maneira irônica, debochando do filme. Eu acho que existem filmes cujo coeficiente
de qualidade é tão precário que, ou você ignora totalmente – o que não é o caso,
tem que dar, pelo menos, uma mínima satisfação, que sejam dez linhas – ou você
remete isso para um contexto que foge do rigor da crítica. Não é bem um deboche,
você pode trabalhar de uma maneira até, eu diria, beneficamente responsável. O
fato de você estar denegrindo aquilo, não de uma maneira pejorativa, eu acho muito
positivo, muito benéfico, quase como uma medida saneadora. Em Brasília, o ano
passado, tivemos um seminário sobre crítica, e foi colocada uma pergunta muito
interessante: “Se o diretor do filme não vai ler aquela crítica, com aquelas suas
observações, a quem se dirige aquela crítica?”. Ou seja, ele não sabendo, ele tende
a repetir [...] Eu acho que o fato de você estar inoculando o germe da desconfiança
ou da inutilidade daquele objeto que está n a tela para um grande número de
pessoas (pressupõe-se que haja um grande número de leitores naquele meio), eu
acho que isto vai estar, de alguma forma, sendo transformado em recado indireto
para aquele diretor – é um processo bastante longo, cheio de etapa s. [...] Mas, eu
acho que é minimamente o que você pode fazer. Agora, o fato do diretor não ler a
sua crítica negativa sobre o filme, eu acho que isso não pode ser levado em
consideração para que você deixe de fazer a crítica.
3. Como leitora das suas crít icas, percebo que há sempre um recorte
temático pelo qual a crítica se desenvolve, ou seja, ora se prioriza a
figura do diretor, ora a atuação do elenco, etc. O senhor procura variar
esse enfoque ou esse critério advém da própria obra comentada?
R: Eu acho que ele advém do próprio filme. Há filmes que deixam muito claro o
ponto focal. Você tem, às vezes, um filme que não tem um grande elenco, você não
tem uma direção marcante, você tem uma fotografia burocrática, enfim, o filme não
se sobressai em nenhum desses aspectos. Mas você nota que o um filme é bem
escrito, há um roteiro por detrás bem urdido, bem amarrado, e isso é uma virtude
que você procura puxar. E, hoje, cada vez mais, os filmes estão mal escritos – na
indústria em série, principalmente, isso é o que menos importa. E olha que
Hollywood já foi a grande usina de roteiros, mas hoje você tem uma linha medíocre
bastante evidente de gente que não escreve, porque os efeitos estão escrevendo
por elas, assim, você substitui um recheio densamente atraen te por vácuos em que
os efeitos especiais entram [...] e vende -se, porque vende-se, isso não tem a menor
dúvida. Às, vezes, você sente logo de cara, nos primeiros dez minutos, uma mão de
direção forte. Eu ainda tenho boas surpresas, mas de um modo geral, n ão. De um
modo geral eu saio meio cabisbaixo, ansiando muito por uma coisa que está em
baixa, que é a originalidade. Você não vê nada de novo. É uma preguiça das
pessoas em escrever bons argumentos, transformar aquilo em bons roteiros, porque
há o primado da técnica, ou melhor, não da técnica, mas da tecnologia, ou seja, é a
técnica elevada à enésima potência [...].
4. Dentro da área dos estudos da linguagem, classificamos o gênero
crítica como um discurso da ordem do expor argumentativo,
materializado em um texto que se organiza em torno de uma
premissa/tese, no qual o autor procura defender essa tese e para isso
lança mão de argumentos e contra -argumentos para conseguir a adesão
do leitor, ou seja, para convencê -lo a “compartilhar” do mesmo ponto