Fadinha não era filha única: tinha um irmão mais velho arrumado no comércio, e outro, ainda
muito novo, que estudava para doutor, porque o pai o considerava o "talento da família".
A mãe era uma senhora de quarenta e cinco anos, que não se parecia absolutamente com a
filha. Não sei por que fenômeno fisiológico, de um casal tão feio (porque o Raposo, coitado!
era outro desfavorecido da natureza) saiu aquele esplêndido produto, aquela criatura
escultural, aquela beleza inverossímil! Note-se que os dois rapazes também eram feios,
principalmente o futuro doutor - narigudo, orelhudo, enfezado, anêmico, insignificante.
Não contente de levar parte da existência às voltas com os santos do seu oratório particular,
d. Firmina - assim se chamava a mãe de Fadinha - andava constantemente pelas igrejas,
adorando os de fora; mas, em que pesasse a tanta piedade não perdoava à filha o ser tão
bonita, e revoltava-se intimamente contra o singular monopólio que a moça recebera da
natureza como se fosse uma dádiva escandalosa; entretanto, Fadinha era toda a sua
ambição de fortuna, toda a sua esperança de melhores tempos. O seu sonho era ser sogra de
um argentário, pois que o não poderia ser de um príncipe. Se o Raposo não fosse um chefe
de família, às direitas, essa mulher tê-lo-ia dominado, usurpando toda a autoridade no lar;
felizmente ele batia o pé, não consentia em nada que lhe desagradasse.
Mas a nossa Fadinha tem um namorado. E tempo de apresentá-lo aos leitores.
II
Linda como era, não faltavam à moça adoradores de todas as idades e categorias. Muitos
homens se abalavam da cidade até o Engenho Novo, só pela satisfação de contemplá-la,
muitos deles conduzidos pela simples curiosidade, muitos deles instigados pela vaga
esperança de uma promessa envolvida num sorriso ou num olhar. Pode-se dizer que durante
muito tempo a formosura célebre de Fadinha contribuiu para o aumento da receita dos trens
dos subúrbios, e para a animação do bairro, que naquele tempo não tinha a população de
hoje. Muitos desses adoradores chegaram à fala, declarando-se animados das intenções
mais puras, e entre eles alguns havia realmente dignos da singular ventura de casar com
Fadinha; ela, porém, todos repeliu com a maior delicadeza e compostura.
Um dia, o Raposo convidou para jantar em sua casa o Remígio, um bom rapaz, seu colega,
empregado na mesma repartição em que ele exercia as suas funções oficiais. Esse Remígio
era uma das pérolas dá Secretaria, modelo de zelo, inteligência e assiduidade, funcionário
"de muito futuro", como diziam todos; mas não era bonito, nem elegante, nem primava por
nenhuma outra qualidade exterior. Entretanto, de todos quantos passaram diante dos
formosos olhos da Fadinha, foi esse o único homem que lhe mereceu atenção. Negociantes
acreditados e dinheirosos, funcionários bem colocados, advogados, médicos, oficiais do
Exército e da Armada, etc. - tiveram todos que ceder lugar, no coração de Fadinha, a esse
amanuense pálido, desajeitado, mal vestido, que apenas ganhava 166$666 réis mensais.
A moça parecia ansiosa por que o seu coração se manifestasse; imediatamente deu a
entender ao Remígio que ele seria vencedor entre os numerosos candidatos à sua mão. O