízo. Eu rezo assim, como Nossa
Senhora: Fiat voluntas tuas, eu rezo Senhor meu deus e meu pai, vós sois tudo e eu
não sou nada. Nem me tenho por herética se invariavelmente me acode esta forma
budista: “dor é vontade de ser”.[...] sou uma cera na mão de Deus.(SC, p.75)
Essa religiosidade não se limita à instituição Igreja, e sim à presença divina em tudo; é
assim a sua experiência existencial de Deus. “Olha o que fui arranjar! Meio burra que sou pra
decifrar mensagens, não sei que atitude tomar. Conforme minha amiga, serviço de Cristo pode
ser na igreja direto ou nas boates da vida. Sou frouxa de saber. Mas qual é a minha?” (SC,
p.54)
Encontra-se Deus, o transcendente, naquilo que é humano porque não se conhece
outra experiência. Deus (o transcendente, o absoluto) deixa-se encontrar e se revela onde se
experimenta e se realiza algo. Cada um procura de um jeito, mas todos buscam um sentido
para a vida, buscam tomar a própria vida, criar consciência.
Nessa literatura, Ele é êxtase e alegria diante da vida, uma profusão de sensações no
corpo que precisam de exteriorização, de expressão, e a escritura de Adélia é essa forma de
manifestação de um eu que se coloca como instrumento para a realização divina.
Corpo é fora de série. Veja se eu estou errada: eu amo a Deus em espírito é com meu
corpo, porque quem levita é ele, é ele quem fica extático na montanha sagrada e
recebe os estigmas e as tábuas da lei.(SC, p.82)
O que está suposto na arte é amor divino, por isso é que é incansável, eterna, perene
alegria. Artista nenhum gera sua própria luz, disto sei e quem me contou não foi o
sangue nem a carne, mas o Santo Espírito do Senhor. (CV, p. 101)
114
Adélia não opõe corpo e espírito. O corpo é que consistência real à idéia de que o
ser é um ser humano; o corpo é guardião de sua identidade. O corpo do sujeito é o lugar da
palavra, do espírito. “Muitas são as formas do espírito. Gabriel é salvador do meu corpo.”
(CV, p.68) É, pois, o espírito que possibilita o ir além do corpo, o transcender em busca do
significado da vida.
A religiosidade oferece significados e símbolos para essa existência, mas se percebem
momentos de transgressão e resistências às concepções praticadas pela Igreja em relação às
mulheres. “Levamos nossa em vasos de barro, diz o apóstolo que me magoa por tratar mal
às mulheres.” (SC, p. 12)
Em muitos momentos o ser humano sente-se estrangeiro em seu próprio meio,
experimenta vazios de sentido que o levam à perda dele próprio, da sua identidade e do eu.
Perda do suposto controle da vida e da essência das ‘coisas’. “Eu não, vez em quando perco a
capacidade de figurar exato minha imagem e cometo sandices[...] (SC, p. 74) É como estar
sem rumo.
Mesmo que não conte a ninguém, tenho vergonha de fazer novena pra saber a
mensagem da mensagem. São Francisco às vezes, quando não sabia a direção,
rodava o burro e, de acordo com o lado que ele parasse, seguia tranqüilo a vontade
de Deus expressada na posição do jumento. (SC, p. 54,55)
Para aliviar o mal-estar que o invade, as mudanças, perdas e confusões, o ser humano
procura uma maneira disponível de se recompor. “Havia uma coisa aborrecendo Glória. Volta
e meia, certa sensação sumia e reaparecia sem se objetivar, exigindo ser esclarecida para
que ela pudesse retomar em paz o fio da vida”. (CV, p. 37). Para Adélia, a literatura é uma
dessas maneiras. É no texto que um eu-poético busca refazer o eu e a imagem de si imaginada
perdida.
[...] por isso rogo paciência, espaço de eu inventar uma fantasia pra mim. Inventar,
sim, pois acho, pra meu uso, que a penúltima palavra é da ciência, senão vejamos:
como pode que as árvores de noite liberem gás carbônico? Tinha sobrado índio em
floresta? E a brincadeira do disco de Newton? Ora, pinte-se um papel com todas as
cores e gire-o apressadamente, teremos então o branco que por isso fica sendo a
reunião de todas as cores? Prefiro eu mesma testar. (SC, p.65)
Esse refazer fica claro com a personagem Maria da Glória de Cacos para um vitral.
Sua trajetória é como um despertar da consciência de si, indagando e buscando sua
identificação.
115
Glória enjoava de si, do seu modo de pensar e dizer. CV, p.62)
Ó meu Deus, não consigo existir sem dizer a todo momento e a todo mundo: sou
assim, assim, assim. (CV, p. 66)
Recupero aos poucos minha tonalidade antiga, meu ser verdadeiro, disse a Gabriel,
estou parecendo eu. (CV, p. 81)
Esse eu “levanta e tenta sacudir a poeira”, para colocar “a casa em ordem” e (re)
construir uma figura (subjetiva) outra. Para isso, busca aquilo que lhe respostas: novas
imagens das relações familiares, amorosas, dos modos de ser, dos afetos, do corpo e do eu e,
ainda, outras maneiras de se conectar com o mundo.
As respostas tão procuradas não se encontram dentro nem fora do homem; elas são
resultantes dos encontros que se estabelecem com o mundo.
Então, pergunto: é tudo ainda menor do que suponho? Minha ira, meu desejo sem
nome, o que chamo de angústia é um espasmo que qualquer vidro de regulador
Xavier repõe em seu lugar? (SC, p. 36)
A gente passa a maior parte da vida perguntando e resposta que é bom, neca. (SC,
p. 37)
Buscando uma resposta para o “quem sou eu?”, a prosa de Adélia traça o caminho
percorrido por um eu feminino na sua existência, reatualizando imagens desse feminino a
partir de sua experiência pessoal e de sua visão diante de seu tempo, espaço, cultura,
reiterando o princípio do desdobramento feminino. Todas as mulheres dessas histórias,
reunidas, formam o sujeito central de uma história finalmente desvelado, um ser que busca
Ser, que busca sua unidade na diversidade, reunindo fragmentos para compor o todo.
4.2 Mulher desdobrável, Eu Sou
O cotidiano retratado por Adélia como corriqueiro, doméstico, íntimo e cheio de
minúcias que se incorporam à vivência, tornando-se banais, poderia ser retomado a partir
de uma visão feminina, por ser a mulher o ser-no-mundo quem melhor conta da
multidiversidade dos aspectos que constituem esse dia-a dia. Afinal, ideologicamente, é à
mulher que se atribui a responsabilidade de cuidar de tais “miudezas”.
116
Já foi visto que são múltiplas as dimensões e faces do cotidiano de uma mulher sempre
em mudanças e (re)construção. Dessa forma, para ser inteira, é preciso se (re)compor como
que construindo um vitral com fragmentos dessa existência.
Se a mulher fosse um utensílio, teria “mil e uma utilidades”..., mas é mulher e esse
número é muito pequeno para computar a multiplicidade de papéis e funções que exerce. E
mais, conta de muito, e do muito ao mesmo tempo, porque ela se desdobra como em
“tantas outras que eu sou”.
Em Adélia, toda a “arte poética” faz-se em busca de ajuntar “pedaços” da existência
num todo composto de fragmentos. É quando busca acontecimentos do cotidiano fixados na
memória, um ser à procura de seu passado, na tentativa de reencontrar toda a sua
existência. O projeto de pensar a realidade humana passa pela existência, um olhar sobre a
realidade humana, uma interrogação sobre a sua própria condição e um eterno construir o seu
ser.
Mulher não nasceu para ser “coxo na vida”, mas para “gerar a vida”, todo dia, por
todos os cantos do mundo. Ela não quer, de modo algum, “carregar bandeira” do feminino,
apenas constatar a natureza mais específica dessa “espécie ainda envergonhada”, mas que
cumpre “a sina”, funda “reinos” e desdobra-se no “Eu sou”.
Jung (1996, p.64) fala sobre a importância da imagem dos pais e sua influência na
formação do sujeito, ressaltando que esse processo é interrompido em sua vida adulta. É
quando a mulher passa a ocupar o lugar dos pais, ao acompanhá-lo e compartilhar de sua vida.
Assim, essa imagem do feminino deve ser conservada na consciência do homem e a ela
associada. O autor explica tal natureza feminina:
A mulher, com sua psicologia tão diversa da psicologia masculina, é e sempre foi
uma fonte de informação sobre as coisas que o homem não vê. É capaz de inspirá-lo
e sua capacidade intuitiva, muitas vezes superior à do homem, pode adverti-lo
convenientemente. Seu sentimento, orientado para as coisas pessoais, é apto para
indicar-lhes caminhos; sem essa orientação, o sentimento masculino, menos
orientado para o elemento pessoal, não os descobriria.
A questão da identidade cruza com a da igualdade e da diferença quando a mulher, em
nome de sua especificidade, deseja ser representada enquanto tal. A consciência de gênero
(aceitação de sua diferença) pode desembocar na análise da desigualdade. Mas em Adélia não
essa condição marginalizada da mulher e nem o masculino é visto como o oposto, e sim
como o complemento, e é dessa forma que o eu aceita a diferença, não a desigualdade. O
masculino e o feminino nas relações humanas são tratados na sua escritura como possibilidade
117
de encontro de suas virtudes específicas. A natureza, o ser humano chamado de feminino
necessita da contrapartida do masculino.
[...] porque no livro da bíblia, logo na primeira página está escrito: “Deus fez o
homem e o fez macho e fêmea” e isto quer dizer que somos iguaizinhos no valor. A
boa diferença é só pra obrigação e amenidades. (SC, p. 82)
Abraçava-o abraçando o que no mundo era homem, o mais diverso de mim. Me
lembro que percebi sua chegada e corri pro espelho. (SC, p.111)
O que Adélia expõe é a vivência de um ser feminino em sua forma cotidiana, e assim
revelam-se aspectos culturalmente demarcados como relativos à mulher e presentificados por
uma voz feminina, uma vez que integram a experiência de vida das personagens.
Não como se negar uma especificidade na constituição deste ser. As mulheres
foram dotadas pela natureza com três complexos processos fisiológicos: a menstruação, a
gravidez e a menopausa. Isso estabelece uma diferença com o masculino e também realça um
conjunto exclusivo de problemas e situações típicos da constituição feminina.
É claro que não está deprimida por causa disto, está é sofrendo daquela doença
ingrata, a de mil sintomas de total gravidade e gravidade nenhuma, porque nem
doença é, é menopausa, um ‘meno male’, afinal. Não tem cura, é democrática, nos
põe os olhos levemente aflitos, buscando na ex-colega de escola nossa imagem
perdida... (FIL, p. 9)
... Que brincadeira era aquela? Entendeu a atriz famosa, após as agruras da gravidez
e do parto dizendo que Deus brinca com as mulheres. (FIL, p. 126)
A experiência cotidiana feminina abarca dimensões de origens naturais, culturais,
socioeconômicas e psicológicas que são marcas da existência feminina no mundo. A partir
delas, Eu sou significa uma identidade que se encontra no cotidiano, nas minúcias de seus
afazeres, nas imagens em que a identidade humana se espelha; sendo assim, e aprende
como construir a sua existência no mundo.
As personagens, em meio a sua existência, cumprem os papéis impostos socialmente
e se perguntam: quem são, como desejam ser, como não querem mais ser?
É comum nos textos de autoria feminina a necessidade da descoberta de uma
identidade própria como tema central. Geralmente marcado em pessoa, o eu, através de um
processo da memória, resgata ou estabelece uma relação especular com o Outro, que, quase
sempre, são outras mulheres.
118
O desdobramento (aparição do outro) é o reconhecimento da própria indigência, da
falta que o ser humano experimenta no fundo de si mesmo e da busca do outro para
preenchê-lo.
Os textos narram as relações dessas mulheres com seus familiares (pai, mãe, avôs,
filhos, tios, primos etc.) e as relações das mulheres com outras mulheres fora do núcleo
familiar (vizinhas, amigas, professoras, empregadas...). Essas relações são de fundamental
importância para o desenvolvimento identitário de todas.
O que acontece é uma relação de identificação e separação, essencial para o
desenvolvimento da identidade também das personagens envolvidas. Essa relação especular
se dá numa tensão permanente.
O ser humano mesmo nunca se vê, o que conhece dele próprio é o reflexo, é a imagem
que o outro devolve, porque um é visto pelo outro. O outro é o espelho, o reflexo, o eu que eu
sou. O espelho é um objeto de referência do universo feminino, mas, muito mais do que isso,
aparece como lugar, espaço que possibilita o rompimento com velhas imagens, indagações e
reflexões sobre uma nova identidade. No conto “Enjoamento”, Adma é esse outro, que
também é outra de si mesma.
Adma hoje me perguntando o mesmo que quarenta anos me pergunta sem sair do
lugar.[...] Não que eu saiba algum segredo pra lhe salvar a vida, quem sou eu [...]
Puxa! Tem horas que Adma se parece tanto com a Floripes.[...] Nos conhecemos
cem anos e agora percebo, agi mal com Adma, tenho culpa.[...] Adma tem o
péssimo hábito de me carimbar como inteligente e piedosa, portanto...Portanto, devo
carregar peso que lhe compete?[...] Soubesse o qe onde me dói agora, se me
permitisse contar-lhe. Mas o deixa, precisa que eu seja sempre feliz pra que ela
sofra em paz. de haver um jeito de eu ser amiga de Adma como sou de Josefa.
Ah! Falei tanto de mim! Mas é isso mesmo, Adma é um espelho. Um espelho
fiel. (FIL, p. 145)
um eu que se desdobra em Adma, em Floripes, em Josefa... e falou tanto de si!
Essa “mulher desdobrável” está em busca de algo, pois se relaciona com a condição de
incompletude do ser humano. Nessa ‘viagem’ ou trajetória em busca de si, de se tornar uma
nova/outra mulher, o território do feminino insinua-se sob novas formas.
Diante da impossibilidade de o sujeito contemporâneo possuir uma identidade fixa,
essencial ou permanente, a concepção de um eu coerente é fantasia construída e desconstruída
por meio das múltiplas formas como o homem é representado ou projetado pelos sistemas
culturais que o cercam.
119
Nos textos em prosa aqui analisados, viu-se que as personagens têm uma identidade
relacionada aos eventos do cotidiano, pois os usos e costumes mostram o desejo de conhecer
as realidades de seu dia-a-dia e de associar-se a elas.
O ser humano sempre buscou, no seu cotidiano, conhecer o infinito no seu
microcosmo. Essa disposição de busca leva além do seu cotidiano, pois é o sair de si ao
encontro de um outro fora de si que constitui a identidade. “Eu tenho a via-crucis e a Via
Láctea.” (SC, p. 10)
Viu-se prevalecer nas personagens o modelo tradicional de organização familiar, a
mulher cuidando do marido e dos filhos, dedicando-se quase que exclusivamente à família e
vivendo em função do outro. Essas mulheres levam uma vida cheia de afazeres e
compromissos diários e relatam alguns momentos de alegria, outros de sofrimento, dúvida,
mas não parecem querer renunciar a esse lugar de referência no âmbito doméstico.
A experiência cotidiana dessas mulheres é também de crise, de conflito, de
descompasso, num desdobramento subjetivo, uma vez que a vivência psíquica da mulher é
condicionada pelo sentimento de sua interioridade.
A mulher que “solta os cachorros”, na estréia em prosa da autora, é uma mulher em
crise: “Quarenta anos é demais para uma mulher.” Não recebe um nome. Ela está despertando
(processo de tornar consciente) e percebe que há algum tipo de falta que é o que está gritando.
o anonimato da personagem que pode ser visto de duas formas: para universalizar a
experiência, abrangendo todas as mulheres, todos os nomes. Ou, ainda, para mostrar que a
personagem ainda não encontrou sua identidade individualizada. “Eu tenho medo porque
transborda do meu entendimento.[...] Eu me arrependo, eu entro na fila, eu dou meu nome,
endereço, a data de nascimento, abro minha sacola de plástico pra receber a ração.” (SC,
p. 15)
O nome é a primeira referência de um indivíduo, é o que antecipa, precede e aparece
anunciando a pessoa humana, é a primeira impressão, é o que identifica, individualiza e torna
conhecido aquele indivíduo. ”Mancando e feliz, Olinda, a que machucou o pé! Era excelente
ter um aposto, tal qual Célia, a cantora!” (FIL, p. 73)
A crise de identidade aparece como deslocamentos das estruturas sociais e,
conseqüentemente, como descentralização dos indivíduos, tanto do seu lugar no mundo social
e cultural, quanto de si mesmos. Essa descentralização gera a perda desse “sentido de si” e
provoca o surgimento de novas identidades e a fragmentação do indivíduo.
Em Cacos para um vitral, esse eu tem nome e sobrenome: Maria da Glória Fraga.
Tem uma história de família, marido, filhos, uma profissão é professora e escritora (re)
120
constrói uma história existencial, buscando refazer sua trajetória em meio a tantas funções e
papéis. O nome completo de Glória pode mostrar-se como símbolo da identidade que não é
desconstruída, como parece ser a da anônima de Solte os cachorros, mas deslocada,
descentralizada para múltiplos sujeitos localizados, ou melhor ainda, desdobrada. Através das
imagens da memória, Glória percebe quem ela foi, quem ela é no presente e projeta
perspectivas da Glória que ainda será, ou deseja ser, um dia, o que permite uma leitura da
identidade como passível de reformulação.
Era incomum o que sentia. Regressava de si ao seu próprio encontro. Olhou-se no
espelho, estava bonita, sentiu o corpo jovem, fez uns passos de dança. (CV, p. 67)
Ficou um pouco temerosa, receando a partir daquele dia um caminho muito novo
para ela, já acostumada ao chinelo velho de seus medos e certezas antigas. (CV,
p.68)
Viver era grosso, achou Glória, grosso, variado, leve, inocente e bom. Dificílimo,
uma bênção, um teatro bem arranjado, onde todo mundo tem sua hora e vez. (CV,
p.71)
Os fios que se entrelaçam em Filandras revelam detalhes que possibilitam
re(construir) a vida das personagens. As múltiplas faces revelam-se no cotidiano de uma
cidade do interior, num dia-a-dia comum e previsível de muitas mulheres.
Mulheres que demonstram sua força e solidariedade em situações aparentemente
corriqueiras, mas fundamentais para a própria existência de seu mundinho. Mulheres
que se tornam interseção, os elos, os pontos de equilíbrio para o funcionamento de
toda uma comunidade. (FIl, 2002, contra-capa)
As mulheres/personagens vão se constituindo a partir da perspectiva do eu narrador.
Olinda tem um marido, Inácio, e filhos. O marido é um homem difícil de lidar “eu ando muito
desacorçoada de briga e discussão, é uma fraqueza que sinto [...] FIL, p. 141)
Pode-se conhecê-la como é vista pelo outro:
Quando se em apuros, caminha com passos maiores que as pernas, fala fazendo
semicírculos com os braços, a cabeça baixa, movendo-se à direita e à esquerda,
como se fizesse mesuras a grande autoridade [...] Sua ignorância me parece santa,
deve estar servindo a altos propósitos. (FIL, p.141)
Após machucar o e ser socorrida por um soldado, Olinda narra com entusiasmo o
episódio, que para Dona Ceres é um como se... “ela era uma princesa muito bonita, a
Cinderela; o soldado, um príncipe muito valente carregando ela nos braços. Nunca
121
machucado no pé deu tanto lucro e felicidade. Sabe dona Ceres, falou emendando sua fantasia
à minha[...]” (FIL, p.142)
São uma no momento em que saem de si e se encontram. “Ora, Olinda, acha que é
só você que briga com o marido?” (FIL, p.142)
Entretanto, o sujeito deve, paradoxalmente, escapar à atração de sua própria imagem,
para que consiga se encontrar, ou seja, encontrar seu outro. Maria Côrrea é a personagem
“portuguesa de má vida, que provocava em minha mãe atração e terror [...] Penso até hoje que
sou grande e não duvido um segundo de que a Maria Côrrea e eu somos xipófagas [...]”(FIL,
p. 86,87 )
Esse encontro, em que o sujeito se como outro ou em face de um ser com quem se
parece, pode provocar sentimentos diversos, mas ser solução para alcançar a unidade. O
desdobramento aparece como representação dessa unificação interna, quando toda a questão
da identidade pessoal e das relações que se tem com o outro e o próprio eu profundo (medo,
dor, obscuridade) acham-se reunidas.
Essa narradora/personagem revela-se ao revelar o outro. “Minha irmã chora porque
seu marido é amarradinho com dinheiro [...] porque me achei velha demais no espelho da loja,
sinto dificuldades em ajudar Corália”. (FIL, p.111)
No conto “Final feliz”, o feminino fala pelo masculino, assumindo a visão do marido,
ao descrever a mulher. Dessa forma, o eu narrador desdobra-se porque narra também seu
pensamento e o da mulher.
Queria mesmo é que a mãe de seus filhos não aparecesse no filme; uma senhora que
não passava uma sexta-feira sem encher latas e latas de biscoito e sabia ir em
festa daquele mesmo jeito: saia preta,blusa de seda por fora, pra disfarçar as ancas e
arquinho na cabeça[...] olhou de novo pra mulher olhando pra ele
embevecida[...]Teve vontade de chorar e ao mesmo tempo sentiu raiva daquele amor
paciente e silencioso, capaz de morrer por ele. [...] o entendia bem o discurso do
marido, estranho naquela noite, mas era uma verdadeira mulher, fez como Nossa
senhora, disse sim ao senhor. E Raimundo fez com ela o que faz um homem
competente para deixar feliz sua mulher. (FIL, p. 11-13)
E vão-se (re)conhecendo perfis através de traços e fragmentos que vêm e vão por meio
do fluxo das representações do eu narrador. As personagens, vivências anônimas do cotidiano,
constroem sua identidade inscrevendo-se socialmente.
A Arlete achou uma trouxinha de maconha nos guardados do menino e desconfia
que o Arno tem uma amante. [...]
Ester quer saber se continua com o curso de cerâmica, está lhe dando muita preguiça
de ir às aulas. Acha que vai para brigar com o pai, mesmo depois de morto [...]
tem pânico de desrespeitar a memória do velho.(p.21)
122
No conto “Janelas”, Calixtinha, “que fez aquilo tudo e continua com a mesma cara
inocente”, é a mocinha “danada”, que abria a janela para o namorado entrar escondido e acaba
tendo um filho desse romance clandestino. É também a identificação com o eu narrador, “Mas
não foi exatamente assim que a Calixtinha raciocinou? Não foram as mesmas minhas razões
que a fizeram optar pelo difícil namorando escondido?” (p.31-32)
Em “Dona doida”, dona Carlina ou tia Lina é a mulher cansada, tempo demais
vivenciando a rotina doméstica e o problema do marido que bebe. “Estou estressada, isto é,
não agüento mais ver o Afonso chegar cambaleando, passar direto pelo fogão e ir dormir feito
um porco. É mole cinqüenta anos dessa vida?” (p.47)
Interessante o título desse conto, etimologicamente a palavra latina domina designa
senhora, aquela que habita o lar, pessoa digna de respeito. Daí vem dona, que, anteposta ao
nome próprio de uma senhora, de uma dona de casa, significa aquela que domina a si própria,
a seus sentimentos e seus impulsos, aquela que é senhora de si, de seu mundo interior. As
personagens dona Ceres, dona Célia e dona Carlina representam mulheres mais maduras, com
mais experiência e maior vivência. Mesmo assim, dona Carlina é ‘dona doida’, uma
contradição.
A narradora de “Ascese e antipirina” diz ter mudado em alguma coisa em si e não se
identifica com a outra.
A Soninha chega a qualquer hora, resolvi ter paciência com ela, que venha e encha
quantas latas quiser de pão de queijo, cada um faz o que sabe, não é mesmo?
Continuarei a mulher que sempre fui, mas de um jeito, como direi salvífico,
oferecendo ao homem a margem suportável de perigo, mistério e sofrimento. (FIL,
p.79)
Em “Análises”, a personagem parece negar sua existência através das duas formas que
a inscrevem no mundo, nascer e ter um nome. Ou desejar ter outra identidade.
Acredito mesmo que nunca foi jovem, uma desiludida crônica, resumindo seu
desconforto de existir entre os homens com o bordão que recitava nas dificuldades:
‘Não servia pra ter nascido’. Não gostava do seu nome Diolinda [...] confessando
que ficaria muito satisfeita se se chamasse Nair, principalmente Maria Nair.(FIL, p.
63)
E elas são muitas, a consumista que se arrepende das compras e sofre em “A dama
confusa”, “Riu de si mesma, desconfiada de que tanta nobreza a entregaria como proletária
deslumbrada [...] (FIL, p. 57) e Jakeline, que tem um filho e anda às voltas com exame de
DNA e negociações com advogados.(FIL, p. 103)
123
Que é o pai eu tenho certeza. Primeiro porque fui eu quem fez a besteira, segundo,
por causa das bochechas igualzinho nos dois [...]Não quero nada dele, e, se for
metade do salário que o juiz obrigar eu dispenso. Criei o filho sozinha, não preciso
de esmola. Só quero reconhecimento, só isso. (FIL, p. 105)
A personagem Maria Dalva, de “Perfeições”, (re) atualiza sua imagem a partir de sua
experiência pessoal, depois de recuperar-se de uma doença grave. “É ela própria uma
história.[...]Todo mundo importou-se com seu drama, percebe a indispensável necessidade de
sua existência entre os bilhões de criaturas no mundo.” (p.45)
E Vicentina, Ceiça, Sabina, Clarinda e outras tantas que representam faces de uma
mesma mulher. Aquele que o sujeito a sua frente e pensa ser outro é igual a ele. O seu
semelhante é o outro, é sua alteridade, é quando se coloca para esse sujeito a questão de sua
existência.
As múltiplas divisões e os antagonismos sociais produzem uma variedade de
diferentes posições de sujeito e várias identidades para os indivíduos.
Enfim, há um desdobramento da pessoa envolvida nas exigências e urgências do dia-a-
dia, e, ao mesmo tempo, há um desdobramento que é interno, subjetivo. Para Adélia, mulher é
desdobrável, ela própria é, e são múltiplos os desdobramentos da personagem adeliana, tanto
que na construção de tais personagens constitui-se a identidade do eu narrador.
Quem sou eu? Como me assumo como sendo o “si mesmo”? Por conhecimentos,
profissão, habilidades?
“Glória se autoflagelava: eu não sou uma professora. Sou? Não sou. Sou?(CV,
p. 24)
Eu peço a Deus paciência pra fazer um vestido novo e ficar na porta da livraria
oferecendo o meu livro de versos, que pra uns é flor de trigo, pra outros nem comida
é. (SC, p. 15)
Por ter marido, filho, pai, mãe, vizinho, amigo, ser um cidadão de um país?
Trinta anos vizinhas sem uma malquerença, por pequena que fosse. (SC, p. 9)
Eu tenho pra mim, depois que a gente tem filho só existe uma tarefa pra fazer: cuidar
deles. (Sc, p..38)
Pois nosso país assassinou a carta dos Direitos Humanos, não assassinou? Nós
somos um país rico, cujo tamanho abarca a Europa inteira e ainda sobra terra pra
leilão. (SC, p. 78)
Perdi pai, mãe, fiquei grande com muitos filhos nas costas. (SC, p.79)
Por ser uma mulher ou um homem, um ser humano em oposição a um animal?
124
Eu gosto é de ser gente, um da espécie “povo de Deus em marcha”. (CV, p.15)
Sentiu-se frágil. Era novo, bom e desconfortável, sentindo-se também fora de seu
modo próprio–experiência que sempre desejou. Mas era, era o quê? Perdera o fio de
seu pensamento. Teve saudades de si, queria recobrar o punho de Maria da Glória
Fraga. Percebia-se meio entorpecida, meio esquisita. Estaria exagerando, como
sempre a acusavam? Queria ser outra e não queria. Queria ser a verdadeira, sem a
sua parte má. Não queria, porque todo mundo sente falta se perder um braço, mesmo
sendo um braço podre. (CV, p. 68)
Por possuir valores, convicções, realizações e compreensões espirituais?
[...] eu sou exagerada por causa da injustiça social. Por isso eu como tanto. Este
pensamento é double face, faço ele ficar certo ou errado, conforme o jeito de mexer
com ele. (SC, p.19)
Querem que eu tenha um desespero que por mais que peleje não dou conta de sentir.
Ninguém que por isso mesmo eu sofro dobrado, tudo pequenininho, sem enfeite,
tudo indeciso, precisando de eu toda hora arriscar minha coragem toda.(SC, p. 33)
E não bebo, não fumo, não tenho paciência com jogo nenhum, mas alguma coisa
tive que fazer pra pôr meus nervos no lugar, conseguir um modo de compreender o
mundo. (SC, p. 54)
Ou por ser um corpo, organismo vivo com senso e livre arbítrio? “Meu corpo é muito
satisfeito, considerado em si mesmo; minha alma, às vezes, tira a roupa e fica feito um
árabe na direção de Meca, pondo e tirando a cabeça do chão sem entender pantufas.” (SC,
p. 23)
Essa é a identidade do ser humano, mas nenhuma resposta a essas questões fará o
sujeito existir por ele mesmo. Sem o Outro, que significado tem o nome, a profissão, as
identidades assumidas como membros de uma sociedade? Sem o Outro, a situação de Ser
mulher não teria nenhuma relevância.
Na leitura dos textos de Adélia, constrói-se aos poucos, juntando cada fragmento, uma
personagem que parece ser a mulher de carne e osso que retrata a si e a seu mundo no poema
“Grande desejo” (1997, p. 12): “Sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.” Na prosa em
análise, o eu associa-se a um referente facilmente imaginável como indivíduo concreto e seu
micro-universo cotidiano na constituição de uma identidade.
Através do fazer poético e da força vital das palavras, Adélia constrói personagens,
seres de palavras, como uma experiência humana de busca de liberdade e revelação. “Eu
gosto é de trem de ferro e liberdade”(SC, p.14). E então, no processo de (re)estruturação,
inusitadamente, confronta com o Outro que lhe habita, seu próprio desejo.
125
4.3 Uma escrita desdobrável, um ser de linguagem
Ao se admitir que as dimensões fundamentais da realidade na qual o ser humano se
situa como sujeito são o mundo, a sociedade e o próprio eu (que exprime sua condição),
chega-se à linguagem que é a expressividade essencial e também constitutiva do ser humano.
É na linguagem que se dá a abertura do mundo, o ser das coisas e que o ser afirma-se
como existente, também na realidade do nome.
O discurso antropológico explica a linguagem como, além de fato biológico e
psíquico, um evento espiritual. No nível do espírito, o ser-no-mundo do homem é um ser de
linguagem, entende-se aqui linguagem num sentido amplo como sistema de signo e
significações. Portanto, o mundo no qual o homem existe pelo espírito é o mundo da
linguagem ou das formas simbólicas, e nele se desdobram as três dimensões do nosso ser-no-
mundo: o Eu, a Sociedade e a Natureza, conforme Lima Vaz (2006, v. I, p.190).
É através da linguagem que o ser humano dialoga consigo mesmo, percebe o mundo e
os outros, desdobrando o seu dizer ou a sua expressividade na tentativa de desvelar a sua
inteireza.
A Filosofia contemporânea põe em relevo um aspecto fundamental do espírito como
Razão: a linguagem como elemento constitutivo do pensamento, que é essencialmente
simbólico. Esse tema desdobra-se na linguagem como estrutura (“os sinais e suas relações
internas”); como referência à realidade não-lingüística por ela significada e como
interpretação (“nela e por ela se dá a hermenêutica da realidade e sua transposição em
universo simbólico”.) (LIMA VAZ, v.I, 2006, p.201)
A linguagem, em suas estruturas sintáticas e semânticas, em seu uso e em sua história,
como todas as ciências, pode ser considerada “uma compreensão explicativa do espírito”.
Dessa forma, desdobra-se em, por um lado, oferecer uma explicação das estruturas específicas
e, de outro, obter uma compreensão explicativa do “ser espiritual do homem” (LIMA VAZ,
v. I, 2006, p.190-191), afinal quem sou eu além do físico e da mente?
O desdobramento da linguagem está em sua gênese: “No princípio era o Verbo [...]”
(Jó,1,1) e o Verbo é a palavra que oferece significação para nossa existência tornando-se Deus
e Arte. Visto que a experiência humana é temporal, toda arte e toda religião servem de
anteparo, de significação para a morte. “Deus é multívoco” (SC, p.101) e a arte múltipla,
ambos desdobram-se em muitos para atender e amenizar a eterna falta do homem, e são
linguagem. E a identidade humana é imagem da linguagem.
126
Falo e me aflijo porque sei que não tem outro caminho senão começar de baixo, de
trás, do fim da história, quando Deus pega Adão e lhe mostra as coisas, deixa ele dar
nome às coisas, deixa, deixa, ruminando seu espanto, sua alegria, sua primeira
palavra... (CV, p. 48)
Debilita-se o corpo em tempo e guerras? Mas a alma o perdoa, quer levá-lo para
onde nascem as palavras. (FIL, p. 90)
A identidade humana, na tarefa de realizar a sua existência no mundo, não pode
prescindir da força do discurso. Pois é na linguagem e, portanto, nas palavras, que as coisas
nascem e verdadeiramente são.
Certamente não arbítrio no nome que se às coisas, são nomeadas por quem as
cria. Ou minhas projeções formidáveis toldam meu entendimento? Mas há uma
língua primeira derramando-se, eu creio, mutante e inalterável sobre as línguas
humanas, um verbo incorruptível. (FIL, p.123)
A linguagem carrega a herança cultural; revela o que se foi no passado e projeta o que
se poderá ser no futuro. “Hoje, Glória falou alto enquanto anotava, quero começar de novo a
minha vida, como se fosse no primeiro dia.” (CV, p. 58). A desarticulação de identidades do
passado abre a possibilidade de recomposição da estrutura em torno de novas identidades que,
articuladas, produzem novos sujeitos.
Em permanente expansão, a linguagem narra e faz a história. porque registra a
existência humana. “É na linguagem que o ser humano discursa e emudece, canta e chora,
reza e blasfema, sorri e sangra, cresce e definha. A linguagem acaricia, agride, seduz e
amedronta, ama e maltrata, lança sementes e sufoca projetos.” (ARDUINI, 2002, p. 92)
A literatura, pelo seu caráter eminentemente discursivo, tem sido o espaço em que a
localização do sujeito e as construções da identidade afloram, permitindo observar como os
indivíduos concebem e constroem suas identidades. Além de espelhar-se a si mesma,
possibilitando a obra literária. Nesse desdobramento, a linguagem literária expressa o poder
de falar da linguagem, do fazer arte com a palavra. Isso é literatura, ela também como
elemento constitutivo do ser de linguagem.
A concepção que o indivíduo tem de si próprio como identidade unificada é o
resultado de uma elaboração discursiva que constrói a sua narrativa particular do eu. Desse
modo, a linguagem é elemento de identificação necessário para o ser suprir uma falta, buscar
um sentido e se aproximar do mistério de que ele próprio participa.
Gosto de ir até no fundo da cisterna e revirar o lodo, tirar ele com a mão, me
emporcalhar bastante, pra depois ver a água minando clarinha de novo.Gosto da
127
cesta sobre a mesa com mamões e bananas, gosto de lavar o filtro todo sábado,
encher as talhas com água nova, gosto. (FIL, p. 71)
Essas imagens, extraídas de um cotidiano, remetem a imagens de um sujeito que se
volta para dentro de si nessa busca pela sua identidade, pelo seu eu profundo; revira sua
existência, suas experiências, sua obscuridade e traz à tona um eu consciente, que se organiza
e sente prazer nesse movimento de se descobrir. Esse movimento é possível na e pela
linguagem, porque é sob a forma de signos que a atividade mental é expressa exterior e
interiormente para o próprio indivíduo. Esse sujeito fala para si e para um interlocutor.
Os movimentos que impulsionam o humano ao ato da escrita tomam variantes que
implicam desde o seu posicionamento subjetivo, até os elementos sócio-históricos que
marcam profundamente a relação do homem com outros e com as palavras. Essa
subjetividade, desdobrada através de outros sujeitos nas histórias lembradas, garante a
coerência do texto e permite que saia do trivial do cotidiano para além da banalidade do dia-
a-dia.
Em Adélia, o desdobramento da escritura é representado na mistura que marca a
construção de gênero e tipo textual: a forma não se divide em isso e/ou aquilo, mas se
desdobra em possibilidades múltiplas.
Isso se a partir de um núcleo, a poesia, que se duplica ao configurar o romance e
que se multiplica em novo núcleo, influenciando o núcleo anterior, num círculo permanente
de uma relação íntima entre o texto poético e o texto prosaico. Dessa forma, a literatura de
Adélia é confeccionada a partir de fragmentações que se configuram numa determinada
unidade. Como foi visto no capítulo I, partes do processo de construção da poesia podem ser
desmembrados ou desdobrados, produzindo outro tipo de texto, que, no caso, é a prosa.
Entende-se o texto como inserido num contexto representando um modo de existência
que se torna também objeto de existência lingüística, uma construção aberta ao mundo social.
O mundo que a linguagem evoca existe como a própria linguagem, neste caso, a criação
literária, que se ocupa de sua própria razão de ser quando discute o porquê da escrita que, para
Adélia, é como uma vontade superior, além de si, à qual ela se submete.
Essa escritura forma verbal às imagens de um inconsciente , a sua parte mais
interior, (re) criando a personagem central de sua própria história. O texto espelha o mundo
feminino, ele é construído, desdobrando-se a partir da (re)atualização das imagens do
feminino, dando-lhes vida no papel, segundo sua experiência pessoal e sua visão diante de seu
cotidiano, seu tempo, seu espaço e sua cultura.
128
CONCLUSÃO
“Me interessa o fim, que é igual ao princípio. O meio é divertimento, lacrimoso
teatro, intervalo, interregno, ensaio geral, piquenique dificultoso, onde fatos
memoráveis acontecem.” (PRADO. Cacos para um vitral, p. 85)
Finaliza-se este estudo lembrando que a análise literária leva a um resultado nunca
finito, por isso não conduz a certezas absolutas. Mas é sempre possibilidade, aponta caminhos
que podem levar a outras problematizações e questionamentos.
Esse estado poético estaria ligado, ao devaneio, à lembrança do passado, ou ao fato de
se encontrar beleza nas coisas, na paisagem, no cotidiano mais simples.
Após as considerações tecidas ao longo deste trabalho, cuja leitura centrou-se nos
textos em prosa de Adélia Prado, percebe-se quão significativas podem ser as inter-relações
entre a poesia e a prosa, o que leva a uma questão inerente a essa escritura, a indagação
constante sobre a forma.
O que torna o texto de Adélia prosa poética é a presença de um “estado poético” que
não se confunde com a poesia enquanto forma literária. O trabalho com a linguagem reforça
essa atmosfera poética, vivenciada pela narradora de primeira pessoa, ou pela protagonista,
num discurso de terceira pessoa, e que acaba contaminando o leitor, envolvido nessa mesma
atmosfera.
Adélia parece não considerar oposições e dualidades, mas apresentá-las como formas
complementares, assim: poesia e prosa, feminino e masculino, corpo e espírito, humano e
divino.
O cotidiano é matéria-prima de sua poesia e de sua prosa; esta vista como extensão da
poesia. Desse modo, a escritora transgride possíveis limites entre poesia e prosa na sua forma
mais que singular de trabalhar a matéria literária.
Como afirmado rias vezes, o cotidiano é um dos aspectos de maior relevância na
obra dessa autora, configurando-se como temática, também recorrente, nas entrevistas que a
autora tem concedido aos meios de comunicação em geral.
Na obra de Adélia, esse cotidiano não é apenas cenário para a narrativa, mas parte
integrante da voz que narra e, conseqüentemente, da construção literária. A vida é o cotidiano,
o que há de concreto, é nele que se tem a sensação de existir e ser algo.
129
Adélia retrata o cotidiano de forma tão poética e humana que faz com que, através da
leitura, o indivíduo se identifique e se sinta parte da narrativa. É o cotidiano que oferece
várias possibilidades de leitura de mundo e do mundo mineiro, e é a partir do mundo externo
e da percepção dele por parte da autora que se constitui e se possibilita a construção da
escritura de Adélia Prado.
Muito se discute a respeito da existência de uma “literatura feminina”, e, nesse
contexto, privilegia-se, aqui, a nomeação “literatura de autoria feminina”. Entretanto, o que
importa é que especificidades na expressão literária do “discurso feminino”, e que há o
reconhecimento desse discurso como ‘diferente’, por seus traços dissonantes na produção
literária de mulheres e por ser revelador de transformações por que tem passado o papel do
feminino na sociedade.
estudos críticos que se interessam em refletir acerca da escritura feminina e do
momento histórico-cultural em que emergem. Parte-se de características textuais, que
provocam a disseminação de novos conceitos e novos problemas e geram reflexões sobre a
pluralidade desse discurso.
A literatura de Adélia surge no momento em que o discurso feminino, como um
fenômeno literário, teve a sua emergência. Mas é na busca de uma especificidade desse
discurso que se percebe que a escrita de Adélia, além desse pertencimento ao nero
feminino, também apresenta particularidades quanto à criação de um estilo, de um diálogo
com outras obras culturais, de revelações de preocupações metalingüísticas e metapoéticas,
numa polifonia de discursos e intertextos que a inscrevem como expressão singular em nossa
literatura.
Conforme discutiu-se em todo este trabalho, uma das marcas da construção da escrita
aqui estudada é a subjetividade estabelecida pela presença do eu como ator do discurso, o que
confere ao texto uma demarcação pessoal. Essa subjetividade decorre de um desdobramento
do eu, como eu e outro, humano e divino, corpo e alma. O eu se constrói no espaço discursivo
pelo seu desdobramento entre aquele que vive e sofre a busca (a impossibilidade) de uma
síntese.
Levando em conta, como foi feito até aqui, que todo ser é uma interseção entre o
passado e o presente e entre o individual e o coletivo, realçou-se nesta dissertação a presença
do mecanismo da memória, que recupera lembranças e vestígios, os quais restauram, ainda
que ilusoriamente, cenários e eventos do passado e de uma identidade. A narradora/
personagem relembra, constantemente, instantes vividos num tempo que marca descobertas,
perdas, encontros e desencontros.
130
Ao inserir dados da realidade social na expressão literária, Adélia coloca Minas Gerais
e sua cultura típica em relevância, como elementos constitutivos do ser social que é o ser
humano. A construção de sua escrita, ao trazer a paisagem mineira inscrita na memória, traz
também traços autobiográficos e uma temporalidade particular: o olhar do eu ligado a
imagens da realidade, da experiência de vida da autora.
Isso não quer dizer que a escritura é o mundo real do autor, nem intenção de
estabelecer uma verdade biográfica e histórica. Uma vez que todo discurso é fruto de um
ponto de vista, de um tempo e das experiências de vida de quem o enuncia, o eu torna-se
construção do autor, e por isso forte relação entre eles. Enfim, qualquer discurso, de algum
modo, é construção de uma narrativa, de uma história e de uma ficção que se tornam
realidade pelo discurso.
A linguagem de Adélia Prado narra e faz a história também porque registra a
existência humana e a possibilidade de (re) construção do eu a partir do outro. Este outro é o
alter ego, que coloca para o sujeito a questão de sua existência, a qual contém numerosas
possibilidades de ser e se fundamenta na multiplicidade de/do ser.
Enfim, a linguagem dos textos aqui analisados caminha entre o desejo e a
impossibilidade de completude e totalidade. A voz feminina que ecoa pela obra vale-se do
discurso literário, possibilidade, diante dessa impossibilidade e necessidade de dizer (se).
Essa trajetória empreendida revela a voz que, em meio a sua existência cotidiana, quer
dizer tudo aquilo que lhe vier à mente, quer “soltar os cachorros”, e assim se mostra rebelde
ao modelo da imagem feminina estabelecida pela ideologia patriarcal.
Consciente de si, vê-se “em milhares de cacos”, mas “cacos” que podem compor um
“vitral”, pois com as “filandras” pode unir os fragmentos, constituindo uma unidade. Um ser
múltiplo, uma mulher, um texto.
131
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