Como lhe mentissem, dizendo que eu era romancista, a tia Aninha me declarou, sorrindo, que a
sua vida tinha sido um verdadeiro romance, e essa declaração me levou (antes não levasse!) a
revolver aquelas cinzas, curioso de se embaixo delas crepitavam ainda as derradeiras brasas.
Crepitavam; mas a história da tia Aninha era vulgaríssima, sem incidentes excepcionais nem
grandes lances e surpresas do acaso. Se ela imaginava que aquilo daria um romance, não fazia
mais do que fazem todos os indivíduos para quem o mundo não foi um mar de rosas. Não há
criatura infeliz que não esteja persuadida que da sua existência se faria a mais interessante das
novelas.
Nascera a tia Aninha pouco depois da independência. Era filha única de um negociante
português, sofrivelmente apatacado. A sua vida correu pacifica e serena até os vinte anos. Foi
nessa idade que o seu coração falou: ela apaixonou-se por um caixeiro do pai.
A mãe que desejava ser sogra de um príncipe, descobrindo um dia esses amores, que aliás
duravam, havia já dois anos, foi ter com o marido e disse-lhe tudo.
O negociante enfureceu-se; pôs imediatamente no andar da rua o mísero subalterno que se
atrevia a levantar os olhos tão alto, e andou por o todo bairro comercial a pedir de porta em
porta que ninguém o arrumasse. O rapaz ficou, portanto, incompatibilizado com a praça, e
resolveu partir para o Rio de Janeiro, procurando no Sul a fortuna que lhe fugia no Norte. Partiu.
Partiu, mas antes disso, prometeu, por intermédio de uma boa amiga da moça, guardar-lhe
fidelidade, e voltar um dia, quando melhorasse de posição, e de haveres, para casar-se com ela.
Prometeu igualmente escrever-lhe por todos os correios, promessa que cumpriu, graças ainda
ao gracioso intermédio da amiga, que recebia as cartas, embora endereçadas à tia Aninha.
Isto passava-se em 1844. Durante dois anos vieram cartas por todos os correios. Nas
penúltimas, o moço queixava-se, em caracteres trêmulos, de que se sentia muito enfermo, e nas
últimas que eram lacônicas, escritas sob um esforço violento e visível já não falava um doente
mas um moribundo. "Talvez seja esta a minha última carta" escreveu ele um dia - e a moça não
recebeu mais nenhuma.
Dois ou três meses depois o pai friamente, à mesa do jantar, deu-lhe a notícia da morte do
noivo.
A pobrezinha contava já vinte e seis anos. Se até então repelira todas as propostas de
casamento que lhe foram feitas pelo pai, dali por diante não admitiu que lhe falassem mais
nisso.
O velho, depois de se meter imprudentemente numa arriscada especulação de açúcares, faliu
em 1850, e alguns meses depois desaparecia, fulminado por uma congestão.
Mãe e filha ficaram reduzidas à pobreza extrema. Os amigos de outrora, sumiram-se,
afugentados pelo aspecto da miséria.