D. Ubaldina sentou-se ao lado dela, agradeceu com um beijo prolongado e sonoro essa prova
decisiva de confiança e amizade, e, tomando-lhe carinhosamente as mãos, assim falou:
- Ritinha, o casamento é uma cruz que é mister saber carregar. Teu marido engana-te... se é
que te engana...
- Engana-me!..
- Pois bem, engana-te, sim, mas... com quem? Reflete um pouco, e vê que esse ridículo
namoro de janela, que o obriga a madrugar, sair dos seus hábitos, é uma fantasia passageira,
um divertimento efêmero que não vale a pena tomar a serio.
- Achas então que...
- Filha, não há no mundo marido algum que seja absolutamente fiel. Faze como eu, que fecho
os olhos às bilontrices do Melo, e digo como dizia a outra: - Enquanto andar lá fora, passeie o
coração à vontade, contanto que mo restitua quando se recolher ao lar doméstico.
- Filosofia no caso!
- Vejo que não sente por teu marido o mesmo que sinto pelo meu...
A filósofa conservou-se calada alguns segundos, e, dando em D. Ritinha outro beijo, ainda
mais prolongado e sonoro que o primeiro, prosseguiu assim:
- Se fizeres cenas de ciúmes a teu marido, apenas conseguirás que ele se afeiçoe deveras à
tal modista; o que por enquanto não passa, felizmente, de um namoro sem conseqüências,
poderá um dia transformar-se em paixão desordenada e furiosa!
- Mas...
- Não há mais nem meio! Cala-te, resigna-te, devora em silêncio tuas lágrimas, e observa. Se
daqui a oito ou dez dias durar ainda esse pequeno escândalo, vem de novo ter comigo, e
juntas combinaremos então o que deverás fazer.
- Aceito de bom grado os conselhos, minha amiga, mas não sei se terei forças para sofrear a
minha indignação e os meus ciúmes.