- Esse mesmo.
- E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?
- Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.
A essa palavra "cobres", o Romualdo teve um estremeção de alegria; mas caiu em si:
- Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu
companheiro de colégio...
- Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artigo, não te recusarás a escrevê-
lo, porque não admito que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não
quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com luva de pelica.
Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade.
Escreves o artigo?
- Mas...
- Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.
- Tenho escrúpulos...
- Deixa lá os teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda a atenção.
E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma
pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar, um contra o outro, dois
amigos que não conhecessem o que a vida tem de áspero e difícil O artigo seria um desabafo
menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente,
evitar uma injúria grave.
O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil-réis, e apanhara, na
véspera, uma descompostura de lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e
no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.
- Muito bem! - exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.
- Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente a questão!
E, depois de um passeio â burra, meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe: