Download PDF
ads:
A TIA ANINHA
Artur Azevedo
Ainda há poucos anos havia, numa das capitais do Norte, uma velhinha pobre, paupérrima que
não mendigava, mas aceitava o agasalho que lhe davam algumas famílias compassivas,
passando um mês aqui, outro ali, quinze dias acolá. Uma bela manhã chegava com sua lata de
folha (tudo quanto possuía) e aboletava-se entre afagos e sorrisos de boa-vinda.
- Seja bem aparecida, tia Aninha! O seu quarto está, tem sua cama preparada! Mas desta vez
demore-se mais tempo: você a ninguém incomoda nesta casa, nem aumenta a despesa: fique o
tempo que quiser.
Mas a tia Aninha, quando suspeitava que a sua presença ia se tornando aborrecida, levantava o
vôo e partia, com a sua lata de folha, para alojar-se noutra parte.
Era uma velhinha alegre, mas de uma alegria que nenhum observador experimentado acharia
natural e sincera.
As crianças adoravam-na, porque ela sabia contar-lhes muitas histórias bonitas de fadas e
lobisomens - e aí está um dos motivos por que a tia Aninha, depois de prolongada ausência, era
sempre bem recebida, com a sua lata de folha.
*
Foi numa dessas casas hospitaleiras que a encontrei um dia (antes a não encontrasse!),
rodeada de fedelhos boquiabertos e ofegantes. Interessou-me aquele rosto enrugado e
macilento, em que julguei descobrir vestígios de um passado cheio de peripécias e vicissitudes.
A velha boêmia simpatizou comigo, pelo que, aliás nenhum merecimento me atribui, porque ela
- coitadinha! - simpatizava com toda a gente. Nas suas palavras, nos seus gestos e nos seus
olhares, que brilhavam ainda através de duas pequeninas frestas esquecidas entre as
pálpebras, nunca ninguém descobriu a menor prevenção contra pessoa alguma.
Não pertencia ao tipo, muito comum no Brasil e creio que em toda a parte, da velha parasita,
que anda de lar em lar, de alcova a alcova, trazendo e levando enredos, novidades e mexericos,
dando do que se passa em casa de Fulano para chalrar em casa de Beltrano, adulando as
donas e seduzindo as donzelas, embiocada e devotada.
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
Como lhe mentissem, dizendo que eu era romancista, a tia Aninha me declarou, sorrindo, que a
sua vida tinha sido um verdadeiro romance, e essa declaração me levou (antes não levasse!) a
revolver aquelas cinzas, curioso de se embaixo delas crepitavam ainda as derradeiras brasas.
Crepitavam; mas a história da tia Aninha era vulgaríssima, sem incidentes excepcionais nem
grandes lances e surpresas do acaso. Se ela imaginava que aquilo daria um romance, não fazia
mais do que fazem todos os indivíduos para quem o mundo não foi um mar de rosas. Não
criatura infeliz que não esteja persuadida que da sua existência se faria a mais interessante das
novelas.
Nascera a tia Aninha pouco depois da independência. Era filha única de um negociante
português, sofrivelmente apatacado. A sua vida correu pacifica e serena até os vinte anos. Foi
nessa idade que o seu coração falou: ela apaixonou-se por um caixeiro do pai.
A mãe que desejava ser sogra de um príncipe, descobrindo um dia esses amores, que aliás
duravam, havia já dois anos, foi ter com o marido e disse-lhe tudo.
O negociante enfureceu-se; pôs imediatamente no andar da rua o mísero subalterno que se
atrevia a levantar os olhos tão alto, e andou por o todo bairro comercial a pedir de porta em
porta que ninguém o arrumasse. O rapaz ficou, portanto, incompatibilizado com a praça, e
resolveu partir para o Rio de Janeiro, procurando no Sul a fortuna que lhe fugia no Norte. Partiu.
Partiu, mas antes disso, prometeu, por intermédio de uma boa amiga da moça, guardar-lhe
fidelidade, e voltar um dia, quando melhorasse de posição, e de haveres, para casar-se com ela.
Prometeu igualmente escrever-lhe por todos os correios, promessa que cumpriu, graças ainda
ao gracioso intermédio da amiga, que recebia as cartas, embora endereçadas à tia Aninha.
Isto passava-se em 1844. Durante dois anos vieram cartas por todos os correios. Nas
penúltimas, o moço queixava-se, em caracteres trêmulos, de que se sentia muito enfermo, e nas
últimas que eram lacônicas, escritas sob um esforço violento e visível não falava um doente
mas um moribundo. "Talvez seja esta a minha última carta" escreveu ele um dia - e a moça não
recebeu mais nenhuma.
Dois ou três meses depois o pai friamente, à mesa do jantar, deu-lhe a notícia da morte do
noivo.
A pobrezinha contava já vinte e seis anos. Se até então repelira todas as propostas de
casamento que lhe foram feitas pelo pai, dali por diante não admitiu que lhe falassem mais
nisso.
O velho, depois de se meter imprudentemente numa arriscada especulação de açúcares, faliu
em 1850, e alguns meses depois desaparecia, fulminado por uma congestão.
Mãe e filha ficaram reduzidas à pobreza extrema. Os amigos de outrora, sumiram-se,
afugentados pelo aspecto da miséria.
ads:
Em 1855 redobraram ainda os infortúnios de Aninha, com a morte da mãe, vítima do cólera-
morbo.
Datavam dessa época a sua vida de boêmia e a sua lata de folha. Tinha então apenas trinta e
três anos, mas não lhe davam menos de cinqüenta tais foram os estragos causados pelo
sofrimento.
*
Quando a tia Aninha acabou de me contar todas essas coisas, uma tarde em que por acaso nos
achamos sozinhos, num dos seus asilos habituais, no jardim, à sombra de uma latada, não me
atrevi a dizer-lhe que na sua existência de viúva-virgem não havia matéria para um romance, a
menos que o talento e a imaginação do romancista suprissem o que lhe faltava. Entretanto,
proferi esta frase, que continha uma fórmula de consolação:
- A sua vida é, na realidade, um verdadeiro romance, tia Aninha; mas creia que esse mesmo
tem sido o romance de muitas mulheres.
- Oh! Se o senhor lesse as cartas que ele me escreveu! elas dariam páginas e páginas. Era
um simples caixeiro, mas muito inteligente. Quer vê-las?
- O quê?
- As cartas!
- Ainda as conserva?
- Se ainda as conservo? São a minha fortuna. Vou buscá-las.
A velha ergueu-se, foi ao seu quarto, e pouco depois voltou trazendo a sua inseparável lata de
folha.
*
Li algumas das cartas: nada havia nelas de extraordinário, mas tinham, relativamente, muito
valor material, porque estavam todas seladas com os selos das nossas primeiras emissões
postais: o "olho de boi", o "trezentos réis inclinados" e outros.
- Diz a senhora muito bem; a sua fortuna está nestas cartas! Saiba, tia Aninha, que cada um
destes selos vale centenas de mil réis!
A pobre velha, que ignorava a mania filatélica, não compreendeu: foi preciso que eu lho
explicasse.
Ela protestou:
- Desfazer-me das minhas cartas? Nunca!
- Não se desfaça das cartas; desfaça-se dos selos.
- Estes selos podem valer milhões! Não os venderei! Para que preciso de dinheiro?
Deveria calar-me. Tenho remorsos de haver revelado ao dono da casa onde me achava a
existência dos selos da tia Aninha. Ele foi o primeiro a querer comprá-los para negócio.
Pouco tardou que se espalhasse em toda a cidade a noticia de que a velha possuía uma riqueza
encerrada na sua lata de folha. Por fim, não se dizia que eram selos do correio, mas velhas
moedas de ouro, jóias raras e preciosíssimas, o diabo!
E era o seu tesouro tão cobiçado, tanta gente lhe falava nele e manifestava o desejo de
examiná-lo, que a tia Aninha, mais ciosa da sua lata de folha que Harpagon do seu cofre, tinha
pesadelos e alucinações terríveis, vivia num contínuo sobressalto, não podia dormir duas horas
que hão despertasse aos gritos, sonhando que lhe roubavam a sua querida lata, o seu
travesseiro.
Agora havia empenhos para hospedá-la; aconselhavam-na a fazer testamento, adulavam-na,
perseguiam-na com uma solicitude que a desvairou, que lhe tirou lentamente o raciocínio e a
saúde.
Mais do que nunca não esquentava lugar, aparecia e logo desaparecia; não contava às
crianças as suas bonitas histórias de fadas e lobisomens; não falava a ninguém no seu
romance, sem perceber, coitada! que o seu romance começava agora.
Os pequeninos, que dantes a adoravam, tinham medo dela, e os garotos apupavam-na quando
a mísera passava, com a desconfiança no olhar, desgrenhada, andrajosa, descalça, faminta,
apertando nos braços esqueléticos a sua lata de folha, o seu travesseiro, o seu tesouro.
*
Uma noite em que a tia Aninha, vagabundeando à-toa, atravessava uma praça deserta e
silenciosa, foi assaltada por um malfeitor que a roubou, depois de atordoá-la com uma paulada.
Conduzida, algumas horas depois, para um hospital, expirou pronunciando o nome do noivo,
martirizada menos pela paulada assassina que pela idéia de haver perdido as suas cartas de
amor.
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo