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gerações que vierem vindo. O interesse, porém, será maior, quando o autor juntar o
talento e a piedade filial, como na presente caso. Dizem que na sepultura de
Chatham se pôs este letreiro: "O pai do Sr. Pitt". A revolução de 1889 tirou, talvez,
ao filho de Nabuco uma consagração análoga. Que ele nos dê com a pena o que
nos daria com a palavra e a ação parlamentares, e outro fosse o regimen, ou se ele
adotasse a constituição republicana. Há muitos modos de servir a terra de seus pais.
A impressão de que fale;. vem de anos longos. Desde muito morrera Paraná
e já se aproximava a queda dos conservadores, por intermédio de Olinda, precursor
da ascensão de Zacarias. Ainda agora vejo Nabuco, já senador, no fim da bancada
da direita, ao pé da janela, no lugar correspondente ao em que ficava, do outro lado,
o Marquês de Itanhaém, um molho de ossos e peles, trôpego, sem dentes nem valor
político. Zacarias, quando entrou para o Senado foi sentar-se na bancada inferior à
da Nabuco. Eis aqui Eusébio de Queirós, chefe dos conservadores, respeitado pela
capacidade política, admirado pelos dotes oratórios, invejado talvez pelos seus
célebres amores. Uma grande beleza do tempo andava desde muito ligada ao seu
nome. Perdoe-me esta menção. Era uma senhora alta, outoniça... São migalhas da
história, mas as migalhas devem ser recolhidas. Ainda agora leio que, entre as
relíquias de Nelson, coligidas em Londres, figuram alguns mimos da formosa
Hamilton. Nem por se ganharem batalhas navais ou políticas se deixa de ter
coração. Jequitinhonha acaba de chegar da Europa, com os seus bigodes pouco
senatoriais. Lá estavam Rio Branco, simples Paranhos, no centro esquerdo,
bancada inferior, abaixo de um senador do Rio Grande do Sul, como se chamava?—
Ribeiro, um que tinha ao pé da cadeira. no chão atapetado o dicionário de Morais
consultava a miúdo, para verificar se tais palavras de um orador eram ou não
legítimas; era um varão instruído e lhano. Quem especificar mais, São Vicente,
Caxias, Abrantes, Maranguape, Cotegipe, Uruguai, ltaboraí, Otôni, e tantos, tantos,
uns no fim da vida, outros para lá do meio dela, e todo presididos pelo Abaeté, com
os seus compridos cabelos brancos.
Eis aí o que fizeram brotar as primeiras páginas de Um Estadista do Império.
Ouço ainda a voz eloqüente do velho Nabuco, do mesmo modo que ele devia trazer
na lembrança as de Vasconcelos, Ledo Paula Sousa, Lino Coutinho, que ia ouvir,
em rapaz, na galeria da Câmara, segundo nos conta o filho. Que este faça reviver
aqueles e outros tempos, contribuindo para a história do século XIX, quando algum
sábio de 1950 vier contar as nossas evoluções políticas.
Como não se há de só escrever história política, aqui está Coelho Neto,
romancista, que podemos chamar historiador, no sentido de contar a vida das almas
e dos costumes dos nossos primeiros romancistas, e, geralmente falando, dos
nossos primeiros escritores mas é como autor de obras de ficção que ora vos trago
aqui, com o seu recente livro Miragem. Coelho Neto tem o dom da invenção, da
composição, da descrição e da vida, que coroa tudo. Não vos poderia narrar a última
obra, sem lhe cercear o interesse. Parte dela está na vista imediata das cousas,
cenas e cenários. Não há transportar para aqui os aspectos rústicos, as vistas do
céu e do mar, as noites dos soldados a vida da roça, os destroços de Humaitá, a
marcha das tropas, em 15 de novembro, nem ainda as últimas cenas do livro, tristes
e verdadeiras. O derradeiro encontro de Tadeu e da mãe é patético. Os
personagens vivem, interessam e comovem. A própria terra vive. A miragem, que dá
o título ao livro, é a vista ilusória de Tadeu, relativamente ao futuro trabalhado por
ele, e o desmentido que o tempo lhe traz, como ao que anda no deserto.
Não posso dizer mais; chegaria a dizer tudo. A arte dos caracteres mereceria
ser aqui indicada com algumas citações: os episódios, como os amores de Tadeu