No dia seguinte, quando acordou, o rapaz sentia-se muito
chateado pelos prejuízos sofridos. Estranhamente, porém, viu que os
pedaços da carroça haviam sido recolhidos e estavam amontoados em
frente ao galpão principal de sua casa. Surpreso, perguntou ao pai:
— O que faz esse entulho em nossa casa?!
— Fui eu quem o trouxe, respondeu o pai, para que nós
decidíssemos o destino dele.
Naquele mesmo dia, então, trataram de chamar o ferreiro da
cidade, para ouvir a sua opinião.
— Não há mais conserto, disse o homem. O que se gastaria
para consertar esta carroça seria suficiente para comprar duas
outras novas. Infelizmente, esta serve apenas como sucata.
Diante do fato, o pai dispensou o ferreiro que, levando a
sucata, comprometeu-se em providenciar, em breve, uma nova
carroça. Depois de algumas semanas, o homem voltou, trazendo o
que havia combinado. O jovem, então, chamou seu pai e os dois
foram até o portão. Quando lá chegaram, porém, Al Eitta notou que
não se tratava de uma carroça nova, mas sim daquela mesma que
ele havia destruído no acidente. Sem dizer uma palavra, o pai lhe
passou o comando do coche e eles deram uma longa volta pela
cidade. O rapaz, intrigado com o que se passava, comentou:
— Meu pai, não posso esconder minha estranheza: não o vi,
em nenhum instante, enfurecido pela destruição da nossa carroça e,
menos ainda, pela perda das nossas economias.
— Al Eitta — disse o pai — eu não me zanguei porque a nossa
vida vale muito mais do que a vida da nossa carroça. E não haveria
como zangar-me, pois nessa troca eu saí lucrando: dei uma carroça
velha pela vida do meu filho!
— Sim, entendo… mas mesmo assim: por que um reconhecido
comerciante como o senhor, meu pai, aumentaria o seu prejuízo
material, gastando o preço equivalente a duas carroças novas para
reformar uma que já havia sido destruída?
— Para que você visse, Al Eitta, que por mais que a nossa
carroça venha a se despedaçar, nós sempre poderemos consertá-la;
porém, se a nossa falta de prudência arrancar uma unha sequer do
menor dos nossos dedos, nem com todo o dinheiro do mundo nós
poderíamos devolvê-la ao seu lugar! E entre destruir-se a nossa
carroça, destruírem-se os nossos dedos ou, o que seria pior,
destruir-se o nosso afeto, eu prefiro sempre que nós nos ocupemos
com o que é mais importante!
A partir daquele dia, Al Eitta, o filho, mudou três coisas na
sua vida: o seu modo de dirigir carroças, o seu modo de dirigir os
negócios e o seu modo de valorizar as coisas na vida…
Mas esta não é a nossa antiga carroça?!”
Bumba-meu-boi
Texto de Joel Rufino dos Santos, publicado na revista Nova Escola,
São Paulo, junho de 1993.
“Esta é uma história de vontade. Numa fazenda de gado à
beira do rio São Francisco, trabalhava um casal de escravos:
Francisco e Catirina. Vai que um dia Catirina ficou grávida. Numa
noite em que a lua prateava o pasto, Catirina gemeu para o marido:
— Estou com desejo de língua de boi.
— Vontade de grávida é ordem — disse Francisco —, mas os
bois não são nossos. Você sabe, mulher.
Naquela mesma hora, não é que apareceu um boi enorme,
branco e gordo? De quem é, de quem não é… Francisco entrou para
dormir, mas Catirina foi atrás. Tinha um olhar cumprido que dava
pena:
— Quem me dera uma língua de boi…
Francisco saiu e matou o coitado. Cozinhou a língua e pôs fim
ao desejo da mulher. Chamou depois os vizinhos e repartiu o resto:
— A pá é pro Itamá. A peitaça pro seu Vilaça. Pro meu
sobrinho, Antonil, o costaço. Pro seu Dodato, o pernil…
Só sobraram os chifres e o rabo, que ninguém quis.
Daí a dias, o dono da fazenda cismou de ver o rebanho:
— Cadê o boizão, aquele que eu trouxe do Egito?
O feitor procurou pela fazenda inteira. Deu a notícia:
— Sumiu.
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