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nesse intuito, o autor ainda continua a utilizar a mesma receita, limitada, particular e
empírica, para falsear as suas teorias. Ele apenas inverte o sentido do indutivismo, porque
ele passa do âmbito da confirmação de uma teoria para a sua falsificação. O fato de um
cisne preto pôr em xeque a teoria sobre a universal brancura dos cisnes, para voltar ao
exemplo referido, é uma comprovação de que o autor ainda está envolvido com o modelo
teórico indutivista e será acusado de indutivista disfarçado ou invertido e um baconiano
inconsciente
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.
Algumas novidades a esse respeito serão encontradas na perspectiva madura da
filosofia da ciência popperiana, no momento em que ele busca, no método evolucionário de
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Os principais críticos de Popper são Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e o seu aluno Lakatos, que
pretende ‘purgar os resquícios de ingenuidade do projeto epistemológico de Popper’.
De acordo com Kuhn, é impossível fazer ciência fora dos limites de um paradigma. Popper,
ao rejeitar como carente de importância uma análise sociológica ou paradigmática, bem como as implicações
psicológicas da prática científica, estaria teorizando sobre uma ciência que não existe. Kuhn afirmara a esse
respeito: “Considero ‘paradigma’ as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum
tempo, fornece problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”. Cf.
KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1994, p. 13.
Feyerabend em Contra o Método, no entanto, defende a idéia de que nenhuma metodologia pode ser
definida ou aplicada de forma estática e inflexível. Segundo ele, há um ‘labirinto de ‘interações’ que
implicam flexibilidade e, freqüentemente, violações das regras metodológicas. Ou seja, o anarquismo é, para a
ciência, a filosofia mais acertada. Desse modo, incita à violação do método, baseado na história de avanços
científicos – como, por exemplo, o movimento ondulatório da luz – que não teria sido de forma alguma
possível, seguindo-se o dogmatismo metodológico. Para ele, a violação do método é mais do que normal e
absolutamente necessária para o desenvolver do conhecimento. Atesta que uma teoria aparentemente
equivocada, hoje, pode ser considerada a mais acertada amanhã. O progresso, freqüentemente, é prejudicado
pelo dogmatismo metodológico.
Mesmo considerando que “as idéias de Popper constituem o desenvolvimento filosófico mais
importante do século XX” (LAKATOS, I. Falsificação e metodologia dos programas de investigação,
1978, p. 180), Lakatos tomou a sério as críticas que essas idéias receberam de Kuhn e Feyerabend. Pretende
que a sua Falsificação e metodologia dos programas de investigação seja uma explicação lógica para o
fazer científico, interpretando “as revoluções científicas como casos de progresso racional e não de
conversões religiosas, como parecem pretender os relativistas e os sociologistas. Desta forma, Lakatos está ao
lado de Popper na luta contra as concepções que querem que a mudança científica “não esteja ou não possa
estar governada por regras racionais e que cai inteiramente no terreno da psicologia (social) da pesquisa”.
LAKATOS, I. Falsificação e metodologia dos programas de investigação, 1978, p. 19. Nessa perspectiva,
o crescimento do conhecimento se dá “essencialmente no mundo das idéias, no ‘Mundo 3’ de Platão e Popper,
no mundo do conhecimento articulado que é independente dos sujeitos que conhecem”. LAKATOS, I.
Falsificação e metodologia dos programas de investigação, 1978, p . 122.
O falsificacionismo ingênuo de Popper, segundo Lakatos, ao reconhecer que os enunciados, que
formam a base empírica da ciência, não são enunciados últimos, propõe que tomemos a decisão de considerá-
los como enunciados singulares os quais servirão de premissa na refutação do sistema teórico. Assim, o
falsificacionismo ingênuo tornaria não-falseáveis por ‘decreto’ certos enunciados, a partir de certas técnicas
pertinentes. O problema é que colocar as coisas dessa maneira torna logicamente possível refutar uma teoria
verdadeira. A alternativa proposta por Lakatos é adotar o falsificacionismo sofisticado, o qual não considera
aceitável apenas uma teoria refutável, mas exige, além disso, que ela apresente “[...] um excesso corroborado
de conteúdo empírico em relação a sua predecessora (ou rival), isto é, se levar à descoberta de fatos novos”.
LAKATOS, I. Falsificação e metodologia dos programas de investigação, 1978, p 141.