- Padre Luís, uma menina que deixa as bonecas para ir decorar
mecanicamente alguns livros mal escolhidos; que interrompe uma lição para
ouvir contar uma cena de namoro; que em matéria de arte só conhece os
figurinos parisienses; que deixa as calças para entrar no baile, e que antes de
suspirar por um homem, examina-lhe a correção da gravata, e o apertado do
botim; Padre Luís, esta menina pode vir a ser um esplêndido ornamento de
salão e até uma fecunda mãe de família, mas nunca será uma mulher.
Esta sentença de Estêvão tinha o defeito de certas regras absolutas. Por isso,
o padre dizia-lhe sempre:
- Tem você razão; mas eu não lhe digo que case com a regra; procure a
exceção que há de encontrar e leve-a ao altar, onde eu estarei para os unir.
Tais eram os sentimentos de Estêvão em relação ao amor e à mulher. A
natureza dera-lhe em parte esses sentimentos, mas em parte adquiriu-os ele
nos livros. Exigia a perfeição intelectual e moral de uma Heloísa; e partia da
exceção para estabelecer uma regra. Era intolerante para os erros veniais.
Não os reconhecia como tais. Não há erro venial, dizia ele, em matéria de
costumes e de amor.
Contribuíra para esta rigidez de ânimo o espetáculo da própria família de
Estêvão. Até aos vinte anos foi ele testemunha do que era a santidade do
amor mantido pela virtude doméstica. Sua mãe, que morrera com trinta e
oito anos, amou o marido até os últimos dias, e poucos meses lhe
sobreviveu. Estêvão soube que fora ardente e entusiástico o amor de seus
pais, na estação do noivado, durante a manhã conjugal; conheceu-o assim
por tradição; mas na tarde conjugal a que ele assistiu viu o amor calmo,
solícito e confiante, cheio de dedicação e respeito, praticado como um culto;
sem recriminações nem pesares, e tão profundo como no primeiro dia. Os
pais de Estêvão morreram amados e felizes na tranqüila seriedade do dever.
No ânímo de Estêvão, o amor que funda a família devia ser aquilo ou não
seria nada. Era justiça; mas a intolerância de Estêvão começava na
convicção que ele tinha de que com a dele morrera a última família, e fora
com ela a derradeira tradição do amor. Que era preciso para derrubar todo
este sistema, ainda que momentâneo? Uma cousa pequeníssima: um sorriso
e dous olhos.
Mas como esses dous olhos não apareciam, Estêvão entregava-se na maior
parte do tempo aos seus estudos científicos, empregando as horas vagas em
algumas distrações que o não prendiam por muito tempo.
Morava só; tinha um escravo, da mesma idade que ele, e cria da casa do pai,
- mais irmão do que escravo, na dedicação e no afeto. Recebia alguns
amigos, a quem visitava de quando em quando de quando, entre os quais
incluímos o jovem Padre Luís, a quem Estevão chamava - Platão de sotaina.