
www.nead.unama.br
7
Os quinze anos de Simão têm aparências de vinte. É forte de compleição;
belo homem com as feições de sua mãe, e a corpulência dela; mas de todo avesso
em gênio. Na plebe de Viseu é que ele escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita
lhe censura a indigna eleição que faz, Simão zomba das genealogias, e mormente
do general Caldeirão que morreu frito. Isto bastou para ele granjear a malquerência
de sua mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte no
desgosto dela e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante Rita, a mais nova,
com quem ele brincava puerilmente, e a quem obedecia, se ela lhe pedia, com
meiguices de criança, que não andasse com pessoas mecânicas.
Finalizavam as férias, quando o corregedor teve um grave dissabor. Um dos
seus criados tinha ido levar a beber os machos, e, por descuido ou propósito, deixou
quebrar algumas vasilhas que estavam à vez no parapeito do chafariz. Os donos
das vasilhas conjuraram contra o criado; espancaram-no. Simão passava nesse
ensejo; e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças, e
rematou o trágico espetáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros. O povoléu
intacto fugira espavorido, que ninguém se atrevia ao filho do corregedor; os feridos,
porém, incorporaram-se e foram clamar justiça à porta do magistrado.
Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho geral que o
prendesse à sua ordem. D. Rita, não menos irritada, mas irritada como mãe,
mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem detença, fugisse para
Coimbra, e esperasse lá o perdão do pai.
O corregedor quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se zangado,
e prometeu fazê-lo capturar em Coimbra. Como, porém, D. Rita lhe chamasse brutal
nas suas vinganças e estúpido juiz de uma rapaziada, o magistrado desenrugou a
severidade postiça da testa, e confessou tacitamente que era brutal e estúpido juiz.
CAPÍTULO II
Simão Botelho levou de Viseu para Coimbra arrogantes convicções da sua
valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que pusera trinta
aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada deste, o levantar-se
daquele, ensangüentado, a bordoada que abrangia três a um tempo, a que
afocinhava dois, a gritaria de todos, e o estrépito dos cântaros afinal, Simão
deliciava-se nestas lembranças, como ainda não vi nalgum drama, em que o
veterano de cem batalhas relembra os louros de cada uma, e esmorece, afinal,
estafado de espantar, quando não é de estafar, os ouvintes.
O acadêmico, porém, com os seus entusiasmos, era incomparavelmente
muito mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragédia. As recordações
esporeavam-no a façanhas novas, e naquele tempo a academia dava azo a elas. A
mocidade estudiosa, em grande parte, simpatizava com as balbuciantes teorias da
liberdade, mais por pressentimento, que por estudo. Os apóstolos da revolução
francesa não tinham podido fazer revoar o trovão dos seus clamores neste canto do
mundo; mas os livros dos enciclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebera
a peçonha que saiu no sangue de noventa e três, não eram de todo ignorados. As
doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns tímidos sectários em
Portugal, e esses de ver é que deviam pertencer à geração nova. Além de que, o
rancor à Inglaterra lavrara nas entranhas das classes manufatureiras, e o
desprender-se do jugo aviltador de estranhos, apertado, desde o princípio do século
anterior, com as sogas de ruinosos e pérfidos tratados, estava no ânimo de muitos e