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1968, p.202, tradução nossa). No Tratado do Homem, Descartes explicita o caráter
mecanicista do desencadeamento das paixões:
Ora, eu diria que quando Deus unir uma alma racional a essa máquina [...]
ele lhe dará sua sede central no cérebro, fá-la-á de tal natureza que, conforme
as diferentes maneiras que as entradas existentes na superfície interior do
cérebro forem abertas por intermédio dos nervos, ela terá diferentes
sentimentos. Como, primeiramente, se os pequenos filetes que compõem a
medula desses nervos forem puxados com bastante força, de modo que se
rompam e se separem da parte a que estavam unidos, fazendo com que a
estrutura de toda a máquina seja menos perfeita, o movimento que eles
causarem no cérebro ocasionará à alma, à qual importa que o lugar de sua
sede seja conservado, o sentimento de dor. (DESCARTES, 1993, p.158).
Também a partir dos objetos externos, paixões são causadas pelo movimento daqueles
sobre os órgãos sensoriais, e daí sobre os nervos, e isto sem qualquer recurso a elementos
qualitativos, como as formas substanciais ou qualidades de que falavam os escolásticos, e que,
segundo estes, passavam dos objetos aos sentidos.
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De acordo com Descartes, o que há nas
coisas é movimento, figura e tamanho dos corpos, isto é, elementos quantitativos,
matematizáveis, relacionados à extensão. Muito embora não possamos saber ao certo como
estes elementos quantitativos podem ocasionar sensações, o fato é que, segundo a doutrina
cartesiana, são eles que desencadeiam paixões. Como afirma Descartes nos Princípios:
É possível conceber de que modo o movimento de um corpo pode ser
causado e diversificado pela grandeza, figura e situação das suas partes; mas
de modo algum será possível conceber como estas mesmas coisas, isto é, a
grandeza, a figura e o movimento, podem produzir naturezas completamente
diferentes das suas, a tal ponto que a maioria dos filósofos supôs que nos
corpos existiam apenas as qualidades reais e as formas substanciais; também
não é possível saber como é que estas formas ou qualidades estão num corpo
e têm força para mover outros. Ora, sabemos que a alma é de tal natureza
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Descartes critica a doutrina das formas substanciais apresentada por Aristóteles e aceita por São Tomás de
Aquino. Segundo a doutrina aristotélica, as coisas são constituídas não somente por matéria, mas também por
forma. A matéria é o indeterminado que se determina ao receber a forma. A forma de um objeto consiste
naquelas características que fazem o objeto ser o que ele é. Ela é o que diferencia uma coisa da outra,
identificando-as. “Forma substancial” significa, então, forma da substância, e, para Aristóteles, todas as coisas
naturais são substâncias. As formas substanciais são o princípio de movimento e mudança de cada substância.
(SILVA, 1993, p.48). Descartes rejeita a doutrina das formas substanciais porque, segundo ele, as formas são
como outras substâncias conectadas às coisas (de natureza imaterial ou mental), o que consiste no predicamento
de características mentais a objetos físicos. Na perspectiva cartesiana, supor formas substanciais às coisas é
atribuir almas a elas, e os únicos seres que possuem almas são os seres humanos, Deus e os anjos. (CHÁVEZ-
ARVIZO, 1997, p.viii e ix) Ao contrário disto, afirma Descartes, nós podemos explicar as coisas no mundo
físico e o seu comportamento em termos exclusivamente mecânicos, utilizando termos matemáticos, isto é,
termos como figura, extensão e movimento, sem consideração a princípios internos ou elementos qualitativos
não acessíveis ao método matemático. (SILVA, 1993, p.50). Para a doutrina cartesiana, considerar essências
qualitativas, como as formas substanciais, na explicação de fenômenos físicos, é totalmente desnecessário e,
mesmo, sem sentido, pois acrescenta aos corpos elementos estranhos à extensão.