www.nead.unama.br
gelado no lábio, a Imperatriz repousa a cabeça, serenamente, sobre duas vastas
almofadas de seda verde e ouro.
Começa o beija-mão... O primeiro a atravessar aquela câmara, assim
pungentemente enfeitada, é o Príncipe Herdeiro, aquele galante e ingênuo
principezinho de apenas um ano, que entra carregado por José de Andrade Pinto,
camarista de Sua Majestade: todo de negro, sem compreender a grande desgraça, o
órfão pequenino, o que vai ser, dentro em breve, o glorioso Imperador do Brasil,
beija, pela última vez, a mão da augusta Mãe. Pálida, sufocando os gemidos,
seguida pelo camarista José Alves Pereira de Ribeiro Cirne, entra a Sra. D. Maria da
Glória. E a leve, a graciosa rainhazinha de Portugal, branca e dolorosa, atira-se com
desespero sobre o cadáver de D. Leopoldina. Depois, seguida pelo Sr. Visconde da
Cachoeira, a Princesa Januária, num transe de nervos, põe-se a gritar,
comovedoramente, em altos brados: "Mamãe! Mamãe! Eu quero Mamãe! Acordem
Mamãe!" E abraça a mãe com frenesi.
Diante do cadáver em grande gala, naquela câmara trágica, estranhamente
decorada de verde e ouro, começam a desfilar, hirtos e fúnebres, os altos
personagens da Corte. D. José Caetano, o Bispo-Capelão, resplendendo de sedas
escarlates. A Sra. Marquesa de Aguiar, a Camareira-Mor, com os seus gorgorões
faiscantes de vidrilhos, toda debulhada em lágrimas. O velho Mareschal, com os
bigodões ornamentais, comovido como um menino. D. Francisca de Castelo Branco,
Marquesa de Itaguaí, dolorosa, os cabelos em desalinho, a abafar os soluços que
lhe borbotavam da garganta.
E o desfile continua, vagaroso, protocolar, repassado de emoção e de
silêncio. E o Sr. Marquês de Caravelas, rijo e austero, com o seu espadim de
Primeiro-Ministro; é o Sr. Marquês de Paranaguá, impecável, muito pálido, o lenço
de seda negra afundado no peitilho da camisa; é o Sr. Conde de Lages, os olhos
piscos, forçando uma severidade que lhe custa; é o Sr. Visconde de Inhambupe,
sombrio e doloroso; é o arcado e encarquilhado Visconde de Cairú, com o pescoço
espremido num imenso colarinho de palmo...
No outro dia, noite já fechada, deu-se início ao enterro. Eram oito horas.
Principiou o desfilar daquela marcha fúnebre. Era um cortejo tétrico impressionante,
quase bárbaro. À frente, cavalgando cavalos árdegos, seis porteiros da Câmara
carregavam insígnias e pendões. Em seguida, uniformizados, com o barrete negro,
orlado de arminho branco, vinha o sr. Corregedor da Corte. E de lado a lado, em
imensas filas, uns atrás dos outros, todos os Dignitários, todos os Grandes do
Império, todos os Cortesãos, todos os Criados da Imperial Câmara. Iam silenciosos,
fúnebres, enrolados na suas longas capas trevosas, montados em ginetes de luxo,
recobertos de mantas pretas, bordadas a ouro. Os criados de cada um, trajando libré
de luxo, levando nas telizes as armas dos amos, alumiavam com tochas aquele
cortejo sombrio. Atrás do coche mortuário, que quatro grandes fidalgos circundavam,
vinha o carro do Estado, vazio, grave como um cortesão. Logo depois, puxado por
seis cavalos, um outro coche carregando a Coroa. Fechava a marcha a Guarda de
Honra.
E assim, por entrelinhas de soldados que se estendiam, ininterruptas, desde
o Paço da Boa-Vista até o Convento da Ajuda, desfilou, sob a noite preta, alumiado
por estranhos fogaréus de tochas, aquele enterro impressionador.
E naquela noite memorável, em 14 de dezembro de 1826, foi sepultada, no
Convento da Ajuda, a filha de Francisco Leopoldo, a cunhada de Napoleão
Bonaparte, a primeira Imperatriz do Brasil.