muitas tem, e todas serão contadas na obra que empreendi. Porquanto, meu caro senhor, é meu intuito não
ir daqui sem haver descrito os costumes e as instituições do pequenino país que descobri, dizendo de suas
origens, raça, língua o mais que puder coligir e apurar. Talvez lhe traga dano. Não é fora de propósito crer
que a Inglaterra, sabendo que aqui esteve um inglês, há dous séculos, reclame a posse da ilha; mas, em tal
caso, sendo Going meu parente, reivindicarei eu a posse e vencerei por um direito anterior. De fato, todo
ente gerado, antes de vir à luz, antes de ser cidadão, é filho de sua mãe, e até certo ponto é avo da geração
futura que virtualmente traz em si. Vou escrever neste sentido a um legista de Washington. Falei de
esquisitices. Aqui está uma, que prova ao mesmo tempo a capacidade política deste povo e a grande
observação dos seus legisladores. Refiro-me ao processo eleitoral. Assisti a uma eleição que aqui se fez
em fins de novembro. Como em toda a parte, este povo andou em busca da verdade eleitoral. Reformou
muito e sempre; esbarrava-se, porém. diante de vícios e paixões, que as leis não podem eliminar. Vários
processos foram experimentados, todos deixados ao cabo de alguns anos. É curioso que alguns deles
coincidissem com os nossos de um e de outro mundo. Os males não eram gerais, mas eram grandes.
Havia eleições boas e pacíficas, mas a violência, a corrupção e a fraude inutilizavam em algumas partes
as leis e os esforços leais dos governos. Votos vendidos, votos inventados, votos destruídos, era difícil
alcançar que todas as eleições fossem puras e seguras. Para a violência havia aqui uma classe de homens,
felizmente extinta, a que chamam pela língua do país, kapangas ou kapengas. Eram esbirros particulares,
assalariados para amedrontar os e1eitores e, quando fosse preciso, quebrar as urnas e as cabeças. As vezes
quebravam só as cabeças e metiam nas urnas maços de cédulas. Estas cédulas eram depois apuradas com
as outras, pela razão especiosa de que mais valia atribuir a um candidato algum pequeno saldo de votos
que tirar-1he os que deveras 1he foram dados pela vontade soberana do pais. A corrupção era menor que
a fraude; mas a fraude tinha todas as formas. Enfim, muitos eleitores, tomados de susto ou de descrença,
não acudiam as urnas.
Vai então. há cinqüenta anos (os nossos aqui são lunares) apareceu um homem de Estado, autor da lei que
ainda vigora no país. Não podeis caro senhor, conceber nada mais estranho nem também mais adequado
que essa lei: é uma obra-prima de legislação experimental. Esse homem de Estado, por nome Trumpbal,
achou dificuldades em começo, porque a reforma proposta por ele mudava justamente o princípio do
governo. Não o fez, porém, pelo vão gosto de trocar as cousas. Trumpbal observara que este povo confia
me- nos em si que nos seus deuses; assim, em vez de colocar o direito de escolha na vontade popular,
propôs atribui-lo à Fortuna. Fez da eleição uma consulta aos deuses. Ao cabo de dous anos de luta,
conseguiu Trumpbal a primeira vitória. – Pois bem, disseram-lhe; decretemos uma lei provisória, segundo
o vosso plano; far-se-ão por ela duas eleições, e se não alcançar o efeito que esperais, buscaremos outra
cousa. Assim se fez; a lei dura há quarenta e oito anos. Eis os lineamentos gerais do processo: cada
candidato é obrigado a fazer-se inscrever vinte dias antes da eleição, pelo menos, sem limitação alguma
de número. Nos dez dias anteriores a eleição, os candidatos expõem na praça pública os seus méritos e
examinam os dos seus adversários, a quem podem acusar também, mas em termos comedidos. Ouvi um
desses debates. Conquanto a língua ainda me fosse difícil de entender, pude alcançar pelas palavras
inglesas e latinas, pela compostura dos oradores e pela fria atenção dos ouvintes, que os oradores
cumpriam escrupulosamente a lei. Notei até que, acabados os discursos, os adversários apertavam as
mãos uns dos outros, não somente com polidez, mas com afabilidade. Não obstante, para evitar quaisquer
personalidades, o candidato não é designado pelo próprio nome, mas pelo de um bicho, que ele mesmo
escolhe no ato da inscrição. Um é águia, outro touro, outro pavão, outro cavalo, outro borboleta, etc. Não
escolhem nomes de animais imundos, traiçoeiros, grotescos e outros, como sapo, macaco, cobra, burro;
mas a lei nada impõe a tal respeito. Nas referências que fazem uns aos outros adotaram o costume de
anexar ao nome um qualificativo honrado: o brioso Cavalo, o magnífico Pavão, o indomável Touro, a
galante Borboleta, etc., fazendo dessas controvérsias, tão fáceis de azedar, uma verdadeira escola de
educação. A eleição é feita engenhosamente por uma máquina, um tanto parecida com a que tive ocasião
de ver no Rio de Janeiro, para sortear bilhetes de loterias. Um magistrado preside a operação. Escrito o
título do cargo em uma pedra negra, dá-se corda a máquina, esta gira e faz aparecer o nome do eleito,
composto de grandes letras de brome. Os nomes de todos, isto é, os nomes dos animais correspondentes