
ao local de sua morte para lhe dar sepultura e assim lhe permitir entrar no Hades.
Duas vezes na Ilíada, ao se observar o desespero e os esforços tanto dos Gregos,
quanto dos Troianos para recuperar os corpos dos seus respectivos heróis Pátroclo
e Heitor, mortos em combate
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.
É a partir deste momento do decreto de Creonte para deixar insepulto
Polinices que Sófocles elabora sua obra. Logo no diálogo inicial de Antígona e
Ismene são reveladas as determinações e razões que movem a heroína trágica em
se opor a esta lei, decretada por Creonte em nome do Estado. Antígona defende
que as leis não escritas (Dike)
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e familiares são superiores as leis dos mortais.
1.3 – A peça
Não foram poucos os pensadores e críticos que se fascinaram e se
debruçaram sobre esta obra na tentativa de decifrá-la.
Para Hegel (2004), o trágico estaria na colisão de duas forças éticas,
compreendendo justificáveis tanto a razão das leis do Estado, defendidas por
Creonte, como à das leis naturais, da família e as leis divinas
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, defendida por
Antígona. Segundo Leski (2006), Goethe criticou a visão de Hegel que era aceita por
vários autores, sustentando que o trágico se estabelece por meio de forças
irreconciliáveis, não havendo nenhuma possibilidade de mediação ou ajuste entre a
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Outra possibilidade, com uma interpretação mais terrena e menos mítica, era devido ao conceito de miasma.
Ele dizia respeito aos vapores e aos odores putrefatos exalados pelo cadáver em decomposição de animais e
homens, sobre os quais acreditava-se na Grécia antiga serem capazes de provocar Malária e outras doenças. Isso
estabelecia uma obrigação de caráter sanitário, uma exigência altruísta em relação à saúde da coletividade, o que
também se encontra na base dessa lei não escrita. Além disso, os prescritos de sepultamento não se limitam ao
Universo da Grécia Clássica: ainda nas batalhas em massa da Primeira Guerra Mundial, enviados parlamentares
com bandeira branca negociavam intervalos nos combates para dar, a ambos os lados, oportunidade de resgatar
os cadáveres na “terra de ninguém” e nos espaços entre as trincheiras.
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Dike, as leis não escritas, se refere também a figura da justiça. Antes mesmo que leis fossem elaboradas no
mundo ático, existia uma lei atemporal-religiosa que guiava todos os costumes gregos. “Quando a cidade
começou a escrever as leis, achou esse direito já estabelecido, vivendo enraizado nos costumes, fortalecido pela
unânime adesão. A cidade aceitou-o, não podendo agir de outro modo e não ousando modificá-lo senão bem
mais tarde. O antigo direito não é obra de um legislador: pelo contrário, impôs-se ao legislador. Seu berço está
na família. Nasceu ali espontaneamente, formado pelos antigos princípios que a constituíram. Decorreu das
crenças religiosas universalmente aceitas na idade primitiva desses povos e reinando sobre a inteligência e as
vontades.” In Cidade Antiga. Trad. Jean Melville. São Paulo: Ed. Martin Claret. 2005. Pag. 93.
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As leis divinas se referem às leis não escritas, a justiça divina, a Dike, nas quais na Grécia Antiga, era dever
sepultar um morto. Na réplica, de Antígona a Creonte ela diz claramente sobre estas leis: “e não me pareceu que
tuas determinações tivessem forças para impor aos mortais até a obrigação de transgredir normas divinas, não
escritas, inevitáveis, não é de hoje, não é de ontem, é desde o tempo mais remoto que elas vigem...” (verso 515).