E, como o caixeiro se embaraçou um momento, ele próprio se abaixou, tomou o pincel, deu o seu til a Fabião. Fez
ainda uma recomendação ao guarda-livros sobre uma remessa de baetão vermelho para Luanda e, empurrando outro batente
verde, descendo dois degraus - porque naquele entressolo os pavimentos eram de níveis diferentes, penetrou enfim no seu
gabinete, pôde desabotoar o colete, estender-se enfim numa poltrona de reps verde.
Fora, um dia de julho abrasava, faiscava na pedra dos passeios: mas ali, naquele gabinete, onde nunca dava o sol,
assombreado pelos altos prédios fronteiros, havia uma frescura; as persianas verdes estavam corridas fazendo uma penumbra; e
o verniz das duas carteiras, a dele e a do seu sócio, a esteira que cobria o chão, o reps verde da cadeira bem escovado, uma
moldura de ouro encaixilhando uma vista de Luanda, a alvura dum grande mapa, tinham um ar de arranjo, de ordem, que punha
como um repouso, uma frescura maior. Havia, mesmo, um ramo de flores, que sua mulher, a boa Lulu, lhe tinha mandado havia
dias – compadecida de o saber toda uma daquelas manhãs de calma, no abafamento dum escritório, sem uma cor de flor para
alegrar os olhos. Ele tinha posto o ramo sobre a carteira do Machado. Mas, sem água, as flores murchavam.
O batente verde abriu-se, o guarda-livros mostrou a face amarelada e doente:
- O sr. Machado deixou alguma recomendação a respeito do vinho de Colares para o Cabo Verde?
Então Alves lembrou-se da carta do sócio, que estava sobre a sua escrivaninha. Abriu-a; as duas primeiras linhas
explicavam a ida ao Lumiar; depois, com efeito, começava, “a respeito do Colares...”. Alves deu a carta ao guarda-livros.
O batente fechou-se de novo, e Alves agora tinha outra vez o sorriso de há pouco, mas que não disfarçava. Desde o
começo do mês, era a Quarta ou Quinta vez que o Machado desaparecia assim do escritório, ora para ir ao Lumiar ver a mãe,
ora mesmo, sem razões, ou com esta palavra vaga: “um negociozito”. E Alves sorria ainda, percebia bem o “negociozito”.
Machado tinha vinte e seis anos; e era bonito moço, com o seu bigodito louro, o cabelo anelado, e o ar elegante. As mulheres
gostavam dele. Desde que eram sócios, Alves conhecera-lhe três ligações: uma linda espanhola, que, apaixonada pôr ele,
deixara um brasileiro rico, um antigo presidente de província, que lhe pusera casa; depois uma atriz de D. Maria, que não tinha
nada senão uns bonitos olhos; e agora aquele “negociozito”. Mas estes amores decerto eram mais delicados, tomando um lugar
maior no coração, na vida de Machado.. Alves sentia-o bem, pôr certo ar inquieto e preocupado do sócio, o quer que fosse de
contrafeito, de triste pôr vezes...Também o Machado nunca lhe dissera nada, não mostrara jamais a mais leve tendência para
uma efusão, uma confidência. Eram íntimos, Machado ia passar muitas noites à casa dele, tratava a Lulu quase como uma irmã,
jantava lá todos os domingos mas -, ou porque tivesse entrado na firma comercial havia apenas três anos, ou porque era dez anos
mais novo, ou porque Alves fora amigo de seu pai e um dos testamenteiros, ou porque era casado – Machado conservava para
com ele uma certa reserva, um vago respeito, nunca entre eles se estabelecera uma verdadeira camaradagem de homens.
Também Alves não lhe dizia nada. O “negociozito” não pertencia aos interesses da firma. Ele não tinha nada com isso. Apesar
daquelas ausências repetidas, Machado continuava a ser muito trabalhador, amarrado à carteira dez e doze horas em dias de
paquete, ativo, fino, vivendo todo para a prosperidade da firma: e Alves não podia deixar de confessar que se na firma ele
representava a boa conduta, a honestidade doméstica, a vida regular, a seriedade de costumes – Machado representava a finura
comercial, a energia, a decisão, as largas idéias, o faro do negócio... Ele, Godofredo, fora sempre de natureza indolente, como
seu pai, que, pôr gosto, se movia duma sala para outra, numa cadeira de rodas...
De resto, apesar dos seus princípios severos de rapaz educado a sério nos jesuítas, cheio de boas crenças, e que nunca
antes de casado tivera uma ligação, ou um amor irregular, ele sentia pôr estas “tolices” do Machado uma vaga e simpática
indulgência. Em primeiro lugar pôr amizade: conhecera o Machado pequeno, e bonito como um querubim; e nunca deixara de o
impressionar vagamente a boa família do Machado, o seu tio conde de Vilar, as suas relações na sociedade, o caso que dele
fazia dona Maria Forbes, que o convidava para as suas quintas-feiras – apesar de negociante -, e, além disso, as bonitas
maneiras, e certos requintes de elegância: uma coisa que o espantava era que, como o Machado, ele nunca pudera tr aquele bom
ar. E depois havia ainda uma outra razão, uma razão de temperamento, para que ele não deixasse de simpatizar, vagamente e a
seu pesar, com as coisas do coração do Machado. É que, no fundo, aquele homem de trinta e sete anos, já um pouco calvo,
apesar do seu bigode preto, era um pouco romanesco. Herdara aquilo da sua mãe, uma senhora magra, que tocava harpa,
passava a vida a ler versos. Fora ela que lhe dera aquele nome ridículo de Godofredo. Mais tarde todo esse sentimentalismo que
durante longos anos se dera às coisas literárias, aos luares, aos amores de romance, se voltara para Deus: tinha tido os começos
duma monomania religiosa; a leitora de Lamartine tornara-se uma devota maníaca do Senhor dos Passos; fora ela que então o
fizera educar nos jesuítas – e os seus últimos dias foram um longo terror do inferno. E ele herdara alguma coisa dela: em rapaz
tivera toda a sorte de entusiasmos que se não fixavam, e que flutuavam indo dos versos de Garrett ao Coração de Jesus; depois,
calmara, em seguida a uma febre tifóide, e quando veio a ocasião de tomar a casa de comissões de seu tio era um homem
prático, usando a vida só pelo seu lado material e sério; mas ficara-lhe na alma um vago romantismo que não queria morrer:
gostava de teatro, de dramalhões, de incidentes violentos. Lia muito romance. As grandes ações, as grandes paixões, exaltavam-
no. Sentia-se por vezes capaz dum heroísmo, duma tragédia. Mas isto era vago, e movendo-se surdamente, e raramente, naquele
fundo do coração onde ele os tinha prisioneiros. Sobretudo as paixões românticas interessavam-no: decerto não pensara nunca
em lhes provar o mel ou fel: ele era um homem casto que amava a sua Lulu; mas gostava de as ver no teatro, nos livros. E agora
aquele romance que ele sentia ali ao seu lado, no seu escritório, interessava-o: era como se os fardos, a papelada, ficassem
melhor com aquele vago perfume de romance que exalava de si o Machado...
De novo o batente verde abriu-se, a face amarelada do guarda-livros apareceu. Vinha restituir a carta do sr. Machado;
e, antes de se retirar, disse, pela meia abertura da porta:
- Hoje é a reunião geral da Transtagana.
Alves então teve como uma surpresa:
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