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ELIANA MERLIN DEGANUTTI DE BARROS
A APROPRIAÇÃO DO GÊNERO CRÍTICA DE CINEMA NO
PROCESSO DE LETRAMENTO
Londrina
2008
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ELIANA MERLIN DEGANUTTI DE BARROS
A APROPRIAÇÃO DO GÊNERO CRÍTICA DE CINEMA NO
PROCESSO DE LE TRAMENTO
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da
Universidade Estadual de Londrina, como
requisito parcial à obtenção do título de
Mestre em Estudos da Linguagem.
Orientadora: Profa. Dra. Elvira Lopes
Nascimento.
Londrina
2008
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Catalogação na publicação elaborada pela Divisão de Processos Técnicos da
Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina.
Dados Internacionais de Catalogação -na-Publicação (CIP)
B277a Barros, Eliana Merlin Deganutti de.
A apropriação do gênero crítica de cinema no processo de letra -
mento / Eliana Merlin Deganutti de Barros. – Londrina, 2008.
222 f. : il.
Orientador: Elvira Lopes Nascimento.
Dissertação (Mestrado em Est udos da Linguagem)
Universidade Estadual de Londrina, Centro de Letras e Ciências
Humanas, Programa de Pós -Graduação em Estudos da Linguagem,
2008.
Bibliografia: f. 175-184.
1. Gêneros textuais Teses. 2. Interacionismo sócio -discursivo
Teses. 3. Língua portuguesa – Estudo e ensino – Teses. I.
Nascimento, Elvira Lopes. II .Universidade Estadual de Londrina.
Centro de Letras e Ciências Humanas. Programa de Pós -
Graduação em Estudos da Linguagem. III. Título.
CDU 801
ELIANA MERLIN DEGANUTTI DE BARROS
A APROPRIAÇÃO DO GÊNERO CRÍTICA DE CINEMA NO
PROCESSO DE LETRAMENTO
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da
Universidade Estadual de Londrina, como
requisito parcial à obtenção do título de
Mestre em Estudos da Linguagem.
BANCA EXAMINADORA
______________________________________
Profa. Dra. Elvira Lopes Nascimento
Universidade Estadual de Londrina
______________________________________
Profª. Drª. Loredana Límoli
Universidade Estadual de Londrina
______________________________________
Prof. Dr. Renilson José Menegassi
Universidade Estadual de Maringá
Londrina, 17 de março de 2008.
DEDICATÓRIA
Bem do alto de um pico rochoso, a águia empurrava se us filhotes para a beirada do
ninho. Ao sentir a resistência dos bichinhos, seu coração se acelerou. Por que a
emoção de voar tem que começar com o medo de cair? Apesar de tudo, a águia
sabia que aquele era o momento. Enquanto os filhotes não descobrirem suas asas,
não haverá propósito para a vida deles. Enquanto não aprenderem a voar não
compreenderão o privilégio que é nascer águia. A águia encheu -se de coragem. O
empurrão era o maior presente que ela podia oferecer -lhes. Era seu supremo ato de
amor. Então, um a um, ela os precipitou para o abismo. E eles voaram. Às vezes,
em nossa vida, as circunstâncias fazem o papel de águia. São elas que nos
empurram para o desconhecido. E são elas que nos fazem descobrir que temos
asas para voar.
(Texto divulgado na propaganda do Banco Rural veiculada na Veja de 21/12/2005)
Dedico este estudo a todos aqueles que no decorrer da
minha vida acadêmica colocaram -se no papel de uma
águia: souberam dar-me o “empurrão” necessário para
que eu descobrisse minhas pró prias “asas”.
AGRADECIMENTOS
À Profª. Drª. Elvira Lopes Nascimento, orientadora deste estudo, pela dedicação e
apoio concedidos em todas as etapas da pesquisa principal pessoa a quem devo
meu desenvolvimento intelectual -acadêmico.
Às professoras Loreda na Límoli e Lídia Maria Gonçalves, componentes da banca de
qualificação, pela atenção com que procederam a leitura do meu texto e pelas suas
valiosas sugestões.
Aos professores da graduação e mestrado, exemplos que me acompanharão ao
longo da minha jornad a como educadora.
Aos colegas adquiridos ao longo da minha caminhada acadêmica, pela amizade
irrestrita e apoio em vários momentos.
A CAPES, pelo incentivo financeiro à pesquisa.
Ao crítico de cinema, Carlos Eduardo Lourenço Jorge, pela forma atenciosa com a
qual concedeu uma entrevista, cujas informações foram de grande importância para
a realização deste estudo.
À minha família, sem a qual minhas vitórias não teriam sentido algum.
A todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho.
A Deus, pois, sem a Sua Luz, nada disso seria possível.
Entre todas as conquistas do homem, a linguagem é a que mais contribuiu para
fazer dele um ser humano de fato. Na sua relação com o mundo, é a p alavra a
melhor representação do potencial simbólico, capaz de fazer a sutura entre o ser, o
indivíduo em particular, a sociedade e o quadro de referências que se concretiza em
cada objeto, em cada indagação e em cada posicionamento pessoal. A linguagem
garante ao homem o lugar de locutor, a posição de sujeito que rege a própria vida e
reage diante dela. Ela lhe permite considerar o “outro” como alvo de interlocução,
assegurando todas as práticas discursivas e sociais. Pela linguagem, cada um de
nós consagra a essência do ser humano, em um constante vir a ser, integrado à
condição de “habitantes de um mundo”, por excelência, dinâmico e complexo.
(Silvia M. G. Colello)
BARROS, Eliana Merlin Deganutti. A apropriação do gênero crítica de cinema no
processo de letramento. 2008. 250f. Dissertação (Mestrado em Estudos da
Linguagem) Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2008.
RESUMO
Os resultados das avaliações do ensino -aprendizagem de línguas m provocado
questionamentos e discussões sobre as p ráticas de linguagem (dentro e fora da sala
de aula), sobre os objetos de ensino e sobre a formação de professores. No emergir
dessas discussões, estabelece -se o gênero (textual/discursivo) como objeto de
ensino (PCN BRASIL, 1998; PCN+ - BRASIL, 2002; PCNEM BRASIL, 1999,
2006), passando a concebê -lo como instrumento mediador do processo de
ensino/aprendizagem. Nessa perspectiva, focam -se tanto as situações de
produção/circulação/recepção mais imediatas dos textos, como também as coerções
sócio-histórico-ideológicas que perpassam as mais variadas práticas de linguagem
consolidadas em nossa sociedade. É principalmente no aflorar desse quadro que
residem as justificativas e as motivações para o trabalho em questão, que tem como
objeto de pesquisa o gênero c rítica de cinema e como construto teórico -
metodológico norteador o interacionismo sociodiscursivo (BRONCKART, 2003,
2006), cujos alicerces são a teoria da enunciação bakhtiniana, o interacionismo
social de Vygotsky e a teoria do agir comunicativo de Haberm as. Nosso objetivo
principal é fazer uma investigação analítico -descritiva das dimensões contextuais e
lingüístico-discursivas de adaptações do gênero crítica cinematográfica feitas pelo
crítico de cinema Carlos Eduardo Lourenço Jorge e materializadas em t extos
publicados na Folha de Londrina. O corpus da pesquisa é dividido em dois
segmentos: críticas relativas ao circuito nacional (CN) e ao circuito alternativo (CA),
uma vez que partimos da hipótese de que, por elas estarem inseridas em contextos
diferentes, as representações da situação de produção que servem de base de
orientação para a ação discursiva, também são distintas, fato que, certamente, se
refletirá na textualização da arquitetura interna dos textos. Hipótese esta confirmada
pelos resultados da pesquisa: nas críticas CA observa -se uma valoração mais
positiva, um crítico mais complacente; já, nas CN o tom valorativo é, quase sempre,
negativo, ressaltando um crítico mais “ferino” em suas avaliações. A análise dos
aspectos lingüísticos/discursivos/ enunciativos corrobora com análise, trazendo à
tona as formas de semiotização utilizadas para a concretização dessa dualidade
discursiva, fruto da base de orientação de cada contexto particular. A diferenciação
na postura avaliativa se deve, principalmente , ao fato de o autor das críticas ser
também o selecionador dos filmes exibidos no circuito alternativo, o que nos leva a
crer que tais obras fílmicas passaram pelo seu crivo avaliativo. O que se espera
com a pesquisa em pauta é elaborar um modelo de an álise que sirva de instrumento
mediador para o trabalho do professor de língua portuguesa no que diz respeito,
sobretudo, ao ensino/aprendizagem do gênero crítica de cinema, mas também como
parâmetro norteador para uma abordagem interacionista da linguagem .
Palavras-chave: Gênero textual crítica de cinema. Ensino da Língua Portuguesa.
Letramento. Interacionismo sociodiscursivo.
BARROS, Eliana Merlin Deganutti. The appropriation of the genre film review in
the literacy process. 2008. 250f. Dissertation (Master’s in Language Studies)
Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2008.
ABSTRACT
The results of the evaluations of Portuguese language teaching in our country have
raised questions and discussions concerning language practices (inside and outside
classrooms), teaching objects and teachers’ education. In the emergence of such
discussions, the (textual/discursive) genre is established as a teaching object (PCN
BRASIL, 1998; PCN+ - BRASIL, 2002; PCNEM BRASIL, 1999, 2006), and is
conceived as a mediating instrument in the teaching/learning process. From this
perspective, both the most immediate situations of production/circulation/reception of
the texts and the socio -historical-ideological coercions permeate the several
language practices consolidated in our society. In the emergence of such scenario lie
the justifications and motivations of our work, which focuses the genre film review
and uses as its theoretical -methodological construct the sociodiscursive
interactionism (BRONCKART, 2003, 2006), whose foundations are the Bakhtinian
enunciation theory, Vygotsky’s social interactionism and Habermas’s communicative
acting theory. Our main objective is to conduct a descriptive -analytical investigation
of the contextual and linguistic -discursive dimensions of the adaptations of the genre
film review made by the film reviewer Carlos Eduardo Lourenço Jorge and
materialized in texts published in the newspaper Folha de Londrina. The corpus of
this research is divided into two segments: reviews relate d to the national circuit
(“CN”) and the alternative circuit (“CA”). We start from the hypothesis that, because
they are inserted in different contexts, the representations of the situation of
production that works as a guideline for the discursive action, also distinct, certainly
reflect on the textualization of the internal architecture of the texts. Such a hypothesis
is confirmed by the research results: in the “CA” reviews a more positive evaluation is
observed, as well as a more complacent reviewer; on the other hand, in the CN ones,
the evaluative tone is almost always negative, revealing a reviewer that is “fierce” in
his judgment. The analysis of the linguistic/discursive/enunciative aspects confirms
the analysis, bringing to light forms of semiotiza tion used to make concrete such a
discursive duality, which derives from the basic orientation of each context in
particular. The difference in the evaluative attitude is mainly due to the fact that the
review author is also the one who selects the films t o be played in the alternative
circuit, which leads us to believe that such works have already been through his
judgment. With this research, we hope to design a model for analysis to be used as a
mediating instrument for the Portuguese teacher’s work, mai nly in teaching/learning
the genre film review, as well as a guide for an interactionist approach to language.
Keywords: Textual genre film review. Portuguese language teaching. Literacy.
Sociodiscursive interactionism.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Mediação por signos ................................ ................................ ...............27
Figura 2 Os três níveis da arquitetura textual ................................ ........................ 47
Figura 3 Seis teses do ISD ................................ ................................ ....................48
Figura 4 Foto, legenda, título e subtítulo da crítica 2 -CN ................................ ......88
Figura 5 “Grandiloqüência MUTANTE” ................................ ................................ .90
Figura 6 Plano textual global da crítica de cinema ................................ ................96
Figura 7 Texto-exemplo de análise da coesão nominal (5 -CN).......................... 102
Figura 8 Mecanismos enunciativos ................................ ................................ ....130
Figura 9 Representação da ação de linguagem ................................ ................. 134
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 Corpus da pesquisa ................................ ................................ ...............20
Quadro 2 – Perfil do leitor da Folha................................ ................................ ..........75
Quadro 3 – Parâmetros do contexto de produção ................................ ....................76
Quadro 4 – O contexto de produção das críticas analisadas ................................ ...77
Quadro 5 – Mundos discursivos ................................ ................................ ...............82
Quadro 6 – Relação dos títulos/subtítulos com o critério principal de avaliação ......92
Quadro 7 – Categorias anafóricas arroladas na pesquisa ................................ ..... 100
Quadro 8 – Cadeia anafórica Os mutantes ................................ ........................... 103
Quadro 9 – Cadeia anafórica ESTE TERCEIRO CAPÍTULO DE “X –MEN – O
CONFRONTO FINAL” ................................ ................................ ....... 105
Quadro 10 – As quatro funções da coesão verbal ................................ ................. 116
Quadro 11 – Categorias aspectuais ................................ ................................ ...... 118
Quadro 12 – Vozes secundárias ................................ ................................ ........... 133
Quadro 13 – Categorias de análise do gerenciamento das vozes ........................ 139
Quadro 14 – A marcação das modalizações ................................ ......................... 155
Quadro 15 – As quatro funções das modalizações ................................ ............... 155
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Levantamento quantitati vo das categorias anafóricas ......................... 108
Tabela 2 – Distribuição geral dos modalizadores ................................ .................. 159
SUMÁRIO
CAPÍTULO 1 ................................ ................................ ................................ .............14
INTRODUÇÃO ................................ ................................ ................................ ..........14
1.1 JUSTIFICATIVAS PARA A PESQUISA................................ ................................ ...........15
1.2 DESCRIÇÃO DO CORPUS E CRITÉRIOS DE ESCOLHAS ................................ ................17
1.3 OBJETIVOS DA PESQUISA................................ ................................ ........................ 20
1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ................................ ................................ ........21
CAPÍTULO 2 ................................ ................................ ................................ .............25
BASES EPISTEMOLÓGICAS DA PESQUISA ................................ ......................... 25
2.1 MEDIAÇÃO SIMBÓLICA: OS SIGNOS ................................ ................................ ..........26
2.1.1 O Processo de Internalização dos Signos ................................ ........................ 28
2.1.2 A Relação Pensamento e Linguagem ................................ .............................. 30
2.1.3 A Linguagem como Meio de Interação Social ................................ ..................33
2.2 O GÊNERO TEXTUAL COMO INSTRUMENTO MEDIADOR DA COMUNICAÇÃO E
DESENVOLVIMENTO HUMANO ................................ ................................ .............35
2.3 O GÊNERO TEXTUAL COMO OBJETO DE ENSINO DE LÍNGUAS................................ .....38
2.4 INTERSECÇÕES ENTRE OS CONCEITOS DE LETRAMENTO E GÊNEROS TEXTUAIS ..........40
2.5 INTERACIONISMO SOCIODISCURSIVO : UMA CORRENTE DA CNCIA DO HUMANO ..........43
CAPÍTULO 3 ................................ ................................ ................................ .............49
A CRÍTICA DE CINEMA: UM GÊNERO DA ESFERA JORNALÍSTICA ..................49
3.1 O GÊNERO “CRÍTICA NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS DA LINGUAGEM.......................50
3.2 CRÍTICA OU RESENHA: SIMPLES QUESTÃO DE NOMENCLATURA?............................... 55
3.3 BREVE HISTÓRICO DA CRÍTICA DE CINEMA NO BRASIL................................ ...............60
3.4 UMA ADAPTAÇÃO SINGULAR DO GÊNERO: AS CRÍTICAS DE CINEMA DE CARLOS
EDUARDO LOURENÇO JORGE ................................ ................................ .............64
3.4.1 Um Olhar para o Suporte: o Jornal Folha de Londrina ................................ .....74
3.4.2 Uma Síntese do Contexto de Produção ................................ ........................... 76
CAPÍTULO 4 ................................ ................................ ................................ .............79
BREVE PANORAMA DA INFRA-ESTRUTURA TEXTUAL ................................ .....79
4.1 OS TIPOS DE DISCURSO ................................ ................................ ......................... 80
4.1.1 Os Tipos de Discurso na Crítica de Cinema ................................ .....................82
4.2 O PLANO TEXTUAL GLOBAL................................ ................................ .....................85
4.2.1 O Plano Textual Global da Crítica de Cinema ................................ ..................85
4.2.2 Síntese Geral do Plano Textual da Crítica de Cinema ................................ .....95
CAPÍTULO 5 ................................ ................................ ................................ .............97
OS MECANISMOS DE TEXTUALIZAÇÃO ................................ .............................. 97
5.1 OS MECANISMOS DA COESÃO NOMINAL: PROCESSOS ANAFÓRICOS........................... 97
5.1.1 O processo de Referenciação Anafórica: Outras Perspectivas Teóricas .........99
5.1.2 A Coesão Nominal na Crítica de Cinema ................................ ...................... 101
5.2 A COESÃO VERBAL ................................ ................................ ............................. 113
5.2.1 A Temporalidade Expressa pelos Verbos ................................ ...................... 114
5.2.2 A Aspectualidade ................................ ................................ .......................... 117
5.2.3 Análise do Corpus: os Mecanismos de Fu ncionamento da Coesão Verbal ..118
CAPÍTULO 6 ................................ ................................ ................................ .......... 130
OS MECANISMOS ENUNCIATIVOS ................................ ................................ .... 130
6.1 AS VOZES ENUNCIATIVAS ................................ ................................ .................... 132
6.1.1 A Distribuição das Vozes na Perspectiva do ISD ................................ .......... 132
6.1.2 Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: a Questão das Vozes
Enunciativas ................................ ................................ ................................ 134
6.1.3 As vozes Enunciativas : Posicionamento da Pesquisa ................................ ..137
6.1.4 A Análise: a Distribuição das Vozes na Crítica de Cin ema ........................... 140
6.2 A MODALIZAÇÃO/MODALIDADE ................................ ................................ ............. 152
6.2.1 A Relação entre a Lógica e a Lingüístic a na Abordagem da Modalidade ..... 153
6.2.2 A Expressão das Modali zações na Perspectiva do ISD ................................ 155
6.2.3 Contribuições ao Modelo do ISD par a a Análise das Modalizações ............. 157
6.2.4 A Análise: a Marcação das Modaliz ações nas Críticas de Cinema ............... 159
CAPÍTULO 7 ................................ ................................ ................................ .......... 170
CONCLUSÂO ................................ ................................ ................................ ........ 170
7.1 O GÊNERO CRÍTICA DE CINEMA: SÍNTESE DAS DISCUSSÕES................................ ... 170
7.2 PANORAMA DAS CRÍTICAS ANALISADAS................................ ................................ .172
7.3 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................ ................................ ...................... 178
REFERÊNCIAS................................ ................................ ................................ ...... 180
APÊNDICE................................ ................................ ................................ ............. 192
APÊNDICE A – Entrevista com Carlos Eduardo Lourenço Jorge .......................... 193
ANEXOS ................................ ................................ ................................ ................ 206
ANEXO A – Crítica 1-CA................................ ................................ ........................ 207
ANEXO B – Crítica 2-CA................................ ................................ ........................ 209
ANEXO C – Crítica 3-CA................................ ................................ ........................ 211
ANEXO D – Crítica 4-CA................................ ................................ ........................ 213
ANEXO E – Crítica 5-CA................................ ................................ ........................ 215
ANEXO F – Crítica 1-CN................................ ................................ ........................ 218
ANEXO G – Crítica 2-CN ................................ ................................ ....................... 221
ANEXO H – Crítica 3-CN................................ ................................ ........................ 223
ANEXO I – Crítica 4-CN ................................ ................................ ......................... 226
ANEXO J – Crítica 5-CN ................................ ................................ ........................ 229
ANEXO L – “As super-mulheres de ‘Free Zone’” ................................ ................... 231
ANEXO M – “Receita argentina de cinema popular” ................................ .............. 233
ANEXO N – “Quando a normalidade é aparente” ................................ .................. 235
ANEXO O – “Entretenimento, como deve ser” ................................ ....................... 237
ANEXO P – “Os planos de mamãe aos 80” ................................ ........................... 239
ANEXO Q – “SUPER-HOMEM mais sério e menos pop” ................................ ... 241
ANEXO R – “Estranha comédia romântica” ................................ ........................... 243
ANEXO S – “A animada lição de ‘Carros’” ................................ ............................. 245
ANEXO T – “Original mesmo só a data de estréia” ................................ ................ 247
ANEXO U – “Grandiloqüência MUTANTE” ................................ ............................ 249
14
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO
A motivação para o desenvolvimento deste estudo tem por base a
participação no projeto de pesquisa “Gêneros textuais no ensino médio: modelos
didáticos para uma abordagem no ensino de ngu a materna” (2005 2007),
desenvolvido na Universidade Estadual de Londrina, sob a coordenação da Profª.
Drª. Elvira Lopes Nascimento
1
. Tal projeto teve como suporte teórico fundamental,
as contribuições do interacionismo sociodiscursivo (doravante ISD) p ara o
letramento escolar, em sua vertente que serve de esteio à prática didática. Vertente
esta que toma como base a perspectiva enunciativo -discursiva de língua e da
linguagem (BAKHTIN, 1992), a abordagem sócio -histórica dos processos de
aprendizagem e de apropriação dos discursos e conhecimentos (VYGOTSKY, 1998,
2003), as contribuições de Bronckart (2003, 2006), Schneuwly & Dolz (2004),
Machado (1998, 2005, 2007), entre outros, para a didática de línguas.
A reflexão do ISD advém de uma visão psicossoci ológica dos
gêneros, dentro de uma psicologia da linguagem e da didática das línguas
2
, a partir
de uma abordagem dialética dos fenômenos psicológicos na qual os autores do ISD
se colocam a favor da reunificação da psicologia, por atribuírem a ela uma dimen são
social e cuja finalidade central é a de elucidar as condições de emergência e de
funcionamento do pensamento consciente humano (BRONCKART, 2006).
Como pesquisadora ativa do projeto citado, tive
3
como primeira tarefa
selecionar um gênero como objeto de análise, visando à elaboração de um modelo
didático, a partir do qual pudesse abstrair as suas dimensões ensináveis para uma
1
No ano de 2007 a Profª. Drª. Elvira Lopes Nas cimento inicia novo projeto de pesquisa, como forma
de expansão e transposição didática dos resultados obtidos no projeto anterior, agora intitulado
“Gêneros textuais e ferramentas didáticas para o ensino -aprendizagem de Língua Portuguesa”,
Novamente, a autora desta pesquisa participa como colaboradora.
2
Segundo Machado (2005, p. 237), “o que se tem divulgado no Brasil como sendo ‘de Bronckart’
deve ser visto de forma contextualizada, no quadro da psicologia da linguagem e da didática de
línguas, tal como essas disciplinas foram sendo concebidas e desenvolvidas pelo grupo de
pesquisadores da Universidade de Didática de Línguas da Faculdade de Psicologia e Ciências da
Educação da Universidade de Genebra, especialmente por Bronckart, Schneuwly e Dolz, que
buscaram constituir o interacionismo sociodiscursivo”.
3
Coloco uma ressalva para meus leitores de que como enunciadora, ora me utilizo da primeira
pessoa do singular, ora da primeira do plural e, em certos momentos, a enunciação se mostra
impessoal uso da terceira pessoa. Esse procedimento surge da necessidade enunciativa particular
de cada momento discursivo do texto dissertativo.
15
futura transposição didática (MACHADO, 2005; SCHNEUWLY & DOLZ, 2004) no
Ensino Médio. A seleção foi baseada em observações fei tas em escolas públicas e
teve como propósito um diagnóstico do contexto de ensino para o qual nossos
estudos se direcionam, uma análise dos materiais didáticos em uso, bem como um
levantamento das capacidades de linguagem
4
dos aprendizes no que se refere à
recepção e produção de gêneros textuais.
O gênero selecionado foi a crítica cinematográfica, com o qual
desenvolvi um trabalho de construção e (des)construção de seus aspectos co -
textuais e contextuais, a partir de um corpus constituído por críticas publicadas na
revista Veja. Alguns resultados parciais da referida pesquisa foram apresentados em
eventos da área de estudos da linguagem e encaminhados para publicação em seus
respectivos anais (cf. BARROS & NASCIMENTO, 2005, 2005a).
Ao ingressar no programa de mestrado resolvi aproveitar minhas
experiências no estudo da crítica de cinema e iniciar uma nova pesquisa, agora
tendo como corpus críticas veiculadas em um jornal local (da cidade de Londrina).
Para esse novo estudo, procuro trazer à tona vário s aspectos
sociais/históricos/ideológicos que perpassam a concretização do gênero crítica de
cinema, bem como investigar a constituição lingüístico -discursiva dos textos que
analiso, buscando no ISD o principal respaldo teórico -metodológico.
1.1 JUSTIFICATIVAS PARA A PESQUISA
Penso que a principal justificativa para a pesquisa perpassa as
discussões atuais sobre o papel da disciplina Língua Portuguesa na atualidade e
seus reflexos na prática pedagógica. Embora o trabalho em questão não esteja
diretamente atrelado à sala de aula, ou seja, ao processo de ensino/aprendizagem
efetivamente realizado, o direcionamento do meu olhar foi sempre conduzido pelos
4
O conceito de capacidades de linguagem “evoca as aptidões requeridas do aprendiz para a
produção de um gênero numa situação de interação determinada: adaptar -se às características do
contexto e do referente (capacidades de ação); mobilizar modelos discursivos (capacidades
discursivas); dominar as operações psicolingüísticas e as unidades lingüísticas (capacidades
lingüístico-discursivas)” (DOLZ & SCHNEUWLY, 2004, p.52). Esse conceito será revisto no capítulo
referente à fundamentação teórica da pesquisa.
16
anseios do ensino institucionalizado da língua portuguesa na contemporaneidade
brasileira.
As constantes transformações dos estudos da ngua/linguagem
(tanto no Brasil como no exterior), como também daqueles especificamente
atrelados ao processo de ensino/aprendizagem da Língua Portuguesa como ngua
materna, levaram a uma reflexão sobre qual deveria s er o objeto de ensino dessa
disciplina. Ao entender que o papel da disciplina Língua Portuguesa é o de
possibilitar o desenvolvimento das ações de produção e recepção da(s)
linguagem(s) em diferentes situações de produção (BRASIL, 2006) ações essas
sempre configuradas, “emolduradas” nos mais diversos gêneros textuais –, não
como pensar o ensino da língua sem a mobilização de conhecimentos relativos a
esses megainstrumentos (SCHNEUWLY, 2004) da nossa comunicação.
Entretanto, como resgatar os conhecimen tos que estabelecem o
funcionamento dos diferentes neros existentes em nossa sociedade, a fim de que
eles possam ser transpostos para a sala de aula? É pensando justamente nessa
questão que o trabalho de investigação e descrição de um gênero se justifica como
uma linha de pesquisa no campo da Lingüística Aplicada. E é também essa a
justificativa maior para a elaboração de um modelo analítico da crítica de cinema a
partir de contribuições de teorias lingüísticas e discursivo -enunciativas, bem como
de experiências de especialistas da área jornalística e/ou cinematográfica. Ou seja,
não há como pensar nos gêneros como objetos de ensino sem que haja um trabalho
primeiro de exploração/descrição desses objetos (ROJO, 2001).
Outra faceta pela qual podemos abo rdar a presente pesquisa diz
respeito à discussão sobre letramento(s) (KATO, 1986) entendido como conjunto
de práticas sociais que usam a escrita como sistema simbólico e como tecnologia
em contextos específicos (KLEIMAN, 2006, p. 19). Nessa perspectiva, podemos
falar na apropriação/maestria de um gênero como um processo de letramento, ou
seja, o indivíduo é letrado não porque domina simplesmente a sistematização
simbólica de uma ngua, mas porque domina as configurações textuais (gêneros)
que esta dispõe como instrumento de interação social. Dessa forma, entende -se a
apropriação de cada gênero como um ato específico de letramento (cf. ROJO, 2007;
NASCIMENTO, SAITO & GONÇALVES, 2005, 2006; entre outros). E, sendo a
escola a mais importante das agências de letramento (KLEIMAN, 2006), cabe a ela
17
o papel de multiletradora (ROJO & MOITA -LOPES, 2004), ou seja, propiciadora de
um espaço onde os vários tipos de letramento possam ser desenvolvidos.
Trabalhar em uma perspectiva de letramento por intermédio de
gêneros textuais é entender que os significados das práticas de linguagem são
contextualizados. Essa compreensão é extremamente importante no nosso mundo
contemporâneo altamente semiotizado pela globalização – uma vez que possibilita
situar os discursos a qu e somos expostos a todo o momento e recuperar seu
contexto físico/social/ideológico. Segundo Rojo & Moita -Lopes (2004, p. 37):
Tal teorização tem uma implicação prática, porque possibilita
trabalhar em sala de aula com uma visão de linguagem que fornece
artifícios para os alunos aprenderem, na prática escolar, a fazer
escolhas éticas entre os discursos em que circulam. Isso possibilita
aprender a problematiqzar o discurso hegemônico da globalização e
os significados antiéticos que desrespeitam a diferença.
Vale acrescentar que, em razão de cada vez mais outros
conhecimentos de meios semióticos estarem se tornando comuns no uso da
linguagem (imagens, sons, cores, infográficos, etc.), o letramento tradicional (voltado
exclusivamente para a apropriação de t extos verbais), por si só, tem se tornado
insuficiente, o que nos leva a adotar uma concepção de letramentos multisemióticos.
Nessa perspectiva, estudar um gênero, hoje, é estudar não somente seu conteúdo
verbal, mas entendê-lo, muitas vezes, como um modo brido ou multimodal de
organização textual (cf. DIONÍSIO, 2005; SAITO, 2007).
1.2 DESCRIÇÃO DO CORPUS E CRITÉRIOS DE ESCOLHAS
Nosso corpus de pesquisa é composto por dez críticas
cinematográficas escritas por Carlos Eduardo Lourenço Jorge e publ icadas na Folha
de Londrina no período de 12/05/06 a 15/07/06. Tal escolha se deve, primeiramente,
ao fato de Lourenço Jorge ser um profissional reconhecido no meio jornalístico,
comprometido com sua área de atuação e único crítico de cinema da cidade de
Londrina que escreve regularmente para um jornal local. A análise de suas críticas
pode valorizar o trabalho intelectual da localidade londrinense e levar ao
18
conhecimento de educadores/pesquisadores o discurso crítico de um profissional
brasileiro do nosso jornalismo cultural/cinematográfico. Quanto ao número de
exemplares, ele foi definido levando -se em consideração uma representação
razoável com a qual pudéssemos atingir os objetivos do trabalho. Já, as datas
escolhidas correspondem ao período inicial da p esquisa a preocupação foi
selecionar textos mais recentes.
As críticas que compõem nosso corpus são direcionadas tanto a
filmes comerciais (circuito nacional) quanto a filmes exibidos em circuito alternativo
na cidade
5
, sendo que, destes últimos, Louren ço Jorge é também responsável pela
seleção/exibição. Por essa razão, nosso corpus foi dividido em dois segmentos
(cinco textos em cada grupo): críticas relativas ao circuito nacional (CN) e ao circuito
alternativo (CA); que partimos da hipótese de que, por elas estarem inseridas em
contextos diferentes, as representações da situação de produção que servem de
base de orientação para a ação discursiva também são distintas, fato que,
certamente, se refletirá na composição textual.
Quanto às motivações que levaram à escolha do gênero textual que
conduz esse trabalho a crítica de cinema , elas partem, principalmente, do fato de
esse gênero já ter sido alvo de algumas de nossas pesquisas (cf. BARROS &
NASCIMENTO, 2007, 2005, 2005a). Assim, a descoberta de sua complexidade
lingüístico-discursiva nos encheu de certezas quanto à possibilidade de um trabalho
mais aprofundado que pudesse servir de base para uma futura transposição
didática. A abordagem da crítica de cinema, da forma como é proposta para o
trabalho em pauta, certamente, poderá não ajudar a entender o funcionamento
desse gênero em particular, mas também servir de “andaime” para a compreensão
de outros gêneros que compartilham estratégias discursivas semelhantes. Por
exemplo: a crítica de CD ou a crítica literária mobilizadas pelo jornalismo cultural
(basicamente, elas mudam apenas o conteúdo temático).
Outro ponto importante diz respeito ao grande fascínio dos
estudantes pela linguagem cinematográfica, ou seja, como os filmes exercem um
poder de sedução nos jovens e como esta linguagem é bem recebida na escola.
Segundo Pfromm-Netto (2001, p. 75), “o fascínio que a televisão, as gravações em
vídeo e o computador exercem atualmente no âmbito da tecnologia educacional faz
5
Filmes exibidos no Cine Com -Tour (projeto da Casa da Cultura/UEL).
19
com que freqüentemente se percam de vista as contribuições substantivas do
cinema à educação”. Ou seja, embora nosso foco não seja o gênero “filme
cinematográfico”, é a partir dele que, na maioria das vezes, começa o trabalho em
sala de aula com a crítica de cinema. E, sabendo -se do potencial dessa ferramenta
(filmes) no âmbito da escola, a crítica de cinema pode associar -se a ela e tornar-se
um instrumento complementar no ensino da língua.
E não no âmbito da disciplina Língua Portuguesa, mas, se
levarmos em consideração a int erdisciplinaridade
6
que o trabalho com o cinema
pode proporcionar numa instituição de ensino, podemos pensar em um panorama
mais amplo e mais dinâmico. Por exemplo, o filme -alvo da crítica pode ser
trabalhado por outras disciplinas (Artes, História, Filoso fia, Geografia, etc.) em
conjunto com a disciplina de Língua Portuguesa cada disciplina faz uma
abordagem voltada para sua área e, a Língua Portuguesa, compromete -se em
desenvolver atividades que desenvolvam capacidades de linguagem necessárias ao
domínio do gênero crítica de cinema trabalho que pode estar inserido em um
projeto maior, com objetivos específicos, inclusive uma mostra de cinema (cf.
BERBARE, 2004). O trabalho com a crítica de cinema pode também ser elaborado a
partir de leituras de obras literárias ou HQ que tenham sido alvos de adaptações
cinematográficas. A crítica, nesses casos, seria delineada a partir da comparação
entre as duas formas de representação artística a linguagem cinematográfica e a
linguagem literária ou das HQ (cf. suge stões desse tipo de atividade em
NAPOLITANO, 2005).
Para finalizar este tópico, trazemos um quadro cujo objetivo é
apresentar os textos que compõem o nosso corpus de análise, juntamente com o
código utilizado pela pesquisa para identificação de cada um do s exemplares, bem
como o título de cada crítica e a data da sua veiculação no jornal Folha de Londrina:
6
O termo “interdisciplinaridade” é mais bem compreendi do a partir da leitura dos PCNEM (BRASIL,
1999, p. 88-91) que destacam o valor dos alunos pensarem de forma interdisciplinar e globalmente.
20
Código
Filme
Título da crítica
Data da
crítica
1-CA
(ANEXO A/L)
7
Free Zone
As super-mulheres de “Free Zone”
15/07/2006
2-CA
(ANEXO B/M)
Clube da Lua
Receita argentina de cinema
popular
30/06/2006
3-CA
(ANEXO C/N)
Dama de Honra
Quando a normalidade é aparente
16/06/2006
4-CA
(ANEXO D/O)
Sra. Henderson
Apresenta
Entretenimento, como deve ser
09/06/2006
5-CA
(ANEXO E/P)
Conversando com
Mamãe
Os planos de mamãe aos 80
12/05/2006
1-CN
(ANEXO F/Q)
Superman – O
Retorno
SUPER-HOMEM mais sério e
menos pop
14/07/2006
2-CN
(ANEXO G/R)
Separados pelo
Casamento
Estranha comédia romântica
04/07/2006
3-CN
(ANEXO H/S)
Carros
A animada lição de “Carros
30/06/2006
4-CN
(ANEXO I/T)
A Profecia
Original mesmo só a data de estréia
08/06/2006
5-CN
(ANEXO J/U)
X-Men O Confronto
Final
Grandiloqüência MUTANTE
26/05/2006
Quadro 1 Corpus da pesquisa
1.3 OBJETIVOS DA PESQUISA
Como já foi possível perc eber, o tema central da pesquisa em
questão gira em torno da concepção geral de gêneros textuais e, mais
especificamente, do funcionamento do gênero crítica de cinema. Mas, qual seria o
enfoque da abordagem de tal gênero? Quais de seus aspectos poderiam s er
considerados como objeto desta pesquisa? Primeiramente, cabe ressaltar que não
pretendemos aqui construir um modelo didático (cf. DOLZ & SCHNEUWLY, 2004a,
p. 180) do gênero da forma como é proposto pelos estudiosos de Genebra, que
não trabalhamos com um corpus diversificado (trabalhamos com críticas do mesmo
autor/suporte) e também não direcionamos nosso trabalho a um contexto escolar
específico. Embora a pesquisa tenha sido originada da participação em um projeto
de pesquisa direcionado ao Ensino Méd io, os nossos propósitos não estão voltados
7
Os primeiros anexos trazem os textos críticos resgatados do portal Bonde da internet e possibilitam
a leitura na íntegra, os segundos, têm o objetivo de mostrar os textos na forma como foram
veiculados pelo jornal impresso.
21
especificamente para esse contexto, estão, na verdade, articulados ao ensino de
forma mais abrangente.
Estabelecemos, assim, como objeto de investigação, não o gênero
crítica de cinema na sua concepção mais gen érica (embora seja esse o ponto de
partida da pesquisa), mas, sim, ações de linguagem
8
resultantes de adaptações do
gênero crítica de cinema feitas por um agente -produtor personificado na figura do
crítico Carlos Eduardo Lourenço Jorge. E, a partir do esta belecimento desse foco,
delineamos como objetivo geral da pesquisa a investigação analítico -descritiva das
dimensões contextuais e lingüístico -discursivas de tais ações de linguagens. E,
como objetivos específicos :
a) analisar e descrever o funcionamento lin güístico-discursivo-
enunciativo (infra-estrutura textual, mecanismos de textualização e
mecanismos enunciativos) dos textos que compõem nosso corpus
de pesquisa;
b) verificar de que forma as representações dos elementos que
determinam o contexto específico do s dois grupos que formam o
corpus (críticas relativas ao circuito nacional CN e críticas
relativas ao circuito alternativo CA) podem influenciar na
semiotização dos textos. Estabelecer, assim, diferenças
(lingüísticas/discursivas/enunciativas) entre os dois grupos a partir
de explicações contextuais.
1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O presente trabalho está pautado nos princípios da pesquisa
qualitativa (cf. DEMO, 2001; CHIZZOTTI, 2003) que têm como eixo central a
transdisciplinariedade, ou sej a, a busca do desvendamento de um objeto de
8
Ação de linguagem é uma parte da atividade de linguagem (interpretação coletiva do agir pela
palavra) cuja responsabilidade é atribuída a um indivíduo singular o agente produtor dessa ação
(BRONCKART, 2006, p. 139). Essa questão será discutida mais profundamente na fundamentação
teórica da pesquisa.
22
pesquisa por meio da colaboração de várias áreas do conhecimento e da partilha
com sujeitos, fatos e locais implicados no desenvolvimento do estudo. É por meio
dessa interação que o pesquisador interpreta e tradu z os significados latentes ou
ocultos do seu objeto de estudo. Pretendemos, assim, analisar e descrever
qualitativamente o nosso objeto de pesquisa ações de linguagem realizadas por
um sujeito singular a partir do empréstimo do gênero textual crítica de cinema da
esfera do jornalístico cultural a fim de atribuir-lhe significados. Dessa forma, pode -
se falar em uma pesquisa qualitativa de cunho analítico -descritivo.
Sendo assim, para desenvolvimento desta pesquisa, buscamos
saberes não da área lin güística, mas também do campo do jornalístico cultural
(com enfoque na área cinematográfica) – esfera social que emergem os textos
analisados traçando, assim, um perfil macrossocial da situação de produção do
nosso objeto de análise. Fazemos um resgate s ócio-histórico da trajetória da crítica,
principalmente, a cinematográfica, desde o seu surgimento nos periódicos brasileiros
do começo do século XX até os dias atuais, discutindo questões sócio -ideológicas
que perpassam a sua constituição na contemporane idade. Também levantamos
hipóteses da situação mais imediata das ações de linguagem que investigamos, ou
seja, propriedades dos mundos formais (físico, social e subjetivo) que exercem
influências sobre a produção das críticas. Como forma de contextualizar e entender
melhor o nosso objeto de investigação, bem como fundamentar teoricamente as
justificativas da pesquisa, incorporamos ao trabalho alguns estudos da área da
Psicologia da Educação
9
para resgatar as bases epistemológicas que deram origem
a concepção de gêneros textuais/discursivos no âmbito do ensino/aprendizagem de
línguas.
Embora o estudo em questão tenha como método de pesquisa
principal a análise do discurso materializado em textos empíricos que constituem o
corpus da pesquisa, também nos uti lizamos de uma entrevista semi-estruturada
realizada com Carlos Eduardo Lourenço Jorge (cf. APÊNDICE A) – autor das críticas
analisadas. A elaboração da entrevista tem como finalidades: confirmar/não
confirmar hipóteses por nós levantadas em relação ao con texto de produção textual;
subsidiar as discussões de algumas questões levantadas na apresentação da
9
Resgatamos as noções de mediação simbólica, processo de internalização dos signos, relação
pensamento e linguagem, linguagem como meio de interação social, gênero como instrumento
mediador da comunicação humana e como objeto de ensino/aprendizagem de línguas.
23
situacionalidade das críticas e servir como ponto de articulação para as discussões
das análises lingüísticas/discursivas/enunciativas, que estas, na me dida do
possível, são feitas levando em consideração as influências externas (não
lingüísticas) que direcionam o ato da textualização
10
, determinando escolhas
lexicais, posicionamentos enunciativos, formas discursivas de dizer, etc.
Como a pesquisa se uti liza do modelo de análise textual/discursivo
proposto pelo ISD, é com base nele que se estrutura a linha geral dos
procedimentos metodológicos, a saber, análise do contexto de produção e da
arquitetura interna dos textos . Esta última, dividida em três cam adas: a) a infra-
estrutura textual (plano global, tipos de discurso, tipos de seqüência
11
); b)
mecanismos de textualização (conexão
12
, coesão verbal e coesão nominal); c)
mecanismos enunciativos (vozes e modalizações). Entretanto, as categorias da
arquitetura interna não são abordadas igualmente com a mesma intensidade.
Privilegiamos a exploração dos mecanismos de textualização e enunciativo, visto
que, após um levantamento de pesquisas pautadas no modelo de análise do ISD,
constatamos que a ênfase, quase se mpre, tem recaído no estudo da infra -estrutura
textual.
Em contrapartida, desenvolvemos um trabalho mais aprofundado
tanto de análise quanto de pesquisa bibliográfica
13
em torno de questões teórico -
metodológicas que envolvem procedimentos da coesão ver bal/nominal,
gerenciamento das vozes e modalizações. As categorias de análise da infra -
estrutura do texto são abordadas, mas não de forma o detalhada. Entretanto, tal
escolha metodológica tem o cuidado de não prejudicar a compreensão global do
trabalho. Também é importante ressaltar que, na maioria das categorias arroladas
na pesquisa, fazemos um levantamento quantitativo dos dados (com elaboração de
10
Ato de textualizar é entendido, nesta pesquisa, como sendo o ato de semiotizar, pass ar do plano
das representações psicossociais para o plano concreto da textualização.
11
Devido ao caráter restrito de uma pesquisa de dissertação, não foi possível desenvolver um
trabalho com a seqüencialidade, que esta requer um estudo bastante exaustiv o, principalmente
quando o foco é a seqüência argumentativa provavelmente a seqüência dominante de uma crítica
de cinema. Dessa forma, para que o trabalho em pauta não ficasse na superficialidade, optamos por
não abordar tal aspecto da infra -estrutura textual (deixamos para uma próxima oportunidade na qual
possamos desenvolver um trabalho com mais especificidade).
12
A conexão, por estar, na teoria do ISD, muito interligada com a planificação textual análise dos
tipos de seqüência também optamos por o abordá-la, deixando-a para um trabalho posterior,
juntamente com a investigação da seqüencialidade.
13
Nas análises dos mecanismos de textualização e enunciativos recorremos a várias pesquisas
bibliográficas para estabelecer uma discussão mais significati va a respeito de cada assunto abordado
e, em alguns casos, modificamos o modelo de análise textual do ISD a fim de adequá -lo às
necessidades particulares da pesquisa.
24
quadros) antes do início das análises qualitativas propriamente ditas. Entendemos
que tal método de abord agem pode facilitar a compreensão da leitura dissertativa.
Utilizamos, também, quando necessário, recortes textuais para
exemplificar/demonstrar as discussões em curso.
25
CAPÍTULO 2
BASES EPISTEMOLÓGICAS DA PESQUISA
O pilar teórico que sustenta esta pesquisa pauta -se nos estudos
desenvolvidos por Bronckart (2003, 2006) e demais pesquisadores do Grupo de
Genebra (sediados na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da
Universidade de Genebra). O interacionismo sociodiscursivo (rotulado como ISD),
nome pelo qual tais estudos são conhecidos, eclodiu, no Brasil, com a publicação,
em 1999, da obra Atividade de linguagem, textos e discursos (BRONCKART, 2003)
e, desde então, tem se apresentado como um construto teórico que fundamenta a
análise dos discursos humanos na perspectiva de uma didática das línguas que está
organicamente ligada à concepção interacionista social do desenvolvimento
psicológico, herdada, principalmente, dos estudos de Vygotsky (1998, 2003).
Os mentores do interacionismo soci al rejeitam a divisão atual das
Ciências Humanas/Sociais em múltiplas disciplinas, uma vez que entendem que os
problemas centrais de toda ciência do humano (expressão que, segundo Bronckart,
2006, seria mais apropriada para denominar o ISD, ao invés de te oria”, “corrente
teórica”, etc.) envolvem tanto as relações de interdependência entre fatores
psicológicos, cognitivos, fisiológicos, sociais, lingüísticos, etc. do desenvolvimento
humano, como os diversos processos evolutivos/históricos pelos quais tais f atores
foram gerados e co-existem.
Os estudos desenvolvidos pelo ISD centram -se na tese de que “o
problema da linguagem é absolutamente central ou decisivo para essa ciência do
humano” (BRONCKART, 2006, p. 10). Partindo dessa tese, tais estudos acredita m
na vital importância do papel dos textos no processo de desenvolvimento humano,
pelo fato destes representarem a única realidade empírica da atividade de
linguagem, como também organizarem as intervenções de aprendizagem
(BRONCKART et al., 1996). E, ao postular que todo texto realiza -se por meio de um
“modelo comunicacional”, a saber, um gênero textual forma padrão relativamente
estável de estruturação do todo de um enunciado –, toma o gênero como
megainstrumento do desenvolvimento humano e, conseqüen temente, ferramenta de
ensino da língua nas intervenções educativas formais (SCHNEUWLY, 2004).
26
A proposta deste capítulo é traçar um caminho teórico, partindo do
conceito de mediação simbólica, passando pela teoria da internalização dos signos,
da relação pensamento-linguagem achegar à tese da linguagem como forma de
interação discussões estas oriundas dos estudos vygotskyanos de cunho
interacionista social. Tal percurso tem o objetivo de dar suporte às discussões
acerca da postulação do gênero text ual como instrumento mediador do
desenvolvimento humano e do ensino/aprendizagem da língua portuguesa (também
é colocada a perspectiva do gênero como objeto do letramento escolar).
2.1 MEDIAÇÃO SIMBÓLICA: OS SIGNOS
Para iniciarmos a discussão sobre me diação simbólica,
apresentamos (de forma bem resumida) algumas considerações propostas por
Schneuwly (1995) que tentam esquematizar, por meio de três aspectos distintos, a
concepção vygotskyana sobre o desenvolvimento psíquico humano:
a) a forma do desenvolv imento: compreendida pela construção e
funcionamento sistêmico das funções, pela desigualdade e não
proporcionalidade do desenvolvimento e pela transformação por
“revolução”;
b) o motor do desenvolvimento : compreendido pela confrontação
com a cultura, entendi da como produto histórico da vida social, como
conjunto de sistema de signos ou sistema semiótico;
c) os instrumentos do desenvolvimento : são justamente os signos/
sistemas de signos ou os sistemas semióticos.
Como vemos no esquema do desenvolvimento vygo tskyano
proposto por Schneuwly (1995), os signos
14
são, na verdade, os instrumentos do
14
Segundo Vygotsky (1998, p. 52), signos são estímulos artificiais ou autogerados. “Signos podem
ser definidos como elementos que representam ou expressam outros objetos, situações. A palavra
mesa, por exemplo, é um signo que representa o objeto mesa; o símbolo 3 é um signo para
quantidade três; o desenho de uma cartola na porta de um sanitári o é um signo que indica ‘aqui é um
sanitário masculino’” (OLIVEIRA, 2001, p. 30).
27
desenvolvimento psíquico humano
15
. Mas de que forma isso se processa? Como os
signos podem ser o meio para se chegar a um novo nível do psiquismo?
Para compreender melh or esta questão devemos focar o conceito
de mediação, considerado um dos pontos centrais dentro da concepção
vygotskyana. De acordo com Oliveira (2001, p. 26), a mediação, em termos
genéricos, pode ser considerada o processo de intervenção de um elemento
intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser
mediada por esse elemento”. O ser humano, diferentemente do que muitos pensam,
não tem acesso direto ao conhecimento, mas um acesso mediado, ou seja, feito por
meio de “recortes” do real, possibilitado pelos múltiplos sistemas simbólicos (de
signos) inventados/criados pela sua espécie.
A mediação por signos (X) é vista por Vygotsky (1998) como um elo
intermediário (estímulo de segunda ordem) entre um estímulo e uma resposta ( S
R) colocado no interior da operação por um indivíduo devidamente engajado nesta.
Este signo mediador possui também uma característica própria de ação reversa, ou
seja, ele intervém sobre o sujeito e não sobre o ambiente. Esquematicamente, essa
operação pode ser assim representada:
Figura 1 Mediação por signos
Para Vygotsky (1998), os signos, ou instrumentos psicológicos ,
agem de maneira análoga ao papel de um instrumento de trabalho: são meios
auxiliares, indiretos de solucionar um de terminado problema. Entretanto, nesse
caso, no campo psicológico (lembrar, narrar, contar, comparar coisas, etc.). Por
15
O conceito de instrumento psicológico com o qual Vygotsky caracteriza a atividade humana
continua e amplia a observação de Marx de que a atividade de nossa espécie distingu e-se pelo uso
de instrumentos com os quais modifica a natureza.
S - - - - - - - - - - - - R
X
28
exemplo, um trabalhador precisa cortar uma árvore, mas entre ele (sujeito) e a
árvore (objeto que se quer agir sobre) aparece o machado ( instrumento mediador da
ação). Mas, diferentemente dos signos, o machado é exterior ao homem, tem
apenas a função de mediar uma ação física. Já, os signos, são orientados pelo
próprio sujeito: “dirigem -se ao controle de ações psicológicas, seja do indivíd uo, seja
de outras pessoas” (OLIVEIRA, 2001, p. 30).
Vygotsky (1998) discute tanto o problema de muitos estudiosos
colocarem a questão dos signos como instrumento numa relação apenas metafórica,
como também daqueles que tentam dar a essa ligação um sign ificado puramente
literal. Na visão vygotskyana, a analogia básica entre signo e instrumento se
encontra na função mediadora que os caracteriza. Colocar os signos na categoria de
atividade mediadora implica perceber que a essência de seu uso consiste em os
homens afetarem o seu comportamento por meio dos signos. Já, a diferença mais
marcante entre signos e instrumentos está na maneira distinta em que eles
direcionam o comportamento humano:
A função do instrumento é servir como um condutor da influência
humana sobre o objeto da atividade; ele é orientado externamente;
deve necessariamente levar a mudanças nos objetos. Constitui um
meio pelo qual a atividade humana externa é dirigida para o controle
e domínio da natureza. O signo, por outro lado, não modifi ca em
nada o objeto da operação psicológica. Constitui um meio da
atividade interna dirigido para o controle do próprio indivíduo; o signo
é orientado internamente. (VYGOTSKY, 1998, p. 72 -73).
Os signos, como instrumentos psicológicos, não têm por ob jetivo
modificar o meio físico assim como o machado ou a enxada, “tratam de modificar a
nós mesmos, alterando diretamente nossa mente e nosso funcionamento psíquico”
(DEL-RÍO & ALVAREZ, 1996, p. 82).
2.1.1 O Processo de Internalização dos Signos
A internalização é, para Vygotsky (1998), a reconstrução interna de
uma operação externa, ou seja, os processos externos são transformados para criar
processos internos ou planos de consciência (cf. DEL-RÍO & ALVAREZ, 1996). Mas,
29
como isso ocorre com os signos ? No estágio inicial do desenvolvimento, a criança
depende radicalmente de recursos externos, porém, no decorrer do seu
desenvolvimento psíquico, as operações de atividades mediadas por signos
transformam-se em operações internas. Por exemplo
16
, uma criaa procura um
brinquedo e não o acha, assim, pede ajuda a seu pai. Este pergunta: “Onde você viu
o brinquedo pela última vez?”; a criança diz não se lembrar, então, o pai questiona:
“No seu quarto, fora da casa, na cozinha?”; a criança responde: “Não”. Em c erto
momento, o pai pergunta: “No carro?”; então a criança grita: “Ah, sim!”. Nesse
exemplo podemos notar que é um outro, ou seja, o pai, que do exterior, por meio do
sistema simbólico do questionamento, explora o interior da criança e transforma
ativamente a maneira da criança se lembrar. Num certo momento do
desenvolvimento dessa criança, esse processo é interiorizado e ela torna -se capaz
de questionar-se a si própria, controlar sua própria memória: uma capacidade
externa que existia na relação entre as p essoas torna-se uma capacidade interna.
A internalização dos signos marca, pois, a transição das funções
psicológicas elementares em funções psicológicas superiores estas geneticamente
marcadas por relações sociais:
As funções elementares têm como car acterística fundamental o fato
de serem total e diretamente determinadas pela estimulação
ambiental. No caso das funções superiores, a característica
essencial é a estimulação autogerada, isto é, a criação e o uso de
estímulos artificiais [signos] que se tornam a causa imediata do
comportamento. (VYGOTSKY, 1998, p. 53).
A internalização dos signos está relacionada à capacidade de
representação mental que viabiliza ao homem libertar -se do espaço e do tempo
presente. O processo de representação mental est á diretamente relacionado ao
processo de mediação simbólica, sendo um de seus aspectos mais importantes. “A
própria idéia de que o homem é capaz de operar mentalmente sobre o mundo
supõe, necessariamente, a existência de algum tipo de conteúdo mental de na tureza
simbólica, isto é, que representa os objetos, situações e eventos do mundo real no
universo psicológico” (OLIVEIRA, 1992, p. 26). Nós, seres humanos, podemos
representar objetos que existem concretamente no mundo sem, contudo, ter que
acessá-los diretamente: podemos narrar uma viagem que fizemos muito tempo
16
Exemplo emprestado de Wertsch apud Schneuwly (1995).
30
(portanto uma situação deslocada da ação imediata), descrever objetos, situações
que vimos ou presenciamos sem precisarmos estar objetivamente no lugar narrado,
numa relação direta com as cois as que nos referimos. Este exemplo mostra bem a
capacidade de mediação operada por meio da internalização dos signos, entre um
indivíduo e os elementos do mundo que o cercam.
Os sistemas simbólicos que agem como mediadores da relação
homem-mundo estão imbricados no sociocultural, e por essa razão, transformam -se
historicamente juntamente com os processos sociais. Na explicação de Bronckart et
al. (1996, p. 69):
Por causa do poder de suas capacidades comportamentais, os seres
humanos alteram seu ambiente; introduzem ferramentas, construtos
coletivos e instrumentos semióticos de cooperação; produzidas em
grupos e colocadas em vários contextos, essas produções humanas
são imediatamente diferentes e essas diferenças se tornam maiores
no curso da história, prod uzindo um ambiente diferenciado ou, em
outras palavras, um ambiente social e cultural. Isso leva à
reapropriação e depois à interiorização, para dentro do organismo,
das propriedades desse ambiente assim transformado (socializado e
semioticamente carregado ) que produz as capacidades psicológicas
superiores.
E, como sabemos, o mais importante sistema de signos criado pela
humanidade é a linguagem, e é principalmente por meio dela que a comunicação
interpessoal e intercultural é possibilitada.
2.1.2 A Relação Pensamento e Linguagem
A relação pensamento -linguagem é considerada um dos pontos
centrais na obra de Vygotsky. As idéias norteadoras sobre esse tema podem ser
encontradas na obra Pensamento e Linguagem , que apresenta textos escritos entre
os anos de 1929 e 1934. Especificamente no capítulo quatro dessa obra, o autor
desenvolve um estudo dos processos de relacionamento entre pensamento e
linguagem na criança e como tal relação se altera no decorrer do seu
desenvolvimento psíquico. Para Vygotsky (2 003) a linguagem é básica para o
desenvolvimento do pensamento: ela é o meio por meio do qual o pensamento é
31
formado. “Uma palavra privada de pensamento é uma coisa morta, e um
pensamento sem expressão através das palavras mantém -se nas trevas” (cf.
MARTINS, 2005, p. 61). A teoria vygotskyana baseia -se em uma idéia central: o
caráter radicalmente distinto das raízes genéticas do pensamento e da linguagem.
Segundo Vygotsky (2003), ao longo dos vinte e quatro primeiros
meses (aproximadamente) de vida de um ser humano, coexistem duas raízes
distintas de desenvolvimento: a) um estágio pré-verbal do pensamento atestado
pela capacidade da criança de resolver diversos problemas cognitivos,
principalmente, a distinção dos meios e dos fins e sua reconexão no quadro de
ações práticas, sem, contudo, recorrer à linguagem verbal; b) um estágio pré-
intelectual da linguagem que tem relação com a evolução da capacidade de
comunicação, no qual a criança constrói uma forma de protolíngua (incluindo -se
também as mímicas e os gestos).
Na perspectiva vygotskyana, após essa etapa do desenvolvimento, o
pensamento pré-verbal e a linguagem p -intelectual se encontram e se fundem: o
pensamento se torna verbal e a linguagem racional, ou seja, a fala começa a servir
ao intelecto e o pensamento a ser verbalizado. “Enquanto na fala exterior o
pensamento é expresso por palavras, na fala interior as palavras morrem à medida
que geram o pensamento.” (VYGOTSKY, 2003, p. 184 -185). Assim, o surgimento da
linguagem verbal na criança (domí nio de uma determinada língua natural
reconhecida socialmente pelo meio que a cerca), corresponde à fusão desses dois
estágios do desenvolvimento. Após essa fusão, a linguagem se desenvolve segundo
dois eixos funcionais: um social, traduzindo -se pelo rápido desenvolvimento das
capacidades de comunicação verbal e interação com o meio; outro individual, de
planejamento e de controle das próprias ações, a partir da interiorização dos signos,
sinônimo da constituição do pensamento consciente.
Recorrendo a Bronckart (2006), vemos que o autor, ao reexaminar a
tese vygotskyana sobre as duas raízes genéticas do desenvolvimento, critica tal
concepção, principalmente no que diz respeito ao estágio pré -verbal do pensamento,
pois entende que Vygotsky foi vago em sua a nálise referente aos processos que
envolvem tal estágio do desenvolvimento. Para corroborar seu questionamento,
Bronckart (2006) se remete a uma citação de Bühler feita por Vygotsky (2003, p. 52),
na qual o autor coloca que o pensamento pré -verbal estaria associado, ao mesmo
tempo, à compreensão das relações mecânicas, à criação de meios mecânicos para
32
fins mecânicos e também à ação subjetiva, conscientemente intencional . Realmente,
tal proposição é contraditória, pois como uma ação pode ser mecânica e inte ncional
a um só tempo?
Relendo o texto vygotskyano, vemos que o autor não esclarece
muitos pontos de sua tese, sobretudo, no que diz respeito ao paralelismo
estabelecido entre a inteligência dos antropóides e o estágio pré -verbal do
pensamento das crianç as (descrita como idade do chipan). Aceitar tal comparação
pressupõe aderir à tese de que as crianças nesse primeiro estágio de
desenvolvimento se relacionariam com os objetos somente a partir de seus atributos
puramente físicos, ou seja, dissociados de seu caráter de instrumentos sociais.
Segundo Bronckart (2006, p. 87), “o recém -nascido é, de imediato, mergulhado em
um contexto de intervenções humanas, ou seja, de ações significantes e de
discursos e essas produções sociais medeiam sua relação com o mun do, com os
objetos, ou, ainda, com o mundo no que ele tem de físico”. Desconsiderar a
influência do social no início do desenvolvimento nos leva a pensar que a
consciência humana poderia se manifestar independentemente da mediação com o
meio social, o que, certamente, negaria a grande tese vygotskyana da implicação do
sociocultural na emergência das funções psíquicas superiores.
Postas as ressalvas necessárias à concepção vygotskyana sobre as
duas raízes genéticas do desenvolvimento, ressaltamos nossa ade são à teoria da
interiorização dos signos (sistemas simbólicos, semióticos, sendo o mais importante,
a linguagem) na emergência e desenvolvimento do pensamento consciente.
Segundo Vygotsky (2003), “o pensamento não é simplesmente expresso por
palavras, é por meio delas que ele passa a existir” (p. 156); “o desenvolvimento do
pensamento é determinado pela linguagem, isto é, pelos instrumentos lingüísticos do
pensamento e pela experiência sócio -cultural da criança” (p. 62). Dessa forma,
podemos dizer que a gê nese do pensamento humano é, ao mesmo tempo,
semiótica e social, mas diferentemente de Vygotsky, entendemos que a aparição e
a interiorização da linguagem não marcam a passagem do desenvolvimento
biológico/natural para o sócio -histórico, que acreditamo s que a intervenção social
está presente desde o nascimento da criança.
33
2.1.3 A Linguagem como Meio de Interação Social
Ao longo das etapas do desenvolvimento, o domínio das estruturas
discursivas (sistemas de signos) e sua interiorização continua m a desempenhar um
papel decisivo na constituição psíquica humana. De acordo com Freitas (2002), ao
mesmo tempo em que a linguagem é um fator importante para o desenvolvimento
mental, exercendo uma função organizadora e planejadora do pensamento, ela
também tem uma função social e comunicativa :
Através da linguagem a criança entra em contato com o
conhecimento humano e adquire conceitos sobre o mundo que a
rodeia, apropriando-se da experiência acumulada pelo gênero
humano no decurso da história social. É t ambém, a partir da
interação social, da qual a linguagem é expressão fundamental, que
a criança constrói sua própria individualidade. (FREITAS, 2002,
p.98).
A interação verbal constitui a realidade fundamental da língua
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986). Ness a perspectiva, percebe -se o poder da
linguagem, no seu estatuto de entidade sócio -discursiva, para a formação
cognitiva/intelectual do ser humano e, mais ainda, para sua formação como ser
sócio-histórico pois, ao interiorizar a palavra, o homem não apenas toma posse de
seu significado, mas também de toda sua carga ideológica e sócio -cultural:
A interação face a face entre indivíduos particulares desempenha um
papel fundamental na construção do ser humano: é através da
relação interpessoal concreta com out ros homens que o indivíduo
vai chegar a interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de
funcionamento psicológico. Portanto, a interação social, seja
diretamente com outros membros da cultura, seja através dos
diversos elementos do ambiente culturalm ente estruturado, fornece a
matéria-prima para o desenvolvimento psicológico do indivíduo.
(OLIVEIRA, 2001, p. 38).
Dessa forma, a linguagem (matéria -prima fornecida pela cultura), no
seu posto de mediadora entre o sujeito e o meio social, é como se fo sse um filtro por
meio do qual o homem tem a possibilidade de enxergar seu mundo e agir sobre ele.
Mas, de que forma essa linguagem se torna um instrumento mediador? De que
forma nos comunicamos? Será simplesmente por palavras? Segundo Vygotsky
34
(2003, p. 186), diferentemente do pensamento, a linguagem verbal é constituída de
unidades separadas. Como exemplo de tal afirmação ele coloca que quando
desejamos comunicar o pensamento de que “hoje vi um menino descalço, de camisa
azul, correndo rua abaixo”, não ve mos cada aspecto isoladamente, ou seja, o
menino, a camisa, a cor azul, a sua corrida, a ausência de sapatos; concebemos
tudo em um só pensamento, porém nos expressamos por meio de palavras distintas.
Tal raciocínio não deixa de ter razão, porém a comunica ção interpessoal não se
concretiza simplesmente por meio de palavras, uma vez que elas, por si só, não
podem ser consideradas unidades de sentido do ato comunicacional: isoladamente,
elas não são nada além de simples artefatos lingüísticos.
Segundo Bakhtin (1992), a palavra, tida como unidade da língua,
não tem autor, não é de ninguém e não comporta um juízo de valor; somente se
torna expressão individualizada de um sujeito quando funciona como enunciado
completo, numa situação concreta da comunicação v erbal. Dessa forma, não
podemos tomar a palavra (forma lingüística) como unidade de comunicação, mas
tão somente o enunciado completo , numa situação concreta de comunicação, dito
de outra forma, os textos (orais ou escritos), a saber, “os correspondentes
empíricos/lingüísticos das atividades de linguagem de um grupo” (BRONCKART,
2006, p. 139). Completando o raciocínio:
O todo do enunciado [textos/discursos] não é uma unidade da
língua (nem uma unidade do fluxo verbal’ ou da ‘cadeia discursiva’),
é uma unidade da comunicação verbal que não possui uma
significação, mas um sentido (um sentido total relacionado com o
valor: a verdade, a beleza, etc.; que implica uma compreensão
responsiva, comporta um juízo de valor). (BAKHTIN, 1992, p. 355).
Sendo o texto a nossa unidade comunicativa, e sabendo -se que todo
texto configura-se em um gênero textual, a saber, tipos relativamente estáveis de
enunciados (BAKHTIN, 1992, p. 279) ou, como acrescenta Bronckart (2006, p. 143),
produtos de configurações de escolhas (combinação dos mecanismos estruturantes,
das operações cognitivas e de modalidades de realização lingüística) que se
encontram momentaneamente “cristalizados ou estabilizados pelo uso; chega -se
então, ao gênero textual (carta, debate oral, receita culiná ria, conversa entre amigos,
etc.) como o instrumento mais eficaz de toda comunicação humana.
35
2.2 O GÊNERO TEXTUAL COMO INSTRUMENTO MEDIADOR DA COMUNICAÇÃO E
DESENVOLVIMENTO HUMANO
Para Bakhtin (1992, p. 301) “todos os nossos enunciados dispõem
de uma forma padrão e relativamente estável de estruturação de um todo”, que
podemos denominar “gêneros textuais”
17
. Assim, aprender a se comunicar é
aprender a estruturar enunciados completos, providos de um sentido global, pois as
orações, frases, palavras, etc. , adquirem sentidos na complexidade desse todo.
Dessa forma, se não existissem os gêneros “e se não os dominássemos, se
tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo da fala, se tivéssemos de
construir cada um de nossos enunciados, a comunicação verbal seria impossível.”
(BAKHTIN, 1992, p. 302). Percebemos, então, que são os gêneros que organizam a
nossa fala:
Aprendemos a moldar nossa fala às formas do gênero e, ao ouvir a
fala do outro, sabemos de imediato, bem nas primeiras palavras,
pressentir-lhe o gênero, adivinhar -lhe o volume (a extensão
aproximada do todo discursivo), a dada estrutura composicional,
prever-lhe o fim, ou seja, desde o início, somos sensíveis ao todo
discursivo que, em seguida, no processo da fala, evidenciará suas
diferenciações (BAKHTIN, 1992, p. 302).
Na visão bakhtiniana (e também na nossa), a escolha de certo
gênero é determinada pela esfera social, pelos objetivos temáticos, pela intenção do
sujeito e pelos parâmetros da situação de comunicação tanto a mais imediata
(lugar, espaço, interactantes da produção) como a mais ampla (contexto sócio -
histórico-ideológico geral em que a comunicação se insere). “Como instrumento
psicológico comum, os gêneros pré -organizam as significações verbais, proto -
significações simultan eamente alargadas e estreitadas em um determinado meio
sociodiscursivo” (Clot, 2006, p. 228). Nessa concepção, como salienta Schneuwly
(2004), uma relação clara entre meio -fim, que é a estrutura base da atividade
mediada, defendida pelo interacionismo s ocial. O que nos leva a aproximar as
concepções vygotskyanas e bakhtinianas e a sustentar a tese do gênero como
instrumento maior da interação inter -pessoal. Segundo Schneuwly (2004, p. 23):
17
Bakhtin utiliza o temo gênero do discurso”, mas, para a pesquisa em pauta, mantemos a
denominação de Bronckart (2003) – “gênero textual” – sem prejuízo à teoria bakhtiniana.
36
Na perspectiva do interacionismo social, a atividade é
necessariamente concebida como tripolar: a ação é mediada por
objetos específicos, socialmente elaborados, frutos das experiências
das gerações precedentes, através dos quais se transmitem e se
alargam as experiências possíveis. Os instrumentos encontram -se
entre o indivíduo que age e o objeto sobre o qual ou a situação na
qual ele age: eles determinam seu comportamento, guiam -no, afinam
e diferenciam sua percepção da situação na qual ele é levado a agir.
A intervenção do instrumento objeto socialmente elaborado
nessa estrutura diferenciada à atividade uma certa forma; a
transformação do instrumento transforma evidentemente as maneiras
de nos comportarmos numa situação (grifo nosso).
Esse esquema tripolar, adaptado ao gênero como instrumento
mediador da comunicação, pode ser assim descrito: os gêneros são artefatos
sócio-historicamente construídos , nós não os criamos a cada enunciação e, sim,
procedemos uma adaptação de um modelo do repertório
18
existente, legado a nós
pelas gerações anteriores. Todo ato de linguagem pressupõe a adaptação, por parte
de um sujeito singular, de um determinado gênero textual que se encontra indexado
ao arquitexto
19
. Assim, mediando nossas ações linguageiras, moldando -as a uma
determinada situação contextual, uma ferramenta lin güística/textual/discursiva e,
acima de tudo, psicossocial, aparece como mediadora o gênero textual. Além de
mediador de uma ação de linguagem, o gênero também acaba por representar essa
ação, de concretizá-la:
[...] as atividades não mais se presentifi cam somente em sua
execução. Elas existem, de uma certa maneira, independente desta,
nos instrumentos que as representam e, logo, significam -nas. O
instrumento torna-se, assim, o lugar privilegiado da transformação
dos comportamentos: explorar suas potenci alidades, enriquecê-los,
transformá-los são também maneiras de transformar a atividade que
está ligada à sua utilização. (SCHNEUWLY, 2004, p. 24).
Entretanto, para que o instrumento, no nosso caso, o gênero, possa
ser “explorado em suas potencialidades” e, dessa forma, se torne um mediador
eficaz na interação interpessoal, ou seja, para que ele possa realmente transformar,
enriquecer a atividade linguageira, ele precisa ser dominado pelo sujeito. Segundo
Machado (2005, p. 251), “a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental
de socialização, de possibilidade de inserção prática dos indivíduos nas atividades
18
A expressão “repertório de gêneros” é de Bakthin (1992); Bronckart (2006) associa a noção de
organização de “tipos” de textos preexistes (pré -construtos humanos) ao termo “arquitextualidade”.
19
Ver nota anterior.
37
comunicativas humanas”. E essa é a razão maior de se propor os gêneros como
objeto de ensino de Língua Portuguesa
20
: a necessidade da maestria de stes por
parte dos nossos aprendizes.
Retornando à tese do gênero como instrumento do desenvolvimento
humano, tomamos a frase de Schneuwly (2004a, p. 141): “toda capacidade humana
é construída pela apropriação de instrumentos semióticos ”. Dessa forma, o indivíduo
que age sobre o mundo por meio de instrumentos semióticos (no nosso caso, os
gêneros) constrói novas funções psicológicas a partir da transformação das
anteriores, por meio da integração desses novos instrumentos. “É, pois, a integração
de instrumentos semióticos socialmente elaborados que transforma o funcionamento
psíquico e que se encontra na base de novas funções psíquicas” (SCHNEUWLY,
2004, p. 142). Segundo Baquero (1998, p. 36):
Os instrumentos de mediação, ou melhor, a apropriação ou
domínio destes, são, por um lado, uma fonte de desenvolvimento. O
desenvolvimento a partir desta perspectiva, fundamentalmente
quando se refere à constituição dos Processos Psicológicos
Superiores, poderia ser descrito como a apropriação progressiva de
novos instrumentos de mediação ou como o domínio de formas mais
avançadas de iguais instrumentos (grifos nossos).
Os gêneros são instrumentos que estão na base da comunicação
interpessoal e, ao mesmo tempo, pressupõem funções psíquicas desenvolvidas.
Entretanto, o seu desenvolvimento não pode ser mais concebido segundo o modelo
simples de interiorização de uma relação interpsíquíca; eles necessitam que sejam
mobilizadas instituições educacionais formalizadas (SCHNEUWLY, 1995). É com
este olhar que colocamos a necessidade de introduzir os gêneros em sala de aula
(de forma bem diversificada e com um trabalho pedagógico de cunho interacionista
social), para que o ensino da ngua se desvincule da pura “gramatiquice” e se volte
para o desenvolvimento de práticas discursivas e relações instauradas pelo agir
simbolicamente sobre o mundo através da linguagem (NASCIMENTO & SAITO,
2005). Dolz & Schneuwly (2004, p. 47) dão o nome de interacionismo instrumental a
esta abordagem instrumentalista do desenvolvimento psíquic o humano e a aplicam
aos seus estudos acerca da didática do ensino de línguas (estudos estes que têm o
gênero textual como objeto de ensino).
20
Essa discussão será ampliada no próximo tópico.
38
2.3 O GÊNERO TEXTUAL COMO OBJETO DE ENSINO DE LÍNGUAS
Partindo do exposto até aqui, temos, então, o gênero co mo um tipo
relativamente estável de enunciado, indissociável do contexto social que o engendra
e disponível num repertório/arquitexto . E, acreditando que sua maestria pode
permitir ao sujeito prever quadros de sentidos e comportamentos nas diferentes
situações de comunicação com as quais se depara, que o tomamos como “um
instrumento semiótico complexo, isto é, uma forma de linguagem prescritiva, que
permite, a um tempo, a produção e a compreensão de textos” (SCHNEUWLY,
2004, p. 27), é que entendemos s er ele o gênero o objeto de ensino mais eficaz
de uma língua.
Conhecer um gênero é, nas palavras de Cristóvão et al. (2006, p.
44), “conhecer suas condições de uso, sua adequação ao contexto social e as
possibilidades de materialização que requerem operações de contextualização e de
textualização que levam o agente produtor a tomar decisões em relação à estrutura
e ao estilo composicional do texto”. Ao dominar determinado gênero, o indivíduo é
capaz de gerenciar regras de conduta, seleção lingüístico -discursiva e estruturas de
composição utilizadas: é a competência discursiva (cf. BALTAR, 2004) tanto
almejada pelo ensino que leva os falantes/aprendizes à detecção do que é ou o
adequado em cada prática social. E ainda, quanto mais competente e ex periente for
o indivíduo, mais proficiente ele será na utilização e adaptação dos gêneros e no
reconhecimento das estruturas que os compõem.
Segundo Schneuwly (2004, p. 24), um instrumento, no nosso caso,
um gênero textual, “não é eficaz senão à medida q ue se constroem, por parte do
sujeito, os esquemas de sua utilização”. Mas o que seriam esses esquemas de
utilização? Os esquemas de utilização estão relacionados às capacidades de
linguagem (DOLZ, PASQUIER & BRONCKART, 1993 ) que o sujeito deve dominar
em relação a um determinado modelo” textual, ou seja, às aptidões requeridas do
aprendiz para a produção e recepção de um gênero numa situação de interação
determinada. Segundo os autores, elas podem ser distintas em três categorias:
a) capacidades de ação : possibilitam ao agente adaptar sua produção
de linguagem ao contexto, ou seja, às representações do ambiente
39
físico, do estatuto social dos participantes e do lugar social onde se
passa a interação. Dessa forma, as representações da situação de
comunicação têm relação direta com o gênero, que este deve
estar adaptado a um destinatário específico, a um conteúdo
específico, a uma finalidade específica. Enfim, este nível de
capacidade é aquele que articula o gênero à base de orientação da
ação discursiva.
b) capacidades discursivas : possibilitam ao agente escolher a infra -
estrutura geral de um texto, ou seja, a escolha dos tipos de discurso
e de seqüências textuais, bem como a escolha e elaboração de
conteúdos que surgem como efeito de um gênero já existente e qu e
deverá ser adaptado para a situação de produção.
c) capacidades lingüístico -discursivas: possibilitam ao agente
realizar as operações implicadas na produção textual, sendo elas de
quatro tipos: as operações de textualização (conexão, coesão
nominal e coesão verbal); os mecanismos enunciativos de
gerenciamento de vozes e expressão das modalização; a construção
de enunciados (oração e período) e, finalmente, a escolha de itens
lexicais.
Dessa forma, para que um gênero possa ser mobilizado é requerido
do sujeito o domínio de determinadas capacidades de linguagem. É nesse sentido
que Schneuwly (2004, p. 28) amplia a noção de instrumentalização vygotskyana e
define o gênero como um megainstrumento, ou seja, “uma configuração estabilizada
de vários subsistemas semióticos (sobretudo lingüísticos, mas também
paralingüísticos)”, que permite ao sujeito agir eficazmente numa classe bem definida
de situações de comunicação.
Percebemos, então, que muito diferente do que tradicionalmente se
aborda no ensino da Língua P ortuguesa, ou seja, os fatos lingüísticos/gramaticais
descontextualizados da ação de linguagem que os mobiliza, o ensino por meio de
gêneros textuais pode devolver à língua o estatuto que mais lhe compete o da
interação social:
40
A língua, como sistema d e formas que remetem a uma norma, não
passa de uma abstração, que pode ser demonstrada no plano
teórico e prático do ponto de vista do deciframento de uma língua
morta e do seu ensino. Esse sistema não pode servir de base para a
compreensão e explicação dos fatos lingüísticos enquanto fatos vivos
e em evolução. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986, p. 108).
Dessa forma, precisamos pensar o ensino da língua ancorado na
interação social, ou seja, não devemos ensinar uma ngua morta, na qual a
estrutura precede ao uso, mas sim, a língua em funcionamento, que nada mais é
que o ensino voltado para as práticas sociais de linguagem, estas, configuradas em
gêneros textuais (NASCIMENTO, 2007): instrumentos semióticos sócio -históricos
que medeiam a interação interpessoal.
2.4 INTERSECÇÕES ENTRE OS CONCEITOS DE LETRAMENTO E GÊNEROS TEXTUAIS
A intersecção entre estudos oriundos da Lingüística Aplicada
envolvendo uma concepção interacionista da língua/linguagem e estudos
pedagógicos voltados para a aquisição da escrita e da leitura tem contribuído para a
aproximação da concepção de letramento e do ensino por meio de gêneros textuais.
Alguns pesquisadores têm orientado suas pesquisas a partir da premissa de que o
domínio de um determinado gênero textual está intrinsecament e relacionado a um
processo específico de letramento (cf. ROJO, 2006; SOUZA, 2003; SOUZA,
MOULIN e COSTA, 2004; NASCIMENTO, 2007; NASCIMENTO & SAITO, 2005;
PRETO-BAY, 2007).
Ou seja, o indivíduo é letrado em determinada prática de
linguagem se é capaz de empreender uma ação de linguagem eficaz (esta
configurada sempre em um modelo de gênero), tanto em nível lingüístico, textual,
discursivo, enunciativo como situacional. Por exemplo, um professor de Português
com anos de experiência, proficiente na escr ita de inúmeros gêneros de texto, pode,
às vezes, não ser letrado nos neros “chat” , “blog” ou em tantos outros gêneros
digitais surgidos com o evento da internet.
Nessa perspectiva, o ensino da língua ultrapassa uma concepção
puramente lingüística/text ual embora o texto continue sendo a unidade de ensino
41
pois o interesse não está simplesmente em fazer com que o aluno aprenda a forma
de se escrever, mas também que ele entenda toda a complexidade lingüístico -
discursiva e enunciativo -contextual envolvida em uma determinada ação de
linguagem, esta fruto da adaptação de um modelo de gênero pré -existente
(NASCIMENTO & CRISTÓVÃO, 2005).
Para ilustrar essa pertinente relação entre letramento e ensino da
língua por meio da apropriação de gêneros de textos q ue circulam em nossa
sociedade, vejamos o poema escrito pela estudante norte -americana Kate M. Chong
como forma de depoimento sobre sua história com o letramento, citado por Soares
21
(1999):
O que é Letramento?
Letramento não é um gancho
em que se pendura cada som enunciado,
não é treinamento repetitivo
de uma habilidade,
nem uma habilidade,
nem um martelo
quebrando blocos de gramática.
Letramento é diversão
é leitura à luz de vela
ou lá fora, à luz do sol.
São notícias sobre o presidente,
o tempo, os artistas da TV
e mesmo Mônica e Cebolinha
nos Jornais de domingo.
É uma receita de biscoito,
uma lista de compras, recados colados na geladeira,
um bilhete de parabéns e cartas
de velhos amigos.
É viajar para países desconhecidos,
sem deixar sua cama,
é rir e chorar
com personagens, heróis e grandes amigos.
É um Atlas do mundo,
sinais de trânsito, caças ao tesouro,
manuais, instruções, guias,
e orientações em bulas de remédios,
para que você não fique perdido.
21
Magda Soares (1999) coloca que este poema foi escrito pela estudante norte -americana Kate M.
Chong, como forma de ilustrar seu depoimento sobre sua história com o letramento. Segundo a
autora, a tradução foi feita com algumas adaptações para o nosso idioma e o nosso contexto.
42
Letramento é, sobretudo,
um mapa do coração do homem,
um mapa de quem você é,
e de tudo que você pode ser.
Esse poema nos remete ao tema do ensino por meio de gêneros
textuais, (ainda que não tenha sido esse o intuito discursivo da autora), pois destaca
a relação entre letrar -se e ter contato, apropriar-se dos mais variados gêneros que
perpassam o nosso cotidiano. Se analisarmos o depoimento da estudante,
encontramos a citação ou a alusão a vários gêneros de texto: notícia de jornal,
tirinha, receita culinária, lista de compras, bilhete, recado, carta pessoal, romance,
conto infantil, manual, instrução, etc.; o que demonstra que o letramento não pode
ser pensado sem levar em consideração essas ferramentas da comunicação
interpessoal.
O mundo contemporâneo pode ser definido tanto pelo acesso e
controle de tecnologias e redes de informação, como também pela livre circulação
de grande quantidade de dados, quase sempre codificados e catalogados pelos
meios escritos. Dessa forma, “a produção e o consumo de textos revelam -se
progressivamente como cata lisador social de participação e acesso a fontes de
conhecimento e, conseqüentemente, de poder (PRETO -BAY, 2007). Agora, para
que o nosso aluno tenha acesso realmente a essas fontes de conhecimento e poder ,
é inevitável um trabalho didático que promova m últiplos letramentos dentro da sala
de aula, não só visando à escrita e à leitura como simples tarefas de “adestramento”
escolar, mas como vivência de relevantes práticas sociais orientada pelos mais
diversos gêneros:
Os gêneros, como formas historicame nte cristalizadas nas práticas
sociais, fazem a mediação entre a prática social, ela própria e as
atividades de linguagem dos indivíduos. [...] O nero funciona como
um modelo comum, como uma representação integrante que
determina um horizonte de expectat ivas para os membros de
comunidade confrontados às mesmas práticas de linguagem. Os
gêneros, portanto, intermedeiam e integram as práticas às atividades
de linguagem. São referências fundamentais para a construção
dessas práticas (ROJO, 2006, p. 26).
Ao associar processo de letramento e a concepção de ensino por
meio de gêneros de textos, temos que ter por base o reconhecimento de que todas
as esferas sociais, incluindo a esfera cotidiana do aluno, têm seu valor intrínseco,
43
mas que a participação do educ ando a vários níveis dessas esferas requer que o
mesmo venha a conhecer, pelo menos em parte, o conjunto de valores e formas de
interação de tais esferas sociais, principalmente, as das mais reconhecidas
socialmente. Tal como pessoas que transitam entre do is mundos e precisam
aprender os seus valores e contratos sociais, os nossos alunos precisam ser
ensinados explicitamente sobre quais são as características e os valores das
diversas esferas sociais e aprender a navegá -las por meio da apropriação das
formas de interação que elas disponibilizam (PRETO -BAY, 2007).
O enfoque nos gêneros textuais e seu uso situado têm se tornado o
lugar central para o reconhecimento dos usos da linguagem nas práticas sociais de
uma sociedade, uma vez que são eles os sinaliza dores das diferenças da situação,
da interação e do significado de tais atividades. Na interação letrada, indivíduos
escrevendo e lendo um texto mediador têm de criar relações e significados
compatíveis para estabelecer essa interação, o que pressupõe a no ção de gêneros
textuais como formas de ão social organizada. Na perspectiva que defendemos
para a pesquisa em questão, os alunos o precisam ser gramáticos de texto e nem
conhecedores de uma metalinguagem lingüística sofisticada, ao contrário, “no Brasi l,
com seus acentuados problemas de iletrismo, a necessidade dos alunos é de terem
acesso letrado a textos (de opinião, literários, científicos, jornalísticos, informativos,
etc.)” (ROJO, 2005, p. 207), ou seja, a uma diversidade de gêneros textuais que
circulam e fazem parte das atividades sociais e deles serem agentes e leitores
competentes.
2.5 INTERACIONISMO SOCIODISCURSIVO: UMA CORRENTE DA CNCIA DO HUMANO
Como mencionado no início do capítulo, o construto teórico
norteador da pesquisa se enqua dra mais especificadamente nos estudos
desenvolvidos pelo ISD, cuja tese geral é de que “as propriedades específicas do
comportamento humano resultam de uma socialização particular que é possibilitada
pela emergência histórica de instrumentos semióticos” ( BRONCKART et al., 1996,
p.69).
44
Jean-Paul Bronckart (2006a), em uma entrevista concedida a Anna
Rachel Machado e publicada na revista Revel, esclarece muitos pontos em relação
ao ISD, o qual ele se abstém de definir como uma “teoria” ou um “paradigma
científico”, uma vez que, segundo o autor, tais nomenclaturas além de não serem
por si só esclarecedoras, não acrescentam nada aos estudos do ISD.
De acordo com Bronckart (2006a), o ISD se inscreve ao mesmo
tempo como uma variante e um prolongamento do intera cionismo social
22
(cf.
VYGOTSKY, 1998, entre outros) aceitando, em princípio, todas as idéias fundadoras
desse segmento. Dessa forma, mais que uma ciência lingüística, psicológica ou
sociológica, o ISD pretende ser uma corrente da ciência do humano, cuja
problemática central está no desvendamento das atividades linguageiras:
[...] as práticas de linguagem situadas (quer dizer, os textos-
discursos) são os instrumentos maiores do desenvolvimento
humano, não somente sob o ângulo dos conhecimentos e dos
saberes, mas, sobretudo, sob o das capacidades de agir e da
identidade das pessoas. (BRONCKART, 2006a, p. 8).
Entretanto, Bronckart (2006a) recusa certo determinismo “definitivo”
do interacionismo social. Para o autor, sustentar que as práticas de linguagem es tão
na origem de todo funcionamento do propriamente humano, não pode levar a
contestar essa “realidade indiscutível que constitui a emergência de capacidades
cognitivas gerais, tendendo a abstrair diferenças sociais, culturais ou linguageiras,
tais como Piaget notadamente as descreveu” (p. 8). O ISD não desconsidera tais
capacidades cognitivas universais, mas as entende como secundárias em relação às
capacidades do pensamento orientadas pelo sócio -histórico e pela interação
linguageira. Conseqüentemente, pa ra se compreender aquilo que é específico no
funcionamento humano “é necessário analisar, primeiramente, as características do
agir coletivo, porque é nesse âmbito que se constroem tanto o conjunto dos fatos
sociais quanto as estruturas e os conteúdos do p ensamento consciente das
pessoas” (BRONCKART, 2006, p. 137).
No âmbito desse agir coletivo”, o ISD faz uma diferenciação entre
atividade e ão. Atividade é o temo utilizado para “designar uma leitura do agir que
implica as dimensões motivacionais e int encionais mobilizadas por um coletivo
22
O interacionismo social é apenas uma das bases teóricas do ISD, para uma compreensão mais
aprofundada do seu quadro epistemológico, ver Bronckart (2003, cap.1).
45
organizado” (MACHADO, 2005, p. 249). Cada atividade é constituída de ações, a
saber, “condutas que podem ser atribuídas a um agente particular, motivadas e
orientadas por objetivos que implicam a representação e a ante cipação de seus
efeitos na atividade social” (MACHADO, 2005, p. 249). Na perspectiva teórica
defendida pelo ISD, as atividades sociais apóiam -se fundamentalmente nas
atividades de linguagem . Dessa concepção epistemológica chega -se à conclusão de
que as produções de linguagem, primeiramente, devem ser consideradas em sua
relação com as atividades humanas em geral, o que leva a delimitar, “na atividade
coletiva, as ações de linguagem , como unidades psicológicas sincrônicas que
reúnem as representações de um a gente sobre contextos de ação” (BRONCKART,
2003, p. 107).
Estas ações de linguagem, por sua vez, são materializadas em
textos, a saber, todas as produções de linguagem situadas que são construídas, de
um lado, “mobilizando os recursos (lexicais e sintáti cos) de uma determinada língua
natural e, de outro, levando -se em conta modelos de organização textual disponíveis
no âmbito dessa mesma língua” (BRONCKART, 2006, p. 139). Toda elaboração de
um texto implica, necessariamente, escolhas relacionadas à seleçã o de mecanismos
lingüísticos/discursivos e, conseqüentemente, de modalidades de realização, ou
seja, de gêneros textuais, que nada mais o que os construtos sócio -históricos
disponíveis no arquitexto de uma determinada formação social:
[...] eles [os neros] são objeto de avaliações sociais permanentes,
o que acaba por constituí -los, de ‘reservatórios de modelos de
referência’, dos quais todo produtor deve se servir para realizar
ações de linguagem. Eles se encontram necessariamente indexados
às situações de ação de linguagem, i. e., são portadores de um ou de
vários valores de uso: em uma determinada formação social,
determinado gênero é considerado como mais ou menos pertinente
para determinada situação de ação (MACHADO, 2005, p. 250).
Todo texto é, pois, fruto de uma ação de linguagem, ou seja, é seu
correspondente verbal ou semiótico. Da mesma forma, todo texto é concretizado
por meio da apropriação de um gênero, ou seja, qualquer texto empírico configura -
se em um modelo de gênero. Por outro la do, todo texto também procede de uma
adaptação do gênero-modelo aos valores atribuídos pelo agente -produtor à sua
situacionalidade. Dessa forma, além de apresentar as características comuns ao
46
gênero, também apresenta propriedades singulares, que definem s eu estilo
particular (BRONCKART, 2003). Por isso:
[...] a produção de cada novo texto empírico contribui para a
transformação histórica permanente das representações sociais
referentes não aos gêneros de textos, mas também à língua e às
relações de pertinência entre textos e situações de ação.
(BRONCKART, 2003, p. 108).
Assim, todo agente -produtor, ao empreender uma ação de
linguagem, se apóia em um “duplo processo”: a) processo de escolha ou adoção de
um gênero de texto (preexistente em um arquitexto social) o mais adequado em
relação às propriedades da situação de ação; b) processo de adaptação do modelo
de gênero escolhido em função das propriedades singulares dessa mesma
situação.
À medida que objetiva investigar os efeitos das práticas de
linguagem sobre o desenvolvimento humano, o ISD adota uma concepção de
organização dessas práticas materializadas em textos e/ou discursos, ou seja,
elabora “modelos” de análise: de um lado, um modelo das condições de produção
do texto e, do outro, um modelo da sua arquitetura interna, esta, dividida em três
níveis: 1) infra-estrutura textual plano geral do texto, tipos de discurso, tipos de
seqüências e outras formas de planificação; 2) mecanismos de textualização
conexão, coesão nominal e coesão verbal (que conferem coerência temática ao
texto); e 3) mecanismos enunciativos distribuição das vozes e marcação das
modalizações (responsáveis pela coerência interativa do texto). A Figura 2,
adaptada de Bronckart (2006, p. 147), nos possibilita visualizar o modelo de análise
do ISD para a arquitetura textual:
47
Figura 2 Os três níveis da arquitetura textual
Embora estudadas, quase sempre, separadamente, por motivos
didáticos, tais categorias de análise não são autônomas, dependem uma das outras,
e é essa dialogicidade que permite o ato da textualização, a produção de uma ação
de linguagem singular por um agente -produtor.
A Figura 3 sintetiza as principais teses defendidas pelo ISD (cf.
BRONCKART et al., 1996, p. 69-71):
48
Figura 3 Seis teses do ISD
49
CAPÍTULO 3
A CRÍTICA DE CINEMA: UM GÊNERO DA ESFERA JORNALÍSTICA
No presente capítulo abordamos o gênero crítica de cinema, foco de
nossa pesquisa, primeiramente, pelo olhar de outros estudiosos que, de alguma
forma, tomaram tal gênero com o objeto de suas pesquisas. É uma primeira visão
sobre o gênero. Em seguida, mesmo não acreditando que o nome dado a um
gênero possa influenciar os resultados de uma pesquisa, que existem muitos
formatos de textos que estão surgindo e ainda não têm uma denominação precisa,
outros que fazem parte das nossas práticas sociais, mas recebem “rótulos”
diferentes (por exemplo: poesia/poema, dissertação argumentativa/texto de opinião)
e, nem por isso, deixam de ser instrumentos eficazes da nossa comunicação;
trazemos uma discussão acerca do impasse: crítica ou resenha?
Tal discussão não tem o objetivo de esgotar ou definir a questão,
mas delimitar um posicionamento em relação à função social do gênero, como
também fornecer uma perspectiva geral da apropria ção, pelo jornalismo cultural, da
prática de linguagem exercida pela escrita de uma crítica cinematográfica. Como
veremos mais adiante, essa prática é dinâmica e se “atualiza” ao ser perpassada
pelos valores sócio-ideológicos de um pré -construto que é, ant es de tudo, um
instrumento cultural.
O próximo passo é resgatar, de forma bem sintética, o percurso
sócio-histórico do gênero crítica de cinema no Brasil. A importância de tal
retrospectiva é, além de conhecer a história do gênero em nosso país, entender
suas alterações ao longo dos anos e como elas estão intrinsecamente ligadas ao
contexto de uma época. Esse espaço é relevante para entendermos os gêneros
como entidades dinâmicas, fluidas, plásticas, sócio -ideologicamente influenciadas
por sua historicidade, por sua situacionalidade:
Desde que não concebamos os gêneros como modelos estanques
nem estruturas rígidas, mas como formas culturais e cognitivas de
ação social corporificadas de modo particular na linguagem, temos
de ver os gêneros como entidades di nâmicas. Mas é claro que os
gêneros têm uma identidade e eles são entidades poderosas que na
produção textual nos condicionam a escolhas que não podem ser
totalmente livres nem aleatórias [...] (MARCUSCHI, 2005, p. 18).
50
O gênero tem, pois, duas facetas q ue, em princípio, parecem
contraditórias: o aspecto convencional e uma tendência à inovação (BONINI, 2003).
A essas duas facetas acrescenta -se outro fator: o da adaptabilidade genérica a cada
nova ação de linguagem. Segundo Bronckart (2003), é com base nos nossos
conhecimentos sobre os gêneros (aspecto convencional) que, diante de uma
situação de produção, adotamos um determinado “modelo” que, para aquela
situação específica, nos parece ser o mais adequado. Entretanto, o agente -produtor
nunca vai simplesmente reproduzir o gênero, ele vai sempre adaptá -lo às exigências
particulares do contexto e da forma como ele representa esse contexto. Dessa
forma, qualquer produção textual pode contribuir para a transformação do gênero, e
é o acúmulo dessas modificações q ue acaba fazendo com que os gêneros se
alterem (tendência à inovação), o que lhes um estatuto de p -construto sócio-
histórico, portadores de indexações sociais. (cf. BRONCKART, 2006, p. 145).
Dessa forma, depois de abordarmos o contexto mais amplo da
produção de uma crítica de cinema seu estado da arte dentro dos estudos
lingüísticos, da visão jornalística e seu percurso sócio -histórico passamos à
reflexão sobre o contexto de produção imediato das críticas pesquisadas, a saber,
críticas de cinema escritas por Carlos Eduardo Lourenço Jorge, publicadas no jornal
Folha de Londrina. Esse é um ponto de suma importância para a pesquisa, pois a
partir das representações sobre esse contexto que é formada a base de orientação
para a semiotização das críti cas em análise. “A situação social mais imediata e o
meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do
seu próprio interior, a estrutura da enunciação” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986, p.
113). Dessa forma, entender a situacionalida de da produção de um gênero se torna
crucial para poder analisar sua textualidade (tema para os próximos capítulos).
3.1 O GÊNERO “CRÍTICA NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS DA LINGUAGEM
Para o trabalho em pauta , tomamos a crítica cinematografia como
uma adaptação do gênero “crítica” (crítica de CD, crítica de livros, crítica de peça
teatral, etc.), pertencente à esfera jornalística (embora não exista apenas crítica
jornalística, também a crítica acadêmica, mas esta não é alvo de nossa
51
investigação). Ressaltamos que a identificação do gênero ora se apresenta como
“crítica”, ora como “resenha”
23
. Há alguns estudiosos que entendem resenha e
crítica como gêneros distintos, porém, para a pesquisa em questão, abordamos o
assunto pelo viés sócio -ideológico, pois entendemos tal divergência de
nomenclatura como uma questão de embate entre a esfera jornalística e a esfera
cultural (estas questões serão aprofundadas no tópico seguinte). Sendo assim,
nossa investigação sobre o posicionamento dos estudiosos da linguag em em
relação ao gênero analisado considera qualquer uma das nomenclaturas existentes.
Segundo Baltar (2004), crítica é um gênero jornalístico opinativo,
escrito normalmente em primeira pessoa e assinado, no qual um crítico emite sua
opinião sobre uma ma nifestação artística qualquer: livro, CD, espetáculo de dança,
teatro, exposição de um artista plástico, etc. Este autor diferencia crítica de resenha,
por entender que esta última não traz um aprofundamento do conteúdo exposto e
sim apenas “algumas sugest ões de leitura” (p. 132). O que o autor entende por
resenha, parece se assemelhar com a classificação de “resenha descritiva” proposta
por Fiorin & Savioli (1993) aquela que não apresenta nenhuma apreciação ou
julgamento de quem a produziu e, sua crítica, com o que Fiorin & Savioli (1993)
denominam de “resenha crítica” aquela que apresenta um juízo crítico por parte do
resenhador.
Diferentemente de Fiorin & Savioli (1993), Monteiro (1998, p. 22)
equipara a resenha a um resumo crítico: “o ponto alto d a resenha é a visão crítica
de quem a escreve. Além de trazer o assunto devidamente resumido, este é
acompanhado de uma análise, de uma visão crítica”. Desta forma, a classificação
de “resenha descritiva” feita por Fiorin & Savioli (1993) não cabe nos mold es dessa
definição. A autora considera o resumo como parte da resenha e não compreende
tal gênero sem uma visão crítica. Na perspectiva de Machado (2002), o processo de
sumarização é condição básica para a mobilização de conteúdos pertinentes à
elaboração de textos pertencentes ao gênero resenha, porém este traz mais que
uma simples apresentação concisa dos conteúdos, traz também interpretações e
avaliações do resenhador. Acrescenta também que, no caso do gênero resenha , o
resumo
24
(considerado neste context o apenas como sumarização, não como um
23
Em um dos trabalhos pesquisados encontramos a nomenclatura “coluna”.
24
Segundo Machado (2002, p.150): “Textos autônomos que, dentre outras características distintivas,
fazem uma apresentação concisa dos conteúdos de outro texto, com uma organização que reproduz
52
gênero textual) é apresentado de forma parcial, que o objetivo do mesmo é incitar
o destinatário a ler uma obra, a assistir um filme, etc. Nas palavras de Machado,
Lousada e Abreu-Tardelli. (2004, p. 15):
Inúmeros tipos de textos se caracterizam por apresentar informações
selecionadas e resumidas sobre o conteúdo de outro texto. Outros,
além de apresentar essas informações, também apresentam
comentários e avaliações. Os primeiros são resumos e os segundos
são resenhas.
Barros (2002), ao tratar de dois textos jornalísticos que entram em
confronto em um mesmo jornal, classifica o que nós denominamos de crítica
cinematográfica de “coluna” : um texto feito por um colunista que emite opiniões
sobre um determinado filme. Comparando os gêneros coluna e artigo de opinião
objetos de análise do seu estudo – a autora afirma:
Quanto aos gêneros tratados neste trabalho, a coluna e artigo de
opinião, apresentam regras de jogo comuns: é de sua natureza
trazer interpretação ou o pinião do autor. O papel do autor é de maior
aproximação com o seu texto: avaliações e modalizações marcam
sua visão de mundo e recursos retóricos são ativados para atingir
com maior eficiência o outro parceiro da comunicação, seu
interlocutor (BARROS, 200 2, p. 204).
Para Berbare (2004, p. 44), “criticar um filme é observar detalhes,
identificar as características típicas da obra, compará -las a outras do gênero, criticar
e elogiar o filme”. De acordo com a autora, a crítica de cinema presta um serviço de
informação ao leitor do jornal ou revista pela visão de um expectador experiente,
mas o destinatário da mensagem deve sempre considerar as informações da crítica
a partir de seus próprios critérios de apreciação de filmes. Ou seja, para a autora, a
crítica deve servir apenas como um parâmetro de avaliação e nunca como um fator
decisivo de apreciação de um filme. Berbare (2004), ao pensar nas informações que
o leitor busca em uma crítica de cinema e, baseando -se em seus resultados de
pesquisa, propõe alguma s perguntas que podem nortear a produção do gênero:
a organização do texto original, com o objetivo de informar o leitor sobre esses conteúdos e cujo
enunciador é outro que o o autor do texto original, podem legitimamente ser considerados como
exemplares do gênero resumo de texto.”
53
Qual é o gênero cinematográfico do filme (drama, comédia,
suspense...)?; De que trata o filme (Qual é o seu enredo)?; De que
modo o tema foi tratado (de maneira comum ou com algum enfoque
especial)?; Tem ele alguma característica especial (efeitos
especiais, figurino, etc)?; Qual é o público alvo do filme?; Qual é a
duração do filme?; Quem é o diretor (informações sobre outros
trabalhos, premiação)?; O filme é premiado ou está concorrendo a
algum prêmio?; Qual o ano de produção e o seu país de origem?
(p.45).
Cunha (1996) escreve um artigo em que propõe duas funções para
a crítica de cinema jornalística: interpretar uma obra fílmica, extrair -lhe sentido,
atribuir-lhe significações (função hermenêutica ); ajuizar do seu valor e justificá -lo
(função retórica). Ao assumir a função hermenêutica, o crítico busca uma
interpretação do filme, procura “desvendar porventura a verdade da obra” (CUNHA,
p. 190). Na vertente retórica, a valoração global de um filme s olicita a aprovação do
leitor (auditório a ser persuadido), para isso ela tem que ser justificada pondo em
relação certos princípios (estéticos, éticos, etc.) relacionados com os processos
formais da obra (a qualidade da fotografia, o enquadramento, a mont agem, o
desempenho dos atores, etc.). “Enquanto interpretação, a palavra crítica dissipa o
enigma da obra e enquanto argumentação obtém o assentimento do público”
(CUNHA, 1996, p. 192).
Gomes (2004), também ao explorar a função retórica da crítica
cinematográfica, afirma que “como gênero discursivo jornalístico, a crítica de cinema
veiculada pelos meios de comunicação de massa, dispõe de estratégias
argumentativas a fim de validar suas premissas e conseguir o apoio dos leitores” (p.
1). Entretanto, constat a que esse gênero tem se deparado com um tipo de
jornalismo massivo, com limitações de espaço e falta de tempo para uma análise
mais atenciosa das obras fílmicas. Segundo o autor, este tipo de texto mais
acelerado “já faz parte do discurso dos críticos atu ais que sofrem com a intolerância
à exegese fomentada pelos editores de jornais e revistas de grande circulação”
(p.2).
Em uma pesquisa, cujo objetivo é a investigação das estratégias
discursivas que caracterizam o contrato de fala (CHARAUDEAU, 1988) da c rítica
cinematográfica em dois contextos diferentes revista Veja e Le Nouvel
Observateur (França) –, Pinheiro (1998) constata significativas diferenças no que
diz respeito ao enunciador e às suas estratégias discursivas. Embora em ambos os
54
contextos os artigos sejam assinados, produzidos por jornalistas especializados,
dirigidos a um público escolarizado de nível superior, submetidos às mesmas
condições editoriais e concernentes a um mesmo objeto (filmes a estrear, no caso
da Veja, e em cartaz, no caso d e Le Nouvel Observateur ), na revista francesa o
sujeito exerce seu papel de crítico marcando sua presença por meio de formas
lingüísticas que apontam para a instância enunciativa. Já, na revista brasileira, o
enunciador, apesar de presente, faz pouco uso d e formas dêiticas e usa mais o
humor do que o enunciador do Le Nouvel Observateur que se mostra mais
eruditizado em suas avaliações.
Para um posicionamento de pesquisa, independente dos resultados
das análises do nosso corpus, achamos coerente colocar, no presente tópico, nossa
perspectiva geral em relação ao nero crítica de cinema. Embora esta pesquisa
tenha como objeto de investigação apenas um suporte jornal Folha de Londrina
e um sujeito-crítico Carlos Eduardo Lourenço Jorge os nossos estudos acerca
do gênero resenha/crítica cinematográfica envolveram outros contextos,
resultando em vários trabalhos acadêmicos disseminados em revistas e eventos da
área dos estudos da linguagem (cf. BARROS & NASCIMENTO, 2007, 2006, 2005,
2005a; BARROS & SA ITO, 2007; BARROS, 2007). Dessa forma, é com base
nessa bagagem de pesquisa que colocamos nossa visão geral em relação a tal
gênero textual.
A crítica de cinema que tomamos como objeto de pesquisa é um
gênero mobilizado pela esfera jornalística (embora n ão seja exclusiva desta, que
também pode estar presente na discursividade do mundo acadêmico). É um gênero
que transita entre o mundo jornalístico e o cultural, pois o tema que veicula pertence
ao mundo das Artes, mas quem o veicula é a esfera jornalíst ica. Tem como suporte
o jornal, a revista (tanto revistas de grande circulação, como revistas especializadas
em cultura/cinema) e também a web (sites especializados em cinema/cultura e
também versões on-line de jornais/revistas impressas)
25
. Geralmente, a crítica de
cinema aparece em seções ou cadernos especializados em
entretenimento/cultura/arte/cinema, partilhando espaços com as outras modalidades
25
A revista Veja e Época são exemplos de revistas de grande circulação que veiculam críticas de
cinema. Como exemplo de revista impressa, especializada em cinema, temos a SET. Os websites
<www.cinemacomrubens.com.br> e <contracampo.com.br> são exemplos virtuais de veiculação de
críticas de cinematográficas.
55
de crítica, como a de livros ou CD. É comum a inserção de fotos de cenas do filme
juntamente com o texto crí tico.
O texto da crítica é sempre assinado, já que quem se responsabiliza
pelo conteúdo veiculado é o próprio autor e não o editor do jornal/revista. Esse
crítico, quase sempre, é um jornalista; nem sempre um especialista na área
cinematográfica. Não uma regularidade quanto à forma de enunciação, mas não
são comuns textos escritos em primeira pessoa do singular. A crítica
cinematográfica pode ter como objeto filmes prestes a estrear (como é o caso das
críticas que analisamos), em cartaz, lançados em DV D ou que estão concorrendo
em festivais cinematográficos (nesse caso está incluída a cobertura do Oscar
Hollywood).
A crítica de cinema é um gênero que tem como tema principal certa
obra cinematográfica
26
alvo da crítica. O objetivo comunicativo do nero transita
entre a apresentação de informações do filme (data de estréia, gênero
cinematográfico, duração, diretores, atores, etc.), a sumarização do enredo e a
asserção valorativa de alguns aspectos da obra. A tendência, ora para a descrição
das informações ( compreendida a descrição factual da narração), ora para a
argumentação crítica, vai depender do contexto em que a crítica está inserida: o tipo
de suporte, o público alvo, a linha editorial do jornal/revista, a competência e/ou o
nível de especialização do crítico, os objetivos dos editores, etc. Em alguns casos, a
crítica pode se assemelhar mais a uma “sinopse comentada”, mas é assunto
para outra pesquisa.
3.2 CRÍTICA OU RESENHA: SIMPLES QUESTÃO DE NOMENCLATURA?
Crítica ou resenha? Será que esses dois termos podem ser
tomados como sinônimos ou será que são gêneros jornalísticos distintos? Esse é um
ponto que tentamos abordar, muito mais objetivando trazer à tona as discussões
26
Na maioria das vezes uma crítica tem por alvo apenas uma obra lmica, mas casos de críticas
que enfocam mais de um filme – do mesmo tema, mesma diretor, mesmo festival, etc.
56
sobre o assunto do que simplesmente propor uma resposta ún ica e simplificadora
para a questão.
Primeiramente, é importante registrarmos o que comumente se
entende por resenha/crítica, ou seja, como se configura esse gênero, qual sua
função social no interior da esfera jornalística. Segundo Mello (1985), esse gên ero é
visto como uma apreciação de certos objetos culturais, cujo objetivo é o de orientar a
ação de fruidores e/ou consumidores. , para Hoineff (2000, s/n), “a tendência de
simplesmente orientar o espectador é quase que a negação da atividade crítica”,
pois essa prática induz a uma subjetivação da opinião crítica e descaracterizaria até
a necessidade de uma especialização profissional da pessoa do crítico. Mendes
(2000) vai além, este entende que tal gênero, mesmo tendo um teor informativo,
precisaria se impor como uma forma literária. Esta última posição parece dialogar
com a definição de Valente (2000, s/n):
O crítico ideal é aquele que faz da obra de uma outra pessoa a
matéria prima da sua própria criação artística. [...] O bom crítico é
aquele que cria uma segunda obra, que dialoga com a primeira. [...]
O crítico deve pegar uma obra, colocá -la frente a frente com sua
bagagem de conhecimentos sobre aquela área do saber (e de
preferência, muitas outras áreas), e mais, frente a frente com sua
experiência de vida, e a partir daí criar uma segunda forma de arte,
que deriva sim da primeira, mas que deve ter vida própria. Uma boa
crítica é como uma segunda ficção a partir daquela comentada.
Ficção necessariamente comparativa, é verdade.
A crítica, de acor do com Valente (2000), deveria implicar,
necessariamente, a criatividade, ou seja, ela precisaria produzir idéias, pensamentos
e não simplesmente reproduzi -los. E é nesse ponto que ele acredita estar a razão da
“falência” atual do referido gênero. Segundo Valente (2000a, s/n), o jornalismo
cultural está impregnado de supostos críticos, autoritários que sentem a
necessidade de desqualificar toda opinião em contrário: “não são críticos, pois nunca
conseguem discutir mesmo a obra em si, não apresentam nenhum o lhar novo que o
espectador não possa ter tido”. Na opinião deste jornalista, essas “críticas” não
apresentam nenhuma função social.
A opinião de Cota (2000, s/n) é bem mais otimista. Para este, nos
dias de hoje, é possível ver a crítica como ex tensão de uma atividade criativa: “Os
filmes não terminam nunca. Eles continuam a se desenvolver nos textos. Enquanto a
crítica impulsionar reflexões, provocar miradas diferentes sobre a realidade, assim
57
como os bons filmes, não porque duvidar de sua ne cessidade”. Essas palavras
parecem dialogar com as reflexões de Coelho (2000) sobre o “erro” de avaliação na
crítica. Para este autor, a crítica, independente de errar ou acertar, serve,
principalmente para um propósito: chamar a atenção para aquilo que es tamos
vendo:
O que a crítica estimula, na verdade, é um enriquecimento dessa
experiência de “gostar” ou “não gostar” uma crítica negativa pode
ser injusta, pode ser que não concordemos com ela, mas se for bem -
feita, tornará nossa experiência da obra “me lhor” para nós mesmos,
mais matizada... O rus da crítica terá sido inoculado em nós,
poderemos a partir daí criticar o crítico, se quisermos, mas o
processo já não pára mais, e é esse, afinal, o processo da vida
intelectual, da vida do espírito... (C oelho, 2000, p. 88).
Para o crítico de cinema Lourenço Jorge (cf. APÊNDICE A), a
função da crítica é justamente a de proporcionar a reflexão, é oferecer ferramentas
mais fecundas, melhores e mais afiadas para que as pessoas possam (ou
pudessem) trabalhar seu senso crítico”. Ele também não a crítica de cinema feita
no Brasil, sobretudo a destinada aos filmes hollywoodianos, como um termômetro do
seu sucesso ou insucesso, que estes vêm de fora rotulados como sucesso ou
fracasso. Entretanto, de acordo com Coelho (2000), o jornal, ao dedicar uma página
inteira a certa produção norte -americana importada como sucesso da temporada,
mesmo criticando seu alto custo de produção, o abuso dos efeitos especiais, a
superficialidade da narrativa, etc., ac aba por contribuir com a sua publicidade. Ou
seja, não adianta o crítico fazer uma péssima avaliação do filme se a editoria do
jornal a coloca em destaque na primeira página do caderno cultural acompanhada
de várias ilustrações, entrevistas, etc. a publicidade fala mais alto do que o texto
crítico em si.
O que mostra essas breves asserções opinativas
27
é que realmente
muita polêmica envolvendo esse gênero textual. Poderíamos até falar em uma
“crise” da crítica. Não no sentido degradativo do termo, mas “crise” como fenômeno
criador de tensão que pode motivar o crescimento qualitativo do gênero e das idéias
que o perpassam. Prova desse fato são as várias mobilizações que vêem
acontecendo nos últimos anos em torno dessa problemática. Dentre elas, podemos
27
“Breve” porque esta discussão vai muito além do expos to, englobando profissionais da área de
cinema, jornalistas, acadêmicos, etc.
58
citar: o ciclo de palestras denominado Rumos da Crítica realizado em São Paulo no
ano de 1999 pelo Itaú Cultural, o qual resultou na publicação de um livro com o
mesmo título
28
; uma série de encontros promovidos em 2001 pela Associação
Paulista dos Críticos de Arte (APCA) que recebeu o nome de A crítica da Crítica,
cujo objetivo foi colocar críticos e artistas frente a frente para debater sobre a
função e os rumos da crítica na atualidade; um número da revista eletrônica de
cinema Contracampo
29
especialmente reservado ao debate de questões referentes à
crítica cinematográfica no Brasil.
Podemos resumir as discussões em pauta (muito pretensiosamente)
pela indagação: a crítica, por ser um gênero jornalístico, precisa estar atrelada aos
objetivos midiáticos (con sumistas, de mercado), conseqüentemente, primando pela
agilidade, concisão, superficialidade ou deve conservar o teor artístico, criativo,
reflexivo do mundo com o qual dialoga (mundo da arte, mundo cultural)?
Conseqüentemente, o crítico deve ser um artis ta ou um jornalista? É à origem de
tais questões que tentamos retomar, pois é nela que reside a problemática da
nomenclatura resenha ou crítica.
Segundo Mello (1985), o problema da dualidade funcional da crítica
jornalística/artística está na transição por que passou o jornalismo brasileiro: de
uma fase amadorística em que os espaços dos jornais e revistas, direcionados à
análise estética, estavam destinados aos intelectuais, eventualmente remunerados,
para uma fase profissionalizante, na qual a valor ão dos produtos culturais passa a
ser feita regularmente e de forma remunerada, adquirindo, com isso, um caráter
mais popular. Ainda, segundo o autor, nessa época, houve dois tipos de recusa:
uma, por parte dos intelectuais que não queriam compactuar co m a simplificação e a
superficialização objetivadas pela indústria cultural. Outra, pelos editores culturais
que não pretendiam se render aos apelos dos intelectuais, pois entendiam ser
indispensável ampliar os limites da crítica de arte, tornando -a utilitária em relação ao
grande público consumidor. O resultado do embate foi que:
Os grandes intelectuais que continuaram a realizar exercícios críticos
estruturados segundo os padrões da análise acadêmica refugiaram -
se nos periódicos especializados ou nos veí culos restritos ao
segmento universitário da sociedade brasileira. E se
28
Cf. Martins, 2000.
29
Número 24, de dezembro de 2000 (vários artigos desta edição são referenciados no presente
trabalho).
59
autodenominaram críticos, em contraposição àqueles que
permaneceram nos meios de comunicação coletiva, ou que se
agregaram ao trabalho de apreciar os novos lançamentos artísticos,
cujos textos passaram a chamar de resenhas, traduzindo a
expressão review utilizada pelo jornalismo norte -americano. (MELLO,
1985, p. 98).
Entretanto, o termo “resenha” não se generalizou no Brasil, pelo
menos, entre a população não -especializada que, na v erdade, não participa dessa
luta sócio-ideológica travada entre jornalistas e intelectuais. Como pudemos detectar
por meio de nossas pesquisas, muitos dos profissionais que atuam como
resenhadores nos periódicos de grande circulação nacional, ao se referir em ao
gênero com o qual trabalham, o denominam “resenha”, mas ao se reportarem ao
papel social que desenvolvem no jornal/revista em que atuam utilizam o termo
“crítico”. Outros continuam se intitulando “críticos” e, o produto de seu trabalho,
“crítica”. E, também, aqueles que usam ora um termo ora outro, ou seja, não vêm
implicações no uso de uma ou de outra denominação.
Porém, temos aqueles que fazem uma diferença entre “crítica” e
“resenha”. Segundo Hoineff (2000), essa dicotomia está relacionada,
principalmente, ao posicionamento editorial adotado pelo jornal/revista: “o que se
pede de um crítico na maior parte dos veículos é que indique, em poucas linhas, o
que o leitor deve ou não deve assistir. o há, nesse contexto, qualquer espaço
para a análise ou encorajamento da reflexão sobre o filme abordado”. Isso nos
levaria a pensar em uma descaracterização da crítica em razão da falta de espaço
editorial. Segundo Valente (2000, s/n), isso não deixa de ser verdade, mas acima de
tudo:
A crítica precisa de uma postura editorial [...] O crítico não informa,
ele forma. Ele não é jornalista, nem repórter, pois seu saber não
busca uma existência momentânea, efêmera, mas sim a
permanência. [...] Colocado dentro da indústria cultural, o crítico
perde seu habitat natural, pois ele não visa primariamente o
consumo, mas a reflexão, a pesquisa, a investigação. Ele quer
incentivar o público a se demorar, a se deliciar no consumo de uma
obra artística, quando este próprio parece estar, em sua maioria,
interessado em rapidez, velocidade, excesso de informação, e falta
de formação.
Acrescenta, também, que a solução está nas mãos dos editores,
pois estes precisam não ter medo de inovar, necessitam deixar o “já consagrado” de
60
lado e acreditar na mudança de postura do s leitores. Mas entende que não há como
continuar usando o termo “crítica” , dentro do jornalismo cultural, simplesmente pelo
verniz intelectual que tal termo carrega.
Pelo exposto, vemos que a discussão em questão gira muito mais
em torno de interesses ec onômico-sociais ou político-ideológicos do que em função
da delimitação de um gênero textual. Dessa forma, por nosso trabalho se inscrever
nas áreas da linguagem e da educação e nosso interesse maior residir na questão
do estudo do gênero como prática de l inguagem em uso, é que, para
encaminhamento de nossos estudos, optamos pelo uso do termo crítica”, já que é a
nomenclatura pela qual a maioria das pessoas
30
reconhece e denomina o gênero.
Compactuarmos, pois, com o postulado por Bazerman (2006) quando diz que
“gêneros são tão somente os tipos que as pessoas reconhecem como sendo usados
por elas próprias e pelos outros” (p. 31), isto é, gêneros são o que as pessoas
identificam como tais em cada prática de linguagem, seja pela denominação,
instituicionalização ou regularização (MARCUSCHI, 2005). Outro fator que nos levou
a optar pelo termo “crítica” foi a constatação da competência discursiva de Lourenço
Jorge crítico alvo de nossas análises. Sendo assim, sabendo do desprestígio do
termo “resenha” dentro do mundo jornalístico, ao optar pelo mesmo poderíamos
estar, mesmo que despretensiosamente, diminuindo o valor lingüístico -discursivo
dos textos analisados.
3.3 BREVE HISTÓRICO DA CRÍTICA DE CINEMA NO BRASIL
Quase não textos publicados que resgatam a história da crítica
cinematográfica no Brasil. O artigo publicado na revista virtual de cinema
Contracampo, intitulado Cronologia da crítica cinematográfica no Brasil”, elaborado
por Gardnier & Tosi (2000) é um dos poucos materiais destinados exclusivamen te
ao assunto. Dessa forma, essa é a nossa fonte principal de pesquisa na elaboração
dessa breve retrospectiva sócio -histórica da crítica de cinema no Brasil, cujo objetivo
30
A maioria das pessoas a que nos referimos são pessoa s “leigas” quando o assunto é essa guerra
ideológica que toma conta do mundo jornalístico e cultural envolvendo a crítica/resenha, embora
leitores de jornais/revistas e, conseqüentemente, do gênero crítica de cinema. O temo “resenha”
ainda está mais restri to ao mundo acadêmico.
61
é resgatar, na trajetória do gênero, sua gênese e suas transformações ao longo do
tempo e, com isso, tentar entender o seu funcionamento na atualidade. Além das
informações trazidas pelo artigo de Gardnier & Tosi (2000), outras leituras
complementam os nossos estudos e nos auxiliam na construção deste tópico.
Pode-se dizer que é a parti r de meados do século XIX que o
jornalismo brasileiro, até então voltado para a vertente política, inicia sua trajetória
no campo cultural (nesse momento, ainda, voltado quase exclusivamente para a
expressão literária). É o momento em que o jornalismo come ça a adquirir uma
tendência européia, configurando -se pela confluência dos seguintes temas: política,
economia e variedades (GADINI, 2003).
Segundo o exposto na cronologia elaborada por Gardnier & Tosi
(2000), o escritor e crítico teatral Arthur Azevedo p ode ser considerado nosso
primeiro crítico de cinema pela publicação em O Paiz, em julho de 1897, de
comentários sobre os filmes exibidos em algumas casas teatrais. Em 1904, outro
intelectual brasileiro inicia seus comentários acerca do cinema: agora é o p oeta e
escritor Olavo Bilac quem escreve para a revista Kosmos um texto expressando
suas preocupações em relação à substituição do livro pelo cinema. Nesse momento
o Brasil vive sua primeira República oligárquica e conservadora e, no cenário
cultural, a escola parnasiana impõe sua arte rigorosa e puramente elitista, em
conseqüência, a concepção de cinema como arte é rejeitada por seus intelectuais.
Segundo Gomes (1996, p. 49), “a imprensa que poderia colaborar exercendo sua
influência na opinião do púb lico acaba por não tomar mais conhecimento da
produção cinematográfica que se define cada vez mais como uma atividade
marginal”.
Em 1918, segundo Gardnier & Tosi (2000), nasce o primeiro
periódico brasileiro que tenta dar conta das críticas dos filmes em cartaz: a revista
Palcos e Telas. Antes disso, tínhamos apenas revistas que exibiam fotos e textos
de divulgação. A década seguinte é marcada, culturalmente, pela busca da
identidade genuinamente brasileira. A Semana de Arte Moderna, em 1922,
representa a abertura de novas perspectivas para a Arte no Brasil, com isso o
cinema vai, aos poucos, sendo reconhecido como legítima expressão artística. São,
então, os jovens intelectuais da época Mário de Andrade, Oswald de Andrade,
Graça Aranha, Monteiro Lobato quem agora escrevem as críticas publicadas nos
jornais e revistas. São eles que começam a dar ênfase, na imprensa, para as
62
produções dos cineastas brasileiros (KLEBIS, 2004). Nessa década, nasce a revista
Cinearte, primeira revista a iniciar uma campanh a em favor do cinema nacional e O
Fan, primeiro periódico de cinema nascido exclusivamente por amor ao cinema
(GARDNIER & TOSI, 2000).
em 1931, com a figura de Pedro Lima, primeiro crítico a escrever
regularmente para jornais, surge a caracterização do crítico de cinema tal como
entendida nos dias de hoje. Em 1941, por iniciativa do grupo de estudantes herdeiro
dos modernistas, este, centrado na Faculdade de Filosofia da USP, começa a
circular a revista Clima, cujo encarregado da seção de cinema é o i ntelectual Paulo
Emílio S. Gomes. Durante seus dezesseis números a revista foi um veículo de
divulgação e renovação da crítica brasileira. É também em 1941 que o cinema
ganha investimento no país com a fundação da Atlândida (produtora responsável
pela produção de três filmes populares por ano) e, mais tarde, em 1949, pela criação
da Vera Cruz (que opera até 1954). em 1946, começa a escrever, no Correio da
Manhã, Antônio Moniz Viana o mais importante crítico da imprensa diária
brasileira que, mesmo sem ser acadêmico, consegue status de intelectual de
cinema – escreve nesse mesmo jornal durante 28 anos (GARDNIER & TOSI, 2000).
Nas décadas seguintes, em decorrência do processo de
industrialização iniciado no segundo governo Vargas (1951 -1954) e acentuado na
gestão de JK (1955 -1960), começam a surgir, na imprensa, as editorias
especializadas. Tal modelo problematiza a figura do cronista de assuntos gerais que
sempre transitou pelas diversas áreas jornalísticas. Conseqüentemente, o cinema
deixa de ser um mero passatempo e ganha um tom mais “sério”, se concretizando
como um campo específico, com repertórios e vocabulários próprios (KLEBIS, 2004).
É nessa época que, impulsionadas pelo crescimento urbano, especialmente em São
Paulo, as camadas médias se dif erenciam e adquirem um poder maior de compra: a
diversão, as artes e o lazer começam a romper os domínios da produção caseira
para ganhar status de bens de consumo (GADINI, 2003).
Acontece, então, em 1960, em São Paulo, a 1ª. Convenção Nacional
de Crítica Cinematográfica primeira oportunidade que reúne críticos de todo o
Brasil. Os próximos anos são marcados pela distinção de dois segmentos de
críticos: os envolvidos na crítica acadêmica, estes valorizam e participam do Cinema
Novo dentre seus adeptos se destacam Paulo Emílio S. Gomes, Ismael Xavier e
Jean-Claude Bernadet; e aqueles que rejeitavam tal vertente do Cinema estes
63
passam a discursar, principalmente, nas rádios, em defesa da “produção popular”
(GARDNIER & TOSI, 2000). Entretanto, O Cinema Novo e quase todos os avanços
do setor cultural são abalados com o golpe de 1964 (KLEBIS, 2004). Porém,
segundo Gadini (2003, p. 870), a contaminação do setor cultural é paulatina
“principalmente em áreas onde a presença popular ainda era marcada pelas a ções
públicas (como cinema, teatro, festivais musicais)”. A vasta produção
cinematográfica da época mostra a preocupação com uma cultura nacional -popular,
mesmo sob o controle da censura e aval militar a toda e qualquer perspectiva crítica
ou preocupada com a realidade social.
A fundação, em 1965, do curso de Cinema da Universidade de
Brasília, primeira ambiciosa experiência do gênero no país, prova a força do Cinema
em tempos de ditadura. Feito, porém, prematuramente abortado pelos ecos do AI -5
(decretado em 13 de dezembro de 1968). Nessa época, a televisão começa a
despontar e a se configurar como o meio de comunicação mais popular do país.
Dessa forma, um recuo nas tiragens dos jornais impressos, o que leva este
veículo de comunicação a uma reforma g ráfica e editorial (o visual ganha mais
ênfase do que o textual) na tentativa de reconquistar o interesse popular. Como
conseqüência, os grandes espaços destinados à crítica nos suplementos de cultura
são reduzidos para poder conciliar as editorias de vari edades, colunas sociais e
cobertura jornalística de eventos culturais (GARDNIER & TOSI, 2000). Segundo
Gadini (2003, p. 88):
A “crítica autoral de nível” ainda existe nos ensaísmos, críticas,
resenhas, contos, etc., persistentes em inúmeros
suplementos/cadernos de jornais brasileiros, mas passou -se a
explorar também, simultaneamente, os “serviços pobres”, como eram
considerados na emergente Era do Rádio, em produtos que passam
a adquirir formato diferenciado.
Em 1983, a Folha de S.Paulo marca sua época por incorporar a área
de cinema como espaço de reflexão em seu suplemento cultural “Folhetim”,
promovendo, assim, o debate a respeito da realização cinematográfica. Essa é uma
rara exceção, pois nessa época, o que se nos jornais é uma progressiva
diminuição do espaço destinado à critica de cinema. No Rio de Janeiro, o jornalista
Rogério Durst desenvolve um estilo (cf. BAKHTIN, 1992, p. 313) que faz escola:
poucas ambições críticas, escrita descontraída, texto curtíssimo, preferência acima
64
de tudo pelo entretenimento. O fim da revista Filme Cultura, em 1987, deixa na
crítica cinematográfica a triste lacuna de não haver qualquer espaço especializado
dedicado à reflexão sobre cinema no país. A partir de então, a reflexão
cinematográfica se dá exclusivamente nas faculdades de comunicação e nos poucos
textos publicados nos periódicos de grande circulação (GARDINIER & TOSI, 2000).
Na década de 90, são poucas iniciativas dignas de nota. Destaca -se,
entre elas, o nascimento da revista Cinemais, em 1996, periódico bimestral de cunho
acadêmico que tenta reabrir a discussão em torno do cinema no Brasil e na América
Latina (os textos são fornecidos, na sua grande maioria, por professores da escola
de Cinema). Essa década também é marcada por várias manifestações de
descontentamento com os rumos da crítica no país (GARDNIER & TOSI, 2000). De
acordo com Priolli (2000), a despeito de todas as limitações estruturais e
conjunturais da realidade brasileira no início do século XXI, o espaço da crítica vem
crescendo no jornalismo: “quase todos os jornais e revistas de interesse geral
publicam, atualmente, seções ou cadernos de artes e cultura, onde sempre há
espaço para a análise e a crítica inclusive em jornais populares e os
especializados” (p. 82). Recentemente, também , podemos destacar a expansão de
veículos especializados em cultura/cinema como, por exemplo, as revistas Set, Cult,
Bravo!, o website de Rubens Ewald Filho
31
e as revistas virtuais de cinema
Contracampo
32
e Epipoca
33
.
3.4 UMA ADAPTAÇÃO SINGULAR DO GÊNERO: AS CRÍTICAS DE CINEMA DE CARLOS
EDUARDO LOURENÇO JORGE
Como já foi mencionado no início do trabalho, nosso corpus de
pesquisa é composto por dez críticas cinematográficas (tendo como foco estréias de
filmes) escritas por Carlos Eduardo Lourenço Jorge e publicadas na Folha de
Londrina no período de 12/05/06 a 15/07/06. Desses dez exemplares selecionados
para a pesquisa, cinco referem -se a críticas direcionadas a filmes comerciais
31
<www.cinemacomrubens.com.br>, acesso em 15 nov. 2007.
32
<contracampo.com.br>, acesso em 15 nov. 2007.
33
<epipoca.com.br>, acesso em 15 nov. 2007.
65
(circuito nacional CN) e cinco a filmes exibidos em circuito alternativ o na cidade
(CA). O objetivo deste tópico é trazer à tona a situacionalidade que envolve tais
produções: a figura do crítico Lourenço Jorge, o panorama da textualidade de suas
críticas, os contextos específicos dos dois grupos textuais do corpus (contexto CN e
CA), uma visão geral do suporte midiático das críticas o jornal Folha de Londrina;
enfim, uma visão geral do contexto de produção das críticas analisadas.
Carlos Eduardo Lourenço Jorge é m ineiro de Belo Horizonte e reside
na cidade de Londrina desd e 1967. É bacharel em Direito pela Universidade de
Londrina (1967-1971) e em Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado/SP
(FAAP) (1972-1974). Trabalha como crítico de cinema na Folha de Londrina desde
1969. Foi programador do Cine Teatro Ouro Verde de 1978 a 2002 e, atualmente, é
o responsável pela exibição no Cine Com -Tour/UEL. Cobre regularmente, desde
1995, os festivais de Cannes e Veneza. No Brasil, faz a cobertura do Festival de
Gramado desde 1975, no qual é coordenador das sessões de debate desde 1990 e,
mais recentemente, do Festival de Brasília. É autor do capitulo “Debates” que integra
o livro Gramado - 30 Anos de Cinema (QUINTANS, 2002). É colaborador do site
especializado <www.cineweb.com.br>, de São Paulo, e do site da Sercomtel
(Londrina) – <www.sercomtel.com.br>.
Temos, dessa forma, um crítico com formação especializada em
Cinema que escreve para a Folha de Londrina desde 1969. Profissional de renome,
tanto em nível local, nacional, como internacional; comprometido com sua área de
atuação e único crítico de cinema da cidade de Londrina que escreve regularmente
para um jornal local. Nesse periódico, escreve críticas cinematográficas de estréias
fílmicas alvo de nossas análises e faz cobertura de festivais de Cinema.
Como dissemos an teriormente, dividimos nosso corpus em dois
grupos CA e CN pois acreditamos que, por estes estarem inseridos em
contextos diferentes, a base de orientação situacional que origina as representações
psicossociais do contexto de produção também é distinta , o que acaba refletindo na
semiotização dos textos.
Primeiramente, abordamos as críticas referentes ao circuito
alternativo. O grupo CA refere -se a críticas de filmes próprios de um contexto Arte e
Ensaio a maioria, oriundo de outras nacionalidades exibidos em circuito
alternativo na cidade de Londrina. A exibição desses filmes é feita no Cine Com -
Tour, em uma parceria da Casa de Cultura com a Universidade Estadual de
66
Londrina (UEL) e tem como programador o crítico de cinema Carlos Eduardo
Lourenço Jorge o mesmo autor das críticas da Folha de Londrina . Dessa forma,
temos um cenário bem atípico: o autor das críticas do grupo CA é também o
responsável pela seleção/exibição dos filmes que o compõem. Ou seja, a crítica é o
segundo momento de avaliação d os filmes, pois o primeiro se refere à própria
escolha da obra a ser exibida.
É evidente que Lourenço Jorge tem um posicionamento distinto em
relação aos filmes CA, pois eles passaram pelo seu crivo avaliativo. Questionado
por nós a respeito desse ass unto, o crítico assim se posiciona: “naturalmente, há um
ponto favorável: eu sou programador da sala alternativa. Eu não programo filmes
que não gosto. Se o filme está lá, de alguma forma ele é minimamente interessante
para ser visto e tem motivo de reflex ão” (cf. APÊNDICE A).
Por meio dessas palavras já fica subentendido que a avaliação dos
filmes CA (circuito alternativo) não tem o mesmo teor crítico que a avaliação dos
filmes CN exibidos em circuito nacional. Em entrevista concedida a Klebis (2004),
o crítico afirma procurar valorizar os filmes exibidos em circuito alternativo, pois são,
geralmente, “produtos calçados em alguma coisa de maior substância, que estão
merecendo um lugar no cinema contemporâneo, que são dirigidos por autores
importantes, que fazem parte de uma carreira” (p. 64). Já, no que se refere às
escolhas dos filmes CA, Lourenço Jorge complementa:
A proposta da sala não é absolutamente original, é uma proposta que
existe no mundo, que é criar um segmento alternativo de filmes que
sejam provocadores, que tenham temáticas contemporâneas, que
discutam idéias, que reflitam a situação do mundo, que reflitam as
questões existenciais individuais, as questões coletivas, questões
políticas – isso para mim é muito importante (cf. APÊNDICE A).
Ao finalizar seu pensamento com a expressão “isso para mim é
muito importante” é possível abstrairmos a linha crítica do autor, ou seja, alguém
que coloca o Cinema não como simples passatempo, mas como veículo de
disseminação de idéias, propiciador de reflexão. Esse posicionamento fica explícito
nas seguintes palavras:
67
Eu acho, acima de tudo, que a função do cinema não é
entretenimento, eu acho que a função do cinema é de abrir a cabeça
das pessoas. É claro, se você conseguir que as pessoas também se
divirtam, acho maravilho. Mas, essa é a fórmula mais diabólica que
existe: a arte e o entretenimento de mãos dadas (cf. APÊNDICE).
A citação parece revelar que a dualidade arte/entretenimento é uma
das linhas teóricas pelo qual o crítico orienta su as apreciações valorativas sobre os
filmes. Outro aspecto também de grande importância para o crítico é a questão
autoral, principalmente na vertente alternativa. Para Lourenço Jorge, autoral
significa que “por trás de cada filme há uma cabeça pensante e essa cabeça
pensante é fundamental. Claro, filme é trabalho em equipe. Mas, por trás, há uma
cabeça imprimindo uma direção ideológica” (cf. APÊNDICE A). Ou seja, para o
crítico, o papel da direção é fundamental para a qualidade final de uma obra
cinematográfica.
Em relação ao contexto que envolve os filmes alternativos, outro
ponto a se destacar é a sua abrangência e o perfil do público que procura por esse
tipo de entretenimento e que, conseqüentemente, faz parte do grupo de leitores das
críticas CA. Segundo Lourenço Jorge, a sala alternativa do Com -Tour não recebe
um público expressivo: com capacidade para 500 pessoas, o público, durante a
semana, não passa de 20/30 pessoas por sessão. Pelas características dos filmes
próprios desse contexto Arte e E nsaio, o seu público enquadra -se em um perfil mais
eruditizado, pessoas com uma sensibilidade mais apurada para a apreciação de
obras de arte, manifestações culturais e também apaixonados pela arte
cinematográfica de “qualidade” os chamados cinéfilos. Es se perfil, geralmente,
corresponde a um blico com boa escolaridade e pertencente a uma classe social
mais estabelecida financeiramente. Conseqüentemente, esse mesmo perfil
transfere-se para os leitores em potencial das críticas referentes ao grupo CA.
Lourenço Jorge diz não escrever conscientemente direcionado a
certo público, ou seja, em tese, as representações do destinatário da crítica não
influenciariam a textualidade da crítica. Sabemos, pelos estudos oriundos das
teorias da enunciação (BAKHTIN, 19 92; BRONCKART, 2003, 2006, entre outros),
que é a partir das representações do contexto, entre elas, o destinatário da produção
68
textual, que o agente cria sua base de orientação e, conscientemente ou não
34
,
direciona a semiotização de seu texto. Dessa forma , o fato de o crítico dizer que seu
ato discursivo não está direcionado conscientemente para certo público, o
interfere na nossa hipótese
35
de que é a representação desse público mais
eruditizado que está na base de orientação da produção das críticas per tencentes
ao contexto CA.
Mesmo dizendo não visar um público específico, o crítico, em outro
momento da entrevista, afirma que são os filmes que ditam seu fazer discursivo: “a
procedência, o objetivo, eles vão, de certa maneira, cadenciar essa minha prop osta
textual” (cf. APÊNDICE A). Cada filme tem seu contexto, assim, nos dizeres do
crítico, percebemos uma intencionalidade discursiva motivada pelos parâmetros da
situação de produção. Ao falar da questão do direcionamento da escrita, o crítico
complementa que não escreve nem para ele mesmo nem para amigos. Para ilustrar
esse posicionamento ele constrói a metáfora da “ponte”:
Eu estabeleci uma meta de critérios de crítica que converge para a
palavra “ponte”. Eu pretendo (sempre pretendi) ser a ligação ent re o
espectador médio, comum, anônimo e aquilo que está na tela.
Aquilo que está na tela pode ser uma obra prima ou pode ser a
mediocridade absoluta. Eu procuro fornecer (não sei se consigo)
alguns elementos que eu considero fundamentais para que, não
em relação ao filme especificamente que eu trago na crítica, mas a
outros que virão (isso é uma coisa subliminar, subentendida), as
pessoas tenham um nimo de ferramentas para exercerem seu
juízo de valor (cf. APÊNDICE A).
Como vemos, o crítico se põe em uma situação de neutralidade,
mas uma neutralidade que sustenta, que dá subsídios para que o leitor tenha
condição de fazer o seu próprio juízo de valor. Ele se coloca no plano intermediário
entre o espectador e a obra, mas é ele que tem o “poder” de in strumentalizar esse
espectador para que o mesmo tenha uma apreciação fílmica mais atenta.
Voltando nosso olhar, agora, para as críticas relativas aos filmes
exibidos em circuito nacional, destacamos que as mesmas estão vinculadas a filmes
34
Embora os estudos bakhtinianos trabalhem exclusivamente com a questão da intenciona lidade do
autor, adotamos, nesta pesquisa, um posicionamento “não -radical” da questão, ou seja, acreditamos
na interface de uma intencionalidade consciente e de uma atitude inconsciente acionada pelas
coerções exercidas pelo contexto, pela escolha do gêne ro, etc.
35
Segundo Bronckart (2003), o analista de texto pode trabalhar com “hipóteses” das
representações do contexto de produção, que ele não tem como reconstruir os processos
cognitivos e psicossociais do momento exato da produção textual (nem mes mo o próprio agente pode
fazer isso, pois esses processos nem sempre são conscientes).
69
destinados à cultura de massa, exibidos nos grandes cinemas comerciais do Brasil
no caso da cidade de Londrina, destinam -se às salas de cinema do Multiplex Catuaí
ou do Arco-Íris Cinema Royal Plaza . São, na sua grande maioria, os chamados
filmes hollywoodianos. Quando se trata destes últimos, Lourenço Jorge admite
assumir uma postura mais “dura”:
Eu me coloco na resistência, do lado de da trincheira, e sempre
que posso estou dando beliscões, forçando a barra na ironia,
procurando realmente mi nimizar, por mais grandiloqüência de marca
que tenha o produto, eu nunca deixo que isso me intimide (apud
KLEBIS, 2004, p. 64).
Percebe-se que a postura assumida pelo crítico difere bastante de
um contexto para outro grupo CA e CN. Vimos que em relaçã o aos filmes exibidos
em circuito alternativo o crítico assume uma postura de valorização da obra (uma
vez que são obras que passaram pelo seu crivo avaliativo e pertencem a uma
classe de filmes mais qualificada), já, no que diz respeito aos filmes rela tivos ao
circuito nacional, ele se põe na defensiva, assumindo uma postura mais resistente.
Para este último caso, uma ferramenta que Lourenço Jorge gosta de usar e, que
segundo ele, se tornou uma questão de estilo individual (BAKHTIN, 1992), é a
“ironia”:
Eu peco muito, evidentemente, nas minhas críticas sendo
sentencioso. Mas procuro fazer isso com a maior elegância possível,
não sendo tão taxativo [...] é nesse ponto que eu me valho de uma
ferramenta (uma questão de estilo) que eu prezo, que é a ironia.
Costumo ser irônico. Às vezes, sou mordaz, às vezes, dependendo
da situação, eu sou ferino. Eu acho que essa é uma ferramenta que
eu possa não usá-la, eu sendo o agente, mas eu posso facultar o
uso desta para também quem ou quem assiste ao filme [...] Você
pode ter espectadores de determinados filmes, eventualmente,
saindo do cinema e trabalhando, aquilo que acabaram de ver, de
uma maneira irônica debochando do filme. Eu acho que existem
filmes cujo coeficiente de qualidade é tão precário que, o u você
ignora totalmente o que não é o caso, tem que dar, pelo menos,
uma mínima satisfação, que sejam dez linhas ou você remete isso
para um contexto que foge do rigor da crítica. Não é bem um
deboche, você pode trabalhar de uma maneira até, eu diria,
beneficamente responsável. O fato de você estar denegrindo aquilo,
não de uma maneira pejorativa, eu acho muito positivo, muito
benéfico, quase como uma medida saneadora (cf. APÊNDICE A).
Por esse depoimento é possível percebemos um estilo pessoal de
Lourenço Jorge: a preocupação de dizer o que precisa ser dito de um filme, mas
70
tendo o cuidado de não ser taxativo, procurando na ironia a fórmula “saneadora”
para não denegrir a imagem de uma obra. Ainda em relação à questão de estilo, o
crítico assume certa timidez em se colocar explicitamente como enunciador do texto.
Mesmo dizendo que o uso da terceira pessoa parece estar mais ligado às coerções
próprias do gênero “crítica”, confessa que muito ele deixou de usar “por uma
questão de timidez de usar a prim eira pessoa, de não chamar a atenção para minha
pessoa, para minha opinião” (cf. APÊNDICE). E complementa:
Mas, de uns tempos para cá, eu tenho me convencido de que eu
passei a ter mais resposta das pessoas me colocando mais (“Na
minha opinião”, “Eu acho” ) houve uma quebra de gelo, uma
aproximação, uma quebra de cerimônia, enfim, eu nunca quis essa
cerimônia, eu nunca quis para mim um pedestal . Agora, eu sinto
que uma aproximação. Eu sempre tenho colocado nas minhas
preleções [...] que o que faz a dif erença entre vocês e eu, é o fato de
[...] por uma série de circunstâncias ao longo do tempo, eu me
transformei em um especialista de cinema e tenho, de alguma forma,
um diferencial de conhecimento em relação a vocês [...] (cf.
APÊNDICE A).
Como vemos, o crítico se encontra em um embate entre um estilo
mais formal que parece emergir das pressões exercidas pela escrita do gênero
“critica” e uma necessidade de aproximação com o leitor, por meio de uma
colocação mais explícita da sua figura dentro do di scurso crítico. Talvez resida
nesse fato uma das transformações que o gênero vem sofrendo. Como vimos
anteriormente, é a partir das diversas formas de empréstimo de um gênero, a cada
nova adaptação, que as transformações vão se corporificando e transfor mando-o
(BRONCKART, 2006). Talvez essa informalidade, própria de um discurso em
primeira pessoa, comece, com o passar do tempo, a fazer parte do discurso da
crítica e a se configurar como uma de suas características próprias.
Lourenço Jorge também confes sa que, principalmente em razão das
novas exigências da contemporaneidade, tem procurado tornar a linguagem de suas
críticas mais leve, incorporando um vocabulário mais coloquial sem, contudo, abrir
mão de sua marca pessoal certo rigor formal adquirido n as muitas leituras dos
clássicos na adolescência (apud KLEBIS, 2004). Ainda, no que diz respeito às
adequações que a nova sociedade vem exigindo, o crítico comenta o problema do
espaço editorial dentro do jornalismo e a busca, por parte desse novo leitor, de
“fofoquinhas” dos bastidores da obra. De acordo com Lourenço Jorge, está
71
aflorando, dentro do jornalismo cultural, um novo modelo de crítica a “repor-crítica”:
uma mistura de reportagem, entrevista e crítica , no qual a notícia-filme tem mais
espaço do que a reflexão, a apreciação da obra em si:
Este é um tipo de informação [“fofoquinhas”] que o leitor
contemporâneo está procurando [...] Quando eu viajo, eu tenho mais
facilidade em obter esses dados, porque eu estou no foco das coisas
[...] Eu tenho que ser ágil, eu tenho que ser flexível, eu tenho que ser
repórter [...] A tal da repor -crítica surgiu esse bicho de sete
cabeças, não sei? mas é uma fórmula que está aí, está sendo
utilizada, porque as pessoas querem saber se o orçamento do filme
foi de 178 milhões. O lançamento no Brasil, eu tenho que colocar, e
tenho posto – no meio da crítica, eu pego o telefone e ligo pra a Fox::
“Quantas cópias estão lançando do filme x?”. um tempo eu não
tinha porque saber isso [...] Há uma alquimia, eu acho que você tem
que sentir o feeling do momento e, o momento, é o agora . Cada
vez mais, críticas de páginas inteiras como existiam no Correio da
Manhã e críticos-filósofos como Paulo Emílio, Antônio Muniz Viana
deixarão de existir [...] Não é possível você fa zer uma crítica dessas
em parágrafos contados, como acontece hoje em dia [...] Você tem
que adequar o seu pensamento a um determinado espaço [...] (cf.
APÊNDICE A).
O depoimento do crítico deixa claro que lidar com o pouco espaço
destinado às criticas e com os apelos do mundo contemporâneo é “sentir o feeling
do momento”, ou seja, o seu fazer discursivo vai muito além de suas pretensões
como crítico de cinema, ele acaba, de certa maneira, tendo que sucumbir a essas
“necessidades” da modernidade. Trazendo , por exemplo, informações
complementares, como o custo de produção do filme. Segundo Lourenço Jorge
(apud KLEBIS, 2004), todo esse processo é feito de forma bem calçada, com vistas
a não comprometer a substancialidade do texto. Todavia, ressalta que essas
“fofoquinhas” são mais freqüentes no caso das críticas de filmes hollywoodianos
grupo CN. Quando questionado sobre o funcionamento do espaço editorial das suas
críticas dentro da Folha de Londrina, o crítico expõe:
[O espaço] de semana para semana muda . É particularmente
doloroso quando os dois Multiplex da cidade informam que as
estréias são seis. Então é “um Deus nos acuda”, porque você tem
que atender ou, pelo menos, registrar metade delas [...] Você tem
que priorizar a qualidade que, em geral, está na sala alternativa [...]
Mas, é muito difícil, votem que ilustrar cada uma delas. [...] Eu
tenho feito o seguinte: arbitrariamente, eu tenho decidido certas
coisas à revelia do editor “Oh, fulano estou lhe passando 38,/40
linhas desse filme pois eu acho que não pode ser menos junto
72
com essa ilustração; vou fazer mais um pouco (20 linhas mais ou
menos) do segundo filme e, o resto, a gente faz outro dia, se der”. Ou
seja, nós temos ignorado alguns lançamentos – a não ser como
notícia (filmes novos chegando ao circuito local) (cf. APÊNDICE A).
Esse trecho mostra duas coisas: primeiramente, a problemática da
adequação de um texto crítico a um disputadíssimo espaço editorial (incluindo a
sobrecarga de estréias cinematográficas, própria de um mund o cada vez mais
globalizado e a disputa entre o texto verbal e as ilustrações estas cada vez mais
requisitadas); em segundo lugar, certa autonomia do crítico quanto às escolhas dos
filmes criticados (fato, com certeza, decorrente do prestígio adquirido a o longo do
tempo no exercício da profissão). Como vimos, na briga pelo espaço, está o fator
“ilustração”. Segundo Lourenço Jorge, “o leitor hoje é muito mais voyeur do que
leitor. Ele tem preguiça de ser voyeur no texto porque as fotos entregam muita coisa .
E as fotos, de certa forma, informam coisas a esse leitor apressado [...]” (cf.
APÊNDICE A). Ou seja, para satisfazer esse leitor voyeur, o jornal precisa abrir
espaço para a ilustração – e isto é um fato concreto dentro do jornalismo.
Ao falar da figura do revisor de texto – quase extinta dentro do
jornalismo – o crítico nos revela um pouco do panorama da sua pré -escrita:
Eu escrevo em casa, não trabalho na redação. Escrevo em casa e
mando por e-mail para a Folha os textos e as ilustrações. O que
acontece é o seguinte: eu tenho um tempo de fechamento eu não
tenho tempo de estar redigindo com calma . Muitas vezes, eu
redijo no decorrer da produção [...] Sei que tem saído coisas que eu
tenho me arrepiado [...] Hoje, a figura do revisor de texto sumiu ,
não existe mais revisor [...] Por enquanto, isso está insolúvel. E estou
tendo que confiar cada vez mais em mim (cf. APÊNDICE A).
Essa citação explicita um pouco do mundo do jornalismo
contemporâneo: o crítico nem precisa ir à redação trabalha em casa e manda seu
texto por e-mail (as relações de trabalho se tornam, cada vez mais, virtuais); os
textos são escritos com rapidez, que o tempo dentro do jornalismo é escasso; é o
próprio autor que revisa seu texto, já que a figura do revisor textual parec e ser peça
de museu dentro do jornalismo (é o enxugamento de cargos). Ou seja, não há como
pensar na crítica sem considerar todo o funcionamento da esfera jornalística da qual
ela faz parte. “É necessário compreender que o jornalismo trabalha sempre com
73
urgência, premência de tempo. Não pode jamais ‘parar para pensar’ em nenhum
tema, para emitir juízos amadurecidos e serenos” (PRIOLLI, 2000, p. 81).
Também em relação à preparação para escrita de uma crítica,
Lourenço Jorge explica que, quase sempre, assis te aos filmes com antecedência de,
aproximadamente, quinze dias, em sessões destinadas à Imprensa. Para isso ele
viaja muito a São Paulo, onde se encontra com outros críticos/jornalistas, com os
quais, devido à escassez de tempo, acaba não trocando pratica mente nenhuma
palavra sobre os filmes. Dessa forma, além da sua leitura própria da obra fílmica, os
elementos que usa para a elaboração de seu texto são a sinopse e as notas de
produção, informações estas recebidas antes da exibição do filme.
Questionado a respeito da elaboração do resumo do enredo dentro
da textualidade da crítica, Lourenço Jorge diz que não uma “técnica” para se
fazer esse resumo. Vai depender muito da orientação argumentativa de cada texto.
Para o crítico, esse resumo da trama tem q ue estar coeso com o restante da crítica:
Eu acho que argumento que é absolutamente necessário você
reportar com certo grau de detalhamento, outros que você pode
omitir uma série de coisas que não vai prejudicar em nada o filme.
Quanto à questão da revelação do final [...] Eu não faço parte dos
cultores do final-surpresa [...] A questão do resumo, de certa
forma, foi imposta por essa nova modalidade de leitor que quer
ser informado sobre... [...] Dessa forma, e com muita freqüência,
essa informação, ou seja, essa revelação da trama, serve como
coadjuvante de colocação de certos conflitos ou estabelecimentos de
pontos de interesses que eu acho que devo puxar. Se for uma trama
psicológica mais aguda, você tem, às vezes, a definição de um
personagem [...] Essa informação vai, de certa forma, justificar
alguma coisa que eu possa dizer mais para frente [...] Eu procuro que
as coisas tenham um sentido mais coeso. (cf. APÊNDICE A).
Como vimos, o crítico não tem a preocupação de não revelar o final
da trama, o que mostra que ele não na crítica um simples veículo de divulgação
comercial do filme, uma vez que a revelação do final, em tese, desmotivaria a ida do
público ao cinema. Ao finalizar nossa entrevista, perguntamos a Lourenço Jorge se
ele considera a crítica necessária nos dias de hoje. Ele se mostrou bem otimista em
relação à crítica de cinema, ao Cinema e ao seu papel como crítico dentro do
jornalismo. Complementou:
74
Existem filmes sérios, continua a existir um público potencial muito
grande nesse mundo que pode tirar um bom proveito desses filmes.
E nada melhor que nesse meio campo entrar um crítico como
condutor dessa relação . Eu acredito nisso, apesar de não andar
com vendas nos olhos estou com os dois olhos bem abertos com
essas transformações todas que, afinal de contas, são chamadas de
“bolhas da História”. [...] Mas, eu acredito muito nas novas
gerações. Há alguns críticos que eu conheço que têm a cabeça
muito boa e que, de repente, podem encontrar uma fórmula que nós
não soubemos ver: eles podem ter esse dom de conciliar o útil com o
inútil. (cf. APÊNDICE A).
Ouseja, ele reforça seu papel de “ponte” entre o espectador e a obra
fílmica, mesmocomtodasaslimitações que a escrita de uma crítica de cinema recebe
na contemporaneidade jorn alística. E mais: acredita na geração dos futuros críticos.
3.4.1 Um Olhar para o Suporte: o Jornal Folha de Londrina
36
O jornal Folha de Londrina foi criado em 13 de novembro de 1948,
ou seja, está no mercado jornalístico quase 60 anos. Acompanh ando o
crescente índice de vendagens de jornais brasileiros
37
, a Folha de Londrina também
registra índices positivos. Nos últimos cinco anos, de 2002 a 2007, a circulação do
jornal aumentou 22,5%. Nos dias atuais a Folha é lida por mais de 120 mil pessoas
todos os dias. Segundo José Eduardo de Andrade Vieira, superintendente da Folha,
(apud SANTIN, 2007), o advento da internet que chegou com toda força no final da
década de 90 – fez com que a Folha tomasse uma nova posição editorial:
Naquela época, a imp ortância dos jornais era simplesmente pela
notícia. Com a chegada da web, veículo tão veloz quanto o rádio e a
televisão, muita gente dizia que os veículos impressos iriam acabar.
Porém, nós acreditamos que o jornal poderia ser um prestador de
serviço, levando informação, analisando os fatos e suas
conseqüências, o que é muito mais profundo. Nossa equipe
entendeu a missão e tem feito esforços no sentido de oferecer algo a
mais aos leitores (p. 15).
36
As informações deste tópico foram fornecidas por uma série de reportagens publicadas pela Folha
de Londrina no caderno Especial de 26 de agosto de 2007, assim como pe lo endereço eletrônico:
<www.bonde.com.br/folhadelondrina>.
37
De acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC), a tiragem de jornais no Brasil cresceu
6,5% em 2006, superando o índice mundial referente ao mesmo período, que é de 2,3%. No período
de janeiro a maio de 2007 o crescimento foi 12% maior do que o registrado no mesmo período do ano
anterior (cf. <www.circulacao.org.br>, acesso em 15 nov. 2007).
75
Nos dias atuais, os números do parque gráfico são altos e o ritmo de
trabalho intenso: 25 mil exemplares são impressos por hora, 30 bobinas de 370 kg
de papel são consumidas por dia, 145 pessoas trabalham em ritmo acelerado. Os
números da logística também são expressivos. Por volta da 1h30 a Folha está
pronta para ser distribuída. Todos os dias, o jornal chega a 32 mil domicílios e 670
pontos espalhados por 308 localidades do Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
Via Correios, o jornal chega também a Brasília, Porto Alegre e Rio de Janeiro.
O perfil do leitor da Folha mostra um público qualificado,
predominantemente masculino, pertencente a uma faixa etária entre 35 e 54 anos,
como podemos visualizar pelos dados a seguir:
Fonte: Folha de Londrina, 26 ago. 2007, Caderno Especial.
Quadro 2 – Perfil do leitor da Folha
A Folha de Londrina também tem um portal na internet: o Bonde
38
.
Com mais de 160 mil pessoas cadastradas, o site recebe, diariamente, quase 50 mil
visitantes. Os internautas são geralmente londrinenses, mas o Bonde recebe
também visitantes de quase todas as cidades paranaenses, assim como de outros
estados do Brasil. O portal registra 616 mil páginas visitadas por dia. Além do
conteúdo do jornal
39
e das notícias em primeira mão, o portal disponibiliza diversos
canais que oferecem grande variedade de assuntos.
O caderno do jornal impresso intitulado “Folha 2” é o responsável
por veicular assuntos relacionados à cultura de maneira bem abrangente
40
. Nesse
Caderno temos as programações de cinema e TV, coluna social, notícias,
38
O endereço eletrônico é: <www.bonde.com.br/folhadelondrina>.
39
Ressaltamos que as críticas an alisadas são disponibilizadas, na íntegra, no Bonde.
40
Segundo Gadini (2003, p. 56), a noção de segundo caderno (Folha 2, suplemento ou afim) remete
“imaginária e inevitavelmente, à idéia de algo complementar ao caderno principal (daí, uma das
explicações, porque aos poucos também os próprios leitores passaram a entender como normal ou
aceitável que a cultura seja algo complementar... em forma de suplemento)”.
76
entrevistas e reportagen s sobre cinema, artes plásticas, artes visuais, música,
televisão, etc. assim como críticas de arte, como é o caso da crítica de cinema
escrita por Carlos Eduardo Lourenço Jorge, responsável pelas críticas de estréias
tanto de filmes do circuito nacional com estréia marcada nos cinemas de Londrina
como de filmes alternativos exibidos no Cine Com -Tour/UEL assim como pela
cobertura dos festivais de Cinema nacionais e internacionais, para os quais o nosso
crítico sempre é convidado ( Cannes, Veneza, Gramado s, Brasília, entre outros).
3.4.2 Uma Síntese do Contexto de Produção
Para o ISD, O contexto de produção constitui o conjunto dos
parâmetros que exercem influência (influência esta necessária, mas não mecânica)
sobre a forma como um texto é organizado. Tomando os mundos representados
pela linguagem de Habermas (1987) como base mundo físico, mundo social e
mundo subjetivo Bronckart (2003) estabelece seu modelo de análise do contexto
de produção, reagrupando tais mundos discursivos em dois conjuntos: a) mundo
físico; b) mundo sociosubjetivo. O Quadro 3, a seguir, esquematiza o modelo
bronckartiano:
Quadro 3 – Parâmetros do contexto de produção
Sintetizando as discussões dos tópicos anteriores, o quadro
contextual de produção das nossas crítica s pode assim ser representado:
77
Quadro 4 – O contexto de produção das críticas analisadas
Vale ressaltar que são as representações desse quadro contextual
que levam o agente-produtor das críticas, no nosso caso, o crítico Lourenço Jorge, a
estabelecer uma base de orientação a partir da qual um conjunto de decisões são
tomadas. Tais decisões estão ligadas às operações de linguagem que implicam
operações de ação (ou acionais), operações discursivas e operações lingüístico -
discursivas, que compreendem as capacidades de ação, capacidades discursivas e
capacidades lingüístico -discursivas (DOLZ, PASQUIER E BRONCKART, 1993 ).
Em outras palavras, as operações de contextualização incidem
sobre os parâmetros contextuais da atividade de linguagem que constitu em a base
de orientação para a adoção do modelo de crítica que o autor considera ser
pertinente à situação: para o CA ou para o CN. Operações de linguagem, tais como
de ancoragem textual e de constituição de estratégias lingüísticas, discursivas e
enunciativas poderão ser verificadas por meio das análises explicitadas no decorrer
78
do trabalho. Ou seja, as discussões estabelecidas no capítulo em questão objetivam,
além de estabelecer um panorama contextual que favoreça a compreensão do
trabalho como um todo, corroborar com as análises textuais estas direcionadas
pelas categorias arroladas pelo ISD
41
.
41
Neste trabalho analisamos: o plano textual global, os tipos de discurso, a coesão nominal e ve rbal e
os mecanismos enunciativos.
79
CAPÍTULO 4
BREVE PANORAMA DA INFRA -ESTRUTURA TEXTUAL
Para tratarmos de um gênero textual como instrumento de ensino de
línguas nos deparamos com uma tarefa que implica preocupações de ordem
lingüístico-discursiva e de ordem didático -pedagógica, sobretudo quando assumimos
os princípios do interacionismo sociodiscursivo.
As inquietações de ordem lingüístico -discursiva se articulam, por um
lado, ao fato de considerarmos que toda unidade de produção de linguagem situada,
acabada e auto-suficiente, constitui um texto (oral, escrito ou em outra forma de
linguagem) que pertence a um determinado gênero. O gênero, embora possa
permanecer como uma entidade vaga, possui ilhas mais ou menos estabilizadas que
possibilitam identificar as suas características próprias (BRONCKART, 2003).
Por outro lado, as inquietações de ordem didático -pedagógicas se
articulam ao fato de assumirmos com Bronckart (2006, p. 48) qu e “o ser humano se
desenvolve ao confrontar -se com as construções econômicas, semióticas e culturais
produzidas ao longo da história da humanidade, o que permite a apropriação
progressiva das regras de ação e de comunicação e, por meio de sua interiorizaçã o,
a constituição do pensamento consciente e das capacidades de ação”.
E, como professoras-pesquisadoras atuantes na área da educação e
da linguagem, temos incorporado as preocupações relacionadas à didática para o
ensino de línguas que têm levado pe squisadores articulados ao ISD a propor que
os estudos nessa área considerem os aspectos ligados tanto à didática da ação e
da intervenção (que estuda a organização dos dispositivos didáticos visando ao
desenvolvimento de capacidades para as práticas de li nguagem), quanto a
aspectos ligados à didática da descrição e da explicação que, conforme
Schneuwly (2004), buscam integrar as práticas escolares às ações que possam
garantir a apropriação da língua para que ela seja utilizada de forma adequada em
diferentes situações sociais.
Ao considerarmos a importância do domínio, em produção e
recepção, dos gêneros textuais como instrumentos de adaptação e de participação
na vida social e comunicativa e, tendo em vista a nossa própria missão de
educadoras, considera mos os procedimentos contextualizados no quadro da
80
psicologia da linguagem e da didática das nguas articulados à finalidade central do
ISD que é a de elucidar as condições de emergência e de funcionamento do
pensamento humano (BRONCKART, 2003). Assim, nos conduzimos a um modelo
de análise de textos que nos permite relacionar, para os fins didáticos a que nos
propomos, o gênero textual com as atividades, as ações de linguagem e os textos
modelo proposto pelo ISD. Assim, procedemos à explicitação dess e modelo de
análise e à exemplificação dos resultados de sua aplicação às críticas de cinema -
corpus desta pesquisa –, primeiramente, pelo enfoque da infra -estrutura textual.
O modelo do ISD para a análise da organização interna de um texto
é compreendido pela sobreposição de três camadas textuais: a infra-estrutura
geral do texto, os mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos
42
,
sendo que destas, a infra -estrutura é a que pertence ao nível mais profundo da
chamada arquitetura textual. Bronckart (2003) entende como infra -estrutura textual
o plano global do texto , os tipos de discurso (e suas articulações) e as eventuais
seqüências da planificação textual . Para a investigação em pauta, tomamos
como categoria analítica da infra-estrutura apenas o plano geral do texto e os tipos
de discurso. O estudo da seqüencialidade, por entendermos necessitar de um
aprofundamento mais cuidadoso e de um espaço físico mais extenso, não faz parte
da presente pesquisa
43
.
4.1 OS TIPOS DE DISCURSO
Antes de apresentarmos os resultados da análise referentes aos
tipos de discurso que permeiam as críticas cinematográficas que compõem o nosso
corpus de análise, fazemos uma breve exposição acerca do que o ISD entende por
mundos discursivos e tipos de discurso e quais as classificações propostas em
sua metodologia de análise.
42
Os mecanismos de textualização e de enunciação serão tratados em capítulos posteriores.
43
Entendemos que o estudo da seqüencialidade da crítica de cinema, principalmente da seqüência
argumentativa, necessita de um trab alho específico ou de mais fôlego, que a sua complexidade
demanda articulações teórico -metodológicas mais intensas e um espaço físico em que se possa
desenvolver com mais clareza uma análise mais profunda do seu funcionamento.
81
Bronckart (2003) denomina mundo ordinário os mundos
representados empiricamente pelos agentes humanos e, mundos discursivos , os
mundos virtuais criados pela atividade de linguagem (cf. Figura 9). A primeira
bipartição que o autor faz é quanto às coordenadas gerais destes dois mundos.
Temos então:
a) o mundo do NARRAR : quando as operações de construção das
coordenadas gerais que organizam o conteúdo temático de u m texto
são apresentadas de maneira disjunta das coordenadas do mundo
ordinário da ação de linguagem (exemplos: gênero fábula, parábola,
conto);
b) o mundo do EXPOR: quando as representações mobilizadas não
estão ancoradas em nenhuma origem espaço -temporal e
organizam-se em referência direta às coordenadas gerais do mundo
ordinário da ação de linguagem em curso em conjunção com tais
coordenadas (exemplos: gênero verbete de enciclopédia, dicionário,
lista telefônica).
A segunda bipartição refere -se aos parâmetros de agentividade. Um
texto implica os parâmetros de ão de linguagem quando explicita as relações
que suas instâncias de agentividade mantêm com os parâmetros físicos da ação de
linguagem (emissor, receptor, lugar físico, momento de produção), po r meio de
referências dêiticas
44
. Por sua vez, quando um texto não explicita estas relações,
dizemos que ele está em relação de autonomia com os parâmetros da ação de
linguagem: suas instâncias de agentividade mantêm uma relação de
interdependência ou indif erença com os parâmetros da ação comunicativa em
curso. A partir do exposto, podemos distinguir quatro mundos discursivos: o mundo
do NARRAR implicado, o mundo do NARRAR autônomo, o mundo do EXPOR
implicado e o mundo do EXPOR autônomo. O quadro 5 ajuda a v isualizar esse
processo de elaboração dos mundos discursivos:
44
Lyons (1979, p.290) diz que “a noção de dêixis que é simplesmente a palavra grega que exprime
a ação de ‘indicar’ ou ‘apontar’, e veio a ser um termo técnico da teoria gramatical foi introduzida
para indicar os traços ‘orientacionais’ da língua que se relacionam com o tempo e o lugar do
enunciado”.
82
Quadro 5 – Mundos discursivos
Para cada um desses mundos criados virtualmente pela ação de
linguagem temos um tipo de discurso correspondente, ou seja, um “tipo de discurso
talcomo ele é semiotizado no quadro de uma língua natural, com suas propriedades
morfossintáticas esemânticas particulares”
45
(BRONCKART, 2003,p.156):
a) O mundo do NARRAR implicado: relato interativo;
b) O mundo do NARRAR autônomo: narração;
c) O mundo do EXPOR implicado: discurso interativo;
d) O mundo do EXPOR autônomo: discurso teórico.
4.1.1 Os Tipos de Discurso na Crítica de Cinema
Levando em consideração as operações psicológicas que norteiam
a textualidade como um todo, ou seja, a intenção primeira que sustenta, q ue
suporte à discursividade, verificamos que, ao mobilizar representações e criar um
mundo discursivo, o agente -produtor de nossas críticas intenciona expor, comentar
sobre um determinado conteúdo temático (filmes que entrarão em cartaz na
semana) que está conjunto ou se refere diretamente ao mundo empírico da ação
de linguagem.
Quanto à implicação ou à autonomia desse EXPOR, observamos
que as marcas lingüísticas analisadas não delimitam claramente um tipo de
discurso. Ora apresentam características d o discurso interativo (EXPOR implicado),
45
O objetivo deste trabalho não é fazer uma exposição detalhada de cada um dos tipos de discurso
estudados pelo ISD. Para uma compreensão mais apurada do funcionamento de cada um dos tipos
de discurso, conferir Bronckart (2003, p. 137-216).
83
ora do discurso teórico (EXPOR autônomo). Assim, podemos dizer que a
discursividade se encontra em processo de fusionamento, formando o que
Bronckart (2003, p. 192) denomina de discurso misto interativo -teórico (principal
ou dominante). Tanto a apresentação de informações que são, aos olhos do
enunciador, verdades autônomas, independentes das circunstâncias do contexto
físico de produção da ação de linguagem, como o enunciador, mesmo na ausência
de um contato direto com o destinatário, solicita sua atenção, procura sua
aprovação, seu envolvimento, antecipando suas objeções, inscrevendo -se, assim,
nas coordenadas de um mundo interativo
46
.
O exemplo (1), recorte dos dois primeiros parágrafos da crítica do
filme “Clube da Lua”, mostra bem essa dualidade discursiva. O primeiro parágrafo
está repleto de marcas próprias do discurso interativo, marcas dêiticas que remetem
aos parâmetros da situação de produção, como, por exemplo, o advérbio de tempo
“hoje” que faz referências externas ao mundo discursivo a data da veiculação da
crítica e o pronome “nós”, marca da interatividade entre escritor e leitor. Já, o
segundo parágrafo é tipicamente enquadrado no discurso teórico: ausência de
unidades que remetem diretamente à interação, distanciamento entre enunciador e
destinatário, densidade verbal fraca em contraposição a uma densidade
sintagmática elevada.
(1) Se a seleção Argentina jogar hoje com a mesma obstinação dos personagens centrais
de ''Clube da Lua'', não haverá força em campo ou torcida alemã capaz de mudar o
destinatário da vitória. O filme, que está a partir de hoje no circuito local (confira a
programação de cinema na página 2), no entanto não é sobre a paixão futebolística dos
vizinhos, de resto tão fanáticos pelo esporte como nós.
O clube a que se refere o título brasileiro é aquele social de bairro, velha e muito particular
instituição portenha. Na maioria, fundado pela metade do século passado por imigrantes
espanhóis ou italianos, eles existiram em grande número em Buenos Aires como espaços
ao redor dos quais girava a vida dos bairros habitados pela pequena burguesia. ''Clube da
Lua'' narra a tentativa de algumas pessoas para impedir que um desses locais seja
transformado em cassino (2 -CA).
46
Essa dualidade discursiva pode ser vista, primeiramente, pelas especificidades do gênero crítica de
cinema: um gênero que ao mesmo tempo em que necessita trazer à tona um conhecimento
teórico/factual em relação a um determinado filme, também se propõe a traçar uma linha
argumentativa de convencimento a respeito de um ponto de vista assumido pelo crítico, o que requer,
sem dúvida, formas discursivas interativas, de aproximação com o leitor. Em segundo lugar, como
pudemos analisar por meio da entr evista concedida pelo crítico Lourenço Jorge, ele se encontra em
um momento de transição discursiva, em um embate entre uma forma mais tradicional, mais formal
de escrita (que ora ele considera própria do gênero ora atribui a sua formação intelectual mais formal)
e uma busca de interatividade com seu público.
84
Entretanto, na constituição do “emaranhado” textual, entrecruzam
outros tipos de discursos, porém de caráter secundário. Nas nossas críticas,
destacamos a mobilização discursiva do enredo ficcional do filme criticado
(intertextualidade explícita com o roteiro fílm ico). Essa mobilização é feita por meio
de segmentos discursivos de narração, encaixados no discurso dominante (discurso
misto interativo-teórico) e não planificados na forma convencional de uma seqüência
narrativa
47
, já que se narra uma mínima parte da tra ma (e nunca seu final
48
) e
somente aquelas que mais interressam à orientação argumentativa em curso.
Ressaltamos que não há uma divisão clara, nítida entre a textualidade de elementos
temáticos referentes ao filme como história ficcional e ao filme como pro duto de
consumo e/ou fruição. Ou seja, o agente produtor não mobiliza propriedades
lingüísticas específicas para cada um dos casos. Por exemplo, se utiliza do presente
como marco temporal tanto para comentar assuntos ligados à direção, atuação dos
atores, investimentos financeiros, duração do filme, etc., como para narrar a trama
ficcional
49
.
Essa atividade narrativa também não se encontra delimitada por
marcadores discursivos convencionais e, muitas vezes, aparece imbricada com a
exposição em curso
50
. O fragmento (2), retirado do filme “Separados pelo
Casamento”, mostra a mobilização discursiva de segmentos de narração ficcional
(grifados em negrito) encaixados no discurso da ordem do EXPOR dominante.
Percebe-se que a articulação discursiva é complexa, o uma delimitação
precisa entre os tipos de discurso.
(2) Aniston interpreta a refinada Brooke. Lida com arte em sofisticada galeria, tem
amigos ''com classe'' e se desespera com o beisebol (paradoxalmente foi durante um
jogo que se conheceram) e os videogames do marido. Este é Gary (Vaughn), pouco
simpático proprietário e guia turístico de agência que mantém com seus dois irmãos .
Sobre o andamento do romance somos informados antes e durante os créditos, ao som de
Queen e através do exausto recurso elíp tico das fotografias que testemunham o desenrolar
da relação nos últimos dois anos (2 -CN).
47
A forma prototípica de uma seqüência narrativa inclui as seguintes fases: situação inicial,
complicação, ações, resolução, situação final; podendo ainda ter: as fases da avaliação e a da moral
(BRONCKART, 2003, p. 219-222).
48
Nas críticas analisadas não foi constatada nenhuma narração do final da trama, porém, em
entrevista concedida para nossa pesquisa, o crítico diz ter revelado o final do enredo em algumas
críticas. Entretanto, na forma protot ípica do gênero, o resumo do enredo não traz o final da trama.
49
Este assunto será aprofundado no capítulo sobre mecanismos de textualização coesão verbal.
50
A esse respeito, Lourenço Jorge comenta que, ao mobilizar o enredo ficcional da trama, sua
preocupação é sempre de articulá -lo com a argumentação proposta na crítica, ou seja, de manter a
coesão de sentidos do texto (o resumo do enredo não é simplesmente inserido na textualidade, ele
faz parte dela).
85
A narração ficcional do enredo não é a única ocorrência discursiva
do plano secundário. Entretanto, nosso objetivo aqui não é fazer uma exploração
exaustiva da discursividade da crítica, apenas levantar os pontos mais significativos,
aqueles que caracterizam o gênero. Sendo assim, nos limitamos a abordar a
narração ficcional de enredo, uma vez que esta perpassa a identidade do gênero
crítica de cinema, alvo de nossas pesquisas.
4.2 O PLANO TEXTUAL GLOBAL
O plano textual global “refere-se à organização de conjunto do
conteúdo temático; mostra -se visível no processo de leitura e pode ser codificado
em um resumo” (BRONCKART, 2003, p. 120). É como se fosse a “fotogra fia” do
gênero. É por meio dele que, geralmente, identificamos um gênero, que o
reconhecemos, embora isso nem sempre aconteça, pois a adaptação de um gênero
textual por parte de um sujeito singular pode, eventualmente, subverter as regras
gerais de organização textual com propostas de inovação, como, por exemplo, a
elaboração de uma receita culinária em forma de canção
51
ou a produção de um
artigo de opinião nos moldes de um poema.
4.2.1 O Plano Textual Global da Crítica de Cinema
São rios os elementos que compõem o plano geral de um texto.
No caso das nossas críticas, podemos destacar: o espaço ocupado pelo texto no
caderno (“Folha 2”), a ilustração que acompanha o texto (e a legenda da foto), o
título e subtítulo, a assinatura do crítico, a mobilização das informações sobre o
filme criticado, a articulação entre o discurso expositivo e o discurso narrativo
(resumo do enredo ), o critério de avaliação da crítica (elemento fílmico que
51
A TV Futura divulgou por algum tempo em seus int ervalos comerciais receitas culinárias regionais
em forma de canção, interpretadas por cantores trajados conforme a cultura da região do Brasil em
foco.
86
norteia a argumentação: atuação do elenco, direção, elaboração do rot eiro,
desenvolvimento do enredo, gênero cinematográfico, etc.). O objetivo aqui é expor o
funcionamento de cada um desses elementos nas críticas analisadas e, em seguida,
sintetizar todas essas informações na forma de um esquema geral que representa a
organização textual do gênero.
Primeiramente, ressaltamos que as críticas analisadas, escritas pelo
crítico Carlos Eduardo Lourenço Jorge (e assinadas), se referem, na maioria dos
casos, a estréias fílmicas da semana . Por essa razão, são veiculadas no jornal de
sexta-feira na seção “Cinema/Estréia” (caderno de cultura “Folha 2”). Entretanto,
temos o caso de uma crítica veiculada na terça -feira, referente a um filme “em
cartaz”
52
, mas o leitor se atualiza dessa informação logo no subtítulo da crítica: “Em
cartaz nacional, ‘Separados pelo Casamento’ tenta sem sucesso romper fórmula do
gênero” (2-CN cf. ANEXO G/R). Também o caso de uma crítica veiculada no
jornal da quinta-feira. Mas, nesse caso, a excepcionalidade fica por conta da data da
estréia do filme, também explicitada pelo título e subtítulo da crítica: “Original mesmo
a data de estréia: Lançado em 6/6/6, este ‘A Profecia’ é clone do filme de 1976,
que nunca foi um clássico” (4 -CN – cf. ANEXO I/T).
Quanto ao espaço destinado às nossas crítica s, ressaltamos certo
destaque para as críticas do grupo CN – circuito nacional. As críticas CA, em média,
ocupam entre 1/4 a 1/3 da página. às críticas CN são destinadas
aproximadamente 1/2 página (espaço este computados o título, o subtítulo e a
ilustração). O fato de apenas uma das nossas críticas aparecer na primeira página
do caderno, ou seja, em posição de destaque, e essa crítica estar direcionada a um
filme do circuito nacional – “Super-Men: O Retorno”, filme dito hollywoodiano
corrobora com a nossa interpretação de que os filmes do circuito nacional têm mais
destaque dentro do caderno cultural do que os filmes do circuito alternativo.
Ressaltamos que, embora Lourenço Jorge tenha certa autonomia
quanto à escolha dos filmes a criticar, da ilu stração da crítica, um pouco de
flexibilidade quanto à extensão textual (fatos estes relatados em entrevista
APÊNDICE A), o compete a ele a composição editorial final, ou seja, é a editoria
do caderno cultural que determina o tamanho da foto, da fonte do título e subtítulo, a
52
Em entrevista concedida a nossa pesquisa (APÊNDICE A), o crítico relata o problema da
sobrecarga de estréias em algumas datas. Nesses casos, segundo o crítico, a posição assumida é de
priorizar certos filmes (levando em consideração a relevância da obra) e desconsiderar outros que
podem posteriormente ser alvos de uma crítica “em cartaz”.
87
página do caderno, etc. Ou seja, embora o crítico tenha um posicionamento mais
“duro” em relação aos filmes hollywoodianos e isso é facilmente detectado em
suas críticas para a editoria do jornal, os interesses do mundo jornalí stico
(interesses de mercado) falam mais alto. Dessa forma, colocar um filme que vem
importado como sucesso da temporada em destaque na primeira página do caderno
é reforçar a publicidade desse filme e, ao mesmo tempo, satisfazer aos interesses
do grande público. Segundo Coelho (2000), sempre houve um desentendimento
entre crítica e público; e para satisfazer esse público (ávido por notícia, abduzido
pela massiva publicidade) o jornalismo se utiliza de estratégias como a manobra do
espaço, a inserção de entrevistas com atores, matérias sobre a filmagem, etc., e
acaba reservando umas poucas linhas à voz da crítica. O autor complementa:
Terminamos atendendo, na verdade, ao interesse do mercado. É o
que parece estar acontecendo em geral com a linguagem do s nossos
tempos: não se fala mais no que é bom para a sociedade, se fala
no que é bom para o mercado; não há mais cidadãos, classes,
países, só Mercado, com M maiúsculo (COELHO, 2000, p. 90).
No encalço da questão sobre o espaço, está a inserção de fotos de
cenas do filme para ilustrar o texto crítico. Inserção esta mais valorizada, em termos
de espaço, do que o conteúdo textual da crítica (cf. ANEXO R). Tal estratégia se
concretizou no plano global do gênero. Dessa forma, podemos dizer que o gêner o
crítica de cinema mescla duas formas de semioses: a verbal e a imagética.
Neste trabalho não temos a pretensão de fazer uma análise da
vertente visual do gênero, ainda que, segundo Nascimento (2007) ela se faça
imprescindível para o tratamento didático dos chamados gêneros multimodais, mas
apenas discutir o seu funcionamento no plano discursivo geral. É voz corrente na
atualidade dizer que o mundo hoje está muito mais visual do que verbal, que a
contemporaneidade está sendo invadida pelas imagens. Real mente, essa é uma
tendência do nosso mundo, tendência essa que se revela com bastante inte nsidade
na esfera jornalística. Se compararmos um jornal de hoje com um de cinqüenta
anos,certamente, detectaremos osignificativo aumento do apelo à imagem. Segund o
Lourenço Jorge, “o leitor hoje é muito mais voyeur do que leitor. Ele tem preguiça de
ser voyeur no texto porque as fotos entregam muita coisa” (APÊNDICE A).
Se analisarmos a Figura 4 título, subtítulo e legenda da crítica do
filme “Separados pelo c asamento” (2-CN) –, veremos que os dados interligados nos
88
dizem muito sobre o conteúdo textual da crítica. Para quem conhece um pouco o
mundo hollywoodiano, é olhar para a foto para identificar os atores principais do
filme nomes estes explicitados na legenda. E para quem não muita importância
a nomes de atores, certamente a foto vai servir para identificá -los visualmente e
talvez fazer lembrar de outros filmes ou séries televisivas que eles participaram
(como é o caso da atriz Jennifer Aniston, muito conhecida pela sua participação no
seriado americano “Friends”). O nome do filme é informado pelo subtítulo da
crítica e, o nero cinematográfico comédia romântica –, pelo título. E, se
observamos a ilustração da crítica, ela dialoga com o título do filme, ou seja, é o
visual e o verbal unidos para reforçar uma idéia. Pelo subtítulo, também somos
informados do tipo de circuito nacional e da situação do filme em cartaz. E,
também, se fizermos uma leitura apenas do título, subtítulo e legen da veremos que
eles antecipam o posicionamento valorativo do crítico: estranha comédia
romântica... tenta sem sucesso romper fórmula do gênero... roteiro distorcido
deixa personagens à deriva . Ou seja, para o leitor voyeur da contemporaneidade,
mencionado por Lourenço Jorge, a leitura do título, subtítulo e legenda da crítica
associada a uma leitura visual da foto ilustrativa, satisfaz seus propósitos
imediatistas.
Título: Estranha Comédia Romântica
Subtítulo: Em cartaz nacional, “Separados pelo
Casamento” tenta sem sucesso romper fórmula do
gênero
Legenda da foto: Vince Vaugh e Jennifer Aniston:
roteiro distorcido deixa identidade dos personagens
à deriva
Fonte: Folha de Londrina, 4 jul. 2006
Figura 4 Foto, legenda, título e subtítulo da críti ca 2-CN
Como vimos, a questão da elaboração do título, subtítulo e
legenda é de suma importância na discursividade do gênero crítica de cinema. A
grande maioria dos exemplares analisados possui um título formado por uma frase
nominal (com exceção de dua s críticas) de grande impacto, destacado em negrito e
89
com o tamanho da fonte bem maior em relação ao texto principal. O subtítulo
53
, com
tamanho da fonte intermediário entre o título e o corpo do texto, aparece,
geralmente, logo abaixo do tulo (ele também pode ser inserido graficamente dentro
da foto
54
ou logo abaixo dela). A legenda, por sua vez, vem sempre acompanhada
da foto de divulgação do filme e em menos evidência que o título/subtítulo (cf.
exemplo de apresentação do título, subtítulo, foto e legend a, na Figura 5). A legenda
não explica a foto, como poderíamos pensar, ela funciona mais como uma síntese
da idéia principal do filme ou como uma pequena amostra do que o espectador vai
ver nas telas, como podemos perceber por meio da legenda da foto ilust rativa da
crítica do filme “X-Men – O Confronto Final”: “Em ‘O Confronto Final’, os mutantes se
deparam com uma questão: manter suas características originais ou tornarem -se
definitivamente humanos” (cf. Figura 5).
Não podemos perder de vista o fato de a crítica de cinema estar
inserida na esfera jornalística e, conseqüentemente, ser regida por muitas das suas
normas. É notório que, pelo fato de veicularem grande quantidade de informação, os
veículos de comunicação de massa precisam dispor de recursos para chamar a
atenção do seu público. Se pensarmos na crítica, alguns desses recursos, com
certeza, são o título e o subtítulo. Eles funcionam como um “chamariz” para
despertar o interesse do leitor. Por essa razão, antecipam as principais informações
que se encontram no texto, ou seja, eles as jogam para primeiro plano. Segundo
Berbare (2004), um dos princípios da redação jornalística é colocar o mais
importante em primeiro lugar. É significativa, também, nesse momento, a
criatividade, pois um título bem elabo rado pode atrair a atenção do leitor, mesmo
que pelo fator “curiosidade”.
O título da crítica 5-CN (Figura 5) nos fornece um bom exemplo da
força expressiva de um título, tanto em nível discursivo como gráfico
“Grandiloqüência MUTANTE”. Grandiloqüênc ia significa um modo rebuscado,
pomposo de se expressar, mas também nos remete a algo grande, exagerado. E é
justamente com essa polissemia da palavra que o crítico trabalha, porém, de uma
forma irônica. A grandiloqüência, nesse caso, o se refere ao rebu scamento
expressivo da obra fílmica protagonizada pelos “mutantes”, mas pelo seu exagero na
utilização dos efeitos especiais (segundo o crítico, sem efeitos especiais, seria o
53
Em apenas dois exemplares do nosso corpus o subtítulo não foi encontrado (cf. Figura 6)
54
Conferir ANEXO N.
90
nada para estes mutantes cf. ANEXO I). Esse sentido de exagero” é corroborad o
com uma expressiva apresentação gráfica do título: frase com apenas dois nomes,
extensão do título ocupando todo espaço lateral da crítica, fonte bem maior do que a
do texto e digitação da palavra MUTANTE em caixa alta. Ou seja, é o plano da
expressão e do conteúdo dialogando para a produção de sentidos (cf. SAITO, 2007).
De acordo com Costa (2006, p. 82), os títulos da imprensa jornalística não são
meros enfeites ou meras escolhas lingüísticas aleatórias, mas são enunciados
polifônicos e plurissêmicos, discursivamente produzidos em situações de produção
concretas”.
Fonte: Folha de Londrina, 26 de maio 2006, Folha 2.
Figura 5 “Grandiloqüência MUTANTE”
Como vimos na análise da crítica do filme “Separados pelo
Casamento”, juntos, título, subtítulo, legenda e foto dizem muito sobre o texto da
crítica, eles acabam antecipando muito do seu conteúdo. Em todos os exemplares
do nosso corpus, os tulos, subtítulos, fotos e legendas funcionam como pistas
contextualizadoras. Os títulos/subtítulos, mais do qu e a legenda, acabam, na maioria
das vezes, explorando o critério principal de avaliação do filme (escolha de um
91
elemento fílmico para desenvolvimento da crítica). São vários os elementos lmicos
que podem direcionar a discursividade da crítica . Dentre eles, podemos citar:
a) desenvolvimento do enredo;
b) enquadramento em uma modalidade cinematográfica (suspense,
comédia, drama, etc.);
c) tratamento dado ao tema da ficção;
d) o figurino;
e) a trilha sonora;
f) os efeitos especiais utilizados;
g) o trabalho da cenografia;
h) a duração do filme (extensa demais, por exemplo);
i) a pertinência em relação ao público alvo do filme;
j) a atuação do elenco (protagonistas e atores secundários);
k) o desempenho da direção;
l) o tom do filme;
m)o trabalho desenvolvido pela produtora/distribuidora (inclusive o
papel da divulgação comercial do filme).
Normalmente, o crítico toma um elemento como critério -base para a
avaliação crítica. Entretanto, no decorrer do texto, outros elementos vão sendo
analisados, porém com menos ênfase. O Quadro 6, que t raz a relação dos
títulos/subtítulos e o(s) critério(s) -base da crítica dos exemplares que fazem parte do
nosso corpus, mostra bem a dialogicidade do título e/ou subtítulo com o(s) critério(s)
escolhido(s) pelo crítico para direcionar sua avaliação crítica :
Filme
Título da
crítica
Subtítulo
Critério(s)
principal(s) da
crítica
“Free Zone”
(1-CA)
As super-
mulheres de
“Free Zone”
Estreando na cidade, três ótimas
atrizes estão no centro de um
conflito onde todas as partes têm
razão
Atuação das atrizes
principais
Tratamento do tema
“Cube da
Lua”
(2-CA)
Receita
argentina de
cinema popular
''Clube da Lua'', em lançamento
na cidade, mostra a cara e a
determinação de um povo
Tratamento do tema
Filme argentino
“A Dama de
Honra”
(3-CA)
Quando a
normalidade é
aparente
‘A Dama de Honra’, em
lançamento na cidade, é thriller
criminal com forte viés
psicológico
Tratamento do tema
92
“Sra.
Anderson
Apresenta”
(4-CA)
Entretenimento,
como deve ser
Gênero
cinematográfico
comédia musical
“Conversando
com Mamãe”
(5-CA)
Os planos de
mamãe aos 80
Filme argentino estreando na
cidade é sobre relações
familiares, terceira idade e crise
econômica
Tratamento do tema
“Superman
O Retorno”
(1-CN)
SUPER-
HOMEM - mais
sério e menos
pop
Estréia hoje em circuito nacional
a quinta aventura do herói das
HQs, agora sem carisma, com
menos humor, mais rigidez e
solenidade
Construção do
personagem
principal
“Separados
pelo
Casamento”
(2-CN)
Estranha
comédia
romântica
Em cartaz nacional, 'Separados
pelo Casamento' tenta sem
sucesso romper fórmula do
gênero
Gênero
cinematográfico
comédia romântica
“Carros”
(3-CN)
A animada lição
de 'Carros'
Ótimo filme do especialista John
Lasseter faz a diferença ao
retomar temas clássicos da
animação
Gênero
cinematográfico
animação
“A Profecia”
(4-CN)
Original mesmo
só a data de
estréia
Lançado em 6/6/6, este 'A
Profecia' é clone do filme de
1976, que nunca foi um clássico
Refilmagem
“X-Men – O
Confronto
Final”
(5-CN)
Grandiloqüência
MUTANTE
Efeitos especiais
Quadro 6 – Relação dos títulos/subtítu los com o critério principal de avaliação
Questionado a respeito dos critérios usados para a escolha do
aspecto do filme a ser enfocado, Lourenço Jorge, em entrevista concedida a nossa
pesquisa, diz ser o filme o direci onamento da visão do crítico:
filmes que deixam muito claro o ponto focal. Você tem, às vezes,
um filme que não tem um grande elenco, você não tem uma direção
marcante, você tem uma fotografia burocrática, enfim, o filme não se
sobressai em nenhum desses aspectos. Mas você nota que o filme é
bem escrito, um roteiro por detrás bem urdido, bem amarrado, e
isso é uma virtude que você procura puxar. E, hoje, cada vez mais,
os filmes estão mal escritos na indústria em série, principalmente,
isso é o que menos importa. E olha que Hollyw ood foi a grande
usina de roteiros, mas hoje você tem uma linha medíocre bastante
evidente de gente que não escreve, porque os efeitos estão
escrevendo por elas, assim, você substitui um recheio densamente
atraente por vácuos em que os efeitos especiais entram [...]
(APÊNDICE A).
93
Dessa fala é possível depreendermos a posição do crítico em
relação ao crescente domínio dos efeitos especiais nos filmes hollywoodianos
posição essa explicitada na argumentação crítica do filme “X -Men O Confronto
Final” (5-CN) e antecipada pelo título da crítica – já analisado anteriormente.
Retornando ao Quadro 6 e observando os títulos e subtítulos das
críticas, facilmente constatamos a distinção de posicionamento valorativo em relação
aos dois grupos textuais críticas do circuito alternativo (CA) e críticas do circuito
nacional (CN). Fica notória a valoração positiva (ou quando muito neutra”) atribuída
aos filmes do circuito alternativo e, inversamente, a valoração negativa que carrega
os filmes do circuito naciona l (com exceção do filme de animação computadorizada
“Carros”). Como veremos mais adiante, nas análises dos mecanismos de
textualização e enunciação, essa distinção de posicionamento é fortemente
detectada na textualidade das críticas. Ou seja, é novamente o título/subtítulo
antecipando o teor da crítica. É por isso que o leitor contemporâneo, sempre
apressado, com pouco tempo para leitura, se torna leitor de títulos/subtítulos e fotos,
pois estes lhes dizem muito, são formas condensadas de informação.
Outra questão que norteia a organização da crítica de cinema é a
mobilização das informações técnicas do filme. Ou seja, data de estréia, nome do
diretor, atores, gênero fílmico, etc. Berbare (2004), ao pesquisar várias fontes que
veiculam o gênero crítica d e cinema, constatou que existem veículos que, ao lado do
texto crítico, trazem quadros com a ficha técnica do filme. Esse não é o caso do
nosso corpus de pesquisa. As informações fílmicas aparecem articuladas à
textualidade da crítica. Por isso não muit o rigor quanto ao que informar e como
informar. Por exemplo, o nome do diretor ou o gênero cinematográfico só são
citados caso a orientação argumentativa da crítica solicite essas informações.
Entretanto, podemos verificar certa regularidade quanto à apres entação da data de
estréia do filme, o tipo de circuito e o nome dos atores (os principais). A data de
estréia geralmente a mesma da crítica e o tipo de circuito do filme aparecem,
quase sempre, logo após a primeira referência ao filme, mais ou menos n os moldes
do fragmento (1) – recorte textual da crítica do filme “Carros”:
94
(1) E o que é? Nada muito complicado, apenas talento para escrever uma história que
independa do arsenal de truques tecnológicos. Eles da Pixar, à frente o mentor John
Lasseter das 'Toy Story', sabem que a harmonia somente ocorre através da narrativa e não
somente pelo número de efeitos e risos que provocam. A lição aparece clara, límpida, neste
'Carros' que chega hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na
página 2) (3-CN – grifos nossos).
O fragmento (1) mostra uma particularidade das críticas analisadas:
logo após a apresentação da data de estréia e tipo de circuito, o crítico usa o recurso
dos parênteses para remeter o leitor à outra página do caderno que contém a
programação de cinema da cidade. Para tanto, é feito uso do imperativo “veja”,
“confira” ou seja, a implicação do destinatário da enunciação, fato este que torna o
discurso mais coloquial – aproximação do crítico com seu leitor.
Já, os nomes dos atores principais são destacados, normalmente,
no decorrer da narração parcial do enredo ficcional, entre parênteses, logo após a
menção dos personagens correspondentes. O exemplo (2), retirado da crítica do
filme “Free Zone” nos possibilita visualiza r esse procedimento:
(2) Rebecca (Natalie Portman, atriz de origem israelense), filha de pai judeu e mãe não
judia, acaba de romper com o noivo Julio (Aki Avni), israelense de origem espanhola.
Discute com ele, sai correndo e entra num táxi, conduzido pel a autoritária, resoluta e sincera
Hanna (Hanna Laszlo, melhor atriz ano passado em Cannes) . Tornam-se amigas. E
decidem fazer uma viagem até a fronteira. , Hanna deve resolver assunto econômico
relacionado ao marido (1-CA).
Se observarmos o exemplo (2 ), vemos que os parênteses servem
para inserir não somente o nome dos atores, mas também outras informações que o
crítico considera relevante para sua argumentação. Ressaltamos que essas são
regularidades apresentadas nos nossos exemplares, mas elas não o normas fixas
do gênero, que a mobilização das informações técnicas do filme está bastante
atrelada à orientação argumentativa da crítica, ou seja, são dados usados pelo
crítico na articulação discursiva e não informações inseridas forçosamente dentro do
texto.
95
4.2.2 Síntese Geral do Plano Textual da Crítica de Cinema
Umgênerotextual, comomencionado, temsuaforçadeconcentração
que propicia as suas regularidades, ainda que as forças centrípetas e centrífugas
produzam tensão constante (BAKHTIN, 1992). Entretanto, o processo de adoção de
um gênero nunca é uma simples reprodução de modelos pré -existentes, posto que
as situações de ação de linguagem são sempre diferentes, sendo assim, “o produtor
vai sempre adaptar o gênero aos valores parti culares da situação que se encontra”
(MACHADO, 2005, p. 251) e, dependendo das possibilidades desse gênero, pode
usarsuacriatividade parainovar, enriquecer essegênero. Esse processo de adaptação
poderá refletir em qualquer um dos níveis do texto, inclusive na sua forma de
organização.
Dessa forma, ao apresentarmos um esquema da organização geral
da crítica de cinema seu plano global (Figura 6) o estamos querendo
amordaçar o gênero, encaixá -lo em um molde fixo (mesmo porque não estamos
trabalhando com uma variedade de exemplares fontes diversas), mas apresentar
uma forma prototípica de organização textual do gênero, resultado das análises dos
textos que compõem nosso corpus. Como dissemos no início deste capítulo, esta
pesquisa está direcionad a pelas nossas inquietações de ordem didático-
pedagógicas que consideram os aspectos ligados tanto à didática da ação e da
intervenção, quanto a aspectos ligados à didática da descrição e da explicação.
96
Figura 6 Plano textual global da crítica de cinema
97
CAPÍTULO 5
OS MECANISMOS DE TEXTUALIZAÇÃO
De acordo com o modelo de análise proposto pelo ISD, os
mecanismos de textualização compreendem três grandes categorias de análise: a
conexão, a coesão nominal e a coesão verbal. São os elementos responsáveis por
explorar as cadeias de unidades lingüísticas, explicitando ou marcando as relações
de continuidade ou ruptura da organização dos diversos elementos que compõem o
conteúdo temático. Dessa forma, pode -se dizer que contribuem pa ra a manutenção
da coerência temática do texto.
Bronckart (2003) estabelece, para cada uma das três categorias,
funções específicas que elas podem desempenhar no desenvolvimento da
progressão textual (plano dos significados) e, também, as marcas lingüísti cas, ou
marcas de textualização que, concretamente, realizam tais funções (plano dos
significantes).
O objetivo desse capítulo é apresentar uma investigação teórico -
analítica dos textos que compõem nosso corpus, a partir de duas das categorias dos
mecanismos de textualização arroladas pelo ISD: a coesão nominal e a coesão
verbal. Quanto à conexão, por esta estar diretamente ligada, no modelo de análise
bronckartiano, à planificação das seqüências textuais não explorada por nossa
pesquisa optamos por o privilegiá-la pelos mesmos motivos por nós
apresentados em relação ao estudo da seqüencialidade.
5.1 OS MECANISMOS DA COESÃO NOMINAL: PROCESSOS ANAFÓRICOS
Os mecanismos da coesão nominal , segundo o modelo de análise
do ISD, contribuem para a compr eensão dos mecanismos de referenciação e dos
seus efeitos de estabilidade e de continuidade temática no texto. Por introduzirem
os argumentos e organizarem sua retomada no decorrer do texto, tais mecanismos
são concretizados linguisticamente por sintagmas nominais (SN) ou pronomes,
formando as cadeias anafóricas.
98
No plano dos significados, os mecanismos de coesão nominal
podem assumir duas funções: a) função de introdução , ou seja, a inserção de um
novo argumento unidade-fonte ou antecedente que inicia uma determinada
cadeia anafórica; b) função de retomada, isto é, a reformulação de uma unidade -
fonte na seqüência do texto. Porém, é preciso ressaltar que:
[...] as relações de co-referência subjacentes às cadeias anafóricas
podem ter aspectos muito diferenciados. Em alguns casos,
observamos [...] uma identidade do conteúdo referencial relacionado
pela cadeia anafórica, mas, em outros casos, os elementos de
significação relacionados podem compartilhar apenas uma ou outra
propriedade referencial, à vez es vaga, ou ainda, pode haver entre
eles apenas relações mais ou menos lógicas, de associação, de
inclusão, de contigüidades, etc. (BRONCKART, 2003, p. 269).
A discussão acima é explorada por Koch & Elias (2006) e arrolada
na categoria das anáforas associativas (cf. Quadro 7). Outro ponto levantado por
Bronckart (2003) é a falsa idéia que temos, muitas vezes, de que a unidade -fonte de
uma cadeia anafórica somente possa ser constituída por uma forma nominal. O
autor ressalta que, algumas vezes, o antece dente é toda uma oração (ou várias),
nesse caso, o processo mobilizado é o que Koch & Elias (2006) denominam de
processo de nominalização (cf. Quadro 7), ou seja, retoma -se uma idéia mais ampla
(contida numa frase, oração, parágrafo, etc.) por meio de uma expressão-síntese.
Bronckart (2003) também desperta a nossa atenção para o fato de
que, algumas vezes, a unidade -fonte pode não estar explicitamente verbalizada no
texto, ela pode estar disponível somente na memória discursiva do agente produtor,
sendo que, há casos em que se pode inferi -la pelo co-texto
55
, outras que seu resgate
só é possível a partir de um determinado conhecimento de mundo.
Embora dando abertura a todas estas discussões para elaboração
do seu quadro teórico-metodológico da coesão nom inal, o ISD pauta-se somente em
duas grandes categorias anafóricas: a) a categoria das anáforas pronominais
(composta por pronomes pessoais, relativos, possessivos, demonstrativos, reflexivos
e pronome nulo elipse); b) a categoria das anáforas nominais (composta por
sintagmas nominais de diversos tipos).
55
Este caso corresponde ao que Koch e Elias (2006) denominam como anáforas indiretas (cf. Quadro
7).
99
Consideramos que, para o ensino da língua portuguesa e para a
formação de professores, essas duas categorias apontadas acima são insuficientes,
pois simplificam bastante o processo de retomada anafórica. Diante disso, e para
que as análises fiquem mais fundamentadas, resolvemos ampliar as discussões e
buscar novas categorizações que possam satisfazer as necessidades da pesquisa
em pauta.
5.1.1 O Processo de Referenciação Anafórica: Outras Perspectivas Teóricas
Entendemos ser necessário sistematizar e, ao mesmo tempo,
ampliar as discussões propostas por Bronckart (2003) no que se refere à coesão
nominal. Dessa forma, acrescentamos às categorias de anáfora nominal e anáfora
pronominal do ISD algumas s ubcategorias de análise adaptadas das formulações
apresentadas por Koch & Elias (2006), Koch (2005), Figueiredo (2003), Pinheiro
(2003) e Koch & Marcuschi (1998). Ressaltamos que muitas dessas categorias
estão contidas nas reflexões de Bronckart (2003.) , ainda que o autor não recorra a
uma metalinguagem própria ou a um modelo sistematizado.
O quadro a seguir apresenta uma ntese das categorias anafóricas
que servirão de base para a análise do nosso corpus, tomando como referência
alguns dos autores por nós consultados:
Categorias
Anafóricas
Descrição e exemplificação
Anáfora
pronominal
Composta de pronomes pessoais, relativos, possessivos, demonstrativos,
reflexivos e pronome nulo (elipse), e também de advérbios pronominais (cf.
KOCH, 2005; PINHEIRO, 2003) Ex: É de supor que o Super-Homem além
da ingenuidade e do anacronismo de seus imperativos morais... (crítica 1-
CN).
Anáfora
pronominal
com função de
sumarização
Pronomes demonstrativos que t êm a função de condensar informações
anteriores, retomando-as
56
. Ex: Fazem falta, na América Latina, filmes com
esta alma, esta garra. A mesma que estará em campo hoje, nenhuma
dúvida. E isto, bairrismos à parte [...] (crítica 2-CN).
56
Os estudos sobre referenciação, normalmente, colocam o caso da sumarização por pronome
demonstrativo na categoria das “nominalizações” (cf. NEVES, 2006; Apothéloz, 1995). Para o
trabalho em pauta, consideramos como uma categoria distinta.
100
Anáfora fiel
(nominal)
Consiste em lembrar, por meio de um SN definido ou demonstrativo, o
objeto do discurso sob uma etiqueta lexical que serviu para categorizá -
lo. Ex: Chega um rapaz e senta-se ao meu lado. depois vejo que
o/este rapaz é cego. (FIGUEIREDO, 2003, p . 233). Incluímos também
nessa categoria as anáforas por repetição parcial ( O diretor Paulo
Figueiredo... o diretor... Figueiredo ) ou total (o cachorro... o cachorro ).
Anáfora infiel
(nominal)
Relação anafórica que se estabelece por meio do processo de
substituição lexical (sinônimos, adjetivação, perífrases, adjetivação,
metáforas, etc.). Segundo Figueiredo (2003, p. 235), “para se
compreender que correferência entre o SN anafórico e o SN
antecedente é necessário que as duas referências virtuais distintas sejam
satisfeitas pelo mesmo segmento, ou seja, que o segmento de realidade
designado tenha as propriedades requeridas ao mesmo tempo por uma e
por outra unidade”. Ex: Eu vi meu primo ao longe, mas o estafermo o
me reconheceu.
Anáfora por
nominalização
(nominal)
Sumarizam as informações contidas em segmentos precedentes do texto
(nesse caso, ao invés de unidade -fonte, temos informação -fonte),
rotulando-as sob a forma de uma expressão nominal, ou seja,
transformando-as em objetos de discurso. Ex: Cientistas da Universidade
de Wisconsin, nos EUA, descobriram um gene que pode ajudar a
determinar quais pessoas são capazes de dormir apenas três ou quatro
horas por dia sem adoecer. O achado explicaria [...] (cf. KOCH & ELIAS,
2006, p. 138-139).
Anáfora
indireta
(nominal)
Caracteriza-se pelo fato de não existir no co -texto uma unidade-fonte
explícita, mas elementos de relação (ou uma estrutura complexa)
denominados âncoras. Ou seja, “trata-se de formas nominais que se
encontram em dependên cia interpretativa de determinadas expressões da
estrutura textual em desenvolvimento, o que permite que seus referentes
sejam ativados por meio de processos cognitivos inferenciais que
permitem a mobilização de conhecimentos lingüísticos dos mais diversos
tipos armazenados na memória dos interlocutores.” (KOCH, 2005, p. 107).
Anáfora
associativa
(nominal)
Essa categoria tem a função de introduzir um referente novo no texto por
meio da exploração de uma relação, cujo um dos elementos pode ser
considerado, de alguma forma, “ingrediente” do outro. Ex: A fazenda
estava abandonada. Dava pena ver o pasto e as lavouras dominadas
pelo mato [...] (KOCH & ELIAS, 2006, p. 128 -129).
..
Quadro 7 – Categorias anafóricas arroladas na pesquisa
Ressaltamos que a posição por nós assumida, no que se refere à
coesão nominal ou processo de referenciação, concebe a linguagem como atividade
de interação. Sendo assim, o texto deve ser visto como um objeto em que
concorrem ações de natureza o lingüística e cognitiv a, mas também social.
101
Também “não se admite que os referentes sejam sistematicamente objetos do
mundo, tendo em vista que se caracterizam como objetos do discurso”
(MARCUSCHI, 1999, p. 2), assim, o processo de referenciação é visto não sob a
ótica do mundo ordinário da atividade humana, mas, sim, do mundo virtual ou
mundo do discurso (BRONCKART, 2003) criado pela atividade de linguagem. Nas
palavras de Koch & Marcuschi (1998, p. 4):
Referir não é mais atividade de “etiquetar” um mundo existente e
indicialmente designado, mas sim uma atividade discursiva de tal
modo que os referentes passam a ser objetos -de-discurso, e não
realidades independentes. Não quer isso dizer que tudo se
transforma numa panacéia subjetivista, mas que a discretização do
mundo pela linguagem é um fenômeno discursivo. Em outros termos,
pode-se dizer que a realidade empírica, mais do que uma
experiência estritamente sensorial especularmente refletida pela
linguagem, é uma construção da relação do indivíduo com a
realidade.
Considerando tal pressuposto, a análise que aqui nos dispomos a
realizar concebe a referenciação anafórica como um processo de introdução e
manutenção de referentes, cuja função vai além da simples retomada textual. Assim,
tomamos a referenciação anafórica como multifuncional (cf. KOCH, 2005), pois
além da função de retomada textual contribui também para a elaboração de
sentidos no texto, para indicar pontos de vista, assinalar orientações argumentativas,
recategorizar objetos presentes na memória discursiva, apon tar posições
ideológicas, acentuar um tom valorativo, etc.
5.1.2 A Coesão Nominal na Crítica de Cinema
Nossa metodologia de análise, para o tópico em questão, é
composta por duas fases. Primeiramente, analisamos um texto do nosso corpus
crítica 5-CN na sua totalidade, a fim de conseguirmos entender como se o
funcionamento da coesão nominal na discursividade textual. Em seguida,
apresentamos resultados quantitativos das ocorrências das diversas categorias
anafóricas na totalidade do corpus para, depois, então, analisar qualitativamente os
102
dados obtidos. Passemos, assim, para a análise da crítica 5 -CN referente ao filme
“X-Men O confronto final” (Figura 7):
Grandiloqüência MUTANTE
Os mutantes não são mais aqueles. Para ESTE TERCEIRO CAPÍTU LO DE ''X-MEN - O
CONFRONTO FINAL'', que estréia hoje no Brasil se aproveitando do esvaziamento de
''Missão Impossível 3'', mas não ainda no vácuo de ''Codigo Da Vinci'', o que temos é
somente material na medida para uma aventura de apoteose sonora. [DESTA VEZ os
super-poderosos se defrontam com uma escolha que qualificam como histórica: manter
suas características excepcionais e ser rejeitados pela humanidade de comuns mortais, ou
abandonar seus poderes no guarda-roupa da ficção científica para se tornarem inteiramente
humanos.]
Dito isto, A HISTÓRIA vai transformar em universal uma questão que era apenas essencial:
[ser ou não ser... um homem. Os humanos anunciam a cura. Mas os mutantes querem ser
humanos?] Este dilema existencial atormenta os X-Men durante uma hora e quarenta e
cinco minutos. Mas como discurso filosófico e questões morais não são o forte deles, e
como o diretor dos filmes anteriores, Bryan Singer, somente muito de longe assombra ESTA
SOFISTICADA BRINCADE IRA BARULHENTA, o que resta é somente a ação. É aqui que
O FILME troca figurinhas de verdade com a história em quadrinhos original . Sem efeitos
especiais, seria o nada para estes mutantes, e para a platéia. Mas eles estão presentes,
claro, e com que abundância!
De carros em chamas atira dos sobre a ilha de Alcatraz à ponte de São Francisco retorcida
como arame para servir de passarela, passando por um angelical jovem alado e chegando
até corpos despidos e explodidos por efeitos de computador, não quase como piscar na
sala escura. Os prodígios tecnológicos e pirotécnicos, neste caso, são o único trunfo que
pode engrossar as bilheterias D A PRODUÇÃO, mas é pouco provável que o resultado de
box office chegue perto dos meros das faturas 1 e 2, US$ 157 e US$ 215 milhões de
dólares respectivamente, só nos EUA.
Os intérpretes estão todos de volta a seus postos. O inoxidável Wolverine por conta de
Hugh Jackman, uma Halle Berry mais contida, os mestres Patrick Stewart e Ian McKellen, a
ressuscitada Jean (Famke Jenssen). uma invasão de atores secundários, e quase não
se fornece a eles um background. Quase não o que dizer do diretor Brett Ratner. Entra
mudo, sai calado.
Fonte: Folha de Londrina, Folha 2, 26 de maio 2006
Figura 7 Texto-exemplo de análise da coesão nominal (5 -CN)
Em nosso texto-exemplo estão, propositalmente, destacados alguns
elementos que fazem parte da análise do funcionamento dos mecanismos da
coesão nominal. No decorrer das explicações, tais marcas (negrito, itálico, caixa alta,
etc.) serão explicitadas. Primeiramen te, antecipamos que as duas cadeias
anafóricas mais expressivas encontradas no texto estão destacadas: a) em negrito
103
(série iniciada pela unidade -fonte: Os mutantes); b) caixa alta (série iniciada pela
unidade-fonte: ESTE TERCEIRO CAPÍTU LO DE “X-MEN O CONFRONTO
FINAL”).
Comecemos abordando a série iniciada por Os mutantes. Podemos
esquematizá-la, de acordo com as categorias por nós arroladas, a partir do
apresentado na Figura 15:
Unidade-fonte: Os mutantes
Os super-poderosos
Anáfora infiel (SN definido adjetivação)
Suas (características)
Anáfora pronominal
Seus (poderes)
Anáfora pronominal
Se (tornarem)
Anáfora pronominal
Os mutantes
Anáfora fiel (SN definido – repetição)
Os X-Men
Anáfora infiel (SN definido nome próprio)
Deles
Anáfora pronominal
Estes mutantes
Anáfora fiel (SN demonstrativo – mudança do determinante)
Quadro 8 – Cadeia anafórica Os mutantes
No Quadro 8 vemos que a cadeia anafórica é iniciada com a
introdução da unidade -fonte Os mutantes
57
termo mais genérico (oposto de “os
humanos”). Ao introduzir o termo Os mutantes, o agente-produtor, provavelmente,
tem a intenção de que seu interlocutor ative um conhecimento de mundo, que se
supõe, este já possua, ou seja, de que os mutantes são as figuras principais da série
“X-Men”. Assim, a representação que o agente mobiliza do seu destinatário deve ser
de um leitor que se interessa por esse tipo de filme e que, provavelmente, conhece a
temática abordada pela série fílmica em questão.
Se observarmos nosso exemplo, o texto crít ico é iniciado por meio
de uma orientação argumentativa de comparação Os mutantes não são mais
aqueles. Para este terceiro capítulo...
58
–, isto é, os mutantes do último filme não são
os mesmos dos dois filmes anteriores. Essa comparação valorativa se p elo uso
de um clichê com tom pejorativo o leitor já é capaz de inferir qual vai ser a linha
argumentativa da crítica, ou seja, a desqualificação do último filme da série.
Seguindo esse mesmo raciocínio comparativo, o agente -produtor recategoriza
57
Os elementos das cadeias anafóricas são grafados da mesma forma que f oram destacados no
texto-exemplo.
58
Ressaltamos que os exemplos retirados do corpuso destacados sempre em itálico.
104
(adjetiva procedimento próprio da anáfora infiel) a unidade-fonte Os mutantes
em os super-poderosos expressão nominal definida, que para ser compreendida
dentro do mesmo campo semântico de seu antecedente, a memória discursiva (cf.
BRONCKART, 2003, p. 269) do leitor tem que ser ativada.
Em seguida, temos a mobilização de anáforas pronominais (suas,
seus) para explicar a problemática vivida pelos mutantes no filme em questão ser
ou não ser humanos? (temática pela qual é movida a narrativa fílmica). A próxim a
retomada da cadeia é feita por uma anáfora fiel, ou seja, resgata-se o mesmo termo
utilizado como unidade -fonte para destacar a pergunta: mas os mutantes querem ser
humanos?; cujo propósito é desencadear um raciocínio argumentativo. a
retomada seguinte (anáfora infiel) é a mais específica de todas Os X-Men: nome
pelo qual um grupo de super -poderosos mutantes, personagens principais da série,
é conhecido (expressão que, inclusive, dá título ao filme).
O interessante, nessa passagem, é que o agente -produtor utiliza-se
do termo mais significante da cadeia anafórica justamente no momento em que quer
enfatizar um ponto importante para sua argumentação: o fato da dúvida entre ser ou
não ser humano atormentar os X-Men uma hora e quarenta e cinco minutos , ou seja,
durante o filme todo. Por último, reformula -se a unidade-fonte mantendo-se o núcleo
nominal e alterando o seu determinante ( anáfora fiel) de artigo definido para
pronome demonstrativo que, nesse caso, serve para diferenciar os mutantes dos
filmes anteriores e estes” mutantes do filme-alvo da crítica. Mas, além da distinção,
essa reformulação de determinantes gera um efeito de sentido de desprezo, está
carregada de valoração negativa, como podemos perceber na fala do crítico: Sem
efeitos especiais, seria o nada para estes mutantes .
Vejamos, agora, a cadeia anafórica marcada no texto -exemplo com
caixa alta, cujo antecedente é ESTE TERCEIRO CAPÍTU LO DE “X-MEN O
CONFRONTO FINAL” :
105
Unidade-fonte: ESTE TERCEIRO CAPÍTU LO DE “X-MEN – O CONFRONTO FINAL”
DESTA VEZ
Anáfora indireta (SN demonstrativo)
A HISTÓRIA
Anáfora infiel (SN definido)
ESTA SOFISTICADA BRI NCADEIRA
BARULHENTA
Anáfora infiel (SN demonstrativo)
O FILME
Anáfora infiel (SN definido)
A PRODUÇÃO
Anáfora infiel (SN definido)
Quadro 9 – Cadeia anafórica ESTE TERCEIRO CAPÍTU LO DE “X-MEN – O
CONFRONTO FINAL”
No Quadro 9 temos a cadeia anafórica introduzida por ESTE
TERCEIRO CAPÍTULO DE “X-MEN O CONFRONTO FINAL unidade-fonte que
introduz o argumento fílmico (t erceiro filme da série “X -Men”) por meio de uma
expressão bem específica, justamente para marcar a distinção entre os demais
filmes da série.
Conforme apresentado no Quadro 9, a primeira retomada (DESTA
VEZ) é feita por uma anáfora indireta. Entretanto, conseguimos perceber que
DESTA VEZ se refere à expressão este terceiro capítulo de ‘X -Men’” pelo processo
de comparação estabelecido no início do texto: Os mutantes não são mais
aqueles. Para este terceiro capítulo.. .. Ou seja, os mutantes do filme de agora (3ª
capítulo) não o mais os mesmos dos mutantes dos filmes anteriores, assim, desta
vez [no capítulo] os super-poderosos.... Notamos que o agente -produtor usa o
determinante “desta” ao invés de “dessa”, marcando a proximidade com o momento
presente, ou seja, com o filme -alvo da crítica. Sendo assim, podemos dizer que a
informação-âncora, ou seja, aquela que nos permite inferir a retomada, é expressa
por toda a textualidade que antecede a expressão DESTA VEZ.
Já, as demais retomadas são marc adas por anáforas infiéis, isto é,
por reformulações lexicais da unidade -fonte ESTE TERCEIRO CAPÍTU LO DE “X-
MEN O CONFRONTO FINAL , a saber: A HISTÓRIA; ESTA SOF ISTICADA
BRINCADEIRA BARULHEN TA; O FILME; A PRODU ÇÃO. Interessante notar que o
autor não repete nenhuma vez o título do filme (“X -Men” parte da unidade-fonte),
talvez para não gerar confusão com os X -Men personagens. Também, pelo fato de o
início da cadeia anafórica ter se dado por uma expressão bem específica, as
retomadas são feitas sempre det erminadas por um artigo definido ou por um
demonstrativo, nunca por um termo indefinido. Não podemos deixar de ressaltar que
106
a retomada ESTA SOFISTICADA BRI NCADEIRA BARULHENTA , elaborada por um
processo metafórico, está carregada de entonação valorativa pela qual reverbera a
bivocalidade, a palavra alheia (cf. BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986).
De acordo com Koch (2005), a escolha da metáfora para a
recategorização do referente é importante para realizar uma avaliação que permita
estabelecer a orientação argument ativa do texto. No nosso caso, um simples olhar
para a expressão metafórica utilizada pelo autor é capaz de nos mostrar o seu
ponto de vista em relação ao filme: “sofisticada” remete aos julgamentos expressos
por outrem sobre as superproduções hollywoodianas; “brincadeira” instaura uma
polêmica, um confronto com o ponto de vista de que a qualidade do filme é inferior
(ao contrário do que muitos pensam) e, “barulhenta” faz referência aos efeitos
especiais, sem os quais, segundo o crítico, seria o nada para estes mutantes.
Voltando ao nosso texto -exemplo, vemos que as expressões
destacadas com marca -texto dos filmes anteriores, a história em quadrinhos
original e das faturas 1 e 2 o anáforas indiretas, pois necessitam de âncoras
para serem compreendidas, que não existe no co -texto um antecedente explícito
com o qual se proceda a retomada textual. Por exemplo, é por meio, principalmente,
das expressões “este terceiro capítulo de 'X -Men - O Confronto Final’” e “o filme” que
podemos inferir que a história em quadrinhos original é a dos “X-Men”, publicado
em revista no formato de história em quadrinhos (HQ), ou seja, o filme é uma
adaptação cinematográfica do gênero HQ, porém, não há nenhuma explicitação
desse fato na textualidade da crítica.
No caso da anáfora indireta dos filmes anteriores, temos como
âncora a expressão este terceiro capítulo de ‘X -Men O Confronto Final’, ou seja,
essa informação textual nos permite inferir que os filmes anteriores são os dois “X -
Menlançados anteriormente, e conseqüentemente, perceber que as faturas 1 e 2
se referem às arrecadações dos dois primeiros filmes da série.
Destacamos, no segundo parágrafo do nosso texto -exemplo, as
proposições -isto- e -este dilema existencial-, as quais funcionam como
sumarizadores de informações anteriores. A primeira, por ser um pronome, foi
categorizada como anáfora pronominal com função de sumarização e, a
segunda, como anáfora por nominalização . Se observarmos no nosso texto -
exemplo, veremos que as informações-fonte, forma pela qual nos referimos a esse
tipo de antecedente referencial, estão marcadas em itálico e entre colchetes. No
107
primeiro caso, pelo fato de as informações terem sido condensadas por um pronome
demonstrativo, a retomada produz um efeito de sentido mais objetivo. Já, no
segundo, pelo fato de o processo se concretizar por meio de uma nominalização, a
retomada possibilita a explicitação de uma valoração apreciativa
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986). Segundo Cavalcante (2001), nas sumarizaçõ es
realizadas por pronomes, o agente -produtor não tem o trabalho de escolher um
nome que mais propriamente designe sua intenção comunicativa, como tem ao
realizar uma nominalização por sintagma nominal.
Para concluir a análise do nosso texto -exemplo, cabe verificar o uso
do advérbio de lugar aqui (sublinhado no segundo parágrafo) com função
pronominal de retomada e não no seu uso convencional de ancoragem espacial. No
nosso exemplo, aqui retoma o antecedente ação: É aqui que o filme troca figurinhas
de verdade com a história em quadrinhos original; ou seja, é na ação da narrativa
fílmica que ele se assemelha com a história em quadrinhos original. Nota -se, nesse
caso, que o uso do advérbio com valor pronominal de retomada torna o texto
mais informal, mais interativo, o que é explicado pelo fato de a crítica dirigir -se a um
público, supostamente, mais jovem e mais dinâmico (espectadores de filmes de
ação), ou seja, são as representações da situação comunicativa interferindo no
funcionamento da textualidade.
Após termos demonstrado, mesmo que parcialmente, a aplicação
das discussões teóricas sobre os mecanismos da coesão nominal em um exemplar
de nosso corpus de pesquisa, apresentamos, agora, um panorama mais geral,
primeiramente, explicitando dados quantitati vos (Tabela 1) da análise e, depois,
explorando-os qualitativamente.
108
Tabela 1 – Levantamento quantitativo das categorias anafóricas
CATEGORIAS
1-
CA
2-
CA
3-
CA
4-
CA
5-
CA
T=
1-
CN
2-
CN
3-
CN
4-
CN
5-
CN
T=
Anáfora pronominal
14
09
13
13
15
64
12
12
07
08
08
47
Anáfora pronominal
(sumarização)
01
01
00
01
00
03
00
00
01
00
01
02
Anáfora por advérbio
pronominal
01
00
00
00
00
01
01
01
03
02
01
08
Anáfora fiel
05
06
06
05
03
25
04
05
07
05
02
23
Anáfora infiel
07
08
01
06
11
33
20
08
04
20
07
59
Anáfora por
nominalização
00
00
02
01
00
03
01
02
01
00
01
05
Anáfora indireta
00
04
01
01
01
07
02
00
00
01
04
07
Anáfora associativa
01
01
00
00
00
02
00
00
00
03
00
03
TOTAL
29
29
23
27
30
138
40
28
23
39
24
154
Analisando, primeiramente, a oco rrência das anáforas
pronominais, verificamos que elas são mais freqüentes nas passagens de discurso
narrativo, nas quais o enredo do filme é parcialmente narrado. Nesses casos, os
pronomes privilegiados o o possessivo e o pessoal, com algumas ocorrênci as de
pronomes indefinidos e relativos. Vejamos o exemplo (1) retirado do texto 5 -CA do
nosso corpus, em que a unidade-fonte “Jaime”, um dos personagens principais do
filme criticado, é retomada cinco vezes, quatro por anáforas pronominais:
(1) [...] afetam também a vida do executivo Jaime (Eduardo Blanco). Uma pessoa correta,
mas desorientada quando perde o trabalho. Ele percebe também que o casamento esfriou e
que os filhos vivem um mundo bem diferente do seu. Em busca de solução para sua crise
profissional e pessoal, e como medida extrema, ele se obrigado a vender o apartamento
[...] (5-CA).
Também verificamos uma ocorrência significativa de anáforas
pronominais nas críticas em que a figura do diretor é um dos focos de análise. O
exemplo (2), retirado da crítica referente ao filme “Superman – O Retorno”, corrobora
com o exposto:
109
(2) Considerando que o diretor Brian Singer esteve por inteiro na gênese deste
renascimento, que (ele) assina também o argumento, é estranho que exista em cena tão
pouca coisa do material que se considera sua marca pessoal na indústria. De seus X-Men
sempre se elogiou a habilidade com que ele embaralhou os limites entre Bem e Mal, e sua
capacidade de identificação com alguns personagens [...]. (1 -CN)
Quanto às anáforas pronominais por sumarização , ou seja, o uso
de pronomes demonstrativos com função de condensação de informações,
constatamos que o agente -produtor as mobiliza em fases da seqüência
argumentativa, com o objetivo de sintetizar informações ativadas no decorrer de uma
argumentação. No exemplo (3) podemos observar a função de tal procedimento:
(3) Claro que o aspecto humano resulta indissociável do político, e esta é uma
especialidade do israelense Amos Gitai, diretor pouco conhecido no Brasil que pratica um
cinema de rigor formal e sempre aberto às inquietações contemporâneas. (1 -CA).
Fazem falta, na América latina, filmes com esta alma, esta garra. A mesma que estará em
campo hoje, nenhuma dúvida. E isto, bairrismos à parte, é preciso respeitar, na vida real o u
na ficção. (2-CA).
Já, quanto às anáforas compostas por advérbios pronominais
(ou seja, com valor de pronomes), verificamos uma incidência bem maior nas críticas
referentes a filmes do circuito nacional (CN cultura de massa). Como já dissemos
anteriormente, o uso desse mecanismo de coesão confere ao texto mais
informalidade, maior leveza discursiva, o que nos leva a levantar hipóteses de que o
agente-produtor, ao mobilizar operações de contextualização para empreender sua
ação de linguagem, faz repres entações de seu destinatário como sendo um leitor
com um gosto cultural mais popular, que se interessa por filmes da cultura de
massa, conseqüentemente, privilegia uma leitura mais informal, menos densa, mais
interativa. Assim sendo, um dos seus objetiv os deve ser tornar o seu texto mais
próximo desse tipo de leitor
59
.
Outro fato a se destacar é que dos nove advérbios pronominais
encontrados, sete referem -se ao uso do “aqui”. O que nos parece ser uma marca do
estilo do autor (cf. BAKHTIN, 1992). E, na ma ioria das vezes, esse “aqui” é utilizado
como retomada anafórica do filme -alvo da crítica (aqui = neste filme), como mostra o
exemplo 4:
59
Mesmo que inconscientemente, uma vez que, em entrevista realizada para a pesquisa, o crítico
declara não direcionar o seu texto, de form a consciente, especificadamente para um determinado
público.
110
(4) [...] resta ao espectador testemunhar a crescente vitimização do personagem de Aniston
e a “demonização” do parcei ro, talvez a mais gritante distorção de um roteiro que trafega à
deriva. Faltou aqui investir na identidade dos personagens [...]. (2 -CN)
Mas o tema da família, tão caro ao diretor em “Toy Story” e “Nemo” cede lugar aqui aos
laços de amizade, cultivados no cenário simples do campo. (3 -CN)
No que se refere às anáforas fiéis, percebemos que esse tipo de
mecanismo textual, quando repete parcialmente a expressão nominal que introduz a
cadeia anafórica, geralmente é utilizado nas retomadas dos nomes do diret or e/ou
personagens do filme, juntamente com as anáforas pronominais. No exemplar 3 -CN
do nosso corpus (cf. ANEXO H), crítica referente ao filme “Carros”, temos uma
cadeia anafórica envolvendo o personagem “Relâmpago McQueen”, unidade -fonte
introduzida em uma passagem da narração parcial do enredo do filme e retomada
pela seguinte série: ele, McQueen, ele (elípico), ele, Relâmpago, ele, McQueen .
Vemos, nesse exemplo, que foram mobilizadas três anáforas fiéis (repetição parcial
de algum termo da expressão qu e introduz a cadeia anafórica) e quatro anáforas
pronominais.
Também encontramos casos de anáforas fiéis por repetição total
da unidade-fonte, porém, nesses casos, quase sempre, a cadeia anafórica é
extensa e as retomadas são espaçadas. Ou seja, uma preocupação com a
estética textual; é a força de uma formação social agindo sobre a operação de
textualização, formação esta que privilegia o texto bem elaborado, com poucas
repetições lexicais. Assim, o ethos (MAINGUENEAU, 2005) aflorado é de um escritor
que detém “técnicas” da boa redação, do discurso bem elaborado.
O mesmo acontece com as anáforas infiéis, elas são utilizadas
para fugir das repetições lexicais e delinear um texto mais rebuscado. No caso das
cadeias anafóricas construídas com base na int rodução do nome do filme criticado,
vemos que tal categoria é bem recorrente. Por exemplo, na crítica 2 -CA, o
argumento “Clube da Lua” (título do filme) é bem explorado, gerando várias
retomadas por anáforas infiéis:
(5) Como não lançar uma refilmagem de “A Profecia” no dia 6 de junho de 2006? [...] No
filme da década de 1970 , o filho de Satanás [...] além dos trinta anos da estréia d o original
[...] “A profecia” de 1976 não é e nunca será um clássico [...] O filme de Richard Donner
[...] David Seltzer apenas retocou muito levemente sua história original [...] Agora, tem
sentido repetir um filme, em processo de quase clonagem [...] O roteiro reproduz de
maneira quase idêntica a trama original [...]. (4-CN)
111
Quanto às anáforas por nominalização , observamos que as
mesmas aparecem com mais freqüência nas críticas referentes ao circuito nacional
e, quase sempre, carregadas de valoração apreciativa negativa, diferentemente das
referentes ao circuito alternativo que, quando mobilizam esse tipo de categoria
anafórica, ou estas trazem uma entonação positiva ou, de certa forma, neutra. Esse
fato parece indicar uma postura crítica diferenciada para os dois contextos: com os
filmes do circuito alternativo o crítico parece ser mais condescendente, procurar
ressaltar os pontos positivos, com os filmes do circuito nacional, ele se mostra
mais exigente, avaliando -os de maneira mais dura, destacando seus pontos
negativos. Podemos perceber tal diferença por meio dos dois exemplos
60
a seguir:
(6) Em conversa com o crítico francês Michel Rebichon da revista Studio, à saída da sessão
para a imprensa de “A Dama de Honra”, no Festival de Veneza de 2004, ouvi dele que o
diretor Claude Chabrol faz sempre o mesmo filme . Perguntei se a observação era uma
crítica [...]. (3-CA)
(7) O casal percebe que o clima de romance já é história. Ele é egoísta e acha que ela o
aborrece. Decidem romper . Até aqui tudo bem, mas a partir deste ponto o filme é fatalmente
contraditório. As coisas começam a ficar contraditórias. [...]. Com certeza fal ta o tom
adequado para se narrar este imbróglio: ausentes o impiedoso cinismo [...]. (2 -CN)
No exemplo (6), referente à crítica do filme “Dama de Honra”
circuito alternativo – o processo de nominalização concretizado pelo sintagma
nominal “a observação” não explicita claramente um posicionamento valorativo
(positivo/negativo) acerca da informação mobilizada. Dessa forma, podemos dizer
que a retomada se faz, aparentemente, de forma “neutra”, ela não interfere
valorativamente na interpretação do conte údo temático, embora o crítico tenha sido
muito cuidadoso na hora dessa escolha lexical, pois “observação” é muito mais
“elegante” e compromissado do que seu sinônimo “comentário”. Isso não
acontece com a nominalização expressa por “este imbróglio”, mo bilizada na crítica
do filme “Separados pelo Casamento”, representante do circuito nacional. Nesse
caso, é evidente o semantismo negativo deflagrado pelo processo anafórico, uma
vez que “imbróglio” tem sentido de trapalhada, confusão, e, determinado pelo
pronome “este”, ganha ainda mais um tom pejorativo.
60
As expressões marcadas com negrito representam as anáforas por nominalização e, as partes
grifadas em itálico, a informação -fonte que elas retomam.
112
Segundo Figueiredo (2003, p. 241 -242), retomar enunciados,
nominalizando-os é uma tarefa cognitivamente complexa, pois a retomada textual
deve não recategorizar elementos do co -texto, mas também estab elecer traços
de uma avaliação ou de uma orientação argumentativa. Indo além da questão
cognitiva, não podemos esquecer, apoiados em Bakhtin (1986), que não palavra
“neutra” todo signo é signo ideológico. Miotello (2005), ao discutir a “ideologia” a
partir dos pressupostos bakhtinianos, nos coloca que todo signo, além da sua dupla
materialidade (no sentido sico -material e cio-histórico), “ainda recebe um ‘ponto
de vista’, pois representa a realidade a partir de um lugar valorativo, revelando -a
como verdadeira ou falsa, boa ou má, positiva ou negativa, o que faz o signo
coincidir com o domínio do ideológico” (p. 170). Nessa perspectiva, podemos
entender esse processo de retomada por nominalização como um reflexo de um
posicionamento ideológico do ag ente-produtor das críticas; processo este deflagrado
por meio da semiotização de signos verbais carregados de valoração positiva, no
caso dos filmes referentes ao circuito alternativo e, negativa, no caso dos filmes
hollywoodianos.
A ocorrência de anáforas indiretas e associativas está
condicionada a processos mais complexos de co -referência. No caso das anáforas
indiretas, “trata-se de uma configuração discursiva em que se tem um anafórico sem
antecedente literal explícito [...] que pode ser reconstruído, por inferência, a partir do
co-texto precedente” (KOCH, 2005, p. 107). Na análise do nosso corpus, verificamos
que tal categorização anafórica está presente em segmentos expositivos referentes
a fases de seqüências argumentativas, nos quais há uma nítida articulação de
argumentos discursivos. O fragmento (8), retirado da crítica do filme “clube da Lua”,
nos mostra um exemplo do funcionamento desse tipo de retomada textual:
(8) Se a seleção Argentina jogar hoje com a mesma obstinação dos personagens centra is
de ''Clube da Lua'', não haverá força em campo ou torcida alemã capaz de mudar o
destinatário da vitória. O filme, que está a partir de hoje no circuito local (confira a
programação de cinema na página 2), no entanto não é sobre a paixão futebolística dos
vizinhos, de resto tão fanáticos pel o esporte como nós.
Esse exemplo nos mostra dois processos de referenciação por
anáforas indiretas. O primeiro diz respeito ao SN definido os vizinhos”. Segundo
Neves (2006, p. 123), “o falante codifica um sintagma nominal referencial como
definido se supõe que o ouvinte é capaz de atribuir -lhe referência única”. Dessa
113
forma, ao determinar vizinhos” com o artigo definido os”, o enunciador pressupõe
que o destinatário seja capaz de fazer a sua retomada discursiva. Entretanto, esse
processo é ativado por meio de inferências a partir de uma informação -âncora
deixada no co-texto “seleção argentina” que nos possibilita referenciar “os
vizinhos” como sendo os “argentinos”. Nesse caso, também, a competência
enciclopédica do leitor é ativada, ou seja, para que o processo cognitivo de
inferência tenha êxito, é necessário um conhecimento geográfico de mundo o fato
de a Argentina fazer fronteira com o Brasil. Segundo Maingueneau (2005, p. 42), a
competência enciclopéd ica “se enriquece ao longo da atividade verbal, uma vez que
tudo o que se aprende em seu curso fica armazenado no estoque de
conhecimentos e se torna um ponto de apoio para a produção e a compreensão de
enunciados posteriores”. Da mesma forma, ao determin ar o SN “o esporte”, o
enunciador acredita que seu leitor possa fazer a retomada anafórica e estabelecer a
referência discursiva com “o futebol”. Nesse caso, a anáfora indireta pode ser
recuperada no co-texto pelas informações -âncoras: “seleção argentina”, “campo”,
“torcida” e “paixão futebolística”.
5.2 A COESÃO VERBAL
Na abordagem do ISD, a coesão verbal é um fenômeno da
coerência temática que contribui para a explicitação das “relações de continuidade,
descontinuidade e/ou de oposição existentes e ntre os elementos de significação
expressos pelos sintagmas verbais” (BRONCKART, 2003, p. 273). Ela inclui, de um
lado, a abordagem da temporalidade, e de outro, o da aspectualidade.
Bronckart (2003) não contesta a tripartição verbal -padrão em tempo,
aspecto e modalidade. Entretanto, considera que a coesão verbal, por ser
determinante para a coerência temática do texto, implica apenas a mobilização da
temporalidade e da aspectualidade. a marcação das modalizações, sendo
responsável pela coerência intera tiva, é abordada nos mecanismos enunciativos,
junto com o gerenciamento das vozes.
O que o ISD pretende com a sua proposta de análise não é esgotar
essas duas categorias verbais temporalidade e aspectualidade e, sim,
114
possibilitar que os mecanismos que as compõem possam ser analisados à luz de
uma metodologia que sirva de base para a compreensão dos discursos humanos,
uma vez que a coesão verbal é uma “peça” importantíssima na montagem do
“quebra-cabeça” textual. Segundo Pinto (2004, p. 27):
Considerando-se que as atividades discursivas constituem a
expressão, através da linguagem, das ações humanas, evidencia -se
a relevância da categoria dos tempos verbais e de seu estatuto
discursivo no conjunto dessas atividades. Pela simples razão de que,
no processo de semiotização das ações humanas, o verbo é a
categoria mais especificamente ligada ao papel de expressão dessas
ações, seja pelo seu conteúdo significativo, seja pelas suas funções
de referência temporal e aspectual.
5.2.1 A Temporalidade Expressa p elos Verbos
A relação tempo e verbo se encontra, nas gramáticas tradicionais,
compartimentada de forma estanque, nos conhecidos paradigmas verbais:
presente, passado e futuro, com suas clássicas subdivisões: pretérito perfeito,
imperfeito, mais-que-perfeito, futuro do presente, do pretérito, etc. Essas divisões,
“incontestáveis no seu princípio, estão, no entanto, longe das realidades de emprego
e não são suficientes para seu agrupamento” (BENVENISTE, 1992, p. 29).
Entretanto, o “desvendamento” da no ção de tempo e seu
funcionamento na linguagem humana envolvem questões muito mais complexas.
Assim, estaremos muito afastados de uma compreensão temporal adequada se
somente nos detivermos nos paradigmas que as gramáticas tradicionais nos trazem,
sem pensarmos em uma metodologia mais abrangente e mais flexível que possa dar
conta das noções semânticas da temporalidade verbal, pelo menos, as mais
importantes.
Bronckart (2003) critica a abordagem padrão da temporalidade, por
esta ser, ao mesmo tempo, binária e fisicalista: as relações temporais são
estabelecidas somente entre dois termos momento da produção e momento do
processo estabelecido pelo verbo –, definidos como momentos objetiváveis. Foi
Reichenbach (1947/1966) o primeiro lógico a formalizar uma in terpretação temporal
das nguas naturais, estabelecendo três pontos teóricos na linha do tempo: ao
115
momento da produção e ao momento do processo , o autor acrescenta o momento
psicológico de referência (cf. CORÔA, 2005, p. 20; BRONCKART, 2003, p. 276).
Cria-se, assim, uma concepção triocotômica da temporalidade. E é a
partir dessa nova concepção que Bronckart (2003) elabora o seu quadro teórico -
metodológico para a análise dos mecanismos da coesão verbal. As três categorias
dos parâmetros temporais de Reiche nbach (1947/1966) são reformuladas,
eliminando o termo “momento” que, segundo Bronckart (2003), é incompatível
dentro da abordagem da temporalidade
61
, incluindo a noção de tipos de discurso e
integrando algumas dimensões gerais das funções aspectuais. Constitui-se, dessa
forma, uma tricotomia que pode ser descrita assim:
a) os processos
62
efetivamente verbalizados, com suas diversas
propriedades aspectuais e sua propriedade eventual de situabilidade
temporal objetiva;
b) os eixos de referência, quer se trate do eixo global associado a um
tipo de discurso quer se trate de eixos mais locais;
c) a duração psicológica associada ao ato de produção.
Com base nos parâmetros abordados, o autor elabora quatro
funções para a coesão verbal: temporalidade primária , temporalidade
secundária, contraste global e contraste local; as quais possibilitam uma análise
do funcionamento da temporalidade verbal que podem ser sintetizados no quadro a
seguir:
61
A esse respeito, conferir a explicação de talhada de Bronckart (2003, p. 281 -282).
62
Processo designa o significado correspondente ao significante que constitui o lexema verbal”
(BRONCKART, 2003, p. 278).
116
Temporalidade
primária
Essa função estabelece um modo determinado de localização do
processo em relação a um dos parâmetros de controle (eixos de
referência ou duração associada ao ato de produção):
Localizações de anterioridade (L. ant.), posterioridade (L.
post.) e simultaneidade (L. sim.): o parâmetro é a duração
associada ao ato de produção;
Localizações neutras (L. neutras), isocrônicas (L. iso.),
retroativas (L. retro.) e projetivas (L. proj.) : o parâmetro é o eixo
de referência global de um tipo de discurso;
Localização de inclusão (L. incl.): quando se trata de um e ixo de
referência local.
Temporalidade
secundária
Consiste em situar um processo em relação a outro processo (que por sua
vez é objeto de uma localização na temporalidade primária):
Função de anterioridade relativa (L. ant. r.) , simultaneidade
relativa (L. sim. r.) e posterioridade relativa (L. sim. r.).
Contraste
global
Séries isotópicas de processos são distinguidas: uma fica em primeiro
plano e as outras em segundo plano.
Contraste
local
Consiste em apresentar um processo como um quadro sobre o qual se
destaca, localmente, um outro processo.
Quadro 10 – As quatro funções da coesão verbal
As funções de temporalidade (primária e secundária) consistem em
relacionar um dos parâmetros de controle ao processo em curso ou situar esse
processo em relão a um determinado parâmetro. Já, as funções de contraste
(global ou local) consistem não em relacionar, mas em opor os processos entre si
(BRONCKART, 2003).
No modelo postulado pelo ISD para o exame da temporalidade
verbal, as modalidades concretas de realização desses mecanismos dependem,
fundamentalmente, dos tipos de discurso que atravessam. Essa particularidade no
funcionamento da temporalidade implica, segundo Bronckart (2003, p. 313), “modos
de localização próprios de cada tipo de discurso, que po r sua vez, são traduzidos
por tempos verbais que, embora não sejam morfologicamente específicos (um
tempo verbal e apenas um para um mesmo modo de localização), são, entretanto
portadores de valores específicos”.
117
5.2.2 A Aspectualidade
A partir de várias leituras sobre a aspectualidade verbal, observamos
que uma variação muito grande a respeito da conceituação de aspecto e das
categorias arroladas para seu estudo. Na tese de doutoramento de Travaglia (1981),
o autor faz um levantamento dos vári os estudiosos que direta ou indiretamente
trataram sobre o referido assunto no funcionamento do português, e conclui essa
investigação com a seguinte definição:
Aspecto é uma categoria verbal de TEMPO, não dêitica, através da
qual se marca a duração da s ituação e/ou suas fases, sendo que
estas podem ser consideradas sob diferentes pontos de vista, a
saber: o do desenvolvimento, o do completamento e o da realização
da situação. (TRAVAGLIA, 1981, p. 33).
Corôa (2005) diferencia a noção de tempo e aspec to, dizendo que o
primeiro é uma propriedade ao mesmo tempo da sentença e da enunciação; o
segundo, é propriedade apenas da sentença, pois não se refere ao momento da
enunciação. Já, Bronckart (2003) estabelece que a oposição central entre a
temporalidade e a aspectualidade reside no fato de que a primeira “consiste em uma
relação estabelecida entre um processo e os parâmetros que lhe são externos” e, na
segunda, são os constituintes do sintagma verbal que marcam “uma ou várias
propriedades internas do processo” (BRONCKART, 2003, p. 278).
Nessa perspectiva, o autor conceitua aspecto como sendo a
“expressão de uma propriedade interna ou não relacional do processo, expressa
pelos constituintes do sintagma verbal” (BRONCKART, 2003, p. 278). E, para
formação de seu quadro teórico -metodológico, estabelece duas funções (dentre
várias outras existentes) que, para o ISD,o suficientes para uma abordagem geral
da aspectualidade: a expressão dos tipos de processo e a expressão dos graus de
realização do proces so:
118
Tipos de processos
Graus de realização do processo
Verbos de estado: processos
estáveis;
Verbos de atividade: processos
dinâmicos, durativos;
Verbos de acabamento : processos
dinâmicos e não durativos.
Inconcluso: processo tomado no curso do
seu desenvolvimento;
Concluso: processo tomado no fim do seu
desenvolvimento;
Realização total: processo tomado na
totalidade de seu desenvolvimento e de seu
acabamento.
Quadro 11 – Categorias aspectuais
A categoria tipos de processo restringe-se ao próprio processo e
ao verbo que o expressa, diferentemente da categoria graus de realização que se
relaciona à maneira como um determinado processo é tomado em uma fase da sua
realização, sendo sua marcação efetivada pela escolha de um tempo verbal
particular. Dessa forma, as categorias aspectuais “parecem relacionar -se com
efeitos de sentido locais, resultantes, de um lado, da escolha dos lexemas verbais,
e, de outro, das interações entre a marcação das funções de coesão verbal”
(BRONCKART, 2003, p. 309).
5.2.3 Análise do Corpus: os Mecanismos de Funcionamento da Coesão Verbal
Como foi mencionado no capítulo da infra -estrutura textual,
identificamos, nos textos que constituem o nosso corpus de pesquisa, um tipo de
discurso dominante misto teórico-interativo, que tem como uma de suas
características fundamentais a não delimitação clara entre um EXPOR que implica
os parâmetros da situação de produção e um EXPOR autônomo a estes parâmetros.
Os fragmentos (1) e (2) exemplificam melhor a coesão verbal nesse t ipo de
funcionamento discursivo. Vejamos, primeiramente, o exemplo (1)
63
:
(1) Eles da Pixar, à frente o mentor John Lasseter das 'Toy Story', sabem (L. neutra) que a
harmonia somente ocorre (L. neutra) através da narrativa e não somente pelo número de
efeitos e risos que provocam (L. neutra). A lição aparece (L. neutra) clara, límpida, neste
'Carros' que chega (L. sim.) hoje em lançamento nacional ( veja (L. sim.) a programação de
cinema na página 2) (3-CN).
63
Todos os grifos (negrito e sublinhado) dos exemplos mobilizados para o trabalho em tela fo ram
marcados por nós. As siglas que aparecem junto aos verbos são descritas no Quadro 10.
119
No exemplo (1), referente à crítica do filme “Carros , temos uma
passagem na qual o expositor
64
coloca seu ponto de vista em relação ao filme em
questão. O mundo discursivo criado é o do expor. Mas o eixo de referência
temporal ora é o do própri o processo expositivo ora é a duração associada ao ato de
produção. No primeiro caso, os elementos do conteúdo temático são apresentados
como se “sua validade fosse absoluta ou pelo menos como se sua validade fosse
independente das circunstâncias particula res do ato de produção” (BRONCKART,
2003, p. 301) características próprias do discurso teórico. Os processos expressos
por “sabem”, “ocorre”, “provocam”, “aparece são apresentados como
necessariamente inclusos em uma temporalidade ilimitada (ou atempora lidade de
referência), sendo, assim, objetos de uma localização neutra e expressos por um
presente com valor genérico ou gnômico (cf. FIORIN, 1999).
Segundo Fiorin (1999), tal forma de presente é utilizada não para
enunciar as verdades absolutas, mas, também, aquelas que se pretendem como
tais. É justamente o que vemos no fragmento (1) quando o crítico coloca que os
mentores da Pixar “sabem” obter a harmonia narrativa em um filme de animação
computadorizada, e em “Carros” essa lição aparece” límpida. Ou seja, não é que
essas sejam verdades incontestáveis, mas uma intenção discursiva que as
coloca nessa posição.
Ainda no exemplo (1), como mencionado anteriormente, temos outro
eixo de referência temporal a duração associada ao ato de produção pprio do
discurso interativo (esse tipo de discurso, por definição, implica os parâmetros da
situação, ou, pelo menos, alguns deles). Entretanto, a relação entre os processos
“chega” e “veja” e o ato de produção não apresenta o caráter fisicalista que lhe
atribuem as teorias-padrão.
O que é colocado em relação com o processo nesse fragmento do
texto não é o momento sico de produção, mas sim, “uma duração representada,
construída em torno (ou a partir) do ato de produção” (BRONCKART, 2003, p. 304).
Ou seja, não como definir objetivamente o “momento” preciso da produção. Em
nosso caso, o ponto de referência é a data da publicação da crítica que, emb ora seja
um elemento extra-textual, é o parâmetro pelo qual nos orientamos. Agora, saber
64
“o narrador e o expositor são as instâncias teóricas às quais o agente produtor atribui a
‘responsabilidade do dizer’ e sob a égide dos quais se desenvolvem, resp ectivamente, o processo
narrativo e o expositivo” (BRONCKART, 2003, p. 281).
120
exatamente o instante do ato enunciativo é absolutamente impossível e, certamente,
desnecessário. No nosso exemplo, os processos marcados pelo tempo verbal
presente “chega” e “veja” são apresentados como inclusos nos limites da
duração associada ao ato de produção (no ca so, o parâmetro é 30/06/06), marcando
uma localização de simultaneidade em relação a esse eixo.
Agora, surge uma indagação: no exemplo (1), o que distingue o
tempo verbal presente da localização neutra do presente da localização simultânea?
Em outras palavras, como sabemos que o processo expresso por um está ancorado
no eixo discursivo e o processo expresso pelo outro no eixo do ato de produção?
Segundo Bronckart (2003), não como apreender o valor que os verbos e seus
determinantes assumem em seu quad ro funcional efetivo se não levarmos em
consideração o quadro geral da organização dos textos e dos discursos que os
veicula.
Na textualidade proposta no exemplo (1) percebemos que o fato
principal que marca a implicação discursiva e, conseqüentemente, a marcação de
um eixo de referência ao ato de produção, é a mobilização dos adjuntos adverbiais
65
“hoje” e “na página 2”. Segundo Ilari (2001, p. 21):
Ao construir e interpretar os adjuntos que localizam eventos, os
falantes recorrem, em última instância, aos mesmos mecanismos
pelos quais identificam pessoas e objetos. sempre necessidade
de uma ancoragem no real, que pode ser dada pela situação de fala,
quer pela escolha de algum ponto de referência ao qual tanto o
locutor como o interlocutor têm acesso.
Benveniste (1995) distingue dois tipos de adjuntos: um ancorado na
enunciação (os dêiticos) e outro no co -texto (não-dêiticos). O “hoje” do trecho (1)
seria um exemplo de dêitico com valor de simultaneidade ao ato de produção , ou
seja, quando o crítico diz que o filme “chega hoje” aos cinemas, sabemos que esse
“hoje”, por ter um valor dêitico, se refere ao dia da publicação da crítica (nosso ponto
de referência com o ato de produção). É a mobilização de tal adjunto que nos
possibilita diferenciar o pres ente expresso em “chega” e o presente de “ocorre”, por
exemplo, e determinar um tipo de localização temporal distinta para cada um.
65
Embora o ISD somente aborde a temporalidade expressa pelos processos verbais, entendemos ser
necessária, em alguns momentos, uma interpretação temporal de outros elementos lingü ísticos, como
é o caso, dos adjuntos adverbiais .
121
No caso do “Veja... na página 2”, o processo é um pouco diferente.
Primeiramente, temos um verbo no modo imperativo, assim , “fala-se diretamente a
um interlocutor” (RYAN, 1996, p. 19), no nosso caso, para expressar uma
recomendação, uma sugestão, ou seja, caso o leitor se interesse pelo filme, ele
pode verificar a programação. Como vemos, o elemento dêitico implicado é o outro,
aquele a quem o discurso é dirigido, a saber, os leitores da Folha de Londrina .
Entretanto, não como nos dirigir a alguém sem também sermos implicados nesse
processo. Segundo Benveniste (1992), a segunda pessoa do discurso é uma forma
que presume ou suscita uma pessoa fictícia e institui, por isso, uma relação vivida
entre o eu e essa quase-pessoa (o tu). Dessa forma, ao usar o imperativo, é como
se a primeira pessoa do singular tivesse sido automaticamente mobilizada .
Na passagem em questão, dife rentemente da anterior, é o processo
que determina o eixo de referência e não o adjunto, pois o valor dêitico está
expresso pelo verbo e é esse que possibilita referenciarmos a “página 2” não como
uma numeração textual da própria crítica ou do jornal como um todo, mas, sim, do
caderno cultural no qual a crítica é veiculada “Folha 2” (veja – o quê? – a
programação onde? na página 2)
66
. Esse adjunto adverbial de lugar não é um
dêitico na sua forma convencional, ou seja, o espaço que ele indica não é o d o ato
de produção em si. Ele é um apontador extra -textual que nos remete para o suporte
do gênero.
Um fato a se ressaltar nessa estratégia discursiva é a apresentação
do conteúdo entre parênteses como forma de impedir a descontinuidade da
progressão temática na linearidade discursiva, uma vez que os parênteses
pontualizam um segmento que pode constituir um desvio temático no tópico
discursivo (JUBRAN, 1996). Ao inserir o elemento nos parênteses, o autor evita a
quebra ou fuga do tema, ao mesmo tempo cons egue trazer para o texto
explicitações sobre a situação enunciativa que servem para aproximá -lo do leitor: é
como se no interior dos parênteses o crítico pudesse se direcionar mais
abertamente, informalmente ao seu público, por isso, o uso do imperativo
67
. Vejamos
agora outro exemplo:
66
O que temos aqui é também um processo de inferência, que, em momento algum foi citado no
texto que a “página 2” refere -se a uma página da “Folha 2”. A representação que o agente faz de seu
interlocutor, é, supostamente, de um leitor que dispõe dessa informação.
67
Importante destacar que essa estratégia é recorrente em quase todos os exemplares do nosso
corpus.
122
(2) Entre sua filmografia [do diretor], elejo (L. sim.) quatro títulos capitais: ‘‘As Corças’’ (67),
‘‘O Açougueiro’’ (69), ‘‘Madame Bovary’’ (91) e ‘‘Mulheres Diabólicas’’ (95). Em comum, um
método narrativo que não se apóia (L. neutra) na trama - geralmente freqüentada por
crimes -, mas a utiliza (L. neutra) como pretexto; menos ênfase no suspense e total entrega
ao desenho dos personagens, à sua psicologia, à sua vida interior e ao retrato do entorno
familiar e social. ‘‘A Dama de Honra’’ não é exceção (3-CA).
No fragmento (2), da mesma forma que no anterior, temos uma
dupla ancoragem temporal. Em “elejo”, o eixo de referência é o ato de produção,
constituindo uma localização de simultaneidade em relação a este, marcada pel o
tempo verbal presente. Em “apóia” e “utiliza”, o eixo é o estabelecido pelo tipo de
discurso, no caso, uma atemporalidade marcada pelo presente genérico,
constituindo, assim, um tipo de localização temporal neutra. A diferença é que, no
exemplo em questã o, a localização de simultaneidade é estabelecida pela
implicação da instância enunciativa, isto é, sabemos que quem “elege”, dentre a
filmografia do diretor de “A Dama de Honra”, quatro filmes como principais é o
expositor encarnado na pessoa do crítico L ourenço Jorge. “Eu utilizo um eu ao
dirigir-me a alguém, que na minha alocução será um tu(cf. BENVENISTE, 1992, p.
51), e também afirmo que “elejo” hoje, talvez não ontem e não amanhã. Ou seja,
ao implicar a pessoa que está à frente do discurso, co nseqüentemente, implica -se o
outro e também o eixo de referência temporal.
Importante destacar, na passagem (2), o efeito de subjetividade que
a escolha pela forma verbal em primeira pessoa do singular imprime ao discurso
68
.
Conseguimos distinguir ainda m elhor a natureza dessa subjetividade ao analisarmos
o efeito de sentido de objetividade que a mudança por uma terceira pessoa
produziria: “os críticos atuais elegem...” ou “o público argentino elege...” ou ainda “os
quatro melhores filmes do diretor são”. Ou seja, “elejo” é uma forma verbal de valor
particular, por situar naquele que se enuncia como eu a responsabilidade e as
possíveis conseqüências pelo ato enunciativo de eleger. “É uma conseqüência do
fato da instância de discurso que contém o verbo insti tuir o ato ao mesmo tempo em
que funda o sujeito” (BENVENISTE, 1992, p. 56).
Se pensarmos nas representações da situação que levaram o
agente-produtor a optar pela explicitação da sua subjetividade (ainda mais se
68
A crítica em questão (3 -CA) é a única em que foi verificado o uso da primeira pessoa do singu lar.
Na entrevista feita com o crítico, este relata que considera a impessoalização uma característica
própria do gênero crítica de cinema, mas também evita colocar -se em primeira pessoa por uma
questão de timidez, para não chamar a atenção para a sua pess oa (cf. APÊNDICE A).
123
considerarmos que o exemplar 3 -CA é o único em que se verifica o uso da primeira
pessoa do singular), podemos supor que, pelo fato de a crítica em pauta referir -se
ao circuito alternativo, o crítico se sentiu mais à vontade, ou seja, de igual para igual
em relação ao seu público alvo pessoas, supostamente, mais envolvidas com o
contexto “Arte e Ensaio” e que, provavelmente, estão familiarizadas com o
trabalho desenvolvido por ele junto à Casa da Cultura/UEL.
Nos fragmentos (3), (4) e (5) abordamos o funcionamento dos
mecanismos de coesão na mobilização do conteúdo temático referente à trama
ficcional do filme. Como mencionamos anteriormente, não uma delimitação
clara que separe o discurso expositivo (filme tomado como produto comercial, de
fruição plano conjunto ao mundo ordinário da ação de linguagem) e o discurso
narrativo (abordagem do enredo ficcional da trama/roteiro plano disjunto ao mundo
ordinário da ação de linguagem). Comecemos pela crítica 1 -CA referente ao filme
“Free Zone”:
(3) Três mulheres muito diferentes entre si protagonizam (L. neutra)''Free Zone''. A mais
jovem é (L. iso.) norte-americana. Outra, de caráter mais forte, é (L. iso.) israelense. A
terceira, sensível e misteriosa, é (L. iso.) palestina. As três unem (L. iso.) seus destinos
naquela citada zona de comé rcio. Ao longo da narrativa, o espectador vai conhecendo as
reais motivações de cada uma dela. Rebecca (Natalie Portman, atriz de origem israelense),
filha de pai judeu e mãe não judia, acaba de romper com o noivo Julio (Aki Avni), israelense
de origem espanhola. Discute (L. iso.) com ele, sai correndo e entra (L. iso.) num táxi,
conduzido pela autoritária, resoluta e sincera Hanna (Hanna Laszlo, melhor atriz ano
passado em Cannes). Tornam-se amigas. E decidem (L. iso.) fazer uma viagem até a
fronteira (1-CA).
No trecho (3), podemos observar como não é fácil a delimitação
entre o discurso da ordem do expor e o discurso referente à atividade narrativa
ficcional, que ambos têm o tempo verbal presente como marco temporal e estão,
por vezes, “costurados” um ao outro. A primeira frase mobiliza o lexema verbal
“protagonizam” que, por sua natureza semântica ambígua
69
, nos permite uma dupla
interpretação: ou “protagonizam” se refere às personagens da ficção ou às próprias
atrizes que as representam. É o desenrola r do discurso que nos permite
compreender que as mulheres que protagonizam “Free Zone” fazem parte, na
verdade, da ficção fílmica. Entretanto, esse “protagonizar” não tem como referência
o eixo temporal do discurso do narrar, ele ainda faz parte da discurs ividade
69
Protagonista: 1. personagem principal de peça de teatro, livro, filme, etc.; 2. ator que representa o
papel desse personagem no teatro, cinema, etc. (HOUAISS, 2001).
124
expositiva, pois personagens “são”, “estão”, “agem” dentro de uma narrativa, eles
não “protagonizam” um filme. Dessa forma, essa primeira frase, mesmo introduzindo
um conteúdo da narração ficcional, ainda faz parte do discurso dominante do expor,
e o processo verbal que mobiliza (“protagonizam”) marca, pois, um tipo de
localização temporal neutra.
Observamos que os três processos seguintes são expressos pelo
verbo de estado “é” (verbo “ser”), e fazem parte do desenvolvimento de fases da
aspectualização de uma seqüência descritiva introduzida pelo tema-título
70
“Três
mulheres muito diferentes entre si”, que se encontra na primeira frase analisada
mulheres estas consideradas por nós como personagens e não atrizes. Sendo
assim, podemos incluir essas descrições como parte de um discurso narrativo que
começa a se desenvolver e que tem o presente como tempo básico. Na narração, o
eixo de referência temporal pode ser definido como a duração formal do processo
narrativo que se desenvolve a partir de uma or igem absoluta, responsável por
estabelecer uma relação de indiferença à duração do ato de produção
(BRONCKART, 2003, p. 285).
Os processos representados no fragmento (3) pelas três
recorrências da forma verbal “é” estão, dessa forma, ancorados no eixo te mporal
narrativo, registrando, assim, um tipo de localização temporal isocrônica em
relação a esse eixo. Segundo Bronckart (2003, p. 296), quando as narrações têm o
presente histórico como tempo básico, “ele marca uma nítida ênfase da localização
isocrônica dos processos em relação ao eixo de referência temporal, [...] o curso do
processo narrativo coincide estritamente com a progressão da diegese, o que
interdita, praticamente, qualquer estabelecimento de contraste global”. Dessa forma,
não uma oposição primeiro/segundo plano, marcada, nas atividades narrativas,
pela oposição pretérito perfeito/imperfeito. Ou seja, no nosso caso, temos um único
plano narrativo, mesmo para as descrições normalmente postas como “pano de
fundo” no discurso da ordem do narra r.
Na frase seguinte: As três unem seus destinos naquela citada zona
de comércio, a isocronia, representada pelo tempo presente, colabora para a
mescla entre discurso da ordem do expor e do narrar, uma vez que a ação em curso
é representativa da atividade narrativa, mas o adjunto adverbial de lugar naquela
70
Sobre seqüencialidade conferir Bronckart (2003, p 218 -248).
125
citada” remete a um segmento expositivo citado no início do texto. Este é um caso
típico da imbricação entre os dois mundos discursivos, o que gera, com certeza,
uma grande complexidade textual. Além d a narração do enredo ter o presente como
âncora temporal, ela também é bem atípica, no sentido de que não apresenta uma
origem espaço-temporal explícita da qual os fatos se sucederiam e, quase sempre,
não mobiliza conectores temporais para o estabeleciment o dessa sucessão.
Dessa forma, é justamente o discurso teórico-interativo (dominante)
que auxilia a interpretação da atividade narrativa, como podemos perceber na
próxima frase do nosso exemplo: Ao longo da narrativa , o espectador vai
conhecendo as reais motivações de cada uma delas , na qual o expositor, instância
exterior ao mundo da narração, mobiliza conteúdos deste mundo narrativo, mas sem
assumir o papel de narrador (o que há, na realidade, é um tipo de “exposição da
narração”).
Outro fator importante para essa noção temporal na ordem da
sucessão dos fatos é o valor da aspectualidade que assume determinados verbos,
como se observa, por exemplo, na perífrase temporal
71
“vai conhecendo”: é seu
valor aspectual durativo (o mesmo da locução adverbial “ao l ongo da narrativa”) que
um efeito de sentido de acontecimentos que se sucedem gradualmente na linha
do tempo (mesmo que o sujeito da ação não seja um personagem da narração e a
linha do tempo seja de outra dimensão) e introduz o leitor para a próxima et apa da
atividade narrativa.
Essa próxima etapa corresponde ao segundo parágrafo do exemplo
(3), com exceção dos comentários feitos entre parênteses que representam
inserções do discurso expositivo. O tempo de base nesses segmentos narrativos
continua sendo o presente histórico marcado por uma localização temporal
isocrônica em relação ao eixo de referência da narração em curso. Nessa
passagem é possível visualizar a manobra textual/discursiva para que o processo
narrativo tenha êxito. O primeiro processo mobilizado é expresso pela perífrase
verbal “acaba de romper” que, ao lado do aspecto de acabado, expressa também
uma noção temporal de passado recente (cf. TRAVAGLIA, 1981, p. 238), ou seja,
mesmo o tempo verbal do auxiliar estando no presente, é o efeit o de sentido de um
passado recente que estipula um marco temporal a partir do qual conseguimos nos
71
Embora o ISD não trate das perífrases e locuções verbais, em nosso trabalho, caso haja
pertinência, elas serão abordadas.
126
situar em relação aos outros acontecimentos que são narrados (sempre posteriores
na linha do tempo estabelecida).
Como podemos observar, o primeiro encadea mento desses
acontecimentos (discute... sai correndo e entra ) consegue um efeito de sucessão
temporal muito nítido sem, contudo, abandonar o tempo presente e sem buscar
auxílio de conectores temporais. Isso se deve pelo valor que cada processo assume
na narrativa. “Discute” tem um valor aspectual de acabamento (não -durativo), por
isso, sabemos que o próximo evento não se encontra em simultaneidade a ele. Em
“sai correndo” temos um gerúndio sendo usado ao lado de um verbo de acabamento
como se fosse um adjun to adverbial de modo “para indicar uma ação simultânea”
(Ryan,1996, p. 24). Porém, a aproximação a um gerúndio (processo verbal em ação)
anula o valor de acabamento de “saio” e o efeito passa a ser de uma ação durativa,
de um prolongamento do ato de sair/c orrer, que só é quebrado com a adição de um
verbo de acabamento: “e entra”. Já, a sucessão dos demais acontecimentos é
marcada textualmente pela acomodação de cada processo em uma única frase
sintática.
O fragmento (4) refere -se à crítica do filme “Super man O Retorno”,
e é também um exemplo de encaixamento de uma passagem do narrar que tem o
presente histórico como tempo-base. Entretanto, nesse caso, não há somente a
marcação de uma localização temporal isocrônica, como podemos observar:
(4) ''Por que o mundo não precisa do Super -Homem''. Este é (L. iso.) o título do artigo do
Planeta Diário que valeu (L. retro.) à destemida Lois Lane o prêmio Pulitzer, recebido no
período em que o super-herói esteve (L. retro.) ausente. E em que pese alguma façanha
déjà vu como a de impedir que um grande jato se choque contra um campo de beisebol,
rara cena de ação que justifica a mitologia e o investimento de tanto dinheiro, os habitantes
de Metrópolis também não parecem (L. iso.) muito excitados com a volta do Super -Homem
depois que o personagem passou (L. retro.) os últimos anos em Krypton, seu planeta
original, descobrindo que o lugar é (L. iso.) um cemitério e que ele talvez seja o único
sobrevivente. Como sempre, quem está (L. iso.) mais aceso é (L. iso.) o arquiinimigo Lex
Luther, que pretende cobrar (L. isso.) algumas contas pendentes. (1 -CN).
A citação do título de um artigo de jornal, colocada no início do
processo narrativo, funciona, nesse caso, como um marco que estabelece uma
origem espaço-temporal dentro da narração, ou seja, é ela que representa
(formalmente) o tempo -base presente (presente histórico, como vimos) e, sendo
assim, os demais acontecimentos são colocados em relação a esse marco. Dessa
forma, temos processos marcados por localizações isocrôn icas e processos
127
marcados por localizações retroativas (anterior ao marco temporal estabelecido
pela atividade narrativa). Como no caso anterior, também aqui alternâncias entre
o discurso expositivo e o narrativo: a passagem marcada pelos processos “pes e”,
“choque” e “justifica” mostra bem um comentário correspondente ao mundo do
expor, mas que mobiliza conteúdos da trama ficcional, a saber, os atos heróicos do
Super-Homem que servem como suporte ao processo narrativo, dando certa
coerência a seu desen rolar.
Como fica evidente na referida passagem, a narração do conteúdo
ficcional da trama fílmica não é um ato neutro, desprovido de impessoalidade.
Mesmo quando a instância geral da enunciação adquire o papel de narrador, ela
deixa marcas de subjetivida de por meio das várias asserções apreciativas
(explícitas, implícitas, irônicas, pressupostas) feitas ao longo do processo narrativo,
como ilustra a passagem: Como sempre, quem está mais aceso é o arquiinimigo
Lex Luther, que pretende cobrar algumas contas pendentes. As partes por nós
destacadas mostram bem essa “intromissão”, mesmo que sutil, da voz do autor. A
expressão como sempre é desnecessária à narração, implica uma comparação
com os outros episódios da história. Pretende, mesmo sendo alvo de uma
localização isocrônica, marca uma modalização
72
pragmática, pois refere-se a
uma intenção atribuída pela instância geral da enunciação a um personagem da
ficção; e também, por seu próprio valor semântico, passa uma idéia de futuridade,
de algo que se intencio na realizar em algum momento do futuro, mesmo que o
tempo mobilizado seja o presente. Vejamos agora outro exemplo:
(5) Mas o grande momento do filme corre por conta da reaparição de Mia Farrow como a
insólita baby-sitter de Damien. Surpreendentemente jove m e bonita - botox na medida certa
-, Mia Farrow se apresenta (L. iso.) ao casal com o currículo e revela (L. iso.): '' (L.
sim.) quase 40 anos venho criando (L. sim.) meninos'', ela diz (L. iso.) com sorriso
angelical. (4-CN).
O trecho grifado no exe mplo (5) ilustra um encaixamento de uma
passagem do narrar no discurso dominante e, o segmento entre aspas (marcação
do texto original), um encaixamento de um discurso interativo nessa narração (aqui,
o mundo criado é o do discurso interativo relatado cf. Bronckart, 2003, p. 159).
Vejamos como se processa a coesão verbal nesse caso. O discurso narrativo, como
nos exemplos anteriores, tem como tempo -base o presente histórico, sendo os
72
A modalização é abordada no capítulo dos mecanismos enunciativos.
128
processos apresentados a partir de localizações isocrônicas (“se apresenta”,
“revela”, “diz”). Entretanto, ao criar outro mundo discursivo, a saber, o do discurso
interativo relatado, o eixo de referência passa a ser marcado em relação a esse
novo parâmetro. Assim, o tempo verbal presente do segmento interativo em pauta
não se encontra em isocronia em relação ao eixo do discurso narrativo, mas, sim,
está em localização de simultaneidade em relação ao mundo ficcional do
personagem que é colocado em cena por meio do discurso direto. Ou seja, esse
“presente” não é o mesmo do discu rso narrativo que o introduziu, nem tampouco o
do discurso expositivo dominante.
É justamente essa diferenciação que o leitor da crítica nunca pode
perder de vista, pois sem ela, a coerência temática do texto fica totalmente
comprometida. Interessante ta mbém, nessa passagem, é a intersecção entre a
figuradeMiaFarrowcomoatriz(elemento daexposição dos fatos) e como personagem
fictício da narração: Mia Farrow se apresenta ao casal com o currículo e revela; na
verdade, não é Mia Farrow quem se apresent a, mas o personagem, a baby -sitter da
trama.
Por último, vamos analisar uma passagem de um relato interativo
encaixado noiníciododiscurso expositivo dominante como forma de contextualização
de parte do conteúdo temático de “A Dama de Honra” e como ânc ora argumentativa:
(6) Em conversa com o crítico francês Michel Rebichon, da revista Studio, à saída da sessão
para a imprensa de ‘‘A Dama de Honra’’ , no Festival de Veneza de 2004 , ouvi (L. iso.) dele
que o diretor Claude Chabrol faz sempre o mesmo filme . Perguntei (L. iso.) se a
observação era (L. iso.) uma crítica, espécie de acerto de contas doméstico. Ele então
argumentou (L. iso.) que o propósito de Chabrol era (L. iso.) cada vez mais depurar o
olhar para alcançar a máxima precisão no traço, a maior concisão na construção de suas
histórias e a mais maliciosa e fina sutileza para obter incômoda e provocadora ambigüidade.
Nada mais pertinente. O filme, um fascinante convite à reflexão acerca do mal que se
esconde sob a aparência mais corriqueira e cotid iana, estréia hoje na cidade (veja a
programação de cinema na página 2). (3 -CA).
No relato interativo, como na narração, o eixo de referência temporal
é constituído pela duração formal do processo narrativo que se desenvolve a partir
de uma origem espaço -temporal, e não pelo eixo da duração associada ao ato de
produção. A diferença é que no relato essa origem é dêitica, ou seja, ela pode ser
calculada em relação ao ato de produção. O marco estabelecido em (6) exemplifica
bem esse fato: a proposição no Festival de Veneza de 2004 , colocada em relação
ao ato de produção, que no nosso caso pode ser estipulado pela data da crítica
129
junho de 2006 –, estabelece um vácuo temporal de aproximadamente dois anos
(claroque,para o leitor que saiba o mês do Festival , essa conta se torna mais exata).
Diferentemente do presente histórico utilizado para narrar o enredo
fílmico, nessa passagem de relato interativo, como podemos observar, o tempo -base
é o passado. E é ele que marca a isocronia em relação ao marco tempora l inicial da
narrativa. Tanto o pretérito perfeito como o imperfeito do indicativo marcam, nesse
tipo de discurso, essa localização temporal isocrônica. Eles se opõem quanto à
função de contraste global: os processos expressos pelo pretérito perfeito o
colocados emumprimeiroplano,enquanto osexpressos pelo imperfeito, num segundo
plano do discurso. É a oposição observada entre “perguntei/era” e “argumentou/era”.
Essa distinção não existe no par “ouvi/faz”, que, ao invés do
imperfeito utiliza-se o presente simples. Agora, como explicar o uso do presente em
um relato que tem como marco temporal o passado? Ou seja, para esse tipo de
discurso, o presente não existe, ou não deveria existir. Na verdade, o efeito de
sentido que se obtém na seqüência ouvi dele que o diretor Claude Chabrol faz
sempre o mesmo filme” é de uma transposição para o discurso interativo da ação de
linguagem, umaquebra debarreiras entre osmundos discursivos estabelecidos durante
a textualidade. A propósito da mobilização d o tempo verbal presente (“faz”), percebe -
se claramente a intenção do crítico em estender essa ação até a atualidade do ato
de produção, ou seja, o diretor não só fazia o mesmo filme (até 2004), mas ele ainda
faz(atéadatada crítica). Talvez essa estraté gia argumentativa tenha sido usada para
mostrar uma concordância de opinião em relação ao crítico francês, uma vez que o
presenteéotempomobilizado paraaexposição, comentário eavaliação crítica do filme.
Oque chama a atenção no exemplo (6) é a form a como fica marcada
a passagem do mundo do narrar para o mundo do expor pelo discurso indireto livre,
expresso pelo sintagma nominal: Nada mais pertinente . Se esta fala for atribuída ao
expositor,elapode representar umaopinião emrelaçãoà pertinência da argumentação
do crítico francês ou à pertinência da postura do diretor Chabrol. Caso ela seja
tomada como sendo do crítico francês, ou seja, um personagem posto em cena no
relato interativo (o que representaria a instauração de um mundo interativo rela tado),
ela representa uma espécie de elogio, de concordância com o diretor e, nesse caso,
o fato de ele ter dito que Chabrol faz sempre o mesmo filme, não pode ser
considerado uma crítica negativa. Vemos que, em grande parte, o que causa essa
ambigüidade é a ausência de um processo verbal que instaure o sujeito do discurso.
130
CAPÍTULO 6
OS MECANISMOS ENUNCIATIVOS
Segundo Bronckart (2003), os mecanismos enunciativos contribuem
para o estabelecimento da coerência pragmática do texto, trazendo à tona, ao
mesmo tempo, avaliações, julgamentos, opiniões, sentimentos que podem ser
formulados em relação a alguns aspectos do conteúdo temático, explicitando as
instâncias responsáveis por tais posicionamentos enunciativos e pela dimensão
dialógica da discursividade (MAINGUENEAU, 2005a, p.173). Para o ISD, esse
mecanismo inclui a análise de dois aspectos: a distribuição das vozes
enunciativas e a marcação das modalizações ; que, embora distintos, convergem
para os mesmos resultados, ou seja, a marcação da responsabilidade (quem?) do
que se enuncia (o quê?) .
A Figura 8 nos permite visualizar o funcionamento da categoria dos
mecanismos enunciativos, na perspectiva do ISD:
Figura 8 Mecanismos enunciativos
Os estudos de inspiração puramente estruturalista continuam
influenciando as práticas didáticas para o ensino/aprendizagem de leitura e
produção de textos e os fenômenos ligados à discursividade/enunciação ainda não
têm merecido atenção suficiente e pouco têm sido explorados pelos professores de
língua portuguesa e autores de materiais didáticos (cf. BARROS & NASCIMENTO,
2007). Compreendemos que tais procedimentos didáticos devem se embasar em
uma semântica global que apreenda os discursos como práticas sociais que
compreendem dimensões integradas, tanto na ordem do enunciado quanto na
131
ordem da enunciação (NASCIMENTO, 2007), e isso implica tanto os elementos da
infra-estrutura dos textos , dos mecanismos de textualização, quanto dos
mecanismos enunciativos (cf. BRONCKART, 2003; 2006), integração que se
no interior de uma concepção dialógica da linguagem (BAKHTIN/VOLOCHINOV,
1986):
A mudança do acento avaliativo da palavra em função do contexto é
totalmente ignorada pela lingüística e não encontra nenhuma
repercussão na sua doutrina da unicidade da significação. Embora os
acentos avaliativos sejam privados de substância, é a pluralidade de
acentos que vida à palavra. O problema da pluriacentuação
deve ser estreitamente relacionado com o da polissemia .
assim é que ambos os problemas poderão ser resolvidos.
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1 986, p. 107 – grifos nossos).
Assim, dirigindo o olhar às questões relacionadas ao ensino da
leitura e produção de textos, consideramos que a compreensão dos mecanismos
enunciativos é de suma importância, pois constitui uma oportunida de de se tomar
conhecimento das diversas formas de posicionamento e de engajamento
enunciativos construídos pelos indivíduos de uma determinada sociedade, de se
situar em relação a essas formas, reformulando -as, o que faz com que esse
processo contribua para o desenvolvimento da identidade das pessoas (Bronckart,
2006, p. 156).
Para o presente capítulo, traçamos, como metodologia de trabalho, a
apresentação das duas grandes categorias dos mecanismos enunciativos: o
gerenciamento das vozes e a expressão das modalizações. No primeiro caso,
iniciamos com a exposição da teoria do ISD e partimos para uma discussão mais
ampla dos conceitos de dialogismo, polifonia e intertextualidade para chegarmos a
um posicionamento teórico -metodológico para a análise do nosso corpus. Análise
esta, por sua vez, pautada em recortes textuais escolhidos criteriosamente para a
pesquisa.
No caso das modalizações, percorremos um caminho inverso, uma
vez que partimos de teorias e discussões diversas para chegarmos ao quadro de
análise do ISD e termos a possibilidade de reformulá -lo com base nas
especificidades da pesquisa. Para a análise da marcação das modalizações nas
críticas cinematográficas que compõem nosso corpus, iniciamos com dados
quantitativos e, a partir destes, efetuamos u ma abordagem qualitativa também por
132
meio de fragmentos textuais a qual nos possibilita uma compreensão mais
aguçada dos resultados levantados inicialmente.
6.1 AS VOZES ENUNCIATIVAS
No nosso meio acadêmico é comum lermos textos teóricos que
colocam a questão do discurso como entidade polifônica, entrecruzado por diversas
vozes, pelo já-dito, pelo interdiscurso. As referências são muitas. Mikhail Bakhtin
geralmente surge como o precursor desta temática, com sua concepção dialógica da
linguagem. Entretanto, pouco se tem feito para que tais discussões possam chegar
até a sala de aula do Ensino Fundamental e Médio de modo mais acessível, ou seja,
para que tais teorias, tão preciosas para a compreensão crítica do texto, possam
ajudar o professor nas ati vidades de leitura e produção de texto, colaborando, com
isso, para que seja desmascarada a idéia da transparência textual.
A partir desse ponto de vista, nos propomos, por meio da discussão
das concepções de dialogismo, polifonia, heterogeneidade, intert extualidade e suas
implicações ampliar as discussões propostas pelo ISD quanto à distribuição das
instâncias enunciativas, a fim de solidificarmos as bases teórico -metodológicas das
nossas análises.
6.1.1 A Distribuição das Vozes na Perspectiva do ISD
Primeiramente, é importante salientar que, mesmo aparentemente
sendo o autor empírico o responsável pela escolha do gênero, pelos tipos de
discurso, seqüências, ou seja, responsável por aquilo que é dito, não se pode
esquecer que “a atividade de linguage m, devido à sua própria natureza semiótica,
baseia-se, necessariamente, na criação de mundos virtuais” (BRONCKART, 2003,
p.151).
Assim, tem-se, de um lado, o mundo “real” representado pelos
agentes humanos (neste se inclui o autor empírico, no nosso caso , o crítico
133
Lourenço Jorge) o mundo ordinário e, do outro, o mundo virtual criado pela
atividade de linguagem o mundo discursivo. Embora todas as representações
mobilizadas pelo autor na hora de empreender uma ação de linguagem estejam
localizadas no mundo ordinário, é no mundo discursivo que se processam as
operações de responsabilização enunciativa. Dessa forma, a voz do autor é
“apagada” e substituída por uma instância geral de enunciação , que o ISD
denomina de textualizador: voz “neutra” que pode se configurar em narrador
quando o discurso mobilizado for da ordem do narrar e expositor quando este for da
ordem do expor.
É justamente a instância geral que processa todo o gerenciamento
das vozes enunciativas. Segundo Bronckart (2003, p. 326), “as vozes podem ser
definidas como as entidades que assumem (ou às quais são atribuídas) a
responsabilidade do que é enunciado”. Geralmente é a instância geral da
enunciação que assume o enunciado, porém, esta pode pôr em cena outras vozes
as vozes secundárias (voz de personagens, voz social, voz do autor):
Vozes de
personagens
Vozes de seres humanos ou entidades humanizadas,
implicadas na qualidade de agente.
Segmentos de texto na pessoa gramatical: fusão do
narrador/expositor e da voz que este põe em c ena o
narrador assume, de algum modo, seu personagem.
Segmentos de texto na 3ª pessoa gramatical: manutenção
da distinção entre narrador/expositor e a voz secundária
posta em cena.
Vozes sociais
Vozes de personagens, grupos ou instituições sociais que
não intervêm como agentes no percurso temático de um
segmento textual, mas que são mencionadas como
instâncias externas de avaliação de alguns aspectos
desse conteúdo temático.
Voz do autor
Voz que procede da pessoa que está na origem da
produção textual e que intervém, como tal, para comentar
ou avaliar alguns aspectos do que é enunciado.
Quadro 12 – Vozes secundárias
A seguir, uma representação esquemática sobre o funcionamento
das vozes enunciativas, na perspectiva do ISD (Figura 9):
134
Figura 9 Representação da ação de linguagem
6.1.2 Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: a Questão das Vozes
Enunciativas
Não podemos iniciar a reflexão sem deixar de registrar que a
concepção dialógica da linguagem e, por que não dizer, do homem como s er social
e historicamente constituído, é uma noção que está presente em todos os textos do
que se convencionou denominar Circulo de Bakhtin. Nessa concepção, o dialogismo
faz parte da própria essência humana e, conseqüentemente, da materialização de
sua linguagem. Assim, o discurso nunca se constrói sobre ele mesmo, mas em vista
de um outro. É o que Bakhtin/Volochinov (1986) denomina de o grande diálogo da
comunicação verbal.
Dessa forma, o dialogismo pode ser entendido como indissociável
da linguagem humana, condição não só para sua construção, mas também para sua
compreensão. Barros (2003), em um ensaio sobre alguns conceitos bakhtinianos,
desdobra o que ela denomina dialogismo discursivo
73
em dois aspectos
fundamentais: o da interação verbal entre o enu nciador e o enunciatário e o da
intertextualidade no interior do discurso . O primeiro aspecto se refere ao
dialogismo como espaço de interação entre um eu e um tu ou entre um eu e os
outros, nas palavras de Bakhtin/Volochinov (1986):
73
Segundo a autora, seria o dialogismo restrito aos domínios da lin guagem.
135
A enunciação é o prod uto da interação de dois indivíduos
socialmente organizados e, mesmo que não haja um interlocutor real,
este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social
ao qual pertence o locutor. A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é
função da pessoa desse interlocutor [...] toda palavra comporta duas
faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém,
como pelo fato de que se dirige a alguém. [...] A palavra é uma ponte
lançada entre mim e os outros. (p. 112 -113).
Como conseqüência dessa discussão, temos a questão do eu
(autor), aquele que está na origem do discurso: uma problemática levantada pelo
Círculo de Bakhtin nos seus primeiros textos, e que seria retomada e apurada
posteriormente em outros escritos (cf. FARACO, 2005). Em Marxismo e Filosofia da
Linguagem, uma passagem que problematiza e ao mesmo tempo esclarece a
origem dessas discussões:
Em um determinado momento, o locutor é incontestavelmente o
único dono da palavra, que é então sua propriedade inalienável. É o
instante do ato fisiológico de materialização da palavra. Mas a
categoria de propriedade não é aplicável a esse ato, na medida em
que ele é puramente fisiológico. Se, ao contrário, considerarmos, não
o ato físico de materialização do som, mas a materializ ação da
palavra como signo, então a questão da propriedade tornar -sebem
mais complexa. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986, p. 113).
Ora, se sabemos que a comunicação verbal não é simplesmente um
ato fisiológico, que ela se num ambiente sócio -ideológico movido por razões,
intenções e finalidades diversas, então, podemos entender o primeiro aspecto do
dialogismo defendido por Barros (2003) pelo deslocamento do conceito de autor.
Segundo Bakhtin (1992), todo sujeito em sua ação de linguagem pode ser uma
segunda voz, uma imagem no interior do seu discurso, pois o autor -sujeito é aquele
capaz de trabalhar a língua situando -se fora dela, é o ser que tem o dom da fala
indireta. Esta concepção é trabalhada por alguns lingüistas (cf. DUCROT, 1987) e
por grande parte dos estudiosos em literatura. Temos, assim, a primeira concepção
de voz enunciativa, ou seja, o desdobramento do sujeito -autor.
Vamos entender, agora, o segundo aspecto do dialogismo discursivo
apontado por Barros (2003), o da intertextualidade no interior do discurso. Para a
autora, esse aspecto refere -se à questão da intersecção dos muitos diálogos no
interior de um discurso, do cruzamento das vozes que falam e polemizam em um
texto. Ela faz uma distinção entre dialogismo e polifonia. O primeiro seria o “princípio
136
constitutivo da linguagem e de todo o discurso” (BARROS, 2003, p. 6), já, o
segundo, seria usado para caracterizar certo tipo de texto, “aquele em que se
deixam entrever muitas vozes, por oposição aos textos monofônicos, que escondem
os diálogos que os constituem” (BARROS, 2003, p. 5 -6). Dessa forma, de acordo
com a autora, um texto pode ser monofônico (quando consegue mascarar as vozes
que o constituem), mas jamais monológico, já que o dialogismo é um aspecto
constitutivo da linguagem.
Brait (2003), também numa discussão sobre as vozes em
Bakhtin, se apropria dos termos dialogismo, polifonia e, até mesmo, intertextualidade
para designar o mesmo fenômeno, ou seja, a questão das múltiplas vozes que
permeiam o discurso e o constituem. Segundo a autora:
Esse jogo dramático das vozes, denominado dialogismo ou polifonia,
ou mesmo intertextualidade, é uma forma especial de interação, que
torna multidimensional a representação e que, sem buscar uma
síntese de conjunto, mas ao contrário uma tensão dialética, configura
a arquitetura própria de todo discurso. (BRAIT, 2003, p. 25).
Segundo o pensamento bakhtiniano, toda palavra vem de outrem,
nasce na interação inter -pessoal, dessa forma, toda ação de linguagem toma
forma e, ao mesmo tem po, evolui, sob o efeito da interação contínua com os
enunciados individuais do outro. Esta relação extra-verbal (dialógica) é que dá vida a
todo texto. Só a palavra do Adão bíblico poderia ser realmente a primeira, a palavra
“pura”, a “criadora”. Assim , os elementos ideológicos/históricos/sociais/culturais
atuam em cada sujeito, na forma de visões de mundo e se manifestam de maneira
dialógica em seus discursos. Segundo Brait (2003), há várias formas e vários graus
de dialogismo, polifonia ou intertextu alidade e estes devem ser vistos em sua
especificidade. Por exemplo, há o dialogismo intencional (um texto comentando
outro a crítica, por exemplo) e o dialogismo não -intencional representado pelas
inúmeras vozes que habitam um indivíduo, constituindo a fala interna e
condicionando um incessante diálogo” (p. 24 -25).
137
6.1.3 As Vozes Enunciativas: Posicionamento da Pesquisa
Bronckart (2006, p. 156), ao considerar a importância dos “efeitos de
mediação produzidos pela aprendizagem e pelo domínio progressivo” dos
mecanismos de enunciação, admite que estes foram pouco estudados pelo ISD. Ao
analisarmos o capítulo nove de Atividades de Linguagem, textos e discursos
(BRONCKART, 2003, p. 319 -333), vemos que não uma discussão consistente
que possa esclarecer a distinção entre os termos dialogismo e polifonia, conceitos
estes de suma importância quando se aborda a questão das vozes enunciativas. No
capítulo mencionado, afirma -se que as representações constitutivas da pessoa
apresentam um estatuto fun damentalmente dialógico, mas o se remete tal
reflexão a Bakhtin, como era de se esperar: “Quer se trate de noções, de opiniões
ou de valores, as representações disponíveis no autor são sempre interativas , no
sentido de que integram as representações d os outros, no sentido de que continuam
a confrontar-se com elas e a negociá -las” (BRONCKART, 2003, p.321).
Na discussão bronckartiana, considera -se um texto polifônico
“quando nele se fazem ouvir várias vozes distintas” (BRONCKART, 2003, p. 329) e
faz-se uma distinção entre polifonia explícita (remete -se aos trabalhos de Ducrot) e
polifonia implícita (aqui citando Bakhtin). Tais reflexões, embora pertinentes, não são
devidamente aprofundadas, o que contribui para gerar uma lacuna na compreensão
da teoria. Por exemplo, para o ISD, polifonia e dialogismo são a mesma coisa? O
que seriam exatamente a polifonia implícita e a explícita? Dentre as vozes
secundárias (de personagens, sociais e voz do autor) quais seriam implícitas e quais
seriam explícitas, ou não haveria tal distinção? Haveria texto monofônico, ou apenas
uma polifonia implícita?
Dessa forma, para que as nossas análises não fiquem com lacunas,
mesmo sendo o ISD nosso principal pressuposto teório -metodológico, optamos por
fazer algumas adaptações ao seu modelo de abordagem do gerenciamento das
vozes enunciativas. Primeiramente, compactuamos com Brait (2003) no que diz
respeito aos termos dialogismo e polifonia (e aqui podemos acrescentar o termo
heterogeneidade
74
enunciativa), ou seja, termos distinto s para designar o mesmo
74
A questão da heterogeneidade será tratada no parágrafo seguinte.
138
fenômeno: o grande diálogo da comunicação verbal entrecruzado pelas diversas
vozes que o constituem, sejam elas explícitas ou implícitas, mas sempre presentes,
já que não acreditamos em monologismo ou monofonismo.
Authier-Revuz (1990, 2004) ao tentar dar conta da polifonia
discursiva, distingue dois níveis de análise: a heterogeneidade constitutiva e a
heterogeneidade mostrada , sendo esta dividida em marcada e não -marcada. A
distinção entre estes dois planos estaria, em termos, rel acionada à mesma
diferenciação feita por muitos autores entre dialogismo e polifonia (cf. FIORIN,
1999). Maingueneau (1993, p. 75) retomando e, de certa forma, ampliando a
abordagem de Authier-Revuz, coloca a heterogeneidade constitutiva como um nível
não marcado em superfície, mas que o analista pode definir “formulando hipóteses,
através do interdiscurso, a propósito da constituição de uma formação discursiva” e,
a heterogeneidade mostrada como o fenômeno que incide sobre as “manifestações
explícitas, recuperáveis a partir de uma diversidade de fontes de enunciação”.
A heterogeneidade mostrada, segundo os autores, pode estar
associada a marcas claras, lingüísticas ou tipográficas: são as formas marcadas
(discurso direto e indireto, palavras entre aspas, pressuposição, parafrasagem, etc.);
ou reconstruída a partir de índices variados: são as formas não-marcadas (ironia,
provérbios, frases feitas, imitação, pastiche, formação discursiva, etc.). A nosso ver,
falta clareza a respeito do que os autores entend em por explícito ou implícito. Ora
parece estar na distinção entre heterogeneidade constitutiva e mostrada, ora entre
as formas marcadas e as não -marcadas da heterogeneidade mostrada.
Dessa forma, optamos por o adotar tais conceitos da forma como
são colocados. Primeiramente, por acreditarmos que a percepção quanto ao que é
explícito ou implícito está muito mais relacionada ao processo de compreensão
dialógica entre o leitor (analista/pesquisador) e o texto (entidade discursiva) do que
na descrição de um certo fenômeno
75
. Em segundo lugar, por tais conceitos estarem
fortemente ligados a uma concepção teórica de sujeito atravessado pelo
inconsciente, assujeitado pelo interdiscurso
76
, o que não condiz, de certa forma, com
75
Por exemplo, como classificar o fenômeno da pressuposição? Entendemos que, nesse caso, o que
determina o implícito ou o explícito é o diálogo estabelecido pela leitura, o grau d e compreensão do
leitor, sua visão de mundo. Ou seja, uma pressuposição pode ser explícita para um determinado
indivíduo que detecta suas “pistas” facilmente e passar despercebida para outros.
76
Análise do Discurso Francesa (AD).
139
a proposta do ISD que prevê uma int encionalidade, consciente ou não, no ato
discursivo:
[...] as operações de linguagem, mesmo sendo fortemente
determinadas pelas representações sociais relativas à atividade
humana e à atividade de linguagem em particular, deixam, aos
agentes-produtores uma margem importante de decisão e de
liberdade. É essa concepção de uma dialética permanente entre as
restrições sócio-histórico-discursivas e o espaço de decisão
sincrônica de um agente que nos parece caracterizar mais
claramente o interacionismo sócio -discursivo que defendemos.
(BRONCKART, 2003, p. 338).
Após todas essas discussões acerca dos conceitos de dialogismo,
intertextualidade, polifonia, heterogeneidade enunciativa todas elas pertinentes à
questão das vozes enunciativas –, optamos, para as nossas análises, em adotar o
modelo de análise proposto por Bronckart (2003), porém ampliando -o, trazendo para
seu interior muitos dos fenômenos polifônicos trabalhados por Authier -Revuz (1990,
2004), Maingueneau (1993, 2005), entre outros autores. Dessa fo rma, abordamos as
palavras entre aspas, as frases feitas, o discurso relatado, a pressuposição, etc.
sem, contudo, entrar na essência da concepção teórica defendida por cada um
desses autores. Assim, para a análise do gerenciamento das vozes enunciativas
nos textos que compõem o nosso corpus, procedemos da seguinte forma:
Quadro 13 – Categorias de análise do gerenciamento das vozes
140
Entendemos, contudo, que a descrição e análise de todo processo
polifônico se faz numa relação dialógica de compreensão. Segundo Brait (2003),
cabe ao analista do discurso, com sua visão interdisciplinar, localizar e interpretar os
recursos lingüísticos e não -lingüísticos da manipulação e transmissão das vozes
discursivas:
Registrar a existência de um discurso indireto como forma de
instauração da voz alheia não significa praticamente nada para o
conceito de dialogismo, de vozes em confronto, estabelecido por
Bakhtin. É necessário observar no conjunto do enunciado, do
discurso, de que forma a confluência das vozes significa m uito mais
uma interpretação do discurso alheio, ou a manipulação na direção
da argumentação autoritária, ou mesmo a apropriação e subversão
desse discurso. (BRAIT, 2003, p. 25).
Ou seja, mais do que apontar as evidências é preciso conferi -lhes
sentido, tentar, numa relação dialógica, estabelecer a compreensão do enunciado,
que para Bakhtin (1992, p.355) “aquele que pratica ato de compreensão (também no
caso do pesquisador) passa a ser participante do diálogo, ainda que seja num nível
específico (que depende da orientação da compreensão ou da pesquisa)”.
6.1.4 A Análise: A Distribuição das Vozes na Crítica de Cinema
Primeiramente, não podemos deixar de registrar que o gênero crítica
de cinema é construído com base em um processo dialógico intenc ional (cf.
BRAIT, 2003), ou seja, há nele uma intenção explícita de diálogo com certa
produção fílmica. Essa dialogicidade é esperada pelo leitor e é ela que motiva,
que vida a todo o fazer discursivo do gênero. Cada materialização dessa prática
de linguagem recorre a muitas estratégias para explicitar ou mascarar as diversas
vozes, os diversos discursos, textos, os vários outros que atravessam o seu dizer.
Iniciamos nossa investigação analisando a questão do
gerenciamento das vozes enunciativas que intervêm no processo discursivo para
comentar ou avaliar alguns aspectos do que é enunciado: a) a instância geral e seus
desdobramentos (expositor, narrador); b) as vozes de personagens; c) a voz do
autor.
141
A partir de fragmentos dos textos que compõem no sso corpus
(relembrando aos leitores deste trabalho que CA refere-se às críticas referentes ao
circuito alternativo e CN às críticas referentes ao circuito nacional), procuramos
analisar as categorias polifônicas
77
sem, contudo, pretender esgotá -las.
Para o tópico em pauta, não trabalhamos com dados quantitativos,
pois resgatar, na íntegra, as ocorrências das diversas vozes que perpassam o
discurso é um trabalho impossível e, certamente, desnecessário. O objetivo aqui é
analisar qualitativamente algumas inc idências representativas do processo de
gerenciamento das vozes enunciativas a partir de recortes textuais. Vejamos o
primeiro exemplo:
(1) [...] segundo o cineasta israelense Amos Gitai, “pessoas do Iraque, Egito, Síria, Arábia
Saudita e da própria Jord ânia se relacionam umas com as outras, compartilhando
experiências, comida e projetos de futuro, completamente alheias aos conflitos bélicos ou de
qualquer outra espécie que, por desgraça e com demasiada freqüência, afetam seus
respectivos países de origem .” (1-CA).
Este discurso direto não traz à tona somente a voz do diretor do
filme (que por si é uma voz de poder), ele também explicita uma voz israelense
que, de certa forma, legitima o falar sobre assuntos polêmicos do Oriente Médio.
Assunto este abordado pelo filme em questão (“Free Zone”) ao tratar de questões
políticas e culturais que envolvem tais povos, porém, de uma maneira mais pessoal,
humanizada. Percebe -se, nesse caso, uma intencionalidade em dar um tom de
veracidade ao discurso.
Segundo Maingueneau (1993, p. 87), nesse tipo de estratégia
discursiva o discurso direto –, “o locutor citado aparece, ao mesmo tempo, como o
não-eu, em relação ao qual o locutor se delimita, e como a autoridade’ que protege
a asserção. Pode-se tanto dizer que o que enuncio é verdade porque não sou eu
que o digo’, quanto o contrário”. O discurso direto, em geral, cria um efeito de
sentido de realidade, pois passa a impressão de que a instância geral da enunciação
está apenas repetindo o que disse a voz reportad a (cf. FIORIN, 1999).
77
Optamos por não mostrar cada uma das categorias polifônicas separadamente (voz de
personagem, voz do autor, desdobramento da instância geral da enunciação), pois em muitos casos,
elas aparecem imbricadas em um só fragmento.
142
(2) O diretor Juan Campanella declarou que “O mesmo Amor, a Mesma Chuva”, “O Filho
da Noiva” e “Clube da Lua” formam uma trilogia sobre a classe média argentina. [...] Mas, de
qualquer maneira, o tema que unifica estes três título s é bem mais convincente e menos
ambicioso [...] (2-CA).
Este fragmento refere-se à crítica do filme “Clube da Lua”, um filme
argentino, dirigido por um competente diretor daquele país (segundo valoração de
Lourenço Jorge). Sendo assim, a decisão pela in serção desse discurso indireto
explicitando a voz do diretor do filme, além de evidenciar um argumento por
autoridade, parece ter sido um recurso para possibilitar o desenrolar da
argumentação. O expositor (instância responsável pela enunciação) insere a p osição
do diretor do filme por meio de um verbo introdutório “declarou” que não carrega
em si teor de dúvidas, nem demonstra o envolvimento de quem está citando o
fragmento discursivo em relação aos fatos citados e, em seguida, contra -argumenta
com a inserção de uma proposição adversativa: Mas, de qualquer maneira, o tema
[...]”. Segundo Koch (1984, p. 147 ) enunciados do tipo X, mas Y permitem sempre
uma descrição polifônica”. No nosso exemplo, o expositor mostra o julgamento do
diretor do filme, um argumento de prestígio, para, em seguida, refutá -lo, mesmo que
parcialmente. É a voz do outro agindo polifonicamente na argumentação crítica .
Interessante ressaltar que as duas críticas em que aparece
explicitamente a voz de diretores do filme se refere m ao circuito alternativo (CA). Em
entrevista (APÊNDICE A), Lourenço Jorge nos revela que, embora disponha de
muitos recursos externos para buscar palavras dos diretores dos filmes que critica,
ele prefere, na maioria das vezes, utilizar -se das entrevistas feitas por ele mesmo,
que, nesse caso, a fonte (sua entrevista) é digna de confiança. O que podemos
depreender dessa situação é que, pelo fato de o crítico se identificar mais com os
filmes mais “cabeças” vinculados ao circuito alternativo e, também, por ser ele
próprio o selecionador dos filmes exibidos nesse circuito na cidade, ele acaba tendo
mais interesse em entrevistar os diretores ligados a tais filmes e, conseqüentemente,
são essas entrevistas as fontes das vozes preferencialmente inseridas em suas
críticas.
143
(3) Mas o grande momento do filme corre por conta da reaparição de Mia Farrow como a
insólita baby-sitter de Damien. Surpreendentemente jovem e bonita - botox na medida
certa -, Mia Farrow se apresenta ao casal com o currículo e revela: ''Há quase 40 anos
venho criando meninos'', ela diz com sorriso angelical. Não há como esquecer que se
passaram 38 anos desde ''O Bebê de Rosemary'', a obra -prima de Román Polanski. ''Este é
o papel de minha vida'', ela acrescenta, na ótima ''private joke'' que o filme reserva aos (4-
CN).
Interessante, na passagem do exemplo (3), é que duas inserções
de discurso direto, porém pertencentes a mundos discursivos distintos. No
primeiro, Mia Farrow não é a atriz e, sim, uma personagem do filme, portan to, este
discurso interativo dialogado (BRONCKART, 2003) faz parte de uma passagem de
narração ficcional do enredo encaixada no discurso interativo que estrutura o
enunciado. Entretanto, quem gerencia esta voz não é a instância do narrador (como
era de se esperar), mas a do expositor, uma vez que o fragmento discursivo que
introduz a citação menciona o nome da atriz e não o da personagem.
Já, no segundo discurso direto, é a mesma Mia Farrow quem fala,
mas agora como atriz de “carne e osso”: é um discurso interativo dialogado
gerenciado pelo expositor. Percebe-se que, nesse caso, a decisão de se trazer à
tona a voz de uma atriz famosa parece ter a pretensão de dar um ar mais informal
ao discurso e, ao mesmo tempo, revela o posicionamento valorativo do crít ico
quanto à participação de Mia Farrow no filme. Essa valoração, em tom de ironia
(recurso confessamente utilizado pelo crítico cf. entrevista, APÊNDICE A) é
visivelmente marcada pela explicitação do fato de que a reaparição da atriz é o
grande momento do filme e pelo uso do modalizador apreciativo
“surpreendentemente” ao se referir à beleza , supostamente artificial ( botox na
medida certa), da veterana Mia Farrow. Essa situação é típica do quadro
denominado pelo nosso crítico como “necessidades do leitor contemporâneo”: ele
acaba colocando “fofoquinhas” em sua crítica para satisfazer esse novo tipo de leitor
das críticas (principalmente às ligadas ao CN).
(4) Em conversa com o crítico francês Michel Rebichon, da revista Studio, à saída da sessão
para a imprensa de “A Dama de Honra”, no festival de Veneza de 2004, ouvi dele que o
diretor Claude Chabrol faz sempre o mesmo filme. Perguntei se a observação era uma
crítica, espécie de acerto de contas doméstico. Ele então argumentou que o propósito de
Chabrol era cada vez mais depurar o olhar para alcançar a máxima precisão no traço, a
maior concisão na construção de suas histórias e a mais maliciosa e fina sutileza para obter
incômoda e provocadora ambigüidade (3-CA).
144
O fragmento (4) se refere ao início tex tual da crítica 3-CA, uma
inserção de um relato interativo, na qual uma primeira estratégia enunciativa é posta
em cena: a instância geral da enunciação funde -se com a voz do autor empírico
e relata, em primeira pessoa, um fato vivido pelo crítico (sujeito do mundo empírico).
A instância geral da enunciação, agora no papel de narrador, coloca em cena uma
voz secundária a do crítico francês Michel Rebichon. O interessante desta
passagem é que, ao fundir -se com a voz do autor, o narrador deixa transparecer um
pouco do ethos (MAINGUENEAU, 2005) do autor: crítico bem relacionado que
participa de festivais internacionais de cinema, provavelmente fala outras línguas,
sabe ouvir a opinião dos outros. Essa é uma estratégia enunciativa que torna o
discurso muito mais interativo e consegue aproximar leitor e autor. É também uma
ótima estratégia argumentativa, pois a argumentação não se inicia diretamente com
informações do filme criticado, nem com posicionamentos valorativos incisivos.
Primeiro é feita uma contextual ização do tema que se pretende abordar por meio da
inserção desse relato interativo.
(5) O bom deste intervalo entre títulos mais sisudos é que ele nos convida e nos oferece
esta adorável aventura [...] (4 -CA).
Nesta passagem da ordem do expor, uma m escla entre a voz do
expositor, do autor e do leitor (no papel de espectador do filme). Embora esse não
seja um mecanismo muito observado nas críticas analisadas, ele é perfeitamente
compreensível no gênero de texto analisado, posto que o mesmo tem por fin alidade
promover uma interação com o público leitor, trazendo -o para o interior do discurso.
Segundo Fiorin (1999), a primeira pessoa do plural não é a multiplicação de objetos
idênticos (eu + eu), mas sim a junção de um eu com um não-eu.
(6) [...] a estréia de “Conversaciones com Mamá”, em Londrina, não é apenas homenagem
do exibidor à data que se comemora domingo, [...]. (5 -CA)
Interessante observar, neste fragmento, que a voz do autor aparece,
mas não como agente da ação (1ª pessoa), mas de forma ref erenciada: “do
exibidor”. É o que a semiótica greimasiana denomina de embreagem actancial de
substituição da primeira pessoa do singular pela terceira (FIORIN, 1999 ). Nesse
caso, não uma fusão da voz do expositor com a do autor. É o expositor quem
assume o enunciado, embora a figura do autor seja referenciada. Mantém -se, assim
145
um distanciamento entre as duas instâncias enunciativas. Tal estratégia imprime um
ar de formalidade e objetividade ao discurso (passa um ethos de “timidez”
78
e
discrição do autor, pois este poderia ter dito: “minha homenagem”), mas de certa
forma, mascarando um tom subjetivista, pois, se observarmos, o termo “exibidor”
poderia ser naturalmente suprimido do discurso sem que houvesse perda de
sentidos: “não é apenas uma homenagem à d ata que se comemora domingo”. Tal
observação nos revela a necessidade do crítico em deixar explícito que a
homenagem parte de sua pessoa, mas ao mesmo tempo, sua preocupação em não
tornar o discurso intimista ou pretensioso.
(7) “Superman O Retorno” (veja programação de cinema na página 2) (1 -CN).
“Free-Zone” (confira a programação de cinema nesta página) (1 -CA).
Aqui temos uma estratégia usada em todos os textos analisados: o
uso do imperativo com o objetivo de promover uma interação com o leitor,
direcionando-o à página do caderno cultural (“Folha 2”) onde as informações
técnicas sobre o filme aparecem com mais detalhes. Observa -se, neste fragmento,
que o uso dos parênteses também constitui um recurso importante no
estabelecimento da significação po rque, no intervalo da suspensão do tópico, o
autor tece comentários laterais sobre o referente que está sendo tratado. No espaço
delimitado pelos parênteses, a voz do autor é revelada com mais autenticidade,
concedendo-se o “direito” de usar o tempo impera tivo, que além de explicitar o
sujeito-crítico, também implica outra voz: a voz do interlocutor a quem a palavra é
dirigida e de quem se espera uma contra -palavra, uma réplica
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986).
(8) [...] primeiro trabalho “terapêutico” de Jenni fer Aniston após o rompimento com Brad Pitt,
e também como pontapé inicial (a expressão é cabível, que aqui componentes de
reality show) para o rompimento com Vince Vaughn [...]. (2 -CN)
Neste fragmento, novamente, o desvio parentético (JUBRAN, 1996),
ou seja, o recurso dos parênteses é utilizado para trazer à tona a voz do autor que,
nesse caso, não aparece explicitamente (uso do imperativo), mas como forma de
avaliação de um aspecto do conteúdo temático. Os parênteses aqui, como vemos,
são recursos que imprimem ao discurso um caráter mais informal, mais pessoal, por
78
Timidez esta confessa em entrevista concedida a nossa pesquisa (cf. APÊNDICE A e discussão no
tópico sobre o contexto de produção das nossas críticas).
146
isso mesmo, seu conteúdo está vinculado mais à pessoa do autor do que à instância
geral da enunciação. Os parênteses marcam, assim, uma ruptura entre o discurso
teórico e o discurso interativo (caso contrário, qual o propósito deles?),
desmascarando, por vezes, a voz do autor. Esse tipo de procedimento é encontrado
nos dois grupos do corpus (CA e CN), mas parece que os filmes ditos
hollywoodianos merecem mais a intervenção da voz do auto r quando o propósito é
“fofocar”, comentar sobre “banalidades” do mundo cinematográfico.
Embora nosso crítico comente que, nos dias atuais, é preciso
sucumbir aos “desejos” desse novo leitor das críticas e colocar informações que,
segundo ele, nada acres centam à crítica fílmica, é perceptível que ele se deixa
envolver mais por tal estratégia discursiva quando os filmes se dirigem ao público -
alvo da cultura de massa, ou seja, é a representação do destinatário criando uma
base de orientação e direcionando o fazer discursivo. Nas palavras de Lourenço
Jorge, “a crítica, hoje, está muito mais direcionada ao showbiz, está muito mais
direcionada para a informação supérflua. Se você tiver a capacidade, a teimosia de
conseguir inocular um pensamento, digamos, mais ou menos sério nisso, eu acho
que você vai estar no lucro” (APÊNDICE A).
(9) [...] um carro velho chamado Doc Hudson (voz de Paul Newman na versão original e
de Daniel Filho na brasileira) (3-CN).
Robert Thorn (Liev Schreiber) é o jovem [...]. Ele está prestes a ser pai. Mas o parto da
mulher, Katherine (Julia Stiles) [...] (4-CN).
De uma perspectiva de linguagem como forma de ação, como
atividade exercida entre interlocutores inseridos em um contexto sócio -histórico, em
que um se situa em relação ao outro, os parênteses são considerados como fatos
textuais que indiciam o processo comunicativo. Nos dois fragmentos ilustrados pelo
exemplo (9), os parênteses delimitam um espaço reservado ao discurso do expor
inserido em passagens de narração ficcional (enredo do filme). Assim, temos a voz
do expositor sendo introduzida na seqüência da fala do narrador. Essa marcação (os
parênteses) é necessária para a compreensão textual, pois, caso ela não fosse feita,
os dois discursos (da ordem do narrar e do expor) s e confundiriam na diluição dos
parâmetros do que é “real” e do que é “ficcional” dentro da crítica.
As análises seguintes apresentam passagens que trazem à tona as
vozes sociais que mesmo não intervindo como agentes , são trazidas ao interior
147
do discurso em um processo polifônico. Vejamos o nosso primeiro exemplo
(fragmento 10):
(10) Se a seleção Argentina jogar hoje com a mesma obstinação dos personagens centrais
de ‘Clube da Lua’, não haverá força em campo ou torcida alemã capaz de mudar o
destinatário da vitória. [...]
Fazem falta, na América Latina, filmes com esta alma, esta garra. A mesma que estará em
campo hoje, nenhuma dúvida. E isto, bairrismos à parte, é preciso respeitar, na vida real ou
na ficção. (2-CA)
Estas passagens se referem, respect ivamente, ao início e ao final da
crítica do filme “Clube da Lua” circuito alternativo e, por meio delas, podemos
resgatar uma voz social que não está explícita, mas que subjaz ao discurso em
questão. Ou seja, uma vox pública (opinião geral) de aversão aos argentinos,
motivada por uma rivalidade nos campos de futebol e que nos leva a um certo
preconceito em relação aos nossos vizinhos e a ignorar, muitas vezes, a garra desse
povo. Garra que, segundo o crítico, não está no futebol, mas também na arte
cinematográfica. Ou seja, o crítico desenvolve um contra -argumento a partir de uma
voz que fala anterior a ele, uma voz outra que ecoa como pano de fundo do
discurso. Essa voz está subentendida na expressão “bairrismos à parte” e sua
identificação é po ssível por meio de um conhecimento extralingüístico,
pertencente à ordem da enunciação e não do enunciado (CERVONI, 1989).
(11) O filme é seco, depurado, compacto, perturbador. E de maneira nenhuma
recomendável àqueles que entendem o thriller apenas com o sucessão de barulhentas
reviravoltas (3-CA).
O fragmento (11) referente a crítica de um filme do circuito
alternativo (“Dama de Honra”) que costuma atrair um público mais erudito, com um
gosto artístico mais refinado. Nesta passagem está subentendida uma voz outra,
um -dito que, com certeza, o entende este tipo de filme como uma produção de
qualidade. Uma voz que, provavelmente, emana de pessoas que não possuem um
filtro artístico apurado para reconhecer a beleza cinematográfica por detrás de uma
“sucessão de barulhentas reviravoltas”. A essa voz, a instância geral da enunciação
se opõem, e acaba revelando seu posicionamento valorativo apreciador de um
filme mais “cabeça”.
148
(12) E a julgar pela curta duração do affair [Jennifer Aniston] com Vaug hn, o pontapé foi
também terminal, e é uma tentação não engrossar o coro dos inconfidentes que apostam
que o ator repetiu em tempo real o que fez com a moça, tão sofrida, coitada, neste
argumento ficcional (2-CN).
Aqui uma menção a uma voz social (a voz dos inconfidentes”),
referência aos paparazzos que ganham a vida divulgando fofocas de artistas
famosos e com a qual uma concordância, mesmo que em forma de deboche: E a
julgar pela... é uma tentação não engrossar o coro dos inconfidentes . Mesmo o fato
levantado sendo irrelevante para uma crítica de cinema que se propõe “séria”, tendo
em vista que se trata de “bisbilhotices” na vida pessoal dos artistas, a forma com a
qual o crítico trata o assunto, ou seja, ironicamente e amarrado à argumentação em
curso, não compromete a crítica como um todo. Por meio das nossas análises
percebemos, também, que tal procedimento (uso da ironia) é muito mais recorrente
nas críticas referentes a filmes do circuito nacional, destinadas a um leitor mais
popular, menos eruditizado, do que nas críticas relativas ao circuito alternativo, cujo
público-alvo é, na sua grande maioria, cinéfilos, pessoas com um gosto artístico
mais apurado.
Lourenço Jorge, em entrevista concedida à nossa pesquisa,
confessa pecar muito em sua s críticas sendo sentencioso, mas argumenta: “procuro
fazer isso com a maior elegância possível, não sendo tão taxativo [...] é nesse ponto
que eu me valho de uma ferramenta (uma questão de estilo) que eu prezo muito,
que é a ironia(APÊNDICE A). Percebe -se, na citação, que o recurso da ironia é
uma marca individual do crítico, um estilo do ator e não um estilo do gênero, usando
os termos de Bakhtin (1992).
(13) Que território é este? “A guerra das Roses ” encontra “Cenas de um Casamento” na
sala de estar de “Friends”, apresentados por Woody Allen? (2 -CN).
Há, neste trecho, a inserção de nomes de filmes que remetem, cada
um deles, a um já-dito construído por meio da nossa memória discursiva
(BRONCKART, 2003), porém colocados na linearidade textual como se fossem
expressões comuns, peças de uma engrenagem discursiva (não quebra
sintática). A compreensão desse enunciado depende, em grande parte, do
conhecimento de mundo do interlocutor, ou seja, do sentido que cada uma dessas
vozes fílmicas pode incorpor ar ao enunciado como um todo. Maingueneau (2005),
fala em competência enciclopédica . Para o autor, todos nós temos um conjunto
149
virtualmente ilimitado de conhecimentos, ou seja, o nosso saber enciclopédico, que
varia em função da sociedade em que vivemos e da experiência de vida de cada um
de nós.
(14) [...] os frustrados cabalistas do Apocalipse recolheram as premonições, já que o mundo
mais uma vez não acabou [...] (4-CN).
Nesta passagem (14), da ordem do expor, há um processo polifônico
de pressuposão: se o mundo “mais uma vez” não acabou, é porque muitas outras
previsões de “final dos tempos” foram feitas anteriormente. É, na verdade, a voz dos
apocalípticos que é trazida pela enunciação com a finalidade de dar um tom de
humor, de leveza ao discur so. Segundo Koch (1984), o uso retórico da
pressuposição consiste em apresentar como já sendo do conhecimento público
aquilo que se deseja veicular (no nosso caso, as várias previsões do final do
mundo).
(15) Os mutantes não são mais aqueles [...] Entra m udo, sai calado (5-CN).
É uma pequena grande obra (5 -CA).
[...] eles são como cão e gato (4 -CA).
Receita argentina de cinema popular (2 -CA).
Nestes pequenos trechos, recortados de diversas críticas do nosso
corpus, a voz social que perpassa o discurso é a voz do senso comum (memória
coletiva) resgatada pelas frases feitas (ou a reformulação das mesmas): é a
legitimação da fala por meio do conhecido, popularizado. Segundo Koch (2006,
p. 147), “no caso dos provérbios, frases feitas, ditos populares, a fonte é um
enunciado genérico, representante da sabedoria popular, da opinião pública, de
modo que a recuperação é praticamente certa”.
O interessante na crítica do filme “X -Men O Confronto Final” (5 -
CN) é que ela começa e termina com uma dessas fór mulas consagradas: inicia
com Os mutantes não são mais aqueles , que é uma reformulação de “fulano não é
mais aquele”, e termina com Entra mudo, sai calado . Este fato vai de encontro com
as representações que o autor, possivelmente, faz do leitor deste t ipo de crítica
(circuito nacional), ou seja, um leitor que aprecia a cultura de massa (gosto popular)
e, provavelmente, se identifica com expressões mais popularizadas.
Também podemos analisar tal estratégia com base nos novos
paradigmas da leitura da co ntemporaneidade com os quais o crítico, de alguma
150
forma, precisa estar adaptado, a saber, o hábito superficial da leitura do jornal, o
qual leva o jornalista a utilizar -se de estratégias para chamar a atenção do leitor
fotos marcantes, títulos expressi vos e, porque não, um início e término do texto
baseados na reformulação de chavões lingüísticos.
(16) As super-mulheres de “Free Zone” (1 -CA)
O exemplo (16) refere -se ao título da crítica do filme “Free Zone”.
Há, aqui, um processo intertextual de alusão (FIORIN, 2003). A construção da
expressão “super-mulheres” se relaciona alusivamente ao texto -título do filme
“Super-Homem” que teve sua estréia em circuito nacional um dia antes da
publicação da crítica em questão. A alusão, nesse caso, além de brinc ar, dialogar
com outra produção fílmica, vem em tom de deboche, de ironia. Esse fato fica mais
nítido quando se tem acesso ao texto escrito pelo mesmo crítico referente à
produção hollywoodiana. Nele, o crítico é bastante mordaz, qualificando o filme de
“pálido” e o super-herói de “descafeinado”. as “super -mulheres de ‘Free Zone”
são “três ótimas atrizes”. A voz social aqui é de uma entidade cinematográfica, mas,
para que a compreensão do enunciado se realize como tal, é necessário, não
simplesmente saber da existência desse outro filme, mas também ser capaz de
promover um diálogo com o ponto de vista do autor, ou seja, há também um
processo de intertextualidade entre os dois textos críticos: referente ao filme “Free
Zone” e “Super-Homem”. Segundo Koch (2 006, p. 147), o reconhecimento do
intertexto nem sempre é garantido, pois “depende da amplitude dos conhecimentos
que o interlocutor tem representados em sua memória”.
(17) [...] primeiro trabalho “terapêutico” de Jennifer Aniston após rompimento com Brad Pitt
[...] (2-CN).
Lida com arte em sofisticada galeria, tem amigos “ com classe” [...] (2-CN).
[...] resta ao espectador testemunhar a crescente vitimização do personagem de Aniston e a
“demonização” do parceiro [...] (2-CN).
Embora sem justificar o “recall” da fábrica [...] (3-CN).
Nestes fragmentos de críticas diversas temos um processo
polifônico de inclusão de vozes sociais recuperado a partir da aspeação de
palavras. Estas, ao mesmo tempo em que são marcadas como estranhas ao texto
(uma outra voz), são também integradas à seqüêncialidade linear do enunciado
151
(MAINGUENEAU, 1993). No primeiro exemplo, temos um termo do discurso médico
(“terapêutico”) sendo deslocado de seu “habitat” natural para provocar certo tom
humorístico e, até certo ponto, sarc ástico. Já, a marcação da expressão “com
classe” reflete um processo de ironização, ou seja, por detrás da superficialidade
do dito subjaz um não -dito uma voz que, possivelmente, quer apontar o avesso da
expressão aspeada. O terceiro exemplo ( “demonização”), além de demarcar um
estranhamento lingüístico, que pode ser considerado um caso de neologismo,
também marca um processo polifônico na medida em que busca um termo de um
discurso mais “vulgar” para adjetivar um personagem da trama, imprimindo um ef eito
de sentido pejorativo à passagem discursiva.
Se observarmos os três exemplos comentados, vemos que todos
pertencem ao mesmo texto crítica 2-CN referente ao filme “Separados pelo
Casamento”, circuito nacional e, o que podemos perceber é que esses
“estranhamentos” lingüísticos acabam corroborando com o seu conteúdo temático:
crítica de um filme muitas vezes incoerente, contraditório , ou como o próprio título da
crítica sugere: uma estranha comédia romântica” (cf. ANEXO G). Ou seja, é
novamente o plano da expressão mantendo uma relação de mão dupla com o plano
do conteúdo (cf. SAITO, 2007). Reiteramos que esse tom irônico, sarcástico
revelado, nesse caso, pela aspeação de palavras deslocamento de um discurso
alheio é um recurso encontrado, fund amentalmente, nas críticas CN do nosso
corpus.
Já, o último exemplo ( “recall”) pode ser considerado um caso
comum em textos da modalidade escrita a marcação de uma palavra estrangeira.
Aqui, a voz que atravessa o discurso é a da outra ngua, na qual subjaz outra
cultura, outros valores e que muitas vezes são incorporados pelo discurso citante,
como é o caso do nosso exemplo, em que “recall” aparece com a mesma
semanticidade da língua de origem.
(18) Em pesquisa recente sobre a astronômica inflação de custos de produção em
Hollywood [...] o jornal de finanças The Wall Street Journal fixou o orçamento de
“Superman O Retorno” [...] em US$ 261 milhões. Outras fontes menos confiáveis elevam
esta cifra a incríveis US$ 400 milhões, enquanto a Warner [...] nada comenta sobre os
gastos [...]. (1-CN)
Nesta passagem da crítica referente ao filme “Superman O
Retorno” são mencionadas três vozes institucionais , duas nomeadas “The Wall
152
Street Journal” e “Warner” – e uma colocada na generalidade outras fontes
menos confiáveis”. Essas vozes, diferentemente das anteriores, são trazidas
explicitamente para o interior do discurso e, nesse caso, servem para iniciar a crítica
de forma contextualizada, trazendo à tona a polêmica que envolve muitas
superproduções hollywoodianas: o elevado custo de produção, em grande parte,
devido aos gastos com efeitos especiais que, segundo a argumentação do crítico,
parece um excesso quase obsceno para aquilo que se obtém ao final de extensos
154 minutos (cf. ANEXO F).
6.2 A MODALIZAÇÃO/MODALIDADE
A tarefa de tentar conceituar modalização/modalidade não é muito
fácil, visto que, os estudos que envolvem essa temática costumam ser bem
divergentes: quanto ao próprio conceito de modalização, às orientações teóricas,
campo de estudo e abordagens dos diferentes tipos de modalidade. Devido a tal
dificuldade teórico-metodológica, faz-se necessário, para o desenvolvimento da
presente pesquisa, estabelecer os parâmetros pelos quais nos guiamos.
Primeiramente, é importante elucidar a questão da terminologia
modalidade e modalização. Segundo Castilho & Castilho (2002), normalmente,
toma-se por modalidade a estratégia na qual um falante apresenta um determinado
conteúdo proposicional
79
em forma assertiva (afirmativa ou negativa), interr ogativa
(polar ou não-polar) ou jussiva (imperativa ou optativa). Por modalização, os autores
consideram a estratégia em que o sujeito expressa sua ligação com um conteúdo
proposicional, avaliando seu teor de verdade ou expressando seu julgamento sobre
ele. Koch (2006), inclui a modalidade na categoria dos modalizadores stricto
sensu, ou seja, aqueles que, muito tempo, vêm sendo objeto de estudo da
Lógica e da Semântica
80
. No Dicionário de lingüística escrito por Dubois (1988, p.
414), uma entrada para o termo modalidade e outra para o termo modalização,
sendo este último caracterizado como “a marca dada pelo sujeito a seu enunciado”
que pode, por sua vez, comportar uma modalidade lógica
81
.
79
O conteúdo proposicional é constituído de sujeito + predicado (= dictum).
80
Modalidades aléticas, epistêmicas, deônticas (serão especificadas mais adiante).
81
Equivalente ao que Koch (2006a) colocou como modalizadores stricto sensu.
153
Por essa pequena amostra é possível notar que as fronte iras que
separam os dois conceitos são muito frágeis, sendo assim, optamos por não
distinguir tais terminologias, ou seja, vamos usá -las, em nosso trabalho, como
sinônimas
82
.
Cervoni (1989, p. 53), ao definir a noção de modalidade, coloca que
ela “implica a idéia de que uma análise semântica permite distinguir, num enunciado,
um dito (às vezes denominado ‘conteúdo proposicional’) e uma modalidade um
ponto de vista do sujeito falante sobre este conteúdo”. Com certeza, essa noção é
muito abrangente, pois implicaria considerar nos marcadores da modalidade uma
gama de categorias lingüísticas/discursivas/frasais que dessem conta de “traduzir”
esse ponto de vista do falante. E, ainda assim, a tentativa de separar o que é
proposição e o que é modalização não se ria totalmente satisfatória, pois a frase
menos modalizada comporta uma modalidade mínima, ou seja, “é muito improvável
que um conteúdo asseverado num ato de fala seja portador de uma verdade não
filtrada pelo conhecimento e julgamento do falante.” (NEVES, 2006, p.159-160). Ou
seja, não como conceber que um falante possa deixar de marcar seu enunciado
com o seu ponto de vista em relação ao conteúdo mobilizado. Dessa forma,
mesmo desconsiderando a neutralidade enunciativa, resta -nos delimitar qual nosso
enfoque no estudo da modalização/modalidade. Para tanto, trazemos uma
discussão acerca da relação entre a Lógica e a Lingüística na abordagem da
modalidade, a perspectiva assumida pelo ISD e nossa contribuição ao seu modelo
de análise.
6.2.1 A Relação entre a Lógica e a Lingüística na Abordagem da Modalidade
Na grande maioria dos estudos lingüísticos sobre modalidade,
percebe-se a influência da visão lógica e de suas categorizações: aléticas
referem-se à necessidade ou possibilidade da própria exist ência dos estados de
coisas no mundo; epistêmicas assinalam o comprometimento do sujeito com
relação ao seu enunciado, o grau de certeza com relação aos fatos enunciados;
82
Outros pesquisadores também não fazem esta distinção, entre eles, Castilho & Castilho (2002).
154
deônticas indicam o grau de imperatividade/facultatividade atribuído ao conteúdo
proposicional, estão relacionadas com obrigações e permissões. Segundo Neves
(2006), a relação entre a Lingüística e a Lógica tem sido um complicador em estudos
essencialmente lingüísticos, sobretudo, porque as línguas naturais não seguem uma
linha lógica:
[...] são diferentes os objetivos da Lingüística e os da Lógica modal
no estudo das modalidades, preocupando -se esta com a estrutura
formal das modalidades em termos de valores de verdade, e
independentemente do enunciador. Os estudos lingüísticos, por se u
lado, tratam das línguas naturais, e nelas, como diz Alexandrescu
(1976, p. 19), saber que uma proposição p é obrigatória ou
necessária é ‘saber pra quem p é obrigatória ou necessária, quem
aprecia o valor modal do enunciado p, e em virtude de qual siste ma
de normas’. (NEVES, 2006, p. 155 -156).
Pelo que percebemos da citação acima, não como fazer uma
análise lingüística das modalizações sem levar em consideração o contexto de
produção textual, ou seja, quais as representações da situação que servira m de
base de orientação para a textualização. A expressão dos modalizadores implica
sempre uma escolha lingüística por parte do sujeito, não de forma aleatória,
inocente, mas como um recurso argumentativo que visa um objetivo (finalidade
discursiva). E é em função dos parâmetros que o contexto oferece que as escolhas
modais são processadas e textualizadas. Vale também, aqui, a força coerciva do
gênero a ser mobilizado pelo discurso:
[...] os textos são produtos da operacionalização de mecanismos
estruturantes diversos, heterogêneos e por vezes facultativos. Esses
mecanismos se decompõem em operações também diversas,
facultativas e/ou em concorrência, que, por sua vez, se realizam
explorando recursos lingüísticos geralmente em concorrência.
Qualquer produção de texto implica, conseqüentemente e
necessariamente, escolhas relativas à seleção e à combinação dos
mecanismos estruturantes, das operações cognitivas e de suas
modalidades de realização lingüística [gêneros] (BRONKCAT, 2006,
p. 144).
Tais escolhas estão ligadas, em grande parte, ao tipo da atividade
de linguagem desenvolvida e à adaptação a um dado meio comunicativo. Ou seja,
ao escolher determinado gênero textual para empreender uma ação de linguagem, o
agente-produtor está coagido, de certa form a, com determinadas estruturas da
língua. No caso do uso dos modalizadores, por exemplo, é notório que o gênero
155
“verbete de dicionário” tenha um uso restrito ou, porque não dizer, nulo, desse
recurso da língua, enquanto o gênero oral “debate político” se f arta de expressões
modais. Entretanto, o agente -produtor, independente das coerções exercidas por
uma determinada formação discursiva, tem um espaço de independência lingüística
que lhe compete a sua condição de agente da palavra, assim, cabe a ele imprimi r o
grau de modalização do seu discurso.
6.2.2 A Expressão das Modalizações na Perspectiva do ISD
É a partir das especificidades da língua como produto da interação
social que Bronckart (2003), mesmo não abandonando totalmente os estudos da
Lógica Modal, acrescenta a ela a teoria dos três mundos formais
83
de Habermas
(1987) e elabora o seu construto teórico sobre as modalizações. Para Bronckart
(2003, p. 330), estas têm como objetivo geral “traduzir, a partir de qualquer voz
enunciativa, os diversos comentários ou avaliações formuladas a respeito de
alguns elementos do conteúdo temático”. Pertencem, assim, à dimensão
configuracional, pois contribuem para a coerência interativa do texto, “orientando o
destinatário na interpretação de seu conteúdo temático (BRONCKART, 2003, p.
330). Segundo o autor, no plano dos significantes, as modalizações são expressas
por algumas estruturas lingüísticas recorrentes, que podem ser agrupadas em
quatro subconjuntos, como mostra o Quadro 14:
Quadro 14 – A marcação das modalizações
83
Mundo objetivo, mundo social e mundo subjetivo.
156
Já, no plano dos significados, essas estruturas lingüísticas podem
traduzir quatro funções de modalização, conforme exposto no Quadro 15:
Modalizações
lógicas
84
Apoiadas no mundo objetivo.
Apresentam os elementos do ponto de vista de su as condições de
verdade, como fatos atestados, possíveis, prováveis, eventuais, etc.
Marcação: unidades lingüísticas de qualquer um dos quatro
subconjuntos.
Exemplo: Claro que o aspecto humano resulta indissociável do
político, e esta é uma especialidade do israelense Amos Gitai, diretor
pouco conhecido no Brasil...” (crítica 1 -CA – ANEXO A).
Modalizações
deônticas
Apoiadas no mundo social.
Apresenta os elementos como sendo do domínio do direito, da
obrigação social e/ou da conformidade com as normas e m uso.
Marcação: unidades lingüísticas de qualquer um dos quatro
subconjuntos.
Exemplo: É preciso insuflar alma na coisa, temperar a engenharia
sofisticada com algo mais, algum elemento para marcar a diferença
diante da concorrência.” (crítica 3 -CN – ANEXO H).
Modalizações
apreciativas
Apoiadas no mundo subjetivo.
Apresenta os elementos como benéficos, infelizes, estranhos, etc., do
ponto de vista da entidade avaliadora.
Marcação: preferencialmente, por advérbios ou locuções adverbiais.
Exemplo: “Considerando que o diretor Brian Singer esteve por inteiro na
gênese deste renascimento, já que assina também o argumento, é
estranho que exista em cena tão pouca coisa do material que se
considera sua marca pessoal na indústria.” (crítica 1 -CN ANEXO F).
Modalizações
pragmáticas
Contribuem para a explicitação de alguns aspectos da responsabilidade
de uma entidade constitutiva do conteúdo temático em relação às ações
que é o agente, e atribuem a esse agente, intenções, razões ou
capacidades de ação.
Marcação: preferencialmente, pelo subconjunto dos auxiliares de modo.
Exemplo: “O público é apresentado a Relâmpago McQueen, novato e
ambicioso carro de corridas em circuito oval. Ele acredita que sozinho,
sem ajuda de ninguém, poderá medir forçar com os concorren tes...”
(crítica 3-CN – ANEXO H).
Quadro 15 – As quatro funções das modalizações
Para o ISD, a freqüência do uso de recursos modais pode estar
relacionada ao gênero a que pertence o texto. Dessa forma, as modalizações podem
84
Referem-se às modalidades aléticas e epistêmicas dos lógicos.
157
estar ausentes
85
na maioria dos dicionários, em muitas enciclopédias, que neste
tipo de texto os elementos que compõem o conteúdo temático podem ser
apresentados como dados absolutos ou “subtraídos de avaliação” (cf. BRONCKART,
2003, p. 334). em certos gêneros, cujo discurso p redominante é o do expor
argumentativo como, por exemplo, artigos de opinião, editoriais e resenhas a
tendência é encontrar um grau maior de modalização, pois nestes o conteúdo
mobilizado instaura polêmicas e controvérsias, sendo sujeito a avaliações,
julgamentos, confrontos e pontos de vista confrontantes.
Antes de iniciarmos nossa investigação nas críticas de cinema que
compõem nosso corpus de análise, mesmo sendo o ISD nosso principal suporte
teórico-metodológico, faz-se necessário, nesse caso, que ousemos adaptar o
modelo de análise proposto por Bronckart (2003).
6.2.3 Contribuições ao Modelo do ISD para a Análise das Modalizações
No tocante ao plano dos significados, vemos que Bronckart (2003)
mesmo se apoiando na teoria dos três mundos formais de Habermas (1987), não
foge muito das categorias da Lógica Modal. Por exemplo, quando define a função
das modalizações lógicas, coloca, em nota de rodapé, a equivalência com as
categorias aléticas e epistêmicas dos lógicos. Em razão de tais influênci as, e pela
necessidade de um maior aprofundamento do assunto, buscamos outras fontes que
discutissem com mais especificidade a questão da modalidade, sua inclusão no
campo da Lingüística para, a partir dessas discussões, propor algumas adaptações
ao modelo bronckartiano pertinentes à análise do nosso corpus.
No que se refere às modalizações deôntica e pragmática, nada
temos a acrescentar. Na deôntica (do grego “o que é preciso”) o enunciado é
apresentado pelo sujeito como algo que deve ocorrer necessaria mente dada uma
obrigação, uma regra criada pelo mundo social: mundo das leis que regem uma
sociedade e ditam o domínio do poder e do dever. A pragmática, categoria
específica do ISD, refere -se à expressão modalizada das razões, intenções,
85
Ou quase ausentes (“mascaradas”), pois como mencionamos, o texto que não passe pelo
crivo do enunciador.
158
capacidade de ação, etc. de uma entidade enunciativa posta em cena, ou seja, a
responsabilidade pelo que é dito não é mais do enunciador e sim de uma voz
polifônica.
Já, quanto aos modalizadores lógicos, optamos por dividi-los em
três subcategorias distintas, tendo por base a leitura de Castilho e Castilho (2002):
asseverativos (afirmativos e negativos), quase-asseverativos
86
e delimitadores.
Na primeira subcategoria, o conteúdo temático do que se afirma ou do que se nega
é marcado no enunciado como fora de dúvida, ou se ja, os modalizadores, nesse
caso, acentuam de forma positiva ou negativa o valor de verdade do que é
veiculado. Já, na subclasse dos quase -asseverativos, o conteúdo temático
mobilizado pelo sujeito é colocado como quase certo, próximo à verdade, ou seja,
como algo do domínio do eventual, do possível, do provável. Quanto aos
delimitadores, mesmo não garantindo nem negando propriamente o valor de
verdade do que se diz, fixam condições de verdade, ou seja, delimitam o âmbito das
afirmações e das negações (NEVE S, 2000), por isso, a pertinência em colocá -los na
mesma categoria dos modalizadores lógicos, uma vez que estes são apoiados nos
conhecimentos relativos ao mundo objetivo, mundo dos parâmetros que regem o
meio físico, onde são testadas as condições de verd ade.
Vale ressaltar que o uso da modalidade lógica não garante que o
conteúdo do que se diz seja, realmente, verdadeiro, não -verdadeiro, possível, etc. O
que certamente esses modalizadores indicam, segundo Neves (2000, p. 249):
[...] é que o falante que r marcar seu enunciado como digno de
crédito, quanto a tais variáveis. Por isso mesmo, muito de
individual no modo de emprego desses elementos, havendo pessoas
que, antecipando-se a uma possível desconfiança de seu
interlocutor, modalizam continuamente o seu enunciado com
elementos asseverativos. Por outro lado, tipos de interlocução
muito frouxos, nos quais a falta de consistência, e, a partir daí, a
baixa credibilidade do que é dito se compensa com uma
manifestação repetida de certeza ou de crença.
Quanto à modalização apreciativa, nos apoiamos no que vários
estudos trazem como modalização afetiva ou atitudinal (NEVES, 2000, 2006;
CASTILHO & CASTILHO, 2002) e também como modalização axiológica (KOCH,
86
Neves (2000) denomina esta categoria de asseverativos relativos.
159
2006). Assim, nessa categoria, consideramos ta nto os modalizadores que
expressam uma avaliação dos eventos, ações, situações a que o enunciado faz
menção, como, por exemplo, na frase: Mais uma vez, o Palmeiras não foi
campeão”; tanto os que denunciam uma atitude psicológica com que o sujeito se
apresenta diante dos eventos de que fala o enunciado: Infelizmente, nem sempre
se pode confiar nas notícias veiculadas pela imprensa”. Estes últimos, geralmente,
são subdivididos em subjetivos e intersubjetivos, sendo o primeiro marcado
unicamente pelo envolvi mento das emoções ou sentimentos do agente produtor
como felicidade, surpresa, espanto e, o segundo, pelo envolvimento de um
sentimento que necessita de uma relação interpessoal como sinceridade, franqueza.
6.2.4 A Análise: A Marcação das Modalizações n a Crítica de Cinema
Para iniciarmos a discussão acerca da ocorrência e funcionamento
dos recursos modais mobilizados em nosso corpus, trazemos, a seguir, uma tabela
que demonstra quantitativamente a distribuição dos modalizadores (número de
ocorrências e peso de cada categoria em relação à ocorrência geral) nas categorias
arroladas na análise em pauta.
Tabela 2 – Distribuição geral dos modalizadores
Lógicos
Deônti-
cos
Apreciati-
vos
Pragmáti-
cos
T =
C
O
R
P
U
S
Asseve-
rativos
Quase
asseve-
rativos
Delimita-
dores
CN
9 – 22%
14 34%
6 – 15%
3 – 7%
5 – 12%
3 – 7%
41
64%
CA
11 48%
1 – 4%
7 – 30%
2 – 8%
1 – 4%
2 – 8%
23
36%
T =
20 31%
15 23%
13 20%
5 – 9%
6 – 9%
5 – 9%
64
160
Primeiramente, cabe aqui um pequeno olhar para os dois grupos do
nosso corpus (CA e CN). Ao observar a tabela 2, é perceptível a diferença em
percentuais de ocorrência total de modalizadores em ambos os grupos. Analisando
cada categoria em particular, vemos uma diferença sign ificativa nos modalizadores
lógicos quase-asseverativos: enquanto no grupo CN foram detectadas 14
ocorrências (34% do total do seu grupo), no CA houve apenas uma marcação de
quase-asseverativos, de um total de 23 ocorrências.
Diferentemente dos asseverat ivos, os quase-asseverativos denotam
uma baixa adesão do sujeito em relação a seu discurso, visto que, o que está em
jogo não é a certeza dos fatos, mais a possibilidade, a probabilidade. Dessa forma,
deduz-se que o agente-produtor das críticas resguarda -se mais nas suas asserções
avaliativas quando os filmes que ele critica são referentes ao circuito nacional, ou
seja, filmes destinados à cultura de massa, à população em geral. Talvez por esses
filmes serem alvos constantes de avaliações e debates (revist as e jornais de grande
divulgação, internet, programas de TV), a adesão total ao que se diz fica um pouco
comprometida. Assim, é preferível relativizar os fatos a colocá -los como verdades
absolutas. Os quatro exemplos a seguir corroboram com tal discussão, sendo que
os três primeiros referem -se ao circuito nacional e o quarto é um recorte do único
exemplo de quase-asseverativo correspondente ao circuito alternativo:
(1) De carros em chamas atirados sobre a ilha de Alcatraz à ponte de São Francisco
retorcida como arame para servir de passarela, passando por um angelical jovem alado e
chegando até corpos despidos e explodidos por efeitos de computador, não há quase como
piscar na sala escura. Os prodígios tecnológicos e pirotécnicos, neste caso, são o único
trunfo que PODE engrossar as bilheterias da produção, mas É POUCO PROVÁVEL QUE o
resultado de box office chegue perto dos números das faturas 1 e 2, US$ 157 e US$ 215
milhões de dólares, respectivamente, só nos EUA (5 -CN).
No fragmento (1), o crítico está fazendo uma avaliação negativa do
filme “X-Men O Confronto Final” e toma como argumento os efeitos especiais. Para
tanto, se utiliza de dois recursos modais para tentar relativizar seu posicionamento
desfavorável. O auxiliar de modo “pode” imprime uma possibilidade de que os
efeitos especiais (ironicamente exaltados pelo crítico) venham a ajudar a melhorar o
faturamento do filme. Entretanto, essa possibilidade quase se desfaz com a
estrutura adversativa que se segue mas é pouco provável que... que, ao mesmo
161
tempo, traz uma oração impessoal quase -asseverativa que, novamente, imprime
uma possibilidade discursiva à argumentação em curso.
(2) Embora sem justificar o “recall” da fábrica, “Carros” tem uma extensão que TALVEZ
sacrifique os pequenos. Mas o que vale é o caráter desta jornada [...] (3 -CN).
O fragmento (2) refere -se à crítica do filme de animação
computadorizado “Carros”. Interessante que dentre as cinco críticas referentes ao
circuito nacional que compõem o nosso corpus, essa é a única que recebe uma
avaliação geral positiva. No trecho destacado, o uso do modalizador quase -
asseverativo “talvez” atenua um breve comentário negativo a extensão do filme
(que, presume-se, seja longa). Neste fragmento temos, da mesma forma que no
exemplo (1), uma estrutura adversativa que tenta atenuar ainda mais (a
modalização, anteriormente, cumpre esse papel) uma proposição negativa: Mas o
que vale....
(3) É DE SE SUPOR QUE O Super-Homem além da ingenuidade e do anacronismo de seus
imperativos morais corr espondentes à época em que foi criado, 1938, é também um corpo
estranho na Terra, um personagem que sofre com a solidão e a anomalia de sua condição.
(1-CN).
O exemplo (3) é um fragmento da crítica referente ao filme
“Superman O Retorno”, iniciado com uma modalização do domínio da suposição,
da crença: É de se supor que . Aqui, além do recurso modal, também é utilizado a
impessoalidade, dessa forma, a relativização dos fatos fica ainda mais acentuada
quem será que supõe que o Super -Homem seja um perso nagem anacrônico e um
corpo estranho na Terra ? Se somente o crítico ou seu interlocutor também?
Percebe-se, novamente, a estratégia de relativizar uma valoração negativa com o
emprego de um quase -asseverativo.
(4) Intimista, terno e decididamente emoti vo é o que se PODE dizer logo de saída a título de
pré-definição deste “Conversando Com Mamãe” [...] (5 -CA).
Como dissemos anteriormente, o exemplo (4) refere -se à única
ocorrência detectada de quase -asseverativos no grupo do circuito alternativo. Como
podemos perceber, nesse caso, o uso desse tipo de modalizador, diferentemente
dos exemplos anteriores, relativos ao circuito nacional, o relativiza uma avaliação
negativa, atenua um julgamento favorável feito nas primeiras linhas da crítica. Ou
seja, para que não fique forçada demais uma apresentação do filme com uma
162
adjetivação tão contundente intimista, terno e decididamente emotivo o crítico
modaliza seu dizer com um “pode” que, nesse caso, serve para quebrar a
asseveração do enunciado e justificar sua avaliação positiva, mesmo antes de
apresentar os argumentos que a tornem aceitável.
Quanto aos modalizadores lógicos asseverativos, vemos,
analisando a Tabela 2, que eles são bem mais representativos nas críticas
referentes ao circuito alternativo (48 % do total de ocorrências do grupo).
Considerando que tal categoria de modalizadores é utilizada quando o sujeito
acredita na verdade ou não -verdade do conteúdo que é mobilizado pelo seu
enunciado, temos, então, um efeito de enfatização do conteúdo temáti co e um alto
grau de adesão do agente produtor ao que é dito. Pelo fato de o autor das críticas
em questão ser também o responsável pela seleção dos filmes referentes ao circuito
alternativo, percebemos que uma suposta razão para essa enfatização.
Pressupõe-se que tais filmes já tenham sido pré -avaliados pelo crítico e, dessa
forma, o uso de asseverativos acaba tendo a função de ratificar, de reforçar seu
posicionamento valorativo. Os fragmentos (5) a (9) exemplificam o funcionamento
dos asseverativos em nossas críticas, sendo os três primeiros representantes do
circuito alternativo e, os dois últimos, do circuito nacional:
(5) O filme é seco, depurado, compacto, perturbador. E DE MANEIRA NENHUMA
recomendável àqueles que entendem o thriller apenas como s ucessão de barulhentas
reviravoltas (3-CA).
O trecho (5) refere-se ao final da crítica do filme “A Dama de Honra”.
Na passagem, a utilização de um asseverativo negativo , assim, “o conteúdo do
que se diz é apresentado pelo falante como indubitave lmente não-factual” (NEVES,
2000, p. 247). Dessa forma, na avaliação do crítico, “é certo que/é lógico que” o filme
não é recomendável para aqueles que o entendem apenas como sucessão de
barulhentas reviravoltas , ou seja, fica implícito que, só compactuará com a sua
avaliação favorável e, conseqüentemente, usufruirá da fruição que o filme tem a
oferecer, aquele que sabe apreciar um cinema de qualidade (aqui, lógico, inclui -se a
figura do crítico).
163
(6) A rigor, não se trata de um musical, embora ofereç a momentos de canto e coreografias.
Muito menos é um estrito argumento de época, ainda que situado entre 1937 e os primeiros
anos 40. Também não é um tributo emocionado ao pessoal do espetáculo que em tempos
difíceis honrou o preceito de que o show deve co ntinuar. NA VERDADE, é um filme que
mostra um tanto de cada faceta acima, e que obtém desta alquimia um delicado equilíbrio à
base de humor, emoção, música, drama, muita picardia. (4 -CA).
(7) Com a frescura que oferece boa parte do novo cinema argentino e com a esperta
despretensão (e um orçamento visivelmente reduzido) de quem sabe EXATAMENTE o que
quer, o diretor Santiago Oves realizou um filme que no entanto tem seus deslizes. Como
por exemplo, certa previsibilidade e certa complacência simplista qua ndo se busca reforçar
os nobres sentimentos dos personagens. São, DE QUALQUER MANEIRA, desencontros a
se revelar diante do conjunto amável e DE FATO comovente, que humaniza os
personagens sem pieguice e adiciona à narrativa uma pertinente crítica à socieda de que
segrega seus idosos e impõe a solidão como mal maior. (5 -CA).
Os fragmentos (6) e (7) são exemplos de asseverativos
afirmativos, dessa forma, “o conteúdo do que se afirma ou do que se nega é
apresentado pelo falante como um fato, como fora de dúvi da” (NEVES, 2000, p.
245). No exemplo (6) temos um “na verdade” agindo não para imprimir um valor
de verdade ao que se anuncia, mas também como conector da argumentação em
curso, pois retoma as proposições anteriores, confirmando -as e acrescentando a
elas mais propriedades positivas, isto é, o filme “Sra. Henderson Apresenta” tem,
segundo o crítico, “com certeza”, facetas de musical, argumento de época, tributo ao
espetáculo e consegue desta alquimia um delicado equilíbrio à base de humor... . No
trecho (7), retirado da crítica do filme Conversando com Mamãe”, temos a
incidência de três modalizadores asseverativos afirmativos, o que demonstra uma
passagem em que se tem a necessidade de atestar o valor de verdade do que é
dito, tornando-a enfática.
Esta necessidade, primeiramente, surge para enfatizar um
julgamento de cunho positivo direcionado ao diretor do filme ( sabe EXATAMENTE o
que quer); porém, a apreciação positiva é quebrada por uma estrutura adversativa:
no entanto [o filme] tem seus pequenos deslizes. que esses deslizes” são
apresentados no enunciado de forma atenuada e, novamente, recorre -se aos
asseverativos (de qualquer modo, de fato) para corroborar com a conclusão de que,
apesar dos pequenos desencontros, o filme é, em seu conjunto, sem dúvida,
comovente.
(8) E o público, CLARO, não estaria disposto a torcer para que ao final das muitas
vicissitudes, especialmente as verborrágicas, eles fiquem juntos (2 -CN).
164
(9) Agora, tem algum sentido repetir um filme, em processo de quase clonag em (neste
sentido perde para aquela rematada bobagem que Gus Van sant fez com “Psicose”) três
décadas mais tarde? COM CERTEZA não (4-CN).
Os exemplos (8) e (9) referem -se a críticas correspondentes a filmes
do circuito nacional e mostram uma importan te característica do funcionamento dos
asseverativos nesse grupo do nosso corpus. Nos dois casos, o que temos são
recursos modais sendo mobilizados como em uma interlocução informal, própria da
língua falada. No fragmento (8), o advérbio “claro” poderia s er substituído por “com
certeza”, “sem dúvida”, mas a opção lexical proporcionou uma aproximação maior
com o leitor. É como se o crítico pedisse a seu interlocutor uma confirmação para
aquilo que ele afirma como verdade: “É claro, não é meu leitor? Não dúvida
disso, há?”.
O exemplo (9) transcorre em uma linguagem interativa: faz -se uma
pergunta, mesmo que retórica, pois é sabido que o leitor não a responderá, que
não se trata de um diálogo face a face e, em seguida, tem -se uma resposta enfática,
sem resquícios de dúvidas Com certeza não. Pertinente destacar que, nos dois
exemplos, assim como na maioria dos casos em que foi detectado o uso de
asseverativos no grupo CN, este tipo de modalizador é utilizado para dar
credibilidade a partes do conteúdo temático mobilizadas para fins apreciativo -
negativos, ou seja, a intenção aqui é modalizar asseverativamente para conseguir a
adesão do leitor a um posicionamento desfavorável ao filme que se critica.
No caso da modalização por delimitadores, segundo Neves (2000,
p. 250), o sujeito “circunscreve os limites dentro dos quais o enunciado, ou um
constituinte do enunciado, deve ser interpretado, e dentro dos quais, portanto, se
pode procurar a factualidade, ou não, do que é dito”. O trecho (10) traz um exe mplo
do uso do “quase” que, no nosso corpus, corresponde a mais da metade das
ocorrências de delimitadores (7 de 13) e, na grande maioria, incidências no grupo
CN (6 de 7). De acordo com Neves (2000, p. 251), embora a delimitação sugira,
principalmente, redução de âmbito ou restrição (teoricamente, biologicamente, etc.),
ocorre que os modalizadores delimitadores podem também marcar, como limite, um
todo genérico, assim, a delimitação pode ser feita com generalização (geralmente,
em geral, etc.) ou com aprox imação de limite, valor este do “quase”, como podemos
observar no exemplo (10):
165
(10) Os intérpretes estão todos de volta a seus postos. O inoxidável Wolverine por conta de
Hugh Jackman, uma Halle Berry mais contida, os mestres Patrick Stewart e Lan MacKell en,
a ressucitada Jean (Famke Jenssen). Há uma invasão de atores secundários, e QUASE não
se fornece a eles um background. QUASE não há o que dizer do diretor Brett Ratner. Entra
mudo, sai calado (5-CN).
O trecho (10) corresponde ao final da crítica do f ilme “X-Men O
Confronto Final” e traz duas ocorrências do delimitador “quase” que, na passagem,
tem a função de “acercamento” aos limites da significação de duas proposições
negativas. Assim, para que sejam estabelecidas as condições de verdade das
asserções: não se fornece a eles [atores secundários] um background e não o
que dizer do diretor Brett Ratner ; o modalizador de limites “quase” é imprescindível.
É perceptível como o uso de tal unidade lingüística atenua a negação dos
enunciados e se torna u m importante recurso argumentativo, pois consegue quebrar
um pouco o tom negativo estabelecido pelo discurso (aqui, no sentido de uma
apreciação valorativa desfavorável ao filme). Os delimitatores, como mencionado,
podem também incidir sobre um componen te do enunciado. As ocorrências
detectadas do “quase” nesta situação mostram também um efeito de sentido de
atenuação como, no exemplo: um excesso QUASE obsceno (1-CN, cf. ANEXO F),
ou seja, o delimitador aproxima o adjetivo “excesso” de “obsceno”, mas não o
qualifica completamente. Vejamos outro caso de delimitador:
(11) Os diálogos FREQUENTEMENTE cínicos da dupla são alguma coisa para preservar
por longo tempo na memória. E a cumplicidade entre Dench e Hoskins é química exemplar.
(4-CA).
O limite estabelecido no exemplo (11) é o da freqüência, isto é,
embora o adjetivo “freqüente” seja o oposto de “raro”, não podemos dizer que os
diálogos entre os personagens principais de “Sra. Anderson Apresenta” (filme
correspondente à crítica 4 -CA) sejam sempre cínicos, o uso do delimitador gera uma
margem de tolerância que nos permite supor que outras situações de diálogos
entre os dois, o que gera um efeito de sentido de relativização do conteúdo
mobilizado.
Quanto às modalizações deônticas, vemos, por meio da Tabela 2,
que elas são pouco expressivas em nosso corpus, tanto no grupo CA como no CN.
Esse fato decorre, provavelmente, das coerções impostas pelo gênero crítica de
cinema, ou seja, esse tipo de texto não figura no âmbito das permissões,
166
obrigações, proibições, próprias da “interação espontânea, quando o falante deseja
atuar fortemente sobre o interlocutor” (CASTILHO & CASTILHO, 2002, p. 207).
Vejamos dois exemplos que nos permitem analisar o funcionamento de tal
modalização em nosso corpus:
(12) E o elenco, Darin à frente soberano, é de uma competência a toda prova. Fazem falta,
na América Latina, filmes com esta alma, esta garra. A mesma que estará em campo hoje,
nenhuma dúvida. E isto, bairrismos à parte, É PRECISO respeitar, na vida real ou na ficção.
(2-CA).
O fragmento (12) refere -se ao encerramento da crítica do filme
“Clube da Lua” (circuito alternativo) e traz uma avaliação final firmada a partir de
uma necessidade deôntica, ou seja, apoiada em valores que regem o mundo social.
Este tipo de modalizador, de certa forma, incisivo, autoritário foi utilizado porque
reforça uma orientação argumentativa e conclui um posicionamento precisamos
respeitar a garra dos argentinos, tanto na vida real (refere -se aqui ao futebol
argentino, uma vez que, no mesmo dia da veiculação da crítica, a Argentina iria
jogar com a Alemanha pela Copa do Mundo) como na ficção (referência ao cinema
argentino). Talvez esse tom (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986) mais autoritário
decorra do fato de a maioria dos brasileiro s nutrirem certa aversão ao povo
argentino devido à rivalidade no futebol, o que, supostamente, surte reflexos na hora
de se avaliar uma obra cinematográfica.
(13) Este pessoal da Pixar sabe mesmo criar um evento, com sua abordagem particular e
descomplicada sobre como DEVE ser um filme com imagens geradas por computador. Não
basta só a aparência. Isto já é rotina, e fácil, para quem trabalha na especialidade. É
PRECISO insuflar alma na coisa, temperar a engenharia sofisticada com algo mais, algum
elemento para marcar a diferença diante da concorrência. [...] A lição aparece clara, límpida,
neste “Carros” [...]. (3-CN).
O exemplo (13) refere-se ao início da crítica do filme “Carros” e traz
dois elementos lingüísticos com função deôntica: o auxiliar de mo do “deve” e a
expressão “é preciso”. O uso desse recurso modal serve para marcar o
posicionamento apreciativo do crítico em relação ao filme, ou seja, o de que
“Carros”, um produto da Pixar, é um ótimo exemplo de como “deve” ser um filme
infantil de imagens geradas por computador. A necessidade deôntica, aqui, não foi
utilizada apenas como uma recomendação vazia ou uma obrigação a ser cumprida,
mas como forma de enfatizar as qualidades do filme e do seu produtor: a Pixar sabe
[...] como DEVE ser um filme [. ..] É PRECISO insuflar alma , mas “Carros” segue
167
essa lição de forma clara, límpida. Dessa forma, a modalização não surge para
denegrir a imagem do filme, pelo contrário, serve para reforçar suas qualidades.
Voltando à Tabela 2, vemos que a modalizaçã o apreciativa não é
muito expressiva em nosso corpus e muito mais representativa no grupo referente
às criticas dos filmes do circuito nacional. Se pensarmos em termos de gênero
textual, poderíamos pensar que a crítica cinematográfica fosse mais suscetíve l a
essa categoria modal. Ao analisar os textos do nosso corpus, observamos que a
pouca incidência de modalizadores apreciativos se deve ao fato de, primeiramente,
uma parte do nosso material textual (grupo CA) estar comprometida subjetivamente
com a figura do autor das críticas, visto que é o próprio crítico o responsável pela
seleção do material fílmico que é exibido no circuito alternativo, portanto, a
explicitação de algumas emoções, sentimentos talvez pudesse não ser bem
recepcionada pelo leitor
87
. Em segundo lugar, a forma de manifestação discursiva do
autor de nossas críticas é muito bem elaborada, de maneira que, poucas vezes, se
faz necessário e/ou ele deixa vir à tona a expressão de suas reações frente ao que
veicula em seu enunciado. Como foi me ncionado, nessa categoria, incluímos os
modalizadores que expressam uma avaliação dos eventos a que o enunciado faz
menção e os que encenam uma atitude psicológica do sujeito . Os exemplos a
seguir referem-se a este último caso:
(14) Considerando que o d iretor Brian Singer esteve por inteiro na gênese deste
renascimento, que assina também o argumento, É ESTRANHO QUE exista em cena tão
pouca coisa do material que se considera sua marca pessoal na indústria. De seus X -Men
sempre se elogiou a habilidade c om que ele embaralhou os limites entre Bem e Mal, e sua
capacidade de identificação com alguns personagens que, por seus dons e peculiaridades,
se sentiam parias, marginalizados num mundo cruel, ignorante e indiferente. (1 -CN).
(15) Mas o grande momento d o filme corre por conta da reaparição de Mia Farrow como a
insólita baby-sitter de Damien. SURPREENDENTEMENTE jovem e bonita botox na
medida certa [...]. (4-CN).
Os dois exemplos, (14) e (15), pertencem ao circuito nacional e
neles há, por meio de e lementos modalizadores, a expressão da reação psicológica
subjetiva (um estranhamento e uma surpresa/espanto) do crítico frente ao que ele
coloca como posto em seu enunciado. No fragmento (14), referente ao filme
87
Provavelmente, a representação que o crít ico faz do interlocutor das críticas CA seja de um
apreciador de um cinema mais eruditizado, e, consequentemente, um conhecedor da sua situação de
exibidor.
168
“Superman O Retorno”, a estranheza é pelo fato de o filme não manter a marca
pessoal (muito bem conceituada) do diretor, porém a explicitação de tal emoção
frente a um posicionamento negativo é ancorada com a apresentação de um forte
argumento: o contraponto com outro filme de sucesso do diretor “X-Men”. Ou seja,
a emoção não é expressa simplesmente, ela é sustentada com argumentos que a
justificam.
No trecho (15) temos uma reação de surpresa do crítico frente à
aparição bela e jovial da atriz Mia Farrow na refilmagem do filme “A Profecia”. Nes se
caso, a modalização apreciativa funciona como um recurso irônico, pois a atriz em
questão já é uma mulher madura e, “naturalmente” não poderia estar jovem e bonita,
mas, para não deixar essa asserção valorativa na superficialidade, o crítico
apresenta a justificativa do “milagre” botox na medida certa . Segundo Lourenço
Jorge (apud KLEBIS, 2004), autor de nossas críticas, devido às exigências da
contemporaneidade, foi necessário introduzir nas críticas algumas informações
“superficiais” para satisfaze r certas curiosidades do leitor:
As pessoas querem saber dessas curiosidades, que são, no fundo, o
voyerismo, o devassar da privacidade que o making of tornou mais
franqueado ao grande público. O cinema foi se despindo de qualquer
ritual e se tornou uma c oisa aberta, que no péssimo sentido. As
pessoas querem saber frivolidades e não o que acontece por trás da
produção. (LOURENÇO-JORGE, apud KLEBIS, 2004, p. 63).
Entretanto, o crítico complementa que, mesmo tendo que sucumbir,
de certa forma, aos cap richos do mercado, procura manter a substancialidade do
seu texto. Salienta também que esse fato é muito mais freqüente quando o alvo da
crítica é uma produção hollywoodiana. Sendo assim, percebe -se que o fato de o
crítico ter “apimentado” a crítica com um a “fofoquinha”, não significa que ele seja
totalmente favorável a esse recurso, na verdade, ele apenas está se adaptando às
novas exigências do gênero crítica cinematográfica. Ou seja, é a força do gênero
textual (e todas as implicações inerentes ao seu su porte jornal impresso para a
grande massa) agindo sobre a textualidade.
A última modalização a analisar, a pragmática, refere-se a alguns
aspectos (intenção, razão, capacidade de ação, etc.) da responsabilidade de uma
voz enunciativa que é colocada em cena pelo textualizador. No que concerne à
pesquisa em questão, esse tipo de modalização ocorre, principalmente, em
169
passagens de narração do enredo do filme (uma das características do plano geral
dos textos do gênero), como podemos observar por meio do e xemplo (16):
(16) O público é apresentado a Relâmpago McQueen, novato e ambicioso carro de corridas
em circuito oval. Ele ACREDITA QUE sozinho, sem ajuda de ninguém, PODERÁ medir
forças com os concorrentes Chick Hicks e The king, e assim ganhar uma corrid a vital para o
título. (3-CN).
A passagem traz duas modalizações pragmáticas marcadas pelos
elementos lingüísticos “acredita que” e “poderá”. O primeiro, exprime uma crença e o
segundo uma capacidade de ação atribuídas ao personagem Relâmpago McQueen,
do filme “Carros”. Segundo Fiorin (1999, p. 32), uma narrativa é um simulacro das
ações humanas e uma teoria narrativa é, antes de mais nada, uma teoria da ação”.
Percebe-se, assim, que, mesmo o fato de “crer” e poder” ser da responsabilidade
do personagem posto em cena no enunciado, é a voz do textualizador (instância
geral da enunciação), agora no papel de narrador, no seu ato de simular uma ação,
quem credita a uma voz secundária esse “crer” e esse “poder”. Ou seja, mesmo no
discurso da ordem do narra r, que aparentemente poderia ser um tipo de discurso
neutro, temos o filtro apreciativo da instância geral da enunciação, esta,
materializada na figura do autor, que no nosso caso, é o crítico londrinense
Lourenço Jorge.
170
CAPÍTULO 7
CONCLUSÃO
Talvez a parte mais difícil de uma pesquisa científica seja o
momento de formular as conclusões, uma vez que, em tese, por ela estar
concluída, essa é a ocasião de resgatar o percurso do estudo, fazer uma síntese das
análises e, por fim, avaliar se os objetivos propostos foram alcançados. Dessa
forma, nos propomos, nesse último capítulo da nossa dissertação de mestrado,
buscar uma síntese das discussões e análises que compõem a pesquisa.
Esperamos que os resultados possam contribuir para instigar reflexões sobre o
ensino/aprendizagem de língua portuguesa, sobretudo, na área de formação de
professores.
No decorrer deste trabalho nos expusemos para o leitor e este de
nos ver inseridos em um “excedente de visão” que mostrou a nossa incompletude. E
como incompletude e inconclusão caminham juntas, reconhecemos que os sentidos
que buscamos construir sobre o objeto desta pesquisa serão apreendidos pelo leitor
na perspectiva da instabilidade (do sujeito e da história). Nesse momento emergem
novas questões cujas resp ostas demandam reflexões e aprofundamentos que
podem impulsionar a continuidade deste trabalho.
7.1 O GÊNERO CRÍTICA DE CINEMA: SÍNTESE DAS DISCUSSÕES
Como vimos, o gênero crítica cinematográfica se insere na esfera do
jornalismo. O campo jornalísti co se revela como um espaço público midiatizado, fruto
de uma adequação entre os fatos e os discursos oriundos das mais diversas esferas
sociais, personificando -se em inúmeras práticas linguageiras homogêneas na sua
essência jornalística, mas completamen te heterogêneas na adaptação a um
contexto específico de linguagem. Segundo Morigi & Rosa (2004, p. 84), a
comunicação jornalística se, por um lado, se constitui “em um discurso polifônico,
acolhendo e mediando todos os campos do conhecimento, por outro, e xerce um
171
poder hegemônico, à medida que é o campo socialmente legitimado, para enunciar
o discurso da atualidade”.
É justamente nesse embate entre o “discurso da atualidade” e os
princípios do meio cultural/artístico que se encontram as discussões atua is sobre o
papel da crítica de arte no nosso caso, a crítica de cinema e seu funcionamento
na esfera jornalística. A crítica de cinema é um gênero que se origina na
discursividade artística/cinematográfica, mas se insere dentro do conjunto das
práticas discursivas do jornalismo. Ou seja, o crítico de cinema bebe em fontes
culturais, nos primórdios da arte, porém, está coagido com os apelos imediatistas do
mundo jornalístico. Esse é o fio condutor, por exemplo, da tensão entre as
nomenclaturas resenha e crítica e da discussão sobre o papel atual da crítica de
cinema.
No emergir dessas discussões, a entrevista com o autor das críticas
de cinema analisadas Carlos Eduardo Lourenço Jorge nos proporciona uma
visão mais abrangente sobre esse gênero textu al, suas alterações ao longo dos
anos e seu funcionamento na atualidade. O confronto das análises textuais com as
declarações de Lourenço Jorge nos possibilita visualizar um panorama de
confrontos entre uma prática discursiva mais elaborada, compromissada com os
princípios artísticos e um discurso “adequado” aos apelos da contemporaneidade.
Um bom exemplo dessa coerção exercida por esse novo modelo de gênero textual é
a inserção de frivolidades, “fofoquinhas” dos bastidores cinematográficos fato que
se tornou freqüente no discurso da crítica de cinema. Entretanto, como nos revela
Lourenço Jorge, essa informação (dispensável a uma boa crítica, mas que atente ao
voyeurismo do público-leitor) não deve ser inserida aleatoriamente no texto, ela
precisa estar amarrada, de alguma forma, à discursividade crítica como um todo.
Dessa forma, a crítica de cinema veiculada pelo jornalismo cultural,
além das características prototípicas do gênero, como, por exemplo, a exposição de
informações relativas ao filme -alvo, a narração parcial do enredo fílmico, a avaliação
crítica de aspectos relevantes do filme também passa a incorporar nuances do
discurso jornalístico contemporâneo: ênfase na linguagem imagética (foto do filme -
alvo em destaque, muitas vezes, ocupando espa ço superior ao texto verbal),
destaques aos títulos e subtítulos, inserção de informações fílmicas periféricas,
extensão textual/verbal reduzida, etc. Nas palavras de Lourenço Jorge, o crítico tem
que sentir o feeling do momento, e o momento é o agora” (c f. APÊNDICE A). Ou
172
seja, não como escrever uma crítica de cinema como se escrevia há 30, 40 anos
(críticas-ensaios). O contexto hoje é outro, e o crítico precisa se adaptar a ele.
Entretanto, isso não significa, necessariamente, que outro gênero esteja surgindo
em substituição à “crítica” de anos atrás ou que a “crítica” de hoje tenha um texto
menos qualificado que o de antigamente. O que estamos presenciando é
simplesmente a adaptação natural de um gênero ao seu contexto sócio -histórico.
7.2 PANORAMA DAS CRÍTICAS ANALISADAS
As reflexões apresentadas no trabalho em tela constituem uma parte
do processo de construção e (des)construção de adaptações do gênero crítica de
cinema na abordagem do interacionismo sociodiscursivo (BRONCKART, 2003).
Como pudemos perceber por meio das nossas análises, o agente -produtor das
críticas de cinema analisadas, em sua ação de linguagem situada, faz adaptações
no gênero, tanto no que se refere ao plano global, infra -estrutura, até chegar aos
mecanismos de textualização e enunciação, abrindo caminho, assim, para a
transformação, a inovação do gênero.
Os resultados das análises apresentados confirmam a tese de
Bronckart (2003, p 107) de que as produções de linguagem devem ser consideradas
em sua relação com as atividades humanas em geral, o que leva a delimitar, “na
atividade coletiva, as ações de linguagem , como unidades psicológicas sincrônicas
que reúnem as representações de um agente sobre contextos de ação”. Dessa
forma, o agente-produtor da crítica de cinema, a parti r da sua base de orientação,
que é fruto de suas representações do contexto de produção, faz um recorte da
atividade coletiva para empreender sua ação de linguagem.
Como vimos, o contexto de produção das nossas críticas está
condicionado em duas vertentes distintas: críticas relativas ao circuito nacional (CN)
e críticas relativas ao circuito alternativo (CA). As primeiras, relativas a filmes
veiculados em circuito nacional filmes comerciais (na sua grande maioria, filmes
ditos holywoodianos) e, as segundas, relativas a filmes veiculados em circuito
alternativo na cidade de Londrina, tendo como exibidor o próprio autor das críticas
Lourenço Jorge. Um dos objetivos do trabalho em questão foi justamente verificar de
173
que forma as representações dos eleme ntos contextuais de cada um dos grupos do
nosso corpus (CA e CN) exercem influência na textualidade crítica. Dessa forma, as
nossas análises lingüísticas/discursivas/enunciativas tiveram a preocupação de
retomar a situacionalidade específica de produção (c ontexto CA e CN) e levantar
hipóteses das representações contextuais feitas pelo agente -produtor, com a
finalidade de buscar uma relação entre a semiotização dos elementos analisados e a
coerção exercida pelo meio. Dessa forma, para essa nossa ntese, nos apoiamos,
quando necessário, na diferenciação observada entre os dois grupos textuais.
Em uma primeira leitura das críticas que fazem parte do nosso
corpus é possível notarmos uma distinção valorativa entre os exemplares CA e os
CN. Nas críticas relativas ao circuito alternativo verificamos uma avaliação valorativa
mais positiva, um crítico mais complacente; nas críticas referentes ao circuito
nacional, o tom valorativo é, quase sempre, negativo, ressaltando um crítico mordaz,
mais “ferino” em suas avaliações. A análise dos aspectos
lingüísticos/discursivos/enunciativos arrolados na pesquisa corrobora com essa
primeira análise, trazendo à tona as formas de semiotização utilizadas para a
concretização dessa dualidade discursiva, fruto da base de orien tação de cada
contexto particular. A diferenciação na postura avaliativa se deve, principalmente, ao
fato de o autor das críticas ser também o selecionador dos filmes exibidos no circuito
alternativo, dessa forma, é evidente que tais obras fílmicas pass aram por uma
avaliação prévia. Já, quanto aos filmes relativos ao circuito nacional, essa postura
mais “dura” é abertamente revelada por Lourenço Jorge em entrevista concedida a
nossa pesquisa (cf. APÊNDICE A).
Na análise dos tipos de discurso, detectamos um tipo de discurso
dominante da ordem do EXPOR, misto interativo-teórico, cuja principal característica
é a intersecção entre a exposição de informações que estão ora em relação de
autonomia, ora em relação de implicação com o contexto de produção. Essa
característica discursiva pode ser relacionada com as coerções exercidas pela crítica
de cinema na atualidade (busca de interatividade com o público -leitor) versus a
tradicionalidade do gênero (formalidade discursiva). Esse embate é também
observado na entrevista com Lourenço Jorge, que em várias ocasiões o crítico se
mostrou em um impasse entre manter uma linguagem mais formal (própria de sua
formação intelectual) e a busca por uma linguagem mais interativa. O grau de
implicação é mais explícito nas crí ticas CA, visto que é em uma crítica relativa ao
174
circuito alternativo que Lourenço Jorge se posiciona em primeira pessoa do singular.
A representação de um leitor mais engajado com os propósitos do circuito alternativo
e, por essa razão, com maiores afinid ades com seus interesses, talvez tenha
conduzido-o a essa forma de interatividade – maior aproximação entre autor -leitor.
No que se refere ao plano textual global , nossas análises
evidenciam vários aspectos próprios da formatação atual do gênero condicion ados
às novas exigências da contemporaneidade: pouco espaço editorial para o texto
verbal; grande ênfase na apresentação da foto ilustrativa do filme; antecipação das
principais idéias contidas na crítica por meio do título, subtítulo, foto e legenda
(muitas vezes, esses elementos satisfazem os interesses imediatistas do leitor).
As críticas CN (filmes comerciais) recebem maior destaque gráfico -editorial, se
comparadas às críticas CA é o poder do mercado agindo na esfera jornalística.
Outra característica marcante do gênero é o encaixamento, no discurso dominante,
de um discurso secundário: a narração ficcional do enredo fílmico. Esse tipo de
discurso aparece sempre “costurado” ao discurso misto interativo-teórico, uma vez
que não uma divisão nítida que faça a passagem de um tipo de discurso para
outro.
Na análise dos mecanismos da coesão nominal, as categorias
anafóricas arroladas na pesquisa nos ajudam a entender o processo de retomada
textual no gênero crítica de cinema. A quantidade de anáforas encontradas em cada
exemplar do corpus está relacionada, principalmente, com sua extensão textual
(quanto mais extenso um texto maiores possibilidades de introdução de novos
referentes). A cadeia anafórica mais expressiva de uma crítica se refere, quase
sempre, ao filme-alvo. Este pode ser retomado por diversas formas anafóricas:
anáfora pronominal, fiel, infiel, por nominalização, por associação, etc. Outra cadeia
anafórica relevante em uma crítica diz respeito ao argumento escolhido para
conduzir a avaliação: a direção do filme, a atuação dos atores principais ou de um
dos atores, etc. Por exemplo, caso a direção seja um dos alvos principais da crítica,
provavelmente, teremos uma expressiva cadeia anafórica referente à figura do
diretor.
Nos segmentos referentes à narração ficcional do enredo, o
predomínio é de anáforas pronominais retomadas dos personagens da trama.
nos segmentos expositivos, além das anáforas pronominais, fiéis e infiéis, devido ao
caráter teórico de parte do discurso ( misto interativo-teórico) articulação de séries
175
de argumentos com caráter mais abstrato as retomadas são também associadas a
relações cognitivas mais complexas de co -referência: anáforas pronominais por
sumarização, por nominalização, indiretas, associativas. Po r exemplo, as anáforas
pronominais por sumarização, isto é, o uso de pronomes demonstrativos com função
de condensação de informações, são mobilizadas, geralmente, em fases de
seqüências argumentativas, com o a finalidade de sintetizar informações ativada s no
decorrer de uma argumentação.
No caso da coesão nominal, verificamos que as representações do
contexto de produção interferem na escolha lexical de algumas retomadas. Nas
críticas referentes ao circuito alternativo, carregadas de valoração apreciativ a
positiva, as anáforas por nominalização, normalmente, são utilizadas para valorizar
aspectos positivos do filme, o que não acontece com as críticas relativas ao circuito
nacional, nas quais esse tipo de anáfora é mobilizado com tom negativo, muitas
vezes, de forma irônica. Aliás, a ironia é um traço importante do estilo individual de
Lourenço Jorge e se revela, principalmente, nos exemplares CN. Outro elemento
dos mecanismos de coesão nominal que podemos associar a um traço estilístico do
autor é o uso do advérbio de lugar aqui” com valor de pronome referencial.
Verificamos que o uso desse tipo de anáfora é mais freqüente no grupo CN,
imprimindo mais informalidade ao texto marca de representação contextual de um
leitor mais “descontraído”, menos formal .
Ao analisarmos o funcionamento da coesão verbal nas críticas de
cinema que compõem nosso corpus, percebemos com mais nitidez como a
coerência temática depende de uma clara interpretação de seus mecanismos de
controle. O leitor precisa ficar atento para distinguir as várias representações da
temporalidade e da aspectualidade, sobretudo, os vários valores que o tempo verbal
“presente” toma em cada funcionamento discursivo: presente genérico, no discurso
expositivo com eixo de referência atemporal; presente com valor dêitico, próprio dos
discursos interativos; presente marcado pela simultaneidade entre o processo e o
mundo do discurso interativo relatado criado pelo narrador; e, finalmente, o presente
histórico, mobilizado nas várias passagens de narração do enredo ficcional do filme.
Um fato de extrema complexidade na análise da coesão verbal nas
críticas de cinema é a articulação entre o discurso expositivo dominante e a
narração ficcional do enredo, articulação esta ancorada na temporalidade de cada
tipo de discurso. A complexidade reside no fato de tanto o mundo do EXPOR como
176
o mundo do NARRAR ter o “presente” como eixo temporal. O uso do presente
histórico para narrar a trama fílmica passa um efeito de sentido de aproximação com
a realidade, ou seja, pa rece que o que se está narrando não é uma ficção e, sim,
algo do mundo “real”, algo da instância do “aqui” e “agora”. O que se pretende
enfatizar não é a história ficcional, mas o filme em si como um produto cultural que
está disponível para ser consumido no momento presente da enunciação. Ou seja,
não podemos esquecer que um dos objetivos da crítica é justamente a divulgação
de uma produção fílmica.
Na análise das vozes enunciativas, verificamos que a inserção de
vozes de personagens não é um mecanismo mu ito utilizado. Isso se dá, quase
sempre, quando é necessária a explicitação da voz do diretor do filme. E nesse
caso, as críticas CA parecem ser as que melhor absorvem o procedimento, visto que
são produções escolhidas pelo próprio autor para serem exibida s em circuito
alternativo na cidade de Londrina. Dessa forma, pressupõe -se que sejam obras
cuidadosamente pré-avaliadas e, conseqüentemente, seus diretores, profissionais
bem conceituados pelo menos na opinião do exibidor. Assim sendo, a inserção da
voz do diretor surge para corroborar com a orientação argumentativa do crítico.
Ao contrário do que observamos nas críticas do circuito alternativo,
as críticas referentes ao circuito nacional quase não enfatizam a pessoa do diretor e,
quando isso ocorre, no rmalmente, vêm acompanhadas de uma valoração
apreciativa negativa. Quanto ao mecanismo de explicitação da voz do autor,
verificamos que os casos mais freqüentes se dão pelo recurso dos parênteses, os
quais se configuram em espaços legítimos de maior aproxi mação autor-leitor e,
conseqüentemente, de maior interatividade. Ou seja, mesmo a figura do autor não
se explicitando gramaticalmente por meio da primeira pessoa do singular, o uso dos
parênteses rompe as barreiras discursivas e traz à tona comentários ori undos da voz
do autor, às vezes, objetivos, como por exemplo, “(confira a programação de cinema
nesta página)”, ou com um alto grau de subjetividade: “Vivian Van Damn (o nome é
este mesmo, não há engano)”. Interessante destacar que tal procedimento é
utilizado tanto nas críticas referentes ao circuito alternativo como nas do nacional,
embora, nestas últimas, alguns comentários entre parênteses pareçam se configurar
mais como “fofoquinhas”, “amenidades” outra estratégia que torna o texto mais
interativo.
177
As outras formas de explicitação da voz do autor por nós
analisadas se encontram todas nos textos referentes ao circuito alternativo. São
elas: uso da primeira pessoa do singular, uso da primeira pessoa do plural e
referenciação da pessoa do autor (uso d a terceira pessoa do singular). No primeiro
caso a forma mais explícita de “desmascaramento” da voz do autor a crítica é
iniciada com um relato pessoal estratégia que possibilita introduzir de forma
contextualizada uma linha argumentativa e trazer à tona um pouco do ethos do
autor. No segundo caso, o uso da primeira pessoa do plural ( eu + tu) faz deflagrar,
não a figura do autor, mas também a do interlocutor, já que é um mecanismo
enunciativo que possibilita trazer o outro para o interior do discu rso. no último
caso, ou seja, a voz do autor referenciada em terceira pessoa, a estratégia faz
imprimir certa objetividade ao discurso, mas com um ar de subjetividade mascarada.
A constatação destas três estratégias enunciativas somente nas
críticas pertencentes ao circuito alternativo revela -nos um pouco das representações
mobilizadas pelo agente -produtor ao empreender esse tipo de ação de linguagem.
Ou seja, parece que ele sente -se mais à vontade com o leitor de tais críticas, pois,
provavelmente, os como pessoas que entendem a arte cinematográfica
realmente como “Arte” eo simplesmente como uma forma de entretenimento
(forma de apreciar, normalmente, do público -alvo dos filmes ditos hollywoodianos
circuito nacional). Sendo assim, parece que o autor identifica-se mais com esse tipo
de leitor e, por isso, se expõe mais no discurso, diminuindo, assim, a distância entre
os interactantes.
quanto à inserção de vozes sociais, ela se revela por meio de
vários processos polifônicos: a ironia, o sub entendido, a frase-feita, a pressuposição,
a aspeação de palavras, etc. No caso das críticas CN, o processo de ironização é
bastante recorrente, associado, muitas vezes, com outros recursos polifônicos como,
por exemplo, a aspeação de palavras marcadas com o estranhas ao texto
deslocadas de seu contexto natural. A ironia é, para Lourenço Jorge, uma
ferramenta que ele se utiliza para ser menos taxativo em suas críticas, como se
fosse uma “medida saneadora” para ser usada nos casos em que a obra fílmica
deixa muito a desejar em termos de qualidade, criatividade, etc.
Quanto à marcação das modalizações , percebemos, por meio de
nossas análises, uma diferença acentuada entre os dois grupos que compõem
nosso corpus. As críticas referentes ao circuito alternativo, por trazerem, na sua
178
grande maioria, uma avaliação positiva dos filmes, a modalização age no sentido de
acentuar, confirmar o valor de verdade referente ao posicionamento do crítico, por
isso, a forte incidência de modalizadores lógicos asseverativos e a escassez de
quase-asseverativos. Já, nas críticas referentes ao circuito nacional, a apreciação
valorativa, quase sempre, tem uma polaridade negativa. Nestas, a modalização
aparece no sentido de atenuar uma avaliação desfavorável ao filme (uso de quase -
asseverativos e do delimiador “quase”) e, em alguns casos, é mobilizada para
“denunciar” uma reação emocional do crítico (quase sempre de cunho negativo)
frente ao que é posto no enunciado, caso em que podemos detectar a modalização
apreciativa.
7.3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na perspectiva atual de ensino, não como ignorarmos a
discussão acerca dos gêneros textuais no processo de letramento escolar, uma vez
que os variados usos de linguagem em situações socioculturais específicas
requerem ferramentas teóri cas e metodológicas que sejam sensíveis à linguagem
em uso. Na perspectiva do interacionismo sociodiscursivo (ISD), em que situamos
nossas reflexões, consideramos as práticas discursivas como situadas e mediadas,
e os gêneros de textos como construtos que existem antes das ações de um sujeito,
constituindo “reservatórios de modelos de referência” (MACHADO, 2005) dos quais
todo sujeito deve se servir para realizar ações de linguagem, mediando, portanto, a
atividade social.
Dessa forma, os gêneros se encon tram indexados às situações de
ação de linguagem, sendo portadores de valores de uso em uma determinada
formação social, dentro de um sistema de atividades. Nessa perspectiva, a
aprendizagem de gêneros implica aprender a agir na interação, produzindo um
enunciado que se apresenta em uma forma relativamente estabilizada sócio -
historicamente, mas adaptado no momento de sua adoção. Assim, escrever uma
crítica de filme exibido em uma sala alternativa de cinema (para um público que
busca um filme mais eruditi zado) é diferente de escrever uma crítica de um filme
exibido em circuito comercial (para um público que busca apenas entretenimento), o
179
que justifica a inexorável dependência do contexto de produção e das
representações sobre tal contexto para a produçã o e adaptação de um gênero
textual.
É justamente sob esse ponto de vista que deixamos as nossas
contribuições para o letramento escolar, ao trazer um estudo analítico -descritivo do
gênero crítica de cinema, sob o enfoque interacionista sociodiscursivo, a partir do
qual toda ação de linguagem está ancorada em um processo contextual de
produção. Para os envolvidos no processo de ensino da Língua Portuguesa, este
trabalho pode servir de modelo de abordagem da crítica de cinema em sala de aula,
dele sendo possível apreender algumas dimensões ensináveis do gênero base de
toda transposição didática. Embora o foco dos nossos estudos tenha sido a crítica
de cinema, o modelo de análise textual utilizado também pode servir de parâmetro
para a abordagem de outros gêneros. O trabalho que acabamos de realizar é o
início de uma trajetória pedagógica, ele se encontra nos bastidores do ensino, mas é
imprescindível para os resultados finais do letramento escolar, uma vez que pode
evidenciar efeitos significativos nas i ntervenções didáticas.
Embora não abordando todas as categorias de análise propostas
pelo ISD, uma vez que a extensão do trabalho não permitia (categorias estas a que
pretendemos nos dedicar em outra ocasião), esperamos que essa pesquisa
contribua não para a didatização do ensino de Língua Portuguesa, ou seja, como
modelo de abordagem textual/lingüística/discursiva/enunciativa do gênero crítica de
cinema no processo de letramento escolar, mas também como referencial teórico -
prático para a área de forma ção de professores de línguas.
Deixamos uma ressalva de que procuramos abordar o nosso objeto
de estudo da maneira mais didática possível, embora o referencial teórico, por
vezes, complexo demais, tenha nos levado para uma certo “acadentismo” natural
em uma dissertação de mestrado, mas “pesado” demais para alguns leitores não
familiarizados com os estudos bronckartianos.
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APÊNDICE
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APÊNDICE A
Entrevista com Carlos Eduardo Lourenço Jorge
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APÊNDICE A – Entrevista com Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Data: 05/06/2007
Entrevistadora: Eliana Merlin Deganutti de Barros
Entrevistado: Carlos Eduardo Lourenço Jorge
I. Perguntas para contextualizar a “pessoa” e o “crítico” Carlos Eduardo
Lourenço Jorge
1. Qual a sua naturalidade?
R: Sou natural de Belo Horizonte, nasci em 19 de agosto de 1948, sou quase
cinqüentenário.
2. Mora em Londrina desde quando?
R: No Paraná eu estou desde 1954, em Londrina desde 1967, mas praticamente em
Londrina desde 1954, po rque eu morei em Ibiporã muitos anos, e aliás, devo a
Ibiporã boa parte da minha formação cinéfila [...] Minha vida profissional sempre foi
feita aqui (Londrina). Eu nunca saí daqui atrás das coisas, as coisas vieram atrás de
mim aqui em Londrina. Nesse s entido, eu tenho que ser agradecido a Londrina, ao
Paraná. Eu gosto daqui. [...] um jogo muito conveniente: Londrina me o que
eu preciso e eu acho que, na medida do possível, eu entrego de volta coisas a
Londrina, seja através da minha atividade como jornalista, seja através da minha
atividade como animador cultural dentro da UEL.
3. Qual a sua formação acadêmica?
R: Eu sou remanescente de uma formação bem tradicional [...} Saí do clássico
pronto para fazer jornalismo em São Paulo e já com vistas às Ar tes Cênicas ou Artes
Visuais. Entretanto, houve um momento familiar que me impediu de sair para fora de
Londrina, assim tive que ficar aqui e acabei optando, dentro das escolhas possíveis
– Filosofia, Letras ou Direito por Direito, talvez por uma questão de ligação familiar.
Papai era advogado, e aquela história de ser um bacharel... talvez eu seja ainda
fruto do ranço do bacharelismo brasileiro. [...] Me formei em 19 de dezembro de
1971 e em janeiro do próximo ano eu já estava descendo do ônibus em São P aulo e
me matriculando na FAAP para fazer o curso de Cinema. Estudei de 1972 a 1974
(naquela época o curso tinha três anos hoje tem quatro) e sempre com vínculo
aqui em Londrina (meus pais tinham casa aqui) - trabalhava na Folha de Londrina
(desde 1969). Entretanto nunca exerci a advocacia: tenho diploma, juramento da
Ordem, OAB, mas nunca exerci a profissão. Nos anos 70 já estava me exercitando
na crítica assiduamente.
4. Já atuou como docente universitário?
R: Eu tive uma experiência. Fui convidado pelo CECA (UEL) para ministrar uma
disciplina chamada Elementos do Cinema e Teatro” (não existe mais), atuei, caso
não me engane, por três anos (1979/80/81 ou 1980/81/82 não me lembro bem).
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Dei alguns semestres da disciplina para o ano da turma de J ornalismo e
Educação Artística.
5. Dentro da área cinematográfica, quais as atividades que realizou ao
longo da sua vida profissional? E atualmente quais as suas atribuições
profissionais?
R: Como todo mundo que lida com Cinema, eu já fui fundador e anim ador de
cineclube. Para mim é uma tarefa muito ingrata, porque sempre quando começa um
cineclube um contingente de voluntários muito grande: a primeira reunião tem
100 pessoas, depois você marca a segunda, vêm 72, e depois a terceira, 48, e aí vai
diminuindo e quando você está sozinho passando filmes, alugando filmes,
escrevendo sinopse, sendo o porteiro, o bilheteiro, etc. – é um negócio muito ingrato.
Sendo assim, chegou um momento que eu disse “chega, não quero mais brincar de
cineclube”, então fui fazer crítica, fui ser profissional. Atualmente, sou chefe da
seção de Cinema e vídeo da Casa da Cultura (Londrina). Em 1976, trabalhando na
Folha, eu fui convidado para iniciar um setor de Cinema, o que hoje é a Casa da
Cultura (na época era Coordenadori a de Ação Cultural). Eu comecei a fazer
mostras, ajudei a fundar a Associação Londrinense de Cinema Amador (a ALCA) -
nos finais dos anos 70 –, um cineclube muito ativo [...] era uma atividade cinéfila
muito grande, mas sem deixar de lado o exercício da cr ítica, que era sagrado. Fui
convidado também para ser programador da sessão de meia -noite do estúdio Com-
Tour (em 1974), um cinema recém -inaugurado, que hoje é nossa sala alternativa em
Londrina. Então, eu comecei a fazer exibição, mas de filmes alternativ os, embora
não tendo número de filmes alternativos suficientes para preencher o calendário
anual. Fiz a programação lá, contratado profissionalmente por dois anos. Depois, por
razões que não tenho nada a ver, eles tiraram a seção de meia -noite e jogaram para
o Cine Vila Rica, que era da mesma empresa, e eu continuei programando. Em 1978
a Universidade recebeu “de bandeja” o Ouro Verde. Imediatamente, por uma
conseqüência natural [...] eu assumi a programação. No início, foram praticamente
filmes, porque não tínhamos palco não era um teatro. Tivemos que fazer aos
poucos adequações para que se transformasse em um teatro. Mas, enquanto isso, o
Ouro Verde continuou basicamente um exibidor. Essa atividade se prolongou até o
início dos anos 2000, mas com uma margem cada vez menor de exibição e cada
vez maior de espetáculos ao vivo: música, dança, festivais, teatro. A margem de
exibição foi diminuindo, a realidade mundial foi mudando [...] não fazia mais sentido
exibir no Cine Teatro Ouro Verde (capacidade para 1000 lugares) filmes chineses,
iranianos americanos independentes ou filmes brasileiros mais cabeças, porque o
público era mínimo. Até hoje o público é muito pequeno: nessa sala nova que
estamos programando, com capacidade para 500 pessoas, o público, dur ante a
semana, não passa de 20/30 pessoas por sessão. Enfim, o Ouro Verde deixou de
ter exibição e nós buscamos um espaço alternativo e acabamos encontrando (Com -
Tour). Essas são minhas atividades internas em Londrina dentro do âmbito da
Universidade. Agora, durante esses anos todos eu continuei indo muito a o Paulo
para eventos ligados ao Cinema: comecei a representar os Festivais de Cinema pelo
mundo afora a partir de 1975. No Brasil havia apenas dois Festivais: Brasília e
Gramado. Por uma questão de af inidade geográfica eu me aproximei de Gramado
festival que eu vou desde 1975 e pelo qual tenho imenso carinho, porque, de certa
forma, eu ajudei a formatá -lo em alguns momentos de desconcerto ou desvio de
rota. Eu conheço bem as pessoas que fundaram o Fe stival de Gramado, assim,
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passei, inúmeras vezes, a participar de reuniões, de etapas da organização. E,
desde 1990 (ou 1991) que sou coordenador de debate em Gramado debates de
longa e curta duração, segmento latino e segmento brasileiro. É uma coisa qu e eu
gosto muito, não ganho nada com isso, faço por imenso prazer. Adoro o Festival de
Gramado, tanto sofro como me alegro com as suas coisas. Sou co -autor do livro
“Trinta anos de Gramado” (tem uma participação minha lá dentro). É um Festival que
me fala muito de perto e não desmerecendo, em momento algum, Brasília. Brasília é
o decano dos Festivais está completando 40 anos, este ano e tem uma
importância imensa na inclusão do cinema brasileiro. Foi um festival que sofreu
muito com a ditadura nos anos mais ferozes da repressão militar. Brasília foi
amordaçada e, nesse momento, foi que surgiu Gramado: como uma opção, um
respiradouro para o pessoal de cinema daquela época. Gramado continuou, Brasília
voltou, e nesses últimos anos eu tenho ido nesses Festi vais a contive. Os Festivais
se multiplicaram pelo mundo afora. Hoje nós temos, no Brasil, um calendário
completamente absurdo, ultra congestionado, non sense puro, com mais de 100
Festivais. Não existe, acho que em país nenhum do mundo, por mais extensão
territorial que tenha, não existe nada parecido. Hoje, na Europa, principalmente, o
surgimento de outros festivais (além dos tradicionais: Veneza, Cannes, São
Sebastian, etc.) está ligado não ao apetite turístico de secretários de turismo, mas a
segmentação do Cinema. Ou seja, estão surgindo festivais muito interessantes, mas
com uma especificidade muito grande para poder atender não aos realizadores,
mas para buscar criar nichos de incentivo a alguns tipos de documentários, filmes
etnográficos, filmes antropológicos – tudo muito direcionado. [...] Estou cobrindo
Festivais internacionais desde os anos 90. Tenho ido regularmente a Veneza e
Cannes (dois festivais que elegi como necessários para minha alimentação). Tenho
canais abertos para o mundo, para dentro do Brasil, vou muito a o Paulo para ver
filmes em cabines [...], eu vou, faço uma maratona de quarenta e oito horas saindo
de sala em sala: são as chamadas cabines para a imprensa.
6. Desde quando atua como crítico de cinema na Folha de Londrina?
R: Em 1969 foi contratado regularmente pela Folha de Londrina. Fiquei de 1969 a
1987. 1987 foi o ano da grande grave da Folha, naquela oportunidade foram
despedidos aproximadamente 20 pessoas da redação, entre elas, eu. Eu fiquei
afastado da Folha de 1987 a 1991. Depois, foi chamado a voltar para cobrir
Gramado uma coisa bem setorizada. Eu cobri um, dois, três festivais e, de
repente, passei a colaborar novamente fazendo críticas das estréias. E, desde
então, estou em condição trabalhista bem típica, bem peculiar: eu não sou
contratado, sou colaborador, recebo através de uma empresa que tenho, mas sou
colaborador fixo [...].
II. Perguntas sobre o processo de produção das críticas cinematográficas (da
Folha de Londrina)
1. O senhor escreve críticas direcion adas tanto a filmes comerciais
(exibidos em circuito nacional) quanto a filmes exibidos em circuito
alternativo (filmes próprios de um contexto Arte e Ensaio”). No
momento de produzir as críticas, o senhor se posiciona de maneira
diferente em relação a es ses dois grupos?
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R: Evidentemente, há um rigor maior em relação aos filmes alternativos. A princípio,
naturalmente, um ponto favorável: eu sou programador da sala alternativa. Eu
não programo filmes que não gosto. Se o filme está lá, de alguma forma ele é
minimamente interessante para ser visto e tem motivo de reflexão. A proposta da
sala não é absolutamente original, é uma proposta que existe no mundo, que é criar
um segmento alternativo de filmes que sejam provocadores, que tenham temáticas
contemporâneas, que discutam idéias, que reflitam a situação do mundo, que
reflitam as questões existenciais individuais, as quentões coletivas, questões
políticas isso para mim é muito importante. Eu acho, acima de tudo, que a função
do cinema não é entretenimento , eu acho que a função do cinema é de abrir a
cabeça das pessoas. É, claro, se você conseguir que as pessoas também se
divirtam, acho maravilho. Mas, essa é a fórmula mais diabólica que existe: a arte e o
entretenimento de mãos dadas. Quando você tem doi s filmes como Babel e Boa
Noite, Boa Sorte , para citar dois exemplos, filmes de Cloney e Wood, eu fico
profundamente emocionado, porque você tem dois caras que, de certa forma, se
submeteram às regras fixas/imutáveis e perversas do sistema e estão trabalh ando
com grandes estúdios. Há um mínimo de liberdade, um jogo de cintura para que eles
se movimentem nisso. Porém, em nenhum momento, os dois filmes deixam de ser
autorais. A questão autoral é uma questão fundamental nessa história da causa
alternativa. Autoral significa que por trás de cada filme uma cabeça pensante e
essa cabeça pensante é fundamental. Claro, filme é trabalho em equipe. Mas, por
trás, há uma cabeça imprimindo uma direção ideológica.
2. E quanto ao público-leitor de cada um desses grupos, que imagem o
senhor faz deles (grau de escolaridade, fa ixa etária, classe social, área
de interesse, etc.)? O senhor conscientemente escreve direcionado para
esse determinado público?
R: Não. Eu sei que existe um perfil bastante definido do público consumidor de
Homem Aranha, das comédias românticas, dos “ban cos de sangue” (como eu
chamo os filmes de terror). Existe as faixas etárias, as camadas de público: os
adolescentes, os teens, uma faixa mais velha. Digamos, há uma radiografia. Mas, eu
não escrevo conscientemente direcionado a um certo público. Também o escrevo,
e nunca escrevi, para mim esse é um ponto que eu acho bastante importante. E
também não escrevo para amigos [...] Mas, eu estabeleci uma meta de critérios de
crítica que converge para a palavra “ponte”. Eu pretendo (sempre pretendi) ser a
ligação entre o espectador médio, comum, anônimo e aquilo que está na tela. Aquilo
que está na tela pode ser uma obra prima ou pode ser a mediocridade absoluta. Eu
procuro fornecer (não sei se consigo) alguns elementos que eu considero
fundamentais para que, n ão só em relação ao filme especificamente que eu trago na
crítica, mas a outros que virão (isso é uma coisa subliminar, subentendida), as
pessoas tenham um mínimo de ferramentas para exercerem seu juízo de valor. Eu
peco muito, evidentemente, nas minhas cr íticas sendo sentencioso. Mas procuro
fazer isso com a maior elegância possível, não sendo tão taxativo [...] é nesse ponto
que eu me valho de uma ferramenta (uma questão de estilo) que eu prezo, que é a
ironia. Costumo ser irônico. Às vezes, sou mordaz, à s vezes, dependendo da
situação, eu sou ferino. Eu acho que essa é uma ferramenta que eu possa não
usá-la, eu sendo o agente, mas eu posso facultar o uso desta para também quem
ou quem assiste ao filme [...] Você pode ter espectadores de determinados filmes,
eventualmente, saindo do cinema e trabalhando aquilo que acabaram de ver de uma
198
maneira irônica, debochando do filme. Eu acho que existem filmes cujo coeficiente
de qualidade é tão precário que, ou você ignora totalmente o que não é o caso,
tem que dar, pelo menos, uma mínima satisfação, que sejam dez linhas ou você
remete isso para um contexto que foge do rigor da crítica. Não é bem um deboche,
você pode trabalhar de uma maneira até, eu diria, beneficamente responsável. O
fato de você estar denegrindo aquilo, não de uma maneira pejorativa, eu acho muito
positivo, muito benéfico, quase como uma medida saneadora. Em Brasília, o ano
passado, tivemos um seminário sobre crítica, e foi colocada uma pergunta muito
interessante: “Se o diretor do filme não vai ler aquela crítica, com aquelas suas
observações, a quem se dirige aquela crítica?”. Ou seja, ele não sabendo, ele tende
a repetir [...] Eu acho que o fato de você estar inoculando o germe da desconfiança
ou da inutilidade daquele objeto que está n a tela para um grande número de
pessoas (pressupõe-se que haja um grande número de leitores naquele meio), eu
acho que isto vai estar, de alguma forma, sendo transformado em recado indireto
para aquele diretor é um processo bastante longo, cheio de etapa s. [...] Mas, eu
acho que é minimamente o que você pode fazer. Agora, o fato do diretor não ler a
sua crítica negativa sobre o filme, eu acho que isso não pode ser levado em
consideração para que você deixe de fazer a crítica.
3. Como leitora das suas crít icas, percebo que sempre um recorte
temático pelo qual a crítica se desenvolve, ou seja, ora se prioriza a
figura do diretor, ora a atuação do elenco, etc. O senhor procura variar
esse enfoque ou esse critério advém da própria obra comentada?
R: Eu acho que ele advém do próprio filme. filmes que deixam muito claro o
ponto focal. Você tem, às vezes, um filme que não tem um grande elenco, você o
tem uma direção marcante, você tem uma fotografia burocrática, enfim, o filme não
se sobressai em nenhum desses aspectos. Mas você nota que o um filme é bem
escrito, um roteiro por detrás bem urdido, bem amarrado, e isso é uma virtude
que você procura puxar. E, hoje, cada vez mais, os filmes estão mal escritos na
indústria em série, principalmente, isso é o que menos importa. E olha que
Hollywood foi a grande usina de roteiros, mas hoje você tem uma linha medíocre
bastante evidente de gente que não escreve, porque os efeitos estão escrevendo
por elas, assim, você substitui um recheio densamente atraen te por vácuos em que
os efeitos especiais entram [...] e vende -se, porque vende-se, isso não tem a menor
dúvida. Às, vezes, vosente logo de cara, nos primeiros dez minutos, uma mão de
direção forte. Eu ainda tenho boas surpresas, mas de um modo geral, n ão. De um
modo geral eu saio meio cabisbaixo, ansiando muito por uma coisa que está em
baixa, que é a originalidade. Você não vê nada de novo. É uma preguiça das
pessoas em escrever bons argumentos, transformar aquilo em bons roteiros, porque
o primado da técnica, ou melhor, não da técnica, mas da tecnologia, ou seja, é a
técnica elevada à enésima potência [...].
4. Dentro da área dos estudos da linguagem, classificamos o gênero
crítica como um discurso da ordem do expor argumentativo,
materializado em um texto que se organiza em torno de uma
premissa/tese, no qual o autor procura defender essa tese e para isso
lança mão de argumentos e contra -argumentos para conseguir a adesão
do leitor, ou seja, para convencê -lo a “compartilhar” do mesmo ponto
199
de vista do autor. Quando o senhor escreve uma crítica, tem a intenção
consciente de convencer o seu público a aderir ao seu ponto de vista em
relação ao filme que critica?
R: Eu acho que você tem a ilusão que você pode estar influenciando pessoas, sem
estar naquela pilha de livros de auto -ajuda, sempre tenho esse otimismo. Eu tenho
alguns retornos muito interessantes [...] Meu e -mail não aparece no jornal para
estabelecer algum tipo de diálogo. Caso isso acontecesse seria alguma coisa muito
escondida, porque nã o é um blog, seria uma troca de e -mails as outras pessoas
não ficariam sabendo [...] Hoje, o blog é uma coisa que está me enfeitiçando, porque
não você vai estabelecer esse contato mais familiar com seu público, vai saber
quem é que lhe lê, quem é que lhe gosta ou que lhe desgosta e porque e isso é
muito importante. E também, às pessoas vai ser dada a ver o outro crítico que, por
algumas questões, não está na mídia impressa hoje. Eu gostaria muito de me soltar
mais, gostaria de ser muito mais coloqui al naquilo que escrevo, mas alguns
freios, não são freios inibitórios meus, mas freios inibitórios do jornal, como o
espaço. A questão do espaço é ultra -perversa [...] A questão da argumentação para
formar o convencimento do meu leitor... Quando eu esc revo, eu tendo a uma certa
prolixidade, procuro classificar as coisas, mas o raciocínio nem sempre é claro,
então eu preciso de um segundo parágrafo para remeter ao anterior e para anunciar
o próximo e isso significa espaço. E o espaço editorial hoje... você está muito
policiado, e tem também a questão da ilustração: o jornal precisa abrir espaço para
foto, para ilustração. O leitor hoje é muito mais voyeur do que leitor. Ele tem
preguiça de ser voyeur no texto porque as fotos entregam muita coisa. E as f otos, de
certa forma, informam coisas a esse leitor apressado [...] Temos também a questão
da notícia encapsulada . Hoje, cada vez mais, as pessoas querem saber tudo no
menor espaço de tempo, no menor número de linhas, e de maneira mais atraente
possível. E isso é um desafio para o crítico que tem a crítica como ofício e que vem
ao longo dos anos trabalhando isso: votem que se moldar ou senão “quebra o
braço”. Eu tenho tido uma experiência muito interessante no site da Sercomtel.
Quando me disseram “Vo vai ter 2000 caracteres”, pensei “O que vou escrever
com 2000 caracteres?”. Então, passei a escrever e ir me controlando. É preciso
aprender a não considerar esse controle um entrave na qualidade do texto [...] às
vezes, termino o texto com 2180 caractere s, então é que vem o lado curioso da
história: eu começo o enxugamento, os cortes. Tenho descoberto que você começa
a ver o valor das suas palavras, o que elas representam, o pecado da adjetivação
[...]. Posso dizer que tem sido útil, tem sido um exercício doloroso, mas, ao mesmo
tempo, muito gratificante, porque está me colocando nos eixos não estão me
colocando nos eixos, eu estou me colocando nos eixos. Agora, não gostaria de abrir
mão do meu espaço (na Folha). Recentemente, para cobrir Cannes, foi ter rível,
piorou em relação ao ano passado e o ano passado tinha piorado em relação ao
anterior [...]
4.1E quanto às frivolidades inseridas nas críticas, o que o senhor acha?
R: A crítica hoje se divide em três: 1) a encapsulada: que é a comprimida, que voc ê
tem que estar vigilante o tempo todo [...]; 2) a crítica mais tradicional : que ainda
consegue algum espaço e que você pode trabalhar um argumento que pode formar
o convencimento do leitor mais paciente; 3) e tem uma forma hibrida, que se
convencionou chamar de reporcrítica, que traz uma argumentação e, ao mesmo
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tempo, contrabandeia [...[ informações do tipo “fofoquinhas” [...] Este é um tipo de
informação que o leitor contemporâneo está procurando [...] É um misto de Contigo
com Admirável Mundo Novo... há uma veia artística aí [...] Quando eu viajo, eu tenho
mais facilidade em obter esses dados, porque eu estou no foco das coisas [...] Eu
tenho que ser ágil, eu tenho que ser flexível, eu tenho que ser repórter [...] A tal da
repor-crítica surgiu esse bicho de sete cabeças, não sei? – mas é uma fórmula que
está aí, está sendo utilizada, porque as pessoas querem saber se o orçamento do
filme foi 178 milhões. O lançamento no Brasil, eu tenho que colocar, e tenho posto
no meio da crítica, eu pego o telefon e e ligo pra a Fox: “Quantas cópias estão
lançando do filme x?”. um tempo eu não tinha porque saber isso. Esse é número
que meu leitor vai saber e vai confiar em mim [...]. uma alquimia, eu acho que
você tem que sentir o feeling do momento, e o momen to é o agora. Cada vez mais,
críticas de páginas inteiras como existiam no Correio da manhã e críticos -filósofos
como Paulo Emílio, Antônio Muniz Viana deixarão de existir [...] Não é possível você
fazer uma crítica dessas em parágrafos contados, como acon tece hoje em dia [...]
Você tem que adequar o seu pensamento a um determinado espaço [...].
5. Uma das maneiras de argumentar é trazer para o texto vozes
consagradas, como é o caso de falas de diretores dos filmes. Como o
senhor trabalha essa estratégia argu mentativa nas suas críticas? O
senhor acha que ela é mais utilizada em relação aos filmes do circuito
nacional ou alternativo? Ou não há diferenças?
R: Existem fontes que você pode consultar, que são entrevistas com diretores a
determinadas revistas, jorn ais que se tornaram matéria pública. Você pode, de
repente, puxar aspas e colocá -las no seu texto ilustrando um pensamento seu ou
puxar um pensamento seu a partir dessas aspas o processo pode ser de mão
dupla. Agora, desde que eu comecei a freqüentar os festivais, eu tenho buscado
essas aspas ao vivo e a cores, pessoalmente que é uma questão de confiabilidade
na fonte [...] Eu tenho buscado essas aspas diretamente das pessoas com as quais
eu tenho ponto de contato ou que eu quero saber mais a respeito [ ...] Na maioria das
vezes, não são pessoas glamurosas para o jornal [...]
6. Das 10 críticas que eu analiso, em apenas uma o senhor usa o pronome
pessoal de primeira pessoa do singular para se expressar. uma
preocupação em não expor a pessoa do crítico Ca rlos Eduardo, ou seja,
de esconder, de impessoalizar o discurso do autor, não levando o seu
posicionamento para um plano pessoal, ou o senhor considera que essa
impessoalização é uma característica do discurso da crítica?
R: Eu considerei própria do gênero, uma coisa distanciada, uma terceira pessoa,
colocar o espectador nesse contexto, transformando -o em terceira pessoa. Agora,
muito eu deixei de usar por uma questão de timidez de usar a primeira pessoa, de
não chamar a atenção para minha pessoa, par a minha opinião. Mas de uns tempos
para eu tenho me convencido de que eu passei a ter mais resposta das pessoas
me colocando mais (“Na minha opinião”, “Eu acho”) houve uma quebra de gelo,
uma aproximação, uma quebra de cerimônia, enfim, eu nunca quis essa cerimônia,
eu nunca quis para mim um pedestal. Agora, eu sinto que há uma aproximação. Eu
sempre tenho colocado nas minhas preleções, nas minhas aulas que fui convidado a
dar, palestras que o que faz a diferença entre vocês e eu, é o fato de eu estar aqui
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sozinho e vocês estarem me ouvindo e que, por uma série de circunstâncias ao
longo do tempo, eu me transformei em um especialista de cinema e tenho, de
alguma forma, um diferencial de conhecimento em relação a vocês [...]
7. Quando o senhor escreve uma crítica tem a preocupação de verificar
qual a imagem que está passando de si mesmo no texto?
R: Não. Posso parecer arrogante, pretensioso, auto -suficiente. Eu vi uma série de
coisas assim, mas nunca me preocupou a ponto de mudar. Nunca cheguei ao pon to
de dizer “vou tornar isso mais terreno [...]. O fato de eu estar um pouco mais alterado
em relação ao filme ou o filme ter me alterado, pode ser que me deixe com uma
certa..., mas de modo geral, não.
8. Como o senhor procura textualizar posicionamentos ne gativos em
relação ao filme? uma preocupação em modalizar o discurso,
relativizar os fatos, ou seja, não deixar a crítica tão “ferina”, tão incisiva?
R: Eu acho que eu posso confessar isso para você. Em algumas circunstâncias,
diante de alguns filmes, eu confesso que... uma coisa que eu aprendi é que nunca
se deve fazer uma crítica imediatamente após ter assistido ao filme, deve haver um
período de assentamento aí. Eu procuro tomar um café, sair, dar uma volta,
espairecer. Algumas coisas passam a ser ma is imperativas na minha cabeça e
outras eu abstraiu, mesmo. [...] Eu exerci e continuo exercendo isso cada vez
mais a questão de ser humilde e reconhecer certas posições, eu não diria
arbitrárias, mas certas posições que podem ser conciliadoras em um determinado
momento. Em alguns momentos eu fui inflexível, e não me arrependo em dizer isso,
mas me arrependo de certas posições isso eu acho fundamental, consegui essa
humildade de repensar certas coisas. Eu acho que os anos me deram maior
maturidade para rever, repensar alguns filmes que ganharam muito em relação à
minha primeira abordagem [...]. Eu acho que filmes que mereceriam talvez maior
crueldade da minha parte, eu arrefresco um pouco, eu tiro um pouco o pé do
acelerador, eu refreio um pouco as zonas de atritos, deixo mais palatável, edulcoro
um pouquinho mais, não a ponto de deixar aquilo um objeto... mas, menos “raivoso”.
9. O que o senhor prioriza ao fazer o resumo do enredo? Há a preocupação
em preservar os conflitos da trama? As resoluções desses conflitos?
Não revelar o final? A intenção é instigar o leitor a assistir ao não
assistir ao filme?
R: Eu acho que depende muito de filme para filme. Eu acho que há argumento que é
absolutamente necessário você reportar com um certo grau de detalha mento,
outros que você pode omitir uma série de coisas que não vai prejudicar em nada o
filme. Quanto à questão da revelação do final, eu fui cobrado uma ou outra vez
“Você contou o final do filme?”. Eu não faço parte dos cultores do final -surpresa [...]
A questão do resumo, de certa forma, foi imposta por essa nova modalidade de leitor
que quer ser informado sobre... Você tem na programação de cinema (sala tal, filme
tal) uma prévia de três ou quatro linhas (às vezes, um pouco mais) que é, digamos,
o grosso, e aí, no bojo da crítica você tem um parágrafo ou dois [...] Dessa forma, e
com muita freqüência, essa informação, ou seja, essa revelação da trama, serve
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como coadjuvante de colocação de certos conflitos ou estabelecimentos de pontos
de interesses que eu acho que devo puxar. Se for uma trama psicológica mais
aguda, você tem, às vezes, a definição de um personagem [...] Essa informação vai,
de certa forma, justificar alguma coisa que eu possa dizer mais para frente [...] Eu
procuro que as coisas tenham um sentido mais coeso [...] Mas, de maneira
nenhuma, tudo isso é uma regra. Eu acho que muito do pressuposto, do interesse
de quem escreve é justamente você ter variações em cima de um tema: eu posso
me estender mais na revelação da trama, em um det erminado filme, posso ser mais
econômico, mais sucinto. Há um desejo extremamente ardente da minha parte que
eu esteja sendo lido por pessoas inteligentes [...] Mas, eu não posso, não devo me
esquecer que a equalização de QIs sobre a face da Terra não é “e qualizada”, não é
a mesma, e que de repente, eu posso estar me dirigindo a alguém que talvez tenha
um grau menor de facilidade, mas que está interessado, que quer chegar... e isso é
um ponto muito complexo como fazer isso? Como não ser condescendente em
demasia para com essa pessoa, deixando os mais dotados... É muito complexo isso.
Os filmes vão ditar um pouco isso: a procedência, o objetivo, eles vão de certa
maneira cadenciar essa minha proposta textual.
10.O senhor vê alguma diferença nas críticas que o senhor escreve para a
Folha de Londrina e as críticas escritas exclusivamente para a internet
(para os websites especializados em cinema)?
R: No caso da Cineweb, não [...]
11.Como funciona a questão do espaço de publicação das suas críticas na
Folha de Londrina? Há um número de caracteres mínimo e máximo?
R: (O espaço), de semana para semana muda. É particularmente doloroso quando
os dois Multiplex da cidade informam que as estréias são seis. Então é um Deus nos
acuda, porque você tem que atender ou, pel o menos, registrar metade delas de uma
maneira muito superficial para poder, priorizando os lançamentos nacionais... Você
tem que priorizar a qualidade que, em geral, está na sala alternativa: você tem mais
qualidade lá para falar. Mas, é muito difícil, vo cê tem que ilustrar cada uma delas. Eu
tinha uma página, agora essa página ganhou uma carona que é uma coluna sobre
CDs. Ou seja, eu fiquei com um espaço ainda mais reduzido. Eu tenho feito o
seguinte: arbitrariamente, eu tenho decidido certas coisas à r evelia do editor “Oh,
fulano estou lhe passando 38, 40 linhas desse filme, pois eu acho que o pode ser
menos, junto com essa ilustração; vou fazer mais um pouco (20 linhas mais ou
menos) do segundo filme, e o resto, a gente faz outro dia, se der”. Ou s eja, nós
temos ignorado alguns lançamentos a não ser como notícia (filmes novos
chegando ao circuito local) [...].
12.Suas críticas são passadas por alguma revisão editorial ou são
publicadas da forma como são escritas?
R: Esse é um problema que está me angustiando. Eu escrevo em casa, não trabalho
na redação. Escrevo em casa e mando por e -mail para a Folha os textos e as
ilustrações. O que acontece é o seguinte: eu tenho um tempo de fechamento eu
não tenho tempo de estar redigindo com calma. Muitas vez es, eu redijo no decorrer
da produção [...] Eu não estou tendo, no destino final, (não sei se por falta de tempo
203
ou confiança total na origem)... Sei que tem saído coisas que eu tenho me arrepiado
[...] Hoje, a figura do revisor de texto sumiu, não existe mais revisor [...] E, não
você, mas também o computador anda fazendo... é duro e comprometendo
muito: comento letras, comendo vírgulas. Por enquanto, isso está insolúvel. E estou
tendo que confiar cada vez mais em mim, me dando um pouco mais de temp o para
fazer uma leitura final rigorosa, antes de mandar o texto.
13.Como funciona o ato pré -textual de uma crítica? Ou seja, como é a
preparação para escrever uma crítica de cinema? (em que lugar assiste
aos filmes, com quem, troca idéias com outros crític os, assiste por
“prazer” ou como uma atividade de trabalho? )
R: Eu tenho visto, e vejo muitos filmes em São Paulo, em cabines que são
oferecidas à imprensa, no mínimo, 15 dias antes do filme entrar em cartaz. Eu viajo
para São Paulo e me encontro com... porque são cabines para os grandes veículos
de São Paulo, revistas e jornais. Eu vou, me encontro com as pessoas, a gente se
fala na entrada e se despede na saída, porque cada um vai para um canto. Então,
sobre os filmes em si, não trocamos praticamente u ma palavra [...] Durante o filme,
durante a projeção, você já tem uma noção do que vai acontecer, acaba se situando,
se localizando. Antes de entrar você tem acesso à sinopse, nota de produção,
informações que lhe informa sobre o que você vai ver. Agora, e u vejo sempre filmes
inéditos. Com essa história de combate à pirataria, cada vez mais os filmes estão
partindo para as simultâneas para que não haja vazamento. Ou seja, a gente está
vendo antes de o mercado americano receber o filme. Não existe coisa me lhor do
que sair de uma casa em Cannes, por exemplo, ou de uma Premier Mundial, você
tentar, mesmo que com pouco espaço, estar fazendo a primeira resenha crítica do
filme você supõe que a primeira do mundo seja a sua, mas é claro que tem
milhares de jornalistas que estão fazendo as suas e mandando para os seus
veículos. Eu volto para Londrina e fico aguardando o lançamento: na sexta tem o
lançamento, na quinta eu sento e produzo a crítica, dentro, é claro, dessas
restrições, dessas delimitações.
III. Perguntas sobre o gênero crítica de cinema
1. Na sua opinião, o que deve saber um crítico para exercer sua função
de maneira satisfatória? Quais as competências que ele deve ter?
Essas competências são adquiridas /desenvolvidas no curso de
jornalismo?
R: Uma formação humanística, acho que é fundamental. A formação técnica,
técnico-cinematográfica. O conhecimento da história do cinema, arquivologia,
estética, - isso é fundamental [...]. Eu acho que a Folha de S.Paulo é o jornal mais
leviano da face da Terra . Eu gosto muito do Estadão, mas a Folha de S.Paulo
perdeu-se nos infográficos da vida (tem dia que faltam os críticos principais e passa -
se sem nenhum demérito para a mulher do cafezinho ou para a faxineira de plantão
[...] é claro que é uma comparação ba stante cruel ou extremada, mas, de certa
forma, eu vejo algo muito parecido com isto). É uma questão de estabelecer e definir
competências [...] exemplo, eu tive uma disciplina de teatro, no curso de Cinema da
FAAP, mas não me sinto preparado para escrever sobre teatro.
204
1.1Existe uma formação específica para crítico de cinema?
R: No curso de Cinema você tem a crítica de cinema que, exatamente, vai ver a
história do cinema... e várias disciplinas como a metodologia da crítica, mas não vejo
nada de muito estanque.
2. Que tipo de influência o senhor acha que a crítica exerce tanto no
público-leitor como no sucesso ou insucesso de um filme?
R: No Brasil não. No circuito alternativo, talvez um pouco mais. Agora, nos EUA a
crítica de montagem de espetáculos é a mai s determinante, capaz de determinar a
sobrevida de um espetáculo [...] Agora, a crítica de cinema não tem o que... As
companhias costumam fazer o que eles chamam de sneakes break: são algumas
sessões prévias em que o público convidado tem o poder e a ca pacidade, enquanto
público leitor, de até propor uma alteração no final do filme; na saída um
questionário, eles votam, colocam na urna, depois o estúdio produtor retira aquilo e
“olha, o filme não vai funcionar, ou o filme teve aprovação [...]. No Brasil, não
existe isso, uma que os filmes já vêm pronto de fora como fracasso ou como
sucesso.
2.1E essa pré-avaliação influencia na hora de escrever a crítica?
R: Influencia como informação ao leitor [...] Eu lido como uma informação (entra
naquela história da repor-crítica que eu, particularmente, não gosto de fazer; faço,
mas, não gosto)
3. Devido às transformações que vêm sofrendo o mundo jornalístico,
parece que hoje em dia há uma discussão em torno do que seja
realmente uma crítica de cinema dentro de um jornal ou revista.
Como o senhor descreveria o gênero crítica de cinema?
R: A crítica, hoje, está muito mais direcionada ao showbiz, está muito mais
direcionada para a informação supérflua. Se você tiver a capacidade, a teimosia de
conseguir inocular um pensamento, digamos, mais ou menos sério nisso, eu acho
que você vai estar no lucro [...]. Eu acho que se houver essa capacidade de
contrabandear uma coisa séria, acho que você vai estar no lucro. Agora, não
podemos esquecer-nos do novo espaço que se abr e (que se abriu, e que tem
aberto) na web. Vários amigos meus que faziam críticas impressas estão até
passando fome, mas, pelo prazer de manter os seus princípios, digamos, de
rigidez... [...] Dois exemplos: Contracampo [...] e Cinética [...]
3.1Que público-leitor é esse das revistas especializadas da web?
R: Esse público da repor -crítca você o vai encontrar ali, mas há um público
acadêmico que acredito que possa ser mantido fielmente.
3.2As Universidades têm revistas acadêmicas com críticas de cinema?
R: Não. Que eu saiba, não. Até andei conversando com a UEL... mas é
complicado.
205
4. O senhor considera que escreve críticas de cinema ou prefere dar
outro nome aos textos que escreve para a Folha de Londrina?
R: Cada vez mais o texto que escrevo está virand o resenha, não me iludo: “você leu
minha crítica?”. Eu fico com o atrás quando eu vou perguntar: “olha, eu estou
mandando minha crítica (crítica? Como eu fiz em outros tempos, como eu gostei de
fazer, como eu gosto de fazer e como eu não tenho feito mais). O grau de
superficialidade está cada vez mais estampado. Eu já cheguei a fazer críticas que eu
considero insites, quase insites a respeito de determinados filmes nas quais, de
repente, você se despede do filme no meio do texto e se ao direito de “viajar”, de
falar sobre movimentos de cinema, de evocar outros tempos, outros diretores, de
trabalhar em cima daquilo, de buscar, comparar viagem muito proveitosa, não é
nenhuma demonstração de erudição, mas acho que há uma complementaridade nas
coisas: você vai enriquecendo seu texto com informações que você tem, que você
transforma em elementos de formação, de fato. Na verdade, essa deveria ser a
função da crítica: o ato de formar o senso crítico das pessoas, sem nenhum
pretensiosismo nisso. Oferecer (a história da ponte) ferramentas mais fecundas,
melhores e mais afiadas para que as pessoas possam (ou pudessem) trabalhar seu
senso crítico.
5. Para finalizar, o senhor considera a crítica necessária nos dias de
hoje?
R: Se eu dissesse que não”, estari a disponibilizando o meu ganha pão [...] Mas, eu
sou um otimista, eu acredito naquilo que eu faço, eu acredito numa finalidade maior
do cinema. Eu não sei o que as pessoas podem incrementar ao seu lado humano
com bobagens do tipo “custou tanto” ou “fulano estava com dor de cabeça no dia da
filmagem” ou “tropeçou e quebrou o braço” isso não vai adicionar nada em termos
de melhoria da humanidade. Existem filmes sérios, continuam a existir um público
potencial muito grande nesse mundo que pode tirar um bom p roveito desses filmes.
E nada melhor que nesse meio campo entrar um crítico como condutor dessa
relação. Eu acredito nisso, apesar de não andar com vendas nos olhos estou com
os dois olhos bem abertos com essas transformações todas que, afinal de contas,
são chamadas de “bolhas da História”. Ou seja, se você não pega o bonde você é
atropelado. Mas, eu acredito muito nas novas gerações. alguns críticos que eu
conheço que têm a cabeça muito boa e que, de repente, podem encontrar uma
fórmula que nós não s oubemos ver: eles podem ter esse dom de conciliar o útil com
o inútil [...] E isso é fascinante, porque está em aberto e você está participando de
tudo isso, não está parado no tempo, está acompanhando tudo. É preciso ter o bom
senso de observar isso, sabe r diferenciar as coisas.
206
ANEXOS
207
ANEXO A
Crítica 1-CA
208
ANEXO A – Crítica 1-CA
CINEMA/ESTRÉIA - As super-mulheres de 'Free Zone'
Estreando na cidade, três ótimas atrizes estão no centro de um conflito onde tod as as partes
têm razão
Existe uma área geográfica, ao noroeste da Jordânia, na
qual as transações comerciais ocorrem à ma rgem da lei.
Uma zona privilegiada, isenta de impostos fronteiriços e
taxas alfandegárias, onde é particularmente proveitoso
comprar ou vender qualquer tipo de mercadoria. Automóveis
de marcas famosas, por exemplo.
O título do filme que entra hoje em exi bição em sala
alternativa, ''Free Zone'' (confira a programação de cinema
nesta página, remete a este pequeno oásis de fronteiras
abertas e de miscelânea cultural. Um lugar em que, segundo
o cineastaa isarelense Amos Gitai (a pronúncia é Guitai),
''pessoas do Iraque, Egito, Síria, Arabia Saudita, Israel e da
própria Jordânia se relacionam umas com as outras,
compartilhando experiências, comida e projetos de futuro,
completamente alheias aos conflitos bélicos ou de qualquer
outra espécie que, por desgraça e com demasiada
frequência, afetam seus respectivos países de origem''.
Três mulheres muito diferentes entre si protagonizam ''Free Zone''. A mais jovem é norte -
americana. Outra, de caráter mais forte, é israelense. A terceira, sensível e misteriosa, é
palestina. As três unem seus destinos naquela citada zona de comércio. Ao longo da
narrativa, o espectador vai conhecendo as reais motivações de cada uma delas.
Rebecca (Natalie Portman, atriz de origem israelense), filha de pai judeu e mãe não judia,
acaba de romper com o noivo Julio (Aki Avni), israelense de origem espanhola. Discute com
ele, sai correndo e entra num táxi, conduzido pela autoritária, resoluta e sincera Hanna
(Hanna Laszlo, melhor atriz ano passado em Cannes). Tornam -se amigas. E decidem fa zer
uma viagem até a fronteira. Lá, Hanna deve resolver assunto econômico relacionado ao
marido.
Leila (Hiam Abbas), reservada, educada e submissa, é a terceira personagem que se une às
outras duas. Estas três mulheres vão tratar de se entender e resolve r suas diferenças e
seus conflitos. Claro que o aspecto humano resulta indissociável do político, e esta é uma
especialidade do israelense Amos Gitai, diretor pouco conhecido no Brasil que pratica um
cinema de rigor formal e sempre aberto às inquietações c ontemporâneas.
Divulgação
Em ''Free Zone'', o aspecto
humano resulta
indissociável do político,
num filme aberto às
inquietações
contemporâneas
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=13688&dt=20060715>
209
ANEXO B
Crítica 2-CA
210
ANEXO B – Crítica 2-CA
Receita argentina de cinema popular
''Clube da Lua'', em lançamento na cidade, mostra a cara e a determinação de um povo
Se a seleção Argentina jogar hoje com a mesma obstinação
dos personagens centrais de ''Clube da Lua'', não haverá
força em campo ou torcida alemã capaz de mudar o
destinatário da vitória. O filme, que está a partir de hoje no
circuito local (confira a programação de cinema na página 2),
no entanto não é sobre a paixão futebolística dos vizinhos,
de resto tão fanáticos pelo esporte como nós.
O clube a que se refere o título brasileiro é aquele social de
bairro, velha e muito particular instituição portenha. Na
maioria fundados lá pela metade do século passado por
imigrantes espanhóis ou italianos, eles existiram em grande
número em Buenos Aires como espaços ao redor dos quais
girava a vida dos bairros habitados pela pequena burguesia.
''Clube da Lua'' narra a tentativa de algumas pessoas para
impedir que um desses locais seja transformado em cassino.
O diretor Juan José Campanella declarou que ''O Mesmo Amor, a Mesma Chuva'', ''O Filho
da Noiva'' e ''Clube da Lua'' formam uma trilogia sobre a classe média argentina. O primeiro
estava centrado num personagem, o segundo numa família e finalmente o terceiro numa
comunidade. Mas de qualquer mane ira, o tema que unifica estes três títulos é bem mais
convincente e menos ambicioso: a crise vital de um homem de meia -idade (o sempre
magnífico Ricardo Darín) que enfrenta o reconhecimento da perda de ilusões da juventude e
a incerteza quanto ao futuro.
Seduzido por esta proposta - também um filme metafórico sobre a resistência, o embate
entre a tradição emblemática e o novo globalizado -, o público argentino transformou ''Luna
de Avellaneda'' (o nome do clube/bairro) num dos grandes sucessos do cinema d aquele
país. Filme ao mesmo tempo descritivo e simbólico, ''Clube da Lua'' se beneficia em tempo
integral da narrativa segura, do desenho até mesmo excessivamente detalhado dos
personagens, do engenho na construção dos diálogos, de uma ternura quase sempre
enamorada com o bom humor.
O bom do cinema de Campanella é que ele busca e encontra um tom popular, que fala de
perto ao espectador argentino mas também não se nega ao olhar e ao sentimento de
platéias universais. Produção cuidadíssima, cara, sabe como entreter sem cair na
simplificação ou no esquematismo. Tem suficiente charme e muita habilidade para, a
exemplo de ''O Filho da Noiva'', construir uma genuína comédia de costumes com situações
dramáticas, sem no entanto torná -las triviais.
Atenção para o prólogo e o epílogo, após os créditos: eles resumem admiravelmente todo o
humor colocado ao longo do filme. E o elenco, Darin à frente soberano, é de uma
competência a toda prova. Fazem falta, na América Latina, filmes com esta alma, esta garra.
A mesma que estará em campo hoje, nenhuma dúvida. E isto, bairrismos à parte, é preciso
respeitar, na vida real ou na ficção.
Divulgação
'
Clube da Lua': tom popular
do filme não se nega aos
sentimentos das platéias
universais
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=33216&dt=20060630>
211
ANEXO C
Crítica 3-CA
212
ANEXO C – Crítica 3-CA
Quando a normalidade é aparente
‘A Dama de Honra’, em lançamento na cidade, é thriller criminal com forte viés psicológico
Em conversa com o crítico francês Michel Rebichon, da
revista Studio, à saída da sessão para a imprensa de ‘‘A
Dama de Honra’’, no Festival de Veneza de 2004, ouvi
dele que o diretor Claude Chabrol faz sempre o mesmo
filme. Perguntei se a observação era uma crítica, espécie
de acerto de contas doméstico. Ele ent ão argumentou que
o propósito de Chabrol era cada vez mais depurar o olhar
para alcançar a máxima precisão no traço, a maior
concisão na construção de suas histórias e a mais
maliciosa e fina sutileza para obter incômoda e
provocadora ambigüidade. Nada mai s pertinente. O filme,
um fascinante convite à reflexão acerca do mal que se
esconde sob a aparência mais corriqueira e cotidiana,
estréia hoje na cidade (veja a programação de cinema na
página 2).
Aos 76 anos, Claude Chabrol, um dos fundadores e ex -crítico da mitológica revista Cahiers
du Cinema, realizou até hoje 67 filmes. Participou como ator em 9, escreveu 49 roteiros,
ganhou fama como o Hitchcock francês, etc, etc. Mas não são somente números, ou rótulos,
mas a continuada e original maestria ao longo de quase 50 anos na ativa. Entre sua
filmografia, elejo quatro títulos capitais: ‘‘As Corças’’ (67), ‘‘O Açougueiro’’ (69), ‘‘Madame
Bovary’’ (91) e ‘‘Mulheres Diabólicas’’ (95). Em comum, um método narrativo que não se
apóia na trama - geralmente freqüentada por crimes -, mas a utiliza como pretexto; menos
ênfase no suspense e total entrega ao desenho dos personagens, à sua psicologia, à sua
vida interior e ao retrato do entorno familiar e social. ‘‘A Dama de Honra’’ não é exceção.
Este entorno familiar e social não é aquele do film noir, mas da burguesia, alta ou média.
Aqui temos Philippe (Benoit Magimel, ator da moda na França) e Senta (Laura Smet,
trazendo o confiável DNA da mãe Nathalie Baye). São dois jovens que vivem um amor
louco. Ele tem um trabalho promissor e uma existência tranqüila (?) no âmbito da falia,
com mãe e duas irmãs. No casamento de uma delas surge a casual, misteriosa e
imprevisível dama de honra, típica criação da ironia e da destreza manipuladora do cineasta.
Philippe se apaixona desordenadamente pela garota, e sua vida vai dar uma guinada
radical.
O que interessa de fato não é a evolução, digamos, criminal do argumento, mas o que se
oculta sob bons modos e gostos refinados de vidas rotineiras na aparência, mas capazes de
camuflar segredos inconfessáveis, alguns grotescos, outros mais explicitamente sórdidos.
A escalada passional vai de uma romântica fixação sexual a inesperados desdobramentos
criminais - o roteiro, baseado em romance de Ruth Rendell, teve seu final alterado por
Chabrol com expresso consentimento da escritora.
O diretor alimenta a intriga e a evolução dos personagens principalmente com um arsenal
de observações, pequenos detalhes eloqüentes, pistas que só enriquecem o olhar do
espectador atento. O filme é seco, depur ado, compacto, perturbador. E de maneira
nenhuma recomendável àqueles que entendem o thriller apenas como sucessão de
barulhentas reviravoltas.
Divulgação
‘A Dama de Honra’: um filme
devotado à vida interior dos
personagens
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=17616&dt=20060616>
213
ANEXO D
Crítica 4-CA
214
ANEXO D Crítica 4-CA
CINEMA/ESTRÉIA Entretenimento, como deve ser
Aparentemente deslocada do contexto arte & ensaio da
programação eleita para o Cine Com -Tour/UEL, a comédia
musical ‘’Sra. Henderson Apresenta’’ é o lançamento de hoje
naquele espaço. E chega com tripla finalidade: atualizar a
filmografia ‘’flexível’’ mas sempre autoral do diretor Stephen
Frears (‘’Ligações Perigosas’’, ‘’Alta Fidelidade’’, ‘’Liam ’’,
‘’Coisas Belas e Sujas’’); ilustrar fato não muito reqüente
nas telas, isto é, o entretenimento feito com charme e
inteligência; e por último, mas não menos importante,
homenagear o teatro neste momento de palcos em festa na
cidade, com novo Filo abri ndo recheado leque de opções.
A rigor, não se trata de um musical, embora ofereça
momentos de canto e coreografias. Muito menos é um estrito
argumento de época, ainda que situado entre 1937 e os
primeiros anos 40. Também não é um tributo emocionado ao pess oal do espetáculo que em
tempos difíceis honrou o preceito de que o show deve continuar.
Na verdade, é um filme que mostra um tanto de cada faceta acima, e que obtém desta
alquimia um delicado equilíbrio à base de humor, emoção, música, drama, muita picard ia.
Sem esquecer a cumplicidade entre dois atores que propiciam enorme prazer à platéia: Judi
Dench, injustamente preterida no Oscar, e o grande Bob Hoskins.
Ela é Laura Henderson, milionária e viúva recente, trêmula só em pensar que em seu futuro
de solidão em Londres somente haverá benemerência e frivolidades mundanas e hipocrisia
entre ricos. Mas a bela herdeira é dinâmica, orgulhosa, independente. Por isso decide que
seu dinheiro vai para empreitadas de risco, mas divertidas. Como, por exemplo, comprar um
velho teatro, restaurá-lo em grande estilo, colocá -lo nas mãos de um administrador
experiente e fazê-lo funcionar como templo do gênero de revista, moldes Moulin Rouge. E
com pitadas de atrevimento a cargo de coristas nuas, que serão também parte da
resistência diante das adversidades que estão por chegar.
Isto tudo, claro, não é simples. Principalmente porque a Sra.Henderson e o gerente que
contratou, o irritável e leal Vivian Van Damm (o nome é este mesmo, não há engano), têm
ambos caráter forte, língu a rápida e ferina e alto teor de teimosia. Mesmo que no fundo
prevaleça uma carinhosa relação de gratidão mútua, na superfície eles são como cão e gato
em sua tormentosa ligação profissional. Os diálogos frequentemente cínicos da dupla são
alguma coisa para preservar por longo tempo na memória. E a cumplicidade entre Dench e
Hoskins é química exemplar.
Em tom de comédia, mas sem prescindir do drama e da emoção a Segunda Guerra Mundial
é pano de fundo e maior obstáculo à sobrevivência do muito popular Teatro Windmill , ‘’Sra.
Henderson Apresenta’’ é a hora do recreio do diretor Stephen Frears. O bom deste intervalo
entre títulos mais sisudos é que ele nos convida e nos oferece esta adorável aventura, em
que a arte está exatamente na capacidade de entreter o e spectador com inteligência, graça
e dignidade.
‘’Sra. Henderson
Apresenta’’ é uma divertida
comédia inglesa em
lançamento hoje na cidade
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=9809&dt=20060609>
215
ANEXO E
Crítica 5-CA
216
ANEXO E – Crítica 5-CA
Os planos de mamãe aos 80
Filme argentino estreando na cidade é sobre relações familiares, terceira idade e crise
econômica
Intimista, terno e decididamente emotivo é o que se pode
dizer logo de saída a título de pré -definição deste
‘‘Conversando Com Mamãe’’, comédia agridoce argentina
que entra hoje no circuito local (veja a programação de
cinema na página 2). Modesto no formato, mas muito ciente
de sua proposta humanista, o filme saiu do roteiro do
veterano realizador porten ho Santiago Carlos Oves, que
adaptou peça teatral também escrita por ele há muitos anos.
A novidade é que o autor incorporou à história algumas
referências extraídas da difícil conjuntura sócio -econômica
de seu país nos últimos tempos.
Assim, a estréia de ‘‘Conversaciones com Mamá’’, em
Londrina, não é apenas homenagem do exibidor à data que
se comemora domingo, mas também o convite a uma
oportuna e tranqüila reflexão sobre dois subtemas que permeiam o filme: a terceira idade,
ou a ‘‘melhor idade’’, com o vem sendo cada vez mais caracterizada esta fase da vida, e a
ingerência da sempre vertiginosa montanha russa econômica desta América Latina nas
relações entre pessoas, inclusive as familiares.
Os desmandos políticos e seus efeitos econômicos perverso s na Argentina afetam também
a vida do executivo Jaime (Eduardo Blanco). Uma pessoa correta, mas desorientada
quando perde o trabalho. Ele percebe também que o casamento esfriou e que os filhos
vivem um mundo bem diferente do seu. Em busca de solução para sua crise profissional e
pessoal, e como medida extrema, ele se vê obrigado a vender o apartamento onde mora a
mãe octogenária (China Zorrilla), viúva, sozinha e apresentando os primeiros sintomas de
Alzheimer, alguém que só quer a companhia e o carinho de quem queira sentar-se à mesa
com ela.
E a mãe tem outros planos. Não só está vivendo uma grande paixão outonal com um
aposentado idealista e revolucionário da melhor safra (Ulisses Dumont), como não pensa
em deixar o imóvel. Retomando o aprendizado, a gora com a velha mãe de coração jovem e
no melhor da capacidade de ensinar, Jaime tem novas lições pela frente.
Apoiado em especial nas interpretações do trio de protagonistas e com uma direção que
não despreza as origens teatrais do texto – mas sem aprisionar a ação a um palco –,
‘‘Conversando com Mamãe’’ coloca na mesa temas como crise pessoal, solidão e morte
com sentido otimista e sempre em tom de esperança. É uma pequena grande obra (apenas
80 minutos) que sabe afrontar temas sérios da vida sem are s solenes e, o que é melhor,
sem perder o humor. Com a frescura que oferece boa parte do novo cinema argentino e
com a esperta despretensão (e um orçamento visivelmente reduzido) de quem sabe
exatamente o que quer, o diretor Santiago Oves realizou um filme que no entanto tem lá
seus pequenos deslizes.
Como por exemplo, certa previsibilidade e certa complacência simplista quando se busca
reforçar os nobres sentimentos dos personagens. São, de qualquer modo, desencontros a
‘Conversando Com
Mamãe’’: pequena obra-
prima é modesta no
formato, mas imensa em
sua proposta humanista
217
se relevar diante do conjunto am ável e de fato comovente, que humaniza os personagens
sem pieguice e adiciona à narrativa uma pertinente crítica à sociedade que segrega seus
idosos e impõe a solidão como mal maior. E uma palavra para estes atores estupendos.
Ícones do teatro e cinema na Argentina e Espanha, e conhecidos no Brasil apenas pelos
freqüentadores do circuito alternativo, Eduardo Blanco, Ulisses Dumont e particularmente a
veteraníssima atriz uruguaia China Zorrilla, que transborda humanidade.
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folh ad.php?id=8416&dt=20060512>
218
ANEXO F
Crítica 1-CN
219
ANEXO F – Crítica 1-CN
SUPER-HOMEM mais sério e menos pop
Estréia hoje em circuito nacional a quinta aventura do herói das HQs, agora sem carisma,
com menos humor, mais rigidez e solenidade
Em pesquisa recente sobre a astronômica inflação de
custos de produção em Hollywood, atribuída
principalmente aos efeitos especiais, o jornal de finanças
The Wall Street Journal fixou o orçamento de ‘’Superman
– O Retorno’’ (veja a programação de cinema na página
2) em US$ 261 milhões. Outras fontes menos confiáveis
elevam esta cifra a incríveis US$ 400 milhões, enquanto a
Warner, abalada pelas recentes decepções de bilheteria
com ‘’Firewall’’ e ‘’Poseidon’’, nada comenta sobre os
gastos oficiais utilizados nesta ex umação do homem de
aço.
Seja qual for o número final, em qualquer caso parece um
excesso quase obsceno para aquilo que se obtém ao final
de extensos 154 minutos um produto híbrido, de pálida
nostalgia, um super-herói, digamos, descafeinado. A pergunta qu e insiste em incomodar é
por que não se gastou menos nas imagens geradas por computador e um tanto mais na
contratação de atores com empatia e talento de verdade.
‘’Por que o mundo não precisa do Super -Homem’’. Este é o título do artigo do Planeta Diário
que valeu à destemida Lois Lane o prêmio Pulitzer, recebido no período em que o super -
herói esteve ausente. E em que pese alguma façanha déjà vu como a de impedir que um
grande jato se choque contra um campo de beisebol, rara cena de ação que justifica a
mitologia e o investimento de tanto dinheiro, os habitantes de Metrópolis também não
parecem muito excitados com a volta do Super -Homem depois que o personagem passou
os últimos anos em Krypton, seu planeta original, descobrindo que o lugar é um cemitério e
que ele talvez seja o único sobrevivente. Como sempre, quem está mais aceso é o
arquiinimigo Lex Luther, que pretende cobrar algumas contas pendentes.
Considerando que o diretor Brian Singer esteve por inteiro na gênese deste renascimento, já
que assina também o argumento, é estranho que exista em cena tão pouca coisa do
material que se considera sua marca pessoal na indústria. De seus X -Men sempre se
elogiou a habilidade com que ele embaralhou os limites entre Bem e Mal, e sua capacidade
de identificação com alguns personagens que, por seus dons e peculiaridades, se sentiam
arias, marginalizados num mundo cruel, ignorante e indiferente. É de se supor que o
Super-Homem além da ingenuidade e do anacronismo de seus imperativos morais
correspondentes à época em que foi criado, 1938 é também um corpo estranho na Terra,
um personagem que sofre com a solidão e a anomalia de sua condição.
Mas este Super-Homem de Singer não possui a carga de drama, a angústia existencial e
nem a crise de identidade que, por ex emplo, consumiam o Batman de Tim Burton, e em
menor escala o Homem-Aranha de Sam Raimi. Em vez disso, o desejo bem mais modesto
de construir uma família e um espaço junto a Lois Lane e ao filho dela (sim, um filho
asmático e débil, uma revelação que o film e nunca explora a fundo). Um vulgar sonho
americano que se revela impossível e diante do qual o super -herói se resigna sem maiores
conflitos.
Divulgação
O Super-Homem interpretado
por Brandon Routh não possui
a angústia existencial de
outrora e reaparece como um
super-herói híbrido e pouco
carismático
220
O que também se apaga neste Super -Homem é o lado mais pop do personagem. Ele aqui
aparece com pálidas doses de hu mor e alegria, é um ser espiritualmente desbotado. Em
substituição, temos a tendência ao folhetim televisivo com ênfase em Lois Lane como a
garota que achou que tinha perdido seu amor quando Super -Homem foi para Krypton e por
isso agora está casada com out ro, a quem respeita, mas não ama. Já que estava no roteiro,
esta parte bem poderia aparecer rica em subtextos, uma espécie de variante kitsch com
tonalidades de paródia. Ou de cinismo. Mas não foi o caso, e o filme aqui também é
vacilante, quando não rígid o e solene.
Os inexpressivos e inexperientes Brandon Routh e Kate Bosworth, como nada menos que
Super-Homem/Clark Kent e Lois Lane, não alcançam jamais uma mínima proporção da
química com a qual o icônico Christopher Reeve e Margot Kidder conquistaram as platéias
no final dos 1970 e começo dos 80. E se o assunto é atores, quem leva fácil o laurel é Kevin
Spacey, com direito a uma cena com Marlon Brando quando Lex Luthor invade a fortaleza
do Super-Homem e ativa mensagem de além -túmulo de Jor-El, pai do herói, material inédito
de arquivo que deveria ter sido parte de Super -Homem 2 e que não foi utilizado por disputas
financeiras entre Brando e a produção.
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=12329&dt=20060714>
221
ANEXO G
Crítica 2-CN
222
ANEXO G – Crítica 2-CN
CINEMA - Estranha comédia romântica
Em cartaz nacional, 'Separados pelo Casamento' tenta sem sucesso romper fórmula do
gênero
O filme, que ocupa número considerável de salas
brasileiras (veja a programação de cinema na página 2),
recebeu generosa carga de publicidade extra como
primeiro trabalho ''terapêutico'' de Jennifer Aniston após o
rompimento com Brad Pitt, e também como pontapé inicial
(a expressão é cabível, já que há aqui componentes de
reality show) para o romance com Vince Vaughn, parceiro
dela no filme. E a julgar pela curta duração do affair com
Vaughn, o pontapé foi também terminal, e é uma tentação
não engrossar o coro dos inconfidentes que apostam que
o ator repetiu em tempo real o que fez com a moça, já tão
sofrida, coitada, neste argumento ficcional.
Sim, porque na ruptura que o casal p rotagoniza em ''The
Break-Up'' não se trata de duas pessoas de boa vontade
que chegam a um impasse na relação, mas de uma mulher sensata concluindo que vive ao
lado de um tedioso, desatencioso e estúpido semi -neandertal, aquele legítimo palerma. E o
público, claro, não estaria disposto a torcer para que ao final das muitas vicissitudes
especialmente as verborrágicas eles fiquem juntos.
Aniston interpreta a refinada Brooke. Lida com arte em sofisticada galeria, tem amigos ''com
classe'' e se desespera com o beisebol (paradoxalmente foi durante um jogo que se
conheceram) e os videogames do marido. Este é Gary (Vaughn), pouco simpático
proprietário e guia turístico de agência que mantém com seus dois irmãos. Sobre o
andamento do romance somos informados antes e durante os créditos, ao som de Queen e
através do exausto recurso elíptico das fotografias que testemunham o desenrolar da
relação nos últimos dois anos.
E então começa a etapa de mutua mortificação. O casal percebe que o clima de romance já
é história. Ele é egoísta e acha que ela o aborrece. Decidem romper. Até aqui tudo bem,
mas a partir deste ponto o filme é fatalmente contraditório. As coisas começam a ficar
perturbadoras. Que território é este? ''A Guerra dos Roses'' encontra ''Cenas de um
Casamento'' na sala de estar de ''Friends'' , apresentados por Woody Allen?
Com certeza falta o tom adequado para se narrar este imbróglio: ausentes o impiedoso
cinismo de ''A Guerra dos Roses'', a fria inteligência de Bergman quando disseca a relação e
o olhar agridoce e generoso de ''Noivo Neurótico, Noiva Nervosa'', resta ao espectador
testemunhar a crescente vitimização do personagem de Aniston e a ''demonização'' do
parceiro, talvez a mais gritante distorção de um roteiro que trafega à deriva. Faltou aqui
investir na identidade dos personagens, em vez de deixá -los numa arena entregues a
situações que, não sendo dramáticas, também carecem de bom humor.
Comédia romântica é o gênero mais enclausurado numa fórmula edulcorada que não é
estranha a ninguém. Port anto, qualquer comédia romântica que decida romper esta fórmula
merece algum crédito pela ousadia. Até mesmo este ''Separados Pelo Casamento'', com
todas suas incoerências e ausência de charme.
Divulgação
Vince Vaughn e Jennifer
Aniston: roteiro distorcido
deixa identidade dos
personagens à deriva
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=1827&dt=20060704 >
223
ANEXO H
Crítica 3-CN
224
ANEXO H – Crítica 3-CN
CINEMA/ESTRÉIA A animada lição de ‘Carros’
Ótimo filme do especialista John Lasseter faz a diferença ao retomar temas clássicos da
animação
Este pessoal da Pixar sabe mesmo criar um evento, com
sua abordagem particular e descomplicada sobre como
deve ser um filme com imagens geradas por computador.
Não basta só a aparência. Isto já é rotina, e fácil, para
quem trabalha na especialidade. É preciso insuflar alma
na coisa, temperar a engenharia sofisticada com algo
mais, algum elemento para marcar a diferença diante da
concorrência.
E o que é? Nada muito complicado, apen as talento para
escrever uma história que independa do arsenal de
truques tecnológicos. Eles da Pixar, à frente o mentor John Lasseter das ‘Toy Story’, sabem
que a harmonia somente ocorre através da narrativa e não somente pelo número de efeitos
e risos que provocam. A lição aparece clara, límpida, neste ‘Carros’ que chega hoje em
lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2).
O filme transcorre num universo em que carros são os seres viventes, em carne e osso
segundo a fórmula consagrada do antropomorfismo. Isto significa que não há humanos no
filme, que as vacas que pastam nos campos são tratores e até as moscas são minúsculos
veículos (diminutos Volkswagen com asas, os quais querem ser chamados de bugs, isto é,
insetos...).
O público é apresentado a Relâmpago McQueen, novato e ambicioso carro de corridas em
circuito oval. Ele acredita que sozinho, sem ajuda de ninguém, poderá medir forças com os
concorrentes Chick Hicks e The King, e assim ganhar uma corrida vital para o título.
McQueen está a caminho da Califórnia para este novo tira -teimas, quando se perde e acaba
chegando à pequena e pasmada cidade interiorana de Radiator Springs.
Ali ele se depara com o juiz, um velho carro chamado Doc Hudson (voz de Paul Newman na
versão original e de Daniel Filho na brasileira) que não gosta das provas de velocidade, e
por isso condena Relâmpago a prestar serviços comunitários. E ele vai ficando na
cidadezinha.
John Lasseter, fanático confesso por carros de corrida, mas com talento e prudência mais
que suficientes para sublimar este ângulo por trás das câmeras, volta à direção sete anos
depois de ‘’Procurando N’’. A exemplo do que havia feito em ‘’Toy Story’’, retoma a seara da
solidariedade como meio de enfrentar as vicissitudes da vida moderna . Mas o tema da
família, tão caro ao diretor em ‘’Toy Story’’ e ‘’Nemo’’, cede lugar aqui aos laços de amizade,
cultivados no cenário simples do campo.
Também ressurgem temas clássicos do filme de animação – a volta à natureza, o respeito, o
elogio da simplicidade. Não se trata, no entanto, de uma ode ingênua e nostálgica a um
entorno bucólico. Há embutida a denúncia de um conhecimento sem consciência, de uma
tecnologia sem alma porque esquece seus fundamentos.
Se muitos filmes para crianças são para qu e estas curtam com os pais, ‘’Carros’’ permite
Divulgação
‘Carros’: no filme, automóveis
são ‘seres viventes’ e até as
moscas são ,mostradas como
pequenos veículos
225
agregar ainda os avós, se ainda estiverem por perto. É que o espírito dos veículos que
habita Radiator Springs, onde nada acontece há muitos anos, está impregnado dos
princípios dos anos 1950. Embora sem justi ficar o ‘’recall’’ da fábrica, ‘’Carros’’ tem uma
extensão que talvez sacrifique os pequenos. Mas o que vale é o caráter desta jornada – não
importa como McQueen vai chegar ao final, mas sim a viagem sem si mesma. Aqui é
recomendável, imperioso até, manter -se na sala até o último dos créditos. E quem não se
divertiu o suficiente no decorrer do filme, que então se prepare.
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=33212&dt=20060630>
226
ANEXO I
Crítica 4-CN
227
ANEXO I – Crítica 4-CN
CINEMA – Original mesmo só a data de estréia
Lançado em 6/6/6, este ‘A Profecia’ é clone do filme de 1976, que nunca foi um clássico
Era tentação para diabo nenhum botar defeito. Como não
lançar uma refilmagem de ‘’A Profecia’’ no dia 6 de junho
de 2006? Sabem muitos – mas muitos com idade abaixo
de 30 ignoram – que em 1976 este foi o filme que explorou
a informação bíblica (para os ateus mera su perstição)
segundo a qual há um número que identifica o demônio, o
666, centena de resto prudentemente recusada pelos
bicheiros nos jogos de azar não oficiais de anteontem.
No filme da década de 1970, o filho de Satanás nascia na
sexta hora do sexto dia do sexto mês. Aqui, agora, a
comemoração do astuto marketing da Fox foi dupla: além
dos trinta anos da estréia do original (25 de junho de 76), a
real confluência de datas no calendário completou a festa.
Enquanto isso, os frustrados cabalistas do Apocalip se recolheram as premonições, já que o
mundo mais uma vez não acabou, a não ser para os finados do dia.
No cinema, o transcurso do tempo gera certas confusões. Especialmente quanto à categoria
de clássico. Não se fala aqui de estilos narrativos, mas de f ilmes que transcendem sua
época exclusivamente pela qualidade superior. Direto ao ponto: ‘’A Profecia’’ de 1976 não é
e nunca será um clássico – em território satânico, ‘’O Bebê de Rosemary’’ e ‘’O Exorcista’’
pairam acima de qualquer suspeita. O filme de Richard Donner, suspense temperado com
horror e sustentado em religiosidade, obteve muita repercussão na época, foi muito visto,
muito discutido. Mas de maneira alguma é clássico, ou caso contrário daqui a trinta anos
estaremos nos referindo a ‘’O Código D a Vinci’’ como clássico simplesmente porque está
levando multidões às salas.
Nesta versão século 21, o mesmo roteirista, David Seltzer, apenas retocou muito levemente
sua história original. Há uma ou outra situação ligeiramente modificada (os pais do dia binho
eram atores mais velhos, Gregory Peck e Lee Remick), uns mínimos detalhes incorporados,
um par de cenas mais esticadas, outras reduzidas. Enquanto isso, o diretor irlandês John
Moore, artesão para o gasto hollywoodiano (‘’O Vôo da Fênix’’), imprime a qui e ali grau
maior de estilização e virtuosismo, além de lançar mão da cota de efeitos especiais a que
tinha direito por concessão do orçamento folgado de 60 milhões de dólares.
Agora, tem algum sentido repetir um filme, em processo de quase clonagem ( neste sentido
só perde para aquela rematada bobagem que Gus Van Sant fez com ‘’Psicose’’) três
décadas mais tarde? Com certeza não. O que não significa que, julgada em si mesma, esta
Profecia não tenha lá seus méritos, pelo menos os mínimos. Em que pesem s uas
debilidades, o roteiro reproduz de maneira quase idêntica a trama original acrescida de uma
atualização em seu contexto político – aqui, o atentado de 11/09, a invasão do Iraque, a
inundação de Nova Orleans, o conflito do Oriente Médio e as tsunamis fu ncionam como
risível vestíbulo do Apocalipse.
Robert Thorn (Liev Schreiber) é o jovem diplomata dos EUA baseado em Roma. Ele está
prestes a ser pai. Mas o parto da mulher, Katherine (Julia Stiles), se complica e, segundo
informam a ele, a moça perde o be bê. Os padres que administram o hospital convencem o
Divulgação
‘A
Profecia’: Mia Farrow volta
às telas num filme
demonícaco, agora como
babá do pequeno Damien
228
pai mergulhado em crise de nervos a adotar Damien, recém -nascido e órfão. Robert não só
aceita como faz com que a mulher receba a criança como o filho natural que na verdade não
tiveram. Tudo parece ir bem para o casal, com o crescimento profissional do diplomata
agora embaixador em Londres.
Mas na festa de cinco anos de Damien (Seamus Davey -Fitzpatrick, um dos pontos mais
vulneráveis da produção), a primeira tragédia, seguida por outras, pela alteração de
comportamento do menino, pelas lúgubres participações do clero (Peter Postlethwaite e
Michael Gambon) e do fotógrafo (David Thewlis), que descobre as artimanhas do demo.
Mas além das superficialidades, convenções e previsibilidades visuais e sonoras (como
sempre nestes casos, há o recurso indigente do susto), o diretor Moore não chega a irritar
porque sua narrativa é feita em moldes tradicionais. O clímax parece um tanto esvaziado de
tensão, como complemento da solene liturgia de terror que a história vai aos poucos
construindo.
Mas o grande momento do filme corre por conta da reaparição de Mia Farrow como a
insólita baby-sitter de Damien. Surpreendentemente jovem e bonita – botox na medida certa
-, Mia Farrow se apresenta ao casal com o currículo e revela: ‘’Há quase 40 anos venho
criando meninos’’, ela diz com sorriso angelical. Não há como esquecer que se passaram 38
anos desde ‘’O Bebê de Rosemary’’, a obra -prima de Román Polanski. ‘’Este é o papel de
minha vida’’, ela acrescenta, na ótima ‘’priva te joke’’ que o filme reserva aos cinéfilos.
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=8620&dt=20060608>
229
ANEXO J
Crítica 5-CN
230
ANEXO J – Crítica 5-CN
Grandiloqüência MUTANTE
Os mutantes não mais aqueles. Para este terceiro
capítulo de ‘’X-Men – O Confronto Final’’, que estréia hoje
no Brasil já se aproveitando do esvaziamento de ‘’Missão
Impossível 3’’, mas não ainda no vácuo de ‘’Codigo Da
Vinci’’, o que temos é somente material na medida para
uma aventura de apoteose sonora. Desta vez os super -
poderosos se defrontam com uma escolha que qualificam
como histórica: manter suas características excepcionais
e ser rejeitados pela humanidade de comuns mortais, ou
abandonar seus poderes no guarda -roupa da ficção
científica para se tornarem inteiramente humanos.
Dito isto, a história vai transformar em universal uma
questão que era apenas essencial: ser ou não ser...um
homem. Os humanos anunciam a cura. Mas os mutantes
querem ser humanos? Este dilema existencial atormenta
os X-Men durante uma hora e quarenta e cinco minutos. Mas como discurso filosófico e
questões morais não são o fo rte deles, e como o diretor dos filmes anteriores, Bryan Singer,
somente muito de longe assombra esta sofisticada brincadeira barulhenta, o que resta é
somente a ação. É aqui que o filme troca figurinhas de verdade com a história em
quadrinhos original. Sem efeitos especiais, seria o nada para estes mutantes, e para a
platéia. Mas eles estão presentes, claro, e com que abundância!
De carros em chamas atirados sobre a ilha de Alcatraz à ponte de São Francisco retorcida
como arame para servir de passarela, passando por um angelical jovem alado e chegando
até corpos despidos e explodidos por efeitos de computador, não há quase como piscar na
sala escura. Os prodígios tecnológicos e pirotécnicos, neste caso, são o único trunfo que
pode engrossar as bilheterias da produção, mas é pouco provável que o resultado de box
office chega perto dos números das faturas 1 e 2 US$ 157 e US$ 215 milhões de dólares
respectivamente, só nos EUA.
Os intérpretes estão todos de volta a seus postos. O inoxidável Wolverine por con ta de
Hugh Jackman, uma Halle Berry mais contida, os mestres Patrick Stewart e Ian McKellen, a
ressuscitada Jean (Famke Jenssen). Há uma invasão de atores secundários, e quase não
se fornece a eles um background. Quase não há o que dizer do diretor Brett R atner. Entra
mudo, sai calado.
Divulgação
Em ‘O Confronto Final’, os
mutantes se deparam com
uma questão: manter suas
características originais ou
tornarem-se definitivamente
humanos
Fonte: <www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=22129&dt=20060526>
231
ANEXO L
“As super-mulheres de ‘Free Zone’”
232
ANEXO L – “As super-mulheres de ‘Free Zone’”
Fonte: Folha de Londrina, 15 jul. 2006, Folha 2.
233
ANEXO M
“Receita argentina de cinema popular”
234
ANEXO M – “Receita argentina de cinema popular”
Fonte: Folha de Londrina, 30 jun. 2006, Folha 2.
235
ANEXO N
“Quando a normalidad e é aparente”
236
ANEXO N – “Quando a normalidade é aparente”
Fonte: Folha de Londrina, 16 jun. 2006, Folha 2.
237
ANEXO O
“Entretenimento, como deve ser”
238
ANEXO O – “Entretenimento, como deve ser”
Fonte: Folha de Londrina, 9 jun. 2006, Folha 2.
239
ANEXO P
“Os planos de mamãe aos 80”
240
ANEXO P – “Os planos de mamãe aos 80”
Fonte: Folha de Londrina, 12 maio 2006, Folha 2.
241
ANEXO Q
“SUPER-HOMEM mais sério e menos pop”
242
ANEXO Q – “SUPER-HOMEM – mais sério e menos pop”
Fonte: Folha de Londrina, 14 jul. 2006, Folha 2.
243
ANEXO R
“Estranha comédia romântica”
244
ANEXO R – “Estranha comédia romântica”
Fonte: Folha de Londrina, 4 jul. 2006, Folha 2.
245
ANEXO S
“A animada lição de ‘Carros’”
246
ANEXO S – “A animada lição de ‘Carros’”
Fonte: Folha de Londrina, 30 jun. 2006, Folha 2.
247
ANEXO T
“Original mesmo só a data de estréia”
248
ANEXO T – “Original mesmo só a data de estréia
Fonte: Folha de Londrina, 8 jun. 2006, Folha 2.
249
ANEXO U
“Grandiloqüência MUTANTE”
250
ANEXO U – “Grandiloqüência MUTANTE”
Fonte: Folha de Londrina, 26 maio 2006, Folha 2.
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