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PROFESSOR DA PRÉ-ESCOLA
VOL.II
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO
Secretaria de Educação Fundamental
Brasília
1994
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© 1990
Direitos autorais exclusivos
da Fundação Roberto Marinho
Impresso no Brasil
Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme De-
creto n.° 1.825, de 20 de dezembro de 1907.
P942 Professor da pré-escola/Fundação Roberto Marinho. 3 ed. -
Brasília: MEC/SEF/DPE/COEDI, 1994.
2v.;il.
Convênio entre a Fundação Roberto Marinho e o
Ministério da Educação, para capacitação de
professores da pré-escola.
1. Formação de professores. 2. Educação pré-escolar.!.
Título
CDU - 371.13
372.3
Esta 3
a
edição foi publicada pela
SEF - Secretaria de Educação Fundamental
Presidente da República
Itamar Augusto Cautiero Franco
Ministro da Educação e do Desporto
Murílio de Avellar Hingel
Secretária de Educação Fundamental
Maria Aglaê de Medeiros Machado
Secretário Executivo do MEC
Antônio José Barbosa
Diretor do Departamento de Políticas Educacionais
Célio da Cunha
Coordenadora Geral de Educação Infantil
Angela M. Rabelo F. Barreto
PROFESSOR DA PRÉ-ESCOLA
Projeto de educação por multimeios
produzido mediante convênio entre a
Fundação Roberto Marinho
e o Ministério da Educação, para capacitação
de professores da pré-escola.
O Projeto é composto de 2 volumes impressos
e 20 programas de TV realizados pela
Fundação Roberto Marinho.
Todos os direitos reservados.
Rua Gabriel dos Santos, 153 — CEP 01231
— São Paulo, SP.
Presidente de Honra
Roberto Marinho
Diretor-Geral
Roberto Irineu Marinho
Diretor-Adjunto
Pedro Ramos de Carvalho
Secretário-Geral
Joaquim Falcão
Superintendente Administrativo e Financeiro
Joberto Pio da Fonseca
Superintendente de Educação
Calazans Fernandes
Coordenação e Apoio
Carlos Alberto Felizola Freire
Coordenador-Adjunto
José Maruílson Costa
PROJETO PROFESSOR DA PRÉ-ESCOLA
Diretor e Editor Responsável
Calazans Fernandes
Direção de Criação e Coordenação do Projeto
Isa Grinspum Ferraz
Professores Autores
Monique Deheinzelin
Zélia Vitória Cavalcanti Lima
Concepção Editorial
Sônia da Silva Lorenz
Diagramação
Sônia da Silva Lorenz
Victor Nosek
Roteiros para TV
Antônia Terra Calazans Fernandes
Helena Tassara
SUPERVISÃO TÉCNICA
DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Professor Vital Didonet
Consultores
Prof.' Márcia Mendes Mamede Prof.
Roberto Aparecido Algarte Prof.
Américo Peixoto Prof/' Júlia Maria
Passarinho Chaves
Observação: Este volume foi elaborado
na administração anterior.
«
SUMARIO
11. MÚSICA E DANÇA 1
12. A ESCOLA, AS CRIANÇAS E AS HISTÓRIAS 7
13 NÚMEROS E ALGARISMOS 41
14. ARITMÉTICA NA PRÉ-ESCOLA 57
15. LINGUA PORTUGUESA 73
16. A LÍNGUA PORTUGUESA NA PRÉ-ESCOLA 99
17. A AVÓ, O DINOSSAURO E O DEUS 117
18. ATUAÇÃO DO PROFESSOR 135
19- PRESSUPOSTOS PEDAGÓGICOS 153
20. A FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS E DOS PROFESSORES 167
APRESENTAÇÃO
Este é o segundo volume de uma obra em dois volumes contendo
ensaios sobre a educação de crianças em idade pré-escolar: como elas
pensam, crescem e se desenvolvem; o que é, para elas, o brincar e o
aprender. As principais questões que se colocam na formação dos
professores da pré-escola, as características de sua prática profissional
e seus instrumentos para atuação em classe são discutidos aqui numa
abordagem simples, porém instigante. PROFESSOR DA PRÉ-
ESCOLA dirige-se a quem quer que esteja interessado em entender as
crianças pequenas para melhor trabalhar com elas. Nele, professores e
educadores encontrarão um rico material para o debate, a reflexão e,
conseqüentemente, para o aperfeiçoamento da sua prática.
O livro PROFESSOR DA PRÉ-ESCOLA foi originalmente
concebido como parte de uma programação composta também
por programas de televisão: a cada capítulo do livro corresponde
um programa sobre o mesmo tema. Esses ensaios, no entanto, não são
uma transposição direta dos programas e, neste sentido, • podemos
dizer que o livro possui vida própria, trazendo também grande
interesse para o leitor.
7
11. MUSICA E DANÇA
O sax da alta madrugada, as duplas cai-
piras tocam cedo porque os trabalhadores
do campo começam cedo, a música-geral de
acordar a cidade, os funcionários moto-
rizados, os motoristas de táxi, o rádio o dia
inteiro ligado da empregada, o rádio de pi-
lha do operário da construção, a música de
fundo das lojas, o som em freqüência mo-
dulada, o quarto dos adolescentes, as sin-
fonias c quartetos depois das refeições. A
música por todos os lados, uma espécie de
hábito, uma espécie de habitat, algo que
completa o lugar de morar, o lugar de tra-
balhar, seu uso constante num preencher os
hiatos do meio ambiente, do meio ambiente
físico e subjetivo, a música distração, distrai
o trabalho, distrai o lazer, faz contraponto
cego com o que eu vou fazer, papel de
parede, pano de fundo, ponto de fuga,
acompanhamento em harmônico, agudo, da
atividade viver, em toda parte, uma espécie
de cenário, jardim portátil.
O Minuto e o Milênio ou
Por Favor, Professor, Uma
Década de Cada Vez. José
Miguel Wisnik
O processo de educação das crianças em uma cultura, seja ela
qual for, passa pela aprendizagem de todos os elementos que a cons-
tituem: a organização social e econômica, a estrutura das relações de
parentesco, a língua, a religião, a música, a dança, etc. Cabe aos
adultos educar as crianças, isto é, fazer com que elas conheçam es-
ses elementos para que cresçam contribuindo para o desenvolvi-
mento dos aspectos definidores de seu povo, enquanto se desen-
volvem individualmente, alimentadas pela cultura que já encontram
ao nascer.
Como já vimos, a escola é, em sociedades como a nossa, um
lugar criado para que grande parte desse processo educativo acon-
teça. Muitos dos elementos culturais que há cem anos o espaço fa-
miliar se encarregava de transmitir às novas gerações passaram, neste
século, a ser responsabilidade de instituições escolares especiali-
zadas. Entre eles estão a Música e a Dança, que se tornaram então
"estudos especiais", algumas vezes (principalmente a música) in-
corporados ao curriculum de Arte das escolas, descaracterizados
como objetos socioculturais específicos.
Música e Dança sempre fizeram parte da vida dos homens em
sociedade.
As origens da Música e da Dança como expressões humanas se
perdem na história remota da vida dos homens. Até hoje, os es-
pecialistas na história dessas artes não chegaram a um acordo acerca
de suas origens. Alguns acreditam que a música teve início com o
canto, enquanto outros afirmam que ela principiou com ritmos
tamborilados que provavelmente acompanhavam danças em rituais
para aumentar as colheitas ou assegurar boas caçadas.
De acordo com outros autores, a música originou-se de tenta-
tivas do Homem de domar aspectos da Natureza que considerava
perigosos. Os ruídos caóticos do trovão, das tempestades e dos ru-
gidos de animais eram organizados em rituais onde se produziam
sons com instrumentos feitos de materiais obtidos de animais mortos
— a pele transformava-se em tambores, os ossos em instrumentos de
sopro, as vísceras em instrumentos de corda. Agindo dessa forma, os
homens sentiam-se um pouco mais seguros diante das forças
indomáveis da Natureza.
A dança, para os povos primitivos, constituía também uma
linguagem fundamental. Segundo alguns estudiosos, em todas as
circunstâncias importantes da existência a dança era a representação
daquilo que já tinha acontecido, do que estava acontecendo, ou do
que se queria fazer acontecer: as relações sexuais, a caça, a guerra, o
ciclo das estações, a vida e a morte. Em todas estas danças, o
aspecto e o comportamento dos dançarinos seguiam normas de uma
linguagem ritual feita de gestos, ritmos e de sons, de máscaras,
roupas e acessórios variados. Constituía-se. assim, uma linguagem
sagrada que consistia em evocar imagens e situações mitológicas nas
quais se reconhecia tudo o que de essencial podia acontecer na
coletividade.
Apesar dos diferentes pontos de vista, uma coisa é certa: mú-
sica e dança são atividades existentes desde tempos primitivos e. em
suas histórias, elas aparecem freqüentemente associadas.
Orfeu, de Gerda Brentani
MÚSICA À NOSSA VOLTA
A música é uma arte. A arte de preencher uma determinada
quantidade de tempo com sons organizados de forma a "raptar" a
atenção de quem a escute.
Uma criança, ao nascer, encontra-se de imediato envolvida pela
"paisagem sonora" em que vive sua família e a comunidade a que
pertence. A "paisagem sonora" — soundscape, expressão criada
pelo compositor canadense Murray Shaffer — é este vasto ambiente
musical em que estamos imersos, composto dos mais diversos
elementos.
Cada época, cada sociedade, cada comunidade tem sua "pai-
sagem sonora" particular, embora sejam inúmeros os elementos co-
muns entre essas diferentes "paisagens". Os instrumentos, ritmos e
formas musicais têm se tornado, ao longo da história da música,
cada vez mais universais, havendo uma interpenetração, no espaço e
no tempo, de "paisagens sonoras" diferentes. Por exemplo: a música
popular brasileira e a norte-americana compõem a' 'paisagem
sonora" não só das sociedades brasileira e americana como também
da européia e mesmo da japonesa, na medida em que compositores
como Jorge Ben e Michati Jackson são tocados com freqüência nas
rádios de cidades como Tóquio ou Paris. Muitos dos cânticos que
atualmente são entoados nas igrejas católicas de diferentes cidades
brasileiras são composições que tem origem na Idade Média — no
canto gregoriano. Desta maneira, a música da Idade Média também
compõe nossa "paisagem sonora" contemporânea.
Uma criança pequena está imersa no "ambiente sonoro" de sua
família e está também exposta à "paisagem sonora" de sua época. Ao
conviver com seu grupo social e através do contato com os meios de
comunicação de massa (rádio, televisão, discos, etc), ela irá cons-
truindo o seu repertório musical. Quanto mais seu ambiente sonoro
puder se expandir, mais ampla será sua educação musical, ou seja,
quanto mais oportunidades a criança tiver de ouvir músicas de
diferentes qualidades — do cancioneiro popular, da tradição cultural
(folclore) e religiosa da comunidade, música erudita de diferentes
épocas e tipos, etc. — mais alimento terá para a construção de
conhecimentos sobre música e para o desenvolvimento de sua
capacidade de escuta musical, capacidade
que lhe dará condições de selecionar, do que
ouve, aquilo que constituirá o seu "gosto
musical".
As crianças também têm contato, desde
pequenas, com diferentes expressões do
mundo da dança em festas da cultura po-
pular (carnaval, festas folclóricas, bailes, etc),
através da televisão, do cinema e do teatro.
As crianças sabem que dançar é uma ativi-
dade associada à música, isto é, que dançar
é produzir com o corpo movimentos que
acompanham determinado ritmo musical.
Podemos observar que, desde muito peque-
nas, elas já acompanham as músicas que ou-
vem com palmas, sapateados, volteios de ca-
beça ou de quadris.
Da mesma forma como acontecerá
com o desenvolvimento musical, quanto
mais as crianças tiverem acesso a situações
em que possam se relacionar com expres
sões de dança — dançando ou assistindo a
outras pessoas dançar — mais conhecimen-
to poderão construir sobre essa forma de |
expressão. s
MÚSICA E DANÇA NA PRÉ-ESCOLA
Existem algumas propostas de trabalho com música e dança
para as pré-escolas. Podemos observar entretanto que estas aparecem
geralmente incorporadas às rotinas das classes como instrumentos
para que alguns objetivos sejam alcançados-, objetivos relacionados
ao desenvolvimento social e emocional da criança e também,
algumas vezes, à aquisição de habilidades psicomotoras específicas.
Há também algumas práticas que visam preparar a criança pe-
quena para um aprendizado posterior. São, por exemplo, propostas
de atividades para identificar ruídos provenientes de várias fontes,
ouvir e distinguir ruídos provenientes do meio natural e humano,
diferenciar ausência e presença de som, acompanhar com palmas,
movimentos de corpo ou batuques diferentes ritmos. Todas estas
atividades visam preparar as crianças para estudos posteriores mais
aprofundados.
A partir destes pontos de vista, música e dança, quando não são
tomados como simples instrumentos, se transformam em conteúdos
para a aprendizagem dos quais cabe à pré-escola preparar as
crianças. Escolarizadas, essas linguagens, meios genuínos de ex-
pressão e comunicação humana, ficam destituídas de suas caracte-
rísticas de objetos de conhecimento socialmente produzidos e his-
toricamente construídos, com os quais as crianças entram em contato
desde muito pequenas e sobre os quais começam a construir
conhecimento muito antes de entrar na escola. Assim, não se con-
sidera o prazer de produzir ou, simplesmente, de usufruir a beleza e
a alegria que música e dança podem proporcionar.
A escola, enquanto espaço institucional para transmissão de
conhecimentos socialmente construídos, pode se ocupar em pro-
mover a aproximação das crianças com outras propriedades da mú-
sica que não aquelas reconhecidas por elas na sua atuação direta, na
sua relação espontânea com a música.
Isso pode se realizar através de atividades que promovam a
ampliação e transformação do ambiente sonoro das crianças (aquilo
que elas já conhecem da música quando chegam à escola) e que as
coloquem em contato com a história desta arte que vem sendo
construída pelos homens através dos séculos.
Cabe aos professores criar situações de
aprendizagem nas quais as crianças possam
estar em relação com um número variado de
produções musicais não apenas vinculadas
ao seu ambiente sonoro mas, se possível,
também de origens diversas:
de outras famílias, de outras comunida-
des, de outras culturas:
de diferentes qualidades: folclore, música
popular, música erudita, etc.;
• dediferentesépocas:IdadeMédia, Renas-
cença, Séc. XIX, Contemporânea, etc;
de diferentes formas musicais: sinfonia,
música de câmara, samba-enredo, hino,
rock, etc;
de diferentes compositores populares e
eruditos.
Essas atividades devem partir do que
as crianças já conhecem — do repertório
pessoal de cada criança e do repertório co-
mum à classe — e se desenvolver dentro das
condições e possibilidades de trabalho de
cada professor.
Até a adolescência tardia, minhas re-
lações com produções artísticas se concen-
travam na música e na dança. A música po-
pular era um alimento diário minha mãe
era fã incondicional da Emilinha Borba (ja-
mais da Marlene), do Nelson Gonçalves e
do Orlando Silva. Os americanos chegaram
blues e jazz na puberdade e eu "caí de
boca". A música erudita, chamada clássica,
chegou através de uma coleção da Abril Cul-
tural e eu adorava os compositores
românticos.
A dança clássica era o meu sonho. Eu
queria ser bailarina, mas o preconceito pa-
terno, que via nesta profissão uma ' 'nódoa''
na família, me impediu de rivalizar com a
Isadora Duncan. Me resignei a ficar tentan-
do, em casa, repetir os passos da Rita Hay-
worth, do Fred Astaire e dos companheiros
do Gene Kelly; "Dançando na Chuva" enos
salões do clube de bairro nas festas da
Rainha da Primavera.
Depoimento da professora Vitória Lima
do Rio de Janeiro.
É o professor quem decide, a partir do
seu próprio conhecimento e de suas prefe-
rências musicais, quais as melhores fontes
onde buscar informações sobre aspectos que
a música envolve e que não são diretamente
observáveis: os instrumentos, suas ca-
racterísticas e sua história; os compositores,
sua biografia, época e produção; as desig-
nações das diferentes formas musicais e de
como podem ser executadas (os concertos
são executados por orquestras sinfônicas, o
samba-enredo por coro de vozes e bateria,
etc).
Essas fontes de informação podem ser,
por exemplo, depoimentos de pessoas da
comunidade (instrumentistas, compositores,
cantores, estudiosos da História da Música),
participação em eventos públicos religiosos
ou laicos, material fonográfico (discos e
fitas), material impresso (jornais, revistas,
livros de História da Música, partituras,
etc).
O guia de trabalho do
regente é a partitura
orquestral, lista página
(acima) pertence à ópera
Os mestres cantores. de
Wagner.
Muitas partituras modernas
apresentam muito pouca
semelhança com as de
períodos anteriores. Alguns
compositores usam uma
notação prática própria
(acima) em vez de notas.
como se pode ver nesta seção
da partitura de Odisséia,
escrita pelo compositor
búlgaro Anestis Logothetis.
Trata-se de uma partitura de
baié para três grupos de
músicos.
Não existem temas ou músicas inadequadas ou inacessíveis
para crianças, quando são introduzidas de maneira a respeitar suas
condições de aprendizagem.
É também uma ilusão pensar que a falta de recursos tecnoló-
gicos (do tipo gravadores, vitrolas, discos, fitas) ou instrumentos
musicais em classe impossibilite um bom trabalho com música. O
professor e as crianças trazem consigo todo o tempo os instrumentos
necessários para esse trabalho: a própria voz e a capacidade de ouvir
e reproduzir com o canto tudo o que puder ir sendo incorporado ao
repertório da classe.
O canto é a mais pessoal e íntima das formas musicais. Cada
pessoa possui a sua própria "impressão musical", assim como tem
sua "impressão digital", com características únicas. Se o professor
puder considerar as particularidades e possibilidades da voz de cada
criança, saberá que tem em sua classe um número incalculável de
instrumentos com os quais poderá realizar seu trabalho.
DANÇANDO A TARANTELA
As crianças sabem que se dança música, isto é, que a dança está
associada à música, e geralmente sentem grande prazer em dançar. Se os
professores levarem isso em conta e considerarem como ponto de partida
o repertório atual de sua classe (o das crianças e o seu próprio) e
puderem expandir este repertório comum com o repertório do seu grupo
cultural e de outros grupos, criando situações em que as crianças possam
dançar, certamente estarão contribuindo significativamente para a
formação das crianças.
É necessário que os professores se reconheçam como sujeitos mediadores de cultura
dentro do processo educativo infantil e que levem em conta a importância do aprendizado
das artes no desenvolvimento e formação das crianças como indivíduos produtores e re-
produtores de cultura. Só assim poderão procurar e reconhecer todos os meios que têm em
mãos para criar, à sua maneira, situações de aprendizagem que dêem condições às crianças de
construir conhecimento sobre música e dança.
12. A ESCOLA, AS CRIANÇAS E AS HISTÓRIAS
m
Festa Imodesta
de Caetano Emanuel Viana Télles Veloso
Numa festa imodesta como esta vamos
homenagear
lodo aquele que empresta sua testa construindo
coisas pra se cantar
Tudo aquilo
que o malandro pronuncia
que o otário silencia
toda festa que se dá ou não se dá
Passa pela fresta da sexta e resta a vida
Acima do coração
Que sofre com razão
A razão que mora no coração
E acima da razão a rima
E acima da rima as notas da canção
Bemol natural
Sustenida no ar
Viva aquele que se empresta
A essa ocupação
Salve o compositor popular.
A LENDA DA ESTRELA
Mito Xavante
Uma vez, adolescentes que participavam de uma grande caçada realizada por sua tribo
ficaram deitados ao relento olhando para o céu. Um deles disse ao amigo que estava deitado ao
lado:
Olha amigo, aquela estrela é muito linda. Eu gosto daquela.
E o outro falou:
— Aquela eu não gostei. Olhe aquela lá. Aquela sim é linda mesmo. Gostaria que ela
descesse para cá para me pegar e me levar junto com ela.
Depois desta conversa dormiram.
Enquanto eles dormiam, a moça que era estrela desceu sem que o rapaz percebesse.
Desceu e ficou junto, dormiu junto.
Por volta das 5 horas da manhã, quando o rapaz estava acor-
dando, se virou e viu que tinha gente junto com ele. Então pergun-
tou:
Quem é você?
Sou aquela que você disse ontem que queria que descesse
aqui para buscar você, disse a moça.
O rapaz ficou admirado. E ela continuou:
Eu desci para levar você. Eu gosto de você e você falou que
gosta de mim.
Os rapazes haviam marcado uma hora para sair e pegar embi-
ra. A mãe do rapaz estava esperando o filho sair para essa tarefa,
mas não o viu sair da casa dos adolescentes. Pediu então ao irmão
menor:
Vá lá chamar o teu irmão. Por que ele não saiu ainda?
Ele corre e diz ao irmão:
Olhe mano, mamãe me mandou chamar você para ir agora
comer alguma coisa e depois ir no mato pegar emhira.
Não, agora não dá para ir. Vou ficar aqui até mais tarde, dis-
se o rapaz.
E o irmão menor voltou para a casa dele e contou para a mãe:
Olhe mamãe, ele falou que não vai. Ele vai ficar.
Vai lá de novo. Fala com ele para ir pegar embira que ele
me disse que ia.
Então o irmão foi de novo e o rapaz falou:
Não, eu não vou. Eu vou ficar aqui.
O irmão voltou para casa e contou para a mãe, que disse:
Vai lá e veja se ele está sozinho. A mãe pensou diferente,
desconfiou.
O irmão voltou à casa dos rapazes e retirou a esteira que anti-
gamente servia de coberta e viu que havia uma moça com o irmão.
Então correu para casa e contou ã mãe o que tinha visto: que o ir-
mão não estava sozinho, que havia uma moça com ele. A mãe então
foi com o filho à casa dos rapazes.
Enquanto eles iam de casa para a casa dos jovens, a moça saiu
dizendo ao rapaz.
Vou na frente. Se a mãe vier, ela vai me conhecer. Eu vou
para lá. Você vai neste rumo e lã tem um jatobá e lá perto tem uma
árvore que parece um babaçu. A moça saiu e foi esperar no local
combinado.
E o rapaz ficou sozinho. A mãe chegou e não disse nada, só
tirou a esteira. Então disse:
Como você está sozinho? Seu irmão falou que tinha gente.
Não, estava sozinho. Ele viu errado. Se enganou pensando
que tinha gente.
Então ele está mentindo. Você está sozinho.
Então o rapaz disse à mãe:
Arrume uma borduna pequena e um lanche para comer no
mato. E saiu junto com o irmão pequeno que também levava uma
borduna pequena.
Enquanto caminhavam, disse ao irmão:
Quando chegarmos lá, você vai bater no tronco do babaçu
cantando para ele crescer.
O rapaz subiu no tronco do babaçu e a moça disse ao menino
que ele deveria bater cantando auedepana, uauedepana para a ár-
vore crescer.
E o babaçu foi crescendo até entrar lá no céu.
E aquele irmão pequeno batia chorando e também gritando, se
sentia sozinho e não sabia como iria voltar para casa. Correu tanto
que espantava os pássaros que voavam e assustavam mais ainda o
menino.
Chegando em casa, o menino contou tudo à mãe, o que tinha
acontecido com ele e que não havia falado mentira; que a moça
estava lá esperando perto do jatobá.
Passados 5 anos, o rapaz voltou trazendo cará para a mãe, que
a moça que era estrela havia mandado ele trazer para a mãe. O ra-
paz desceu e falou para os pais:
E é verdade que eu não vou estar mais aqui. Eu subi para
o céu. Eu gostei de lá e por isso não vou voltar mais. Só voltei para
avisar vocês que eu não vou estar mais aqui. O moço falou assim
para os pais. Aí os pais ficaram sabendo.
É aqui que termina a história. A nossa lenda.
Esta lenda foi contada pelo professor Miguel, professor Xavante,
a seus pequenos alunos xavantes na escola da Colônia São José do
Sangradouro, em Poxoréu, Mato Grosso.
Contar e ouvir histórias é uma atividade sempre presente na
rotina das crianças que freqüentam classes de pré-escola. Embora
possam divergir sobre as razões de seu valor e sobre os objetivos
que atende, todos os professores reconhecem que esta é uma ativi-
dade insubstituível. Estão de acordo que é bom para as crianças
poder ouvir histórias, até porque é evidente, no cotidiano das clas-
ses, que crianças adoram histórias.
Com a palavra, os professores.
Relatório 1
A história do trepa-trepa que virou pé de feijão e da cai-xa-
d'água que virou torre de Rapunzel.
A paixão das crianças por histórias e contos de fadas é notória
desde o maternal. Mas em nosso Jardim I, o jogo simbólico em
pleno auge, elas adquirem um apelo todo especial e a roda de his-
tórias ê uma atividade apreciadíssima pelas crianças e... por nós.
No primeiro semestre, quatro livros faziam furor: "João e o
PédeFeijão", "Quico", "Rapunzel"ea "Bela Adormecida". Líamos e
relíamos os quatro, sempre acrescentando mais detalhes. As crian-
ças, na medida em que captavam mais o enredo das histórias, adian-
tavam, impacientes, as seqüências favoritas, cobravam certos por-
menores, e acabávamos criando com elas uma maneira bem parti-
cular de contar cada conto. Assim, a voz da bruxa de Rapunzel de-
veria ser bem estridente para que soasse ridícula e todos pudessem
gargalhar; Joãozinho encara o gigante e lança um ' Bilu-Bilu-Tetéia
antes de empreender sua descida. O príncipe da "Bela Adormecida"
não poderia de forma alguma deixar de empunhar seu escudo e
espada com valentia e "Quico", o ratinho que se arrepende de
crescer, deveria parecer muito triste.
Conhecíamos a obra de Bruno Bettelheim,"A Psicanálise dos
Contos de Fadas", e sabíamos que provavelmente algumas histórias
ofereceriam um atrativo maior. E,de fato, a relação das crianças
com as quatro citadas acima foi muito forte. Forte a ponto de
servirem como alimento para os jogos dramáticos que surgiam es-
pontaneamente no parque. E assim, por vários dias, o trepa-trepa
"se transformou" num pé de feijão, e quando íamos para a caixa-d
água, a horta bem ali ao lado, ela só poderia ser a torre de Rapunzel.
Através da observação desta relação, fomos aventurando al-
gumas hipóteses. Notamos que "Quico" era requisitado sempre que
havia aniversários; durante a leitura de "João e o Pé de Feijão", para
nossa surpresa, reparamos que as crianças se emocionavam mais
"Fecha os olhos, não olha agora" no momento em que a mãe
se zanga devido à troca da vaca pelos feijões mágicos. Voltamos a
Bettelheim-. "Em vez de aprovar o primeiro ato de independência e
iniciativa do filho, a troca da vaca pelas sementes, a mãe o ridicu-
lariza, fica com raiva dele, bate nele, pior ainda, incorre no exerci-
cio de seu poder oral destruidor; como castigo pela demonstração
de iniciativa, manda João para a cama sem comer."
Foi como se tivéssemos encontrado a chave do mistério. la-
vamos a eles "O Pequeno Polegar", o sucesso foi retumbante; o me-
norzinho é o mais esperto da família, salva os irmãos do gigante e
os pais da pobreza. Ao ouvirem "Os Sete Corvos", não se identifi-
caram com sete moleques endiabrados, tão infernais a ponto de le-
varem a mãe à "loucura", mas cuja ausência é profundamente sen-
tida.
Professoras Heloísa Brás de Oliveira Prieto e
Vânia Marincek
Classe de crianças de três a quatro anos de idade
Relatório 2 Roda de
história
É um momento onde nossas relações estão permeadas de um
clima muito afetivo.
A princípio foi muito desafiador, as crianças voltavam do par-
que agitadas e eu não conseguia estabelecer limites, era uma alga-
zarra geral.
Não estava envolvida com a primeira história que contei para
elas, pois não a tinha lido previamente e a história não era boa. Fi-
quei dividida entre conhecer o conteúdo da história e o interesse das
crianças, o que só aumentou a confusão, que já era grande. Saí
pensando no que fazer, depois lembrei como era bom quando minha
avó contava-me histórias de fadas. Resolvi levar Rapunzele contei
para eles, falei a respeito dos autores os Irmãos Grimm. Houve
um silêncio grande na classe, o interesse era geral. (...)
Acho que esta ponte que se estabeleceu entre nós e a escolha
dos contos de fadas, apesar de parecer aleatória, faz muito sentido
quando pensamos que os contos de fadas têm a peculiaridade de
transportar as crianças para um universo fantástico e dentro dele
trata os conflitos relacionados com abandonos,competitividade,au-
tonomia e todo drama da turbulência humana, trazendo sempre uma
solução de final feliz.
Professora Deborah Valverde
Classe de crianças de quatro a cinco anos de idade
Relatório 3 Roda de
história
Esta roda é um momento que serve para acalmá-los da agita-
ção do parque e também concentrá-los para a atividade em grupo.
As histórias contadas são geralmente contos de fadas. Escolhemos
estes por acreditarmos que estão repletos de magia que alimenta e
aumenta o universo de representação das crianças, além de serem
histórias enriquecedoras do vocabulário c da vivência.
Hoje em dia, nosso procedimento na história é de, geralmente,
lê-la para as crianças. Digo hoje, pois durante algum tempo acre-
ditávamos que a leitura seria cansativa. Qual não foi nossa surpre-
sa ao vermos que durante a leitura as crianças ficam atentas e não
perdem uma linha do que foi dito. Isso não quer dizer que outras
histórias não sejam contadas; seria um erro, pois estaríamos res-
tringindo o universo de leitura e conhecimento das histórias. Dei-
xamos isto claro para as crianças, quando estamos lendo e quando
estamos contando sem ler.
Nesta roda, sentimos que o grupo queria um momento para
conversar sobre a história contada. Mas como? Falando no meio da
história? Não. Então conversamos com eles e decidimos que depois
da história conversaríamos sempre sobre ela. Hoje, estas conversas
servem também para compararmos as diferentes versões das
histórias. Por exemplo: já lemos três versões da história de Rapun-
zel. Na primeira versão lida, a mãe de Rapunzel come rabanetes; na
segunda, come cerejas -, e na terceira, come tomates. Desta ma-
neira, acreditamos que estamos abrindo horizontes para as desco-
bertas das crianças, mostrando a elas que até as histórias mudam
dependendo do livro.
Professora Rita Couceiro de Oliveira
Classe de crianças de três a quatro anos de idade
Relatório 4 Roda de
história
Durante o ano todo, tivemos uma grande diversidade de textos
literários, passando por contos clássicos, populares, versos, trava-
línguas e poesias.
Com isso, procurei colocá-los frente à diversidade e à poten-
cialidade de expressão da língua, contribuindo para o desenvolvi-
mento da sensibilidade verbal e expressiva das crianças.
Partindo dessas idéias básicas, é que (...) procurei garantir um
espaço diário para a leitura na sala — a roda de histórias.
Esta configurou-se como uma atividade privilegiada entre as
outras tantas que temos, contando com grande concentração e or-
ganização do grupo, além da participação ativa das crianças na es-
colha do livro e no diálogo travado entre livro e leitor.
Quando uma história era muito curta, geralmente líamos mais
de um livro na roda; porém, se a história era comprida, levávamos
mais de uma roda para lê-la.
Assim, lemos diversos livros em capítulos, sempre retomando o
que havia acontecido anteriormente para, então, dar continuidade à
história.
As crianças, de modo geral, contribuíram muito trazendo livros
de suas casas, e assim pudemos completar a leitura de coleções -. As
Bruxas, Príncipes e Princesas; Os Gigantes; Os Dragões; Fadas,
Duendes e Gnomos, e os Feiticeiros, todos muito apreciados pelas
crianças (...)
Meu objetivo maior com esta atividade
é despertar nas crianças o prazer pela lei-
tura. E, quanto a isso, até agora não tenho
indícios de que o caminho não seja esse.
Acho que o grupo tem desenvolvido a res-
posta a essa questão com o interesse e a con-
centração demonstrados.
Uma brincadeira espontânea nascida
no grupo também demonstra isso: enquanto
percorro o parque, chamando todas as
crianças para a roda, eles antecipam-se e ra-
pidamente organizam um preâmbulo da ro-
da de história: o caderno de desenhos de
uma criança é escolhido para ser "contado",
como se fosse um livro, pelas próprias crian-
ças. Algumas vezes, é o próprio autor que a
conta; na maioria das vezes, porém, são
outras crianças que tentam dar uma conti-
nuidade aos desenhos feitos, criando per-
sonagens e fio condutor da narrativa. Re-
cheada com muito humor, esta brincadeira
tem sido o "trailler" das nossas rodas,
tornando-as mais gostosas!
Professora Daniela Padovan
Classe de crianças de quatro
a cinco anos de idade
Antonia, 7
A forma de roda é privilegiada para ati-
vidades em grupo, por permitir igualdade de
condições, de espaço, audição e visão para
todos os seus elementos. Ela favorece a
fluência das ações que a atividade envolve.
Muitos professores têm usado a situação de
roda para desenvolver diferentes atividades
na classe. Principalmente nas pré-escolas, é
comum encontrarmos algumas atividades de
rotina realizadas em roda. Dentre estas
atividades em roda, a mais generalizada é a
roda de histórias.
É inegável que as histórias contribuem em muitos momentos e
em diferentes aspectos da escolaridade infantil. Esses trechos de
relatórios nos dão alguns exemplos de como os professores incor-
poram as histórias aos seus planejamentos de classe. Neles, podemos
observar que os professores trabalham de acordo com o que pensam
ser os aspectos privilegiados das relações história-aprendizagem e
história-desenvolvimento. Vemos como alguns usam as histórias
como "calmantes", apaziguadores da excitação das crianças em
determinados momentos do dia; outros optam por histórias que
possam "fornecer instrumentos" para a criança lidar com questões
mentais que, do seu ponto de vista, a estejam mobilizando. Uma e
outra são visões "terapêuticas" da função das histórias na vida
escolar dos alunos.
A justificativa para este ponto de vista geralmente se funda nu-
ma leitura apressada de A Psicanálise dos Contos de Fadas. Neste
livro,Bettelheim fala da importância dos contos de fadas na vida das
crianças, a partir de uma análise da estrutura dos contos feita sob o
ângulo da psicanálise. Esse trabalho vem sendo, nos últimos anos,
uma fonte valiosa para os professores que se dedicam a pensar os
significados que as rodas de contar histórias podem ter para as
crianças na rotina escolar. Sua contribuição, contudo, vista por uma
leitura apressada (ou equivocada) favoreceu o surgimento de
"condutas psicanalíticas" entre os professores, que passaram a ver
um espaço terapêutico nas'' rodas-de-contar-contos-dc-fadas". Penso
que o trabalho de B. Bettelheim serve para informar os educadores
sobre os aspectos do mundo mental infantil que participam no pro-
cesso de desenvolvimento da criança, não para fazer pedagogia.
Um outro ponto de vista comum entre professores é o que
chamarei de visão "acadêmica". Aqui, as histórias são vistas como
instrumentos para aquisição de determinados conteúdos e ha-
bilidades, e para atingir determinados objetivos de desenvolvimento.
As histórias serviriam para alimentar os jogos dramáticos, informar
sobre língua escrita, trabalhar com a expressão corporal/gestual,
desenvolver o vocabulário verbal, educar as crianças a ouvir histó-
rias, ampliar o universo de representações, enriquecer as vivências
na escola, etc... Essa visão, limitada ainda, relaciona as histórias a
situações de desenvolvimento-aprendizagem, mas restringe sua
função à de instrumento didático.
Tanto a visão "terapêutica" quanto a "acadêmica" costumam
limitar o repertório das histórias a um elenco reduzido da literatura
infantil: contos de fadas, fábulas e contos de autores contempo-
râneos. E, ao estabelecerem funções e objetivos também limitados
para o seu convívio na classe, perdem de vista o lugar que as histó-
rias devem ocupar no currículo escolar: o de uma linguagem a ser
conhecida, descoberta nos aspectos que lhe são próprios (internos), e
reconhecida como portadora de inúmeras significações
(socioculturais, históricas, emocionais, lingüísticas, literárias).
SERÕES DE DONA BENTA
Sinto uma comichão no cérebro disse Pedrinho. Que-
ro saber coisas. Quero saber tudo quanto há no mundo ...
A literatura é uma das produções humanas mais importantes
para a formação das crianças, pois sua matéria é a palavra, o pensa-
mento, as idéias e a imaginação exatamente aquilo que distingue
ou define a especificidade do humano.
A Literatura Infantil, História,
Teoria, Análise
Nelly N. Coelho
A questão não está em colocar as histórias apenas a serviço dos
"conteúdos sérios", como apoio da aprendizagem ou do de-
senvolvimento; esse tipo de conduta, como vimos pelo relato de
vários professores, não deixa de ter utilidade, de ser produtivo mas
ele desperdiça "o leite" dessa linguagem tão rica de significações.
A questão é também a de o professor desenvolver e manter
boas relações (até de prazer) com o mundo das histórias, para que
tenha condições de selecionar as que forem mais adequadas à sua
classe, escolher o momento da rotina que lhes será dedicado, des-
cobrir o prazer de ser ouvinte e contador de histórias.
86 MONTEIRO LOBATO
Fritos, nada! — exclamou Emília. — Have-
mos de tapear estes marcianos com todos os seus
crocotós.
Que tantos crocotós são esses, Emília? —
volveu Narizinho.
São as coisas esquisitas que eles têm pelo
corpo e não posso adivinhar o que sejam. Crocotó
é tudo que é empelotado ou espichadinno como os
tais chicotes. Os marcianos são croeotosíssimos.
Esses crocotós devem ser órgãos próprios deles
aqui.
E como vamos nos arranjar com gente
assim!
Eu dou jeito — declarou Emília — Vou des-
cobrir os tais "aparelhos detectores" — e misturo
tudo, arraso com eles.
Disse e fêz. Meteu-se pelo palácio adentro na
pista do ministro, o qual, depois de receber a
ordem do rei, se encaminhara para o aparelho de-
tector ali do palácio.
Era um maquinismo esquisito e incompreensí-
vel, mas Emília sabia que todas as máquinas têm
um ponto comum: só funcionam quando estão com
todas as peças perfeitinhas e no lugar. Uma que
seja quebrada ou retirada, e já o funcionamento da
máquina inteira não é o mesmo.
Pensando assim, Emília agarrou uma espécie
de martelo e começou a martelar as peças mais deli-
cadas, quebrando ou amassando as que pôde.
O pobre ministro, muito apavorado, via o amas-
samento das peças sem conseguir ver o autor do
estrago, e tal foi a sua impressão que de súbito
Emilia agarrou uma espécie de martelo e começou a
martelar as peças...
As histórias que as amas-de-leite contavam
para os filhos dos senhores marcaram
profundamente sua formação
UM POUCO MAIS DE HISTÓRIA
Muitas pessoas, até mesmo professo-
res, supõem que apenas as histórias de fic-
ção são adequadas para se contar às crian-
ças. Geralmente, também supõem que essas
histórias devem pertencer à chamada li-
teratura infantil ou infanto-juvenil. Outra su-
posição comum, às vezes associada às an-
teriores, é que as crianças só gostam de his-
tórias de ficção.
São apenas suposições.
Realmente, crianças gostam muito de
histórias de ficção infantil, mas este gostar
não é exclusivo. É comum vê-las encanta-
das com os relatos do cotidiano da vida dos
professores, dos pais ou de outras crianças,
com histórias do tempo em que não tinham
nascido, de como era a vida no tempo dos
avós, de como vivem os índios, os povos em
outros países, etc...
O que acontece, geralmente, é que não
se leva em conta o fato de que a separação
entre história de ficção e história real
envolve conceitos (verdade, real, irrealida-
de) que a criança não tem condições de for-
mular ou entender, conceitos dos quais ela
tenta se aproximar quando procura estabe-
lecer o que "é de verdade" e o que "é de brin-
cadeira" (sabemos que durante boa parte da
infância, a validade desses conceitos fica su-
bordinada à opinião dos adultos). Por isso, é
comum os pequenos tomarem os relatos de
contos de fadas como a mais pura expressão
da realidade ("aconteceu de verdade") e
relatos de fatos de sua história pessoal, dos
quais não se lembram, como pura ficção
("de brincadeira").
Se levarmos isso em conta, veremos
que o repertório de histórias a contar na es-
cola pode ser amplo, envolvendo, além de
obras literárias nacionais e estrangeiras, as
histórias fantásticas veiculadas pela tradição
oral das comunidades, as histórias sobre a
História da comunidade, do Estado ou do
país, as histórias ligadas à tradição de outras
culturas, as histórias da História de outras
civilizações, etc.
Assim, as histórias podem ser, além de
um espaço amplo de significações aberto às
emoções, ao sonho e à imaginação, um lu-
gar favorável ao desenvolvimento do conhe-
cimento social e à construção de conceitos,
tais como os de cultura, civilização e tempo
histórico, durante toda a infância.
Os exemplos que mais se aproximam
desta visão — que parece ser a mais adequa-
da sobre o lugar das histórias na vida esco-
lar das crianças — são os da professora Da-
niela Padovan e do professor Miguel da re-
serva Xavante. Um e outro partilham com
os alunos seus repertórios pessoais, produ-
tos do espaço sociocultural em que vivem,
com propriedade, sabedoria e prazer.
São muitas as histórias que se pode contar
às crianças
Miguel, ao contar a Lenda da Estrela, nos dá um exemplo pre-
cioso do que é um bom contador de histórias. E nos conta uma
história que é um exemplo precioso do que é uma boa história.
Miguel, com certeza, é um bom professor. Ficamos sabendo
disso depois de tê-lo visto, com suas crianças, na escola Xavante.
Ele nos falou sobre as crianças, as coisas de que gostam, e sobre
como ele se relaciona com elas e seu gosto: "As crianças gostam de
história e eu conto para elas as lendas do nosso povo, que apren-
demos com os velhos". E também pela forma como conta sua lenda,
pela forma como se relaciona com ela. Ele leva a sério o fato de
estar relatando um pedaço da cultura de seu povo; aquilo não é
brincadeira, engraçado, "coisa para criança". É uma expressão do
seu respeito pelas crianças. Ele, o professor, ao contar uma lenda,
está transmitindo conhecimentos sobre sua cultura aos seus alunos;
está dando a conhecer parte do mundo de significados que
organizam as relações entre os indivíduos de seu povo. Ele sabe que
uma roda para contar lendas é uma situação de aprendizagem. E
isso nos faz supor que ele sabe que é responsável por boas
situações de aprendizagem.
Sua conduta durante o relato é perfeita, exemplar. Não atribui
intenções aos personagens. Gesticula apenas o indispensável para a
compreensão do que vai dizendo. Não interpreta as situações que
descreve. Só abandona o texto da lenda para dar explicações para-
lelas, quando as julga indispensáveis à comprensão (que havia a casa
dos jovens, o que é embira, o que o canto dizia em Xavante). Sua
voz guarda a solenidade necessária, o respeito à tradição e aos
ouvintes. A lenda nos é apresentada como uma grande significante
que o ouvinte é convidado a preencher de significações, não importa
quais. É precisamente isso que é bom para as crianças encontrar nas
histórias.
São histórias como essa lenda contada por Miguel que agradam
mais aos pequenos, porque falam de coisas muito próximas às
vivências internas (mentais) e externas (culturais) do seu cotidiano:
falam de relações familiares e dos sentimentos contraditórios que
elas envolvem; falam de aspectos da estrutura social elementar que
organiza o espaço cultural em que vivem.
13. NÚMEROS E ALGARISMOS
As crianças estão em contato com a cultura muito antes de que
a escola a transmita de forma organizada: a aprendizagem escolar
não parte nunca do zero. Ela é sempre precedida pelas idéias que a
criança já construiu acerca dos objetos que busca conhecer. Assim,
antes de chegar à escola, a criança terá tido oportunidade de lidar
com situações aritméticas, elaborando certas hipóteses a respeito de
quantidades e de suas possíveis representações.
É notável a semelhança que existe entre a história do surgi-
mento do sistema de numeração decimal utilizado hoje em dia e as
condutas das crianças relativas ao uso da aritmética e ao registro de
quantidades durante o seu processo de desenvolvimento. Observar
estas semelhanças é um instrumento útil para que se possa
compreender algumas das questões aritméticas com as quais as
crianças defrontam em sua vida cotidiana e, posteriormente, na
escola.
A naturalidade e a familiaridade com
que utilizamos os algarismos (também cha-
mados numerais ou dígitos) fazem com que
tenhamos a sensação de que eles pertence-
ram desde sempre à Humanidade. No en-
tanto, os algarismos são uma grande inven-
ção, assim como a roda ou o arado. Eles não
apareceram bruscamente, nem surgiram do
esforço de um "inventor genial". Tiveram
uma origem e uma história, sendo fruto de
um longo processo.
Rastreando a origem dos sistemas de
numeração, teremos que recuar muito atrás,
na época pré-histórica. Desde o momento
em que o homem começou a pensar, pro-
vavelmente foi se dando conta das relações
quantitativas que havia entre os objetos que
o rodeavam. A primeira noção de número
que o homem teve consistia numa percep-
ção imediata da quantidade de objetos que
compunham um determinado conjunto,
avaliada apenas com uma breve olhada.
Esta quantidade seria percebida como
uma das qualidades do conjunto de objetos,
tal como sua forma ou cor. Entretanto, esta
percepção, também chamada "nume-
rosidade", não permitia aos homens primi-
tivos avaliar quantidades superiores a três
ou quatro elementos. Quantidades grandes
eram então consideradas "muito", quanti-
dades menores, "pouco"; eram feitas esti-
mativas, sem relação com o número exatc
de elementos.
A Obra Prima ou Os Mistérios do Horizonte, Renée Magritte
Um ponto crucial na história da mate-
mática humana surgiu quando foram neces-
sários mais padrões; quando foi preciso al-
go mais do que apenas olhar para dentro de
uma caverna para ter certeza de que os dois
filhos estavam presentes, ou uma vistoria no
depósito de machados de pedra para
certificar-se de que lá continuavam os qua-
tro machados de reserva.
No Mundo dos Números
Isaac Asimov
Em um momento posterior, o homem descobriu a forma de
dominar e registrar as quantidades por meio do princípio de cor-
respondência.
Com o auxílio de materiais de todo tipo (pedras, conchas, os-
sinhos, frutos secos, gravetos, incisões em ossos ou no tronco das
árvores), ou com o auxílio do próprio corpo (os dedos da mão), o
homem fazia corresponder a cada um dos objetos a ser contado um
elemento que ele utilizava como auxiliar.
Por exemplo, se a pessoa quisesse registrar quantos animais
tinha, ou se quisesse trocá-los, utilizava uma bolsa contendo bolinhas
feitas de argila — cada bolinha eqüivalendo a um animal.
O princípio de correspondência um a um utilizado pelos homens
durante muitos séculos permitia exprimir a quantidade de
1
objetos.
No entanto, eles não tinham ainda a noção de número.
A noção abstrata de número foi se desenvolvendo lentamente,
pela prática diária de contagens: os pastores tinham que contar
cotidianamente os seus rebanhos, as terras passaram a ser medidas
quando cultivadas, o produto da agricultura era quantificado. Para
facilitar estas contagens, os homens construíram séries numéricas
em que as quantidades eram colocadas em ordem crescente, ou de-
crescente, com um intervalo regular entre cada elemento da série.
Um exemplo de série
numérica é o número de dias
existentes entre uma lua e a
seguinte: a cada sete dias, a
lua passa de nova a
crescente, de crescente a
cheia, de cheia a
minguante, de tal
maneira que após 28 dias
vemos
novamente a lua
nova.
Com a serie
numérica, o homem
encontrou maneiras
mais econômicas de
fazer cálculos: não
seria mais necessário
contar os elementos
um a um. Bastava
contar aqueles de
uma série e utilizar
este resultado para
calcular o numero de
séries iguais à
primeira.
Em lugar de
usar tantas bolinhas
de barro quantos
animais a representar, os
homens passaram a se
utilizar de vários tipos
de marcas que faziam
corresponder a valores
numéricos diferentes e
bem determinados
Cunhando-se estas marcas
em fôrmas de barro, instituía-se que
cada forma destas tinha um valor
convencionado (diferentemente das
bolinhas de barro, que valiam sempre 1).
Hoje em dia, as moedas
mantêm função semelhante à das
antigas fôrmas de barro: embora
cada moeda seja um único objeto,
ela tem diversos valores a
depender da inscrição nela
cunhada.
Pode-se observar que as
crianças pequenas apreciam as
moedas independentemente de
seu valor. Ficam felizes ao
receber, por exemplo, três notas
de um cruzado novo, ao passo
que uma criança maior terá muito
mais satisfação recebendo uma
única nota de cinco cruzados
novos, pois sabe que embora
sendo um único objeto tem valor
muito maior que as três notas
recebidas pela criança menor.
Pode-se também observar
crianças pequenas contando
dinheiro, como se cada nota
tivesse sempre o valor 1,
independentemente do
que nela está inscrito.
Sabe, mamãe, hoje eu vi no ônibus um menino que contava
dinheiro assim: um dinheiro, dois dinheiros, três dinheiros ...
Sim, Pedro, e como é que ele deveria contar seu dinheiro?
Ah, ele deveria ver que uma nota de mil cruzados com outra
de quinhentos cruzados dá mil e quinhentos cruzados, e não dois
dinheiros.
Pedro Caetano, 8 anos
Os homens perceberam que as séries
numéricas criadas facilitavam seus cálculos.
Se a cada série fosse dado um nome (dúzia,
por exemplo) correspondente a um deter-
ninado valor (doze), isto poderia tornar ain-
da mais econômicos os seus cálculos. Assim
se constituiu o princípio de base.
A base mais utilizada em toda a histó-
ria da numeração é a base dez. Isto se deve
a uma tendência do homem de utilizar as
mãos, que funcionam naturalmente como
máquina de cálculo.
Utilizando-se um símbolo para cada
dedo das mãos, e um símbolo diferente para
a quantidade correspondente a todos os
dedos das mãos (dez), a contagem e o re-
gistro das quantidades contadas puderam ser
bastante simplificados.
Os símbolos utilizados hoje em dia são
chamados algarismos arábicos por terem si-
do inventados pelos árabes.
Durante milhares de anos, não houve a necessidade de repre-
sentar uma quantidade inexistente. Porém, com a utilização do prin-
cípio de base, esta necessidade surgiu.
Com a série de algarismos 1,2,3,4,5,6,7, 8e9, como faría-
mos para representar uma quantidade de dez elementos? Usando o
princípio de base, poderíamos trocar estes dez elementos por uma
dezena. Tínhamos o 1, mas não a possibilidade de representar, com
os nossos algarismos arábicos, uma dezena. O zero veio solucionar
esta questão.
A descoberta do zero (0) constituiu a etapa decisiva de uma
evolução sem a qual não se poderia imaginar o progresso das ma-
temáticas, das ciências e das técnicas modernas. Registros do 0, tal
como o conhecemos hoje, existem no sistema de numeração utili-
zado pelos hindus desde o século VIII da nossa era.
Muitos foram os sistemas de numera-
ção com fundamentos no princípio de base
construídos pela humanidade ao longo de
sua história.
Por exemplo, para representar a quan-
tidade oito mil duzentos e vinte e oito, os
romanos escreviam MMMMMMMMCCXX
VIII, onde cada M representa mil unidades;
cada C uma centena; cada X uma dezena; o
V cinco unidades e o I uma unidade. O
número total é obtido pela adição de cada
uma destas parcelas: M + M + M + M + M +
M + M + M - oito mil
unidades C + C -
duzentas unidades
X + X - vinte
unidades
V+I + I + I - oito
unidades
perfazendo oito mil duzentas e vinte e oito
unidades.
Sistemas deste tipo são chamados adi-
tivos. O sistema que utilizamos atualmente
é o chamado sistema posicionai. Nele, cada
um dos algarismos tem seu valor definido
pela posição que ocupa na representação de
uma quantidade.
286 - No número 286, o algarismo 2 repre-
senta 2 centenas, o algarismo 8, 8 de-
zenas e o 6,6 unidades. Os algarismos
2, 8 e 6, nestas posições, representam
assim a quantidade de 286 elementos,
ou seja, 286 unidades.
862 - Embora estes números tenham sido
registrados utilizando-se dos mesmos
algarismos, 2, 8 e 6 têm valores dife-
rentes por estarem em posições dife-
rentes.
Representação de quantidades com o uso dos dedos. Summa de Aríthmetíca,do matemático italiano Luca
Pacioll, Veneza, 1494
O sistema de numeração posicionai de
base 10 é uma criação intelectual da huma-
nidade de máxima utilidade para conceituar
quantidades e operar com elas. A importân-
cia que tem para o indivíduo como meio de
adaptação social e instrumento para a aqui-
sição de conhecimentos leva a escola a
transmiti-lo o mais cedo possível, ao mesmo
tempo que se ensina à criança a linguagem
escrita. Entretanto, aprender "os números"
não é fácil. Ainda que sejam capazes de
aplicar o sistema numérico de forma me-
cânica, a maioria das crianças não chega a
compreender por que e como se combinam
os diferentes algarismos que representam
uma quantidade.
À luz da história da numeração, pode-
se entender mais facilmente as condutas das
crianças relativas aos números.
CONS
T RUI N
D O O
CO N C
E I TO
DE N Ú
M E R
O
Desde a mais tenra idade, as crianças
pequenas estão habituadas a "fazer contas".
Quando dividem balas com os amigos, tro-
cam figurinhas, jogam bola de gude, vão à
venda comprar alguma coisa para a mãe, es-
tão certamente quantificando e fazendo cál-
culos mentais.
A palavra cálculo origina-se do latim
"calculus", que significa "pedra" — a Hu-
manidade usou pedrinhas para indicar nú-
meros, e por isto dizemos que estamos cal-
culando, quando manejamos números.
As crianças conseguem fazer estima-
tivas de pequenas quantidades (por esta ra-
zão os números de 1 a 6 são chamados per-
ceptuais), comparam estas quantidades e fa-
zem operações entre elas. No entanto, com
quantidades iguais ou maiores do que 6, fa-
lham em tentativas de resolver questões sim-
ples como, por exemplo, fazer uma leitura
do dado e concluir que seis (;;) é composto
... de três (:) mais três (:)
Para quantidades maiores, as crianças
necessitariam de outros instrumentos de cál-
culo, basicamente envolvendo registros, já
que se torna muito difícil armazenar na
mente grandes quantidades.
Podemos observar como, em geral, sa-
bem contar muito bem até dez: um, dois,
três, quatro... até dez. Em verdade, recitam
a seqüência, como poderiam recitar "Bata-
tinha quando nasce, se esparrama pelo
chão...", sem que os algarismos recitados
estejam recheados de significado. É fácil ve-
rificar isto, por exemplo, nas seguintes si-
tuações:
uma criança conta o número de pes-
soas presentes na sala de aula; nem sempre
faz corresponder uma criança a cada dígito
recitado (não há, neste caso, sequer uma cor-
respondência um a um); muitas vezes, conta
novamente a criança pela qual começou a
contagem e esquece de contar a si mesma, o
que nos mostra que ela não consegue ainda
ordenar os elementos a serem contados,
estabelecendo quem é o primeiro, qual o
último, quais já foram contados, etc.;
as crianças contam um conjunto de
objetos, por exemplo, dando'' nome de ba-
tismo" a cada ficha contada:
12 3 4 5 6 7 8
oooooooo
Quando o professor pergunta "Onde
tem seis fichas?", a criança aponta a sexta
ficha, como se dissesse: "Aqui, esta é a seis",
assim como poderia chamar-se Maria.
Não percebe que quaisquer seis das oito
fichas, quando agrupadas seis a seis, podem
ser referidas pelo algarismo seis; as oito
fichas incluem quaisquer seis fichas, não
representando apenas a sexta ficha, a seis, a
Maria.
As crianças falham na contagem de quantidades maiores por duas
razões: 1 ?) para elas, as quantidades variam a depender da maneira
em que estiverem dispostas. Assim, uma criança pequena pode
acreditar que quatro bolinhas dispostas como se estivessem nos
quatro vértices de um quadrado (::) representam uma quantidade
diferente daquela representada pelas mesmas quatro bolinhas
enfileiradas (....). A criança pode argumentar que há mais bolinhas
na fileira do que no quadrado "porque a fileira é mais comprida".
Isto significa que, para as crianças, não é possível pensar em
quantidades sem pensar em objetos a elas associados: quatro tem de
ser quatro coisas. No fundo, ela ainda não "sabe" o que é quatro; 2?)
no seu entender, as quantidades não estão incluídas umas dentro das
outras. Elas não compreendem que dentro de oito unidades há
também seis unidades; que nestas seis há outras três, e assim por
diante.
Ordenar os objetos para contá-los (a criança não precisa ordená-
los espacialmente, basta que os organize mentalmente) não garante
que a criança considere cada objeto contado dentro do todo que os
integra. Esta integração é garantida pela inclusão hierárquica — a
qual permitirá à criança ver que o oito está incluído no dez, o seis
em oito e também no dez — por implicação, e assim por diante.
Quando as crianças concluem que as quantidades são as mes-
mas, independentemente de como estejam dispostas, e que estão
incluídas umas dentro das outras, levando em consideração estas
duas questões simultaneamente, elas têm o conceito de número, o
qual permitirá que façam cálculos mais complicados do que os
realizados perceptualmente, que nem sempre são muito exatos.
Temos assim caracterizados os dois aspectos da questão do nú-
mero: o conceito (de número) não é derivável dos objetos, e o de-
senho dos algarismos não garante o conceito de número.
O conceito de número não pode ser ensinado, é uma idéia
construída por cada sujeito a partir de relações entre quantidades.
Internamente, a criança construirá o conceito. Externamente,
terá que se ver com a Aritmética, objeto social de conhecimento
construído pelos homens ao longo de sua história.
14. ARITMÉTICA NA PRÉ-ESCOLA
Sou uma coisa que pensa
Meditações
Descartes
Com a visão, podemos olhar uma coleção de objetos e avaliar a
sua quantidade. No entanto, se a quantidade for grande, não po-
demos precisar o número de objetos nela contidos. Para encontrar
este número, necessitamos colocar os objetos em algum tipo de
ordem e realizar uma contagem, tendo a noção de que cada objeto
contado faz parte de um todo e que este todo é composto por cada
uma das partes. Ao realizar esta operação, estamos lidando com o
conceito de número.
O conceito de número é uma síntese de
diversas combinações entre quantidades. É
como uma essência, um extrato. Depois que a
pessoa realiza esta síntese o extrato resultante
pode ser desdobrado, misturado, ampliado,
dando ao seu portador o poder de realizar
operações muito simples como somar e
subtrair. Permite que se realizem encaixes,
como por exemplo saber que numa ni-
nhada de nove cachorrinhos, cinco são machos, quatro são fêmeas e
que todos são cachorrinhos, filhos de uma mesma cadela, embora
tenham pêlos de cores diferentes. E permite ainda que se calculem
coisas menos simples como, por exemplo, o tempo que um foguete
levará para chegar à Lua a uma dada velocidade. A apropriação do
conceito de número permite à namorada, aflita com o atraso de seu
namorado, ler as horas no relógio e, assim, avaliar a extensão de seu
atraso.
O conceito de número é uma síntese que a pessoa faz em sua
mente. Não é ensinável, é construído por cada pessoa nas relações
que esta faz entre quantidades.
As crianças pequenas não construíram ainda o conceito de número, e
não se pode ensinar a elas como faze-lo. liste conceito vai sendo
construído aos poucos em situações cotidianas em que as crianças
realizam operações aritméticas: ao fazer cálculos para a compra de
balas na venda, por exemplo, ao conferir o troco na compra de
figurinhas na banca de jornal. A pré-escola deve, no entanto, oferecer às
crianças pequenas situações em que cias possam pensar em questões
que as levem progressivamente ã construção deste conceito, listas
questões pertencem à Aritmética, que é a parte da Matemática que
investiga as propriedades mas simples dos números inteiros (1,8.26,
etc.) e fracionários (!/>, V. ,0,86,
etc).
O professor pode colocar as crianças em situações aritmetizá-
veis, onde elas façam quantificações (contar quantos elementos há
numa determinada coleção), façam comparações entre quantidades
(como "maior do que", "menor do que", "igual a") e realizem operações
simples entre as quantidades (como adição, subtração, divisão e
multiplicação).
Cabe à pré-escola organizar atividades onde as crianças quanti-
fiquem, registrem, comparem, enfim, operem com as quantidades.
É necessário conhecer o que cada criança já sabe. aquilo que ela já
construiu em sua experiência aritmética prévia, anterior à chegada à
escola. Partindo também de sua própria experiência aritmética, o
professor pode localizar-se em relação à Aritmética enquanto objeto de
conhecimento e verificar em que ponto da construção deste
conhecimento estão as crianças.
Objetos socioculturais são conjuntos de
conhecimentos construídos pelos homens
em sociedade, através da história.
Estes objetos, como por exemplo a
Aritmética, a Língua Escrita, a Física e a
Música têm propriedades que podem ser
observadas sem mais intermediários que as
capacidades cognitivas do sujeito. Têm
também outras propriedades que só podem
ser observadas a partir de informações
específicas. Neste sentido, a mediação
social como informações fornecidas pelo
professor ou pelo grupo de crianças de uma
classe é imprescindível para o
aprendizado significativo destes objetos.
A partir daí, o professor poderá conceber atividades pedagógicas
para seus alunos — no âmbito da pré-escola — que serão estratégicas
em relação aos objetivos de ensino-aprendizagem a que ele se
propõe.
Com a observação, o registro, a avaliação e análise permanentes
do que está ocorrendo ao longo do processo de aprendizagem, o
professor poderá ir formulando as atividades subseqüentes que,
incorporando o que as crianças já sabem, levem-nas a avançar cada
vez mais neste conhecimento.
Relações lógico-matemáticas como a classificação e a se-
riação são realizadas por todas as pessoas em todas as si-
tuações que envolvem o pensamento e não apenas naquelas
diretamente relacionadas à matemática.
Estas relações realizam-se inteiramente no desenvolvi-
mento da forma de pensar de cada pessoa. Neste sentido, não
são conteúdos nem podem ser ensinadas na escola por
intermédio de atividades específicas.
O conteúdo a ser ensinado na pré-escola é a Aritmética e o
desenvolvimento da aprendizagem.
Exporemos a seguir três exemplos de situações de aprendizagem
nas quais as crianças podem construir e exercer seu pensamento
aritmético.
O primeiro exemplo refere-se. a situações do cotidiano da classe;
nelas, solicita-se das crianças que resolvam determinadas questões:
a) Distribuição de material
Suponhamos que em uma determinada classe, crianças de 5 a 6
anos de idade estejam prestes a iniciar uma atividade de Língua
Escrita. O professor poderá sortear dois ajudantes que o auxiliem na
distribuição de material. A estes ajudantes, o professor poderá
propor a seguinte questão:
"De quantos lápis e borrachas necessitaremos para que cada
criança receba um de cada?"
Os auxiliares poderão utilizar diversas estratégias para resolver
esta questão-desde distribuir um lápis e em seguida uma borracha
para cada colega e depois tentar contar o total, até contar o número
total de crianças, contar um número equivalente de lápis, outro de
borrachas, e só então realizar a distribuição.
A questão poderá ser modificada à medida que seus desafios
sejam ultrapassados pelas crianças.
Assim, uma variação no modo de distribuir e contar o material
poderá ser feita como segue: "se precisarmos de apenas duas bor-
rachas em cada mesa e se estivermos trabalhando com cinco mesas,
quantas borrachas serão necessárias no total?"
Quando duas ou mais crianças estão encarregadas da distribuição
do material, elas podem discutir e ir resolvendo as questões, fazendo
operações entre as quantidades. No caso deste exemplo, operações
de soma e de multiplicação.
b) Lista de chamada
Ao solicitar às crianças que procedam à contagem de quantas
crianças vieram à escola naquele dia, quantas faltaram, quantas
meninas, quantos meninos, qual a diferença entre o número de
meninas e meninos, etc, o professor estará propondo a elas que
realizem relações comparativas entre a parte, por exemplo, o número
de meninos presentes, e o todo, o número total de crianças da classe.
Estará também propondo que observem quantidades diferentes
através de vários prismas.
c) Leitura do calendário
Observando com as crianças, através da
grafia do calendário, a passagem dos dias do
mês, o professor poderá propor as seguintes
questões: Quantos são os dias em cada mês?
Estão organizados em quantas semanas? E o
ano, quantos meses tem? O professor poderá
ir, passo a passo, reconstruindo com-as
crianças a periodicidade dos dias da semana,
das semanas e dos meses, que estão
implícitas no calendário, e cada criança
estará lidando com as séries numéricas.
Além das situações referentes ao cotidia-
no das classes, as crianças poderão defrontar
com questões aritméticas através de
jogos variados, nos quais sejam utilizadas
cartas de baralho, dados, tabuleiros, ou sim-
plesmente a própria mente como instru-
mento de jogo. E este o caso de uma brin-
cadeira que pode ser chamada "número
oculto". Dada a série numérica dos números
inteiros de 1 a 20, uma criança escolhe um
algarismo, segredando ao professor qual é
este algarismo. Criança e professor guardam
segredo, e o grupo de crianças da classe
procura descobrir qual o algarismo pensado
através das observações" maior do que" e
"menor do que", daquele que pensou.
Suponhamos que o algarismo seja 8, e que
alguém pergunte: "O seu número é o 3?" A
criança "dona" do algarismo, dirá se seu
número é maior ou menor que 3. Por
aproximações sucessivas, as crianças pode-
rão concluir qual é o número que estava
oculto.
' — O seu número é 3? R —
Não.
É mais grande ou mais pequeno? R
É mais grande, está perto do 10.
Então é 9. R
Nove não é.
Éo5?
R — É maior do que 5-
Então é 7!
R É maior que 7 e menor que 9-
— 8,8,8!"
Estas comparações — maior do que, me-
nor do que — estão diretamente relaciona-
das com o conceito de número, que é uma
síntese, a conjugação simultânea do fato de
os números estarem encaixados uns dentro
dos outros e colocados em uma determinada
ordem.
Finalmente, situações cotidianas podem
ser transformadas na escola em problemas
a serem resolvidos pela criança. Como es-
te, adequado para crianças entre quatro e
cinco anos de idade:
"João tinha quatro bolas de gude. Ga-
nhou mais duas de Pedrinho e duas de Rai-
mundo. Com quantas bolas de gude ele fi-
cou?"
Estes problemas podem ser propostos
verbalmente pelo professor, com ou sem
o auxílio de materiais que ajudem as crian-
ças a compreendê-los. Cada criança pode-
rá resolvê-los a seu modo, utilizando lápis
e papel para realizar registros que a auxi-
liem em seu raciocínio. Pedrinhas, conchi-
nhasou qualquer tipo de pequenos obje-
tos também podem auxiliar a criança a rea-
lizar suas operações aritméticas, assim co-
mo intervenções e esclarecimentos do pro-
fessor.
A discussão em grupo dos passos segui-
dos por cada criança até chegar ao resul-
tado e dos diversos tipos de soluções en-
contradas pode enriquecer e desenvolver
as concepções e experiências aritméticas
das crianças.
Problema proposto: Com 16 rodas quantos automóveis podem ser feitos?
O importante não é que as crianças cheguem ao resultado co
r
-
reto, e sim que pensem nas questões aritméticas apoiando-se em
seus próprios registros. Chamamos registros à forma espontânea
como as crianças anotam no papel, com bolinhas, traços, dese-
nhos e eventualmente algarismos, os dados e as tentativas de so-
lução do problema. Os resultados não corretos—os erros—são con-
siderados erros construtivos. Não se fixam e servem de mola pro-
pulsora para a construção de novos conhecimentos que, possivel-
mente, levarão a criança à resposta correta.
Os registros das crianças são testemunhos preciosos que per-
mitem ao professor acompanhar seu raciocínio. Analisando estes
registros—as anotações de cada criança—o professor pode saber
o que ela já sabe, como está articulando as informações recebidas
e de que informações a mais necessita.
Registro da soma dos pontos de dois dados
Os jogos com baralhos, dados, tabuleiros
e adivinhações envolvem questões relativas
ao número. Se formos analisar cada jogo
passo a passo, teremos como resultado um
leque de condutas envolvendo raciocínio
lógico, quantificações, comparações entre
os números, operações aritméticas.
Por este lado, os jogos cumprem a fina-
lidade de promover relações de ensino/
aprendizagem construtivas e significantes.
Por outro lado, têm vantagens que nenhuma
atividade estritamente didática poderia
oferecer:
a quantidade de operações realizadas
por cada criança ao longo de um jogo é
imensamente maior do que a que poderia
realizar operando em propostas fechadas,
dirigidas pelo professor, como por exemplo:
"Faça a adição de dois mais três". Ao longo
de um jogo, a criança poderá realizar vinte,
trinta ou mais operações de adição;
com os jogos, abre-se um campo muito
frutífero para as interações cooperativas -as
trocas de pontos de vista entre as crianças.
Estas, com pensamentos diversos, in-
formam, perguntam, explicam umas às ou-
tras, conseguindo avançar muito mais em
seus processos de aprendizagem do que
conseguiriam individualmente.
Juntas, trabalhando cooperativamente, as crianças estarão pre-
servando o caráter lúdico da aritmética, utilizando para isto al-
guns de seus dons mais preciosos: a capacidade de pensar e a ap-
tidão para o jogo — o faz-de-conta — com todos os seus desdobra-
mentos socializantes.
15. LÍNGUA PORTUGUESA
Última flor do lácio
Inculta e bela És a um
tempo Esplendor e
sepultura
Olavo Bilac
No Brasil pensamos, falamos, cantamos, escrevemos em língua
portuguesa. O Português nos remete a experiências de vida, a fatos
da infância, à possibilidade de nos expressarmos.
A língua natal é sempre rica de significações para aqueles que a
utilizam. Por que, na escola, tolher o acesso da criança a esta ri-
queza, retaliando a integridade da língua em pequenos pedaços e
empobrecendo-a de forma irremediável? Por que não oferecer às
crianças a oportunidade de tornarem-se leitores e escritores em po-
tencial?
A pré-escola não deve se preocupar em alfabetizar crianças ensi-
nando a elas os mecanismos do código alfabético. Deve, sim, fazer
com que as crianças descubram todo o prazer que a escrita e a lei-
tura podem oferecer a seus usuários.
Todos nós, adultos, tivemos a oportunidade de observar crianças
em seus primeiros contatos com a linguagem oral.
As crianças pequenininhas começam a sua trajetória como pes-
soas falantes balbuciando ou até mesmo, bem antes disso, chorando
em tentativas de estabelecer uma comunicação com a mãe. Em
seguida, pronunciam as primeiras palavras — em geral substantivos
e nomes próprios — palavras estas que serão progressivamente
articuladas em frases onde verbos, artigos e adjetivos interligam-se
significativamente.
Este processo de construção da língua-que-se-fala é fruto das in-
ter-relações que vão ocorrendo entre a maneira de pensar da crian-
ça em cada momento e as informações que ela recebe do mundo
externo: ouvir as pessoas falar serve de referência para que as
crianças construam suas próprias idéias sobre a língua oral. Infor-
mações fornecidas por adultos, pelos meios de comunicarão (como o
rádio ou a televisão) e por outras crianças são essenciais para este
aprendizado.
Este processo de construção da .lingua falada não se confunde em
nenhum momento com um ensino formal. Ensino formal, aqui,
significa um tipo de ensino no qual as crianças recebem informações
por intermédio de métodos e procedimentos didáticos previamente
traçados. Nele, as crianças têm contato com as expressões
de linguagem produzidas no meio em que vivem. Não se
impede que elas se exprimam oralmente com liberdade de
pensamento, isto é, de forma espontânea e original. Os "er-
ros' ', parte integrante, ativa e necessária deste processo cheio
de percalços e grandes conquistas, podem ser neste caso
corrigidos, mas raramente são proibidos.
No processo de aquisição da língua escrita não se observa
o mesmo procedimento que no processo de aquisição da
linguagem oral. A escola tem se colocado como única
depositária do saber constituído sobre este objeto social de
conhecimento. Com isso, ignora duas coisas: por um lado,
que a criança desde muito cedo observa e pensa sobre este
assunto; por outro lado, que o processo de construção deste
sistema que é a nossa escrita alfabética implica uma
compreensão do que é, para que serve e como funciona a
articulação entre letras, sílabas, palavras e frases que
compõem uma rede infindável de significados.
A alfabetização ê de fundamental impor-
tância para as pessoas, num mundo letrado
como é o nosso, sendo uma grande conquis-
ta cognitiva na trajetória cultural de um
indivíduo.
Neste sentido, a importância social e in-
dividual atribuída a ela não é de modo al-
gum infundada. Ao contrário, é necessário
que a escola assuma o papel que lhe cabe
como mediadora do contato das crianças
com a Língua Portuguesa. É preciso, no en-
tanto, considerar aspectos fundamentais
deste processo.
Como outros sistemas de escrita, o siste-
ma alfabético é o produto do esforço cole-
tivo para representar o que se quer simbo-
lizar: a linguagem. Como toda representa-
ção, baseia-se em uma construção mental
que cria suas próprias regras. Sabemos, des-
de Luquet, que desenhar não é reproduzir o
que se vê, mas sim o que se sabe. Se este
princípio é verdadeiro para o desenho, com
mais razão o é para a escrita. Escrever não
é transformar o que se ouve em formas grá-
ficas, assim como ler também não eqüivale
a reproduzir com a boca o que o olho reco-
nhece visualmente. A tão famosa correspon-
dência fonema-grafema deixa de ser simples
quando se passa a analisar a complexidade
do sistema alfabético. Não é surpreendente,
portanto, que sua aprendizagem suponha um
grande esforço por parte das crianças, além
de um grande período de tempo e muitas
dificuldades.
Emília Ferreiro
Reflexões sobre Alfabetização
Desde muito pequenas, as crianças en-
tram em contato com a escrita através de ró-
tulos, embalagens, outdoors, jornais e re-
vistas, enfim, através dos diversos portado-
res de textos presentes em sua vida cotidia-
na. Nem todas as crianças têm acesso a to-
das essas informações: na zona rural, por
exemplo, são poucos os portadores de texto
com os quais as crianças têm oportunidade
de interagir; e mesmo nas grandes cidades,
onde a quantidade de informações
disponíveis é bem maior, nem todas as crian-
ças têm acesso a elas.
Com sua natural curiosidade, as crianças
perguntam a si mesmas, às outras crianças
ou aos adultos o que querem dizer os signos
enigmáticos que constituem a escrita al-
fabética. Esta escrita é um sistema de repre-
sentação. Mas, perguntam-se as crianças, o
que a escrita representa? Isto é, a língua es-
crita como objeto substituto, substitui o quê?
Procurando respostas para esta questão, bem
como para o modo de produção da escrita (a
maneira como as letras se combinam para
formar as palavras, e as palavras se arti-
culam resultando nas frases), as crianças,
através de um longo, difícil e complexo pro-
cesso, chegam finalmente à compreensão do
sistema de representação alfabética.
SOS - Cartilha no Superlativo, Rubens Gerchman
Quando se estuda como a criança se apropria da escrita, nota-se a
semelhança deste processo com o que foi desenvolvido pela humanidade.
A criança em torno de dois anos de idade
acredita que existem diferenças entre o
desenho e a escrita, isto é, entre marcas grá-
ficas figurativas e não figurativas. Para ela,
'' uma figura'' não é para se ler, embora pos-
sa ser interpretada; para que se possa ler, são
necessárias outras marcas, diferentes das fi-
guras. Não conhecendo ainda o alfabeto, a
criança inventa as suas próprias letras.
A diferenciação entre figura e escrita evo-
lui até o momento em que as crianças con-
sideram que as palavras servem para desig-
nar os nomes das coisas, e só fazem sentido
quando associadas à imagem daquilo que é
nomeado. Por exemplo, a criança desenha
seu retrato e escreve seu nome embaixo,
apontando no desenho: "Aqui sou eu", e na
escrita: 'Aqui diz o meu nome".
Guilherme, 3 anos
Com aproximadamente quatro anos de
idade, a criança acredita que palavras com
poucos signos ou com signos repetidos não
servem para ler. Esta idéia acompanha to-
do o processo de reconstrução da escrita.
Uma vez realizada esta primeira distinção
entre "o que é uma figura" e "o que não é
uma figura", começa um trabalho cognitivo
em relação a este segundo conjunto, e surge
o critério que temos chamado de '
'quantidade mínima de caracteres'', critério
este que perdura por muito tempo e que tem
uma influência decisiva em toda a evolução.
Não basta que haja letras: é preciso uma
certa quantidade mínima (que em geral
oscila por volta de três) para que se possa
ler, já que ' 'com poucas não se pode ler".
O critério seguinte refere-se à "variedade
interna de caracteres ". Não bosta um certo
número de grafias convencionais: para que
se possa ler, é necessário que essas grafias
variem, que não se repitam sempre as mes-
mas (...).
De onde vem a idéia infantil de que não
se pode ler com poucas letras? Os adultos
não podem transmitir esta idéia, já que qual-
quer adulto alfabetizado lê corretamente pa-
lavras tais como "a"(artigo), "o", "em", "a"
(preposição), "e" "ou", "de", etc. Ambas as
hipóteses, a da quantidade e a da variedade,
são construções próprias da criança, no
sentido de elaborações internas que não de-
pendem do ensino do adulto, nem da pre-
sença de amostras de escrita onde podem
aparecer anotações de uma ou duas letras,
com reduzida variedade interna. São cons-
truções próprias da criança que tampouco
podem ser explicadas por confusões per-
ceptivas. Em vez de confusão, trata-se de
uma convicção: não há aqui um problema
perceptivo, mas sim um problema conceituai
(...) Assinalemos também quanto a prática
escolar pode afastar-se das idéias infantis ao
decidir a priori que os artigos "o" e "a" são
"fáceis" precisamente por terem pou-cas
letras, e que os substantivos "ovo"e "asa"
são' 'fáceis' 'precisamentepor terem letras re-
petidas. Cabe aqui a pergunta: fáceis para
quem? Com que definição de facilidade?
Emília Ferreiro
Reflexões sobre Alfabetização
Embora a língua escrita represente mui-
tos aspectos da língua falada, nem todos os
aspectos de uma estão representados na ou-
tra. Neste sentido, a escrita não é uma mera
transcrição da língua-que-se-fala. Por exem-
plo, quando transmitimos um recado oral-
mente, utilizamos a linguagem coloquial, ao
passo que quando temos que escrever um
bilhete deixando o mesmo recado
defrontamos com problemas próprios da
linguagem escrita: como iniciar o bilhete,
como tornar o recado compreensível, co-
mo finalizar o bilhete.
Se a escrita introduz características que
lhe são próprias — orientação da esquerda
para a direita e de cima para baixo, separação
das palavras por espaços em branco, empre-
go das letras maiúsculas — por outro lado,
ela não indica a intensidade, a velocidade
e a acentuação próprias da linguagem fala-
da. Todo encanto sonoro da língua é atri-
buído a ela pela pessoa que lê e fala seguin-
do também uma série de convenções.
Até este momento, as crianças não per-
cebem que o que se escreve é o que se fala.
Mesmo quando se lê para elas, acreditam
que o significado vem da associação entre a
figura e o texto, e que no texto estão escritos
somente os nomes de pessoas e objetos, isto
é, somente substantivos e nomes próprios.
Tal como nos primórdios da linguagem oral,
artigos, verbos, advérbios e adjetivos não são
considerados.
A partir do momento em que percebe que coisas diferentes devem
ser escritas de modos diferentes, as crianças começam a preocupar-
se com a forma de escrevê-las, perguntando-se: "quantas, quais letras
e em que ordem eu necessito colocá-las para escrever?"
Nesta fase podem achar necessário colocar muitas letras para es-
crever o nome de algo muito grande e poucas para objetos peque-
ninos.
Podem também considerar que um nome pertence a uma pessoa
como se fosse mais um de seus atributos. E por isso que muitas
vezes uma criança se espanta quando encontra outra criança que tem
o mesmo nome que o seu.
As produções escritas pelas crianças até os seis anos mais ou me-
nos, embora subordinadas a uma lógica própria, não são legíveis
para os adultos. Necessita-se da interpretação — neste caso, da lei-
tura da criança sobre o que ela escreveu — para que se possa com-
preender o processo em curso. Quando uma criança escreve tal como
acredita que poderia ou deveria escrever certo conjunto de pa-
lavras,está nos oferecendo um valiosíssimo documento que necessita
ser interpretado para poder ser avaliado.
Embora a criança tenha feito até o momento uma triagem im-
portante entre múltiplas possibilidades — como diferenciar figuras
de textos, separar, de acordo com o seu ponto de vista, o que serve e
o que não serve para ler, pressupor que palavras diferentes devem
ser escritas de maneira diferente —, ela não conseguiu até o
momento obter uma resposta satisfatória para as suas perguntas
iniciais:
— O que a escrita representa?
— Como se estrutura este modo de representação?
Escrita pré-silábica. Diogo, 5 anos
Quando a criança,em torno dos cinco,
seis anos, compreende que na leitura o que
se fala é o que está escrito, que se escreve
o som das sílabas, formula uma hipótese
extremamente elaborada, a hipótese silábi-
ca, que representa um enorme salto quali-
tativo em seu modo de pensar a escrita.
Nesta hipótese, a criança acredita que, para
cada sílaba oral, isto é, para cada emissão
sonora, deve-se escrever uma letra, ou um
caractere: bolinhas, pseudoletras ou quais-
quer outras marcas.
Entretanto, as palavras obtidas de acordo
com a escrita silábica não são legíveis por
qualquer pessoa alfabetizada: para que se-
jam compreendidas, é necessário que a crian-
ça que as produziu faça também sua leitu-
ra. O processo de escrita e leitura da escrita
silábica, assim como a comparação com a
escrita alfabética convencional, leva a crian-
ça a perceber — não sem resistências — que
esta hipótese tão bem estruturada, tão lógi-
ca, infelizmente é falsa e terá que ser rees-
truturada.
Enquanto produto final, a escrita silábica
entra em contradição com aquilo que as
crianças acreditam que serve para ler, na me-
dida em que as palavras obtidas têm poucas
letras e letras repetidas. Numa tentativa de
reparar os conflitos surgidos, as crianças
enxertam letras, ensaiam novas combina-
ções e avançam em seu processo de cons-
trução da escrita.
O período seguinte denomina-se silábico-
alfabético. Ele é caracterizado por uma es-
crita mista: apenas uma letra para algumas
sílabas e duas letras para outras.
O período silábico-alfabético traz novos
problemas:.
pelo lado quantitativo, a criança per-
cebe que se não basta uma letra por sílaba,
não se resolve o problema duplicando as le-
tras;
pelo lado qualitativo, surgem as ques-
tões ortográficas, e a criança procura rees-
crever de acordo com a forma estável, isto
é, a escrita convencional, observável nos tex-
tos.
Estes problemas vão sendo progressiva-
mente solucionados pelas crianças em ati-
vidades de leitura e escrita, até que a crian-
ça se torna finalmente alfabetizada.
Alfabetizar-se corresponde a fazer uma
síntese, isto é, pensar ao mesmo tempo em
quais letras, quantas letras e em que ordem
é necessário colocá-las, para obter-se pala-
vras legíveis.
Continho
Era
uma vez um
menino
triste
magro
e barrigudinho
do sertão de Pernambuco na
soalheira...
Escrita silábico-alfabética. Pedro, 5 anos e 6 meses Texto de Carlos Drummond de Andrade
Na pré-escola, o professor poderá consi-
derar que o ponto de partida para o seu tra-
balho com a língua escrita é aquilo que a
criança traz consigo em termos de informa-
ções, conhecimentos, bagagem cultural, ao
chegar na escola. A isto chama-se currículo
oculto. Poderá considerar ainda que a
criança não pode pensar sobre um objeto
ausente e que não pode errar o que ainda
não sabe. Assim, o primeiro a fazer é colo-
car a língua como objeto presente na sala de
aula, considerando a nossa língua — o
português, como uma coisa inteira, cheia de
ritmo, melodia, articulações, significações, a
ser descoberta.
"A última flor do Lácio
Inculta e bela"
(...)
Língua Caetano
Veloso
Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta. lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira!
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó O
que quer O que pode Esta
língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velo da dicção choo choo de
Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos
resgate
E xeque-mate explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os
delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e ímã
Nomes de nomes como Maria da Fé,
Scarlet Moon Chevalier,
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé,
Arrigo Barnabé, Arrigo Barnabé, Arrigo
Barnabé,
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica Latim em pó O que
pode O que quer Esta língua?
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu Medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
Eu quero frátria
Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro
Samba-rap, chic-left com banana
Será que ele está no Pão de Açúcar
Nós canto-falamos como quem inveja
negros
Que sofrem horrores no Gueto do
Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que
falem
16. A LÍNGUA PORTUGUESA NA PRÉ-ESCOLA
Nega-se ao professor a possibilidade de
escolha de seu método, que sua experiência
poderia selecionar e até mesclar, como
sugerem as observações de sala de aula.
Nega-se, principalmente, a força da intera-
ção professor-aluno que, por isso mesmo,
pode transformar qualquer método e sua
utilização.
Tantos métodos e técnicas de alfabetiza-
ção, na verdade, são um desrespeito ao
saber-fazer do professor, uma forma de in-
cubação ideológica da escola: o professor
"treinado" no novo método "convence-se"
de sua incompetência e para que este con-
vencimento não perca a sua eficácia é ne-
cessário que novos treinamentos e recicla-
gens sejam fornecidos a cada ano.
A leitura do mundo precede à
leitura da palavra...
Sarita M. A. Moyses
Diante do significado social da compreen-
são do código alfabético para o indivíduo e
para a coletividade, não se deve estranhar a
importância atribuída pela escola aos di-
versos métodos de alfabetização.
No entanto, a escolha deste ou daquele
método, desta ou daquela cartilha, não é o
que decide o sucesso ou insucesso no pro-
cesso de alfabetização da criança.
Como foi descrito no capítulo anterior, a
alfabetização é um longo, difícil e
complicado processo pelo qual passam
todas as crianças que tenham algum contato
com qualquer tipo de texto,
independentemente da escola.
Neste sentido, as crianças se
alfabetizam: é um processo
interno que necessita infor-
mações, mas que não pode ser
doado nem imposto pelo
professor.
Janaína, 6 anos
De que forma a pré-escola pode contribuir para o êxito deste pro-
cesso?
Antes de mais nada, é necessário considerar que o objetivo de um
processo de alfabetização não é o desvendamento puro e simples do
código alfabético. Mais do que aprender "a assinar o nome",
alfabetizar-se é transformar-se num leitor e num escritor em
potencial.
Para que a criança seja um escritor e um leitor, poderá estar em
contato desde muito cedo com a riqueza e a complexidade do mundo
da língua escrita. Para alfabetizar-se significativamente, será preciso
fazê-la mergulhar no universo da leitura. Embora na pré-escola as
crianças ainda não saibam ler, podem interagir com a leitura por
intermédio do professor; para que a criança leia não é necessário
esperar que ela aprenda a ler: o professor faz esta mediação, quando
lê textos de boa qualidade para seus alunos. Assim, a "leitura de
textos precede a leitura das palavras".
Nesta ótica. é importante que se contem histórias para as crianças,
mas também que se leiam histórias, deixando claro que o que foi li-
do está escrito no livro. Isto porque, como vimos, para as crianças
entre três e quatro anos de idade, textos sem figuras "não servem
para ler", no texto "estão escritos apenas os nomes das coisas" e não
existe ainda para elas uma correspondência fonética entre o que está
escrito e o que se fala.
A importância de ler para a criança reside em colocá-la num con-
tato íntimo com a escrita, consiste em desmistificar o ato da leitura,
colocando-o ao alcance da criança. Assim, ela irá colhendo dados
que a auxiliem a desvendar o mistério que é para ela o ato de ler.
Na pré-escola, o domínio oral da língua
escrita abre para o professor e para criança
caminhos muito interessantes de trabalho
conjunto. O professor deve iniciar seu tra-
balho procurando seguir o percurso de cada
aluno através da interpretação de suas pri-
meiras produções escritas. É importante que
o professor entenda o que a criança pensa e
o que vai formulando sobre as relações entre
fala e escrita.
Utilizando parlendas como, por exemplo:
Era uma vez três:
Dois polacos e um francês.
Certo dia, por causa de uma embriaguez,
Os três foram parar num xadrez.
Quer que conte outra vez?
Era uma vez três...
Versos:
COLAR DE CAROLINA
Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.
O colar de Carolina colore
o colo de cal, torna corada
a menina.
E o sol, vendo aquela cor do
colar de Carolina, põe
coroas de coral
nas colunas da colina.
A CHÁCARA DO CHICO BOLACHA
Na chácara do Chico Bolacha, o
que se procura nunca se acha!
Quando chove muito, o Chico
brinca de barco, porque a
chácara vira charco.
Quando não chove nada, Chico
trabalha com a enxada e logo se
machuca e fica de mão inchada.
Por isso, com o Chico Bolacha, o
que se procura nunca se acha.
Dizem que a chácara do Chico só
tem mesmo chuchu e um
cachorrinho coxo que se chama
Caxambu.
Outras coisas, ninguém procure,
porque não acha.
Coitado do Chico Bolacha!
Ou isto ou aquilo
Cecília Meireles
Adivinhações, trava-línguas:
O que é, o que é, Na água
nasci, Na água me criei, Se
na água me jogarem, Na
água morrerei?
O que é, o que é, Sou redondo
como a lua, Mas em ponto
pequenino, Sou fêmea quando
estou nua, Vestido sou masculina?
O rato roeu a roupa do rei de Roma.
Letras de música:
Agora eu era o herói
E meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você, além das outras três...
Eu enfrentava os batalhões Os alemães
e seus canhões Caçava com bodoque
Enfrentava um rock pelas matinês.
Agora era fatal Que o
faz de conta Terminasse
assim (...)
O pé do pai do padre Pedro é preto.
Francisco Buarque de Hollanda
O professor poderá ir levantando ques-
tões metalingüísticas, isto é, relativas às ca
racterísticas internas de cada texto.
Assim, no versinho:
Rei Capitão
Soldado ladrão
Moça bonita
Do meu coração.
as crianças poderão ver que há palavras com sonoridade
semelhante, que terminam com sons parecidos, isto é,
palavras que rimam. Pensando sobre estas questões, as
crianças estarão não apenas usando a língua, recitando o
texto, mas compreendendo, analisando, como é o seu modo
de construção.
Uma análise desse tipo, Maria, de 4 anos, concluiu
que "poesia, eu sei, é um tipo de palavras que falam do
amor e que tem palavra igual no fim".
As crianças sabem que quando o professor começa a ler:
"Era uma vez, há muitos e muitos anos atrás ..." ele está
lendo um conto de fadas.
Tendo que escolher um título para o conto
Rapunzel, entre as três alternativas seguintes:
Príncipe despenca da torre e vaga cego pela
floresta;
Tenha trancas tão sedosas como Rapunzel,
usando shampoo de camomila; ou
Rapunzel, a moça de belas trancas,
provavelmente as crianças escolheriam este
último por achá-lo mais adequado ao estilo
dos contos de fada.
A professora Maria Esther Soub, de Ilhéus
- BA, utilizando um trecho do poema de
Gonçalves Dias,
perguntou a seus alunos, com cinco anos de
idade, se poderiam substituir a palavra terra
por outra, sem alterar os significado do
poema. Uma criança sugeriu: "Mundo!", no
que outra retrucou: "Não dá, porque fica
"Minha mundo tem palmeiras e minha é
mulher, mundo é homem, não combina!"
Depois de buscar alternativas na memória,
de discutir as possibilidades, as crianças não
conseguiram solucionar a questão. Maria Es-
ther seguiu em frente.
"E aqui gente, posso colocar:
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o elefante?"
As crianças caíram na gargalhada dizendo
"Não!"
— Maria Esther: "E por que não?"
Alguém: "Porque elefante não canta!"
Maria Esther: "E minha terra tem palmeiras onde canta o galo?" Outra criança:
"Não! Porque galo canta, mas não em cima da palmeira". Maria Esther: "Então,
o que posso fazer?"
Após uma discussão, as crianças concluíram que a solução seria o nome de um pássaro
que cantasse sobre árvores e que rimasse com sabiá, nome este que não foi encontrado entre
aqueles conhecidos por Maria Esther e seus alunos.
O importante nesta atividade não foi chegar às soluções e sim possibilitar que as crianças
pudessem pensar sobre as características internas da língua.
A criança poderá tornar-se um verdadeiro usuário da língua escrita, sabendo trabalhar com
diversos tipos de textos que existem, de bilhetes e cartas a notícias de jornal.
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá As aves
que aqui gorjeiam Não
gorjeiam como lá
O menino estava mergulhando. João, 6 anos
Üs professores de pré-escola poderão uti-
lizar também o material produzido por can-
tadores, trovadores, repentistas de sua co-
munidade.
Leitores eu vou contar Um
caso interessante Que se deu
com uma moça Filha dum
comerciante No Estado de
Goiás Ela junto com os pais
Vivia bem triunfante.
Chamava-se Guiomar Essa
deusa de candura Filha de
Pedro Moreira E de Maria
Ventura Freqüenta toda farra
E naquele agarra, agarra
Desfrutava a formosura.
A Mulher que Passou o Carnaval
no Inferno
Erotildes Miranda dos Santos
A medida que as crianças percebem que a escrita representa os
sons da fala, o professor poderá propor atividades de leitura. Nestas,
tendo algumas informações sobre o nome, o valor sonoro e a grafia
de algumas letras, assim como sobre a escrita dos nomes das
crianças da classe, cada criança poderá localizar num texto conhe-
cido de memória onde está determinada palavra.
Por exemplo, nesta canção de Dorival
Caymmi:
O canoeiro
Bota a rede
Bota a rede no mar
O canoeiro, bota a rede no mar
Cerca o peixe
Bate o remo
Puxa a corda
Colhe a rede
O canoeiro, puxa a rede do mar
Vai tê presente pra Chiquinha
E tê presente pra Yayá
O canoeiro
Puxa a rede do mar
Cerca o peixe
Bate o remo
Puxa a corda
Colhe a rede
O canoeiro, puxa a rede do mar
Louvado seja Deus, ó meu pai (bis)
O canoeiro... etc.
Canção Praieira
Dorival Caymmi
As crianças poderão ler rede por conhecer RE de RENATO e DE
de DENISE; poderão reconhecer mar por soar e ter a terminação
semelhante a de ITAMAR; distinguir BOTA de BATE por conhecer
a palavra BOLA, que também começa com BO.
Percebe-se aqui a importância do conhecimento de palavras es-
táveis para a antecipação da leitura. Palavras estáveis são aquelas
escritas na grafia convencional (alfabética) e sobre as quais a criança
tem domínio independentemente de suas hipóteses sobre a grafia de
outras palavras. Em geral, o conhecimento de seu próprio nome, ou
daqueles dos colegas, informa muitas coisas sobre o tipo, a
quantidade e a ordem das Tetras.
O professor Paulo César, de Santa Catarina, conta que em uma
atividade de Língua Escrita, numa classe de crianças com seis anos,
"As crianças ditaram um texto que fui escrevendo na lousa. Com-
binamos que eu escreveria tudo aquilo que eles dissessem. O que
resultou foi o seguinte:
Era uma vez, ne, sete cabritinhos e aí então, fica quieto João!, eles
pegaram e foram, como é mesmo a história Zé? lá longe, e o lobo
então, posso ir ao banheiro?, ne, bravo, bravo, agarrou o cabritinho
menor...
Li para as crianças o resultado final e diante das suas exclamações
de protesto:
Não é da história se eu posso ir ao banheiro!
Não pode pôr tanto daí ne então num conto de fadas, pedi que
eles indicassem onde estavam os trechos que deveriam ser retirados
e que outras formas poderiam ser usadas para que o texto resultasse
com uma cara de história escrita. Para realizar esta tarefa,
novamente as crianças utilizaram o que já conheciam sobre letras,
sílabas e palavras que serviram como indícios para que elas anteci-
passem significados".
O prazer de poder utilizar a língua como um todo é muito grande
e não há sentido em utilizá-la aos pedaços, fazendo para a criança
recortes do mais fácil para o mais difícil, mesmo porque o que para
os adultos parece fácil,
Caca bebe café O dado é
de Caca Caca dá o dado ao
bebê
Cartilha do ABC
DOlim Marote
para a criança pode ser extremamente difícil, como é esta lição de
cartilha, por ter palavras com letras repetidas e palavras com poucas
letras, contrariando frontalmente suas hipóteses iniciais sobre o que
as palavras devem ter para que se possa lê-las.
A falta de interesse em ler e escrever provavelmente tem sua raiz
no contato contínuo das crianças com textos sem sentido e sem
profundidade, como se elas não fossem capazes de extrair signifi-
cados e usufruir a língua como um todo. O contato freqüente e
continuado com diversos gêneros literários (contos, poesias, trovas,
letras de música) pode fazer com que os interesses florescentes do
leitor/escritor encontrem uma expressão. Além disso, este contato
permite também um conhecimento lingüístico cada vez mais
aprofundado.
Leitura e escrita são atividades de naturezas diferentes: enquanto
a leitura parte de algo dado — as palavras escritas na superfície da
folha —, a escrita representa tudo aquilo que o sujeito tem cons-
truído na cabeça sobre a grafia das palavras.
Entretanto, ambas exercem influência uma sobre a outra e fre-
qüentemente estão associadas nas tarefas escolares.
Interessante para o professor é poder observar como se dá esta
influência recíproca. Por exemplo, uma criança pode escrever ini-
cialmente uma escrita pré-silábica e, durante a leitura deste seu texto
para a professora, ir realizando um controle quantitativo (e algumas
vezes qualitativo) das letras que ela crê serem necessárias para
escrever os nomes dos animais, riscando aquelas que acredita esta-
rem "a mais":
Assim como o professor somente saberá o
que a criança escreveu se ela própria rea-
lizar a leitura, a criança irá modificando sua
concepção sobre a escrita lendo seus pró-
prios textos, acompanhada pelo professor.
O caminho mais curto para se aprender a
escrever é escrever. Assim, atividades de
escrita são sempre bem-vindas na pré-escola,
mesmo que as crianças — como em geral
será o caso — ainda não escrevam de forma
convencional, isto é, alfabeticamente. As
tarefas de escrita podem ter uma finalidade
(escrever um bilhete ou uma receita), podem
ser relacionadas à escrita de um texto que
foi lido previamente, podem ser uma lista
daquilo que se pode comprar na feira; po-
dem ser muitas coisas, o importante é que
sejam textos contextuados, isto é, que façam
sentido, que não sejam palavras desconec-
tadas umas das outras.
Palavras são palavras, mas são belas e sig-
nificativas quando colocadas lado a lado,
possibilitando infinitos sistemas de idéias.
Assim é que devemos oferecê-las às crian-
ças.
Escrita silábico-alfabética. Tais, 5 anos e 7 meses
Mariana, 3 anos
Escrita alfabética. Mariana, 8 anos
17. A AVO, O DINOSSAURO E O DEUS
Embora vivamos subordinados à pas-
sagem do tempo — tanto do ponto de vista
biológico quanto pelo fato de nossas vidas
transcorrerem numa seqüência de aconte-
cimentos —, temos grandes dificuldades em
definir o que é o tempo.
Muitas razões contribuem para esta di-
ficuldade. Entre outras, a grande abstração
do conceito de tempo e o fato — observável
na experiência de cada pessoa — de que se
pode ler, medir e interpretar no tempo de
maneiras diferentes. O tempo refere-se às
condições meteorológicas (se chove ou se
faz sol), àquilo que medimos no relógio, ao
que transforma bebês em pessoas idosas e a
muitas outras coisas, uma não excluindo a
outra. Difícil tem sido formular uma idéia,
uma definição que inclua simultaneamente
todas as maneiras de conceber o tempo.
Ao longo da história da humanidade,
os homens preocuparam-se com a passagem
do tempo. Talvez por temor à morte ou pelo
desamparo conseqüente ao nascimento, o
fato é que nós, seres humanos, estamos
permanentemente fazendo tentativas de cir-
cunscrever o tempo, que no entanto não ces-
sa de escorrer pelas nossas mãos.
Tentativas de medir pequenas frações
de eternidade têm sido realizadas pelo ho-
mem ao longo de sua história. Como frutos
destas tentativas temos os vários tipos de
relógios (de sol, ampulhetas, digital)e os
calendários (asteca, astrologia), cristão, ju-
daico, etc), aos quais estão associados even-
tos importantes na vida das pessoas como.
por exemplo, datas de aniversário.
A esfera celeste boreal, gravada por Dürer
As primeiras medições do tempo
feitas pelo homem tinham como re-
ferências os corpos celestes. As po-
sições relativas do Sol, da Lua, dos
planetas e das estrelas marcavam
início e fim das estações, meses e
anos, plantios e colheitas.
Galileu Galilei trabalhou em um re-
lógio pendular desde 1640, mas o
invento só se tornou conhecido após
sua morte.
Relógio árabe movido a água, 1206
Procurando apreender significados
amplos do tempo, os homens construíram a
seu respeito concepções científicas e re-
presentações no terreno da arte.
Cientistas e artistas têm procurado co-
locar a concepção do tempo ao nosso al-
cance.
És um senhor tão bonito Quanto a
cara do meu filho Tempo tempo
tempo tempo Vou te fazer um
pedido Tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo... Entro num
acordo contigo Tempo
tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo...
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo No
som do meu estribilho Tempo
tempo... Ouve bem o que te
digo Tempo tempo
Peço-te o prazer legítimo E o
movimento preciso
(...)
Oração ao Tempo
Caetano Veloso
Cronos/Saturno - Deus do Tempo
O tempo é o elemento da narrativa, as-
sim como é o elemento da vida; está inse-
paravelmente ligado a ela, como aos corpos
no espaço. É também o elemento da música,
que o mede e subdivide, carregando-o de
interesse e tornando-o precioso.
Thomas Mann A
Montanha Mágica
Em dois pontos distantes, temos dois
relógios perfeitos, indicando exatamente o
mesmo tempo. Essa declaração deve ser ver-
dadeira, independentemente do cuidado com
que a verifiquemos. Mas que significará
realmente? Como podemos certificar-nos de
que relógios distantes indicam exatamente o
mesmo tempo?
Albert Einstein e Leopold Infeld
A Evolução da Física
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é eternamente passado
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma distração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim,
que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
T.S. Eliot
Poesia - Quatro Quartetos
123
Monumento Cósmico, Joaquín Torres-García
Se para os adultos não é fácil conceber
o tempo, para as crianças isto é ainda mais
difícil. Existem muitas experiências que
mostram as enormes dificuldades cognitivas
que a criança enfrenta para conceber o
tempo (Piaget). No contato diário com as
crianças, no trabalho do professor em classe,
pode-se observar as idéias originais que elas
possuem a esse respeito.
A conversa transcrita a seguir foi re-
gistrada pela professora Rita Clementina, em
uma escola paulista;
"Professora: Meu irmão é mais novo
do que eu. Eu tenho 8 anos mais do que meu
irmão, que se chama Daniel.
José Maurício: Ah, ela só tem 8 anos...
Professora: Não, tenho 32, que é 8 anos
mais que meu irmão. Eu nasci primeiro, eu
sou a mais velha, mas meu irmão é maior,
mais alto do que eu. Como pode ser isso?
João: É porque homem é maior que
mulher.
José Maurício: Não é, a minha mãe é
maior que o meu pai, mas o meu pai é mais
velho.
Professora: Zé Maurício, quem é maior,
você ou o seu irmão Zé Pedro?
José Maurício: Eu sou o maior! Eu sou
o mais alto, porque o Pedro bate por aqui de
mim, ó (levanta-se mostrando com a mão a
altura do peito). Além disso, eu lembro
muito bem que, quando ele nasceu, eu já
existia.
Professora: E quem é o mais velho de
vocês dois?
José Maurício: O mais velho é o que
nasce primeiro. É uma questão de aniversá-
rio. O aniversário do meu irmão é mais pri-1
meiro que o meu, então ele é mais velho,
mas eu sou maior do que ele.
Daniel: Não é não. Eu faço aniversário
mais primeiro que o André, mas ele é o mais
velho. Mais velho e também maior.
Professora: Quantos anos tem seu ir-
mão?
José Maurício: (mostra três dedos).
Professor: E você?
(Mostra quatro dedos).
Professora: E qual tem mais?
José Maurício: Eu tenho mais, mas meu
irmão nasceu primeiro, ele é o mais velho,
por causa daquilo que eu te falei do aniver-
sário.
Iná: Eu acho que o Daniel tem razão.
(A questão fica em suspenso, para ser
resolvida depois.)"
Classe de crianças de
quatro a cinco anos
São Paulo - 1981
As crianças pequenas geralmente fa-
zem uma associação entre tamanho e idade:
quanto maior em tamanho, maior a idade.
Este critério torna-se confuso quando elas
verificam que as pessoas adultas per-
manecem do mesmo tamanho, embora fi-
quem mais velhas com a passagem do tem-
po. Quando tomam por critério o dia do ani-
versário, não conseguem perceber que ape-
sar de 20 de abril, a cada ano, ocorrer antes
de 8 de maio, pode haver anos de distância
entre um determinado 20 de abril e um 8 de
maio. As crianças não conseguem ainda ter
um domínio temporal da periodicidade dos
dias, semanas e meses.
A linguagem das crianças freqüente-
mente nos mostra o que elas pensam a res-
peito do tempo.
Quando as crianças dizem' 'Amanhã eu
fui'', nos informam que estão tentando sin-
tetizar mentalmente seqüência ontem-hoje--
amanhã, isto é, passado, presente e futuro.
Entretanto, não conseguem ainda seriar os
acontecimentos de forma estável, e por esta
razão pode parecer-nos que elas estão
confusas. Ao dizer "eu pegui a bola mais pri-
meiro", as crianças permitem que se observe
nelas uma preocupação com a seqüência
temporal dos acontecimentos, já que
procuraram conjugar o verbo pegar no par-
ticípio passado para exprimir algo que já
aconteceu.
Neste caso específico, o verbo não é
regular, e a criança deverá defrontar com a
arbitrariedade da lingua: no lugar de 'eu
pegui", deve-se dizer "eu peguei". Pode-se
informá-la sobre isso, sem no entanto deixar
de observar que a criança não pode errar o
que ainda não sabe, e que ela só pode
exprimir através da linguagem aquilo que
pensa, aquilo que ela construiu cognitiva-
mente.
Crianças mais velhas e adolescentes
têm também concepções próprias sobre es-
tas questões que denotam suas dificuldades
na compreensão do conceito. João Sebas-
tião, com treze anos de idade, respondendo à
pergunta "O que é o tempo?", disse o
seguinte:
"O tempo é a rotação que a Terra faz,
de acordo com o seu movimento; quando
gira, o tempo vai passando e tudo se movi-
menta. Também é o ciclo da vida do ho-
mem, por exemplo, que vai passando quan-
do nasce até ficar velho coroco.
Ah! eu acho assim, que é tudo que se
movimenta, tudo que é vivo pra si próprio,
porque tudo o que nasce tem um tempo de
vida e só pode ter esse tempo se está vivo.
As Idades da Vida, de
Hans Baldung Grien
Se a gente estiver
neta, o tempo também
po da Terra — o tempo da
a gente sair da Terra a gente
usa o nosso tempo, porque vai
vai ficando mais velho. O relógio
medir o tempo da Terra e não o nos
para saber o nosso tempo. Por exem
a gente sabe quando o tempo vai passa
assim, daqui a 50 anos estarei caduco.
seria do tempo de vida". Já seu irmão Pe
po é o tempo, é o tempo que passa, é as
marca o tempo, o tempo que passa, o cale
os meses". Pode-se observar nestas entre
João Sebastião se utiliza de referenciais re
um ciclo biológico determinado pelo te
no do Sol, o qual é diferente do tempo
Entretanto, segundo João Sebastião, o ci
tempo de vida da pessoa seja medido
no, diante da falta de uma opção me
definição "o tempo é o tempo". Para
de idade, o "tempo é o tempo q
tempo é coisa que a gente con
revela uma convivência pací
pável e que pode ser medi
ela permanece des
aqui, é ainda
num outro pla-tada, mas não o tem-
Terra não vale para todos. Se nao
usa o tempo da Terra, mas
gastando as energias do corpo e
foi uma coisa que inventaram para so tempo;
mas através do relógio dá plo, quando se nasce
em julho de 1974, ndo pelo calendário. Ó!
agora eu estou Se eu fosse falar de chuva, de
sol, aí não dro Caetano, de 8 anos respondeu:
"O tem-horas, é os dias, é isso, tempo. O
relógio ndário marca o tempo que passa, os
dias e vistas diferentes concepções sobre o
tempo: lativos. De acordo com ele, o homem
tem mpo medido pela rotação da Terra em tor-
medido pela rotação de um outro planeta, do
biológico se mantém, mesmo que o em outra
escala de valores. Pedro Caeta-lhor, utiliza a
própria palavra como sua Neide Soledade, com
dezessete anos que passa de minuto em minuto.
O vive junto e dentro dele". Neide fica com
uma "coisa" que é pal-da, mas cuja definição
para conhecida. O tempo, uma incógnita.
O universo é gerado não
segundo o tempo, mas
segundo a reflexão.
Heráclito
Como vimos, as crianças, para quem as dificuldades com a
noção de tempo são enormes, têm, no entanto, versões próprias sobre
esta questão. Pensam sobre este assunto e pensam-no de maneira
original. Observam diversos aspectos, formulam hipóteses — suas
próprias idéias, suposições a respeito do tempo — procurando fazer,
inter-relações entre os aspectos observados.
Não se pode ensinar a elas o conceito de tempo, na medida em
que este, como qualquer outro conceito, é construído pelo sujeito que
pensa sobre ele. Entretanto, o professor de pré-escola tem em relação
a este tema um importante papel a cumprir, pois o fato de a criança
construir o conhecimento internamente não significa que ela o
construa sozinha. Na escola, o processo de aquisição de
conhecimentos será mediado pelo professor, o qual deverá propor
questões adequadas, promover a troca de informações entre as
crianças, informando-as sobre aquilo que ele sabe.
E o que o professor deve saber?
Embora tenha mais dados sobre a questão, o professor encon-
tra-se tão desprotegido quanto as crianças face ao desconhecido.
Alunos e professor poderão utilizar suas concepções atuais para
construir noções cada vez mais articuladas sobre o tema, e a riqueza
transbordará desta troca de concepções, sem que necessariamente
se chegue a uma formulação exata.
Podemos observar que a compreensão do tempo se torna mais
acessível para a criança quando ela pode se utilizar de informações
fornecidas pelos adultos.
A professora Rita Clementina registrou em seu diário de classe
o seguinte:
"Hoje, uma aluna me perguntou: 'Quem é mais velho, minha
avó, o dinossauro ou o Deus?Esta pergunta maravilhosa mostra que
Maria procurou utilizar alguns pilares — alguns pontos fixos — para
conceber o tempo histórico. A avó, o dinossauro e o Deus são coisas
que ela já conhece e pensou que se conseguisse estabelecer uma
seqüência, seriar estes três elementos, poderia ter uma noção sobre a
passagem do tempo.
Eu respondi que o mais velho é o Deus, depois vem o dinos-
sauro, e em seguida a avó, e Maria pareceu-me ficar satisfeita. Penso
que esta informação foi estruturante para ela, permitindo que
pudesse fazer inter-relaçõesentreo que ela já sabia sobre o tempo e
que buscasse novas informações que se encaixassem em sua maneira
de pensar".
É difícil para as crianças ter uma di-
mensão do tempo transcorrido entre a for-
mação das primeiras comunidades de ho-
mens pré-históricos, a construção das pirâ-
mides do Egito pelo faraó Tutankamon e o
lançamento dos primeiros foguetes interpla-
netários. No entanto, referencias a estes fa-
tos, ou a muitos outros transcorridos na his-
tória da humanidade, são precisamente os
elementos que poderão ajudar as crianças a
construir a noção do tempo histórico. As-
sim, informações sobre acontecimentos da
história devem ser dadas sem que se espere
que a criança tenha o conceito de tempo, e
podem ser contadas como contos de fada, ou
como episódios pitorescos da vida de uma
família.
Egito media o
tempo com base
em Sol e Lua
Do Enviado Especial
As primeiras medições do tempo
feitas pelo homem tinham como re-
ferências os corpos celestes. As po-
sições relativas do Sol, da Lua, dos
planetas e das estrelas marcavam
início e fim das estações, meses e
anos, plantios e colheitas.
Os egípcios usavam o calendário
lunar, mas logo adotaram o ciclo da
estrela Sirius, na constelação do Cão
Maior, que tinha a duração de 365
dias. De acordo com os historiado-
res, o calendário baseado nesse
ciclo foi adotado em 4236 a.C. e é
usado até hoje, apesar de existir um
erro de um quarto de dia no ciclo.
Assim, Sirius aparece um dia mais
tarde a cada quatro anos (ano
bissexto).
Os egípcios também foram os
primeiros a segmentar o dia. Por
volta de 2900 a.C, eles construíram
um obelisco (um "poste" quadrado)
cuja movimentação da sombra de-
terminava a metade do dia e os dias
mais longos e mais curtos de um
ano. O primeiro relógio solar portátil
também é egípcio. Construído em
1500 a.C, ele dividia o dia em dez
partes, com uma linha marcando o
meio-dia. Cada segmento eqüivalia a
uma "hora". Ainda no Egito surgiu
o primeiro relógio de água. O meca-
nismo era simples: um tubo ia se
enchendo de água a uma velocidade
constante. Marcas no tubo identifi-
cavam as "horas".
Em 50 a.C, o astrônomo grego
Andronicos supervisionou a constru
ção da Torre aos Ventos, uma estru
tura octogonal que oferecia dois in
dicadores de hora diferentes. As pa
redes externas funcionavam como
relógios solares durante as estações
do ano e dentro havia um relógio de
água mecanizado. Em 1656, o cien
tista dinamarquês Christian Huy-
gens, construiu um relógio de pêndu
lo. Esse relógio tinha precisão de um
minuto por dia, a maior até então.
Galileu Galilei trabalhou em um re
lógio pendular desde 1640, mas o
invento só se tornou conhecido após
sua morte. (CAR)
As fases da Lua
O estabelecimento de uma rotina de vida familiar e escolar, o
acesso aos dados sobre os dias, semanas e meses contidos no ca-
lendário e à leitura das horas medidas pelo relógio, a observação das
variações meteorológicas, das características das estações do ano, do
movimento dos planetas, e assim por diante, são também
informações que apoiam a construção do conceito de tempo pela
criança
Em cada cidade, em cada local onde esteja situada a escola
seja zona rural ou urbana —, o professor poderá encontrar elementos
no infinito manancial entre o céu e a terra, a partir dos quais será
mais fácil descobrir inúmeras idéias sobre o tempo.
O professor deve pensar, organizar em sua mente o que ele já
sabe sobre o tempo; deve pesquisar, buscar informações, discutir
com seus colegas de trabalho e companheiros. Mas, sobretudo, deve
reconhecer que ele e seus alunos estão envolvidos em um processo
de construção de conhecimento que continuará por toda a vida. Não
se espera uma formação preciosista do professor: apenas uma
reflexão permanente sobre o processo de aprendizagem que vive ao
lado de seus alunos.
Etapas da construção da Geóde, La Villete, Paris,
França. De abril de 1983 a dezembro de 1984
18. ATUAÇÃO DO PROFESSOR
As crianças têm dificuldades de apren-
dizagem, são muito carentes, têm falta de ali-
mentos.(...) Eu tenho dificuldades — não
sou professora formada. A professora tam-
bém é carente. (...) Na convivência de viver,
eu vou ensinando, com dificuldades de
transporte, alimentação, muita dificuldade.
Trabalho, trabalho, não tenho nada, o salário
é muito baixo. (...) Eu seleciono num grupo
de um sítio, as crianças são tímidas, não têm
nada — eu também sou um pouco tímida.
Eu sinto falta de um plano bem planejado
(...)
Professora Maria Marta
Crato - Ceará/1983
Ser professor de primeiras classes no
Brasil
Durante muito tempo a profissão de pro-
fessor teve, na sociedade brasileira, carac-
terísticas bastante singulares. Por um lado, o
fato de ter por função a educação das
crianças — educação no sentido de trans-
missão de conhecimentos socialmente cons-
truídos para a manutenção e o desenvolvi-
mento da sociedade — conferiu-lhe uma ho-
norabilidade, uma respeitabilidade compa-
ráveis àquela conferida aos médicos. Por ou-
tro lado, a escola sempre foi confundida com
uma extensão da casa, e o professor com um
substituto dos pais, principalmente da mãe.
Por isso, a população feminina sempre se
direcionou para a prática dessa profissão. A
maioria dos cursos de formação de
professores para as primeiras classes eram,
então, apenas curtos períodos
complementares ao primeiro grau, como se
para a educação escolar de crianças com
menos de dez anos fosse necessário pouco
mais que a escola elementar para se somar à
vocação "maternal" das mulheres em ensinar
crianças...
Durante muitos anos, e até meados dos
anos 60, foi desejo de muitos pais que suas
filhas completassem o "curso normal" ou
"pedagógico"; isto garantiria a elas um di-
ploma numa profissão honrosa, não inter-
ferindo (pelo pouco tempo que solicitava)
em seus projetos matrimoniais. Suas filhas
poderiam se casar diplomadas antes dos 20
anos e, caso necessitassem trabalhar, pode-
riam fazê-lo numa função complementar às
funções domésticas. Fazer o curso para pro-
fessora primária era, de certa forma, uma boa
maneira de esperar um casamento.
A Normalista
Vestida de azul e branco
trazendo um sorriso franco
num rostinho encantador
Minha linda normalista
rapidamente conquista meu
coração sem amor Eu que
trazia guardado Dentro do
peito trancado Meu coração
sofredor
E
stou bastante inclinado a
entregá-lo aos cuidados
daquele brotinho em flor
Mas a normalista linda
Não pode casar ainda só
depois de se formar Eu
estou apaixonado E o pai
dela zangado O remédio é
esperar.
Autor e Intérprete
Nelson Gonçalves
Essa forma de encarar o professor primá-
rio e sua formação vem sofrendo transfor-
mações nos últimos vinte anos. A profissão
vem perdendo sua honorabilidade e respon-
sabilidade, transformada em uma opção (sal-
vo raras exceções) para quem não tem con-
dições de realizar cursos técnicos ou univer-
sitários. Sabemos que o respeito profissional
e o reconhecimento social não podem ser
exigidos a priori; devem ser conquistados, e
esta conquista passa necessariamente por
uma formação abrangente e aprofundada.
Não é isto, no entanto, o que se observa, no
Brasil, onde a precariedade cada vez maior
na formação dos professores tem gerado
uma população escolar semi-analfabeta. A
necessidade social tem provocado novos
investimentos nessa área. Mas estes
investimentos, além de insuficientes, quase
nunca têm considerado as questões
fundamentais.
É condição para a real formação de um professor
poder analisar sua própria atua-| ção em sala
de aula. Nessa análise, ele deve I utilizar os
conhecimentos que construiu — em sua
experiência passada como aluno, em I sua
experiência atual como professor e aqueles
derivados da formação que teve até o
momento — como instrumentos, ferramentas
disponíveis para a avaliação e o de-
senvolvimento da prática educativa que orientará
sua ação.
A verdadeira formação de um professor
se dá no dia-a-dia de sua prática na sala de
aula e, sendo assim, é permanente. O pro-
fessor se mantém em formação,
desenvolvendo-se como educador, enquanto
estiver atuando e refletindo sobre sua prá-
tica.
Os professores no Brasil não contam com uma situação propicia
para o desenvolvimento de sua profissão. As más condições de tra-
balho vão desde a precariedade de vida das crianças e dos próprios
professores — remuneração baixíssima — até a precariedade das
condições das salas de aulas em termos de espaço físico, ausência de
material de classe, etc.
Professores que se formam no Magistério, quando começam a
trabalhar com as crianças, observam que não sabem o que fazer com
elas, sentem-se como um barco à deriva e ancoram no primeiro porto
que lhes é oferecido — em geral, numa série de preceitos rígidos
sistematizados em um método.
Planos "bem planejados" que chegam prontos, acabados às mãos
dos profissionais,são, muitas vezes, como miragens para os sedentos
perdidos nos desertos: ilusões que se desfazem ao se tentar alcançá-
las.
Pois,assim como cada instituição escolar tem características e uma
dinâmica singulares, cada classe, cada grupo de crianças reunido em
trabalhos diários junto a um professor constitui-se em um sistema
único e irreproduzível de relações e trocas de repertórios individuais
que nascem de sua história.
Se aceitamos esta evidência, podemos reconhecer a ineficiência
dos "planos bem planejados", dos "métodos de trabalho" diretivos
impostos ou sugeridos por responsáveis pela administração do
ensino. A diversidade referida entre as escolas e as classes aponta
para a impossibilidade da existência de modelos de validade uni-
versal para dirigir os processos de ensino-aprendizagem em classe. E
mais: esses "métodos", verdadeiros "pacotes" de atividades, trans-
formando o professor num mero técnico que aplica uma seqüência de
rotinas preestabelecidas, impedem-no de realizar sua tarefa de modo
pessoal e criativo.
No entanto é inegável que o professor necessita de ferramentas
para realizar seu trabalho, necessita de instrumentos que tornem
possível o exercício de sua função social.
convencemos da particularidade de
cada classe e da originalidade das
Instrumentos do professor
Para ser professor, é necessário
ter alunos, crianças no caso. Uma
sala onde se possa reuni-los, móveis
e um mínimo de material (no limite,
lápis e papel) para os trabalhos das
crianças. Além disso, é preciso um
tempo prefixado (horas diárias,
número de dias da semana e meses
do ano), onde as situações escolares
relações emergentes da história do
grupo (professor e aluno), torna-se
claro que as propostas curriculares
oferecidas ao professor "devem ser
concebidas como projetos
genéricos que professores e alunos
experimentarão,
desenvolvendo e
multiplicando suas
possibilidades (...) uma
proposta coerente e
serão distribuídas e
organizadas.
harmônica com
sentido em si
142
A ineficiência
dos "planos bem
planejados "referida
anteriormente,
não significa
que se possa
prescindir de um
currículo e do
conhecimento de
instrumentos
conceituais a
partir dos quais
o professor
oriente sua
prática.
No entanto,
se nos
mesma que
oferece e
justifica uma
/ seleção e
organização de
conteúdos (...) e que
sugere uma forma de
trabalho (...), nada mais que
um instrumento de trabalho
que o professor e os alunos
selecionam, experimentam,
alteram e reconstroem."
("Más sobre Ia formación
del professorado",
Angel Pérez).
Tentar remediar as deficiências e lacunas da formação do pro-
fessor através de propostas curriculares que contenham uma mi-
nuciosa pré-especificação dos conteúdos, das tarefas a realizar e do
comportamento a desenvolver na classe leva o professor a renunciar
àquilo que permite que a sala de aula seja um espaço de criação,
onde, apoiando-se na prática já desenvolvida e nos conhecimentos
que possui, ele possa elaborar formas de intervenção a partir do
diagnóstico e da avaliação contínua da classe.
Um processo de ensino-aprendizagem significativo requer um
planejamento de atividades que provoque o interesse do grupo e
ative seus esquemas de pensamento, isto é, que envolva "cada indi-
víduo e o grupo em uma aventura de descobertas, indagações e apli-
cação. E isso só será possível quando o clima de relações e as ativi-
dades propostas venham ao encontro das preocupações despertadas
no aluno para compreender os problemas que o cercam" (An-gel
Pérez). Isso vale tanto para os alunos como para o professor.
Para que o professor possa manter a necessária autonomia em
relação à proposta curricular que recebe e possa elaborar um plano
flexível de intervenção, necessita de conhecimentos que lhe per-
mitam não apenas analisar as peculiaridades do grupo de alunos que
compõem sua classe, como também aqueles relativos aos conteúdos
que um currículo envolve. Porém, isso não significa que o professor
necessite, antes de iniciar sua prática pedagógica, atingir um
determinado estágio de conhecimentos dentro de um saber
educacional constituído e reconhecido como "científico". A exi-
gência de conquista deste patamar corresponde a uma atitude elitista
e discriminatória, que ignora as condições históricas e con-
temporâneas de cada professor.
As condições iniciais, o ponto de partida do professor, deve ser o
que chamamos de currículo oculto, aquilo que tanto professores
quanto alunos têm como bagagem cultural em cada momento. De
fato, este currículo é muitas vezes tão oculto, que as pessoas envol-
vidas num processo educacional não se dão conta de sua existência.
Muitos professores ignoram ou foram de-
sencorajados a acreditar no valor desse cur-
rículo pessoal, não acadêmico, para a tarefa
que realizam na sala de aula. Almejam poder
ter acesso a cursos de "renovação",
"aperfeiçoamento'',' 'reciclagem'' etc., ou a
' 'planos bem planejados". No entanto, po-
dendo partir do que efetivamente sabem,
terão muito mais condições de procurar seus
próprios caminhos para atingir o que ain-
da não conhecem, mas sentem necessidade
de conhecer. Procurando dar a cada um dos
elementos da cultura local uma perspectiva
universal, o professor pode utilizar no
trabalho com seus alunos as cantigas, his-
tórias, mitos, parlendas, técnicas de manu-
faturas, rituais, alimentos, vestuário, repre-
sentações gráficas, concepções históricas e
geográficas transmitidas pela tradição oral,
etc.
A aprendizagem que essa coleção de in-
formações promoverá pode alimentar não
apenas o repertório de propostas de ativi-
dades pertinentes aos conteúdos curriculares
como também as condições do professor
para o diagnóstico e avaliação da classe.
Neste processo de construção de novas
condições para a tarefa pedagógica, será
maior a autonomia do professor à medida
que ele possa desenvolver instrumentos que
organizem sua prática reflexiva. Entre esses
instrumentos, a observação e os registros
sistemáticos dos "fatos escolares" com os
quais convive no dia-a-dia da classe são, sem
dúvida, os mais importantes.
Existem sempre muitas diferenças entre as crianças, as classes nun-
ca são homogêneas, mesmo quando se trabalha com uma mesma
faixa etária. Existem também vários aspectos observáveis ocorrendo
simultaneamente em uma sala de aula. Numa atividade de desenho,
por exemplo, pode-se ver as conquistas gráficas, as conversas entre
as crianças, a concepção das crianças sobre os temas de-
senhados, as relações de sociabilidade que estão permeando a ati-
vidade e assim por diante. É preciso que o professor faça uma es-
colha, centrando sua observação em um só desses aspectos e des-
cartando os demais. Caso contrário, a pessoa se perde, obtendo ob-
servações picadas e superficiais que lhe darão poucos elementos para
analisar os processos cognitivos em curso.
Os registros das observações devem ser sistemáticos (diários, se
possível), e o professor deve ter um lugar (um caderno, um livro de
atas, etc) no qual faça suas anotações. Inicialmente, o professor
poderá anotar tudo o que lhe vem à mente quando relembra seu dia
na sala de aula. Com prática e experiência adquiridas, ele poderá ir
fazendo uma triagem (o que é importante anotar, o que é
desnecessário), levantando critérios pessoais de como realizar seu
diário de classe. É sempre interessante que o professor registre
algumas situações enquanto elas estão acontecendo, o mais fielmente
possível. Diálogos entre crianças, por exemplo, devem ser repro-
duzidos na íntegra, sem adulterações da linguagem própria das crian-
ças. O diário precisa conter tanto elementos de cada criança como do
processo pedagógico vivido pelo grupo como um todo. Deve-se
sempre evitar rotular as crianças, privilegiando a descrição dos
processos que estão ocorrendo com elas em detrimento de avaliações
de sua competência. Não existe o bom e o mau aluno: existem
pessoas em processo de construção de conhecimentos, apoiadas pelo
professor.
() professor poderá fazer dois tipos de ob-
servação:
fazer uma observação transversal, para
analisar como cada criança se relaciona com
um determinado objeto de Conhecimento;
agindo dessa maneira, o professor obterá um
painel das variações de desempenho entre as
crianças;
fazer uma observação longitudinal,
acompanhando a evolutiva de cada indiví-
duo. Por exemplo, observando como se da-
vam as relações de sociabilidade de uma de-
terminada criança no início do ano e com-
parando essa observação com as realizadas
no final de cada bimestre, ao longo do ano.
A memória tem uma capacidade finita e
transitória, mutável. Faz-se necessário que o
professor registre suas observações para que
elas não se percam e para que possa sis-
tematizar as idéias levantadas pela observa-
ção.
Para que os registros no diário forneçam os elementos necessários
para que o professor possa se situar dentro de sua própria trajetória
como educador e nos processos de aprendizagem em curso na sala de
aula, é preciso que ele leia de vez em quando o diário, verificando se
os objetivos pedagógicos foram alcançados e traçando caminhos para
alcançar novas metas, pensando em estratégias, organizando idéias,
colhendo e preparando materiais. Boa parte do trabalho de criação do
professor é realizada nesses momentos de reflexão, onde ele tem
condições de analisar seus procedimentos, avançando
profissionalmente e localizando as lacunas — o que lhe falta para
poder prosseguir. Para preencher essas lacunas, poderá contar com a
contribuição de um orientador, com pesquisas em publicações
especializadas, com a troca de opiniões entre colegas de profissão
(canal de informações ao alcance de todos e entretanto muito pouco
utilizado), com a leitura de livros, com cursos de especialização, etc.
Caso estas reflexões possam estar organizadas em forma de um
relatório periódico (realizado a cada dois meses, por exemplo), não
só a instituição a qual pertence o professor terá em mãos um registro
daquilo que foi realizado, como também o professor poderá con-
solidar os instrumentos que lhe garantem autonomia.
Se os registros são diários, se as reflexões são realizadas periodi-
camente, explicita-se a situação de formação permanente a que ne-
cessariamente está exposto o professor.
O professor e a comunidade de alunos
Assim como as crianças, o professor é uma pessoa com desejos,
pensamentos, opiniões próprias. Independentemente de sua vontade,
oferece modelos e padrões de comportamento, opiniões etc., uma
visão de mundo que, qualquer que seja sua atuação, transmite aos
alunos no convívio diário. É importante que a forma de ser e
pensar do professor não seja mascarada para as crianças que passam
com ele parte de seu dia. A sinceridade deve ser o ingrediente
principal na relação professor-alunos.
Os professores, como todas as pessoas, diferem quanto à neces-
sidade de maior ou menor organização pessoal e para o trabalho,
tanto quanto na atenção às normas de convivência socialmente acei-
tas; uns são religiosos, outros não; alguns são mais rígidos, outros
mais flexíveis em questões de moralidade, e assim por diante. É bom cada em argumentos pertinentes, sobre esta questão. As pessoas nun-
que o professor torne evidente sua maneira de ser e de viver, que ca são iguais umas às outras — a única forma de combater os pre-
se coloque como um indivíduo, para que as crianças saibam, pos- conceitos é conviver com as diferenças.
sam conhecer com quem estão convivendo. Para além dessas diferenças interindividuais, existem naturalmente
No contato com as diversas pessoas, com maneiras diferentes de pressupostos pedagógicos e critérios comuns adotados por cada
considerar uma mesma questão, as crianças terão maiores oportu- instituição para a atuação dos professores,
nidades de construir uma opinião consistente, autônoma, alicer-
19. PRESSUPOSTOS PEDAGÓGICOS
Alguém só se torna marceneiro tornando-
se sensível aos signos da madeira e médico
tornando-se sensível aos signos da doença
A formação das crianças em uma determinada cultura se dá num
processo de interação entre as crianças e os adultos em que os adultos
orientam as crianças. Parte dessa aprendizagem, isto é, do processo
de educação das crianças, fica a cargo da familia; parte fica a cargo
das escolas.
( ......)•
(...) Nunca se sabe como uma pessoa
Há muitos e muitos anos, a responsabilidade de transmitir às no-
vas gerações os conhecimentos construídos e acumulados pela hu-
manidade através de sua história tem pertencido à escola. E cada vez
mais cedo, por necessidades criadas pela sociedade industrial, as
crianças começam a freqüentar instituições que cuidam, ao lado da
família, de seu desenvolvimento sociocultural.
aprende; mas de qualquer forma que apren-
da, é sempre por intermédio de signos, per-
dendo tempo e não pela assimilação de con-
teúdos objetivos. Quem sabe como um es-
tudante pode tornar-se repentinamente '
bom em latim", que signos (amorosos e até
mesmo inconfessáveis) lhe serviram de
aprendizado?
(......) Nunca se aprende fazendo como
alguém, mas fazendo com alguém, que não
tem relação de semelhança com o que se
aprende.
Proust e os Signos
Gilles Deleuze
Mariana, 5 anos
A tarefa de educar não é simples, nem fácil. Os textos precedentes
visaram introduzir questões na reflexão daqueles que se dedicam
ensinar crianças. Como essa tarefa pode ser exercida respeitando as
reais condições individuais e socioculturais das crianças em cada
momento de seu desenvolvimento? Enfrentamos essa questão
discutindo diferentes aspectos que envolvem a educação pré-escolar:
aqueles relacionados às condições socioafetivas e intelectuais das
crianças; aqueles internos ao fazer pedagógico no espaço da escola;
os que envolvem a habilitação de indivíduo-professores; os que
tratam das relações entre escolarização e desenvolvimento
sociocultural. Esperamos com isso provocar em cada professor uma
reflexão sobre seu atual fazer pedagógico, suscitando transformações
sem no entanto pretender "inaugurar um novo método".
O trabalho de cada professor é fruto da reflexão sistemática a que
ele possa fazer sobre sua prática. Esta reflexão é informada pelo que
é vivido e pensado pelo professor e pelo contato que ele possa ter
com o que foi pensado e escrito a respeito dos processos de apren-
dizagem. (Como se sabe, a psicologia tem trazido grandes contri-
buições a essa área).
Mais do que simples manuais de trabalho, geralmente reduzidos a
listas de atividades a serem propostas para as crianças, os profes-
sores necessitam de instrumentos teóricos a partir dos quais possam
estruturar sua ação pedagógica, estabelecendo as bases para a
existência de relações que favoreçam a formação de todos os su-
jeitos envolvidos no processo. Cabe aos educadores procurar as me-
lhores formas de utilizar essas informações em seu trabalho. A qua-
lidade das relações entre a escola e a clientela que ela se dispõe a
atender vai depender desses instrumentos escolhidos pelo professor.
Christiano, 5 anos
Fêz-se aqui uma opção por instrumentos fornecidos pela episte-
mologia genética, formulada e desenvolvida por Jean Piaget e seus
colaboradores, e pela teoria sócio-histórica, criada por L.S. Vigotsky
e seu grupo.
A teoria sócio-histórica descreve de que maneira desenvolvimen-
to, aprendizagem, cultura e educação se encontram integrados. A
epistemologia genética, por sua vez, formula uma teoria do desen-
volvimento cognitivo, descrevendo as características do pensamento
das crianças em cada estágio de seu desenvolvimento. O conheci-
mento dessas características pelo professor permite que a ação pe-
dagógica aconteça numa relação de maior "intimidade intelectual"
com as crianças em cada momento do desenvolvimento de suas
condições de pensamento.
Os instrumentos fornecidos por essas teorias contribuem para a
formulação de uma pedagogia de orientação construtivista. Segundo
esta orientação, a aprendizagem é um processo realizado, construído
por cada pessoa à medida que age — física ou mentalmente — sobre
as coisas que estão no mundo.
O construtivismo não é um método para a prática pedagógica. É,
sim, uma concepção sobre a forma como acontece o aprendizado.
Esta concepção contribui para a definição dos objetivos da educação
e para a formulação da intervenção pedagógica.
A intervenção pedagógica viabiliza-se através de procedimentos
didáticos, isto é, de propostas de atividades concebidas pelo pro-
fessor em função daquilo que ele avalia estar acontecendo na classe
a cada momento.
Assim, a partir das idéias pedagógicas pelas quais optou a escola
(e faz parte desta opção uma escolha das questões que serão colo-
cadas ao alcance das crianças: língua portuguesa e música, mate-
mática e ciências, nenhuma destas e tantas outras), alunos e pro-
fessor têm a possibilidade de conquistar e exercer sua autonomia
moral e intelectual.
As teorias até aqui referidas contribuem para o reconhecimento da
especificidade do pensamento infantil e da forma como acontece o
desenvolvimento da aprendizagem. Além delas, também a teoria
psicanalítica — criada por Sigmund Freud — oferece valiosa
contribuição aos educadores que buscam conhecer melhor as
crianças com as quais interagem. A teoria psicanalítica reconhece o
desenvolvimento da vida emocional nas crianças e a existência de
um mundo mental infantil pleno de significações. Este "mundo
interno" está todo o tempo presente nas ações físicas e intelectuais
das crianças. É o espaço da mente da criança, que não pode ser
conhecido senão por especialistas, mas que deve ser respeitado pelos
adultos que com ela convivem. Assim, embora a teoria psicanalítica
nao deva fazer parte do espaço conceituai do trabalho propriamente
escolar, ela pode jogar novas luzes sobre o trabalho do educador.
A integração da psicologia do desenvol-
vimento, da teoria sócio-histórica e da teoria
psicanalítica tornou possível a formulação
do ponto de vista escolhido para iluminar os
temas tratados nos capítulos anteriores. Esta
escolha não é original, nem foi aleatória:
resultou de alguns anos de trabalho, reflexão
e pesquisa em educação pré-escolar que
levaram a reconhecer a qualidade da
concepção construtivista-interacionista so-
bre a aprendizagem e a intervenção peda-
gógica. Conhecida por algumas pessoas e
desconhecida de outras tantas, não é, como
se vê, um ponto de vista comum ou de en-
tendimento fácil. No entanto, seus pressu-
postos são indispensáveis à prática reflexiva
que torna possível pensar e realizar um fazer
pedagógico como o que é sugerido nas
páginas desses livros.
Ananda, 5 anos
Já vimos que o que uma criança é capaz de fazer e de aprender em
um momento determinado depende de vários fatores: 1) do estágio
de desenvolvimento de pensamento em que ela se encontra; 2) de
suas condições socioafetivas; e 3) dos conhecimentos que ela pôde
construir em suas experiências anteriores. Isto quer dizer que os
conhecimentos que uma criança já tem quando chega à pré-escola
condicionam, junto com suas condições de pensamento, o seu de-
senvolvimento escolar. A aprendizagem que uma criança inicia quan-
do começa a freqüentar uma classe parte sempre de concepções,
representações e conhecimentos que ela já construiu e que lhe ser-
virão de instrumento para se relacionar com as novas situações de
aprendizagem que encontrará na escola.
Partindo deste ponto, a experiência escolar deve assegurar a rea-
lização de aprendizagens significativas. São situações de apren-
dizagens significativas aquelas em que os novos conteúdos de
aprendizagem se relacionam com o que a criança já sabe, podendo
ser assimilados por ela.
João Sebastião, 6 anos
C) processo pelo qual se produzem aprendizagens significativas
requer uma intensa atividade por parte da criança, que deve esta-
belecer relações entre os novos conteúdos e os seus esquemas de
conhecimento. A criança tem que pôr em jogo tudo o que sabe e
pensa sobre o assunto em torno do qual a atividade foi organizada e
tem que resolver problemas e tomar decisões em função do que terá
que produzir durante a situação proposta pelo professor. Essa
atividade é de natureza interna, se dá no nível do pensamento da
criança a partir das condições de conhecimento que ela já cons-
truiu, e não deve ser identificada com uma simples manipulação ou
exploração de objetos e de situações.
Para que aprendizagens significativas ocorram é importante tam-
bém que a criança tenha uma atitude favorável em relação às pro-
postas de atividades, que esteja motivada para relacionar o que está
aprendendo com o que já sabe. E quanto mais os conteúdos da
aprendizagem — fatos, destrezas ou habilidades, conceitos, normas
etc. — forem interessantes em si e puderem ser efetivamente uti-
lizados pela criança, mais significativos se tornarão para ela.
Thiago. 5 anos
Vimos, em diferentes capítulos, que as crianças pequenas pensam
e produzem teorias sobre os fatos que as rodeiam e para os quais
dirigem sua atenção curiosa. Se a pré-escola puder oferecer a elas
um espaço onde, através de situações de aprendizagens sig-
nificativas, possam desenvolver suas condições de pensamento (seus
esquemas de conhecimento sobre esses fatos), estará criando as me-
lhores condições para que a criança possa aprender, isto é, para que
venha a ser capaz de realizar aprendizagens por si só em diferentes
circunstâncias.
A esse respeito, deve-se sempre levar em consideração a diferen-
ça real que existe entre o que a criança a cada momento é capaz de
aprender sozinha e o que pode fazer e aprender com a ajuda de
outras pessoas, observando-as, imitando-as, escutando suas ex-
plicações, seguindo suas instruções e colaborando com elas. É neste
espaço, delimitado pelo nível de desenvolvimento efetivo (aquele
que permite à criança aprender sozinha) e pelo nível de desenvol-
vimento potencial (aquele que pressupõe a ajuda de outras pessoas
para que ocorra a aprendizagem), que a ação educativa deve acon-
tecer.
Vistos desta forma, desenvolvimento,
aprendizagem e ensino são três elementos
relacionados entre si, na medida em que o
nível de desenvolvimento efetivo condicio-
na o que é possível à criança aprender com
as atividades escolares, enquanto essas ati-
vidades podem modificar esse nível de de-
senvolvimento a partir das aprendizagens
específicas que promovem. Do que resulta
que a aprendizagem deve partir do nível de
desenvolvimento efetivo da criança, mas
não para se acomodar a ele; e sim para fazê-
lo avançar através do espaço de aprendiza-
gem possível a cada momento.
Nessa perspectiva, a criança é quem cons-
trói seu processo de aprendizagem; dela de-
pende a construção do conhecimento. No
caso da aprendizagem escolar, essa constru-
ção não surge de uma atividade pessoal. Ela
está integrada a uma atividade interpessoal:
são as interações entre professor-aluno e
criança-criança que fornecem as condições
para a atividade de pensamento que possi-
bilita o processo de construção e modifica-
ção da competência da criança para a apren-
dizagem.
Dentre essas interações que ocorrem no
espaço escolar, as mais favoráveis para a
aprendizagem são as interações no trabalho
cooperativo, pois é neste que as crianças po-
dem confrontar pontos de vista modera-
damente divergentes e realizar atividades
com divisão de funções e distribuição de
responsabilidades.
A pré-escola é um espaço original, tem uma função particular no
processo de educação das gerações. Ela é um dos espaços onde as
crianças pequenas podem se desenvolver como sujeitos ativos e
criadores. Sua função é a de promover a aprendizagem de elementos
da cultura e do pensamento modernos num processo integrado ao
desenvolvimento das estruturas de pensamento da criança.
Daniel, 5 anos
A escola não é um espaço familiar, nem um
espaço hospitalar, nem um espaço as-
sistencial, nem um espaço terapêutico. A escola
é um espaço de aprendizagem. É
evidente que os limites de atuação desse es-
paço não são rígidos e, principalmente em
se tratando do atendimento de crianças, e
em se sabendo que no Brasil há fome e inú-
meros problemas de saúde pública, não há
como a escola não considerar e atuar em al-
guns desses outros espaços. No entanto, ao
se procurar definir os conteúdos a serem tra-
balhados na pré-escola, deve-se ter sempre
em vista que a função central da instituição
escolar é a de formação das novas gerações
na cultura em que estão imersas, e que essa
educação passa necessariamente pela re-
construção e recriação de objetos sociais de
conhecimento e pela criação de novas for-
mas culturais.
20. A FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS E DOS PROFESSORES
Ao longo dos textos e dos programas que compõem o projeto
"Professor da Pré-Escola", tratamos de diferentes temas relativos à
educação pré-escolar, discutindo e analisando pontos de vista sobre
como é possível compreender e desenvolver um trabalho escolar
vigoroso e criativo com crianças entre três e sete anos de idade.
Nestes textos e programas, utilizamos gravuras, pinturas e fotogra-
fias; poemas, letras de músicas, trechos de ensaios e de obras literá-
rias. Vários educadores, filósofos, pintores e músicos foram citados.
Alguns dos autores e artistas citados são responsáveis diretos pelo
pensamento educacional e pedagógico que é a matriz deste projeto.
Nos trabalhos de outros, pudemos encontrar boas sínteses para
idéias que desejávamos expor. As últimas páginas desta publicação
serão dedicadas a alguns — e não a todos, por serem muitos —
destes importantes criadores aqui citados. Nossa intenção não é
informar os leitores sobre a biografia e a bibliografia, sobre a vida e
a obra de cada um deles para que se tenha sobre eles um conheci-
mento enciclopédico. O que gostaríamos é que nossos leitores pu-
dessem conhecer um pouco melhor o pensamento de alguns dos
mais significativos representantes da cultura de nossa época para,
assim, ampliar os horizontes de seu conhecimento, avançando um
pouco mais em sua formação profissional.
A formação de um educador é um processo que não tem fim. O
mundo é muito vasto, muito já se pensou, escreveu e criou em
diferentes áreas do conhecimento. Não há limites para a leitura, a
pesquisa e a reflexão. Nossos textos e programas apenas tocaram
nas principais questões relacionadas à educação de crianças peque-
nas. No reduzido espaço de que dispúnhamos, apenas levantamos
problemas, discutimos aspectos, indicamos caminhos.
Para aqueles que desejam continuar refletindo, pesquisando, tri-
lhando enfim os caminhos de sua formação, apresentamos a seguir
outras informações sobre alguns dos educadores, filósofos, pintores
e músicos citados anteriormente. De posse destas informações,
nossos leitores poderão encontrar novas alternativas em meio ao
conhecimento.
169
Comentaremos inicialmente a obra de alguns dos autores vincu-
lados mais diretamente ao pensamento educacional. Exporemos em
princípio um pouco da contribuição do psicólogo suíço Jean Piaget
para a cultura de nosso tempo. A importância de conhecer a obra de
Piaget reside na possibilidade que ela nos oferece de compreender
melhor o que é uma criança do ponto de vista de sua ação inteligente
e de como, através desta ação, é possível a ela construir
conhecimentos.
JEAN PIAGET nasceu na Suíça, em Neuchâtel, em 1896, e mor-
reu em Génève, em 1980. Tendo elaborado uma metodologia de
pesquisa própria e originalíssima, Piaget demonstrou a existência de
fases diferenciadas do desenvolvimento cognitivo desde o nas-
cimento até a adolescência. Através da experimentação, Piaget des-
creveu os processos fundamentais de formação do conhecimento na
criança.
Embora Piaget nunca tenha tratado diretamente das questões pe-
dagógicas, suas reflexões oferecem aos educadores algo como óculos
de longo alcance que lhes permite observar melhor o que está em
curso nas relações de ensino/aprendizagem. Não existem métodos
pedagógicos piagetianos, mas a teoria de Piaget pode esclarecer as-
pectos fundamentais do modo de pensar de cada criança; conhe-
cendo seu modo de pensar, torna-se mais fácil formular e levar à
frente um método pedagógico consistente, cujas propostas didáticas
se encaixem de fato com seus usuários: as crianças.
Na epistemologia genética de Piaget desenhos e pinturas infantis
desempenham papel particularmente importante na investigação da
formação das estruturas intelectuais. Segundo ele, a criação plástica,
ao lado da linguagem e das atividades lúdicas, constitui formas de
representação através das quais se revela o mundo interior da
criança.
Piaget deixou uma obra bastante extensa. Entre seus livros edita-
dos no Brasil, lembramos:
O Julgamento Moral na Criança (1932), O Nascimento da
Inteligência na Criança (1936), A Construção do Real na Crian-
ça (1937), A Gênese do Número na Criança (1941), em colabo-
ração com Szeminska. A Formação do Símbolo na Criança
(1946), A Psicologia da Inteligência (1947), A Representação ao
Espaço na Criança (1948), Da Lógica da Criança à Lógica do
Adolescente (1955), Gênese das Estruturas Lógicas Elementares
(1959).
Hoje, desaparecido Piaget, sua obra tem continuidade nos tra-
balhos de B. Inhelder e de outros colaboradores que realizam pes-
quisas no Centro Internacional e Interdisciplinar de Epistemologia
Genética, fundado por Piaget em 1955 e sediado em Génève, na
Suíça. Com diversos destes colaboradores, Piaget escreveu O
Possível e o Necessário, importante obra publicada originalmente
em 1981. Neste livro, a epistemologia construtivista é claramente
colocada em oposição à idéia muito difundida de que todas as pes-
soas já nascem com inteligência pré-formada e também contra a
idéia de que o conhecimento vem apenas da experiência prática das
pessoas.
Piaget foi um dos grandes pensadores deste século. Sua obra
revolucionou o pensamento moderno, tendo se espalhado, criado
raízes e gerado frutos no panorama educacional de todo o mundo.
Um desses frutos é o trabalho da argentina Emília Ferreiro,
educadora que, tendo-se dedicado a compreender "os mistérios da
história, pré-escolar da escrita"
(1)
— ponto-chave da educação inicial
— colaborou grandemente para a modificação do pensamento
educacional contemporâneo.
(1) Emília Ferreiro, in Nota Preliminar a Psicogênese da Língua Escrita
EMÍLIA FERREIRO é doutora
pela Universidade de Génève, onde
foi orientanda e colaboradora de
Jean Piaget. Suas pesquisas sobre
alfabetização foram realizadas
principalmente na Argentina e no
México, onde é professora titular do
Centro de Orientação e Estudos
Avançados do Instituto Politécnico
Nacional. O resultado destas
pesquisas está publicado em sua
obra principal, A Psicogênese da
Língua Escrita (1984), escrita em
parceria com Ana Teberosky,
pesquisadora do Instituto Municipal de Investigações Psicológicas
Aplicadas à Educação, em Barcelona, Espanha.
Neste trabalho, as autoras demonstram como as crianças constroem
diferentes hipóteses acerca da escrita antes de chegarem a compreen-
der as bases do sistema alfabético. Neste processo, as crianças passam
por uma série de níveis de conceitualização, níveis estes que são anali-
sados em detalhes pelas autoras. A publicação da Psicogênese da Lín-
gua Escrita em diversos países do mundo tem causado uma verda-
deira revolução conceituai na alfabetização de crianças.
Outros livros de Emília Ferreiro publicados no Brasil são Alfabe-
tização em Processo (1986) e Reflexões sobre Alfabetização
(1985). Todos esses trabalhos constituem uma aplicação da teoria de
Piaget a um domínio inexplorado sob esta perspectiva, sendo de grande
interesse e fundamental importância para aqueles que se interessam pe-
las relações entre conhecimento lingüístico e compreensão da língua
escrita e aos que se dedicam a estudar os processos de construção do
conhecimento pela criança.
Os processos cognitivos da criança descritos nos trabalhos de Emí-
lia Ferreiro e Ana Teberosky são muito diferentes daqueles que os mé-
todos de alfabetização tradicionais supõem e consideram. A leitura des-
tes trabalhos é portanto imprescindível para aqueles que se dedicam
à educação pré-escolar, pois eles revolucionam não apenas a visão so-
bre a alfabetização, mas também toda uma concepção sobre pedago-
gia; suas idéias podem gerar profundas alterações na maneira de encarar
as relações educacionais.
Enquanto Piaget e seus seguidores detiveram-se mais profunda-
mente no funcionamento interno da psicologia humana, Vigotsky,
Leontieve Luria, pesquisadores russos, orientaram suas reflexões no
sentido de compreender e explicitar as relações que existem entre a
criança e o meio em que ela se insere, entre o homem e a sociedade
humana da qual ele é ao mesmo tempo originário e construtor.
Embora vivendo apenas 38 anos (1896 - 1934), LEV SEMENO-
VICH VIGOTSKY deixou para as gerações que lhe seguiram im-
portantes contribuições que atualmente enriquecem pesquisas e teo-
rias em psicologia e pedagogia.
Durante a década de 1920, ele e seu grupo — entre eles A.R. Lu-
ria e A. M. Leontiev — pesquisaram temas como a relação entre pen-
samento e linguagem, a natureza do processo de desenvolvimento da
criança e o papel da instrução no desenvolvimento.
Diz Vigotsky: "Desde o nascimento, as crianças estão em cons-
tante interação com os adultos, que ativamente procuram incorporá-
las à sua cultura e à reserva de significados e de modos de fazer as
coisas que se acumulam historicamente. No começo, as respostas
que as crianças dão ao mundo são dominadas pelos processos
naturais, especialmente aqueles proporcionados por sua herança
biológica. Mas, através da constante mediação dos adultos, proces-
sos psicológicos instrumentais mais complexos começam a tomar
forma." E por este caminho Vigotsky desenvolveu suas pesquisas.
Vigotsky foi ignorado no Ocidente e teve a publicação de suas
obras suspensa na União Soviética em 1936. Hoje, no entanto, seu
trabalho vem sendo profundamente estudado e valorizado. A morte
prematura de Vigotsky interrompeu uma carreira brilhante. A atua-
lidade dos temas por ele tratados é o sinal mais evidente de que
estamos diante de uma obra da maior significação.
As obras de Vigotsky publicadas no Brasil são: A Formação So-
cial da Mente (1984), Pensamento e Linguagem (1984) e Lin-
guagem, Desenvolvimento e Aprendizagem (1988), este último
contendo também artigos de Leontiev e Luria.
ALEXIS N. LEONTIEV, nascido em 1903, foi um dos impor-
tantes psicólogos soviéticos a trabalhar com Vigotsky e Luria. Mem-
bro da Academia Soviética de Ciências Pedagógicas, recebeu em
1968 o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Paris.
Uma das principais preocupações de Leontiev foi com a pesquisa
das relações entre o desenvolvimento do psiquismo humano e
a cultura, ou seja, entre a evolução das funções psíquicas e a assi-
milação da experiência histórica por cada indivíduo.
Teórico e experimentador, Alexis Leontiev não limitou seu hori-
zonte de pesquisa ao laboratório. Preocupado com os problemas
da vida humana em que o psiquismo intervém, seu campo de estu-
dos compreendeu a pedagogia, a cultura no seu conjunto e o pro-
blema da personalidade. Leontiev morreu em 1979.
Ainda que não possa ser facilmente compreendida por todos e que
só possa ser efetivamente utilizada por especialistas, a teoria
psicanalítica, formulada por SIGMUND FREUD no final do século
passado, também deve ser conhecida pelos educadores que tra-
balham com crianças. A psicanálise é um conjunto articulado e com-
plexo, até hoje em evolução, de hipóteses e teorias relativas ao fun-
cionamento mental do indivíduo, lendo surgido na Áustria como
uma terapia de perturbações nervosas, rapidamente transformou-se
em um dos mais completos modelos de investigação da natureza
humana. Os conceitos formulados por Freud tornaram-se ins-
trumentos obrigatórios de pesquisa e interpretação em todos os do-
mínios das ciências do homem.
A obra de Freud é imensa. Para quem deseja conhecê-la um pou-
co melhor, indicamos o volume a ele dedicado da coleção Os Pen-
sadores, editado em 1978 pelaEditora Abril Cultural.
Outro importante seguidor do pensamento freudiano foi D.W.
WINNICOTT (1896 - 1971), médico pediatra e psicanalista
que se dedicou ao estudo da psicologia infantil.
Winnicott publicou livros de extremo interesse
para pais e educadores, como por exemplo
O Brincar e a Realidade (1973), onde analisa
os aspectos que determinam a capacidade
individual de viver a criatividade.
ou A Criança e Seu Mundo
(1975), onde trata das relações
entre mães e bebês,
entre pais e filhos, e
onde aborda a vida da
criança na escola
e no mundo mais
vasto que a
cerca.
Muitas contribuições foram feitas no sentido de enriquecer e am-
pliar o campo da psicanálise. MELANIE KLEIN (1882 - 1960) po-
de ser considerada uma das principais impulsionadoras da psica-
nálise depois de Sigmund Freud. Tendo-se dedicado inteiramente à
psicanálise durante quatro décadas, Klein sempre se considerou
seguidora da teoria e técnica da terapia e investigação psicanalíti-cas
tais como estabelecidas por Freud. O desenvolvimento da análise de
crianças nos mesmos moldes dos procedimentos da psicanálise de
adultos permitiu a Klein lançar luz em muitas áreas do conhecimento
profundo do homem, especialmente no psiquismo dos primeiros
meses de vida do bebê. Entre seus livros encontram-se Inveja e
Gratidão (1974), o Sentimento de Solidão (1975) e A Educação
de Crianças (1973), este último em parceria com outros autores.
BRUNO BETTELHEIM (1903) é mais um dos herdeiros do pen-
samento de Freud. Bettelheim realizou junto às crianças e aos ado-
lescentes vários estudos numa perspectiva interdisciplinar, onde a
psicanálise e a antropologia se entrelaçam na busca de uma com-
preensão ampla dos diferentes aspectos que envolvem o desenvol-
vimento socioemocional da criança. A Psicanálise dos Contos de
Fadas (1979) e A Psicanálise da Alfabetização (1984), entre
outros, são livros imprescindíveis para todos os educadores.
Conhecer melhor o pensamento dos autores até aqui citados pode
ajudar a compreender as crianças, a vida, o nosso tempo. Eles são
parte importante da cultura de nossa época. Mas a cultura abarca
muitos outros aspectos da vida; para além de conceitos, explicações
e raciocínios, a cultura engloba também linguagem, ideologias,
costumes, valores, crenças, sentimentos, interesses, atitudes, pautas
de conduta, tipos de organização familiar, de trabalho, econômica e
social, tecnologia, tipos de moradia, etc. O conjunto de respostas
coletivas geradas por um grupo social para superar as dificuldades
encontradas no transcurso de sua história configura sua cultura. E
um dos mais belos e significativos aspectos da cultura é a arte em
todas as suas manifestações: a literatura, a música, a pintura.
Os educadores são aqueles que se propõem a auxiliar os membros
da sociedade a assimilar a experiência culturalmente organizada,
com o fim de que eles se convertam em membros ativos e, ao
mesmo tempo, em agentes criadores de novas formas culturais. Boa
parte destes educadores tem acesso à sua cultura local encontrando,
no entanto, muita dificuldade em conhecer o imenso universo da
produção cultural da humanidade. Dentro do pequeno espaço de que
dispomos aqui, procuraremos falar agora de alguns dos artistas que
tão bem exprimiram os desejos, sentimentos e realizações do gênero
humano.
A literatura é feita com palavras; livros são uma sucessão de pa-
lavras, umas ao lado das outras. Isto não é novidade. O que é sur-
preendente é que as palavras podem formar sentidos tão deslum-
brantes que com um só livro podemos ter o mundo todo em nossas
mãos: das sensações mais escondidas nas profundezas da alma às
imagens, gestos, cheiros, cores e sons que compõem terras e lugares.
Assim, mergulhar na literatura de um livro corresponde a fazer uma
viagem guiada pela imaginação — a nossa e a do autor.
Na literatura, dois gêneros têm grande expressão: a prosa e a poe-
sia. Faremos a seguir referência (e reverência!) a alguns dos grandes
autores brasileiros citados em nossos textos.
O poeta CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE nasceu em Ita
bira, Minas Gerais, em 1902. Ainda em Minas, fundou, em 1925, o
grupo modernista de seu Estado de origem. Transferiu-se para o Rio
de Janeiro, onde publicou sua primeira antologia, Alguma Poesia
(1930), seguida de Brejo das Almas (1934) e da antologia
Sentimento do Mundo (1940), onde ele expressa em tom entre
irônico e lírico a realidade do presente e a solidão espiritual de quem
vive nas grandes cidades. Em A Rosa do Povo (1945), Drummond
cantou a luta proletária e antifacista ; em seguida, discursando sobre
as recordações do passado e sobre a especulação metafísica, escreveu
poesias experimentais recolhidas em Claro Enigma (1951),
Fazendeiro do Ar (1954), Lição de Coisas (1962), e Boitempo
(1968). Considerado o maior poeta contemporâneo brasileiro,
Drummond é também autor de contos e crônicas, entre as quais
Confissões de Minas (1944), Fala, Amendoeira (1957) e A Bolsa e
a Vida (1966). O grande poeta morreu em 1988, no Rio de Janeiro.
O grande escritor brasileiro MACHADO DE ASSIS nasceu no Rio
de Janeiro em 1839 e morreu em 1908. Era de família humilde. Seu
pai, pintor de paredes, era mulato e sua mãe era uma açoriana branca,
transferida para o Rio da ilha nativa de São Miguel. Autodidata,. Ma-
chado publicou aos dezesseis anos o seu primeiro texto poético, A
Palmeira (1855), após ter abandonado a casa paterna. Superadas as
dificuldades econômicas iniciais e os preconceitos raciais, conseguiu
conquistar uma boa posição social até tornar-se alto funcionário do
Estado e presidente da Academia Brasileira de Letras (1897). Seus
principais romances são Ressurreição (1872), A Mão e a Luva
(1874), Iaiá Garcia (1878), Memórias Póstumas de Brás Cubas
(1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Memorial
de Aires (1908). Estas obras, quase sempre crônicas de costumes,
retomam freqüentemente os mesmos personagens: jovens candidatos
a carreiras públicas, mas momentaneamente dedicados à única
atividade própria de homens livres: o amor; jovens casadoi-ras, mães
viúvas, tias e parasitas vários, todos estes vistos por um homem que
perdeu toda ilusão sobre a autenticidade dos sentimentos humanos.
Embora tenha mesmo se sobressaído como romancista, Machado
de Assis foi ainda poeta, teatrólogo e crítico.
O poeta MANUEL BANDEIRA nasceu em Recife, Pernambuco,
em 1886, e morreu no Rio de janeiro, em 1968. Formando-se na poe-
sia simbolista, aproximou-se depois das novas correntes literárias
européias, e em torno de 1922 uniu-se aos modernistas em São Paulo,
colaborando com suas pesquisas sobre o verso livre e sobre o uso da
linguagem cotidiana na poesia. Entre suas antologias despontam
Carnaval (1919), Poesias (1924), Libertinagem (1930), e Estrela
da Manhã (1936), Estrela da Tarde (1963), das quais foi tirado o
título da sua obra completa, Estrela da Vida Inteira (1966). São
famosos, entre seus textos poéticos, "Pneumotórax", sobre o tema da
tuberculose — que foi a sua doença — e' 'Vou-me embora pra
Pasárgada", projeto surrealista de fuga do cotidiano.
Uma Semana de Bondade, Max Ernst
A pintura é uma arte enganadora: aquilo que vemos na tela não é
necessariamente aquilo que o artista quer tornar visível, O que se
torna observável através dos traços e massas de cores compostas
com ritmos e movimentos são idéias, conceitos daquilo que na su-
perfície está representado. Assim, se um livro pode nos trazer o mun-
do, uma pintura ou um desenho podem nos trazer uma idéia, em
geral bastante específica e abstrata, sobre o mundo. Idéias nas asas
de impactos visuais.
PAUL KLEE, pintor suíço, nasceu em Munchenbuschsee, em 1879
e morreu em Muralto, em 1940. Klee, em seus trabalhos, determina
um território mágico onde O controle dos meios está traduzido em
infinitas possibilidades de formas fantásticas: imagens de sonho
onde a criatividade e o contínuo descobrimento de novas formas se
realizam através da união de princípios gerais com as características
particulares das coisas. Fenômenos da natureza, cores, formas,
objetos, flores, jardins, pássaros se unem à lembrança, à esperança, à
felicidade. O resultado é um conhecimento diferente da
realidade,uma emoção nova, como uma infância reencontrada. As
déias de Klee estão expostas em seu livro A Confissão Criadora.
SAUL STEINBERG, pintor e artista gráfico americano, nasceu
em Râmnicul Sarat, na Romênia, em 1914. Estudou filosofia na Uni-
versidade de Bucareste e arquitetura em Milão. Em 1941 entrou para
trabalhar na equipe do jornal "New Yorker", afirmando-se depois da
guerra com o álbum Todos em Fila (1945), ao qual seguiu-se A
Arte de Viver (1949). Realizou cenas teatrais, colagens e
decorações murais. Sua obra se baseia sobre uma refinada consciên-
cia das múltiplas possibilidades da linha com grande sensibilidade e
um brio não raramente cruel. Steinberg é um dos mais importantes
inovadores da arte gráfica humorística do nosso século.
O pintor PAUL GAUGUIN nasceu em Paris, em 1848, e morreu
nas Ilhas Marquesas, em 1903. Viveu a primeira infância em Lima,
no Peru. Voltando à França, freqüentou a escola em Orléans e Paris
e em 1865 se inscreveu como cadete na Marinha. Voltando a Paris
em 1871, depois de cinco anos no mar, iniciou uma férvida atividade
de "pintor de domingo" de gesto impressionista. Em 1883, seguindo
sua vocação, abandonou o emprego. A partir desta data, o
agravamento dos problemas materiais e familiares ressuscitou nele
um desejo de se evadir que não mais o deixou. Esteve no Tahiti e
nas Ilhas Marquesas, onde pintou vários de seus mais conhecidos
quadros.
A pintura de Gauguin , experimentador infatigável também das
técnicas de gravura, apóia-se sobre uma extraordinária riqueza fi-
gurativa e sobre inéditas soluções formais: ruptura dos planos, de-
sarticulação das imagens, composição rítmica dos motivos à ma-
neira das estampas japonesas coloridas, jogos sobre a terceira di-
mensão e fundos equívocos de tapeçaria. Esquecida durante muito
tempo, também a obra de Gauguin como escultor e cronista é hoje
apreciada.
A música talvez possa ser considerada co-
mo o espírito em festa. Sons organizados no
tempo e no espaço, de acordo com melo-
dias, ritmos e alturas, provocam em quem
ouve sensações de alegria e de tristeza. Na
música, as coisas não estão descritas, mes-
mo quando se fala sobre elas, como em al-
gumas canções. Pela música, somos convi-
dados, através da emoção, a ser parti-
cipantes do mundo; somos convidados a
com ele dançar, chorar, cantar, sorrir. Com
a música se tem sempre um jeito de estar
no mundo.
Ari Barroso
Neste campo artístico, nós, brasileiros, so-
mos privilegiados: temos um conjunto de
compositores de música popular de exce-
lente qualidade. Assim, no setor musical,
trata-se de abrir os ouvidos e dispor os sen-
tidos para acolher as notas emitidas por:
Dorival Çaymmi
Francisco
Buarque de
Hollanda
Cartola
Paulinho da Viola
Lupicínio Rodrigues
Caetano Veloso
e tantos e tantos outros que o bom Deus nos
deu e que não cessam de existir.
Ilustrações de Miécio Caffé
CRÉDITOS E FONTES DAS FOTOS E DAS
ILUSTRAÇÕES
Desenhos da capa: Laura
11. Música e dança Autoria de Zélia C. Lima
Diagramação de Sônia da Silva Lorenz
1: 74 Desenhos de HumorIGerda Brentani, projeto
gráfico do Estúdio Flux e de Monique Deheinzelin,
Lavezzo Gráfica e Editora Ltda., São Paulo, 1986.3:
Carybé, Macunaíma: Ilustrações c/o mundo do herói
sem nenhum caráter, com comentários de Antônio
Bento, Livros Técnicos e Científicos — Rio de
Janeiro e EDUSP — São Paulo, 1979. 4: Cerimônia
do jarê, Lençóis, Bahia (foto esq.); Detalhe da
propaganda da Fábrica a vapor de cigarros
Libertos/PE, |in Rolim Valença, José-Modinha:
Raízes da Música do povo, projeto cultural das
Empresas Dow, São Paulo, 1985. 5: 74 Desenhos de
Humor/Gerda Brentani, projeto gráfico do Estúdio
Flux e de Monique Deheinzelin, Lavezzo Gráfica e
Editora Ltda., São Paulo, 1986 (ilustração esq.);
índios brasileiros tocando maracas, gravura de
Theodor De Bry (1528-1598) in Rolim Valença, José
Modinha: Raízes da música do povo, projeto
cultural das Empresas Dow, São Paulo, 1985
(ilustração dir.). 6: Disney, Walt, Mickey apresenta:
um lindo sonho, tradução de F. J. Cardoso Júnior,
Porto Livraria Lello & Irmão Editora, Lisboa. 7:
Gravura de William Hogarth (séc. XVIII) in Spencer,
Keith O Livro da Música, consultor da edição
brasileira J. Jota de Moraes, Zahar Editores, Rio de
Janeiro (ilustração esq.). 8: Idem, ibidem. 9: Capa de
partitura, Acervo iconográfico da Fundação Joaquim
Nabuco de Pesquisas Sociais, Recife (ilustração inf.
esq.); Spencer, Keith — O Livro da Música, Zahar
Editores, Rio de Janeiro (ilustração sup.); Idem,
ibidem (ilustração central inf.); Gravura de músico
popular holandês tocando alaúde (séc. XVII), in
Rolim Valença, José — Modinha: Raízes da Música
do povo, projeto cultural das Empresas Dow, São
Paulo, 1985 (ilustração inf. dir.). 10: Baile na
Liberdade in Verger, Pierre — Retratos da Bahia
1946 a 1952, Editora Corrupio, Salvador, 1980. 11: 74
Desenhos de Humor/Gerda Brentani, projeto gráfico
do Estúdio Flux e de Monique Deheinzelin, Lavezzo
Gráfica e Editora Ltda., São Paulo, 1986 (ilustração
inf. esq.); Spencer, Keith
O Livro da Música, Zahar Editores, Rio de Janeiro
(Ilustração sup. esq.); Idem, ibidem (ilustração sup. dir.);
Rolim Valença, José — Modinha: Raízes da Música do
povo, São Paulo, 1985 (foto inf. dir.). 12: Astuciosas
aventuras de Renard, Velha Raposa, adaptação de
Garbdoss, tradução de Alfredo Ferreira e ilustrações de
Ramon Hespanha, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de
Janeiro (ilustração esq). 13: Spencer, Keith — O Livro
da Música. Zahar Editores. Rio de laneiro (ilustração
sup. esq.); Idem, ibidem (ilustração sup. dir.); loto do
acervo fotográfico da liscola da Vila São Paulo (foto
dir.). 14: Capoeira in Vcrgcr. Pierre — Retratos da
Bahia — 19/o a 1952. Kdilora Corrupio. Salvador,
1980. 15: Partitura da música Salema in Rolim
Valença. José — Modinha: Rafava da Música do povo.
São Paulo. 1985; Pindorama. instrumento musical ele
Walter Smetak (foto esq.); Foto de Antonia Terra foto
dir).
12. A escola, as crianças e as histórias
Autoria de Zélia C. Lima Diagramação de
Sônia da Silva Lorenz
17: A Esop's Fables, selecionado e adaptado por Louis
Untermeyer, ilustrado por A. e M. Provensen, Golden
Press, Nova Iorque, 1965. 20: Mulher Javahé pintada
para a dança da fecundidade, in Schultz, Harold —
Hombu, Colibris Editora Ltda.. Amsterdã/Rio de
Janeiro, 1963- 21: Homem Umutima se adornando para
participar ilc um ritual inoriuário. in idem. ibidem. 22:
Foto de Antonia Terra — professor Miguel com seus
alunos na E.E.P.G São José, Aldeia Xavante de São José
do Sangradouro, Poxoréu — MT. 23: Escola da Vila,
Butantã, São Paulo. 24: Os Mais Belos Contos de Fadas
Árabes, com ilustrações de Ramón Hespanha, Editora
Vecchi, Rio de Janeiro. 25: Escola Caetano de Campos,
Aclimação, São Paulo. 26: As Mil e Uma Noites,
adaptação de Sabá Gervásio com ilustrações de Lila
Figueiredo, Abril Cultural, São Paulo, 1973 (ilustração
sup.); Escola da Vila, Butantã, São Paulo (foto inf.). 27:
Corrêa, Viriato — As Belas Histórias da História do
Brasil, com ilustrações de Manoel Victor de Azevedo
Filho, Cia. Editora Nacional 1947 (ilustração sup. esq.);
Idem, ibidem (ilustração inf. esq.); As Mil e Uma
Noites. adaptação de Sabá Gervásio. com ilustrações de
Lila figueiredo. Abril Cultural. São Paulo. 1973
(ilustração dir.). 28: Escola da Vila Butantã. São Paulo
(foto esq.). 30: Homens Aborígines Australianos cantam
músicas sagradas cm honra de seus ancestrais, in Brain.
Robert — Into the Primitive linvironmvnt. impresso por
Hall Inc. Englewood Cliffs. Nova Jersey. 1972. 31:
Monteiro Lobato — Viagem ao Céu. O Saci, com
ilustrações de J. V. Campos e André Le Blanc, Obras
Completas de Monteiro Lobato — Vol. 2, Editora
Brasiliense, São Paulo, 1966. 32: Monteiro Lobato —
Serões de Dona Benta. Histórias das Invenções, com
ilustrações de J. V. Campos e André Le Blanc, Obras
Completas de Monteiro Lobato — Vol. 8, Editora
Brasiliense, São Paulo, 1966 (ilustração esq.); Monteiro
Lobato — Viagem ao Céu. O Saci, com ilustrações de J.
V Campos e André Le Blanc, Obras Completas de
Monteiro Lobato — Vol. 2, Editora Brasiliense, São
Paulo, 1966 (ilustração dir.). 33: Idem, ibidem. 34:
Augusto Gomes Leal com a ama-de-IeiteMônica, C.
1860 — PE, Joaquim Ferreira Vilela — albúmen,
Coleção Fundação Joaquim Nabuco in Vasquez, Pedro
Dom Pedro II a Fotografia no Brasil, Editora Index,
Fundação Roberto Marinho e Internacional Seguros (foto
esq.); Foto do acervo fotográfico da família Tassara (foto
dir.). 35: Contos de Perrault, tradução de Regina Regis
Junqueira, com ilustrações de Gustave Doré, Grandes
Obras da Cultura Universal — Vol. 8, Editora Itatiaia
Ltda., Belo Horizonte. 36: NASA, Astronáutica EUA
Homem na Lua Missão Apoio, 1970. 37: Cerimônia
da Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte,
Cachoeira, Bahia. 38: Foto de Antonia Terra —
professor Miguel com seus alunos na E.E.P.G. São José,
Aldeia Xavante de Sangradouro, Poxoréu — MT. 39:
Disney, Walt — O Flautista de Hamelim, tradução de F.
J. Cardoso Júnior, Porto Livraria Lello & Irmão Editora,
Lisboa.
13- Números e algarismos Autoria
de Monique Deheinzelin
Diagramação de Victor Nosek
41: Histórias de Números para Crianças — Vol. I,
por J. W. Studebaker, W. C. Findley, F. B. Knight e
William S. Gray, com ilustrações de Donn P.
182
Crane, The Reilly and Lee Co., editores — Chicago.
44: Dopagne, Jacques —Magritte, Mestres da Arte,
Fernand Hazan Editor, Paris, 1979 (ilustração esq.);
Idem, ibidem (ilustração dir.). 45: Fotogramas do
Ano, editado por F. J. Mortiner, F. R. P. S., 1927 (foto
central). 46: Hora, Richard e Mies — Elementos de
Design I, Uma Referência Visual, The Art Direction
Book Company. 48: Die Kinder Dieser Welt 4.
Welt Ausstellung Der Photographie, UNICEF, Gruner
+ Jahr Ag & Co., Hamburgo, 1977 (foto). 49:
Dopagne, Jacques —Magritte, Mestres da Arte,
Fernand Hazan Editor, Paris, 1979 (ilustração dir.).
50: Menninger, Karl — Escrita Numérica e
Simbologia Numérica História Cultural do
Número, 1969- 52: Hortélio, Lygia — História de
uma Manhã, Massao Ohno Editor. 54: Dopagne,
Jacques — Magritte, Mestres da Arte, Fernand Hazan
Editor, Paris, 1979. 55: (ilustrações da esq. para a dir.)
Figura ligada a ritos de fertilidade, encontrada na
região do lago Onega (URSS), incisão em pedra, 5000
— 1500 a.C, homem com máscara animal in Derdyk,
Edith — O Desenho da Figura Humana-, Detalhe de
Osíris no esquife in idem, ibidem; Michelangelo
(1475 — 1564), esboço para Madona de Bruges, pena
e nanquim, 1503, in idem, ibidem; Eugène
Delacroix(1798— 1863), estudo para a pintura A
Liberdade Guiando o Povo, desenho, cerca de 1830,
in idem, ibidem; Motta, Flávio — Homem sem
Perspectiva Encontra Ponto de Fuga, bico de pena e
nanquim, 1974.
14. Aritmética na pré-escola Autoria de
Monique Deheinzelin Diagramação de
Victor Nosek
57: Carroll, Lewis — Alice no País das Maravilhas,
com ilustrações de Sir John Tenniel, Coleção 1000
Sois, Editora Gallimard, Paris, 1961. 60: Trecho da
partitura do compositor Aylton Escobar, Editora
Novas Metas. 61: Groueff, S e Cartier, J. P. — O
Enigma do Cosmo, Editora Primor, Rio de Janeiro,
1978. 63: Volpi — A Cidade /Brinquedo de Armar ,
1954, calendário editado pela Pirelli, 1981. 64:
Creche Calvário, Pinheiros, São Paulo. 65: Foto do
acervo fotográfico de Victor Nosek. 66: Calendário
editado pela Esso, 1953. 67: Figura do rei de espada
do baralho Heraclio Fournier, Victoria, Espanha. 70:
Cartas do Jogo Imobiliário,
Brinquedos Estrela. 71: Carroll. I.cwis — W/n rio
País das Maravilhas, com ilustrações de Sir Jolui
Tenniel. Coleção 1000 Sois. Editora (1.1ll11n.ini Paris.
1961.
15. Língua portuguesa
Autoria de Monique Deheinzelin
Diagramação de Sônia da Silva Lorenz
75: Fragmento de desenho/colagem in Rosenberg,
Harold — Saul Steinberg, Alfred A. Knopf e Whitney
Museum of American Art, Nova Iorque, 1978
(ilustração esq.); Contos de Grimm, tradução e
adaptação de Monteiro Lobato, Editora Brasiliense, São
Paulo, 1960 (ilustração dir.). 76: Falk, Lee e Moore,
Ran — Fantasma Os Piratas de Singh/1936, Edição
Comemorativa dos 50 Anos, tradução de Suely Bastos,
L & PM Editores, Porto Alegre, 1986 (fac-símile sup.).
Guimarães Rosa, JoãoTutaméia Terceiras
Estórias, Livraria José Olympio Editora, Rio de
Janeiro, 1968 (fac-símile inf.). 7i7: O Perfeito
Cozinheiro das Almas deste Mundo ... Diário Coletivo
da Garçonnière de Osxvald de Andrade. São Paulo,
1918, Edição fac-similar, Editora Ex Libris, São Paulo,
1987. 78: Foto de Thomas Mann com seus netos in
Reick, Hanns e Roth, Eugen — Das Kind und sein
Vater, Terra Mágica, Munique, 1960 (foto esq.);
Moreira, Carlos A. —Fotografias, Edição Rita Arantes,
São Paulo, 1977 (foto dir.). 79: Ilustrações de diabo,
jacaré e foca in Brentani, Gerda Cartilha para o
João, inédito. 80: Foto de Terry Bisbee in New York
Street Kids, fotografias selecionadas por The Children's
Aid Society com a colaboração de John Von Hartz,
Dover Publications Inc., Nova Iorque, 1978. 81: Creche
Tia Chica, Vila Arpoador, São Paulo (foto esq); Die
Kinder Dieser Walt — Y. Welt Ausstellung Der
Photographie, UNICEF, Gruner + Jahr & Co.,
Hamburgo, 1977 (foto dir). 82: Rubens Gerchman,
catálogo da exposição no Museu de Arte Moderna do
Rio de Janeiro, 1973 e no Museu de Arte de São Paulo,
1974. 84: Casson, Lionel e os redatores dos livros Time
Life — O Antigo Egito, Biblioteca de História
Universal Life, Livraria José Olympio Editora, Rio de
Janeiro, 1971 (ilustração esq.). 84/85: Fragmento do
encarte Origem das Letras do Alfabeto in Cagliari, Luiz
Carlos —Alfabetização & Lingüística, Editora
Scipione. 87: Detalhe da
ilustração de Gustave Doré in Contos de Perrault,
Grandes Obras da Cultura Universal — Vol. 8, com
tradução de Regina Regis Junqueira e ilustração de
Gustave Doré, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1985.
90: Carta de baralho gravado por João de Dale (1470)
in Rizzini, Carlos — O Livro, o Jornal e a Tipografia
no Brasil, Imprensa Oficial do Estado S.A. IMESP,
São Paulo, 1988 (ilustração dir.). 94: Disney, Walt —
Os Três Porquinhos, tradução de F. J. Cardoso Júnior,
Porto Livraria Lello & Irmão Editora, Lisboa
(ilustração dir.). 96: Verger, Pierre — Retratos da
Bahia. 1946a 1952, Editora Corrupio, Salvador, 1980.
97: Ilustração de John Mawé in A Presença Britânica
no Brasil (1808 — 1914), Editora Paubrasil, 1987.
16. A língua portuguesa na pré-escola
Autoria de Monique Deheinzelin
Diagramação de Sônia da Silva Lorenz
104: Meireles, Cecília — Ou isto ou aquilo,
ilustrações de Maria Bonomi, Editora Giroflé, São
Paulo. 105: Astuciosas Aventuras de Renard, Velha
Raposa, adaptação de Garbdoss, tradução de Alfredo
Ferreira e ilustrações de Ramon Hespanha, Casa
Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro (ilustração esq.);
Villafane, Javier — La vuelta al mundo, ilustrações
de Juan Ramón Alonso, Editorial Espasa — Calpe,
Madrid, 1986 (ilustração dir.). 106: Disney, Walt
O Flautista deHamelim, tradução de F. J. Cardoso
Júnior, Porto Livraria Lello & Irmão Editora, Lisboa
(ilustração esq. sup.); Detalhe da xilogravura de Costa
Leite, in Borges da Silva, Severino — O Juazeiro e o
Padre Cícero Romão (ilustração esq. irrf.); Cintorã,
Pilar — Historia del Calzado, Ediciones Aguaviva,
Zaragoza, 1988 (cavaleiros). 106/107: Idem, ibidem
(ilustração central). 107: 74 Desenhos de Humor/
Gerda Brentani, projeto gráfico do Estúdio Flux e de
Monique Deheinzelin, Lavezzo Gráfica e Editora
Ltda., São Paulo, 1986. (ilustração dir). 108: Los
Animales pintados por si mismos, de J Stahl et alii,
ilustrado por J. J. Grandville, José J. de Olaneta
Editor, Espanha, 1984 (ilustração esq.); Bursill, Henry
Hand Shadows, Dover Publications, Inc., Nova
Iorque, 1967 (ilustração dir). 110: Batista, Abraão
A Moça Que o Diabo Tomo Conta Para a Matar de
Fome (ilustração esq.). 111: Von Ihering, Rodolfo —
Da Vida dos Nossos
Animais, Casa Editora Roterm-und & Cia. Lida.,
São Leopoldo, 1963 (ilustração esq). 112: idem
ibidem.
17. A Avó, o Dinossauro e o Deus Autoria
de Monique Deheinzelin Diagramação de
Sônia da Silva Lorenz
117: Veríssimo, Érico — Viagem à Aurora do
Mundo, ilustrações de Ernst Zeuner, Coleção Tapete
Mágico VII, Livraria do Globo, Porto Alegre, 1939.
119: The Family of Man, publicado pelo Museu de
Arte Moderna de Nova Iorque, 1955 (foto dir.); A
Esop's Fables, seleção e adaptação de Lorris
Untermeyer, com ilustrações de A. e M. Provensen,
Golden Press, Nova Iorque, 1965 (ilustração dir.).
120: Relógio solar de Giovan Battista Assini, in
Righini Bonelli, Maria Luisa — Il Museo di Storia
delia Scienza a Firenzi, Electa Editrice, Milão, 1976
(ilustrações sup. e inf. esquerdas); Bergamini, David e
os redatores dos livro Time Life — As Matemáticas,
consultores científicos: René Dubos, Henry Margenau
e C. P. Snow, Livraria José Olympio Editora, Rio de
Janeiro, 1969 (ilustração central esq.); // nuovo
librogarzanti delia Geografia, terceiro vol.: I
Continenti Extra europei, Garzanti Editore s.p.a.,
Milão, 1987 (ilustração central dir.). 121: Relógio
solar de Giovan Battista Assini, in Righini Bonelli,
Maria Luisa — // Museo di Storia delia Scienza a
Firenzi, Electa Editrice, Milão, 1976 (ilustrações sup.
e inf. direitas); Il libro delia Scienza Garzanti 2,
Garzanti Editore s.p.a., Milão, 1987 (ilustração central
esq.); Blum, Stella — Every day Fashions of the
Twenties, Dover Publications, Inc., Nova Ionque,
1981 (relógio de pulso); A. Ronan, Colin
História Ilustrada da Ciência, Universidade de
Cambridge, Vol. II: Oriente, Roma e Idade Média
— Círculo do Livro (ilustração central dir.). 122:
Mitologia, Vol. I, Abril Cultural, São Paulo, 1973.
123: Torres Garcia, publicado pelo Museu de Arte
de São Paulo Assis Chateaubriand, 1979. 125:
Buendia,J. Rogelio — El Prado Básico, fotografias
de Eleonor Domingues, Silex, Bilbao, 1982. 126:
Cortazar, Júlio — Prosa dei Observatório, Editorial
Lumen, Barcelona, 1972. 128: Balet, Jan — O
Presente, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1971.
129: Parker, Steve — Ossos e Estruturas Ósseas, em
colaboração com o Museu de História Natural de
Londres, Enciclopédia Visual, Editorial Verbo,
Lisboa, 1988. 130: Gênova /1935, foto de acervo
fotográfico da família Tassara (foto inf. dir.). 131»
Toynbee, Arnold — Um Estudo da História, tradução
de Isa Silveira Leal e Miroel Silveira, Martins Fontes
Editora e Editora Universidade de Brasília, 1986
(ilustração sup. esq.); Il nuovo libro Garzanti delia
Geografia, terceiro vol.: I Continenti Extraeuropei,
Garzanti Editore, s.p.a., Milão, 1987 (ilustração inf.
esq.); Blitzer, Charles e os redatores dos livros Time
Life — A Era dos Reis, Biblioteca de História
Universal Life, Livraria José Olympio Editora, Rio de
Janeiro, 1971 (ilustração dir.). 132: Creche Metrô
Tatuapé, São Paulo (foto sup. esq.); Escola da Vila,
Butantã, São Paulo (outras fotos). 133: Los Animales
pintados por si mismos, dej. Si alii et alii, ilustrado
porj. J. Grandville, JoséJ. de Olaneta Editor, Espanha,
1984 (ilustração esq.).
18. Atuação do professor Autoria
de Zélia C. Lima Diagramação de
Victor Nosek
135: Desenho de Júlia, 4 anos. 138: Foto do acervo
fotográfico de Monique Deheinzelin. 139: Foto do
acervo fotográfico de Monique Deheinzelin. 141:
Duncan, David Douglas — O mundb privado de
Pablo Picasso, A Ridge Press Book, Nova Iorque,
1958. 142: Ilustração de Victor Nosek. 143: Groueff,
S. e Cartier, J. P. — O Enigma do Cosmo, Editora
Primor, Rio de Janeiro, 1978. 145: Diário de classe da
professora Rita Clementina. 147: Diário de classe da
professora Rita Clementina. 148: Detalhe do Quadro
2 in Marchiori, Giuseppe — Mondrian, Coleção Os
Diamantes da Arte, Sadea/Sansoni Editores, Florença,
1967. 151: Desenhos de crianças de 4 anos (da esq.
para a dir.): Martim, José, Marcos, Maíra, Heloísa,
André e Fernando.
19. Pressupostos pedagógicos
Autoria de Zelia C. Lima
Diagramação de Victor Nosek
153: Desenho de Tuti, 5 anos.
20. A formação das crianças e dos professores
Autoria de Monique Deheinzelin e Zélia C. Lima
Diagramação de Victor Nosek
167: Ilustração de Victor Nosek. 170: Piaget,
Coleção Os Pensadores, Editora Abril Cultural, São
Paulo, 1978 (foto dir.). 171: Ferreiro, Emilia e
Teberosky, Ana — Psicogênese da Língua Escrita,
Editora Artes Médicas, Porto Alegre, 1986. 172:
Vygotsky, L. S. — Pensamento e Linguagem,
Coleção Psicologia e Pedagogia, Editora Martins
Fontes, Sao Paulo, 1987. 173: O Loubok — A
imagerie popular russa dos séculos XVII e XIX,
Edições de Arte Aurora, Leningrado, 1984. 174:
Freud, Coleção Os Pensadores, Editora Abril
Cultural, São Paulo, 1978 (foto esq.); Ibidem (foto
dir.). 175: Melanie Klein I, Primeiras Descobertas e
Primeiro Sistema — 1919/1932, Coleção Estudos,
Editora Perspectiva, 1987 (ilustração esq.); Revista
LArc nº 69, número dedicado a D. W. Winnicott (foto
dir). 176: Bettelheim, Bruno — Uma Vida para seu
Filho, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1988 (foto
esq). 178: Bandeira, Manuel — Antologia Poética,
José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1989 (foto
esq.); Linguagem de Arquitetura, Apostila Etapa
(ilustração dir.). 179: Desenho de Saul Steinberg in
Rosenberg, Harold — Saul Steinberg, Alfred A.
Knopf e Whitney Museum of American Art, Nova
Iorque, 1978 (ilustração esq.); Paul Klee, Nuove
Edizioni Gabriele Mazzotta (foto dir.). 180:
Marchiori, Giuseppe — Gauguin, Coleção Os
Diamantes da Arte, Sadea / Sansoni Editori, Florença,
1967 (todas as ilustrações). 181: Ilustrações de
Miécio Caffé.
Reprodução Fotográfica
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