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Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva
Ministro de Estado da Educação
Fernando Haddad
Secretário Executivo
Jairo Jorge da Silva
Secretário de Educação Básica
Francisco das Chagas Fernandes
Diretora do Departamento de Políticas de Educação Infantil e do Ensino Fundamental
Jeanete Beauchamp
Coordenadora-Geral do Ensino Fundamental
Sandra Denise Pagel
Fundação Bunge
Presidente
Miguel Reale
Vice Presidente
Cario Lovatelli
Superintendente Geral
Ruy Martins Altenfelder Silva
Conselho Nacional de Secretários de Educação - CONSED
Presidente
Gabriel Benedito Issaac Chalita
União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação - UNDIME
Presidente
Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva
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PREMIO INCENTIVO A
EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL 2004
EXPERIÊNCIAS PREMIADAS
PRÉMIO INCENTIVO À EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL 2004
COMISSÃO JULGADORA NACIONAL
Alvana Maria Bof
Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura / UNESCO
Maria José Coutinho Moreira
Conselho Nacional de Secretários de Educação/CONSED
Ivanilde Kuhl Fernandes
União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação /UNDIME
Miriam Celeste Martins
Fundação Bunge
Ivete Alves do Sacramento
Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras/CRUB
Irmã Débora Pinto Niquini
Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras/CRUB
Vânia Elichirigoity Barbosa
Ministério da Educação/Secretaria de Educação Básica/MEC/SEB
Expediente técnico
Coordenação e Edição de Textos
Roberta de Oliveira Sueli Teixeira
de Mello Telma Maria Moreira
Digitação e Apoio
Dejanira Rodrigues de Almeida
Revisão
Ligia Beatriz Costa Ferreira
Projeto Gráfico e Diagramação
Formatos Design Gráfico
P925
Prêmio incentivo à educação fundamental 2004 : experiências premiadas /
[coordenação e edição de textos: Roberta de Oliveira, Sueli Teixeira de Mello e
Telma Maria Moreira]. — Brasília : Ministério da Educação, 2005.
188 p.: il.
1. Educação Fundamental - Escola Pública - Brasil. 2. Educação Básica -Professor
- Qualidade de Ensino. 3. Prémio Incentivo. I. Fundação Bunge. n. CONSED -
Conselho Nacional de Secretários de Educação. III. UNDIME -União Nacional de
Dirigentes Municipais de Educação. VI. Título.
CDU 37.046.12(81)
Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária Lúcia Helena Alves de Figueiredo CRB 1/1.401
COORDENADORES ESTADUAIS INDICADOS
PELAS SECRETARIAS DE EDUCAÇÃO DE ESTADO
ACRE
Fânia Freitas Cordeiro
ALAGOAS
Somaya de Albuquerque Souza
AMAZONAS
Cynthia Maria Bindá Leite
AMAPÁ
Wildma Mota de Morais
BAHIA
António Carlos Santos Silva
CEARÁ
Myrvia Muniz Rebouças
DISTRITO FEDERAL
Maria do Socorro Guimarães Amaral Lima
ESPÍRITO SANTO Sebastiana
Vilaça da Silva
GOIÁS
Isa Lourdes de Araújo Pitaluga
MARANHÃO
Ana Maria Ayres Lima e Silva
MATO GROSSO Wilton
Coelho Pereira
MATO GROSSO DO SUL
Aline Cerutti Pereira
MINAS GERAIS
Norma Lúcia Flávio de Lelis
PARÁ
Antoinette Francês Brito
PARAÍBA
Rejane Viana do Nascimento
PARANÁ
Fátima Ikiko Yokohama
PERNAMBUCO
Rosa Maria de Souza Leal
PIAUÍ
Leda Maria de Castro Bezerra
RIO GRANDE DO NORTE
Edmílson Simplício de Araújo
RIO GRANDE DO SUL
Vânia Maria Rodrigues Brito
RIO DE JANEIRO
Maria da Glória Rocha Vieira Delia Favera
RONDÔNIA
Rejane Maria Rodrigues de Lima
RORAIMA
Cleonides Gomes Pereira
SANTA CATARINA
Maria das Dores Pereira
SÃO PAULO
Laura Cecília F. Bandoni de Oliveira
SERGIPE
Iara Madureira Rabelo
TOCANTINS
Maria Raimunda Carvalho Araújo
REPRESENTAÇÕES ESTADUAIS DA UNDIME
ACRE
Terezinha Ribeiro Flores
ALAGOAS
Alcineide Francisco do Nascimento
AMAZONAS
Rosa Maria da Conceição Fonseca
AMAPÁ
Antónia de Moraes Guedes
BAHIA
Adilza Carolina Cruz Santos Teixeira
CEARÁ
Flávio de Araújo Barbosa
ESPÍRITO SANTO
Júlia Maria Hassen Santos de Oliveira
GOIÁS
Walderês Nunes Loureiro
MARANHÃO
José Cícero Queiroz Santos Filho
MATO GROSSO Ilma
Grisoste Barbosa
MATO GROSSO DO SUL Maria
Nilene Badeca da Costa
MINAS GERAIS
Maria das Graças Pedrosa Bittencourt
PARÁ
Marco António Leal Góes
PARAÍBA
Marcos António Araújo Leite
PARANÁ
Ivanilde Kúhl Fernandes
PERNAMBUCO
Edla Lira de Araújo Soares
PIAUÍ
Maria Adamir Leal de Sousa
RIO GRANDE DO NORTE
Justina Iva de Araújo Silva
RIO GRANDE DO SUL Ângela
Schumacher Schuh
RIO DE JANEIRO
Sandra Gomes Simões
RONDÔNIA Rosa
Ali Mariot
RORAIMA
Delacir de Melo Lima
SANTA CATARINA Nelson
Molinski Moreira
SÃO PAULO
João Medeiros de Sá Filho
SERGIPE
José Heriberto de Souza
TOCANTINS
Osmar Nina Garcia Neto
SUMARIO
APRESENTAÇÃO 7
INTRODUÇÃO 9
ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 13
PEQUENOS ESTRATEGISTAS 23
POESIA FORA DA ESTANTE. LEITURA DENTRO DA ESCOLA 31
LEITURA SEM FRONTEIRA 41
CIDADANIA NÃO TEM IDADE 49
A SAÚDE COMEÇA PELA BOCA 57
LIVRO SEM CONTRA-INDICAÇÕES. ENCANTO A VIDA E A ALMA 69
PRESERVANDO A FLORESTA DE MANGUE 79
ANJOS DE PRATA 85
APRENDENDO A LER NAS ENTRELINHAS DA IMAGEM E DA EXPRESSÃO 93
UMA VIAGEM PELO MAR ATRAVÉS DA LEITURA 103
JORNAL NA ESCOLA - UMA QUESTÃO DE CIDADANIA 111
O DOCE SABOR DE APRENDER: NOVAS POSSIBILIDADES
NO ENSINO FUNDAMENTAL 119
CONTROLE E MONITORAMENTO DA ÁGUA PARA CONSUMO HUMANO 125
REFLETINDO SOBRE O LUGAR ONDE VIVO 131
INTERCÂMBIO CULTURAL EDUCANDO SEM FRONTEIRA 139
ALFABETIZANDO COM A MAGIA DO CIRCO 149
PEQUENOS POETAS 157
ÁGUA, LÍQUIDO PRECIOSO 165
LITERATURA E ARTE, VIAJE NESSA FANTASIA 173
APRESENTAÇÃO
FRANCISCO DAS CHAGAS FERNANDES
SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO BÁSICA
om muita satisfação, o Ministério da Educação apresenta a publicação "Prémio
Incentivo à Educação Fundamental - 2004 - Experiências Premiadas".
Este documento é, para nós, de extrema importância porque ilustra uma das
atividades mais relevantes inseridas no conjunto de ações que desenvolvemos na
Secretaria de Educação Básica. Trata-se da parceria firmada, desde 1995, com a
Fundação Bunge no sentido de criar um premio que valorizasse o professor como
o principal agente no processo de melhoria da qualidade do ensino.
Atualmente, essa parceria, somada a de outras entidades, encontra-se
renovada e fortalecida com a criação de nova premiação que unificou as
anteriores.
Aberto à participação de todos os professores que atuam nas séries iniciais
das redes públicas do Ensino Fundamental, o Prémio Incentivo à Educação
Fundamental, no ano de 2004, comemorou sua nona edição, contemplando as
melhores experiências selecionadas em um total de 1.168 inscrições.
Essas 20 (vinte) experiências estão aqui reunidas. A publicação salienta, a
partir do relato de cada professor e professora, soluções e práticas pedagógicas
inovadoras, bem como o esforço do registro e a superação, em muitos casos, de
imensas dificuldades objetivas, tais como escolas precárias e insuficiência de
materiais didáticos, encontrando-se, muitos deles, ainda excluídos do acesso aos
bens culturais e dos benefícios da sociedade do conhecimento.
0 MEC, em reconhecimento a todo esse trabalho, dedica a presente
publicação aos docentes brasileiros e espera, com as intervenções transformadoras
nela incluídas, que venha contribuir para qualificá-los cada vez mais. Deseja,
também, oferecer aos sistemas de ensino e demais educadores, mais um
instrumento para a formação continuada, incentivando o intercâmbio de ideias, o
crescimento intelectual e a maior percepção da diversidade regional, cultural e
educacional do Brasil.
C
INTRODUÇÃO
JEANETE BEAUCHAMP
DIRETORA DO DEPARTAMENTO DE POLÍTICAS DE
EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL
Caro leitor,
o começarmos a organizar o material para publicar as expe-
riências contempladas com o Prêmio Incentivo à Educação
Fundamental - 2004, deparamo-nos com imensa variedade
de formas textuais: relatos curtos ou longos, concisos ou carregados
de detalhes, mais ou menos fundamentados teoricamente, acompa-
nhados ou não de vídeos, fotografias ou trabalhos de alunos. Como
publicar material tão heterogéneo?
Decidimos, nesse sentido, criar um roteiro para orientar os pro-
fessores/autores na elaboração de uma versão resumida do trabalho
premiado e, assim, um material um pouco mais uniforme. Nesse rotei-
ro, além de solicitar que o texto não ultrapassasse o máximo de seis
laudas e contivesse algumas especificações técnicas, pedimos também
que se detivessem nos seguintes itens:
a) Dados de Identificação - sugerimos o título, o autor (e co-
autores, se fosse o caso); a escola, o Município e o Estado onde está
inserida; a faixa etária e o número de crianças atendidas pela expe-
riência;
b) Contextualização - uma descrição das peculiaridades do espa-
ço escolar; da realidade sociocultural da comunidade na qual a escola
se localiza e das características das crianças;
c) Justificativa - um relato sobre a situação anterior à experiên-
cia e o que motivou a escolha do tema;
d) Embasamento teórico - a citação de autores e conceitos que
serviram de referência para embasar teoricamente a prática desenvol-
vida, bem como reflexões realizadas durante o processo que, a partir
desses conceitos, contribuíram para aperfeiçoar essa prática;
e) Desenvolvimento das Ações - o detalhamento das ações desde
os primeiros encaminhamentos; os objetivos educacionais pretendidos
e propostos às crianças; a metodologia de trabalho utilizada e as arti-
A
culações entre as diferentes áreas de conhecimento; os espaços físicos
e os materiais empregados, bem como as parcerias envolvendo outros
profissionais e entidades, dentro ou fora da escola;
f) Avaliação - os procedimentos adotados para avaliação do pro-
cesso e dos resultados obtidos; os aprendizados e avanços ao longo da
experiência; o aprendizado das crianças no transcorrer da prática e uma
comparação dos resultados alcançados e esperados;
g) Conclusão - a previsão de continuidade ou ampliação da expe-
riência; os aspectos que poderiam ser mudados ou aperfeiçoados, bem
como considerações sobre o aproveitamento, por parte de outros pro-
fessores, da experiência e da prática junto às crianças do ensino fun-
damental.
Por último, sugerimos que relatassem, ainda, impressões pessoais
ou outras considerações que julgassem pertinentes. Ressaltamos nosso
desejo de manter ao máximo os textos originais e, assim, preservar a
autoria.
Foram poucos os cortes que precisamos fazer, mas foram muitas as
surpresas e a emoção que tomaram conta de nós ao lermos estas novas
versões. Evidentemente, já conhecíamos e havíamos lido com atenção
os trabalhos originais premiados. Isso porque, na dinâmica de viabi-
lização do Premio Incentivo à Educação Fundamental, esse sempre foi
o momento mais esperado por todos no MEC. Deixaríamos nossas
exaustivas tarefas administrativas necessárias para que o Prêmio acon-
tecesse e, então, conhecer e mergulhar no trabalho do professor em sala
de aula.
Dessa forma, defrontamo-nos com um dos componentes da imensa
trama de discussões, projetos e políticas da Educação brasileira, a qual,
raramente, temos acesso por nos encontrarmos no âmbito federal de
atuação: a fala espontânea e o pensamento renovado de professores das
mais longínquas regiões do País.
E ao ouvir essa multiplicidade de vozes, confirmamos nosso acerto
em publicá-las, não apenas para prestar contas ou para devolver aos
professores respostas a nosso chamado, mas para o que nos pareceu
um instrumento e uma necessidade indispensáveis de construção do
presente educacional e de projeção de cenários mais compatíveis com
tudo o que priorizamos, tanto ao formularmos programas quanto ao
apostarmos no espírito investigativo e na sensibilidade, característicos
da profissão docente.
Assim, chama a atenção, em alguns relatos, profunda reflexão
da professora Jussara, de Rio Negro no Paraná: em qualquer situação,
o que o professor não pode esquecer é que ele é um construtor de
andaimes para que os alunos internalizem um novo valor, incluída na
experiência intitulada "Alfabetizando com a magia do circo". Ou a
singela pergunta do professor Helter, sentindo-se desafiado a superar
o desânimo das crianças e a visão negativa da escola a partir da
adoção do jogo de xadrez: a grande questão era como despertar nos
alunos este sentido de escola como local de elaboração e manipulação
do saber?
Chama, também, a atenção em diversos textos, a diversidade de
temáticas escolhidas pelos professores, em que não faltaram preo-
cupações com o meio ambiente, com a formação de leitores e com a
aquisição da escrita, com as questões da cidadania ou mesmo com a
convivência familiar e o respeito aos mais velhos. Ressaltam-se di-
mensões importantes como a dimensão artística, bem como problemas
que afligem a população, tais como a falta de saneamento básico em
pequenas comunidades ou a inexistência de coleta adequada de lixo.
Enfim, acreditamos que a publicação que temos nas mãos reflete
a rica diversidade e potencialidade do amplo segmento constituído pe-
los professores da educação básica. Em síntese, aponta em suas vozes,
condensadas na estrutura mencionada anteriormente, caminhos para
que a educação possa desempenhar o papel estratégico de propulsora
do desenvolvimento e desencadeadora de transformações necessárias
em busca de horizontes com mais qualidade, com mais condições de
responder às exigências de nossa época.
Nosso desejo é compartilhar com os leitores o conjunto de refle-
xões e situações diferenciadas de práticas pedagógicas, várias realida-
des e diversas dimensões do fazer educacional.
É assim que olhamos o Brasil - para compreender e corrigir ru-
mos, para acolher a pluralidade de concepções educativas e para ho-
menagear os professores em todo seu engajamento, compromisso e
resistência.
ESTATUTO DA CRIANÇA
E DO ADOLESCENTE
Refletir e buscar possibilidades para um
futuro melhor das crianças que trabalham.
escola em que foi desenvolvido o Projeto
localiza-se em um bairro periférico da
cidade. É considerada um sítio, pois possui
área verde, inclusive horta e campinho de
futebol. Possui apenas quatro salas de aula,
sala de vídeo que também agrega alguns
livros recebidos do governo, refeitório e
muito espaço recreativo. A comunidade que
atende é muito carente. Alguns pais chegam
a receber bem menos que 1 (um) salário
mínimo. Já detectamos pais cuja única
renda mensal é o dinheiro do Bolsa Escola.
Esse é um dos principais motivos que levam
muitas de nossas crianças a trabalharem.
Um aspecto marcante da escola é que
recebe com frequência - e essa é uma carac-
terística comum - alunos expulsos de outras
unidades de ensino. Contudo, esses alunos
são envolvidos em atividades extra classe,
a partir do apoio da Fundação Marimbe-ta.
Essa Fundação, além de atender outras
quatro escolas - por meio de parcerias com
empresas e prefeitura -, oferece oficinas do
tipo: "Artes Verdes", "Artesanato", "In-
formática", "Esporte e Recreação", além de
"Serigrafia". Isso permite que muitos alu-
nos se inscrevam nessas oficinas em turno
oposto ao das aulas. A Fundação também
disponibiliza essas oficinas a outros jovens,
de até 18 anos, da comunidade em que se
acha inserida.
Assim sendo, o desenvolvimento do
Projeto se pautou na realidade de vida dos
educandos. E, para sua a elaboração e exe-
cução, foi essencial a participação dos alu-
nos no que se refere aos aspectos investi-
gados. Ocorreu que, após o questionamento
de um aluno sobre a possibilidade de crian-
ça trabalhar, quando estudávamos sobre o
ECA (na Semana do 13° Aniversário desse
Estatuto), houve um momento rico de dis-
cussão. Aproveitei para sistematizar a pro-
blematização suscitada, identificando os
questionamentos que interessavam à turma
de uma maneira geral. Por meio dessa aula,
comecei a perceber a falta de conhecimento
com relação aos próprios direitos e o nú-
mero de alunos envolvidos em algum tipo
de trabalho.
Dentre os questionamentos sistemati-
zados surgiram:
1. Por que muitas crianças trabalham?
2. 0 que pode ser feito para ajudar essas
crianças?
3. 0 que elas perdem e o que elas ganham
trabalhando?
4. As condições de trabalho dessas crian-
ças provocam algum risco de vida?
A
5. Antigamente as crianças também tra-
balhavam como muitas hoje em dia?
6. Quais os direitos das crianças?
7. Todas as pessoas têm os mesmos direi-
tos?
8. 0 que é ser cidadão?
Toda essa realidade e essas inquietações
incentivaram o desenvolvimento de um
projeto discorrendo sobre o tema proposto
para que houvesse investigação, maior
aprofundamento e uma sequência bem
planejada das ações.
0 objetivo principal que norteou o
Projeto foi o de refletir sobre a realidade de
vida de crianças que trabalham, como é o caso
de muitas que estudam em nossa escola, e
sobre as possibilidades que podem ser
buscadas para o alcance de um futuro
profissional e familiar mais bem projetado e
mais digno.
Os educandos precisavam conhecer o
Estatuto que respalda seus direitos, pois só é
possível valorizar aquilo que se conhece e que
se faz necessário à nossa vida. 0 que deve ser
evitada é a postura de conivência diante de
situações como essa, sendo, sobretudo,
superficial frente aos problemas. A
Organização Internacional do Trabalho aponta
inclusive que
"Embora em termos estatísticos
os números possam parecer pouco
significativos, no que diz respeito
aos direitos das crianças e dos
adolescentes (como também aos
direitos humanos), enquanto
houver uma só criança trabalhando,
devemos exercer não só o direito
de nos indignar, como também nos
posicionar contra essa exploração
e reivindicar medidas concretas
para a erradicação dessa chaga, em
qualquer parte do mundo" (OIT,
2001).
Analisar as situações vivenciadas pelas
crianças que trabalham, à luz dos aspectos
legais, foi uma forma de aproximar os con-
teúdos escolares da realidade de vida dos
alunos e despertá-los para conhecimentos que
são fundamentais ao alcance de condições
mais humanas de sobrevivência.
Um desses conhecimentos se referia ao
conhecimento do ECA, compreendendo-o da
forma mais ampla possível. Foi possível
perceber, por exemplo, que o Estatuto não é
responsável pelas crianças em situação de
risco pessoal e social, ou vítimas do desprezo
familiar, dentre outras situações, mas é uma lei
estabelecida que garante a todas as crianças e
adolescentes proteção especial, uma vez que
reconhece suas condições de seres em
formação. Existe porque é também uma forma
de defender a plena cidadania da criança e do
adolescente, em todas as classes sociais. A
legislação em vigor no Brasil também deixa
bem clara a impossibilidade do trabalho
infantil e define que as atividades
desenvolvidas por adolescentes devem estar
subordinadas à sua formação escolar.
0 que falta ainda em nosso país é que
toda a sociedade haja em prol do que acredita.
"Direitos Humanos, é uma prática de
liberdade humana dirigida à
fraternidade e à pessoa em sociedade"
(AGUIRRE, 1997).
Escola Ritinha Dantas - Sitio I - Itabuna/BA
As instituições educacionais também
precisam se voltar mais para o estudo dessas
questões. Soares coloca que:
"educar para os direitos humanos
pretende a formação de uma
escolaridade autónoma, preparada
para a solidariedade e a tolerância"
(SOARES, 1997, p. 7).
E nisso que precisamos nos pautar mais!
Nessa preparação para a solidariedade e
tolerância, a fim de conseguirmos alcançar
outros princípios que garantam o exercício
pleno da cidadania de todos os indivíduos na
sociedade.
Foram diversas as ações desenvolvidas
no decorrer do Projeto com os alunos. Dentre
elas é interessante destacar algumas. A ação
inicial, por exemplo, que visou responder ao
primeiro questionamento sobre a possibilidade
de uma criança trabalhar, foi de pesquisa e de
divulgação de materiais informativos
atualizados sobre o assumo para os alunos,
tendo em vista que a "biblioteca" da escola
possuía poucos dados. Foram utilizadas
reportagens com os se-
guintes temas: "0 que obriga crianças e jovens
a trabalhar?"; "O Trabalho Infantil no Mundo"
e "Trabalho Infantil no Campo". Os alunos
foram organizados em semi-círculos e foi feita
uma leitura com pausa protocolada (leitura
com pausa para interferências) de cada
reportagem, para que pudéssemos discutir
pontos específicos com mais riqueza. Foi
possível envolver a área de História e
Geografia e dar ênfase às áreas de Língua e
Literatura, no tocante à leitura e expressões
orais.
A partir daí foram promovidas outras
aulas para leitura e discussão do significado e
existência do ECA. Essa ação teve o objetivo
de provocar uma reflexão sobre a lei que
defende e protege a Criança e o Adolescente
do Brasil, tendo em vista certo
desconhecimento por parte dos alunos. Foram
enfocados os conceitos de Estatuto, Amparo
Legal e Relação com a Criança e o
Adolescente. Com isso, começou a haver um
maior amadurecimento quanto ao assunto.
Eles ressaltaram que criança é um cidadão que
tem os seus direitos e deveres e que têm
muitas necessidades que devem ser garantidas.
Inclusive, alguns alunos co-
locaram que em seus bairros têm a liber-
dade e segurança de brincar nas praças à
vontade, sem medo de violência, enquanto
outros disseram que ser criança em seus
bairros é difícil, porque apresenta perigo de
segurança e não tem policiamento, sendo a
escola o lugar que aproveitam para isso.
Chegaram a citar o órgão em nossa cidade
que defende os direitos e deveres da criança
e do adolescente, o Conselho Tutelar. A
área de História foi bem contemplada nessa
ação ao retratar esses pontos referentes à
cidadania.
A partir da próxima ação envolvendo
o Poema "Meninos Carvoeiros" (de Manuel
Bandeira), foi possível promover uma dis-
cussão sobre diversidade textual, compa-
rando esse texto com os que já haviam sido
trabalhados anteriormente. Porém, a in-
tenção primordial foi retratar uma realida-
de de vida comum e presente na realidade
brasileira, que é a dos meninos carvoeiros.
0 conteúdo contemplado foi: "Trabalho In-
fantil", "Direitos e Deveres" e "Desigualda-
de Social".
Após discutir, os alunos puderam ob-
servar a imagem em cartaz de uma criança
na carvoaria, e representaram por meio de
um desenho o que pensaram ou sentiram
ao conhecer tal realidade de vida. Uma alu-
na questionou quais atitudes deveriam ser
tomadas. Lancei para turma e a resposta de
muitos foi jogar a responsabilidade unica-
mente para o governo. Então ressaltei que,
para combater o trabalho infantil, não basta
conhecer as causas: é preciso também a
participação de toda a sociedade, além de
conhecer a extensão (até onde vai, incluin-
do os índices de ocorrência), localização e
as características específicas de cada situa-
ção. As áreas contempladas nessa ação fo-
ram: Língua e Literatura, Artes, História e
Geografia.
Uma outra ação foi a realização de uma
Atividade com a Música "Brinquedo" (de
Daniela Mercury). Como a música enfoca
a vida de um menino do gueto, o objetivo
foi despertar a consciência de que, apesar
das difíceis condições de vida que muitas
Confecção dos cartazes e textos com enfoque no trabalho infantil
crianças levam, é preciso planejar alvos a
serem alcançados num futuro próximo. Os
alunos pesquisaram no
dicionário o significado
da palavra gueto e esse
tipo de atividade era ainda
difícil para eles pela falta
de uso constante do
dicionário. Houve a
compreensão de que não
existe apenas uma cidade
com bairro possuindo
essas características. A
música foi, então, cantada
coletivamente, discutida e
em seguida cada um
escreveu uma carta para o menino da música,
conscientizando-o sobre os direitos que possui
e imaginando que este fosse recebê-la,
realmente. As áreas contempladas foram:
Língua e Literatura, História e Geografia.
Seguindo com a ação de um Estudo
Histórico Comparativo sobre o Trabalho In-
fantil no Período Industrial e Hoje, os alunos
puderam aprofundar os conhecimentos sobre a
história do trabalho de crianças no Brasil, por
meio de estudo em grupos. Os conteúdos
enfocados foram: "A Criança Escrava"; "0
Trabalho Infanto-juvenil na Fábrica, na
passagem do Sec. XIX ao XX" e "Trabalho
Infantil no Brasil, Hoje". Em seguida, alguns
aspectos mais relevantes foram registrados no
quadro e no caderno. Várias imagens foram
exploradas e muitas situações foram
comparadas com a realidade atual. Só então os
alunos realizaram uma atividade escrita de
interpretação enfocando "0 Direito à
Educação".
Uma ação posterior
foi a de elaboração
coletiva de um Livreto
sobre os Direitos da
Criança. Essa ação visou
produzir um material que
pudesse registrar os di-
reitos que as crianças
possuem por meio de
ilustrações. Dessa forma,
o conteúdo contemplado
foi, especificamente,
"Direitos da Criança e do
Adolescente". Os alunos selecionaram revistas
e extraíram imagens que caracterizavam os
direitos da criança. Ao identificarem o tipo de
direito expresso na imagem, colavam em
folhas de ofício, passavam para outros colegas
registrarem o direito correspondente e outros
concluíam com a decoração final. Concluindo,
realizaram uma atividade escrita interpretativa
a partir da música "Nunca Pare de Sonhar" (de
Luiz Gonzaga Júnior), em que refletiram sobre
a esperança para uma vida melhor. As áreas
contempladas foram: Artes e Ciências Sociais.
Os alunos também tiveram a oportuni-
dade de selecionar uma das atividades de-
senvolvidas em sala de aula para apresentar no
refeitório (espaço aproveitado para apre-
sentações) para os colegas de toda a escola.
Esse momento visou a socialização de co-
nhecimentos e atividades desenvolvidas. Os
alunos apresentaram um jogral, cantaram e
expuseram cartazes.
Para socializar com a comunidade local
nosso trabalho, aproveitamos para participar
de uma "Caminhada pelo Centro da
Cidade" promovida pela Fundação Marim-
beta. Alguns alunos formaram um pelotão,
em frente à nossa escola, caracterizados de
crianças trabalhadoras (trabalhador rural,
menino carvoeiro, babá, doméstica, ven-
dedor ambulante, engraxate, etc.) e outros
alunos levaram bexigas e cartazes reivin-
dicando seus direitos. Toda a caminhada
envolveu uma média de mil alunos. Muita
gente parou nas ruas para observar, acenar
e aplaudir. Os alunos cantaram músicas e se
sentiram muito valorizados.
A avaliação dos resultados obtidos
por meio do desenvolvimento do Projeto
aconteceu em todo o tempo, desde as falas
colocadas no decorrer dos estudos, às
atividades sistematizadas de interpretação
e produção.
Compreendo a avaliação enquanto um
processo, pois o ser humano nunca está
pronto. E através da aprendizagem que ele
se desenvolve e cresce para a vida. Assim,
por meio dos conhecimentos adquiridos, os
educandos tiveram a oportunidade de re-
fletir sobre sua própria realidade e sobre a
definição de novas metas. 0 Projeto se
constituiu, na verdade, em iniciativa para
despertar para um mundo de possibilidades,
apesar das difíceis e duras situações que
enfrentam no dia-a-dia.
Até mesmo nas entrevistas que deram
às televisões locais, depois do trabalho ter
sido contemplado com o "Prémio Incentivo
à Educação Fundamental", os alunos ex-
pressaram suas experiências e os conheci-
mentos que construíram. Eles se sentiram
muito valorizados por verem divulgado esse
trabalho nos jornais impressos, no rádio e
na televisão. Os próprios pais começaram
a demonstrar maior satisfação e reconheci-
mento em relação à importância desse tipo
de trabalho.
Considero também que minha apren-
dizagem com esse Projeto foi muito rica,
principalmente porque, além de conhecer
mais a fundo essa realidade de vida dos
meus alunos, pude estar repensando em
novas possibilidades de desenvolver uma
prática educativa que atendesse às neces-
sidades de aprendizagem deles. 0 tema me
envolveu e estimulou minhas ações. Acima
de tudo, busquei ser criativa por meio de
um trabalho que despertasse interesse e que
se adequasse ao perfil desses alunos.
Percebo que, além de conseguir bons
resultados, também pude alçar vôos que su-
peraram minhas expectativas iniciais.
Atualmente, estou trabalhando numa
escola próxima a essa em que desenvolvi o
Projeto, mas percebo que sempre que
possível estarei buscando dar um enfoque
especial a esse tema. A realidade de vida
contemplada no Projeto abrange toda essa
comunidade em que estamos inseridos. En-
tão, esse é um assunto que não pode ser
esgotado, mas ampliado ao máximo. Inclu-
sive, se estivesse desenvolvendo esse tra-
balho, hoje, procuraria buscar ainda mais o
envolvimento dos pais nas ações, apesar
de reconhecer que essa é também uma difi-
culdade que enfrentamos. Muitos pais não
comparecem à escola quando solicitados,
nem mesmo para participar de eventos que
envolvem apresentações dos próprios fi-
lhos. Isso precisa ser mais trabalhado com
os pais, criando um clima de aproximação
e conscientização da importância desse
acompanhamento.
Finalmente... diante de tudo o que foi
exposto, ressalto que todo esforço vale a pena
quando pretendemos desenvolver uma prática
significativa na vida dos educandos e que faça
diferença nessa difícil missão que é educar.
Muitos dizem que uma andorinha só não faz
verão. Mas prefiro acreditar que, pelo menos,
ela sozinha, pode principiar. Esse trabalho fez
diferença na vida de meus alunos. E dentro
dessa comunidade em que nos relacionamos e
vivemos, uma semente já foi lançada e creio
que está germinando. Isso é o que importa!
Mesmo com nossos erros e acertos, se
cada educador desse país pensar assim, bus-
cando fazer o possível dentro de suas possi-
bilidades, certamente conseguirá ir além do
esperado. É uma questão de sensibilidade e
visão frente à vida.
REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA
AGUIRRE. In Jornal da Rede Brasileira de Edu-
cação em Direitos Humanos. São Paulo: 1997,
pp.7.
OLIVEIRA, Paula Fernanda. "10 anos de Estatuto
da Criança e do Adolescente". Rev.Povo: São Pau-
lo, julho de 2000.
SOARES, Maria Victória de Mesquita Benevides.
"Cidadania e Direitos Humanos". In: CP. São Pau-
lo: Fundação Carlos Chagas. Cortez Editora: julho
de 1998, nº 104.
ZENAIDE, Maria de Nazaré Tavares e Dias, Lúcia
Lemos. "Formação em Direitos Humanos". João
Pessoa. Ed. Universitária: 2001.
www.fundabrinq.org.br/trabalhoinfantil
PEQUENOS ESTRATEGISTAS
O jogo de xadrez vencendo poucos
recursos e precárias condições da escola.
ONDE TUDO COMEÇOU...
A escola Valmori Martins foi fundada no
ano de 1999, até então construída sobre
improviso de "pau-a-pique" pelos pais para o
atendimento de alunos de 1ª a 4
a
séries do
Ensino Fundamental numa ocupação co-
nhecida como Gleba Divisa, perto do vizinho
município de Carlinda e Alta Floresta.
A escola localiza-se frente à estrada
principal, distando 6 Km do Rio Teles Pires, a
50 Km do centro urbano do município de
Novo Mundo-MT.
Atualmente, a escola é de madeira e
conta com 1 (uma) sala de aula de 32m
2
(
trinta e dois metros quadrados), onde funciona
a turma multiseriada, uma cozinha que ainda
não está ativada, um poço e ao fundo da
escola vê-se um campo de futebol construído
pelos moradores. A escola possui um
Conselho Deliberativo, tendo como presidente
o Sr Paulo César Fonseca de Araújo, parceiro
que mais apoiou o trabalho desenvolvido na
escola.
Na escola não existe energia elétrica,
rede de esgoto ou água tratada.
Os alunos, oriundos de vários pontos da
comunidade, se locomovem na medida do
possível, seja a pé, bicicleta, cavalo ou
charrete. A distância percorrida pelos alu-
nos varia entre 700 m do aluno mais próximo
da escola a 6 Km do aluno mais distante.
Apesar da comunidade existir há mais de
20 anos, só nos últimos 5 (cinco) anos iniciou
o desenvolvimento político e econômico,
levando em consideração que os moradores
locais estabeleciam seus negócios nas cidades
vizinhas de Carlinda e Alta Floresta-MT.
COMO TUDO COMEÇOU?
POR QUE ESTE JOGO?
Era o quarto ano consecutivo que le-
cionava na escola rural. Desde o início, a
escola enfrentava problemas de estrutura
física, de acentuada evasão e defasagem
escolar e muitos problemas relacionados à
aprendizagem.
Problemas que se agravavam ainda mais
devido a escola funcionar de forma
multiseriada (diferentes séries em uma sala).
Os alunos tinham uma visão muito ne-
gativa da escola: a escola para eles não era um
lugar de busca de conhecimento, mas
simplesmente um lugar onde se aprende a ler,
escrever e a fazer cálculos e os alunos se
sentiam desanimados, desestimulados, numa
espécie de inércia de pensamento.
"O Jogo de Xadrez ensina
providência, preocupação com o
futuro, ponderação no exame do
tabuleiro, cautela que não deixa
que façamos os nossos lances
apressadamente sem reflexão.
Jamais desanimar e esmorecer e,
ainda que aparentemente as coisas
não andem bem, aprendemos a
esperar uma reviravolta favorável e
a persistir na busca de uma saída."
(Benjamin Franklin, 1779)
As palavras deste grande estadista
norte-americano me estimularam a procu-
rar entender e aprender as regras e a forma
de jogar este tal "Jogo de Xadrez", pois
percebi que este jogo possui um exercício
muito mais do que reflexivo ou cognitivo:
determina uma transformação nas próprias
ações do indivíduo e um amplo aprimora-
mento da inteligência do praticante, tanto
em nível de comportamentos (sociais ou in-
dividuais), quanto no que se refere à ética,
valores ou no raciocínio lógico (matemáti-
co, probabilístico) que pude observar numa
lenda sobre o surgimento do jogo .
A escola, para estas crianças, precisava
possuir um significado, além de aprender a
ler e escrever ou calcular. 0 conhecimento
da escola precisava ter sentido prático e,
para tal, a organização da escola neces-
sitava se transformar num espaço no qual
o conhecimento poderia ser não simples-
mente transmitido, mas manipulado pelos
alunos. Transformar a escola num espaço
aberto para discussões, onde o conheci-
mento já elaborado pudesse servir como
recurso de pesquisa, mas não como base da
aprendizagem dos alunos.
A grande questão era em como desper-
tar nos alunos este sentido de escola como
local de elaboração e manipulação do sa-
ber?
E como exercitar esta reflexão do alu-
no de forma desafiadora, capaz de promo-
ver, ao mesmo tempo, as transformações
necessárias no agir dos alunos?
Foi lendo um artigo da Revista Escola
sobre o "Jogo de Xadrez em sala de aula"
que lembrei-me do velho livro vermelho de
capa dura que continha as regras e os de-
senhos que ensinavam os movimentos de
cada peça no tabuleiro de xadrez.
Foi através de uma história que descre-
ve a origem do jogo de xadrez que percebi o
amplo aproveitamento deste jogo, não ape-
nas como instrumento para o exercício do
pensamento, mas também como ferramenta
para uma discussão interdisciplinar que en-
volve Matemática, História, Geografia, Por-
tuguês, Ciências, Artes, Filosofia, entre ou-
tras. Percebi a possibilidade de manipular,
junto aos alunos, o saber, utilizando como
base o Jogo de Xadrez como uma espécie de
tema gerador. A diferença é que este tema
trabalha apenas com a palavra: o projeto
irá trabalhar com um todo. Neste sentido
encontramos o seguinte argumento:
"Piaget defende a teoria de que a
aquisição do conhecimento se dava
através do cognitivo, ou seja, pela
ação que a criança tem sobre seu
objeto de saber, sugerindo com isto
a ideia do construtivismo. Refere-se
à pedagogia relacional, na qual o
professor se torna um orientador,
incentivando o aluno a procurar
suas respostas". (Fontana, 1998)
Como Piaget já
defendia, a constru-
ção do saber é possível
e mais significativa
para os alunos a partir
do momento que
utilizarem seu cognitivo
(sentidos).
Sabe-se que o
povo grego foi um dos
povos mais desenvol-
vidos culturalmente no
ocidente. Esta
referência atribuída à
forma de educação grega baseava-se no
diálogo entre mestre e aluno e no pleno
exercício das aptidões cognitivas e entre a
prática de exercícios físicos e discussões
sobre os atuais assuntos do momento.
"Os Gregos realizaram a síntese
entre a educação e a cultura, deram
enorme valor à arte, a literatura, as
ciências e a filosofia. A educação
do homem integral consistia na
formação do corpo pela ginástica,
na da mente pela filosofia e
pelas ciências e na moral e dos
sentimentos pela música e pelas
artes" (Gadotti, 2002, p. 30).
0 intuito deste projeto não foi resgatar
uma antiga prática pedagógica pertencente
a uma outra era, a uma outra cultura, mas
o interesse pela proposta de educação gre-
ga que seria a formação do homem integral
(completa): exercitar a mente (oral, mate-
mático) sem desprezar o cognitivo (sentido)
e desenvolver nos alunos a ação pesquisa-
dora.
RELACIONAR 0 JOGO
COM DISCIPLINAS
TRABALHADAS EM
SALA DE AULA:
Matemática (figuras
planas, retas,
potenciação, números
naturais, sistemas de
medidas, as quatro
operações).
Português (pesquisa
ortográfica, leitura e
construção de textos, interpretação de
texto, pontuação, morfologia).
Ciências (Recursos naturais, recicla-
gem, meio ambiente, misturas químicas).
História (sociedade medieval, hierar-
quias de poder, sociedade contemporânea,
história local).
Geografia (0 continente Africano, ti-
pos de vegetação, fronteiras e territórios).
Artes (modelagem, pintura com pincel,
recortes e colagens, desenhos em cartolina).
COMO 0 PROJETO DESENVOLVEU-SE...
0 motivo que me levou a batizar o
projeto com o tema "Pequenos estrategis-
tas" foi o fato do Xadrez ser considerado
um jogo que envolve um considerável
comportamento estratégico dos praticantes,
para que cada movimento das peças sobre
o tabuleiro seja cuidadosamente pensado,
prevendo as reações possíveis do adversá-
rio, da mesma forma como ocorreu com o
desenvolvimento deste trabalho.
Tínhamos um propósito, mas possuí-
mos pouco conhecimento e nenhum recur-
so. Foi necessária uma ação em conjunto
entre pais, alunos e professor para levarmos
adiante nossa proposta de trabalho.
Para tanto foram necessárias amplas
discussões e muita pesquisa junto aos alu-
nos, principalmente em como conseguir o
material necessário que, no caso, eram os
jogos de xadrez e livros que ensinassem
mais sobre aquele complicado jogo. Até
então, a única coisa que tínhamos em mãos
era o velho livro de capa vermelha e a von-
tade de desvendar os segredos daquelas pe-
ças sobre um tabuleiro de xadrez.
COMO SURGIRAM AS PEÇAS...
Sem sombra de dúvida, uma das pro-
blemáticas mais graves enfrentadas para a
execução deste projeto foi a aquisição dos
tabuleiros do Jogo de Xadrez.
A Secretaria de Educação Municipal
não arcava com este tipo de material peda-
gógico, levando em consideração que este
material é de difícil aquisição na região.
Inicialmente, tentamos confeccionar
as peças utilizando papel cartolina, mas o
material se mostrou muito frágil e de pouca
estabilidade ao vento.
Tentamos utilizar argila, mas o barro,
quando secava, rachava e a modelagem do
material era muito difícil para as crianças.
Foi então que um dos alunos sugeriu o
"talo" de uma árvore local conhecido como
coqueiro de Bacuri.
Esta espécie de coqueiro nativo é mui-
to abundante na região, predominante nos
pastos e na capoeira e conhecida por pos-
suir um cerne macio utilizado por morado-
res locais para fins artesanais. Esta espécie
de coqueiro chega a atingir 5m de altura,
sendo uma espécie frutífera, porém seus
frutos não são comestíveis.
Desta árvore utilizamos somente parte
de suas folhas, as quais possuem um "talo"
espesso, sem prejudicar a sobrevivência da
espécie.
O projeto "Pequenos estrategistas" quis
mostrar aos alunos o quanto é importante a
prática da pesquisa e do diálogo para o
desenvolvimento das próprias capacidades
intelectuais, sem discriminar grupos, esti-
mulando o trabalho em equipe e trabalhan-
do com valores éticos de convivência no
espaço escolar, no qual o conhecimento se
torna a razão de tudo, sem desprezar a gra-
de curricular, o respeito mútuo e o estímulo
pelo saber construído e inter-relacionado.
Transformar a sala de aula em um la-
boratório do saber pode ser considerado
uma tarefa exaustiva, já que exige uma
maior ação docente frente aos anseios e a
busca dos alunos, mas, com certeza, no fi-
nal do trabalho, um resultado produtivo e
recompensador. E, principalmente, no elo
de amizade, amor e carinho que surge entre
professor e alunos e que se cristaliza du-
rante o processo, a evasão escolar se tornou
inversa.
A escola ganhara novo significado: sa-
ber, construção, elaboração, estrutura, rees-
trutura, sentido, aprendizagem, harmonia,
desafio, transformação, propósito, trans-
cendência...
E é curioso pensar que todos os re-
sultados deste trabalho só foram possíveis
devido a um "sonho", que só foi possível
porque houve uma fé coletiva, uma deter-
minação de transformação que se conclui
em respeito, saber, vivência. Sendo assim,
podemos, mesmo com poucos recursos e
precárias condições de estrutura física da
escola. Se as pessoas acreditarem em seus
sonhos, é possível proporcionar mudanças
e, consequentemente, inovar na oferta de
um ensino de qualidade.
0 ano de 2003 foi marcado, para mim,
além do encerramento do projeto, pela mi-
nha despedida da escola rural, ação que
consequentemente, finalizou todo o proces-
so junto aos alunos, já que a professora que
me substituíra, além de não possuir forma-
ção no magistério ou superior, não conhece
os fundamentos do jogo, menos ainda sua
aplicabilidade em sala de aula, voltando
desta forma à didática tradicional.
As peças foram esculpidas com "talos" uma árvore
muito comum na Região, conhecida como coqueiro
de Bacuri.
Durante o processo de construção do
trabalho, houve muitos contratempos. Po-
rém, avalio que todos estes tiveram crucial
importância para o sucesso do trabalho.
Penso que para haver um verdadeiro e sig-
nificativo ensino, os professores devem se
utilizar da prática do pensar, do dialogar e
da ação para com os alunos. 0 Jogo de Xa-
drez é uma excelente ferramenta para que o
docente atinja estes objetivos.
POESIA FORA DA
ESTANTE. LEITURA
DENTRO DA ESCOLA
Levar os alunos a buscar na leitura
aquilo que a própria vida lhes nega.
ste projeto foi desenvolvido em uma
escola pública pertencente à Rede
Estadual de Ensino na cidade de Volta
Redonda (RJ), localizada na zona central da
cidade. Portanto, realidade sociocultural bem
rica e diversificada: contamos com teatro,
cinemas, galeria de arte, biblioteca municipal
e um memorial. A escola é vinculada ao
Instituto de Educação onde funciona o curso
Normal e serve às estagiárias para realização
do estágio e aplicação de técnicas e projetos
de aperfeiçoamento profissional das alunas.
Foram envolvidas no trabalho 30 crian-
ças em fase de alfabetização, em sua maioria
alunos oriundos de bairros periféricos.
Gostaríamos de relatar que, no início do
ano letivo, a turma estava iniciando o processo
de leitura e escrita e observei que, em sua
maioria, os alunos davam pouca ou nenhuma
importância ao ato da leitura, pois estavam
bem mais curiosos para a escrita, cópias do
quadro com os conteúdos da nova série e com
os livros didáticos que receberam.
Da reflexão sobre a importância da lei-
tura para as crianças em processo de alfabe-
tização e da preocupação em nelas despertar o
prazer pela leitura, visando a formação de um
leitor crítico, proporcionando-lhes
novas possibilidades de conhecimento de
mundo, ampliando seu vocabulário ao unir o
imaginário e a literatura no mundo infantil e,
assim, abrir "uma janela" ou um novo caminho
para o letramento, surgiu a ideia para
elaboração deste projeto.
Ao depararmos com as ideias de grandes
pensadores da educação - tais como: Emília
Ferreiro que defende que a sala como
ambiente alfabetizador, onde a criança têm um
papel ativo no aprendizado; Jean Piaget, que
ressalta que o conhecimento não pode ser uma
cópia, visto que é sempre uma relação entre
objeto e sujeito e Vygotsky ao afirmar que o
saber que não vem da experiência não é
realmente saber - constatamos que o hábito de
ler é considerado em sua dimensão mais
ampla, um dos mecanismos por meio dos
quais é possível compreender melhor o
mundo, posicionar-se diante dele.
No processo ensino - aprendizagem, a
leitura configura-se através de conteúdos
sistematizados, por meio de apontamentos,
livros, apostilas ou de palavras escritas (aula).
Torna-se evidente que para qualquer sujeito
em fase de escolarização a leitura é um hábito,
no sentido de que é uma atividade realizada
quase que diariamente, durante prolongado
período.
E
No entanto, após abandonar os bancos
escolares, seja era qualquer nível de esco-
laridade, é raro vermos uma pessoa lendo.
Existem pessoas que passam anos a fio sem
sequer folhear um livro e esta é uma realidade
brasileira. "É raríssimo um autor brasileiro
entrar na lista de best-sellers. Acontece que a
crise brasileira não é de escritores é de
leitores".(Machado, A. In: Ana e Ruth (1995)
p.61).
Certamente, uma criança que desde cedo
tem sua casa cheia de livros, onde seus pais
lêem constantemente e que vive neste contexto
aprimora muito mais seu dialeto, ao contrário
da criança que não tem familiaridade com
livros, cadernos, lápis, jornais, revistas e
computadores. Analisando tais fatores,
certificamos que na realidade da maioria de
nossos alunos havia pouco ou nenhum contato
com o universo da leitura.
Daí, elaboramos um projeto com a pre-
tensão de definir a leitura como um espaço
privilegiado a partir do qual seja possível
refletirmos o mundo, ou seja, levar nossos
Releitura de imagens
alunos a buscar na leitura aquilo que a própria
vida lhes nega, seja sob a perspectiva de
realidade, seja sob a da fantasia. Para que isso
ocorresse, o hábito de leitura, por si só não
bastaria: precisávamos desenvolver o gosto
pela leitura e formar um leitor para a vida
inteira.
Tivemos, ainda, o amparo dos PCN na
citação: "... garantir a todos seus alunos acesso
ao saberes linguísticos necessários para
exercício da cidadania...", para que cada
indivíduo se torne capaz de ler, interpretar,
redigir textos ou assumir as palavras em
diferentes situações de sua vida, com prazer e
motivação. (Parâmetros Curriculares
Nacionais: Língua Portuguesa, p. 23, 2001).
Por fim, a adoção de novos conteúdos no
processo educativo do ensino da leitura e da
escrita necessita de constantes reflexões do
professor para que surjam novos processos
metodológicos e novas estratégias, sem deixar
de perceber a criança como um ser em
formação, com experiências próprias e jamais
deixar de levar em conta o lúdico
que envolve o mundo
infantil.
O fator detonador
do projeto foi o filme
"Xuxa e os Duendes,
no caminho das fadas",
quando levantamos
questões sobre o filme,
elaboramos uma ficha e
um roteiro dos
personagens do filme.
Em seguida, discutimos
a queso dos contos de
fadas. Assistimos
também ao filme "0 Corcunda de Notre
Dame" e lemos o livro da Disney.
Conversamos sobre o enfoque dado ao livro
e ao filme, observando cada versão e
analisando a linguagem visual e a
linguagem gráfica, tirando nossas
conclusões sobre o que lemos e o que vi-
mos. Elaboramos uma ficha sobre os perso-
nagens do filme e suas características.
Partindo do filme "0 Corcunda de
Notre Dame" ambientado na Idade Média,
elaboramos uma história para contar como
surgiu o primeiro livro impresso e suas
ilustrações. As iluminuras foram utilizadas
para leitura da imagem com a proposta de
releitura das mesmas. Os alunos criaram
uma ilustração para cada mês do ano, a
partir das iluminuras contidas no "Livro
das Horas". Efetivamos, assim, a educação
do olhar, baseados na proposta de Rubem
Alves: "Ler uma imagem é saboreá-la em
seus diversos significados, criando distintas
interpretações".
A leitura de imagens (iluminuras)
aconteceu da seguinte forma: ampliamos
as imagens em tamanho A3, para melhor
visualização em sala de aula; as imagens
passaram de mão em
mão para apreciação dos
alunos que puderam
observar os detalhes,
analisar as semelhanças
e diferenças entre elas,
enfocando as ilustrações
contidas nos livros
atuais. Foi motivo de
conversa a cultura da
época das "Iluminuras",
a Idade-média,
observando-se os seguintes aspectos: Quem
tinha acesso à leitura? Todos sabiam ler?
Como eram feitas as iluminuras? Que tipo
de material era usado?
Outro procedimento adotado foi a uti-
lização de textos visuais, por meio de placas
de sinalização de trânsito, utilizando-se o
material disponível na escola em momento
recreativo no pátio com o objetivo de "ler-
mos" as placas e orientarmos nossos alunos
para o trânsito, visto que a escola localiza-
se num bairro central, portanto, com gran-
de fluxo de veículos.
Visitamos a Biblioteca Municipal, lo-
calizada no mesmo bairro da escola, onde
fomos em caminhada. Ai fizemos nossas
observações e retornamos para a escola
onde elaboramos um relatório com dese-
nhos das crianças, apoiados nas fotografias
que tiramos da Biblioteca. Todo esse mate-
rial foi exposto na sala de aula.
Em relação à biblioteca da escola, fi-
zemos uma pesquisa com a bibliotecária a
respeito dos frequentadores e do que bus-
cam em termos de leitura. Essa pesquisa
foi planejada em grupo. Na porta da bi-
blioteca, afixamos nosso planejamento do
trabalho até o final do
projeto, ou seja, todos
as nossas visitas e o
que aconteceu durante
cada uma delas. Nesse
espaço, divulgamos os
livros juntamente com
as resenhas elaboradas
pela professora que
selecionou uma
quantidade de livros
apropriados à
faixa etária da primeira série. As resenhas
tiveram o objetivo de orientar a criança na
escolha do livro a ser trabalhado na biblio-
teca da escola. A leitura dos livros aconte-
ceu espontaneamente, ao retornarmos para
a sala de aula: conversamos sobre o que
lemos, se gostamos ou não, com a proposta
de elaborar um relatório dos livros já lidos
pelo grupo de alunos.
Outros livros selecionados para o pro-
jeto foram lidos pelos alunos embaixo de
árvores, no pátio e em locais diversos, es-
colhidos pelas crianças. A proposta foi,
também, sair da sala de aula e tornar mais
prazerosa a leitura. Estipulamos combina-
dos para a leitura, com direitos e deveres do
leitor que foram afixados na sala de aula,
tais como: o direito de não gostar de um
livro e parar de lê-lo; o direito de folhear o
livro antes de ler; o direito de ler quantos
livros achar desejável; a obrigação de cui-
dar bem de todos os livros conservando-os
para que outros tenham acesso a ele.
As crianças tiveram oportunidade de
escrever pequenos textos sugerindo ou não
a leitura de determinado livro para o cole-
ga: "0 livro que li..."
Também foram
feitos gráficos e tabelas
para divulgação do livro
mais lido pelo grupo de
alunos, bem como a
identificação do aluno que
leu o maior número de
livros.
Logo que terminávamos a
leitura de um livro,
realizávamos um jogo na
sala de aula. A
experiência desenvolvida com as crianças
alcançou bastante êxito, despertou o gosto
e o interesse pela literatura. Percebi grande
avanço das crianças no processo de
alfabetização: estão escrevendo mais e
melhor, revelam o interesse pela leitura,
pois estão sempre pedindo novos livros
para ler na sala de aula, ao terminar uma
atividade. Voluntariamente, a leitura
tornou-se uma atividade de rotina.
Esporadicamente, fizemos gráficos para
saber qual o livro mais lido ou para saber
quem leu a maior quantidade de livros, fato
que contribuiu bastante para aquisição de
conceitos matemáticos.
Outra atividade que era muito esperada na
sala de aula era o jogo de poesias. As
crianças gostavam muito de jogar e apro-
veitavam para trabalhar ortografia. Notei
grande preferência pelo poeta Vinícius de
Moraes e pelo escritor Ziraldo. Os livros "0
Menino Maluquinho e 0 Macaco Danado"
bateram recorde de leitura, toda turma leu.
Os alunos criaram poesias que, parti-
cularmente, me surpreenderam, pois foram
tantas poesias e versos que acabaram por
dar origem a um livro que denominamos
"Voando nas asas da imaginação, alimen-
tando o corpo, a mente e o coração". As
crianças e os pais se sentiram muito orgu-
lhosos na tarde de autógrafos quando os
alunos autografavam seus livros de poesia
e um outro livro que foi feito por eles: es-
colheram o tema, escreveram e ilustraram.
Muitos falavam de suas próprias experiên-
cias e de seus familiares. Também apresen-
taram danças e leram mensagens para os
pais. Certamente, levarão para toda vida
essas lembranças.
Outra atividade do projeto que vale a
pena ressaltar é a releitura dos personagens
literários, na qual as crianças escolheram
seus personagens preferidos e os reconstru-
íram com seus próprios traços. Essa ativi-
dade causou grande satisfação nos alunos
que se descobriram nos desenhos, linhas,
pontos e cores.
Fomos a uma oficina na Universidade
de Barra Mansa onde as crianças tiveram
oportunidade de visitar a galeria de artes
(com obras dos alunos do 4
o
período de
Artes Visuais - xilogravuras). Em seguida,
fizeram as gravações xilográficas eles mes-
mos, acharam interessante e conheceram
um pouco da história das impressões me-
dievais. Foi o máximo!
"O livro que li..." Foi uma atividade
de livre escolha do aluno, para ser feita em
tempo disponível após as atividades diárias.
Consistia em o aluno registrar, por meio da
escrita e do desenho, o que mais gostou ou
atraiu sua atenção no livro que leu.
A leitura feita pelos familiares interes-
sou bastante às crianças que se sentiram
orgulhosas e valorizadas com a presença da
família na escola.
As cópias do quadro foram substituí-
das por jogos; as fileiras de continhas, por
gráficos e contagens significativas; os an-
tigos textos sem "valor" para o aluno, por
poesias e essa foi, sem dúvida, uma grande
estratégia para o melhor desenvolvimento
do processo de alfabetização de nossos alu-
nos.
Ainda temos muito para aprender. Mas
com o projeto foi possível conhecer melhor
Atividades em sala de aula
nossas crianças e, consequentemente, pro-
mover uma aprendizagem mais significati-
va. Por meio da literatura, ampliamos seu
repertório imagético, seu olhar crítico, sua
imaginação criadora, fazendo com que se
sentissem indivíduos integrantes de uma
cultura.
Tive grande prazer em despertar nas
crianças o gosto pela leitura e sei que leva-
rão para toda vida essa experiência.
Inicialmente, o projeto terminaria em
agosto, mas surtiu um efeito tão bom na
turma que foi prorrogado até dezembro.
0 "Jardim Literário" também foi super
legal. Eu e as crianças nos caracterizamos
de personagens literários e recebemos todas
as turmas, no auditório da escola. Ficamos
muito empolgados em compartilhar com
outros colegas nosso trabalho que surtiu
grande efeito sobre todos. Só se via crian-
ças e professores com livro na mão.
Acredito que esse projeto não é a so-
lução para resolver o problema de poucos
leitores no país, mas com certeza, em nossa
Leitura no Jardim Literário
escola estamos tentando alterar o quadro e
temos a convicção que estamos no caminho
certo. Aprendi muito com esse trabalho e as
crianças também. Foi tão gratificante que
pretendemos dar continuidade e envolver
as outras turmas da escola.
Quanto aos resultados obtidos, foram
além da minha expectativa. Posso afirmar
que os alunos saíram da primeira série não
só alfabetizados, mas com a consciência da
importância do ato de ler e, principalmente,
com segurança e prazer pela leitura.
É fato que o trabalho com projetos vem
transformando o processo de aprendizagem
de nossos alunos e a cada projeto também
aprendemos bastante, planejamos as ativi-
dades e durante seu desenvolvimento sem-
pre acontecem acréscimos de atividades ou
percebemos algumas atividades que não
surtem efeito com a criança. A reformula-
ção e a avaliação com registros constantes
do trabalho são tarefas indispensáveis para
que o processo ensino-aprendizagem seja
garantido.
E tarefa do professor promover ativi-
dades significativas e contextualizadas para
seus alunos e muitos professores buscam levar
para sala de aula atividades prazero-sas que
envolvam a criança em um clima lúdico e
prazeroso.
Nesse contexto, achamos que a expe-
riência servirá apenas como base para pro-
fissionais comprometidos com uma educação
de qualidade, visto que a proposta tem como
objetivo desvincular o aprendizado da língua
escrita e da leitura do juízo de valor, de
correção, de punição ou de castigo, ou ainda
lembrados apenas no trabalho rotineiro de dar
um valor ou uma nota que, por sua vez,
implicam na descaracterização da língua, de
seu real valor de comunicação e de sua função
social.
"Valorizar os conhecimentos do aluno é
tarefa de um bom professor, mas apresentá-los
a novos conhecimentos é tarefa de um
professor indispensável". (Lé com cré, parte 1
p. 23).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BANDEIRA. Manoel / Berimbau e outros poemas /
Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira 1994.
CASTILHOS. Laura / ASSUMPÇÃO. Simone / JA-
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MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo, 14
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OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de
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VILLARDI, Raquel, Ensinando a Gostar de Ler e
formando leitores para vida inteira 1ª ed. Qualiti-
mark/Dunya, 1999.
ANEXO 1:
POESIAS DOS ALUNOS:
QUEM SOU EU?
Eu sou o Gabriel
Queria morar no céu
Eu sou o Gabriel
Tenho um chapéu de papel
Eu sou o Gabriel
Amigo do Daniel
Eu sou o Gabriel
E gosto muito do Rafael
Gabriel Cabral - 7 anos
O ANEL
Ganhei um anel
Do Papai Noel
Usei o meu anel,
Usei o anel da cor do céu
Comprei um pincel
Com o pincel
Pintei o meu anel
O meu anel
Não é mais da cor do céu
O meu anel
Eu guardo no meu chapéu
Isabela Borges - 7 anos
A TIA CRISTINA
Tia Cristina, eu te amo, eu te amo,
Sem parar, que até, que até me dá vontade
de te abraçar
Sempre quando durmo,
Lembro de você, das palavras que você me
fala,
São tão bonitas, que até eu repito e repito
Bem bonitas, bem bonitas
Eu falo e eu falo, sem parar
Obrigada tia Cristina
Sempre vou te amar
Isabella Pires-7 anos
A FLOR
A flor do meu jardim Parece
que gosta de mim A flor do
meu jardim Parece que é
jasmim Na flor do meu jardim
Não tem capim Por isso que
a flor do Do meu jardim
Gosta de mim
Paloma Francine - 7 anos
MINHA FAMÍLIA
Minha família é alta
E amor não falta
Na minha família tem muita gente
Minha família vive contente
Minha família é assim:
Boa para mim
Diego Cordeiro - 7 anos
LEITURA SEM FRONTEIRA
Uma forma diferente de aprender
e ensinar, entendendo que a aquisição de
saberes não tem fronteiras.
Escola Municipal Martinha Thury
Vieira, na sua estrutura física, dispõe de 10
salas de aulas, 01 quadra coberta, 08
banheiros, 01 pátio coberto, 01 copa, 01
secretaria, 02 depósitos (01 de alimento e 01
de material didático), 01 sala que é usada
como biblioteca, sala de vídeo, sala de
reforço e sala de leitura.
Quanto aos recursos tecnológicos pos-
sui televisão, caixa de som amplificada, re-
troprojetor, micro system e 02 computado-
res (01 fornecido pelo FUNDESCOLA-PDE
e 01 pelo Programa de Gestão de Aprendi-
zagem-GESTAR). Nas suas peculiaridades,
a escola desenvolve projetos voltados para
melhoria da qualidade do ensino e apren-
dizagem, esporte, lazer e envolvimento da
comunidade é a única instituição educacio-
nal municipal que oferece o Ensino Fun-
damental regular de 5
a
a 8
a
série. Por três
vezes foi premiada pelo MEC ao desenvol-
ver projetos relevantes na área educacional.
Na área administrativa foi vencedora, em
2000, do Prémio Escola Referência Nacio-
nal em Gestão.
A escola pertence a uma comunidade
constituída de migrantes com baixo poder
aquisitivo e diferentes valores culturais.
As crianças que participaram do pro-
jeto na sua maioria são provenientes de fa-
mílias carentes, desestruturadas socialmen-
te e economicamente com pouco acesso a
recursos que desenvolvam as habilidades
de leitura, escrita e compreensão do mundo
em que vivem.
A falta do domínio das habilidades de
leitura e escrita é ainda marcante na socie-
dade brasileira. A leitura como instrumento
de aquisição de conhecimento precisa estar
presente na vida escolar e cotidiana dos
alunos. Através dela podemos desenvolver
a escrita e a oralidade e, como consequ-
ência, a comunicação e o relacionamento
entre pessoas toma-se mais harmônico e
agradável. E comum a cada ano letivo
depararmos com crianças que chegam em
nossas escolas nas séries iniciais do Ensino
Fundamental sem saber ler e escrever con-
vencionalmente. Essa situação toma-se um
grande desafio a ser combatido dentro das
escolas por toda comunidade escolar.
Na busca de alternativas eficazes que
favoreçam o acesso e a permanência dos
alunos ao mundo da leitura e da escrita, de
forma significativa e prazerosa, resolvemos
elaborar e executar o Projeto Leitura sem
Fronteiras com o objetivo de proporcionar
aos alunos das 4
a
séries, deste estabeleci-
mento de ensino, que apresentam dificul-
dades na leitura e na escrita, uma forma
A
diferente de aprender e ensinar, partindo da
bagagem cultural e cognitiva do educando e
de sua realidade social, pois entendemos que a
aquisição de saberes não tem fronteiras, não
tem idade definida e nem público específico, é
algo aberto a todos aqueles que se apropriarem
dessa riqueza indispensável de crescimento
intelectual e pessoal.
Com a chegada do século XXI, a expan-
são da globalização cultural e econômica e o
avanço da tecnologia, a missão da educação e
dos educadores é grandiosa e complexa, pois a
estes cabem o papel de levar o indivíduo ao
longo de toda sua vida a
um conhecimento dinâ-
mico do mundo, dos seus
semelhantes e de si
próprio. Uma das grandes
habilidades a ser
desenvolvida é o domínio
da leitura e escrita, tão
necessário à formação
sistematizada para o
exercício consciente da
solidariedade e da
cidadania de cada ser humano.
Jacques Delors, no livro "Educação, um
tesouro a descobrir", afirma que a educação
deve ser fundamental em torno de quatro
grandes aprendizagens: aprender a conhecer;
aprender a fazer; aprender a viver junto e
aprender a ser, que ao longo de toda a vida,
serão, de algum modo, em algum lugar e para
cada cidadão, os pilares do conhecimento.
A leitura é um processo de aquisição de
conhecimento indispensável ao cres-
cimento intelectual do homem. E a forma mais
eficaz do indivíduo alcançar a sua dignidade
como pessoa humana, pois ela o libertará da
alienação social, oportunizan-do-lhe vivenciar,
na prática, a libertação e a construção dos seus
valores e da sua própria história. Nesse
sentido, Bernardo Toro confirma: "A escola
tem por obrigação formar jovens capazes de
criar, em cooperação com os demais, uma
ordem social na qual todos possam viver com
dignidade. Assim, quando chegarem à idade
adulta, seu campo de atuação será o mundo,
onde executarão as quatro tarefas básicas da
vida: cuidar da
sobrevivência, organizar
as condições para
conviver, ser capaz de
produzir o que
necessitamos e criar um
sentido de vida."
A Lei n° 9394/96
garante ao educando uma
educação necessária à
sociedade atual, fazendo
com que estes sejam
capazes de refletir sobre seus erros e acertos
para uma evolução de crescimento pessoal e
profissional.
A proposta dos Parâmetros Curriculares
Nacionais, nos conteúdos de Língua
Portuguesa, focaliza a necessidade de dar ao
aluno condições de ampliar o domínio da
linguagem, aprendizagem fundamental para o
exercício da cidadania. Nesta mesma visão,
Paulo Freire diz: "0 conhecimento nasce da
ação. Sendo próprio dos seres humanos agir
no mundo, todas as pessoas
têm conhecimento, ninguém é vazio dele,
embora seja verdade que as pessoas não
conheçam de modo igual e que isto as torna
diferentes uma das outras. Esta diferença não
justifica nenhuma superioridade, já que
sempre será possível conhecer mais e melhor
qualquer objeto do conhecimento".
Conhecer previamente as ideias que os
alunos fazem a respeito de determinadas
situações é de fundamental importância para o
direcionamento de novas aprendizagens.
Realizamos, no início do ano letivo, um
diagnóstico de sondagem com objetivo de
sabermos qual o nível de aprendizagem
apresentado pelos alunos matriculados nas 4
a
s
séries. Esse procedimento nos ajudou
significativamente, pois constatamos que
quase 30% dos alunos ainda não tinham
adquirido o domínio da leitura e da escrita e os
demais identificavam o valor sonoro das
letras, mas não conseguiam sistematizá-la.
A partir daí, passamos a buscar em-
basamentos e metodologias que pudessem
dinamizar as aulas e, consequentemente, o
aprendizado dos alunos.
A ideia foi de proporcionar aos alunos
uma forma diferente de aprender e ensinar,
partindo da bagagem cultural e cognitiva e da
realidade social de cada um.
A metodologia aplicada foi a experi-
mentação, voltada para aspectos como: leitura
e escrita de diferentes tipos de textos, visitas a
bibliotecas públicas, feira de livros, concursos
de poesias, desenhos, paródias e pluralidade
cultural.
Com isso, passamos a propor para as
crianças aulas significativas e prazerosas,
onde as mesmas passaram a fazer parte de um
contexto sociocultural diversificado ad-
quirindo com isso o respeito as diferenças
peculiares a cada um.
As brincadeiras viraram aulas e as aulas
brincadeiras concretas, prazerosas, onde os
alunos passaram a ver o aprendizado como
algo resultante de sua própria interação com o
mundo. Com isso, passamos a trabalhar as
diferentes áreas do conhecimento como:
Língua Portuguesa, Geografia, Ciências,
História, Matemática e os conteúdos dos
Temas Transversais, que foram trabalhados de
forma interdisciplinar.
Além das dependências da Escola,
utilizamos o campo de futebol do bairro, o
terreno vazio próximo a escola, as ruas do
bairro, a quadra de esportes, a biblioteca
pública e outros. Utilizamos livros diversos,
vídeos, tvs, retroprojetor, livros literários,
etc...
Dentro da escola, procuramos trabalhar
em parceria com as outras séries, onde os
alunos das 4
a
séries liam histórias diversas
(inclusive as de sua autoria), dramatizavam,
recontavam contos, recitavam poesias, can-
tavam paródias, etc.
0 programa Mala de Leitura, com o
professor Marcos, além da grande diversidade
literária trouxe o encanto e a magia dos
contos.
Os passeios e as visitas fora do bairro
foram realizadas com transportes cedidos pela
Secretaria Municipal de Educação, que
também contribuiu com a maioria dos
materiais utilizados. Durante os passeios, as
crianças observaram outras realidades e
puderam compará-las às suas. Passaram a
valorizar mais o meio ambiente conscienti-
zando-se do seu papel para com a natureza e o
futuro do planeta.
O SESC, com
sua feira de livros,
também contribuiu
muito, pois além da
oportunidade de estar
em contato direto
com todos os tipos de
livros, os alunos
puderam participar e
torna-ram-se
personagens das
histórias e das
brincadeiras.
Durante o de-
senvolvimento do
projeto, procuramos utilizar o processo de
avaliação de percurso, pois só assim tería-
mos condições de saber se o trabalho esta-
va sendo produtivo, se os alunos estavam
aprendendo com as situações didáticas pro-
postas e se estas despertavam o interesse
dos mesmos pela leitura e escrita.
Após a realização de cada atividade,
fazíamos uma reflexão contextualizada do
processo, ressaltando os pontos positivos e
negativos apresentados e quando neces-
sário, uma reelaboração das estratégias. É
importante enfatizar que todas as nossas
reflexões foram registradas para que pu-
dessem servir de subsídios para a avaliação
final dos trabalhos e verificação do alcance
dos objetivos propostos.
A interpretação das mensagens deixa-
das pelos alunos através das atividades foi
de suma importância para o direcionamento
pedagógico do projeto, pois passamos a
conhecer melhor sua realidade e compreen-
der determinados comportamentos e atitu-
des apresentados pelos mesmos dentro do
ambiente escolar. Todas essas situações nos
levaram a buscar novas
formas de ensinar e am-
pliar nossos conheci-
mentos, concretizando
com a sistematização de
novas experiências de
trabalho.
Podemos afirmar que
com a metodologia
aplicada obtivemos
resultados satisfatórios,
pois os alunos apre-
sentaram um nível de
aprendizagem significativo durante o
desenvolvimento do projeto, culminando
com um índice de aprovação muito além do
esperado. Acreditamos que o sucesso do
projeto deve-se ao fato de termos
conduzido o processo de aprendizagem das
crianças partindo da sua própria iniciativa,
valorizando seu potencial criador e
despertando a sua curiosidade. Essas
atitudes nos garantiram a confiança dos
alunos e das famílias que passaram a
acreditar no nosso trabalho.
Ao término do ano letivo, realizamos
a avaliação final do projeto e observamos
que estávamos certos quando pensamos
que o sucesso da aquisição do conhecimento
dos educandos depende da forma como o
professor conduz seu trabalho e passa a
compreender que cada criança tem seu rit-
mo próprio de aprender.
0 sucesso obtido na aprendizagem dos
alunos do Projeto Leitura sem Fronteiras
serve de base para continuarmos executan-
do neste ano letivo de 2005 nas séries ini-
ciais do Ensino Fundamental. Entendemos
que as ideias educacionais positivas não
devem ser interrompidas, mas divulgadas e
partilhadas com os demais colegas de tra-
balho. Com isso, iremos buscar novas par-
cerias, intercâmbio com escolas estaduais,
inclusive as indígenas, visitas a novos pon-
tos turísticos da cidade e acesso a outros
meios tecnológicos (informática).
0 projeto Leitura sem Fronteiras, por
ser uma experiência muito rica pedagogi-
camente, poderá auxiliar muitos professo-
res nas suas atividades. E uma experiência,
cuja principal característica está na diversi-
ficação dos trabalhos, levando em conside-
ração o potencial criativo e valorizando o
conhecimento prévio dos alunos.
Ressaltamos que toda experiência, por
mais significativa que seja, precisa ser
adaptada ao contexto histórico e social que
o aluno está inserido, mesmo que estes se-
jam da mesma escola.
CIDADANIA NÃO TEM IDADE
Nas ações cotidianas, os alunos
praticam a responsabilidade,
os direitos e os deveres do cidadão.
resgate da
história de
vida, a for-
mação da auto-estima e a construção da
identidade dos alunos é fundamental para a
formação da consciência crítica, em relação
à participação e convivência social, no
ambiente escolar e consequentemente na
sociedade.
O CAIC "São Francisco de Assis" é
uma escola da Rede Municipal de Ensino,
localizada na zona urbana, periferia da
cidade de Catalão. Atende um grande
número de crianças de vários bairros da
cidade e algumas da zona rural.
0 número de alunos do CAIC tem au-
mentado consideravelmente, por este estar
se destacando pelo trabalho que desenvolve
em prol dos alunos e da comunidade. Rece-
bemos crianças e adolescentes provenien-
tes, em sua maioria, de famílias de baixa
renda, cujos pais ficam ausentes o dia todo,
dificultando o apoio destes nas atividades
escolares.
A clientela é muito diversificada e traz
consigo diferenças econômicas e particular-
mente socioculturais. A preocupação maior
dos professores era o grande índice de agres-
sividade entre as crianças, bem como de criar
uma forma de trabalho que pudesse colabo-
rar com a socialização e a forma de convívio
no espaço escolar e na comunidade.
Assim, surgiu o desejo de desenvolver
um projeto que despertasse nos alunos, va-
lores que muitas vezes ficam esquecidos e
que, se bem trabalhados, contribuem para
o desenvolvimento da auto-estima, respeito
mútuo e o conhecimento dos direitos e de-
veres na família, na escola e na sociedade
em geral.
Acreditamos que são nas ações coti-
dianas que capacitamos nossos alunos a
praticar, com responsabilidade, os direitos e
os deveres pertinentes a cada cidadão.
Partindo desse entendimento desen-
volvemos o Projeto "Cidadania não tem
idade" buscando dar oportunidade ao nosso
alunado de repensar suas práticas e atitudes
no seu dia-a-dia.
A ideia do projeto surgiu quando
acontecia, no início do ano letivo, o pla-
nejamento coletivo dos professores, sendo
que houve interesse e participação de todos
na escolha e aprovação do tema. Pela rele-
vância do tema, decidimos que o trabalho
seria desenvolvido em todas as turmas de
2ª, 3ª c 4ª
|
séries, seguindo alguns critérios
na seleção das atividades.
Cidadania é uma conquista de cada dia,
que se consegue com a participação daque-
les que anseiam por uma vida melhor, mais
democrática e feliz. Gilberto Dimenstein,
0
em seu livro "0 Cidadão de Papel", trata a
questão da cidadania num enfoque huma-
nitário. Ele diz que a verdadeira democracia
é aquela que implica o total respeito aos di-
reitos humanos. Porém, o cidadão brasilei-
ro, na realidade, usufrui de uma cidadania
aparente, uma cidadania de papel (1994).
Embasado na teoria de Dimenstein
optamos por tratar a questão da cidadania
numa perspectiva mais humanitária, ou
seja, não se tratando apenas dos direitos
civis dos cidadãos. Acreditamos que a prá-
tica da cidadania pressupõe, antes de tudo,
os princípios que preservam a dignidade do
ser humano.
Nos apoiamos também na teoria de
Dalmo de Abreu Dallari que em seu livro
"Direitos Humanos e Cidadania", chama a
atenção para o significado humano e social
dos direitos da pessoa. Segundo ele: "A pes-
soa humana, que é o bem mais valioso da
humanidade, estará sempre acima de qual-
quer outro valor" (1998).
Ao tratar a questão dos direitos huma-
nos, enfatizamos as necessidades que são
iguais para todos os seres humanos, e es-
senciais para que a pessoa possa viver com
dignidade. Ter moradia, família, escola,
exercer os direitos e cumprir os deveres são
necessidades fundamentais para a constru-
ção de uma sociedade mais justa e compro-
metida com o bem estar de todos.
Nas turmas de 2
a
série, foram selecio-
nados conteúdos que tratam da identidade
da criança através do resgate da sua histó-
ria de vida, desde o seu nascimento até os
dias atuais.
Foram estudados documentos como a
certidão de nascimento, cartão de vaci-
nação e ficha de identificação preenchidas
pelos próprios alunos. No estudo sobre a fa-
mília, trabalhamos a importância de se ter
uma família, reforçando a ideia de que o
ser humano não pode viver isolado. Res-
saltamos a necessidade de uma boa convi-
vência no grupo familiar, os cuidados com
a casa, para que esta possa ser um ambiente
agradável e favorável à qualidade de vida.
E para fechar o estudo, promovemos uma
palestra com uma psicóloga que falou com
as mães dos alunos da 2
a
série sobre os cui-
dados com os filhos, os limites e o carinho.
Aproveitando esse momento, foi en-
cenada pelos alunos a peça "A Margarida
Friorenta", mostrando a importância do ca-
rinho, do cuidado e do amor na vida das
pessoas.
Sobre a escola, fizemos um estudo
conscientizando os alunos de que a escola
é o segundo grupo social frequentado por
eles e que nela se estabelece limites e
regras de convivência, necessários ao seu
bom funcionamento e o respeito a todos
que dela participam.
Por meio de textos referentes ao tema
e maquetes confeccionadas pelos alunos,
trabalhamos as noções de espaço, limpeza,
organização, higiene e conservação. E no
relacionamento interpessoal entre alunos,
abordamos a questão do respeito e da ami-
zade.
Nas turmas de 3
a
e 4
a
séries, trabalha-
mos a questão da cidadania como fruto da
experiência de cada indivíduo no embate
cotidiano da vida, construída não só de di-
reitos, mas de deveres, de erros e acertos.
Com o intuito de levar a criança a
produzir sua própria história e, paulatina-
mente, construir o conceito de cidadania,
pedimos a cada uma que trouxesse para
a sala de aula objetos que estimulassem a
memória individual e traduzissem parte da
vida delas.
No primeiro momento, nos atemos à
certidão de nascimento e à descrição da cidade
onde nasceram e o local onde moram
atualmente. Com as observações nos registros,
objetos trazidos pelos alunos e a composição
oral de alguns, foi preenchido um questionário
com dados pessoais. Como a história da nossa
cidade é recheada de fatos curiosos e lendas,
os alunos buscaram muitos destes através das
histórias contadas pelos pais, avós e pessoas
da comunidade que se dispuseram a ajudar nas
pesquisas.
Para vivenciarmos melhor esse contato
com a história da cidade, os alunos visitaram o
museu e alguns pontos turísticos onde estão
registrados fatos importantes da história da
cidade.
Constatamos que esse trabalho, que visou
resgatar a história de vida dos alunos e do
povo de sua cidade, foi muito significativo
para a escola e a comunidade. Os alunos
demonstraram uma alegria contagiante ao
falarem de sua história e apresentarem
fotografias, livros, roupas e brinquedos.
Através da história de cada objeto e da relação
de cada um com eles, as crianças foram
percebendo que suas histórias são tão
importantes quanto a história das pessoas
famosas da cidade.
Após essas atividades, os alunos fizeram
uma história em quadrinhos da sua própria
vida, onde registraram situações vividas em
casa, nas escola, e em outros locais. Com isso
pudemos, juntamente com os pais, descobrir
fatos importantes, através de elementos
citados na história que se tornaram alvo de
estudo, até mesmo para a psi-
cóloga, que foi procurada pela mãe de um
aluno, após a execução dessa atividade.
Percebendo o interesse dos alunos quanto
ao estudo dos documentos e atento à sua
importância na vida dos cidadãos, propusemos
a confecção de carteiras de identidade
simbólicas para todos os alunos participantes
do projeto. Foram executadas todas as etapas
de um documento legal. E na entrega das
carteirinhas (sem valor documental), foi
realizada uma palestra com um sargento da
corporação da cidade que explicou a
importância dos documentos pessoais e os
cuidados que devemos ter com eles.
Aproveitando as discussões, a respeito de
direitos e deveres, convidamos o diretor do
Programa de Orientação e Proteção ao
Consumidor - PROCON da cidade, para
esclarecer aos alunos de 3
a
e 4
a
séries sobre a
importância de estarem atentos ao fazerem
suas compras, observando aspectos tais como:
data de validade, o respeito do atendente ao
consumidor, qualidade do produto, etc.
Uma visita ao supermercado e a mon-
tagem de um supermercado simulado foi uma
etapa interessante do processo, visto que se
envolveram profundamente na atividade.
Para tratar da questão dos direitos hu-
manos e a convivência social, foram reali-
zados seminários com alunos de 4
a
série sobre
o direito à vida e o direito de ser pessoa
embasado em textos do livro "Direitos Hu-
manos e Cidadania", de Dallari. Nas turmas da
3
a
série foi desenvolvido pela professora da
disciplina Arte, um trabalho intitulado "A paz
no mundo começa na escola". Os alunos
fizeram a reprodução da obra "Pom-
ba da Paz" de 1949, do pintor espanhol
Pablo Picasso. Essa execução foi cons-
tituída com a utili-
zação de giz de cera e
anilina. Comple-
mentando o estudo, foi
feito ainda um debate
com os alunos sobre o
tema "Viver em Paz"
e, posteriormente, foi
proposto que
comentassem com os
pais a respeito desse
debate pedindo sua
opinião sobre a temática em questão. Na
sala de aula, a discussão foi retomada
ressaltando a relação entre guerra e valores,
opiniões e crenças das pessoas.
Ainda sobre a convivência social, foi
realizada pelos alunos de 4
a
série, por ini-
ciativa própria, a peça "0 que fazer? Fa-
lando de Convivência" (IACOCCA, 1996). A
peça obteve muito sucesso, foi apresentada
várias vezes na escola e em uma Univer-
sidade de nossa cidade, onde apreciaram
muito o trabalho das crianças. Com a re-
alização dessa peça, os alunos aprenderam
muitos dos valores que foram abordados,
fazendo uma analogia do tempo pré-histó-
rico com o presente, dando ênfase às ques-
tões de injustiça social.
Quanto ao desempenho dos alunos, po-
demos dizer que os resultados foram muito
positivos, pois é notável a conscientização
dos participantes em relação aos conteúdos
trabalhados. A avaliação das ações foi feita
de forma paralela ao seu desenvolvimento,
acontecendo periodicamente em reuniões,
quando analisávamos os pontos positivos
de cada etapa. Através
desta avaliação surgiam
os encaminhamentos
para o próximo passo a
ser dado. Para fazermos a
avaliação final, foi
realizada uma reunião
com a equipe de
professoras, coor-
denadora e diretora da
escola, a fim de analisar
os resultados finais do
projeto. 0 encerramento das ações
planejadas para o primeiro semestre foi
marcado pela apresentação dos resultados à
comunidade escolar. Contamos com a
presença de vários funcionários da escola e
também dos pais que elogiaram a
iniciativa dos professores e o desempenho
dos alunos que puderam mostrar que são
capazes de entender a sociedade em que
vivem e lutar por mudanças necessárias
para uma vida melhor e mais feliz.
Enfim, podemos dizer que a execução
desse projeto foi gratificante, pois contri-
buiu para a integração da comunidade es-
colar e, principalmente, para o desenvol-
vimento do espírito criativo, crítico e de
tomadas de decisões da maioria dos alunos
envolvidos.
Concluímos que o projeto foi bem
aceito por toda a comunidade escolar e por
pessoas que, apesar de não atuarem na área
educacional, acolheram com atenção nos-
sas solicitações. Os palestrantes convida-
dos demonstraram comprometimento com
o tema e boa disponibilidade em colaborar
nesse trabalho.
Participar do Prémio Incentivo à Edu-
cação Fundamental e ter o prazer de nosso
projeto estar classificado entre os vinte
melhores do País foi um acontecimento de
grande relevância, tanto para a escola, quanto
para as professoras participantes. Isso nos fez
sentir muito felizes e realizadas enquanto
profissionais que buscam novos caminhos
para proporcionar às nossas crianças uma
educação de qualidade para que possam
exercer a cidadania conscientes de seus
direitos e deveres enquanto cidadãos
brasileiros.
Por acreditarmos no sucesso do projeto,
que estava ainda em andamento, no final do
primeiro semestre, optamos por concluir, em
parte, o desenvolvimento das ações para
concorrer ao premio, porém, outras questões
relacionadas à cidadania foram tratadas no
segundo semestre.
A preservação do meio ambiente, a
educação para o trânsito e o direito ao voto,
foram conteúdos trabalhados para dar
continuidade ao estudo tendo em vista o tema
do projeto.
Diante dos resultados obtidos, decidimos
incluir os conteúdos explanados no projeto no
planejamento anual. Entendemos que dessa
forma podemos melhorar o projeto
pedagógico da escola.
Vivenciar novas experiências é fun-
damental para a melhoria na qualidade da
educação. Portanto, acreditamos que através
do desenvolvimento de grandes projetos
estamos contribuindo para o sucesso não só de
nossa escola, mas também de outras que,
conhecendo a experiência, possam
se engajar numa nova proposta de educação,
na qual o aluno é sujeito ativo de sua
aprendizagem.
PROFESSORAS CO-AUTORAS DO
PROJETO:
Andreia Noronha
Eles Pereira de S. Bento
Gislene de Sousa Oliveira
Iraci Dias da Cunha
Jane Pires Alves Mendonça
Kênia Mara da Costa
Maria Aparecida da Cruz Nascimento
Mirian da Silva Luiz Soares
Reilda Aires de Sousa Castro
Tânia Maria Naves
Suzete Elias - Diretora Helena Maria da S.
Mesquita - Coordenadora Pedagógica
BIBLIOGRAFIA:
ALMEIDA, Fernanda Lopes de. A Margarida Frio-
renta. Editora Ática. São Paulo. 24
a
edição. 2000.
DALLARI, Dalmo Abreu de. Direitos Humanos e
cidadania. Ed. Moderna. São Paulo - 1998.
DIMENSTEIN, Gilberto. Direito de ter direitos. 0
cidadão de papel. Ed. Ática. São Paulo - 1994.
DUARTE, Madalena Parisi. Direitos e deveres da
criança. Todo livro Ltda. Editora Brasil leitura.
Blumenau-SC.
IACOCCA, Liliana e Michele. 0 que fazer? Falan-
do de convivência. Editora Ática. São Paulo. 15
a
edição. 1999.
A SAÚDE COMEÇA PELA
BOCA
Ao desenvolver o hábito da higiene bucal,
foram criados novos espaços de aprendizagem.
omos uma escola de um núcleo rural,
composta por cinco comunidades,
distante 10 km da cidade, apre-
sentando uma realidade sócio-econômico e
cultural pobre. Sua população em idade de
frequentar a escola depende 90°/o do trans-
porte escolar.
Nesses tempos de globalização, a co-
munidade não pode viver desligada.
- "PROFESSORA,
ESTOU COM DOR DE DENTE!"
Cientes de que apenas uma visita ao
Posto de Saúde não seria suficiente e sa-
bedores da grande importância da saúde
bucal, esta frase de dor permanecia viva,
latejante na memória e nos fazia meditar
sobre os problemas que, direta ou indireta-
mente, estavam atingindo as crianças desta
comunidade rural, afastada da cidade e do
consultório dentário.
Assim, sentiu-se a necessidade de ofe-
recer a estas crianças uma nova aprendi-
zagem que favorecesse a higiene bucal, ou
seja, começar pela boca o desenvolvimento
harmonioso da sua saúde física, social, am-
biental e mental.
Segundo Maria da Graça Souza Horn,
mestre em Educação, professora da UFR-
GS, o currículo deve ser entendido como
instrumento que responda às necessidades
sociais da comunidade onde se insere e, a
partir disso, desvelar para quem e para quê
se trabalha.
A Constituição da República Federati-
va do Brasil, art. 196, dita que: "A saúde é
direito de todos e dever do Estado, garanti-
do mediante políticas sociais e econômicas
que visem à redução do risco de doenças e
de outros agravos e ao acesso universal
igualitário às ações e serviços para sua pro-
moção, proteção e recuperação".
Esta comunidade escolar responde às
necessidades sociais e vivência este artigo
através de ações e serviços que visem à
redução do risco de doença e favoreçam a
promoção, proteção e recuperação da saú-
de.
0 objetivo deste projeto foi desenvol-
ver o hábito da higiene bucal, estabelecendo
conexões entre hábitos saudáveis de higie-
ne, alimentação, práticas agroecológicas,
atividades corporais e mentais e os efeitos
sobre a própria saúde e melhoria da saúde
coletiva, a fim de que as crianças compre-
endessem o corpo humano como um todo
integrado e a saúde como um bem-estar fí-
sico, social, ambiental e psíquico a que o
cidadão digno faz jus.
S
A reunião pro-
pulsora desta experiência
pedagógica foi iniciada
por mira, professora do
Ensino Fundamental, com
as demais professoras da
escola, colocando-as a par
do problema bucal
encontrado nas crianças
da minha turma e da
viabilidade de
transformar este problema
em um projeto envolvendo todas as crianças
da escola. 0 desafio lançado foi prontamente
aceito, pois, de uma forma ou de outra, na
maioria das crianças da escola observava-se o
descuido com os dentes. Não era possível
negar que a presença e a permanência de uma
placa cariogênica seria o ponto inicial para o
aparecimento da cárie e suas demais sequelas
físicas, sociais e mentais.
Na Clínica Odontovida, no consultório
dentário, houve contato da escola com a Dr
a
Liane e o Dr Gustavo, sobre o drama vivido
pelas crianças. Entusiasmados com a ideia, os
dentistas programaram uma visita à escola
para conhecer sua estrutura e estudar a
viabilidade de, em parceria, colaborar com um
projeto sobre higiene bucal.
A visita dos cirurgiões-dentistas à escola,
a fim de conhecer as crianças que a
frequentavam, os professores e o local de
implantação do Projeto foram um dos marcos
iniciais para uma série de conquistas. Os
profissionais atenciosos e detalhistas, com
paixão pela causa bucal, penetraram em nosso
pequeno mundo e o engrandeceram. Eles
trouxeram na sua bagagem uma gran-
de força para impulsionar
nosso sonho e torná-lo
realidade.
Um questionário,
com o auxílio dos ci-
rurgiões-dentistas e cora
o objetivo de levantar
dados que auxiliassem no
desenrolar do projeto, foi
entregue à criança. Além
de informações pessoais,
o questionário buscava
dados sobre o uso da escova, creme e fio
dental, palito de dente, prótese dentária,
histórias de dor de dente e visita ao dentista.
Estes dados foram analisados graficamente,
colocando o professor e o profissional a par da
realidade sobre higiene bucal vivenciada pela
criança.
A análise dos dados e o índice percentual
dos gráficos fizeram-nos sentir a necessidade
de transformar um antigo e ocioso banheiro,
próximo ao refeitório, num esco-vódromo.
Isto exigiu mão de obra de pais mais
entendidos em reforma e construção. Era
necessário retirar azulejos envelhecidos e
deteriorados, reformar paredes, refazer os
encanamentos, substituir o piso, pintar as
paredes e acreditar. 0 local era perfeito para
formar futuros amigos da escova, do creme e
do fio dental.
O espaço estava pronto. Era necessário
conseguir doação de materiais para equipar o
escovódromo. Precisava-se de uma cuba,
torneiras, espelhos, quadros ilustrativos, ar-
mário, escovas, fio dental, creme dental e
toalhas higiénicas. Era o mais difícil, porém
tudo é possível para quem sabe o que deseja e
resolve conquistá-lo. A preocupação, após
algumas buscas, se tornou doação. Graças
a ex-alunos da escola, empresários locais e
pessoas físicas que sentiram-se lisonjeadas
em ajudar no Projeto, conseguimos o que
era necessário. Foi a intenção que carac-
terizou uma bela obra. Foi o otimismo e o
trabalho coletivo que se transformaram em
um escovódromo equipado e à espera de
crianças felizes e mais saudáveis.
Após os pais assinarem um termo de
compromisso, os cirurgiões-dentistas exa-
minaram detalhadamente a boca de cada
criança e registraram dados sobre sua saú-
de bucal inicial. Estes registros permitiram
avaliar a redução da placa bacteriana e, con-
sequentemente, o desenrolar do Projeto.
Não poderíamos iniciar nosso sonhado
projeto no escovódromo, senão juntos. Os
cirurgiões-dentistas proporcionaram uma
rica e bela palestra para pais, crianças e
professores enfatizando que "A saúde co-
meça pela boca" e que o padrão saúde/do-
ença/cárie e suas múltiplas consequências é
definido na infância. A comunidade escolar
engajou-se no mesmo objetivo e motivou-
se a escovação diária em 4 frentes de ação:
1. desorganização e redução da placa bac-
teriana através da escovação mecânica
e uso do fio dental;
2. retardo e redução da progressão cario-
sa através do creme dental com flúor;
3. seriedade com o que levamos à boca,
desde a água que bebemos até os ali-
mentos que ingerimos;
4. socialização entre a comunidade esco-
lar sobre a importância da saúde física,
social, ambiental e mental.
Era necessário alcançar a redução do
índice de CPOD (dentes cariados, perdidos e
obturados) da escola. Sem a perda precoce
dos dentes, evitam-se problemas maiores,
tais como: má oclusão dentária, alterações
na fala e, consequentemente, problemas na
aprendizagem, constrangimento social e
complicações mais graves relacionadas à
dor, inflamações, infecções locais, desnutri-
ção pela dificuldade de mastigação, evolu-
ção de processos para lesões generalizadas,
perda óssea, deformações da face, proble-
mas digestivos e demais danos ao aparelho
digestório.
Os cirurgiões-dentistas ressaltaram que
a proteção aos dentes não é função exclu-
siva da escova, mas sim, de um indivíduo
consciente que vê além da escova uma série
de hábitos de higiene: físicos, alimentares,
ambientais, sociais e mentais responsáveis
pela saúde integral de todo e qualquer ci-
dadão. Foi realizado da seguinte maneira o
conjunto de atividades para a higiene bu-
cal:
Aulas práticas de escovação após o
lanche e sob a orientação da profes-
sora são realizadas diariamente. As
crianças tomam seu lanche, no qual
procura-se reduzir o teor de açúcar,
inimigo número um dos dentes, lavam
as mãos e dirigem-se ao escovódromo.
Cada escova está identificada e a pro-
fessora a entrega a cada criança com
creme dental com flúor. Elas escovam
seus dentes olhando-se no espelho. A
escovação é lenta; primeiro a arcada
superior, depois a arcada inferior e,
para finalizar, a língua. De posse da
toalha, também personalizada, secam
a boca e a escova. Penduram nova-
mente a toalha no suporte e a escova é
guardada no armário. Recebem o fio
dental e procuram atingir os locais
onde a escova não alcançou. Depois de
alguns minutos, colocam o fio dental
no lixo. 0 tempo de escovação é em
torno de 10 minutos.
Um trabalho maravilhoso onde noções
básicas sobre saúde são aprendidas no próprio
escovódromo. A criança passa a re-conhecer-
se como elemento integrante do ambiente,
aperfeiçoando os hábitos saudáveis de higiene
proporcionados pela escovação diária e pela
possibilidade de ver sua imagem refletida no
espelho, o que, para a vida na zona rural, é
verdadeiro luxo.
A orientação, controle, exames e res-
ponsabilidade técnica coube aos dois cirur-
giões-dentistas que visitam a escola quinze-
nalmente, normalmente às segundas-feiras.
Observam e analisam o desenrolar do projeto,
bem como orientam e esclarecem dúvidas dos
professores e questionamentos das crianças. 0
dia de visita dos cirurgiões-dentistas é sempre
especial para toda comunidade escolar. A
criança vê no profissional uma aproximação
amiga que não se restringe apenas à boca e o
professor recebe um incentivo para continuar a
bela tarefa que o magistério lhe proporciona.
Ao encontrar pessoas disponíveis para lutar
pela causa da educação integral, faz-nos lem-
brar as flores do campo que acreditam não ter
perfume, mas que, juntas, perfumam o mais
inodoro dos ambientes.
Após uma visita ao Secretário de Saúde
Municipal, e informando-o sobre o projeto
desenvolvido na escola e com o auxílio do
transporte escolar, a professora organizou
equipes de visita ao Posto de Saúde onde é
executada a odontologia curativa. As crianças,
sempre acompanhadas pela professora,
receberam atendimento atencioso e sem
medos, pois na escola conheceram o dentista
como um profissional amigo e responsável
pela saúde bucal de todo e qualquer cidadão
consciente. Nas visitas ao Posto de Saúde
Municipal, as crianças aprenderam o que é um
serviço público. Conheceram, também, todos
os serviços públicos oferecidos à comunidade
rural, da qual, embora sendo de pouca idade,
são membros integrantes.
A experiência vivida pelas crianças abriu
vasto campo para, de forma inteirada, criar
dramatizações, produzir textos, desenhar
livremente ao rol de uma imaginação fértil. A
busca de leituras sobre higiene bucal, criar
brincadeiras e músicas, em especial paródias e
imitar os cirurgiões-dentistas, de forma
educativa, envolvia-os com alegria no Projeto
"A saúde começa pela boca".
No momento em que as crianças estavam
envolvidas na escovação diária, o Projeto
seguia sua linha de ação, cuidando da higiene
das mãos. Mãos que escrevem, trabalham,
brincam, mexem na terra, demonstram gestos
de carinho e preocupação. Mãos que devem se
manter limpas e unhas que devem demonstrar
zelo por si e por sua saúde. "Para as mãos", diz
uma criança, "muita água e sabão e, para as
unhas, um corta-unhas, lixa e limão". As
crianças aprenderam a usar o corta-unhas e a
lixa, doações de um Instituto de Beleza do
centro da cidade e, no pátio da escola,
próximo a um limoeiro, exerciam com a maior
facilidade outro hábito de higiene que, com
certeza, permanecerá ao longo das gerações
destes pequenos cidadãos.
Ao se olharem no espelho do escovó-
dromo, via-se a preocupação das crianças com
o cabelo. Então, convidamos a Dona
Neiva, do Instituto de Beleza Neiva &
Nei-de para orientá-los. Lavando o cabelo
de uma criança de cabe-
lo liso e uma de cabelo
crespo, demonstrou as
diferenças e os cui-
dados a eles conferidos.
0 uso do sabão caseiro,
do xampu e do
condicionador
levantaram muitas
perguntas que foram
prontamente
respondidas pela
profissional em estética
e beleza. Além do cuidado com o cabelo,
em sua palestra, Dona Neiva ressaltou a
importância do banho diário, a valorização
da água e, consequentemente, da vida.
Para escovar os dentes, usamos água
da fonte que vem do meio da mata pró-
ximo à escola. A curiosidade em conhecer
a fonte, sua localização e se estava prote-
gida ou não, criou o interesse de se cons-
truir um caminho no meio da mata que nos
levasse até esta água: água que bebemos,
que utilizamos na escovação dos dentes, na
elaboração da merenda escolar e na limpe-
za da escola. Os pais foram convidados e,
com foices e facões, abriram uma pequena
trilha entre as árvores maiores, pela qual
as crianças, na maior euforia, conseguiram
chegar até a fonte. A necessidade de maior
proteção à nossa água, um bem tão precio-
so e essencial à vida do planeta, fez-nos
trilhar várias vezes o caminho da fonte ou
nascente.
Tendo observado a necessidade de
maior proteção para a fonte que abastece
a escola, a professora se
dirigiu ao escritório da
EMATER/ASCAR
(Associação Riogran-
dense de Empreendi-
mentos de Assistência
Técnica e Extensão
Rural/Associação Sulina
de Crédito e Assistência
Rural), a fim de
conseguir um auxílio
técnico que nos
orientasse como pro-
ceder para proteger a fonte da escola de
qualquer agente externo que a
contaminasse ou poluísse. Houve, por parte
do técnico, duas visitas. Uma para,
conduzido pelas crianças, conhecer a fonte
e outra para construir, junto com os pais,
uma caixa de proteção. Depois de muita
atenção, concreto, tijolos e lajes, a fonte es-
tava segura e a comunidade escolar dava
mais um passo consciente de que "A saúde
começa pela boca".
Numa das visitas, o técnico da EMA-
TER/ASCAR ressaltou a importância para
que cada criança verificasse a água que era
usada em sua casa. Falou dos problemas
causados por águas não protegidas e as sé-
rias consequências que nosso planeta vive
pela falta de água potável. Organizou-se
um questionário para verificar a origem da
água de cada família da comunidade esco-
lar, no qual perguntávamos qual a origem
da água que era utilizada para escovar os
dentes, se a fonte era protegida e como era
protegida. Das respostas colhidas, foram
elaborados gráficos que mostravam a rea-
lidade vivida pelas crianças e as mudanças
necessárias no trato com a água. Estes
gráficos se tornaram ponto de apoio para
que o conhecimento matemático fluísse de
forma natural e prática.
Água não é um problema só da escola,
da comunidade ou do município. Água é
um problema mundial. Usando o tema da
Campanha da Fraternidade "Água fonte de
vida" e através de mapeamento globaliza-
do retirado de revistas e jornais locais, re-
gionais e estaduais, reconhecia-se que, de
gotas miúdas, de água nascem as fontes, os
riachos, os rios, os mares e os oceanos.
Grande é a minha, tua e nossa respon-
sabilidade. A água caracterizada como uma
substância incolor, inodora e insípida não
pode, pelos maus tratos humanos, transfor-
mar-se em água poluída, água contamina-
da ou depósito de restos humanos, lixo. A
água é um património a preservar antes que
seja tarde demais.
Após conhecermos a água que bebe-
mos e os cuidados que a ela devemos dar,
era necessário conhecer os alimentos que
ingerimos. Através da conversação, veri-
ficamos a origem dos alimentos utilizados
no café, almoço, jantar e lanches das crian-
ças, assim como a presença de alimentos
construtores, energéticos e reguladores, es-
senciais ao bom desenvolvimento. Usando
alimentos adquiridos em supermercado e
alimentos trazidos pelas crianças e fabrica-
dos pelas mamães ou pelas vovós, compa-
ramos os ingredientes usados na sua produ-
ção e, ao natural, descobriam-se os aditivos
químicos, motivo de muita pesquisa e apre-
sentação de um seminário sobre alimentos.
Estudo de doenças que começam pela
boca, pela falta de higiene bucal, má ali-
mentação e/ou relacionadas às mesmas.
Nas visitas à escola e na conversação com
as crianças, os cirurgiões-dentistas enu-
meravam algumas doenças que começam
pela boca. A alimentação, o cuidado com o
que era posto na boca e ingerido começou
a criar, nas crianças, um espírito de in-
vestigação. Aditivos químicos, agrotóxicos,
alimentos orgânicos, horta, água, práticas
agroecológicas, diminuição do açúcar na
alimentação, doenças provocadas pela au-
sência de hábitos de higiene e alimentares,
assim como doenças mentais e sociais eram
assunto corriqueiro e as crianças desenvol-
viam atitudes na aprendizagem: curiosida-
de, mobilização, busca e organização de
informações, tanto para criança como para
o professor.
Após encontrarmos em um jornal que
a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA) detectou a presença de resíduos
de agrotóxicos acima do limite máximo
permitido e a utilização de agrotóxico no
morango, pseudofruto muito apreciado pela
comunidade escolar, resolvemos cultivá-lo
em nossa horta. 0 sucesso foi grande e logo
tínhamos morangos para comer, fazer suco
e até para vender na cidade. Na "Feira de
Integração" realizada na praça municipal, a
comunidade escolar organizou uma expo-
sição demonstrando como é possível colher
morangos saudáveis e isentos de agrotó-
xicos, com praticidade e responsabilidade
para com o ambiente.
Assim como o escovódromo se tornou
um lindo recanto para as mais variadas
formas de aprendizagem, sentimos a ne-
cessidade de transformar a biblioteca em
um local mais organizado e agradável para
leitura e pesquisas escolares. Com doações
de prateleiras da FABI (Comércio de Com-
pensados e Transportes Ltda) cujo gerente é
um ex-aluno da escola, algumas almofadas,
um belo tapete bordo e uma pintura mais
clara, a biblioteca remodelou-se e convida-
va a entrar, a sentar e a se sentir à vontade.
0 número de livros retirados e pesquisas
realizadas aumentaram consideravelmente.
Pesquisas em jornais sobre problemas liga-
dos à agricultura que atingem nossa comu-
nidade e demais comunidades, interferindo
direta ou indiretamente na saúde física, so-
cial, ambiental e mental do nosso povo e
de outros povos, eram procuradas. Somos
uma escola rural, distante da cidade, mas
que não pode viver desligada nestes tempos
de globalização.
Sendo necessário avaliar nosso traba-
lho, colocamos num mural a frase que di-
rigia nosso Projeto: "A saúde começa pela
boca" e, a partir daí, as crianças escreviam
em cartões as palavras-chave que caracte-
rizavam a aprendizagem que se sucedeu.
A professora 1ª organizando a teia de co-
nhecimentos e, não obstante, percebeu-se
que o projeto favoreceu trabalhar de forma
integrada segundo a Organização Curricu-
lar da escola e a Comunicação e Expres-
são, o Lógico Matemático e Científico e o
Conhecimento Sócio-Histórico brotavam
naturalmente da vivência do dia a dia e das
múltiplas atividades executadas e a
executar. As habilidades físicas, motoras e
cognitivas, o respeito mútuo, a valorização
do conhecimento que traziam na bagagem
consolidavam um novo caminho onde as
crianças sentiam-se sujeitos de uma histó-
ria mais humana, solidária e fraterna. Desta
teia surgiu o hino do Projeto, uma paródia
da música "Meu Lanchinho" da cantora e
apresentadora Eliana:
MINHA SAÚDE
Meudentinho,meudentinho,vouescovar,vou
escovar
Pra ficar branquinho, pra ficar branquinho e
não cariar e não cariar.
Minha unha, minha unha vou limpar, vou
limpar
Lixa e limão, lixa e limão vou usar, vou usar.
Do cabelo, do cabelo vou cuidar, vou cuidar
Um gostoso banho, um gostoso banho vou
tomar, vou tomar.
Água potável, água potável vou beber, vou
beber
A minha fonte, a minha fonte vou proteger,
vou proteger.
Uma horta, uma horta vou cultivar, vou
cultivar
Verduras e legumes, verduras e legumes, vou
saborear, vou saborear.
Muito cuidado, muito cuidado ao me
alimentar, ao me alimentar.
Longedoagrotóxico,longedoagrotóxico,vou
ficar, vou ficar
A biblioteca, a biblioteca vou visitar, vou
visitar.
Em livros e jornais, em livros e jornais vou
pesquisar, vou pesquisar
A minha saúde,a minha saúde vou preservar,
vou preservar
Começa pela boca, começa pela boca, vou
afirmar, vou afirmar.
UMA DOR. UM DESEJO DE MUDANÇA,
UM SONHO.
Meu sonho habitando outras cabeças,
outros corações.
Um sonho coletivo, orgulhoso do ser-
viço prestado, confiante, contemplando o
futuro e acreditando na oportunidade dada
às crianças de sentir que "A saúde começa
pela boca."
Assim, sonhando coletivamente, atin-
gimos o objetivo de desenvolver o hábito
de higiene bucal e de reduzir a placa bacte-
riana através da escovação mecânica. Desta
forma, reduzimos o sangramento gengival
e, consequentemente, as histórias de dor.
Pela saúde bucal, estabelecemos conexões
entre hábitos saudáveis de higiene, alimen-
tação, práticas ecológicas, atividades cor-
porais e mentais, os efeitos sobre a própria
saúde e a melhoria da saúde coletiva.
Construir na criança a compreensão de
que o corpo humano é um todo integrado e
que a saúde é um bem estar físico, social,
ambiental e psíquico foi uma grande
conquista que se iniciou no escovódromo
de nossa escola. Trabalhando higiene bucal,
construímos uma teia de conhecimento, um
elo de práticas que transformou a realidade
não apenas das crianças, mas de toda co-
munidade escolar.
Conforme o artigo 196, da Constitui-
ção Federal, vive-se, através deste projeto,
a redução do risco de doenças e realiza-se
pequenas ações e serviços de promoção,
proteção e recuperação da saúde dos cida-
dãos desta comunidade escolar.
0 Projeto "A saúde começa pela boca"
apaixonou a comunidade escolar, os cirur-
giões-dentistas que nos orientaram e os
amigos que compartilharam conosco as an-
gústias vividas e os objetivos conquistados.
As crianças, ao desenvolverem harmonio-
samente corpo e mente, abriram um sorriso
largo e feliz cantando com ciência:
"Minha saúde, minha saúde vou preservar
Começa pela boca, começa pela boca vou
afirmar."
Trabalhar com crianças que precisarão
contribuir, agora e mais tarde, quando fo-
rem adultas, na criação de uma sociedade
mais saudável e tolerante, é uma tarefa que
só nos foi dada pelo magistério.
Ao avaliar este Projeto, agradeço a
Deus o dom que me foi dado, o de ensinar
sendo eterno aprendiz e a alegria de viven-
ciar uma experiência tão maravilhosa que
me enaltece como ser humano engajado no
universo ao qual faço parte.
A educação precisa de um envolvi-
mento afetivo, lúdico, prático, dinâmico
e eficiente de todos aqueles que a ela se
dedicam, sob pena de transformá-la em
mais uma mera tarefa a ser cumprida. A
falta deste envolvimento dificulta a criação
de raízes para a plena realização do ensino-
aprendizagem, na medida em que nos
parece imprescindível, em Educação Fun-
damental, a mudança de atitudes e hábitos
culturais que nos levem a repensar nossos
costumes, nossas práticas, enfim, nossa vi-
são sobre saúde.
0 projeto "A saúde começa pela boca"
procura demonstrar que a educação deve
ser feita em cima da vida, dos interesses,
sonhos e necessidades da comunidade es-
colar. Toda ação deve ser desenvolvida em
um ambiente social e servir para melhorar
a qualidade de vida das pessoas.
0 professor de Ensino Fundamental
que se espelhar nesse projeto, desenvolverá
uma proposta entusiasta de ação, ensinará
um certo prazer pela vida, um certo orgu-
lho de ser humano, perceberá o quão rico e
gratificante é extrapolar o âmbito da sala
de aula e envolver, além da comunidade es-
colar, outras camadas sociais numa Trans-
Formação educacional.
Para mim, autora de "A saúde começa
pela boca", fica a esperança que esse Pro-
jeto faça jus aos versos do Hino Riogran-
dense: "Sirvam nossas façanhas de modelo
a toda Terra".
LIVRO SEM
CONTRA-INDICAÇÕES.
ENCANTO A VIDA E A ALMA
As crianças aprendem que a leitura é
diversão e exploram mundos diferentes.
EMEB "Marechal Cândido Mariano
da Silva Rondon" tem um espaço
razoável e o seu prédio encontra-
se em condição regular, possui 10 salas de
aula e uma biblioteca e localiza-se em área
urbana periférica. Faz parte de uma comu-
nidade bastante carente, porém organizada,
pois contamos com vários grupos tais
como: associação de moradores, grupo de
idosos, comunidades religiosas, etc. A esco-
la recebe alunos de vários bairros vizinhos
que vêm desde áreas griladas a outros em
condições um pouco melhor.
Trabalha com proposta curricular de-
finida, tendo como eixo norteador o Tema
Gerador (Paulo Freire) em Comunidade de
Investigação (Mathew Lippman), desen-
volve vários projetos nas diversas áreas e
modalidades de ensino, sempre com o ob-
jetivo de tornar as aulas mais interessantes
e próximas do aluno, valorizando o eu, o
outro, o ambiente e o exercício da cidada-
nia responsável.
Por ser uma escola ciciada, a retenção
acontece no final do ciclo apenas para os
alunos que não obtiveram as habilidades
mínimas. Portanto, houve a necessidade
deste projeto para sanar as dificuldades
apresentadas, as quais vêm acontecendo
nas escolas do país.
Trabalhamos com crianças entre 6 e 8
anos de idade e pensamos em um projeto
que auxiliasse nas dificuldades que ocor-
rem desde o início da escolaridade, pois a
escola deverá ser o lugar natural para
despertar maior interesse pela leitura e es-
crita de forma prazerosa e a partir daí se
estender para outros lugares. É importante
que as crianças aprendam que a leitura é
um instrumento para a diversão, uma
ferramenta lúdica que nos permite explorar
mundos diferentes dos nossos, reais ou
imaginários e que nos aproxima de outras
pessoas e de suas ideias. Por isso, a litera-
tura teve presença constante nos trabalhos
escolares, mas sem pensar em um resultado
pedagógico imediato. Evidentemente, esse
é um processo lento e para que a criança
atinja esse nível é necessário que receba es-
tímulos desde cedo.
No ano de 2001, trabalhávamos com
os alunos da educação infantil (5 anos).
Após realizarmos o diagnóstico com nossos
alunos, percebemos que as crianças eram
apáticas, tinham baixa auto-estima e, nesse
sentido, realizamos um trabalho direciona-
do a resgatar esse lado das crianças, pois
enquanto isso não acontecesse, seria muito
difícil se interessarem pela situação ensino-
aprendizagem. No final do ano, elas já
A
estavam bem mais comunicativas e interes-
sadas em fazer suas próprias descobertas.
Então, no ano de 2002, continuamos
trabalhando com as mesmas crianças. Elas
estavam na 1ª etapa do 1
o
ciclo (pré - es-
cola), ávidas em saber. Tinha muita coisa a
ser feita.
Demos início ao nosso projeto de leitu-
ra de história em que os alunos da 1ª etapa
do 2
o
ciclo (3
a
série) liam as histórias para
esses alunos, no lugar que mais lhe agra-
dassem, fora da sala de aula.
Conforme o tempo foi passando, foram
surgindo interesses maiores nas crianças
em conhecer outros estilos literários. Foi
então que começamos a trabalhar também
com poesias. Dessa forma, o processo de al-
fabetização e construção de conhecimentos
aconteceu de forma prazerosa e interdisci-
plinar.
Com essa experiência, nosso trabalho
trouxe bons resultados, pois as crianças, no
final do ano, construíram um livro de po-
esias denominado por elas "Poesia no Dia-a-
Dia". Sendo assim, em 2003 continuamos
nosso projeto com esses mesmos alunos da
2
as
etapas "A" e "B" do 1
o
ciclo (1ª série),
onde diversificamos ainda mais as ativi-
dades: dessa vez, os próprios alunos leram
histórias uns para os outros, pais e filhos
escreveram juntos, na escola, um livro de
poemas.
Conforme nos ensina Paulo Freire, "a
leitura da palavra é sempre precedida da
leitura do mundo. E aprender a ler, a es-
crever, alfabetizar-se é, antes de mais nada,
aprender a ler o mundo, compreender o seu
contexto, não numa manipulação mecânica
de palavras mas numa relação dinâmica que
vincula linguagem e realidade". Quando se
trabalha com a literatura, ela atua em três
áreas: afetividade (desperta a sensibilidade
e amor à leitura); a compreensão (desenvol-
ve o automatismo da leitura rápida e com-
preensão do texto) e inteligência (desenvol-
ve a aprendizagem de termos e conceitos e
a aprendizagem intelectual).
A leitura é algo indispensável na vida
das pessoas, pois sempre estamos em con-
tato com todo tipo de leitura que surge,
desde uma placa, anúncio, rótulos e até a
leitura de um bom livro. Por isso, necessá-
rio se faz estar trabalhando e incentivando
desde cedo nossas crianças à leitura, sejam
estas de livros de histórias, poesias, revis-
tas em quadrinhos (que também enriquece
o trabalho de leitura e escrita, onde trans-
formam imagens visuais em textos verbais
e vice-versa), etc.
Segundo António Cândido, "a litera-
tura é a forma mais alta e sistematizada de
elaboração de fantasia". As crianças ne-
cessitam ter um horário onde possam ter
oportunidade de conhecer diferentes estilos
literários que ampliem seu conhecimento e
despertem o prazer da leitura, pois se desde
o início elas adquirirem esse hábito, carre-
garão isso pela vida até a fase adulta. A li-
teratura infantil influi em todos os aspectos
na educação da criança - educar, instruir e
distrair. A poesia está mais na força, na
beleza, na música e no apelo das palavras.
Nela, o professor irá proporcionar ao aluno
maior convívio com um tipo de linguagem
emotiva, estreitando as suas relações com
a arte das palavras. Parafraseando o poeta:
"Toda forma de ler vale a pena ".
Diante disso, demos continuidade ao
nosso projeto de histórias e poesias com as
crianças, para que pudessem sentir sa-
"
Livro paixão que equilibra
e que nos leva a sonhar"
tisfação em estar lendo, escrevendo, crian-
do, recriando de forma prazerosa e fazendo
as suas próprias descobertas, não deixando
de lado os conhecimentos prévios, mas
ampliando esses conhecimentos e se apro-
priando de novos. Enfim, pensamos nessa
etapa, como diz Moacir Gadotti: "Educar
para pensar globalmente; educar os senti-
mentos; ensinar a identidade terrena; for-
mar para a consciência planetária; formar
para a compreensão; e educar para a sim-
plicidade".
Considerando o todo da criança - suas
necessidades e interesses, procurando es-
timular todos os aspectos possíveis de de-
senvolvimento, bem como sua criatividade
na conquista de sua autonomia - nossa
metodologia foi norteada em uma ação pe-
dagógica que levou em conta todos esses
aspectos. As crianças aprenderam sobre o
mundo que as cerca e a melhor maneira de
se comunicar e, ainda, a socialização entre
adultos e crianças e das crianças entre si,
valorizando seu cotidiano. A aprendizagem
é uma ação conjunta, constante e é um pro-
cesso de renovação. Por isso, procuramos
ajudar as crianças a fazerem suas próprias
descobertas.
A criança que lê é capaz de interpretar
e encontra menos dificuldade no estudo da
língua. Além de aumentar o vocabulário,
adquire maior fluência verbal e redige com
relativa facilidade, favorecendo, dessa for-
ma, o processo de letramento e o raciocínio
lógico-matemático.
As ações se desenvolveram no sentido
de favorecer a aprendizagem, o autoconcei-
to positivo, a capacidade de enfrentar desa-
fios, demonstrando respeito ao ser humano
nas diversas fases da vida enquanto pessoa,
família e sociedade, valorizando a vida, vi-
venciando a amizade e a solidariedade para
o bem viver, construindo ideias sobre as
ideias do outro, com respeito e autonomia,
adotando atitude de repúdio às discrimina-
ções, criando condições para se preparar
para si, para a vida e, consequentemente,
para a sociedade como uma pessoa plena
em harmonia.
Sendo assim, pensamos em proporcio-
nar um momento em que a construção de
conhecimentos ocorresse de forma interdis-
ciplinar, levando em conta a realidade da
criança, de sua comunidade e do mundo
atual na qual ela está inserida, por meio das
seguintes etapas:
1) Para impulsionar essas crianças, nós
incentivamos a leitura, criando condições
e valorizando todo o processo que a
criança realiza, não as interrompendo a
não ser que elas pedissem ajuda. Fomos
apenas observadoras, fazendo com que
elas realizassem suas próprias
descobertas;
2) Na sala de aula também lemos histórias
para as crianças, começando em um dia e
terminando no outro. Para isso,
utilizamos estímulos visuais através das
ilustrações do próprio livro, figuras e
outros objetos. Usamos também
estímulos auditivos para acompanhar a
narrativa utilizando músicas, alteração do
timbre de voz, estilos diferentes de
histórias (engraçadas, de aventura, de
amor, de suspense, de fadas, etc);
3) Trouxemos um contador de histórias para
as crianças e seus familiares;
4) Proporcionamos visita das crianças e
alguns familiares à biblioteca de um
município vizinho;
5) Produzimos um álbum de gravuras em
sequência de acontecimentos;
6) Confeccionamos uma caixa com men-
sagens de estímulo a partir da moral da
história;
7) Através de desenhos de diferentes per-
sonagens, realizamos um teatro de
fantoches utilizando palito de picolé;
8) Reuniões com os pais para esclareci-
mento do projeto e ouvir o que eles
pensavam;
9) Levamos as crianças à casa de uma
moradora do bairro para contar histórias e
"causos";
10) Conto de história realizada pela pro-
fessora de Inglês Tânia;
11) Questionamentos filosóficos;
12) Visita de um poeta regional à escola para
falar um pouco sobre poesia;
13) Poesias produzidas pelos alunos, a partir
dos sub-temas trabalhados e outros temas
sugeridos pelas crianças;
14) Produção e ilustração dos desenhos das
poesias realizadas pelas crianças;
15) As crianças das 2ª
s
etapas "A" e "B" do 1º
ciclo, através de conhecimento prévio da
história, trocavam as informações lendo
umas para as outras, da forma e em local
que achavam melhor, tornando as
histórias mais interessantes, ajudando,
assim, ao desenvolvimento de ambas,
criando um clima agradável, como um
encontro de amigos e fazendo com que se
sentissem responsáveis, estimulados à
aprendizagem. A partir da história que
liam ou ouviam registravam o nome da
obra, do autor, editora e quem ilustrou;
discutiam sobre as partes mais
emocionantes da história, se o desfecho
foi o esperado e as crianças opinavam
como deveria ser o final da história;
16) Dramatização de uma história "0 Pivete"
e encenada pela professora de educação
física Sueli. As crianças se dividiram em
grupos e apresentaram o teatro,
dramatizando o apresentador do "Você
decide!", nos moldes como é usado no
programa de TV. Foram apresentados
dois finais diferentes e através de votação
deveriam escolher o melhor. 0
apresentador pediu a opinião de algumas
crianças e por que escolheram "aquele"
final;
17) Conheceram diferentes vidas e obras de
autores da literatura infantil: Mon-
teiro Lobato, Ziraldo, Ruth Rocha, La
Fontaine, Perrault, Irmãos Grimm, etc;
18) Conheceram um pouco da vida e obra
de alguns poetas brasileiros como Car-
los Drummond de Andrade, Vinícius
de Moraes, Cecília Meireles, Mário
Quintana, Manuel Bandeira e outros;
19) Leitura de revistas em quadrinhos e
conhecimento sobre a vida de Maurí-
cio de Sousa;
20) Leitura, discussão e interpretação de
um texto bíblico e em seguida as crian-
ças fizeram a interpretação das frases
de cada versículo, onde transformaram
o texto de acordo com o entendimento
que tiveram;
21) Visitamos a biblioteca da escola para
entender sua função, como é feita a
catalogação do livro, percebendo que
os livros nesse espaço estão a serviço
das pessoas e não ao contrário. É o
local para a produção e ampliação da
leitura e pesquisa;
22) Tarde da poesia, onde as crianças fize-
ram a dramatização de textos poéticos
de outros autores;
23) Reunião com os pais ou responsáveis,
quinzenalmente, para a produção dos
poemas juntamente com seus filhos;
24) Esclarecemos a importância da leitura
na vida das pessoas como um todo, por
meio de palestra informal para os pais
com a formadora de língua portuguesa
do Programa GESTAR, Cida Pimentel;
25) Contato com a poetisa e escritora re-
gional Luciene Carvalho para que es-
timulasse as crianças na representação
da poesia e percebessem a arte de de-
clamar de maneira espontânea e lúdi-
ca;
Conte para os colegas o que aconteceu
na história Maria-vai-com-as-outras.
Em dupla, escreva a história da ovelha
Maria, depois que ela descobriu que deveria
apenas seguir seus pés. Sua história deve
começar assim...
Nas campos verdes e floridos da fazenda
Liberdade, mora uma ovelha. Maria é
divertida e diferente, só vai por onde caminha
seu pé...
26) Produção de livros pelas crianças, em
diferentes estilos literários;
27) Produção e ilustração dos poemas e
histórias realizadas pelas crianças e
seus pais para o livro;
28) Exposição do livro na VII FECULFIPE
(Feira Cultural Filosófica Pedagógica)
que acontece anualmente na escola
com o objetivo de socializar os traba-
lhos relevantes durante o ano;
29) Cerimónia formal de entrega dos livri-
nhos às crianças, acompanhadas dos
pais ou responsáveis e com a presença
das pessoas da comunidade, da Undi-
me, do Gestar, do Conselho Escolar,
professores, coordenadora e diretora.
É fundamental que a criança tenha
uma imagem positiva, percebendo-se e
sendo valorizada nas suas capacidades de
crescimento à medida em que desenvolve
o processo de socialização e interação com
o grupo. 0 que está sendo considerado é o
fato de que a criança constrói as noções e
seus conceitos à medida em que age e rela-
ciona os objetos do mundo físico.
A linguagem deve ser reconhecida
corno forma básica de expressão individual
e é também fundamental no processo de
socialização, autocontrole e construção do
pensamento. Propicia à criança condições
de ampliar concepção do mundo e, com
isso, possibilitar uma aprendizagem signi-
ficativa e racional. Partindo das experiên-
cias e valores que possui (senso comum),
então ela irá perceber a importância da es-
crita também na vida cotidiana, através de
atividades integradoras.
Nesse projeto contamos com grandes
parceiros que se dispuseram a ir até a escola
nos ajudar: contador de histórias, poetas e
escritores regionais que divulgaram os seus
trabalhos; formadora de língua portuguesa
do Programa Gestar; professora de inglês
e educação física, onde desenvolvemos o
conteúdo de forma interdisciplinar; mora-
dores da comunidade. Pais, famílias e ami-
gos foram de fundamental importância na
construção dos conhecimentos adquiridos
pelas crianças, pois participaram de todas
as atividades propostas e junto com seus fi-
lhos produziram um livro de poemas. Tudo
isso aconteceu e ficou registrado através de
livros, pois eles não têm contra-indicações,
mas trazem encanto a vida e a alma.
0 processo de avaliação implicou na
aceitação do educando com suas possibili-
dades de realização, sem a preocupação de
enquadrá-lo em modelos rígidos pré-esta-
belecidos, acontecendo de forma contínua
valorizando o desenvolvimento da criança
e respeitando o seu ritmo. Acreditamos na
avaliação como um ato permanente que
favoreça novas situações, desde as mais
simples às mais complexas, através de um
olhar, uma observação, uma reflexão, um
experimentar, uma discussão, uma pesqui-
sa, um estudo e, consequentemente, um
avançar, sair do estágio anterior e transfor-
mar-se.
Nessa perspectiva, optamos por uma
proposta de avaliação educacional como
mecanismo de diagnóstico da situação de
aprendizagem do educando, replanejando
e intervindo, visando seu avanço e cresci-
mento, realizando-a de forma contínua e
constante a partir das produções das crian-
ças, onde foram registradas através de rela-
tórios de acompanhamento do processo de
aprendizagem. As crianças vivenciaram si-
tuações reais, concretas e significativas du-
rante o seu processo de letramento, onde
se sentiram valorizadas,
e queriam construir um
livro de poemas após
conhecerem autores
como Vinícius de
Moraes, Carlos
Drummond de Andra-
de, Cecília Meireles e
outros que transitam
com facilidade o
universo infantil. Cons-
truíram de forma
significativa, o que foi motivo de emoção
para todos, tornaram-se mais solidárias,
cooperativas e responsáveis. Elas
expressaram melhor suas ideias e
sentimentos, fortalecendo a linguagem oral
e escrita. Dessa forma, as crianças, além de
conhecerem as obras, aprenderam um pou-
co da vida desses maravilhosos autores que
tanto estão presentes no imaginário infan-
til. Sentimos com isso que as crianças fica-
ram mais motivadas e empenhadas a fazer
suas descobertas, ampliando, assim, seus
conhecimentos e a apropriação gradativa
da escrita e da leitura e do raciocínio lógico-
matemático.
Elas ainda, a partir dessas atividades,
começaram por iniciativa própria a passar
na biblioteca da escola todos os dias para
pegarem um livro e levarem para casa e
assim, uma criança passou a incentivar a
outra a fazer o mesmo.
Foi para todos muito importante, pois
num momento em que a família brasileira
está preocupada em satisfazer suas necessi-
dades básicas, onde tudo é prioridade, me-
nos ler um livro, nós tivemos o privilégio
de contar com a participação da família na
escola e muito além de ler um livro pais
e filhos escreveram
"um", percebendo
também as suas po-
tencialidades. Nós
professoras, sentimos
que com nossa proposta
nos realizamos, pois
conseguimos fazer com
que todos participassem
do processo: família,
escola, comunidade, alunos e envolvemos
outros profissionais. Acima de tudo, que as
crianças construíssem os conhecimentos de
forma global nas suas diversas facetas
(cognição, afetividade, psicomotricidade),
a partir de suas necessidades, enfrentando
desafios e aprendendo umas com as outras,
ultrapassando o limite da sala de aula. E
tudo isso, com prazer, alegria, entusiasmo e
construindo o conhecimento com um novo
olhar, valorizando a si, o outro, pois de-
monstraram maior compreensão sobre o
que aprenderam e construíram. Aprende-
mos que cada situação vivenciada é uma
situação de aprendizagem, seja dentro ou
fora da sala de aula e que o sucesso do nos-
so trabalho também depende da colabora-
ção de todos. Muitas vezes temos muitos
obstáculos, mas quando se tem boa vontade
e apoio, tudo se torna melhor e possível.
0 final do projeto resultou em: livros
de poemas "Meu Bem-Querer" (produzido
em conjunto com os familiares); revista em
quadrinhos "Uma vovó diferente" (texto co-
letivo e ilustração participativa da família);
livro de histórias "A Criança e o Caminho
da História" (coletânea de textos); livro
"Depoimentos de Pais e Filhos"; "Livro
Atividades" e nós professoras escrevemos
um livro de poesias [Mergulho na Alma).
Com isso, todos participaram do processo de
construção. Trabalhamos e produzimos
diferentes estilos literários. Foi além do es-
perado, pois não esperávamos obter tantas
produções literárias.
Desenvolvemos nosso projeto durante
dois anos, com a mesma turma, o que pen-
samos ser privilégio de poucos professores.
Para nós, foi uma experiência ímpar, pois esse
ano foi de realização de sonhos, onde
ensinamos e aprendemos que a beleza existe
em todo lugar, depende do nosso olhar, da
nossa sensibilidade, da nossa consciência e do
nosso cuidado. A beleza existe porque o ser
humano é capaz de sonhar. E o nosso sonho
foi possível concretizar em 2003. Nos
esforçamos para que em cada etapa do projeto
as crianças se desenvolvessem em seus
múltiplos aspectos e esse projeto foi de
fundamental importância na realização de
nossos objetivos e na formação da criança
como um todo.
Para desenvolver um projeto dessa
proporção, é preciso, antes de tudo, fazer o
diagnóstico da turma, conhecer a criança, sua
fase de desenvolvimento, pois é muito
importante nesse período que o professor
conte e proporcione esse momento de leitura e
histórias, pois assim, estará abrindo as portas
da imaginação infantil, levando-a para um
mundo mágico, maravilhoso e inesquecível,
repleto de carinho, ternura e suspense.
Desenvolver na criança a capacidade de
comunicação em todos os sentidos é uma das
tarefas mais importantes do educador. Cabe,
então, a nós professoras, refazermos
caminhos, ampliando ou encurtando
itinerários. Seja qual for a realidade
escolar com que estivermos trabalhando, as
crianças gostam e necessitam de histórias. Por
isso, é fundamental a experiência concreta
como base para o enriquecimento da
aprendizagem, desafiando-a para novas
experiências. Formar hábito de leitura, ler não
apenas no sentido de decodificar, requer
constante realização de determinadas
atividades, pois a criança que ouve história,
pedirá outros livros para que mais tarde ela
mesma leia. Para isso, é importante conhe-
cermos bem o enredo que a história traz e
utilizar materiais variados e atraentes rela-
cionando as histórias aos temas abordados
durante o ano letivo, divertindo as crianças,
estimulando o interesse em conhecer mais
profundamente os temas estudados, desper-
tando o gosto pela pesquisa, acrescentando
informação e cultura. Para isso, deve-se
utilizar a forma lúdica para que se torne
atraente e prazerosa para a criança que está
começando o seu processo de letramento, de
descobertas, construção e reconstrução de
conhecimentos.
Como diz Silva Freire: "o ensino não
será mera transferência e conhecimentos, mas
uma constante criação de possibilidades para
a sua própria produção e construção". Como
toda arte, a literatura e a poesia privilegiam a
construção de conhecimentos de uma forma
inigualável. Por essa razão, devem ser
oportunizadas à criança e exploradas de todas
as maneiras, para desenvolverem habilidades
nos níveis sensorial, emocional e racional.
PROFESSORA CO-AUTORA:
Maria Auxiliadora de Oliveira
PRESERVANDO A
FLORESTA DE MANGUE
Mostrar às crianças os problemas causados
pelo desmatamento dos manguezais e a
importância de preservá-los.
o ano de 2003, trabalhei na Vila da
Praia de Ajuruteua. Como resido em
Bragança, tomava o ônibus todas
as manhãs, às seis horas, que percorria 36
km até chegar à escola em que trabalhava.
Durante o percurso, observava pela janela
grandes áreas de mangue desmatadas pelo
corte das árvores e pelas queimadas. Apesar
de observar esse quadro todos os dias, nun-
ca havia feito um projeto sobre este assunto
para ser trabalhado em sala de aula.
Neste ano, 2004, fui transferida para a
Vila do Acarajó-Grande e, durante uma
aula-passeio com meus alunos, percebi que
o problema do desmatamento da Floresta
de Mangue não se limitava somente à es-
trada Bragança-Ajuruteua, mas estendia-se
por grandes áreas alcançando, inclusive, a
Vila de Acarajó.
Ao retornar para a sala de aula, con-
versei com meus alunos sobre esse proble-
ma e então percebi, através do relato, que
apesar do mangue fazer parte da realidade
deles, pouco conheciam sobre a importân-
cia da preservação. Quando descobri que a
maioria das famílias dos meus alunos so-
brevivia retirando e vendendo caranguejo
do mangue, percebi que o desmatamento
não colocava em jogo só a qualidade de
vida do meio ambiente ou a beleza da fau-
na e da flora, mas colocava em jogo o fu-
turo de muitas crianças, pois é da Floresta
de Mangue que muitos pais retiram não só
o alimento para colocar na mesa de seus fi-
lhos, mas também retiram o caderno, o cal-
çado, as roupas e o que é melhor, retiram a
esperança de um futuro melhor.
A partir desta melhor percepção, como
estávamos na semana do meio ambiente,
decidi fazer um projeto voltado para a
preservação da Floresta de Mangue. Depois
de alguns dias, a Vice-Diretora avisou aos
professores sobre o "Prêmio Incentivo à
Educação Fundamental" e me incentivou a
mandar este projeto para ser compartilhado
com outras pessoas.
Este projeto ainda está em andamento,
mas já podemos ver o entusiasmo em cada
rostinho. Quando peço aos alunos para fa-
zerem um desenho, eles preferem desenhar
elementos do mangue: árvores do mangue,
garças, guarás, caranguejos, etc. Quando
alguém quer cortar uma árvore do quintal,
eles me perguntam se isso é certo. Enfim,
estou adorando trabalhar o projeto com
meus alunos, pois são crianças inteligentes
e muito corajosas.
Os manguezais são a principal fonte
de renda da comunidade do Acarajó. A
maioria das famílias retira do manguezal
N
seu sustento cotidiano e, por essa razão, é
necessário nos preocuparmos em preservá-lo
para que as presentes e futuras gerações
possam usufruir deste rico ecossistema. Vale
ressaltar que os manguezais são sistemas
costeiros tropicais, dominados por espécies
vegetais típicas e constitui o ecossistema mais
produtivo do planeta. Além de funcionar como
proteção aos continentes, servindo como
escudo contra a ação dos ventos e marés,
reduz a evaporação, mantendo o clima mais
ameno.
Porém, o ser humano ainda não se
conscientizou sobre a importância do man-
guezal para a sua vida e para o planeta e,
assim, passam a explorá-lo de modo de-
sordenado. Sem dúvida, essa ação se dá
porque o homem conhece pouco ou quase
nada sobre o seu funcionamento.
A partir daí, percebemos a importância
da educação ambiental desde a mais tenra
idade, mostrando às crianças os problemas
causados pelo desmatamento dos manguezais,
a importância de preservá-los e as bênçãos
recebidas com a preservação. Desta forma, a
criança poderá tornar-se um adulto
preocupado com o meio ambiente e
apaixonado pela natureza.
0 Projeto "Preservando a Floresta de
Mangue" tem os seguintes objetivos:
GERAL:
Desenvolver ações educativas voltadas
para um melhor entendimento sobre a
complexidade da Floresta de Mangue.
ESPECÍFICOS:
Compreender a natureza e a comple
xidade do meio ambiente nos seus as-
pectos biológicos, físicos, sociais e cul-
turais;
Alertar a comunidade sobre os males
causados pelo desmatamento da Floresta
de Mangue;
Defender a melhoria da qualidade de vida
dos moradores da Vila de Acara-
jó.
Discutir sobre a natureza, onde cada
criança irá contar suas experiências e
dizer o que ela significa;
Listar no mural coisas que pertencem à
natureza;
Produzir um bilhete, convidando os
amigos para um passeio pelo mangue;
Aula passeio pelos arredores do mangue,
observando a diferença entre a área
desmaiada e a área preservada.
Contemplando a beleza da natureza
através das árvores frondosas, vôo dos
guarás e das garças e percebendo a im-
portância da umidade do solo para a
sobrevivência e reprodução dos caran-
guejos, orientando as crianças sobre os
tipos de árvores existentes no mangue,
tipos de raízes e como se dá a reprodução
dessas árvores. Finalizamos a aula
passeio, contando a "Lenda do Ataíde"
para as crianças, personagem que, se-
gundo a cultura local, é o protetor da
Floresta de Mangue. Na volta do passeio,
todos conversaram contando suas
experiências. Registraram o que viram
através de desenhos e escrita espontânea;
Teatro de fantoches, contando a história
de uma família que sobrevive retirando e
vendendo caranguejo do mangue, quando
homens maus devastam os
manguezais e o caranguejo vai ficando cada
vez mais escasso e essa família começa a
passar necessidades. Então aparecem em
cena alguns alunos que começam a orientar
os homens maus, dizendo para eles os
problemas que irão surgir se eles
continuarem a devastar a Floresta de
Mangue. A partir daí, os homens pedem
desculpas para a família e começam a plantar
novas árvores; • Leitura e pintura de um
pequeno livro confeccionado pela professora
intitu-
lado "Amigos da Preservação". Em seguida,
este livro foi levado para casa, mostrando-o
para os pais e amigos; • Pintar cartazes e
faixas sobre a importância de preservar a
Floresta de Mangue, para serem mostrados
no dia do desfile de 07 de setembro.
O REFERENCIAL TEÓRICO UTILIZADO FOI:
SANTOS, Clemilda Néry. Cartilha de
Educação Ambiental - "0 Manguezal é nosso
Berçário". 1 ed. Bragança-Pará, 1996.
ANJOS DE PRATA
A valorização do convívio familiar,
o respeito e o amor aos idosos
proporcionado às crianças.
presente projeto foi desenvolvido
na EMEF "Prof
a
. Maria Aparecida
Ujio" em Caraguatatuba, Litoral Norte de
São Paulo. A escola atende 547 crianças en-
tre: Educação Infantil (4 a 6 anos); Ensino
Fundamental (6a 11 anos) e EJA - Educação
de Jovens e Adultos. É um prédio onde
funcionava uma Colónia de Férias que foi
reformado e adaptado para funcionamento
da escola. Possui 07 salas de aula para
atendimento do Ensino Fundamental e 4
salas para Educação Infantil, 01 laboratório
de informática, 1 biblioteca, 1 quadra po-
liesportiva, 1 refeitório, 01 piscina, 1 salão
de eventos, 1 pátio e um parque.
As famílias atendidas possuem renda
media de R$ 400, 00, sendo que algumas
famílias não possuem renda alguma. Em
sua maioria, residem em casa própria ou
cedida e alguns são caseiros, pois o bairro
é composto quase que exclusivamente por
colónias de férias. A idade média dos casais
varia de 31 a 35 anos e a maioria possui o
1" grau incompleto. Utiliza-se de serviços
de saúde pública, pois não possuem con-
vénio médico. O bairro possui luz elétrica,
água encanada, rede de esgoto em fase de
desenvolvimento, rede telefónica e um nú-
mero razoável de ruas pavimentadas, con-
tando ainda com a coleta de lixo duas vezes
por semana.
0 comércio local é bem variado e o
bairro conta, também, com um Posto de
Saúde, um posto policial, posto de atendi-
mento do Corpo de Bombeiros, uma agên-
cia bancária, uma agência dos correios,
uma biblioteca e o Centro Cultural. Há no
bairro uma associação de "Amigos de Bair-
ro" que, neste ano, conta com uma ONG
- Associação Caiçara Juqueriquerê ACAJU
- que vem atuando bastante junto à escola
e à comunidade local.
0 projeto foi desenvolvido em uma
sala de 1º ano, totalizando 28 alunos entre
6 e 8 anos. Turma falante, muito curiosa e
interessada. Alunos em diversos níveis de
alfabetização.
JUSTIFICATIVA:
A escola mantém, dentro da Proposta
Pedagógica, o "Projeto Valores", no qual
cada turma trabalha com temas mensais
atendendo às suas necessidades. No 1° ano,
os temas elencados foram o respeito e a
família. Em um trabalho de pesquisa rea-
lizado com os alunos sobre a família e a
idade das pessoas com as quais conviviam,
percebemos que não tinham, em seu con-
O
vívio, nenhum contato com pessoas idosas.
Quando o tema "idoso" foi citado, a maioria
dos alunos apresentou certa rejeição, dizen-
do que os "velhos eram chatos e só atrapa-
lhavam". Foi, então, que surgiu a ideia de
mostrar que os idosos eram pessoas mara-
vilhosas e que muito tinham a nos ensinar.
Foram utilizados os PCN; o Estatuto do
Idoso, Livros de receitas das avós, Editorial
-Associação Dança Sénior e a música "Ve-
lha Infância" cantada pelos alunos. Leitura
de poemas e mensagens de amor também.
Os recursos utilizados para a elaboração do
projeto foram jornais e revistas para
pesquisas: utensílios para elaboração das
receitas (formas, batedeira, forno), bastões
de madeira (para ginástica), filmadora e
máquina fotográfica, jogos de dama, dados,
corda e papel crepom.
A comunidade participou ativamente de
todo o projeto, contribuindo em todas as
atividades propostas. As etapas foram as
seguintes: 1º "Pesquisando" = (com a
falia) Investigar sua história, revelando
informações sobre cada família,
descobrindo histórias passadas. Fotos
antigas do vovô e vovó, recortes de jornais
e revistas (idosos), montagem do painel
"Anjos de Prata", mensagem do painel
"Receita de envelhecer". 2
o
"Chá das
Cinco" = Cozinhando com a Vovó = Idosos
da comunidade próxima à escola trouxeram
receitas que foram feitas na cozinha da
escola, lembrancinhas preparadas pelas
crianças (para entregar à vovó), Bolinho de
fubá (enrolados pelas crianças e vovó) e
Bolinho de chuva (passado no açúcar e
canela) e, para acompanhar, chá mate
quente e/ou gelado (feito pela vovó).
Preparamos as receitas no refeitório e
comemos em sala de aula com todo o
ambiente preparado para o encontro
(jogo americano feito com sulfite pin-
tado, copos e guardanapos).
3
o
"Organizando a penteadeira" = Grupos
de Terceira Idade participando de ati-
vidades de artesanato, jogos e brinca-
deiras antigas na quadra e sala de aula.
Com a ajuda dos avós da comunidade,
confeccionamos "Porta treco" (pente /
escova /aparelho de barba) para levar
como presente no dia da visita ao Asi-
lo Pro+Vida. Aproveitamos material
de sucata. (Para a vovó, utilizamos lã
pluma , flores e cola e para o vovô uti-
lizamos palitos de sorvete e cola).
4
o
"Senta que a vovó índia vai contar
histórias" = Avó índia falou sobre seus
costumes e contou suas histórias e len-
das na biblioteca da escola, onde to-
dos estavam sentados no tapete para
ouvi-la. Recebemos também, nesse
dia, a visita de uma vovó da cidade e
ela participou da atividade. Foi um
momento muito rico, pois elas com-
pararam diante das crianças algumas
passagens da infância e apesar das
duas terem a mesma idade, 80 anos,
as experiências foram completamente
diferentes. Entre outras coisas, enten-
demos o que acontece nas aldeias in-
dígenas, quando morre um ancião. É
toda uma "biblioteca" que desaparece,
pois é através da memória que a histó-
ria é registrada e transmitida. •
Aprendemos um pouco sobre os velhos
tempos e comparamos com o tempo
atual;
Percebemos a importância da pre-
servação da natureza e o respeito pelos
nossos índios;
Conhecemos a utilização de alguns
materiais confeccionados pelos índios
para a caça, pesca, cozinha, enfeites,
roupas e muito mais;
Comparamos e percebemos as dife-
renças do modo de vida de duas avós
adoráveis: a índia e a da cidade.
5
o
"Aprendendo ginástica com a turma
dos avós" = Participação dos idosos
da Associação de Aposentados de Ca-
raguatatuba apresentando a "Dança
Sénior" na quadra da escola Dança
Sénior, um show de harmonia, ritmo e
alegria que os 40 idosos passaram para
todas as crianças do período que
participaram cantando, dançando e
aplaudindo (com o uso de cadeiras,
bastões que foram cabos de vassoura
enfeitados pelas crianças e pelos avós e
cordas). 6° Palestra mirim com o tema:
"tirando dúvidas com os pequenos
doutores". Tivemos o auxílio e
colaboração de
especialistas e fun-
cionários do Posto
de Saúde do Porto
Novo.
Foram feitas per-
guntas já estudadas
pelas crianças e
combinadas com os
idosos;
Na sala de infor-
mática, as crianças
estavam vestidas de médico e sentadas
em uma mesa de palestrantes,
apresentando um texto informativo em
power point com uma linda mensagem;
Em seguida, iniciaram-se as perguntas
feitas pelos convidados (idosos);
Posso fazer hidroginástica? 0 que o
envelhecimento pode provocar no meu
organismo?
A velhice atinge todo o corpo ao
mesmo tempo? Porque os cabelos ficam
brancos?
Quando envelhecemos o cérebro di-
minui de tamanho? Minha altura diminui
também?
Como posso fazer uma boa digestão?
E verdade que se eu ficar nervosa, posso
engordar?
0 que acontece se eu não tratar minha
pressão alta? Como sei se alguém está
com depressão? Outro dia eu caí. Como
posso evitar quedas?
7° Visita ao Asilo Pró + Vida = Idosos do
Asilo Pró+Vida receberam presentes e
em visita relataram suas experiências.
Arrecadamos, na escola e comunidade,
produtos de higiene para serem levados
de presente. Preparamos cartões de amor
e carinho para serem entregues
na visita. Levamos
"porta treco" con-
feccionada pelas
crianças e avós da
comunidade. As
crianças entrevistaram
os avós para entender o
porque de estar ali. 8
o
"Vem brincar comigo"
= (vovô e vovó da comunidade) Utilizamos
uma das principais formas de propagação da
cultura, resgatando diversos tipos de
brincadeiras, vivenciando e observando a per-
manência de tradições e costumes nos
brinquedos, tais como: jogos de dama, dados
e trilha, jogos de amarelinha e pula corda,
"Mãe da rua", "barra manteiga", "Tudo o que
o Sr. Mestre mandar"; "Passa anel", "Quatro
cantos" e "Escravos de Jó". 9
o
"Assistindo
novela" = Fizemos uma pesquisa em casa
com o acompanhamento dos pais e familiares
e, posteriormente, assistimos em sala de aula
a gravação de alguns capítulos da novela
"Mulheres Apaixonadas", onde a neta
maltratava seus avós. Em um momento de
reflexão, percebemos que as crianças já não
concordavam com as atitudes da neta
malvada. Representamos a cena da novela de
maneira contrária, aliviando a situação dos
avós maltratados. 10° "Baile de época" = Pais
dos alunos colaboraram com doações de
materiais e a caracterização das crianças, para
o baile de época. Confraternização em
sala de aula onde os pais trouxeram as
crianças já caracterizadas de vovô ou
vovó. A sala foi enfeitada e decorada
pelos pais dos alunos.
Músicas da época e músicas atuais. Os pais
mandaram pratos de doces e salgados
para a festa ficar mais gostosa. Os ido-
sos ensinaram às crianças como é que
se dançava antigamente. As crianças
ensinaram aos idosos como se dança
hoje.
11° "Encerramento do projeto" = Homena-
gem aos anjos de prata, com a parti-
cipação especial dos 200 idosos par-
ticipantes do JORI - Jogos Olímpicos
Regionais - que se hospedaram na
nossa escola e participaram da festa de
encerramento do projeto, com home-
nagens e músicas infantis dos tempos
antigos.
OBJETIVOS EDUCACIONAIS
PRETENDIDOS:
Valorizar os idosos, oferecendo opor-
tunidades, meios e condições para re-
creação, arte com atividades voltadas
aos aspectos recreativo e cultural, le-
vando em consideração seus interesses
e habilidades;
Promover o convívio e a fraternidade
humana, a participação e integração
entre o aluno e o idoso;
Valorizar e proporcionar momentos de
troca, "o que eles já semearam e tudo
que ainda podem cultivar" entre o alu-
no e o idoso;
Proporcionar aos alunos momentos de
reflexão sobre a velhice e suas necessi-
dades, na convivência junto às pessoas
idosas.;
Resgatar "causos" e histórias passa-
das;
Valorizar a diversidade cultural e so-
cial.
ÁREAS DE ESTUDO ENVOLVIDAS:
0 trabalho passou por várias etapas,
seguindo uma sequência, trazendo uma
aprendizagem mais significativa e cons-
trutiva, socializando e integrando todas as
áreas, oportunizando a participação do alu-
no e do idoso e proporcionando momentos
de troca de experiências entre idosos e
crianças.
Matemática: adição, subtração, divi-
são e multiplicação com a utilização dos
bolinhos de chuva, datas, horários, n° de
pessoas. (Trabalhados em: Chá das Cinco /
Vem brincar comigo / Organizando a pen-
teadeira)
Língua Portuguesa: leitura e escrita de
receitas, relatos, mensagens, produção de
textos e pesquisa (Trabalhados em: Pesqui-
sando / Chá das Cinco / Visita ao asilo /
Senta que vovó índia vai contar história /
Palestra Mirim / Assistindo novela / Baile
de época / encerramento do projeto).
Ciências: cuidados com o nosso corpo
(envelhecimento), higiene e saúde (Traba-
lhados em: Pesquisando / Visita ao asilo /
Palestra mirim / Organizando a penteadei-
ra).
Artes: confecção de lembrancinhas,
artesanatos, decoração da sala (Trabalhados
em: Chá das Cinco / Visita ao asilo / Orga-
nizando a penteadeira /Baile de época).
Geografia: conhecendo outros bairros,
além do nosso e diferentes tipos de moradia
(Trabalhados em: Visita ao asilo).
História: fotos antigas e histórias pas-
sadas, outros costumes, a história do nosso
bairro (Trabalhados em: Pesquisando / Visita
ao asilo / avó índia / Vem brincar comigo/
Baile de época).
Ed. Física: Jogos e brincadeiras antigas,
Dança Sénior e alongamento. (Trabalhados
em: Aprendendo ginástica com a turma da
vovó / Vem brincar comigo).
AVALIAÇÃO
Foi diária e contínua;
Criação de situações de aprendizagem
que buscaram garantir aos alunos o
desenvolvimento das capacidades ne-
cessárias à construção progressiva de
conhecimentos para uma atuação pautada
por princípios da ética;
Informações aos alunos sobre seus
avanços e suas dificuldades, orientando
os investimentos que eles deveriam fazer
no seu processo de aprendizagem.
Para as crianças, o projeto proporcionou
a valorização do convívio familiar, o respeito
e o amor aos idosos que, com toda a sua
experiência e sensibilidade, são capazes de ser
e fazer outras pessoas felizes. Com todas as
oportunidades de integração que o projeto
proporcionou com os idosos de diferentes
bairros e com a chegada da turma do JORI em
nossa escola, os quais só vieram acrescentar e
enriquecer esse momento tão especial que
passamos juntos, foi possível perceber, com as
crianças, que os idosos estão ganhando seu
merecido espaço na sociedade e que todos
fazemos parte desse processo.
As crianças, ao finalizar o projeto, ti-
veram bem clara a importância da integração
familiar e o quanto nossos idosos merecem ser
amados como seres humanos que são, com
toda uma vida de lembranças que os faz sorrir
e por vezes chorar de saudade.
Aprendi que, sozinha, não teria con-
seguido alcançar tantos objetivos e que foi
graças ao empenho, comprometimento e
colaboração de todos os envolvidos da equipe
escolar e comunidade que não mediram
esforços para atender, agradar e participar de
cada detalhe do projeto, que tudo isso foi
possível.
Nós amamos o projeto e confesso que
não acreditava que pudesse atingir tamanha
proporção. Se fosse repetido, com certeza eu
envolveria todos os professores da escola e
alunos dos 2
o
, 3
o
e 4
o
anos, trazendo, assim,
mais idosos para o nosso convívio e atingindo
um número maior de crianças. Todos da escola
assistiram a apresentação da "Dança Sénior"
com a participação de 40 idosos e 150 crianças
na quadra e foi ali que percebi o quanto todos
ficaram emo-cionados e admirados com tanta
desenvoltura e animação.
No encerramento do projeto, as crianças
confeccionaram vários cartazes com frases e
escolhemos uma que marcou o desenrolar do
projeto e que fará parte da nossa história:
Vovô e vovó
Percebemos o quanto vocês podem
contribuir para o nosso crescimento e
desenvolvimento...
Amamos vocês!
APRENDENDO A LER
NAS ENTRELINHAS DA
IMAGEM E DA EXPRESSÃO
As atividades de desenho e pintura
em sala de aula revelam marcas e
traços do saber e fazer docente.
DESENHANDO O CENÁRIO
SOCIOCULTURAL DA EXPERIÊNCIA:
A Escola Municipal Emília Ramos faz
parte do perímetro urbano de Natal e está
localizada na região oeste da capital. Loca-
liza-se em Cidade Nova, um dos bairros de
periferia dessa região, cercado por dunas e
pouca vegetação, cujos índices de pobreza e
violência são ainda muito altos. E nítida à
desigualdade social e a baixa qualidade de
vida da maior parte da comunidade. O lugar é
composto por ruas sem saneamento, rodeadas
de dunas e vegetação bastante devastadas pela
invasão crescente de favelas. Além das
inúmeras deficiências de moradia, muitas
famílias de alunos sobrevivem da catação de
lixo pelo bairro.
A escola oferece 12 salas, sendo que três
organizadas em divisórias de eucatex num
grande galpão, tendo também uma quadra
anexa onde são realizadas as atividades de
educação física e demais eventos escolares.
As 360 crianças atendidas, de modo
geral, são muito carentes, a maioria dos pais
não é alfabetizada e o nível de esco-larização
daqueles que lêem varia entre a 4" série e a 5
a
série do Ensino Fundamental. Elas têm o
morro como o lugar mais apreciado para
realizar diversas brincadeiras,
sendo que a televisão ocupa a maior parte do
tempo de todas, através dos desenhos
animados e, raramente, lêem algum livro ou
revista em casa.
MATIZES QUE CONFIGURARAM A
PESQUISA:
Ao examinarmos o Projeto Político-pe-
dagógico da escola e constatarmos a falia de
uma proposta específica para as linguagens
artísticas, diagnosticamos o processo de
construção do desenho na escola com a
intenção de apreendermos os modos como as
crianças expressavam e realizavam suas
produções, e como solucionavam problemas e
confrontavam com o outro seus diferentes
conceitos perceptivos e estéticos. Nisso,
observamos que, de modo geral, as crianças
expressavam uma concepção mimética do ato
de desenhar como cópia do real e, a maior
parte, afirmava que: "desenhar é lazer do jeito
que vê", e negava-se a realizar algumas das
tarefas de desenho, alegando que não "sabiam
desenhar", ou que "é ruim e difícil".
Assim, desacreditados de suas compe-
tências, acentuava-se nos alunos a reprodução
exacerbada das imagens estereotipadas como
a cópia de imagens da TV ou de livros
didáticos nos cadernos e a apreciação
dos tradicionais desenhos mimeografados
comuns no ambiente escolar.
Esse espaço demasiadamente inferior
destinado às produções pictóricas cotidia-
nas no currículo escolar inquietou-nos,
uma vez que, nesse período de escolarida-
de, as atividades de desenhos são subor-
dinadas às demais disciplinas e, em espe-
cial, ao processo de alfabetização. Diante
desse cenário, vislumbramos a carência de
um trabalho que propiciasse às crianças a
ressignificação de seus conceitos e valores
estéticos, a partir de ações sistematizadas
dos valores expressivos da linha, por se
tratar de um referencial primário do siste-
ma de notação no desenho, ponto básico
de partida rumo a uma alfabetização visual
crítica.
O DESENHO TEÓRICO-METODOLÓGICO:
A metodologia colaborativa (ARNAL,
DEL RINCÓN, LATORRE, 1992) que se ca-
racteriza pela investigação em conjunto
com os professores e as crianças, conside-
rando-os co-autores no planejamento e na
organização, orientou as ações de ensino e
aprendizagem permitindo compartilhar a
responsabilidade na tomada de decisões e
na realização das situações de sala de aula.
Socializando, assim, as intenções do traba-
lho, bem como as contínuas construções e
avaliações. Dessa forma, o processo colabo-
rativo se configura no reconhecimento e na
compreensão da perspectiva do outro, nas
possibilidades de diálogo e comunicação
entre os interlocutores enquanto parceiros
que, apesar das suas individualidades exis-
tentes, tornam-se interdependentes, pois as
competências de cada integrante se com-
plementam à medida que se enriquecem
mutuamente ao compartilhar habilidades,
atitudes e valores.
Interligamos aos pressupostos da me-
todologia colaborativa e aos postulados da
teoria histórico cultural, as contribuições
dos estudos de Assmann (2004, p.29) que
apontam os atos educativos como uma uni-
dade entrelaçada entre os processos vitais
e cognitivos. Este enfatiza: "[...] a aprendi-
zagem é, antes de mais nada, um processo
corporal. Todo conhecimento tem uma ins-
crição corporal".
Dentro dessa perspectiva, refletimos o
ato de aprender como um processo criativo
que manifesta uma inscrição corporal do
conhecimento, onde a dinâmica da vida e
do conhecimento estão unidas e o prazer é
o dinamizador do conhecimento. Nos
reportamos a Leontiev (apud LURIA, 1988)
e Vygotsky (2001) que já destacavam a
importância da afetividade nas estruturas
cognitivas argumentando que sem o estí-
mulo afetivo o cérebro não poderia alcan-
çar seus ápices mais elevados na exploração
do conhecimento. Vygotsky ressalta: "Toda
aprendizagem só é possível na medida em
que se baseia no próprio interesse da crian-
ça". (VYGOTSKY, 2001, p.163).
Nesse enfoque, as situações sistemati-
zadoras voltadas para o processo de ensino-
aprendizagem do desenho foram inspiradas
no método de ensino de Perrelet (apud
Barbosa, 1982), centrado na integração de
ação e movimento por meio de experimen-
tações e exploração de alguns elementos
que constituem a linguagem imagética: li-
nhas, ritmo, equilíbrio e forma. Na proposta
da autora, o uso da imaginação articulado à
expressão corporal contribui para a criança
compreender a expressão dos elementos
Textos musicais:
Jéssica
Tawan
Mariana
do desenho. Assim, ela parte do uso da ex-
pressão do corpo propondo diversas expe-
rimentações que desenvolvam na criança a
percepção dos múltiplos significados ex-
pressivos da linha.
Para a sistematização das atividades
de produção e leitura de imagem, optamos
pela abordagem triangular proposta por
Barbosa (2002) que compreende a cons-
trução imagética como uma educação cul-
tural e crítica e que toma como parâmetro
os conhecimentos prévios do aluno. Nesse
sentido, o fazer e a leitura da imagem er-
guem-se sobre três eixos que entrelaçam a
relação com a linguagem na construção do
ensino-aprendizagem de arte: contex-
tualização, produção e apreciação. Dessa
forma, na contextualização, a ênfase é ex-
plorar o autor e o objeto artístico. Na pro-
dução, os alunos realizarão seu fazer artís-
tico, enquanto que na apreciação refletirão
coletivamente o quê e como fizeram suas
produções, tecendo comparações entre os
elementos visuais e explorando novas pos-
sibilidades criadoras.
DELINEANDO AS SITUAÇÕES DE
ENSINO-APRENDIZAGEM
O estudo partiu da exploração, apre-
ciação e representação das fachadas das
casas da paisagem local, comparando-as
com as de diferentes moradias. A intenção
era despertar o olhar
reflexivo das crianças e
remetê-las a reconhecer
a linha arqui-tetônica
das moradias enquanto
configura-dora de
formas culturais e
históricas e, assim,
instigá-las a
reelaborarem grafica-
mente o tema "casa" em
suas produções. Com
esse propósito,
inicialmente diversas
produções foram rea-
lizadas pelas crianças, tais como: desenho
de suas casas, tipos de casas que conhecem
e desenho de observação nas calçadas das
ruas do bairro.
Diversas rodas de apreciações dessas
atividades foram realizadas, utilizando-se
painéis com desenhos de casas de várias
turmas. Ao juntar imagens de todas as tur-
mas do tema casa, diversos questionamen-
tos foram levantados entre as crianças: -Por
que a gente faz casas tão parecidas, se tem
tanta casa diferente? Alguns respondiam: -
Porque a gente não sabe. Outros refletiam
assim:- A gente não olha direito... Tal situ-
ação problematizadora propiciou reflexões
em torno do porquê de tantas semelhanças
nas reproduções das linhas e formas, sus-
citando um esforço de ressignificação grá-
fica do tema casa, através de pesquisa em
livros' e de novas atividades como redese-
nho, o retrato falado da
casa e de releituras de
Kandinsky.
Na fase seguinte, os
estudos se desen-
volveram por meio de
jogos que articularam a
linguagem imagé-tica, a
ação motora e a
ludicidade através do
uso do barbante e do
cordão de rede, como
configurado-res das
construções e
reconstruções ima-
géticas das crianças. Nessas situões, as
descobertas dos valores expressivos da
linha eram vivenciadas por meio de jogos
de expressão viso-corporal e de expressão
gráfica, em diferentes experimentações
com esses materiais. A ênfase era instigar o
prazer de inventar e de descobrir soluções
em função da tarefa proposta. Com o uso
de 1 metro de barbante, por exemplo,
individualmente ou em pequenos duplas, os
alunos criavam desenhos a partir da
interpretação de um poema
2
narrado e
sobre a mesa ou no chão produziam as
imagens, compartilhando com os colegas
ideias e sugestões. Para propiciar o proces-
so imaginativo, pausas entre os versos e es-
trofes foram necessárias durante a leitura.
Em seguida a essas atividades, produziram,
utilizando cola colorida e pintura a dedo,
releituras dessas vivências.
1
O mundo da criança - Vol. 08. Festas e costumes. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1972. / Crianças como você.
Edição especial de comemoração do centenário do UNICEF, Editora Ática, 2000.
2
Nessas situações foram trabalhados diversos poemas de Cecília Meireles, (1977, 1980), Roseana Murray (1995) e
Ruth Rocha( 2002).
Nos jogos de expressão viso-corporal,
exploraram com mais intensidade as pro-
priedades da linha, tendo o corpo como
referencial. Assim, ao caminharem em di-
ferentes ritmos, ao expressarem sensações
diversas como alegria, tristeza, raiva ou
cansaço representaram diferentes formas
com o corpo por meio de músicas e brin-
quedos populares como o da "estátua". Es-
sas situações proporcionaram às crianças
que sentissem ou percebessem a leveza, o
peso, a sinuosidade, o equilíbrio e a insta-
bilidade da linha na configuração das ima-
gens corporificadas no calor das interações
e explorassem a experiência da alternância
na linha no traçado do movimento e esta-
bilidade do próprio corpo.
Nessas experiências, buscamos provo-
car alguns dos seguintes questionamentos:
- A imagem passa a ideia do tema escolhi-
do? Quais os tipos de linhas mais presentes
no tema "feliz" e no tema "triste"? Como
ficaram as linhas no tema "raiva"? Assim, as
crianças comentavam e avaliavam as
imagens com mais senso crítico em relação
às emoções que elas passavam, percebendo,
por exemplo, mais linhas diagonais no tema
"feliz" do corpo e mais linhas curvas nas
expressões dos temas "tristeza" e "cansaço",
enquanto que apreendiam mais incidência
de linhas retas no tema "raiva" ou quando
não havia movimento (expressão estática).
Com o uso do cordão de rede, as crian-
ças exploraram os valores expressivos da
linha através da dramatização da história
de "Lilinha", um conto que criamos inten-
cionalmente sobre uma "cobra mágica" que
podia se transformar em tudo que quisesse
e que todos podiam ajudá-la a escapar de
um mágico que a perseguia. Desse modo,
cada criança, ao receber 1,70 m de cordão,
teria que usá-lo na construção das confi-
gurações que emergiam da narrativa. Essa
interatividade lúdica e prazerosa provocada
por "Lilinha" concorreu para que conside-
rassem novas possibilidades de construir
novas configurações dos temas narrados,
observando os colegas impressionados com
as diferentes ideias que surgiam no grupo.
Durante a pesquisa, diversas conexões
foram estabelecidas com as demais áreas
de conhecimentos em torno de temas como
meio ambiente e saúde, sob diferentes pro-
duções que se realizaram em conjunto com
os demais professores. Entre elas, destaca-
mos: elaboração de slides com placas de ra-
diografias que geraram a produção de um
livro coletivo sobre a dengue; uma peça
teatral sobre a devastação das dunas do
bairro e a produção de desenhos feitos em
potes de vidro com areia colorida, dentro
de uma pesquisa sobre o solo. Além disso,
uma pesquisa sobre o tema "árvore" foi re-
alizada a partir de observações das formas
dos galhos e folhas dos canteiros do bairro
e enriquecidas com releituras das árvores
de Mondrian'.
Ao final do ano letivo, as doze turmas
em conjunto com a oficina de artes visuais
da EJA, apresentaram uma grande exposi-
ção coletiva, a 1ª vernissage da escola que
contou com a presença da comunidade e do
artista plástico local Vatenor Silva, o qual
foi homenageado por vários alunos através
de releituras de suas obras. Outros artistas
como Kandinsky, Mondrian, Klee e Tarci-
3
Ver MONDRIAN Piet. Mondrian e a pintura abstrata. Coleção de Arte. São Paulo; Editora Globo S.A. 1997.
la, bem como Dorian Gray e Djalma Paixão
que são artistas locais, foram reinterpretados
pelas crianças, jovens e adultos, os quais,
orgulhosos, compartilharam os novos
significados construídos.
A abordagem colaborativa nos propiciou,
em toda a pesquisa, não apenas uma
aproximação dos conhecimentos prévios das
crianças em relação à arte, mas também a
reflexão sobre as implicações de nossa atuação
na reelaboração desses saberes e, sobretudo,
apreendermos o desenho escolar de forma
contextualizada, perce-bendo-o como uma
atividade humana, cultural e constituída
historicamente, sob as influências das
condições sociais em que se insere. Sob este
enfoque, os postulados da teoria sócio-
histórica de Vygotsky (2003a e 2003b)
permitiram-nos focalizar a produção do
desenho infantil enquanto atividade
representante de sua época e cultura e
considerar a criança um ser singular e produtor
de cultura que se faz nas interações sociais.
A angustiante rejeição da maioria das
crianças em relação às atividades, sob a
justificativa de não "saberem desenhar", foi o
ponto crucial que buscamos confrontar e
reverter. Embora reconheçamos que essa
postura está incorporada, de modo geral, nas
crianças inseridas num ambiente escolar
submetido quase que exclusivamente ao estudo
e prática da linguagem imagética em função da
língua escrita, acreditamos ser possível
construir um trabalho sistematizado e
enriquecedor a partir de uma (auto)reflexão
contínua da prática pedagógica. Através de
Assman (2004), constatamos a necessidade
que o professor tem de romper as amarras de
um saber fazer sedi-
mentado em "verdades" e "certezas" absolutas
que restringem as ações transformadoras do
processo de ensino-aprendizagem. Nisso,
aprendemos que para possibilitar um ambiente
propício à inventividade dos alunos, é
essencial privilegiar a expressividade corporal
em todo o processo de ensino-aprendizagem,
pois trocando experiências com o outro,
brincando, dançando, desenhando, aprende-se
a ler e a reler o mundo circundante de forma
crítica e significativa.
Refletindo, a partir do que foi construído
nesse trabalho, queremos chamar a tenção para
o espaço inferior que a linguagem imagética
ainda ocupa no currículo escolar e propor uma
reelaboração dos nossos conceitos e saberes
em relação à mesma, em função do
desenvolvimento e ampliação das
competências cognitivas e imaginativas dos
alunos. Uma vez que, de modo geral, todos
nós educadores utilizamos o desenho em nossa
prática pedagógica, é necessário estarmos
atentos aos seus conteúdos próprios, como os
valores expressivos da linha explorados nesse
trabalho e não apenas mantê-lo como atividade
complementar dos conteúdos das demais
disciplinas.
Reconhecemos a dificuldade que temos
de saber lidar com as nossas próprias capa-
cidades de construir e ressignificar nossa
prática docente, pois sabemos que a nossa
(auto) imagem reflete as opções teórico-
metodológicas que apreendemos e abraçamos
ao longo de nossa formação e que revelam
marcas e traços que configuram nosso saber
ser e fazer docente. Entretanto, à medida que
refazemos nossas ações, temos a oportunidade
de, enquanto seres inacabados (FREIRE,
2001), reconstruirmos
Antônio Milena
Marco ne
Justo
Vanessa
Lucas
diariamente nossas reflexões sobre "o quê"
e o "para quê" direcionamos uma atividade
de desenho ou pintura.
Dessa forma, estaremos firmando nos-
sas ações sobre os alicerces da (auto)reflexão
sobre nossa identidade docente que precisa
estar fundamentada na pesquisa científica
constante e numa construção do olhar so-
bre o saber ser e fazer docente.
REFERÊNCIAS:
ARNAL, Justo. DEL RINCÓN, Délio; LATORRE,
António. Investigación educativa: fundamentos y
metodologias. Barcelona: editorial Labor, 1992.
ASSMAN, Hugo. Reencantar a educação: Rumo à
sociedade aprendente. 8
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edição. Rio de Janeiro:
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BARBOSA, Ana Mae T. Bastos. Recortes e Cola-
gem: Influência de John Dewey no ensino da arte
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___ . Tópicos e Utópicos. Belo Horizonte: C/ Arte
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___ . A imagem no ensino da Arte. Perspectiva,
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___ . Leitura no subsolo. São Paulo: Cortez,
1997.
___ . Mediação pedagógica na sala de aula-3"ed
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São Paulo Autores associados, 2000.
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LUQUET, G.H. O desenho infantil. Barcelos, Mui-
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LURLA, A.R. Pensamento e linguagem As últimas
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M0NDR1AN Piet. Mondrian e a pintura abstrata.
Coleção de Arte, São Paulo; Editora Globo S.A.
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READ, Herbet, A educação pela Arte. São Paulo:
Martins Fontes, 1982.
VYGOTSKY, Lev. Semevovich. Imaginación y el
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___ . A psicologia da Arte, São Paulo: Martins
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___ . Psicologia Pedagógica. 1ª edição, Trad. Pau
lo Bezerra, São Paulo: Martins Fontes, 2001.
___ . Pensamento e linguagem, São Paulo: Mar
tins Fontes, 4
a
ed.2003a.
___ . A formação social da mente. São Paulo:
Martins Fontes, 6
a
ed.2003b.
CO-AUTOR:
Jefferson Fernandes Alves
UMA VIAGEM PELO MAR
ATRAVÉS DA LEITURA
A vida marinha permitindo um
"mergulho" pelas palavras e pelos textos.
EMEF "Profª Reiko Uemura Tsu-
nokawa", espaço onde a experiência
foi desenvolvida, localiza-se em
região periférica da cidade de Marília (SP),
atendendo à clientela proveniente de seis
núcleos habitacionais. Atualmente, a demanda
é de cerca de oitocentos alunos, distribuídos
nas quatro primeiras séries do ensino
fundamental, incluindo EJA (Educação de
Jovens e Adultos), modalidade que funciona
no período noturno.
Ocupa prédio antigo, antes pertencente à
rede estadual, tendo pouca área livre para a
realização de atividades extra-sala. Nesse
espaço passam, diariamente, 22 turmas que se
dividem pelas 11 salas de aula da escola.
Apesar de funcionar em um prédio pe-
queno, a escola dispõe de quadra esportiva
coberta, pátio, refeitório, biblioteca impro-
visada, cozinha, além das dependências
técnico-administrativas.
Está inserida em uma comunidade cujas
famílias, em sua maioria, mesmo não
possuindo um elevado grau de escolaridade,
acompanham a vida escolar da criança,
incentivam e participam dos eventos escolares,
das reuniões de pais, do Conselho da escola e
da Associação de Pais e Mestres.
As crianças atendidas pelo projeto per-
tencem a classes sociais diversas, desde a
classe média até famílias que vivem em si-
tuação abaixo da linha da pobreza.
Todos os alunos das primeiras séries são
provenientes de EMEI - Educação Infantil
creche, cujo atendimento inicia-se aos dois
anos.
O tema "animais" tem despertado a
atenção e o interesse das crianças. Sempre está
presente em suas conversas diárias, nas
histórias que lêem e nos desenhos animados a
que assistem. Entretanto, na maioria das
vezes, as crianças comentam sobre os mesmos
animais, as mesmas histórias, ficando restritas
ao que já conhecem e que já faz parte do
cotidiano.
Detectando as necessidades e dificul-
dades dos alunos, logo no início do ano letivo,
em compreender a base alfabética e
considerando-se, assim, um percentual
significativo de alunos que ainda não do-
minava a escrita convencional, procuramos
partir desse tema de interesse infantil, porém,
apresentando-lhes uma outra realidade: a vida
dos animais marinhos. Como o ambiente
marinho nos é geograficamente distante,
oportunizaria práticas de leitura e de pesquisa
nas mais variadas formas de
A
interação social, para que, assim, pudés-
semos conhecê-lo. Buscamos, através da
leitura, encontrar respostas aos problemas
colocados, oferecendo um "processo de al-
fabetização consolidado numa dimensão
dialógica e discursiva" (Smolka, 1999).
Face às mudanças e transformações
pelas quais passa a sociedade, cabe à esco-
la superar seus rudimentos, repensar novas
metodologias que atendam as necessidades
atuais e preocupar-se com um novo con-
ceito de papel social: não apenas transmitir
conhecimentos, mas sim, instrumentalizar
o aluno para que ele aprenda a aprender.
Nela, não mais se encontra o aluno passivo
e receptor de informações prontas e
descontextualizadas de suas vivências. E o
aluno ativo, curioso, investigativo que por
ela passa todos os dias, sempre interessado
em descobrir o porquê das coisas, dos fe-
nómenos.
Não se justificando mais como centro
transmissor de informações, a escola assu-
me, como afirma Celso Antunes, o papel
central de estimuladora da inteligência.
Assumindo a formação de um sujeito
que, frente às novas exigências da socieda-
de saiba refletir, posicionar-se, agir e resol-
ver problemas, a escola também não pode
ignorar o que se passa no mundo, pois:
"Formar para as novas tecnologias
(TICs) é formar o julgamento, o
senso crítico (...), as faculdades
de observação e de pesquisa,
a imaginação, a capacidade de
memorizar e classificar, a leitura e
análise de textos e de imagens (...),
de estratégias de comunicação".
(Perrenoud, 2000, p. 128)
Durante o processo de desenvolvimen-
to do projeto, constatamos o que, teori-
camente, se afirma: a presença de alunos
participativos que buscam a todo momento
atribuir sentido aos fenómenos e que procu-
ram respostas à infinidade de questões que
elaboram em sua interação com a vida.
A medida em que se desenvolviam in-
telectualmente, aumentava a necessidade
de atividades mais desafiadoras que envol-
vessem atitudes mais dinâmicas e criativas;
atividades que possibilitassem ao aluno
agir sobre elas, interpretá-las e participar
da elaboração de seu conhecimento.
Passamos, ao longo do processo, a
priorizar uma prática pedagógica funda-
mentada em uma concepção de alfabetiza-
ção de dimensão discursiva, em que não se
ensina simplesmente a ler e a escrever, mas
sim, uma forma de linguagem e de intera-
ção. Importante aspecto que marcou nossa
reflexão foi a posição que assumimos diante
do ato de escrita: sua aquisição, outrora
entendida como uma técnica puramente
mecânica, passa a ser concebida como um
processo que envolve uma atividade inte-
lectual. E por isso que, conforme Smolka
(1999), não se trata, então, apenas de en-
sinar (no sentido de transmitir) a escrita,
mas de usar, fazer funcionar a escrita como
interação e interlocução na sala de aula.
Intitulado "Uma viagem pelo mar
através da leitura", o projeto, durante seis
meses, proporcionou aos alunos um "mer-
gulho" pelas palavras, pelos textos e pelos
mais diversos tipos de fotos e ilustrações.
Muito mais que possibilitar o acesso
do educando a informações acerca da vida
marinha, o projeto teve como objetivo mo-
tivá-lo à necessidade de leitura, subsídio
No pátio da escola: confecção de tartarugas marinhas
necessário a seu processo de alfabetização e
condição para a formação de um sujeito critico
e reflexivo diante de sua realidade.
Usando-se de uma metodologia bem
diversificada, nos foi possível percorrer os
caminhos da leitura e produção de diferentes
tipologias textuais, da exibição e análise de
vídeos, documentários, slides e CD-ROOM,
da montagem de dramatizações, dos
seminários, de realização de pesquisas e
levantamento de dados, dos trabalhos de Arte
às gincanas culturais. Por meio de um trabalho
interdisciplinar, abordamos as diferentes áreas
do conhecimento.
Face aos vários animais a serem es-
tudados, o projeto foi se estruturando em
etapas, cada uma delas caracterizada por
problemas e desafios a serem resolvidos.
Na primeira etapa, compreendeu-se o
estudo do peixe-palhaço e da anêmona-do-
mar. De filme aos textos lidos, os alunos
puderam responder ao desafio de como e
porque tais animais viviam em perfeita as-
sociação. Nessa etapa de estudo foram pes-
quisados, com a participação dos pais, dife-
rentes nomes de peixes e, em sala de aula,
elaborados tabelas e gráficos dos resultados. O
trabalho realizado com cantiga, como a
reescrita e os textos fatiados, contribuíram
para a compreensão da base alfabética.
A segunda etapa do projeto, talvez a de
melhor resultado entre a turma, refe-ria-se ao
estudo dos tubarões. Resgatamos,
inicialmente, o que os alunos já sabiam e, em
seguida, introduzimos tal assunto com a
exibição de vídeo no qual foram apresentadas
as dez espécies de tubarões mais ferozes.
Produzimos listas de nomes das espécies,
resolvemos questões de múltipla escolha,
produzimos textos, gráficos e analisamos fotos
de tubarões através de retro-projetor. A cada
espécie estudamos textos,
pesquisamos c realizamos
diversas atividades que
colocavam em evidência
suas principais
características. Foi nessa
etapa do trabalho que os
alunos confeccionaram
cartazes em grupos e
apresentaram à turma os
primeiros seminários. O
problema aqui colocado
foi o de descobrir a
espécie mais feroz aos
seres humanos.
Foi na terceira etapa do projeto que os
alunos conheceram. por meio das leituras,
confecção de painel artístico e atividades
diversas, o cavalo-marinho, reconhecendo-
o como peixe.
Como conclusão dessas etapas, foi re-
alizada gincana cultural na quadra da es-
cola, entre as turmas de primeiras séries. O
objetivo era colocar à prova, através das
atividades, os conhecimentos aprendidos
em sala de aula sobre os animais já estuda-
dos. Os conhecimentos científicos testados
deram origem a uma pontuação para cada
turma que, em sala de aula, foi transforma-
da em gráficos matemáticos e analisada.
A quarta etapa do trabalho tinha como
principal desafio descobrir como os filho-
tes das baleias mamam, uma questão a ser
respondida para o supervisor de ensino do
município, através de carta. Foram realiza-
das leituras de textos, exibição de filmes cm
CD-ROOM, pesquisas na Internet e diversas
atividades que distinguiam as três espécies
de baleias estudadas, bem como as pesqui-
sas sobre os antepassados desses animais,
de acordo com os cientistas.
Os alunos ad-
quiriram muitos co-
nhecimentos sobre as
baleias e, após
descobrirem como se
dava o processo de
amamentação,
elaboraram uma carta
coletiva e en-viaram-
na ao supervisor.
Referentes às
baleias foram pro-
duzidos textos, te-
atros de fantoches,
confeccionados cartazes, painéis interati-
vos e seminários sobre o assunto.
Em continuidade, nas próximas etapas
os alunos estudaram os golfinhos, os
pinguins e as tartarugas marinhas. Con-
feccionaram vários trabalhos, individuais,
em duplas ou em grupos maiores, passando
pelas áreas de Língua Portuguesa, Ciências
Naturais e Arte. Além dos trabalhos artísti-
cos, os alunos produziram diferentes tipos
de textos em grupos c analisaram fotos de
pinguins e tartarugas marinhas através de
computador.
As reportagens acerca das baleias en-
calhadas nas praias foram temas de sucessi-
vas aulas e motivaram os alunos ao contato
com os textos jornalísticos.
Durante a realização das atividades,
foram ocupados os diferentes espaços da
escola: sala de aula, quadra escolar, pátio e
até mesmo a diretoria, onde foram exibidos
textos e fotos de CD-ROOM em um dos dois
computadores existentes na escola. Os
materiais, bem variados, dependiam do tipo
de atividade específica e incluíam livros,
revistas, fotos, jornais, diferentes tipos de
papéis, retroprojetor, tintas, CD-ROOM, en-
ciclopédias, filmes, etc.
Durante esse trabalho, não fizemos
parcerias com outros profissionais e enti-
dades, pois a própria natureza do tema e o
enfoque metodológico contribuíram para
que ele se restringisse aos alunos da série.
Entretanto, tivemos a colaboração e o en-
volvimento de outras turmas durante as
pesquisas realizadas pelos alunos na escola
e a participação dos pais durante as pesqui-
sas realizadas em casa.
Entre os procedimentos adotados para
a avaliação do processo de trabalho, incluí-
mos as leituras e a interpretação feitas pelos
alunos, a participação durante os trabalhos,
seja em grupos, individuais ou coletivas.
Nos trabalhos em grupos foi adotada tam-
bém a auto-avaliação e a avaliação realiza-
da pelo próprio grupo durante o seu traba-
lho, sendo emitido um valor de acordo com
os critérios cumpridos. As produções escri-
tas também nos revelavam a forma com que
os alunos compreendiam os conceitos e o
grau de aquisição dos conhecimentos, pois
eram registros que diagnosticavam o nível
de aprendizado dos resultados obtidos.
Percebemos, no transcorrer da prática,
a importância e os resultados alcançados
através do trabalho em equipes: maior de-
senvoltura na oralidade, mais segurança na
exposição de um assunto e a necessária tro-
ca de conhecimentos entre os componentes
do grupo. Cabe ressaltar, ainda, a impor-
tância das atividades desafiadoras, lúdicas
e que suscitam no aluno o prazer de conhe-
cer e superar desafios.
Formação e organização de frases sobre os animais marinhos
Projetos assim contribuem para que
alunos e professores avancem, pois ambos
aprendem e ensinam, compartilham seus
saberes. Como adultos mais experientes, as
professoras das primeiras séries se encar-
regaram da tarefa de pesquisar os assuntos
estudados, além de se dedicar às leituras
teóricas a respeito do processo de apren-
dizagem. O trabalho coletivo, proposta já
enraizada na escola, contribui para a troca de
experiências entre os professores das mesmas
séries e entre os de séries mais avançadas que
colaboraram com empréstimos de materiais,
livros e revistas durante o projeto.
Ao longo dos seis meses de trabalho com
o tema, percebemos o crescimento intelectual
das crianças: estavam mais motivadas para
novas aprendizagens, haviam progredido na
leitura e escrita, multiplicavam e socializavam
com segurança os conhecimentos aprendidos
na escola, além de terem se desenvolvido em
diversas outras habilidades, como as relações
interpessoais, comunicação e expressão, entre
outras
Ressaltamos, diante dos resultados ob-
tidos, que alcançamos os objetivos propostos,
pois os alunos compreenderam a função dos
textos e a importância da leitura em suas
vidas.
Compreendendo a importância da leitura
na vida do homem e, em especial, nessa etapa
do processo de alfabetização, temos em mente
a continuidade de um trabalho em torno de um
novo tema que suscite no aluno o prazer e a
necessidade de ler.
Avaliando o projeto desenvolvido, te-
ríamos como mudança o tempo, investindo em
um projeto de curta duração, cujos assuntos
fossem mais delimitados.
Vale ressaltar que o trabalho com pro-
jetos garante ao aluno uma visão interdis-
ciplinar, pois os assuntos percorrem as di-
ferentes áreas do conhecimento de forma
interligada. À medida que se trabalha com
projetos cujos temas são de interesse do aluno,
a aprendizagem toma-se significativa e o aluno
participa da elaboração de seu próprio
conhecimento.
Outro aspecto a destacar e que pode
servir de referência à prática pedagógica de
outros educadores diz respeito ao trabalho a
partir dos textos. Os resultados são com-
prováveis quando diminuímos a distância
entre o saber escolar e a vida, trazendo assim,
para a sala de aula, diferentes escritos sociais,
cada qual com a sua função. O aluno fará uma
leitura prazerosa e significativa, pois esse
texto não foi feito apenas para se ensinar a
decodificar as sílabas, mas sim, para que o
leitor, diante dele, pudesse atribuir um sentido
ao que lê.
PROFESSORAS CO-AUTORAS:
Glauciane Benício;
Karla Moreira de Souza;
Maira Sayuri Iwashita Pereira Pinto;
Paula Swenson Lima Betoni e
Silvana Amorim de Lima.
JORNAL NA ESCOLA - UMA
QUESTÃO DE CIDADANIA
Notícias de jornal despertam a
curiosidade e a vontade de ler e escrever.
Escola Estadual Carvalho Leal fica
localizada na área urbana da cida-
de e é uma entidade civil de direito público,
com caráter pedagógico. O estabelecimento
de ensino é administrado pela Secretaria
Estadual de Educação - SEDUC, com 15
salas de aula climatizadas e atende a cerca
de 1300 alunos, em três turnos. Quanto ao
espaço físico, a escola é constituída por dois
prédios em boas condições de uso com salas
proporcionais ao número de alunos. O
primeiro prédio da escola é peculiar, pois
pertence ao Património Histórico. Já o
segundo prédio é uma construção atual,
realizada para atender à demanda escolar.
Os alunos, em sua maioria, são oriundos
do bairro de Cachoeirinha. A comunidade
apresenta considerável número de morado-
res com baixa renda, conta com os serviços
de iluminação elétrica pública, água enca-
nada, sistema de esgoto razoável, coleta de
lixo diária e transporte coletivo. A renda
salarial da população desta comunidade
gira em torno de 1 a 4 salários mínimos.
No aspecto cultural, a comunidade é repre-
sentada por diferentes danças regionais no
período junino, além da "Casa do Folclore",
local destinado às senhoras da comunidade
para o aprendizado de artesanato, culinária
e outras atividades socioculturais.
No início do ano letivo, realizamos
uma atividade relacionada com a expres-
são oral abordando o tema "Minha Famí-
lia". Em seguida, solicitamos a realização
da expressão escrita sobre o tema. Naquele
momento, os alunos não conseguiam ex-
pressar suas ideias, inclusive disseram que
eu deveria passar um exercício escrito, pois
"era mais fácil de fazer". Constatamos que
os alunos necessitavam de ações emergen-
ciais para desencadear o processo de aná-
lise crítica, promovendo uma experiência
que despertasse a expressão oral e escrita,
além de solucionar problemas referentes à
socialização, resgate de valores e a auto-
estima dos alunos.
A inquietude como educadora motivou
a ideia de propor uma manhã diferente na
sala de aula, por meio de leituras diversifi-
cadas, ao invés do tradicional livro texto.
De uma aluna surgiu a ideia da utilização
do jornal. Tal fato despertou o interesse e a
atenção dos alunos que conseguiram, timi-
damente, expor suas ideias após a leitura
dos jornais. Buscamos, então, desenvolver
a expressão escrita a partir da leitura do
suplemento informativo, contribuindo para
a formação de leitores e escritores críticos e
participativos na sociedade.
A
A experiência "Jornal na escola - uma
questão de cidadania" foi desenvolvida com
base nas ideias progressistas de Paulo Freire
(1997); na proposta pedagógica sócio-inte-
racionista de Vygotsky (1987): nos estudos
de Emília Ferreiro (1985) sobre a expressão
escrita; nos pressupostos epistemológicos
de Celso Antunes (2002); no desenvolvi-
mento de competências de acordo com o
sociólogo Philippe Perrenoud (2002) e no
trabalho com projetos defendidos por Gard-
ner (1994), além de outros pensadores.
Segundo Gardner (1994), para que as
diversas inteligências sejam desenvolvidas,
a criança tem de ser mais que uma mera
executora de tarefas. É preciso que ela seja
instigada a resolver problemas. Neste senti-
do, a prática de experiências inovadoras, se
bem trabalhadas, poderá auxiliar na forma-
ção de um sujeito integral, com possibilida-
des de desenvolvimento em diferentes áreas
do conhecimento.
Vygotsky (1987) afirma que a escrita
tem ocupado um lugar muito estreito na
prática escolar: ensina-se apenas a dese-
nhar letras, mas não se ensina a ler o que
está escrito, obscurecendo a linguagem
escrita. O despertar da análise crítica dos
textos, com a leitura de jornais, possibilita
uma melhor compreensão da mensagem,
tornando a aprendizagem verdadeiramente
significativa. A ação do professor em arti-
cular fatos da vida social à educação esco-
lar formal é de extrema importância para a
busca da cidadania.
Freire (1997) enfatiza que educar é
construir, é libertar, é dialogar, consideran-
do que ensinar é algo profundo e dinâmico,
não sendo mera transferência de conheci-
mentos, mas a conscientização e testemu-
nho de vida através da troca de experiên-
cias e construção significativa do saber.
Neste sentido, o professor deve acreditar
nas potencialidades do aluno abrindo es-
paço para novas conquistas e desafios por
meio de ações pedagógicas que propiciem
o despertar crítico por meio da produção
escrita.
A experiência "Jornal na escola - uma
questão de cidadania" teve como objetivo
Leitura de jornais em grupos para escolha das noticias - Grupo
Leitura de jornais em grupos para escolha das noticias - Grupo II
difundir a utilização do jornal como um
meio de comunicação fundamental na bus-
ca da transversalidade no contexto escolar
e na aquisição de novos conhecimentos
através da expressão escrita, tornando-se
uma ação inovadora na sala de aula. Outro
objetivo pretendido foi estimular a ex-
pressão escrita mediatizada pela realidade
social, resgatando, desta maneira, a auto-
estima dos alunos, a prática de valores tais
como: respeito e solidariedade, além da so-
cialização na sala de aula.
A proposta metodológica foi trabalhar
em equipe através de grupos rotativos, ou
seja, em cada encontro realizamos a troca
de alunos visando uma melhor integração
da turma. Em seguida, realizamos a ex-
posição dos jornais por cada grupo com a
notícia que havia despertado a curiosidade
dos alunos e, posteriormente, escolhíamos a
questão a ser trabalhada.
A aquisição do jornal foi realizada
através de doação, ou seja, promovemos
uma campanha para adquirir este rico ma-
terial entre os professores e a comunida-
de. A reportagem do jornal era recortada e
reproduzida para cada grupo. Em seguida,
começávamos a atividade sendo discutida
por cada por grupo e, posteriormente, a dis-
cussão com todos os alunos. Após esse pro-
cesso, cada aluno realizava sua construção
de texto.
Desenvolvemos o processo ensino-
aprendizagem com ações baseadas na
observação, na análise das notícias, na
atividade dialogada, na manipulação de
materiais concretos e no trabalho coletivo
que serviram como instrumentos para o
despertar da expressão escrita.
A prática inovadora na sala de aula
contemplou as diferentes áreas do conhe-
cimento como Língua Portuguesa, História,
Geografia, Ciências, Matemática, Ensino
Religioso e Arte, além dos temas transver-
sais como Ética, Saúde, Pluralidade Cultu-
ral e Meio Ambiente. Através da análise e
reflexão das notícias do jornal, os alunos
conseguiram expressar suas ideias, tanto
no ambiente da sala de aula, como na área
externa da escola. O material utilizado na
realização da experiência
foi cola, tesoura, jornal,
cartolina e papel ofício.
O desenvolvimento
da experiência "Jornal na
Escola - uma questão de
cidadania" envolveu
alguns profissionais da
escola, tais como a
orientadora Inês Bentes
que realizou palestras
sobre os temas sociais
escolhidos pelos alunos;
o porteiro da escola, Sr.
Barreto e os pais de
alunos que auxiliaram na coleta dos jornais,
além da supervisora Cidelina Menezes que
ofereceu suporte pedagógico ao projeto
educacional.
A avaliação do rendimento escolar
deve contribuir para valorizar os progres-
sos, avanços e conquistas do aluno e não se
tornar apenas um procedimento excludente
ou um instrumento de penalidade para o
educando. Neste sentido, as ações desen-
volvidas na experiência foram fundamen-
tais para o alcance de uma aprendizagem
verdadeiramente significativa, respaldada
numa avaliação qualitativa e valorizando,
dessa maneira, as múltiplas inteligências do
educando.
O educador não deve assumir o papel
de um mero transmissor de conteúdos, de-
tendo-se apenas em livros didáticos. Estes
são apenas instrumentos de auxílio na sala
de aula, pois o aluno traz consigo uma ex-
periência de vida que deve ser levada em
consideração no momento da aprendiza-
gem. Com base neste
pressuposto, a construção
do conhecimento ocorreu
de maneira democrática,
prazero-sa e em
momentos individuais e
coletivos com espaço para
o diálogo e a aquisição do
saber.
O professor deve
sempre buscar maneiras
criativas e dinâmicas para
tornar a escola um espaço
agradável. A partir da
experiência realizada na
sala de aula, os alunos venceram o silêncio
e participaram do projeto de maneira
louvável com empenho, dedicação e,
principalmente, expondo seu conheci-
mento a partir de sua realidade.
Conseguimos alcançar os objetivos
propostos e solidificar a concepção de que
o professor deve investir nas potencialida-
des do aluno, acreditar que cada ser tem
algo a ofertar desde que sejam concedidos
espaço e estímulo para expor suas experi-
ências. A relação harmoniosa entre os alu-
nos e a professora foi primordial para o
desenvolvimento do projeto. Os momentos
marcantes das ações realizadas pelos alu-
nos são lembrados com satisfação, pois a
conquista do "Premio Incentivo à Educação
Fundamental" representa a vitória de uma
prática pedagógica realizada com dedica-
ção, humildade e perseverança.
As ações foram desenvolvidas no de-
correr do ano letivo de 2004, com des-
dobramentos para o ano letivo de 2005.
Pretendemos aperfeiçoar a experiência no
sentido de criar parcerias para obter maior
número de exemplares de jornal.
Acreditamos que muitos professores já
desenvolvem ações pedagógicas através de
projeto, em especial com a utilização do jornal.
Os projetos são oportunidades excepcionais
nas escolas porque possibilitam a prática de
atividades diversificadas, despertando as
múltiplas inteligências do aluno e rompendo,
assim, com os limites do ensino tradicional.
No final do ano letivo, recebemos as
"cartinhas de despedida" com manifestações
prazerosas de afeto que revelaram, também, de
maneira positiva, o desenvolvimento da
expressão escrita. Certamente, não estava em
jogo a busca de uma nota ou conceito, pois
estávamos no último dia de aula. Detectamos,
então, que naquele momento recebemos o
maior de todos os prêmios para um professor -
a melhoria significativa dos alunos no
processo ensino-aprendizagem.
REFERENCIAS
ANTUNES, Celso. Novas Maneiras de Ensinar.
São Paulo. Artmed, 2002.
FERREIRO, Emília. TEBEROSKY, Ana. A Psicogê-
nese da Língua Escrita. Porto Alegre: Arte Médi-
cas, 1985.
FREIRE. Paulo. A Importância do Ato de Ler. 23
ed. São Paulo: Autores Associados / Cortez, 1997.
GARDNER, Howard. A teoria das Inteligências
Múltiplas: A Teoria na Prática. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1995.
PERRENOUD, Philippe. As Competências para
Ensinar no Século XXI: A Formação dos Pro-
fessores e o Desafio da Avaliação. Porto Alegre:
Artmed, 2002.
VIGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São
Paulo: Martins Fontes, 1987.
O DOCE SABOR DE APRENDER:
NOVAS POSSIBILIDADES
NO ENSINO FUNDAMENTAL
Produto cultivado no Município, o milho
construiu novos conhecimentos.
Escola Municipal "Ângelo An-
zollin" está localizada no município
de Vargem Bonita, no meio oeste do
estado de Santa Catarina. O Município possui
5.143 habitantes, sendo que a maioria reside
na área rural.
A escola atende a 270 alunos das áreas
rural e urbana, na educação infantil e séries
iniciais do ensino fundamental.
A escola é mantida pela prefeitura e pela
A.P.P (Associação de Pais e Professores).
Na turma, composta por 19 alunos, com
idade de 7 a 11 anos, um número significativo
apresenta muitas dificuldades de leitura e
escrita. Filhos de famílias com baixo poder
aquisitivo e sem muito incentivo para estudar.
A maioria das atividades era desenvolvida
somente para "encher o caderno", sem
motivação e sem o "Doce Sabor de Aprender".
As famílias não apresentavam com-
prometimento com a educação dos filhos,
deixando a responsabilidade somente para a
escola.
Caracterizando a situação anterior à
experiência, as crianças apresentavam di-
ficuldades de escrita e leitura, de estruturar
conceitos, fazer as tarefas, participar, ter
interesse, produzir, prestar atenção. Cons-
tantemente procuram as conversas paralelas,
sem motivação, inquietas, apáticas, não
demonstram interesse em aprender, preocu-
padas somente com a hora do recreio e o
lanche que será servido naquele dia.
A dificuldade das crianças com a escrita e
leitura motivou-me a elaborar um projeto
diferenciado, buscando o interesse das
crianças, algo que estivesse bem próximo
delas. Escolhi como tema o milho.
DESENVOLVIMENTO DAS AÇÕES/
METODOLOGIAS E CONTEÚDOS.
Leitura e interpretação em todas as ati-
vidades relacionadas ao tema principal
(milho), tanto individual como coleti-
vamente.
Durante o tema contextualizado, tivemos
oportunidade de estudar um produto
cultivado em nosso município.
Todos os conteúdos foram trabalhados de
maneira interdisciplinar.
Utilização de mapa e globo terrestre
identificando os países onde o milho é
originário.
Texto informativo sobre o surgimento do
milho (Aulas de História).
Os alunos conheceram um plantio de
milho, como é colhido e armazenado.
A
Visita ao plantio de milho para ver o processo de colheita
Dramatização do texto "A lenda do milho"
Visita à uma indústria para conhece-
rem o processo de industrialização da
farinha de milho (Aulas de Geografia).
Os alunos provaram alguns derivados
do milho: bolo de fubá, farinha de biju
com leite.
Elaboração de frases acrósticas.
Produção de texto.
A turma dramatizando o texto "A Len-
da do Milho" (nas aulas de Português).
Os grãos de milho serviram de instru-
mento para montar as tabelas de mul-
tiplicação e a resolução de operações.
Trabalhou-se com o sistema monetário
brasileiro, montando um mercadinho
dentro da sala de aula: "Supermercado
Doce Sabor" (Aulas de Matemática).
Trabalhou-se com receita instigando o
aluno à leitura e à escrita.
Alunos comeram pipoca após ter reali-
zado pesquisa.
Foi confeccionado mural com rótulos
de produtos derivados do milho.
Os alunos confeccionaram bonecos e
bonecas com a espiga de milho (aulas
de Artes).
Através de um pé de milho crescido,
estudou-se as partes de uma planta.
Montagem de um terrário para ver o
processo de germinação de sementes
de milho.
Trabalhou-se com o texto "A Oração
do Milho", enfatizando a valorização
do lanche na escola (Aulas de Reli-
gião).
Um gostoso café colonial foi servido
na escola para os pais juntamente com
a apresentação, pelos alunos, da dra-
matização das fábulas "Gostosuras e
travessuras com o Milho, com a turma
do Sítio do Pica-Pau-Amarelo" e "O
milho e o pássaro" (Literatura Infan-
til).
A leitura e a escrita melhoraram muito.
Hoje, os alunos apresentam disponibilidade,
interesse e ideias criativas para expressar e
construir conhecimentos.
A experiência possibilitou um maior
envolvimento da escola com os pais, dan-
do-lhes oportunidades de acompanhar a
vida escolar do filho.
Não precisamos de recursos "mirabo-
lantes", mas sim de ideias e palavras sim-
ples, aquilo com que convivemos e que está
perto de nós e o que de mais concreto pu-
dermos oferecer às crianças.
Talvez este seja um dos começos possí-
veis para proporcionarmos novas possibili-
dades de aprendizagens e oportunidades.
CONTROLE E
MONITORAMENTO DA ÁGUA
PARA CONSUMO HUMANO
Cuidados básicos com a água superam
necessidades sócio-educativas e
dificuldades de aprendizagem.
ituada no bairro de Água Fria, loca-
lizado na periferia da zona norte da
cidade do Recife, a Escola Municipal
São João Batista conta com 07 (sete) salas
de aula, biblioteca, sala dos professores,
secretaria, sala da direção, cozinha, pátio,
banheiros para alunos e para funcionários
e sala de informática.
Por se encontrar localizada em um dos
morros da cidade, é possível se visualizar
parte do litoral de Recife e Olinda. No en-
tanto, esta característica contrasta com a
violência, sob diversas formas, predomi-
nante na região.
Percebe-se a população vivendo socio-
culturalmente em situações precárias gera-
das pelo desemprego, pela fome, pelo difícil
acesso à saúde, pela falta de segurança e,
principalmente, pela proliferação de inú-
meras endemias e epidemias causadas pela
ausência de condições higiênico-sanitárias
satisfatórias.
Aliado a estes fatores, observa-se, ain-
da. o péssimo serviço de abastecimento de
água, o que acarreta a ausência das crian-
ças das salas de aulas, acometidas por do-
enças de veiculação hídrica.
A maior parte do alunado está fora da
faixa etária. Identifica-se crianças com ca-
racterísticas de desnutrição, desajuste fami-
liar, ausência de educação doméstica e por-
tadoras, em sua maioria, de doenças como
escabiose, hepatites, impetigo, verminoses,
entre outras.
O alunado apresentava dificuldades de
aprendizagem na totalidade dos conteúdos
ministrados, não conseguindo revelar ne-
nhum aproveitamento significativo.
Foi considerando a realidade acima
descrita que buscou-se desenvolver uma
experiência pedagógica empenhada em
promover a melhoria da qualidade de vida
coletiva, valorizando o vínculo social e
privilegiando os atores sociais, ou seja, o
alunado junto à comunidade. Surgiu daí a
ideia de um tema que atendesse às necessi-
dades sócio-educativas.
Desenvolvemos nossa experiência
considerando a interdisciplinaridade e a
contextualização como elementos funda-
mentais ao processo de construção do co-
nhecimento. Segundo Philippe Perrenoud
(2000), a consequência de uma prática em
que os conteúdos são "depositados" nas ca-
beças dos alunos de forma desprovida de
significado é que eles acumulam saberes
mas não conseguem mobilizar o que apren-
deram em situações reais.
Para Marise Ramos, citada por Carlos
Cruz (2002), essa articulação se constrói a
S
partir das necessidades
da vida diária, das
emoções e do enfren-
tamento das situações
desafiadoras, com as
quais temos que dia-
logar.
Nessa perspectiva,
acreditamos no
pressuposto de que é
mais importante que o
aluno saiba lidar com a
informação e não,
simplesmente, a retenha. O aluno precisa
saber porque está aprendendo e ter clareza
em relação aos seus objetivos e aos proces-
sos de vida fora do contexto escolar.
Para nós, esta atividade se configura
como um processo de construção de uma
cidadania emancipatória, na medida em que
assegura a apropriação de diversos conteú-
dos curriculares de forma interdisciplinar,
construindo competências para a formação
de um sujeito cidadão, co-responsável e
participativo.
Iniciamos nossa trajetória de trabalho
a partir de uma conversa informal com os
alunos sobre o conhecimento prévio acerca
do surgimento da cidade do Recife e seus
habitantes. Oportunamente, foi realizada
uma aula-passeio a bordo do catamarã "Es-
cola Ambiental Águas do Capibaribe" para
que os alunos, in loco, conhecessem o tre-
cho do rio que corta e banha a cidade. Esta
atividade também promoveu a ampliação
dos espaços pedagógicos em um processo
informativo e educacional, dentro de um
contexto interativo e transformador da rea-
lidade sócio-ambiental.
No retorno à sala de
aula, foi avaliado o
aproveitamento dos
alunos com base em
depoimentos sobre o que
foi vivenciado, nos
quais eles enfatizaram: a
poluição da água, o
acúmulo do lixo e o
mau cheiro no leito e
nas margens do rio. Este
fato deu início ao desen-
volvimento do Projeto.
Posteriormente, procedemos à exibição de
03 (três) filmes que versam sobre a água.
Com base nas situações vivenciadas e
informações obtidas sobre a água, foram
desenvolvidas atividades para conhecimen-
to e posterior manuseio de aferidor de clo-
ro e PH no ambiente escolar. Verificou-se,
com esta ação, em análise de água coletada
nos bebedouros escolares, sua improprieda-
de para consumo humano. Atualmente, os
referidos bebedouros já se encontram ade-
quados para a utilização.
A partir da apropriação do manuseio
do aferidor pelo alunado, surgiu a neces-
sidade de se conhecer as formas de con-
sumo da água no entorno da escola, o que
deu origem a um questionário para mapea-
mento. Nesta atividade, os alunos atuaram
como educadores ambientais, realizando o
registro das informações obtidas através de
questões relativas à fonte de abastecimen-
to, armazenamento e consumo, o que gerou
a construção de tabelas e gráficos estatís-
ticos.
Distribuição de folders e hipoclorito
Tomando como referencia a análise do
mapeamento em sala de aula, foi levado ao
conhecimento dos alunos a utilidade e ma-
nuseio do hipoclorito de sódio bem como
da sua necessidade de utilização.
De volta à comunidade, os alunos pro-
cederam a uma intervenção com orientação
sobre os cuidados básicos com a água. Nesta
ocasião, distribuíram o hipoclorito de sódio
fazendo recomendações para o seu uso,
procedendo, também, à distribuição de fol-
deres e planfletos por eles confeccionados.
Todo o projeto foi desenvolvido de for-
ma interdisciplinar, o que exigiu ampliação
dos conhecimentos, tanto na compreensão
da linguagem como da historicidade dos
fatos e suas transformações. O processo
geográfico e científico também envolveu o
desenvolvimento de posturas integradas ao
ambiente, refletindo ações de reconhe-
cimento dos fenómenos físicos, químicos e
biológicos. Problematizando e propondo
atuação humana enquanto ator histórico,
culturalmente questionador e transforma-
dor, o aluno pode valorizar e utilizar o co-
nhecimento matemático no cotidiano, apli-
cável no contexto social que favoreceu a
ação, de forma efetiva na realidade em que
vive.
Para a realização plena do Projeto,
obtivemos o apoio da Prefeitura da cidade
do Recife, através do "Centro de Vigilância
Ambiental", na pessoa da Dra. Fabiana Ca-
marão que, muito gentilmente, nos forneceu
"Mapas de Riscos e Agravos à Saúde, Rela-
cionados com a Água", bem como a doação
de 500 (quinhentos) frascos de hipoclorito
de sódio. Também contamos com o apoio
muito especial das professoras Eleta Freire
e Semadá Ribeiro pela contribuição para a
melhoria da qualidade do Projeto.
De acordo com o perfil inicial das
turmas envolvidas, suas necessidades e as
competências previamente estabelecidas,
concluímos que os alunos obtiveram apro-
priação satisfatória do conhecimento atra-
vés do desenvolvimento do projeto. Nossa
afirmativa baseia-se nas atividades cum-
pridas pelas crianças enquanto educadores
ambientais.
Observamos que as dificuldades apre-
sentadas no início do trabalho foram supe-
radas, bem como sua atuação na interação com
outros atores sociais. Destacamos, ainda, as
diversas formas de expressões artísticas
utilizadas com sucesso pelos alunos: na
confecção de folderes, panfletos e reprodu-
ções; através de desenhos sobre o que eles
vivenciaram foi quando percebemos sua
criatividade e espontaneidade.
Segundo Hoffman (1991), a avaliação
deverá encaminhar-se a um processo dialógico
e cooperativo, por meio do qual educandos e
educadores aprendem sobre si mesmos no ato
próprio da avaliação. Todo processo avaliativo
do trabalho fundamen-tou-se em uma prática
de avaliação construtivista e libertadora,
baseada no diálogo e na cooperação, onde
foram adotados métodos investigativos de
interpretação das alternativas e solução
propostas pelos alunos às diferentes situações
de aprendizagem.
Os resultados obtidos com a aplicação do
Projeto atenderam às expectativas. Hoje,
podemos afirmar que os alunos envolvidos
desenvolveram a capacidade de saber, saber
fazer e saber ser (Marise Ramos) na realização
de uma atividade.
O estilo de vida saudável ajuda a
prevenir e a combater doenças. O Projeto
"Controle e Monitoramento da Água para
Consumo Humano" oportuniza a aplicação e
continuidade dessa prática, permitindo a
mudança de hábitos, por meio de um processo
de interação entre a escola e a comunidade,
promovendo melhoria na qualidade de vida.
Em uma nova etapa do trabalho, o projeto
propiciará ao alunado a detecção e posterior
prevenção e tratamento das doenças causadas
por veiculação hídrica, a partir de novas
pesquisas que utilizarão métodos
anteriormente desenvolvidos.
Não podemos entender a prática edu-
cativa apenas como desenvolvimento pro-
fissional dos educadores, mas como um
processo social constituído por um conjunto
de atividades que envolvam representações
sociais e interagindo não apenas no aspecto
informativo, mas, principalmente, na
consolidação dos valores e nas atividades
individuais e coletivas. (Horácio Reis -
Out/2002).
O educador tem que acreditar, tem que
insistir, tem que continuar, porque o nosso
tempo é o futuro. Sendo a água um bem
universal e indispensável à vida, a experiência
do Projeto pode e deve ser aplicada por outros
educadores do ensino fundamental, de
qualquer parte do País.
PROFESSORA CO-AUTORA:
Ana Lúcia Hilário dos Santos
REFLETINDO SOBRE O
LUGAR ONDE VIVO
Compartilhar o cotidiano, por meio de
expressões orais e escritas, transforma
a sala de aula em espaço de curiosidade.
Escola Municipal Noé Fortes aten-
de alunos de 1ª a 8
a
séries do En-
sino Fundamental, nos três turnos.
Fica localizada numa região pobre da cidade
de Teresina, capital do Estado do Piauí e
há mais de dez anos não passa por uma
reforma. A escola recebe alunos de eixos
distintos da cidade situados na periferia,
especialmente vilas, sendo que o desloca-
mento ocorre através do transporte escolar,
custeado pela rede municipal.
Não é difícil inferir que as crianças são
oriundas de famílias de baixo poder aquisi-
tivo e, em geral, com composição familiar
desestruturada, na qual boa parte do sus-
tento da casa fica sob a responsabilidade
da mãe que trabalha como doméstica, ou
do pai/padrasto que tem um subemprego.
Os alunos contemplados nesse projeto, que
durou quatro meses no primeiro semestre
de 2004, fazem parte de duas turmas, num
total de cinquenta e dois alunos da quarta
série do Ensino Fundamental.
Logo nos primeiros dias de aula, per-
cebeu-se que nem todos os alunos domi-
navam a linguagem de maneira eficaz. Dos
cinquenta e dois alunos atendidos, vinte
oito faziam leitura silabada. Alguns faziam
a escrita do prenome misturando a letra
maiúscula com a minúscula. Outros, apesar
de saberem ler e escrever, não faziam a seg-
mentação das palavras em suas produções.
Constatou-se, ainda, que, no espaço da sala
de aula, alguns alunos reclamavam do lo-
cal onde viviam, ressaltando que a vila era
distante, a vida lá era difícil, demonstrando
uma relativa insatisfação. Isso fazia com que
os alunos se sentissem desmotivados, reve-
lando inclusive baixa auto-estima em rela-
ção ao lugar onde viviam. Ocorria, então,
que este sentimento de inferioridade estava,
de algum modo, interferindo no processo
de aprendizagem por considerarem que os
moradores dessa vila sentiam-se diferentes,
desprezados e queriam ser compreendidos e
até desculpados de seus afazeres escolares.
Para se chegar a estas conclusões, foi
necessário escutar, pois, como bem sugere
Paulo Freire, "ensinar exige saber escutar"
(FREIRE, 1998) o que constitui um recur-
so necessário para tecer um diálogo com o
aluno, ouvir suas histórias, entendidas aqui
como um trabalho dirigido e também como
a bagagem cultural revelada em suas lin-
guagens. Foi necessário, também, analisar
as produções textuais, preencher fichas e
fazer anotações sistemáticas. Em uma das
atividades desenvolvidas, a respeito dos
materiais de leituras veiculados nas resi-
dências dos alunos, estes revelaram gostar
A
de "versos", querendo
referir-se aos textos
poéticos. Percebeu-se,
com isso, uma janela
aberta para o desen-
cadeamento do trabalho
pedagógico a ser
desenvolvido.
O projeto "Refle-
tindo Sobre o Lugar Onde
Vivo" surgiu da
observação, reflexão e
força de vontade de
contribuir para o processo de ensino-
aprendizagem dos educandos da 4
a
série do
Ensino Fundamental. É preciso acentuar que
os instrumentos teóricos subsidiam o trabalho
do educador a fazer observações adequadas de
como o ensino está sendo interpretado,
construído ou reconstruído pelo aluno. Desse
modo, durante a realização do trabalho, foram
considerados os conhecimentos sistemáticos
desenvolvidos nos Parâmetros Curriculares
Nacionais (1997) e por estudiosos da área da
Educação como FREIRE (1998), ZABALA
(1998)eGAD0TTl (2004).
Os Parâmetros Curriculares Nacionais -
PCN (1997), asseguram que: a leitura é um
processo no qual o leitor realiza um trabalho
ativo de construção do significado do texto, a
partir dos seus objetivos, do seu conhecimento
sobre o assunto, sobre o autor, de tudo que
sabe sobre a língua. Não se trata da mera
decodificação, mas de atividades que levem à
compreensão, na qual os sentidos começam a
ser construídos antes da leitura propriamente
dita. Advoga, ainda, os PCN: o objetivo
principal do trabalho de análise e reflexão
sobre a língua é impri-
mir maior qualidade ao
uso da linguagem, na
qual a reflexão
compartilhada sobre os
textos reais constitui o
lugar natural do espaço da
sala de aula para esse tipo
de prática, envolvendo os
aspectos epilin-guísticos e
metalin-guísticos.
O educador GA-
DOTTI (2004) dizia: tudo
começa pelo
reconhecimento da identidade, fixamos mais
facilmente na memória o que temos interesse
em conhecer e o que vivemos intensamente. O
conhecimento tornou-se um bem comum, a
aprendizagem ao longo da vida uma
necessidade e o espaço da sala de aula deixou
de ser um espaço no qual se transmite
conhecimento, passando a ser um espaço onde
se procura e se produz conhecimento. Fazem,
pois, sentido as palavras de Paulo Freire
(1998): a reflexão crítica sobre a prática se
torna uma exigência da relação teoria /
prática. E o mesmo autor prossegue afirmando
que ensinar não é transferir conhecimento,
mas criar as possibilidades para a sua
produção ou a sua construção.
Dessa forma, fazer da sala de aula um
espaço de acontecimento, um espaço curioso e
desafiador constitui um grande desafio do
educador. Um bom começo é conversar com o
aluno. Afinal, como sugere FREIRE (1998)
ensinar exige saber escutar para, assim,
transformar o discurso num diálogo com o
aluno, colocando, pois, a palavra a serviço do
aluno.
Esse Projeto teve como subsídio bási-
co parte da coletânea poética do Programa
"Literatura em Minha Casa", distribuído às
escolas pelo Ministério da Educação. Ele-
geu-se esse género em virtude do interesse
dos alunos pela temática. Além do mais, o
trabalho com poesia possibilita a liberação
do imaginário, das sensações, dos senti-
mentos e dos sonhos das pessoas. Segundo
o poeta José Paulo Paes, um mundo sem
poesia é o mais triste dos mundos.
Outro instrumento utilizado foi o livro
didático do aluno - "Linguagem e Vivência"
(2001) - constituindo-se em instrumento
eficiente no trabalho pedagógico desenvol-
vido, possibilitando maior reflexão sobre a
linguagem dos textos, permitindo fazer a
comparação entre a leitura de textos em
prosa e a de poemas e perceber o uso da
linguagem formal e informal em narrativas
como a carta (BOJUNGA,1995) e poemas
(ASSARÉ,1978), além de outras atividades
complementares que auxiliaram o projeto.
Vê-se que o referencial teórico cons-
tituiu um alicerce ao trabalho desenvolvi-
do. Contudo, as mediações, as conexões ali
tecidas no dia-a-dia do recinto da sala de
aula fizeram, de fato, o Projeto acontecer e
atravessar os muros da escola, tomando-se
vivo, fazendo parte da vida daqueles alunos
que, apesar de todas as dificuldades do lu-
gar onde vivem, dentro de suas possibilida-
des souberam construir um olhar de poeta.
Por meio da observação e da conversa
com os alunos, percebeu-se que a poesia
poderia ser uma grande contribuição para
avançarem no processo de leitura, já que
boa parte fazia leitura silabada. A partir da
apresentação de um texto poético de José
Paulo Paes, intitulado "Convite", a reação
dos alunos foi compatível com a ideia ini-
cial pela eleição deste tipo de texto. Fez-
se, então, a exposição de algumas obras do
Programa "Literatura cm Minha Casa". Cada
aluno recebeu os exemplares. Em grupo,
elegia-se a leitura do poema e o possível
registro, observando os recursos utilizados
pelo poeta para deixar os textos interessan-
tes, criativos ou bem escritos.
No primeiro momento, os alunos pro-
duziram poemas com temas livres, mas
constatou-se que muitos não contemplaram
a proposta correspondente ao género solici-
tado. Em observação às atitudes dos alunos,
percebeu-se que muitos reclamavam do lu-
gar onde viviam, falavam da distância da
vila e que não tinham tomado banho por-
que faltava água constantemente. Temas
que dominavam o vocabulário dos alunos.
A partir daí, foi realizada visita à vila para
constatação das condições de vida, a pai-
sagem dominante, a inexistência de sane-
amento básico, as ocupações das famílias,
os moradores mais antigos, os principais
problemas e, também, o que era apreciado
na comunidade. Levando em consideração
o destaque dos elementos com os quais os
alunos conviviam, incentivou-se, inicial-
mente, a elaboração de relatórios descriti-
vos e, posteriormente, de poemas.
Em sala de aula, os problemas dos
alunos relacionados ao lugar onde viviam
foram debatidos, enquanto foram pensadas
possíveis soluções para amenização dos
mesmos. Foi quando se despertou para a
possibilidade de encaminhamento das ne-
cessidades básicas ao Poder Público Muni-
cipal, por meio de escrita de carta à Asso-
ciação dos Moradores.
Para vivenciar a produção de textos
poéticos, foi elaborada e encaminhada, de
forma coletiva, uma carta a um professor
escritor, convidando-o para uma palestra em
sala de aula. Atendido o convite, o poeta
respondeu a todas as perguntas dos alunos a
respeito de como começou a escrever poesia,
poetas preferidos, entre outras.
A partir daí, foi combinado com os
alunos que os trabalhos seriam intensificados
com relação ao género poético com o objetivo
de escrever um poema intitulado "O Lugar
Onde Vivo". Para tanto, elegeu-se o trabalho
em oficina poética, o que envolveria trabalhos
em grupo, em sua maioria, e trabalhos
individuais. Os alunos reunidos em grupo
registraram uma poesia, utilizan-do-se da
memória, relataram oralmente as
características desse tipo de texto e, indi-
vidualmente, produziram um poema com a
temática eleita.
Durante os trabalhos, procurou-se in-
centivar o resgate da cultura da comunidade e
refletir o quanto a poesia pode estar presente
no dia-a-dia. Por meio de uma pesquisa
realizada pelos alunos, em forma de entrevista,
enfatizou-se o estudo de poemas com rimas,
metáforas, repetições de palavras e aliterações.
Foram utilizados os textos: "O leão"
(MORAES, 2002) e "Canção do Exílio" do
poeta maranhense Gonçalves Dias.
Além da literatura clássica da cole-ção
"Literatura em Minha Casa", os alunos
também tiveram acesso à poesia popular de
cordel e fizeram, inclusive, acróstico com o
nome, parodiando os cordelistas. Foi feita a
leitura de vários poemas que retratam o lugar
onde viveram alguns poetas consagrados. As
produções foram apresenta-
das para a escola em um "Sarau Poético", para
o qual os alunos elaboraram convite aos pais,
professores e os demais alunos da escola, com
a participação do professor poeta, convidado
durante o desenvolvimento do projeto.
Em sala de aula, constatou-se que as
leituras realizadas ao longo do desenvol-
vimento do Projeto, as produções, a busca de
informação, a organização dos textos lidos,
estudos das ideias, a atitude de reflexão sobre
a língua ou a análise linguística constituíram
conteúdo de importante valor pedagógico.
Como resultado, procurou-se incentivar
ainda mais os alunos, dado seu interesse em
compartilhar o cotidiano através das
expressões orais e escritas. Nesse sentido,
percebeu-se que era necessário potencializar
esses conhecimentos, extrapolando o recinto
da escola, ideia que culminou com a
publicação de algumas poesias em um jornal
de circulação na capital. Procurou-se ressaltar
que a realidade nem sempre é bonita de se ver,
mas se torna necessário tecer uma reflexão na
perspectiva de um novo olhar, partindo do
próprio aluno a possibilidade de aceitar
provisoriamente essa situação e interagindo na
busca de melhorias para o lugar onde vivem.
Como recursos didáticos, foram utiliza-
dos: alguns exemplares da coleção "Literatura
em Minha Casa", dicionário da Língua
Portuguesa, livro didático do aluno, ônibus
escolar, aparelho de som, computador, im-
pressora, papel ofício, cartolina, papel pardo,
máquina fotográfica, filme fotográfico,
envelope para carta, pincéis, fita adesiva, cola,
tesoura e lápis comum e de cor.
O trabalho diário de análise e reflexão
sobre a língua influenciou nas conquistas e
avanços dos educandos, assim como o sig-
nificado da própria temática. O que de certa
forma contribuiu para elevar a auto-estima
desses alunos ao se perceberem como pessoas
competentes que, com o apoio necessário,
obtiveram êxito.
Partindo do pressuposto de que o ato de
avaliar deve integrar os aspectos qualitativos e
quantitativos, possibilitando uma visão global
do desempenho do educando, utilizou-se como
instrumentos do processo avaliativo os
registros de observação, as reuniões com pais
e mestres, os relatórios, o sarau poético, as
produções textuais, especialmente em verso e
a auto-avaliação através de questionário e em
forma de relato.
Não poderia deixar de ressaltar que a
grande ferramenta desse projeto foi ser uma
presença amorosa para esses alunos -o saber
escutar, acolhendo as manifestações verbais e
não-verbais do grupo de alunos assistidos. E,
assim, construir um trabalho pedagógico mais
significativo, trazendo à tona situações reais
do dia-a dia dos alunos que foram analisadas
com profundo respeito e cuidado.
Confirmando in loco que é possível resgatar o
prazer do texto com sentido, a partir da nossa
realidade, pois, segundo FREIRE, ensinar
exige respeito aos saberes dos educandos.
Respeitar os conhecimentos ingénuos,
viabilizando sua superação em busca de uma
consciência crítica do educando, constitui
compromisso do educador responsável pela
formação de um cidadão instrumen-
talizado para agir e reagir diante da realidade.
Elucidando que, em nosso tempo, a
necessidade que embasa a aprendizagem é
outra: não tem sentido a transmissão de
conhecimentos estanques e descontextuali-
zados. Ademais, uma aprendizagem se torna
significativa quando aluno é levado em
consideração com todos os seus saberes e
interconexões mentais.
Para ampliar este Projeto, sentiu-se a
necessidade de que essa reflexão pela qual os
alunos passaram, de melhor compreender a
realidade, também fosse trabalhada com os
pais dos alunos por meio de parcerias
realizadas entre escola e o presidente da
Associação dos Moradores da comunidade,
mediante a realização de seminários e
palestras a respeito de motivação (auto-
estima) e dos direitos e deveres do cidadão.
Tais ações visaram encontrar uma ma-
neira de conscientizar o Poder Público a
respeito das necessidades básicas e urgentes
que se constituem na infra-estrutura de
saneamento básico e na coleta seletiva e
regular do lixo doméstico dessa vila, tão
descuidada.
A experiência relatada pode ser desen-
volvida por outros professores do Ensino
Fundamental, desde que, a priori, percebam a
insatisfação dos alunos em relação ao lugar
onde vivem e que isso se constitua em entrave
para o progresso do educando.
Contudo, faz-se necessário que o pro-
fessor, de antemão, conheça um pouco da
história e realidade onde vivem esses edu-
candos para assim saber como conduzir o
processo.
INTERCAMBIO CULTURAL
EDUCANDO SEM FRONTEIRA
Uma ideia simples de trocar
correspondências torna o ambiente escolar
mais humano, harmonioso e alegre.
escola General Nelson Custódio de
Oliveira, situada na rua Sérgio Ro-
berto Rodrigues da Silva, n° 1225,
bairro Novo Alvorada, é uma escola urbana de
periferia, inserida em uma comunidade de
baixa renda e zona rural. Os pais dos alunos
são semi-analfabetos.
Nosso espaço é composto por 13 salas de
aula, uma sala de direção, uma coordenação,
secretaria, gabinete de dentista, biblioteca, sala
de professores e um salão para eventos.
As séries iniciais, a pré-escola até a
quarta série são atendidas nos períodos ma-
tutino e vespertino. O turno noturno atende à
clientela de EJA.
A escola Pontal Sul, situada a rua Es-
pinélio, esquina com a rua Mica, é composta
de 9 salas de aula, direção, coordenação,
secretaria, biblioteca e quadra esportiva.
Atende a crianças da pré-escola e das séries
iniciais, nos períodos matutino e vespertino e à
clientela oriunda de vários bairros de
Aparecida de Goiânia.
Intitulado "Intercâmbio Cultural Edu-
cando Sem Fronteiras", trata-se de projeto que
envolve professores e alunos da Escola
Municipal General Nelson Custódio de Oli-
veira, de Três Lagoas, Mato Grosso do Sul e
a Escola Pontal Sul, em Aparecida de Goiânia
- GO.
Conjuntamente, realizamos ações, ini-
cialmente direcionadas para o desenvol-
vimento da leitura e escrita e o fortalecimento
de valores em processos de interação social.
O projeto surgiu de uma ideia simples de
correspondência entre alunos de uma escola
municipal de um bairro periférico de Três
Lagoas, Mato Grosso do Sul, onde atuo como
professora e alunos de uma escola também
municipal de Aparecida de Goiânia em Goiás.
Aos poucos, as simples correspondências
foram tomando amplitude maior: de carta-
perfil, em que o assunto girava em torno de
seus hábitos e características, passaram a
carta-informação. Cartas estas que levavam os
alunos ao mundo da pesquisa para mostrar um
pouco da nossa história, cultura, regionalismo
e biodiversidade.
Tivemos o privilégio de mostrar aos
alunos da Escola Pontal Sul um pouco do que
era relatado nas cartas com a vinda dos
mesmos à nossa cidade. Foram 800 quiló-
metros de leitura fora da sala de aula e dois
dias de muita aprendizagem e troca de ex-
periências vividas pelas duas escolas.
A
Quanta emoção! Quanta lição com
nossa proposta de intercambiar palavras
trocadas nas cartas, resgatando um costu-
me tão antigo que se perde com a era da
tecnologia. Foi o início de uma história de
experiências que cada aluno carregará con-
sigo para sempre.
Sou professora de um grupo de alunos
de 4
a
série, período vespertino da escola
municipal General Nelson Custódio de Oli-
veira, em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul.
Detectei, logo no início do ano letivo, difi-
culdades relativas à leitura e à escrita que,
todos nós sabemos, toma um espaço cada
vez mais acentuado no sistema escolar.
Além disso, o desinteresse e a estagnação
perante os conteúdos tornaram-se visíveis
na turma. No que se refere à leitura, foi ne-
cessário uma releitura dos aspectos sociais,
históricos e culturais de cada criança para
melhor compreender sua visão de mundo.
Pois, no momento das atividades em sala
de aula, era visível o desinteresse por parte
dos alunos. Percebemos que a maioria dos
alunos era composta de filhos de pais semi-
analfabetos ou analfabetos funcionais.
Essas questões, embora não inespera-
das, fizeram-me ver a necessidade de criar
e conduzir um projeto aliando saber à re-
alidade, voltado para a dinâmica de sala de
aula, conhecendo a necessidade de cada
aluno sobre o que escreve e para quê escre-
ve, valorizando sua capacidade de expres-
são e propondo vivências que pudessem
contribuir para sua formação cultural.
As atividades propostas têm como
prioridade a escrita enquanto modalidade
de linguagem, criando situações que envol-
vam o aluno a escrever para outro destina-
tário que não seja ele mesmo.
Lembrando LOPES (1984), uma das
funções mais importante da linguagem es-
crita é o escrever para interagir com o ou-
tro.
A escrita interativa abrange a redação
de cartas. Esse tipo de escrita permite aos
alunos se expressarem com maior precisão
e clareza, pois dispõem do tempo necessá-
rio para reformular, matizar, sintetizar ou
expandir os conceitos emitidos, permitin-
do-lhes descobrir as características da carta
e sua função. Por outro lado, a carta tem
uma função de integrar diferentes conteú-
dos dentro das situações reais e significati-
vas para o aluno e a progressiva expansão
de seu mundo, o que envolve as habilidades
sociais e fortalece tanto os laços afetivos
entre as pessoas quanto a expressão cria-
tiva.
Ao participar de um projeto de cor-
respondência escolar, a escrita passa a ser
considerada uma atividade psicolingúísti-
ca de codificação e uma atividade motora,
abrindo às crianças espaço para que vivam
a escrita em situações comunicativas reais
e com propósitos claros.
Além disso, uma das funções mais
importantes da escrita envolve o interagir
com os outros. Essa experiência serve de
pretexto não só para a criança aprender a
redigir, mas também para desenvolver ha-
bilidades sociais e fortalecer os laços afeti-
vos, ganhando a estima de quem as rodeia
e devolvendo sua própria.
Foi partindo do referencial cognitivo,
social, histórico e cultural dos alunos que o
projeto "Intercâmbio Cultura Educando Sem
Fronteiras" surgiu. Analisando as atitudes
individuais e coletivas dos alunos, percebi
que, com parceria, poderia encontrar ca mi-
Alunos da escola General Nelson Custódio de Oliveira lendo e
respondendo cartas para os amigos de Aparecida de Goiânia - GO
nhos mais significativos para o ensino e a
aprendizagem.
Assim sendo, entrei em contato com a
escola Pontal Sul em Aparecida de Goiânia
GO e propus uma troca de correspondência
com os alunos de 4
a
série, incentivando-os a
escrever e também a ler as cartas recebidas.
De início, o assunto girou sobre as ca-
racterísticas, hábitos, músicas preferidas, ou
seja, carta perfil.
Antes de serem enviadas, era feita a
leitura de cada uma e a correção coletiva dos
aspectos relevantes na escrita. Nesses
momentos, a sala de aula tornava-se mais
alegre, todos discutiam sem fazer críticas dos
colegas.
Dessa forma, as atividades efetuadas
durante o desenvolvimento do projeto ini-
ciaram-se com correspondências pessoais,
passando para troca de informações a respeito
do município. Inesperadamente, uma nova
amplitude: formalizaríamos o conhecimento e
o resultado das correspondências em encontro
previsto e marcado para o dia 14 de junho
(véspera do aniversário de Três
Lagoas). Novas atitudes recreativas e culturais
passaram a ser pesquisadas e ensaiadas:
confeccionamos camisetas e criamos logotipo
com mapa dos dois estados envolvidos no
intercâmbio.
A chegada dos alunos de Aparecida foi
marcada pela emoção visível nos olhos de
cada criança. Preparamos uma aula inaugural
contando a história do estado, do município, a
cultura regional, a música, bebidas e comidas
típicas, o artesanato, a literatura, bem como
sobre personagens marcantes da nossa história
e as belezas do pantanal.
No dia 15 de junho, unidos, participamos
do desfile alusivo ao aniversário da cidade. A
despedida se deu, mas a cultura e a
cooperação marcaram a vida não só dos
alunos, mas de todos aqueles que não têm
medo de ousar em educação.
Criamos grupos de pesquisas dentro da
sala de aula em busca de material para enviar
e apresentar aos novos amigos. Trabalhamos
de forma interdisciplinar envolvendo
Geografia, Turismo, História, Economia,
Política, Ciências e a biodiversidade pan-
taneira. Divulgamos nosso estado, desde a
divisão das terras de
Mato Grosso para a
criação de uma outra
Unidade da Federação.
Buscamos na história
nosso tempo de capi-
tanias, províncias, os
primeiros coloniza-
dores e a criação do
nosso município e a
economia no início e
nos dias atuais. Nossa
arte, nosso povo, costumes, momentos
importantes que marcaram nossa história
como a guerra do Paraguai e outros.
Conhecemos um pouco do município
de Aparecida de Goiânia, suas tradições,
obras de poetas, "causos", contos de Cora
Coralina e alguns recursos naturais de Goi-
ás. Recebemos sementes de árvores frutí-
feras do cerrado e da fruta-do-conde que
foram plantadas no pátio da nossa escola.
Ao longo do desenvolvimento deste
projeto, percebi mudanças não só na ques-
tão da leitura e escrita, quanto na forma de
se relacionar uns com os outros. Na troca
de experiências, um novo conhecimento foi
se construindo a cada dia e o que até então
era impossível tornava-se possível, dando
espaço para um novo conhecimento como
aponta REGO (1995:104), ao citar Vigotsky:
aquilo que é zona de desenvolvimento pro-
ximal hoje, será nivel de desenvolvimento
real amanhã e, ao assimilar um conhecimen-
to, o aluno se prepara para mais uma nova
experiência no campo da aprendizagem.
Dessa forma, conseguimos despertar o
interesse não só pela leitura e escrita, mas
também pela cultura e, nesse sentido, o
ambiente escolar tornou-se
um lugar mais humano,
harmonioso e alegre.
No final do ano letivo,
confeccionamos nossa colcha
de retalhos. Cada aluno das
respectivas escolas pintou
dois pedaços de tecidos
enviando um e recebendo
outro. Nós, educadoras
responsáveis pelo desenvolvimento das
ações, juntamente com as alunas, tecemos
os pedaços em croché e fizemos nossa
colcha de retalhos do conhecimento. No
local onde plantamos as sementes da fruta
do conde enviadas pela escola Pontal Sul,
criamos a nossa cápsula do tempo. Cada
aluno escreveu o que aprendeu de melhor
durante o projeto, trouxe alguns objetos,
jornais com notícias locais e do mundo e
suas expectativas para daqui a dez anos. Foi
feita uma caixa de concreto dentro do chão
e todo o conjunto foi envolvido em material
resistente dentro de uma caixa de isopor e
colocado dentro da cápsula que será aberta
em 2013 (dois mil e treze), quando
completar dez anos do início do projeto.
Esta atividade teve a finalidade de analisar
como os alunos pensavam e analisavam os
fatos no mundo e como será que este
deverá estar no dia da abertura da cápsula.
Foram suas memórias de um trabalho
conjunto que só deu certo porque professor
e alunos caminharam juntos com os
mesmos objetivos.
Sabemos que a escola, de um modo
geral, tem ignorado a capacidade da crian-
ça e seu universo cultural, bem como o pa-
pel e a atuação da linguagem oral e escrita,
visando que quase toda prática e cresceres
pedagógicos devam ser centrados na inca-
pacidade e dificuldade da criança diante da
pressuposta complexidade da linguagem
escrita dando, assim, muitas voltas para in-
troduzir, efetivamente, o aluno no ato de
escrever.
Com um novo olhar, busquei um novo
jeito de caminhar, agora de forma inversa
da acima citada: longe do modelo pronto e
pré-estabelecido, porém considerando o
aluno agente de sua própria aprendizagem,
em um processo que se enriquece pela inte-
ração com os outros e acreditando que cada
um é capaz e tem seu próprio ritmo.
Ao longo do desenvolvimento deste
projeto, um novo conhecimento foi se
construindo a cada dia, discutindo os con-
teúdos abordados nas aulas que, em segui-
da, transformavam-se em temas das cartas.
Fazíamos uma tempestade de ideias que
serviam de suporte para a escrita das car-
tas.
Como educadora, meu papel era incen-
tivar os alunos na leitura e escrita, cons-
cientizando-os de que o assunto da carta
não nasce pronto e que escrever não é um
ato divino, mas algo planejado, com ten-
tativas e erros até chegar ao produto aca-
bado.
Os aspectos gramaticais, coesão e coe-
rência foram trabalhados e pude perceber o
avanço cognitivo de cada criança.
Em relação ao trabalho feito de forma
coletiva, tal como proposto, tornou-se um
desafio e uma aposta no crescimento do
aluno como sujeito e aprendiz, com uma
crença inabalada na superação das dificul-
dades. Pautado nestes aspectos, consegui-
mos superar as dificuldades, refletir sobre o
que o aluno trazia consigo, o que a escola
poderia lhe oferecer, promovendo, assim, a
confiança e a auto-estima dos alunos.
Não consideramos nosso trabalho con-
cluído. Alguns alunos ainda mantêm o vín-
culo de amizade que se iniciou com uma
simples troca de cartas. Hoje, em escolas
estaduais, os alunos têm plena liberdade de
escrever para os colegas.
Essa prática pode e deve ser aproveita-
da por qualquer educador que busca um tra-
balho diferenciado. A leitura e a escrita são
consideradas instrumentos fundamentais
para enriquecer e ampliar as experiências
de mundo das crianças, fugindo das leituras
rotineiras, partindo dos próprios textos das
crianças, fazendo-as refletir sobre o quê e
como se escreve, propondo escritas indivi-
duais ou coletivas.
Assim, gradualmente, os alunos vão
dominando a norma culta da linguagem,
desenvolvendo os recursos para entender e
participar criticamente do mundo em que
vivem.
PROFESSORAS CO-AUTORAS:
Neuza Helena Montovani Baldissera e
Darly Nunes
ALFABETIZANDO COM A
MAGIA DO CIRCO
Aliando a sedução do circo e a
alfabetização, as crianças
aprendem com alegria.
escola na qual se desenvolve este
projeto está inserida numa comu-
nidade (conjunto habitacional) cuja
classe social é de trabalhadores com renda
média salarial de 1 a 2 salários mínimos.
Os alunos precisavam ter vontade de
aprender e, para tanto, atividades diversifi-
cadas e criativas como este projeto propor-
cionou e os motivou a aprender.
O tema foi escolhido no início do ano
letivo, quando percebi o fascínio que as
crianças demonstraram pelo circo após
relatarem que, no ano passado, assistiram à
apresentações do circo que passou pelo
bairro.
Quando começaram a relatar, seus
olhos brilharam com mais intensidade. A
magia do circo que contagia a todos conta-
giou também o ambiente escolar onde cada
um lembrou dos personagens circenses,
principalmente do palhaço e daqueles mo-
mentos raros de completa alegria que fica-
ram para sempre em suas memórias. Então
surgiu a ideia de aliar a magia e a sedução
do circo com a alfabetização. Decifrar os
signos linguísticos de forma competente,
ler com significado e, por fim, tornar o alu-
no letrado c meu maior desafio.
A escola do nosso tempo deve atender
às exigências do mundo atual, garantindo
e assegurando a dignidade dos cidadãos.
Segundo Sposati, 1998, p. 10 "[...] tornar a
escola pública um espaço digno [...] onde
alunos e educadores se sintam respeitados,
valorizados [...] Um espaço em que os alunos
possam expressar sua cultura, o aprendiza-
do faça sentido para compreender o mundo
em que vivem e contribua para torná-los
protagonistas na luta por uma sociedade
em que a inclusão constitua um padrão de
dignidade para todos os brasileiros".
O caminho que possibilita à escola
tornar-se um lugar onde alunos e
professores se sintam parte integrante,
exprimindo seus desejos e necessidade, é o
diálogo franco e aberto entre todos os seus
integrantes. Um dos maiores desafios é
ouvir e conhecer os alunos, compreendendo
sua visão de mundo e, assim o trabalho
educativo se torne significativo para todos
os que dele fazem parte. A escola deve
estimular o respeito pelo mundo, pelo seu
espaço, pelo seu património. O espaço de
cada um pode ser o espaço de todos. Nosso
mundo precisa de uma nova perspectiva
que está nas mãos dos cidadãos de pouca
idade.
Em qualquer situação, o que o profes-
sor não pode esquecer é que ele é um cons-
trutor de andaimes que cria condições para
que os alunos internalizem o novo valor.
A
Cabe ao professor criar novas situações, uti-
lizar diferentes estratégias para que os alu-
nos possam superar, progressivamente, as
dificuldades e conflitos. É preciso trabalhar
sempre com elementos plenos de significa-
dos para a criança e em meio à atividade de
leitura e escrita.
"Ensinar é uma especificidade huma-
na, exige segurança, comprometimento,
compreender que a educação é uma forma
de intervenção no mundo, liberdade e au-
toridade, tomada de decisões, saber escutar,
reconhecer que a educação é ideológica,
disponibilidade para o diálogo, querer bem
aos educandos" (FREIRE, 1999, p. 102-105).
A espontaneidade em saber expressar,
principalmente nas séries iniciais, é de
fundamental importância. Mas, para que a
criança exercite sua linguagem em diferen-
tes situações de aprendizagem, é necessário
que saibamos respeitar toda e qualquer for-
ma de sua expressão, mesmo que não esteja
de acordo com a norma culta.
Salientamos que mais importante do
que saber é aprender como usar este saber.
A inteligência é inata e pode ser modificada.
O ser humano não é um objeto imutável. O
professor como mediador no ensino-apren-
dizagem é a palavra chave, proporcionando
atividades significativas e o prazer de que-
rer saber sempre mais.
"Trata-se do desafio de articular
dialeticamente a prática com
a teoria, o fazer com o saber,
o agir com o pensar, condição
indispensável para a formação de
sujeitos autónomos, eficientes e
criativos". (ARRUDA, 1987, p.72)
Com o projeto "Alfabetizando com a
magia do circo" pudemos explorar os con-
teúdos procedimentais e atitudinais, tanto
quanto os conceituais, visto que estavam
presentes no dia-a-dia, de forma integrada
no processo de ensino e aprendizagem.
O objetivo das ações foi apresentar a
escola como um lugar agradável, onde a
criança encontra amigos, novos desafios,
iniciando uma nova fase em sua vida, de-
senvolvendo atividades interessantes que
despertassem a curiosidade, fazendo com
que houvesse interação entre elas e a sala
de aula e estimulando a criança a voltar no
dia seguinte.
O projeto "Alfabetizando com a Magia
do Circo" tem como objetivo geral Alfabe-
tizar os alunos do 1º ano utilizando a ma-
gia do circo como recurso pedagógico. Os
objetivos específicos são: trazer a alegria
do circo para a sala de aula, despertando o
interesse para a alfabetização; desenvolver
atividades pedagógicas significativas no
processo de alfabetização; levar as crianças
a acreditarem na sua capacidade de apren-
der, desenvolvendo sua auto-estima através
de ações educativas com a magia do circo.
Com a alegria que o circo desperta no
tempo e no espaço e com esse desejo, trans-
formando cada atividade numa vibrante
emoção, é que desenvolvemos este projeto
com as seguintes atividades:
ACRÓSTICO - POEMA
As crianças puderam analisar cada le-
tra do alfabeto relacionando com os perso-
nagens do circo, internalizando a relação
letra e som de forma significativa.
FANTOCHES
Fizemos fantoches de cones dando no-
mes de A a Z para cada um, sendo que um
deles ficou sem nome. Envolvemos toda a
escola distribuindo um cupom para cada
criança preencher com uma sugestão de
nome para o palhaço sem nome. No dia das
crianças, cada aluno da escola ganhou um
palhacinho com o nome sugerido por eles.
A medida que eles manuseavam os fanto-
ches, lhes davam vida e incorporavam com
maior facilidade o conteúdo estudado. En-
cenamos o teatro "Agua, fonte de vida" e
contamos com a colaboração da pré-escola
na confecção do cenário com dobraduras
de peixes, visto que elas estavam desenvol-
vendo o projeto origami.
MODELAGEM - DOBRADURAS - OBRAS
DE ARTE
As crianças puderam expor seus sen-
timentos observando e interpretando sua
própria produção de arte e compartilhando
com o outro. Essa troca de opiniões pro-
porcionou às crianças um amadurecimento,
pois como diz Alfred Mercier "O que apren-
demos com prazer nós nunca esquecemos".
HISTÓRIAS INFANTIS - MÚSICA
Todos os dias as crianças estão em con-
tato com a leitura, seja como lazer ou dire-
cionada. Analisamos a letra partindo para
as partes e retornando ao todo, consolidan-
do suas hipóteses em relação à escrita.
LÚDICO
E primordial que o jogo, o lazer e o
prazer marquem sempre um encontro com
as crianças em sala de aula, trazendo bem-
estar e felicidade.
ADIVINHAS - PIADAS - MAGICAS
Adivinhas exigem raciocínio matemá-
tico.
Piadas têm por finalidade fazer o ou-
vinte rir e, na maioria das vezes, acrescen-
tamos ou retiramos algo na hora de contar.
E um excelente recurso para exercitar a ex-
pressão oral.
Mágica é algo que encanta.
EQUILÍBRIO E MALABARISMO
A criança precisa ter bem desenvolvi-
da sua psicomotricidade para se alfabetizar
com facilidade. Contamos com apoio das
professoras de áreas para desenvolvermos
estas competências
INFORMÁTICA PEDAGÓGICA
Foi utilizado o CD-ROOM "Alegria e
diversão do circo" onde puderam explorar
desenhos, cruzadinhas, quebras cabeças e
muito mais.
PRODUÇÃO DE TEXTO - PARLENDA
A criança é orientada para se sentir
capaz de escrever um texto a partir de sua
própria vivência. Fizemos um esboço onde
a criança pode consultar para fazer seu tex-
to. O refrão usado por muitos artistas cir-
censes é o da "marmelada", onde fizemos
uma paródia e analisamos as rimas mais
engraçadas e a ortografia.
HISTÓRIA EM QUADRINHOS
Usamos a "piada da lanchonete" e fi-
zemos um diálogo entre os palhaços.
APRESENTAÇÃO DO CIRCO DA ALEGRIA
Este foi o cume do nosso projeto onde
as crianças e professoras com roupa e cara
de palhaços puderam mostrar a todos o que
haviam aprendido na sala de aula. Foram
momentos de raro prazer, onde todos can-
taram, dançaram, riram e, principalmente,
viajaram num mundo de faz de conta que
ficará para sempre em suas memórias.
APRESENTAÇÕES EXTRA CLASSE DO
"CIRCO DA ALEGRIA"
O "Circo da Alegria" foi convidado
para se apresentar em outras escolas, sendo
uma experiência maravilhosa e as crianças
puderam sentir todos os seus esforços re-
conhecidos. A cada nova apresentação, as
crianças ficavam mais desinibidas.
FAMÍLIA
Um dos momentos em que a família
pôde mostrar todo seu envolvimento, vi-
vendo um momento de lazer e confrater-
nização, foi quando levaram seus filhos a
assistir ao espetáculo do Circo Romani que
estava na cidade, devido à 5
a
feira do SESI.
São momentos como este que enriquecem e
motivam as crianças a quererem aprender
cada vez mais.
COLABORADORES
São muitas as pessoas que acredita-
ram neste projeto e, de uma maneira ou de
outra, colaboraram para o total sucesso do
mesmo.
Entre os muitos colaboradores está um
dos políticos do Estado, empresa, jornal lo-
cal, professoras das áreas de Arte, Inglês e
Educação Física que trabalharam em con-
junto fazendo acontecer, de fato, a inter-
disciplinaridade. Os demais funcionários e
professores da escola colaboraram doando
maquiagens para pintar as crianças nas
apresentações no "Circo da Alegria".
A avaliação dos educandos foi reali-
zada dia-a-dia, observando suas atitudes
frente ao que era proposto, suas indagações
e curiosidades, partindo da reflexão sobre
a ação do próprio aluno, com a função de
alimentar, sustentar e orientar a interven-
ção pedagógica.
Constatou-se um grande progresso dos
alunos, evidência comprovada através da
oralidade, leitura, escrita e envolvimento
nas atividades com maior prazer e facili-
dade na resolução das questões propostas,
aprimorando seus conhecimentos. Consta-
tou-se, também, grande envolvimento dos
pais e demais alunos e funcionários da es-
cola que, contagiados, com a magia do cir-
co, colaboraram para o sucesso do Projeto.
Foi um trabalho que ultrapassou os limites
da sala de aula. Os alunos apresentaram
com todo encanto o espetáculo circense na
escola e foram convidados a se apresentar
em outras escolas, fazendo, assim, um in-
tercâmbio de saberes.
As crianças estão, dia-a-dia, superan-
do obstáculos encontrados na alfabetização
por meio das atividades desenvolvidas, onde
a alegria e a magia do circo estão presentes
diariamente, pois ações coletivas, coopera-
tivas e interativas garantem o sucesso do
trabalho. Cada criança está fazendo sua ca-
minhada na alfabetização de maneira sur-
preendente, pois, no cotidiano, percebemos,
pelo brilho no olhar, o progresso e o au-
mento do interesse pela aprendizagem.
Os pais se mobilizaram e levaram seus
filhos para assistir ao espetáculo do Circo
Romani e, assim, os alunos aprenderam e
perceberam que têm capacidade de enfren-
tar e conquistar espaço na sua vida e que o
mundo é muito maior do que eles imagi-
nam.
Eu reavalio minha postura de profissio-
nal e faço meus alunos sonharem de olhos
abertos deixando voar livre a imaginação,
escolhendo as melhores ideias e traçando
um plano de trabalho onde a cooperação é
um bom negócio para todos, fortalecendo
o vinculo professor e aluno e essa semente
germinará e transformará a educação.
Movida pela paixão de ensinar, faria
novamente este projeto, pois acredito que
uma educação de qualidade e o desejo de
mudanças transformam a vida de nossas
crianças em um mundo um pouco melhor.
Recomendo que outros professores tra-
gam essa alegria do circo para sua sala de
aula, pois tenho certeza que o processo de
ensino e aprendizagem ficará mais praze-
roso e as crianças, aprendendo com alegria,
irão enfrentar os desafios do dia-a-dia com
maior facilidade.
PEQUENOS POETAS
A percepção de que a poesia é uma
forma especial de ler e ver o mundo.
EEB "Doutor Frederico Rolla" é a
única escola estadual de nosso mu-
nicípio. Localiza-se na zona urbana e
atende a, aproximadamente, 600 educandos
oriundos das classes baixa e média baixa,
sendo que o fator cultural das famílias
desses educandos não é priorizado.
Na escola em que trabalho, os educan-
dos, em sua grande maioria, vêm de famílias
que não priorizam o ato de ler. Sendo as-
sim, temos uma clientela de educandos que
lêem pouco tanto livros literários, quanto
informativos, quiçá de poesias. Logo, não
fazem de suas vidas uma poesia por não
viverem nem conhecerem seu significado.
Acredito que através da poesia muitos
dos sofrimentos, das angústias, das discór-
dias existentes na e entre a humanidade
tenderão a desaparecer. A partir do mo-
mento em que conseguirmos fazer de nossa
vida uma poesia, aprenderemos a priorizar
valores, a nos encantar com a simplicidade
do viver.
Com base nestas constatações é que se
justifica o presente projeto como um ali-
cerce na formação de educandos sensíveis,
leitores e criadores de sua própria poesia,
através da percepção de que poesia não é só
o que rima e tem sílabas contadas mas, aci-
ma de tudo, é jogo de palavras, é emoção
que desperta, é uma maneira especial de ler
e ver o mundo.
Quando aprendemos a ler, descobri-
mos ura mundo completamente novo ao
nosso redor, cheio de palavras e significa-
dos que dão nome aos objetos, esclarecem
ideias e sentimentos e nos revelam uma
realidade muito diferente que, aos poucos,
vamos conquistando. A leitura nos ensina
a pensar e é pensando que se adquire cul-
tura. Concomitante ao processo de leitura
encontra-se a produção escrita, já que ler,
criar e escrever são elos de uma mesma cor-
rente, partes de um mesmo método.
Antes, porém, de todo este processo de
leilura-escrita, na vida do ser humano se
dá o processo da fala, que é o que precede
tudo o que vem depois. Desde quando o avô
de nosso avô era pequeno, havia um versi-
nho que toda criança sabia de cor e que era
assim: "Batatinha quando nasce/ se espar-
rama pelo chão/ menininha quando dorme/
põe a mão no coração". É quase certo que
este ainda seja o primeiro versinho que toda
criança aprende em casa ou na escola.
Como surgiu, quem fez esta quadrinha.
ninguém sabe. Mas isto não faz diferença,
já que poesia é uma coisa assim: nasce sem
a gente saber como ou onde. Ela pode estar
numa folha seca caindo de uma árvore ou
A
no canto de um passarinho quando a gente
ouve, distraído. Ou pode estar num verso que,
lido de repente, faz a gente descobrir o que o
poeta está querendo dizer. A arte da poesia
nos faz ver o mundo como se fosse pela
primeira vez. Aliás, fazer poesia é rei-ventar o
mundo.
A poesia se constitui em um jogo. Jogo
com a linguagem. Compondo-se de palavras:
palavras soltas, empilhadas, em fila, palavras
desenhadas, em ritmo diferente da fala do dia-
a-dia. A poesia nasce de um olhar especial que
o poeta divide com seus leitores através da sua
criação. E o poeta é aquele que faz da vida,
poesia. José de Alencar, por exemplo, tem
uma encantadora definição para poeta. Diz
mais ou menos assim: "O poeta é como o
caramujo. O caramujo carrega sua casa nas
costas. Já o poeta carrega o seu mundo nas
costas. E vive dentro deste mundo".
Uma poesia deixa leitores e ouvintes
encantados. Parece que o poeta consegue dizer
o que a gente sente mas não consegue
exprimir. Ou então, parece que o poeta
Tarde de autógrafos - Coreografia da canção Aquarela
diz o que a gente nunca tinha pensado em
dizer. De diferentes maneiras, cada poesia
inventa um mundo, onde o leitor entra pela
mão do poeta. Estas diferentes maneiras de
fazer poesia se apresentam através dos
variados recursos poéticos disponíveis. A
poesia pode se apresentar através de uma
narrativa, aquarelas simples pintando o
ambiente doméstico ou a natureza junto à qual
se cresceu; pode se alternar entre um tom
lírico e o humor mais evidente.
Ao longo deste panorama, a poesia pode
apresentar-se em variados estilos; desde os
versos bem comportados, com rimas certinhas
e sílabas medidas, que se usavam no século
XIX, até a liberdade que os padrões
contemporâneos permitem. Também a
linguagem varia, de um tom mais sério e
menos familiar até brincadeiras divertidas com
as palavras que são tão ricas e, por vezes,
inesperadas.
Enfim, cada poesia é um ser vivo, com-
pleto, articulado, coerente, mutável, ativa-
mente em processo de eterna metamorfose. E
um ser caleidoscópio: aproximar-se dela é
um ato que requer coragem de estar aberto a
novos giros, a novas faces, a experiências
inusitadas.
É um verdadeiro combate. Uma luta com
e pela palavra. Afinal, como nos diz Carlos
Drummond de Andrade, em seu poema "O
Lutador":
Lutar com palavras, é a luta mais
vã; entretanto lutamos,
mal rompe a manhã
São muitas, eu pouco.
Palavra, palavra (digo exasperado);
se me desafias, aceito o combate.
Muitas são as queixas sobre a falta de
vontade que os educandos têm para ler e
escrever. O que fazer? Novos caminhos pre-
cisam ser encontrados para cativar o leitor,
aproximá-lo do texto resgatando, assim, o
prazer da leitura e da criação.
Foi com a perspectiva de encontrar al-
gum "caminho" que decidi desenvolver este
projeto educativo, intitulado Pequenos Poetas
com os educandos da 4ª série do ensino
fundamental e com duração de três meses e
meio.
Durante todo o projeto procurou-se
valorizar o conhecimento empírico trazido
pelo aluno e, a partir deste, introduzir o
cientifico tendo como meta fazê-los com-
preender que a fala, a leitura, a criação e a
escrita devem ser consideradas como partes de
um mesmo método, elos de uma mesma
corrente além de mostrar-lhes que precisamos
desconstruir o conceito que temos sobre
poesia, já que muitos a consideram um texto
formado por rimas e versos contados.
A certeza de que é através da descoberta
do prazer de um texto que se adquire o hábito
da leitura e, consequentemente, o gosto por
escrever e de que essa descoberta se dará mais
facilmente na infância, foram fatores que me
levaram a iniciar este projeto lendo poesias
para os meus educandos no início e no final de
cada dia letivo durante uma semana. Procurei
envolver géneros diferentes, de poetas variados
( Elias José, Ruth Rocha, Ferreira Gullar,
Olavo Bi-lac, Arnaldo Antunes, Cecília
Meireles, Manuel Bandeira); poesias com e
sem rimas e versos; engraçadas, tristes, com
mensagens, emoções...fazendo com que os
educandos compreendessem que poesia não
tem ontem nem hoje. Poesia é sempre.
Aproveitei a coleção distribuída pelo
Ministério da Educação - "Literatura em
minha casa" - para que, posteriormente, os
próprios educandos pudessem ler poesias de
géneros variados, o que possibilitou ao grupo
perceber muitos recursos e formas de
organização que os poetas utilizam.
A partir do conto "O catador de pensa-
mento" de Monika Feth, os educandos foram
convidados por mim a serem catadores de
poesias. Esta atividade consistiu em sair pela
cidade, pelo pátio escolar e conversar sobre
poesia com pessoas conhecidas, con-vidando-
as, posteriormente, para virem até nossa sala
de aula declamar uma poesia que marcou sua
vida, que aprendeu na infância ou
simplesmente que leu em algum lugar e
gostou.
As atividades desenvolvidas até o pre-
sente momento haviam sido todas dire-
cionadas à oralidade; agora viria a parte
envolvendo as produções escritas, a parte mais
"dura" do projeto pois, como diz Cia-
rice Lispector: "Não, não é fácil escrever. E
duro como quebrar rochas. Mas voam fa-
íscas e lascas. Como aços espelhados." En-
tretanto, entendendo que as atividades en-
volvendo a produção escrita oportunizarão
aos educandos mostrar seus conhecimentos
acerca dos conteúdos trabalhados, favore-
cendo a criação de poesias e utilizando os
diversos recursos poéticos, além de serem
extremamente importantes para a aquisição
de diversos conhecimentos pertinentes ao
processo da escrita, é que estas atividades
mostraram-se deveras importantes.
Com a poesia "Convite", de José Paulo
Paes, os educandos foram literalmente con-
vidados a iniciar a parte escrita de nosso
projeto.
Como primeira atividade, utilizei a po-
esia de Otávio Roth "Duas dúzias de coi-
sinhas-à-toa que deixam a gente feliz" e, a
partir desta, alguns foram os questiona-
mentos levantados nos quais procurou-se
estabelecer relação entre a poesia e o co-
tidiano dos educandos, concluindo com a
produção coletiva da primeira poesia de
nosso projeto que foi intitulada: "Duas dú-
zias de coisinhas-à-toa que deixam os alu-
nos da 4
a
série felizes". Foi a partir desta
poesia que o projeto ganhou vida de fato, já
que esta foi a primeira de uma série de ou-
tras poesias que culminariam na produção
de um livro que seria distribuído aos fami-
liares dos educandos, à biblioteca das redes
municipal e estadual de nosso município e
à pessoas envolvidas no processo educacio-
nal, numa tarde de autógrafos.
Nas produções escritas, um dos recur-
sos utilizados foi o uso de poesias de au-
tores diversos que serviram de base para
que os educandos pudessem compreender
recursos poéticos tais como: rimas, inter-
textualidade, aliterações, parlendas, poesias
concretas para, cm seguida, realizar produ-
ções utilizando estes recursos.
Para finalizar o projeto, selecionamos
poesias envolvendo todos os temas traba-
lhados, tendo o cuidado de contemplar to-
dos os educandos envolvidos no processo.
Queríamos editar em uma gráfica livros
contento as poesias criadas para posterior-
mente oferecê-los, na tarde de autógrafos,
às famílias e demais convidados, sem con-
tar os que queríamos doar para as biblio-
tecas, mas não dispúnhamos de dinheiro.
Depois de muito pensar, com o aval da dire-
ção de nossa escola, escrevemos um ofício
e, pessoalmente (por nosso município ser
bastante pequeno pudemos fazê-lo pesso-
almente), visitamos as empresas e o comér-
cio e pedimos colaborações espontâneas.
Muitos educandos envolvidos no projeto
também se dispuseram a colaborar com o
que tinham.
Três meses e meio se passaram desde o
início do projeto...
Tudo pronto...Sábado à tarde. Pais,
professores, patrocinadores, amigos...edu-
candos ansiosos. Seriam os anfitriões, os
apresentadores, as estrelas.
Aplausos, elogios, emoção e a certeza
de que, apesar dos tropeços, das idas e vin-
das, dos obstáculos enfrentados e supera-
dos, este projeto ensinou a todos nós, os en-
volvidos, que produzir uma boa poesia não
é só uma questão de inspiração mas sim de
busca, de reflexão enfim, que o poeta tem
tr;ibalho...mas que, ao findar sua obra, sua
criação, o que sobra é a alegria, a satisfação
de ter feito algo tão maravilhoso.
Momentos de Leitura de poesias
"O que eu pediria à escola, se não me
faltassem luzes pedagógicas,
era considerar a poesia como
primeira visão direta das coisas e
depois como veículo de informação
prática e teórica, preservando em
cada aluno o fundo mágico, lúdico,
intuitivo e criativo, que se identifica
basicamente com a sensibilidade
poética... ...Alguma coisa
que se 'bolasse'
nesse sentido, no campo da educação,
valeria como corretivo
prévio de aridez com que se
costumam transcorrer os destinos
profissionais, murados na
especialização, na ignorância
do prazer estético, na tristeza
de encarar a vida como dever
pontilhado de tédio..."
(Carlos Drummond de Andrade,
1974)
Gostaria de, ao findar este projeto edu-
cativo, assinalar uma frase deste texto escrito
por Drummond de Andrade que é
"...se não me faltassem luzes
pedagógicas..."
e trazê-la ao nosso cotidiano enquanto
educadores. Luzes pedagógicas estão nos
faltando e é por isso que nossa profissão tem-
se tornado deveras dura. Estamos tendo que
competir com uma gama infindável de
atrações e tornar a aula fascinante e pra-zerosa
está se tornando algo difícil.
Ao pensar no projeto "Pequenos Poetas",
eu já sabia de antemão que não seria uma
tarefa muito fácil, entretanto, desde o início
pude perceber que este foi um tema que
despertou o interesse dos educandos e esse foi
o primeiro passo, essa foi a 'luz' que me
iluminou pedagogicamente em 2004.
No decorrer do projeto, as poesias pro-
duzidas mostraram como é possível desen-
volver este tema em sala de aula tendo como
resultado trabalhos que nos encantam e
emocionam. Através das produções, os edu-
candos revelaram que houve a apropriação de
diferentes recursos poéticos e que esta
apropriação, além de permitir a expressão,
contribuiu para ampliar a compreensão so-
bre a linguagem poética possibilitando aos
mesmos ler, ouvir e apreciar poesias de uma
maneira mais aprofundada.
Muitas outras aprendizagens impor-
tantes para o desenvolvimento da leitura e
da escrita também tiveram lugar. Ao usar
rimas e aliterações, os educandos desenvol-
veram a consciência fonológica, ou seja, a
consciência dos sons das palavras, favore-
cendo progressos na aprendizagem da leitu-
ra e da escrita, já que compor versos livres
bem como usar o recurso da repetição, fa-
vorecem o desenvolvimento do pensamen-
to lógico, da coerência e coesão textual.
As atividades envolvendo a produção
de poesias concretas possibilitaram o de-
senvolvimento do pensamento abstrato e a
capacidade de estabelecer relações; as par-
lendas, no entanto, se transformaram em
fonte de alegria, sendo que os educandos
demonstraram, durante as produções, que
esta foi uma das atividades, dentre as escri-
tas, mais prazerosas.
Durante todo o transcorrer do projeto,
uma das preocupações que tive foi a de
familiarizá-los com poesias e poetas con-
sagrados e isto possibilitou-lhes observar e
utilizar diferentes estruturas e extensões de
versos, perceber a rima ou a ausência delas,
descobrir ritmos diversos enfim, verificar
que as poesias falam de muitas coisas, de
muitas formas e em muitos estilos.
Contudo, foi na conclusão do projeto,
apresentada aos pais, professores, amigos
e patrocinadores numa tarde de autógra-
fos que pude perceber o quão importante
foi para meus educandos a realização do
mesmo. Ao findar as apresentações, houve
grande emoção e nossa alegria e satisfação
foram tamanhas que acredito ser oportuno
finalizar esta avaliação usando estas pala-
vras já tão surradas, lindamente surradas
de um dos maiores poetas de todos os tem-
pos:
"...Tudo vale a pena. Se a alma
não é pequena"
(Fernando Pessoa)
É difícil dar continuidade a este pro-
jeto unicamente pelo fato de estarmos in-
seridos em uma comunidade com poucos
recursos financeiros, o que impossibilitaria
a impressão gráfica de novos livros.
Sem falsa modéstia, considero este
projeto como sendo um marco em minha
carreira pedagógica, algo que dificilmente
cairá no esquecimento tanto meu quanto de
meus educandos. Logo, não mudaria nem
aperfeiçoaria nada. Se possível, faria tudo
de novo.
Acredito que se os educadores de nos-
so país não subestimarem a capacidade de
seus pequenos educandos e se dispuserem
a fazer a "diferença" na educação, além de
se apropriarem desta experiência, poderão
criar outras mais, afinal como já se diz há
muito tempo 'quando você deseja muito al-
guma coisa, todo o Universo conspira para
que este desejo torne-se realidade'.
AGUA. LIQUIDO PRECIOSO
Reduzir as contas de água e
aumentar a aprendizagem.
Projeto AGUA, LIQUIDO PRECIOSO
foi desenvolvido na Escola de Ensino
Fundamental de Betânia. A escola
apresenta uma estrutura bem conservada,
com salas espaçosas e bem ventiladas e nos
ofereceu boas condições para o de-
senvolvimento do projeto, além de espaço
externo que nos favoreceu no desempenho
de nossas atividades.
Está situada no distrito de Betânia, no
município de Croatá-CE, com uma popu-
lação que sobrevive da agricultura, onde se
destaca a horticultura e um pequeno
comércio. Nossa comunidade é atenta no
quesito educação dos filhos, procurando es-
tar presente e participando da vida escolar
buscando acompanhar seu desempenho e
assim possibilita, juntamente com a escola,
ter uma educação com mais qualidade do
que a recebida. Isto é válido tanto para as
famílias que apresentam melhor qualidade
de vida quanto para as com situação mais
precária.
Nossa comunidade, apesar de ter aces-
so a meios de comunicação, principalmente
a televisão, não se dava conta da gravidade
do problema que nos afronta e que a cada
dia cresce. Vendo que a água potável era
consumida com certo exagero e desperdí-
cio, observamos, durante algum tempo, a
atitude e o comportamento de parte da co-
munidade e, assim, resolvemos desenvolver
um projeto que viesse não só criticar, mas
também sugerir à população como econo-
mizar sem perder a qualidade de vida, em-
bora sabendo que, de início, poderíamos ser
recriminados.
Por sermos conscientes da realidade
mundial no que se refere ao consumo de
água e, mais ainda, que a cada dia esta fica
mais escassa, sentimos a necessidade de
educar nossas crianças quanto ao consumo
mais econômico, sabendo que elas seriam
a maneira mais fácil e eficaz de levarmos à
tona esse assunto em nossa comunidade.
De uma só vez estaríamos informando, es-
clarecendo e ajudando nossa comunidade a
usar com economia este bem tão precioso.
Hoje, mais do que nunca, a vida do
homem depende da água, porém vários pa-
íses enfrentam problemas de falta de água.
Há escassez de água em muitos lugares do
mundo e, por causa da interferência do ho-
mem na natureza, grande parte da água do
planeta está contaminada, sendo imprópria
para o consumo.
Observando que o problema está se
alarmando a cada dia e tendo consciência
do consumo desordenado de água nas gran-
des e pequenas cidades, foram surgindo as
O
primeiras ideias de como trabalhar a cons-
cientização a partir das mudanças de pe-
quenos hábitos, tais como: fechar a torneira
ao escovar os dentes, não deixar a torneira
pingando, aproveitar a água da lavagem de
roupa para limpar o quintal, etc. Percebi
que essa mudança depende de cada um de
nós e que, com o Projeto, estaríamos cola-
borando para combater esse desperdício.
A água não foi só um tema a ser tra-
balhado, mas também uma forma de tra-
zermos à nossa realidade um assunto tão
abordado e perceber que nós tanto também
contribuímos para que esse problema se en-
contre como está, quanto podemos contri-
buir para mudá-lo.
Não tivemos uma simples fonte de
pesquisa e informação, mas o nosso coti-
diano foi nossa enciclopédia. As opiniões,
reportagens, comentários e o conhecimento
já adquirido nos ajudaram a enriquecer
nossas ideias e reflexões no trabalho que
estávamos projetando.
Todo o projeto foi desenvolvido no in-
tuito de incentivar as crianças e a comu-
nidade a combater o desperdício de água.
Partindo desse ponto, nossas crianças es-
tariam vivenciando uma situação nova ao
participar de um problema que os adultos
estariam cientes da situação e ativamente
poderiam contribuir para uma reeducação
nos hábitos cotidianos de nossa comunida-
de.
No primeiro passo, o Projeto "Água,
Líquido Precioso" foi apresentado em sala
de aula, explicando para os alunos o seu
objetivo. Neste momento, foram realizados
questionamentos sobre o assunto para es-
timular os alunos a buscarem seus conhe-
cimentos prévios no intuito de identificar
seus comportamentos a respeito do uso da
água em suas casas. Vale salientar que, na
ocasião, foi muito questionado o consumo
de água e o valor pago e o que se poderia
fazer para economizá-la, pois a água é in-
dispensável para a vida.
Dentro de um trabalho de conscienti-
zação e aprofundamento com os alunos, foi
a eles solicitado pesquisas e músicas que
falassem sobre o tema, sendo a que mais se
adequou ao ideal do projeto foi "Planeta
Água" (Guilherme Arantes) e passou a ser
trabalhada pelos alunos.
Para comprovar que era possível eco-
nomizar água, sem deixar de fazer as coisas
necessárias do dia-a-dia, foi feita a "Oficina
de Análise" da conta de água, na qual os
alunos fizeram um comparativo antes e de-
pois da execução do Projeto. A partir dessa
ideia, foram elaboradas metas que visavam
à conscientização da comunidade e, assim,
estimular os usuários a consumir simples-
mente o necessário, sem desperdiçar. Du-
rante esta atividade, os alunos foram con-
duzidos pela professora ao antigo poço que
abastecia a comunidade e, dessa forma, eles
puderam conhecer um pouco da dificuldade
que era encontrada para se conseguir água
e comparar com a facilidade encontrada
pelas novas gerações. Em seguida, foram
conhecer todo o processo de abastecimento
de água que supre a comunidade.
Os alunos embalados pela motivação
do Projeto não tiveram dificuldades em re-
alizar trabalhos de produção de textos sobre
o tema abordado e, quando foram solicita-
dos, foi possível detectar o bom desempe-
nho. Foi possível, ainda, observar sua boa
atuação na comunidade quando se tratava
de uma conscientização sobre o desperdício
ILUSTRAÇÕES DO PROJETO
Apresentação do Projeto aos alunos
Concurso de Redação
Aula de Campo
Campanha de Conscientização
Distribuição de Folders
Participação no Programa Criança é Show Rádio
FM Santa Fé
de água. Buscando
conhecer com mais afinco,
os alunos convidaram a
técnica do SISAR para
esclarecer algumas
dúvidas relacionadas ao
sistema de abastecimento
de água na comunidade.
A turma, acom-
panhada pela professora,
desenvolveu o trabalho
divulgando seus
propósitos na comunidade
local com a distribuição de folders, utilizando
o sistema de som local e participações
significativas no Programa "Criança é Show",
da Rádio FM Santa Fé de Croata.
Após todo o trabalho de divulgação e
conscientização da escola e da comunidade, os
alunos se prepararam para fazer os
comparativos e constatar os resultados que
haviam alcançado. Durante a execução do
projeto, cada aluno foi multiplicador da ideia
na comunidade e ao mesmo tempo fiscal das
atitudes e, assim, estavam ansiosos para saber
se seus esforços tinham valido a pena. Esta
avaliação foi realizada com comparativos de
contas de água. Foi confirmado que o
consumo de água, após a campanha, tinha sido
menor. Os resultados foram apresentados
durante a culminância do projeto, exposto e
explicado, passo a passo, para a comunidade
que se fez presente e ressaltado, ainda, que o
exemplo deixado pelos alunos permanecesse
em cada lar como sinónimo de economia e, ao
mesmo tempo, garantia desse líquido tão
precioso.
O Projeto, em si, foi
marcante durante o tempo
que foi trabalhado e cada
aluno que participou
permanece sendo um
fiscal ativo dentro da co-
munidade e ao mesmo
tempo parceiro nesta luta
incessante pela economia
da água nos lares. Tudo
foi possível porque toda a
comunidade aderiu à
nossa campanha, a
começar pelas famílias mais simples,
comerciantes, órgãos e entidades do município
que valorizaram a iniciativa e a apoiaram.
O que se pôde perceber com nitidez antes
de começarmos a desenvolver o projeto era
uma realidade na qual havia grande
desperdício de água. Para conscientizarmos a
população, teríamos que, de alguma forma,
mostrar concretamente que era possível
economizar e continuar utilizando a água
normalmente e que, além de economizar,
estaríamos contribuindo para que este bem não
se tornasse a cada dia mais escasso.
No momento da pesquisa de campo,
verificou-se que a taxa mínima paga na co-
munidade era R$ 7,10 e foi possível constatar
que muitas pessoas estavam pagando uma
quantia excessiva por conta do desperdício de
água. Com o desafio lançado, foi possível
detectar que, após o projeto, o consumo de
água diminuiu muito e que as pessoas que
vinham pagando taxas bem mais altas
passaram a pagar, simplesmente, a taxa
mínima.
Muita coisa foi possível aprender durante
a realização desse projeto. Fiquei feliz com os
resultados obtidos pela turma, a forma como
se conduziu durante a execução das atividades
e o empenho facilitou para uma melhor
fixação dos conhecimentos e, com certeza,
uma maior facilidade em todos os conteúdos
trabalhados.
Todo esse projeto foi pensado, elaborado
e executado com o objetivo principal de
educar a comunidade e principalmente as
crianças quanto ao não desperdício de água. E
maravilhoso hoje ver que o projeto não foi só
uma atitude passageira mas que cada pessoa
tem prazer em economizar e até estimular e
educar a uma pequena parcela que não leva a
sério os danos provocados pelo desperdício de
água. Os resultados obtidos foram muito além
do esperado, principalmente por que nosso
principal objetivo foi concretizado e nossas
crianças são conscientes de que desperdiçar
água é acabar com um pouquinho da vida.
Sabemos que mudar os hábito e as di-
versas formas de pensamento da sociedade
não é tarefa nada fácil. No entanto, não de-
vemos nos eximir de nossas responsabili-
dades, dada a situação na qual a maioria das
pessoas ainda não se conscientizou da
necessidade de cuidar e preservar os recursos
que a natureza nos oferece. Com muito esforço
e trabalho conseguimos, através do Projeto
"Água, Líquido Precioso", levar nossos alunos
e comunidade a fazerem uma reflexão sobre o
uso da água, sua importância para a vida no
planeta e o uso inadequado que poderia levar a
humanidade a antecipar seu final na terra.
Graças ao empenho de todos, conse-
guimos reduzir, de forma significativa, o
desperdício de água em nossa comunidade e
conscientizar nosso povo que, ao economizar
água, além de contribuir com a manutenção da
vida de todos os seres vivos na terra, também
estariam racionalizando o uso do dinheiro que
dispõem.
Hoje, observamos que a população se
preocupa e que o Projeto "Água, Líquido
Precioso" ainda continua sendo trabalhado. Só
que desta vez não só por uma turma de alunos
mas, sim, por boa parte de nossa comunidade
que se tornou multiplicadora dessas ideias.
Valeu a experiência.
LITERATURA E ARTE,
VIAJE NESSA FANTASIA
A escola como lugar de acesso ao
fantástico mundo da literatura incentiva
a prática permanente da leitura.
minha primeira experiência com tur-
mas do ensino fundamental. Há qua-
tro meses estou trabalhando com as
turmas do ciclo básico de alfabetização 6, 7
e 8 anos, como professora de Artes no perí-
odo da tarde e pela manhã como professora
regente da sala de multimeios, desenvol-
vendo atividades de leitura com as referi-
das turmas, em horários determinados para
cada uma, fazendo, assim, um trabalho bem
diversificado envolvendo a arte e a leitura
que vem sendo um desafio bastante gratifi-
cante, pois estou encantada e entusiasmada
com o resultado que tenho obtido.
As crianças estão despertando para
embarcar nessa viagem do mundo mágico
da leitura e da arte. Vêm desenvolvendo o
gosto pela leitura, favorecendo, assim, uma
aprendizagem satisfatória.
A escola de ensino fundamental Luis
Ferreira Lima está situada em Sítio Melan-
cias s/n, na zona rural, a 10 km do mu-
nicípio de Russas - Ceará. Município este
localizado na região do Vale Jaguaribe, a
162 km da capital cearense.
Apresenta uma estrutura adequada
para acolher seus educandos, pois dispõe
de sete salas de aula, uma diretoria, uma
secretaria, uma sala de setor pedagógico,
um centro de multimeios, uma sala de
informática, uma cantina (mesmo que al-
guns apresentem espaços pequenos, porém
são bem organizados e se tornam locais
acolhedores), uma área coberta, uma qua-
dra de esportes coberta, quatro banheiros,
duas casinhas de brinquedos, atendendo as
crianças da educação infantil, ciclo I e II,
em horários determinados pelo setor
pedagógico; um jardim, plantas no espaço
interno e externo. Enfim, seu espaço físico
permite a realização de diversas atividades
sócio-educativas intra e extra-classe.
Pode-se afirmar que o alunado é oriun-
do em sua maioria de famílias carentes,
com baixa renda per-capita, e perfil socioe-
conómico baseado na agricultura - cultivo
de hortaliças, cereais e legumes; na agro-
pecuária; na piscicultura e nas olarias, dei-
xando bem claro que a maioria dos chefes
de família não são proprietários e sim tra-
balhadores de aluguel, o que dificulta mais
ainda dar a seus filhos uma vida alegre, ou
seja, alimentação adequada, moradia de
qualidade, lazer, dentre outras necessidades
que permitam à criança uma vida mais sau-
dável.
Em termos pedagógicos e afetivos, o
alunado necessita de muita atenção e apoio,
pois alguns provêm de lares desfeitos, fi-
lhos de mães solteiras e outros não possuem
E
uma estrutura familiar
que lhes ofereça, pelo
menos, a condição de
diálogo. Além disso, falta
acompanhamento e/ou
fatores essenciais ao bom
equilíbrio emocional e,
consequentemente,
melhor aproveitamento
escolar.
O único pólo cul-
tural existente na co-
munidade é esta escola
que proporciona a seus moradores um
ensino de qualidade e atividades sociocul-
turais envolvendo a comunidade escolar e
local.
Pelo fato de nossas crianças serem
provenientes, em sua maioria, de famílias
carentes em relação ao nível cultural, social
e afetivo, não possuem em suas casas um
acervo literário variado, ao mesmo tempo
em que a família tem poucas oportunidades
para estar próxima da aprendizagem dos fi-
lhos, já que precisam lutar pela sobrevivên-
cia, além de terem pouca ou nenhuma es-
colarização. Isso faz com que a escola passe
a ser o único lugar de acesso ao fantástico
mundo literário.
Tendo em vista a implantação da pro-
posta pedagógica para a Escola de Tempo
Integral, Ciclo Básico de Alfabetização, a
qual beneficia crianças na faixa etária de 6,
7 e 8 anos, tivemos que repensar algumas
de nossas ações, buscando contribuir para
uma prática pedagógica socializadora, já
que nossas crianças estão a maior parte do
tempo em contato direto com seus colegas
e professores, no interior da escola, muito
mais do que com sua
família, em suas resi-
dências.
Esses motivos nos
impulsionaram a buscar
práticas alternativas que
quebrassem os velhos
paradigmas e
reconstruíssem novas
formas onde o prazer
pelo ato de ler fosse uma
característica marcante de
todos aqueles que
passam pela escola, principalmente as
crianças.
É nessa perspectiva que nos dispomos
a resgatar o processo de leitura com nossos
educandos de forma diferenciada, indo
além de meras atividades deslocadas do
contexto de suas vidas, na qual a leitura do
mundo vai se transformar na leitura da pa-
lavra, não de forma menos prazerosa, mas
num ato de continuidade .
Acreditamos que a grande missão da
escola é transformar a leitura da palavra
em ação, vida, emoção, alegria e prazer. E
é essa nossa proposta com esse projeto de
incentivo à leitura: ser um instrumento
onde o prazer de ler seja construído através
de atividades lúdicas que fazem parte do
dia-a-dia da criança como cantar, brincar,
desenhar, entre outras, e que não podem es-
tar desvinculadas da grandiosidade do ato
de ler. Sendo assim, as atividades artísticas
serão privilegiadas como forma de aquisi-
ção dos conhecimentos específicos numa
perspectiva de desenvolver nossos educan-
dos em suas dimensões: cognitiva, afetiva e
psicomotora.
Contar histórias é a mais antiga das ar-
tes. E com o passar do tempo, as histórias
se incorporaram definitivamente à nossa
cultura.
E os pedagogos, sempre à procura de
técnicas e processos adequados à educação
das crianças, descobriram esta "mina de
ouro"- as histórias.
Tereza Casasanta nos diz que "As his-
tórias são fontes maravilhosas de experi-
ências. São meios preciosos de ampliar o
horizonte da criança e aumentar o seu
conhecimento em relação ao mundo que a
cerca". Ora, é através da história que o
sujeito vive emoções, elabora-as e pode, as-
sim, entender melhor a vida.
A criança, ao ouvir histórias, vive emo-
ções importantes como a alegria, o medo, a
irritação, entre outras. Afinal, escutar his-
tórias é o início, o ponto - chave para tor-
nar-se um leitor, um inventor, um criador.
A literatura oferece alimento à criativi-
dade e ao imaginário e oportuniza à criança
o conhecimento de si mesma, do mundo
que a cerca, do seu ambiente de vida e lhe
permite, então, estabelecer as relações tão
importantes e necessárias entre o real e o
não real.
Vygotsky nos fala que "a criação de
uma situação imaginária não é algo for-
tuito na vida da criança. Pelo contrário, é a
primeira manifestação da emancipação da
criança em relação às restrições situa-
cionais". Ora, quando uma criança partici-
pa de uma história, seja qual for seu papel,
ela está em pleno desenvolvimento de suas
funções afetivas, cognitivas e emocionais.
Neste contexto, é importante para a
criança ter acesso às histórias infantis, pois
segundo Olga Reverbel, "A fonte de toda
atividade educativa está nas ações e atitu-
des impulsivas da criança". A criança des-
perta para a leitura, para a interpretação,
para a expressão.
A mesma autora nos fala que é impor-
tante o professor utilizar-se de vários mo-
delos de histórias infantis, ou seja, histórias
clássicas, histórias modernas, histórias in-
ventadas, usando todas as formas de lin-
guagem oral, pelo fato de que "as ativida-
des artísticas permitem que o aluno se auto
-expresse, explorando todas as formas de
comunicação humana".
As histórias contadas ou lidas consti-
tuem, sempre, uma fonte de alegria e en-
cantamento. E nessa perspectiva buscamos
desenvolver atividades de enriquecimento,
leves e espontâneas, integradas sempre à
hora de Arte e das mais variadas formas
possíveis, tais como a socialização da crian-
ça, o contato com o outro, a não - indivi-
dualização.
No desenvolvimento das ações, foram
incluídas tarefas solicitadas aos alunos, com
justificativas dos conteúdos e metodologias
selecionadas, avaliação do desempenho e
produção do aluno.
No projeto "Literatura e Arte Viaje Nes-
sa Fantasia", as ações foram norteadas pela
proposta curricular do projeto político-pe-
dagógico da escola, de forma interdiscipli-
nar, no qual a área de Arte foi articuladora
do processo de construção do conhecimen-
to através de atividades de pintura, dese-
nho, gravuras, modelagem, colagem, cons-
trução, entre outras.
As ações descritas abaixo obedecem a
uma mesma estrutura, a qual apresenta o
desenvolvimento das aulas, o planejamento
revelando as adequações e pontos relevan-
tes durante a realização das atividades, em
forma de relatos reflexivos.
PLANO DE AÇÃO N° 1
Objetivos Específicos: Apresentar a
história à criança, de forma criativa para
atrair sua atenção e participação. Utilizar a
linguagem oral para expressar sentimentos,
opiniões e relatar acontecimentos relacio-
nados à história.
Essa aula foi desenvolvida de maneira
dinâmica e criativa para atrair a atenção das
crianças que ficaram surpresas ao me ver
fantasiada e com todos aqueles objetos para
contar uma história, todos paralisados e
atentos a cada acontecimento.
Esse foi um momento prazeroso e iné-
dito para nossas crianças que demonstra-
ram ter compreendido cada momento da
história, por meio de suas respostas e rela-
tos dados durante a conversação.
PLANO DE AÇÃO N° 2
Objetivos Específicos: Produzir tra-
balhos de arte utilizando a linguagem do
desenho e da colagem por meio da história
"Cachinhos Dourados", desenvolvendo o
gosto pelo processo de produção. Desenvol-
ver a linguagem oral através da manifesta-
ção de pensamentos e sentimentos.
Essas atividades foram realizadas com
sucesso no momento da audição do CD da
história "Cachinhos Dourados" e em algu-
mas partes as crianças se dispersavam um
pouco, mas o interessante é que quando os
personagens falavam, principalmente os
ursos, elas ficavam atentas e até davam ri-
sadas. E quanto aos desenhos, mostraram-
se empolgados, pois iam representar algo
que conheciam à sua maneira.
Na atividade de recorte e colagem, as
crianças demonstraram gostar bastante por
utilizarem tesoura e cola. Algumas crianças
atrapalharam-se um pouco com a tesoura
por ter pouca coordenação motora, picando
a figura ao invés de recortá-la, sendo que
essa é uma característica visível da falta de
experiência.
Vale ressaltar que as crianças menores
encontram-se numa fase mais inicial de de-
senvolvimento de suas habilidades motoras
do que as maiores, fatores que diferenciam
os resultados de suas atividades.
PLANO DE AÇÃO N° 3
Objetivos Específicos: Confeccionar
fantoches para representar a história, de-
senvolvendo a imaginação e o dom artís-
tico. Produzir trabalhos de arte, utilizando
a linguagem da pintura, desenvolvendo o
gosto e o cuidado pelo processo de produ-
ção. Desenvolver a expressão oral.
Os trabalhos realizados aconteceram
de forma sequenciada: primeiro, a confec-
ção de fantoches com papel onde havia as
figuras e as crianças cortaram e colaram
em cartolina, colocando uma argolinha
para enganchar no dedo, obtendo a maioria
êxito. Na execução desta atividade, aque-
les que demonstravam mais habilidade e
agilidade passaram a ajudar e orientar seus
colegas, sem falar que, na hora do reconto,
as crianças fizeram uma belíssima apresen-
tação, mostrando haver interação, compa-
nheirismo e solidariedade entre os mem-
bros do grupo, pois quando um esquecia
sua parte o outro logo lembrava, havendo
reciprocidade em suas ações.
Segundo, quando chegou o momento
da pintura, foi uma alegria. Só se ouvia os
comentários: "Oba! Tinta - guache, vamos
pintar". E aí, já se pode imaginar o resulta-
do dessa atividade como foi, porque tudo
que se faz com gosto se faz melhor. Ao ex-
por seus trabalhos e defini-los no princípio,
não foi fácil para as crianças, pois tinham
mais facilidade para definir a do colega,
sendo, por esse motivo, repensada a forma
de apresentarem, pedindo-se então que as
crianças definissem o trabalho do vizinho
da direita ao invés do seu, obtendo-se, por
esse meio, um resultado satisfatório.
PLANO DE AÇÃO N° 4
Objetivos Específicos: Desenvolver a
atenção e a paciência ao executar cada etapa
das instruções para a confecção de maque-
te sobre a história "Cachinhos Dourados".
Ampliar as possibilidades de comunicação,
desenvolvendo a capacidade de expressão
oral e a criatividade das crianças.
Tendo em vista que a atividade de
construção de maquete engloba várias eta-
pas e estas, por sua vez, diferentes formas
de fazer arte, pode-se afirmar que foi um
trabalho rico, que proporcionou experiên-
cias novas e prazerosas para as crianças,
havendo, assim, participação e interação
entre elas. Apesar de cada grupo ter sua
atribuição, isso não foi empecilho para que
uns ajudassem os outros. E para enriquecer
ainda mais, as crianças foram orientadas a
vender o mesmo produto construído por
todos, utilizando-se de estratégias diferen-
tes já estabelecidas, focalizando oralmente
a ideia de que ali é um vale encantado e
quem o adquirir terá o paraíso, sendo dono
dos melhores sentimentos: amor, carinho,
sendo que cada grupo defenderá um senti-
mento dizendo porque é melhor, mostrando
as vantagens de possuí-lo. De início fica-
ram um pouco confusos, mas com as mi-
nhas intervenções, superaram as expectati-
vas mostrando desenvoltura e criatividade
em suas apresentações.
PLANO DE AÇÃO N° 5
Objetivos Específicos: Dramatizar uma
história conhecida, verbalizando seu con-
teúdo, usando a linguagem oral e gestual.
Expressar opiniões sobre seu desempenho e
do grupo na realização da apresentação.
A atividade procedeu de maneira sim-
ples, mas seu resultado foi positivo. As
crianças presentes foram todas envolvidas
na dramatização, já que a turma foi divi-
dida em pequenos grupos, conforme o nú-
mero de personagens da história, sendo
para algumas crianças sua primeira expe-
riência. E o que mais chamou atenção - e
até surpreendeu - foi a expressividade das
crianças gesticulando, imitando a voz dos
personagens. Ao terminar, houve a avalia-
ção oral das apresentações, na qual falaram
com mais facilidade dos colegas do que de
si mesmos. E assim, a atividade proporcio-
nou experiências que contribuíram para o
crescimento integrado das crianças sob os
aspectos individual e coletivo, pois compar-
tilhar uma atividade lúdica e criativa, base-
ada na experimentação e na compreensão,
é um estímulo para a aprendizagem.
PLANO DE AÇÃO N° 6
Objetivos Específicos: Contar história
com criatividade e entusiasmo, dando mais
verdade à fantasia. Interpretar a história
apresentada por meio de desenhos.
Essa aula, sem dúvida, foi um momen-
to marcante para as crianças, pois, antes
do início da contação, estavam curiosas
para saber o que 1ª acontecer e, de acordo
com seus palpites, não imaginavam o
que estava por vir. Quando comecei a his-
tória, apresentando uma das marionetes, a
criançada ficou toda inquieta e ao mesmo
tempo deslumbrada com aquele boneco que
movimentava os membros e a cabeça e, à
medida que os outros apareciam no decor-
rer da história, era como se estivesse vendo
o primeiro, ficando atenta a cada detalhe e
acontecimento. E na atividade de interpre-
tação, as crianças utilizaram a criatividade
para demonstrar a compreensão da história
apresentada. Quero dedicar aqui parte do
sucesso dessa aula ao aluno da 6
a
série
Abrão, o qual confeccionou as marionetes
ao meu pedido, tornando-se, assim, nosso
parceiro na busca de novas formas de
transmitir conhecimentos.
PLANO DE AÇÃO N° 7
Objetivos Específicos: Criar uma outra
versão para uma história conhecida, organi-
zando ideias e pensamentos coletivamente.
Realizar a atividade de desenho, de acordo
com a história elaborada.
Produzir ou refazer um texto é um meio
no qual as crianças expõem pensamentos e
ideias. E a dificuldade encontrada foi a
insegurança que algumas crianças demons-
travam ao falar, o que foi aos poucos sendo
superado no decorrer do desenvolvimento
da atividade e a partir das intervenções, in-
centivando e induzindo-os a expressar-se
oralmente, como também a ouvir os outros
para que as ideias que fossem surgindo ti-
vessem continuidade e não fossem apenas
frases soltas, sem sentido, sendo que no
final da atividade, as crianças mostraram-
se mais seguras ao falar. E, na realização
da atividade de desenho, as crianças uti-
lizaram a imaginação com uma pitada de
criatividade para representar a história, e a
fizeram com bastante perfeição, chegando
a surpreender.
PLANO DE AÇÃO N° 8
Objetivos Específicos: Montar um li-
vro, completando as ilustrações. Desenvol-
ver a atenção e o cuidado pelo processo de
produção, utilizando a linguagem da do-
bradura e criando, a partir desta, um diálo-
go com orientação da professora.
Através dessa atividade, observei que
o trabalho em grupo é produtivo porque as
crianças se ajudam, havendo interação,
troca de experiências e até mesmo diver-
gências de ideias que causam, em alguns
momentos, pequenas desavenças, resolvi-
das sempre com uma boa conversa e um
pedido de desculpas levando as crianças a
refletirem sobre suas atitudes. Na atividade
de dobradura, se atrapalharam um pouco,
mas logo entenderam como deviam realizar
cada etapa das instruções. E nas apresenta-
ções do diálogo em trios, algumas crianças
até mudavam a voz, querendo se sobressair
em relação às outras. No geral, a aula foi
um sucesso, pois aprendemos não só com
os acertos, mais com os erros também.
PLANO DE AÇÃO N° 9
Objetivos Específicos: Utilizar a lin-
guagem do desenho e da modelagem para
representar ideias. Criar situações de leitura
e escrita de maneira significativa e criati-
va.
A cada atividade realizada, as crianças
nos surpreendem em relação à desenvoltu-
ra, criatividade e até por suas referências.
Foi o que aconteceu com a atividade do li-
vro do desenhista. Todos quiseram desenhar
a história da Dona Baratinha e o que mais
chama atenção é a perfeição com que criam
seus desenhos e isso chega a emocionar e a
ser gratificante, pois a cada dia que passa,
as crianças mostram-se mais participativas,
interessadas, obtendo um bom rendimento
na realização das tarefas.
O "correio literário" foi um sucesso.
As crianças ficaram tão felizes quando
receberam seus bilhetes, cada um queria
saber o personagem e o conteúdo do bilhete
do colega e não demoraram nas suas
respostas, querendo sempre saber mais e
acreditando fielmente nessa fantasia.
PLANO DE AÇÃO N° 10
Objetivos Específicos: Observar e
apreciar a apresentação teatral de outras
pessoas, ampliando as capacidades de ver,
relacionar e analisar. Realizar produções ar-
tísticas expressando e comunicando ideias,
sentimentos e percepções, por meio da pin-
tura.
Tão importante quanto participar das
apresentações de teatro é saber apreciar e
valorizar o trabalho de outras pessoas. Foi
o que aconteceu nessa aula. As crianças
foram convidadas a assistir à dramatização
da história da "Dona Baratinha" e seus
novos pretendentes, versão modificada por
elas, observando e analisando atentamente
cada gesto. No momento de verbalizar seus
sentimentos em relação aos personagens da
dramatização, demonstraram convicção do
que gostavam e quando foram representar
suas preferências através de pintura com
esponja foi uma festa. Quiseram primeiro
fazer o desenho com lápis para só depois
pintar. No geral, as atividades foram rele-
vantes e satisfatórias.
PLANO DE AÇÃO N° 11
Objetivos Específicos: Criar situações
que despertem interesse nas crianças pela
leitura, mesmo que a façam ainda de ma-
neira não convencional. Produzir trabalhos
de arte referentes às histórias e comparti-
lhá-los.
E triste ver como algumas crianças
reagem com rejeição quando se fala em
atividades de leitura. Foi o que aconteceu
quando falei nas salas em "clubinho da lei-
tura", principalmente com as crianças me-
nores, por não lerem convencionalmente,
por achar que é chato, pois na maioria das
vezes é vista e transmitida como uma ativi-
dade rotineira e obrigatória e por isso não
desperta o prazer em quem está aprenden-
do. Ao explicar como iam ser desenvolvidas
as atividades, começaram a se interessar e
querer participar.
As crianças que optaram fazer parte
do clubinho mostraram-se satisfeitas ao
receber suas carteirinhas e assinarem seu
nome na folha de controle com caneta. O
clubinho tem uma quantidade expressiva
de crianças, mas a luta é para que as de-
mais venham integrar esse grupo, buscando
sensibilizá-los para esse novo universo por
meio da literatura integrada à arte em cada
atividade realizada semanalmente.
PLANO DE AÇÃO N° 12
Objetivos Específicos: Organizar a sala
de multimeios para momentos de leitura,
onde os alunos se sintam mais à vontade
para viajar nas histórias. Escolher de ma-
neira democrática a história que desejam
trabalhar.
Para realizar essa atividade, o ambiente
foi organizado de modo que se tornasse
agradável e aconchegante para deixar as
crianças à vontade tanto no espaço físico
quanto nas escolhas em relação aos livros
sem interferências de terceiros, havendo
bastante interesse e participação das crian-
ças, mesmo aquelas que ainda não lêem
convencionalmente.
Em seguida, foram convidadas a ouvir
uma história em CD a qual demonstraram
atenção.
O momento da votação para a escolha
da história, na "Caixinha dos Sonhos", se-
guida da apuração dos votos, foi bem signi-
ficativo, pois as crianças faziam questão de
votar e aquelas que não dominavam a es-
crita alfabética foram orientadas. Enfim, foi
uma verdadeira demonstração de cidadania
e democracia. Tenho certeza que, no futuro,
nossas crianças serão pessoas conscientes e
cumpridoras de seus direitos e deveres.
PLANO DE AÇÃO N° 13
Objetivos Específicos: Contar histó-
rias, caracterizando-se como "Dona Benta",
personagem do "Sítio do Pica-Pau Ama-
relo", para atrair a atenção das crianças,
criando, assim, um clima de interação entre
professora e alunos.
Expor vários tipos de texto para as
crianças terem acesso e opção de escolher o
que mais lhe interessar.
A hora da contação é para as crianças
um momento especial, onde elas viajam na
fantasia e, cada vez que aparece um per-
sonagem diferente dos já apresentados, é
aquela festa, mesmo sabendo que, na re-
alidade, é uma fantasia. Observam minu-
ciosamente cada detalhe e ouvir a história
é como comer um doce predileto, algo que
dá prazer e isso pode se constatar com a
expressão facial das crianças que é só con-
tentamento.
No momento de manusear livremente
os diversos tipos de textos e ler o que
despertasse interesse, de início queriam ver
tudo ao mesmo tempo. Então foram feitas
intervenções no sentido de orientá-los e dar
algumas dicas de como deveriam proceder.
A partir desse instante, passaram a fazer
suas escolhas com mais calma e convic-
ção.
PLANO DE AÇÃO N° 14
Objetivos Específicos: Convidar os
pais a virem à escola para participar das
atividades de incentivo à leitura e à arte.
Realizar trabalhos de arte através da dobra-
dura e da colagem.
A participação dos pais foi maravi-
lhosa, pois eles realmente se doaram na
hora da contação da história. Mais bonito
mesmo era a alegria expressa no rosto das
crianças, ao ver alguns pais dentro da sala
de aula participando daquele momento
especial para eles que é a hora da contação
de histórias, ficando assim atentos, não se
dispersando um instante. Ao realizar a
interpretação oral sobre a história, a parti-
cipação foi geral e todos queriam falar ao
mesmo tempo.
Na aula de artes, as crianças ainda
estavam contentes por causa da história e
não paravam de tecer comentários umas
com as outras, mas participaram da ativi-
dade com bastante entusiasmo, seguindo
as instruções. Percebendo, nesse instante,
que algumas crianças demonstravam difi-
culdade ao trabalhar com dobradura e co-
lagem, melhoraram bastante com a prática
frequente.
PLANO DE AÇÃO N° 15
Objetivos Específicos: Fazer uma ex-
cursão à biblioteca pública da cidade com
a finalidade de interagir com os outros am-
bientes letrados e criar desenhos usando a
criatividade, de acordo com o passeio rea-
lizado.
Essa aula foi para os alunos um mo-
mento inesquecível. Pois a maioria deles
nunca teve acesso a um ambiente tão rico
de informações. Algumas não acreditavam.
Era perceptível o brilho nos olhos daquelas
crianças que só saem de casa para escola
sem ter oportunidade de acesso a outros
ambientes desconhecidos.
Ao manusear os livros do acervo in-
fantil próprio para suas idades, foi só ale-
gria. Não sabiam nem por onde começar.
Fizeram atividades de desenhos e monta-
gem, pois este setor da biblioteca tem um
cronograma de atividades que são realiza-
das com os pequenos visitantes, de acordo
com os dias da semana. E, na volta para a
escola, não cansavam de conversar uns
com os outros sobre o que haviam visto, os
livros que tinham lido c sobre como havia
sido legal quando saíram da biblioteca as-
sinar o nome em um livro de controle de
visitação.
PLANO DE AÇÃO N° 16
Objetivos Específicos: Participar de
atividades que envolvem leitura. Apreciar
suas produções artísticas e a dos colegas
feitas em aulas anteriores. Favorecer mo-
mentos de recreação educativa, a fim de
desenvolver a expressividade e a socializa-
ção.
Nesta aula, o ambiente transformou-
se em lugar especial, pois foi montado um
cenário encantador aos olhos de quem ali
chegasse e olhasse. Estavam expostos algu-
mas amostras de todos os trabalhos de arte
realizados pelas crianças. Ali estava organi-
zado um cantinho aconchegante com livros
infantis e um cenário para dramatização da
história "Chapeuzinho Vermelho" escolhida
na votação para ser trabalhada pelos mem-
bros do clubinho da leitura, onde algumas
crianças atuaram mostrando desenvoltura
e os demais prestigiaram, assistindo com
atenção e aplaudindo seus colegas no final
da apresentação.
Partimos da ideia de que a avaliação
da aprendizagem deve ser um processo
contínuo, capaz de acompanhar a constru-
ção do conhecimento na qual a criança está
envolvida. Nesta perspectiva, utilizamos
alguns instrumentos de avaliação ao longo
do processo de aprendizagem, tanto nas
atividades individuais quanto nas de gru-
pos, tais como:
Observando a participação das crian-
ças nas atividades individuais e em
grupo realizadas dentro e fora da sala
de aula.
Analisando as produções das crianças,
considerando todas as atividades rea-
lizadas.
• Refletindo o desenvolvimento e os re-
sultados de cada aula, a fim de reestruturar
a ação pedagógica, sempre que necessário,
para que haja uma aprendizagem efetiva e
eficaz. Assim, esse processo de avaliação
da aprendizagem reconhece que o aluno é
o sujeito construtor do próprio
conhecimento, deixando de ser um mero
repetidor ou reprodutor das ideias alheias e
que é importante respeitar seus diferentes
níveis de desenvolvimento e ritmos de
aprendizagem, além de dar especial
atenção à sua auto -estima.
Com esta prática, foi possível conhecer
nossas crianças, o que pensam e o que ain-
da lhes é difícil compreender, bem como os
reais interesses de cada um.
Tudo isso nos aponta caminhos para
repensar constantemente nossa prática pe-
dagógica, selecionar conteúdos significati-
vos, propor novos desafios e valorizar os
progressos, os avanços c as conquistas dos
alunos em termos de aprendizagem. E não
se apegar de modo exagerado ao que ele
ainda não aprendeu, contemplando, assim,
todas as dimensões da formação humana,
que sejam os aspectos cognitivos, sócio -
afetivos e psicomotores.
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