preto enrolado em um nó sobre a nuca forte, os braços grossos sempre nus entre as mangas
largas e curtas, ela penetrava familiarmente nos quartos dos hóspedes, esquecia-se a
palestrar com os prediletos, aos quais levava ela própria o café com biscoitos, muitas vezes
alguma rosa ainda aljofrada de orvalho matutino e colhida por suas mãos no jardim -
ressoando através das portas fechadas os seus risos 50noros, não raro seguidos de
inexplicáveis silêncios, até que o favorito da ocasião saía do quarto muito apressado,
vermelho, a correr para apanhar o elétrico, e Dona Adozinda voltava às suas funções
domésticas, com o rolo do cabelo um pouco desmanchado, mas sempre enérgica e laboriosa
no exercício dos seus deveres.
biblioNão tardou muito que o hotel, em vista dessa feição, fosse um pouco abandonado pelo
elemento familiar. Algum casal que ali se hospedasse sentia logo a preferência merecida
pelos rapazes solteiros e tratava de procurar outro estabelecimento; de modo que, além de
duas antigas senhoras cheias de achaques e que tinham na casa o seu velho ninho, desde a
D. Eufrásia, pagando aliás pontualmente a pensão por quinzenas; e de uma outra professora
estafada, em busca de bons ares baratos para as férias, a clientela do hotel era composta
quase que exclusivamente de homens idosos ou moços.
biblioHavia, como efetivos, o John Gross, desenhista alemão, sempre asseado e grave que
descia à cidade pela manhã e só voltava à noite. Havia o Silva, solteirão português, metido a
gaiato e com um grande nariz, que dava réplica à loquacidade jovial de D. Adozinda, ao
jantar, e comia como um bruto, espremendo limão em todos os pratos, por causa do fígado.
Havia o Tomé, guarda-livros, muito alto e bonito, mas tísico, nervoso, sempre enrolado em
flanelas, e o Juvêncio, o Tomás, o Rodolfo, estudantes com as famílias no Amazonas e no
Pará, e, enfim o Coronel Juvenato, um cearense de banhas amarelas e olhar manhoso, que
não perdia missa, e o Gilberto, que fora também estudante de farmácia, mas apanhara umas
febres e ali vivia agora à espera da saúde, mofino e débil, recebendo a mesada que lhe
mandava de Minas um tio.
biblioDesenvolvendo-se nesse meio, é natural que Celina, filha mais velha da D. Adozinda,
tivesse os seus pequenos flir ts com alguns desses rapazes, muito íntimos na casa e trazendo-
lhe da cidade presentes de doces, de balas de ovo, de jornais ilustrados ou de frutas.
biblioAs irmãs mais novas iam ao colégio; ela ficava, enchendo o tempo com uns crochets
vagarosos, costuras leves, a leitura dos folhetins dos jornais; e o Gilberto, que raramente,
saía, andava sempre ao seu lado, muito caído por esse tipo um pouco mórbido de menina
anêmica, devorando com os olhos a sua cinta fina, a graça delicada com que ela movia o
pescoço franzino, o sorriso um tanto sonso dos lábios ambíguos a ler-lhe versos em que
punha toda a paixão da sua voz. Ele era bonitinho, teria os seus vinte anos, muito pálido, com
umas pupilas negras de árabe, ardentes, vorazes: e D. Adozinda, ao passar, quando os via
juntos, demorava o andar, como inquieta, perplexa, indecisa... Muito ladina, sob a sua
jovialidade vulgar, ela perguntava a si mesma o que devia fazer: consentir ou proibir?
biblioO Gilberto não valia nada, mas quem sabe se apareceria outro, simplório e sincero como
ele? E a filha, com os seus dezessete anos, começava a embaraçá-la um pouco, nesse difícil
papel de virgem numa casa de pensão, cheia de rapazes. Ora, o melhor era esperar, dar
tempo ao tempo... E o Gilberto e a Celina continuaram a namorar-se, ele cândido, ela dúbia;
enquanto o Coronel Juvenato que deixara a mulher em Sobral para tratar de uma concessão
rendosa com os políticos do Rio, ia agora monopolizando como protetor mais importante, as
alegres visitas matinais da viúva, que já lhe levava sempre o café - mas sem flores colhida no
jardim, ainda rociadas de orvalho, porque cearense não dava para essas coisas de poesia.
Era rápido, prático, e não admitia bobagens. Por isso todos os sábados à noite, ele dizia a D.
Adozinda com um tremor lúbrico nas banhas moles da face os olhinhos vivos pestanejando:
biblio- A senhora não se esqueça que amanhã é domingo... Leve-me cedo o café, hein?... que
e tenho de ir a missa...
biblio- Pois não! pois não, Coronel! fique descansado, respondia a viúva do Ferreira, muito
atenciosamente, tirando-lhe umas caspas da gola do paletó, com a mão repolhuda.
biblioOs outros hóspedes riam-se à socapa; e no domingo o café não faltava, bem cedinho...
biblioFoi por esse tempo que apareceu inesperada mente no hotel, a convalescer de uma