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A LUTA
Carmen Dolores
cCbiblioCasava-se a Celina, filha mais velha da D. Adozinda Ferreira, quarentona bem
conservada, e todo o velho e pequeno hotel familiar para convalescentes: os Abelos ares!
debruçado à beira do morro de Santa-Teresa, como a mirar a esplêndida vista da cidade, em
baixo, aparecia rejuvenescido e embelezado pela abundância de festões de flores e galhadas
verdes, com que o iam enfeitando alegremente algumas criadas vestidas com garridice
espaventosa, rindo com os hóspedes mais íntimos que as ajudavam.
biblio- Ponha as dálias encarnadas aqui, seu Juvêncio... É para casarem com os crisântemos
brancos...
biblio- Casarem... casarem... Você Crescência, não tem outra idéia na cabeça senão a de
casamento...
biblio- Pois então?!... respondia a primeira, com um muxoxo de mulatinha espevitada, o dia é
mesmo para se pensar nisso. Bem que eu quisera estar no lugar de D. Celina, mas... com
outro noivo, já se vê... Olhem lá...
biblioUm vulto de rapaz ladeava solitariamente os maciços espessos do jardim, como
procurando fugir à atenção, e uma gargalhada esfuziou no grupo, que depressa fingiu
mergulhar mais ativa-mente nos preparativos da ornamentação da casa, em cujas janelas
baixas se balouçavam frágeis cadeias cheirosas, invenção da Crescência, atravessando as
abertas em forma de bambolins floridos. Um aroma quente de folhas e pétalas dava ao
ambiente um cunho de festa. E um tapete esmeraldino se estendia no solo, em frente à
porta da sala térrea, em cujo recinto ainda vazio de convidados branquejavam panos de
crochet forrando os móveis usados, enquanto, de cada mesinha, de cada étagère,dos dois
consolos antigos, do tampo do piano de armário, partia a nota violenta dos grandes ramos de
rosas, de dálias, de begônias e palmas de Santa Rita, transbordando de todas as jarras da
família, ali reunidas como principal recurso decorativo.
biblioMas um rumor cresceu no interior do prédio e D. Adozinda, proprietária do hotel, surgiu
azafamada e seguida por duas meninas de cabeleira frisada em que se enrolavam fitas
azuis, indagando, ruidosamente das raparigas se passara o bonde de uma hora da tarde...
Não, não passara ainda, e era um inferno, porque faltavam as luvas brancas da noiva e das
meninas, assim como o bouquet de flores de laranjeiras, que o Dr. Jaime, um hóspede tão
amável! se prestara a ir buscar na cidade - e o noivo era bem capaz de chegar antes de
tempo com a carrancuda da mãe, cujos reparos ela preferia evitar.
biblioCheia de corpo, clara com uns bonitos olhos pretos sob os cílios longos, um buço já forte
desenhando-lhe a boca larga e carnuda, D. Adozinda correu rapidamente pelos aprestos da
festa a vista alvoroçada e chamou pelos hóspedes, pediu-lhes que fossem agora ajudar um
pouco a guarnecer a mesa do lunch, gritando às criadas que se aviassem sozinhas, que
andassem, porque a Celina precisava delas.
biblio a sua camisola transparente e ampla, enfiada por cima do colete, apertando-lhe as
carnes opulentas, fazendo ressaltar o seio abundante, voejava pelo corredor, sobre as saias
de baixo, rendadas e farfalhantes de goma; e o Juvêncio, o Tomás e o Rodolfo, três
estudantes simpáticos e prestuberculosos,que lhe deviam pensão barata e carinho familiar,
precipitaram-se atrás desse claro sulco, ainda com as mãos todas crivadas de espinhos de
roseiras.
biblioDentro, a sala de jantar resplandecia à larga claridade de três janelas e uma porta
abrindo para o jardim, que circulava a casa e onde zumbiam abelhas sobre os cálices de
lírios, banhados de sol; e a cidade aparecia num plano inferior de silêncio e de distância,
através de um vapor trêmulo e azulado que varava aqui ou ali o reflexo de incêndio de alguma
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clarabóia ferida por um raio de luz mais direto.
biblioA mesa, recoberta pela toalha de linho dos grandes dias, tinha o aspecto convidativo,
com os seus pratos de sandwiches, pastéis e empadinhas flanqueados pelas garrafas de
cristal, em que brilhava um vinho aparentemente fino; pirâmides de fios d'ovos e compoteiras
de doces feitos em casa alternavam com as fruteiras em que enrubesciam maçãs junto aos
cachos de uvas, decorativamente espalhados - e toda uma profusão de flores em altos ramos
circunscrevia a vista.
biblioUm copeiro emprestado dava o último toque ao serviço - e os três estudantes o
ajudaram a dobrar os guardanapos em feitio de leque, de mitra e de rosa, não sem volverem
obliquamente um olhar dissimulado e guloso para o peru e as fatias de fiambre, acomodadas
sobre o aparador, sob um grosso filó cor de rosa, protetor contra as moscas assanhadas.
biblio- E o coronel?... acabou o Tomás por perguntar baixinho ao ouvido de Rodolfo.
biblio- Está no quarto, ciciou este com malícia; não gosta de escândalo e parece que hoje vai
deixar-se ficar encerrado...
biblio- Que idiota! O macambúzio do Gilberto é que devia fazer-lhe companhia, em vez de
errar pela chácara como uma alma penada...
biblio- Homem, também...
biblioMas uma senhora vestida de sedas investiu de repente pela sala, como uma tromba, e
atrás dela vieram correndo as meninas de fitas azuis nos cabelos riçados, duas moças em
toilettes brancas e o bando das criadas espevitadas, gritando todas:
biblio- D. Adozinda, o bonde largou uma porção de gente na porta... Estão o noivo com a
mãe, a madrinha, o Dr. Jaime, dois velhos...
biblio- Nossa Senhora!...
biblioE. a dona da casa saiu do quarto arrastando atrás de si uma preta que ainda lhe
acolchetava com esforço, resfolegando, bufando, o corpo do vestido cor de pérola; a fazenda
rangia, estalando sobre as formas salientes e vermelha, de olhos congestionados, retendo o
fôlego, D. Adozinda ia balbuciando com voz entrecortada:
biblio- Anda, rapariga!... Anda, Marcelina!...
biblioUm rumor de falas, de passos, de cadeiras arrastadas, enchia a casa, entre as suas
folhagens decorativas, e alguém preveniu que o suplente do pretor também tinha chegado
pelo mesmo elétrico e que o afilhado do padre André vinha avisar que o padrinho estaria ali
para o casamento religioso às 4 horas em ponto.
biblioHouve um sussurro crescente e a noiva, toda branca, assomou à porta da sala envolta
em véus virginais.
biblioA D. Adozinda Ferreira tinha um dia chegado, havia tempos, de Iguaçu, com três filhas já
crescidinhas, a mais velha, quase moça, e dizia-se viúva de um Inácio Ferreira, negociante,
que falecera durante uma visita feita à sua aldeia natal, em terras portuguesas, no Minho.
biblioComo a posição da recém-chegada não atraía atenções, e que, de resto, ela se
mostrava com alguns recursos pecuniários, alegre, insinuante, de uma familiaridade ruidosa
que agrada a muita gente, ninguém pôs em dúvida o estado de viuvez apresentado como
rótulo social, e pôde essa senhora entreter algumas relações no largo dos Guimarães, em
Santa-Teresa, onde fora residir.
biblioEm breve, com esperteza e felicidade, comprou D. Adozinda o pequeno hotel mais em
cima, a cavaleiro da linha de bondes Carris-Carioca, onde a D. Eufrásia, uma velha pintada
de sardas escuras, cozinhara durante muitos anos a sua asma terrível, conservando sempre,
aliás, uma boa freguesia de enfermos crônicos, convalescentes, empregados do comércio
sofrendo do estômago ou dos rins, que buscavam nessa cômoda altura, próxima da cidade,
um alívio aos seus males reais ou imaginários a preços modestos. Mais doente, porém,
cansada de tanto tossir, passou essa Dona Eufrásia a sua pensão; e D. Adozinda, que a
adquiriu com um faro muito vivo de negócios, ali se instalou com as filhas, atraindo logo a
simpatia de todos os hóspedes com o seu gênio brincalhão, o riso fácil, uma intimidade quase
maternal, que punham a gosto a rapaziada, nos princípios retraída.
biblioDesde que amanhecia, a sua clara camisola de cassa esvoaçava pelos corredores,
pelas salas e dependências; e alegre, ativa, com a sua pele branca e bem lavada, o cabelo
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preto enrolado em um sobre a nuca forte, os braços grossos sempre nus entre as mangas
largas e curtas, ela penetrava familiarmente nos quartos dos hóspedes, esquecia-se a
palestrar com os prediletos, aos quais levava ela própria o café com biscoitos, muitas vezes
alguma rosa ainda aljofrada de orvalho matutino e colhida por suas mãos no jardim -
ressoando através das portas fechadas os seus risos 50noros, não raro seguidos de
inexplicáveis silêncios, até que o favorito da ocasião saía do quarto muito apressado,
vermelho, a correr para apanhar o elétrico, e Dona Adozinda voltava às suas funções
domésticas, com o rolo do cabelo um pouco desmanchado, mas sempre enérgica e laboriosa
no exercício dos seus deveres.
biblioNão tardou muito que o hotel, em vista dessa feição, fosse um pouco abandonado pelo
elemento familiar. Algum casal que ali se hospedasse sentia logo a preferência merecida
pelos rapazes solteiros e tratava de procurar outro estabelecimento; de modo que, além de
duas antigas senhoras cheias de achaques e que tinham na casa o seu velho ninho, desde a
D. Eufrásia, pagando aliás pontualmente a pensão por quinzenas; e de uma outra professora
estafada, em busca de bons ares baratos para as férias, a clientela do hotel era composta
quase que exclusivamente de homens idosos ou moços.
biblioHavia, como efetivos, o John Gross, desenhista alemão, sempre asseado e grave que
descia à cidade pela manhã e voltava à noite. Havia o Silva, solteirão português, metido a
gaiato e com um grande nariz, que dava réplica à loquacidade jovial de D. Adozinda, ao
jantar, e comia como um bruto, espremendo limão em todos os pratos, por causa do fígado.
Havia o Tomé, guarda-livros, muito alto e bonito, mas tísico, nervoso, sempre enrolado em
flanelas, e o Juvêncio, o Tomás, o Rodolfo, estudantes com as famílias no Amazonas e no
Pará, e, enfim o Coronel Juvenato, um cearense de banhas amarelas e olhar manhoso, que
não perdia missa, e o Gilberto, que fora também estudante de farmácia, mas apanhara umas
febres e ali vivia agora à espera da saúde, mofino e débil, recebendo a mesada que lhe
mandava de Minas um tio.
biblioDesenvolvendo-se nesse meio, é natural que Celina, filha mais velha da D. Adozinda,
tivesse os seus pequenos flir ts com alguns desses rapazes, muito íntimos na casa e trazendo-
lhe da cidade presentes de doces, de balas de ovo, de jornais ilustrados ou de frutas.
biblioAs irmãs mais novas iam ao colégio; ela ficava, enchendo o tempo com uns crochets
vagarosos, costuras leves, a leitura dos folhetins dos jornais; e o Gilberto, que raramente,
saía, andava sempre ao seu lado, muito caído por esse tipo um pouco mórbido de menina
anêmica, devorando com os olhos a sua cinta fina, a graça delicada com que ela movia o
pescoço franzino, o sorriso um tanto sonso dos bios ambíguos a ler-lhe versos em que
punha toda a paixão da sua voz. Ele era bonitinho, teria os seus vinte anos, muito pálido, com
umas pupilas negras de árabe, ardentes, vorazes: e D. Adozinda, ao passar, quando os via
juntos, demorava o andar, como inquieta, perplexa, indecisa... Muito ladina, sob a sua
jovialidade vulgar, ela perguntava a si mesma o que devia fazer: consentir ou proibir?
biblioO Gilberto não valia nada, mas quem sabe se apareceria outro, simplório e sincero como
ele? E a filha, com os seus dezessete anos, começava a embaraçá-la um pouco, nesse difícil
papel de virgem numa casa de pensão, cheia de rapazes. Ora, o melhor era esperar, dar
tempo ao tempo... E o Gilberto e a Celina continuaram a namorar-se, ele cândido, ela dúbia;
enquanto o Coronel Juvenato que deixara a mulher em Sobral para tratar de uma concessão
rendosa com os políticos do Rio, ia agora monopolizando como protetor mais importante, as
alegres visitas matinais da viúva, que lhe levava sempre o café - mas sem flores colhida no
jardim, ainda rociadas de orvalho, porque cearense não dava para essas coisas de poesia.
Era rápido, prático, e não admitia bobagens. Por isso todos os sábados à noite, ele dizia a D.
Adozinda com um tremor lúbrico nas banhas moles da face os olhinhos vivos pestanejando:
biblio- A senhora não se esqueça que amanhã é domingo... Leve-me cedo o café, hein?... que
e tenho de ir a missa...
biblio- Pois não! pois não, Coronel! fique descansado, respondia a viúva do Ferreira, muito
atenciosamente, tirando-lhe umas caspas da gola do paletó, com a mão repolhuda.
biblioOs outros hóspedes riam-se à socapa; e no domingo o café não faltava, bem cedinho...
biblioFoi por esse tempo que apareceu inesperada mente no hotel, a convalescer de uma
hepatite, certa viúva idosa, com alguns bens, cujo filho único, o Alfredo Galvão, amanuense
numa secretaria, vinha recomendá-la muito a D. Adozinda. Subiram ambos devagar os dois
lances da escadaria do jardim, dividido em terraços, ela com uma lividez de marfim velho na
face franzida e severa, ele amparando-a com toda a força de seu braço filial, solicito,
respeitoso, carregando-lhe a maleta e os agasalhos: e mesmo assim, teve a doente de parar
sob a amendoeira do centro do jardim superior, porque lhe faltava o fôlego para atingir a casa.
biblioMinhae ainda está muito fraca, explicou Alfredo à dona da pensão, para desculpá-la,
e agradecendo a cadeira que Celina trouxe a correr; mas acredito que estes ares logo a
fortalecerão...
biblio- Não sei se a minha modesta casa lhe convirá disse D. Adozinda, examinando com
alguma inquietação a fisionomia austera da senhora..
biblio- Ora, certamente que há de convir. Pois então?... isto aqui é bonito, é alto, saudável...
biblioA doente interrompeu o filho, erguendo os olhos biliosos para a mulher:
biblio- É sobretudo muito próximo da cidade, de modo que o Alfredo poderá visitar-me todas
as tardes, depois de jantar. Moramos à rua das Marrecas. Fica perto do Ponto dos Carris e foi
por isso que escolhi a sua casa.
biblioD. Adozinda teve um largo riso profissional, agradecendo, e garantiu que ela se daria ali
muito bem. O que convinha agora era entrar, a fim de não esfriar o corpo à sombra das
árvores.
biblioAjudou-a a levantar-se, foi conduzindo-a para a sala, enquanto a doente indagava:
biblio- A menina que me trouxe a cadeira é sua filha?
biblio- É a minha mais velha; e ainda tenho outras duas que estão a chegar do colégio...
biblioUma sombra empanou o rosto amarelecido da senhora:
biblio- Eu tive seis filhos!... Só me resta hoje este mais moço, o Alfredo... Isto é que é duro: tê-
los e perdê-los...
biblio- Tem razão, mas afugente esses pensamentos tristes e venha ver o seu quarto... Como
é mesmo o seu nome? Já esqueci...
biblio- Margarida Galvão, viúva do Dr. Hermeto Galvão.
biblioE com uma ponta de altivez a endireitar-lhe o busto magro sob a ampla capa de vidrilhos
negros, passou à frente dessa dona de hotel que a interrogava com tão excessiva
familiaridade e penetrou no aposento que Celina já abrira.
biblioEra o melhor da casa, com duas janelas para o jardim lateral, um grande toucador e até
uma cadeira de balanço para os ócios da doente.
biblio- Minha mãe ficará aqui perfeitamente! dizia o Alfredo, sorrindo, apalpando as molas do
enxergão de arame do leito asseado, dando a tudo um olhar cuidadoso de filho. Repare que
vista!...
biblioE despediu-se com mil recomendações, beijando a mão emagrecida da velha, voltando-
se ainda da porta para lembrar a dieta, os perigos do sereno, mil coisas. No corredor, porém,
esbarrou com Celina, que o escutava com um leve riso de zombaria à flor dos lábios, e teve
um minuto de confusão, sentiu-se infantil, deixou cair o chapéu, sossegando a meio das
escadas do jardim, que desceu um pouco trôpego, intimado, a pensar:
biblio- Diabo de pequena!... que modo de rir! Mas, é bonitinha, muito bonitinha!
biblioParou para colher um cacho de glicínias que pendia da grade, e ainda murmurou:
biblio- Que olhos!...
biblioA mãe de Celina é que caiu menos no agrado dos dois - sobretudo no de D. Margarida,
que não se podia habituar com a alegria um tanto vulgar da viúva, as suas gargalhadas
sonoras, os roupões decotados a voarem pelos corredores, essa mania de trazer sempre nus
os braços grossos e roliços e de rebolar os quadris, quando andava. Conservou-se
desconfiada muitos dias, estudando o procedimento de D. Adozinda nessa casa de hóspedes
que ela enchia com o rumor da sua familiaridade jovial. Mas, como o Coronel Juvenato
aparecia agora ao jantar, casmurro e tranqüilo, mastigando numa absorção de todos os
outros sentidos, com a papeira flácida a tremer; como o Silva coibia mais as suas pilhérias
lusitanas de pândego narigudo, peado pela reserva de D. Margarida; como, em suma, tudo se
passava regularmente e, durante o dia, a viúva era sempre encontrada a coser, como boa
mãe de família, uma cesta de roupa por cerzir sobre a mesa, ao seu lado - a velha mãe do
Alfredo Galvão acabou por sossegar. A mulher era mal-educada, isso era; não se podia,
porém, acusá-la de proceder incorretamente. E, nessa distensão das suas desconfianças, D.
Margarida foi aceitando as amabilidades um pouco tímidas da filha, essa esbelta Celina, de
poucas falas, que lhe floria o quarto todas as manhãs com uma graça discreta de gestos e
passos. Chamou-a um dia, em que mais lindo apareceu o ramo de rosas brancas, amarelas e
rubras, túmidas de seiva, ainda orvalhadas de sereno, embalsamando todo o aposento;
mostrou-lhe a cadeira junto da sua, fê-la sentar e perguntou-lhe, sorrindo:
biblio- Diga-me, onde aprendeu a fazer esses ramalhetes tão bonitos, tão artísticos?
biblioA pequena encolheu os ombros franzinos com faceirice, mostrando os dentinhos
brancos no seu riso sempre ambíguo, um pouco ironia, um pouco mistério:
biblio- Não sei! faço-os sem pensar...
biblioE D. Margarida envolveu-a num longo olhar penetrante, que gradativamente se adoçou
úmido, compassivo, como se ela sondasse com tristeza os segredos desse humilde destino
de virgem mal guardada por uma mãe leviana e espalhafatosa.
biblioIndagou por fim, com uma simpatia a vibrar-lhe na voz de ordinário fria:
biblio- Deve custar-lhe a viver assim numa pensão cheia de gente desconhecida, entre
rapazes que tomam liberdade, não é?...
biblioCelina requebrou dolorosamente os olhos.
biblio- Ah! muito... A senhora nem imagina!...
biblioE, como arrastada, mais sincera, um leve rubor nas faces anêmicas, prosseguiu:
biblio- Estou cansada desta vida, mas mamãe não pode ainda deixar o hotel... Então, que
fazer?!... No dia, porém, em que eu puder sair daqui para morar sozinha com minha família,
na cidade, ah! que alegria!...
biblio- Há também outro meio: pode casar-se...
biblio- Casar-me, eu?... Com quem? Onde o noivo?
biblioE Celina esfuziou uma gargalhada fina e nervosa, um pouco forçada. Os olhares de
ambas cruzaram-se, enigmáticos, logo desviados; e a convalescente ergueu-se com certa
vivacidade, dizendo:
biblio- Bem. A menina tem naturalmente as suas ocupações dentro e eu vou dar o meu giro
higiênico ao sol. Até logo, sim? Não precisa acompanhar-me.
biblioSepararam-se.
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