bebeu, a tragos demorados, o leite da admiração pública. Demais, o marido teve a
inspiração, maquiavélica, de lhe dizer ao ouvido: "Antes a mandasses convidar; ficava-nos
devendo o favor." Qualquer suspeita cairia diante desta palavra. Contudo, ela cuidou de os
não perder de vista — e renovou a resolução de cinco em cinco minutos, durante meia hora,
até que, não podendo fixar a atenção, deixou-a andar. Lá vai ela, inquieta, vai direito ao
clarão das luzes, ao esplendor dos vestuários, um pouco à ópera, como pedindo a todas as
coisas alguma sensação deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta
depois à própria dona, ao seu leque, às suas luvas, aos adornos do vestido, realmente
magníficos. Nos intervalos, conversando com a viúva, Maria Olímpia tinha a voz e os
gestos do costume, sem cálculo, sem esforço, sem ressentimento, esquecida da carta.
Justamente nos intervalos é que o marido, com uma discrição rara entre os filhos dos
homens, ia para os corredores ou para o saguão pedir notícias do ministério.
Juntas saíram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A modéstia com
que a viúva trajava podia realçar a magnificência da amiga. As feições, porém, não eram o
que esta afirmou, quando ensaiava os xales de manhã. Não, senhor; eram engraçadas, e
tinham um certo pico original. Os ombros proporcionais e bonitos. Não contava trinta e
cinco anos, mas trinta e um; nasceu em 1822, na véspera da independência, tanto que o pai,
por brincadeira, entrou a chamá-la Ipiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre as amigas.
Demais, lá estava em Santa Rita o assentamento de batismo.
Uma semana depois, recebeu Maria Olímpia outra carta anônima. Era mais longa e
explícita. Vieram outras, uma por semana, durante três meses. Maria Olímpia leu as
primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram calejando a sensibilidade. Não
havia dúvida que o marido demorava-se fora, muitas vezes, ao contrário do que fazia
dantes, ou saía à noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no
Wallerstein ou no Bernardo, em palestras políticas. E isto era verdade, uma verdade de
cinco a dez minutos, o tempo necessário para recolher alguma anedota ou novidade, que
pudesse repetir em casa, à laia de documento. Dali seguia para o largo de São Francisco, e
metia-se no ônibus.
Tudo era verdade. E, contudo, ela continuava a não crer nas cartas. Ultimamente,
não se dava mais ao trabalho de as refutar consigo; lia-as uma só vez, e rasgava-as. Com o
tempo foram surgindo alguns indícios menos vagos, pouco a pouco, ao modo do
aparecimento da terra aos navegantes; mas este Colombo teimava em não crer na América.
Negava o que via; não podendo negá-lo, interpretava-o; depois recordava algum caso de
alucinação, uma anedota de aparências ilusórias, e nesse travesseiro cômodo e mole punha
a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o escritório, dava o Galvão partidas e jantares,
iam a bailes, teatros, corridas de cavalos. Maria Olímpia vivia alegre, radiante; começava a
ser um dos nomes da moda. E andava muita vez com a viúva, a despeito das cartas, a tal
ponto que uma destas lhe dizia: "Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a
senhora se regala numa comborçaria de mau gosto." Que era comborçaria? Maria Olímpia
quis perguntá-lo ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais nisso.
Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio. Cartas de
quem? Esta notícia foi um golpe duro e inesperado. Galvão examinou de memória as
pessoas que lhe freqüentavam a casa, as que podiam encontrá-la em teatros ou bailes, e