
Julgava-se ele então, o bondoso reitor,
Mais próximo do Céu, mais junto do Senhor !
E, Moisés do seu povo, ouvindo mais de perto
A palavra da lei que, no árido deserto,
O devia guiar por grandes provações,
Sentia então mais fé nas suas orações !
A estância humilde e nua do velho cenobita
Parece receber misteriosa visita
Sempre que, como agora, embevecido e só,
Lê, de David, um salmo, um lamento de Job.
Páginas imortais dos Santos Evangelhos !
Pois houve quem o viu, caindo de joelhos,
Erguer, cheio de ardor, os olhos para o Céu,
Como se, descerrando o impenetrável véu,
Que, aos olhos dos mortais, cobre o mistério augusto,
Lho deixasse encarar sem turbação nem custo.
Vivera a fazer bem. Envelhecera assim.
Eram-lhe distracções as flores do jardim,
O ensino da infância, a esmola aos indigentes
E o salutar conselho aos jovens e imprudentes.
Logo pela manhã, mal sentia o arrebol,
Ia-se para o monte, a ver nascer o Sol,
E voltava a almoçar mais leve do que fora,
Que a esmola o acompanhava e é grande gastadora.
Não sabia, o bom velho, há muito resistir...
Cedia-lhe sorrindo... Abençoado sorrir !
Sempre sóbrio e frugal. o santo sacerdote,
Quisera, muita vez, entesourar um dote
Para as filhas de Deus, órfãs de pai e mãe !
Socorria a chorar! Pois chorava também,
Sempre que chorar via, ou de prazer ou pena.
Em tudo reflectia aquela alma serena,
Como lago tranqüilo, ao tombar do escarcéu,
As nuvens reproduz que perpassam no céu...
Com que amor acolhia alguma alma perdida
Que o vinha procurar, um dia, arrependida I
Com que sentida fé lhe falava da Cruz,
Prometendo o perdão em nome de Jesus !
Quando à missa do dia, ao povo que o escutava,
Com voz trêmula já, da religião falava,
Na prática singela havia tal unção
Que vinham gravar-se fundas, no coração,
As palavras de amor, de paz, de tolerância.
E o povo procurava ouvi-lo com instância.
POESIAS