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bela terra roxa encravada de canteiros, o ar cheiroso de cebolas, ela e Alberto
ajudando. Vai na mina encher a moringa, seu coração sobressaltado de medo das
lagartixas parecendo cobras... pencas de banana-roxa, résteas de cebola e alho na
casinha baixa. Vovô me limpa, Alberto se punha de quatro, o avô regulava o jato da
mangueira se divertindo: pronto. Da sua mão o pessoal da Rede comprava lotes que
ele vendia pro coronel Dorvil. Corria o dedo no mapa, ajudava a escolher, chamava
Glória e Alberto pra medir o terreno. Os dois meninos seguravam a trena pra ela no
cerrado cheio de frutinhas, a macega cheirosa com borboletas. Ele com carinho e
pito: mas não vai ser professora? Glória, já mocinha, não sabia cubar o terreno, em
apuros com o avô querendo achar a área do lote onde moravam, um chão
acidentado, o fundo fazendo geometria sem nome conhecido, um triângulo aleijado,
de que o avô queria saber a área pra acerto de escritura e papéis. De tempos em
tempos lembrava-se de ‘ cubar o terreno’, Glória desgostosa, contas e mais contas,
não acertava, logo ela que estudava no Ginásio, com a obrigação de saber a
especiosa coisa.[...] O avô desapontado, todos desapontados, porque a futura
professora não entendia de cubar aquele barranco ingrato. Enfim, admitiram para
alívio da menina, ‘ é mesmo coisa custosa, serviço pra agrimensor, pode deixar’... O
‘avô da horta’, pondo pimenta pra curtir. Que cheiro ruim, vovô, tem que pôr
vinagre? Então mija no vidro, menina chata. O ótimo dia que chegou da loja com o
rádio desembrulhado debaixo do braço, o rádio Piloto que entronizou no guarda-
louça, falando uma semana sem parar que não perdêssemos a cantora Isaurinha
Garcia, a maior cantora do Brasil.[...] (CV, p. 76,77)
As lembranças de família não se restringem só aos pais e avô, incluem mais parentes,
amigos, vizinhos até o animal de estimação. Cada família tem uma maneira de ser, “um
espírito seu”, lembranças e segredos que não passam das paredes domésticas. Essas
‘peculiaridades’ tornam esse grupo coeso, estabelecendo vínculos que atam o indivíduo à sua
família e valorizam a diferença de cada um dos seus membros.
[...] até meu tio pode. Ele, pode ser senhora ou senhorita, convida a sentar é assim:
abunde-se. É muito engraçado, porque é tímido e sensível. [...] Na minha família
todos são de muito chorar, até um coral fizemos. [...] Às vezes me flagro sentada,
um modo de inclinar a cabeça, próprio do pessoal do meu avô materno [...] (SC, p.
83, 84) / A fala monocórdia de tio Melquias garantia a segurança de domingo. (FIL,
p.38)
O que é enfatizado por Bosi (2004, p.425-426), ao dizer:
Vai-se formando de cada um, em nós, uma imagem complexa e rica de nuanças
capaz de abranger mudanças de comportamento que parecem inexplicáveis aos de
fora. Temos de um parente a imagem prescrita pela sociedade com seus respectivos
papéis: o irmão, a mãe, o pai, com regras de desempenho que devem ser seguidas. E
outra imagem mais espontânea e sensível, sempre em reconstrução. Não é raro que
as duas concepções se confrontem e uma faça ver as deficiências da outra. A
imagem social já fixada pode ser minada pela escavação de uma experiência pessoal
mais rica e profunda. Os parentes se afastando e morrendo, as testemunhas
desaparecendo, a imagem empalidece, as lacunas crescem. Em cada fase da vida vão
se alterando de leve os traços do parente em nossa lembrança.
Nessa memória de infância e família também estão presentes tios e primos. As
lembranças do grupo doméstico persistem matizadas em cada um de seus membros.