
lítica dos antigos imigrantes não é verdade, como se quer insinuar
hoje nas campanhas populistas, que o filho do trabalhador de enxada
permanece sempre um trabalhador de enxada), ao chegarem a essa posi-
ção, não se contentavam com a posse da terra, mas queriam ter os "os-
sos do Barão", que veneravam e estimavam.
Numa análise da evolução dos modos de ver e estimar o
trabalho, Étienne Borne e François Henry (Xe Travail et L'Homme) mos_
trama marcha da humanização da atividade artesanal, através do tem
po. No ambiente da sabedoria antiga, na Grécia de Sócrates e de Platão,
nem o maior deles, Aristóteles, o que soube unir em si duas gran_ dezas
que nem sempre convivem na mesma pessoa, a maior genialidade e a maior
sensatez, conseguiu perceber que a criação artística não separa, mas
junta a mão e a inteligência. Amava a arte,mas desprezava o artista
porque este era um operador manual. Gostava da música, mas o nobre
era ouvir música; tocá-la era servil, chegando mesmo a ser
deformante, já que deixava torta a boca traumatizada pela flauta. 0
grego altaneiro era contemplativo e olhava de cima o ignóbil
manualista.
Com o surgimento do cristianismo no meio grego, a opo-
sição contemplação-traba1ho sofre alteração em ambos os pólos. Con
templação não é mais apenas o "gaudium de veritate", isto é, o de lei-
te da verdade, mas começa a envolver o coração. Para o amor se alarga a
contemplação e a caridade, sobretudo, o amor de Deus, que brota da fé
lhe dá plenificaçao. 0 saber é precioso, por conduzir ao amor.
Por outro lado, o trabalho faz parte da nobreza huma-
na. Não ê tarefa de escravos, mas do espírito livre e criador, colo-
cado na terra, para "cultivá-la e guardá-la" [Gen. 2.15). Conserva,
entretanto, o trabalho, nesse início de cristianismo uma nota meio
negativa: condição para merecer o alimento
u
quem não quer trabalhar,
também não há de comer" (II Thes 3.10) e, ainda um sentido penitencial,
um valor ascético. 0 trabalho é, assim, honrado como uma obri_ gação
moral, um remédio contra a ociosidade, que e inimiga da alma. A plena
reconciliação da contemplação com o trabalho vai surgindo nos
mosteiros medievais, onde o trabalho não ê apenas meio de vida ou
recurso contra a ociosidade, mas expansão da natureza criativa do
homem, que traz consigo a oportunidade de servir o próximo, engrande-
cer o universo e glorificar a Deus. Desfaz-se a separação entre inte
ligência e mão-de-obra artística - o fazer nasce na inteligência e