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RODRIGO DA ROSA PEREIRA
PARA ALÉM DO ESPELHO: A FICÇÃO PEDAGÓGICA DE
HIMANI BANNERJI
RIO GRANDE – RS
2008
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RODRIGO DA ROSA PEREIRA
PARA ALÉM DO ESPELHO: A FICÇÃO PEDAGÓGICA DE
HIMANI BANNERJI
Dissertação apresentada ao Programa
de Pós-Graduação em Letras da
Universidade Federal do Rio Grande,
como requisito parcial para a obtenção
do título de Mestre em História da
Literatura.
Orientadora: Profª. Drª. Rubelise da
Cunha
RIO GRANDE – RS
2008
ii
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iii
O escritor instala-se em seu texto como em sua casa... Seus
pensamentos são como móveis nos quais se acomoda, sente-se
bem ou se irrita. Ele acaricia-os afetuosamente, usa-os,
desarruma-os, organiza-os de outro modo, arruína-os. Para quem
não tem mais pátria, é bem possível que escrever se torne sua
morada.
Theodor W. Adorno
Mínima moralia. SP: Ática, 1993. p. 75
iv
RESUMO
Em busca de respostas a por que e de que modo a escritura ficcional de Himani Bannerji faz-
se de relevância específica para a cultura canadense, procuramos constituir uma reflexão
crítica capaz de identificar, analisar e discutir o lugar e a significância da obra da escritora no
contexto da Literatura Canadense (Sul-Asiática). Para tanto, propomos uma abordagem de sua
escrita ficcional, evidenciando o tratamento literário-discursivo do imigrante de origem sul-
asiática no Canadá. Nossas considerações teóricas e analíticas fundamentam-se na crítica
literária do Pós-colonialismo e dos Estudos Culturais, particularmente no que se refere a
noções que subjazem o aspecto pedagógico da literatura. Como resultado, esperamos
possibilitar um ambiente de revisão do discurso historiográfico-literário canadense, ao
reconhecer a produção ficcional da autora como significativa no contexto expressivo das
minorias étnicas. Especificamente, através do entrelaçamento analítico dos contos “The Other
Family” (1990) e “On a Cold Day” (1999), buscamos revelar a existência do caráter
pedagógico pós-colonial dessa escrita narrativa. O conjunto simbólico de sua linguagem
narrativa torna-se um elemento fundamental na construção de nosso argumento.
v
ABSTRACT
Towards an understanding of why and how Himani Bannerji’s creative writing carries a
specific relevance within Canadian culture, we aim at gathering a critical reflection to cope
with identifying, examining and discussing the space and the significance of the author’s work
in the context of (South Asian) Canadian Literature. Therefore, we propose an approach to this
fictional writing in order to find how the South Asian immigrant in Canada is depicted
literarily and discursively by the author. Our theoretical and analytical account bases on the
literary criticism of Postcolonialism and Cultural Studies, especially in terms of the
pedagogical features of literature. We hope to generate an environment of revision of
Canadian historical literary discourse by acknowledge the author’s creative production as
meaningful in expressive context of racial minorities. As far as the analysis of the fiction is
concerned, through the examination of the short-stories “The Other Family” (1990) and “On a
Cold Day” (1999), we look for the existence of the postcolonial pedagogical aspect. The
symbolic set of its narrative language becomes an essential element to our argument.
vi
vii
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO .................................................................................................................. 1
CAPÍTULO I: LITERATURA, MIGRAÇÃO E ESCRITA FEMININA NO CANADÁ
1.1 PÓS-COLONIALISMO, MIGRAÇÃO E FEMINISMO ............................................. 5
1.2 QUESTÕES ÉTNICAS E A LITERATURA CANADENSE (SUL-ASIÁTICA) ..... 20
1.3 LITERATURA PÓS-COLONIAL PEDAGÓGICA ................................................... 32
CAPÍTULO II: POR UMA ESCRITA CANADENSE SUL-ASIÁTICA
2.1 HIMANI BANNERJI: CONTRIBUIÇÃO CRÍTICA E CRIATIVA ......................... 45
2.2 ATRAVÉS DO ESPELHO: O RE-CONHECIMENTO ............................................. 64
2.3 ATRAVÉS DA JANELA: OUTRO ESPELHO ......................................................... 78
PARA ALÉM DO ESPELHO .............................................................................................. 90
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 104
APRESENTAÇÃO
Na contemporaneidade, assistimos a migrações massivas que redesenham o perfil das
populações e das fronteiras entre países e continentes. Tal fenômeno tem contribuído para a
diluição das fronteiras nacionais, o que tem acentuado sensações de não-pertencimento e
desterritorialização para a identidade em trânsito do sujeito (i)migrante. Para as comunidades
canadenses de origens étnicas não-brancas, essa condição se torna uma realidade a partir da
segunda metade do século XX, período no qual o Canadá, dentre diversos outros países do
Ocidente, abre suas fronteiras com as chamadas políticas de imigração não-racistas. Todavia,
no Canadá, o decreto do multiculturalismo, cujo objetivo principal é a manutenção da
heterogeneidade da herança cultural da nação, foi aprovado apenas em 1988. É nesse contexto
que se situa a produção literária de Himani Bannerji, objeto deste estudo.
Preocupado com a inclusão de uma autora situada duplamente na periferia da
instituição literária, espaço que as escritas feminina e migrante ocupam atualmente, o presente
trabalho emerge particularmente relacionado às questões pós-coloniais de etnia e gênero. De
modo especial, fundamentamo-nos teórica e criticamente em considerações que possibilitem
uma compreensão do aspecto pedagógico da literatura pós-colonial. Assim, apontamos para
uma abertura de fronteiras que ultrapasse a rigidez dos limites tradicionais na interpretação do
mundo, resultando em leituras mais flexíveis, plurais e heterogêneas da literatura, em
contraposição às leituras totalizadoras remanescentes do discurso colonialista. É por tal motivo
que o pós-colonialismo, enquanto teoria e crítica literária, faz-se pressuposto crucial para o
enfoque desejado, ao se ocupar primordialmente em romper com a fixidez de conceitos e
noções modelares no que tange ao discurso teórico e crítico da filosofia ocidental aplicado aos
estudos da cultura e conseqüentemente da literatura.
2
Além disso, este estudo interessa-se por questões relacionadas à literatura, migração e
racismo, particularmente no palco dos acontecimentos do Canadá; mais especificamente,
consiste em abordar uma literatura étnico-minoritária. Ao longo das páginas que seguem,
apresentamos a voz de uma escritora contemporânea canadense sul-asiática. Fazemos esta
observação pela necessidade de distinguir entre a literatura que, até poucos anos, era a única
aceita pela maioria como expressão de uma identidade nacional canadense – anglófona ou
francófona – e uma literatura categorizada como “étnica”.
Sul-asiática em diáspora, Bannerji é imigrante de origem indiana no Canadá, onde vive
desde 1969. Além de escritora e tradutora de diversos livros, os quais incluem poesia, ficção e
ensaios crítico-teóricos, Bannerji atua como professora de sociologia na York University, em
Toronto. Seu engajamento, no contexto canadense nasce na década de 1970, período em que
teorias feministas assumem o compromisso de romper com os paradigmas da produção de
conhecimento dos discursos dominantes no Ocidente.
Em busca de respostas a por que e de que modo a escritura ficcional de Bannerji faz-se
de relevância específica para a cultura canadense, a presente dissertação constitui uma
reflexão crítica que visa a identificar, analisar e discutir o lugar e a significância de sua obra na
História da Literatura Canadense (Sul-Asiática). Para tanto, apresentamos uma tentativa de
evidenciar o tratamento discursivo-literário da mulher imigrante “não-branca” no Canadá na
escrita ficcional da autora. Desse modo, as considerações teóricas que seguem dizem respeito
ao pensamento mais recente na área da Literatura, dedicado à reflexão entre literatura e
sociedade, literatura e história e literatura e cultura. Espera-se possibilitar um ambiente de
revisão do discurso historiográfico-literário canadense, ao reconhecer a obra de Bannerji no
contexto expressivo das minorias de gênero e étnico-raciais.
Diante da contribuição ficcional singular e do reconhecimento relativamente pequeno
da escritora à academia canadense, cuja produção é quase inexistente no contexto brasileiro,
realizamos uma breve análise de sua escrita, a fim de afirmá-la como representativa das
minorias ditas “visíveis”, “de cor” ou “étnico-raciais”. Frente às forças desiguais e irregulares
de representação cultural envolvidas na competição pela autoridade política e social dentro da
ordem do mundo moderno, demonstramos que essa ficção rompe com os paradigmas
exclusivos e excludentes da produção de conhecimento dos discursos dominantes no Ocidente.
Além do engajamento em questões anti-racistas em favor dos canadenses “não-brancos”,
3
buscamos explorar o modo como essa escrita está diretamente ligada a um problema mais
abrangente desses imigrantes, relacionado à diáspora: o conflito cultural por não se situarem
como pertencentes a uma única cultura, à do país nativo ou à do Canadá. Reconhecendo que a
essência da experiência imigrante está na dualidade, testemunhamos o modo como o escritor
“étnico” move-se entre culturas e negocia um novo espaço literário. Dessa forma, entendemos
que a contribuição da autora faz-se inegável para o enriquecimento do universo literário do
Canadá, enquanto nação multicultural.
Na tentativa de evitar uma categorização da escritura ficcional de Bannerji sob a
rubrica de termos fixos e genéricos, este estudo se pauta na valorização e no reconhecimento
de suas diferenças e especificidades. A partir de um recorte analítico específico, buscamos
examinar parte da obra ficcional da autora a fim de evidenciar traços pedagógicos em sua
escrita. Esta abordagem traz à tona uma discussão a respeito de dois de seus contos, a saber:
“The Other Family” (1991) e “On a Cold Day” (1999). Diante deste corpus, procuramos
demonstrar que o produto narrativo-literário da escritora assume uma espécie de compromisso
com a desconstrução de estereótipos “raciais” discriminatórios – os quais se fazem presentes
no Canadá, advindos de seu discurso nacionalista – ao focalizar instâncias da “agência” ou
“resistência” dos canadenses sul-asiáticos enquanto grupo étnico minoritário.
O caminho de leitura que propomos coloca-se como um modo de penetrar em uma
época relativamente ignorada nos manuais de História da Literatura Canadense. No primeiro
capítulo, fornecemos as bases teórico-críticas para situar o estado das questões étnicas e de
gênero associadas à temática da literatura e migração. Neste contexto, apresentamos um
subsídio para o entendimento da literatura pós-colonial como pedagógica. A seguir, no
segundo capítulo, após a apresentação da autora e sua obra, passamos à análise da ficção.
Observamos que as histórias sob estudo transmitem a herança cultural dos choques e conflitos
inevitáveis que se verificam na convivência entre pessoas de diferentes religiões, culturas e
costumes, a partir das protagonistas, imigrantes sul-asiáticas, as quais carregam consigo um
passado, uma identidade, que são motivadas a desenterrar. Assim, seus imaginários são
influenciados pela luta contra um clima inóspito e instituições sociais que forçam a
assimilação da cultura anglo-canadense dominante. Nas considerações finais, refletimos de
maneira sintética a respeito dos aspectos pós-coloniais pedagógicos que permeiam tal
4
literatura, e buscamos afirmar o papel constituinte dessa escrita como parte fundamental da
ficção literária (multicultural) do país.
5
CAPÍTULO I
LITERATURA, MIGRAÇÃO E ESCRITA FEMININA NO CANADÁ
1.1 PÓS-COLONIALISMO, MIGRAÇÃO E FEMINISMO
Conhecidas por seu uso político das teorias sócio-culturais contemporâneas para
desafiar o legado do colonialismo, as intervenções críticas do pós-colonialismo abrangem uma
gama de interesses teóricos que demonstram “engajamento” com a teoria crítica e cultural
contemporânea no que se refere à maneira como lemos e pensamos a respeito de literatura e
cultura. De modo particular, a crítica literária pós-colonial tem questionado a capacidade dos
modelos teóricos ocidentais de resistência política e de mudança social, os quais alegam uma
representação adequada das histórias e vidas das minorias destituídas de poder nas sociedades
pós-coloniais.
Até recentemente, poucos percebiam como impositivos e hierarquizantes os processos
totalizadores e universalizantes que sustentam a base epistêmica de representação, significado
e valor de nossa cultura. Constatamos que foi somente na segunda metade do século XX que
as teorias propiciaram noções culturais de descentramento do poder, abrindo caminho para
políticas da diferença. Neste sentido, teorias tais como a Crítica Pós-colonial e os Estudos
Culturais têm constituído instrumentos importantes do processo de descolonização em
determinadas conjunturas históricas e geográficas, notadamente nos casos das sociedades
coloniais ou de países em desenvolvimento.
Ao final do século XIX, em meio ao movimento de definição das literaturas nacionais,
a História da Literatura configurou-se enquanto campo do saber. No entanto, com o advento
da teoria literária, decorrente de razões sobretudo políticas, tal disciplina é atravessada por
6
ondas de contestação a partir dos anos 1960 (SOUZA, 2003). Nesse contexto de consolidação
de teorias sócio-políticas, culturais e históricas, novos discursos teórico-críticos tiveram uma
influência fundamental, tanto na literatura quanto nas artes contemporâneas de modo geral.
Particularmente, no âmbito das novas perspectivas em História da Literatura, os Estudos
Culturais têm sido os responsáveis pelo declínio das ideologias nacionalistas e pela denúncia
do cânone como categoria conivente aos ideais nacionais – portanto, autoritária,
homogeneizante e “colonial” – através da qual a literatura ocidental, mais especificamente a
européia, passou a ditar o que é reconhecido como “universal”. A partir das considerações
correntes, tornaram-se possíveis novas configurações capazes de englobar as minorias até
então excluídas do discurso oficial, constituído pelas chamadas “grandes” narrativas.
Frente às forças desiguais e irregulares de representação cultural envolvidas na
competição pela autoridade política e social dentro da ordem do mundo moderno, a
significação mais ampla da condição pós-moderna reside na consciência de que os “limites”
epistemológicos das idéias etnocêntricas são também as fronteiras enunciativas de uma gama
de outras vozes e histórias dissonantes, ou mesmo dissidentes: das mulheres, dos colonizados,
dos grupos minoritários, dos portadores de sexualidades policiadas, dentre outros. Isto porque
a demografia do novo internacionalismo pode ser compreendida como a história da migração
pós-colonial, as narrativas da diáspora cultural e política, os grandes deslocamentos sociais de
comunidades. Por essa razão, os próprios conceitos de culturas nacionais homogêneas, a
transmissão consensual ou contígua de tradições históricas, ou comunidades étnicas
“orgânicas” – enquanto base do comparativismo cultural – estão em profundo processo de
redefinição (BHABHA, 1998).
Nesse contexto de transformações, o fato que tem chamado a atenção de modo especial
é particularmente a possibilidade de repensarmos a literatura contemporânea; ou seja, de a
pensarmos segundo outros parâmetros que não mais aqueles estabelecidos a partir do conceito
de estado-nação. É somente a partir dessa perspectiva que se torna possível situar a produção
literária de, por exemplo, mulheres imigrantes tais como as sul-asiáticas no Canadá: uma
escritura decorrente das relações econômicas e sócio-político-culturais da atualidade, a qual
remete o leitor à necessidade de (re-)pensar a produção literária contemporânea canadense à
luz da chamada crítica pós-colonial.
7
De modo geral, o Pós-colonialismo caracteriza-se como um conjunto de teorias que
analisa os efeitos políticos, filosóficos, artísticos e literários deixados pelo colonialismo; como
teoria literária ou abordagem crítica, lida com a literatura produzida em países que outrora
foram colônias de outros países, especialmente das potências coloniais européias Grã-
Bretanha, França e Espanha; em alguns contextos, inclui países ainda em situação colonial.
Aborda também a literatura escrita por cidadãos que, nativos das antigas colônias,
principalmente do Império Britânico, atualmente freqüentaram universidades britânicas e
norte-americanas, cujo acesso à educação criou uma nova forma de crítica, particularmente
literária, especialmente expressa na própria ficção literária. A teoria pós-colonial tornou-se
parte dos recursos dos críticos nos anos 1970, especialmente a partir do livro Orientalismo
(1978) de Edward Said.
Dentre os atuais teóricos da corrente pós-colonialista, de modo especial, evidenciam-se
os estudos dos críticos Homi Bhabha e Gayatri Chakravorty Spivak. Ambos indianos,
atualmente residentes nos Estados Unidos da América, têm se engajado em desafiar as
convenções disciplinares da crítica literária e da filosofia acadêmica, ao focalizar em textos
culturais daqueles que são marginalizados pela cultura ocidental dominante: os novos
imigrantes, as classes trabalhadoras, as mulheres e os sujeitos pós-coloniais. Ao valorizar as
vozes e os textos destes grupos minoritários, tais estudiosos também se empenham em
evidenciar que os efeitos do colonialismo europeu não desapareceram simplesmente na
medida em que muitas das antigas colônias européias alcançaram independência nacional na
segunda metade do século XX. De fato, o que demonstram é que as estruturas sociais, políticas
e econômicas estabelecidas sob a dominação colonial permanecem modulando a vida cultural,
política e econômica das nações pós-coloniais.
Em seu livro O local da cultura (1998), Bhabha questiona, por um lado, a
nacionalidade como categoria exclusiva para o exame da Literatura, enquanto considera, por
outro, as categorias de “extraterritorialidade” e “transnacionalidade” como recorrentes nas
experiências contemporâneas. Segundo sugere o teórico, os deslocamentos culturais aos quais
a humanidade é submetida na atualidade geram um redimensionamento da história, tão
profundo que as “histórias transnacionais de migrantes, colonizados ou refugiados políticos –
essas condições de fronteira e divisas – podem ser o terreno da literatura mundial, em lugar da
transmissão das tradições nacionais, antes o tema central da literatura mundial” (p. 33). Assim,
8
o interessante ao estudo da literatura mundial seria justamente o modo pelo qual as culturas se
reconhecem através de suas projeções de alteridades.
Em capítulo intitulado “A Outra questão: o estereótipo, a discriminação e o discurso do
colonialismo”, Bhabha (1998) explora a ambivalência dos estereótipos construídos pelo
discurso colonial como principal estratégia discursiva e psíquica de seu poder discriminatório
racista. Segundo o teórico, o estereótipo é uma forma “presa, fixa, de representação” que
constitui um problema, ao negar o jogo da diferença, pois é capaz de oferecer “um ponto
seguro de identificação em um momento qualquer” (p. 117); e o problema da discriminação
como o efeito político do discurso (pós-)colonial está relacionado com a questão da “pele”
como “signo da diferença cultural/ histórica/ racial no discurso do colonialismo” (p. 106).
Assim, o discurso colonial desvela-se dependente do conceito de “fixidez” na construção
ideológica da alteridade em mesma medida que a representação estereotípica nas práticas
discriminatórias exige a repressão da montagem da diferença. No contexto em que os antigos
colonizados re-aparecem como imigrantes em países como o Canadá, a alteridade adquire um
caráter inverso. No lugar de construir a outra etnia do imigrante como diferença negativa, nos
discursos das sociedades pós-coloniais, o estereótipo volta-se para a afirmação da própria
identidade nacional como dotada de uma origem e unidade. Ao sublinhar a “construção
arbitrária, diferencial e sistêmica dos signos sociais e culturais”, sua estratégia crítica contribui
para desestabilizar a “busca idealista por sentidos que são, quase sempre, intencionalistas e
nacionalistas” (p. 107). Tal perspectiva fornece um importante aporte para compreendermos a
representação ficcional de determinadas personagens no trabalho de Bannerji.
Para tratarmos da literatura enquanto produto cultural deste sujeito “pós-moderno
1
,
fazem-se imprescindíveis também algumas considerações de Stuart Hall – precursor dos
Estudos Culturais. De modo geral, através de seus estudos, Hall tornou possível compreender
1
Em A identidade cultural na pós-modernidade (2004), Hall argumenta no sentido de que um tipo diferente de
mudança estrutural vem transformando as sociedades modernas no final do século XX, uma mudança que vem
fragmentando as paisagens culturais – de classe, gênero, sexualidade, etnia, “raça” e nacionalidade – que
forneciam, no passado, sólidas localizações para o indivíduo dentro da sociedade. Segundo o pensador, tais
transformações estariam mudando também nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós
próprios como sujeitos integrados. Este fenômeno tem sido um dos principais responsáveis pelo declínio das
identidades nacionais. Conseqüentemente, na medida em que o sujeito percebe-se fragmentado – ocupando
diversas posições em variados segmentos da sociedade, composto não mais de uma única, mas de várias
identidades, muitas vezes contraditórias ou em tensão – simultaneamente ao declínio das identidades nacionais,
surgem as chamadas
identidades híbridas.
9
que as sociedades pós-coloniais, tais como o Canadá multicultural, têm se caracterizado pela
diferença, atravessadas por divisões e antagonismos sociais. Entretanto, se subentendemos que
a globalização mutila ou destrói formas culturais, homogeneizando suas práticas e recepções
em lugares variados, ela também produz heterogeneidades, diversidades e diferenças, ao
promover o surgimento de hibridismos identitários, impulsionando estes novos sujeitos a uma
reação em defesa de suas especificidades – fato que reforça sentimentos de pertencimento
local, regional e nacional. Assim, ao pressionar as identidades nacionais, regionais e locais, o
próprio processo de globalização fortalece movimentos de resistência, refletindo inclusive na
estruturação de narrativas literárias. Isso está relacionado ao fato de que, no contexto
particular do Canadá pós-colonial, apesar de o multiculturalismo ter sido oficialmente
instaurado, verificamos que as culturas canadenses pertencentes à hegemonia “branca” – de
origem inglesa e francesa – tendem a repelir as culturas étnico-raciais dos imigrantes enquanto
participantes de uma nacionalidade canadense plural. Como resultado, atualmente assistimos a
noções de comunidades “minoritárias” que se tornam um espaço marginal de contestação dos
grupos destituídos de poder em meio à cultura dominante nacional canadense.
Portanto, questões identitárias e de diversidade cultural tornaram-se conceitos
recorrentes para o entendimento da vida social na era da “modernidade líquida”. Zygmunt
Bauman (2005) explica esta expressão que cunhou para falar do esgarçamento das relações na
atualidade. Hoje, os tempos têm se demonstrado não mais a favor da afirmação de uma
pertença única e incondicional; a identidade passa por redes nocionais em movimentação,
configurando-se como um constante vir a ser. No mesmo sentido dos argumentos de Hall, de
modo geral, Bauman alega que à medida que nos deparamos com as incertezas e as
inseguranças da “modernidade líquida”, nossas identidades – sociais, culturais, profissionais,
religiosas, sexuais – sofrem um processo de transformação contínua, o que nos leva a buscar
relações transitórias e fugazes e a sofrer por nossa vez as angústias inerentes à situação. Se tal
confusão atinge os valores e as relações afetivas, estar em movimento não é mais uma escolha:
agora se tornou um requisito indispensável, segundo Bauman. Ele acrescenta que tornamo-nos
conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não têm a “solidez de uma rocha”, não
são “garantidos para a vida toda”; pelo contrário, são bastante “negociáveis e revogáveis”
(2005, p. 17).
10
Nessa perspectiva, a compreensão do espaço-tempo promovida pela globalização criou
um cenário em que o fenômeno migratório se rearticula: a circulação de imigrantes – tanto de
origem européia quanto de países americanos, africanos e asiáticos em desenvolvimento – não
se dá mais de forma maciça, como ocorreu no final do século XIX e início do XX, mas através
de fluxos contínuos e diversificados sob as mais diferentes modalidades e roupagens. Na
contemporaneidade, assistimos a migrações massivas que redesenham o perfil das populações
e das fronteiras entre países e continentes, acentuando sensações de não-pertencimento, de
desenraizamento, de desterritorialização. Segundo Nubia Hanciau, todo ano, em busca de uma
vida melhor, entre dois milhões e meio a quatro milhões de pessoas cruzam fronteiras, legal ou
ilegalmente. Em 2005, em escala global, o número de emigrantes chegou a duzentos milhões,
pouco mais que toda a população do Brasil.
2
Nos últimos vinte e cinco anos, esse número
dobrou, o que significa novos desafios e oportunidades para os indivíduos, para os países que
os acolhem e para suas nações de origem neste universo marcado pela perda de referências
geográficas, históricas e identitárias, consideradas estáveis até recentemente (HANCIAU,
2006, p. 99).
Estreitamente relacionado com a crítica pós-colonial, verificamos que o tema da
migração tem se revelado recorrente no âmbito da escrita literária e de suas reflexões teórico-
críticas nas últimas décadas. De acordo com Maria Zilda Cury (2006), esta temática se tornou
relevante na produção artística mundial por trazer à frente da cena contemporânea figuras de
exilados, de imigrantes ou desterrados, na música, no cinema, na fotografia, nas artes
plásticas, na literatura. Paralelamente, multiplicaram-se os estudos acadêmicos sobre a
imigração e o exílio no interior da crítica e teoria literárias. Todavia, mais do que a temática da
migração propriamente dita, a questão relativa à produção literária dos imigrantes demonstra-
se relevante para este estudo, visto que, em tempos de globalização, este fenômeno tem
aumentado significativamente, contribuindo para a diluição das fronteiras nacionais, o que nos
obriga a pensar a literatura segundo parâmetros transnacionais. Além disso, tal circunstância
está intimamente vinculada ao conceito de identidade que, igualmente, encontra-se em
2
O Relatório da Comissão Mundial sobre Migrações (GMC), apresentado em Londres em dezembro de 2005,
revela que 3% da população mundial é imigrante e 60% deles vivem em países desenvolvidos – uma tendência
que tem aumentado nas últimas décadas.
11
processo de redimensionamento para que possam ser abarcados os aspectos que envolvem a
literatura produzida por escritores migrantes.
É possível observar ainda que a interdependência global agora atua em ambos os
sentidos, na medida em que “o movimento para fora – de mercadorias, de imagens, de estilos
ocidentais e de identidades consumistas – tem uma correspondência num enorme movimento
de pessoas das periferias para o centro” (HALL, 2004, p. 81). Evidentemente, tal situação
abala a percepção que temos de nossa própria identidade, tornando pouco seguras as projeções
que fazemos de nós mesmos e do que julgamos ser a nossa cultura. Por essa razão, a escritura
literária decorrente da migração remete o leitor para categorias que, ao se correlacionarem
com o tema da diáspora, passam a ser problematizadas e questionadas à luz da crítica pós-
colonial. Neste viés teórico, modela-se a necessidade de realçar a importância da experiência
diaspórica sobre a cultura e a identidade, trazendo também ao debate novas relações entre
diferença e pertencimento.
Pelo fato de exibir várias faces – socioeconômicas, políticas, afetivas e culturais – a
migração tem se tornado uma realidade apreensível somente na sua própria movência, de
constante reconfiguração. Diante da prevalência de intercâmbios espaciais e culturais, faz-se
indispensável dirigir nosso olhar crítico para as raízes históricas deste fenômeno. Com relação
ao deslocamento coletivo desses indivíduos, embora haja fatores variados de propulsão, o
sentimento de “sobrevivência” parece ter se demonstrado um de seus denominadores mais
relevantes, intensificado pelo advento do desenvolvimento tecnológico do final do século
passado, dentre outros eventos históricos. Por esse motivo, na maioria dos casos de migração,
a escolha provém da inexistência de oportunidades compensadoras no lugar de origem,
marcado geralmente pela carência das condições materiais de vida. Contudo, é preciso evitar
generalizações, reconhecendo que o fluxo migratório obedece a variáveis múltiplas, cujas
razões somente podem ser detectadas com o estudo de situações concretas, específicas.
De modo geral, devido a sua condição intervalar de vida na nova terra, é possível
afirmar que o “imigrante” configura sua identidade em um fluxo constante de negociação
um processo de trânsito identitário – pois, ao oscilar entre a vontade de manutenção das raízes
culturais de seu grupo de origem e a necessidade de integrar-se ao novo espaço, a identidade
do imigrante adquire um caráter múltiplo, muitas vezes conflituoso. Julia Kristeva (1994)
ilustra esta questão, ao alegar que apesar de todas as declarações e convenções internacionais
12
sobre os direitos humanos, o imigrante não consegue situar a si mesmo enquanto cidadão, nem
tampouco estrangeiro. Dessa forma, ao ser considerado pela nova sociedade como estrangeiro,
como outro, “de fora”, o imigrante coloca-se diante de uma estranheza identitária que é,
simultaneamente, a estranheza de si próprio.
Frente a essa problemática, o “imigrante” elege o sempre migrante espaço da literatura
como um polifônico ponto de encontro para o duplo signo entre o “eu” e o “outro” que
compõe sua identidade, uma negociação mútua entre “ser estrangeiro” e “ser nacional”, entre
“pertencer” e “não pertencer” simultaneamente, capaz de registrar memórias variadas e
contraditórias nos seus movimentos de afirmação e negação. Assim, esses textos apresentam
uma nova geografia literária – “espaços estranhados, geografias estrangeiras; uma escritura
que, embora reflita sobre questões nacionais, o faz de modo distante de uma atitude
autocentrada ou desinteressada de culturas estrangeiras” (CURY, 2006, p. 12).
Portanto, as reconfigurações do mundo contemporâneo vêm exigindo uma maior
compreensão de “si” e do “outro” para alcançar, ainda que minimamente, o entendimento do
contexto sócio-político da atualidade, bem como para ampliar as reflexões em torno do sujeito.
A arte contemporânea, reiteremos, não ficaria imune a tais transformações, vendo-se na
contingência de representar esses novos sujeitos em constituição e interação, abalada pela sua
inserção no universo político-cultural. Desse modo, é possível alegar que a mistura de culturas
e as mestiçagens que resultam da imigração perturbam os parâmetros tradicionais das culturas
nacionais de caráter essencializante. Logo, colocar questões sobre a migração em relação à
construção da etnicidade abre janelas para se repensar inclusive a identidade nacional.
Para melhor entendermos a crítica social presente no discurso ficcional dos grupos
minoritários de imigrantes, particularmente no Canadá, fazem-se necessárias algumas
considerações relativas ao contexto sócio-histórico de constituição da literatura canadense. Os
povos colonizadores do Canadá, habitualmente denominados nações fundadoras, foram os
franceses e os ingleses. Até finais do século XIX, a poesia e a ficção canadenses de expressão
anglófona eram “derivativas” da Europa em sua forma e imaginário. Enquanto isso, outros
gêneros, tais como o drama e a crítica, praticamente inexistiam. De fato, desde 1867, quando
as colônias britânicas formaram a Confederação do Canadá na América do Norte, já se falava
da necessidade de uma literatura nacional. Contudo, dado que uma literatura não é criada pelo
ato coletivo de força de vontade, durante anos, os escritores canadenses estiveram
13
“escravizados” à mentalidade colonial que procurava recriar as instituições e os padrões
culturais europeus (WOODCOCK, 1984). É preciso ressaltar, porém, que estas afirmações não
englobam as produções culturais dos nativos ou indígenas.
Primeiramente, foram os poetas Archibald Lampman, Charles G. D. Roberts, Bliss
Carman e Duncan Campbell Scott que perceberam que sua inspiração deveria ser encontrada
“em casa”. Eles escreveram a primeira poesia que tratava da terra – ou “paisagem” –
canadense e da vida de seus habitantes enquanto fontes de sua disposição para utilizar material
literário. O segundo sinal de um mundo literário verdadeiro é o fato de que um número
razoável de escritores deva ganhar o bastante para trabalhar sem depender de nomeações
acadêmicas ou de tarefas jornalísticas. Apesar de tal mundo quase inexistir no Canadá antes da
segunda metade dos anos 1960, as mudanças na consciência nacional que começaram durante
a II Guerra Mundial o tornaram possível. Nos anos 1940 e 1950, a direção da ficção canadense
estava mudada, expressando uma consciência nacional e nacionalista emergente, a qual foi
amplamente aceita apesar de seu estilo conservador (WOODCOCK, 1984).
Em 1976, Northrop Frye fez observações a respeito da “explosão verbal” que acontecia
no Canadá desde 1960. Referia-se ao rápido processo de maturação da literatura canadense
durante os últimos quinze anos e à notável variegação em tipos e maneiras de escritura. Frye
expressa que não há dúvida de que a escrita literária canadense se expandiu qualitativa e,
principalmente, quantitativamente nesse período. Além das revistas e das editoras, de modo
simbólico, o surgimento do Consulado Canadense se tornou parte desta infra-estrutura
essencial à expansão do sistema literário. Tal órgão funcionou como o grande responsável pela
organização da administração dos patrocínios públicos sem ligações políticas. Cabe enfatizar
que o crescimento rápido do incentivo público, apesar de não garantir a qualidade dos
trabalhos e de não ser causa dessa “explosão verbal”, ajudou consideravelmente os escritores
canadenses que surgiram nessa época a terem tempo para seu trabalho e meios para alcançar
um público. Contudo, a crítica enquanto gênero desenvolveu-se somente nos anos 1960,
representada principalmente por Northrop Frye (The Anatomy of Criticism, 1957). Além de
Frye, outros críticos mais jovens surgiram, tais como Margaret Atwood (Survival, 1972), D.
G. Jones (Butterfly on Rock, 1970) e W. H. New (Articulating West, 1972).
Significativamente, alguns dos melhores desses críticos eram também poetas, e isso fez da
crítica canadense um espaço de diálogo genuíno no mundo dos escritores.
14
Até à segunda metade do século XX, a presença dos imigrantes de mais de uma
centena de grupos lingüísticos e etno-culturais não foi reconhecida como determinante para a
composição de uma identidade canadense que, nos nossos dias, se reconhece como sendo
essencialmente de caráter multi-étnico, multilingüe e multicultural. Em Ontário, a maior e
mais populosa das dez províncias, vigorou durante os primeiros séculos uma política
assimilacionista anglófona. Foi só nos início dos anos setenta, com Pierre Trudeau
3
que o
reconhecimento oficial da nação como bilíngüe e bi-cultural entrou em vigor. Em 1970, uma
Royal Commission on Bilingualism and Bilinguism apresenta um relatório – The Cultural
Contribution of Other Ethnic Groups – que leva Trudeau a reconhecer publicamente em 1971
a contribuição de outros grupos étnicos para a identidade do país
4
. Esse reconhecimento
conduz à adoção, anos mais tarde, de uma política multicultural que se baseia no
reconhecimento da coexistência no país de muitos e variados grupos lingüísticos e culturais
cuja contribuição não podia continuar a ser ignorada. A aprovação de uma política federal
multicultural, a partir do Multiculturalism Canadian Act (1988), permite ir mais longe: ficam
salvaguardados e protegidos os direitos de qualquer cidadão canadense independentemente da
sua língua e herança cultural. Essa política teve conseqüências determinantes para a nação.
Não é pertinente fazer aqui uma análise da potica multicultural nas suas diversas vertentes; o
multiculturalismo tem sido elogiado e criticado com o mesmo fervor por correntes opostas
desde a sua declaração até aos nossos dias. Ao falar de literatura, todavia, não poderemos
deixar de mencioná-lo. Os escritores que publicam no Canadá, como no caso das “minorias
visíveis”, começaram nos últimos cinqüenta anos a ocupar um lugar de direito na Literatura
Canadense como conseqüência do idealismo da ideologia multicultural.
No que se refere às vozes críticas canadenses femininas, isto deverá causar maior
estranheza a nós, brasileiros, do que a canadenses em geral. Devido à consolidação da
Literatura Canadense – como campo distinto das literaturas inglesa e francesa ensinadas nas
escolas – ser relativamente recente, tendo surgido sob a égide dos movimentos anti-
conservadores da segunda metade do século XX, suas antologias literárias já não contemplam,
3
Trudeau foi Primeiro Ministro durante o período de 1968 a 1984; o intelectual carismático do Quebec
transformou o Canadá. Ele conferiu ao país uma Constituição, uma Carta Régia de Direitos e o bilingualismo
oficial entre muitos outros feitos.
4
Royal Commission on Bilingualism And Biculturalism. The Cultural Contributions of the Other Ethnic
Groups. Book IV of the Final Report. Ottawa, Canada: Queen’s Printer, 1969.
15
pelo menos não com a mesma intensidade da nossa, o masculino hegemônico como norma ou
padrão. Assim, as vozes femininas na crítica literária canadense nos fornecem não só um
panorama verdadeiramente representativo da crítica feminista, mas um recorte amplo e
variado da crítica canadense como um todo – de uma literatura fértil, original, preocupada com
o transculturalismo, com a condição pós-colonial e com as identidades híbridas e fluidas de
nacionalidade, etnia, gênero e linguagem.
Portanto, tanto as forças culturais do Canadá, bem como as políticas e as econômicas,
têm mudado radicalmente nos anos recentes, e os dias em que Toronto era o centro literário do
Canadá de língua inglesa já são passados. Neste sentido, seja qual for seu modelo político
predominante, podemos considerar o Canadá como culturalmente descentralista. Os escritores
canadenses têm recentemente provado tal posição por sua variedade de abordagens, que é tão
regional quanto pessoal.
Qualificado como “país aberto”, primeiro no mundo a proclamar-se oficialmente
multicultural em 1971, é impossível conceber o Canadá sem levar em conta ou destacar a
questão da migração. A derrubada das políticas de imigração racistas do passado foi a
manifestação mais promissora da visão de sociedade mais justa e do pluralismo cultural
canadense. Após a política de imigração não-racista de 1967, cidadãos de diversos países
emigraram para o Canadá. Além de ter expressado o desejo de independência política e
econômica canadense, juntamente à institucionalização de sua Literatura nas escolas e
universidades, tal política foi a abertura do país para a imigração de outras etnias, leia-se,
“não-brancos”. Refletindo acerca desta temática, Hanciau (2006, p. 100) afirma que graças ao
sangue novo trazido por imigrantes que chegaram no país há aproximadamente trinta anos, a
literatura canadense também foi irrigada por novos imaginários, e a língua, bem como as
fontes de inspiração, foram renovadas.
Atualmente, se o Canadá apresenta a literatura caracterizada por “representações
inéditas, imagens inimaginadas, novos ritmos e olhares que se devem ao fluxo migratório”
(HANCIAU, 2006, p. 100), é possível que a vejamos enquanto atravessada por cruzamentos
de culturas, os quais nos incitam a repensar as frágeis formas do senso comum de identidade
(nacional), trabalhada em enunciações que se confrontam e modificam pouco a pouco o
sentimento difuso de uma homogeneidade cultural. Desse modo, ao considerarmos os
processos migratórios como “multidimensionais, dinâmicos”, capazes de comportar
16
“interações complexas, nas quais contam fatores políticos, sociais, culturais, ambientais e
individuais,” verificamos que no Canadá essas complexidades “têm desencadeado estudos,
políticas e leis que visam definir o pluralismo do país e sua diversidade cultural, temas-objeto
de várias publicações” (HANCIAU, 2006, p. 100).
Teorizando a respeito da escritura dos sujeitos imigrantes no Canadá, Pierre Nepveu
(1988) defende a idéia de escrita migrante preferencialmente à imigrante, devido à restrição
deste último, o qual acentua “a experiência e a realidade apenas da imigração” – da chegada
ao país e sua difícil habitação (o que efetivamente numerosos textos contam ou evocam);
contrariamente, migrante enfatizaria muito mais “o movimento, a deriva, os múltiplos
entrecruzamentos” que suscita a experiência da migração. Para o pensador, imigrante é uma
palavra com “alcance sociocultural”, enquanto migrante tem a vantagem de apontar em
direção a “uma prática estética”, dimensão evidentemente fundamental para a literatura atual
(p. 199). Apesar de estar se referindo predominantemente ao Canadá francófono, tal
consideração de Nepveu torna-se igualmente relevante para a presente discussão.
Conseqüentemente, ao aliar tal perspectiva aos estudos pós-coloniais, confirmam-se as
noções de literatura do exílio – voluntário ou não – e noções de “desenraizamento”, de
“desterritorialização”, de “transculturalismo”, entre outros, cujo objetivo é o entendimento, e
um possível esclarecimento, da produção literária de imigrantes que, quantitativa e
qualitativamente, tem se revelado uma das mais significativas ocorrências no campo da
literatura canadense contemporânea. Porém, cabe ressaltar que nem todo o imigrante produz
necessariamente uma escrita migrante, do mesmo modo que nem toda escrita feminina
caracteriza-se feminista.
Diante de tais considerações, verificamos que as reformulações na perspectiva histórica
do mundo e da humanidade têm voltado as atenções teóricas para uma maior identificação das
chamadas minorias ignoradas, relegadas, excluídas, silenciadas e invisibilizadas pelos
discursos dominantes no Ocidente. Neste contexto, cabe ressaltar ainda que a Crítica
Feminista desempenhou um papel fundamental no processo revisionista da historiografia
literária. Ao trazer à tona a categoria de gênero, as teorias feministas foram pioneiras em
colocar em evidência relações desiguais nas práticas sociais, materiais e simbólicas,
ideologicamente articuladas pela racionalidade da cultura patriarcal. O ponto de partida para a
problematização teórica da produção do conhecimento sobre as mulheres caracterizou-se pela
17
denúncia do monopólio discursivo masculino, a partir da reconstrução da subjetividade
feminina e da reivindicação de visibilidade da mulher, não apenas como signo, mas como
produtora de discursos e saberes (SCHMIDT, 1999).
Mais recentemente, na teoria feminista anglo-americana, na teoria anti-racista e na
teoria homossexual, dos anos 1980 e 1990, foi o termo “essencialismo” – compreendido
comumente como uma crença na essência real, verdadeira das coisas, com suas propriedades
invariáveis – que se tornou alvo de conotações crescentemente negativas, por definir
categorias como gênero, etnia (ou “raça”), e sexualidade em termos de essências humanas
fixas, com base em explicações biológicas anteriores. Tal teoria da identidade humana é
problemática na mesma proporção em que ignora diferenças sócio-histórico-culturais
particulares. Por esse motivo, o pensamento crítico dos anos 1980 e início dos 1990, de modo
geral, mudou o foco da teoria literária crítica para uma posição anti-essencialista que rejeitou
todas as categorias de identidade estáveis. As categorias étnico-raciais, além de serem
redefinidas como uma metáfora perniciosa, ao lado de gênero e sexualidade, foram (re-
)pensadas enquanto construtos sociais e lingüísticos no lugar de fundações biológicas estáveis.
Assim, ao invés de identidades e essências humanas fixas, sólidas, o pensamento anti-
essencialista tomou posicionamentos [positionalities] mais flexíveis no pensamento crítico,
social, político e cultural (MORTON, 2003).
Portanto, o feminismo ocidental, em suas diversas vertentes – liberal, socialista,
marxista, cultural, pós-estruturalista – tem se engajado na crítica cultural, teórica e
epistemológica a partir da passagem dos sujeitos sociais femininos, construídos no campo da
experiência histórica, para o âmbito dos processos de produção de conhecimento, em suas
diversas áreas, em especial na Filosofia e nas Ciências Sociais e Humanas. Por essa razão,
podemos alegar hoje que o feminismo instaurou um modo particular de ver o mundo,
revelando o princípio arbitrário, não-natural da realidade. Isto é, com a crítica feminista e seu
estudo das relações de gênero, evidenciamos que “masculino” e “feminino”, em sua
historicidade dinâmica, passaram a ser não apenas diferenças biológicas, mas identidades
sociais, configuradas ao longo de processos sócio-histórico-culturais de significação. Este fato
não apenas desvelou o arbitrário de tal construção, como também apontou para a hegemonia
de um gênero sobre outro, denunciando a conveniência da situação para os ideais masculinos.
18
Como uma das intelectuais contemporâneas em maior destaque ao final do século XX
e início do XXI, teórica e criticamente preocupada com os problemas da representação, da
auto-representação e da representação da alteridade, Spivak tem radicalmente desafiado alguns
termos e categorias do pensamento contemporâneo. Ao longo de sua obra, ela tem
persistentemente problematizado as convenções e fronteiras da investigação crítica ocidental.
Um dos mais importantes e complexos aspectos do pensamento de Spivak é sua busca
incessante para achar um vocabulário crítico que seja apropriado para representar as
experiências e histórias de indivíduos e grupos sociais particulares que foram historicamente
explorados e despossuídos pelo histórico colonial do imperialismo europeu. Com um domínio
da economia política marxista, do feminismo e da crítica pós-colonial, bem como da literatura,
da filosofia e da teoria crítica européia, ao trazer à tona a exploração e opressão das minorias
destituídas de poder, Spivak constantemente nos lembra, ao longo de sua obra, que qualquer
ato de leitura possui importantes conseqüências sociais e políticas – especialmente nas salas de
aula das universidades ocidentais.
De modo geral, o projeto crítico de Spivak revela que as condições históricas e
estruturais da representação política ocidental não garantem que os interesses de grupos
subalternos particulares sejam reconhecidos ou que suas vozes sejam escutadas, correndo o
risco de apropriar-se dessas vozes e, assim, silenciá-los ou apagá-los no interior dos sistemas
políticos de representação dominantes. A questão polêmica é que, mesmo quando exemplos de
resistência subalterna são registrados no discurso colonial, eles vêm previamente filtrados por
sistemas dominantes de representação política. Isto não significa dizer que não possam ter
agência política por não poderem ser representados, mas que recebem suas identidades
políticas e discursivas dentro de sistemas de representação política e econômica
historicamente determinados, os quais não lhes permitem possuir voz.
Especificamente, o empenho intelectual de Spivak tem sido em dar evidência à
heterogeneidade feminina, incitando as especificidades das mulheres. Ao pensarmos na
questão da constituição do sujeito especificamente enquanto dotado de sexo [sexed], Spivak
(1990) alega, o que aparece é a constituição da mulher fora da arena da psicanálise ou contra-
psicanálise. Conforme a estudiosa, este esforço é um modo de usar nossa capacidade
disciplinar para entender que a constituição do sujeito feminino nos termos do discurso da
castração foi, na verdade, um construto sócio-cultural e histórico que se deu por meio da
19
imposição (do discurso) do imperialismo. Ao avançar seu raciocínio, discorrendo acerca do
papel da intelectual feminista, Spivak acusa as feministas acadêmicas do “primeiro mundo” de
ignorar, reduzir e obscurecer a compreensão da alteridade das mulheres em condições de
opressão, apontando para a necessidade de uma política de representação que fale para ou a
favor das “outras” mulheres, sem falar por elas, sem reter suas especificidades ou suas
diferenças. Segundo a teórica, as “outras” mulheres, excluídas do discurso feminista de
tendência dominante no primeiro mundo, por mais individualmente desprivilegiadas que
possam ser, ainda assim podem se tornar capazes de “especificar os problemas de suas
especificidades femininas, e esse é o começo” (SPIVAK, 1990, p. 9-10)
5
.
Tal crítica faz parte de um entendimento de que as estruturas (ideológicas) que
sustentam a representação estética, em textos artísticos, literários ou cinemáticos, também
sustentam a representação política. A obra de Spivak aponta para o fato de que a diferença
geral entre essas estruturas de representação é que aquela tende a evidenciar sua condição de
re-apresentação do real, enquanto esta nega uma estrutura de representação. Logo, a menos
que os intelectuais ocidentais comecem a levar em consideração a dimensão estética da
representação política, esses intelectuais continuarão a silenciar as vozes dos grupos
minoritários.
Spivak reitera seu argumento mais amplo de que as disciplinas tradicionais de
investigação acadêmica têm sido as principais responsáveis pela limitação do modo como
pensamos a respeito dos textos e idéias em relação ao mundo social, político e econômico.
Uma de suas reivindicações centrais é de que os estudos do Discurso Colonial correm o risco
de servir à produção de um saber neocolonial, ao localizar o colonialismo ou o imperialismo
seguramente no passado. Por esse motivo, Spivak (1990) insiste que, antes de aprendermos
qualquer coisa a respeito do (con)texto da globalização, devemos primeiramente desaprender
os sistemas privilegiados do conhecimento ocidental que têm servido direta ou indiretamente
aos interesses do colonialismo. Assim, ao invés de ignorar a opressão política dos grupos
destituídos de poder, é preciso que persistentemente desafiemos a ignorância dos paradigmas
acadêmicos ocidentais com relação ao “terceiro mundo”, através do que Spivak denomina de
5
Tradução nossa.
20
um “projeto de desaprender nossos privilégios como nossa perda [loss]” (p. 9)
6
. Tal projeto
envolve reconhecer como representações dominantes do mundo na literatura, na história e na
mídia encorajam as pessoas a esquecer das vidas e experiências dos grupos minoritários, ao
construí-los em um discurso que convém somente a seus próprios interesses (imperialistas).
É nessa perspectiva que a teoria feminista pós-colonial proposta por Spivak constrói
uma base de indispensável referência para este estudo. Mais conhecida como uma teórica do
pós-colonialismo, devido às suas estratégias de leitura desconstrutivistas da teoria crítica
ocidental, sua contribuição fundamental reside justamente na medida em que foi capaz de
estabelecer o cruzamento entre as críticas feminista e pós-colonial. Neste seu entrelaçamento
teórico-crítico, particularmente em sua discussão das questões relativas a discurso, poder e
saber, ela traz importantes contribuições para a temática da migração, especialmente no que
diz respeito à escrita literária de mulheres imigrantes na América do Norte, tais como as sul-
asiáticas no Canadá.
Portanto, a crítica literária de Spivak tem informado e influenciado fortemente a prática
de leitura de textos literários com relação à história do colonialismo. Seu argumento central
tem sido de que a literatura e, principalmente, o seu ensino desempenham papéis instrumentais
tanto na construção quanto na disseminação do colonialismo como uma idéia reguladora
dominante. Desse modo, o empenho teórico-crítico de Spivak assume o compromisso de
examinar como a missão civilizatória do imperialismo foi inscrita e disseminada em, e por
meio, de diversos textos clássicos. Como Said e Bhabha, a estudiosa repetidamente enfatiza
que a produção e recepção da literatura inglesa do século XIX estavam imersas à história do
imperialismo. Ela desenvolve o raciocínio de que a literatura forneceu uma representação
cultural da Inglaterra como civilizada e progressista, idéia esta que serviu para justificar o
projeto político e econômico do imperialismo. Porém, o foco de Spivak não tem se limitado ao
século XIX. Ela também tem se preocupado em demonstrar as agências retóricas e políticas de
textos literários pós-coloniais para questionar e desafiar a autoridade das grandes narrativas
coloniais. É por essa razão, principalmente, que seu nome é freqüentemente associado aos
estudos pós-coloniais.
6
Tradução nossa.
21
1.2 QUESTÕES ÉTNICAS E A LITERATURA CANADENSE (SUL-ASIÁTICA)
Se inicialmente a crítica feminista foi o estopim do processo de revisão da
historiografia literária, bem como de outras áreas do saber, a partir da contestação do
patriarcado, atualmente o feminismo possui forma consolidada, podendo ser percebido não
somente em atos sociais, mas também na superfície dos textos, na realização objetiva da
escrita por meio tanto de uma produção ficcional quanto teórico-crítica expressivas. Todavia,
gradualmente, o avanço da teoria feminista se tornou alvo de uma (auto-)crítica: a denúncia de
um feminismo universalizante e excludente, ao desconsiderar categorias étnico-raciais e de
classe social nos debates de gênero.
Na medida em que desconsiderou a heterogeneidade existente em seu próprio interior,
o discurso feminista foi desvelado enquanto “branco” e homogêneo, logo, etnicamente
excludente e discriminatório. Disto resultou a necessidade de uma nova ótica sobre a escritura
de autoria feminina, capaz de captar a pluralidade histórica também da própria mulher. Isto é,
apesar de ser um fato consolidado em grande parte do Ocidente, o feminismo precisou ainda
negociar alguns de seus aspectos, os quais foram reforçados no plano prático, em busca da
afirmação de uma sociedade mais dialógica. Para tanto, no âmbito dos estudos pós-coloniais, a
fim de que fosse entendido como um caminho à assunção de outro tipo de sociedade, a crítica
ao próprio feminismo assumiu uma tarefa imprescindível na afirmação de um novo
feminismo, não puramente dicotômico. Desse modo, percebemos que foi no interior das
discussões feministas, de caráter socialmente engajado, que nasceram as primeiras
preocupações relativas às questões étnicas.
Na literatura canadense, no que tange à idéia de agrupar escritores definidos conforme
sua etnicidade, o fato de categorizá-los conforme suas origens étnico-culturais evidenciou uma
nova configuração no tecido histórico-literário do Canadá. Conforme Arun Prabha Mukherjee
7
(1998), nos anos 1990, consolidam-se publicações cujo critério de inclusão dos autores é sua
bagagem [background] étnica. Assim, ao longo da década passada, em meio à emergência de
um aparato teórico pós-colonial, reconhecível pelo seu vocabulário, etnicidade torna-se uma
7
Canadense sul-asiática, de origem indiana, atualmente é professora (York University) e teórica de literatura
canadense pós-colonial, notadamente a sul-asiática.
22
ferramenta teórica importante para a análise e categorização da Literatura Canadense.
Antologias tais como Making a difference: Canadian multicultural literature (1996), editada
por Smaro Kambouleri, buscam refletir o estado transformado, e em transformação, das
relações culturais canadenses, ao unir diferentes vozes que oferecem ao leitor apenas uma
pequena amostra da constituição literária canadense em sua diversidade.
Segundo Mukherjee observa, em Postcolonialism: My Living, obteve-se um efeito
benéfico enquanto o vocabulário pós-colonial contribuiu para desestabilizar o nacionalismo
literário canadense – o qual avaliava seus escritores de acordo com sua “canadianidade”
[canadianess]. Porém, a crescente utilização desse vocabulário pelos meios de representação
ocidentais na instituição acadêmica conferiu à recepção e à análise de tais textos uma espécie
de qualidade negativa pré-condicionada, na maioria dos casos. Deparamo-nos com tal
vocabulário em resenhas, artigos de revistas e periódicos, e ainda nas descrições de ementas
curriculares de cursos; a língua pode distinguir, os nomes podem variar, mas a idéia que se
encontra nos mais diversos cursos, quando se fala de Literatura Pós-colonial, é a mesma: um
vocabulário – composto de expressões tais como “hibridismo”, “escrever na língua do
colonizador”, “imigração”, “estudos subalternos”, “identidade nacional”, “marginal”, “Outro”
– que, diretamente associado aos estudos pós-coloniais, torna-se uma espécie de nicho comum
dos escritores migrantes, como no caso dos canadenses sul-asiáticos (MUKHERJEE, 1998, p.
250).
Portanto, o problema configura-se à medida que esse conjunto teórico-cognitivo “pré-
fabricado”, contido no discurso dominante do Canadá, não apenas confere aos escritores ditos
pós-coloniais um lugar comum marginal no currículo, mas também, e sobretudo, condiciona o
que será dito a seu respeito. Por isso, escritores de diversas partes do mundo correm o risco de
serem “agrupados” sob a rubrica dos mesmos termos, sem que suas particularidades sejam
levadas em consideração, na maioria dos casos, devido à legitimidade conferida pela teoria
consolidada. Além do mais, dispensamos categorias tais como a de periodização, de
movimentos literários e de agrupamento regional na análise desses textos. Entretanto, diante
de um estudo que se pauta demasiadamente na valorização e reconhecimento das diferenças,
devemos ser auto-reflexivos o suficiente para não perder de vista uma posição
verdadeiramente crítica e cautelosa com categorizações genéricas.
23
Basta um olhar um pouco aguçado para observarmos as mudanças no cenário literário
canadense do final do século XX. Por um lado, tem-se a crescente presença de escritoras
canadenses nas listas de editoras internacionais; por outro, o número considerável de romances
e contos escritos por mulheres de diferentes grupos étnicos. Conseqüentemente, o próprio
conceito do que é ser canadense fica estremecido. Vale reiterar a importância de não se
dissipar a noção errônea sobre a imagem nacional canadense como algo uniforme e coeso,
uma vez que a diversidade étnica dos escritores na sociedade canadense contemporânea tem se
expandido, refletindo a natureza multicultural o país. Por esse motivo, é importante evitar
qualquer generalização, sobretudo para com os escritores de minoria.
As categorias de “minorias raciais”, “minorias visíveis” e imigrantes “de cor” vêm
sendo empregadas no Canadá para designar grupos étnicos não pertencentes à hegemonia
cultural da “raça branca”. De modo particularmente engajado, a fim de debater as
problemáticas “raciais”, as mulheres etnicamente desprivilegiadas têm se afirmado enquanto
“não-brancas”, e assim realizado uma teorização mais recente no campo da literatura
canadense, evocando a discussão em associação com as prévias questões de gênero e de
classe. Desta forma, a escrita dessas mulheres têm posto desafios não apenas para o cânone,
mas também para a textualidade da Literatura Canadense. Atualmente, elas trabalham para
criar alternativas dentro dos espaços marginais, fundando revistas e editoras. Contudo, mesmo
no contexto das editoras feministas, em sua maioria, as escritoras não-brancas têm sido
excluídas e invisibilizadas. Apesar do sucesso financeiro alcançado através desses meios,
ainda são mantidas em um gueto, ignoradas pela instituição crítica, simplesmente pela
visibilidade de sua cor “não-branca”.
Ao tratar da situação, em Oppositional Aesthetics: Readings from a Hyphenated Space
(1994), Mukherjee declara que os sul-asiáticos, especialmente as mulheres “não-brancas”,
sentem-se desconfortáveis diante de sua ausência de representação ou, o que é pior, pelo
desrespeito com que são representadas de maneira errônea nos projetos crítico-teóricos do
Ocidente. Moldadas, como são suas subjetividades, pelo fato de terem nascido como “sujeito
britânico não-branco”, na Índia pré-independente, as lutas anti-coloniais, anti-imperialistas e
anti-racistas fazem-se de extrema importância para essas mulheres; e qualquer teoria que
ignore estas realidades parece não possuir valor crítico. Apesar de a teoria literária feminista
ser considerada como um discurso de oposição, as mulheres “não-brancas” são forçadas a
24
manter uma posição de resistência no interior do próprio feminismo, pois freqüentemente
encontram textos que as “anulam” de sentido. A questão é que uma grande parcela da teoria
crítica que circula na academia ainda conspira com as forças racistas e imperialistas de nosso
tempo.
Assim, encontrar um modelo teórico-crítico literário suficientemente complexo, capaz
de englobar essa diversidade, torna-se um desafio para uma instituição crítica que valoriza a
clareza e a unidade. Em primeiro lugar, há o significante flutuante que designa o corpus e
estabelece os princípios de inclusão e exclusão do cânone: por exemplo, mulheres negras ou
“de cor”? Estes termos raciais, de oposição à brancura indizível das formações culturais
dominantes, estabelecem parâmetros diferentes de inclusão: diferentemente das mulheres
negras, as mulheres “de cor” incluem canadenses indígenas, chinesas, do sudeste asiático e da
América latina, as quais reunidas formam o que o estado canadense convencionou chamar de
“minorias visíveis”.
Portanto, até o momento prevaleceu o que é supostamente um sistema relacional que
atua no apagamento da diferença racial, ao mesmo tempo em que induz as escritoras de cor a
manterem seu estilo de vida e seus valores étnicos dentro dos limites de sua própria cultura –
uma espécie de política de desenvolvimento separatista. Esta é a conseqüência de considerar a
oposição “branco” versus “não-branco” como os únicos termos significativos no debate,
muitas vezes apagando a questão mulher versus mulheres ou, mais especificamente neste caso,
mulheres versus mulheres sul-asiáticas. Violando o próprio princípio feminista de igualdade,
tais cortes, através dos quais as mulheres “brancas” oprimem as mulheres “de cor”,
relacionam-se ao problema do discurso feminista que, ao teorizar a questão do gênero, acabou
por reproduzir uma categoria universal de “mulher”.
Contudo, o exame da ação de significantes, tais como “mulher”, “mulheres”,
“mulheres de cor”, “mulheres negras”, “feminismo” e “escrita feminina”, na construção de
fronteiras e limites – que especifica e distingue as práticas culturais ou lingüísticas das
mulheres sob opressão, contra algumas formações culturais dominantes não marcadas por
gênero e separadas analiticamente por outros eixos das relações de poder, o que envolve
questões de classe, raça, etnia – leva também à contestação das posições anti-identitárias que
esse “sujeito” do feminismo exclui. Em outras palavras, o coletivo “nós” do feminismo
adquire uma condição à qual nem todas as mulheres podem, ou nem mesmo querem, aderir.
25
Conseqüentemente, uma teorização sobre as mulheres com base nas diferenças – um “nós” nos
quais o “eu” é às vezes incluído e às vezes excluído – envolve confrontar contradições e
deslocamentos.
Apesar de a precisão do termo “de cor”, como categoria analítica, descortinar-se, ao ser
analisada, e revela sua própria heterogeneidade, frente a essa incomensurabilidade histórica,
atua uma figura de linguagem unificante: o termo “de cor” funciona como metáfora capaz de
ligar as histórias diversas de minorias oprimidas dentro do sistema regulado pela oposição
“branco” versus “não-branco”. A despeito das contradições, em todos os casos em que a
origem étnica do sujeito conduz à escrita, trata-se de afirmar o direito à palavra, de se dizer e
se situar no novo espaço. Por essa razão, qualquer teorização sobre a escrita feminina migrante
deverá levar em consideração não somente a questão da origem étnica, mas também a posição
social e histórica extremamente variada dessas escritoras.
Como crítica à premissa “universalista” do nacionalismo canadense em termos de suas
aspirações e realizações, derivada da experiência histórica européia dos nacionalismos étnicos,
inscrita na consciência dos indivíduos por meio de atos ritualísticos variados, imagens e
produções culturais, Mukherjee traz uma contribuição significativa para os estudos históricos e
críticos da literatura canadense sul-asiática, no artigo “Canadian Nationalism, Canadian
Literature, and Racial Minority Women.” De acordo com a autora, a maioria dos canadenses
sul-asiáticos que emigraram para o Canadá sob a política de imigração não-racista pós-1967,
inicialmente sentia uma gratidão pelo fato de o Canadá estar em um momento crucial de
mudança. A queda das políticas racistas representou uma manifestação promissora da visão de
sociedade justa (MUKHERJEE, 1999, p. 153). No entanto, gradualmente, os discursos de
conforto, comunhão e familiaridade do estado-nação canadense revelaram-se discriminatórios,
tornando-se alvo de inúmeras visões negativas das mulheres de “minoria racial” [racial
minority women], muitas delas articuladas via produto literário. Por exemplo, Dionne Brand
no conto “At the Lisbon Plate”, descreve a mulher negra em um “território inimigo”
8
(BRAND, 1988, p. 97), e Himani Bannerji similarmente desafia a noção de nacionalidade
canadense, denunciando-a como uma espécie de “prisão” em seu longo poema Doing Time.
8
Tradução nossa.
26
De modo geral, seu trabalho associa o Canadá a uma “casa de detenção” [prision house] para
aqueles que são “não-brancos e também mulheres”
9
(BANNERJI, 1986, p. 9).
Da mesma forma, diante da famosa frase de Virginia Wolf: “enquanto mulher, não
tenho país”, a crítica de mulheres canadenses sul-asiáticas interroga a razão pela qual as
mulheres “brancas” permanecem “britânicas” ou “canadenses” ou ainda “americanas”, e
aproveitam os privilégios deste status, enquanto mulheres tais como Bannerji são relegadas a
um espaço minoritário por sua etnicidade. Decorre desta condição que a alienação da entidade
nacional chamada “Canadá” ou “canadense” tornou-se o espaço comum ocupado pela escrita
de mulheres de “minoria racial”. Sharing Our Experience (1993) – coletânea editada por
Mukherjee, que reúne ensaios críticos de mulheres aborígenes e imigrantes “não-brancas” –
retrata significativamente esta questão. Visto que as “outras” identidades das “minorias
visíveis” colocam estes indivíduos em desvantagem, devemos tomar cuidado para não falar
em gênero e nacionalismo, ao tratar das reações destas mulheres ao estado-nação canadense,
sem levar em conta suas origens étnico-raciais e o espaço a elas relegado, resultante desta
condição, na instituição literária canadense.
Vimos anteriormente que a construção da literatura canadense tem sido realizada sob a
égide das noções de nacionalidade européias do século XIX, as quais propunham uma nação
como racial e culturalmente diferente de outra, mas internamente uniforme. Tais teorias
buscaram refletir a “alma” da nação, sua história e suas tradições, que também são concebidas
nos termos do “espírito” unificado da nação. Assim, na tentativa de manter padrões de
unidade, mesmo em um contexto de diferenças e instabilidades internas evidentes, assistimos a
generalizações em busca de uma identidade nacional que se caracterizaria una, coesa,
homogênea, e assim, presumindo um leitor canadense “branco” incapaz de interessar-se pela
realidade de localidades tais como o Sul Asiático, a América do Sul – excluindo os imigrantes
de origem não-européia do sistema literário “canadense”. Nesta perspectiva, observamos que a
visão hegemônica de “Canadá”, apresentada tanto para dentro do país quanto para fora dele, é
a experiência canadense “branca”, sendo as “outras” visões consideradas minoritárias,
canadenses hifenizadas.
9
Tradução nossa.
27
Esta constatação nos leva a verificar que o cânone da literatura canadense em língua
inglesa, formado por noções eurocêntricas convencionais de estado-nação, é desprovido de
diferenças regionais, étnicas, nativas, femininas. Conforme sugere Robert Lecker (1990, p.
658), tal cânone constitui-se na valorização de obras que sejam “ordenadas, ordenáveis,
seguras”, sugerindo ainda que sejam lidas e promovidas como “uma expressão de auto-
consciência nacional”, sem perceber a própria “branquicidade” [whiteness] ou “anglicidade”
[Anglo-ness] contida em seus textos. Logo, as obras preferidas (constituintes) do cânone
caracterizam-se como aquelas que se passem no território do Canadá e supostamente
focalizem eventos e questões “canadenses”. Decorre disto que escritores pertencentes às
“minorias étnico-raciais” que utilizam um espaço ficcional “não-canadense” têm sido
rejeitados por editoras do país sob o pretexto de seus trabalhos distanciarem-se da experiência
do leitor.
Assim, observamos que a Literatura Canadense atinge uma crise de legitimação, na
medida em que os escritores de minorias étnicas buscam redimensionar seu nacionalismo de
modo que seja capaz de englobar as diferenças de modo igualitário, e não excludente. Os
canadenses sul-asiáticos, grupo minoritário de expressão crítica e literária considerável, têm
rejeitado a noção de que o canone deva seguir “uma” tradição, a qual, é claro, tem sido
exclusivamente definida em termos eurocêntricos. Himani Bannerji (1995), por exemplo, em
Thinking Through, afirma não escrever da margem da tradição canadense, mas do centro de
sua tradição etnico-racial. Neste panorama crítico, os antigos paradigmas da literatura
nacional(ista) e o cânone somente “branco” parecem já não convencer a todos. Nas palavras
de Mukherjee (1999, p. 169):
O nacionalismo canadense, fundado na pureza racial e dualidade cultural, está
sendo desafiado por aqueles que há tempos têm sido excluídos (...). O Canadá
precisa de um novo nacionalismo, cuja premissa fundadora será a
heterogeneidade canadense (...). Se o Canadá de nossos sonhos tornar-se-á real,
ou se a força das antigas ideologias de nações baseadas na raça-e-cultura
fragmentarão o estado nação canadense, é o que resta saber.
10
Como todas as outras comunidades do país, com exceção das aborígines, a comunidade
canadense sul-asiática nasce da imigração. Como outras minorias “não-brancas”, ela tornou-se
alvo do racismo dessa sociedade civil e seu estado-nação. Impedidos de entrar no Canadá
10
Tradução nossa.
28
antes dos anos 1960, em reação às políticas racistas de imigração, os sul-asiáticos começaram
a entrar em números significativos somente após a aprovação das leis de imigração não-
racistas. Apesar de ser relativamente nova no país, essa comunidade foi expressivamente
produtiva no âmbito literário desde sua chegada, porque, diferentemente de muitas outras
comunidades migrantes, um número significativo dos sul-asiáticos chegou ao país já instruído
por uma Educação Inglesa colonial.
De modo geral, além de inúmeros artigos acadêmicos, dissertações, teses, existem
antologias publicadas que evidenciam a realidade de uma identidade sul-asiática no interior da
Literatura Canadense. Assim, embora produza uma idéia de comunidade unitária que de fato
pode não existir unificadamente, uma identidade sul-asiática tem se estabelecido no Canadá.
Com isto, consolidou-se definitivamente um objeto de conhecimento chamado de Literatura
Canadense Sul-Asiática, a qual vem gradualmente sendo interpretada e discutida no contexto
acadêmico.
Particularmente, segundo demonstra Mukherjee (2004), “Canadense sul-asiático” é um
termo burocrático que inclui os imigrantes originários de países tais como a Índia, o Paquistão,
Bangladesh, Nepal e Sri Lanka – a região conhecida como o subcontinente indiano – e ainda
os povos do leste africano, de Fiji e do Caribe, os quais têm ancestrais derivados do mesmo
subcontinente. Mais tarde, o Afeganistão também foi incluído nesta lista. O censo canadense
de 1981 ainda contava com a expressão “indo-paquistanês” no lugar do que hoje se
convencionou chamar de “sul-asiático”. Em 1979, a Secretaria de Estado abre edital para
pesquisadores incumbirem-se de um estudo de escritores e suas obras, de qualquer grupo de
imigrantes – chineses, japoneses, vietnamitas, indianos, paquistaneses, dentre outros. Assim,
em 1982, M. G. Vassanji, teórico e escritor, edita o primeiro exemplar de The Toronto South
Asian Review. O diagnóstico de Vassanji das atitudes dos escritores sul-asiáticos propiciou
uma observação importante: os escritores canadenses sul-asiáticos certamente não se vêem
como membros de uma comunidade “auto-identificada”, ou “identificada em torno de um eu”
[self-identified] – como, por exemplo, acontece no caso dos escritores canadenses de
ascendência chinesa e japonesa, os quais se uniram para produzir antologias já desde 1978.
Conseqüentemente, justamente por não participarem de um consenso, não podemos afirmar
que seus trabalhos compartilhem de uma agenda ou consciência política coletiva.
29
No que se refere aos estudos críticos e históricos da Literatura Canadense Sul-asiática,
Mukherjee destaca-se como a referência mais atual. Com suas publicações de Oppositional
Aesthetics: Readings from a Hyphenated Space (1994) e Postcolonialism: My Living (1998),
Mukherjee estabelece uma espécie de continuidade aos estudos de M. G. Vassanji (1985), o
qual tem dedicado suas últimas publicações exclusivamente ao campo ficcional. De modo
geral, considerando o fato de um vocabulário ter se consolidado nos estudos pós-coloniais,
Mukherjee direciona sua crítica ao questionamento do modo como seus termos situam os
escritores minoritários em oposição aos canônicos – estes geralmente “homens-brancos-
mortos”. O fato de os escritores canadenses sul-asiáticos serem situados enquanto “minoria
racial” parece promissor em um primeiro momento. No entanto, Mukherjee alerta que
devemos ter cuidado na medida em que tal categoria, muitas vezes, esforça-se para incluir
todas as minorias do ocidente; porque tal abordagem crítica corre o risco de “universalizar
com base nas suas próprias experiências”
11
(MUKHERJEE, 2004, p. 251-52).
A fim de evitar generalizações, não devemos perder de vista o fato de que, em sua
maioria, os escritores canadenses sul-asiáticos não são “refugiados políticos e econômicos” ou
“exilados”, apesar de serem “migrantes econômicos” (BHABHA, 1998). Em outras palavras, é
necessário considerar que nem todos os escritores pós-coloniais vindos da Índia –
diferentemente de outros vindos da Nigéria ou Quênia – foram expulsos ou exilados de seu
país por motivos políticos, étnico-raciais ou de perseguição religiosa. Na verdade, muitos
deles o deixaram por vontade própria – por mais polêmico que seja falar em vontade própria
nesse contexto; o fato é que não foram determinados, talvez condicionados, pelo discurso
ocidental. Por exemplo, tanto M. G. Vassanji quanto Bannerji e Mukherjee deslocaram-se à
América do Norte para realizar estudos de pós-graduação. Por esta razão, nem todos os
escritores canadenses sul-asiáticos escrevem sobre a marginalização ou resistência.
Atualmente, a escritura de Bannerji definitivamente assume-se de resistência ao racismo,
enquanto a de M. G. Vassanji e Rohinton Mistry – ambos considerados escritores canadenses
sul-asiáticos – declaradamente não o são (MUKHERJEE, 2004, p. 257). A realidade é que a
comunidade canadense sul-asiática, e seus escritores, não possuem uma perspectiva
monolítica. Enquanto alguns escritores possuem uma agenda política concreta – Bannerji e
11
Tradução nossa.
30
Krisantha Siri Bhaggiyatta, por exemplo –, outros como Neil Bissoondath acreditam em uma
literatura apolítica (MUKHERJEE, 2004, p. 261). Cabe salientar também que a visão de
Bissoondath de que a literatura deve estar acima da política e falar dos indivíduos não é única
entre os escritores canadenses sul-asiáticos.
Todavia, apesar de não possuírem um projeto político unificado, como o quer a Crítica
Pós-colonial, os escritores canadenses sul-asiáticos podem ser vistos como produtores dessa
entidade literária passível de análise devido ao fato de compartilharem fatores em comum, tais
como cultura, memória e um repertório de signos lingüísticos. Porém, sem o raciocínio dessas
questões, as categorizações pós-coloniais abrigariam sem problemas os escritores canadenses
sul-asiáticos ao lado de qualquer outro escritor pós-colonial, situando-os todos sob uma
mesma etiqueta, ou seja, ensinando e teorizando sua escritura sob os mesmos “rótulos”. Logo,
reiteremos, é preciso não recair em generalizações, especialmente quando se tem falado de
“imigrante” como uma categoria fixa, situando os escritores de origens étnico-raciais não
hegemônicas em um conjunto de forma estanque, ao falar de suas posições de sujeito nos
termos coercivos e opressivos do exílio, quando muitas vezes o que realmente aconteceu foi
uma escolha de posição – ao votarem a favor das muitas atrações culturais e, sobretudo,
materiais do Ocidente, particularmente da América do Norte.
Cabe ainda levarmos em consideração o processo de recepção dos textos canadenses
sul-asiáticos. Em busca de resposta para a questão de como esses textos são recebidos pelo
público de leitores canadenses, Mukherjee (2004) sugere que a reação predominantemente
canadense, “branca”, a esses textos tem sido a de ver os escritores canadenses sul-asiáticos
como “imigrantes escrevendo para casa [home]” (p. 258). Conseqüentemente, na medida em
que a escrita canadense sul-asiática é vista enquanto uma sensibilidade migrante entre dois
mundos – uma escrita nostálgica com relação à Índia, por exemplo, e incapaz de se tornar
canadense por inteiro – ela é reduzida a dois únicos tipos possíveis, mutuamente excludentes:
de conteúdo que alude ao local de onde vem o escritor, percebida como nostálgica, ou de
conteúdo canadense, automaticamente considerada como uma luta do imigrante para ajustar-se
à nova realidade. O problema destas considerações reside no fato de que, ao ser categorizada
apenas como “imigrante”, essa escritura “adquire um estatuto de irrelevância para a dialética
31
corrente da sociedade canadense”
12
(MUKHERJEE, 2004, p. 258). Nesta perspectiva,
ratificamos que, por um lado, os critérios nacionalistas canadenses têm tido um efeito negativo
na circulação e recepção da escrita dos grupos minoritários, especialmente para os imigrantes
“não-brancos”, relegados às categorias de escrita “migrante”, “minoritária”, “de cor”. Por
outro, enquanto a escrita dos imigrantes “brancos” não tem sido estimada desta forma, tais
rótulos descortinam-se como racialmente codificados na oposição “branco” versus “não-
branco”. Assim, se o anseio pela terra natal, pelo “lar”, deixados para trás, a dor do
deslocamento, da vida em trânsito, a adaptação, entre outros, são aspectos conferidos à escrita
de imigrantes canadenses sul-asiáticos, corre-se o risco de que a experiência migrante seja
relevante somente para os próprios escritores.
Diante desta realidade, torna-se, desde já, evidente que os textos canadenses sul-
asiáticos evocam múltiplas reações no Canadá e em outras partes do mundo, as quais põem em
questão modelos teóricos consolidados. Logo, a perspectiva de uma escrita de resistência a um
antagonista, muitas vezes definido como o “Colonizador” ou o “Ocidente”, é descoberta como
demasiadamente arrebatadora e simplista para servir como ferramenta interpretativa
fundamental. Dada a diversidade de perspectivas ideológicas entre os escritores canadenses
sul-asiáticos, também não há maneira de atribuir-lhes uma consciência coletiva, critério tão
crucial para os teóricos do “discurso das minorias”. Visto que seus trabalhos, por um lado, se
estudados em conjunto, pela origem sul-asiática em comum, contêm certos temas e padrões
recorrentes, isto, por outro, não justifica a teoria crítica contemporânea, ao categorizá-los sem
as devidas considerações das especificidades existentes dentro das próprias comunidades
minoritárias. O fato que permanece é que os sul-asiáticos são um povo que também se divide
em linhas religiosas, ideológicas, nacionais e de classe social. Como alega Mukherjee (1998),
apesar de se comunicarem sem problemas nas lojas e mercados da “Little India”, em Toronto,
não costumam fazê-lo em nenhum outro lugar. Desta forma, sugerir que sua escritura fale uma
voz unificada, a voz da resistência, ou que representa o coletivo, seria distorcer os fatos.
Nesses termos, é possível verificar que novos rumos literários re-configuram a nação e
as noções de identidade nacional canadense. Entretanto, a questão da afiliação nacional é
apenas um lado da tão discutida construção de identidade, devendo-se considerar sempre
12
Tradução nossa.
32
outros marcadores identitários, como etnia, gênero, sexualidade, classe social, entre outros.
Tal revisão, juntamente com a emergência de estratégias pós-modernas, contribuiu para o
surgimento de novas vozes nessa cena literária, embora o pós-colonial seja percebido como
uma ameaça à tradição, por re-examinar estruturas de poder e hierarquias das esferas sociais
do público, do pessoal e do privado. Pois a escritura pós-colonial sublinha a complexidade das
organizações sociais, destacando não somente a posição dos silenciados, mas também
daqueles que possuem somente uma voz convencional não problematizada pelos discursos de
tendências dominantes.
Enquanto, há anos, o discurso nacionalista canadense tem proposto uma identidade
com base em sua dualidade cultural de origem européia, as palavras dos grupos étnico-
minoritários apontam para o quão racista e masculina esta agenda tem sido. Sua reivindicação
central é denunciar que a literatura do Canadá, criada, publicada, ensinada e criticada sob a
égide do seu nacionalismo, promove uma visão ainda colonizadora do país, em busca de um
caráter nacional essencializado, passível de descoberta em textos literários de autores
canônicos. Porém, tais explanações do nacionalismo canadense, com sua obsessão por “uma”
identidade, ainda não foram substituídas por teorias mais inclusivas da sua literatura.
Conseqüentemente, muito da crítica teórica continua a ser relegada pela premissa da noção
identitária de dualidade e, assim, permanece profundamente absorta às vozes ditas
minoritárias.
Portanto, é imprescindível não perder de vista o fato de que os canadenses “brancos”
têm empregado vocabulários que alegam “universalidade” apesar de sua natureza excludente.
Aparentemente universais, suas idéias ditas puramente estéticas são, na verdade, específicas da
cultura, e o que parece universalista e apolítico geralmente revela-se uma conceitualização
euro-canadense. Deste modo, o que chamaríamos de tradição nacionalista torna-se
compreensível enquanto uma escrita “branca” anglo-conformista que ocupa o centro das
atenções. Conforme a reivindicação de Mukherjee (1999, p. 158): “são eles que falam como
canadenses. É a experiência deles, a versão deles da história, as noções deles de literatura, a
visão deles do Canadá, que dominam”
13
[grifo nosso]. Soma-se a isto a alegação de Dionne
13
Tradução nossa.
33
Brand (1993, p. 18) de que “a experiência canadense é necessariamente pré-ditada pela
branquicidade”
14
.
Por tais motivos, em meio à ausência de políticas nacionais antiracistas, a escritura dos
grupos minoritários desafia a constituição do cânone literário canadense; ao posicionarem-se
como aborígenes ou negros ou sul-asiáticos, chineses e japoneses, ao escreverem da
especificidade de suas localizações como membros dessas comunidades minoritárias, colocam
em cheque o lugar universalista adotado pelos escritores ditos “brancos”. Assim, estes
escritores reescrevem a história, desestabilizam o Canadá inocente da escrita branca,
interrogando seu tecido cultural, ao mesmo tempo em que vivem o prazer da transgressão,
perturbando o centro e seu discurso nacional.
1.3 LITERATURA PÓS-COLONIAL PEDAGÓGICA
Em reação à marginalização nos currículos e à ausência no cânone sofrida pela
produção literária dos grupos minoritários, em reação a uma leitura ahistórica, ignorante das
vozes destes grupos e suas respostas à literatura e à crítica literária ocidentais, assistimos na
contemporaneidade, como atividade literária e crítica advinda das comunidades em opressão, à
criação de novos modos artísticos afirmativos de especificidades, os quais rompem com o
modelo de literatura dito “universal”. Atualmente, muitos dos escritores imigrantes residentes
em países desenvolvidos, como o Canadá, criam para dar voz às experiências de sua
comunidade, para trazer à vida sua memória histórica e para recriar seu futuro.
Diversos estudos contemporâneos denunciam o fato de que os críticos ocidentais, ao
invés de desenvolverem uma sensibilidade a outros modos de apreensão do mundo, têm
simplesmente imposto categorias eurocentristas tradicionais sobre os trabalhos dos “novos
imigrantes”, tudo em nome da “universalidade”. Mukherjee é uma das precursoras na
articulação de uma crítica contra a suposta “universalidade” da teoria literária ocidental. A
estudiosa alega que os críticos do ocidente têm estado tão ocupados em provar a
“universalidade” dos textos com os quais lidam que não têm tido tempo para tratar da
14
Tradução nossa.
34
especificidade dos mesmos. Segundo Mukherjee, o fator crucial que deve ser trazido à tona é
que, na verdade, as categorias “universais” da crítica não compartilham de meios para se
ocupar com a especificidade de um texto (1994, p. 21).
Em “The Vocabulary of the ‘Universal’: The Cultural Imperialism of the Universalist
Criteria of Western Literary Criticism”, artigo teórico-crítico de Oppositional Aesthetics
(1994), Mukherjee desenvolve sua crítica ao que chama de uma “metodologia universalista”.
Mukherjee defende que tal modelo de abordagem crítica a textos literários, com sua ênfase
exagerada na forma e no caráter, negligencia a referencialidade e o contexto, assim deixando
de designar inventividade a escritores que estruturam seus trabalhos nestes princípios.
Conforme os argumentos de Mukherjee, o crítico “universalista”, armado com suas categorias
prontas de técnica narrativa, padrões simbólicos, motivos, desconsideraria as complexidades
formais que vêm à tona quanto uma obra utiliza, abertamente ou não, o conhecimento e as
experiências coletivamente compartilhados de uma sociedade, como por exemplo: experiência
de colonialismo, lenda de heróis ou vilões, sistemas de crenças, pronunciamentos retóricos de
políticos, homens de negócios e estrelas de cinema, dentre outros.
A questão torna-se problemática pelo fato de que, apesar de ser um termo valorizado
na crítica ocidental liberal-humanista, o uso do “universal” no contexto das produções
culturais de ascendência afro-asiática conduz a certas representações errôneas e evasões. Por
isso, deparamo-nos atualmente com uma necessidade urgente de criar novas formas para a
articulação das diferenças que constituem as sociedades pós-coloniais. De fato, como
demonstra a crítica de Mukherjee, o “universal” mascara a recusa do “não-familiar” e, talvez,
do “não-confortável” – temas relacionados às vidas particulares de indivíduos que se
envolvem com conflitos sócio-políticos plenos, no interior das narrativas literárias. Uma das
implicações do tipo de análise “universal” é de que os conflitos possam ser resolvidos em
nível individual pela ação individual ou com o crescimento na maturidade. Porém, convenções
de formas literárias centradas no indivíduo tornam possível para os escritores escapar da
confrontação direta de questões sociais emergentes de seus tempos. Se Northrop Frye acredita
em modelos prontos, ou arquétipos, na literatura canadense, em contraste, uma escritora como
Himani Bannerji acredita que as realidades locais ditam suas próprias estruturas
(MUKHERJEE, 1994, p. 18-20).
35
Enquanto esse tipo de abordagem crítica pode, de certo modo, ser aplicável às obras
emanadas da tradição européia, é preciso reconhecer que é muitas vezes inadequada para
julgar os trabalhos de escritores minoritários, imigrantes advindos dos países em
desenvolvimento, pela simples razão de que permanece em silêncio com relação à exploração
institucional, à divisão e dominação de classes (sociais), e ao neo-colonialismo econômico e
político – questões que certamente não poderiam ser resolvidas em nível individual. Por esse
motivo, principalmente, os escritores pertencentes às comunidades minoritárias têm rejeitado
tais convenções. São fatores dessa natureza que tornam a narrativa de escritores como
Bannerji diferente, pois tratam da vida de seus personagens não como indivíduos isolados, que
embarcam em trajetórias espirituais ou reais e encontram suas próprias resoluções, mas
enquanto indivíduos cultural e historicamente moldados, confrontados e interferidos por seu
ambiente social em cada momento de suas vidas.
Ao contrário do que a crítica liberal-humanista afirma, a escritura das minorias étnicas
evidencia que tanto a apreciação literária, bem como a produção literária, são cultural e
historicamente fundamentadas, e, nesse sentido, não há critério “universal” que possa ser
desenvolvido de modo a aplicar-se sem levar em conta a realidade dos conflitos inerentes ao
convívio de diferenças culturais. Porém, nossa reverência pela opinião metropolitana é tão
grande que, na maioria dos casos, ainda não conseguimos enxergar sem as lentes fornecidas
pelo nosso “treinamento ocidental”. O problema é que existe uma falta de familiarização da
crítica ocidental com relação às “outras” culturas. O que existem, em grande escala, são
apenas estereótipos. Conseqüentemente, tornamo-nos, muitas vezes, incapazes de ver as obras
literárias em sua relação com outros discursos existentes nas sociedades que os produziram.
Como sugere Frederic Jameson (1981, p. 85), os artefatos culturais ocupam um “espaço
relacional em um sistema dialógico”
15
, e o trabalho do crítico deveria ser o de trazer à tona sua
natureza relacional. No entanto, os críticos “universalistas” parecem esquecer desse lugar
relacional, e, assim, deixam de ver que as obras literárias são polêmicas, e que sua
“polemicidade” somente pode ser compreendida se levarmos seu contexto em consideração.
Ao dar ênfase aos interesses políticos e econômicos que são servidos pelo texto
econômico da globalização, desafiando algumas das idéias dominantes a respeito da
15
Tradução nossa.
36
globalização contemporânea, Spivak, em diversos momentos de sua teorização, expõe o
quanto o mundo é representado a partir da perspectiva dominante e da posição geopolítica do
“primeiro mundo”, o que gera a exclusão de outros grupos privados dos direitos civis. Tais
desafios diante das assunções de verdade da democracia ocidental e da globalização têm
expandido o foco da desconstrução da análise textual da literatura e da filosofia para incluir o
texto político e econômico contemporâneo. Particularmente, em “A Literary Representation of
the Subaltern”, considerando o (con)texto social específico da Índia pós-colonial, Spivak
(1993) sugere que os textos literários forneçam um local retórico alternativo para articular as
histórias de mulheres subalternas, dado que o discurso histórico oficial da Índia tende a
privilegiar os homens como atores principais das políticas revolucionárias. Da mesma forma,
interessa-nos aqui entender a literatura canadense sul-asiática enquanto um espaço pedagógico
capaz de articular a resistência das minorias raciais oprimidas pela ideologia nacional
canadense. Por essa razão, compreender a crítica cultural e literária de Spivak proporciona um
rico instrumento de análise do engajamento ficcional de Bannerji.
Sem levar em conta que os critérios nacionalistas da literatura canadense têm sido
apontados por críticos e escritores das minorias canadenses como os principais responsáveis
por relegar literaturas tais como a canadense sul-asiática a um espaço marginal, a crítica
literária canadense, ao examinar este espaço, tem desconsiderado diferenças em busca de uma
teorização capaz de englobar todas as “minorias étnicas” na categoria de “visíveis”. Disto
resulta que o uso da teoria pós-colonial nos termos críticos do ocidente acaba por representar
uma espécie de neo-colonização. Em reação, verificamos no Canadá pós-colonial uma
literatura minoritária – como a literatura canadense sul-asiática de Bannerji – que se engaja
socialmente, ao nos “ensinar” a apreender as especificidades de suas experiências na
sociedade canadense como um processo de auto-afirmação. Nós, leitores, somos instigados a
refletir acerca das “generalizações pós-coloniais” diante desses textos e a atuar em favor das
minorias, conferindo-lhes um espaço não discriminado. Assim, o público-alvo da literatura de
Bannerji parece ser os jovens canadenses sul-asticos, que, após a leitura nas salas de aula
e/ou em outros de seus espaços de convivência, terão a oportunidade de “aprender” com as
discussões, desde que a condução crítica seja de uma pedagogia pós-colonial devidamente
engajada no reconhecimento das diferenças de forma não discriminatória ou marginalizante.
37
Nesta perspectiva, podemos compreender essa literatura enquanto um construto sócio-cultural
que adquire um caráter de ferramenta fundamentalmente pedagógica.
Mukherjee, em “Ideology in the Classroom: A Case Study in the Teaching of English
Literature in Canadian Universities” (1994), argumenta no sentido de que, de modo geral, os
professores de literatura inglesa das universidades canadenses não consideram que questões de
sala de aula mereçam uma atenção crítica. Na verdade, não há quase conexão alguma entre
suas práticas pedagógicas e suas pesquisas acadêmicas. Considerando a si mesma como
alguém que está ou vem de fora [outsider], Mukherjee declara nunca ter deixado de se
espantar com o fato de que os acadêmicos canadenses de literatura não pareçam perturbados
por essa duplicidade – dois sistemas de pensamento completamente contraditórios em
suspensão. Porém, o que encontrou no Canadá lhe proporcionou uma experiência particular
que foi um divisor de águas, pois lhe permitiu articular os traços de sua discordância com os
discursos acadêmicos dominantes.
Como professora, na sala de aula, Mukherjee verificou que os ensaios de seus alunos
ignoravam totalmente o sentido político nas análises literárias, ou seja, desconsideravam
inteiramente as realidades locais. Isto lhe permitiu compreender como a educação canadense
os havia capacitado para neutralizar os sentidos subversivos implícitos em trabalhos literários.
Logo, percebeu que as generalizações que implicavam nas interpretações de seus alunos eram
ideológicas, as quais os habilitavam a apagar as diferenças entre os burocratas e os
comerciantes ingleses, entre os “brancos” colonizadores e os “negros” colonizados, e entre os
“negros” ricos e pobres. Assim, tais generalizações os condicionaram a acreditar que todos os
seres humanos enfrentam os mesmos dilemas dos protagonistas. Diante disto, Mukherjee
conclui que o propósito ideológico dessas generalizações parece ser o de traduzir o mundo
para o seu próprio idioma, apagando as ambigüidades e as verdades “desagradáveis”, pois elas
tornam os alunos alheios ao fato de que a sociedade não é um agrupamento homogêneo, mas
uma “classificação” em grupos, dentro da qual pertencemos a um conjunto particular chamado
de “nós”, em oposição a outros conjuntos que distinguimos como “eles”. O vocabulário de
seus alunos era parte da honrada tradição daquela variedade da crítica que apresenta a
literatura como “universal”. O teste da grande obra de literatura, de acordo com essa tradição,
é que, a despeito de suas particularidades, ela fale sobre e para todos os tempos e todas as
38
pessoas. Ao invés de enfrentar as realidades de poder, classe, cultura, ordem e desordem
social, este vocabulário “universalista” somente mistifica a verdadeira natureza da realidade.
Literatura, conforme essa linha de pensamento, certamente não diz respeito aos
problemas de opressão e injustiça, a respeito de como criar uma sociedade mais justa, sobre
como entender a situação de outrem na sociedade e fazer algo em relação a isso, literatura não
fala das pessoas como seres sociais, como membros de alianças políticas ou sociais. A razão é
que é muito mais confortável esconder-se atrás de um vocabulário que, por um lado, não
considera sua própria posição privilegiada e, por outro, faz com que todos pareçam igualmente
privilegiados. Todavia, com certeza, graças ao empenho crítico das minorias em opressão, a
literatura tem se revelado mais do que forma, pois existem as questões relacionadas à
ideologia e classe social do escritor, o papel e ideologia dos patronos e disseminadores da
literatura, o papel da literatura enquanto instituição social e, finalmente, o papel do professor-
crítico enquanto transmissor dos valores culturais e sociais dominantes.
As intersecções entre a colonização e a educação literária, bem como as ligações do
imperialismo e o ensino da língua e cultura inglesa, têm sido objeto de intenso debate na
contemporaneidade. Stephen Morton (2003) destaca que são diversas as pesquisas críticas que
examinam os modos como o estudo da literatura inglesa foi usado para “civilizar” os sujeitos
colonizados – tanto as classes trabalhadoras britânicas quanto os “nativos” das colônias
imperiais, particularmente a Índia. É justamente neste empenho crítico que se engajam Said,
Bhabha e Spivak. Dada a grandiosidade do projeto educacional imperialista e sua queda
relativamente recente, é racional pensarmos que tenha sua continuidade como um aspecto
inconsciente da educação para muitos sujeitos ainda na contemporaneidade. No caso do
Canadá, tal fato transparece não apenas em termos de como o cânone da literatura canadense
veio a ser constituído e disseminado, mas também em vista das fronteiras assumidas para o
espaço nacional canadense e das delineações pensadas como definidoras de sua população.
Em sua introdução ao livro Home-Work: Postcolonialism, Pedagogy and Canadian
Literature, Cynthia Sugars (2004) demonstra que existe uma longa história de luta entre a
literatura canadense de língua inglesa e a literatura inglesa enquanto entidades nacionais
devido à colonização britânica no Canadá. Para tanto, Sugars retoma o fato de que, apesar da
independência nacional, a literatura canadense de expressão anglófona e seu estudo assumiam,
em seus primórdios, um caráter de subordinação à literatura inglesa. Esta tonalidade atribuída
39
aos estudos literários da literatura canadense era dada mais pelos acadêmicos envolvidos nessa
área de estudo do que pelo produto cultural canadense propriamente dito. Foi somente na
segunda metade do século XX que a literatura canadense começou a ganhar uma atenção mais
significativa no interior dos estudos acadêmicos. Embora este seja um longo processo de
disputa de espaço, considera-se que foi ao longo dos anos 1960 e 1970 que a literatura
canadense conquistou um território reconhecidamente autônomo na academia. Anteriormente,
se um currículo de estudos acadêmicos de literatura canadense não havia se tornado sólido nas
faculdades e universidades canadenses, menos ainda era presente nas escolas e nos livros
didáticos.
No entanto, apesar de terem ganhado uma batalha, estudiosos canadenses do pós-
colonialismo alegam que a guerra não se dava por terminada. A partir de então, iniciou-se um
fenômeno de “descolonização” dos estudos acadêmicos de Língua Inglesa no Canadá. É nesse
momento que começam a aparecer notavelmente as antologias literárias, revistas acadêmicas,
conferências e estudos críticos dedicados aos autores canadenses. Como a institucionalização
da literatura canadense no século XIX, e logo da literatura americana (e, mais recentemente, as
literaturas pós-coloniais de regiões e nacionalidades variadas), o estudo institucionalizado da
literatura canadense foi um tópico que provocou impetuosa resistência e contestação. É válido
observar que o ensino-aprendizado da literatura canadense começou como uma “prática de
oposição” (SUGARS, 2004, p. 5), assim como atualmente consideramos ser a abordagem da
literatura pós-colonial na sala de aula. No entanto, na medida em que as revisões pós-coloniais
e suas interrogações pedagógicas da disciplina ganharam uma maior aceitação, as raízes anti-
coloniais da disciplina de Literatura Canadense tornaram-se fato esquecido. Tais
considerações fazem-se importantes na medida em que demonstram o quão recente,
relativamente falando, é a presença dessa literatura nas universidades. Isto adiciona uma
matriz de imediatismo e ajuda a historicizar a presença de seus estudantes e professores
enquanto leitores e críticos, na sala de aula. Desta forma, torna-se igualmente mais significante
nossa participação no estudo de tal literatura.
Atualmente, observamos uma espécie de “reavaliação” do campo de estudos da
literatura canadense desde a perspectiva dos recentes desenvolvimentos nas teorias pós-
colonial e pedagógica. A influência das últimas décadas de teorização pós-colonial no ensino
da literatura canadense tornou-se motivo de um debate intenso e produtivo. Muitas têm sido as
40
sugestões alternativas de uma abordagem “descolonizadora” do estudo e ensino da literatura
canadense. Em sua capacidade de (re)imaginar a literatura canadense, o pós-colonial nos
fornece uma entrada meta-pedagógica de utilidade nas discussões do modo como a literatura
canadense é pensada e ensinada. Muitos, por sua vez, desejam efetuar alguma intersecção
entre o discurso intelectual na academia e a mudança social no mundo externo. No contexto
das discussões da inter-relação dos questionamentos pós-coloniais e das preocupações
pedagógicas, ao dar ênfase aos modos como o legado do imperialismo está na base fundadora
da educação ocidental e continua a condicionar a maneira como conceituamos o mundo, de
forma singular, esta teorização tem procurado inserir no debate as questões que permeiam
etnia e racismo, as quais foram apagadas na medida em que se tornaram desconfortáveis o
suficiente em um mundo consideravelmente pós-colonial.
Todavia, embora o discurso teórico do pós-colonialismo tenha tornado possível a
ocorrência de uma auto-reflexividade no campo dos estudos literários canadenses, sua
abrangência tem sido admitidamente limitada, por ainda não ter ocasionado uma
descolonização adequada das estruturas e práticas institucionais (SUGARS, 2004, p. 8). Em
outras palavras, segundo Aruna Srivastava (1997, p. 12-13), apesar da aparente inserção de
abordagens pós-coloniais no estudo acadêmico das literaturas canadenses de língua inglesa, as
hierarquias e relações de poder freqüentemente não questionadas e raramente contestadas
permanecem intactas e, dessa forma, as análises de textos culturais parecem não pertencer aos
textos institucionais, aos discursos e aos processos canadenses. Este impasse pode sugerir que
este é um momento de decisão e de mudança dos modos através dos quais a literatura
canadense vem sendo (re)avaliada tanto por professores quanto por estudantes.
O dilema recai sobre a questão de como realizar uma “pós-colonialização” do pós-
colonial em âmbito “nacional”. Cynthia Sugars (2004, p. 10-11) observa que um ceticismo
com relação ao nacionalismo contido na instituição literária canadense não é algo novo; o que
verificamos atualmente é um senso de compromisso mais generalizado à tarefa de
questionamento, um sentimento de que o que se ensina faz a diferença. Neste empenho
investigativo crítico, ensinar os “conflitos” tornou-se consenso, e esta postura conduziu à
consideração de uma série de questões perturbadoras acerca do estudo institucionalizado da
literatura canadense. É por essa razão que se propõe uma “explicação” educacional auto-
crítica, que examine o modo como nossas imaginações foram educadas e como nossa
41
educação de base imperial tem se inscrito e quem ela tem negado. Sugars demonstra também
que diversos acadêmicos e professores canadenses consideram que a chamada de Spivak para
a necessidade de “des-aprender nosso privilégio como nossa perda” (1990, p. 9) seja talvez o
exemplo mais conhecido desse posicionamento. É valido notar ainda que muitos desses
críticos canadenses também têm sido influenciados pela pedagogia de resistência proposta por
Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido (1999). Dessa maneira, insiste-se também na
importância de introduzir uma pedagogia pós-colonial no sistema de ensino escolar público
canadense, pois interessa a essa pedagogia crítica perceber as escolas enquanto espaços de
contestação, negociação e conflito.
Não resta dúvida de que a noção de transferência de conhecimento linear, progressiva
de professor para aluno tem sido desafiada por inúmeros críticos nas ultimas décadas, os quais
argumentam que o potencial para uma auto-reflexão crítica está prejudicado pela própria
natureza desse processo. De fato, muitos dos teóricos da pedagogia pós-colonial, ou
descolonizadora, estão reagindo ao aspecto disciplinar da pedagogia tradicional e à falta de
auto-consciência do professor e/ou da instituição. A problemática central, segundo Freire,
nesse contexto de transferência de conhecimento, é justamente a “falta de dúvida” (FREIRE,
1999, p. 29), o que, por sua vez, evidencia um outro problema da abordagem disciplinar
tradicional do ensino: o modo como o professor busca policiar ou manter a paz na sala de aula.
A ausência de auto-reflexão e a falta de criticidade percebida em grande parte da pedagogia
disciplinar e seus praticantes é precisamente ao que os teóricos da abordagem pós-colonial à
cultura e à sociedade se opõem. Ligado a isto, porém, está a questão se o pós-colonialismo é
sempre pedagógico, sempre contendo em si algumas noções de seu potencial intervencionista
– e possivelmente didático. Estas são algumas questões que os teóricos mais recentes do pós-
colonialismo têm formulado diante da chamada “missão” da própria teoria pós-colonial. Estas
interrogações têm sido especialmente vigorosas entre críticos anti-racistas tais como Arun
Mukherjee, Aruna Srivastava, Roy Miki, Terry Goldie, dentre outros, os quais vêem no atual
discurso crítico dominante no Canadá uma tendência universalizante, ofuscante e co-optadora.
A noção de “pedagogia pós-colonial” também leva a um exame explicativo para além
dos limites da sala de aula. Conforme Sugars (2004, p. 15-16), o fato de que alguns críticos
têm escrito a respeito disto em termos de uma “cidadania crítica” revela que suas funções
pedagógicas desempenhariam o papel de “ligar as noções de escolaridade e a categoria mais
42
ampla de educação a uma luta mais substantiva para uma sociedade democrática radical.” Por
sua vez, suas investigações para com o legado imperialista da educação canadense levariam a
“ligações renovadas entre a educação e as artes como um empreendimento intelectual de
conseqüência no mundo.”
16
Assim, seguindo as considerações mais recentes de Spivak,
podemos falar no contexto da globalização crescente e a necessidade de uma forma de
“alfabetização transnacional” em resposta.
Estes entendimentos inter-relacionados de uma pedagogia pós-colonial crítica
estendem a noção de Bhabha do pedagógico versus o performativo, como esboça em
“DissemiNação”, capítulo de O local da cultura. Bhabha define o pedagógico em termos de
um senso de autoridade e teleologia. A natureza “normalizante” do pedagógico, segundo o
teórico, é o que caracteriza uma “pedagogia nacionalista” tradicional, algo que está
estreitamente relacionado a uma “pedagogia do patriotismo”. O performativo, em contraste,
refere-se aos modos como as pessoas estão sujeitas ao processo de significação, e às maneiras
com que o pedagogo é interpelado pelos vários conceitos e textos que ele ou ela pretendem
disseminar (BHABHA, 1998, p. 145). É nesta perspectiva que muitos teóricos
contemporâneos da pedagogia pós-colonial interessam-se nos diversos modos que se pode
“desempenhar” o pedagógico, bem como na maneira através da qual se pode “ensinar” o
performativo. De fato, de acordo com Sugars (2004, p. 15), é isto o que se deve entender por
uma “pós-colonialização” do pós-colonial.
Em suas investigações a respeito de como os recentes desenvolvimentos na teoria
pedagógica têm influenciando o ensino da literatura canadense, um grande número de
estudiosos tem se dedicado à discussão do encontro entre pedagogia e globalização – e
posteriormente a definir em que ponto e medida a abordagem pós-colonial dialogaria com esse
discurso. Este re-direcionamento foi iniciado em parte pela mudança de foco de Spivak que
propõe a descolonização da pedagogia tradicional em direção à pedagogia de alfabetização
transnacional, projeto iniciado em “Teaching for the Times” (1997) e em Outside in the
Teaching Machine (1993), e mais recentemente estendido em A Critique of Postcolonial
Reason (1999). Contudo, no contexto das discussões pedagógicas a respeito da literatura
16
Tradução nossa.
43
canadense, tais mudanças de foco representam uma direção relativamente nova no discurso
teórico canadense.
Ligada às teorias de “localização” e “agenciamento”, particularmente às que vêem a
sala de aula como um local de produção, no contexto do ensino-aprendizado, está a ênfase no
que não sabemos, enquanto críticos e estudiosos da cultura – ao que Sugars (2004, p. 17) se
refere como o “conhecido não-pensado” [unthought known]. Logo, anular o controle direto
sobre a transferência pedagógica pode ser um modo de permitir que conteúdos inconscientes –
subjetivos, históricos, culturais – venham à tona, o que, por sua vez, pode ser uma maneira de
compreender como a pedagogia nesse contexto pode estar no caminho em direção a se tornar
pós-colonial. Roy Miki (2004) argumenta que a atenção para com a cena pedagógica das
práticas de ensino da literatura canadense ajudaria a dar conta das contingências de suas
localizações – seja na sala de aula, na pesquisa e produção, ou nas suas relações sociais e
culturais com os outros. Assim, descolonizar a sala de aula significa partir do enfoque nos
variados silenciamentos e opressões que podem ocupar o espaço literário no cenário
institucional da sala de aula, especialmente no que se refere à etnia e classe.
No entanto, é válido notar que o projeto de uma abordagem pedagógica pós-colonial
canadense ainda não foi delineado por inteiro; encontra-se justamente em fase de construção e
consolidação. Segundo Terry Goldie (2004), em “Is There a Subaltern in This Class(room)?”,
trabalhar com uma abordagem pós-colonial da literatura canadense deve significar esboçar
etnicidade e “raça” de maneira que procurem romper com a “branquicidade” ao mesmo tempo
em que também rompam com as localizações confortáveis de muitos educadores no Canadá.
Ao explorar os vestígios imperiais nas práticas pedagógicas canadenses, tal abordagem
desvela os modos como o discurso do eurocentrismo e do racismo estão todos muitos
presentes na paisagem cultural canadense contemporânea. Ao tornar possível um exame das
estratégias utilizadas em textos canadenses de resistência, a sala de aula pedagogicamente
pós-colonial, como um espaço de deslocamento e produção, proporciona aos estudantes uma
capacidade de entender a configuração e articulação dos modos como os grupos minoritários
expressam o antagonismo de suas experiências e estabelecem seu agenciamento político-
cultural.
Apesar de não haver conclusões definitivas – e esta talvez seja sua maior virtude, até o
momento – a chamada pedagogia pós-colonial tem buscado uma abordagem literária
44
afirmativa das minorias, mais inclusiva de uma apropriada discussão da produção cultural –
leia-se aqui literária – nas salas de aula do que sua mera inclusão no cânone propriamente dito.
Pois a inclusão da produção literária de resistência de grupos minoritários, especialmente os
racialmente discriminados, no cânone canadense, tem gerado inúmeras interpretações
equivocadas, devido ao caráter ainda eurocêntrico imperialista fundador das subjetividades
leitoras. É contra esta postura que a pedagogia pós-colonial literária busca descolonizar as
salas de aula, ao ser capaz de realçar o caráter pedagógico da literatura pós-colonial. Logo,
quando devidamente abordada, a literatura pós-colonial revela-se fundamentalmente uma
fonte cultural pedagógica, capaz de representar as condições de opressão sob as quais vivem
determinados grupos minoritários no ocidente, tal como verificaremos a seguir. A literatura de
Bannerji possibilita uma articulação de resistência para os canadenses sul-asiáticos, apontando
para a vontade de transformação dessa realidade desfavorável aos grupos etnicamente
discriminados em direção a uma maior eqüidade social.
Esta é a grande contribuição utópica – no sentido filosófico-político-socialista do
marxismo, de transformar os paradigmas impostos por uma ideologia dominante por meio da
crítica à organização social existente – da pedagogia pós-colonial, na medida em que, ao
buscar a dificuldade inerente ao material que encontra a sua frente, tornando o problemático
em pedagógico produtivo, estabelece um projeto alternativo de organização social capaz de
indicar potencialidades realizáveis e concretas em uma determinada ordem política
constituída, contribuindo desta maneira para sua transformação. Através da transposição deste
engajamento para seus textos criativos, como ferramentas pedagógicas, a literatura de Bannerji
é capaz de confrontar professores e estudantes da literatura canadense, que, por sua vez, ao re-
visitarem suas concepções acerca principalmente de etnia, poderão tanto desafiar os estudos e
o ensino da instituição literária canadense tradicional quanto re-avaliar a sua própria conduta e
valoração diante desses aspectos da vida em suas relações sociais. O modo como a literatura
de Bannerji configura este caráter é o que veremos no próximo capítulo.
45
CAPÍTULO II
POR UMA ESCRITA CANADENSE SUL-ASIÁTICA
2.1 HIMANI BANNERJI: CONTRIBUIÇÃO CRÍTICA E CRIATIVA
Tendo em vista que os imigrantes canadenses sul-asiáticos, em sua maioria, não se
caracterizam como “exilados políticos”, ou “refugiados”, mas “migrantes econômicos”
(BHABHA, 1998), cabe uma retrospectiva biobibliográfica da autora em questão neste estudo
em busca de suas particularidades. Himani Bannerji emigrou para o Canadá como uma
acadêmica de pós-graduação na Universidade de Toronto, no campo das ciências humanas. É
possível situá-la no mesmo sentido em que Arun Mukherjee considera a si mesma, alguém que
“nasceu e cresceu na Índia pós-colonial, teve uma educação colonial severa, tanto na Índia
quanto na Universidade de Toronto, e então passou por um doloroso e difícil processo de
descolonização” (MUKHERJEE, 1994, p. 3). Sua crítica, poesia e ficção registram a
dialética
17
dessa luta, a qual, de certo modo, é coletiva, motivada pela sensibilidade e razão
das populações de imigrantes etnicamente discriminadas.
Em Asian American Novelists: A Bio-Bibliographical Critical Sourcebook (2000, p. 8-
11), Geoffrey Kain fornece uma apresentação abrangente de Bannerji (1945-). Nasce na Índia,
na cidade de Gandatia, distrito de Mymensingh, atualmente Bangladesh. Ela foi educada em
Dhaka até o ensino médio, e depois mudou-se para Calcutá. Iniciou seus estudos acadêmicos
na unidade de ensino Visva Bharati, e recebeu seu diploma de mestrado em “Inglês”, em 1965,
17
Uma dialética marxista, no sentido de uma versão materialista da dialética hegeliana aplicada ao movimento e
às contradições de origem econômica na história da humanidade. A dialética hegeliana como a lei que
caracteriza a realidade como um movimento incessante e contraditório, condensável em três momentos
sucessivos (tese, antítese e síntese) que se manifestam simultaneamente em todos os pensamentos humanos e em
todos os fenômenos do mundo material.
46
pela Jadavpur University, no Oeste de Bengali, lugar onde lecionou Língua Inglesa e
Literatura Comparada até 1969. Nesse ano, partiu para o Canadá a fim de dar continuidade a
seus estudos na University of Toronto. Cursa um novo mestrado em “Inglês”, e leciona no
Victoria College, em Toronto, de 1970 a 1974. Depois, leciona como diretora de curso no
Departamento de Sociologia em Atkinson College, York Univesity, de 1974 a 1988. Na
University of Toronto, também começa seus estudos de doutorado em sociologia, em 1980.
Sua tese, “The Politics of Representation: A Study of Class and Class Struggle in the Theatre
of West Bengal” (1988), prepara o palco para a maior parte de seu trabalho subseqüente, ao
enfocar a “arte política”. Dez anos mais tarde, o material da tese é revisado e publicado em
forma de livro intitulado Mirror of Class: Essays on Political Theatre (1998). Desde 1989,
com tal bagagem, Bannerji atua como professora no Departamento de Sociologia da York
University, em Toronto. Ela retorna à Índia anualmente, para lecionar em Calcutá e,
principalmente, para dar palestras. Assim, a autora escreve e organiza projetos a respeito de
questões tanto canadenses quanto indianas.
Embora talvez seja mais bem conhecida como escritora de ensaios sócio-políticos,
Bannerji escreve em variedade de gêneros, através dos quais ela desafia a cultura canadense
dominante a partir de um locus ideológico feminista, marxista e anti-racista. Primordialmente
uma poeta, crítica e ativista, é escritora e tradutora de diversos livros, os quais incluem poesia,
ficção e ensaio crítico-teórico. Suas poesias, contos, artigos e resenhas têm gradativamente
ganhado espaço em revistas e periódicos acadêmicos e em antologias variadas, tanto no
Canadá quanto na Índia.
Na área crítico-teórica, das revistas e periódicos acadêmicos canadenses em que
encontramos contribuições da escritora, destacam-se Toronto South Asian Review, Fuse
Magazine, Fireweed: A Feminist Journal, Asianadian, Parallelogram, Tiger Lily,
particularmente nas décadas de 1970 e 1980. Ao longo dos anos 1990, suas publicações
assumem a forma de coletâneas de ensaios, a saber: The Dark Side of the Nation: Essays on
Multiculturalism, Nationalism and Genre (2000), Thinking Through: Essays on Feminism,
Marxism and Anti-Racism (1995), The Writing on the Wall: Essays on Culture and Politics
(1993), Re-turning the Gaze: Essays on Racism, Feminism, and Politics (1993), e Unsettling
Relations: The University as a Site of Feminist Struggle (1991). Com a disseminação de tais
textos, Bannerji se estabelece como uma figura notória no Canadá, principalmente no âmbito
47
das discussões étnico-culturais, de gênero e de classes. Na academia, seus interesses de
pesquisa situam-se acerca das relações entre cultura e política, sobretudo a leitura do discurso
colonial com base no conceito de ideologia de Marx. Soma-se a isso uma ótica
problematizadora do multiculturalismo.
Em linhas gerais, a atividade literária de Bannerji pode ser vista como um ato, além de
estético, politicamente engajado. Prosaica como pode soar para muitos, para a pensadora,
política “não é somente algo que está nas ruas”, mas uma “estrutura de pensamentos” e uma
“possibilidade de ação”. Ela acredita que se não conseguimos transformar o mundo apenas
com a arte, tampouco seria possível sem ela; é preciso que haja uma aliança da arte com a
política (KAMBOURELI, 1996, p. 183). Por essa razão, em termos ideológicos, sua escritura
pode ser vista como fundamentada no entrecruzamento de sua atuação enquanto socióloga e
artista. Tanto sua produção crítica quanto literária trata da situação sócio-cultural dos
imigrantes sul-asiáticos em meio à hegemonia da cultura branca canadense. Nessa perspectiva,
torna-se possível considerar a obra de Bannerji como um conjunto tanto literário quanto
crítico. Por meio do processo analítico de decomposição em seus elementos formadores ou
constitutivos, verificamos as devidas particularidades formais que tornam sua obra passível de
comprovação empírica, divisível no que experimentalmente podemos chamar de escrita
crítico-teórica, ou acadêmica, e escrita criativa, ou literária, poética e ficcional.
Em Making a difference: Canadian multicultural literature (1996), antologia de
literatura canadense contemporânea editada por Kamboureli, encontramos um depoimento de
Bannerji revelador do que podemos chamar de sua “poética engajada”. As palavras que
Kamboureli expõe pertencem à introdução de Bannerji a Returning the Gaze (1993). Tal
passagem evidencia o modo como esta poeta canadense sul-asiática, também escritora de
ficção, crítica, e professora de ciências humanas, pensa no papel crítico-social de sua criação
literária:
Enquanto escritoras criativas (...), enquanto mulheres não-brancas, nossas
experiências de “diferença” necessitam de forma e expressão. Por esta razão,
histórias criativas ou orais são cruciais, e desempenham uma demanda
fundamental de transformação. Mas esta demanda pede uma reflexão analítica
sistemática (p. 183).
18
18
Tradução nossa.
48
Ambas as formas de expressão cultual são retratadas como indissociáveis, na prática,
complementares, e agências inevitáveis para uma escritora canadense sul-asiática. Entretanto,
o tipo de elaboração a que a escritora se refere não constitui apenas uma questão de
transplantar ou reproduzir uma “cultura étnica”. Muito pelo contrário, ao longo de sua obra,
verificamos que a escritora se esforça para desconstruir qualquer viés teórico unicamente
cultural das relações sociais. Para Bannerji, é essencial que os aspectos políticos das
circunstâncias sejam sempre considerados em qualquer análise cultural. Particularmente, no
contexto do multiculturalismo, a pensadora sugere que os canadenses sul-asiáticos assumam a
cultura como um “ato expressivo”, resistente à tendência do multiculturalismo oficial de
fossilizar as origens étnicas canadenses (KAMBOURELI, 1996, p. 183).
Em “Re-Placing Ethnicity: New Approaches to Ukrainian Canadian Literature”, Lisa
Grekul (2004), ao discorrer sobre a necessidade de novas abordagens da literatura canadense
ucraniana, considera que a preocupação fundamental em todos os debates da relação entre a
escrita das minorias étnicas e o cânone da literatura canadense é a de descobrir em que medida
o multiculturalismo realmente promove a diversidade. Conforme tal estudiosa da literatura
canadense “étnica”, diante das ideologias e práticas do multiculturalismo que alegam
promover e preservar as heranças culturais dos grupos étnicos do Canadá, o argumento
levantado por críticos literários e teóricos tais como Bannerji é de que o multiculturalismo
administra a “diferença” ao mesmo tempo em que mantém o status quo anglo-canadense (p.
371). É neste sentido que a escritora objeto deste estudo representa um ponto de vista
exemplar no espaço de contestação crítica diante de uma cultura dominante no Canadá. Sua
escrita, tanto crítico-teórica quanto criativa, claramente reflete a complexidade das políticas
culturais canadenses.
De modo particularmente engajado, Bannerji apresenta uma crítica amadurecida ao
multiculturalismo do Canadá, em The Dark Side of the Nation: Essays on Multiculturalism,
Nationalism and Gender (2000). O livro reúne ensaios marxistas feministas e anti-racistas,
todos de sua autoria. Ao tratar de questões explicitamente políticas, englobando uma
teorização da economia política, do estado e da ideologia, a autora fornece uma perspectiva
crítico-teórica que, em sua leitura da diferença, inclui e estende-se para além do cultural e do
discursivo. Tal contribuição teórica e crítica desestabiliza os paradigmas utilizados em debates
correntes sobre o multiculturalismo. Os ensaios do livro dirigem a atenção ao modo como o
49
estado do Canadá encontra-se em construção, e como o discurso da cultura o ajuda no avanço
da alegação de legitimação, ao mesmo tempo em que convenientemente tem ignorado a
realidade dos imigrantes “não-brancos”, os quais geralmente possuem uma história de
marginalização política. Dentre as questões levantadas por Bannerji, vale atentar em especial
para aquelas que auxiliam no desenvolvimento da análise que se segue nas próximas sessões.
Primeiramente, é preciso entender que a crítica da autora ao nacionalismo canadense
focaliza a representação da “diferença negativa” que as políticas do multiculturalismo têm
conferido às populações “não-brancas” do Canadá. Ao propor espaços em que “políticas de
resistência” possam ser desenvolvidas em busca de um “novo imaginário cultural nacional”,
diante de um “multiculturalismo” que fala simplesmente “em nome da tradição e da
identidade”
19
(2000, p. 1-2), Bannerji busca desvelar o multiculturalismo canadense como um
modo de administrar as subjetividades dos povos que vêm de outras partes do mundo, pessoas
que não são bem-vindas porque uma vez já foram colonizadas, e agora estão sendo neo-
colonizadas. Cabe lembrar que se trata de imigrantes colocados no espaço da diferença
discriminada, lugar comum que a categoria de “minorias visíveis” lhes tem conferido.
De modo geral, a fim de articular uma agência, ou cultura, de resistência – o que por
vezes chama de “multiculturalismo popular” – a autora exprime também a necessidade de se
pensar através das diferentes articulações discursivas do multiculturalismo para evidenciar sua
existência enquanto “oficial” ou “de elite”. A estrutura do multiculturalismo popular trata das
“multiplicidades das tradições e das relações de poder entre elas, marcando as diferenças
inscritas no poder no interior do espaço da nação”
20
(BANNERJI, 2000, p. 5). Por isso, a
estudiosa discute as peculiaridades históricas e formativas do estado canadense,
particularmente no que se refere às noções da cultura nacional e das multiculturas existentes.
Assim, ela fornece um entendimento do papel e do local da ideologia no interior do aparato do
estado e da política organizada a fim de promover as bases para se descobrir as várias
máscaras culturais e políticas do multiculturalismo.
No livro em questão, encontramos um ensaio intitulado “Geography Lessons: On
Being an Insider/ Outsider to the Canadian Nation”, no qual Bannerji trata de sua trajetória
19
Tradução nossa.
20
Tradução nossa.
50
pessoal no Canadá, para ela “uma democracia liberal com um coração colonial”
21
(2000, p.
75). Anteriormente publicado em Dangerous Territories: Struggles for Difference and
Equality in Education (ROMAN e EYRE, 1997), e posteriormente em Unhomely states:
theorizing English-Canadian postcolonialism (SUGARS, 2004), o artigo afirma que, ao
imigrar, Bannerji defrontou-se com uma “construção político-ideológica”, a qual lhe
impressionou por ser “tão negativa quanto agressiva”
22
(2000, p. 64). Em outro ensaio, “On
the Dark Side of the Nation: Politics of Multiculturalism and the State of ‘Canada’”, a
escritora ocupa-se primordialmente com a construção do Canadá enquanto uma “forma social
e cultural de identidade nacional”, e os diversos desafios e interrupções oferecidos a essa
identidade pela literatura produzida por escritores de comunidades “não-brancas”
23
(2000, p.
87).
Com tal aparato teórico, torna-se compreensível a argumentação que a escritora
desenvolve em “The Paradox of Diversity: The Construction of a Multicultural Canada and
‘Women of Colour’”, onde explora o fato que a linguagem com a qual construímos ou
expressamos nossa agência política deve ser levada a sério porque reflete uma organização de
relações sociais de poder (BANNERJI, 2000, p. 33). A autora demonstra que a noção de
“mulher de cor” não nos direciona para examinar as relações sociais cruciais dentro das quais
vivem, para histórias e formas de consciência de poder que marcam sua presença. Ao invés,
como uma forma naturalizada, “mulher de cor” desempenha uma acomodação ideológica para
“etnia”, ao mesmo tempo em que suprime a questão das classes. Por essa razão, ela justifica a
proposta da expressão “mulheres não-brancas”, a qual, ao menos, no curso da política anti-
racista feminista, pode apontar para o privilégio do “branco”. De acordo com a crítica, o uso
de um prefixo negativo automaticamente levanta questões e questionamentos. Porém, uma
substituição pela “linguagem da diversidade e da cor” distrai a atenção do que realmente
acontece com essas mulheres; em outras palavras, as despolitiza (2000, p. 34). Quanto à si
mesma, Bannerji se denomina “antiracista e feminista marxista” (2000, p. 52), e assume-os
como uma “intelectual dos oprimidos”, alegando somente ser possível ocupar tal posição
21
Tradução nossa.
22
Tradução nossa.
23
Tradução nossa.
51
porque sua própria vida coloca-se como fonte de aprendizado e teorização, exemplar das
relações injustas dentro das quais vive(m) (2000, p. 40).
Portanto, os ensaios que a autora reúne em The Dark Side of the Nation caracterizam
uma tentativa, pioneira no Canadá, de colocar em prática um método de leitura do
multiculturalismo a partir de uma perspectiva marxista feminista antiracista. Sua escritura
reivindica a emergência de sujeitos críticos que sejam, mais do que ideológicos, agentes
políticos. Pelo motivo desse livro representar uma espécie de retomada, ou um apanhado, de
sua “produção crítica dos cinco anos anteriores” à tal publicação (BANNERJI, 2000, p. 2),
cabe uma breve olhada para seus textos anteriores. Unsettling Relations (1991) é recorrente
como marco inicial das discussões de resistência no interior do próprio feminismo canadense.
Além de organizadora do livro, Bannerji é responsável pelo artigo intitulado “But Who Speaks
for Us? Experience and Agency in Conventional Feminist Paradigms” – ensaio crítico que
repercute ao longo de sua obra, sendo inclusive republicado em Thinking Through. Situando-a
ao lado de outras quatro escritoras – a saber: Linda Carty, Kari Dehli, Susan Heald, Kate
Mckenna – engajadas em uma espécie de reformulação da crítica feminista canadense. Os
temas abordados em Unsettling Relations dizem respeito a uma relação de seus trabalhos e
suas políticas enquanto ativistas e críticas do feminismo canadense. Embora se dediquem a
diferentes assuntos e utilizem diferentes metodologias e perspectivas teóricas, todas elas
centram suas análises nas relações de gênero, classe e etnia.
The Writing on the Wall (1993) é o primeiro livro que reúne ensaios críticos somente
de Bannerji. Através de discussões críticas do teatro marxista em Bengali, da poesia anti-
racista e feminista de Dionne Brand no Canadá, da poesia revolucionária de Ernesto Cardenal
na Nicarágua, de uma recente tendência popular na ficção em Bengali e dos filmes do russo
Andrei Tarkovsky, os ensaios são exemplares de uma atividade cultural politicamente
comprometida. Demonstrando uma consciência crítica da integridade sócio-cultural das
práticas discursivas e das atuais relações históricas e imperialistas de dominação e resistência,
Bannerji exprime através do livro sua “crítica relacional e reflexiva da teorização cultural”
24
(1993, p. x). Diferentemente de uma “crítica do discurso colonial”, sua escrita pertence a um
modo discursivo menos dominante: “a tradição marxista de lutas de classe e movimentos de
24
Tradução nossa.
52
libertação nacional”. Nesse sentido, alega que sua preocupação central diz respeito
particularmente à “existência” e à “possibilidade” de “culturas de resistência”
25
(1993, p. x).
Portanto, nessa “escrita em muros”, além da noção de especificidade e limitação de uma
análise política que ganha sentido em uma determinada conjuntura histórica, Bannerji trata em
grande parte de dar uma reposta ao que a circundava naquele tempo, e apresenta o livro como
uma tentativa de pensar através de políticas culturais que atendem ao período de seu próprio
crescimento intelectual.
Assim como o livro anteriormente mencionado, Thinking Through (1995) reúne
somente ensaios de autoria de Bannerji, os quais desenvolvem uma discussão especifica e bem
articulada a respeito do racismo como um “produto do capitalismo colonial enraizado na
escravidão e no genocídio”
26
(1995, p. 9). A autora demonstra que não está à parte dessa
“guerra de classes racializadas”, uma espécie de batalha ainda em cena. Em busca de uma
“cultura e política de resistência compartilhada” contra o “racismo enquanto violência social”,
Bannerji formula perspectivas anticoloniais e antiimperialistas com base na crítica do
colonialismo de Fanon; este teórico fornece o fundamento para a compreensão de suas
“grandes e triviais experiências canadenses enquanto violência e trauma”. Assim, a autora é
capaz de dar forma à “auto-rejeição” de determinados sujeitos imigrantes no Canadá, “por
motivo da cor de sua pele ou cabelo”, como resultante de um “processo contínuo de abuso
violento”
27
(1995, p. 11).
Além disso, Thinking Through é o espaço em que Bannerji explora uma compreensão
complexa e interativa da relação entre história, organização social e formas de consciência,
pioneiramente, articulando suas prévias reflexões crítico-teóricas a respeito de etnia e classe,
agora relacionadas ao componente gênero. O que a estudiosa realiza é uma crítica que ela
denomina “crítica situada”, porque parte da experiência, não como algo isolado, mas no
sentido de “estar no mundo”, sempre social ou historicamente situado (1995, p. 13). Portanto,
nesse livro, Bannerji articula uma “política da diferença” direcionada às mulheres “não-
brancas” no mundo pós-colonial. Combinando um entendimento teórico com uma
sensibilidade poética, ela recusa a contenção de simplesmente assentar-se na “diferença”; ao
25
Tradução nossa.
26
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53
invés, reivindica o poder de redefinir a cultura e a sociedade como um todo. A partir de então,
a autora se destaca por consolidar uma transformação da teorização cultural, de gênero e de
classe, no Canadá: ela atinge o modo como a teoria é escrita, movendo entre o subjetivo – uma
linguagem de poeta, apaixonada e política – e uma formulação teórica disciplinada.
No mesmo ano de publicação de Writing on the Wall, encontramos Returning the Gaze
(1993), uma coletânea de ensaios crítico-teóricos novamente organizada por Bannerji, na qual
há apenas um artigo de sua autoria. Caracterizado como um ponto de partida para o debate das
mulheres “não-brancas”, “uma pequena, mas absolutamente urgente, tentativa de reunir um
volume que é composto inteiramente pela escrita crítica, não ficcional dessas mulheres”, o
livro fundamenta-se na “ausência” e no “silenciamento” – não simplesmente “silêncio” –
sofrido por tais mulheres, dentre as quais se situa Bannerji. Assim, concretiza-se um espaço
preocupado essencialmente em “mostrar que existem vozes críticas de mulheres não-brancas,
embora as empresas de editoração canadenses tenham lhes negado atenção”
28
(p. ix-x). Logo,
estamos diante da própria criação de um espaço crítico de resistência. As autoras do livro
dirigem-se às fontes da “invisibilidade” paradoxalmente contida nas categorias “mulheres de
cor” ou “minorias visíveis” a elas associadas. Em busca de respostas, revelam que sua
“diferença é situada, ou construída, através de gestos supostamente ‘inclusivos’ e
multiculturais”, os quais, entretanto, “se tornam referências vazias no que se refere às questões
relacionadas ao racismo e à exclusão”
29
(1993, p. xv). Para situar o método e a diferença dessa
crítica, Bannerji declara que os ensaios críticos do livro fornecem uma “noção de visibilidade”
bastante diferente daquela que lhes é imposta pelo senso comum da sociedade e da academia
canadense: eles se baseiam na “noção politizada de representação”, ao invés da “noção liberal
de visibilidade que estrutura as práticas discursivas do multiculturalismo”
30
(1993, p. xvii).
Promovendo as especificidades de suas diferentes subjetividades, moldadas por formas
distintas de histórias coloniais e neocoloniais e de economias políticas, o livro promove as
bases iniciais para o pensamento crítico associado ao “método de investigação fundamentado
28
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54
no materialismo histórico e cultural”, o qual proporciona uma ligação entre “a análise social e
a literária”, e entre “política e experiência”
31
(1993, p. xviii).
Em “Re-imaging Racism: South Asian Canadian Women Writers”, artigo presente em
Returning the Gaze, Aruna Srivastava apresenta o relevo das questões relativas ao racismo, e
sua relação estreita com a literatura, como uma “falha da imaginação” (1993, p. 132). Para
imaginar (e conferir imagem a) o “racismo” e sua relação com as mulheres canadenses sul-
asiáticas, Srivastava refere-se à própria Bannerji:
O racismo é carente de essência... é um ato da imaginação que depende dos
modos como imaginamos o mundo. O racismo, enquanto imaginação, tem sua
gramática e sintaxe, um poder narrativo penetrante e quase impermeável, um
poder que faz com que uma poeta como Himani queira deixar de escrever,
deixar de usar palavras, permanecer em silêncio (SRIVASTAVA, 1993, p.
145).
32
A partir dessa perspectiva, torna-se possível ver as canadenses sul-asiáticas como
“desterritorializadas”, sofredoras de um “deslocamento cultural”, e afirmar que tal condição é
uma das principais responsáveis pelo fato de que “muitas dessas mulheres escrevem histórias
para crianças”
33
(SRIVASTAVA, 1993, p. 137), fato válido para nos situar diante da produção
de Bannerji. Por encontrar-se em tal condição, ela não acredita na possibilidade de realizar
uma ficção supostamente “neutra”, apolítica. Nesse sentido, sua escrita engajada, sua ficção, a
qual não se desvencilha de um projeto político-pedagógico, torna-se gradativamente mais clara
e justificada. Além da introdução ao livro, no artigo intitulado “Popular Images of South Asian
Women”, ao tratar das imagens comumente associadas às mulheres sul-asiáticas no Canadá,
Bannerji reclama justamente da “carência de imagens visuais” para essas mulheres, o que,
porém, não conota ausência de suas imagens no espaço social de modo geral. Em
contraposição a imagens primordialmente “não-sexuais, passivas, dóceis e femininas”, a
autora sugere que, ao invés da “contígua objetificação”, sua luta política nesse estágio
concentra-se na produção de imagens e relatos que funcionem como “imagens da
resistência”
34
(1993, p. 176). Segundo a crítica, elas consistem em descrições de suas
“experiências do modo como realmente são vividas, remontando às relações de exploração
31
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32
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33
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55
passadas no presente”
35
(1993, p. 180). Assim, as imagens de resistência geradas através de
sua ficção, além de fornecerem um sentido de como vivem, também parecem incorporar o
modo com gostariam de viver. Em suma, verificamos que Bannerji acredita na necessidade de
apontar para o fato de que a condição opressiva do estado canadense para com as minorias
“não-brancas” não se limita ao nível de imagens, mas acontece realmente, fisicamente, em
suas vidas: “embora as imagens tenham algum efeito (...), não é a imagem, mas as relações de
dominação – a prática – que matam
36
(1993, p. 186). Assim a teórica demonstra que a
presença, a ausência e a natureza das imagens não se tornam passíveis de quantificação
enquanto não as pensarmos exclusivamente como um “conjunto, ou sistemas de signos de
referências cruzadas, da realidade como discurso
37
(1993, p. 186).
Em The Other Woman: Women of Colour in Contemporary Canadian Literature,
coletânea de ensaios críticos organizada por Makeda Silvera (1995), encontramos dois artigos
que também se fazem relevantes no contexto deste estudo para situarmos a contribuição do
trabalho de Bannerji como crítica sócio-literária. No prefácio do livro, Silvera declara que a
escrita das “mulheres de cor” no Canadá, embora não fale necessariamente em unissonância,
parte de um interesse comum: a auto-afirmação politicamente consciente. Logo, seu livro
apresenta-se como um outro lugar de luta comum, espaço para formar alianças em resistência
aos nomes que lhes têm sido impostos desde o colonialismo:
Quando decidi trabalhar neste livro, eu queria nos ouvir falar sobre nossa
escrita, e onde e como preenchemos nossas personagens com vida e história...
Eu queria nos ver dançar através da margem, para o centro de nossas vidas. Eu
queria um livro que se voltasse para nós por meio de nossos próprios olhos e
não dos olhos da cultura branca... Aqui, falamos do papel da comunidade e do
ativismo político em nossas vidas e trabalho/ obra. Falamos acerca de
linguagem, acerca de nossa língua de origem. Estamos dançando os nossos
cantos, ao som de nossos tambores (SILVERA, 1995, p. x-xii).
38
Nesse espaço de auto-afirmação, de geração de imagens próprias, em “Names Resonant and
Sweet: An overview of South Asian Canadian Women’s Writing”, Parameswaran (1995)
destaca The Writing on the Wall, de Bannerji, ao lado de Oppositional Aesthetics, de
Mukherjee, como os primeiros volumes de ensaios críticos da diáspora, os quais permanecem
35
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56
significativos no âmbito da discussão na atualidade, pois ambos fornecem “teorias críticas que
são quadros de referência para analisar obras literárias da diáspora”. Além disso, a crítica situa
Bannerji como a “nossa ativista mais articulada” [grifo nosso], referindo-se à experiencia
migrante no Canadá anglófono e à recusa de mitologias que geralmente conferem uma forma
destorcida dessa experiência
39
(p. 8-9).
Ainda no mesmo livro, em capítulo intitulado “Writing was not a decision”, Bannerji é
entrevistada pela organizadora ao lado de Dionne Brand. Durante a conversa, ela expressa o
“sentimento de estar aprisionada em algum lugar, de algum modo”
40
(BANNERJI, 1995, p.
180). Ao comentar Doing time, declara que escreve sobre o que vivencia. Em busca da relação
entre sua poesia e sua ficção, Bannerji exprime que sua escritura trata de “violência e
dissociação, o que em parte de fato produz distúrbios de personalidade ou fisiológico-
emocionais fantásticos”
41
(1995, p. 182). Embora admita não escrever como um projeto, a
escritora alega escrever sobre violência. Assim, considera sua escrita literária como “imediata”
e “histórica” ao mesmo tempo:
Para explicar minha vida aqui (...) a escrita de poesia ou prosa (...) é impossível
deixar de falar de (...) relações de violência que são o microcosmo do
macrocosmo, em cada espaço local. Como na filosofia, costuma-se dizer que
um pedaço de ouro será sempre ouro. Bem, o pouco de violência que
encontramos aqui possui as mesmas relações que em outros lugares (1995, p.
183).
42
Bannerji não vê a si mesma como escritora de literatura separadamente de sua crítica e de seu
ensino, e reconhece que tais posicionamentos ou agências estão no contexto de sua vida de
modo indissociável; por essa razão, declara em outro momento: “Adoro flores. Não me
importaria de periodicamente ter fantasias e escrever sobre as árvores e as plantas e assim por
diante... mas não consigo fazê-lo e não quero... vejo isto como uma privação... não decido
escrever sobre o que escrevo”
43
(1995, p. 185).
Nessa escrita dotada de memória, de história pessoal, da violência experienciada por si
própria, preocupada em explorar as injustiças do mundo em termos de suas “relações de
poder”, Bannerji parece privilegiar a escrita crítica em detrimento da ficcional. Entretanto, ler
39
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40
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57
sua obra somente como sociologia ou antropologia seria diminuí-la, porque a escrita criativa
pode adquirir um caráter crítico sem deixar de ser literatura. Atualmente, se pouco da escrita
crítica é criativa, ao contrário, muito da escrita criativa pode ser crítica (BANNERJI, 1995, p.
187). A partir desta linha de raciocínio, estamos diante da afirmação do caráter pedagógico da
literatura dessa escritora. Como professora, além de crítica e escritora, ela considera
declaradamente que as pessoas que forem anti-racistas, marxistas, feministas – pessoas que se
movem nesse espaço – são capazes de utilizar o que sua escritura diz (1995, p. 189). Assim,
Bannerji vai ao encontro da crítica de Mukherjee ao “universalismo” que sustenta a cultura do
Ocidente. Ela intencionalmente não quer que sua literatura seja assim; não quer que seja
incluída no cânone da “grande” literatura. Para a autora, as pessoas que se encontram
confortáveis demais, na verdade, têm falado muito particularmente aos seus próprios
interesses; é o trabalho, a vida e a história de um grupo de pessoas que está em posição
privilegiada de poder de decisão do que é história, do que é teoria. Se o dito “universal” é
descoberto como propriedade de um grupo de pessoas (BANNERJI, 1995, p. 198), então, é
preciso reagir a partir da auto-afirmação, de modo a escapar das categorias excludentes
conferidas pelo poder e saber dominantes.
Other Solitudes: Canadian Multicultural Fictions (1990), livro organizado por Linda
Hutcheon e Marion Richmond, pode ser considerado um dos principais responsáveis pela
inclusão de Bannerji enquanto escritora literária no interior das discussões constituintes de
uma literatura canadense de “minorias étnicas”. É neste livro que a autora apresenta pela
primeira vez ao público canadense um de seus contos: “The Other Family”. A narrativa é
seguida de uma biografia da autora e de uma entrevista crítica de Bannerji com Mukherjee.
Aqui, ambas estudiosas discutem questões relativas ao silenciamento exercido pela crítica
canadense literária dominante em relação à produção artística dos grupos minoritários, ao
apagamento de suas identidades étnico-raciais diante da imposição de uma política de
assimilação da “branquicidade” canadense, especialmente refletida na formação de seus filhos,
canadenses sul-asiáticos de segunda geração. Assim, elas introduzem a problemática de que a
cultura dominante oblitera e marginaliza suas experiências, ao passo que o discurso oficial
reproduz uma imagem do multiculturalismo enquanto uma espécie de mosaico que abriga
harmonicamente a diferença e a pluralidade.
58
Em meio a essa discussão, surge a observação de que os filhos dessas “minorias
visíveis” desejarão ser completamente assimilados, mesmo ao custo da perda de sua herança
étnica. Bannerji reconhece ser impossível reproduzir uma cultura indiana no Canadá, pois não
é passível de ser transplantada; e admite que tanto os filhos quanto seus pais enlouqueceriam
se quisessem viver como na Índia. Contudo, a escritora alega existir uma possibilidade: há
uma verdade política que é possível, uma afirmação que é possível:
Podemos apontar para as crianças o sentido/ significado de nossas vidas – que
no Canadá não se vive melhor nem pior que na Índia, mas diferentemente...
Estamos aqui. Somos diferentes do que éramos. E o modo através do qual
acredito ser possível dar sentido a toda essa situação e deixar algo para nossos
filhos, um legado, não é simplesmente por meio de uma peça de museu da vida
cultural – vestimentas, cantos e danças típicas – mas ao lhes comunicar o
significado de ser indiano no Canadá – para além da conversa étnico-cultural
(1990, p. 147).
44
Assim, através da escrita, seja de forma crítica ou criativa, Bannerji sugere justamente
resistência à cultura canadense dominante. Enquanto a linguagem puramente crítica e teórica
deve servir para articular a resistência entre os intelectuais, a literatura, especialmente a ficção,
revela-se um veículo de maior eficácia para a população de modo geral, particularmente para
as crianças.
Quanto à forma dessa escrita propriamente dita, é crucial atentarmos para o fato de que
Bannerji acredita na possibilidade de gerar o desenvolvimento de uma cultura própria, a qual
denomina “substantiva”, que escape das condições opressivas promovidas pela cultura
dominante diante das minorias étnicas. Partindo da realidade do “racismo” como ponto de
referência, a fim de defender a posição de que se deve evitar completamente falar sobre as
pessoas brancas, como uma grande parcela do feminismo simplesmente deixou de falar sobre
os homens, a escritora declara:
Não quero que os brancos dominem minha narrativa... Falarei sobre as pessoas
brancas somente na medida em que entram na narrativa dominante. Se eu
escrever um romance, não o escreverei para provar-lhes que não sou o que eles
pensam que sou... Quero escrever sobre o nosso modo de vida aqui... (1990, p.
149).
45
Com isto, a escritora refere-se não apenas ao povo indiano, mas a todos aqueles que não são
brancos no Canadá, pois somente “as pessoas que pertencem à secção dominante da população
44
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45
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59
podem fazer uma distinção entre o pessoal e o político”
46
(1990, p. 150). Cabe observar que a
rua não acaba na porta de casa para as minorias étnicas. Bannerji, por exemplo, reconhece que,
apesar de ter escrito e publicado significativamente, sua própria obra não tem sido conhecida
em termos de receber resenhas e ser ensinada em cursos de literatura ou estudos femininos.
Isto decorre da existência do que ela chama de uma “cultura da surdez” no Canadá, “no
sentido de que se pode falar à vontade, mas aqueles no poder recusam-se a lhe dar ouvidos”
47
(1990, p. 151). Diante desta realidade, a escritora crê que jamais haja algum reconhecimento
verdadeiro, pois o cânone só reconhece sua oposição no “negro”. Embora politicamente a
metáfora se aplique, pois o que quer que não seja “branco” é visto como “negro”, sua escrita
situa-se em algum lugar entre estas duas fendas como forças opositivas, pois não há tal
categoria chamada de “literatura marrom”. Nesses termos, verificamos que as idéias e
experiências da escritora não são aceitas pela crítica literária dominante justamente por
escrever principalmente para sua comunidade.
Fora do Canadá, recentemente, Bannerji foi premiada com o Rabindra Memorial Prize
2005 por seu livro Inventing Subjects: Studies in Hegemony, Patriarchy and Colonialism
(2002). O referido prêmio foi criado para celebrar a memória do primeiro indiano a laurear do
Nobel. O trabalho de Bannerji foi selecionado na categoria de reconhecimento de livros
escritos em línguas outras para além do Bengali que foquem a sociedade indiana e sua cultura.
Criado em 1950, o maior prêmio literário local, Rabindra Memorial Prize é conferido pelo
governo do estado de Bengali Oeste. Inventing Subjects, por sua vez, é uma coletânea de
ensaios escritos em uma perspectiva marxista-feminista. Os artigos tratam das diferentes
maneiras através das quais os sujeitos sociais e suas agências têm sido construídos e
representados no contexto do desenvolvimento da hegemonia colonial e das formações sócio-
culturais da Índia. Quatro de seus ensaios enfocam propostas construtivas de mudança social,
e os outros dois que completam o livro consideram a invenção ou construção da Índia
enquanto categoria ideológica reguladora, que visa impor uma identidade colonialmente
atribuída.
No que se refere aos seus textos de literatura propriamente ditos, Bannerji estreou sua
carreira como escritora com as publicações de duas coletâneas de poesia, respectivamente: A
46
Tradução nossa.
47
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60
Separate Sky (1982) e Doing Time (1986). A primeira constitui-se de traduções de poemas de
Subhas Mukhapadhyay e Shamshur Rahman, ambos poetas de Bengali. O livro apresenta-se
como uma tentativa de importar para o novo mundo uma cultura da terra natal que aos poucos
era deixada para traz. A segunda caracteriza-se como um novo passo na vida da escritora, se
considerarmos que se constitui de poemas todos de sua própria autoria. Neles, Bannerji fala do
Canadá como uma prisão construída em diferentes níveis, onde pessoas com raiva, silenciadas,
encurraladas, lutam para ganhar suas faces, vozes e poder. Porém, o tempo na prisão não é
apenas um tempo de desespero, mas um tempo de aprender a ter solidariedade, articular
estratégias e adquirir força, até que as grades sejam quebradas e as paredes derrubadas. Em
seu percurso, a partir desse momento, verificamos que a escritora parece encarar de modo
mais significativo sua condição no novo país, buscando dar formas expressivas à experiência
dos “não-brancos”, movendo-se da nostalgia para a angústia da integração. É nesse contexto
que a autora começa a consolidar uma voz crítico-criativa, situando-se entre a literatura
dominante e a de resistência negra.
Desde então, Bannerji declaradamente assume a existência de uma “luta”, de uma
“guerra de imagens”, diante da qual busca fortalecer estratégias e táticas por meio da
constituição de formas de resistência. Segundo ela, tais formas devem ser críticas, e podem,
sem problema algum, emergir através da linguagem literária. Assim, justifica-se uma espécie
de metodologia para o entrelaçamento de seu trabalho crítico e criativo. O que a autora
evidencia é que, mesmo no campo literário, para as mulheres canadenses sul-asiáticas, faz-se
essencial ser capaz de produzir e estar em uma posição para disseminar e validar imagens de si
mesmas. Para tanto, deve-se voltar as atenções às historias dos sul-asiáticos no Canadá como
imagens que forneçam a “terceira dimensão” de sua luta contra aquelas que tanto expressam
quanto criam as condições de sua dominação. Essa escrita que recusa ser arte pela arte, que
pretende-se, objetiva-se, reflete-se enquanto arte “engajada”, que assume um posicionamento
– inclusive desestabiliza a crença na neutralidade da arte por ela mesma – essa poesia crítica
nos abre espaço para uma questão recorrente, a mesma que Parameswaran (1995, p. 13) fizera:
“onde se desenha a linha do pertencimento?”
O reconhecimento da escrita de Bannerji pode ser comprovado por uma parcela crítica
que tem lhe dedicado atenção, especialmente a partir da segunda metade da década de 1990.
No âmbito da narrativa ficcional, apesar de não possuir uma extensa produção, a obra literária
61
dessa escritora canadense sul-asiática contém frutos inegáveis, o que se demonstra por meio de
uma fortuna crítica considerável. Conforme demonstra Kain (2000, p. 10), nos estudos sobre
imigrantes canadenses e mulheres escritoras canadenses, passagens dedicadas a Bannerji são
comuns, mas estudos comprometidos exclusivamente com sua obra são escassos. Em 1987,
Marlene Nourbese Philip apresenta o artigo “Hard Time, Maximum Time: The Poetry of
Krisantha Sri Bhaggiyadatta and Himani Bannerji”, na revista South Asian Review 5. Esta é a
primeira referência oficial à produção literária da escritora, a qual no momento limitava-se à
poesia. Em 1994, encontramos o ensaio crítico “‘Some Kind of Weapon’: Himani Bannerji
and the Praxis of Resistance”, de Roshan G. Shahani, publicado em um livro sobre política
cultural feminista. Na edição de 1996 de Intersexions: Issues of Race and Gender in Canadian
Women’s Writing, a escritora é retratada em artigo da revista, intitulado “Breaking the Circle:
Recreating the Immigrant Self in Selected Works of Himani Bannerji”, de Susan Jacob. Um
ano mais tarde, em 1997, Stan Dragland publica o artigo intitulado “Other Reading: Himani
Bannerji’s ‘The Sound Barrier’”, na revista The Toronto Review of Contemporary Writing
Abroad 15, consolidando Bannerji enquanto escritora primordialmente crítica. Neste mesmo
ano, Alka Kumar traça um perfil maior da escrita literária que já se demonstrava em forma de
prosa, através do artigo “Voicing the Other: Himani Bannerji’s Poetics of Protest”, na revista
Central Institute of English and Foreign Languages Bulletin 9.
Dentre os estudos referidos, cabe aqui voltarmo-nos de modo especial para a recepção
crítica de Shahani e de Jacob, antes de procedermos à apresentação dos textos em si. Shahani
aborda a poesia de Bannerji, enfatizando qualidades que também tipificam sua ficção. Sua
poesia, de acordo com o crítico, é distinta da maioria das outras poesias publicadas por
imigrantes “étnicos” no Canadá que são confortavelmente sancionadas pela política oficial do
multiculturalismo (1994, p. 180). Ao invés de nostalgia pelo lar deixado, ou lamentações por
uma identidade cultural perdida, a obra de Bannerji “interroga a ideologia cultural e política
do estado, o qual é visto por ela como sistematicamente capaz de difundir e desmontar
energias opositivas, sob o rótulo do multiculturalismo”
48
(SHAHANI, 1994, p. 181). Seu
trabalho é retratado como a “crítica de um sistema, não a reclamação de um problema
48
Tradução nossa.
62
localizado”
49
(SHAHANI, p. 1994, p. 183). Além disso, Shahanti aponta para o realismo
insistente de Bannerji em sua poesia, do mesmo modo que o faz em seu empenho teórico e em
sua ficção. Por sua vez, Susan Jacob mapeia os temas de opressão racial e de gênero na ficção,
na “não-ficção” e na poesia de Bannerji, oferecendo uma apresentação da autora, ao citar
diversas passagens que esclarecem seus pontos de vista. Como Shahanti, Jacob (1996) observa
a impaciência de Bannerji para com símbolos e metáforas e sua relutância em perpetrar as
noções dominantes das experiências de imigrantes. Ao contrário disto, Jacob demonstra que
Bannerji assume realidades tais como o sexismo e o racismo sob o conceito do imperialismo,
em oposição à ideologia e à estética antiimperialista.
Com relação à obra narrativa de Bannerji, ela é basicamente constituída por contos.
Até os dias atuais, produziu somente um romance, intitulado Coloured Pictures (1991),
destinado especialmente ao público infanto-juvenil, obra que confronta a problemática do
racismo no Canadá. Através das aventuras de Sujata, uma menina canadense sul-asiática, e
seus amigos, essa narrativa nos faz testemunhar a capacidade da juventude de encarar a vida
com coragem e também com humor. É ela, Sujata, menina de treze anos de idade, que
bravamente inicia uma discussão sobre racismo em sua sala de aula e enfrenta um valentão
local que ataca a ela e seus amigos. Assim, trata-se, por um lado, da ignorância e do
preconceito presente na sociedade canadense, e, por outro, do poder da organização coletiva. É
uma trama inteligente que se faz relevante para adolescentes de todas as etnias, e certamente
inspira discussões reflexivas sobre o “racismo”, dentro ou fora da sala de aula.
No que diz respeito aos contos, a escritora não possui uma coletânea que os reúna
todos. Seus títulos encontram-se espalhados em antologias de escrita de mulheres imigrantes, e
variam desde “The Day It Rained” (1978), “Story of a Birth” (1983), “The Other Family”
(1990), “The Moon and My Mother” (1996), “The Colour of Freedom” (1998) e “On a Cold
Day” (1999), “Going Home” e “Officer Bill Comes Again”. Segundo recente contato
realizado com a autora, ela demonstra permanecer escrevendo literatura, mas alega ter
encontrado crescente dificuldade para publicá-la. Dentre as referidas produções literárias, o
presente estudo ocupa-se apenas com parcela da obra narrativa da autora. Particularmente,
interessa-nos abordar os contos “The Other Family” e “On a Cold Day”. Ambos publicados
49
Tradução nossa.
63
em antologias de escrita canadense feminina, tais contos se fazem exemplares para o
entendimento de nossa proposta de abordagem do caráter pedagógico da literatura de Bannerji.
Cabe ressaltar que tal viés analítico faz-se singular. Até o momento, sua fortuna crítica ainda
não desenvolveu um argumento que desse conta das decorrências pedagógicas da recepção de
sua literatura. A seguir, é justamente nessa perspectiva interpretativa que embarcaremos.
O primeiro conto a ser analisado neste capítulo (obedecendo a cronologia), “The Other
Family” representa a narrativa ficcional de maior repercussão da autora em questão. Publicado
pela primeira vez no livro Other Solitudes (1990), o conto foi reimpresso, quatro anos mais
tarde, em World Literature (1994) nº 5 e em Insights: Immigrant Experiences (1994), e ainda,
no próximo ano, em A Multicultural Reader (1995). Por sua vez, “On a Cold Day”, obra de
ficção mais recente, veio aos olhos do público pela primeira vez na antologia Her Mother's
Ashes (1994), primeira edição de um livro que reúne contos de diversas mulheres canadenses
sul-asiáticas; mais tarde, foi reimpresso em Canadian Women's Fiction (1999).
Fruto de apresentação de trabalho no IV Congresso Internacional da Associação
Portuguesa de Literatura Comparada (2001), Manuela Marujo, portuguesa, pesquisadora na
Universidade de Toronto, aborda de forma panorâmica a produção ficcional de Bannerji, em
publicação intitulada “Vozes Multiculturais de Escritores Canadianos”, situando-a ao lado dos
contemporâneos Joy Kogawa (1935-), William Dempsey Valgardson (1939-), Tomson
Highway (1951-) e Erika de Vasconcelos (1965-), escritores minoritários “cujas vozes estão
matizadas pela cor das suas raízes”, os quais foram escolhidos pela autora por uma seleção
baseada “em preferências pessoais” por autores cujas visões a “sensibilizaram” ou “abriram
universos desconhecidos na paisagem do vasto e fascinante espaço literário-cultural canadense
de escritores contemporâneos” (2001, p. 4-5). Neste trabalho, além de apresentar os dados
biográficos e a bibliografia literária de Bannerji, destacando-a como professora de sociologia
que tem publicado contos, poesia e artigos em revistas diversas, Marujo enfatiza de modo
especial que sua narrativa “The Other Family” levou-a a ocupar um lugar bem visível na
literatura de vozes multiculturais, porque “todas as questões que aos pais de crianças de
‘minorias visíveis’ se colocam no contexto de suas vidas no Canadá, estão exemplificadas na
história” (2001, p. 8).
Maria Conceição Monteiro (2006), brasileira, professora da UERJ, em “Visões
narrativas do migrante e seu processo de integração”, aborda “On a Cold Day” a partir de
64
noções preliminares que se baseiam no ensaio de Bhabha (2002) intitulado “The world and the
home”. No conceito pós-colonialista “unhomely” (traduzível por “estranho”, “desenraizado”
ou “sem lar”) – um sentimento que se apodera do sujeito, furtivamente, como se fosse a sua
própria sombra, levando-o a ver o lar com terror – diferentemente da conhecida “homeless”
(“sem teto”), Monteiro encontra um viés teórico para analisar o conto de Bannerji, ao lado do
romance The Unbelonging da escritora negra Joan Riley, britânica nascida na Jamaica. A
autora destaca na narrativa de Bannerji particularmente a “angústia do deslocamento cultural”.
Nas suas palavras: “‘On a cold day’ começa em media res e é, então, transformada num palco
de experiência de deslocamento cultural, de identidades partidas e apropriadas e da sua
reconstrução através da morte, como revivenciamento da história” (MONTEIRO, 2006, p. 4).
A seguir, abordamos os referidos contos com a finalidade de evidenciar a relevância
dessa escritura ficcional para a cultura canadense. Especialmente, faz-se interessante observar
os aspectos presentes na ficção de Bannerji que subsidiam uma compreensão dessa literatura
canadense de “minoria visível” em termos dos processos de dominação cultural, pois o
produto literário narrativo da autora possui um compromisso com a desconstrução de
estereótipos raciais discriminatórios, capaz de motivar um desafio ao discurso nacionalista
canadense, ao focalizar em instâncias da agência ou resistência dos canadenses sul-asiáticos
enquanto grupo étnico minoritário. Nesse sentido, vale notar o modo como essa ficção
objetiva não só a denúncia da opressão sofrida pelos sul-asiáticos no Canadá, mas também a
transformação desta situação, por meio de uma articulação dessas vozes. Mais
especificamente, o caminho interpretativo dos elementos ficcionais espaço e personagens que
nele e com ele (inter)agem nos leva aos fatores que permitem identificar o caráter pedagógico
dessa literatura. Assim, seguimos uma exploração dos elementos simbólicos que estruturam os
textos, em busca de respostas para a maneira como o espaço é configurado e para a forma
como as personagens são construídas nesse espaço, ou a partir dele.
2.2 ATRAVÉS DO ESPELHO: O RE-CONHECIMENTO
65
“The Other Family”
50
trata de uma família canadense “não-branca” composta pela
filha e sua mãe; por motivos não referidos, o pai não se faz presente na história. De acordo
com a linearidade cronológica dos acontecimentos, a ação da narrativa tem início quando a
mãe espera por sua filha que retorna da escola, em um final de tarde. Em casa, a criança
mostra à mãe o desenho que havia feito em uma atividade de aula. Ao se deparar com tal
desenho, a mãe da menina reage com indignação e tristeza. A criança, sem entender a reação
da mãe, a fim de acalmá-la, revela que simplesmente o havia copiado de um livro escolar, e
que de fato todos os livros na escola possuíam aquele mesmo tipo de representação familiar.
Porém, furiosa, a mãe discute com a menina na tentativa de lhe explicar que sua família não
compartilhava daquela aparência. O desenho, que supostamente representava o retrato de sua
própria família, na verdade, reproduzia um modelo “branco” de família canadense.
Após este acontecimento, a mãe da menina entra em um estado psicológico de
depressão e culpa, não apenas pela situação de apagamento da identidade sul-asiática de sua
filha pela escola, mas também por sua indelicadeza com a própria filha; “por ter sentido ódio
da filha em seu próprio medo de rejeição” (p. 142). Enquanto isso, a criança dirige-se para seu
quarto, supostamente para dormir. Contudo, depois de perceber que sua mãe havia ido dormir,
a menina levanta-se, vai até o banheiro, despe-se e analisa-se atentamente em um espelho de
corpo inteiro. Neste momento, ela enxerga o quanto se configura diferentemente daquela
representação que havia desenhado, uma mera cópia da figura do livro escolar que não a
incluía de fato. No dia seguinte, na sala de aula, a jovem menina pede a permissão da
professora para terminar seu desenho, explicando-lhe que aquela figura não estava acabada.
Finalmente, após uma intensa dedicação, a menina entrega à professora a nova figura: uma
família de “pele e cabelos escuros [dark]”, ao lado da anterior (p. 145). No entanto, a
professora demonstra não compreender o desenho, ao questionar à menina que família era
aquela, para o que a menina responde de súbito que se trata de sua “outra” família.
Narradas por meio de uma onisciência em terceira pessoa, ao longo de todo o enredo,
as ações da narrativa progridem de forma linear, com uma predominância descritiva dos
lugares e acontecimentos, de modo que as personagens se expressam diretamente através do
50
O texto encontra-se originalmente em língua inglesa, e todas as citações a seguir são resultantes de nossa
tradução para o propósito único do presente trabalho. Uma possível tradução para o título do conto é “A Outra
Família”.
66
discurso direto. Os estados psicológicos e a atmosfera do ambiente somente são enfatizados
em sua relação com o espaço. Na relação de tempo e espaço construída no universo ficcional
da narrativa, este ganha maior relevância do que aquele conforme desmembramos o caráter
pedagógico do conto. Nesse sentido, interessa-nos pensar a configuração das personagens em
sua relação mais com o espaço do que com o tempo da história a fim de entendermos esta
enquanto uma “ficção pedagógica”. Na medida em que a ênfase no espaço é maior do que no
tempo em que o enredo se desenvolve, este pode ser visto como remetente à realidade social
do momento histórico atual canadense; por esta razão, não precisaria receber tanta atenção
quanto o espaço das relações. Em outras palavras, a fim de retratar as experiências que vivem
certos grupos de imigrantes no Canadá, faz-se mais importante explorar o contexto das
relações sociais nos espaços de opressão e jogos de poder do que especificar o tempo em que
ocorrem, pressuposto como um tempo “qualquer” no presente.
Considerando a narração como eixo estruturante do discurso ficcional, ao colocar em
cena uma jovem protagonista que vive uma experiência de formação pedagógica, movendo-se
no interior das instituições Família e Escola enquanto ambientes de aprendizagem, cabe notar
que o conto estabelece uma relação pedagógica que se dirige também para “fora” – ao leitor.
Isto é, a instância narradora assume para o narratário um papel intrinsecamente semelhante ao
da escola e da família para com a protagonista. O conto faz o leitor imergir em um ambiente
de ensino-aprendizagem, que o instiga a refletir especialmente sobre o modo como é ser “não-
branco” em um espaço em que o “branco” é dito “universal”. Por outras palavras, o narratário,
ao testemunhar a experiência de ausência de representação, apagamento identitário e não-
pertencimento, protagonizada por essa família, torna-se motivado a possuir consciência racial
e, conseqüentemente, reconhecer as condições de opressão sob as quais vivem determinados
grupos minoritários no Canadá.
Nessa perspectiva espacial, se as relações de poder trazidas para o universo ficcional
estabelecem-se mais no âmbito social, coletivo, do que no individual, é importante ver como
tais relações ocorrem entre as diferentes instâncias e segmentações sociais (neste caso, de
modo especial entre Família versus Escola), e não apenas entre os indivíduos. Constituindo-se
essencialmente na relação entre as personagens da protagonista menina-filha-aluna de sua mãe
e sua professora como forças educativas em contraste, a narrativa se tece na tensão entre as
autoridades (ou ideologias) promovidas pelos espaços das referidas instituições sociais,
67
incidentes na formação identitária da jovem menina – filha de imigrantes “não-brancos” no
Canadá. Este tensionamento é construído textualmente através das personagens mãe e
professora nas suas relações com a menina, na medida em que esta assume a priori um papel
de filha e aluna em fase de formação identitária.
Diante de tais circunstâncias, por causa do maior condicionamento do ambiente
externo das relações na formação das personagens, faz-se mais pertinente uma exploração da
configuração dos espaços da narrativa anteriormente à abordagem das personagens
propriamente ditas nas suas relações com o meio e entre si. O núcleo conflitivo se estabelece
justamente na medida em que a personagem mãe diverge da educação promovida pela
instituição de ensino, e esforça-se para esclarecer sua posição para a filha. No entanto, apesar
dela perceber a si mesma como impotente diante de um sistema educacional que foge de seu
controle, ela desempenha um papel crucial na formação da filha: o de ensiná-la a afirmação de
sua identidade étnica diante da invisibilidade motivada pela escola. Decorre disto que o
apagamento da diferença, reproduzido pela menina no primeiro desenho, adquire condição
oposta em sua segunda versão. Porém, cabe uma ressalva: devido à mudança demonstrar-se
em nível individual, pela ação da menina, mas não haver mudança de percepção por parte da
professora – a qual representa o coletivo por meio da instituição escolar – o auto-
reconhecimento da protagonista, enquanto “não-branca” e, assim, diferente, será justamente o
fator responsável por instaurar na menina um sentimento de não-pertencimento ao espaço
canadense.
Ao predominar o espaço sobre o tempo no decorrer dos acontecimentos da trama,
torna-se importante levar em conta a relação que se estabelece na narrativa entre os espaços do
“dentro” e do “fora” no interior do universo ficcionalizado. O entendimento do modo como se
configuram os espaços interiores e exteriores, internos e externos no contexto da história
narrada, nos permitirá estabelecer diferentes ambientes de ensino e aprendizagem e distintas
relações de poder (e saber) no interior das quais a protagonista se move, ou é movida, e para
dentro dos quais o narratário também é transportado. Partindo da lógica binária estruturante do
pensamento da filosofia ocidental, lógica esta que se reflete inclusive em nossas escolhas
lingüísticas, é possível pensar que a narrativa se constrói na tensão entre os espaços do privado
e do público, da casa e da rua, da família e da escola, da mãe e da professora diante da filha; o
68
que, por sua vez, implicaria uma oposição entre branco versus não-branco como sinônimo de
canadense versus imigrante, pertencimento versus não-pertencimento.
De modo geral, embora a ação do enredo desenvolva-se predominantemente no espaço
interno da casa, é o ambiente escolar, no qual temos a menina como aprendiz e a professora
como educadora, que nos proporcionará conferir um teor pedagógico também ao espaço
familiar, em que a menina assume uma posição de aprendiz diante do papel educativo de sua
mãe. No inter-relacionamento dos ambientes internos e externos, a situação inicial da história
apresenta um movimento de “fora” para “dentro”: do espaço externo da rua para o espaço
interno da casa ou da família, quando a menina está chegando em casa da escola. Esta
configuração inicial, a qual funciona também como uma apresentação das personagens mãe e
filha, demonstra que a filha vive um espaço para além das relações familiares, o qual é trazido
para o interno. A filha, neste sentido, ocupa tanto o espaço privado quanto o espaço público
das relações. Neste aspecto da protagonista reside o ponto de conflito central da trama. A mãe,
no entanto, é mostrada somente no espaço das relações privadas da menina, ocupando o
espaço da casa, da família, não havendo indícios no conto de que a mãe possua alguma outra
relação com o ambiente externo canadense senão através da personagem filha.
A casa ou lar, enquanto espaço da família, ocupa o nível privado das relações da
protagonista. Porém, este espaço, no qual se acredita como refúgio dos imigrantes – o único
lugar em que ainda seria possível manter e viver a cultura do país de origem de modo não-
problemático – é mostrado na narrativa como desestabilizado por forças externas, justamente
através da personagem da menina-filha-aluna. Esta, ao apresentar à mãe o desenho que havia
realizado em sala de aula, reproduzindo em casa o que havia aprendido na escola, torna esta
última ciente de que não detém poder absoluto sobre a formação da filha. Assim, o espaço
privado das relações familiares se descobre enquanto entidade social que vive uma tensão
entre o interno e o externo a qual ultrapassa o plano individual de controle sobre si mesma.
Isto é, a família da protagonista desvela-se como problematicamente moldada na interação
com outras forças sociais e políticas, e o desenho é o elemento de conflito que torna possível
tal fato.
A sala de aula ou a própria escola, enquanto espaço de ensino e aprendizagem, ocupa o
nível público das relações da criança, protagonista do conto. Diante do espaço privado da casa,
no qual encontramos a relação da mãe e da filha enquanto uma família, a escola, como espaço
69
exterior, assume um papel de sujeito/ objeto em terceira pessoa, um “eles” que quis que a
menina desenhasse “a” família. Este “eles”, discursivamente presente no texto por meio da
voz da personagem mãe, remete-nos constantemente à instituição de ensino enquanto entidade
capaz de conferir maior “autoridade” ao desenvolvimento da subjetividade da criança do que
sua própria mãe tem tido até o momento: pois “eles tinham poder para acabar com pequenas
pessoas como ela [a filha] a qualquer hora que quisessem (...) e no mundo deles aquela era a
figura da família” [grifo nosso] (p. 143). Este lugar, em que temos a menina como aprendiz e a
professora como educadora, opõe-se à família, ou à casa, enquanto espaço igualmente
pedagógico, em que temos a menina como aprendiz e, desta vez, a mãe como educadora; esta
particularmente resistente à cega assimilação da filha no ambiente escolar.
Na medida em que, “gostasse a mãe ou não, (...) aquela era, sim, a figura certa” (p.
143), podemos atribuir um caráter de força opressora ao sistema educacional canadense, o
qual “definitivamente colocava-se numa posição de autoridade, daquele mundo incontrolável
ainda que organizado imediatamente lá fora” (p. 143). Sendo nesse espaço público que o
apagamento da diferença étnica daquela família se realiza, evidenciamos a instituição escolar,
enquanto entidade sócio-política, como fator responsável pela eficácia da imposição cultural
na subjetividade da personagem protagonista. Embora ficcionalmente, através de sua
verossimilhança, o texto parece dialogar com uma realidade social que certos grupos étnicos
confrontam no Canadá, ao denunciar a cultura canadense como impositiva de um ideal racial
pré-determinado – um pensamento social estereotipado – que as crianças – sejam elas
oprimidas ou opressoras – acabam por reproduzir de modo condicionado e automático.
Portanto, no conto, a escola canadense, enquanto instituição de ensino, é retratada
como reprodutora de um discurso de homogeneidade no que tange à identidade nacional. Tal
perspectiva é instauradora de um ambiente acrítico incapaz de reconhecer diferenças e
particularidades étnico-culturais. A ignorância da professora, quando recebe a segunda versão
do desenho, ao não reconhecer aquela “outridade” da menina, indica o que está errado: um
ensino que fecha os olhos para as realidades do “aqui e agora” em favor de si próprio.
Metonimicamente, o conto pode ser visto como exemplo da dominação cultural que o ocidente
exerce sobre os cidadãos de “outras” ascendências étnicas.
Porém, este mesmo espaço público da escola possui no ambiente pedagógico da sala de
aula um lugar de confluências de idéias diversas as quais podem utilizá-lo para escapar do
70
silenciamento, do apagamento das diferenças. Desse modo, é o espaço da sala de aula o lugar
das relações públicas da protagonista que lhe proporciona objetivar sua percepção da
alteridade, quando ela se depara com “crianças de todas as cores, de todos os tipos de formatos
de narizes e de diferentes cores de cabelo” (p. 145). A construção desse ambiente de reflexão,
aprendizado e (re-)conhecimento no interior da narrativa pode ser relacionada com um tópico
que retomaremos em breve: o esquema lacaniano de imaginário, referido por Bhabha (1998)
em “A Outra questão: o estereótipo, a discriminação e o discurso do colonialismo”.
Logo, torna-se possível verificar também que aspectos negativos e positivos são
conferidos, respectivamente, aos espaços externos e internos em questão diante daquela
família. Verificamos que apesar de a menina haver mudado sua auto-percepção, isto não
efetuou uma mudança de representação no plano do espaço público pelo simples fato de ter se
afirmado perante a professora. Decorre daí que o espaço interno da casa ou da família
demonstra-se capaz de reagir às interferências do ambiente externo nos planos subjetivos dos
indivíduos que nela se encontram; no entanto, o inverso, isto é, uma verdadeira interferência
destes indivíduos na realidade externa, neste caso da menina não-branca na escola, não se
concretiza porque o plano coletivo das relações sociais depende não somente do sujeito em sua
relação com os outros, mas de forças sociais, políticas, culturais, dentre outras, que, apesar de
serem construtos dos indivíduos, necessitam de organização coletiva para sua transformação.
Assim, ao trazer à tona indivíduos que confrontam a problemática do racismo em sua
realidade social, apesar de não conseguir mudá-la, o conto é positivo na sua ação de
engajamento pedagógico, na medida em que demonstra que precisamos mudar a nós mesmos,
primeiro passo rumo ao engajamento na mudança coletiva.
Quanto à configuração das personagens, e a ligação destas com seus espaços de
relacionamento na trama, a personagem da criança é o elemento ficcional de maior
importância para o desmembramento da textura do conto. Ela merece maior atenção por
protagonizar os acontecimentos da narrativa, e, assim, ocupar o maior espaço-tempo na
narração. Apesar de não ser nomeada ao longo de toda a narrativa, a figura da protagonista
assume diversas representações no material narrado (mais do que em seus diferentes
momentos, é importante pensar em seus diferentes espaços), constituindo um jogo de
alteridade: é criança, é menina, é filha, é aluna. Tais características manifestam-se nos
diferentes espaços de convivência entre a casa e a sala de aula, e variam conforme os sujeitos
71
em interação, podendo os diferentes aspectos da identidade da protagonista afirmarem-se ou
rejeitarem-se de acordo com cada situação.
Neste contexto, temos na criança-menina-filha-aluna o sujeito da ação que vive ambos
os espaços do “dentro” e do “fora” no universo narrado, ocupando o espaço de dentro e fora da
janela – elemento simbólico tanto desta divisão espacial e cultural quanto do pertencimento
duplo da menina, canadense (e) sul-asiática. Na multilateralidade da relação casa versus sala
de aula, a protagonista assume uma conotação de ponto de encontro das autoridades
divergentes da família não-branca marginalizada e do estado-nação canadense racista – em sua
expressão educativa. Dessa forma, a criança cumpre uma função desencadeadora do núcleo
conflitivo entre as personagens mãe versus professora, principais objetos e sujeitos de sua
convivência, os quais são mostrados como portadores de autoridades antagônicas que incidem
sobre a formação da protagonista.
Conseqüentemente, ocupando tanto o espaço privado quanto o espaço público das
relações, ao ter autoridades em tensão incidentes sobre sua formação, a protagonista é o ponto
de conflito da história: representa o terrível custo do processo de assimilação da cultura branca
dominante ao ser educada no Canadá. Em fase de desenvolvimento de seu imaginário, ela
representa conflito (identitário) diante da educação promovida por sua mãe (como possuidora
de uma ideologia já formada) em contraste ao conhecimento reproduzido pela escola (como
representante da ideologia nacional presente no sistema educacional canadense). Através dessa
personagem, ao acompanharmos seu processo reflexivo, somos instigados a perceber que a
identificação de um sujeito não se dá automaticamente, dependendo da forma como é
interpelado ou representado nas relações sociais. É neste sentido que o conto torna-se “agente
de conhecimento” (SPIVAK, 1991) para o narratário – assim como a mãe tornou-se para a
filha – especialmente para aquele que se encontra em condições iguais ou semelhantes às da
protagonista, da mãe, da professora.
Na relação da criança com a escola, verificamos que, por meio do desenho que leva à
casa, aquela perde a sua identidade étnico-racial devido à ausência de reconhecimento do seu
“eu” pela instituição social. Assim, configura-se uma imposição cultural, mesmo que para a
professora esta seja uma prática não-consciente. Estamos diante de um ato de pressão
sistêmica que molda subjetividades, pois a escola desempenha o papel social central na
construção do conhecimento e da consciência de mundo para a criança em desenvolvimento,
72
e, neste sentido, deveria promover as condições essenciais de inclusão e democratização das
oportunidades. Ainda, é valido notar, pela resposta final da menina à professora, após a
entrega do segundo desenho e o seu questionamento, que a criança, mesmo ao ter se
reconhecido e afirmado como não-branca, construiu uma visão sobre si própria a partir da
ótica do discurso do colonialismo, ao ver sua identidade familiar não-branca como estranha,
ou seja, “outra”. Logo, é possível percebermos que o processo de movimento identitário da
protagonista resulta em hibridismo cultural que em nenhum momento é enaltecido na
narrativa, extraindo-se apenas uma percepção negativa do encontro desses dois mundos
desiguais e assimétricos. De fato, a condição híbrida é recalcada em nome de uma tradição
mitificada, essencializada e homogeneizada que reafirma a pureza identitária como única
forma legítima do ser.
Por sua vez, ao papel desempenhado pela personagem da mãe, que ocupa o espaço da
família nas relações com a filha, podemos conferir uma compreensão de resistência ao modo
como ela e sua família são representadas pela escola, ou melhor, o modo como são anuladas
da representação no discurso reproduzido pela instituição escolar da filha. Ao ocupar o espaço
das relações privadas da menina, a mãe, conhecedora de uma outra realidade de vida, como
tivera em sua terra de origem, demonstra sentimentos de não-pertencimento ao espaço
canadense. Esses fatores justificam a culpa que a mãe assume pelo estado da relação que não
apenas a faz sentir a filha distante de si, mas também se sentir estranha diante da própria filha.
O olhar da mãe sobre sua filha como uma “figura solitária” (p. 141) evidencia a reflexão sobre
a “solidão” da própria mãe, através da representação absolutamente estranha e distanciada da
relação com sua filha. Ao apresentar a menina, observada por sua mãe, o narrador introduz as
preocupações e inseguranças de uma psique abalada, em crise. A cena que dá início ao conto,
na qual a mãe assiste pela janela da casa a filha voltando da escola, seguida de um jantar, pode
ser vista como desempenhando a função de apresentar ao narratário essa subjetividade
desestabilizada da personagem mãe em relação à filha.
Logo, a mãe, personagem adulta, diferentemente da filha-menina-aluna, pode ser vista
como uma mulher que transparece a consciência dos imigrantes os quais, condicionados à
73
marginalidade, sofrem a experiência do “exílio”
51
. Ao que os indícios narrados indicam, a mãe
é imigrante que se mudou para residir no Canadá quando já adulta. Ela representa o anseio
pela terra natal, pelo “lar” deixado para trás, e a dor do deslocamento, da vida em trânsito, da
adaptação, dentre outros aspectos. Entretanto, ainda que, por um lado, verifiquemos uma
relação desta personagem como representativa dos sentimentos afetados de “pertencimento”
de imigrantes “não-brancos” que vivem sob a (o)pressão da marginalidade do discurso
hegemônico da cultura européia dominante, no estado-nação canadense, por outro, a mãe não
pode deixar de ser vista como a possibilidade de resistência contra a imposição cultural que se
expressava no desenho da filha – resistência esta motivada em grande parte pela própria
consciência abalada. É nesse sentido que a personagem “mãe” desempenha um papel
definitivo na mudança da auto-percepção da filha, ao se empenhar na conscientização desta
quanto às suas verdadeiras posições enquanto sujeito social múltiplo. Além disso, a mãe está
literariamente construída de modo a representar metonimicamente uma resistência contra a
perda de identidade étnica de todo um contingente de imigrantes não-brancos no Canadá.
Em contraposição à mãe, a personagem da professora, ao representar a instituição
escolar, não simplesmente ocupa o espaço das relações públicas da menina, mas também é
estabelecida enquanto sujeito educador, responsável pelo processo pedagógico da menina em
âmbito das relações sociais, coletivas. Em última instância, sendo a professora o elemento
responsável pelo desempenho e eficácia do sistema educacional canadense, ela torna-se sujeito
de reprodução do nacionalismo canadense. Logo, a invisibilidade da identidade étnica da
menina, ao ser representada no discurso da personagem “professora”, torna esta, por sua vez,
uma metonímia das condições “racistas” reproduzidas pela Escola, ou pela Educação
canadense. Neste sentido, faz-se necessário remetermo-nos ao desenho, que constitui o
elemento da trama desencadeador da tensão entre mãe versus professora, Família versus
Escola, imigrantes não-brancos versus Canadá.
O desenho caracteriza-se como o objeto de conflito da trama narrativa, porque
representa uma família canadense “branca”, isto é, um estereótipo do modelo legitimado pelas
culturas dominantes de ascendência européia no Canadá, ditas puras – francesa e/ou inglesa.
51
Como no sentido que Said confere ao termo, em “Reflexões sobre o exílio”: “uma fratura incurável entre um
ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. (...)
As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre” (SAID,
2001, p. 46).
74
Tal representação imagética, que se trata mais de uma fantasia (estereótipo do discurso
nacional) do que de uma realidade, especialmente no que diz respeito à família de imigrantes
colocada em cena no conto, torna-se a mola propulsora da discussão “mãe versus filha” e da
conseqüente mudança de auto-percepção desta a partir dessa ocorrência. Apesar de
desestabilizador, ao reforçar os sentimentos de distância e estranhamento da mãe com relação
a sua filha, é o desenho que motiva a mãe a dar uma resposta à situação em que já se
encontrava. Além disso, a condição de assimilação é reiterada nas palavras da menina para sua
mãe, quando retrata a atividade como proposta cotidiana de sala de aula: “desenhamos figuras
como fazemos todos os dias. Nunca estudamos algo.” (p. 142), e em seguida, ao tratar
especificamente daquela figura, declara: “Eu a desenhei de um livro, (...) todos os nossos
livros têm esta mesma figura da família. Você pode ir e ver por si mesma. E todos a
desenharam também. Você pode perguntar a nossa professora amanhã. Ela gostou do
desenho!” (p. 143).
Diante do desenho, em um primeiro momento, a personagem da mãe sente-se distante
como se estivesse olhando sua filha “pelo lado oposto de um telescópio” (p. 142). Tamanho
havia sido o seu choque, que “Ela não conseguia falar de modo algum” (p. 142). Na medida
em que as palavras faltam, o silêncio da mãe remete-nos ao tabu – não-dito, apagado – do
imigrante não-branco no Canadá. Frente àquela cena desestabilizadora, a mãe reage com um
forte apelo às características físicas, especialmente às cores, utilizando-se dos mesmos
significantes colonialistas tão cruciais na construção do discurso que moldava a subjetividade
da filha. Para afirmar sua “diferença” étnico-cultural, a mãe demanda de modo inquisitivo à
filha que ela entenda que não se fazia representada naquela figura que havia copiado de um
livro escolar, alegando que ela, sua filha e seu pai eram “de pele escura, cabelo escuro (...),
olhos pretos (...)”, e não “pele branca, (...) olhos azuis e cabelos loiros (...)”, como mostrava a
figura (p. 143).
Esse fato nos remete à cena introdutória do conto: a mãe que assiste a filha retornando
da escola. Há um elemento central na composição do ambiente, o qual ainda não foi
devidamente tratado aqui. A mãe observa a filha através da janela da casa. Situação
significativamente simbólica, tal evento caracteriza logo de início a existência de uma certa
“barreira” entre a mãe e a filha; porque esta vive a experiência do “fora” (de casa). É por isso
que a mãe constrói a imagem absolutamente diminutiva e alienante da própria filha, ao
75
percebê-la primeiramente como uma “pequena figura encapuzada caminhando em direção à
casa,” e refletir que ela parecia mais a imagem de uma “sombra” que quase sumia naquele
“final de tarde”: “aquela criança, sua própria, quão pequena e insubstancial parecia, e quão
sozinha, caminhando sobre um pavimento coberto com gelo e neve!” (p. 142). Assim,
estabelece-se uma forte relação de contraste entre as culturas canadense e a da família
imigrante, transpassada pela subjetividade da mãe. Baseando-se na oposição branco versus
não-branco – aqueles códigos de significação cultural – a mãe utiliza-se de seu imaginário
para contrastar sua infância àquela imagem da filha, a qual era “tão diferente (...), tão longe do
sol, das árvores, das ruas cheias de gente de seu próprio país” (p. 142).
Ao enunciar, indignada, o seguinte questionamento para a filha: “Esta é a família que
você gostaria de ter? Você não nos quer mais? Você quer ser uma garota branca?” (p. 143), a
mãe é tomada por sentimentos contraditórios e sofre com o fato de ter olhado com raiva para a
sua própria filha quando, de fato, havia sido motivada por seu próprio medo de ser rejeitada
por ela no futuro. Este fator demonstra que o poder da mãe para com a formação da filha
parece limitar-se à esfera privada de suas relações, de tal modo que a ela é conferido um
estatuto de absoluta inferioridade e impotência diante da (im)possibilidade de transformação
da subjetividade da filha. Isto é, ela percebe a instituição de ensino como capaz de conferir
maior “autoridade” ao desenvolvimento subjetivo da filha do que ela própria até o momento.
Portanto, o desenho, como discurso apreendido e reproduzido pela menina, vem a
representar o custo da assimilação do discurso nacionalista canadense. A relação que se
estabelece a partir da figura mostra a falta de noção da filha não apenas quanto ao seu
processo de aculturação, mas também aos sentimentos abalados de sua mãe. Se levarmos em
consideração que foram “eles” que quiseram que ela desenhasse “a família”, confirmamos o
caráter impositivo do discurso do colonialismo, remanescente no Canadá, sendo imposto e
perpetuado através do sistema educacional e cultural, expressos respectivamente na escola e
em seu livro (do qual a menina retira o desenho); especialmente disto decorre que a formação
identitária da filha ultrapassara os limites de seu próprio controle e o de sua mãe. Assim, a
reação da filha diante do desenho, ao demonstrar que não compreendeu onde “errou”,
alegando para sua mãe que a professora havia gostado, transparece que ela, embora não tenha
consciência do fato, reproduz o discurso imperialista – impositivo, arbitrário, hierarquizante,
76
homogeneizante e excludente – motivado e legitimado pelos resquícios colonialistas que se
revelam no discurso escolar canadense.
Por outro lado, o desenho final produzido pela menina e apresentado para a professora
no próximo dia de aula possui uma significação de extrema importância para o desfecho do
conto. É naquele ato impensado que a menina expõe, tanto para o leitor quanto para si mesma,
o mundo “estranho”, não definido ou compreendido dos imigrantes “não-brancos” no Canadá.
Em outras palavras, a imagem refletida no novo desenho da menina, como conseqüência de
um processo de configuração identitária, ao descortinar sua presença visível pela “cor” – não
“branca” nem “preta” – torna-se uma linguagem indecifrável para a professora, revelando o
mundo transicional de suas faces privada e pública – na medida que em casa possui uma
identidade que não se faz reconhecida na escola. Assim, a face oculta da família descreve uma
“Outra” forma de habitar no mundo social: como mulheres “não-brancas”, “minorias visíveis”,
a menina e sua mãe definem uma espécie de fronteira do que está ao mesmo tempo “dentro” e
“fora”.
Todavia, para ter chegado a este estágio afirmativo, houve um elemento simbólico do
auto-conhecimento da menina trazido para a narrativa, o qual não poderíamos deixar de levar
em consideração: enquanto a janela funcionou como elemento de separação, divisão ou
delimitação entre os espaços do interior e o exterior, e conseqüentemente entre as relações da
mãe e da filha, o espelho vem simbolizar o reconhecimento. É por meio deste que a menina
torna-se capaz de re-conhecer a si própria através de um “ato de contemplação”, ao examinar-
se em frente ao espelho, quando ela enxerga “o marrom [brownness] de sua pele, os olhos
escuros [dark], os cabelos pretos [black], o rosa amarronzado [brownish pink] de sua boca” (p.
144). Portanto, através do espelho, a criança inicia o processo de uma nova auto-percepção: o
re-conhecimento de sua identidade étnico-racial – do país de origem, da família – enquanto
diferença, significada sobretudo por sua “cor” e “formas”. É somente a partir desse processo
que a menina começa a articular a percepção de sua ausência de representação no discurso
racista da escola. No entanto, esse posicionamento é em si problemático, pois o sujeito
encontra-se ou se reconhece através de uma imagem que é simultaneamente alienante e daí
potencialmente fonte de confrontação.
Tal ato reflexivo remete-nos à “fase formativa do espelho”, segundo o esquema
psicanalítico de Lacan. Conforme o estudioso, o espelho funciona de modo a concretizar a
77
questão relativa ao “imaginário” da criança em fase de formação. O esquema lacaniano de
imaginário é definido por Bhabha como “a transformação que acontece no sujeito durante a
fase formativa do espelho, quando ele assume uma imagem distinta”. Neste caso, a filha, a
partir de então, torna-se capaz de “postular uma série de equivalências, semelhanças,
identidades, entre os objetos do mundo ao seu redor”. Considerando a fundamentação que
Bhabha realiza do reconhecimento do “Outro”, a partir dessa “fase formativa” de Lacan,
torna-se possível explorar a ambivalência dos estereótipos construídos pelo discurso colonial
como “principal estratégia discursiva e psíquica do poder discriminatório” – seja racista ou
sexista, periférico ou metropolitano (BHABHA, 1998, p. 119).
Desse modo, o conto parece apoiar-se no espelhamento como estratégia, tanto na
formação da protagonista quanto diante do narratário. Se levarmos em consideração que uma
obra narrativa busca sempre se inserir em um determinado sistema literário, e que as escolhas
do narrador sobre o conteúdo enunciado são sempre intencionais e variam conforme o público
leitor esperado, sendo os objetos da narração que nos permitem um caminho interpretativo
diante do universo ficcional, perceberemos, sem maior empenho, que a narrativa em questão
dirige-se a um leitor que compartilha das condições em que vivem as personagens
protagonista e sua mãe. Especialmente voltado para um público infanto-juvenil, o conto
explora justamente a capacidade dos filhos de imigrantes – canadenses sul-asiáticos de
segunda geração – de se espelharem na criança. Ao colocar em cena duas diferentes gerações
– a mãe que migrou já adulta para o país e a filha que foi levada para lá ainda criança, que se
encontra em fase de crescimento – o conto suscita no leitor a experiência da “duplicidade” de
imigrantes que vivem as duas culturas, promovendo uma reflexão sobre a onipotência de um
destes elementos sobre o outro. Logo, assim como a menina espelha-se no interior do conto,
este serve de espelho para o externo – não somente com relação ao leitor em si, mas também, e
sobretudo, quanto ao mundo que o rodeia.
Há ainda outro ponto que merece relevo na construção da narrativa: a questão do
sujeito feminino. Como podemos observar até aqui, o conto se constitui com a presença de
personagens mulheres apenas – a filha, a mãe e a professora. De modo particular, em diálogo
com a protagonista, as personagens da mãe e da professora assumem posição singular
enquanto agentes e responsáveis pelo caráter pedagógico, tanto na educação familiar quanto
na escolar. Ao nelas se espelhar, o leitor canadense sul-asiático será capaz de ser levado a
78
promover uma mudança de atitude em relação ao mundo social que o circunda e seus
problemas. Ao contrário do que a tendência dominante do discurso histórico oficial busca
transparecer, neste caso, são as mulheres que “ensinam”, são elas que promovem a
transformação da ordem social. Porém, a transformação da realidade opressiva em si
subentende-se como um próximo passo. Por enquanto, pedagogicamente depreendemos da
leitura do conto que se faz necessário primeiramente aprendermos que para interferir no
coletivo é preciso antes de tudo transformar o sujeito em nível individual.
Nesse sentido, é possível concluir que a narrativa ficcional em questão parece dirigir-se
para o leitor canadense sul-asiático enquanto cidadão capaz de apreender e instruir-se
politicamente a respeito de sua realidade social. De modo particular, ao reavaliarmos os
componentes ficcionais do conto, reconhecemos a intenção de que haja espelhamento do leitor
na protagonista: o leitor como o jovem, canadense sul-asiático de segunda geração, filho de
imigrantes que vivem as duas culturas, o espaço “duplo”. Como resistência à invisibilidade
étnico-racial das culturas não-brancas no discurso escolar canadense, que se apresenta através
da protagonista, assistimos à possibilidade, ou ainda necessidade, de olharmos para nós
mesmos a fim de projetarmos uma auto-afirmação capaz de reconhecer “diferenças”, não
reproduzindo categorias “universais” e fixas de representação identitária; embora, reiteremos,
haja o reconhecimento de que neste híbrido um dos elementos possui mais poder.
2.3 ATRAVÉS DA JANELA: OUTRO ESPELHO
No que diz respeito à sua estruturação, “On a Cold Day”
52
divide-se em quatro partes.
Esse formato delimita-se por números romanos maiúsculos (I-IV). A ligação dessas histórias
faz-se sem transições além dos próprios números centralizados como subtítulos nas páginas
em que aparecem. Nessa composição do conto, as três primeiras partes apresentam as
personagens centrais do enredo, enquanto o restante da narrativa as coloca em interação. Na
verdade, das três personagens que constituem a trama, uma está morta, e é esta que servirá de
52
Assim como o texto anterior, este encontra-se originalmente em língua inglesa, e todas as citações a seguir são
resultantes de nossa tradução para o propósito único do presente trabalho. Uma possível tradução para o título
deste conto é “Em um Dia Frio”.
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elo para as outras duas. Dessa forma, a estrutura torna-se relevante porque traz um desafio de
leitura, um desafio interpretativo, para o narratário, que se encontra diante da tarefa de unir
fragmentos em busca de decodificação. Se em “The Other Family” o tempo é
cronologicamente linear, aqui temos uma quebra na linearidade dos acontecimentos, o que
fornece um efeito de maior significância estética para o conto.
Conforme sugere seu título, o conto em questão narra a história de “um dia frio”. De
fato, a história desenvolve-se no decorrer de uma manhã: “A manhã em que Asima pulou da
sacada” de seu apartamento de sétimo andar (p. 334). Seguindo a ordem de apresentação do
conteúdo narrado, inicia-se com a construção desta cena. Logo, a narrativa retrocede no tempo
para enfocar as circunstâncias nas quais se encontrava a personagem ao longo daquela manhã,
de modo a buscar uma justificativa para o suposto suicídio. Em terceiro lugar, a personagem
de Mr. Abdul Jalal é apresentada. Ele estava preparando o café para venda, quando, pela
janela de sua loja comercial, notou a queda de Asima. Este fato lhe causa um espanto,
repentinamente o café perde todo o seu sentido e ele corre para o telefone, chama o socorro e
vai até a calçada para observar o corpo daquela mulher, que ele não conhecia.
Por último, o foco narrativo nos mostra a personagem de “Debbie Burton ou Devika
Bardhan” (p. 337) – nestes termos ela é apresentada. Com uma identidade repartida,
literalmente dupla, Debbie ou Devika desloca-se entre seu nome de origem e a sua adaptação à
nova terra. A essa personagem é necessário dedicarmos maior atenção, tanto pelo simples fato
de ela ocupar a maior parte da narrativa (fazendo-se presente a partir da segunda metade), bem
como porque Debbie é quem vive a experiência do re-conhecimento, de modo semelhante à
menina em “The Other Family". Ela estava caminhando em direção ao trabalho quando se
deparou com o corpo de Asima estirado no chão. No entanto, sua primeira percepção daquele
corpo não acontece de modo direto: “na janela de uma loja, caída entre dois manequins,
brancos e loiros, ela viu a si mesma (...) espichada na calçada!” (p. 337). Este momento a tira
da normalidade de seu caminho, e ela aproxima-se do corpo de Asima, “horrorizada e
fascinada ao mesmo tempo” (p. 337). Ao examiná-la mais de perto, Debbie é tomada por uma
“onda de imagens” (p. 337) que a conduzem a um re-pensar sobre si mesma e uma re-visão de
sua posição naquele lugar. Apesar de não lhe fornecer respostas, embora “houvesse esse
silêncio”, o fator crucial é que “a mulher [Asima] em frente dela [Debbie] (...) colocava-se
como um ponto de interrogação” (p. 338). Finalmente, após a ambulância ter chegado e levado
80
o corpo sem vida, Debbie, que se sentia “pasmada e sem rumo”, pois “a idéia de ir ao trabalho
naquele instante a enervou bastante”, segue Mr. Jalal para dentro de seu mercado, onde
“conversam como refugiados que se encontram no mesmo campo” (p. 338-9). Este evento
final, ao fazê-la “sentir como se existisse, como se eles fossem pessoas reais juntos”, é a
condição necessária para que concretize seu processo de auto-reconhecimento: ela percebe o
“quão diferente” era aquele momento, “e sua manhã inteira ascendeu-se a sua frente” [grifo
nosso] (p. 339).
O período de uma “manhã”, tempo-espaço no qual a ação da narrativa decorre, é
representado como um tempo-espaço verossímil que poderia ser um dia “qualquer”, isto é, um
tempo cotidiano, no interior da sociedade canadense contemporânea, como no caso de "The
Other Family". Tecnicamente, o conto remete-nos à narrativa filmográfica, não tanto por sua
divisão em espécies de cenas quanto pela constituição do foco narrativo como uma câmera de
vídeo. Na situação inicial, temos o tempo estático, o olhar fotográfico; mas o restante das
subdivisões narrativas são como novas tomadas de um filme que, em forma de digressões, ou
flashbacks, reconstroem o momento em que cada uma das outras personagens depara-se com
aquela situação, focando suas reações e explorando a sucessão dos acontecimentos. Por essa
razão, tal cena inicial é imprescindível para o decorrer da trama: ao apresentar Asima morta na
calçada justamente após ter cometido um suposto suicídio, desempenha o papel de apresentar
o elemento responsável pela interligação das próximas duas personagens a serem colocadas no
palco dos acontecimentos. Esse ponto de vista, na sua relação com o narratário, é sustentado
por um narrador em terceira pessoa que é onisciente somente até certo ponto. Não o sendo por
completo, ele coloca-se como observador dos acontecimentos, revelando-se sabedor apenas de
parcela dos pensamentos e sentimentos das personagens. O narrador compromete sua ciência
dos fatos por meio de expressões de incerteza tais como: “poderia ser dito que... parecia que...
poderia ser dito também que...” (p. 334-5). Assim, a própria dúvida ou curiosidade gerada pela
falta de onisciência motiva o narratário a continuar a leitura.
O olhar do narrador é externo, olha de fora, como se alguém assistisse aos
acontecimentos e refletisse sobre os mesmos, sugerindo “hipóteses” que justifiquem suas
causas. Esse teor é assumido na medida em que há sugestões, mas não há certezas. Tal aspecto
perpassa toda a narrativa, e, instintivamente, todos se questionam sobre a causa do fato
ocorrido: o que teria levado aquela mulher a se suicidar? Será que ela não foi empurrada?
81
Esta, por exemplo, é uma dúvida que não é esclarecida ao final do conto. Tanto que para
satisfazer suas necessidades racionais (em sua verossimilhança) de encontrar explicação para
aquele ato, ao final, Debbie acaba mentindo, sem saber por que foi levada àquela atitude, ao
conferir sua antiga identidade – o nome “Devika” – à mulher morta para que Mr. Jalal possa
orar por ela. Debbie justifica a Mr. Jalal que ela realmente havia se suicidado porque seu
marido tinha partido, deixando-a sozinha, levando inclusive seu filho, por isso ficara
deprimida. Tal declaração inusitada causa surpresa e estranhamento nela própria, visto que
“jamais entenderia o que a fez mentir naquele ultimo momento” (p. 341).
Há, porém, uma leitura que a subdivisão “II” (p. 334-6) incita no narratário: sem
causas concretas, racionalmente aceitas, o fato é explicado justamente pela ausência de razão
que tomou conta de Asima; este teria sido na verdade o fator responsável por sua morte.
Enquanto leitores, é possível pensarmos, a partir de indícios textuais, que Asima foi sim
empurrada, mas não por alguém, e sim pelo “frio gelado branco”, com toda a sua simbologia
enquanto a força opressora que o Canadá exerce sobre os imigrantes de pele escura, com suas
práticas discriminatórias que os tornam invisíveis, excluídos, deslocados; e é esse ponto de
vista que se faz relevante para nosso argumento neste trabalho.
Com atenção estética especial para a linguagem metafórica, quanto ao modo de
apresentação do conteúdo narrado, desde o ponto de vista à sua disposição, a narrativa “On a
Cold Day” é dotada de uma forte simbologia, baseada na exploração das cores. Em sua
linguagem narrativa literária, elementos semânticos metafóricos residem principalmente a
partir das personagens no espaço. Por esse motivo, faz-se relevante explorar a parcela
simbólica do texto que está presente na configuração destes dois elementos da ficção. É
somente a partir deste entendimento que verificamos de que modo e em que medida o conto é
“pedagógico”, de que maneira a relação personagem e espaço acaba conferindo tal caráter ao
conto, e de que forma o narratário é situado nesse processo de ensino-aprendizado.
Ao explorar o espaço em busca da simbologia nele contida e compreender sua relação
com as personagens em (inter)ação, deparamo-nos com o “frio” que o compõe. De extrema
relevância para a decodificação do conto de acordo com o argumento a ser desenvolvido, é
indispensável compreendermos que o “dia” em que a história se passa não é “um dia”
qualquer: é “um dia frio”. Esse “frio” é o elemento simbólico (o qual já se fazia presente em
“The Other Family”, mas não de forma tão expressiva) de extrema significação na
82
configuração da narrativa em seus diversos elementos ficcionais (tempo-espaço, ambiente ou
atmosfera, personagens, ação e suas relações), e está fortemente associado à cor branca,
refletida tanto na neve e no gelo do inverno quanto na “cor” dos canadenses majoritários. Para
comprovar a metáfora, esse “frio” é diretamente (e insistentemente) adjetivado pelo branco.
Assim, a “branquicidade” e o “frio”, através dos quais a narrativa se constrói, constantemente
são reforçados pela “ausência de cores”, e repetidamente conotam um perfil para o Canadá
caracterizado pela “frieza nas relações,” pela “ausência de afetividade”, de “humanidade”, por
um “excesso de nitidez” e, enfim, pelo “silêncio”. De fato, essa relação figurativa ganha
sentido somente por meio do foco narrativo em sujeitos que não pertencem originalmente
àquele lugar (isto é, ao Canadá enquanto estado-nação). Diferentemente de “The Other
Family”, no conto em questão não se fazem presentes personagens “de segunda geração”, mas
sim imigrantes adultos, ou quase-adultos, explicitamente advindos do sul-asiático para
encontrar no Canadá uma alternativa econômica.
Simbólica e paradoxalmente, então, o “branco” serve para pensar o “não-branco”. Cria-
se o branco onipresente a fim de se explorar justamente o que há de não-branco nesse branco.
Essa ficção, enquanto literatura de minoria étnico-racial, parece explorar o espaço do
“branco”, associado ao ambiente “frio”, exatamente a fim de pensar as próprias personagens
enquanto não-brancas, enquanto originalmente não-pertencentes ao espaço canadense. Dessa
forma, reflete-se o que é esse ser não-branco, esse ser que chama atenção dentro do branco,
pois é dentro do branco que ele consegue mais facilmente destacar e afirmar o espaço
minoritário do “não-branco”, do escuro, do marrom, do preto, do colorido. Tal construção
assume uma forma opositiva, de resistência contra o apagamento da diferença, que se baseia
na antítese branco versus não-branco. Por isso, é importante atentar para o não-branco como
elemento simbólico, porque é o que não está, o que não faz parte, não participa da norma, o
que é excluído, o que está fora. Enfim, é o negativo. Tal simbologia dialoga ainda com a
imagem do Canadá como “The Great White North”, esse ambiente de sobrevivência sobre o
qual fala Atwood no início dos anos 1970.
Nesse sentido, o conto desenvolve-se no tempo-espaço do “branco”, simbolicamente
presente através do frio. O clima é explicitamente o de um inverno rigoroso: “Na manhã em
que Asima pulou (...) uma onda fria tinha a cidade em sua garra, tornando ainda mais intenso
um dezembro normalmente frio” (p. 334). Desse modo, não estamos diante de qualquer dia
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frio, mas de um dia “especialmente frio” (p. 334), o qual aumenta sua intensidade de acordo
com a progressão da narrativa através das diferentes personagens. Na situação inicial,
verificamos que esse “ar frio” é apresentado como “uma luz branca ofuscante” que havia
“encaixotado a cidade em uma jarra de cristal”, uma “luz branca gelada/ fria” que “caiu sobre
Asima” (p. 334). Na segunda parte, o frio é associado ao “vazio do espaço, (...) esse espaço
silencioso, fechado, sólido, vazio, que se expandia e expandia” e “a comprimia tanto que o
vazio do espaço na verdade parecia um objeto pesado, sólido, que não cessava de se expandir,
empurrando-a contra a parede, impedindo-a de respirar” (p. 335). Em seguida, para Mr. Jalal,
o frio é experienciado como “amargamente frio, cortando seu nariz e testa com uma faca de
gelo” da qual ele se protege com “calças, casaco, manta e luvas” (p. 336), enquanto Debbie o
vivencia como “muito amargamente frio” fazendo-a sentir “esse frio bater em seu rosto como
um punho fechado (…), atingindo seus ossos” (p. 336). Assim, em meio ao “espaço silencioso
que se situava no ar frio” (p. 338), as personagens são oprimidas pela “branquicidade fria da
cidade” (p. 340).
O espaço do Canadá “branco, frio, gelado” é retratado como opressor. Ele age com
violência para com as personagens. Isto se reflete simbolicamente no texto por meio do clima
de inverno, da “neve”, da íntima relação que é construída entre os significantes “frio” e
“branquicidade” ao longo da narrativa. Esse “frio branco”, então, adquire a conotação
elementar de uma “personagem” antagonista, tamanha é sua interferência na relação com
Asima, Jalal e Debbie/ Devika, na presença constante em cada passo das personagens, todas
indivíduos canadenses sul-asiáticos. Por essa razão, o frio ganha sentido principalmente em
contraste às “ruas populosas” de suas cidades de origem, com seu “calor”, seus “cheiros”, sua
“poeira” e suas “cores” (p. 6). Essa espécie de “personificação” do frio, na verdade, apresenta-
se como alegoria da sociedade canadense, retratada como “uma massa cor de gelo frio [cold
ice colour]” – ou “cor de frio gelado” – pelo olhar de Debbie, ao perceber em determinado
ponto de sua reflexão que “as pessoas brancas” ao seu redor “estavam perdendo os traços de
suas faces, sexos e detalhes de suas roupas” (p. 339).
Ao apresentar Asima na introdução ao texto, como uma espécie de “fotografia” da
situação que será o elemento responsável pela interligação das próximas personagens, vimos
que essa primeira parte do conto compõe personagem mulher que se encontra “estirada em
uma calçada cinza (...), inteiramente imóvel, assim como estavam todos os objetos na calçada”
84
(p. 334), justamente após ter cometido o suposto suicídio. No entanto, mais do que apresentar
a personagem, ato de função crucial para o desenvolver do enredo, essa “introdução ao conto”
parece estar preocupada em explorar a situação, como se estivéssemos diante da análise de um
“retrato” que suscita no leitor a busca pelas causas daquela circunstância. A partir desses
“vestígios”, a história aparentemente discorrerá sobre a história de Asima, como em um
romance policial em que o narrador traça um caminho de mistério e incita-nos a procurar
desvendar o caso. Porém, a partir da terceira parte, verificamos que este não é o propósito da
narrativa. O importante nesta primeira cena é observar que Asima confronta-se com um clima
opressor. Cria-se a seguinte imagem: “o Frio versus Asima”. Assim, torna-se mais clara a
leitura do frio enquanto antagônico em relação às personagens propriamente ditas, sujeitos
não-brancos, pois ele não somente está em interação com elas, fazendo-se presente ao longo
de toda a narrativa, mas ainda age com agressão, atingindo a todas as personagens colocadas
em ação, pois todas elas o sentem e experienciam negativamente. Por isso, reiteramos: é
imprescindível notar que estamos falando de personagens imigrantes não-brancas, advindas de
origens étnicas muito diferentes das européias, as quais constituem a hegemonia branca
dominante canadense; pois não estão acostumadas com o clima frio, e, ao que parece,
encontram muita dificuldade para adaptarem-se, muitas vezes não o conseguindo.
Diferentemente de Debbie Burton ou Devika Bardhan e Mr. Abdul Jalal, “Asima” é o
único nome pessoal associado a esta personagem ao longo do conto. Ela não tem sobrenome,
não possui “um futuro ou passado” (p. 337); enquanto elemento ficcional, é apenas como uma
jovem mulher canadense sul-asiática que supostamente se atira, para além da janela de seu
apartamento, pela sacada do sétimo andar – supostamente, porque o restante da narrativa volta
freqüentemente a este ponto de discussão; não somente as personagens se questionam a
respeito dessa ocorrência, como também o próprio narrador expressa incertezas quanto ao fato
narrado. Nessa configuração de Asima, porém, encontramos um fator crucial para o
encadeamento não apenas estrutural, mas também temático do enredo: suas características
físicas, sua “cor”. Se a cor possui simbologia significativa na construção da narrativa, do
mesmo modo se faz essencial na configuração das personagens. Além da imagem,
simbolicamente contrastante ao branco do espaço, do “líquido vermelho escuro [blackish red]”
(p. 334) que escorre de sua cabeça enquanto ela se encontra estirada na calçada, a não-
branquicidade de Asima é evidenciada por meio de sua “mão marrom” (p. 334), “rosto jovial
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de pele marrom” (p. 337), “face marrom (...), braço marrom (...), cabelos pretos e rosto
indiano marrom” (p. 336). Enfim, Asima é representada como uma “mulher da Índia ou do
Paquistão, de Bangladesh ou de Sri Lanka (…), simplesmente de qualquer lugar no mundo de
origem sul-asiática” (p. 337).
A forte simbologia das cores, ao construir o Canadá a partir do branco onipresente,
confere aos elementos não-brancos uma negatividade constante, uma condição opressiva na
qual as personagens configuram-se “pequenas, ineficazes [helpless] e de algum modo
irrelevantes” (p. 334), e já não encontram mais a “segurança do lar” (p. 338) – idéia
compartilhada entre imigrantes, de que o espaço privado da casa ainda funciona como refúgio
para os imigrantes culturalmente deslocados, lugar em que podem manter seus costumes,
sejam eles lingüísticos, culinários, entre outros. Nesse sentido, “pequeno [small]” é uma
palavra significativa na descrição das personagens e do espaço que ocupam: o suposto “lar” de
Asima é um “pequeno apartamento de dois quartos” (p. 334); Mr Jalal possui uma “lancheria”
que é “pequena” (p. 339); Debbie ou Devika, por sua vez, ao entrar na loja de Mr. Jalal,
“sentou-se numa cadeira numa das duas pequenas mesas que trancavam o caminho” (p. 339);
refletindo sobre sua manhã ao se dirigir para o trabalho, lembra-se o quanto esforçara-se no
assento do trem para tornar “a si mesma o menor possível, joelhos retos, apontados juntos, as
mãos sobre eles, sua bolsa sem exceder os limites de seu colo” (p. 340); além disso, “ela
trabalhava no caixa de uma pequena loja de roupas da redondeza” (p. 338). Do mesmo modo,
em “The Other Family” a menina é retratada como “não substantiva”, “tão pequena”, “tão só”,
enquanto caminha pela rua e é observada por sua mãe. Diretamente relacionada ao espaço
público das relações, essa significação exerce o papel crítico de situar a condição minoritária
dessas personagens em meio à hegemonia da “branquicidade” na sociedade canadense.
Tal condição minoritária traz conseqüências inevitáveis para as personagens, as quais
se demonstram impotentes diante de um destino que foge do controle. Se em “The Other
Family” a imagem conotativa do “pequeno”, “ineficaz” e “irrelevante” está associada à
menina-filha-aluna, em “On a Cold Day” ela é principalmente desenvolvida a partir da
personagem Asima. É esta quem vive a condição do deslocamento cultural, encontrando-se em
estado de perda da razão de viver. Essa situação é explorada de modo especial logo ao começo
da narrativa, na segunda parte, momento anterior ao (suposto) suicídio, quando “por toda a
manhã Asima estava inquieta (...) e desnorteada. (...) Vagava (...) em círculos, e a lugar
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nenhum em particular” (p. 334). Apesar de “seu rosto possuir um olhar específico de intenção
(…), seus movimentos não tinham sentido (...), ela estava procurando por algo que não
conseguiria encontrar” (p. 335). Assim, sua vida parece se perder em meio ao branco. Asima
não encontra mais sentido nas coisas ao seu redor. Isto a conduz à conseqüente “separação de
todos os objetos” (p. 335). Portanto, o ponto de vista racional, os danos parecem irreversíveis.
Se outra saída já não se faz possível, é na morte que a personagem encontra a “rota de fuga”
dessa condição opressiva.
Ao considerarmos a maneira como seu modo de ver e sentir o mundo ao seu redor
transforma-se quando Asima ultrapassa a janela e está na sacada, prestes a cometer o suicídio,
percebemos alteração em sua consciência conforme a personagem dirige-se à morte com a
certeza de estar escapando daquele ambiente, encontrando um lugar de sossego: “Através da
janela, ela olhou para a cidade iluminada pelo sol do lado de fora. Ainda havia lugar para ela
lá fora (…). O que quer que ela estive procurando, estava lá fora (…). Era como se houvesse
uma mensagem para ela, uma carta de casa que falava uma língua familiar” (p. 335). A morte
como familiar reforça seu sentimento de distanciamento e impossibilidade de retorno. Nesse
cenário, verificamos uma certeza indicativa de que ela agora tem um destino. Então, “Asima
parou perto da janela, olhando para fora por algum instante (…). Antes de seu corpo encontrar
o lado da rua, seus olhos haviam (...) pulado da janela para a estrada” (p. 335). Tendo
encontrado um sentido para a vida, para as coisas que a cercam, “ela escalou a cerca que a
separava da rua e deu um passo no ar. Para ela, aquele era o mais firme dos chãos” (p. 335).
Desse modo, Asima concentra o maior peso simbólico da narrativa. Personagem
silenciada, impossibilitada da convivência, ela exerce um papel ainda mais importante para a
presente decodificação do texto na medida em que funciona como elemento motivador do
espelhamento de Debbie. Através do jogo de alteridade, esta experiencia o processo de auto-
reconhecimento ao espelhar-se naquela personagem. Tal ocorrência configura o eixo central
da trama narrativa. Debbie enxerga a si mesma “deitada sobre o pavimento, refletida em uma
vitrine” (p. 340). Uma onda de imagens toma conta de sua mente “na medida em que ela olha
Asima mais de perto”, e “esse sentimento estranho de semelhança abre caminho ao alívio,
como o sentimento de ver a si mesma refletida em um espelho deu lugar ao reconhecimento de
diferenças” (p. 337). Assim, a presença de Asima à frente de Debbie coloca-se como ponto de
interrogação, motivado especialmente pela identificação física entre ambas personagens.
87
Embora “permanecesse deitada à sua frente, (...) não oferecendo respostas diretas à sua
identidade pessoal, a mulher morta” desperta um sentimento de familiaridade e caridade. Ao
reconhecer em Asima “algo de si mesma, e ainda de alguns de seus amigos”, Debbie pensa
consigo mesma: “Uma mulher de meu país? (...) Por que ninguém está cuidando dela?” (p.
337).
Cabe atentar para o fato de que as características físicas são os principais referentes do
espelhamento e reconhecimento de Debbie em Asima. Foram os “cabelos pretos” e o “rosto
indiano marrom” de Asima que despertaram em Debbie “um frenético desejo de conhecer sua
história, ao menos seu nome” (p. 338). Por outras palavras, enquanto “obstruía o tráfego,
como se uma mangueira ou uma palmeira houvesse ali surgido nesse concreto frio, deserto”,
para Debbie “era estranho o modo como ela via a si própria enquanto outra pessoa” (p. 338).
Essa imagem metafórica constrói-se no contraste interno da identidade repartida de Debbie/
Devika. Ela é possuidora de uma bagagem étnico-cultural, um imaginário repleto de
recordação da vida no país de origem que não consegue deixar para trás, e que Asima nela
desperta, contudo, de certo modo já não lhe pertence.
É válido notar também que o reconhecimento de Debbie não se dá se forma imediata.
A re-significação de si mesma se desenvolve no restante do conto, enquanto a personagem re-
pensa e reflete sobre a manhã que passara. Apesar de ser um tempo de curta duração – desde
que acordou até o momento em que se situa conversando com Mr. Jalal, após ter presenciado o
corpo “morto e frio” de Asima (p. 337) – é suficiente para transformar sua auto-percepção.
Através dessa reflexão, ela é capaz de re-construir em certa medida sua identidade. Ao
contrário de Asima, que desiste da vida, Devika Bardhan confronta a si mesma, e reconhece
que sua assimilação da cultura branca em busca de aceitação, na verdade, servia como modo
de apagamento de sua condição de opressão por motivo da identidade étnica da qual jamais
poderia se desfazer na prática. Por exemplo, ela havia trocado seu nome “porque um cônsul a
tinha aconselhado, como uma das primeiras medidas para se conseguir emprego” (p. 338).
Apesar de ser “jovem, atraente e adaptável” e acreditar que “havia um futuro para ela no
Canadá” (p. 338), sua realidade minoritária não se fazia agradável como gostaria.
A fim de reproduzir o apagamento do “outro” que constitui a si mesma, ela precisa
assimilar a nova cultura em detrimento de sua identidade étnico-cultural: “Devika Bardhan de
Jadavpur não fazia idéia de quem era aquela Debbie perfumada e maquiada” (p. 338).
88
Contudo, em seu esforço para se adaptar às normas canadenses, assimilando e reproduzindo a
cultura do “branco hegemônico” canadense dominante (mas não determinante), Debbie se
sacrifica: “o dedão de seu pé doía, um sintoma que havia desenvolvido ao forçá-lo em sapatos
de salto-alto, fechados, sem os quais não seria contratada” (p. 338). Dessa maneira, Debbie
demonstra-se incapaz de se livrar da discriminação étnico-racial, maquiada pela invisibilidade
da diferença que ela própria reproduz: “na rua mais uma vez, ela tinha esse sentimento
peculiar de irrealidade, como se estivesse em algum lugar onde não tivesse função, nem
soubesse exatamente com havia chegado lá” (p. 339).
Apesar disso, quando se reconhece em Asima é que Debbie é capaz de formular tais
considerações a respeito de si mesma, e de perceber que na rua “ela era como se fosse
invisível” (p. 339). Fundamentada nesse sentimento de invisibilidade e não-pertencimento, ela
percebe-se como vivendo em uma condição opressiva: “sentia-se como se não estive bem ali,
um sentimento de invisibilidade composto pelo fato de que uma mulher branca furou a fila,
atingindo-a com uma grande bolsa de ombro, mas não se virou para se desculpar. A mesma
mulher, porém, esbarra-se com uma jovem branca e penitentemente pede desculpas” (p. 340).
Além disso, “na fila, as pessoas brancas conversavam através de sua cabeça, face e corpo (...),
enquanto ela relutava para evitar desaparecer completamente” (p. 340). Logo, observamos que
é por trás dessa condição de “invisibilidade” que reside o tratamento discriminatório da
sociedade canadense nas práticas cotidianas. Cabe trazer à tona outro momento da narrativa
para ilustrar o argumento. Quando Debbie se encontra no trem em direção ao trabalho: “dois
brancos sentaram-se um de cada lado dela, e eles se expandiam, pressionando-a naquele
pequeníssimo espaço que ocupava” (p. 340). Em contraste,
ela olhou aos passageiros à frente de seu assento – um jovem branco cujas
pernas estavam agressivamente dispostas para frente, com os joelhos bem
separados, uma mulher branca sentada confortavelmente com uma revista,
ocupando tanto espaço quanto ela quisesse (...). Na hora de sair do trem,
inadvertidamente ela esbarrou num homem branco, e apesar de ter se
desculpado, instantaneamente ouviu-o murmurar ‘malditos paquistaneses’ (p.
341).
Pensar esses fatores conduzem Debbie à formação de um imaginário crítico. Assim
como a menina-filha-aluna em “The Other Family” – que após examinar-se no espelho
atravessa um processo formativo, passível de ser entendido pela noção lacaniana de
imaginário – Debbie ou Devika começa a perceber seu redor diferentemente após o
89
espelhamento. Por meio do processo reflexivo, ela adquire nova percepção identitária, re-
conhecendo que somente se fazia visível na sociedade canadense por meio da assimilação e
reprodução da hegemonia cultural branca, por meio daquelas práticas sócio-culturais que
apagam sua identidade étnico-racial sul-asiática, ou não-branca. Desse modo, a personagem
aprende e apreende nova forma de leitura do mundo e da auto-percepção. No entanto, ver a si
mesmo nestas condições, e entender essa posição como historicamente construída, representa
apenas um primeiro e crucial passo para abrir a possibilidade à transformação das
circunstâncias. Por outro lado, não havendo avanço nas atitudes de Debbie, a cultura
dominante permanece intacta. Verificamos que a personagem atinge certa mudança em nível
individual, mas a realidade social opressora prevalece sobre suas decisões. Ela não consegue
livrar-se da “prisão” pelo simples fato de ter consciência de que está “presa” ao fato de ser
minoria racial oprimida no Canadá. O desfecho do conto serve de exemplo para
compreendermos que Debbie, apesar da (auto-)consciência crítica, não escapa à dominação
cultural canadense em busca da continuidade à sua vida: “ela estava muito atrasada para o
serviço, mas decidiu ir (...). Ela não queria adiantamento algum para o Natal (...). Embora não
fosse cristã, ela não conseguiria manter-se distante porque esta época trazia um ar de vida real
ao ambiente de trabalho” (p. 341).
Por fim, a identidade transparece não estar apenas no sujeito, como dependente da
consciência individual, visto que a relação com as personagens Asima e Mr. Jalal é
fundamental para a auto-identificação de Debbie no contexto do universo narrado. Por um
lado, é o espelhamento em Asima que a faz se reconhecer. Por outro, é na interação com Mr.
Jalal que ela se sente substancial, “como se existisse” (p. 339). Dessa forma, motivada pela
compaixão baseada na familiaridade étnica, reflexo da “cor” da pele, é que Debbie declara
conhecer Asima para Mr. Jalal, visto que este se demonstrava “preocupado como a mulher
morta” (p. 341). À pergunta de Mr. Jalal quanto ao nome de Asima, Debbie responde que se
tratava de “Devika Bardhan... da Índia... de uma cidade chamada Calcutá” (p. 341). Dessa
forma, é através de Asima e Mr. Jalal, ou seja, da relação com o espaço do coletivo, do
diálogo, que Debbie consegue re-conhecer sua própria história. Embora Debbie ou Devika não
tenha morrido fisicamente, segundo Mukherjee (1994, p. xi-ii), a importância dos nomes,
demarcadores identitários e significantes dessa identidade, é a razão pela qual a transformação
de Devika Bardhan em Debbie Barton marca uma perda tão definitiva quanto a morte.
90
PARA ALÉM DO ESPELHO
Em busca de respostas à questão norteadora do estudo – o porquê e de que modo a
escritura ficcional de Himani Bannerji faz-se de relevância específica para a cultura canadense
– acreditamos que nossa elaboração crítica é capaz de identificar, analisar e discutir o lugar e a
significância da obra da escritora no contexto da História da Literatura Canadense (Sul-
Asiática), particularmente ao propormos a relação entre sua escrita ficcional e sua produção
crítica, evidenciando o tratamento discursivo-literário da mulher imigrante “de cor” no
Canadá. Desse modo, as considerações teóricas e analíticas que se seguiram realmente foram
ao encontro da crítica literária dos Estudos Culturais e do Pós-colonialismo, possibilitando um
ambiente de revisão do discurso historiográfico-literário canadense, ao reconhecer a obra de
Bannerji no contexto expressivo das minorias étnico-raciais, de gênero e de classe.
A análise realizada no capítulo anterior permitiu-nos ver a escrita narrativa de Bannerji
como passível de decodificação de um caráter pedagógico pós-colonial. Através de um olhar
mais atento, foi possível observá-la como uma literatura de resistência, particularmente anti-
racista. Dentre as diversas portas de entrada interpretativas possíveis para os textos abordados
por meio do viés pedagógico, escolhemos evidenciar o papel exercido por tal ficção enquanto
uma espécie de agência retórica e política contra a opressão racial dos canadenses sul-
asiáticos. Desse modo, verificamos que ideologicamente a ficção em questão ocupa-se com a
representação da comunidade de origem étnica sul-asiática residente no Canadá, à qual a
própria autora pertence. Ao buscar a expressão da identidade sul-asiática no Canadá através de
formas poéticas, na tentativa de desconstruir as imagens racistas atribuídas pelo estado-nação
canadense, tal escrita ficcional revela uma espécie de engajamento político. Em uma
perspectiva mais ampla, essa literatura configura-se como expressão de denúncia da rejeição e
91
opressão sofrida pelos imigrantes “não-brancos” no Canadá, ao terem suas identidades
suprimidas pela cultura dominante. Nesse sentido, torna-se possível argumentar que a ficção
dessa autora é pedagogicamente motivadora de uma consciência coletiva em direção à
transformação de tal realidade social. Essa consciência, afirmação da “não-branquicidade”,
desvela-se resistente ao apagamento da identidade étnica sul-asiática, decorrente do
nacionalismo e do próprio multiculturalismo canadense. Em última instância, a ficção dessa
escritora constitui-se ainda em resistência ao eurocentrismo do cânone literário canadense.
Embora sejam politicamente motivados, os contos abordados demonstram jamais
perderem seu mérito enquanto textos literários. Em sua configuração, a autora escolhe
minuciosamente os elementos-chave para desenvolver a trama a fim de explorar as relações
políticas daquele ambiente. De modo esteticamente entrelaçado, os motivos da narrativa
claramente justificam seus conflitos. O primeiro aspecto que confere grau de sofisticação
literária a essa ficção reside nas metáforas de sua linguagem narrativa que se constrói
essencialmente por meio de elementos simbólicos. Através do entrelaçamento analítico de “On
a Cold Day” e “The Other Family”, verificamos inicialmente que o espelho e a janela (que
também reflete) exercem papel fundamental na configuração das narrativas. Assim,
percebemos que a simbologia está intimamente ligada ao fator pedagógico nas narrativas, pois
é através do processo de reflexão (física e mental) que as personagens embarcam no re-
conhecimento de si mesmas. De fato, o conjunto simbólico é elemento fundamental na
construção de nosso argumento diante dos textos literários em questão.
A exploração do elemento do espaço no enredo é outro fator que se faz presente de
modo significativo em ambas as narrativas estudadas, pois contribui diretamente para o re-
conhecimento das protagonistas. O clima de inverno, simbolicamente relacionado ao “branco”
como metáfora da sociedade canadense e sua cultura dominante, expressa-se através do frio e
da neve. Esse ambiente, vivenciado como força opressiva para as personagens, caracteriza o
modo como são construídas e colocadas em (inter)ação nesse, e com esse, espaço. Isto
permite-nos identificar os aspectos que caracterizam essa literatura como pedagógica. A partir
dessa perspectiva, ao examinarmos o plano de conteúdo que atravessa tal escrita literária, esta
se torna inteligível enquanto ato engajado na representação de uma condição referente a todo
um contingente de imigrantes que se encontram em condição de deslocamento cultural,
fenômeno considerado em voga no contexto da contemporaneidade.
92
Do mesmo modo que a obra da autora ocupa espaço marginal(izado) no âmbito da
Literatura Canadense, a análise realizada permite-nos apreender que as figuras que
protagonizam a ficção de Bannerji são coadjuvantes na História. As personagens que
predominam os acontecimentos são indivíduos “não-brancos”, imigrantes de origem sul-
asiática. Enquanto imigrantes de pele “escura”, sua aparência física é aspecto crucial a ser
levado em conta, pois estabelece um sinônimo de “minoria”. Por isso, a configuração do
espaço nos contos é significativa. Se o “branco” é construído como uma espécie de palavra-
código representante de um privilégio étnico, então são justamente as “outras” identidades
étnicas das personagens, expressas através de sua “cor”, que as colocam em desvantagem.
Longe de serem heróis, as personagens dessa ficção são mulheres que se re-conhecem em
meio ao anonimato e à marginalização. Nesse sentido, é possível inferir da leitura dessa
literatura que ser canadense sul-asiático é ocupar um espaço construído por um “discurso
colonial discriminatório”, acima de tudo, baseiado no “estereótipo da diferença” cultural,
histórica e racial, construído sob o “conceito de fixidez na construção ideológica da
alteridade” (BHABHA, 1998, p. 105).
Por essa razão, como tema central, os contos estão relacionados ao ser o avesso da
norma, condição representativa das minorias etnicamente desprivilegiadas. Neles, as
experiências de deslocamento cultural e da fragmentação do “eu” (i)migrante prevalecem
através das leituras. Tanto a menina-criança-filha-aluna quanto sua mãe, em “The Other
Family”, bem como Asima e Debbie ou Devika, em “On a Cold Day”, todas elas passam de
alguma forma por tais experiências, e colocam o narratário em posição de testemunha.
Enquanto “sujeitos da diferença”, as personagens da ficção em questão sofrem com o
sentimento de não pertencerem, de estarem à parte das relações sociais, submetidos à cultura
“estranha”. Deste modo, justamente através das personagens enquanto elementos da ficção,
somos instigados a refletir sobre o quanto os imigrantes “de cor” no Canadá são
marginalizados ao terem suas identidades suprimidas pela cultura canadense dominante.
O tempo enquanto elemento ficcional, tanto em “On a Cold Day” quanto em “The
Other Family”, faz-se igualmente crucial para evidenciarmos os pilares que sustentam a
literatura da escritora. As narrativas são construídas com base na verossimilhança,levando em
conta o Canadá contemporâneo, o presente das relações na sociedade canadense. Sendo este o
tempo-espaço histórico no qual o leitor está também inserido, a narrativa possibilita-lhe sentir-
93
se pertencente àquele tempo, e, assim, espelhar-se e identificar-se nas personagens da ficção.
Em termos específicos, da mesma forma que as personagens vivem o processo de
aprendizagem e de transformação, através do re-conhecimento e re-definição de si mesmas, os
textos possibilitam o espelhamento do leitor no texto. Assim, as narrativas em foco adquirem
um caráter predominantemente pedagógico não somente no interior do universo re-criado(r)
na ficção, mas também perante o narratário que se torna um aprendiz diante das histórias.
Ao contrário de “The Other Family”, que claramente destina-se especialmente ao
público infanto-juvenil, a narrativa “On a Cold Day”, ao colocar em cena personagens adultas,
não apenas se demonstra voltada para um público mais adulto, mais maduro, como também
reflete em sua própria tecitura o amadurecimento ou maior maturidade artístico-literária. No
que se refere à recepção dos textos canadenses sul-asiáticos pelo público jovem, os quais
possuem uma reação geralmente diferente dos demais leitores, segundo Mukherjee (2004, p.
260-1), enquanto os jovens leitores canadenses “brancos”, quando respondem à literatura
canadense sul-asiática, acham-na confusa, alegando ser uma longa viagem de seu mundo para
aquele, os jovens canadenses sul-asiáticos da segunda geração o fazem de maneira muito mais
intensa do que quaisquer outros canadenses, mesmo os sul-asiáticos adultos. Para estes jovens,
tal escrita ganha importância na medida em que conta uma história que representa a vida
canadense sul-asiática da maneira como ela é realmente. Além disso, encontrar personagens
com nomes iguais ou semelhantes aos seus, em textos literários, pode amenizar a dor que
sentem pelo modo como seus nomes são distorcidos. Dessa forma, o valor da escrita
canadense sul-asiática para tais jovens reside na possibilidade de aprendizagem, pois esse
universo literário torna-se para eles uma espécie de experiência afirmativa. Ainda de acordo
com outro relato de Mukherjee (1998, p. 91), em seu curso sobre escritores de minoria racial e
aborígenes canadenses, uma das reações mais freqüentes de seus alunos durante as discussões
de aula é ficarem bravos diante de uma educação que lhes tem escondido as realidades
mencionadas. Para a crítica, os textos de escritores “não-brancos” ensinam algo a respeito da
história canadense e de seu povo que seus alunos não haviam aprendido em seu curso de
literatura canadense. Juntamente com a história canadense e sua sociedade, os leitores e
estudantes também têm a chance de aprender sobre as tradições orais e literárias que não são
eurocêntricas.
94
Quanto aos contos com os quais trabalhamos, evidenciamos que engendram no leitor a
afirmação da “diferença” cultural ou étnico-racial, de modo que a ela não seja conferida uma
superioridade ou inferioridade a priori. Assim, a escrita literária de Bannerji dirige-se não
apenas para um leitor como estudante de literatura, mas para o leitor acima de tudo um
cidadão, jovem ou adulto. Dotada de perspectiva pós-colonial pedagógica, a ficção de
Bannerji ensina a adquirir consciência racial, particularmente a ciência do fato de como é ser
“não-branco” em um país de maioria “branca”. Para tanto, essa escrita demonstra-se
consciente de sua própria condição “não-branca”, “sul-asiática”, na mesma medida em que os
canadenses brancos não são conscientes de sua “branquicidade”. Consciente também da
impossibilidade de falar por todos os canadenses sul-asiáticos, essa escrita busca expor como
esse fator determina a experiência de vida da maioria dos sul-asiáticos no Canadá. Além disso,
ao “ensinar” que não é possível para os sul-asiáticos se tornarem simplesmente “canadenses”,
demonstra também que “não-branco” é apenas um aspecto de suas múltiplas identidades. Em
última instância, é possível apreender que a identidade não dependente apenas da consciência
individual, nem tampouco pertence somente ao domínio público, mas constitui-se no interior
das relações sociais, na exteriorização do privado e interiorização do público, no modo como
nos vemos, como nos afirmamos, e no modo como somos vistos, e afirmados pelos outros,
enfim, seu sentido advém dessa interação.
Entretanto, a fim de não reduzirmos tal literatura a seu caráter pedagógico de interesse
específico para a comunidade canadense sul-asiático, é importante realçarmos que os textos
literários estudados não se limitam a esta consideração. Eles tratam do sujeito “moderno”, do
ser humano que se encontra em constante processo de re-descoberta identitária, de re-
conhecimento e re-definição de si mesmo. Tal fato está intimamente ligado aos deslocamentos
espaciais e culturais proporcionados pelo contexto histórico da atualidade. Assim, a literatura
de Bannerji demonstra o fato de que a identidade do sujeito necessita se re-construir no
encontro com os novos espaços, ou no próprio movimento. Ao evidenciar que o indivíduo que
se descobre em um espaço diferente está diante da tarefa de re-definir a si próprio, por meio do
auto-reconhecimento, sua escrita adquire um caráter maior, um condição transnacional,
movendo-se nas tênues fronteiras entre o ser e o não ser (literatura, e canadense), entre o
pertencer e o não pertencer.
95
A compreensão da literatura em termos dos processos de dominação cultural é fator
evidente de forma inquietante em uma parcela significativa das produções culturais de
resistência de escritores de origens outras que não a anglófona ou a francófona no Canadá. As
transformações sócio-políticas e econômico-culturais do mundo contemporâneo possibilitaram
tomar o espaço literário como locus de enunciação por meio do qual grupos minoritários, nas
sociedades atuais, tais como a comunidade canadense sul-asiática, buscam revisar sua história,
conferindo a si próprios uma nova representação. A partir dessa perspectiva, torna-se possível
abordar a produção literária sul-asiática de Bannerji também como a expressão de um
processo continuado de descolonização e libertação cultural. Assim como outros escritores de
minoria “racial” no Canadá, advindos de tradições culturais e literárias variadas, Bannerji
produz uma literatura que não apenas desafia a imagem cultural “oficial” do país, mas, nesse
processo, está também introduzindo modos de apreender o mundo que vão além da tradição
literária anglo-americana, que tem dominado a literatura canadense. Desse modo, a autora
demonstra que literatura é mais do que um objeto de arte, porque trata de seres humanos
capazes de representar na arte seus modos de vida. No entanto, a problemática que reside por
trás de tal posicionamento é que ele vai de encontro à crítica literária que se estabeleceu como
dominante no contexto Europa-América, a qual Mukherjee (1994, p. viii) denuncia como um
modelo que dedica sua atenção somente aos chamados aspectos formais (textualidade da
língua, alegorias e figuras de linguagem, símbolos, forma e estrutura) dos textos em
detrimento de fatores sócio-históricos e culturais, tais como pobreza, exploração,
desigualdade social, conflitos políticos e econômicos, imperialismo, racismo e gênero como
uma categoria separada.
Em termos temáticos e ideológicos, verificamos que a escrita ficcional de Bannerji é
capaz de promover uma clara relação crítica entre “racismo”, nacionalismo canadense e
multiculturalismo. Ela representa a população dominante do Canadá como uma elite burguesa
que compartilha de uma supremacia “branca”, responsável por reproduzir uma versão
hegemônica da realidade que não apenas relega os canadenses sul-asiáticos à periferia do
poder nas relações socioeconômicas e culturais, mas também, e sobretudo, os destitui de
cidadania por meio de práticas “racistas” e políticas paliativas. Em uma perspectiva crítica,
isto representa a insensibilidade do Canadá diante dos séculos de opressão étnico-cultural
sofrida pelas comunidades “não-brancas” e o terrível preço que continuam a pagar. É nesse
96
sentido que o multiculturalismo, enquanto política pública de reconhecimento da diversidade
cultural canadense, não tem garantido uma igualdade democrática a todos os cidadãos
canadenses. Na verdade, as políticas multiculturais canadenses têm tornado as “minorias
visíveis” em alvo de uma diferença discriminatória carregada de estereótipos que a
marginalizam nas relações sociais.
Ao levarmos em conta que o discurso histórico oficial canadense tende a privilegiar a
dita “supremacia branca” como autoridade social, podemos também pensar a literatura
produzida por Bannerji como um espaço capaz de proporcionar uma articulação de resistência
dos sul-asiáticos no contexto sócio-político e cultural do Canadá pós-colonial. Considerando
que os textos literários podem fornecer um local (retórico) alternativo para articular histórias
oficialmente não reconhecidas, a significação política dessa escritura ficcional reside na
capacidade de fornecer um importante contraponto ao silenciamento e apagamento da
identidade étnica dos canadenses sul-asiáticos no interior das relações culturais, políticas e
econômicas.
Ao focalizar os textos culturais dos novos imigrantes como marginalizados pela cultura
ocidental dominante, essa escrita evidencia que os efeitos do colonialismo europeu não
desapareceram simplesmente na medida em que muitas das antigas colônias européias
alcançaram independência nacional na segunda metade do século XX. Na verdade, assistimos
à tentativa de conscientização para o fato de que as estruturas sociais, políticas e econômicas
que foram estabelecidas sob a dominação colonial permaneceram modulando a vida cultural,
política e econômica da nação canadense. Assim, a escritura ficcional da autora parece ecoar
os imperativos políticos de pensadores e escritores pós-coloniais, tais como Edward Said,
Frantz Fanon, Gayatri Spivak e Homi Bhabha, ao dar ênfase ao modo como a ideologia do
nacionalismo pode ser percebida como reprodutora das desigualdades sociais e políticas que
predominavam sob o domínio colonial.
Um dos pontos mais importantes levantados pela ficção de Bannerji diz respeito ao
agenciamento político das mulheres canadenses não-brancas, como a filha e sua mãe em “The
Other Family”, ou Asima e Debbie em “On a Cold Day”: elas possuem ou não alguma voz
política no estado-nação canadense? Esta última narrativa, certamente, apresenta ao leitor um
retrato do corpo de uma mulher que literalmente se revolta contra o estado pós-colonial. Mas
esses atos de resistência corpórea e revolta claramente não são sinal de luta política
97
intencional, situam-se isto sim como demarcadores dolorosos das desigualdades de gênero e
classe que continuam a dividir o Canadá, apesar das promessas emancipatórias realizadas
pelas políticas multiculturalistas em nome da descolonização e da democracia. Em outras
palavras, o apagamento da identidade sul-asiática da criança em “The Other Family” e o corpo
brutalizado de Asima em “On a Cold Day” remete-nos aos limites da descolonização no
Canadá pós-independente e à falta de sucesso em mudar efetivamente as desigualdades
étnicas, de gênero e de classe.
Assim, a literatura canadense sul-asiática pode ser vista como responsável pela escrita
ficcional que se demonstra engajada em um processo de crítica ao “racismo” do senso-comum
presente na estrutura ideológica dominante no Canadá. Tal engajamento está diretamente
preocupado em evidenciar, em tom de denúncia, os esquemas racistas reproduzidos pelo
pensamento dominante canadense, não somente ao desconstruir as imagens artificiais
estereotípicas que constituem um imaginário essencializante da identidade nacional do
Canadá, mas também, e principalmente, ao promover as condições para re-imaginar o discurso
que configura o canadense sul-asiático de maneira excludente. Ou seja, a ficção da escritora
parece objetivar não só a denúncia da opressão sofrida pelos sul-asiáticos no Canadá, mas
também a transformação desta situação, em favor de uma maior aceitação e inclusão dos
canadenses sul-asiáticos no interior das relações sócio-culturais; para tanto, sua escrita criativa
evidencia a articulação das vozes e da agência política dos sujeitos etnicamente
desprivilegiados no Canadá, particularmente os decodificados como “não-brancos”.
Se o engajamento na leitura de textos literários pós-coloniais que desafiam ou mesmo
subvertem a autoridade do discurso colonial tem sido muito influente na geração de
considerações mais sofisticadas do agenciamento em textos pós-coloniais, o engajamento
crítico-ficcional de textos, tais como “The Other Family” e “On a Cold Day” demonstra uma
tentativa de redefinir pedagogicamente concepções coloniais presentes no interior das relações
sócio-culturais canadenses, ao colocar em cena canadenses sul-asiáticos em condições de
opressão. Essa leitura faz-se interessante e importante à medida em que revela o modo como o
pensamento crítico tem buscado desafiar as alegações políticas e culturais canadenses por
meio de textos literários pós-coloniais. De modo especial, é este empenho persistente para
fazer a crítica ocidental prestar contas das formas de desigualdade e opressão política,
98
econômica e social no mundo contemporâneo que torna o pensamento da autora
particularmente valioso.
Assim, verificamos estar frente de literatura que nos remete às vidas particulares de
indivíduos que se envolvem com os conflitos sócio-políticos plenos. É um tipo de narrativa
que, independente de seu pacto ficcional, diz respeito aos problemas de opressão e injustiça,
ao possibilitar reflexões acerca da inclusão e exclusão social, cultural, histórica, política.
Afinal, a temática dos contos sob análise está intimamente relacionada não apenas à denúncia
da exclusão sofrida pelos imigrantes “não-brancos” nos sistemas políticos e culturais do
Canadá, mas também, e sobretudo, engaja-se em sua inclusão, como reação à falta de
representação no interior destes sistemas.
Devido ao fato de as inovações e experimentações literárias de escritores, entre eles
Bannerji permanecerem geralmente despercebidas diante da ausência de uma sensibilidade a
outros modos de apreender o mundo, em reação, assistimos à necessidade de criar novas
formas para articular essas diferenças. Como uma política cultural de resistência, tal ficção
participa de um comportamento comum de alguns escritores imigrantes que procuram
interferir neste aspecto da literatura ao criar uma ficção contemporânea capaz de colocar em
ação indivíduos em jogo com seu mundo sócio-político. Se, como mostra a história da
literatura mundial, os escritores sempre produziram em busca de respostas às demandas
(interesses, preocupações) de seus tempos, na contemporaneidade o fenômeno da migração
tardia parece ter gerado indivíduos marginalizados (as chamadas minorias) nas sociedades do
primeiro mundo com preocupações e interesses de produzir uma cultura capaz de resistir à
ausência de representação que têm sofrido nos modelos da ordem social vigente.
Como a escritora não acredita na possibilidade da arte pela causa da própria arte, sua
ficção constantemente demonstra a subversão da ideologia dominante. Considerando os
aspectos ideológicos presentes no discurso literário, ambos os contos analisados podem ser
vistos como literatura que transparece uma espécie de “pedagogia da resistência” ou “do
oprimido”, “da autonomia”, pois se caracterizam como narrativas que encorajam o leitor a
reflexão crítico-social. Da mesma forma, é possível vê-la como literatura de protesto, a qual
exprime a “raiva” daqueles que se encontram impotentes diante da própria experiência de
discriminação enfrentada no Canadá, mas não deixam de lutar. Tal ficção literária, nesse
sentido, adquire caráter “político-pedagógico”, no entanto, sem se fazer “panfletária”, sem
99
perder de vista a literariedade inerente a seu discurso artístico-cultural; afinal, o que os estudos
culturais têm se empenhado em mostrar, através da crítica literária pós-colonial, é que cultura
e política andam juntas, e a Arte não consegue jamais ser neutra, por menos conscientes disto
que sejam seus autores.
Nessa escrita literária, a autora parece encontrar sua morada. É através dela que
denuncia as injustiças de sua comunidade étnica. É por meio dela que expressa as condições
de opressão em que vivem os canadenses sul-asiáticos. Nesse ato, não deixa de fazer literatura.
Não deixa de criar. A idéia de separar a arte da política somente serve aos interesses de quem
está no domínio. Além de ativista e professora de sociologia, dentre outras posições sociais,
Bannerji é também escritora de literatura. Dentro dessa linguagem, dessa forma, encontra um
modo de fazer política, ao explorar a capacidade pedagógica inerente ao processo de
experiência de leitura do texto literário. Assim, sem perder seu caráter literário, essa ficção
busca dar expressão a vidas que são relegadas ao silêncio na sociedade canadense
contemporânea.
Se a pedagogia pós-colonial é um modo produtivo de descolonização, um modo de
encontrar formas de trazer à tona e compartilhar ignorância (BRYDON, 2004, p. 67), então
trazer tal literatura pós-colonial para a aula de literatura canadense significa trazer à tona
diálogos engajados e conflituosos acerca de questões que podem funcionar como um caminho
de desafio às ansiedades complexas sobre o caráter em transformação da nação,
particularmente no que diz respeito à escritura dos grupos de minorias étnico-raciais. Essa
prática pode ser profundamente desestabilizadora para todos os envolvidos, pois seu caráter
pedagógico advém justamente no contraste de concepções e expectativas. Primeiramente, os
estudantes devem se tornar aptos a analisar como eles próprios são culturalmente construídos
enquanto sujeitos na história. Em segundo lugar, eles devem aprender a analisar como os
textos também são culturalmente construídos, produzidos em espaços particulares de
circunstâncias sociais e reproduzidos diferentemente em diferentes circunstâncias. Em terceiro
lugar, eles podem utilizar então esta análise cultural e histórica para desenvolver e defender
suas próprias posições críticas.
Esta é uma questão estreitamente relacionada com as considerações de Homi Bhabha
(1998) a respeito da “política de localização” e do “local da cultura”. Os estudantes
canadenses (e os próprios professores também devem ser incluídos nessa categoria) precisam
100
retomar a história do colonialismo no Canadá e sua atual posição dentro da ordem global,
tornando possível o entendimento do modo como isto tem afetado suas vidas e modelado seus
pensamentos, e reconhecer, é claro, que suas experiências individuais deste processo jamais
serão homogêneas. Embora muitos devam se sentir desconfortáveis com este processo, ao
problematizar diferentes tipos de comodidades, é justamente este desconforto que deverá
provar ser produtivo. Para que se compreenda, por exemplo, por que Bannerji descreve o
Canadá como uma “democracia liberal com um coração colonial”
53
(2000, p. 75), faz-se
necessária não a simples teoria, mas a “teorização” pós-colonial da literatura canadense.
Devido aos recentes desenvolvimentos na teoria pós-colonial e pedagógica, o campo
de estudo da literatura canadense tem adquirido transformações de perspectiva. A
contemporaneidade oferece um campo fértil para manifestações artísticas nas quais o
indivíduo é focalizado em sua fragmentação e posição periférica no discurso historiográfico
oficial. Os escritores de minorias étnicas têm assumido uma linha de contestação diante dessa
questão. A ficção sob estudo encontra-se munida dos recentes desenvolvimentos no âmbito
dessa teoria crítico-literária, em posição de ataque contra os esquemas de trabalho elitistas que
formam um cânone excludente. A autora mostra-se afinada com essa corrente, ao eleger o
espaço não-branco do Canadá como objeto de sua ficção, focalizando sujeitos que não são
facilmente encontrados em livros de História. Sua escrita, testemunhada em “The Other
Family” e "On a Cold Day", demonstra contribuir não apenas para a reescrita da história da
literatura canadense, mas também, e sobretudo, para a possibilidade de sua releitura.
Dialogando com a possibilidade de uma literatura pós-colonial pedagógica, afirmativa da
diferença, sua ficção demonstra que, no Canadá, há fortes tentativas de retorno à tradição que
busca recuperar as supostas unidades, certezas e a “pureza” da nação colonial, impessoal e
assexuada. É neste sentido que a representação ficcional dessa micro-história desempenha o
papel não apenas de contestação, mas também pedagógico diante da problemática referente
aos imigrantes culturalmente desprivilegiados que se encontram em condições iguais ou
similares às figuras dessa ficção. Assim, a literatura de Bannerji confronta diretamente as
questões sociais emergentes de seu tempo, enfrentando as realidades de poder, classe, cultura,
ordem e desordem social, que permeiam as problemáticas opressivas dos grupos minoritários.
53
Tradução nossa.
101
Ao denunciar a invenção ou construção de “canadense sul-asiático” e “mulheres de
cor” ou “minoria visível”, categorias de regramento no seio das relações sociais de poder, e ao
escrever da especificidade de sua localização como membro de uma comunidade minoritária,
ao ensinar-nos a ouvir vozes originárias de diferentes lugares, a escritura de Bannerji
preocupa-se com todo o contingente de mulheres não-brancas no Canadá. Seu valor crucial
reside no fato de reivindicar maior inclusão não apenas crítico-literária, mas acima de tudo
política e sócio-cultural, de modo que resgate essas mulheres da marginalidade a que são
relegadas por políticas e estratégias textuais determinadas pela “supremacia branca”, muitas
vezes contida no próprio feminismo canadense.
Na ausência de políticas nacionais antiracistas, a escritura dos grupos minoritários, tais
como os canadenses sul-asiáticos, desafia a constituição do cânone literário canadense. Ao
escreverem da especificidade de suas localizações, membros dessas comunidades minoritárias,
que são esses escritores colocam em cheque o lugar universalista adotado pelos escritores
brancos canadenses. Estas trivializações continuarão a ocorrer enquanto a relação dialógica do
escritor com sua sociedade for ignorada, e impor categorias que alegam estar acima de
qualquer sujeição à especificidade é falsificar e “desradicalizar” as obras literárias dos
escritores que atualmente produzem literatura de resistência em contextos sócio-culturais a
exemplo do Canadá. No mundo pós-colonial, quando os ditados das metrópoles determinam o
que será dito, pensado, escrito e lido nas periferias, os imigrantes etnicamente desprivilegiados
enfrentam o perigo de se tornarem alienados de suas próprias realidades. Dado os imperativos
da atual ordem mundial imperialista, o crítico ocidental precisa estar atento para não
desempenhar um papel de “imperialista cultural”, ao recorrer a critérios “universalistas”
autoritários e excludentes.
Até o momento prevaleceu o que é supostamente uma lógica que atua no apagamento
da diferença étnica. Enquanto a teorização recente da literatura canadense, com sua política de
inclusão e exclusão, tem refutado a questão da “cor”, evidenciamos neste estudo uma
teorização feminina que está começando a evocar a problemática da etnia assim como a de
classe em associação com a questão de gênero. Nesse contexto, a ficção de Bannerji assume
cumplicidade reivindicatória que ultrapassa o sistema de gênero, ao produzir literatura de
resistência à opressão racista do discurso do colonialismo ainda remanescente. Mais que isso,
evidenciamos a escritura ficcional da autora como proponente de uma mudança social
102
construtiva, ao denunciar a invenção ou construção dos termos “canadenses sul-asiáticos” e
“mulheres de cor” ou “minorias visíveis”, categorias de regramento no seio das relações
sociais de poder, as quais exprimem concepções identitárias colonialmente atribuídas.
Encontramo-nos em um momento de transição, diante da busca por um novo
paradigma literário. Os estudos pós-coloniais têm ressaltado a necessidade contemporânea de
uma revisão da história da colonização, e têm afirmado o importante papel da literatura nesse
processo. Vimos que Bhabha (1998) alega que os próprios conceitos de culturas nacionais
homogêneas estão em profundo processo de redefinição, e, diante desse redimensionamento
da história, a “transnacionalidade” de imigrantes vêm assumindo o terreno da literatura, em
lugar da transmissão das tradições nacionais. Como afirma Michel de Certeau (2002), o foco
da história da literatura hoje é exatamente a “história-problema”, ou os textos marginalizados
pelo cânone. É nesse sentido que o estudo sobre a produção crítico-ficcional de uma mulher
sul-asiática, imigrante “não-branca” no Canadá, faz-se relevante para o cenário atual da
historiografia, teoria e crítica literária.
Ao ensinar-nos a ouvir vozes originárias de diferentes lugares, a escrita de mulheres
imigrantes tais como Bannerji evidencia uma luta política pela valorização das diferenças
como combate à discriminação identitária, decorrente da capacidade de apreender um espaço
particular sempre aberto à gestação de novas imagens. Assim, configura-se uma escrita que se
fortifica no movimento, nas incertezas, no convívio das pluralidades, contribuindo não apenas
para a reescrita da história da literatura canadense, mas também, e sobretudo, para a
possibilidade de sua releitura. Juntamente a isto, essa escrita evidencia uma luta política pela
valorização das diferenças como combate à discriminação identitária, e sua emancipação é
correlativa à busca de um novo ordenamento sócio-cultural que funcione como um
contrabalanço às ameaças de opressão ligadas à idéia de uma história universal.
Seguindo essa linha de raciocínio, também é interessante pensar que, nos termos
cunhados por Linda Hutcheon (1991), tal escrita (i)migrante desempenha um papel de
“esclarecer a periferia” e “redefinir o centro”. Ainda que um dos objetivos centrais desta
pesquisa seja o de conhecer a(s) voz(es) dessa literatura “minoritária”, é igualmente ou ainda
mais importante “ensinar a ouvir” esta pluralidade de vozes diferentes daquelas provenientes
do centro. Além disso, estudar a literatura de Bannerji a partir de tal perspectiva significa re-
conhecer que os movimentos transculturais se desenvolvem não apenas da periferia para o
103
centro, e vice-versa, mas que também formam redes de interações entre culturas e manifestam
a consciência de que a idéia de diferença sugere multiplicidade de conceitos, de posturas que
participam da movência e se deslocam de acordo com o contexto.
Para finalizar, cabem algumas considerações a respeito da responsabilidade política do
intelectual pós-colonial. Mesmo que sua literatura apresente exemplos negativos de opressão,
a figura de Bannerji enquanto escritora exemplifica que existem mulheres participando
ativamente em movimentos de resistência anticolonial no contexto contemporâneo das
sociedades pós-modernas, não sendo estas apenas objetos submissos à opressão passiva. O
artista nessa versão é um participante do processo social; ele engaja-se no ato de viver, que
envolve a necessidade de lidar com as questões problemáticas de seu tempo. Se a opressão dos
grupos de etnia desprivilegiada no Canadá apresenta um dilema ético, bem como um desafio
metodológico, Bannerji, como uma intelectual pública comprometida com a articulação das
histórias e vidas desses grupos, demonstra que a experiência de opressão social e política em
sociedades pós-coloniais atravessa diferenças de classe, região, língua, etnicidade, religião,
geração, gênero e cidadania, dentre outras; e é justamente na perspectiva dessas diferenças que
tal opressão se torna inteligível. Contra um discurso dominante hegemônico, apagador das
diferenças em mesma proporção que busca homogeneidade, é que se situa a literatura de
Bannerji. Apesar de estar localizada no contexto acadêmico ocidental, é importante observar
que a escritora traz à cena as vozes dos subalternos do mundo pós-colonial sem se apropriar
delas.
104
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