observemos, nas nossas relações com as crianças de hoje em dia, que ocorre,
justamente, uma deserotização da infância. Foucault (1974-1975, 1976) e Ariès
(1973) nos mostraram como a sexualização da infância foi uma característica da
modernidade – através da constituição da família nuclear, da investigação
quanto à masturbação, da idealização da mãe como figura que dá amor e
carinho, dos cuidados para com este pequeno ser vivo que, na lógica da
biopolítica do século XIX, era o futuro da nação, futura mão de obra, ganho
econômico e ganho cultural, garantia de continuidade de uma cultura e, por isso,
objeto de investimento de toda uma sociedade. Enfim, é neste contexto que se
institui a ‘Sua Majestade O Bebê’ freudiana, a que nos referimos no capítulo
anterior. Birman chama atenção para o fato de que tudo isso mudou. Hoje,
coloca este autor, por conta do excesso populacional nas grandes cidades, já há
uma grande população excedente ao mercado de trabalho, ‘não há mais espaço
para todos’. Não é mais certo que a vinda de uma criança seja vista como um
ganho; considerá-la uma perda tornou-se algo bem freqüente. Uma criança é
custosa emocionalmente, financeiramente e requer cuidados físicos. Como o
novo ideal de homem supõe um narcisismo poderoso e fálico, perder torna-se
insuportável. Nestas circunstâncias, a vinda de uma criança passa a ser
significada por um número cada vez maior de pessoas como uma perda a qual
não estão dispostos a se submeter. A classe média, para manter sua situação
econômica, tem menos filhos, e muitos membros da classe baixa têm filhos que
são jogados à própria sorte, sem cuidados, sem majestade alguma, e que
encontram na escola pouco acolhimento
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. Portanto, o ideal do novo homem
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Nossa experiência como psicólogo da Rede de Proteção ao Educando, projeto da Secretaria
Municipal de Educação do Município do Rio de Janeiro, nos permite um contato próximo e
constante com as famílias do alunato municipal de regiões muito pobres, como, por exemplo, as
favelas da Ilha do Governador, da região da Maré e de Bonsucesso. A grande maioria das
famílias é composta por mãe e filhos; no entanto, a mãe geralmente trabalha o dia inteiro e
pouca atenção dá aos seus filhos quando está com eles. É comum escutar das mães que, no fim
do dia estão cansadas demais para dar atenção aos filhos. Quanto aos pais ausentes, variam
entre mortos (muitos por conta da violência urbana), desconhecidos ou, simplesmente, pais que,
por variadas razões, não têm tempo ou desejo de cuidar dos filhos. Além do mais, os
profissionais destas escolas municipais parecem esperar outra criança, aquela criança que foi,
para a família nuclear dos séculos XIX e XX, o ganho afetivo e para o Estado, o ganho em mão
de obra; quando encontram esta ‘nova’ criança, continuam exigindo dela que seja a criança
idealizada pelo projeto moderno. Estes professores também não fazem o luto da morte da