das classes dominantes. Formas de resistência que venho chamado de "manhas
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dos
oprimidos, no fundo, "imunizações" que as classes populares vão criando em seu corpo,
em sua linguagem, em sua cultura. Dar a necessidade fundamental que tem o educador
popular de compreender as formas de resistência das classes populares, suas festas,
suas danças, seus folguedos, suas lendas, suas devoções, seus medos, sua semânti-
ca, sua sintaxe, sua religiosidade. N5o me parece possível organizar programas de ação
político-pedagógica sem levar seriamente em conta as resistências das classes popula-
res. É preciso entender que as formas de resistência envolvem em si mesmas limites
que as classes populares se põem com relação à sua sobrevivência em face do poder
dos dominantes. Em muitos momentos do conlfito de classes, as classes populares,
mais Imersas que emersas na realidade, têm, em sua resistência, uma espécie de muro
por detrás do qual se escondem. Se o educador não é capaz de entender a dimensão
concreta do medo e, discursando numa linguagem já em si difícil, propõe ações que ul-
trapassam demasiado as fronteiras da resistência, obviamente será recusado. Pior ain-
da, pode intensificar o medo dos grupos populares. Isto não significa que o educador não
deva ousar. Precisa saber, porém, que a ousadia, ao implicar uma ação que vai mais
além do limite aparente, tem seu limite real. Se falta este à percepção do grupo popular
não pode faltar ao educador.
Acho, particularmente, que não há nada sem ousadia, Uma dose de insensatez é
absolutamente fundamental a uma pedagogia da indignação, que ô a pedagogia que vivo
defendendo neste pafs, com outros nomes. Não é possível uma pessoa relativamente
sensível saber, sem revolta, que 60% da população deste país sobrevive numa dor vasta
e profunda; que milhões de meninos brasileiros, que a ideologia dominante, culpabilizan-
do-se, chama de menores carentes, vivem nas ruas de nossas cidades. Meninos ca-
rentes! Vocês já observaram como, no Brasil, se tem a mania de inventar nomes adoci-
cados para caracterizar situações trágicas, diabólicas?
Recentemente, me disseram, um jornal, não estou certo se do Rio de Janeiro, pu-
blicou em letras garrafais: "Menino carente agride criança". Quer dizer, o menino de rua
chama-se delinqüente; o meu neto ô uma criança linda. Como é possível conviver com
estes dados sem sentir uma profunda e justa indignação e sem se deixar tocar por justa
ira? Pois quero dizer a vocês que sou um pedagogo indignado, absolutamente indignado.
Em última análise, quanto mais rigorosamente competentes nos consideremos a
nós mesmos e a nossos pares, tanto mais devemos reconhecer que, se o papel organi-
zador, interferente, do educador progressista não é jamais o de alojar-se, de armas e ba-
gagens, na cotidianidade popular, não é também o de quem, com desprezo inegável,
considera nada ter a fazer com o que lá ocorre. A cotidianidade, Karel Kosik deixou-o
multo claro em sua dialética do concreto, é o espaço-tempo em que a mente não opera
epistemologicamente em face dos objetos, dos dados, dos fatos. Se dá conta deles, mas
não apreende a razão de ser mais profunda dos mesmos. Isto não significa, porém, que
eu não possa e não deva tomar a cotidianidade e a forma como nela me movo no mundo
como objeto de minha reflexão; que .não procure superar o puro dar-me conta dos fatos a
partir da compreensão crítica, que deles vou ganhando.
Às vezes, a violência dos opressores e sua dominação se fazem tão profundas
que geram em grandes setores das classes populares, a eles submetidas uma espécie
de cansaço existencial que, por sua vez, está associado ou se alonga no que venho
chamando de anestesia histórica, em que se perde a idéia do amanhã como projeto. O
amanhã vira o hoje repetindo-se, o hoje violento e perverso de sempre. O hoje do ontem,
dos bisavós, dos avôs, dos pais, dos filhos e dos filhos destes que virão depois. Daí a
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