
PARECER SOBRE O PROJETO SAPIENS
Eunice Ribeiro Durham
O Projeto Sapiens é um sistema de avaliação continuada e progressiva dos
alunos do 2°grau, que ocorre em 6 momentos diversos. Inclui relatórios detalhados, para
as escolas, os quais compreendem não só o nível de desempenho alcançado pelo aluno
como uma analise das deficiências encontradas, com o que se podem detectar as
principais falhas do processo de ensino-aprendizagem.
Constitui, portanto, um valioso instrumento de avaliação do ensino que
permite ações concretas no sentido de melhoria de qualidade. Há, portanto, todo o
interesse em apoiar a continuidade dessa iniciativa.
Tenho entretanto, objeções quanto à sua utilização como forma de acesso
ao ensino superior, paralelo ao vestibular, com reserva de vagas para os alunos
avaliados.
1-0 sistema é demasiado complexo e oneroso para ser universalizado.
2-0 sistema restringe o acesso às I.E.S, à clientela local. Embora possa
ser interessante para instituições privadas que tendem a se dirigir predominantemente a
essa clientela, é inadequado às grandes universidades federais ou estaduais, que atendem
a um público nacional, que recebeu formação bastante heterogênea.
3-0 sistema se restringe aos alunos que ingressam no ensino superior
imediatamente após o término do 2° grau. Os candidatos ao ensino superior, entretanto,
incluem um número crescente de adultos, que concluíram o 2°grau há bastante tempo.
Pode-se supor, inclusive que, para essa clientela, a experiência de vida e de trabalho
supriu parte de deficiências porventura existentes na sua formação escolar anterior. Esses
candidatos são discriminados em relação aos que provêm do Projeto Sapiens.
4 - Os objetivos educacionais do ensino superior não se restringem à
preparação para a universidade. Há de se pensar, dentro de uma perspectiva de
ampliação do atendimento à faixa etária jovem, que o 2° grau deve constituir uma etapa
final da escolarização e da preparação para o trabalho para um percentual crescente de
jovens. O estabelecimento de um sistema de avaliação que contempla exclusivamente o
ingresso na universidade apenas agrava o viés já existente nesta direção, o qual deveria
ser combatido.
O ingresso no ensino superior tem necessariamente um caráter seletivo,
que o 2
o
grau no seu conjunto não deve possuir. O ensino médio deve ser pensado como
um nível de ensino acessível à maioria da população, para o que poderia ser diversificado
internamente em termos de tipos e níveis de habilidades e conhecimentos adquiridos. Um
tipo de avaliação como o promovido pelo projeto Sapiens dificilmente levará em conta
esta diversidade e, dados seus objetivos, não deve se restringir aos patamares mínimos de
desempenho que podem ser estabelecidos como exigência comum a todo o 2
o
grau.
5 - Estamos tratando de processos de avaliação que devem permanecer
distintos. De um lado, aquele que indica a porcentagem dos estudantes de 2
o
grau que
atingem os mínimos estabelecidos e que constitui um indicador da qualidade do ensino
ministrado. De outro a seleção, para o ingresso no ensino superior, dos estudantes com
maior potencial para um estudo necessariamente mais acadêmico e uma formação que
lhes permita acompanhar o nível de exigência próprio desse nível de ensino.
6-0 sistema de ingresso no ensino superior por avaliação do
desempenho no 2
o
grau estabelece uma distinção excessivamente precoce entre
estudantes considerados aptos ou não para a universidade.