
Da parte do ser humano, uma extinção total é impensável já que sua história, com
seu entrelaçamento com outras histórias, não pode ser desfeita. Concordamos com esta
argumentação e vale ressaltar que ela segue a lógica do pensamento de Renold Blank em
dois pontos: valoriza a história e a liberdade humana e, principalmente, realça o amor
absoluto de Deus que, ao agir, sempre produz vida (salvação) e impede a morte.
3.4. Céu: salvação, destino final do ser humano
Introdução
Renold Blank apresenta o tema do céu
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explicitando-o, a exemplo da teóloga
Maria Clara Bingemer, como obra da salvação
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querida por Deus para todos os seres
humanos. Se, como vimos, o inferno é a não-salvação, o que Deus não quer; o céu, ao
contrário, é “o último destino”
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para “onde” caminhamos impulsionados pelo amor
reconciliador
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de Deus. Ao expor o pensamento de Renold Blank sobre o céu,
explicaremos consequentemente o que ele entende por salvação.
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Sendo céu a designação da plenitude absoluta alcançada pelo homem ajudado por Deus, a palavra que
remete a essa realidade é uma parábola significativa. Céu, literalmente, significa firmamento ou abóbada. As
religiões urânicas (dos caçadores e dos nômades) ofereciam uma profunda experiência da grandiosidade do
céu. E, assim, viram nele o símbolo da realidade divina. Compreendemos, portanto, céu como transcendência:
Deus é Aquele que se encontra “acima de tudo”. Então, céu é sinônimo de Deus e, para o Novo Testamento,
de Jesus ressuscitado (cf. L. BOFF, Vida para além da morte, op. cit., 68). No entanto, Bernard Sesboüé
adverte para o fato que a palavra céu tornou-se ambígua desde que o céu estelar fez-se objeto de descobertas e
viagens cósmicas. O teólogo francês sugere o uso da expressão “vida eterna” (cf. B. SESBOÜÉ, Croire, op.
cit., p. 530). Renold Blank, por sua vez, não se prende a esta distinção e utiliza as duas formas, pois está mais
preocupado com o sentido teológico que elas veiculam.
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“Deus quer a salvação de todos!”, afirma Renold Blank (cf. Escatologia da pessoa, op. cit., p. 282). Sobre
esta vontade salvífica, Maria Clara Bingemer disse que “para designar o destino final dos homens e mulheres
escolhidos por Deus para serem salvos (...) a fé cristã cunhou a palavra ‘céu’ ” (J. B. LIBÂNIO; M
a
. C. L.
BINGEMER, Escatologia cristã, op. cit., p. 285).
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Cf. R. J. BLANK, Escatologia da pessoa, op. cit., p. 283. Este derradeiro destino é a meta para “onde” o
homem caminha. Segundo Medard Kehl: “Quando falamos de céu no sentido bíblico-cristão, referimo-nos à
meta da história pessoal e universal pensada por Deus para nós (...). ‘Céu’ é, no fundo, outra palavra para
‘consumação’ ” (M. KEHL, O que vem depois do fim? op. cit., p. 150). “Enquanto o inferno situa-se apenas
ao nível de possibilidade (grifo do autor), o céu, a vida eterna, é promessa real (grifo do autor) entregue ao
ser humano por Deus, ratificada em Jesus Cristo, proposta (grifo do autor) de vida” (J. B. LIBÂNIO; M
a
. C.
L. BINGEMER, Escatologia cristã, op. cit., p. 265).
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Mais uma vez, aparece o tema do amor. Através dele, “Deus quer que o ser humano participe de sua
própria vida divina” (R. J. BLANK, Escatologia da pessoa, op. cit., p. 286). Medard Kehl, em consonância
com Renold Blank, afirma que amor e céu são realidades que se relacionam: “A fonte e o meio dessa bem-
aventurança da consumação é o amor reconciliador (grifo do autor) de Deus” (M. KEHL, O que vem depois
do fim? op. cit., p. 150).
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