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Apolinário — Já estou pintando... Ainda anteontem... Anteontem não... Quando foi,
Apolinário? Segunda... terça... Foi anteontem mesmo... Eu tinha acabado de tomar o
meu banhinho e de ouvir minha missinha...
Cardoso (Interrompe-o.) — Meu caro senhor, tomo a liberdade de preveni-lo que
temos muita pressa e não, podemos perder tempo. Íamos saindo justamente quando
o senhor entrou...
Apolinário (Erguendo-se.) — Nesse caso, senhor doutor...
Cardoso — Perdão, não sou doutor.
Apolinário — Fica para outro dia... Eu vinha dar minha queixa, mas...
(Cumprimenta.) Senhor doutor... minha senhora... (Vai saindo.)
Cardoso — Venha cá, senhor: já agora diga o que pretende.
Apolinário (Voltando-se e preparando-se como para um discurso, com força.) —
Senhor subdelegado...
Cardoso — Não é preciso gritar tanto...
Apolinário — Esta noite fui roubado.
Cardoso — Diga.
Apolinário — Dezoito cabeças de criação... dezoito ou dezenove... Ontem esteve
em nossa casa um cunhado meu, irmão de minha mulher, empregado no Arsenal de
Guerra, e não tenho certeza de que ele levasse alguma galinha consigo, mas creio
que não. Em todo caso, foram dezoito ou dezenove cabeças, não falando em um
bonito galo de crista, que comprei no mercado, não há quinze dias.
Cardoso — Muito bem. O senhor chama-se...
Apolinário — Apolinário, um criado de Vossa Senhoria.
Cardoso — Apolinário de quê?
Apolinário — Apolinário da Rocha Reis Paraguaçu (Dando um cartão) Olhe, aqui
tem Vossa Senhoria meu nome e morada.
Cardoso — Bem; pode ir descansado, que serão dadas as providências que o caso
exige.
Apolinário (Preparando-se outra vez para um discurso e elevando muito a voz.) —
Ainda não fica nisso, senhor doutor!
Cardoso — Já tive ocasião de dizer-lhe, primeiro, que não é preciso gritar tanto;
segundo, que não sou doutor.
Apolinário (Com a mesma inflexão, porém baixinho.) — Não fica nisso. Eu conheço
o gatuno!
Cardoso — E por que estava calado?
Amália (Não se podendo conter.) — Com efeito, Senhor Paraguaçu!
Apolinário (Atarantado.) — Hein! (Falando com cada vez mais descanso.) Não
conheço eu outra coisa! Chama-se Jerônimo de tal, um ilhéu, um vagabundo, que foi
há tempo cocheiro de bondes e agora não sai da venda de seu Manuel Maria, ao
qual dizem que vende por um precinho de amigo, o que ... (Ação de furtar.) Vossa
Senhoria sabe qual é a venda de seu Manuel Maria? É a que fica mesmo em frente
à casa do meu cunhado, do mesmo que esteve ontem em nossa casa, e sobre o
qual estou em dúvida se levou ou não alguma galinha. (A Amália.) Mas que bonito
galinho, senhora! Vossa Senhoria dava oito mil réis por ele com os olhos fechados...
Era branco, branquinho, como aqueles patinhos do Passeio Público. Uma crista
escarlate! Que bonito galo!
Cardoso — Vamos! Não temos tempo a perder! Faça o favor de sentar-se naquela
mesa e dar a queixa por escrito.
Apolinário — De muito bom gosto, senhor doutor. (Obedece.)
Cardoso — E o senhor a dar-lhe! Já lhe disse que não sou doutor.