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Adriana de Barros Ferreira Cunha
A Imagem como Arma:
O uso ideológico das imagens de guerra
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Artes da Escola de Belas Artes da
Universidade Federal de Minas Gerais, como
requisito parcial à obtenção do título de Mestre em
Artes.
Área de concentração: Arte e Tecnologia da
Imagem
Orientador: Prof. Dr. Luiz Nazario
Belo Horizonte
Escola de Belas Artes / UFMG
2008
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Ferreira, Adriana, 1979-
A imagem como arma: o uso ideológico das imagens de
guerra / Adriana de Barros Ferreira Cunha. - 2008
207 f : il. + 1 DVD
Orientador: Luiz Nazario
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de
Minas Gerais, Escola de Belas Artes.
1. Ideologia e comunicação – Teses 2. Fotografia de guerra –
Teses 3. Cinema – Teses I. Nazário, Luiz, 1957-
II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Belas
Artes III. Título.
CDD: 770.1
Dedico este trabalho à memória dos pioneiros no
registro de imagens de guerra. Por arriscarem
suas vidas em prol da transmissão da informação,
incentivaram o desenvolvimento de novas
tecnologias que hoje permitem que qualquer
pessoa possa registrar um conflito em imagens e
transmitir seu ponto de vista a outras pessoas,
garantindo a liberdade de expressão.
Uma planta em meu quintal germina. Surge uma
dúvida sobre qual será. Somente o tempo poderá
mostrar. O tempo... Ele é básico e necessário.
Fiquei a observá-la... Após alguns meses, já
apareciam botões de flores que se abriram para a
vida. Infelizmente, as flores se foram... Mas,
surpresa... Frutos ainda verdes despontam de
onde já não havia flores. Agora os frutos
amadureceram e pássaros vêm comê-los. Sim...
A vida renasce e o que era uma simples semente,
agora é pássaro...
Agradeço ao meu orientador que, muito
pacientemente, plantou a semente...
Agradeço aos meus pais, irmão, marido e filho,
por cuidarem da semente até que esta virasse
pássaro...
Resumo
Estimulado pelos conflitos, o desenvolvimento tecnológico dos meios de
captação e difusão das imagens fez com que estas se tornassem armas eficazes na
manipulação das massas. Hoje, com um controle quase impossível de ser exercido sobre
as imagens produzidas, o mundo em que vivemos se transformou num mundo dominado
pelas imagens.
Abstract
Stimulated for the conflicts, the technological development of the ways of
recording and dissemination images made efficient weapons to manipulate the society.
Today, with an almost impossible control about the produced images, the world where
we live was transformed into a world controled by the images.
Lista de Ilustrações
Capítulo 1: A Descoberta do Poder das Imagens Técnicas
Figura 1 – A carroça laboratório que acompanhou Roger Fenton à Criméia ................. 29
Figura 2 – O dia de trabalho dele terminou ….............................…......................…….. 32
Figura 3 – Capitão Brown do 4º Light Dragoons ……....................……............…….... 33
Figura 4 – O Vale da Sombra da Morte …………...…...............………...............….… 34
Figura 5 – Campo de Batalha onde o General Reynolds foi Derrotado …...................... 38
Figura 6 – O que eu preciso, John Henry? ...................................................................... 39
Figura 7 – A Colheita da Morte ………………………........................…......……….... 40
Figura 8 – A Casa do Atirador de Elite ………....…..…..……………........................... 42
Figura 9 – O Último Sono de um Atirador de Elite …..…..............................……....… 42
Capítulo 2: O Rolo de Filme: entre a Realidade e a Ficção
Figura 1 – Câmara fotográfica compacta da Kodak ........................................................ 45
Figura 2 – Cartaz da Kodak onde se lê o slogan ............................................................. 45
Figura 3 – Campo de prisioneiros bôeres ........................................................................ 47
Figura 4 – Bôeres em ação .............................................................................................. 48
Figura 5 – O estereoscópio .............................................................................................. 49
Figura 6 – A última mensagem para casa ....................................................................... 50
Figura 7 – Fuzileiros Reais indo para o front .................................................................. 50
Figura 8 – Fuzileiros Reais lutando ................................................................................. 51
Figura 9 – Muitos tanques foram perdidos ...................................................................... 53
Figura 10 – Estes homens estão usando um pulverizador ................................................ 54
Figura 11 – Três imagens cronofotográficas da Fazenda Faffémont ............................... 55
Figura 12 – Fotografia do afundamento do Lusitânia ...................................................... 56
Figura 13 – Fotograma da animação de McCay .............................................................. 56
Figuras 14 e 15 – Tomadas impossíveis de serem captadas in loco ................................ 57
Figura 16 – Uma trincheira na frente de batalha .............................................................. 60
Figura 17 – Caminhão com alto-falante ........................................................................... 64
Figura 18 – Vitória ........................................................................................................... 64
Figura 19 – Passaremos! .................................................................................................. 65
Figura 20 – Exército Popular ........................................................................................... 65
Figura 21 – Esquerda Republicana ................................................................................... 65
Figura 22 – Milícia Legalista ........................................................................................... 67
Figura 23 – Morte de um Soldado Legalista .................................................................... 68
Figura 24 – A pequena garota abotoou erradamente seu casaco ..................................... 69
Figura 25 – Madri – Entre novembro e dezembro de 1936 ............................................. 70
Capítulo 3:
Entre a Ilusão e a Realidade
Figura 1 – Toda a Alemanha ouve o Führer com o receptor Volt .................................. 77
Figura 2 – Tomada aérea ................................................................................................. 79
Figura 3 – Câmara colocada em um elevador ................................................................. 79
Figura 4 – Tomada de baixo para cima [...] .................................................................... 79
Figura 5 – Uma mulher com seu filho no colo [...] ......................................................... 79
Figura 6 – Paradas coreografadas .................................................................................... 80
Figura 7 – A catedral de luz ............................................................................................ 80
Figura 8 – Adenoid Hynkel discursando ......................................................................... 85
Figura 9 – O sonho de dominar o mundo......................................................................... 85
Figura 10 – Músicos na Parada Militar ............................................................................ 88
Figura 11 – Músicos na Parada Militar ............................................................................ 88
Figura 12 – O cuco, com bigode, saudando ..................................................................... 88
Figura 13 – Hitler saudando ............................................................................................. 88
Figura 14 – Donald molhando o único grão de café na água ........................................... 89
Figura 15 – Donald se alimentando com ‘aroma de ovos e bacon’ ................................. 89
Figura 16 – Donald cortando o pão com serrote .............................................................. 89
Figura 17 – A Frente de Trabalho Nazista ....................................................................... 90
Figura 18 – A Frente de Trabalho Nazista com suas pás ................................................. 90
Figura 19 – Donald coagido a trabalhar ........................................................................... 90
Figura 20 – Donald reage à coação e é ameaçado de morte ............................................ 90
Figura 21 – Donald nas férias controladas pelo Estado ................................................... 90
Figura 22 – Carlitos se revolta contra os opressores ........................................................ 91
Figura 23 – Donald faz uma saudação às imagens dos três líderes .................................. 91
Figura 24 – Donald se revolta e saúda a imagem de Hitler com a cauda ......................... 91
Figura 25 – Donald saúda por engano a sombra da Estátua da Liberdade ....................... 91
Figura 26 – A sombra projetada na parede é da Estátua da Liberdade ............................ 91
Figura 27 – As más condições de vida do Donald nazista ............................................... 92
Figura 28 – O conforto da vida real do Donald capitalista .............................................. 92
Figura 29 – Mapa cronofotográfico ................................................................................. 94
Figura 30 – Capa da Revista ‘Veja e Leia’ de fevereiro de 1943 .................................... 95
Figura 31 – Prisioneiros alemães capturados pela URSS ................................................ 96
Figura 32 – Liberação de Paris, 1944 ............................................................................... 98
Figura 33 – Soldados descansando, 1944 ......................................................................... 98
Figura 34 – A morte em cores vivas ................................................................................ 98
Figura 35 – Deserção em massa do exército alemão ....................................................... 98
Figura 36 – Montanha de corpos ...................................................................................... 99
Figura 37 – Prisioneiros assassinados às pressas ............................................................. 99
Figura 38 – Prisioneiro morto congelado na neve ............................................................ 99
Figura 39 – Soldados alemães fuzilados .......................................................................... 99
Figura 40 – Sobreviventes no alojamento em Mauthausen ............................................ 100
Figura 41 – Cidadãos austríacos removem os cadáveres ............................................... 100
Figura 42 – Os homens selecionados [...] ...................................................................... 103
Figura 43 – A imagem do piloto acenando .................................................................... 103
Figura 44 – Restou apenas a silhueta do homem ........................................................... 104
Figura 45 – As estampas dos quimonos ficaram gravadas na pele ................................ 104
Figura 46 – Pessoas na fila para se registrar .................................................................. 105
Figura 47 – Um policial registra os feridos .................................................................... 105
Figura 48 – O piloto é condecorado com uma medalha ................................................. 106
Figura 49 – Cinegrafistas e fotógrafos registram a chegada dos heróis ......................... 106
Figura 50 – Uma das primeiras imagens fotográficas captada ....................................... 108
Figura 51 – Imagens como esta, foram censuradas ........................................................ 108
Figura 52 – Apesar do alvo principal serem as indústrias [...] ....................................... 109
Capítulo 4:
O Poder da Informação
Figura 1 – Capa da Revista Life sobre a Crise de Cuba ................................................ 113
Figura 2 – Fotografia aérea mostrando base de lançamento de mísseis ........................ 115
Figura 3 – Última fotografia feita por Robert Capa ...................................................... 118
Figura 4 – Capa da Revista Life .................................................................................... 120
Figura 5 – Capa da Revista Life .................................................................................... 120
Figura 6 – Uma mulher chora sobre o corpo de seu marido ......................................... 121
Figura 7 – Marines recolhem um corpo sob tiros .......................................................... 121
Figura 8 – Menina atingida por uma bomba de Napalm ............................................... 122
Figura 9 – Morte de um informante vietcongue ............................................................ 122
Figura 10 – Soldado em estado de choque …......................………...…..…………….. 122
Figura 11 – Menino chora ao ver o corpo de sua irmã sendo recolhido ........................ 122
Figura 12 – Soldado do ‘Esquadrão Zippo’, ateando fogo numa vila ............................ 123
Figura 13 – Prisioneiro norte-americano ........................................................................ 125
Figura 14 – Fotografia dentro do esconderijo subterrâneo ............................................ 126
Figura 15 – Dentro da Fortaleza em Quang Tri ............................................................. 128
Figura 16 – Astronautas caminhando na Lua ................................................................. 134
Figura 17 – Transmissão televisiva mostrando os astronautas na Lua .......................... 134
Figura 18 – Pessoas arriscavam a vida para atravessar o muro ..................................... 135
Figura 19 – Os portões foram finalmente abertos .......................................................... 135
Figura 20 – As pessoas literalmente “derrubam” o muro .............................................. 136
Figura 21 – Imagens de múltiplas câmaras de captação noturna ................................... 138
Capítulo 5: A Velocidade dos Meios de Comunicação como
Arma do Terror
Figura 1 – A evacuação das aeronaves .......................................................................... 144
Figura 2 – A explosão das aeronaves ............................................................................ 144
Figura 3 – Um dos terroristas é fotografado ................................................................. 145
Figura 4 – O corpo carbonizado de um dos atletas assassinados .................................. 145
Figura 5 – Imagem do primeiro avião atingindo a Torre Norte do WTC ..................... 147
Figura 6 – A colisão do avião causa uma explosão ....................................................... 147
Figura 7 – Agora em transmissão pela televisão ‘ao vivo’ [...] ..................................... 148
Figura 8 – E também colide, explodindo a seguir ......................................................... 148
Figura 9 – A Torre Sul desaba numa ‘chuva’ de poeira ................................................ 149
Figura 10 – 20 minutos depois, a Torre Norte também desaba ...................................... 149
Figura 11 – Avião seqüestrado colide no prédio do Pentágono ..................................... 150
Figura 12 – Restos do quarto avião que caiu na Pensilvânia ......................................... 150
Figura 13 – Um homem foge do desabamento ……...................................................... 153
Figura 14 A bandeira norte-americana foi hasteada ................................................... 153
Figura 15 – Um fotógrafo da polícia de Nova Iorque registra [...] ................................ 153
Figura 16 – O mesmo fotógrafo registra a manifestação da população [...] .................. 153
Figura 17 – A derrubada da estátua de Saddam ............................................................. 156
Figura 18 – Na estrada para Bagdá ................................................................................ 157
Figura 19 – A entrada em Bagdá .................................................................................... 157
Figura 20 – Civis mortos ................................................................................................ 157
Figura 21 – Militares mortos .......................................................................................... 157
Figura 22 – Cena da entrevista coletiva ......................................................................... 158
Figura 23 – Soldados norte-americanos posam para fotografias ................................... 158
Figura 24 – Vagão destruído .......................................................................................... 159
Figura 25 – Corpos enfileirados ..................................................................................... 160
Figura 26 – Resgate dos feridos ..................................................................................... 160
Figura 27 – A procura por sobreviventes ....................................................................... 160
Figura 28 – Ônibus destruído ......................................................................................... 161
Figura 29 – Vagão de trem destruído ............................................................................. 161
Figura 30 – Prisioneiro submetido a eletro choque ........................................................ 163
Figura 31 – Prisioneiro nu, com sua roupa íntima usada como venda ........................... 163
Figura 32 – A soldado aponta para os órgãos genitais dos prisioneiros ........................ 164
Figura 33 – Os prisioneiros nus deveriam deitar uns sobre os outros ............................ 164
Figura 34 – Os dedos da mão de um prisioneiro são cortados ....................................... 165
Figura 35 – O prisioneiro vendado leva pauladas .......................................................... 165
Sumário
Introdução ............................................................................................................................. 14
Capítulo 1: A Descoberta do Poder das Imagens Técnicas ....................... 25
A Realidade Amena das Imagens ..................................................................................... 26
A Realidade Incômoda das Imagens ................................................................................. 35
Capítulo 2: O Rolo de Filme: entre a Realidade e a Ficção ....................... 44
Uma Nova Realidade: As Imagens em 3-D ...................................................................... 46
A Força da Propaganda ..................................................................................................... 51
A Propaganda como Munição ........................................................................................... 61
Capítulo 3: Entre a Ilusão e a Realidade ............................................................. 73
A Propaganda Nazista ....................................................................................................... 75
O Cinema Antinazista em Hollywood ............................................................................... 83
Imagens do Front .............................................................................................................. 93
A Fotografia da Morte ..................................................................................................... 101
Capítulo 4: O Poder da Informação ...................................................................... 111
Evidências da Guerra Psicológica – I .............................................................................. 112
Imagens do Front em Casa .............................................................................................. 116
A Influência da Televisão na Guerra Psicológica ........................................................... 133
Imagens do Front Ao Vivo em Casa ................................................................................ 136
Capítulo 5: A Velocidade dos Meios de Comunicação
como Arma do Terror .................................................................................................... 142
O Terrorismo Midiático em Proporções Mundiais .......................................................... 148
Evidências da Guerra Psicológica – II ............................................................................ 163
Considerações Finais: Imagens do Mundo – Mundo das Imagens ........ 166
Referências das Ilustrações .................................................................................... 173
Bibliografia ......................................................................................................................... 188
14
Introdução
Aos doze anos de idade, ao assistir a Guerra do Golfo ao vivo pela televisão,
escrevi este texto:
A Guerra
Por favor, alguém me diga, me esclareça, pois não consigo entender
porque existe a guerra, se há sofrimento tanto para os que ficam quanto para
os que vão, pois além de correrem o iminente risco de morte, ainda sofrem com
fome, frio, solidão e falta de informação. As mulheres passam noites sem
dormir aflitas, à procura de notícias sobre seus maridos, filhos, netos e amigos,
que por um “dever estúpido” vão guerrear.
Por que isso? Apenas por causa de idéias loucas de irresponsáveis,
surgem estas guerras. Será que estes idealistas não pensam nas crianças que
nem chegam a conhecer o pai e vão saber anos depois, que este morreu numa
guerra, tendo o peito costurado por tiros de metralhadora? Nem nas moças,
que esperam por seus namorados e têm que receber suas cartas de volta, seus
restos mortais embalados em sacos plásticos?
Há uma arma maior e mais poderosa que qualquer arma de fogo já
existente, que acaba com todas as guerras: a diplomacia.
As imagens de guerra, mesmo um tanto distantes e assépticas, instigaram o olhar
de uma criança. As questões acerca do comportamento humano nos momentos de
conflito me chamaram a atenção e, desde então, venho procurando entender as razões da
guerra, como ela é registrada, representada e recebida pela sociedade.
Em minha vida acadêmica, interessei-me pela fotografia, e observando o
fenômeno da banalização da manipulação física da imagem, esbarrei na questão
ideológica dessa manipulação, que estimulou o desenvolvimento deste trabalho.
Na realização deste, foi levado em consideração o amplo universo imagético em
que a sociedade ocidental está inserida desde a invenção da fotografia há
aproximadamente 150 anos. Para tanto, foi considerada ‘imagem’ toda e qualquer
informação visual não-textual, obtida especialmente através de técnicas fotográficas e
cinematográficas. As ilustrações e desenhos são apresentados em situações específicas,
quando seu uso se aplica à propaganda. Isso porque este trabalho permeia a discussão
acerca da veracidade das imagens gravadas pela luz e o efeito que essa pretensa
veracidade gera sobre a sociedade.
15
No início do século XIX, uma grande invenção mudou o rumo das artes,
especialmente da pintura: a fotografia. Com um registro mais “verdadeiro” e barato, as
pessoas que não tinham acesso a um pintor retratista para eternizar sua imagem viram
na fotografia essa possibilidade. E o que aconteceu foi a popularização da fotografia de
retrato, enquanto as artes plásticas passaram por uma revolução conceitual.
A crença na veracidade da imagem, assim como sua manipulação, não são
novidades. Numa análise mais profunda, pode-se afirmar que desde que se usou a
pintura para retratar isso acontece. Numa pintura, a possibilidade de manipulação é
evidente: um pintor sempre imprime sua marca, seu estilo, em seus trabalhos e,
conseqüentemente, filtra aquilo que não é interessante nem para si, nem para seu cliente.
Já na fotografia a manipulação é de certa forma velada: as pessoas querem ter sua
imagem eternizada, porém, a querem da melhor forma, mesmo que essa não
corresponda totalmente à realidade: para isso, os fotógrafos usavam (e muitos ainda
utilizam) um verdadeiro arsenal de roupas, acessórios e maquiagem para construir, junto
ao cliente, a figura que este desejava eternizar. Além desses recursos pré-fotográficos,
ainda eram executados retoques durante o processamento da imagem, com a
interferência sobre o negativo, seja riscando-o ou pintando-o; ou, após o processamento,
adicionando cor aos lábios, pele e olhos; o que hoje se faz digitalmente através de
softwares específicos instalados no computador. Em Diante da Dor dos Outros, Susan
Sontag enfatiza:
Mas a imagem fotográfica, na medida em que constitui um vestígio e
não uma construção montada com vestígios fotográficos dispersos, não pode
ser simplesmente um diapositivo de algo que não aconteceu. É sempre a
imagem que alguém escolheu; fotografar é enquadrar, e enquadrar é excluir.
Além disso, modificar fotos precede de muito tempo a era da fotografia digital e
das manipulações do programa Photoshop: para os fotógrafos, sempre foi
possível adulterar uma foto.
Uma pintura ou um desenho são considerados uma fraude quando se
revela não terem sido feitos pelo artista a quem foram atribuídos. Uma foto –
ou um documento filmado, exibido na tevê ou na internet – é considerada uma
fraude quando se revela que engana o espectador quanto à cena que se propõe
retratar. [...]
Não se espera que uma foto evoque, mas sim que mostre. Por isso as
fotos, ao contrário das imagens feitas à mão, podem servir como provas. Mas
provas de quê? A insistente suspeita de que a foto de Robert Capa intitulada
“Morte de um Soldado Legalista” talvez não mostre o que alega (uma hipótese
é que a foto registra um treinamento, perto da linha de frente) continua a
assediar as discussões sobre a fotografia de guerra. Todos são literalistas
quando se trata de fotos. [...]
16
Com o tempo, muitas fotos encenadas se convertem em um testemunho
histórico, ainda que de um tipo impuro – como a maior parte dos testemunhos
históricos
1
.
As imagens estáticas ou em movimento, sempre estiveram sujeitas à
manipulação físico/química, além da ideológica. Por isso, foram escolhidos momentos
de guerra, pois são momentos históricos largamente estudados, tornando claras as
intervenções ideológicas sobre as imagens produzidas. Foram abordadas algumas
guerras não tradicionais, como a “Guerra Fria” e a atual “Guerra ao Terror”, por serem
intensamente travadas através das imagens. Já as diversas revoltas e guerrilhas do
século XX não puderam ser contempladas neste trabalho, pois o tornariam amplo
demais, ainda que alguns destes eventos tenham produzido imagens memoráveis, como
a imagem de Che Guevara morto na Revolução Cubana; a do estudante chinês
enfrentando uma fileira de tanques na Praça da Paz Celestial; ou as fotografias
manipuladas de Stalin, das quais eram subtraídos os líderes caídos em desgraça durante
a Revolução Russa.
Particularmente, as imagens com um sentido estético menos apurado transmitem
a sensação de maior segurança quanto à sua veracidade, o que nem sempre pode ser
verificado, conforme salienta Susan Sontag:
Ao voarem baixo, em termos artísticos, essas fotos são julgadas menos
manipuladoras – hoje, todas as imagens de sofrimento amplamente divulgadas
estão sob essa suspeita – e menos aptas a suscitar compaixão ou identificação
enganosas
2
.
Quando a fotografia foi inventada, sua capacidade de gravar e exibir uma
imagem mais próxima daquilo que se vê foi impressionante. Até então, todos os
registros imagéticos eram feitos através da pintura. A fotografia trouxe a ilusão de que
nada poderia interferir entre a câmara e o objeto fotografado, desaparecida a figura
intermediária do pintor: o fotógrafo era visto apenas como um operador do
equipamento. Por isso, as imagens fotográficas e, por sua vez, as cinematográficas,
passaram a ser sinônimo de veracidade. Esse sentimento vem se modificando em
relação à fotografia há cerca de duas décadas, desde a invenção da fotografia digital e da
popularização da manipulação digital da imagem.
1
In: SONTAG, Susan , 2003, p. 42, 50.
2
In: Ibidem. p. 27.
17
A fotografia pode não ser confiável como constatação de uma verdade
ou mesmo pode não conter um indicativo seguro da ideologia de seu autor, mas
será certamente um resultado decorrente de seu relacionamento com o mundo à
sua volta e, portanto, passível de se transformar em testemunho importante,
talvez mesmo denunciador das angústias e aspirações de seu tempo
3
.
Qualquer meio de comunicação, ao tentar fazer um simples registro daquilo que
ocorre à sua volta, esbarra na impossibilidade de isenção, pois não há meios de se evitar
qualquer manipulação de conteúdo, conforme salienta Boris Kossoy referindo-se à
fotografia, observação aplicável a qualquer meio de comunicação que se utilize de
imagens:
A fotografia não está enclausurada à condição de registro iconográfico
dos cenários, personagens e fatos das mais diversas naturezas que configuram
os infinitos assuntos a circundar os fotógrafos, onde quer que se movimentem.
A fotografia, por ser um meio de expressão individual, sempre se prestou a
incursões puramente estéticas; a imaginação criadora é, pois inerente a essa
forma de expressão; não pode ser entendida apenas como registro da realidade
dita factual. A deformação intencional dos assuntos através das possibilidades
de efeitos ópticos e químicos, assim como a abstração, montagem e alteração
visual da ordem natural das coisas, a criação enfim de novas realidades têm
sido exploradas constantemente pelos fotógrafos
4
.
Essa possibilidade de criação de novas realidades que a comunicação mediada
por imagens oferece, foi utilizada largamente como material de propaganda, conforme
se observa desde a primeira guerra registrada fotograficamente, o que poderia gerar uma
falsa informação iconográfica do ponto de vista histórico. Para isso foram observadas
duas categorias de fontes fotográficas, conforme o método sugerido por Boris Kossoy
em seu livro Fotografia e História:
As fotografias tomadas pelo autor por puro prazer documental
ou estético, por sua vontade própria, desvinculada, em
princípio, de alguma aplicação imediata;
As fotografias encomendadas aos profissionais do ofício por
terceiros: os clientes/contratantes.
Qualquer que seja o caso pode-se comprovar a fidedignidade do
conteúdo, pelo menos enquanto reprodução icônica da realidade, através da
comparação com outras fotografias que representam o mesmo assunto,
tomadas pelo próprio fotógrafo ou por outros fotógrafos, aproximadamente na
mesma época.
É certo que a fidedignidade do conteúdo de uma fonte histórica está
diretamente relacionada com seu autor, e nesse sentido é mister que se tenham
3
In: HUMBERTO, Luís, out. 1981, p.24.
4
In: KOSSOY, Boris, 2001, p. 49.
18
detalhes de sua vida, de seu comportamento individual e social, de sua situação
econômica, bem como de sua obra, conjunto de informações cuja determinação
em profundidade não é tão simples de se alcançar pelo pouco que se sabe
acerca da vida dos pioneiros fotógrafos, autores das imagens que devemos
examinar
5
.
O presente trabalho dará maior atenção à biografia dos vários fotógrafos e
cineastas que tiveram suas imagens analisadas como fontes históricas. E a evolução
técnica dos meios de captação e transmissão de imagens será a base da discussão acerca
dos usos ideológicos das imagens de guerra. Imagens estas que podem ser destacadas
em três vertentes: as de uso em combate, as de registro do combate (foto-jornalísticas) e
as de propaganda.
As imagens foram utilizadas inicialmente em combate como instrumentos de
espionagem. Mapeando o território inimigo através da cronofotografia
6
e, mais tarde,
através dos satélites, tornou-se possível planejar melhor o avanço das tropas e atingir
mais facilmente os pontos estratégicos. O avanço tecnológico no campo das imagens
tornou-se uma necessidade premente, e as descobertas nesse campo vêm sendo
aproveitadas também para outras finalidades, como entretenimento, segurança e
urbanismo. A fotografia feita por satélite é um exemplo dessa utilização: é possível
fazer um mapeamento da ocupação geográfica do espaço e verificar a distribuição
social, a fim de possibilitar melhorias na infra-estrutura urbana. Outro exemplo foi o
desenvolvimento da captação da imagem noturna, que tornou possível a existência de
câmaras de vigilância utilizadas em empresas e residências, capazes de registrar a
imagem mesmo com total ausência de luz.
O avanço técnico dos meios de captação influenciou fortemente os modos de
registro e o teor das imagens obtidas. Equipamentos menores e de manuseio mais
simples possibilitaram imagens mais próximas da frente de batalha. Se na Guerra da
Criméia, Roger Fenton, considerado o primeiro fotógrafo de guerra, usando uma câmara
de grande formato com chapas de vidro úmidas que deviam ser reveladas logo após a
exposição, o que era feito em uma carroça, obteve imagens de guerra bucólicas; décadas
mais tarde, na Guerra Civil Espanhola, Robert Capa, com um equipamento portátil e
5
KOSSOY, Boris, 2001, p. 104-105.
6
Mapeamento fotográfico feito através de várias imagens aéreas que são justapostas a fim de formar um
mapa.
19
filmes que não precisavam ser revelados imediatamente, pôde aproximar-se da frente de
batalha e captar imagens de guerra consideradas mais “realistas” pela sociedade.
Porém, Kossoy também salienta que mesmo as imagens consideradas realistas
estão sujeitas às manipulações físicas, químicas, estéticas e ideológicas:
Apesar do amplo potencial de informação contido na imagem, ela não
substitui a realidade tal como se deu no passado. Ela apenas traz informações
visuais de um fragmento do real, selecionado e organizado estética e ideo-
logicamente
7
.
As imagens de registro do combate sofrem, sobretudo, a influência ideológica,
mesmo antes de serem exibidas ao público; desde a ideologia de quem encomendou as
imagens, passando pela do fotógrafo ou cinegrafista, até a do editor responsável pela
publicação, ainda segundo Boris Kossoy:
A fotografia é indiscutivelmente um meio de conhecimento do passado,
mas não reúne em seu conteúdo o conhecimento definitivo dele. A imagem
fotográfica pode e deve ser utilizada como fonte histórica. Deve-se, entretanto,
ter em mente que o assunto registrado mostra apenas um fragmento da
realidade, um e só um enfoque da realidade passada: um aspecto determinado.
Não é demais enfatizar que este conteúdo é o resultado final de uma seleção de
possibilidades de ver, optar e fixar um certo aspecto da realidade primeira,
cuja decisão cabe exclusivamente ao fotógrafo, quer esteja ele registrando o
mundo para si mesmo, quer a serviço de seu contratante
8
.
A intervenção ideológica assemelha-se à censura, só que na maioria das vezes
esta é feita antes da produção da imagem, enquanto a censura normalmente intervém
após o registro. Essa intervenção pode ser desde uma auto-censura exercida pelo
fotógrafo ou cinegrafista na escolha do tema e ângulo a ser fotografado, até uma
“recomendação” feita pelo contratante. A censura por sua vez, é imposta na maioria das
vezes por governos ou autoridades de modo a vetar a distribuição de determinadas
imagens e informações, impedindo o conhecimento de certos temas pelo público.
Nesse momento pode-se falar de manipulação ideológica da sociedade; e é
nesse momento também que as imagens comparam-se a armas, pois, ao distribuir certos
tipos de imagens e não outros se tende a criar uma idéia central movendo a sociedade,
que passa a ser alimentada por determinado tipo de informação. Inconsciente do quadro
total, a população acredita naquilo que vê, manipulada em suas percepções. Uma
7
In: KOSSOY, Boris, 2001, p. 114.
8
In: Ibidem. p. 107.
20
imagem pode estimular as pessoas a participarem e investirem num conflito, ou mesmo
gerar medo e revolta. Dessa forma torna-se impossível tratar da manipulação ideológica
e psicológica sem considerar os avanços tecnológicos no campo das imagens, sempre
evidenciados nos períodos de guerra.
A propaganda de guerra, muitas vezes responsável por incitar a população ao
combate, tem uma linguagem própria, que se utiliza principalmente de trucagens visuais
e de recursos técnicos inovadores em que imagens de registro do combate muitas vezes
se mesclam com imagens produzidas em estúdio, formando falsas imagens de combate
responsáveis por transmitir a mensagem desejada. Ou seja, a imagem de propaganda já
vem desde sua concepção carregada de material ideológico a ser transmitido, o que a
torna uma das mais poderosas armas de guerra.
O desenvolvimento dos meios de captação e transmissão de imagens alterou o
comportamento social frente às imagens. Houve uma enorme evolução desde as
primeiras imagens de guerra: se durante a Guerra da Criméia, temos situações posadas
devido às limitações técnicas, tematizando e mostrando apenas cenas pitorescas para
acalmar a população inglesa acerca das boas condições de vida dos soldados publicadas
em jornal somente um mês após terem sido captadas. Nos dias de hoje temos ataques
terroristas televisionados em rede mundial e ao vivo; ou ainda, homens-bomba
divulgando suas “missões de martírio” em vídeos domésticos de alcance local e
planetariamente pela Internet com as imagens servindo como armas suplementares de
um terror globalizado. Essas imagens que acompanham a humanidade há pouco mais de
um século criaram um “inconsciente coletivo” quanto aos horrores que se espera ver,
fazendo com que [...] a imagem ultrafamiliar, ultracelebrada – de agonia, de ruína – se
constitua um elemento inevitável do nosso conhecimento da guerra mediado pela
câmera
9
.
As imagens, tanto estáticas quanto em movimento, ganharam especial atenção
dos governos ao serem utilizadas para o registro das batalhas e como meio de
espionagem do inimigo. Na Primeira Guerra Mundial, pela primeira vez os aviões foram
utilizados com finalidades militares. Foi também o início do registro aéreo, com tropas
treinadas especialmente para isso. Esse registro servia não apenas para espionagem das
tropas inimigas, mas também para o ensino de manobras aéreas aos novos pilotos. As
9
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 24.
21
câmaras fotográficas e cinematográficas ainda tinham grandes formatos, o que
dificultava a aproximação do fotógrafo ou cinegrafista à linha de frente da batalha.
Nessa época, a propaganda cinematográfica foi largamente utilizada, orientando a
opinião pública contra os países inimigos, mobilizando a população, contribuindo para o
êxito da Tríplice Entente.
Na Segunda Guerra Mundial, com a percepção da importância das imagens
cinematográficas como armas de propaganda, estas foram utilizadas desde o início até
os últimos minutos do conflito. Se todos os países envolvidos utilizaram o cinema como
arma de propaganda, foi a Alemanha quem o fez de modo mais sistemático. Hitler não
teria obtido o apoio popular e nem teria mobilizado com tanta eficácia o povo alemão
para a guerra e a execução do Holocausto sem a monopolização dos meios de
comunicação
10
.
Após a invenção da televisão,em 1924, o primeiro grande conflito armado teve
suas imagens largamente difundidas através desse meio, gerando primeiramente uma
repulsa pelas imagens, para logo em seguida banalizar a violência, como observou
Susan Sontag em Diante da Dor dos Outros:
A guerra que os Estados Unidos travaram no Vietnã, a primeira a ser
testemunhada dia-a-dia pelas câmeras de tevê, apresentou à população civil
americana a nova teleintimidade com a morte e a destruição. Desde então,
batalhas e massacres filmados no momento em que se desenrolam tornaram-se
um ingrediente rotineiro do fluxo incessante de entretenimento televisivo
doméstico.
11
Essa banalização da violência foi marcante quando a Guerra do Golfo,
televisionada ao vivo
12
de Bagdá em horário nobre, era acompanhada por famílias
inteiras, que podiam jantar assistindo ao bombardeamento do Iraque. Para que isso
ocorresse, desenvolveram-se várias tecnologias, especialmente a de gravação noturna de
vídeo. As armas também passaram a usar a tecnologia de captação de imagens para
atingir o inimigo com miras a laser e mísseis teleguiados. A proibição de mostrar
imagens de mortos e feridos e a propaganda de que esta era uma guerra com
10
Cf. NAZARIO, Luiz, 1994.
11
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 21/22.
12
A transmissão tinha um atraso na relação imagem/som que eram transmitidos em velocidades
diferentes, as explosões eram vistas e alguns segundos após eram ouvidas. Por isso, algumas vezes,
mesmo com a alcunha de transmissão ao vivo, as imagens eram gravadas e sincronizadas com o áudio,
para então serem exibidas. In: MAXIMILIANO, Adriana, p. 23-43, jan. 2006.
22
bombardeios de precisão cirúrgica, ferindo o mínimo de civis (que não eram tão
precisos assim, salvo se comparados aos bombardeios da Segunda Guerra, que
destruíam quarteirões, vilas ou cidades inteiras em torno do verdadeiro alvo), tornaram
“toleráveis” as novas cenas de destruição transmitidas diariamente ao vivo pela TV
mundial.
O extremo dessa situação manifestou-se em 11 de setembro de 2001, quando um
atentado terrorista foi transmitido via televisão e internet simultaneamente, em tempo
real
13
, causando a paralisação de várias atividades comerciais ao redor do mundo e
transmitindo, como nunca antes ocorrera, a sensação de terror ante um iminente conflito
mundial. As emissoras de rádio, televisão e internet mobilizaram-se tão rapidamente
que foi impossível ao governo norte-americano tomar qualquer atitude de censura nas
transmissões de dados e imagens, que chegaram quase que instantaneamente a uma
grande parcela da população mundial. Outro atentado terrorista, o de 11 de março de
2004, em estações de metrô em Madri, foi registrado tanto pelas câmaras de segurança
quanto pelos aparelhos de telefonia celular de passageiros que estavam nos vagões e nas
plataformas das estações atingidas. Em segundos, em várias partes do mundo já se sabia
o que havia acontecido e, pelo menos parcialmente, como havia acontecido. Familiares
congestionaram as linhas de telefonia e internet em busca de informações.
Atualmente, as imagens têm sido cada vez mais usadas com o objetivo de
humilhar e coagir prisioneiros de guerra e, conseqüentemente, as sociedades envolvidas
no conflito. A tortura, antes uma prática secreta, oculta, denegada, é, cada vez mais,
acompanhada de encenações de caráter psicológico, num fenômeno característico de
nossas “sociedades do espetáculo”. Exemplos disso são os vídeos dos homens-bomba
palestinos, gravados antes de suas “missões de martírio”, sucesso de aluguel e vendas
nas locadoras de Gaza e Cisjordânia; as imagens de prisioneiros ocidentais
seqüestrados, sofrendo no cativeiro ou sendo decapitados no Iraque, gravadas pelos
próprios terroristas e enviadas às emissoras de televisão a cabo; ou ainda, as imagens de
iraquianos suspeitos de terrorismo sofrendo humilhações na prisão de Abu Ghraib,
fotografados por soldados norte-americanos.
13
Usei a terminologia tempo real para a transmissão ao vivo, simultânea aos acontecimentos, em que a
transmissão televisiva tinha um atraso considerado nulo e a transmissão via internet tinha um atraso que
variava conforme a conexão e servidor do espectador internauta.
23
A globalização dos meios de comunicação foi um grande avanço tecnológico,
mas também tornou possível um terror a nível global, que, por sua vez, levou a uma
guerra unificada contra o terror. Os terroristas têm se utilizado cada vez mais dos meios
de comunicação, seja para divulgar os ataques, seja para assumi-los. A manipulação
psicológica tornou-se mais eficaz ao atingir um número cada vez maior de pessoas,
fazendo com que ataques terroristas isolados se tornassem problemas mundiais.
Um mundo de imagens. É nesse mundo que vivemos hoje, segundo o prof. Dr.
Ernesto Ruiz, (...) a imagem deixou de ser uma mera ilustração (como nos livros) para
converter-se em mensagem
14
. Dessa forma, a construção política, econômica e social
têm-se dado com as bases fixas na estrutura formada pelas imagens que nos chegam
quase que no mesmo instante em que são geradas. O desenvolvimento dos meios de
captação e a velocidade cada vez maior dos meios de transmissão nos inserem num
mundo de virtualidades fabricadas pelas imagens que captamos, transmitimos e
assimilamos.
As maneiras de utilização e de percepção da imagem pela sociedade mudaram
muito, pois hoje, qualquer pessoa, mesmo aquela que não possui um conhecimento
técnico, pode registrar e transmitir uma imagem conforme a percebe, imediatamente,
para qualquer outra pessoa, dificultando o controle do Estado e a conseqüente
manipulação ideológica que manteria uma unidade de opiniões. Uma das causas dessa
modificação de comportamento frente às imagens é a evolução dos equipamentos de
captação, que agiu diretamente sobre o tipo de imagens possíveis de serem registradas;
outra causa foi a evolução concomitante dos equipamentos de transmissão de imagens,
que alteraram o modo, a qualidade e a velocidade de recepção dessas pela população.
Como o tipo de imagem e a maneira como foi difundida interfere diretamente
sobre sua ação diante da sociedade e terá maior ou menor eficácia como arma
ideológica de guerra, alguns termos adotados assumiram definições adequadas a esse
trabalho como a seguir: por captação de imagem entende-se desde a encomenda das
imagens a um fotógrafo ou cinegrafista, até a gravação pela luz e seu processamento
final; e por transmissão se entende através de qual meio de comunicação determinado
tipo de imagem chegou ao grande público. Alencastro e Silva, pesquisador brasileiro
14
In: REUNIÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PESQUISA HISTÓRICA (SBPH), XVII, 1997, p.
66.
24
sobre a história das telecomunicações, afirma em seu livro Telecomunicações: histórias
para a história, que:
As telecomunicações estão a serviço do indivíduo, como pessoa ou
como agente econômico, pois somente elas fornecem meios para decisão e ação
à distância. Elas constituem o sistema nervoso da coletividade nacional
15
.
Este trabalho leva em consideração os aspectos técnicos que interferem na
maneira de captação e transmissão da imagem à sociedade; e os aspectos culturais de
cada período, analisando a veracidade da imagem como fator sócio-cultural e político
em cada situação.
15
In: SILVA, J. A. Alencastro e, 1990, p. 207.
25
Capítulo 1
A Descoberta do Poder
das Imagens Técnicas
Os conflitos armados ocorridos a partir da segunda metade do século XIX foram
marcados pela transição entre as guerras antigas, com armamento pouco eficaz, e as
guerras modernas, com armamento cada vez mais preciso e mortal, comunicações por
telégrafo, estradas de ferro para transporte de suprimentos, enfermagem e cozinha
eficientes, além da cobertura de fotógrafos e repórteres de jornais. Neste contexto,
destacaram-se duas guerras em diferentes continentes, a da Criméia (1853-1856) na
Europa, e a de Secessão (1861-1865) na América do Norte. Como observou Susan
Sontag,
Nas primeiras guerras importantes registradas por fotógrafos, a
Guerra da Criméia e a Guerra Civil Americana, bem como em todas as guerras
até a Primeira Guerra Mundial, o combate propriamente dito esteve fora do
alcance das câmeras. As fotos de guerra publicadas entre 1914 e 1918, quase
todas anônimas, eram, em geral – quando de fato transmitiam algo do terror e
da devastação –, de estilo épico e, freqüentemente, retratos das conseqüências:
os cadáveres espalhados ou a paisagem lunar resultante de uma guerra de
trincheiras; as vilas francesas arrasadas que a guerra encontrara em seu
caminho
1
.
Mesmo assim, estas imagens surtiram efeitos psicológicos nem sempre
desejados sobre a sociedade da época.
1
In: SONTAG, Susan , 2003, p. 21/22.
26
A Realidade Amena das Imagens
Entre 1853 e 1856 houve a invasão à Península da Criméia
2
pelos exércitos
aliados da Grã-Bretanha, Império Francês, Império Otomano
3
e Sardenha
4
, somando um
contingente total de cerca de 57 mil homens – a maior força expedicionária que
atravessara os mares até então. O objetivo da expedição era aniquilar o poder russo no
Mar Negro. Para isto, era necessário tomar a importante base naval de Sebastopol, na
península da Criméia. Neste momento, a Guerra Russo-Turca, que por vários meses
arrastou-se pelo vale do Danúbio, entrava em uma nova fase. A causa desta guerra foi a
disputa entre os Impérios Otomano, Francês e Russo pelo controle dos lugares santos
em Jerusalém. Porém, além deste objetivo declarado, rivalidades políticas, comerciais e
estratégicas envolviam estas nações. A presença Anglo-Francesa no mar Negro e a
declaração de guerra vinda do Império Otomano deram ao Império Russo razões para
iniciar a guerra. Na luta, os exércitos aliados expulsaram as forças russas do território
otomano e perseguiram-nas até a península da Criméia, onde ocorreu a maior batalha.
Em 1856 foi assinado um Tratado de Paz, conhecido como Tratado de Paris de 1856,
que estabeleceu que o mar Negro ficasse aberto aos navios mercantes de todas as
nações, mas fechado para sempre aos navios de guerra.
Nesta época, uma parcela considerável da população era analfabeta, e por isto se
tornava cada vez maior a necessidade de um tipo de informação visual, utilizada
especialmente para a propaganda política e para a publicidade comercial. A difusão da
imagem em larga escala representava a passagem de um mercado restrito a um mercado
de massa.
A esta necessidade, a fotografia respondeu com o desenvolvimento do processo
do colódio úmido
5
, divulgado por Frederick Scott Archer em 1851. O colódio úmido era
composto por nitrato de celulose dissolvido em álcool e éter. A mistura era então
aplicada sobre uma chapa de vidro, e por sua vez, colocada dentro da câmara
fotográfica. Este procedimento deveria ser feito rapidamente, antes que a mistura
secasse, pois ao expor fotograficamente a chapa, as áreas expostas à luz secavam mais
2
A Península da Criméia nesta época era parte do território do Império Russo, atualmente faz parte do
território Ucraniano.
3
Atual Turquia.
4
Atual Itália.
5
In: Fotografia: Manual completo de arte e técnica, 1981.
27
rapidamente que as não expostas, e à medida que secavam, endureciam e perdiam a
sensibilidade à luz. Como a mistura evaporava e secava muito rapidamente, o fotógrafo
deveria estar sempre próximo a uma câmara escura (um laboratório), onde pudesse
preparar as chapas, colocá-las dentro da câmara fotográfica e revelá-las após a
exposição à luz, tudo em menos de 15 minutos. O tempo dessa exposição oscilava entre
20 segundos e um minuto para as paisagens e os motivos arquitetônicos, e entre 2 e 20
segundos para os retratos pequenos
6
. Com um negativo de vidro, esta técnica permitia
obter uma cópia de qualidade, mais nítida do que outra técnica usada na mesma época, a
calotipia.
Inventada por William Henry Fox Talbot, a calotipia
7
era um procedimento
fotográfico que consistia em utilizar o papel como negativo, e através desse podia-se
reproduzir um número ilimitado de cópias. Porém, as cópias eram pouco nítidas, pois
durante a confecção do positivo a textura do papel-negativo também aparecia. Isto
depreciava a técnica, visto que o daguerreótipo, técnica anterior, mas ainda em uso,
oferecia uma grande nitidez, ainda que não permitisse fazer cópias.
O termo “daguerreótipo”
8
deriva do nome do inventor da técnica, Louis J.
Daguerre, francês que a descreveu pela primeira vez em 1839. Uma chapa de cobre
polida como um espelho recebia uma fina camada de prata através de uma reação
química aos vapores de iodo. A exposição à luz variava entre três e trinta minutos. A
chapa era então, revelada com vapores de mercúrio. Esta técnica tinha alguns
inconvenientes: o longo tempo de exposição, a toxidade do processo, o alto custo pelo
uso de metais nobres (mais tarde o ouro passou a ser utilizado no processo); e por se
tratar de uma superfície especular, não era possível ver a imagem positiva de qualquer
ponto de vista. Porém, ela se popularizou rapidamente; e apenas a partir de 1851 passou
a ser substituída gradualmente pelo colódio úmido, pois as imagens obtidas através
deste processo eram tão precisas e detalhadas quanto às imagens do daguerreótipo: além
disto, com o uso do negativo de vidro era possível fazer-se quantas cópias fossem
desejadas.
6
In: FABRIS, Annateresa, 1991, p. 17.
7
In: Fotografia: Manual completo de arte e técnica, 1981.
8
In: Ibidem.
28
Se a Guerra da Criméia é memorável pelo alto custo do envio das tropas à
Criméia, William Howard Russell, correspondente do The Times
9
, considerou ter sido a
mais fútil das guerras travadas até então, e a mais mal administrada. No inverno de
1854/1855, as notícias da guerra, que eram despachadas da frente de batalha em cavalos
e navios a vapor e chegavam a Londres com até uma semana de atraso, não eram nada
animadoras, e algumas até desesperadoras. Russel, principal correspondente desta
guerra, revelou as terríveis condições em que as tropas britânicas se encontravam e fez
com que a sociedade cobrasse do governo mudanças na administração da guerra e
providências quanto ao conforto dos soldados. Numa de suas cartas do campo de
batalha de Sebastopol, ele escreveu:
Agora está chovendo canivetes – o céu está preto como tinta – o vento
está uivando sobre as barracas cambaleantes – as trincheiras transformaram-
se em diques – nas barracas a água é às vezes o chão. Não há nenhum de
nossos homens aquecido ou agasalhado – eles ficam fora por doze horas
seguidas nas trincheiras – estão sucumbindo à miséria de uma guerra no
inverno – e nem uma alma parece cuidar de seu conforto, e menos ainda de
suas vidas. Estas são duras verdades, mas a população britânica tem que ouvi-
las. Ela tem que saber que os pobres mendigos que perambulam pelas ruas de
Londres na chuva, têm uma vida de príncipe, se comparada com a dos soldados
britânicos que estão lutando tão longe por seu país.
(1º de Dezembro) A morte, está convivendo lado a lado com a vida, e
criou um espetáculo terrível, além da imaginação. Os acessórios mais comuns
a um hospital estão em falta; e não há a atenção merecida à decência e à
higiene – o ambiente é horrível – o ar fétido ajuda a pesar a atmosfera, exceto
pelos furos nas paredes e teto por onde dá para respirar. E eu posso afirmar
que estes homens morrerão sem que algo seja feito para salvá-los
10
.
O governo britânico tentou conter estas notícias, divulgando que eram
mentirosas e caluniando o correspondente. Porém, não havia como dizer que os
números estavam mentindo: do número total de baixas, 88% morreram por causa das
agruras do inverno ou em decorrência de doenças como o cólera, por conta das péssimas
condições de higiene; enquanto apenas 12% sucumbiram por ferimentos causados nas
batalhas
11
. Porém, havia um trunfo até então pouco explorado que foi utilizado pela
coroa britânica para desmentir com eficácia as declarações de Russel: a fotografia. As
imagens produzidas pelo fotógrafo oficial da Coroa, mais que documentar o conflito,
9
Jornal inglês, de ampla circulação nacional, não é mais editado. Hoje, os de maior circulação na
Inglaterra são o The Guardian, o Daily Mirror e o The Sun.
10
Apud: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954, p. 12 /13.
11
In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut. Loc. Cit.
29
serviram para acalmar a opinião pública britânica quanto ao estado de saúde e condições
de vida dos soldados.
No registro da Guerra da Criméia, o tempo de exposição variava entre 10 e 15
segundos, mesmo nos retratos
12
. Mas a maneira pela qual o fotógrafo enviado pela
coroa britânica, Roger Fenton dispunha as pessoas em cena, dava a impressão de que as
imagens haviam sido capturadas em uma fotografia instantânea. Como o colódio úmido
exigia um rápido processamento desde a preparação da chapa até sua revelação após
exposta à luz, o trabalho fotográfico sofria, além das limitações ideológicas, limitações
técnicas impostas pelas pesadas e delicadas chapas de vidro; pela câmara com tripé, que
não permitia a livre movimentação do fotógrafo; e pela proximidade necessária da
carroça
13
laboratório, que se tornava um alvo em potencial.
Figura 1 - A carroça laboratório que acompanhou Roger Fenton à Criméia.
Fonte: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954, prancha 14.
12
In: GERNSHEIM, Helmut; GERNSHEIM, Alison, c1966, p. 139-140.
13
A carroça usada como laboratório era por dentro toda pintada de preto e completamente vedada à luz, e
por fora, pintada de branco para diminuir o calor excessivo, o que a tornava vulnerável, pois era
facilmente vista a grande distância. In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954, p. 9.
30
Roger Fenton é considerado o primeiro fotógrafo de guerra. Porém esta não é
uma afirmação verdadeira, visto que cerca de dois anos antes dele chegar à Criméia, um
pintor e fotógrafo romeno chamado Karl Baptist von Szathmari, registrou o início da
Guerra Russo-Turca, que mais tarde deflagraria a Guerra da Criméia
14
. Von Szathmari
registrou os uniformes e o comando russo, além disto, obteve autorização para
fotografar no campo de batalha. Quando, por sua vez, os otomanos dominaram a região,
ele também registrou o comando otomano e o campo de batalha. Von Szathmari
também seguiu o comboio russo no Vale do Danúbio em sua carroça fotográfica, e suas
aventuras não são diferentes daquelas que Fenton viveu mais tarde na Criméia. Em maio
de 1854, voltou para Bucareste depois de sua carroça ter sido alvo de um ataque
otomano e de quase ter morrido. Ele mostrou um álbum com 200 fotografias na
Exposição Universal de 1855 em Paris, onde foram muito admiradas. Não chegaram a
ser publicadas, nem foram jamais exibidas na Grã-Bretanha, e talvez por isto tenham
escapado da maioria dos registros dos historiadores da fotografia.
15
Além de Von Szathmari, outros fotógrafos chegaram à Criméia antes de
Fenton
16
: em março de 1854, um navio britânico que levou um fotógrafo amador
chamado Gilbert Elliott. Ele fotografou tão detalhadamente uma fortaleza que foi
possível através de suas imagens, determinar a relevância de cada arma e traçar
corretamente um plano de ataque. Quando o Império Francês e a Grã-Bretanha entraram
na guerra, no final do mês, o governo britânico decidiu adicionar um pequeno
destacamento fotográfico ao exército, e nomeou o Capitão John Hackett para organizar
isto. Ele contratou em maio de 1854 um fotógrafo civil chamado Richard Nicklin. O
contrato era de seis meses, que poderia ser estendido após este período, mês a mês. A
remuneração do fotógrafo era três vezes superior à de seus assistentes o Cabo John
Pendered e o Sub-Cabo John Hammond e estes últimos ainda tinham seus gastos com
alimentação deduzidos. Depois de alguns dias de aulas de fotografia, eles embarcaram
em junho para Varna, cidade da Bulgária, levando consigo 16 malas de equipamento
fotográfico. Elas continham uma câmara grande e uma pequena, duas lentes, uma
câmara escura, oito garrafas de colódio, e numerosos outros químicos, garrafas vazias e
vasilhas, quatro suportes de impressão, dois suportes de vasilhas, duas barracas para
câmara fotográfica, seis barracas em tripé e uma quantidade não especificada de vidros
14
In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954, p. 10 /11.
15
In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut. Loc. cit.
16
In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut. Ibidem. p. 11 /12.
31
e papel de impressão
17
. Não há informação sobre o trabalho fotográfico de Nicklin e
seus assistentes entre Varna e Balaclava, local que os britânicos ocuparam em setembro.
Eles foram dados como mortos, quando a carroça laboratório foi encontrada destruída
juntamente com vários navios de transporte e suprimentos, no porto de Balaclava depois
de um furacão ter atingido a região em novembro de 1854.
Os fotógrafos e o equipamento perdido foram prontamente substituídos
18
, e dois
jovens oficiais, Brandon e Dawson, foram enviados na primavera de 1855 para a
Criméia, com novos aparatos e suprimentos, tendo recebido treinamento por um mês do
famoso fotógrafo londrino, J. E. Mayall. Novamente, os fotógrafos foram perdidos;
porém desta vez, não se sabe a causa do desaparecimento. Assim, vários fotógrafos
registraram a Guerra da Criméia. Contudo, o mais famoso por este registro é mesmo
Roger Fenton, talvez por ter sobrevivido à guerra e pelas suas imagens terem sido
publicadas; sendo hoje a maior fonte pictórica acerca desta guerra.
Em fevereiro de 1855, quando o inverno já tinha terminado, Roger Fenton
chegou à Criméia. Esta expedição não foi militar: teve patrocínio do governo britânico,
especialmente da Rainha Victória e do Príncipe Albert, e apenas a ajuda do Duque de
New Castle, Secretário de Estado para Guerra. Além disto, foi financiado também pela
Manchester Publisher Thomas Agnew & Sons, que queria imagens das pessoas e cenas
de interesse histórico, com o objetivo de vendê-las ao público. Por isto, trabalhou sob as
ordens de “não ofender o bom gosto vitoriano”
19
. Fenton evitou fotografar os reveses
dos soldados: todas as 360 fotos feitas foram exibidas e em nenhuma delas foram vistos
os “horrores da guerra”.
17
In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954. p. 11/ 12.
18
In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut. Loc. cit.
19
No contrato estava incluído além da [...] publicação de suas fotos (na forma de estampas) em um
jornal semanal menos tradicional e menos crítico, The Illustrated London News, a exposição das fotos em
uma galeria e a comercialização destas em forma de livro, quando voltasse à Inglaterra. In: SONTAG,
Susan, 2003. p. 44.
32
Figura 2 – O dia de trabalho dele terminou – Tenente-Coronel Hallewell sendo servido
Fonte: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954, prancha 44.
Segundo Alison e Helmut GERNSHEIM, as imagens de Fenton acabaram por
desmentir os artigos de William Howard Russel publicados no The Times
20
. Estes
artigos descreviam o pior período da guerra, anterior à chegada de Fenton à Criméia,
quando o sofrimento das tropas era grande pela perda de agasalhos e suprimentos de
inverno por conta do furacão que atingira a região em novembro. Além disto, antes de
Fenton, chegaram Florence Nightingale
21
e outras 38 enfermeiras, que formaram uma
20
In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954. p. 30.
21
Florence Nightingale (1820-1910). É considerada a fundadora da enfermagem moderna, e uma heroína
ao chefiar, nas mais precárias condições, o atendimento aos soldados britânicos durante a Guerra da
Criméia. Devemos a ela o início de uma série de medidas de higiene adotadas nos hospitais. Numa visita
ao campo de batalha, ela contraiu uma febre que quase a matou. Ao voltar à Grã-Bretanha, fundou a
primeira escola de enfermagem do mundo. Tornou-se uma autoridade mundial em saúde pública e
atendimento a doentes.
33
comissão para melhorar as condições de higiene; e chegaram também novos
suprimentos para o inverno como casacos e barracas.
Figura 3 – Capitão Brown do 4º Light Dragoons
Fonte: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954, prancha 71.
Estes fatores contribuíram para que as imagens captadas por Roger Fenton não
coincidissem com as denúncias que Russel havia feito poucos meses antes. As imagens
que chegaram ao público eram amenas, diferentes daquelas de corpos em decomposição
espalhados pela paisagem vistas mais tarde na Guerra de Secessão.
34
Figura 4 – O Vale da Sombra da Morte
Fonte: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, 1954, prancha 51.
Parece que esta amenidade trouxe tranqüilidade ao público britânico quanto à
saúde e ao bem-estar do exército, em contraposição aos relatos de Russel. As imagens
tornaram-se um relato aparentemente mais confiável e confortável que o texto, pois
carregavam em si a crença do registro fiel da realidade. A Guerra da Criméia marcou
um ponto de transição: a partir de então, os exércitos europeus prestariam maior atenção
ao bem-estar de seus soldados. A provisão de alimentos, roupas e medicamentos tornou-
se central para o planejamento das guerras.
35
A Realidade Incômoda das Imagens
Entre 1861 e 1865, ocorreu no continente americano a Guerra de Secessão
22
,
travada dentro dos EUA. Esta guerra matou mais norte-americanos que qualquer outra
guerra travada até hoje. Pois, [...] o poder letal dos exércitos em guerra havia sido
elevado a uma nova magnitude em razão das armas introduzidas pouco depois da
Guerra da Criméia (1854-56), como o rifle de municiar pela culatra e a primeira arma
de fogo com carregamento automático
23
. Ela dividiu o povo basicamente em duas
frentes: o Norte, composto por vinte e três Estados Livres, conhecidos como federados e
o Sul, com onze Estados Escravistas, os confederados. Porém, era muito freqüente haver
dentro de uma mesma família opiniões divergentes, sendo esta divisão Norte e Sul
apenas simbólica.
Várias causas são atribuídas a esta guerra: alguns historiadores afirmam que a
principal causa foi a questão da escravidão, outros, a rivalidade econômica entre o norte
industrializado e o sul agrícola. Havia também a questão política: em 1860 vários
líderes dos estados sulistas haviam proposto a secessão
24
da Federação caso Abraham
Lincoln, abolicionista, vencesse as eleições. Ele foi eleito, e em 1861 sete estados
sulistas se desligaram da Federação, formando uma nação, os Estados Confederados da
América, e elegeram um presidente próprio com o intuito de manter o regime escravista.
Na realidade, o que agravou a situação e desencadeou o conflito foi o aumento da malha
ferroviária, acompanhado pelo desenvolvimento do telégrafo, que tornou possível
perceber as diferenças e discrepâncias ideológicas entre os vários estados. O senador
Jonh O. Pastore fez uma observação acerca deste fenômeno:
Já não poderia estado algum, em todas as suas tradições e costumes,
permanecer oculto por paredes de distância e de silêncio. Fios do telégrafo e
trilhos do trem começavam a eliminar o isolamento.
25
O telégrafo foi de importante valor para a Guerra de Secessão. No dia 15 de abril
de 1861, a convocação de setenta e cinco mil homens, feita pelo Presidente norte-
americano Abraham Lincoln, foi tão eficiente que se ofereceram para defender o norte
22
Na bibliografia norte-americana esta guerra é chamada de American Civil War, Guerra Civil
Americana, enquanto na bibliografia brasileira ela é chamada de Guerra de Secessão.
23
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 21.
24
Em português significa “ação de separar-se daquele ou daquilo a que estava unido”. In: FERREIRA,
Aurélio Buarque de Holanda, 1993.
25
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, 1966, p. 39/ 40.
36
de imediato, noventa e nove mil homens, além de dinheiro e crédito sem limites. Alguns
dias antes, a milícia de Washington havia tomado os escritórios da American Telegraph
Company, o que fez com que o Sul não recebesse respostas às suas chamadas. Desta
forma, a força nortista aumentou, enquanto a sulista estava sendo emudecida.
A Guerra de Secessão atraiu inúmeros correspondentes de todo o mundo. Graças
à utilização do telégrafo, os leitores podiam acompanhar todos os acontecimentos da
guerra com o atraso de apenas um dia. A habilidade para descrever com precisão e
concisamente foi mais importante que a de compor longas matérias com detalhes das
batalhas
26
. Entretanto, os correspondentes eram muitas vezes inexperientes e os jornais
cada vez mais sensacionalistas, a fim de aumentar as vendas. Com isto, a cobertura da
Guerra de Secessão foi distorcida, devido aos exageros, calúnias e relatos fictícios.
A censura militar também foi exercida na guerra de secessão, inicialmente, por
mera casualidade, quando o comandante das forças nortistas, Wienfield Scott, impediu a
transmissão telegráfica de um despacho da Associated Press
27
, que registrava uma
derrota, substituindo-a por uma vitória. Este ato levou os jornais a publicarem matérias
registrando uma “gloriosa vitória”.
28
Em 1864, já era visível a vitória do Norte, mas a guerra ainda se arrastou por um
ano. Apesar do telégrafo, a notícia do fim da guerra demorou a se espalhar e a última
tropa confederada se rendeu mais de quarenta dias após a deposição do governo sulista.
Ainda neste período, os navios de guerra, até então com cascos de madeira e
movidos à vela, foram substituídos por couraçados de ferro e posteriormente de aço,
movidos a vapor. A princípio, os navios de madeira foram simplesmente recobertos com
ferro para aumentar sua resistência, mantendo as velas como principal meio de
propulsão. Logo a seguir, foram desenvolvidos cascos de ferro, com propulsão mista.
As armas contidas nestes navios também foram melhoradas. Os canhões dispostos em
fileiras nas laterais do navio, agora se concentravam numa única estrutura: a torre de
tiro giratória, que permitia que se atirasse em qualquer direção, foi usada pela primeira
vez nesta guerra. Os canhões, que eram de antecarga (carregados pela frente), passaram
26
In: ADAMS, KEITH (org). Acesso em: 30 mai. 2007.
27
A Associated Press é hoje a espinha dorsal do sistema de informação do mundo jornalístico diário, com
cobertura em todos os meios e notícias em todos os formatos. É a maior organização de venda de notícias
e a mais antiga do mundo. Fundada em 1846, é hoje a maior e mais confiável fonte de notícias e de
informações independente. In: ASSOCIATED PRESS. Acesso em: 29 mai. 2007.
28
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, 1966.
37
a ser de retrocarga (carregados por trás), o que conferia maior segurança e agilidade ao
processo. Um explosivo mais potente que a pólvora, o cordite, também começou a ser
usado. Como os cascos dos navios eram agora de ferro ou aço, as bolas de canhão nada
faziam; daí o desenvolvimento da forma cônica dos projéteis conforme conhecemos
hoje. Com todo este desenvolvimento armamentício, as batalhas navais já não ocorriam
a centenas de metros, mas a quilômetros de distância entre os navios.
Mathew Brady, um fotógrafo proprietário de vários estúdios fotográficos nos
Estados Unidos, financiou a expedição de alguns fotógrafos às frentes de batalha para
registrar a guerra, com o intuito de vender as imagens posteriormente ao público.
Porém, costumava atribuir a si próprio a autoria de todas as imagens, e quando muito
trocava a autoria de um fotógrafo pela de outro. Segundo Susan Sontag,
As fotos de guerra de Brady – [...] – mostravam temas convencionais,
como acampamentos povoados por oficiais e por soldados de infantaria, cida-
des em estado de guerra, material bélico, embarcações e também, com enorme
celebridade, soldados mortos da União e da Confederação, estirados no solo
devastado de Gettysburg e Antietam. Embora o acesso ao campo de batalha
representasse um privilégio concedido a Brady e sua equipe pelo próprio
Lincoln, os fotógrafos não tinham uma missão oficial, como no caso de Fenton
na Criméia. Sua situação se desdobrou de um modo mais americano, com o
patrocínio nominal do governo cedendo espaço para a força de motivações
empresariais e autônomas
29
.
As imagens da guerra não foram muito bem aceitas pelo público, e Brady sofreu
um grande prejuízo que quase o levou à falência. Entre os fotógrafos financiados por ele
estavam Alexander Gardner e Timothy O’Sullivan.
Alexander Gardner veio da Escócia para os EUA em 1855 a partir de um convite
feito por Brady. Gardner trabalhou no estúdio de Brady em Nova Iorque e mais tarde
tornou-se gerente do estúdio de Brady em Washington. Em 1862, saiu do estúdio de
Brady passando a processar seus próprios negativos porque Brady se recusava a dar a
ele e aos outros fotógrafos, crédito individual para as fotografias da Guerra Civil.
Gardner tornou-se o fotógrafo oficial do Exército da União do Potomac até o fim da
Guerra Civil. Publicou a edição original de seu livro, Gardner’s Photographic
Sketchbook of the War em 1866. O livro era composto por dois volumes, sendo que
cada volume continha cem cópias fotográficas impressas manualmente. Foi totalmente
editado e escrito por Gardner, que incluiu, além de suas fotografias, imagens de outros
fotógrafos como Timothy O’Sullivan, George Barnard e Gibson, entre outros. Como
29
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 45/46.
38
fotógrafo, Gardner ficou conhecido pelos retratos memoráveis do presidente Lincoln.
Continuou a ser um bem sucedido fotógrafo retratista em Washington até sua morte em
1882.
Timothy O’Sullivan iniciou sua carreira como aprendiz de Brady, mas pelos
mesmos motivos de Gardner deixou de trabalhar com Brady e passou a fotografar a
Guerra Civil por conta própria. Quarenta e quatro fotografias suas foram incluídas no
livro de Gardner. Suas imagens da guerra civil ficaram muito famosas, especialmente
aquelas em que apareciam corpos de soldados espalhados pelos campos de batalha,
insepultos. Trabalhou até sua morte em 1882, como fotógrafo do Tesouro Nacional.
Figura 5 – Campo de Batalha onde o General Reynolds foi DerrotadoGettysburg
Fonte: GARDNER, Alexander, 2001, prancha 37, p. 83.
Mesmo usando ainda um equipamento fotográfico semelhante ao utilizado por
Roger Fenton na Guerra da Criméia, Mathew Brady e seus colaboradores, Alexander
Gardner, Timothy O’Sullivan, e outros, registraram a Guerra de Secessão de maneira
diferente dos registros feitos por Fenton na Criméia: obtiveram imagens mais diretas das
batalhas e dos soldados nos locais dos conflitos.
As imagens obtidas eram muito parecidas esteticamente com as da Criméia;
porém, algumas delas surpreenderam as pessoas por exibir corpos de soldados mortos,
pois [...] com relação aos nossos mortos, sempre vigorou uma proibição enérgica
contra mostrar o rosto descoberto. As fotos tiradas por Gardner e O’Sullivan ainda
chocam porque os soldados da União e dos Confederados jazem de costas, com o rosto
de alguns claramente visível
30
. Este novo modo de registro feito por Brady e sua equipe
30
In: SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 61.
39
foi prontamente percebido pelo público como “realista” e “fidedigno”, mais crível e
verossímil que os relatos dos correspondentes de guerra na imprensa, como se pode
notar através deste artigo publicado no Humphrey’s Journal
31
:
O público é devedor a Brady de Broadway por suas numerosas e
excelentes vistas da “horrorosa guerra”. (...) São seus os únicos documentos
sobre a batalha de Bull Run dignos de fé. Os correspondentes dos jornais
rebeldes são verdadeiros falsários; os correspondentes dos jornais do Norte
não são igualmente confiáveis e os correspondentes da imprensa britânica são
ainda piores que uns e outros, mas Brady não engana nunca
32
.
Figura 6 – O que eu preciso, John Henry?– Warrenton, VA.
Fonte: GARDNER, Alexander, 2001, prancha 27, p. 63.
31
O Huphrey’s Journal é a primeira e mais antiga publicação dedicada à fotografia dos Estados Unidos.
Sua periodicidade é quinzenal, e traz matérias sobre as novas tecnologias fotográficas. Apesar de
dedicado à fotografia e às suas técnicas (ele é tido como grande difusor das técnicas fotográficas); foi
citado na Revista Mechanics como uma publicação tanto interessante quanto popular. In: HUMPREY’S
JOURNAL. Acesso em: 04 jun. 2007.
32
Apud: FABRIS, Annateresa, 1991. p25.
40
Figura 7 – A Colheita da Morte – Gettysburg.
Fonte: GARDNER, Alexander, 2001, prancha 36, p. 81.
No livro publicado por Gardner, assim como na exposição feita após a guerra,
havia textos seus acompanhando cada uma das imagens. Em seu conteúdo, além de
dados históricos e geográficos, as impressões do fotógrafo. Abaixo, o texto que
acompanha a imagem intitulada “A Colheita da Morte”, captada por Thimoty
O’Sullivan e ampliada por Alexander Gardner:
Lentamente, sobre os campos, a neblina de Gettysburg – relutante em
expor os horrores à luz – veio uma manhã sem sol, após o recuo do exército
derrotado de Lee. Através da neblina, era, certamente, uma "colheita da morte"
que foi apresentada; centenas e milhares de soldados rasgados da União e
soldados rebeldes – embora muitos fazendeiros já houvessem trabalhado nesta
terra – agora era um quieto campo de combate, embebido pela chuva, que por
dois dias inundou o país.
Uma batalha foi freqüentemente o assunto de descrição elaborada; mas
pode ser descrita em uma palavra simples, diabólica! E a morte distorcida
relembra as antigas lendas de homens esquartejados pelos selvagens. A vida
ceifada sem aviso fez os corpos quebrados caírem em todas as posições
concebíveis. Os rebeldes representados na fotografia estão sem sapatos. Estes
sempre eram removidos dos pés dos mortos para suprir as necessidades dos
sobreviventes.
Os bolsos postos para fora mostram que a apropriação não cessou nos
pés. Em torno dos corpos, se vêem dispersos no campo de batalha, munição,
tecidos, copos e cantis, biscoitos, etc, e cartas que podem ter o nome do
41
proprietário, embora a maioria destes homens tenha sido enterrada como
desconhecidos, em uma terra desconhecida. Mortos no esforço frenético de
romper o avanço gradual do exército dos patriotas, cujo heroísmo ultrapassou
os limites, pagaram com a vida o preço de sua coragem, e quando o ataque foi
mal sucedido, encontraram sepulturas sem nome, longe de casa e sem
compaixão.
Tal retrato faz saber uma moral útil: mostra o horror vazio e a
realidade da guerra, em oposição às páginas anteriores (do livro). Estão aqui
os detalhes terríveis! Deixe que estes detalhes ajudem a impedir que outra
calamidade como esta, recaia sobre nossa nação.
33
As imagens que mostravam corpos mortos foram poucas, mas suficientes para
transmitir os horrores da Guerra de Secessão e impressionar a sociedade.
Quando, em outubro de 1862, um mês após a batalha de Antietam, as
fotos tiradas por Gardner e O’Sullivan foram expostas na galeria de Brady em
Manhattan, o The New York Times publicou:
Os vivos que se aglomeram na Broadway talvez
pouco se importem com os mortos em Antietam, mas
podemos imaginar que se empurrariam com menos descaso
em sua marcha pela grande avenida, e que passeariam
menos sossegados, se alguns corpos gotejantes, recém-
caídos no campo de batalha, estivessem estirados pela calça-
da. Haveria um repuxar afobado de barras de saia e uma
cuidadosa escolha do local onde pisar... [...]
A admiração pelas fotos se mistura com a sua desaprovação em virtude
da dor que podem provocar em mulheres da família dos mortos. A câmera traz
o espectador para perto, para demasiado perto; com o auxílio de uma lente de
aumento – pois neste caso as lentes são duas – a "nitidez terrível" das imagens
fornece informação desnecessária e indecente.
Todavia, o repórter do Times não consegue resistir ao melodrama que
meras palavras propiciam os "corpos gotejantes" prontos para "as covas
escancaradas", ao mesmo tempo em que censura o realismo intolerável da
imagem
34
.
É necessário lembrar a carga de fidedignidade à realidade que a fotografia
carregava naquela época (ainda hoje há rastros deste sentimento de realidade
fotográfica), quando era comum afirmar-se que “a câmara nunca mente”. A crença em
sua fidelidade era tão grande que Mathew Brady chegou a afirmar: a câmara
fotográfica é o olho da história
35
. De fato, a câmara, enquanto equipamento de captação
e gravação da luz em um anteparo sensível não pode mentir. Contudo, quem a opera, o
fotógrafo, pode escolher diversos elementos como qual a luz, horário do dia, paisagem
de fundo e mesmo as pessoas que vão compor a cena, e todos estes elementos
33
In: GARDNER, Alexander, 2001, p. 80.
34
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 54/55.
35
Apud: FABRIS, Annateresa, 1991, p. 24.
42
“retratam” seu ponto de vista pessoal. O fotógrafo também pode evitar uma cena que
não lhe agrade ou que entre em contradição com o que deseja transmitir, conforme
sinaliza Susan Sontag em Diante da Dor dos Outros:
A primeira justificativa para as fotos brutalmente claras, que
obviamente violavam um tabu, residia no puro dever de registrar. [...] A
história, evocada como uma verdade inapelável se aliava ao crescente prestígio
de certa idéia de temas que demandavam maior atenção, conhecida como
realismo – idéia que, em breve, viria a ter mais defensores entre romancistas do
que entre fotógrafos.
Em nome do realismo, permitia-se – exigia-se – que se mostrassem
fatos desagradáveis, brutais. Fotos deste tipo também transmitem "uma moral
útil" ao mostrar “o puro horror e a realidade da guerra, em oposição à sua
pompa” – escreveu Gardner [...] em Gardner’s Photographic Sketch Book of
The War (1866). O que não significava que ele e seus colegas houvessem neces-
sariamente fotografado seus temas da forma como os encontraram. Fotografar
era compor (no caso de temas vivos, posar), e o desejo de dispor melhor os
elementos da foto não desaparecia porque o tema estava imobilizado, ou era
imóvel. [...]
Hoje se sabe que a equipe de Brady rearrumou e deslocou alguns dos
cadáveres de soldados recém-mortos em Gettysburg: a foto intitulada "A casa
do atirador de elite rebelde, Gettysburg” é na verdade a foto do cadáver de um
soldado confederado que foi deslocado de onde estava caído no campo de
batalha, para um local mais fotogênico, um abrigo formado por várias rochas
que flanqueavam uma barricada de pedras, e inclui um rifle cenográfico que
Gardner pôs encostado na barricada, junto ao cadáver. (Parece não ser o tipo
de rifle especial que um atirador de elite usaria, mas um rifle comum de
infantaria; Gardner não sabia disto, ou não se importou.)
O estranho não é que tantas célebres fotos jornalísticas do passado,
entre elas algumas das mais lembradas fotos da Segunda Guerra Mundial,
tenham sido ao que tudo indica, encenadas. O estranho é que nos surpreenda
saber que foram encenadas e que isto sempre nos cause frustração
36
.
Figura 8 – A Casa do Atirador de Elite – Gettysburg.
Fonte: GARDNER, Alexander, 2001, prancha 41, p. 91.
Figura 9 – O Último Sono de um
Atirador de Elite – Gettysburg.
Fonte: GARDNER, Alexander, 2001, prancha 40, p. 89.
36
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 46-48.
43
Nestes dois conflitos apenas se iniciou o uso das imagens fotográficas para
registro e propaganda de guerra. Em alguns momentos, elas foram tidas como auxílio à
inteligência de guerra, como arma de espionagem; em outros, elas constituíram apenas
registros de episódios e detalhes dos conflitos. Em todas as ocasiões sofreram censura,
seja por parte do governo, dos militares, do contratante ou até mesmo do próprio
fotógrafo. Timidamente, as imagens fotográficas foram mostrando suas diversas
possibilidades de uso, que seriam enormemente ampliadas no final do século XIX e no
início do XX.
44
Capítulo 2
O Rolo de Filme:
Entre a Realidade e a Ficção
Nas últimas décadas do século XIX, foram inventados os principais
equipamentos que possibilitaram o desenvolvimento das telecomunicações: em 1876, o
telefone; em 1877, o fonógrafo; em 1879, a luz elétrica; em 1884, o filme fotográfico
flexível; em 1889, a câmara cinematográfica
1
; e, em 1896, a radiotelegrafia, – só para
citar os mais importantes. Devido a estes inventos, o uso das imagens ampliou- se. Os
jornais passaram a utilizar algumas fotografias para ilustrar suas matérias e enquanto
isso, as salas de cinema proliferaram pelo mundo.
Graças aos inventos novos de Thomas Edison (a luz elétrica), e de George
Eastman (o filme fotográfico flexível em rolo), o desenvolvimento do cinema e a
diminuição do tamanho dos equipamentos fotográficos tornaram-se possíveis. O
interesse de Eastman pela fotografia tivera início numa viagem de férias que ele
planejara fazer a São Domingos
2
. Esta região encontrava-se na berlinda na década de
1870, porque o então presidente dos Estados Unidos, Ulysses Grant, queria anexá-la
para erguer, naquela área, uma base naval americana. Um amigo sugeriu a Eastman que
levasse consigo uma câmara e fizesse um registro fotográfico da viagem. Como
observou o próprio Eastman, teria de ser robusto o homem que quisesse ser fotógrafo
de exteriores
3
. O equipamento normal incluía uma câmara do tamanho de uma caixa de
sabão, um tripé suficientemente pesado para agüentar um bangalô, um suporte de
chapas secas e uma câmara escura, além de um recipiente de água e outro de substâncias
químicas
4
. Os simples preparativos para a expedição – que ele acabou não fazendo –
bastaram para provocar-lhe no espírito o interesse pela idéia de criar uma câmara, com
todos os acessórios, que fosse menor e menos pesada do que o fardo de uma besta de
1
O cinema, como o conhecemos foi desenvolvido pelos irmãos Lumière, na França em 1895.
2
Capital da República Dominicana.
3
Apud: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, 1966, p.63.
4
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes. Loc. cit.
45
carga. Deste interesse nasceu, eventualmente, a Kodak, cujo slogan era: Você aperta o
botão e nós fazemos o resto
5
.
Figura 1 – Câmara fotográfica compacta Kodak.
Fonte: Fotografia: Manual completo de arte e
técnica, 1981, p. 76.
Figura 2 – Cartaz da Kodak onde se lê o slogan
“Você aperta o botão, nós fazemos o resto.”
Fonte: Fotografia: Manual completo de
arte e técnica, 1981, p. 76.
Em 1889, Thomas Edison fascinado pela nova invenção de George Eastman,
encomendou rolos de filme de maior comprimento e a partir de uma câmara Kodak,
criou a primeira câmara cinematográfica, batizada por ele de Cinetoscópio
6
. Diz-nos a
história que (...) todo empreendimento cinematográfico, toda estrela de cinema e, de
fato, tudo o que diz respeito à sétima arte tem alguma relação com a caixinha preta que
Edison apelidava de Cinetoscópio
7
. Em 1891, precisando de rolos mais compridos de
filmes, Edison encomendou
8
a Eastman vinte e sete rolos de cinqüenta pés de
comprimento e uma polegada e meia de largura. Desta maneira, a Kodak foi a primeira
empresa a produzir, manufaturar e vender filmes em fitas contínuas ou bobinas.
Eastman, todavia, não estava muito certo de que o cinema tivesse vida longa, mesmo
depois de haver vendido um milhão de pés de filmes a Edison, pois omitiu qualquer
5
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, 1966, p.63.
6
In: In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, Ibidem, p. 64.
7
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, Loc. cit.
8
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, Loc. cit.
46
referência a este negócio e às suas possibilidades no prospecto da Kodak para 1898. O
cinema era um jogo, sem lugar sólido nos seus planos. De qualquer forma, os negócios
da Kodak avançavam em todo o mundo.
Uma Nova Realidade: As Imagens em 3-D
Entre 1877 e 1902, ocorreram no continente africano as Guerras dos Bôeres. Na
África do Sul os primeiros colonos europeus instalaram-se em 1652, onde trabalhavam
para a Companhia Holandesa das Índias Orientais. O objetivo desta colonização era
fundar um porto que servisse como base para abastecer de suprimentos os navios que
faziam a rota para as Índias Orientais. Para isto, foram importados escravos negros da
região da África tropical. Anos depois, alguns ex-funcionários da Companhia Holandesa
das Índias Orientais fundaram suas próprias fazendas e, como-de-obra escrava,
forneciam alimentos para a Companhia. Estes fazendeiros ficaram conhecidos como
bôeres. Deu-se um rápido crescimento da colônia, fazendo com que os bôeres
ocupassem a maioria das terras férteis em torno da Cidade do Cabo. Para isto, invadiram
as terras do povo Khoikhoi e San, nativas da região. Quando não eram mortos nos
embates, os nativos morriam por conta das diversas epidemias de varíola.
Em 1870, um filão de diamantes foi encontrado no Estado Livre de Orange e em
1871 a Grã-Bretanha anexou essa região à Colônia do Cabo, então sob seu domínio. Em
1877, o Estado Livre do Transvaal também foi anexado à colônia, o que fez os bôeres
desta região rebelarem-se, desencadeando a primeira guerra Anglo-Bôer, na qual os
britânicos foram derrotados em 1881. Neste conflito, os jornais britânicos batizaram a
série de derrotas sofridas como “A Semana Negra”
9
, fazendo com que o governo
britânico mudasse o comando das tropas retirando-as da região.
Porém, a paz não havia se instaurado definitivamente, e em 1886 um filão
aurífero foi descoberto na região em que se situa hoje a cidade de Joanesburgo no
Transvaal. Uma década depois, metade da população era de imigrantes recentes que
haviam acorrido à região por conta da mineração. Estes estrangeiros eram conhecidos
como uitlanders e em sua maioria eram britânicos. O governo do Transvaal começou a
cercear os direitos dos uitlanders, o que aumentou a tensão entre a Grã-Bretanha e o
9
In: GILBERT, Adrian, 2005, p. 205.
47
Transvaal. Em 1895 os britânicos invadiram novamente o território do Transvaal, mas
os bôeres capturaram os invasores. Em 1899 o Transvaal e o Estado Livre de Orange
declararam guerra à Grã-Bretanha, mas as forças britânicas eram muito superiores em
número e na tecnologia dos armamentos. Além disto, os britânicos modificaram sua
estratégia de combate, empregando a cavalaria para caçar os bôeres, construindo
pequenos fortes ligados por uma cerca de arame farpado e, além disto, destruindo todas
as fazendas que encontravam pelo caminho e ainda capturavam idosos, mulheres e
crianças e os aprisionavam em campos de concentração. Segundo o historiador Adrian
Gilbert, esta foi a primeira vez que o uso de campos de concentração aconteceu em uma
guerra
10
. Em 1902 as repúblicas bôeres se renderam e tornaram-se colônias britânicas.
Figura 3 – Campo de prisioneiros bôeres em Bloemfontein.
Fonte: FREMONT-BARNES, Gregory, 2003, p. 82.
Durante a década de 1890, com a série de avanços tecnológicos feitos no campo
da fotografia, especialmente a criação do filme em rolo, propiciaram uma diminuição do
tamanho do equipamento, permitindo que o fotógrafo penetrasse no campo de batalha.
Além disto, desenvolveram-se também objetivas de melhor qualidade, que permitiam
trabalhar sob condições de luz pouco favoráveis e reduzir o tempo de exposição, devido
ao uso dos sais de prata, sensíveis à luz, como componente principal dos materiais
fotossensíveis. Desta forma, um novo estilo de fotojornalismo estava surgindo,
encabeçado por Horace Nicholls e mais tarde representado por Robert Capa, na Guerra
Civil Espanhola.
10
In: GILBERT, Adrian, 2005, p. 205.
48
Parece que este novo estilo de registro fotojornalístico alterou a maneira como as
pessoas passaram a perceber a guerra, por conta da precisão e da intensidade das
imagens e do imediatismo das publicações, semanais ou quinzenais, algo muito rápido
para a época, o que tornou a Guerra dos Bôeres a primeira guerra coberta
ostensivamente pela mídia.
Figura 4 – Bôeres em ação.
Fonte: FREMONT-BARNES, Gregory, 2003, p. 72.
Nesta guerra não houve fotógrafos oficiais do exército, mas empresas privadas
enviaram fotógrafos para registrá-la. Um destes fotógrafos foi o alemão Reinhold Thiele
enviado pelo The Daily Graphic, um jornal britânico ricamente ilustrado que utilizava
cartuns, reprodução de pinturas, ilustrações de fatos contemporâneos e de figuras
importantes, passou também a utilizar fotografias, o que colaborou para o registro
fotográfico desta guerra
11
. Estas imagens mostram a tensão de alguns momentos do
conflito, como o bombardeio a uma fortaleza boer feito pela artilharia naval britânica,
em dezembro de 1899. As imagens de outro fotógrafo enviado pelo mesmo jornal,
Horace Nicholls, foram publicadas em março de 1900.
Como observou Susan Sontag, as imagens fotográficas foram usadas também
com a finalidade de propaganda militar para elevar o moral de suas tropas e
desmoralizar os britânicos:
11
In: Daily Graphic, Acesso em: 30 mai. 2007.
49
[...] Após a vitória em Spion Kop, em janeiro de 1900, os
bôeres julgaram que seria edificante para suas próprias tropas pôr em
circulação uma foto horripilante de soldados britânicos mortos. Tirada
por um fotógrafo bôer desconhecido dez dias após a derrota britânica,
que custou a vida de 1300 soldados, a foto oferece uma visão indiscreta
de uma longa e rasa trincheira atulhada por cadáveres insepultos. O
que há de especialmente agressivo na foto é a ausência de paisagem. A
mixórdia de cadáveres que se estende ao longo da trincheira preenche
todo o espaço da foto. A indignação britânica ante esta derradeira
ofensa dos bôeres foi expressa de forma contundente, ainda que fria:
tornar públicas fotos como esta, declarou o periódico Amateur
Photographer, “não serve a nenhum propósito útil e somente apela
para o lado mórbido da natureza humana”
12
.
Durante a guerra dos bôeres, Undewood & Underwood editores de fotografias
estereoscópicas, obtiveram várias imagens através desta técnica. A fotografia
estereoscópica consiste em duas imagens tomadas simultaneamente por duas câmaras
distintas postas a uma distância lateral equivalente à de nossos olhos; ou a uma única
câmara equipada com um acessório em sua objetiva que capta a imagem em ângulos
distintos, semelhantes aos nossos olhos, simultaneamente. Estas imagens são postas
lado a lado e através do estereoscópio é possível enxergá-las como uma única imagem
em três dimensões.
O estereoscópio é um acessório
de visualização, constituído por um
suporte para as imagens, que
normalmente estão impressas lado a lado
sobre um cartão de papelão, e lentes que
se movimentam para frente e para trás de
maneira a melhor ajustar o foco a cada
pessoa. Nesta época era comum
encontrar nos lares das famílias mais
abastadas um estereoscópio e coleções
de imagens estereoscópicas.
Figura 5 – O estereoscópio.
Fonte: Fotografia: Manual completo de arte e
técnica, 1981, p. 71.
12
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 56.
50
Figura 6 – A última mensagem para casa – Hospital Orange River, África do Sul, 1900.
Fonte: SCIENCE & Society Picture Library, 2004, ref. 10303497.
Figura 7 – Fuzileiros Reais indo para o front, África do Sul, 1900.
Fonte: SCIENCE & Society Picture Library, 2004, ref. 10303488.
51
Figura 8 – Fuzileiros Reais lutando, África do Sul, 1900.
Fonte: SCIENCE & Society Picture Library, 2004, ref. 10303535.
Hoje em dia a estereoscopia é utilizada juntamente com a fotografia aérea para
execução de mapas de relevo e os astrônomos a utilizam para auxiliar na pesquisa de
novos corpos celestes.
Além disto, a guerra dos Bôeres foi a primeira a ter uma cobertura
cinematográfica no campo de batalha. Os filmes produzidos eram exibidos nos music-
halls de Londres como parte das atrações noturnas
13
.
A Força da Propaganda
O início do século XX foi marcado por uma corrida armamentista em que cada
grande nação
14
rivalizava com as outras em busca de maior controle sobre os mercados
consumidores, as matérias-primas e os territórios. Este fenômeno ficou conhecido como
“paz armada”. Enquanto a Europa se transformava em um “barril de pólvora”,
começaram a surgir alianças secretas entre as nações.
Em 1881 a Alemanha firmou acordos com o Império Austro-Húngaro e com a
Itália, formando a Tríplice Aliança e em 1907 a Grã-Bretanha, a Rússia e a França se
13
In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut, c1966.
14
Como grande nação entende-se as grandes potências colonizadoras da época: Grã-Bretanha, Alemanha,
França, Império Austro-Húngaro, Império Otomano e Itália.
52
uniram, formando a Tríplice Entente. Desta forma, a Europa se dividiu claramente em
dois blocos e o início de um conflito armado era iminente.
Ainda em 1897 o jornal britânico Saturday Review
15
publicou:
Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de
amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do que é hoje.
Por que não lutar por um comércio de 250 milhões de libras? A
Inglaterra despertou para o que é a sua mais grata esperança de
prosperidade: a destruição da Alemanha
16
.
A rivalidade entre as grandes potências estava próxima do intolerável e a
Alemanha ameaçava o poderio britânico e francês. De 1871 a 1914, a economia alemã
cresceu 600%; e em 1914, a produção de aço do país deixou na poeira as indústrias da
Inglaterra, França e Rússia juntas
17
.
Em 28 de junho de 1914, o herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco
Ferdinando, sofreu um atentado ao visitar Sarajevo. Esta foi a gota d’água que faltava
para o início do conflito armado conhecido como Primeira Guerra Mundial, que duraria
quatro anos e terminaria com um saldo de cerca de 10 milhões de mortos. Todos os
países envolvidos acreditavam estar tão bem armados que em poucos dias eliminariam
os inimigos e terminariam as batalhas, com este pensamento, os alemães planejavam
massacrar os franceses em no máximo 40 dias a fim de evitar uma guerra em duas
frentes. Só que a França resistiu e iniciou-se a guerra de trincheiras, e novos inventos
como o lança-chamas, a metralhadora e os gases tóxicos matavam aos milhares,
enquanto as indústrias se voltavam para a produção bélica.
Além de querer destruir a Alemanha por motivos comerciais, à busca de mais
petróleo para abastecer seu crescimento, desde o século XIX os britânicos tentavam se
apoderar da região da Mesopotâmia. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o
então território Otomano, onde hoje se localiza o Iraque se tornou o principal alvo da
Grã-Bretanha. Os conflitos se espalharam por todo o continente europeu e a artilharia
parecia ser a melhor opção para romper as defesas inimigas e lançar um ataque
fulminante, porém, logo se percebeu que isto não bastaria. A infantaria avançava pelas
áreas dominadas muito lentamente, o que não permitia explorar qualquer oportunidade
estratégica. Veículos blindados foram desenvolvidos para tentar aumentar a mobilidade
das tropas, porém estes eram muito pesados e lentos.
15
O Saturday Review foi o primeiro periódico inglês.
16
Apud: PARRON, Tamis, set. 2004, p.12-13.
17
In: PARRON, Tamis, Loc. cit.
53
Figura 9 – Muitos tanques foram perdidos atolados nas trincheiras ou quebrados.
Fonte: HOLMES, Richard, 2001, p. 225.
Para contornar este problema, foi iniciado o uso de armas químicas
18
que num
primeiro momento causaram uma grande devastação psicológica nas frentes inimigas,
pois os soldados aterrorizados fugiam da frente de batalha, porém, com o rápido
desenvolvimento de máscaras contra gás, o terror foi amenizado. Mas não durou muito:
em 1917 a Alemanha passou a utilizar o gás mostarda que em contato com qualquer
parte da pele, provocava bolhas e logo a seguir atacava os olhos e os pulmões
19
.
18
Segundo o Prof. Dr. Ernesto Aníbal Ruiz, membro da banca de defesa desta dissertação, os franceses
foram os primeiros a utilizarem granadas de gás lacrimogêneo (Xylil Bromide) em agosto de 1914. O gás
a base de cloros foi utilizado na Segunda Batalha de Ypres, em abril de 1915. O gás mostarda foi
utilizado pelos alemães pela primeira vez contra os russos, em Riga, em setembro de 1917.
19
Em 1925, após o término da guerra, foi assinado um acordo entre as grandes potências que proibia o
uso de armas químicas em campos de batalha, porém este item seria rapidamente desrespeitado por várias
dessas nações.
54
Figura 10 – Estes homens estão usando um pulverizador
Vermorel, para dispersar uma solução de cloro.
Fonte: HOLMES, Richard, 2001, p. 89.
O mesmo tipo de motor desenvolvido para os tanques foi utilizado na aviação, e
pouco antes do início da guerra, algumas potências já tinham divisões que atuavam no
reconhecimento aéreo. Durante a guerra, os projetos dos aviões foram aprimorados e
desenvolvidos novos modelos para tarefas específicas. Em pouco menos de quatro anos,
além dos aviões de reconhecimento, já haviam sido construídos bombardeiros e para
combater estes, os caças
20
. No início da guerra, os bombardeiros eram adaptações
rudimentares dos aviões de reconhecimento. Enquanto o piloto comandava o vôo, o co-
piloto atirava nos alvos terrestres granadas e bombas com as próprias mãos e, além
20
A expectativa de vida dos pilotos de aviões-caça era mínima, talvez até menor que a de um soldado
numa trincheira, pois os pára-quedas só começaram a ser utilizados no final da guerra. Contudo, um
piloto se destacou e seu nome é reconhecido até hoje: o Barão alemão Manfred von Richthofen,
conhecido como Barão Vermelho, por ter pintado seu triplano Fokker DR1 de vermelho, pois queria ser
reconhecido pelo inimigo à distância. Ele derrubou mais aviões que qualquer outro piloto, estima-se pelo
menos 80, porém, em 1918, ele foi morto ao sobrevoar as linhas inimigas enquanto perseguia um avião
inglês. Após sua morte, aviões ingleses sobrevoaram as linhas alemãs lançando folhetos que informavam
sobre a morte do Barão Vermelho, o herói voador alemão.
55
disto, levava uma ou duas metralhadoras caso
fosse necessário abater algum avião inimigo.
Durante a guerra, os bombardeiros também
evoluíram e as granadas lançadas manualmente
foram substituídas por bombas maiores
transportadas em um porta-bombas e as
metralhadoras agora estavam instaladas na frente
dos aviões. Os zepelins também foram usados
como bombardeiros e com eles os alemães
atacaram alvos estratégicos, como fábricas de
munição e centros de transporte, além de alvos
civis em Londres, causando grande consternação e
medo. Pouco tempo depois do início da guerra, os
aviões de reconhecimento foram incrementados
com o advento da cronofotografia, que tinha por
objetivo realizar um mapeamento territorial e
espionar os avanços inimigos para definir um
esquema tático. Porém, o equipamento fotográfico
ainda era tão precário que para o mapeamento
cronofotográfico funcionar, o avião deveria
permanecer sempre na mesma altitude num
percurso retilíneo e uniforme, o que o tornava
bastante vulnerável, especialmente após a
invenção dos holofotes e da artilharia antiaérea.
Os navios, especialmente os couraçados,
foram as principais armas no mar; porém, o
desenvolvimento dos submarinos gerou novas perspectivas, especialmente quando a
Alemanha não satisfeita em afundar apenas as naus de guerra ou mercantes inimigas,
resolveu afundar embarcações de países neutros. Esta atitude provocou a entrada dos
Estados Unidos na guerra, pois era o principal fornecedor de suprimentos para a Grã-
Bretanha, especialmente após o afundamento de um navio de passageiros, o Lusitânia,
matando mais de mil civis. Um dos primeiros filmes de animação de média metragem
(12 minutos) realizado nos EUA, o primeiro a usar folhas de acetato para a animação, e
Figura 11 – Três imagens cronofotográficas
da Fazenda Faffémont em diferentes meses
de 1916: a primeira em abril, onde é possível
ver as trincheiras alemãs chegando nela; a
segunda em julho, quando ela está no lado
alemão do front; e a terceira em setembro,
após batalhas acontecerem em suas terras
.
Fonte: HOLMES, Richard, 2001, p. 179.
56
das primeiras animações de propaganda destinadas a espalhar o sentimento anti-
germânico durante a Primeira Guerra, teve justamente como tema o afundamento do
Lusitânia: The Sinking of the Lusitania (1918), de Winsor McCay.
Figura 12 – Fotografia do afundamento do Lusitânia.
Fonte: RMS Lusitania: May, 7
th
1915. 2007.
Figura 13 – Fotograma da animação de
McCay.
Fonte: McCAY, Winsor, 1918.
Outra inovação naval foi a criação dos primeiros porta-aviões. As ferrovias
também se tornaram um elemento crucial para as estratégias de guerra. A Alemanha já
havia reconhecido a importância das ferrovias antes de a guerra iniciar, construindo uma
rede de ferrovias estratégicas. Mas a França havia feito o mesmo e a aparente vantagem
alemã logo caiu por terra.
Entre velhas e novas tecnologias, um inesperado meio de comunicação ainda foi
eficaz. Em uma das batalhas, cerca de 500 soldados americanos viram- se presos numa
emboscada. Desesperados, os soldados soltaram vários pombos-correio com mensagens
de socorro, mas só uma das aves conseguiu escapar do tiro-ao-alvo alemão e atingiu seu
destino. Com a chegada dos reforços cerca de metade dos soldados foi salva
21
.
Durante a guerra, a grande censura exercida pelos governos fez com que, pela
primeira vez, os leitores civis e militares dos jornais, tivessem consciência de que estes
não transmitiam somente a verdade. Sobre isto, o escritor Rudyard Kipling
22
escreveu:
A primeira vítima de uma guerra é a verdade
23
. William Howard Russell,
correspondente já famoso pelos artigos publicados durante a Guerra da Criméia, não
concordava com a situação fazendo inúmeros pronunciamentos contra a censura que
21
In: MARTON, Fábio, set. 2004, p. 16,17.
22
Joseph Rudyard Kipling, nascido em Bombaim, na Índia, então colônia inglesa. (1865 - 1936) Foi o
poeta do Império Britânico e de seu exército, que retratou em vários contos, alguns deles reunidos no
volume Plain Tales from the Hills, de 1888.Em 1907 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.
23
Apud. VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto, 1993. p. 61.
57
estava transformando a imprensa numa simples crônica do poder dos generais
24
.
Porém, a censura que estava irritando Russell não aconteceu somente na Grã-Bretanha:
a Alemanha foi a primeira a exercer uma grande censura, não permitindo que nenhum
correspondente fosse ao campo de batalha.
O único cineasta autorizado pelos aliados a filmar no campo de batalha foi D.
W. Griffith
25
, com a incumbência de realizar um filme de propaganda. Ao chegar ao
campo de batalha na França, fez algumas tomadas com o auxílio do capitão
Kleinschmidt, e só então percebeu que a guerra era muito mais lenta do que imaginava.
Além disto, como o equipamento cinematográfico tinha grandes dimensões, não podia
aproximar-se muito da frente de batalha; portanto, as cenas eram tomadas de muito
longe, o que diminuía a intensidade das imagens. Então, D. W. Griffith resolveu recriar
na Inglaterra, em estúdio, batalhas que realmente estavam acontecendo, onde poderia
dominar a velocidade dos acontecimentos, a interpretação dos atores, o local onde as
bombas iriam explodir... Desta forma foi feito Corações do Mundo (Hearts of the
World, 1918), com cenas de luta encenadas, enquanto muito perto dali aconteciam lutas
verdadeiras.
Figuras 14 e 15 – Fotogramas do filme de Griffith. Tomadas impossíveis de serem captadas “in loco”.
Fonte: GRIFFITH, D. W, 1918.
Pouco informados, ou informados erroneamente, os cidadãos de vários países
podiam ser facilmente manipulados com filmes publicitários veiculados pelo cinema. O
desenvolvimento tecnológico dos meios de captação da imagem, especialmente do
24
Apud: MATTOS, Sergio, 1991. p. 20.
25
David Llewelyn Wark Griffith, (1875- 1948). Cineasta norte-americano, ex-diretor de teatro, filho de
um herói da Guerra de Secessão.
58
cinema com finalidades militares, teve grande força durante e no pós-guerra quando os
“efeitos” tecnológicos passaram a ser empregados em filmes de entretenimento. E como
toda inovação tecnológica, estes efeitos se destacaram pela capacidade de surpreender o
público. Os teóricos da época comparavam as salas de cinema às catedrais quanto à sua
capacidade de impressionar os espectadores.
Isto porque, a projeção das imagens sobre a tela era comparada à projeção da luz
solar através dos vitrais das catedrais. Paul Virilio ainda disserta sobre a sensação de
verdade inerente à luz: Tudo que é visível nos aparece na luz, nós acreditamos em
nossos olhos e a luminosidade nos aparece indistintamente como a verdade do
mundo.
26
Por conta do clima de desconfiança com as informações trazidas pelos jornais, e
com a crença de que o que era visto no cinema refletia a realidade, o público passou
cada vez mais a preferir este meio de comunicação em detrimento do primeiro. Desta
forma o cinema de propaganda mostrou toda sua força ao ajudar os Aliados a vencerem
a guerra.
A percepção tardia do uso eficaz deste grande meio de convencimento público
pelos alemães colaborou para sua derrota. Uma carta de 4 de julho de 1917 do chefe do
Estado-Maior alemão, general Erich Ludendorff, para o Ministério da Guerra do
Império em Berlim, retrata esta percepção:
A guerra demonstrou a superioridade da fotografia e do cinema
como meios de informação e persuasão. Infelizmente nossos inimigos
têm usado sua vantagem sobre nós neste campo de modo tão exaustivo
que nos infligiram grandes estragos. Os filmes não perderão sua
importância durante o resto desta guerra como meio de convencimento
político e militar. Por esta razão é da maior importância, para a
conclusão vitoriosa da guerra, que os filmes sejam feitos para
funcionar de modo mais efetivo possível em qualquer parte onde um
trabalho alemão de persuasão possa ainda ter algum efeito
27
.
Mesmo tardiamente, conseguiu formar o Bild und Film Amt (Departamento de
Fotografia e Cinema) no exército. E, com patrocínio governamental, o surgimento de
uma grande empresa industrial, a UFA, Universum Film Aktiengesellschaft. Mas não
houve tempo suficiente para concretizar as aspirações no terreno da propaganda. A UFA
26
In: VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto, 1993. p. 69.
27
Apud: MONTENEGRO, Júlio Cezar (Trad.). Versão brasileira: FURHAMMAR, Leif; ISAKSSON,
Folke, 1976, p.12,13.
59
surgiu no final da Primeira Guerra Mundial e embora o Ministério da Guerra tenha
fornecido a maioria do capital, ela não teve tempo de se transformar num centro de
propaganda.
Mesmo com fortes campanhas e apelos publicitários, os governos tinham como
grandes inimigos os depoimentos de seus próprios soldados, que contrariavam aquilo
que era divulgado nos jornais, rádio e cinema. Em ambas as frentes, mais de 30 bilhões
de correspondências foram despachadas do front durante os quatro anos de conflito, e
estas correspondências traziam relatos bem diferentes daquilo que era publicado pelas
mídias oficiais. Segundo Jean-Pierre Guéno em seu livro Palavras de soldados: cartas e
diários do front 1914-1918, [...] o conteúdo das cartas contradiz totalmente a
propaganda veiculada pela imprensa. Fragmentos das correspondências tiveram um
efeito prolongado na percepção popular e histórica da guerra
28
. Mesmo com a censura
sobre as correspondências e as severas punições àqueles que infringissem as regras, o
volume era tão grande que não foi possível lerem-nas todas e por isto, algumas
passavam sem serem lidas pelos censores. Muitas usavam caminhos escusos para chegar
a seus destinos, outras eram escritas em códigos ou dialetos. Tudo era feito para driblar
a fiscalização, e por isto é possível ler trechos como estes
29
:
[...] Nas trincheiras, não tenho outra ocupação além de
escrever e conversar com meus colegas. A 300 metros, os mortos de
ontem estão deitados. Todos têm que admitir que não há nada mais
terrível que a guerra.[...] – Georg Schenk, soldado alemão – setembro
de 1914.
[...]Eu seria morto se alguém importante pegasse esta carta.
Mas a verdade é que ninguém mais tem um grama do que chamamos de
patriotismo. Ninguém liga se a Alemanha conquistou a Alsácia, a
Bélgica ou a França. Tudo que se deseja é terminar com isto e ir para
casa. [...] Laurie Rowlands, soldado inglês – fevereiro de 1918.
28
Apud: KÜCHLER, Adriana, set. 2004, p.44.
29
Apud: Apud: KÜCHLER, Adriana, Ibidem, p.47.
60
Figura 16 – Uma trincheira na frente de batalha próximo a Ovillers em julho. Inicialmente foi uma trincheira
alemã, o que pode ser percebido pelo bem construído degrau de tiro à esquerda, onde dorme um soldado. Mas com
a derrota do exército alemão, outro degrau de tiro teve que ser construído, dessa vez, no outro lado da trincheira.
Fonte: HOLMES, Richard, 2001, p. 169.
Em fins de 1916, todos os exércitos haviam sofrido baixas terríveis, porém, os
Aliados poderiam contar com reforços vindos dos Estados Unidos logo no início do ano
seguinte, o que fez a esperança de vitória alemã diminuir rapidamente. Além do
afundamento de navios feito à revelia ter atingido em cheio os Estados Unidos, a
Alemanha também estava interferindo diplomaticamente nos acordos méxico-
americanos, e ter um inimigo fronteiriço não era o que os Estados Unidos queriam,
portanto, a solução foi declarar guerra à Alemanha em abril de 1917.
Não só a Alemanha estava em colapso: o Império Russo também sofria com os
motins e deserções de seu exército, levando à deposição do czar Nicolau II e a
instauração de um governo provisório social-comunista. O que ilustra a famosa frase de
Lênin, eles votaram com os pés
30
, referindo-se ao fato dos soldados terem recuado num
cerco contra os alemães à revelia das ordens superiores. Esta atitude gerou um ambiente
30
Apud: GILBERT, Adrian, 2005, p. 234.
61
propício à Revolução de Outubro de 1917, que derrubou o governo e logo em seguida
propôs acordos de paz com a Alemanha.
Os planos do exército alemão haviam sido essenciais para o início da guerra,
pois em 1914, o parlamento de maioria nacional-socialista declarou guerra à Rússia,
iniciando o conflito, e por isso, queriam obter uma vitória a todo custo, perdendo ótimas
oportunidades de negociar a paz e beneficiar o povo alemão. Porém um governo civil
assumiu o poder em 1918, imediatamente encerrando a guerra. Esperava-se que esta
tivera sido a guerra para acabar de vez com a guerra
31
.
Porém, o mundo não desfrutou de uma paz total após o término da Primeira
Guerra Mundial. Atos de agressão e conflitos isolados ocorreram, as monarquias
absolutistas cederam na Rússia, na Áustria, na Alemanha e na Turquia, e surgiram
ditaduras em vários países, como Itália, Espanha e Alemanha. Além disto, a derrubada
do Império Russo, cedeu lugar à um novo pensamento político: o comunismo,
transformando o Império em União Soviética. As nações envolvidas na Primeira Guerra
Mundial saíram economicamente abaladas, o que fez com que emitissem papel moeda
sem lastro de garantia e tendo como conseqüência o aumento da inflação. Esta situação
econômica abriu precedentes para que os Estados Unidos oferecessem empréstimos aos
países europeus e com isto emergissem como nova grande potência. Entretanto, a paz
não estava selada, e ainda seria possível colocar em prática aquilo que foi aprendido
pelos alemães a duras penas durante a guerra.
A Propaganda como Munição
Na Espanha, logo após a Primeira Guerra, os militares passaram a demonstrar
um descontentamento cada vez maior com as greves e os atos terroristas praticados por
militantes anarquistas e socialistas. Além disto, os militares que serviam em território
marroquino recebiam maiores salários e eram promovidos mais rapidamente. Diante
desta situação, em 1923, o general Miguel Primo de Rivera comandou um
pronunciamiento
32
com a anuência do rei, e decretou uma ditadura dentro da monarquia.
Esta atitude recebeu o apoio da maioria da população e acalmou os ânimos até 1930,
31
HOBSBAWM, Eric. apud GILBERT, Adrian, 2005.
32
Expressão com que se designava a intervenção de grupos militares nas questões políticas através da
força.
62
quando uma insurreição popular obrigou Primo de Rivera a abandonar a chefia do
governo e a exilar-se em Paris, onde morreu pouco depois.
A influência da Igreja Católica sobre a manutenção da monarquia era grande, e
isto ocorria por conta da tradição do direito divino dos reis. Para tanto, o clero
monopolizava as atividades de ensino em todos os níveis, controlando ideologicamente
a população, conforme destacaram os historiadores José Meihy e Cláudio Bertolli
Filho
33
, no livro A Guerra Civil Espanhola:
[...] através dos sermões e de todo o ritual da Igreja, os
sacerdotes procuravam manter vivo o ideal da Espanha como um
grande Império, com a responsabilidade de salvar o mundo para
Cristo
34
.
Outro grupo que procurava manter a ordem tradicional era o dos militares.
Expulso das antigas colônias que haviam declarado sua independência, o exército
concentrou-se nas principais cidades espanholas e passou a exercer algum poder
político. O que tornou os pronunciamientos muito freqüentes.
A Espanha vinha tentando industrializar-se sem sucesso; com a independência
das colônias, o país carecia de matéria prima e dinheiro. A população espanhola passou
de 18 milhões antes da Primeira Guerra Mundial para quase 23 milhões 30 anos depois.
Este crescimento exagerado deveu-se às ondas migratórias. Até a década de 1920
emigraram para a América Latina cerca de um milhão de espanhóis, mas a partir de
1931, esta tendência inverteu-se, pois as pessoas que haviam imigrado não conseguiram
enriquecer na América e voltaram para a Espanha, encontrando-a em uma crise política
e estrutural. O desemprego e a fome alastraram-se pelo país e, com isto, as crises
políticas agravaram-se.
Em 1931, o governo convocou eleições e o resultado foi amplamente
desfavorável à manutenção da monarquia. O rei Alfonso XIII abandonou o trono e
seguiu para o exílio. Surgiu assim a Segunda República Espanhola, que tinha como
meta a transformação do país numa república democrática, dedicada a profundas
transformações sociais. Contudo, as transformações sociais em curso não agradaram às
elites e muito menos à Igreja. Estes grupos foram os principais prejudicados pela
33
José Carlos Sebe Bom Meihy, professor de história na Universidade de São Paulo e pesquisador.
Cláudio Bertolli Filho, professor no Instituto de Ciências Humanas da Universidade do Vale do Paraíba e
nas Faculdades Metropolitanas Unidas além de ser pesquisador de história da saúde.
34
MEIHY, José Carlos Sebe Bom; BERTOLLI FILHO, Claudio, 1996, p. 8.
63
reforma agrária e organizaram-se em partidos políticos para confrontar as decisões do
governo.
Em 1936 foi realizada outra eleição, com a vitória da Frente Popular, uma
coligação entre os partidos de esquerda republicanos, socialistas e anarquistas, que
mostrou superioridade eleitoral frente à Comunhão Tradicionalista, formada por
partidos de direita, compostos por monarquistas, clérigos e parte da burguesia. Esta
situação não seria suportada por muito tempo e a guerra civil logo eclodiria.
Assim como aconteceu na Primeira Guerra, acreditava-se que a Guerra Civil
Espanhola duraria pouco, no início do conflito os espanhóis afirmavam [...] a guerra
acaba qualquer domingo desses
35
. Porém a interferência estrangeira aumentou as
dimensões das forças em confronto, provocando o prolongamento da luta.
Durante a guerra, o país dividiu-se entre os rebeldes, ou nacionalistas, grupo
predominantemente formado por militares apoiados pelo Partido Fascista conhecido
como Falange Espanhola
36
e liderados pelo General Francisco Franco; e entre os
legalistas, ou republicanos, formado por comunistas, anarquistas, antifascistas,
democratas, socialistas, judeus, alemães e italianos perseguidos em seus países, unidos
sob o mesmo comando e conhecidos como Frente Popular. Os nacionalistas receberam
ainda o apoio da Alemanha nazista e da Itália fascista, enquanto os republicanos
receberam o apoio da União Soviética.
Em busca do apoio de outros países, e mesmo para amedrontar ou ridicularizar o
inimigo, a propaganda foi intensamente utilizada através de diversos meios de
comunicação: textos, cartazes, panfletos, fotografias, filmes, poemas, caricaturas,
pinturas, músicas, e vitrolas em caminhões dotados de imensos alto-falantes – como
pode ser visto no filme pró-republicano Terra espanhola (The Spanish Earth, 1937), de
Joris Ivens. Ambas as frentes, na maioria das vezes, pretendiam apenas divulgar uma
versão do conflito que justificasse suas atitudes.
35
Apud: MEIHY, José Carlos Sebe Bom; BERTOLLI FILHO, Claudio, 1996, p. 51.
36
A Falange Espanhola foi fundada em 1933 como um grupo fascista que pretendia derrubar a República
com terrorismo e violência. E foi o único partido legal durante o governo do General Francisco Franco
que se estendeu de 1936 até sua morte em 1975.
64
Figura 17 – Caminhão com alto-falante.
Fonte: IVENS, Joris, 1937.
Já nos primeiros dias do conflito, os nacionalistas criaram a Delegacion General
de Propaganda, que difamava os opositores mostrando-os como judeus, comunistas e
maçons que desejavam dominar o mundo.
Figura 18 – Vitória.
Fonte: AMELIE. 2007.
65
Foi produzido farto material de propaganda,
distribuído por todo o mundo, com fotografias de
corpos esquartejados, crianças violentadas e
assassinadas, sacerdotes e freiras queimados vivos ou
ainda sufocados por crucifixos enfiados na garganta.
Estas imagens foram usadas para convencer os
populares de que os republicanos eram seres
demoníacos dispostos a agredir a fé e a moral cristãs.
Parte dos padres espanhóis usava seus sermões para
pregar contra os republicanos, a favor dos
nacionalistas. Aproveitando-se desta situação, o
general Franco declarou-se como “o mais cristão dos
espanhóis”, mesmo tendo condenado à morte vários
clérigos.
Porém, os republicanos também eram ativos propagandistas. Ainda no início da
guerra, foi criado o Ministério da Propaganda, que produziu farto material para ressaltar
as idéias patrióticas da Frente Popular. Procurava-se mostrar que o principal objetivo da
luta era o de garantir a liberdade, as dignas condições de trabalho, a educação e os
direitos civis de toda a população espanhola. Além deste objetivo, o mais importante
seria o de combater o avanço nazi-fascista na Europa.
Figura 20 – Exército Popular.
Fonte: AMELIE. 2007.
Figura 21 – Esquerda Republicana.
Fonte: PITA Arquitetura. 2008.
Figura 19 – Passaremos!
Fonte: GARCIA, Júlio. 2006.
66
Artistas famosos, como Pablo Picasso e Juan Miró ilustraram panfletos e
cartazes acusando os nacionalistas pelos assassinatos de civis. As mulheres, que não iam
para as frentes de batalha, passaram a atuar como publicitárias da causa republicana,
fazendo cartazes e dando palestras para explicar os motivos da guerra.
As mais variadas formas de expressão cultural multiplicaram-se a partir de 1936.
Destas, especialmente o rádio e a propaganda visual ganharam grande destaque. Mas
também os jornais, as peças teatrais de fácil montagem, os poemas e canções de guerra
foram usados para expressar os ideais dos dois lados do conflito.
A Guerra Civil Espanhola foi a primeira guerra testemunhada
("coberta") no sentido moderno: por um corpo de fotógrafos
profissionais nas linhas de frente e nas cidades sob bombardeio, cujo
trabalho era imediatamente visto nos jornais e nas revistas da Espanha
e do exterior
37
.
Os intelectuais e artistas de todo o mundo, interessaram-se pela guerra
espanhola, e a maioria deles engajou-se ao lado dos republicanos. Muitos, entretanto,
não partiram para a luta armada, preferindo fugir da Espanha ou ficar em seus países
denunciando as atrocidades da guerra. O escritor inglês George Orwell foi um dos
poucos que participaram da luta armada, permanecendo quatro meses nas trincheiras.
Após ter sido ferido, foi internado em um hospital em Madri, de onde presenciou
violentos conflitos nas ruas entre socialistas, comunistas e anarquistas que até então
haviam lutado lado-a-lado pela mesma causa.
Uma das mais importantes experiências da guerra é a de nunca
poder esquecer os cheiros de origem humana. As latrinas constituem
um assunto inesgotável na literatura da guerra, e nem as citaria se não
fosse a latrina dos nossos aquartelamentos ter contribuído para abalar
as minhas ilusões sobre a Guerra Civil Espanhola... As balas ferem, os
cadáveres fedem e os homens quando estão no campo de batalha ficam
tão assustados que chegam a mijar nas calças...
38
Em muitos países formaram-se comitês e organizações para apoiar a Espanha
republicana, entre esses, o Comitê de Apoio dos Cineastas Americanos à República
Espanhola ganhou destaque. Este comitê arrecadou um milhão e meio de dólares para
37
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 21/22.
38
Apud: MEIHY, José Carlos Sebe Bom; BERTOLLI FILHO, Claudio, 1996, p. 26.
67
auxiliar as vítimas da guerra civil através da doação da arrecadação das bilheterias de
alguns filmes.
A espionagem também foi utilizada largamente em ambas as frentes, não
somente nas áreas inimigas, como também em seu próprio contingente. A população era
constantemente estimulada através de cartazes e panfletos a denunciar prováveis espiões
que eram sumariamente fuzilados sem qualquer julgamento prévio.
Houve uma grande cobertura jornalística nesta guerra, apesar da tentativa de
evitar que cenas de massacres de civis fossem mostradas, assim como a tortura e o
assassinato de prisioneiros de guerra, atitudes correntes em ambas as frentes.
O equipamento fotográfico já era bastante compacto e o filme fotográfico em
rolo que tinha sido desenvolvido desde 1888, já era mais acessível, o que possibilitava
uma maior mobilidade e proximidade do fotógrafo à frente de batalha. Robert Capa
39
foi
um dos grandes fotógrafos de guerra e consagrou- se como tal ao registrar imagens
muito próximas do front, capturando a expressão dos soldados nas trincheiras.
Figura 22 – Milícia Legalista.
Fonte: CAPA, Robert, 1999, p. 32.
39
Andrei Friedmann, húngaro, nascido em 1913, criou o personagem Robert Capa como respeitado
repórter norte-americano para fugir da perseguição nazista. Uniu-se a Gerda Taro, que morreu na Guerra
Civil Espanhola. Desde esta guerra, registrou várias outras até sua morte, na Indochina, após pisar em
uma mina, em 1954. Destacou-se como um dos principais fotojornalistas americanos do século XX.
68
A primeira guerra registrada por ele foi a Civil Espanhola, na qual se uniu aos
republicanos, por acreditar que esta era a posição mais correta. Nesta época fez sua
imagem mais famosa, intitulada Morte de um Soldado Legalista, que mostra o exato
instante em que um soldado é atingido por uma bala e cai morto.
Figura 23 – Morte de um Soldado Legalista. Este homem foi recentemente identificado como Federico
Borrell Garcia, um membro da milícia da vila de Alcoy, próximo a Alicante.
Fonte: CAPA, Robert, 1999, p. 26.
Esta foto teve sua autenticidade questionada pelo meio jornalístico da época,
devido à instantaneidade e proximidade nunca antes vistas em imagens de guerra.
Alguns fotojornalistas chegaram a aventar que a foto se tratava de uma encenação,
porém Robert Capa defendeu a veracidade
40
daquilo que havia registrado, como no
40
Em 1939, Capa fugiu da Europa. Deixou para trás três valises frágeis de papelão com milhares de
negativos em Paris. Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1940, temendo que os nazistas
encontrassem e destruíssem os negativos, Capa pediu ao fotógrafo e amigo húngaro Imre Weiz que
salvasse os originais. Acredita-se que Weiz fugiu para Marselha carregando as maletas, mas foi preso e
enviado para um campo de prisioneiros na Argélia.
Em algum momento da fuga, os negativos foram parar nas mãos do general e diplomata
mexicano Aguilar González. O México era simpatizante dos republicanos espanhóis e asilou vários
refugiados da Guerra Civil. Os negativos ficaram com a família do general, que morreu em 1967. Em
1995, um cineasta mexicano recebeu de uma tia – a filha do general González – as caixas com os
69
depoimento a seguir: Não é preciso usar truques na Espanha, não é preciso pedir a
ninguém para posar. As fotos estão ali, esperando que alguém as faça. A verdade é a
melhor fotografia
41
. A partir daí Capa começou a perceber o outro lado da guerra,
daqueles que não eram combatentes, e se desligou da frente republicana, passando então
a registrar os efeitos da guerra sobre a sociedade civil, especialmente as mulheres e
crianças fugindo dos bombardeios aéreos nacionalistas.
Figura 24 – A pequena garota – assustada – abotoou erradamente seu casaco.
Fonte: CAPA, Robert, 2000, p. 12.
E como disse Susan Sontag em Diante da Dor dos Outros, [...] as fotos das
vítimas de guerra são, elas mesmas, uma modalidade de retórica. Elas reiteram.
negativos. O Centro Internacional de Fotografia, fundado em Nova York por Cornell Capa, irmão de
Robert, negociou com o cineasta mexicano – que pediu que sua identidade não fosse revelada – a cessão
das maletas, apresentadas no mês passado.
Os 3.500 negativos guardados em três maletas e pertencentes à Capa e sua companheira de
trabalho, Gerda Taro, dados por desaparecidos e apresentados ao público no mês passado, começaram
a ser catalogados em Nova York. Ainda não se sabe se a foto intitulada Morte de um Soldado Legalista
está entre os negativos. Surpreendentemente bem conservadas, as imagens estão passando por um
processo de restauração e catalogação. In: CORRÊA, Ricardo, 31 jan. 2008, Acesso em 25 fev. 2008.
41
Apud: CAPA, Robert; CAPA, Cornell; CARTIER-BRESSON, Henri, 2000.
70
Simplificam. Agitam. Criam a ilusão de consenso
42
. Estas imagens surtiram um efeito
psicológico muito maior que as imagens de combate.
Figura 25 – Madri – Entre novembro e dezembro de 1936.
Fonte: CAPA, Robert, 1999, p. 90.
O registro feito por Robert Capa estava longe de ser um registro imparcial.
Durante toda sua vida de fotógrafo ele analisava o conflito e só então escolhia por qual
lado iria “lutar”. Chegava inclusive a vestir o uniforme dos exércitos e ir para o campo
de batalha, para dentro das trincheiras, o que o tornava mais um “atirador
43
”. É a mesma
inteligência, cujas armas de aniquilação são capazes de localizar o inimigo com
exatidão de metros e de segundos, que se empenha a fim de preservar o importante
acontecimento histórico em detalhes nítidos; escreveu Jünger
44
.
Porém, a intensidade das imagens de guerra nesta época, era muitas vezes
42
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 11.
43
Em inglês, a palavra shot tanto significa tiro, quanto foto. Sendo um “fotógrafo norte-americano”,
Robert Capa levou este duplo significado ao extremo, combatendo com sua “arma” junto aos soldados.
44
Apud: SONTAG, Susan, Op. cit., p. 58.
71
atenuada pela forma como estas eram apresentadas à sociedade, conforme explicita
Susan Sontag:
No passado, publicavam-se fotos de guerra, sobretudo em
jornais diários e semanais. (Os jornais já publicavam fotos desde
1880.) Então, em acréscimo às revistas populares mais antigas,
fundadas no fim do século XIX, como ‘National Geographic’ e
‘Berliner Illustrierte Zeitung’, que usavam fotos como ilustrações,
surgiram revistas semanais de ampla circulação; em especial a
francesa ‘Vu’ (1929), a americana ‘Life’ (em 1936) e a inglesa ‘Picture
Post’ (em 1938), inteiramente dedicadas a fotos (acompanhadas por
textos curtos que remetiam às fotos) e a “histórias por imagens” – pelo
menos quatro ou cinco fotos do mesmo fotógrafo interligadas por uma
narrativa que dramatizava ainda mais as imagens. Num jornal, era a
foto – em geral, havia só uma – que acompanhava a reportagem.
Ademais, quando publicada num jornal, a foto de guerra vinha
cercada de palavras (a matéria que a foto ilustrava e outras matérias),
ao passo que numa revista era mais provável que estivesse vizinha a
uma imagem concorrente, que tentava vender alguma coisa.
Quando a foto do soldado republicano tirada por Capa na hora
exata da morte apareceu na revista ‘Life’ em 12 de julho de 1937,
ocupava a página direita inteira; ao lado, à esquerda, vinha um
anúncio de página inteira de ‘Vitalis’, uma pomada de cabelo mas-
culina, com uma pequena foto de alguém se exercitando no tênis e uma
foto grande do mesmo homem de smoking branco ostentando na cabeça
o cabelo lustroso, muito bem partido e escorrido. A vizinhança dessas
duas páginas – em que cada emprego da câmara supõe a invisibilidade
da foto ao lado – parece, hoje, não só bizarra mas também
curiosamente datada
45
.
Os republicanos, com sua formação heterogênea, entraram em conflito interno,
fazendo com que sua força militar mesmo grande em número ficasse completamente
desorganizada, e por conseqüência suscetível aos ataques nacionalistas. Estes conflitos
internos, de par com a pesada ajuda militar da Alemanha nazista, selaram a derrota da
força republicana. No final de 1938 foi lançada a ofensiva final sobre Barcelona. Em
abril de 1939, foi confirmado o término da Guerra Civil Espanhola, com a vitória dos
exércitos nacionalistas. O resultado da Guerra Civil Espanhola foi provavelmente um
dos estopins da Segunda Guerra Mundial, com a ditadura imposta pelo General
Francisco Franco, na realidade, nada mais que um golpe militar contra o governo
republicano espanhol.
A Guerra Civil Espanhola foi usada pelos alemães como um treinamento para
sua infantaria em novas táticas de combate e para testar novos armamentos,
especialmente as esquadrilhas de bombardeiros que aterrorizaram a Espanha e todo o
45
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 30/31.
72
mundo. Segundo José Meihy e Claudio Bertoli Filho, […] a batalha de Madri deixou
como saldo, além dos mortos, o horror da opinião pública mundial pelo bombardeio de
áreas densamente povoadas
46
.
Para muitos alemães a guerra não havia acabado os anos entre o final da
Primeira Guerra e o início da Segunda só serviram para alimentar seu ódio contra os
países aliados
47
e para, em descumprimento ao Tratado de Versalhes, armar e treinar
milhares de soldados. A Alemanha, derrotada na Primeira Guerra Mundial e sofrendo as
sanções impostas pelos vencedores, desejava uma revanche.
46
In: MEIHY, José Carlos Sebe Bom; BERTOLLI FILHO, Claudio, 1996, p. 37.
47
Aliados, ou Tríplice Entente como era conhecida a aliança feita entre vários países durante a Primeira
Guerra, principalmente Sérvia, Rússia, França, Bélgica e Grã-Bretanha, e mais tarde, Estados Unidos e
Brasil, entre outros.
73
Capítulo 3
Entre a Ilusão e a Realidade
Para entender melhor o período entre guerras alemão é preciso conhecer as
sanções impostas após o término da Primeira Guerra. A 11 de novembro de 1918, a
Alemanha assinou o armistício, em que aceitava todas as condições impostas
1
. Contudo,
o Tratado de Versalhes foi um acordo unilateral que firmou a “paz dos vencedores”, já
que nenhum dos países derrotados teve lugar à mesa de negociações
2
. Este Tratado
previa várias sanções territoriais, econômicas e militares aos países da Tríplice
Aliança
3
, especialmente à Alemanha. Este país perdeu um sétimo de seu território e um
décimo de sua população, foi desmilitarizado e não deveria ter mais que cem mil
soldados. Além disto, deveria entregar aos vencedores sua frota, que se manteve até o
fim da guerra intacta. Antes do cumprimento desta ordem, porém, toda ela foi destruída.
Este tipo de reação já sinalizava o que estava por vir: a revanche não tardaria.
Uma greve em Berlim e um atentado contra o imperador Guilherme II haviam
levado à sua abdicação. Uma república fraca substituiu o império derrotado. O povo
alemão atribuiu seus problemas ao novo governo, atacado por vários partidos políticos.
Porém, a república manteve-se apesar dos apuros econômicos, até que, em 1929, com a
quebra da Bolsa de Nova Iorque, a Alemanha foi o mais afetado dos países europeus:
além de sofrer como os outros com a retirada dos empréstimos norte-americanos, havia
contraído dívidas de guerra quase impossíveis de saldar. Hitler opôs-se ao pagamento
destas dívidas
4
e tornou-se conhecido em todo o país, liderando marchas de protesto e
comícios.
A inflação exorbitante fez com que [...] o desemprego aumentasse,
passando de 1,3 milhão em 1929 para 3 milhões [de desempregados] no ano
1
In: CIVITA, Roberto (Org.), 2005, p. 12.
2
In: CIVITA, Roberto (Org.), 2005, p. 13.
3
Na Primeira Guerra, os países formadores da Tríplice Aliança foram o Império Austro-Húngaro, a Itália
e a Alemanha, no decorrer da guerra, outros países se aliaram.
4
Segundo o Prof. Dr. Ernesto Aníbal Ruiz, membro da banca de defesa desta dissertação, as dívidas de
guerra alemãs acabaram com a moratória internacional das dívidas estabelecidas em 1931 por Hoover,
então presidente dos EUA.
74
seguinte. A moeda se desvalorizou de tal forma que bilhões de marcos mal
davam para comprar um pedaço de pão. A miséria crescente fez diminuir a
confiança na república, o que abriu espaço para nazistas e comunistas
5
.
Com a morte do primeiro-ministro Gustav Stresemann, foram convocadas
eleições em setembro de 1930. Nestas, os nazistas elegeram 107 deputados para o
parlamento e os comunistas, 77. Em janeiro de 1933, Adolf Hitler
6
foi nomeado
Chanceler pelo então Presidente Paul von Hindenburg. Com a morte de Hindenburg, em
2 de agosto de 1934, Hitler passou a acumular os cargos de Chanceler e Presidente,
dando início à sua ditadura totalitária. Entre as primeiras medidas do novo regime,
estava o controle da imprensa, o fechamento dos sindicatos e de todos os partidos
políticos, com exceção do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães
(Nationalsozialistische Deutsche Abeiter Partei – NSDAP).
O regime tinha como bases a perseguição aos comunistas e judeus e a conversão
da população alemã à doutrina nazista por meio do terror e da propaganda, fazendo com
que artistas, escritores e cineastas que não colaborassem com os ideais do regime
também fossem perseguidos.
5
In: CIVITA, Roberto (Org.), 2005, p. 24.
6
Nesta época, Hitler já tinha mais de trinta anos de idade. Filho de um guarda alfandegário e de uma
dona-de-casa, seu sobrenome original era Schicklgruber, mas à semelhança de seu pai, adotou o
sobrenome Hitler emprestado do padrasto de seu pai, chamado Hiedler. Nasceu na Áustria em 1889, mas
se considerava alemão. Governou a Alemanha como ditador de 1934 a 1945 e neste período, transformou
o país em uma poderosa máquina de guerra, dando início à Segunda Guerra Mundial. Durante seu
governo também propagou a morte como nenhum outro governante o fizera anteriormente, sendo o
responsável pelo extermínio de cerca de seis milhões de judeus e de milhões de outros prisioneiros nos
campos de concentração.
75
A Propaganda Nazista
Como mostras da importância que o novo regime daria às imagens em especial
ao cinema, com a subida de Hitler ao poder, a transição do cinema mudo para o sonoro
na Alemanha foi efetivada às pressas. A Alemanha dominava o mercado
cinematográfico europeu, e mundialmente só perdia para os Estados Unidos. Segundo
Mauro Luiz Rovai:
(...) sem menosprezar o papel da fotografia, foi por meio do cinema que
a missão de “propagar imagens” foi realizada, uma vez que ele já havia sido
largamente aproveitado em outros países, durante a Primeira Guerra Mundial,
como França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha. (...) ao final da
década de 1920, o número de cine jornais – a categoria escolhida para fazer
com que a educação e a cultura chegassem ao povo italiano, analfabeto na sua
maioria – supervisionados pessoalmente pelo Duce, passa, de quarenta e
quatro, em 1927, para mais de duzentos, em 1928, apontando uma tendência
que se manifestaria cada vez com mais força na década seguinte. Cresceu
também a produção de filmes voltados para a propaganda – principalmente a
germânica e a italiana, pouco eficaz ou inexistente na Primeira Guerra
Mundial – tendo seus maiores expoentes em Goebbels, e em Mussolini. (...)
Coincidentemente, ambos eram jornalistas e cultivavam a crença de que a
cristalização eficaz de sentimentos fundamentais e arcaicos da pátria e da
nação dependia, sobremaneira, do poder das imagens.
7
Apesar da percepção tardia sobre o uso da fotografia e do cinema como
instrumento de persuasão de massa, o que contribuiu para sua derrota na Primeira
Guerra, a Alemanha saberia, na Segunda Guerra, usar como nenhum outro país estas
novas armas. Desta forma, nos anos que se seguiram ao término da Primeira Guerra,
além dos investimentos na reconstrução do país e do pagamento das dívidas de guerra, a
Alemanha passou a investir pesadamente na indústria cinematográfica:
Conforme a recomendação de Ludendorff dá-se a fusão das principais
companhias cinematográficas: o Alto Comando alemão criava a UFA em
7
In: ROVAI, Mauro Luiz, 2005, p. 110.
76
estreito entendimento com proeminentes financistas, industriais e armadores,
um grupo de bancos e todas as empresas do setor. A Universum Film AG
(UFA) nascia imponente: vinte e cinco milhões de marcos em ações, um terço
de propriedade do Reich. Sua missão era a propaganda nacional, a partir de
diretrizes do governo. Isto incluía propaganda direta, filmes de educação
nacional e obras características da cultura alemã. O comunicado oficial tinha
um tom quase festivo: ‘É uma satisfação constatar que se espalha cada vez
mais a opinião segundo a qual o filme não tem como finalidade exclusiva a
distração do público, mas que deve responder a necessidades nacionais
educativas e econômicas’
8
.
Porém, a estagnação da moeda alemã foi desfavorável ao desenvolvimento
cinematográfico e a UFA quase foi à falência. Em 1925, um acordo com as norte-
americanas Paramount e Metro-Goldwyn favoreceu a entrada dos produtos norte-
americanos no mercado alemão. Em 1927, a crise econômica da UFA aumentou e para
salvá-la da falência, seus meios de controle sobre a opinião pública foram ampliados. O
então diretor da UFA, Alfred Hugenberg, queria estender sua influência engolindo as
principais companhias cinematográficas alemãs
9
.
Além do incentivo dado pela Alemanha para a produção de filmes, o rádio
também foi considerado um grande aliado no convencimento das massas, tanto que
(...) a ação nazista sobre as estações de rádio levou a um aumento do
número de aparelhos (de apenas dois tipos, pois o que importava era a
eficácia) de um milhão e meio, produzidos durante 1933, para ultrapassar a
marca dos seis milhões, em 1934, sendo que, em 1939, às vésperas da guerra,
mais de 70% dos lares alemães tinham rádio, a maior porcentagem em relação
a qualquer outro lugar do mundo
10
.
O cinema, a imprensa e o rádio, controlados pelos nazistas, inundaram a
Alemanha com propaganda política. Os alemães podiam ler e ouvir apenas o que dizia
respeito às glórias do governo de Hitler. Por trás de toda a propaganda, havia uma figura
8
Mattelart, 1994, p. 61 apud KURTZ, Adriana Schryver, 1999, p. 36
9
Kracauer, 1988, p. 160 apud KURTZ, Adriana Schryver, 1999, p. 49.
10
In: ROVAI, Mauro Luiz, 2005, p. 131, 132.
77
extremamente necessária ao sucesso do regime:
Joseph Goebbels
11
, então Ministro do
Esclarecimento Público e da Propaganda.
“Coordenando” artistas e cineastas, ele iria
produzir as armas espirituais para a doutrinação
da população. Para isto, contaria especialmente
com os trabalhos do arquiteto Albert Speer
12
e de
diversos cineastas, entre eles Leni Riefenstahl
13
,
responsável pela produção de alguns dos filmes
mais emblemáticos do nazismo.
O controle das massas exercido através
dos meios de comunicação criou na sociedade
11
Joseph Goebbels nasceu em 1897, filho de um arquivista católico. Não prestou serviço militar na
Primeira Guerra Mundial por ter um pé torto, deficiência provavelmente causada por uma doença na
infância. Foi na Universidade de Heidelberg, onde se formou em filologia alemã que Goebbels conheceu
as idéias comunistas e socialistas, mas até então não era anti-semita, pois era até noivo de uma moça
judia. Em 1924, fez amizade com um grupo de nacional-socialistas e foi aí que sua carreira deslanchou
politicamente. Grande orador, logo se destacou e foi convidado por Hitler a administrar o partido em
Berlim, com o objetivo de preparar a capital do país para quando ele assumisse o poder. Além desta
função, Goebbels acumulava a de diretor de propaganda do partido, tarefa assumida em 1928, com a
responsabilidade de divulgar uma imagem positiva do líder e do partido, convertendo as massas à causa
nazista. Permaneceu juntamente com sua mulher e filhos, ao lado de Hitler até o final da guerra. Todos
suicidaram em 1945, no bunker em Berlim.
12
Embora Albert Speer quisesse se tornar um matemático quando jovem, acabou seguindo os passos de
seu pai e de seu avô e estudou arquitetura. Alguns anos depois de completar seus estudos, foi persuadido
por alguns de seus alunos a assistir a uma reunião do partido nazista, onde ficou hipnotizado pelas
palavras de Adolf Hitler. Depois de algumas semanas ele se tornou membro do partido. Um de seus
primeiros trabalhos como arquiteto nazista talvez seja o mais conhecido de seus desenhos: o
Zeppelintribune, as passarelas de desfiles em Nurembergue mostrados no filme de Leni Riefenstahl, O
Triunfo da Vontade (Triumph des Willens, 1934-1935). Ainda não satisfeito com os resultados, se propôs
à criação de um novo estilo. Em 1934, durante a reunião do partido, Speer cercou as arenas de desfile
com cinqüenta holofotes antiaéreos, criando um efeito catedral de luz, como foi chamado pelo
embaixador britânico Sir Neville Henderson. Speer também foi responsável por planejar e reconstruir
Berlim, que deveria se tornar um estado supra-alemão (Welthauptstadt). O primeiro passo de seus planos
foi o estádio olímpico, para as Olimpíadas de verão de 1936. A maioria dos edifícios planejados para
Berlim não chegou a ser construída. Pois o início da Segunda Guerra Mundial levou ao abandono destes
planos. Durante seu envolvimento para reconstruir Berlim, ele foi supostamente responsável pela
deportação forçada de judeus, e da desapropriação de suas casas para abrir espaço para seus planos e
então alojar famílias alemãs.
13
Leni Riefenstahl, nascida em Berlim, na Alemanha, como Berta Helene Amalie “Leni” Riefenstahl, em
1902, iniciou sua carreira nos anos 1920 como dançarina. Quando teve de parar, ainda jovem, por causa
de uma lesão no joelho, assistiu a um filme de Arnold Fanck e ficando impressionada com as
possibilidades do cinema, entrou em contato com o diretor para pedir um papel em seu próximo filme. A
partir de então, ela estrelou vários filmes de montanha, filmando em externas na neve com pouca roupa,
escalando montanhas íngremes descalça. Quando lhe ofereceram a oportunidade de dirigir A Luz Azul
(Das blaue Licht,1932), ela aceitou. Seu interesse estava em filmes de ficção, mas fez apenas mais um
“filme de entrenimento”, Tiefland (Terra Baixa, 1940), finalizado apenas em 1953. Leni Riefenstahl
morreu enquanto dormia, em 2003, na Alemanha, aos 101 anos de idade.
Figura 1 – Toda a Alemanha ouve o
Führer com o receptor Volt
Fonte: Arquivo Luiz Nazario.
78
alemã uma histeria coletiva de caça às bruxas levando ao extermínio de milhões de
pessoas. Goebbels sabia que o cinema seria sua grande arma de guerra ao tornar-se uma
poderosa arma de convencimento público, já que o acesso das massas à informação era
possível apenas por meio do cinema e do rádio e, em menor escala, da imprensa escrita.
Como observou Paul Virilio, (...) o cinema entra para a categoria das armas a
partir do momento em que está apto a criar a surpresa técnica ou psicológica
14
. Em um
pronunciamento feito por Goebbels no Congresso do Partido em Nuremberg, em 1934,
que passaria à História pelas lentes de Leni Riefenstahl, o uso da propaganda como
arma fica explícito:
Possa a brilhante chama de nosso entusiasmo nunca se extinguir. Esta
chama sozinha dá luz e calor à arte criativa da moderna propaganda política.
Nascendo das profundezas do povo, esta arte deve sempre descer de volta a ele
e encontrar lá seu poder. O poder baseado em armas pode ser uma coisa boa;
é, porém, melhor e mais gratificante conquistar o coração de um povo e mantê-
lo.
15
Leni Riefenstahl afirmava que foi procurada por Hitler, depois que este assistiu a
um filme de montanha dirigido por Arnold Fanck em que ela atuava como atriz e
dançarina; mais tarde Hitler se encantara com o primeiro filme da diretora, A Luz Azul
(Das blaue Licht, 1932). Já em 1933 ela dirigiu um curta-metragem sobre um comício
do Partido Nazista, A Vitória da Fé (Sieg des Glaubens, 1933), que ela, muitos anos
depois, renegou por julgá-lo um fracasso. Mas Hitler não era da mesma opinião e pediu
a Leni que filmasse o II Congresso do Dia do Partido do Reich, realizado em
Nurembergue
16
entre 5 e 20 de setembro de 1934. O resultado foi O Triunfo da Vontade
(Triumph des Willens, 1934-1935), obra que glorificava a nova ordem nazista e que
tornou a cineasta mundialmente conhecida como a mais proeminente diretora do cinema
de propaganda nazista, mesmo tendo ela, depois da guerra, negado qualquer
envolvimento político com o regime.
14
In: VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto, 1993, p. 15.
15
Kracauer, 1988 p. 191 apud KURTZ, Adriana Schryver, 1999, nota p. 57.
16
Os nazistas realizaram suas assembléias e congressos de âmbito nacional em Nurembergue. No
congresso realizado em 1935 foram aprovadas as Leis de Nurembergue que entre outras coisas, proibiam
o casamento entre alemães e judeus, privavam os judeus da cidadania e faziam da suástica o emblema da
Alemanha.
79
Seria apenas um filme a registrar um Congresso do Partido não fosse toda a
estrutura armada por ela e por Speer. Com um orçamento estatal inaudito para um filme
documentário, com os melhores equipamentos disponíveis e toda uma divisão dos
melhores cinegrafistas da Alemanha, Leni Riefenstahl realizou aquele que seria
considerado o mais impressionante filme de propaganda política, com ângulos e
tomadas de câmara inovadoras.
Figura 2 – Tomada aérea.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
Figura 3 – Câmara colocada em um elevador.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
Realizado logo após o esmagamento das tropas S.A., que opunham uma última
divisão ao poder absoluto de Hitler, O Triunfo da Vontade exaltava a unidade de nação
e partido, encarnada no Führer, detentor de um poderio militar até então sem
precedentes. O filme glorificava o poder absoluto do Führer, alimentando esperanças
utópicas na população alemã através da preparação de uma nova guerra, da qual a
Alemanha sairia finalmente vitoriosa.
Figura 4 – Tomada de baixo para cima, para
assemelhar o poder do Führer ao de Deus.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
Figura 5 – Uma mulher com seu filho no colo
entregam um buquê de flores a Hitler.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
80
Nele, tudo foi feito com a intenção de projetar mundialmente o regime nazista e
sacramentar a figura de Hitler:
O cenário fora montado e as paradas cenografadas pelo arquiteto
Albert Speer, o criador da arquitetura monumental do regime, que cercou o
estádio com canhões de luz, direcionados para o alto: o ‘Congresso’
transcorreu dentro desta catedral de luz, de efeito impressionante. O Führer
acompanhou todos os preparativos do filme, que devia transmitir a imagem de
seu triunfo sustentado pelas massas
17
.
Figura 6 – Paradas coreografadas.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
Figura 7 – A catedral de luz.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
Com o convencimento público obtido não somente através deste filme, mas a
partir de toda uma estrutura de propaganda, o poder de Hitler se constituiu e a
Alemanha passou a reagir às sanções impostas pela derrota na Primeira Guerra,
fortalecendo suas forças armadas. Os líderes nazistas pregavam que os alemães eram de
uma raça nórdica superior e que todos os outros povos não-nórdicos eram inferiores. Os
judeus, em especial, eram considerados uma “anti-raça” que contaminava o sangue
ariano e que, portanto, não podia misturar-se aos alemães. A ascensão de Hitler ao
poder através da propaganda seria somente uma prévia do que estava por vir – aquilo
justamente que a propaganda não poderia nunca mostrar – o extermínio de
aproximadamente 6 milhões de judeus, 500 mil ciganos, 60 mil doentes mentais e 10
mil homossexuais em nome da purificação racial.
17
In: NAZARIO, Luiz, julho-agosto de 2000, p. 16.
81
Com o objetivo de conquistar mais territórios a leste e vingar a derrota alemã na
Primeira Guerra Mundial, Hitler proclamava ao povo alemão que a conquista não era
apenas um direito, mas um dever. De 1933 a 1939, o país foi preparado para a guerra.
Os nazistas assumiram o controle dos tribunais, das indústrias, da polícia, das escolas.
Muitas crianças espionavam e delatavam os próprios pais para os nazistas. A maioria da
população aprovava a ditadura nazista e os que não aprovavam eram forçados a deixar o
país ou enviados aos campos de concentração. Em 1936, a Alemanha invadiu a região
desmilitarizada a oeste do rio Reno, conhecida como Renânia. E, em 1938, anexou a
Áustria, que não reagiu, pelo contrário, recebeu Hitler de braços abertos. Após a rápida
conquista da Áustria, a Alemanha passou a reivindicar a região dos Sudetos, uma região
da Tchecoslováquia habitada por 3,5 milhões de alemães, muitos dos quais haviam
ingressado em um partido pró-alemão que recebia ordens de Hitler. Porém os tchecos
prepararam-se para a batalha e obtiveram o apoio da União Soviética, da França e da
Grã-Bretanha. Neste momento, Hitler declarou que aquela região era a última
reivindicação territorial que tinha a fazer na Europa. Para evitar uma guerra, foi
assinado um tratado de paz que concedia o território tcheco à Alemanha. Esta política
de apaziguamento adotada pela França e pela Grã-Bretanha diante dos avanços nazistas
mostrou pouco tempo depois todo o seu fracasso.
Neste período, os jornais alemães destacavam os supostos maus tratos sofridos
pelos povos de língua alemã que residiam na Polônia. A população rebelou-se contra tal
situação, e os conflitos entre poloneses e alemães aumentaram. À medida que o tempo
passava, os rumores sobre uma guerra espalhavam-se através dos meios de comunicação
e a população apoiou uma terceira invasão, desta vez à Polônia, em 1939. Porém, agora,
a Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha para conter seu avanço sobre
a Europa oriental. A Rússia assinou um pacto de não-agressão com a Alemanha, pois
tinha interesse no território polonês. E enquanto a Alemanha não atacou a Rússia, esta
forneceu trigo, petróleo e outros produtos essenciais para o esforço bélico alemão. Mas
esta neutralidade não duraria muito.
Com a reconhecida força das imagens, na Alemanha, a “classe média culta” que
atacava a imoralidade dos filmes e afirmava que sua influência era nefasta sobre a
juventude, mostrou-se entusiasmada com o iminente conflito que se tornaria a Segunda
82
Guerra Mundial
18
. A indústria cinematográfica alemã seria, de fato, muito beneficiada
com a matança. A produção doméstica, que jamais teve condições de competir com os
filmes franceses e norte-americanos, passou a dominar o mercado e precisava dar conta
de uma enorme demanda interna, pois às salas regulares somaram-se incontáveis
cinemas militares que proliferavam nos cenários devastados das frentes de batalha.
Nesta época, os Estados Unidos e a Inglaterra já haviam desenvolvido o filme a
cores. A Alemanha, atrasada nesta e em outras tantas tecnologias com a perda de muitos
técnicos e especialistas, obrigados ao exílio, só obteve o primeiro filme de longa-
metragem em cores, feito em Agfacolor, durante a Segunda Guerra Mundial: A Bela
Diplomata (Frauen sind doch bessere diplomaten, 1941), que ainda teve sua projeção
proibida por Joseph Goebbels, que julgou as cores abomináveis e sinistras em relação
aos filmes em Technicolor, aos quais havia assistido após uma apreensão de um navio
Aliado pela marinha alemã, em especial, E o Vento Levou... (...Gone with the wind,
1939). Devido à pirataria logística, o Agfacolor foi aperfeiçoado e, no ano seguinte,
Veit Harlan pôde realizar A Cidade Dourada (Die goldene stadt, 1942). Foi também
durante a Segunda Guerra Mundial que Eisenstein pôde rodar – numa União Soviética
também atrasada pela ausência de liberdade de criação – uma longa seqüência de seu
filme Ivã, o Terrível (Ivan Groznyy I, 1944) com película Agfacolor confiscada do
inimigo
19
.
Os discursos públicos, as emissões radiofônicas, os alto-falantes, os panfletos e
as tipografias móveis foram também grandes armas durante a Segunda Guerra Mundial.
A utilização da propaganda para incentivar as próprias tropas e desestabilizar o inimigo
foi tão forte que destacamentos especiais foram criados para organizar a “guerra
psicológica”. Ao analisar em sua dissertação de mestrado o trabalho de Paul Virilio
sobre o desenvolvimento tecnológico favorecido pelas guerras, Adriana Schryver Kurtz,
concluiu:
A história do desenvolvimento do cinema alemão é, ao mesmo tempo, a
visão retrospectiva das lutas inter-imperialistas e contra-revolucionárias que
tumultuaram a primeira metade de nosso século. As duas grandes guerras,
especificamente, acabaram por transformar-se no mais concreto incentivo à
18
In: KURTZ, Adriana Schryver, 1999, p. 31/32.
19
In: NAZARIO, Luiz, 1994.
83
criação e ao desenvolvimento das “fábricas dos sonhos”, o que vale tanto para
a lendária UFA (Universum Film AG), quanto para a Cinecittà, verdadeiros
laboratórios de uma mentalidade modernista reacionária que marcaria a
chamada sétima arte no contexto de uma política “fascistizada”
20
.
Numa Europa dominada pela Guerra Relâmpago, a Blitzkrieg, os alemães ainda
continuavam produzindo filmes de forte apelo sentimental, estilo que já fazia sucesso
mesmo antes da chegada dos nazistas ao poder. Não interessava à propaganda nazista
mostrar, nos chamados “filmes de entretenimento” cenas de batalhas contemporâneas, o
convencimento era feito de maneira mais amena, através de filmes que exaltavam a vida
no campo e o vigor do homem alemão, e de filmes de guerra transportados para épocas
anteriores, especialmente nos tempos de Frederico II. Também foram testadas, além das
tradicionais tochas de fogo, novas tecnologias de iluminação para as marchas e
espetáculos de propaganda, como os canhões de luz, que impressionavam as massas.
Como disse Hitler: As massas precisam de ilusão, não somente no teatro ou no cinema,
mas também nas coisas sérias da vida.
21
O Cinema Antinazista em Hollywood
Os filmes produzidos em Hollywood eram vistos em mais de 35 mil salas
européias e 10% do faturamento dos estúdios vinha do mercado alemão
22
. Os
executivos dos grandes estúdios, apesar de serem em sua maioria judeus, temendo
perder este mercado e serem estigmatizados ao contrariarem a tradição isolacionista da
América, evitaram produzir filmes que denunciassem a política alemã de perseguição
aos judeus na Europa até 1941, quando, após o ataque a Pear Harbor, os EUA
declararam guerra ao Eixo. Contudo, como observou Luiz Nazario, alguns filmes, como
Fúria (Fury, 1935), de Fritz Lang, e A vida de Émile Zola (The Life of Emile Zola,
1937), de William Dieterle, abordaram o fenômeno da histeria coletiva e do anti-
semitismo, localizando-os na América atual ou na França do século XIX como alusões
20
In: KURTZ, Adriana Schryver, 1999. p. 30.
21
Apud: KURTZ, Adriana Schryver, 1999. p. 35/36.
22
In: DIAS, Cristiano, mai. 2005, p. 62-67.
84
ao nazismo
23
. Mas filmes panfletários não eram bem aceitos, pois desde os anos de
1920, Hollywood havia adotado a postura de que a guerra criava mais problemas que
soluções, sendo a temática principal a que apresentava os conflitos armados como
grandes sacrifícios humanos sem sentido.
Por diversas razões, e pressionada pelas igrejas de todos os credos, a indústria
hollywoodiana havia criado, em 1931, um órgão regulador, o Production Code
Administration temendo a censura governamental por conta da disseminação de “idéias
subversivas”. Neste órgão, cada filme era submetido a um código moral, para a
obtenção de um selo de aprovação, do qual dependia sua mais ampla distribuição nas
salas.
Contudo, os Estúdios Warner Brothers decidiram, em 1933, após Hitler ter se
tornado chanceler, fazer propaganda anti-nazista, colocando em evidência as ações do
ditador, consolidando-se como o estúdio mais anti-germânico de Hollywood com a
produção de Confissões de um espião nazista (Confessions of a Nazi Spy, 1939), de
Anatole Litvak. Depois deste filme, a Alemanha parou de fazer negócios com a Warner,
que então quase foi à falência
24
.
De maneira independente dos grandes estúdios, com seu próprio dinheiro,
Charles Chaplin, que não era judeu, realizou, em 1940, a mais violenta paródia do líder
nazista, no último de seus filmes na pele de Carlitos: O Grande Ditador (The great
dictator, 1940), no qual encarnava um barbeiro judeu, perseguido e confundido com o
ditador Adenoid Hynkel, também vivido pelo ator-diretor. O filme, é claro, foi proibido
na Alemanha e teve no Brasil, onde a ditadura de Vargas ainda oscilava entre aliar-se ao
Eixo ou aos Aliados, algumas de suas legendas censuradas.
23
In: NAZARIO, Luiz; NASCIMENTO, Lyslei (orgs.), 2007.
24
In: LOPES, Marco Antônio (Ed.), mai. 2005.
85
Figura 8 – Adenoid Hynkel discursando. (Numa
paródia clara ao discurso de Adolf Hitler filmado
em Nurembergue em O Triunfo da Vontade)
Fonte: CHAPLIN, Charles. 1940.
Figura 9 – O sonho de dominar o mundo...
Fonte: CHAPLIN, Charles. 1940.
A censura exercida pelo Production Code Administration já proibia imagens
ofensivas a outros países e povos. Um memorando escrito por Lowell Mellet, assessor
de comunicação do presidente Franklin Roosevelt, dirigido aos executivos de
Hollywood, em dezembro de 1940 trouxe, porém, uma nova imposição:
Para o bem de todos, seria aconselhável estabelecer um procedimento
de rotina no qual nossos escritórios em Hollywood pudessem receber as
sinopses de todas as histórias que se pretende produzir. Isto nos permitira fazer
sugestões a respeito do conteúdo relacionado à guerra contido nestes filmes.
Em setembro de 1941, a Warner lançou o filme Sargento York (Sergeant York,
1941) através do qual, ao contar a trajetória de um soldado na Primeira Guerra Mundial,
fazia um convite às armas. Semanas depois do lançamento do filme, este foi tirado de
cartaz, e Harry Warner, um dos diretores do estúdio engajado em prol da guerra, foi
convocado para depor no Senado, onde declarou que o filme era mesmo uma
propaganda pró-guerra. Foi condenado, mas com o ataque a Pearl Harbor sofrido em
dezembro, acabou absolvido
25
. O ataque foi possibilitado por uma falha de comunicação
militar, que usava o sistema telegráfico doméstico, fazendo com que a mensagem que
25
In: LOPES, Marco Antônio (Ed.), mai. 2005.
86
avisava sobre um ataque iminente trafegasse junto a mensagens civis, chegando aos
responsáveis 8 horas após a ocorrência do ataque
26
.
Semanas após o ataque a Pearl Harbor, o mesmo presidente Roosevelt, que havia
perseguido e condenado quem produzia propaganda pró-guerra, agora pedia para que
Hollywood se engajasse na luta. Para isto, criou a Agência de Informação de Guerra,
incumbida de transmitir a visão americana da guerra, e incentivar produções anti-
germânicas e anti-nipônicas.
Durante a guerra, a indústria mais lucrativa foi a cinematográfica. Era nos
cinemas que os americanos gastavam seu dinheiro sem culpa, enquanto faltavam bens
de consumo básicos. Os desenhos animados eram exibidos nas salas de cinema entre os
trailers e documentários e a atração principal. Apesar dos Estúdios Warner terem
produzido animações com finalidades de propaganda de guerra desde 1940, foram os
Estúdios Disney os mais atuantes neste ramo do entretenimento a partir de 1941.
Mesmo sendo considerada pela crítica especializada uma releitura de Pinóquio
(Pinocchio, 1940), Dumbo (1941) acabou sendo um considerável sucesso comercial e
popular. Este filme salvou os Estúdios Disney da completa falência, o que deu novas
energias para o trabalho de Walt Disney. Porém, uma semana depois da estréia do filme,
os japoneses atacaram Pearl Harbor. No dia seguinte ao ataque, os Estúdios Disney
foram tomados pelo governo e transformados numa base militar por razões estratégicas.
Insatisfeito com a situação, Walt Disney decidiu afastar-se da produção de filmes,
mantendo-se apenas na diretoria da empresa.
Os Estúdios Disney sofriam com a falta de mão-de-obra durante a guerra, pois
seus funcionários, a maioria em idade militar, foram dispensados do trabalho para servir
na Divisão de Serviços Especiais das Forças Armadas, a 18ª Air Force Base Unit,
também conhecida como FMPU, First Motion Picture Unit. A principal tarefa da
unidade era produzir filmes para o treinamento do exército.
Os Estúdios Disney vinham sendo mantidos em atividade pelo governo já há
algum tempo. Com a entrada dos EUA na guerra, os mercados dos países do Eixo e da
Europa ocupada pelos nazistas foram fechados para os filmes americanos: o governo
norte-americano tornou-s,e então, o maior consumidor dos produtos Disney,
encomendando filmes de treinamento animados. Em janeiro de 1942, apenas cinco
26
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, 1966.
87
semanas após a aposentadoria de Disney, o Naval Bureal of Aeronautics solicitou-lhe a
produção de 20 animações de treinamento com um orçamento total de 8 mil dólares
27
.
Querendo voltar logo ao trabalho, Walt Disney aceitou o serviço. Estas vinte primeiras
animações revelaram-se tão populares que logo chegaram mais pedidos de várias
agências governamentais. Muitas animações de propaganda foram feitas durante a
guerra e não apenas pelos Estúdios Disney: além da Warner, outros estúdios de
Hollywood colaborariam com o governo norte-americano.
Walt Disney, contudo, viu seu poder diminuído por ter de concordar com todas
as demandas referentes à produção elaboradas pelos militares. No livro Walt Disney: o
príncipe sombrio de Hollywood, Marc Eliot pretendeu traduzir o que Disney estaria
sentindo diante daquela situação, associando a propaganda a meras mentiras de
Pinóquio; e limitando o anti-nazismo no governo americano ao Secretário da Fazenda,
Henry Morgenthau, de ascendência judaica, como se apenas a um secretário de Estado
judeu interessasse combater o nazismo:
(...) A mensagem do Secretário da Fazenda, Henry Morgenthau, era
transmitida pelos mensageiros de Disney, ou seja, filmes de propaganda
política tiravam bom proveito da popularidade do camundongo tipicamente
americano Mickey, sua namorada Minnie, o amigo Donald, o companheiro
Pateta e o cachorro Pluto... Seus queridos personagens eram como
prisioneiros, forçados a atuar como pequenos Pinóquios para um
Morgenthau
28
(...)
Porém, devido à sua dedicação
29
à causa da guerra contra o nazismo, Walt
Disney teve seu trabalho reconhecido e recebeu em 1942, o Oscar pela animação A
27
In: ELIOT, Marc, 1995, p. 225.
28
Apud. ELIOT, Marc, Ibidem, p. 226.
29
Walt Disney era anticomunista, e por isso, denunciou vários de seus melhores empregados ao governo
e além destes, alguns cineastas e atores hollywoodianos. Desfez o sindicato dos animadores e qualquer
um que quisesse se sindicalizar era imediatamente demitido. Uma vez, ao ser interrogado por que agia
assim, defendeu-se:
[...] Bem, não acredito que seja um partido político (o comunismo). Acho que é uma coisa anti-americana.
O que mais me deixa indignado é que eles conseguem se introduzir nos sindicatos, assumir o comando
deles e passam para o mundo que um grupo de pessoas em minha empresa, que sei serem corretas, 100%
americanas, são enganadas por este grupo, e são apresentadas ao mundo como partidárias destas
ideologias, e não é assim, e eu sinto que eles realmente deveriam ser desmascarados e mostrados ao mun-
do como realmente são, de modo que todas as causas boas e democráticas deste país, todos os liberalismos
realmente americanos, possam se expressar sem a mácula do comunismo. Isto é o que sinceramente
sinto a respeito. apud. ELIOT, Marc, 1995, p. 257.
88
Cara do Führer (Der fuehrer´s face, 1942), seu filme de propaganda mais famoso e
aquele que o tornou uma grande celebridade patriótica. Esta propaganda política é uma
ácida paródia do filme de propaganda nazista O Triunfo da Vontade.
Logo no início, uma parada militar; mas os músicos, com uniformes das forças
armadas alemãs, apresentam-se completamente desconjuntados e fora do padrão estético
nazista. A presença de um japonês na banda é ressaltada, o que iguala a posição do
Japão à da Alemanha como inimigos dos Estados Unidos. Da mesma maneira se inicia
O Triunfo da Vontade, mas o que se vê é uma parada militar completamente ensaiada,
com a música tocada por crianças que obedecem aos rígidos padrões nazistas.
Figura 10 – Músicos na Parada Militar.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
Figura 11 – Músicos na Parada Militar.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt Disney Pictures, 1942.
Em A Cara do Führer, o bigode usado por Hitler é estereotipado e passa a fazer
parte de todos os objetos cênicos, inclusive do relógio Cuco, típico relógio de fabricação
alemã. Neste momento, o Führer é reduzido a um pequeno pássaro de canto repetitivo,
movido por uma máquina.
Figura 12 – O cuco, com bigode, saudando.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt Disney Pictures, 1942.
Figura 13 – Hitler saudando.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
89
Neste mundo automatizado, Pato Donald
30
é o operário preguiçoso acordado
pela banda. Ele saúda as imagens estampadas em quadros pendurados na parede dos três
líderes Hitler, Hirohito e Mussolini; veste-se em seu pobre e sujo alojamento, tomando
um escasso e insosso desjejum: molha um grão de café na água e usa um spray de
aroma de ovos e bacon, guardados como preciosidades num cofre, e come um pão
velho, tão duro que precisa ser cortado com serrote.
Figura 14 – Donald molhando o
único grão de café na água.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt
Disney Pictures, 1942.
Figura 15 – Donald se
alimentando com ‘aroma de
ovos e bacon’.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt
Disney Pictures, 1942.
Figura 16 – Donald cortando o
pão com serrote.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt
Disney Pictures, 1942.
A paródia a O Triunfo da Vontade é explicitada quando os soldados da Frente de
Trabalho Nazista são mostrados, no filme de Leni Riefenstahl, lavando-se felizes e
alimentando-se bem. Não há preguiça nem desânimo, só alegria e fartura. A propaganda
nazista pré-guerra mostrou o ideal da vida militar, mas durante a guerra este ideal estava
cada vez mais distante da realidade. Apesar do exagero, a situação mostrada em A Cara
do Führer estava mais próxima da situação vivida pelos soldados alemães na época.
30
Personagem considerado o alterego de Walt Disney, que declarou em 1935: O Pato Donald veio ao
mundo em 1934, para se ajustar à voz que vinha me interessando já há alguns anos... Era um personagem
que simplesmente não conseguimos segurar... Seus monumentais acessos de raiva, sua impotência diante
de obstáculos, seus protestos diante das injustiças... apud. ELIOT, Marc, 1995, p243.
90
Figura 17 – A Frente de Trabalho Nazista.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
Figura 18 – A Frente de Trabalho Nazista com suas
pás.
Fonte: RIEFENSTAHL, Leni. 1935.
Para um país livre e capitalista, a Frente de Trabalho Nazista mostrada em O
Triunfo da Vontade declamando em versos toda sua lealdade e gratidão para com o
Führer, tinha um significado escravocrata e socialista, em que o operário era obrigado a
trabalhar à força, não recebendo por isto e sem direito a descansar nem durante as férias,
controladas pelo Estado.
Figura 19 – Donald coagido a
trabalhar.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt
Disney Pictures, 1942.
Figura 20 – Donald reage à
coação e é ameaçado de morte.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt
Disney Pictures, 1942.
Figura 21 – Donald nas férias
controladas pelo Estado.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt
Disney Pictures, 1942.
Donald, representando um cidadão alemão que teve sua liberdade tolhida, irrita-
se a todo o momento com a situação, mas como sua vida é ameaçada, segue
trabalhando. Sua lealdade ao Führer é testada na linha de produção, à maneira do
operário de Carlitos em Tempos Modernos (Modern Times, 1936), de Charles Chaplin,
em que uma crítica ao capitalismo foi espertamente manipulada e transformada em uma
crítica sobre o regime nazista. Depois de trabalhar como um escravo, num misto de
exaustão e loucura ele saúda a imagem de Hitler com a cauda.
91
Figura 22 – Carlitos se revolta
contra os opressores.
Fonte: CHAPLIN, Charles,
1936.
Figura 23 – Donald faz uma
saudação às imagens dos três
líderes.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt
Disney Pictures, 1942.
Figura 24 – Donald se revolta e
saúda a imagem de Hitler com
a cauda.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt
Disney Pictures, 1942.
O operário enlouquecido morre de exaustão, mas neste momento descobre-se
que tudo não passou de um pesadelo de Donald: ele acorda num cenário oposto ao
primeiro; sobre a cama confortável, um quadro onde se lê Lar doce Lar
31
; ele não está
nu, mas vestido com um pijama que lembra a bandeira norte-americana. Uma sombra
projeta-se sobre o papel de parede estrelado de seu quarto, e Donald, como um
autômato, põe-se a fazer a saudação ao Führer; porém, nesse instante percebe onde está
e a interrompe. Olha para a janela e vê uma réplica da Estátua da Liberdade; ele a
abraça e diz, aliviado: Eu estou contente por ser um cidadão nos Estados Unidos da
América!
32
Figura 25 – Donald saúda por engano a sombra
da Estátua da Liberdade, pensando ser Hitler.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt Disney Pictures,
1942.
Figura 26 – Donald percebe que a sombra
projetada na parede é da Estátua da Liberdade.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt Disney Pictures,
1942.
31
No original: Home sweet Home.
32
No original: I’m glad to be a citizen in the United States of America!
92
Figura 27 – As más condições de vida do
Donald nazista.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt Disney Pictures,
1942.
Figura 28 – O conforto da vida real do
Donald capitalista.
Fonte: KINNEY, Jack. Walt Disney Pictures,
1942.
O Führer que vem dos céus, e que usa uma catedral de luz para impor sua
vontade em O Triunfo da Vontade, é representado como uma sombra que ameaça a
América, simbolizada pelo papel de parede que imita um céu estrelado. Porém, esta
ameaça é apenas um pesadelo, visto que a liberdade triunfará, pois ela, sim, é real, uma
estátua em sua janela, e não apenas uma “vontade”.
Após a desocupação militar dos Estúdios Disney, foi iniciada a produção de um
filme não-militar. Contraditoriamente, o tema escolhido era militar, pois o filme foi
baseado no livro do Major Alexander De Seversky, especialista em aviação militar.
Lançado em 1943, Vitória Através dos Ares (Victory Through Air Power, 1943), foi um
fracasso de bilheteria nos Estados Unidos, mas fez um grande sucesso na Inglaterra,
tanto que Winston Churchill solicitou uma exibição privada para si e Franklin
Roosevelt.
93
Imagens do
Front
Após a invasão à Polônia em 1939, e durante sete meses, os franceses fizeram
uma trincheira na Linha Maginot, enquanto os alemães permaneceram atrás da Linha
Siegfried. Cada lado empreendia pequenos ataques e, usando aviões, fotografava as
linhas inimigas enquanto lançava folhetos de propaganda. Já em 1940, a Luftwaffe,
força aérea alemã, começou a bombardear campos de aviação e portos ingleses. A RAF,
Real Força Aérea inglesa, era menos numerosa, porém tinha melhores aeronaves e
pilotos e desta forma, conseguiu abater tantas aeronaves alemãs, que o ataque diurno
teve que ser abandonado.
Deu-se início então ao bombardeio noturno, porém, a inteligência alemã
desconhecia o novo invento inglês: o radar. Os ingleses lançaram mão do radar para
localizar na escuridão os aviões inimigos, porém, ainda era necessário no momento do
abate, que acontecesse o reconhecimento visual, sem o auxílio do radar, o que tornava
as defesas aéreas pouco eficientes à noite. Desta forma, os alemães bombardearam a
Inglaterra, especialmente Londres, quase todas as noites e estes ataques aéreos a
Londres ficaram conhecidos como Blitz de Londres.
O contra-ataque aéreo era feito basicamente de duas maneiras. A maneira inglesa
era o bombardeio de saturação, que consistia em bombardeios noturnos em que era
lançada uma grande quantidade de bombas sobre determinada área na esperança de que
alguma ou algumas destas bombas atingissem o alvo pretendido. A maneira norte-
americana era o bombardeio de precisão, que era feito durante o dia, a bomba era
lançada do avião a grandes altitudes precisamente sobre o alvo desejado. Estes dois
tipos de ataque aéreo só foram possíveis graças ao desenvolvimento de um
Departamento de Inteligência, que com a utilização da cronofotografia era capaz de
identificar prováveis alvos. Desta forma, o poderio aéreo conciliado ao poder de registro
e interpretação das imagens, se mostrou decisivo para o resultado da Segunda Guerra
Mundial.
94
Figura 29 – Mapa cronofotográfico através do qual se determinou o alvo do lançamento
da bomba atômica em Hiroshima: a ponte em forma de T.
Fonte: WILMSHURST, Paul. 2005.
Os submarinos e a reduzida frota de navios alemães conseguiam causar grandes
perdas aos aliados, que passaram então a bombardear as bases e fábricas navais
enquanto caçavam os submarinos com a ajuda de radares e sonares. Os ataques aos
submarinos eram feitos com aviões que partiam de bases terrestres, tática que se
mostrou tão eficaz que em pouco tempo a perda da esquadra alemã ficou mais rápida
que sua reconstrução.
Em 20 de julho de 1944, Hitler escapou por pouco de morrer quando uma
bomba-relógio, colocada por um oficial alemão, explodiu no quartel-general do ditador.
Os inimigos de Hitler na Alemanha planejavam derrubá-lo ou matá-lo desde 1938, mas
todas as tentativas fracassaram. Para vingar-se da bomba-relógio que quase o matou,
Hitler mandou executar cerca de cinco mil pessoas. Algumas delas foram estranguladas
lentamente com cordas de piano. Os líderes foram dependurados em ganchos de carne e
a agonia deles foi registrada em um filme que Hitler assistiu mais tarde
33
.
33
In: Hitler, Adolf. Enciclopédia Delta Universal, 1987. p. 4027-4031.
95
Durante um mês, os nazistas atacaram Stalingrado, uma batalha longa, que se
imaginava mais curta. Porém encontraram pela frente soldados treinados pela
propaganda stalinista que exacerbava o nacionalismo. Um dos soldados, quando
percebeu que não conseguiria deter as forças nazistas
escreveu em um muro: Vou morrer, mas não me
entrego. Adeus, minha Pátria
34
. O pedaço de muro
com esta inscrição encontra-se hoje no Museu Central
das Forças Armadas em Moscou. Para estimular este
nacionalismo, eram usados na maioria das vezes
apenas cartazes. Estes foram considerados os mais
notáveis, esteticamente falando, entre todos os
cartazes produzidos na época pelos países envolvidos
no conflito. Como exemplo disto, a capa da edição de
fevereiro de 1943 da revista Veja
35
, na qual há uma
pintura de um artista soviético, que havia sido
utilizada em cartazes, destaca a qualidade artística
desta produção.
Com este forte apelo publicitário, cerca de quatro milhões de civis se
apresentaram para a “Grande Guerra Patriótica”, como ficou conhecida. Este exército
destreinado foi o responsável muitas vezes por segurar as tropas alemãs enquanto o
Exército Vermelho se recompunha e se reorganizava para a batalha.
A guerra psicológica foi usada por ambos os lados, mas os soviéticos carregaram
de crueldade as frentes de batalha ao instalar alto-falantes com um incessante tique-
taque e a afirmação de que a cada dez segundos um soldado nazista morria. Após a
derrota alemã na União Soviética, imagens fotográficas de fileiras de prisioneiros
alemães serpenteando sobre a neve branca correram o mundo.
34
In: YOSHIDA, Ernesto (Ed.), jul. 2006.
35
In: Veja e leia, fev. 1943.
Figura 30 – Capa da Revista ‘Veja e
Leia’ de fevereiro de 1943, ilustrada
com um cartaz soviético.
Fonte: VEJA, 2008.
96
Figura 31 – Soldados alemães prisioneiros de guerra da URSS.
Fonte: DW-World, 2005.
Com a esmagadora vitória soviética sobre os alemães, Stalin teria poder para
manipular as decisões ao seu favor. Com isto, o destino da Europa Central e Oriental
estava em suas mãos. A União Soviética emergia agora como superpotência mundial.
Quando os campos de concentração foram abertos, vários cineastas de
Hollywood estavam lá, antes mesmo da chegada da ajuda humanitária. O cineasta
George Stevens
36
era o chefe dos cinegrafistas do exército americano e coordenou o
registro oficial em película 35mm P&B, das ações finais da guerra desde o Dia-D. As
atrocidades cometidas no campo de concentração de Dachau, imagens de cadáveres
empilhados e fornos crematórios num registro extra-oficial, filmado por ele em película
36
George Stevens (1904 - 1975) foi um diretor, produtor e roteirista norte-americano. Filho de um casal
de atores, pisou cedo nos palcos teatrais. Ainda adolescente, ganhou um especial interesse pela fotografia.
Com 17 anos, empregou-se em Hollywood como assistente de câmara, não demorou a ser promovido a
cinegrafista principal. Em 1930, estreou como diretor, rodando dois curtas-metragens simultâneos: Ladies
Last e The Kickoff. Seu primeiro longa-metragem foi: The Cohens and Kellys in Trouble (1933). Mas seu
primeiro filme de sucesso foi Sonhos Dourados (Alice Adams, 1935); depois disto, enveredou pelo
musical, dirigindo a dupla Fred Astaire e Ginger Rogers em Ritmo Louco (Swing Time, 1936). Entre seus
filmes de sucesso estão: Gunga Din (1939), Pessoas a Mais... Casas a Menos (The More the Merrier,
1943), que conferiu a Stevens a sua primeira nomeação para o Oscar de Melhor Diretor. Porém, só
ganhou seu primeiro Oscar por Um Lugar ao Sol (A Place in the Sun, 1951), um retrato cru da moral
norte-americana, que levou seis Oscars. In: GEORGE STEVENS, ENCICLOPÉDIA Wikipédia, Acesso
em: 24 mar. 2008.
97
16mm Kodacrome, com a mesma câmara que havia feito Gunga Din (1939). Estas
imagens jamais tinham sido exibidas para o mundo, os rolos de filme ficaram guardados
no porão de sua casa junto a objetos de valor, e somente após a sua morte, seu filho
George Stevens Jr. os editou e exibiu a público. Desde então, podem ser vistas no
documentário D-Day to Berlin (1994).
George Stevens Jr. faz a apresentação do filme dizendo:
Agora (vocês) verão a guerra conforme a viam meu pai e seus colegas.
Ouvirão suas recordações de um tempo em que cada dia era uma aventura e as
pessoas tinham esperança. (Este registro) começa em Londres em 1944 onde se
formou a equipe conhecida como “Os Irregulares de Stevens”.
A partir de suas reminiscências, foi possível entender os acontecimentos e narrar
o filme. Esta equipe era formada por profissionais do cinema: diretores, roteiristas,
cinegrafistas, entre outros; eles não concordavam em ser admitidos como soldados
exigindo que lhes fossem atribuídas patentes superiores:
Éramos muito bons para sermos soldados. [...] Éramos profissionais
liberais que abandonaram carreiras lucrativas e de prestígio para nos unirmos
ao exército.
Desta forma, foram todos promovidos. George Stevens era o Tenente-Coronel
que chefiava a equipe de profissionais, entre eles: Willian Saroyan, autor teatral; Holly
Morse, assistente de direção dos Roach Studios; Bill Hamilton, operador de áudio dos
Columbia Studios; Irwin Shaw e Ivan Moffat ambos escritores; e os cinegrafistas Ken
Marthey, Jack Muth, Dick Kent e William Mellor.
As imagens em cores da Segunda Guerra Mundial, inéditas até então, mostram
cenas de batalhas, de liberação de cidades como Paris, e também de momentos de
relaxamento dos soldados. Mas este registro particular não poupou as imagens sórdidas
da morte, que não são vistas no registro oficial.
98
Figura 32 – Liberação de Paris.
Fonte: STEVENS JR., George. 1998.
Figura 33 – Soldados descansando.
Fonte: STEVENS JR., George. 1998.
Figura 34 – A morte em cores vivas.
Fonte: STEVENS JR., George. 1998.
Figura 35 – Deserção em massa
do exército alemão.
Fonte: STEVENS JR., George. 1998.
O general Dwight Eisenhower convidou vários executivos de Hollywood a
passar um dia no campo de Dachau, recém aberto. Horrorizados com o que viram,
comprometeram-se a ilustrar o acontecido nas produções seguintes, porém isto não era
tão simples: registros dos campos foram exibidos apenas nas atualidades
cinematográficas e chocaram demais o público. Na chegada ao Campo de Dachau, a
equipe se deparou com corpos empilhados e fornos crematórios ainda em
funcionamento, estes são mostrados friamente no registro particular de Stevens, que
também fez close-ups nos prisioneiros esquálidos, que se confundem com cadáveres:
Para um jovem de 20 anos que havia tido uma vida confortável, foi um
golpe terrível: como um ser humano pode fazer isto a outro ser humano? Como
se justifica este assassinato em massa? O sentimento que se tem é de ódio dos
alemães, de todos eles, nesse momento.
99
Figura 36 – Montanha de corpos.
Fonte: STEVENS JR., George. 1998.
Figura 37 – Prisioneiros assassinados às
pressas, nem desembarcaram do trem.
Fonte: STEVENS JR., George. 1998.
Figura 38 – Prisioneiro morto congelado na neve.
Fonte: STEVENS JR., George. 1998.
Figura 39 – Soldados alemães fuzilados.
Fonte: STEVENS JR., George. 1998.
Ao final da guerra, com a Alemanha em ruínas, e um novo conflito se
descortinando entre o Ocidente e a URSS, ingleses e americanos precisavam reconstruir
a Alemanha com a ajuda dos alemães, e não desejavam abater ainda mais o ânimo dos
vencidos com as imagens tenebrosas dos campos de morte que eles haviam
coletivamente produzido, ao apoiar o regime nazista até seu amargo fim.
Após o registro do êxodo em massa da população européia, da liberação de
Berlim pela União Soviética, e do início de sua reconstrução, a equipe liderada por
George Stevens retornou para os Estados Unidos. Cada um deles foi afetado pela guerra
de uma maneira bastante particular, o que influenciaria seus trabalhos posteriores. Em
1948, Irwin Shaw publicou um romance sobre a guerra, intitulado The Young Lions, que
seria filmado apenas em 1958 por Edward Dmytryk. George Stevens passou da
realização de comédias, musicais e filmes de aventura, para os clássicos como A Place
in the Sun (1951), Os Brutos também Amam (Shane, EUA, 1953), Assim Caminha a
Humanidade (Giant, EUA, 1956) e The Diary of Anne Frank (EUA, 1959). O Capitão
100
Joe Biroc foi diretor de fotografia do clássico A Felicidade não se Compra (It’s a
Wonderful Life, Frank Capra, EUA, 1946). Ivan Moffat escreveu o roteiro de Tender is
the Night (Henry King, EUA, 1962), e de Assim Caminha a Humanidade. William
Mellor ganhou dois Oscar pela melhor fotografia de The Diary of Anne Frank e de A
Place in the Sun.
Segundo Susan Sontag, em Diante da Dor dos Outros,
...se houve um ano em que o poder da fotografia para caracterizar, e
não meramente registrar as realidades mais abomináveis suplantou todas as
narrativas complexas, com certeza foi 1945, com as fotos tiradas em abril e no
início de maio em Bergen-Belsen, Buchenwald e Dachau, nos primeiros dias
após a libertação dos campos de concentração, e com as fotos tiradas por
testemunhas japonesas, como Yosuke Yamahata, nos dias seguintes à
incineração da população de Hiroshima e de Nagasaki, no início de agosto
37
.
Figura 40 – Sobreviventes no alojamento em
Mauthausen. Entre 5 e 15 de maio de 1945.
Fonte: USHMM. Coleção Robert Seibel.
Figura 41 – Sob as ordens do exército norte-
americano, cidadãos austríacos removem os
cadáveres de Mauthausen para o enterro em uma
sepultura coletiva. Entre 10 e 15 de maio de 1945.
Fonte: USHMM. Coleção Robert Seibel.
37
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 25.
101
A Fotografia da Morte
Se a luz até então era apenas uma facilitadora da gravação de imagens, agora
esta seria a mais mortal arma de guerra. A morte instantânea veio com a luz semelhante
à de um grande flash fotográfico de magnésio, seguida do calor emitido por ela.
Segundo as palavras de Shuntaro Hida, um médico que sobreviveu ao ataque:
Eu fiquei assombrado. Era uma luz assustadora. Mesmo estando de
costas para ela, você podia sentir o choque diretamente no seu cérebro. Ao
mesmo tempo, toda a pele que estava exposta ficou muito quente. Calor. Calor.
Um calor abrasador
38
.
Em julho de 1945, o Japão manifestou seu desejo de negociar a paz, porém, não
concordaria com os termos da rendição. A Declaração de Potsdam exigia a rendição
incondicional, incluindo a ocupação do Japão, restringindo a autoridade do governo
japonês às ilhas do arquipélago, o desarmamento e o julgamento dos criminosos de
guerra. Como os norte-americanos haviam conseguido decifrar o código japonês e
interceptar as correspondências telegráficas, verificaram que o Japão não se renderia,
pois queria manter o império. Após a derrota dos alemães, no encontro em Potsdam
entre os três maiores líderes, Harry Truman, Winston Churchill e Josef Stálin
representando respectivamente Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética, Truman
teria cochichado ao ouvido de Stálin: Temos um explosivo muito poderoso que iremos
usar contra os japoneses e pôr fim à guerra
39
.
Então, antes de usar a bomba nuclear, resolveram fazer um ultimato, abrandando
a declaração de Potsdam para “rendição incondicional das forças armadas japonesas”,
mantendo a possibilidade da conservação do poder do imperador. Mas esta atitude foi
vista pelos líderes japoneses como praticamente uma rendição dos aliados, o que levou
ao lançamento das Bombas Atômicas, que instantaneamente mataram mais de 130 mil
pessoas. Uma semana depois, do ataque a Nagasaki, o Japão aceitou a rendição
incondicional. Ao que tudo indica, o uso das bombas atômicas contra o Japão deu fim à
Segunda Guerra Mundial, mas marcou o início da Guerra Fria.
38
In: Hiroshima, EUA, 2005.
39
In: NARLOCH, Leandro, p. 35, ago. 2005.
102
Ainda havia a possibilidade de um ataque por terra, como aconteceu no Dia-D
na Normandia, mas estimava-se que haveria cerca de um milhão de baixas de Aliados e
outras tantas de japoneses. Na esperança deste ataque, os exércitos japoneses estavam
sendo preparados para lutar corpo-a-corpo e dizimar os exércitos Aliados. Seria uma
luta furiosa e sangrenta, pois os japoneses tinham a bravura e a lealdade e como dizia o
General Koretchika Anami, responsável pelo alto-comando japonês: Um soldado
prefere morrer a render-se, o que seria considerado uma desonra
40
. Porém, a bravura
não substituiria a munição, nem o combustível, nem o alimento que os aliados tinham
como vantagem sobre os japoneses, mesmo estes contando com uma poderosa arma que
os Aliados não tinham: a disposição dos cidadãos em morrer pelo imperador.
Truman recebeu em Potsdam um telegrama na noite do dia 16 de julho de 1945,
que dizia: Realizado nesta manhã, com resultados satisfatórios, o teste já superou as
expectativas
41
. Mais tarde, recebeu um relatório detalhado do teste e discutiu sobre o
assunto com Churchill. Então, em 24 de julho, resolveu contar a Stálin sobre a nova
arma. Porém, suspeita-se que Stálin soubesse sobre a bomba tanto quanto ou até mais
que Truman, devido à presença de espiões infiltrados na equipe que a desenvolveu.
Como o alvo eram os soldados e marinheiros, não civis, Hiroshima foi escolhida
como primeiro alvo, pois era uma importante base militar, por isso os americanos
tinham evitado bombardeá-la, para poder avaliar com precisão o alcance da bomba
atômica. Esta era a primeira vez que uma arma de destruição em massa com essas
proporções seria usada numa guerra. A bomba atômica começou a ser desenvolvida
durante a Segunda Guerra Mundial e terminou com ela, foram três anos de pesquisas,
com um custo de dois bilhões de dólares. Robert Oppenheimer, diretor científico, após o
teste bem sucedido em 16 de julho de 1945, no Novo México, fez uma terrível
constatação ao perceber que a arma que havia criado seria usada para matar milhares de
pessoas: Acabei de me tornar a morte, o destruidor dos mundos
42
.
A missão contou com três aviões: o primeiro era o Enola Gay, que levava a
bomba; o segundo era o The Great Artiste, que levava o equipamento para as medições;
e o terceiro era o Necessary Evil, que levava a equipe fotográfica e cinematográfica.
40
In: Hiroshima, EUA, 2005.
41
In: Ibidem.
42
In: Ibidem.
103
Para preparar os aviadores que lançariam a bomba, Deke Parsons especialista em
armas, havia levado o filme da explosão no teste feito no Novo México, mas durante a
exibição, o filme, de nitrato, pegou fogo. Desta forma, eles ficaram sem saber como
aquela bomba explodiria. Receberam ainda, ordem direta de não mencionar o ataque
nem a nova arma entre si e muito menos em cartas à família.
Havia ordens para que fotógrafos e uma equipe de filmagem registrassem a
missão histórica:
Quando chegamos ao Enola Gay tivemos a primeira surpresa, porque
havia luzes por toda parte. Era diferente de todas as missões que já havíamos
feito, parecia mais uma estréia em Hollywood
43
. – Theodore van Kirk,
navegador do Enola Gay.
Tínhamos entrado nos aviões para dar a partida nos motores e havia
gente por toda parte, havia luzes bem ali, bem na frente do motor número dois.
E eu não podia fazer nada com aquela coisa ali, então abri a janela, pus a
cabeça para fora e disse: afastem-se! Saiam da frente! – Como eu estava
gesticulando com a mão, um fotógrafo disse para eu acenar para ele. Acenei e
saiu assim
44
. – Paul Tibbets, piloto do Enola Gay.
Figura 42 – Os homens selecionados para a
missão que lançaria a bomba atômica.
Fonte: Hiroshima, EUA, 2005.
Figura 43 – A imagem do piloto acenando. Ao
contrário do que pode parecer, ele estava pedindo
para saírem da frente.
Fonte: Hiroshima, EUA, 2005.
Exatamente abaixo da bola de fogo, a temperatura chegou a 4 mil graus Celsius.
As pessoas foram mortas instantaneamente. A luz emitida por essa bola de fogo, como
43
In: Hiroshima, EUA, 2005.
44
In: Ibidem.
104
um flash, gravou as silhuetas de escadas, grades e até das pessoas que estavam ao ar
livre, em pedra e metal. A cidade se tornou por um instante uma fotografia viva.
(...) o desenho dos quimonos tatuou a pele das vítimas... Se segundo
seu inventor, Nicéphore Niepce, a fotografia era nada mais do que um método
de gravura através da luz, (...) a arma nuclear é herdeira da câmara escura de
Niepce e do holofote militar. (...) As sombras japonesas não mais se inscreviam
nas paredes de um teatro de sombras, mas sobre as paredes da cidade
45
.
Figura 44 – Restou apenas a silhueta do
homem que estava sentado nesta escada.
Fonte: MATSUSHIGE, Yoshito. 2008.
Figura 45 – As estampas dos quimonos
ficaram gravadas na pele.
Fonte: GENSUIKIN, 2008.
Durante o ataque nuclear a Hiroshima, apenas um foto-jornalista registrou as
cenas de horror que presenciou imediatamente após o ataque: Yoshito Matsushige, que
trabalhava no jornal local, Chugoku Shimbun, tinha 32 anos na época do bombardeio
estava a 2,7 km do epicentro. Seu relato do ocorrido é contundente, e mostra
nitidamente a ação da autocensura adotada por aqueles que estão incumbidos de
registrar imagens, como segue abaixo:
45
In: VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto, 1993, p. 176-177.
105
Eu tinha acabado de tomar café da manhã e me preparava para ir ao
jornal onde trabalhava. De repente, o mundo ao meu redor ficou branco e
brilhante, como se tivessem disparado um flash na minha cara. Depois, veio a
explosão. A sensação era de centenas de alfinetes me penetrando ao mesmo
tempo. Após cerca de 40 minutos, peguei minha câmara, vesti uma roupa que
achei no meio dos escombros e saí para a rua. Na ponte Miyuki, encontrei
estudantes do Colégio para Mulheres de Hiroshima, mobilizadas para derrubar
casas. Estavam cobertas de queimaduras. Puxei minha câmara, mas não
consegui apertar o botão. Eu tinha sofrido apenas ferimentos leves causados
por estilhaços de vidro, e aquelas pessoas estavam morrendo. Hesitei por uns
20 minutos, até tomar coragem. Lembro que o visor da câmara ficou embaçado
pelas minhas lágrimas. Endureci o coração para fotografar. Depois, vi um
bonde queimando. Dentro estavam 15 ou 16 passageiros, mortos uns sobre os
outros, com as roupas arrancadas. Meus cabelos arrepiaram e as minhas
pernas tremeram. Caminhei para tirar uma foto. Não consegui. Havia outros
fotógrafos lá, mas nenhum deles conseguiu fotografar. É um pequeno consolo
ter sido capaz de tirar pelo menos cinco fotografias que se tornaram registro
daquela atrocidade
46
.
Figura 46 – Pessoas na fila para se registrar.
Fonte: MATSUSHIGE, Yoshito. 2008.
Figura 47 – Um policial registra os
feridos.
Fonte: MATSUSHIGE, Yoshito. 2008.
46
In: NARLOCH, Leandro, p. 33, ago. 2005.
106
Os aviadores responsáveis pelo sucesso do bombardeio foram recebidos como
heróis na base militar, e como na partida, as imagens da chegada também foram
registradas:
Eu saí do avião como nos disseram para fazer, e o soldado espetou
aquela coisa na minha camisa. Havia outros tirando fotos de nós. Eu acenei
para eles, e terminada essa parte, voltei ao meu trabalho. Tínhamos de prestar
contas ao pessoal da inteligência
47
. – Paul Tibbets, piloto do Enola Gay.
Figura 48 – O piloto é condecorado
com uma medalha.
Fonte: Hiroshima, EUA, 2005.
Figura 49 – Cinegrafistas e fotógrafos registram
a chegada dos novos heróis.
Fonte: Hiroshima, EUA, 2005.
Após o ataque, Truman fez um comunicado via rádio, que fora também gravado
cinematograficamente, para que não restassem dúvidas quanto à intenção de acabar com
a guerra naquele momento:
Foi para poupar o povo japonês de destruição maior que foi dado o
ultimato de 26 de julho em Potsdam. Os líderes deles o rejeitaram de imediato.
Se não aceitarem agora, eles podem esperar uma enxurrada bélica vinda do ar,
sob uma forma que nunca foi vista no mundo
48
.
Segundo Akiko Takakura, bancária, sobrevivente do bombardeio, [...] quando se
usa uma arma tão devastadora como uma bomba nuclear, as pessoas ficam impotentes,
47
In: Hiroshima, EUA, 2005.
48
In: Ibidem.
107
como formigas, como insetos. Porém, na tarde do dia do ataque, o prefeito de Hiroshima
fez uma declaração:
A catástrofe que se apresenta é resultado de um terrível e desumano
ataque aéreo. A intenção do inimigo foi claramente enfraquecer o espírito
guerreiro do povo japonês. Cidadãos de Hiroshima, os estragos foram
tremendos, mas isto é o que se deve esperar em tempos de guerra. Mantenham
as cabeças erguidas. Não percam as esperanças
49
.
Três dias após o ataque a Hiroshima, o Japão ainda não havia se rendido. Então,
uma segunda bomba foi preparada para lançamento, e Truman divulgou um alerta:
O mundo vai perceber que a primeira bomba atômica foi lançada sobre
Hiroshima, uma base militar. Se o Japão não se render, teremos de começar a
bombardear centros industriais. Faço um apelo aos civis japoneses que
evacuem as cidades industriais imediatamente e se salvem da destruição.
Conheço as conseqüências trágicas da bomba atômica.
Nós a descobrimos, e a utilizamos. Nós a lançamos contra aqueles que
nos atacaram, sem aviso, em Pearl Harbour. Contra aqueles que fizeram
perecer de fome, que espancaram e executaram prisioneiros de guerra
americanos. Contra aqueles que se recusaram a obedecer às leis internacionais
de guerra. Nós usamos a bomba para abreviar as agonias da guerra, para
salvar as vidas de milhares e milhares de jovens americanos
50
.
Em 10 de agosto de 1945, um dia após o bombardeio sobre Nagasaki, o
fotógrafo militar Yosuke Yamahata começou a registrar a devastação. Num período de
aproximadamente doze horas fez cerca de cem fotografias; no final da tarde, tinha feito
suas fotografias finais perto de uma estação de primeiros socorros ao norte da cidade.
Em um único dia, tinha terminado o único registro fotográfico feito imediatamente após
o bombardeio atômico de Nagasaki.
49
In: Hiroshima, EUA, 2005.
50
In: Ibidem.
108
Figura 50 – Uma das primeiras imagens fotográficas captada logo após o bombardeio atômico.
Fonte: NAGASAKI Jouney: the photographs of Yosuke Yamahata. 2008.
Estas fotografias foram logo publicadas: a 21 agosto já ilustravam as páginas de
um dos jornais de maior circulação no Japão, o Mainichi Shinbun.
Figura 51 – Imagens como esta, foram censuradas.
Fonte: NAGASAKI Jouney: the photographs of Yosuke Yamahata. 2008.
109
Depois das limitações impostas pelo Supremo Comandante Militar japonês,
sobre a cobertura dos efeitos da bomba atômica, as fotografias de Yamahata apareceram
na introdução de 29 de setembro de 1952 na revista Life. No mesmo ano, elas foram
exibidas no livro Kiroku-shashin: Genbaku no Nagasaki e na exposição e livro
intitulados The Family of Man, de Edward Steichen. As fotografias de Yamahata de
Nagasaki são o registro mais completo do bombardeio atômico logo após o ataque.
Figura 52 – Apesar de o alvo principal serem as indústrias a devastação estava por toda a cidade.
Fonte: NAGASAKI Jouney: the photographs of Yosuke Yamahata. 2008.
Em 1947, por iniciativa de Robert Capa e de alguns amigos, entre eles Chim
51
,
Henri Cartier-Bresson
52
e George Rodger
53
, foi fundada uma cooperativa, a Agência
51
David Seymour (1911-1956), cujo nome real era David Szymin que gerou o apelido pelo qual se tornou
famoso: Chim, nasceu na Polônia e foi morto enquanto fazia a cobertura da troca de prisioneiros no Canal
de Suez. Ele estudou artes gráficas em Leipzig e se tornou fotógrafo em 1933, continuando seus estudos
na Sorbonne em Paris. Cobriu alguns eventos políticos para várias revistas, entre elas a Life, iniciando
com a Guerra Civil Espanhola. Com o início da Segunda guerra Mundial, fugiu para Nova Iorque.
Durante a Guerra ele serviu como intérprete fotográfico (provavelmente de cronofotografia), na Força
Aérea Norte-Americana na Europa. In: Chim history. Acesso em: 29 fev. 2008.
52
Henri Cartier-Bresson (1908-2004) era de uma família industrial têxtil francesa, relativamente abastada.
Quando criança ganhou uma câmara fotográfica Box Brownie, com a qual produziu inúmeros
110
Fotográfica Magnum, em Paris, pois com as dificuldades financeiras para bancar as
expedições ao redor do mundo, além dos calotes sofridos por vários deles (...) as
questões relativas aos meios de vida e à independência dos fotógrafos deslocaram-se
para o primeiro plano
54
. A agência propunha-se inicialmente a apenas representar os
fotógrafos perante os meios de comunicação. Porém, os que se filiavam a ela, deviam
submeter-se a um regulamento moralista que (...) preconizava uma missão ampla e
eticamente árdua para os fotojornalistas: fazer a crônica de seu tempo, fosse este de
guerra ou de paz, como testemunhas honestas, livres de preconceitos chauvinistas
55
.
instantâneos. Sua obsessão pelas imagens levou-o a testar uma câmera de filme 35mm. Além disto,
Bresson também pintava e foi para Paris estudar artes em um estúdio, onde se formou. Quando eclodiu a
Segunda Guerra Mundial, Bresson serviu o exército francês. Durante a invasão alemã, ele foi capturado e
levado para um campo de prisioneiros de guerra. Tentou por duas vezes escapar e somente na terceira
obteve sucesso. Juntou-se à Resistência Francesa em sua guerrilha pela liberdade. Na década de 1950,
vários livros com seus trabalhos foram lançados, sendo o mais importante deles "O Momento Decisivo"
(1952). Em 1960, uma megaexposição com quatrocentos trabalhos rodou os Estados Unidos em uma
homenagem ao nome forte da fotografia. In: Wikipédia: Henri Cartier-Bresson. Acesso em: 28 fev.
2008. Ele ainda é considerado um dos mais importantes teóricos contemporâneos da fotografia .
53
George Rodger (1908-1995) foi um fotógrafo autodidata britânico, que inicialmente pretendia ser
escritor, e que decidiu comprar uma câmara de bolso Kodak com o objetivo de ilustrar as suas histórias.
Após trabalhar como fotógrafo para diversas revistas, as fotografias publicadas pelo London Blitz
chamaram a atenção dos responsáveis da revista Life para o seu trabalho. De 1939 a 1945 foi
correspondente de guerra desta revista e foi o primeiro fotógrafo a entrar e a fotografar o campo de
concentração de Bergen-Belsen, em abril de 1945. Estas imagens acabariam por ser publicadas pela Time
e pela Life. Depois desta experiência traumática na procura de "boas composições" na frente da morte,
decidiu que não queria mais ser fotógrafo de guerra ou de violência em qualquer uma das suas formas.
Até à década de 1980 fez mais de quinze expedições ao continente africano. O seu trabalho teve grande
projeção na Europa, tendo inclusive recebido numerosos prêmios. In: Wikipédia: George Rodger.
Acesso em: 28 fev. 2008.
54
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 32-33.
55
In: SONTAG, Susan, Loc. cit.
111
Capítulo 4
O Poder da Informação
Os julgamentos de Nurembergue, mesmo local onde outrora os alemães haviam
mostrado sua força ao mundo através do filme O Triunfo da Vontade, aconteceram entre
1945 e 1949. Foram julgados alguns poucos chefes nazistas alemães acusados de terem
cometido crimes contra o direito internacional: assassinato, escravização, pilhagem e
toda a sorte de atrocidades cometidas contra militares e civis dos países ocupados. Estes
julgamentos foram considerados um avanço no direito internacional, pois pela primeira
vez na História foi identificado e definido um crime até então sem nome, que a partir de
então passou a ser chamado de crime contra a humanidade e pela primeira vez os
chefes de um governo foram julgados por iniciarem uma guerra. Em seu discurso final
durante o julgamento de Nuremberg, Albert Speer declararia:
“A ditadura de Hitler foi a primeira ditadura de um Estado industrial, uma ditadura
que, para dominar seu próprio povo, serviu-se perfeitamente de todos os meios técnicos..” –
dito isso, não se pode responsabilizar unicamente a personalidade de Hitler pelos
acontecimentos criminosos destes anos. A desmedida de seus crimes poderia se explicar pelo
fato de que, para cometê-los, Hitler soube servir-se primeiro dos meios oferecidos pela
técnica
1
.
A Segunda Guerra Mundial deixou a maior parte da Alemanha em ruínas. Os
bombardeios e a invasão dos Aliados haviam destruído cidades, plantações, indústrias e
sistemas de transporte. Os suprimentos de água, alimentos, combustível e energia
encontravam-se extremamente reduzidos. A população estava faminta, e as condições
de vida eram terríveis. Havia um consenso sobre a existência de problemas sociais
agudos.
Em junho de 1945, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França e a União
Soviética assumiram oficialmente o controle da Alemanha, que foi dividido em quatro
zonas
2
de ocupação militar, sendo que cada um destes países ocupou uma delas. Berlim,
1
In: VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto, 1993, p. 127.
2
Em 1948, numa tentativa de controlar a inflação galopante na Alemanha, os Estados Unidos, a França e
a Inglaterra criaram uma "trizona" entre suas zonas de influência, para fazer valer nestes territórios o
marco alemão. Pouco depois, as zonas estadunidense, francesa e britânica se unificaram, originando a
Bundesrepublik Deutschland, República Federativa da Alemanha, ou Alemanha Ocidental, cuja capital
112
a capital da Alemanha, também foi dividida, ainda que sob território de influência
soviética. A comunicação entre as zonas da cidade fragmentada era feita por pontes
aéreas e terrestres.
Desde o lançamento das Bombas Atômicas pelos Estados Unidos em Hiroshima
e Nagasaki e do desenvolvimento da Bomba de Hidrogênio pela União Soviética, teve
início uma guerra sem batalhas, mas na qual a imagem e os meios de informação agiram
ferozmente. Uma paz apreensiva, mais semelhante a um cessar-fogo, voltou a reinar em
um mundo fatigado pela guerra
3
.
Evidências da Guerra Psicológica - I
Assim que passou a ter controle sobre sua parte da Alemanha, a União Soviética
criou um sistema econômico e político comunista neste território. Ela também exercia
um controle sobre os países que tinha ocupado durante a Segunda Guerra além da
Alemanha. Na Ásia, a vitória dos comunistas sobre os nacionalistas chineses, garantiu
um domínio soviético sobre esta região também. Na Europa, como a França e a Grã-
Bretanha tinham sido devastadas pela Segunda Guerra e estavam se reconstruindo,
restou aos Estados Unidos e à União Soviética ocupar o posto de potências mundiais
que antes era ocupado pela Alemanha e pelo Japão. No final da década de 1940, estes
locais controlados pela União Soviética estavam praticamente isolados de qualquer
contato com nações ocidentais capitalistas.
Nessa época, os Estados Unidos já tinham se dado conta da expansão
comunista
4
. As barreiras impostas às comunicações, ao comércio e até as viagens de
civis entre as nações capitalistas e as comunistas ficaram conhecidas como a Cortina de
Ferro. Estas barreiras favoreceram o crescimento de sentimentos de desconfiança e a
era Bonn. Da zona soviética surgiu a Deutsche Demokratische Republik, República Democrática Alemã,
ou Alemanha Oriental, com capital na porção oriental Berlim.
3
In: Segunda Guerra Mundial. Enciclopédia Delta Universal, 1987. p. 7226.
4
Dos dois blocos que se formaram, o liderado pelos Estados Unidos ficou conhecido como Mundo Livre
ou Ocidente, era capitalista, e foi formado além dos Estados Unidos, pelo Canadá, França, Grã-Bretanha,
Alemanha Ocidental, Japão, Filipinas e outros países da Europa ocidental e da América Latina. O outro
bloco, liderado pela União Soviética, conhecido como Leste, era comunista, e foi formado além da União
soviética, pela China e outros países da Europa oriental. Os países neutros, que não pertenciam a nenhum
dos dois blocos, entre eles a Índia, a Suécia, a Suíça, a Indonésia, o Camboja e a maioria dos países
africanos, ficaram conhecidos como nações Não-Alinhadas.
113
tensão aumentou em ambos os lados, que gerou o reforço dos efetivos militares.
Segundo Joseph Errol Brant
5
:
A Guerra Psicológica [...] consiste essencialmente no manejo da palavra falada e
escrita, com o propósito de abalar o moral do inimigo e abreviar as operações bélicas. Levada
a cabo com destreza, poderá poupar muitas vidas. Caso contrário, repercutirá negativamente
sobre o adversário, irritando-o e robustecendo a sua capacidade de resistência
6
.
Toda revolta ou incidente internacional ocorrido neste período foi visto como
parte da Guerra Fria. O medo de que um conflito local desencadeasse uma Terceira
Guerra Mundial crescia diariamente. Nesta época, o registro fotográfico aéreo já não era
nenhuma novidade: cem anos antes da Crise dos Mísseis de Cuba
7
já se fazia este tipo
de registro. Fotógrafo e assistente ficavam então cerca de duas horas e meia a 1.500 pés
8
de altitude, num balão: (...) Naquele tempo, ninguém teria sido capaz de imaginar o que
representaria para a História a câmara aérea em outro século – não somente para
registrar a História –, sendo também, por assim
dizer, para deter-lhe a trajetória.
Embora fosse ocasionalmente uma arma
valiosa durante a Segunda Guerra – os ingleses
descobriram através de fotos aéreas onde os
alemães construíam bases de foguetes – a
fotografia como “arte negra da espionagem” só se
aperfeiçoou nos vinte anos seguintes. E o potencial
moderno dos filmes no serviço secreto penetrou a
consciência pública em 1960, quando os russos
abateram um avião de reconhecimento U-2
pilotado pelo americano Francis Gary Powers.
Soube-se então que os vôos de U-2 sobre a União
Soviética faziam parte de um plano sensacional e
muito bem sucedido de levantamento – graças à
5
Autor do livro Segredos da Guerra Psicológica: reminiscências da segunda guerra mundial.
eBooksBrasil.com, acesso em 17 out. 2007.
6
In: MATTOS, Sergio, 1991. p10.
7
O episódio conhecido como a Crise dos Mísseis de Cuba, ocorrido em Outubro de 1962, foi um dos
momentos de maior tensão da Guerra Fria. A crise é conhecida pelos russos como Crise Caribenha e
pelos cubanos como Crise de Outubro.
8
1500 pés equivalem a 457,2 metros.
Figura 1 – Capa da Revista Life sobre
a Crise de Cuba, novembro de 1962.
Fonte: SOUSA, Armando S. 2005.
114
câmara
9
.
A Crise dos Mísseis de Cuba começou quando os soviéticos, em retaliação à
instalação de mísseis nucleares norte-americanos na Turquia no ano anterior, decidiram
instalar os mesmos mísseis em Cuba. Porém, este território era constantemente vigiado
através da espionagem aérea fotográfica, o que fez com que os Estados Unidos
identificassem a construção de cerca de 40 silos antes que estes fossem postos em uso.
O mundo esteve, então, à beira de um conflito nuclear durante 13 dias.
(...) Enquanto os EUA e a URSS negociavam, a população norte-americana tentava
defender-se como podia. Depois do presidente John Kennedy ter declarado a verdadeira
gravidade da situação pela televisão, milhares de chefes de família, aterrorizados, trataram de
cavar nos seus pátios e jardins pequenos abrigos que possibilitassem a sobrevivência da sua
família durante a possível guerra nuclear (...)
10
.
Até que os Estados Unidos e a União Soviética concordaram em retirar seus
mísseis da Turquia e de Cuba, pacificamente.
Para John Pastore e Octavio Cajado, na Crise dos Mísseis de Cuba o uso da
fotografia destacou- se como ferramenta de detenção da trajetória histórica:
(...) quando a câmara se tornou guardiã da nossa segurança nacional, fotógrafos
aéreos, não de um balão arquejante, mas de aviões espias que voavam à velocidade de 1.500
milhas por hora
11
, a altitudes que superavam, às vezes, a marca dos 80.000 pés
12
, tiraram
fotografias mais nítidas do que aquelas com que Daguerre embasbacou Morse. Em 1962,
transmudou-se Cuba na área mais fotografada do mundo, e alguns dos fatos e temores
comunicados por essas fotografias abalaram os próprios alicerces do globo. Os aviões espias
dos Estados Unidos tinham voado alto e baixo, constantemente, continuadamente, fotografando
toda a ilha. Milhares de fotografias foram tiradas e, logo, escrutadas, estudadas, medidas,
comparadas, reunidas e analisadas. Empregaram-se todas as técnicas fotográficas – lentes
compridas para fotografar de perto, instantâneos "estéreos” e dispositivos de compensação
para interpretar as fotografias
13
.
9
In: BACELLAR, Mario Clark, 1971, p. 31.
10
In: Wikipédia: Crise dos Mísseis de Cuba, acesso em: 17 out. 2007.
11
1.500 milhas por hora é equivalente a 2.414 quilômetros por hora.
12
80.000 pés equivalem a 24.384 metros.
13
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, 1966. p. 45-46.
115
Figura 2 – Fotografia aérea mostrando base de lançamento de mísseis em Cuba, novembro de 1962.
Fonte: USAF. 2007.
Essas fotografias abalaram a fraca estabilidade política mundial e meses depois
foram divulgadas pelo próprio governo norte-americano através da televisão. Este fato
nunca havia ocorrido e serviu para justificar as atitudes do governo. E nunca recebeu a
fotografia atestado mais belo do que a gratidão de um presidente e do seu povo, para
os quais a arte da câmara representara a sua primeira linha de defesa
14
.
A tensão sentida pelas pessoas com relação às duas superpotências acentuou-se
com o início da corrida armamentista, cujo “vencedor” seria a potência que produzisse
mais armas e mais tecnologia bélica. Em contraponto, a corrida espacial trouxe grandes
inovações tecnológicas e proporcionou um grande avanço nas telecomunicações e na
informática. Tecnologias de lançamento de mísseis e de foguetes são muito próximas, e
por isso os dois países investiram pesadamente na tecnologia espacial.
As telecomunicações também se desenvolveram muito neste período. Durante a
década de 1960, temendo um possível ataque soviético, as universidades americanas
desenvolveram um novo tipo de comunicação entre os computadores, conhecida como
Arpanet. Esta foi a precursora da Internet, em que vários computadores instalados em
14
In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, 1966. p. 45-46.
116
lugares diversos do país estavam interligados entre sí, proporcionando uma maneira
segura e ininterrupta de transmissão de dados. Durante a década de 1970, o uso desta
tecnologia manteve-se restrito a fins militares e acadêmicos. Somente em 1987, a rede
foi liberada para uso comercial, e desde então, a Arpanet passou a chamar-se Internet.
Em 1990, foi criada a linguagem HTML e a partir daí a Internet passaria por um
processo de expansão gigantesco, tornando-se um dos grandes meios de comunicação
da atualidade.
15
Imagens do
Front
em Casa
Derrotada facilmente pelos alemães na Segunda Guerra, a França viu
enfraquecer seu poder na região do Vietnã, Laos e Camboja. Os vietnamitas anti-
franceses criaram um movimento nacionalista com características predominantemente
comunistas, que ficou conhecido como Viet Minh. A influência do Viet Minh foi se
estendendo sem sofrer maior oposição devido ao envolvimento francês na Segunda
Guerra.
Robert Capa chegou ao Japão na esperança de poder registrar a Guerra da
Indochina
16
. No dia seguinte, ao encontrar- se com Henry Luce
17
, o fundador e editor da
revista Life, verificou que este não queria que sua revista contivesse qualquer
reportagem negativa sobre a guerra. Alguns meses antes, enquanto Luce viajava, foi
publicada na revista uma matéria com fotografias e texto de David Douglas Duncan
18
que sugeria que as táticas de guerra francesas eram ineficientes e que a França
caminhava para a derrota. Luce ordenou então que o fotógrafo Ed Thompson produzisse
15
In: HISTORY OF THE INTERNET. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 17 out. 2007.
16
A Guerra da Indochina aconteceu entre 1946 e 1954.
17
Henry Luce foi o fundador e principal editor de todas as revistas publicadas pela Time Inc. Lançou a
revista Fortune em 1930, em 1936 a revista Life, em 1952 a revista House & Home e ainda em 1954 a
Sports Illustrated. Na metade da década de 1960, a Time Inc. era a maior e mais proeminente editora de
revistas do mundo. In: HENRY LUCE. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 17 out. 2007.
18
David Douglas Duncan (1916) é um dos mais influentes fotógrafos norte-americanos do século XX.
Ele é mais conhecido por suas dramáticas imagens de combate. Duncan se tornou um oficial da Marinha
norte-americana e tornou-se um fotógrafo militar. Ele foi então, enviado para o Pacífico Sul quando os
Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. Apesar de estar freqüentemente perto da ação, ele
raramente lutou. No entanto, em um breve confronto na Ilha Bougainville, Duncan teve que lutar contra
os japoneses. Na Guerra do Vietnã, Duncan acabaria por compilar mais dois livros I Protest! (1968) e
War Without Heroes (1970) abandonando sua neutralidade como fotógrafo e mostrando a guerra sob seu
ponto de vista. In: DAVID DOUGLAS DUNCAN. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 02 mar.
2008.
117
algumas cenas “positivas” sobre a guerra para reparar o erro. Porém, quando Thompson
chegou ao campo de batalha, os franceses já haviam sofrido uma grande derrota e tudo
indicava que realmente perderiam a guerra; dessa forma, ele não conseguiu produzir
nenhuma imagem positiva.
Um amigo de Capa alertou-lhe sobre os perigos de ser um correspondente nesta
guerra, pois as tropas estavam tão debilitadas que não havia como tomar precauções
básicas para a segurança de suas próprias vidas. Mas ele precisava do trabalho, pois
estava totalmente sem dinheiro e a remuneração era alta. Além disso, sua reputação de
maior fotógrafo de guerra estava abalada devido à brilhante atuação de Duncan.
Ao cobrir esta guerra, ao contrário de todas as registradas anteriormente, pela
primeira vez Capa não conseguiu se identificar com um dos lados e acabou fazendo um
registro neutro. Quando finalmente conseguiu ir ao campo de batalha, dependia do
comboio francês para seu transporte em segurança. Em certo momento, o comboio
parou porque a estrada estava impedida. Então Capa aproveitou para fotografar e
conversar com os vietnamitas que trabalhavam na colheita do arroz, próximo à estrada.
Como o comboio ainda estava parado, resolveu seguir adiante e fotografar um
destacamento do exército francês que vinha logo atrás. Não satisfeito com o ângulo de
visão, resolveu sair da estrada e foi para um campo com grama alta. Fez duas fotos e,
sem perceber o terreno estava minado, pisou numa mina. Caiu ainda com sua câmara
fotográfica em uma das mãos. Sua perna esquerda foi arrancada com a explosão.
Mesmo com atendimento médico imediato e o transporte por uma ambulância, Capa
não resistiu aos cinco quilômetros de viagem até o hospital de campo mais próximo e
morreu antes de chegar. Ele tinha quarenta anos e foi o primeiro correspondente norte-
americano a morrer na Indochina.
118
Figura 3 – Última fotografia feita por Robert Capa. Estrada de Namdinh a Taibinh em 25 de maio de
1954.
Fonte: ROBERT Capa. 2006. p. 37.
O principal líder da revolução, Ho Chi Min, viria a ser o governante do Vietnã
do Norte, uma divisão do país adotada após o término da Guerra da Indochina. Uma paz
conciliatória foi tratada junto à França, que reconheceu a independência do Laos, do
Camboja e do Vietnã. No Vietnã, porém, deveriam ocorrer eleições nacionais para que
este fosse reunificado, fato que não aconteceu, ficando o Vietnã do Norte sob o governo
comunista de Ho Chi Minh e o do Sul sob um governo de tendências capitalistas
apoiado pelos Estados Unidos. Esta divisão de poderes políticos em plena Guerra Fria
seria o estopim para a Guerra do Vietnã.
O surgimento de milícias armadas, conhecidas como Vietcongue
19
para derrubar
o governo do Sul foi imediatamente combatido pelos Estados Unidos. O apoio ao
corrupto regime político sul-vietnamita como arma para deter o avanço comunista na
região, funcionou como um tiro no pé, consumindo os recursos militares dos Estados
Unidos, que tinham duas vantagens sobre o Vietcongue: mobilidade e poder de fogo.
Utilizavam helicópteros para atingir o interior do território inimigo e aviões para um
bombardeio sistemático de regiões do Vietnã do Norte. Segundo Adrian Gilbert, em sua
19
Vietcongue é uma forma contraída das palavras viet congsan, que significam comunistas vietnamitas.
119
Enciclopédia das Guerras, (..) a medida do sucesso passou a ser a “contagem de
corpos” – o número de comunistas mortos, publicado regularmente pelos norte-
americanos
20
.
Porém, a mesma medida usada para avaliar o sucesso da campanha, passou a ser
usada mais tarde para ilustrar seu insucesso, sendo divulgada massivamente pela
imprensa escrita e televisiva a contagem dos corpos norte-americanos, o que produziu
uma reação em massa da população contra a participação no conflito.
A guerra que os Estados Unidos travaram no Vietnã, a primeira a ser testemunhada
dia-a-dia pelas câmeras de tevê, apresentou à população civil americana a nova tele-
intimidade com a morte e a destruição. Desde então, batalhas e massacres filmados no
momento em que se desenrolam tornaram-se um ingrediente rotineiro do fluxo incessante de
entretenimento televisivo doméstico
21
.
Além das enormes perdas de soldados, os Estados Unidos ainda eram criticados
pelo seu tratamento agressivo contra os sul-vietnamitas, aos quais deveriam estar
protegendo. A não-distinção entre civis e guerrilheiros Vietcongues levou à destruição
de aldeias e plantações inteiras, atitude divulgada e criticada duramente pela imprensa.
A Guerra do Vietnã foi um conflito gerado dentro da Guerra Fria, na “luta” entre
comunistas e capitalistas. Os Estados Unidos só entraram neste conflito para garantir
que não haveria a expansão comunista; porém, após mais de quinze anos de guerra, os
comunistas venceram.
Não havia muitos aparelhos receptores de rádio ou televisão no Vietnã
22
, e a
maioria das pessoas ouvia as transmissões radiofônicas através de alto-falantes públicos
e os poucos televisores pertenciam às fazendas coletivas e às associações de
trabalhadores. O que é muito interessante notar, pois devido à ampla cobertura
jornalística, especialmente a impressa (revistas) e a televisiva, a população norte-
americana se mobilizou contra a guerra. A revista Life
23
divulgou a Guerra do Vietnã
em cores.
20
In: GILBERT, Adrian, 2005, p. 293.
21
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 21/22
22
Antes da década de 1960, poucos vietnamitas possuíam rádios ou televisores. Nas décadas de 1960 e
1970, os rádios tornaram-se razoavelmente difundidos no Vietnã do Sul, enquanto no Vietnã do Norte,
poucas pessoas possuíam estes aparelhos. In: PASTORE, John O; CAJADO, Octavio Mendes, 1966.
23
Segundo Susan Sontag, em seu livro Diante da dor dos Outros, a revista Life fechou em 1972, para
consternação de muitos que, como ela, havia crescido com suas reveladoras fotos de guerra e de arte e
haviam sido educados por elas.
120
Figura 4 – Capa da Revista Life ilustrada com
fotografia de Larry Burrows. 27 nov. 1964.
Fonte: BURROWS, Larry. 1996.
Figura 5 – Capa da Revista Life ilustrada com
fotografia de Larry Burrows. 28 oct. 1966.
Fonte: BURROWS, Larry. 1996.
As agências de imagens, como a Magnum, foram as grandes distribuidoras e
municiadoras de informação. A imprensa televisiva americana teve uma grande
importância para a aceleração do fim da guerra, especialmente para a retirada dos
Estados Unidos do conflito.
Mas a guerra é o crime mais vasto e, desde meados da década de 1960, a maioria dos
mais conhecidos fotógrafos que cobriam guerras acreditaram que seu papel consistia em
mostrar a "verdadeira" face da guerra. As fotos coloridas dos atormentados aldeões
vietnamitas e de recrutas americanos feridos, tiradas por Larry Burrows
24
e publicadas pela
revista Life, a partir de 1962, sem dúvida reforçaram o clamor contra a presença americana no
Vietnã. Burrows foi o primeiro fotógrafo importante a cobrir toda uma guerra em cores – mais
um recurso em benefício da verossimilhança, ou seja, do impacto.
25
24
Larry Burrows nasceu em Londres em maio de 1926 e morreu em fevereiro de 1971, ficou muito
conhecido pelas imagens fotográficas feitas durante a Guerra do Vietnã. Ele deixou os estudos aos 16
anos e começou a trabalhar na revista Life. Iniciou sua carreira de fotógrafo no Vietnã e infelizmente, lá
mesmo a encerrou, pois o helicóptero em que se encontrava junto com mais três outros foto-jornalistas,
foi abatido pelo armamento antiaéreo vietcongue, quando sobrevoava a trilha de Ho Chi Minh, no Laos.
In: LARRY BURROWS. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 17 out. 2007.
25
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 35.
121
Figura 6 – Uma mulher chora sobre o corpo de seu
marido, morto pelo vietcongue durante a ofensiva
ao Tet, em 1968. Um ano depois, o corpo ainda
não havia sido enterrado. Huè, 1969.
Fonte: BURROWS, Larry. 1996.
Figura 7 – Marines recolhem um corpo sob tiros
durante a batalha pelo Vale 484. Próximo
a Dong Ha, 1966.
Fonte: BURROWS, Larry. 1996.
O que a Guerra do Vietnã certamente provou foi que a fotografia é infinitamente mais
memorável que a imagem em movimento. Enquanto é difícil lembrar de qualquer noticiário
sobre o Vietnã, é difícil de esquecer a imagem daquela pequena garota com todas as suas
roupas queimadas, ou do chefe de polícia matando um suspeito informante
26
, ou o retrato de
Don McCullin daquele soldado com o olhar fixo aterrorizado, ou a imagem do pequeno garoto
olhando dentro de um caminhão onde sua irmã tinha acabado de ser “jogada fora”, feita por
Philip Jones Griffiths. O Vietnã também estabeleceu o direito dos fotojornalistas, como
qualquer um, de ter uma opinião sobre a guerra e expressá-la em suas fotografias.
27
26
Não pode existir a menor suspeita acerca da autenticidade do que mostra a foto tirada por Eddie
Adams, em fevereiro de 1968, do chefe da polícia nacional sul-vietnamita, general-de-brigada Nguyen
Ngoc Loan, dando um tiro em um homem suspeito de ser vietcongue, numa rua de Saigon. Contudo, a
foto foi encenada – pelo general Loan, que levou o prisioneiro, de mãos amarradas nas costas, até a rua
onde os jornalistas haviam se reunido; Loan não teria cumprido a execução sumária ali, se eles não
estivessem dispostos a testemunhá-la. Postado ao lado do prisioneiro, de modo que seu perfil e o rosto do
prisioneiro ficassem visíveis para as câmeras atrás dele, Loan mirou à queima-roupa. A foto de Adam
mostra o momento em que a bala foi disparada; o homem morto, fazendo uma careta, ainda não começou
a cair. In: SONTAG, Susan, 2003, p. 52.
27
In: MILLER, Russell, 1998, p. 224.
122
Figura 8 – A explosão de uma bomba de Napalm numa vila criou
uma das cenas mais chocantes dessa guerra. O fotógrafo
vietnamita Nick Ut, não apenas registrou a cena, como também
foi o responsável por socorrer a menina e levá-la
ao hospital mais próximo. 1972.
Fonte: UT, Nick. 2008.
Figura 9 - Chefe da polícia nacional sul-
vietnamita, general-de-brigada Nguyen
Ngoc Loan, dando um tiro em um
homem suspeito de ser vietcongue,
numa rua de Saigon.
Fonte: MATTOS, Sergio. 1991. p. 30.
Figura 10 – Soldado em estado
de choque, Huè, 1968.
Fonte: McCULLIN, Don. 2008.
Figura 11 – Menino chora ao ver o corpo
de sua irmã sendo recolhido.
Fonte: GRIFFITHS, Philip Jones. 2005, p. 118-119.
123
Fotógrafo associado à
Agência Magnum, Philip Jones
Griffiths estava em 1966
registrando a Guerra do Vietnã,
mas seu registro seria muito
diferente daqueles feitos por
outros fotógrafos na mesma
época. Ele via a ação norte-
americana de imposição de uma
democracia como algo que
estava a destruir cerca de dois
mil anos de tradição. Para
defender sua tese, ele lançou um
livro em 1971, intitulado
Vietnam Inc. Seus relatos e
fotografias um tanto
contundentes mostraram aos
norte-americanos imagens que
não queriam ver. As descrições
de atrocidades cometidas pelo
exército e seus comandantes,
como a de um coronel que
mandava arrancar os corações dos inimigos mortos para alimentar seu cão, ou outro que
mandava cortar as cabeças, enfileirá-las e colocar um cigarro aceso em cada boca, ou
ainda orelhas que eram arrancadas de prisioneiros ainda vivos e penduradas como
contas em um colar.
Em setembro de 1976 Griffiths acompanhou uma unidade do exército norte-
americano numa missão a Quang Ngai. Dois soldados foram mortos pela explosão de
uma granada, e rapidamente o exército revidou e matou todos os homens que defendiam
a vila, restaram apenas mulheres e crianças, que foram cercados e se renderam. O
capitão deu a ordem para que fosse aberto fogo contra eles e que nenhum sobrevivesse,
Figura 12 – Soldado do ‘Esquadrão Zippo’, ateando fogo
numa vila, com o famigerado isqueiro nas mãos.
Fonte: GRIFFITHS, Philip Jones. 2005, p. 65.
124
ao ver a chocante cena, Griffiths aproximou- se do capitão e perguntou: O que estes
civis fizeram? Eles foram mortos! O capitão então respondeu: Que civis?
28
Griffiths acreditava que faria uma fortuna com a cobertura da Guerra do Vietnã,
mas estava enganado. Suas imagens contundentes não podiam ser publicadas, pois
contrariavam os interesses norte-americanos. Ele mal conseguiu publicar uma capa no
jornal New York Times
29
, uma história na revista Look
30
e uma única imagem nos
jornais Newsweek
31
e Toronto Star
32
. Enquanto isso, os fotógrafos que estavam
declaradamente a serviço do exército norte-americano, obtinham materiais
gratuitamente, acesso sem censura à frente de batalha, além de proteção, abrigo e
alimentação. Como a Magnum não conseguia vender suas fotos, seu dinheiro foi
escasseando. Griffiths fez amizade com uma família vietnamita que o acolheu e com
isso, ele foi o fotógrafo que mais tempo ficou no Vietnã.
Outro fotógrafo a registrar a Guerra do Vietnã foi Tim Page. Ainda inexperiente,
ele havia adquirido sua primeira câmara fotográfica há pouco mais de três semanas, mas
sua avidez e ingenuidade o levaram à guerra quando nem sabia ainda manusear
corretamente o equipamento ou revelar um filme, tarefa essencial para um fotógrafo
28
In: MILLER, Russell, 1998, p. 214.
29
O The New York Times foi fundado em 1851 por Henry Jarvis Raymond e George Jones. Raymond
também auxiliou na fundação da Associated Press em 1856. O jornal foi originalmente concebido para
publicação todas as manhãs, menos no domingo; apesar disso, durante a Guerra de Secessão o Times
começou a publicar edições no domingo como outros grandes jornais diários da época. Ganhou seu
primeiro Prêmio Pulitzer pelas reportagens e artigos sobre a Primeira Guerra Mundial em 1918. Mais
recentemente, em 1996, o Times começou a ser publicado também na Internet em www.nytimes.com
.
30
A revista Look era uma revista de grande formato, cerca de 28x36cm, tinha periodicidade quinzenal e
dava mais ênfase às fotografias que aos artigos. Foi publicada na cidade de Des Moines, no estado o
Iowa, nos Estados Unidos de 1937 a 1971. Ao que tudo indica, deixou de ser publicada após um déficit de
cinco milhões de dólares, causado pela queda brusca no número de anunciantes. Estes preferiam agora,
divulgar seus produtos pela televisão. In: LOOK (AMERICAN MAGAZINE). ENCICLOPÉDIA
Wikipédia, acesso em: 02 mar. 2008.
31
A revista Newsweek foi fundada por Thomas J.C. Martyn em 1933. A primeira edição possuiu sete
matérias ilustradas cada uma por uma fotografia. De periodicidade semanal, publicada na cidade de Nova
Iorque e distribuída para os Estados Unidos e também internacionalmente. Atualmente é a segunda maior
revista com esse perfil no país, superada apenas pela Revista Time em locais de circulação e ganhos com
publicidade. In: NEWSWEEK, 2006, acesso em: 04 mar. 2008.
32
O jornal Toronto Star, originalmente Evening Star, depois The Toronto Daily Star e então Toronto
Star, foi criado em 1892 como um atraente jornal vespertino. O jornal foi empobrecendo nos seus
priemiros anos, porém, prosperou sob a batuta do Editor Joseph Atkinson, o Holy Joe, que atuou desde
1899 até 1948, quando morreu. Porém, os concorrentes costumam dizer que o Toronto Star é o único
jornal editado por um morto, pois os princípios de Holy Joe são seguidos até hoje. A amizade de Holy Joe
com o primeiro ministro canadense, Mackenzie King, influenciou fortemente o desenvolvimento da
política social canadense. Sua oposição e crítica ao regime nazista, fez o jornal ser o primeiro a ser banido
da Alemanha. O Toronto Star posicionou-se desde o início, contra a atual guerra no Iraque e faz críticas
ácidas à política de George W. Bush, presidente dos Estados Unidos. In: TORONTO STAR.
ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 04 mar. 2008. & HONDERICH, Beland, 1992, acesso em: 22
mar. 2008.
125
correspondente de guerra na época. Ele cobriu o início do combate, registrando as ações
dos sul-vietnamitas e seus assessores norte-americanos, quando ainda não haviam sido
enviadas tropas norte-americanas para o Vietnã. Tim Page foi ferido na cabeça pela
explosão de uma mina terrestre e perdeu 20% de sua massa encefálica. Ficou fora de
combate pouco antes do ataque mais sangrento feito até então naquela guerra.
Nenhum fotógrafo norte-americano conseguiu registrar a capital norte-
vietnamita. O fotógrafo civil vietnamita Van Bao foi um dos poucos a conseguir realizar
essa façanha. Ele registrou em Hanói tudo que viu através das lentes de sua câmara. Seu
objetivo era levar a notícia da frente de batalha à população e inspirá-la com imagens
comoventes. Não dá para esquecer o passado, as marcas, as perdas. Todos nós
sabemos que cada foto tem seu próprio valor, por cada uma paga-se um preço, às
vezes, pode nos custar sangue. Isso as torna inestimáveis
33
.
Figura 13 – Prisioneiro norte-americano.
Fonte: CLARK, David; BREGER, Brian. 2002.
O irmão de Van Bao ficou do outro lado da batalha, separado da família pelo rio
que dividiu o país em dois durante 26 anos. Mai Nam, assim como seu irmão Van Bao,
nunca cobriu os confrontos entre soldados. Ele registrou a guerra em casa, e não andava
armado. Segundo ele, as imagens eram a arma que usava para inspirar o povo, levantar
o moral, unir o país: [...] Queria que minhas fotos mostrassem como o povo vietnamita
33
Em entrevista concedida ao foto jornalista Tim Page, como parte do conteúdo do DVD: Vietnã uma
outra guerra: as cenas que ninguém viu, 2002.
126
era determinado, principalmente os jovens; sua bravura ao lutar, dispostos a morrer
pela reunificação do país
34
.
Mai Nam foi um dos únicos fotógrafos a ter acesso aos esconderijos
subterrâneos vietnamitas. Para fotografar na escuridão usou pólvora das balas para
produzir luz, como um flash, para iluminar as pessoas, segundo ele (...) as balas dessa
vez foram usadas para celebrar a vida e não pra proporcionar a morte
35
.
Figura 14 – Fotografia dentro do esconderijo subterrâneo.
Fonte: CLARK, David; BREGER, Brian. 2002.
Estes esconderijos tornaram-se redes intrincadas de túneis que abrigavam toda
uma população, alguns pontos atingiam até 20 metros de profundidade. E nestes túneis
as pessoas estudavam, cozinhavam, dormiam e ainda conviviam socialmente. Estes
túneis também tiveram grande importância tática militar, pois neles era possível desde
guardar armas e suprimentos até realizar ataques-surpresa e emboscadas, favorecendo a
resistência sul-vietnamita.
Enquanto as fotografias produzidas pelos fotógrafos vietnamitas mostravam
cenas de soldados mortos e de civis cantando e levando suas vidas dentro dos túneis,
com o objetivo de sensibilizar e estimular a sociedade para a batalha, as norte-
34
Em entrevista concedida ao foto jornalista Tim Page, como parte do conteúdo do DVD: Vietnã uma
outra guerra: as cenas que ninguém viu, 2002.
35
Em entrevista concedida ao foto jornalista Tim Page, como parte do conteúdo do DVD: Ibidem.
127
americanas mostravam, em sua maioria, a superioridade bélica e as excelentes
condições de vida dos soldados; o que mais tarde se constatou não serem um reflexo fiel
da realidade, pelo vazamento de imagens que mostravam exatamente o contrário.
O fotógrafo Le Minh Troung, acompanhava o exército norte-vietnamita e não
tinha outra alternativa senão ficar bem na linha de fogo, pois usava uma lente de 50
mm
36
que o obrigava a ficar bem próximo da cena a ser capturada. Ele se sentia mais
um soldado na frente de batalha: Quando eu via uma cena, como soldados atacando,
pulava para fora da trincheira com uma câmara nas mãos. Na época eu ignorava a
morte. Eu nem pensava nisso. A morte estava em toda parte, mas eu raramente a
fotografava. Não gostava
37
.
Alguns dos fotógrafos vietnamitas usavam um processo de revelação do filme
completamente artesanal. Isso só era possível por utilizarem filme preto-e-branco ao
contrário dos fotógrafos norte-americanos que fotografavam em cores. Le Minh Troung
esperava a noite cair e na escuridão total, caminhava até um riacho próximo ao
acampamento e lá dissolvia em dois pratos de porcelana o revelador e o fixador.
Umedecia o filme na água do rio e então o passava no revelador várias vezes até
completar o processo que se repetia com o fixador. Prendia uma pedra na base do filme,
para garantir que ficaria completamente submerso, e amarrava a outra ponta em algum
lugar seguro e deixava-o lavar na água do rio
38
. Para que suas fotos fossem divulgadas,
elas precisavam chegar a Hanói. Para isso, ele atravessava as linhas inimigas e
adentrava por elas cerca de 90 km, arriscando mais uma vez a própria vida. Le Minh
Troung logo percebeu a importância de seu trabalho como fotógrafo:
As fotos que eu tirava eram preciosíssimas. Logo percebi seu valor, não só para o
presente, mas para o futuro. Elas são o orgulho de minha vida profissional. Levar as fotos era
uma tarefa difícil, às vezes, até mais do que acompanhar os soldados para fotografá-los.
Entregar as fotos era mais difícil do que tirá-las
39
.
Hoje um militar reformado, Doan Cong Tinh foi fotógrafo do Exército norte-
vietnamita na guerra conhecida por eles como Guerra Americana. Aos 25 anos, Tinh foi
36
Uma objetiva de comprimento 50 mm é chamada de Objetiva Normal, pois capta a imagem
aproximadamente com a mesma amplitude que a enxergamos a olho nu.
37
Em entrevista concedida ao foto jornalista Tim Page, como parte do conteúdo do DVD: Vietnã uma
outra guerra: as cenas que ninguém viu, 2002.
38
In: Vietnã uma outra guerra: as cenas que ninguém viu, 2002.
39
Em entrevista concedida ao foto jornalista Tim Page, como parte do conteúdo do DVD: Vietnã uma
outra guerra: as cenas que ninguém viu, 2002.
128
para a guerra para cobri-la durante cinco anos, desde então nunca mais fotografou
profissionalmente e ficou conhecido como o rei do campo de batalha. Naquela época,
as fotos para ele eram mais importantes que sua própria vida e para obtê-las ele fazia
qualquer coisa, inclusive desobedecer às ordens de seus superiores. Na primeira vez que
presenciou um combate, ele quase perdeu a foto e a vida. Em uma entrevista, ele
compara a câmara fotográfica a uma arma: [...] no exército, além de repórter militar, eu
era um combatente, um soldado no front a defender minha pátria, levando comigo uma
câmara como quem porta uma arma
40
.
Em 1972, na derradeira ofensiva a Quang Tri
41
, quando a maioria dos soldados
norte-americanos já havia voltado para casa, um ataque mortal vindo dos ares destruiu a
cidade. Apenas Tinh conseguiu chegar a esta zona de guerra, apesar de ele e outros
fotógrafos terem sido proibidos de prosseguir, pois era perigoso demais para repórteres.
Mas seu objetivo era mostrar aquilo que ninguém mais conseguiria registrar e por isso
desrespeitou a proibição, arriscando morrer e, caso sobrevivesse, enfrentar, por ser
militar, a corte marcial e a desonra. Dessa forma chegou à fortaleza, sendo o único a
registrar imagens de seu interior:
Eu via os feridos sendo
trazidos uns após os outros. E eu, um
correspondente de guerra, um
fotógrafo, o que fazia sentado ali,
olhando os soldados lutarem? Era
muito frustrante. Eu tinha de fazer o
que se costuma chamar de
“desobedecer às ordens”. Eu era um
soldado, mas também precisava
cumprir meu dever como repórter:
trazer as melhores imagens que
conseguisse
42
.
Figura 15 – Dentro da fortaleza em Quang Tri.
Fonte: CLARK, David; BREGER, Brian. 2002.
Essas imagens causaram grande alvoroço internacional, pois enquanto os
diplomatas estavam reunidos em Paris para negociar a paz, elas mostravam que os
40
Em entrevista concedida ao foto jornalista Tim Page, como parte do conteúdo do DVD: Vietnã uma
outra guerra: as cenas que ninguém viu, 2002.
41
Qaung Tri era uma província do Vietnã do Sul que em 1964 tornou-se sede de uma base norte-
americana.
42
Em entrevista concedida ao foto jornalista Tim Page, como parte do conteúdo do DVD: Vietnã uma
outra guerra: as cenas que ninguém viu, 2002.
129
norte-vietnamitas haviam ocupado Quang Tri. Doan Cong Tinh sobreviveu à batalha e
mesmo tendo desobedecido às ordens militares não sofreu retaliações. Ele conta que os
soldados costumavam dizer (...) que suas imagens permitiam que os inimigos os visse
mas não atirassem, e se atirassem não os tocaria e ainda que os tocasse, não os
mataria
43
.
Parecia que o público norte-americano não estava mais tolerando as baixas
sofridas na frente de batalha; apoiado neste fato, Richard Nixon foi eleito presidente,
com a promessa de retirar as tropas do Vietnã, mesmo sendo ele radicalmente
anticomunista. Em janeiro de 1973, um acordo de cessar-fogo foi assinado. Até esta
data, mais de 46 mil soldados norte-americanos morreram em ação, milhões de
camponeses sul-vietnamitas foram mortos, feridos ou desalojados e cerca de um terço
de suas terras estavam impróprias para agricultura.
Vários fotógrafos da Magnum foram enviados ao Vietnã para cobrir a guerra,
entre eles o que mais se destacou foi Don McCullin
44
, que mais tarde ganhou um prêmio
Pulitzer como jornalista. Mas foi Marc Riboud
45
quem conseguiu fotografar Ho Chi
43
Em entrevista concedida ao foto jornalista Tim Page, como parte do conteúdo do DVD: Vietnã uma
outra guerra: as cenas que ninguém viu (Vietnam’s unseen war: pictures from the other side, 2002) de
David Clark e Brian Breger (prod.) para National Geographic.
44
Donald McCullin, conhecido por apenas Don McCullin, nasceu em 1935 em Londres. É um
fotojornalista muito premiado e reconhecido internacionalmente principalmente por suas imagens de
guerra e de cenas urbanas. Sua carreira de fotojornalista iniciou em 1959, quando se especializou em
expor o "outro lado" da sociedade, mostrando desempregados, andarilhos e desabrigados. Quando
cumpriiu o serviço obrigatório militar, ele não foi aprovado na prova escrita de fotografia da RAF (Real
Força Aérea Britânica), e ficou trabalhando somente no laboratório. Entre 1966 e 1984, ele trabalhou
como correspondente internacional, registrando catástrofes naturais e causadas pelo homem, assim como
guerras e vítimas da AIDS na África. Suas duras imagens, feitas na cobertura da guerra do Vietnã foram
muito premiadas. Em 1968, sua câmara aparou uma bala que o teria matado. Ele é autor de vários livros,
entre eles: Palestinians (1980), Beirut: A City in Crisis (1983) e Don McCullin na África (2005). Em
entrevista a Frank Horvat (HORVAT, Frank, acesso em: 04 mar. 2008.), ele disse:
Eu fui manipulado, e em troca, eu manipulei outros, ao responder com imagens de sofrimento e miséria.
Então há culpa em ambas as direções: culpa porque não pratico uma religião, culpa porque posso andar
livremente, enquanto homens estão morrendo de fome ou sendo mortos por outro homem com uma arma. E
eu estou cansado da culpa, cansado de dizer a mim mesmo: Eu não matei aquele homem naquela
fotografia, eu não matei de fome aquela criança. É por isso que eu preciso hoje fotografar paisagens e
flores. Eu me sentenciei a paz...
45
Marc Riboud é um fotógrafo francês, nascido em 1923, mais conhecido por suas reportagens sobre o
Oriente. Ele é hábil ao capturar momentos passageiros da vida em composições poderosas. Em 1957, foi
um dos primeiros fotógrafos europeus a ir à China; e em 1968, 1972 e 1976, Riboud fez várias
reportagens no Vietnã do Norte e mais tarde, viajou todo o mundo, se concentrando mais na Ásia, na
África, nos Estados Unidos e no Japão. Ele foi testemunha das atrocidades da guerra, fotografando tanto o
lado vietcongue, quanto o lado norte-americano na Guerra do Vietnã. Em contraste, ele captou também
sutilezas do dia-a-dia em países tropicais, como imagens de crianças brincando. Ele costuma dizer que
[...] Mais que uma profissão, a fotografia foi sempre uma forma de paixão, uma paixão mais próxima de
uma obsessão. [...]Para mim, a fotografia não é um processo intelectual, é um processo visual. O olho é
130
Minh e provar ao mundo, após a vitória de Nixon nas eleições presidenciais, que o líder
vietnamita ainda estava vivo. De uma conversa informal, surgiram naturalmente as
fotografias:
Eu entendi muito bem de início que não era para eu fotografar. Mas após ficarmos um
pouco amigos, eu perguntei se podia fazer algumas fotografias e ele concordou. Então eu
capturei algumas imagens dele sentado em uma maravilhosa pequena mesa na varanda.
46
Estas imagens foram transmitidas por todo o mundo e ajudaram a mudar o curso
da guerra no Vietnã. Nixon afirmou mais tarde que a Guerra do Vietnã foi [...] a
primeira na história, durante a qual a mídia norte-americana foi mais solidária aos
inimigos que aos aliados.
47
A Guerra do Vietnã ficou, de fato, conhecida como a primeira guerra televisiva,
pois foi coberta ostensivamente por essa mídia, através da qual, reportagens diárias
eram exibidas nos lares norte-americanos.
No início, parecia um filme, mas era real. A Guerra do Vietnã foi, na verdade, a
primeira guerra na TV. [...] Para os correspondentes, era uma verdadeira aventura. [...] Até o
ano de 1967, a televisão contribuiu para que o público americano apoiasse a guerra. Afinal de
contas era através da TV que 60% dos americanos tinham contato com as notícias do front.
48
Embora sob o controle dos oficiais e da imprensa militar, freqüentemente eram
enviadas matérias que mostravam a situação ruim do exército e uma perspectiva
derrotista.
No Vietnã, os Estados Unidos não tentaram impor a censura governamental para
solucionar seus problemas: montaram, em vez disso, uma verdadeira campanha de
Relações Públicas para divulgar sua versão da guerra. Durante o período, jornalistas das
mais variadas procedências eram convidados a visitar o Vietnã e a escrever sobre o que
tinham visto. Tinham tantas mordomias que ficavam na obrigação ‘moral’ de serem
gratos e acabavam publicando exatamente o que a propaganda americana desejava.
(Esta prática foi utilizada pelos alemães durante a Segunda Guerra). Por sua vez, os
feito para ver e não para pensar. Gosto da definição que Walker Evans dá do fotógrafo: um ‘sentimental’
porque o olho manipula os sentidos e não as idéias. In: WEBSITE of Marc Riboud Photographer,
acesso em: 05 mar. 2008.
46
Apud: MILLER, Russell, 1998, p. 224.
47
Apud: MILLER, Russell, Loc. cit.
48
In: MATTOS, Sergio, 1991, p. 31-32.
131
correspondentes americanos eram sempre lembrados a atender aos apelos patrióticos e a
servir aos interesses nacionais.
49
O sofrimento dos civis também foi tema de várias matérias, incitando um
sentimento anti-belicista na população:
Em agosto de 1965, um repórter da CBS, Morley Safer, acompanhou um grupo de
fuzileiros navais dos Estados Unidos no Vietnã, para uma missão de “busca e destruição” de
um complexo de povoados chamado Cam Ne. Os fuzileiros navais, que não encontraram
nenhuma resistência, seguravam isqueiros acesos contra os telhados de sapé e procediam ao
“arrasamento” de Cam Ne. E isso, também apareceu na televisão. A reportagem de Safer, que
correspondia mais a uma exceção do que à regra em matéria de cobertura televisiva no Vietnã
causou considerável consternação entre a diretoria da CBS; a rede despenderia um grande
esforço, nos dias seguintes, para colocar no ar histórias mais positivas sobre a guerra.
Na manhã seguinte ao dia em que a CBS levou ao ar a reportagem filmada por Morley
Safer sobre Cam Ne, o presidente da rede, Frank Stanton, foi acordado por um telefonema.
“Frank, você está tentando ‘me foder’?” – articulou uma voz. “Frank, quem fala é Lyndon
Johnson, seu presidente, e ontem seu pessoal ‘cagou’ na bandeira americana.” A profunda
preocupação demonstrada por Johnson acerca de uma única filmagem no telejornal de uma
rede de televisão também ajuda a demonstrar outro fato: a forma pela qual os noticiários de
televisão haviam chegado a fascinar, senão obcecar, a nação. O presidente Johnson instalou
três aparelhos de televisão em seu gabinete, para que pudesse monitorar as três redes
principais
50
.
A primeira idéia é que a atenção pública é guiada pelas atenções da mídia – ou
seja, de forma mais categórica, pelas imagens. Quando há imagens, uma guerra se torna
“real”. Assim, o protesto contra a Guerra do Vietnã foi mobilizado por imagens.
Atribui-se a derrota na Guerra do Vietnã, pela força da mídia e pelo fraco controle
exercido pelo governo sobre os meios de comunicação, pois em momentos decisivos, o moral
nacional estava tão abalado que não se conseguia o apoio da população. Antes do tratado de
paz, os Estados Unidos haviam sofrido uma derrota moral
51
.
A derrota americana no Vietnã teve início em 1968 quando as imagens da
televisão começaram a registrar a escalada dos ataques do inimigo e a mostrar inúmeros
soldados feridos. De repente, a TV passou a mostrar como os americanos estavam
perdendo a guerra e isto teve um efeito devastador sobre o orgulho americano, que viu,
através da TV, a rendição de uma divisão inteira de Marines
52
.
53
49
In: MATTOS, Sergio, 1991, p. 32.
50
In: STEPHENS, Mitchell, 1993, p. 627-630.
51
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 87.
52
Os marines são integrantes da United States Marine Corps (USMC) e são uma espécie de força tarefa
dentro das forças armadas norte-americanas. Fundada em 1775, a corporação executa diversos tipos de
missão em um território de guerra. Uma delas é a de se aproximar do inimigo e destrui-lo por meio de
combates corpo-a-corpo. In: YOSHIDA, Ernesto (Ed.), jul. 2006, p. 18, 19.
53
MATTOS, Sergio, Op. Cit., p. 32.
132
As imagens que ao mesmo tempo transmitiam a derrota eram necessárias para o
sucesso de uma guerra de imagens:
Aconteceu-me de perder homens e equipamentos unicamente porque o tenente
encarregado de examinar os filmes de nossos bombardeios não distinguiu muito bem os
estragos ocasionados e exigiu que os caças retornassem sobre o objetivo. Ainda ontem se
morria por um brasão, uma imagem em um estandarte ou uma bandeira, mas a partir de agora,
morre-se para aperfeiçoar a nitidez de um filme, a guerra torna-se enfim a terceira dimensão
do cinema...
54
Apenas no final da Guerra do Vietnã, as forças armadas norte-americanas
passaram a controlar a cobertura da mídia no campo de batalha de maneira mais eficaz.
Nesta época, os Estados Unidos começaram a retirar suas tropas, fazendo com que os
vietnamitas assumissem cada vez mais o prosseguimento da guerra. Em janeiro de 1973
os Estados Unidos, o Vietnã do Sul, o Vietnã do Norte e o Vietcongue assinaram um
acordo de cessar-fogo. Porém, todos, exceto os Estados Unidos violaram o acordo e
seguiram lutando até 1975, quando o Vietnã do Sul se rendeu. Os comunistas criaram
então, um Governo Provisório no Vietnã do Sul e em 1976 unificaram o país.
54
Apud: VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto, 1993, p183.
133
A Influência da Televisão na Guerra Psicológica
Elliott Erwitt, fotógrafo filiado à Agência Magnum estava em Moscou quando
no desfile de 7 de novembro de 1957 seriam pela primeira vez apresentados
publicamente os mísseis intercontinentais. Ele se misturou aos repórteres de uma
emissora de televisão local e conseguiu um lugar privilegiado, bem à frente do túmulo
de Lênin. Seu objetivo se concluiu logo no início do desfile, pois os mísseis foram os
primeiros armamentos exibidos. Assim que pôde, voltou ao hotel onde estava
hospedado e com um kit portátil de processamento, revelou o filme, e então saiu da
cidade para enviar os filmes para Helsink, onde havia um laboratório da Magnum
instalado para receber suas imagens e redistribuí-las para o mundo
55
.
A corrida espacial estava sendo medida palmo a palmo e a espionagem feita
pelos soviéticos das transmissões radiofônicas americanas permitia que se soubesse o
quão próximo os Estados Unidos estavam de alcançar este objetivo. Por isso, o envio de
um homem ao espaço deveria acontecer logo, senão a força soviética poderia parecer
menor frente à norte-americana.
Em 12 de abril de 1961, enquanto os norte-americanos lutavam na guerra do
Vietnã, um foguete semelhante a um míssil intercontinental, com capacidade para
transportar uma ogiva nuclear da União Soviética até os Estados Unidos, foi usado para
levar o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin
56
, que proferiu a famosa frase: A Terra
é azul. Imediatamente, a agência soviética Tass anunciou este espetacular feito ao
mundo, que sinalizava o início de uma nova era, a Era Espacial. Este ato provavelmente
causou um impacto psicológico maior sobre os norte-americanos do que se eles fossem
atingidos por uma bomba, provocando uma corrida espacial pela conquista do espaço
entre a URSS e os EUA que culminou com a chegada do homem à Lua.
No famoso discurso transmitido pela televisão, na Universidade Rice em 1961,
John F. Kennedy, então presidente dos Estados Unidos, lançou o desafio de enviar
homens à Lua e retorná-los a salvo antes que a década terminasse: Nós decidimos ir a
Lua. Nós decidimos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas são
55
In: MILLER, Russell, 1998.
56
Yuri Gagarin era filho de um agricultor, assim como o líder soviético Krushev. Esta era uma imagem
politicamente correta para um herói nacional em tempos de Guerra Fria.
134
fáceis, mas porque elas são difíceis.
57
Finalmente, o objetivo de pousar homens na Lua
foi alcançado em 20 de julho de 1969 pela Apollo 11, e Neil Armstrong, o primeiro
homem a pisar na lua, proferiu a célebre frase: Um pequeno passo para um homem, um
salto gigantesco para a humanidade. As imagens do homem na Lua foram transmitidas
pela televisão, mas mesmo vendo-as, muitas pessoas não acreditaram no feito e
pensaram estar vendo uma encenação hollywoodiana.
Figura 16 – Astronautas caminhando na Lua.
Fonte: LOCKE, Bill; KELLY, Chris. 2003.
Figura 17 – Transmissão televisiva mostrando os
astronautas na Lua.
Fonte: LOCKE, Bill; KELLY, Chris. 2003.
Assim como a corrida espacial durante a Guerra Fria, deve muito aos meios de
comunicação, o final da guerra também foi marcado pela forte influência destes sobre a
população. A queda do muro de Berlim foi o símbolo máximo da derrubada do poderio
comunista e do domínio capitalista no mundo. Além disso, enfatizou o poder dos meios
de comunicação, pois a abertura das fronteiras e a destruição do muro ocorreram após
uma informação ter sido transmitida pela televisão e pelo rádio antes do que deveria. Na
tarde do dia 9 de novembro de 1989, numa entrevista coletiva concedida por Gunther
Shebowski, porta-voz do governo, para discutir a crise dos refugiados, transmitida ao
vivo na televisão alemã oriental, anunciou uma decisão do conselho dos ministros de
abolir imediatamente e completamente as restrições de viagens à Alemanha Ocidental,
abrindo os postos de fronteira ao longo do muro. Porém, esta decisão deveria ser
divulgada apenas no dia seguinte, quando entraria em vigor. Pouco depois do término
da transmissão desta entrevista, as notícias sobre a abertura da fronteira já chegavam ao
outro lado do muro, por rádio e televisão. Tanto que um repórter de uma emissora de
57
Originalmente: We choose to go to the moon. We choose to go to the moon in this decade and do the
other things, not because they are easy, but because they are hard.
135
rádio de Nova York ligou para um posto de controle ocidental querendo fazer uma
entrevista ao vivo com os homens que estavam ali, porém estes não haviam assistido a
entrevista e ficaram sabendo da abertura do muro através do repórter, que perguntou o
que se via a partir do posto de controle, ao que foi respondido: Uma multidão de
alemães orientais se juntou do outro lado da fronteira... há muita agitação no portão,
mas nós realmente não sabemos o que está acontecendo. Não dá para acreditar... eles
estão abrindo os portões, estão atravessando!
58
Milhares de pessoas marcharam aos postos de guarda e pediram a abertura da
fronteira, porém nem as unidades militares, nem as unidades de controle de passaportes
haviam sido instruídas. Os guardas da fronteira não sabiam o que fazer, pois haviam
assistido a entrevista, mas não haviam recebido nenhum comunicado oficial. Porém,
como o número de pessoas querendo atravessar a fronteira só crescia, esta foi aberta.
Muitas pessoas viram a abertura da fronteira na televisão e logo em seguida saíram de
suas casas e a atravessaram.
Figura 18 – Pessoas arriscavam a
vida para atravessar o muro.
Fonte: LOCKE, Bill; KELLY, Chris. 2003.
Figura 19 – Os portões foram
finalmente abertos.
Fonte: LOCKE, Bill; KELLY, Chris. 2003.
58
In: Queda do Muro de Berlim, 2003.
136
Figura 20 – As pessoas literalmente “derrubam” o muro.
Fonte: LOCKE, Bill; KELLY, Chris. 2003.
A Queda do Muro de Berlim foi o marco do final da Guerra Fria. O socialismo
na União Soviética duraria por mais uma década, mas a abertura política e econômica
proporcionadas pelo governo de Mikhail Gorbachev, aliadas à liberdade de imprensa,
favoreceram a dissolução da União Soviética.
Imagens do
Front Ao Vivo
em Casa
O Golfo Pérsico é uma área de grande influência comercial devido aos inúmeros
campos de petróleo, o que o torna uma região estratégica. Nos anos 1980, o líder
iraquiano, Saddam Hussein foi apoiado pelo ocidente na guerra radical contra o governo
muçulmano do aiatolá Khomeini no Irã. Porém, este apoio custaria caro, pois em 1990
este mesmo líder ordenaria a invasão do maior produtor de petróleo, um país vizinho e
parte do antigo território iraquiano, o Kuwait. Uma coalizão de países, entre eles
Estados Unidos, Inglaterra, França, Egito e Síria, declararam guerra ao Iraque neste
momento.
137
Tariq Aziz, então ministro das relações exteriores do Iraque, para justificar a
invasão iraquiana ao Kuwait, afirmou à época: Nós começamos a notar que havia uma
conspiração contra o Iraque, uma deliberada conspiração do Kuwait, organizada e
inventada pelos Estados Unidos.
59
A Guerra do Golfo foi a primeira guerra transmitida ao vivo pela televisão. Para
tanto houve o aprimoramento de várias tecnologias, especialmente a de gravação de
vídeo quando o night shot, recurso que permite a filmagem noturna através da captação
do feixe luminoso infravermelho invisível a olho nu, deixou de ser utilizado apenas
como equipamento militar.
A primeira transmissão televisiva ao vivo da guerra não foi acompanhada por
imagens ao vivo, consistindo apenas no áudio transmitido via rádio. Porém, a impressão
que ficou é que desde os primeiros momentos era possível assistir
60
a guerra. A CNN
61
transmitiu a narração de seus repórteres
62
ao vivo durante toda a noite, e a imagem
transmitida era o mapa do Iraque com as fotos congeladas dos três repórteres sobre ele.
As duas primeiras frases transmitidas sobre o conflito foram proferidas por Bernard
Shaw: Os céus de Bagdá estão iluminados. Vemos flashes brilhantes por todo o céu.
63
Depois destas frases, uma sucessão de outras, acompanhadas pelo barulho das
explosões, vieram a narrar o que os repórteres viam através da janela do quarto do hotel
onde estavam hospedados, no centro de Bagdá.
Dias depois, quando a estrutura para transmissão ao vivo estava pronta, as
imagens transmitidas eram esverdeadas, uma característica de captação com o night
shot.
59
In: VÁRIOS. CNN: The unfinished war, acesso em: 22 nov. 2006.
60
O então presidente dos Estados Unidos, George Bush (o pai), no livro intitulado All the Best, George
Bush: my life and other writings, afirma que viu as primeiras explosões através da televisão, na Casa
Branca. (BUSH, George, 1999 apud. MAXIMILIANO, Adriana, p. 28, jan. 2006.
61
Desde sua criação, em 1980, e até o início da Guerra do Golfo, a Cable News Network (CNN), era vista
com desprezo pelo meio jornalístico, pois ao fornecer notícias 24 horas por dia, se tornava superficial.
Porém, quando a Guerra do Golfo começou, somente a CNN tinha estrutura para transmitir o conflito
diretamente de Bagdá. E, além disso, a CNN foi a única rede televisiva que conseguiu autorização para
instalação de um equipamento que fazia a ligação entre Bagdá e a Jordânia, que retransmitia para Atlanta,
nos EUA, ligação que custou dezesseis mil dólares por mês à rede, que ganhou muito mais do que este
valor na época. E ganha ainda hoje, graças ao reconhecimento por seu trabalho obtido após este conflito.
In: CNN. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 22 mar. 2008.
62
Bernard Shaw, que iniciou a transmissão, e seus companheiros Peter Arnett e John Holliman, ficaram
conhecidos como os Garotos de Bagdá. In: MIRANDA, Celso (Ed.), jan. 2006.
63
Apud. MAXIMILIANO, Op. cit., Adriana, p26.
138
Figura 21 – Imagens de múltiplas câmaras de captação noturna, exibidas pela televisão.
Fonte: MIRANDA, Celso. 2006, p. 29.
A CNN conseguiu autorização para instalar câmaras de vídeo nos caças
64
americanos e os alvos apareciam como pontos coloridos num gráfico feito por
computador. A partir deste momento já era possível ouvir as explosões e
simultaneamente tentar localizá-las na imagem transmitida. Por conta desta visão
computadorizada e de cores estranhas, ficou parecendo que tudo não passava de uma
batalha travada num vídeo game:
(...) os milhares de jovens que dirigem e se interessam pela mecânica, eletrônica e
motocicletas estão, despercebidamente, em verdadeiros campos de treinamento militar que, no
momento oportuno, podem transformar o hobby em aptidão para a construção de um complexo
militar.
65
A guerra do Golfo ficou conhecida como vídeo-guerra, pois foi:
64
Na Guerra do Golfo foi usado o avião conhecido como Bombardeiro-Fantasma, o Stealth F-117. Era
um caça especializado no ataque ao solo. Foi o primeiro a utilizar a tecnologia de antidetecção por radar,
que consistia em uma cobertura da fuselagem com chapas cerâmicas em formato de losango revestidas
com urânio. In: MIRANDA, Celso (Ed.), jan. 2006.
65
In: VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto,1993. p. 72.
139
(...) uma guerra cheia de operações cirúrgicas que, quando mostrada na televisão
parecia ser uma guerra limpa, pois os mortos praticamente não existiam e os que existiam não
eram mostrados. A vídeo-guerra desumanizou a guerra, pois todos os alvos e população eram
transformados em meros pontos luminosos de computadores.
66
Como era de se esperar, a censura quanto às imagens transmitidas era bastante
rígida, pois os Estados Unidos não queriam que a opinião pública se voltasse contra a
sua participação no conflito como aconteceu no Vietnã. Dessa forma, as imagens do
campo de batalha eram sistematicamente vetadas. Esta guerra ficou conhecida como a
Guerra Limpa, ou Guerra Cirúrgica, pois a intenção era que apenas os alvos estratégicos
fossem destruídos nos bombardeios e desta forma, haveria o menor número de civis
mortos. Porém, a propaganda feita pelos Estados Unidos sobre a realização de uma
Guerra Cirúrgica, com armas de alta tecnologia não foi tão eficaz quanto o governo
americano imaginou, pois o vazamento de informações deixou transparecer que os
ataques não foram tão precisos e cerca de trinta mil civis morreram.
O GPS
67
foi outra tecnologia utilizada pelos militares americanos para se
localizarem em meio às tempestades no deserto. Também foram utilizadas outras
tecnologias como as miras a laser e os mísseis teleguiados. O helicóptero Apache,
utilizado pela força aérea norte-americana, era tão eficiente de dia quanto à noite, pois
era dotado de uma câmara de visão noturna e de um sistema de imagem térmica, que
permitia visualizar o alvo à noite e em meio à poeira do deserto.
Toda a ação dos Estados Unidos nesta guerra recebeu nomes publicitários: a
primeira operação que visava apenas garantir a segurança das tropas foi chamada de
Operação Escudo do Deserto, Desert Shield, que consistia no posicionamento dos
navios anfíbios no Golfo Pérsico. A segunda operação, na qual começaram os ataques
foi chamada de Tempestade no Deserto, Desert Storm, que consistiu em duas
campanhas, a primeira, com os bombardeios aéreos, chamada de Trovão Instantâneo,
Instant Thunder, e a segunda com o ataque terrestre, chamada de Espada do Deserto,
Desert Sabre. Nomes bastante sugestivos e de forte apelo publicitário: o nome Operação
Tempestade no Deserto é até hoje imediatamente associado à Guerra do Golfo.
66
In: MATTOS, Sergio, 1991. p. 40.
67
O GPS, Global Positioning System, é um sistema de posicionamento global que foi desenvolvido
dezoito anos antes da Guerra do Golfo. Com o auxílio de satélites, receptores em terra calculam a latitude,
a longitude e a altitude, a margem de erro do GPS é de apenas trinta metros. Quatro anos depois desta
guerra o uso do GPS foi liberado para os civis e hoje há inclusive aparelhos de telefonia móvel com essa
tecnologia e navegadores automobilísticos que ditam o caminho através das ruas de uma cidade pra se
chegar a um lugar pré-determinado.
140
Da mesma forma que os meios de comunicação levaram para o ocidente as
informações sobre a guerra, estas informações também chegaram a Israel, dando início à
guerra psicológica. Saddam Hussein havia ameaçado atacar Israel se os Estados Unidos
entrassem na guerra para defender o Kuwait. Quando isso aconteceu, o Iraque passou a
atacar Israel, na esperança de que este revidasse e, dessa forma o Iraque ganhasse o
apoio dos países árabes. Orientado e apoiado pelos Estados Unidos, Israel não revidou,
mas o povo israelense foi instruído pelo governo a estocar água e comida e a usar
durante os bombardeios máscaras contra gás. Ao soar as sirenes sinalizando um
bombardeio, as pessoas imediatamente colocavam suas máscaras. O medo de um ataque
químico era grande, pois o Iraque havia matado cerca de cinco mil curdos dois anos
antes com armas químicas.
No dia 2 de agosto de 1990, o Iraque invadiu o Kuwait e tropas colocaram- se na
fronteira com a Arábia Saudita. A ONU
68
ordenou que o Iraque retirasse suas tropas
imediatamente. O presidente norte-americano George Bush declarou que os Estados
Unidos condenavam a invasão. Um porta-aviões norte-americano deslocou-se para o
Golfo Pérsico. No dia 6, um embargo comercial foi imposto ao Iraque. No dia seguinte,
a Arábia Saudita pediu que os Estados Unidos enviassem tropas para ajudar a defender
suas fronteiras. No dia 8, Saddam Hussein proclamou a anexação do Kuwait ao
território iraquiano. No dia seguinte, a ONU considerou inválida a anexação. No dia 10,
Saddam Hussein declarou o início da Jihad, guerra santa contra os Estados Unidos e
Israel.
Em 19 de fevereiro de 1991 um tratado de paz soviético-iraquiano foi
apresentado aos Estados Unidos, mas foi rejeitado. No dia 22, o presidente George Bush
fez um ultimato para que os iraquianos se retirassem do Kuwait em 24 horas, senão
começaria uma guerra. O ultimato foi ignorado e no dia seguinte, um massivo ataque foi
lançado contra Bagdá.
A população ocidental pôde acompanhar “de perto” o desenrolar da guerra. Os
bombardeios noturnos, quase sempre começavam próximo ao horário do jantar e então,
68
A ONU, Organização das Nações Unidas, foi fundada em 1945 por 51 países, logo após o fim da
Segunda Guerra Mundial. A precursora das Nações Unidas foi a Liga das Nações, organização fomentada
durante a Primeira Guerra Mundial e estabelecida em 1919, em conformidade com o Tratado de
Versalhes, para promover a cooperação internacional e conseguir a paz e a segurança. Atualmente, 192
países compõem a ONU. Seus principais objetivos são: manter a paz mundial; proteger os direitos
humanos; promover o desenvolvimento econômico e social das nações; estimular a autonomia dos povos
dependentes e reforçar os laços entre todos os estados soberanos.
141
famílias se reuniam em frente à televisão para assisti-los no momento em que
aconteciam. A aparência asséptica da guerra não causava repulsa nas pessoas. As
imagens de mortos, desabrigados e fugitivos eram sistematicamente vetadas pelo
governo norte-americano e não chegavam ao público.
Ao final do conflito, enquanto as tropas iraquianas se retiravam do território do
Kuait, estas foram indiscriminadamente massacradas pelo exército norte-americano,
numa atitude semelhante à do Vietnã: o extermínio. Conforme relata Susan Sontag:
O que os oficiais americanos fomentaram durante a Guerra do Golfo, em 1991, foram
imagens da tecnoguerra: o céu, acima das pessoas que morriam, repleto dos rastros luminosos
dos mísseis e das bombas – imagens que ilustravam a absoluta superioridade militar americana
sobre o inimigo. Os espectadores da tv americana não tiveram autorização de ver um filme
comprado pela NBC (e que a cadeia de emissoras, depois, se recusou a exibir), que mostrava o
que esta superioridade podia desencadear: o destino de milhares de recrutas iraquianos que,
depois de fugirem da capital do Kuwait no fim da guerra, no dia 27 de fevereiro, foram
bombardeados exaustivamente com explosivos, napalm, bombas radioativas de urânio
empobrecido e bombas de fragmentação, enquanto seguiam para o norte, em comboios de
veículos e a pé, pela estrada para Basra, no Iraque – um massacre que recebeu, de um oficial
americano, o nome tristemente famoso de “tiro ao alvo nos patinhos”.
69
Exatamente 100 horas depois do início dos bombardeios chegou ao fim a Guerra
do Golfo, mas isso não significou a paz no Oriente Médio. O então presidente do Iraque,
Saddam Hussein, continuou a perseguição religiosa a grupos de oposição política,
especialmente os curdos e muçulmanos. Os países da coalizão criaram uma área
protegida, em que o espaço aéreo estava sempre fechado, para evitar bombardeios.
Entre seguidas inspeções da ONU em busca de armamentos de destruição em
massa e confrontos políticos isolados transformados em guerras santas, passaram-se
pouco mais de dez anos até que Estados Unidos e Iraque se enfrentassem novamente.
Os motivos aparentemente são outros, mas a sua essência é a mesma.
69
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 54-58.
142
Capítulo 5
A Velocidade dos Meios de
Comunicação como Arma do Terror
O terrorismo é coisa do passado, do presente e, provavelmente, do
futuro. O primeiro grupo terrorista da história data do ano 6. O
cenário era a Palestina e, a organização, o Sicarii, uma facção de
judeus radicais contrários à ocupação romana na região. De lá para
cá, centenas de grupos surgiram e desapareceram – e muita bomba
explodiu em nome das mais diversas causas
1
.
Na década de 1960, os maiores Estados árabes contrários à existência de Israel,
especialmente o Egito e a Síria, receberam o apoio da União Soviética, enquanto os
Estados Unidos aumentaram gradualmente seu apoio ao Estado de Israel, criado após o
final da Segunda Guerra com o apoio, inclusive, da União Soviética. Os judeus
sobreviventes da matança em massa no Holocausto haviam sido espoliados de seus lares
na Europa, e sua permanência, em condições críticas, nos barracões dos campos de
refugiados controlados pelos Aliados, deu nova e urgente dimensão ao movimento
sionista que, desde o século XIX, com o caso Dreyfus
2
, trabalhava pelo retorno à
Palestina dos judeus da Diáspora.
Exaustivas negociações foram realizadas até que a ONU votou, sob a presidência
do diplomata brasileiro Oswaldo Aranha, a favor da Partilha da Palestina (então
administrada pela Turquia, sob o domínio inglês) em dois Estados para os dois povos
que viviam há séculos na região: um Estado para os árabes, outro para os judeus. Os
1
Segundo o professor Francisco Mazetto, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e
especialista em terrorismo. Autor de artigos como O terrorismo na história, entre outros. In: MAZETTO,
Francisco de Assis Penteado, jan. 2005, p. 8.
2
Em 1894, Alfred Dreyfus foi acusado pelos monarquistas de ter vendido segredos militares aos alemães.
Seu caso repercutiu por todo o mundo. Numa campanha nacionalista e revanchista contra a Alemanha que
acabou por assumir características de anti-semitismo – com a condenação de judeus como não-franceses –
a farsa armada contra ele foi sendo aos poucos esclarecida graças à atuação dos escritores Anatole France
(1844-1924) e Émile Zola (1840-1902). Em janeiro de 1898, no jornal L'Aurore, Émile Zola escreveu a
famosa carta aberta ao presidente, com o título Eu Acuso! (J'accuse!), denunciando o Alto Comando
Militar francês, os tribunais, enfim, todos os que condenaram Dreyfus, incendiando a opinião pública. O
escritor se apoiava no trabalho do chefe do serviço secreto francês, Coronel Picquart, que concluía que os
documentos contra Dreyfus haviam sido falsificados. In: ALFRED DREYFUS. ENCICLOPÉDIA
Wikipédia, acesso em: 22 mar. 2008.
143
judeus aceitaram seu Estado e logo declararam sua Independência do domínio inglês,
porém os árabes não aceitaram a partilha e, revoltados com a existência de um Estado
judeu na região, recusaram seu Estado. Parte da população árabe que residia no
território reservado ao Estado judeu permaneceu ali numa convivência pacífica (um
milhão de árabes vivem hoje em Israel); outra parte da população árabe abandonou suas
aldeias e aderiu à luta armada ou foi expulsa pelo exército israelense.
No final da década de 1960, com o crescimento do nacionalismo árabe e com o
apoio e armamentos fornecidos pela União Soviética, o Egito iniciou uma campanha de
atrito contra Israel através do Canal de Suez. Não era ainda uma guerra declarada, mas
uma série de ataques por ar e terra e pequenos confrontos entre tropas. Para defender o
canal, Israel construiu várias fortificações que ficaram conhecidas como a Linha de Bar-
Lev. Nesta época, a organização política liderada por Yasser Arafat
3
, a Fatah
4
, ganhou
força e passou a liderar a OLP
5
. Os árabes da região passaram a se chamar palestinos e a
recorrer a atentados terroristas internacionais para promover sua causa, a “causa
palestina”.
A tática terrorista internacional clássica sempre consistiu no seqüestro de aviões.
Na ausência ou na ineficácia de medidas de segurança nos aeroportos, verificou-se a
facilidade do embarque de terroristas portando armas de fogo. O objetivo destes
3
Yasser Arafat (1929-2004) foi um líder palestino de grande influência, apesar de sua nacionalidade
egípcia. Como líder da Fatah e mais tarde da OLP, promovia atentados terroristas para promover o
estabelecimento de um estado palestino independente e a destruição de Israel. Após o ataque conhecido
como Setembro Negro, promovido pela OLP, ele recomendou que os ataques se restringissem aos
territórios de Israel, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Mais tarde, por conseguir transitar entre os
diversos grupos de esquerda palestinos, tornou-se o representante legal de todos os palestinos. Em 1996,
foi eleito presidente da Autoridade Palestina e, desde então, foi mediador nas negociações para a paz. Em
2000, o então primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, fez as maiores concessões até então para viabilizar
a criação do Estado Palestino, mas fazendo contrapropostas utópicas e irrealistas, Arafat levou as
negociações a um impasse, gerando um conflito (a chamada Segunda Intifada), que durou quatro anos. In:
YASSER ARAFAT. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 22 mar. 2008.
4
A Fatah é uma organização dedicada ao estabelecimento de um estado palestino independente. Desde
que o Hamas ganhou as eleições em 2006, ocorreram vários conflitos entre Hamas e Fatah. Ao longo do
ano os dois partidos firmaram acordos, que não duraram muito. Em maio de 2007, novos conflitos se
iniciaram na Faixa de Gaza. Israel ameaçou interferir pois o Hamas recomeçou o lançamento de mísseis.
In: FATAH. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 22 mar. 2008.
5
A OLP - Organização para Libertação da Palestina é uma organização política paramilitar dedicada ao
estabelecimento de um estado palestino independente. Os mandamentos originais da OLP declaravam que
o estabelecimento do Estado de Israel era nulo e inválido, mas, em 1993, o líder do grupo, Yasser Arafat,
reconheceu – taticamente – a existência do Estado de Israel em carta enviada ao primeiro-ministro
Yitzhak Rabin: A assinatura do Acordo de Paz de Oslo marcou o início de uma nova era. [...] A OLP
reconhece o direito do Estado de Israel de existir em paz e com segurança. [...] Em resposta e esta carta,
Israel reconheceu a OLP como representante oficial do povo palestino. A OLP foi presidida por Yasser
Arafat de 1969 até sua morte em 2004, tendo sido sucedido por Mahmoud Abbas. In: ORGANIZAÇÃO
PARA LIBERTAÇÃO DA PALESTINA. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 22 mar. 2008.
144
seqüestros foi modificando-se com o tempo. A princípio, conforme ocorreu em
setembro de 1970, três aviões foram seqüestrados e forçados a pousar no meio do
deserto, próximo à cidade de Dawson na Jordânia. Os seqüestradores exigiam a
libertação de outros terroristas capturados anteriormente. Como o prazo estava se
esgotando, para pressionar o governo inglês a libertar a principal terrorista, retiraram os
passageiros e explodiram os aviões em frente às câmaras de emissoras de televisão,
chocando o mundo. Essa atitude gerou uma retaliação contra grupos armados palestinos
da Jordânia, obrigando-os a se exilarem no Líbano ou na Síria. Os seqüestros de aviões
que aconteciam ocasionalmente tornaram-se muito mais freqüentes após a cessão da
Inglaterra às exigências terroristas.
Figura 1 – A evacuação das aeronaves.
Fonte: LOCKE, Bill; KELLY, Chris. 2003.
Figura 2 – A explosão das aeronaves.
Fonte: LOCKE, Bill; KELLY, Chris. 2003.
Em 1972, outro ataque terrorista chamaria a atenção de todo o mundo,
organizado pelo Setembro Negro, liderado por Arafat. Consistiu no seqüestro e
assassinato de onze atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos de Munique.
Ganhando a atenção de todas as mídias mundiais. Arafat decidiu encerrar a
campanha de terrorismo internacional. Porém, esta atitude não foi aceita por todos e
grupos menores em vários países seguiram dispostos a levar adiante a tradição
terrorista.
145
Figura 3 – Um dos terroristas é fotografado.
Fonte: Die Spiele der XX: Olympiade München.
2008.
Figura 4 – O corpo carbonizado de um dos atletas
assassinados, ainda dentro do helicóptero.
Fonte: Die Spiele der XX: Olympiade München. 2008.
Em 1979 a União Soviética invadiu o Afeganistão, colocando no poder Brabak
Karmal que era a favor do comunismo. Este golpe não foi aceito facilmente, e
principalmente os Mujahidin
6
, habitantes das montanhas afegãs, uniram-se para
defender o país. Eles foram apoiados principalmente pelos Estados Unidos que
forneceram armamentos e treinamento.
No início da década de 1980, outro conflito armado atingiu a região, dessa vez
entre Israel e Líbano. O conflito ficou conhecido como Paz na Galiléia, e fez parte da
Guerra Fria, em que os Estados Unidos, apoiando Israel, demonstraram enorme
superioridade bélica sobre o Líbano, apoiado pela União Soviética.
Com o fim da Guerra Fria, numa tentativa de pacificação os Estados Unidos e a
Rússia diminuíram o número e a variedade de seus armamentos nucleares. Mas outros
países vêm tentando desenvolver armas de destruição em massa.
6
Mujahidin é o plural de mujahid que se traduz literalmente do árabe como combatente (de uma guerra
santa), embora o termo seja logo traduzido como guerreiro santo. No final do século XX, com a
proliferação de ataques terroristas promovidos por homens-bomba, a palavra se popularizou através dos
meios de comunicação, designando quase exclusivamente combatentes armados praticantes do
fundamentalismo islâmico. Entretanto, mujahid nem sempre tem significado religioso, podendo designar
também aquele que combate pela pátria, por seu povo, por sua ideologia, por sua família ou pelo bem da
coletividade, com um sentido laico e nacionalista. No sentido religioso, os mujahidin são combatentes
dispostos ao sacrifício da própria vida, em nome de Deus e da religião. De fato, buscam alcançar a glória
da morte em combate, que, segundo o alcorão, será recompensada com o paraíso. In: MUJAHIDIN.
ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 22 mar. 2008.
146
A Perestroika e a Glasnost, uma série de medidas econômicas e sociais
implantadas pelo então presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev
7
, fizeram
com que as forças militares fossem retiradas do Afeganistão, fortalecendo os Mujahidin
que formaram depois o grupo Talibã
8
, coordenado pelo milionário líder do grupo
terrorista Al Qaeda, Osama Bin Laden
9
, que instaurou um governo autoritário.
Acreditava-se que o fim da Guerra Fria proporcionaria um período de paz. Mas desde a
década de 1990, um grande número de conflitos étnicos e religiosos eclodiu em diversas
partes do mundo.
Os conflitos atuais são gerados em sua maioria dentro dos países por questões
étnicas ou religiosas que camuflam disputas pelo poder. A expressão “limpeza étnica”,
tem se tornado comum, pois é promovida em vários países por diferentes grupos. Hoje
em dia, com armamentos mais mortais, as proporções dos conflitos aumentaram,
tornando-os altamente destrutivos tanto nas comunidades locais quanto nas
comunidades internacionais, em países que de alguma forma se intrometeram nestes
conflitos buscando garantir seus interesses comerciais ou políticos.
Com a velocidade em que as informações são divulgadas e com a facilidade com
que são acessadas, hoje é possível que mesmo conflitos locais acabem ganhando
proporções mundiais. Este fenômeno explica a ocorrência dos atentados terroristas nos
7
Mikhail Gorbachev (1931), após a morte de Konstantin Chernenko, foi eleito secretário geral do Partido
Comunista em 1985, tornando-se o líder da União Soviética. Neste ano, viajou até a Inglaterra, onde
encontrou-se com Margaret Thatcher. Em seu governo, Gorbatchev reformou o partido, que dava então
mostras de decadência, ao apresentar um projeto que se resumia nas expressões glasnost – transparência,
e perestroika – reestruturação, no 27º Congresso do Partido Comunista Soviético em 1986. No ocidente
Gorbachev é bem visto graças à sua contribuição para o fim da Guerra Fria. No entanto, na Rússia, sua
imagem é atrelada à crise econômica e social que se instalou logo após a queda da URSS. In: MIKHAIL
GORBACHEV. ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 22 mar. 2008.
8
Talibã é um movimento islamista nacionalista da etnia afegã pashtu, que governou o Afeganistão entre
1996 e 2001, apesar de seu governo não ter sido reconhecido por todos os outros países. O talibã liderado
Mohammed Omar, aboliu todos os meios de comunicação em massa, tais como a televisão, as imagens
impressas e as artes em geral. Em face de conflitos com hinduístas, que freqüentemente eram confundidos
com islâmicos afegãos que haviam desrespeitado a ordem de não rasparem as barbas, os talibãs
decretaram em maio de 2001, que membros de outras religiões, deveriam usar um símbolo amarelo como
identificação. – Semelhante ao que foi submetido o povo judeu na Alemanha nazista. Em 1996 Osama bin
Laden mudou-se para o Afeganistão. Quando o talibã chegou ao poder, Bin Laden foi capaz de fazer uma
aliança entre este e a Al Qaeda. No Ocidente, hoje considera que o talibã e a Al Qaeda tinham relações
bastante próximas, e que integrantes desta última tenham integrado os ataques terroristas perpretados pelo
talibã. O ataque de 11 de setembro de 2001, propiciou a queda do regime talibã, pois provocou a invasão
do país por tropas norte-americanas e aliadas em busca de Osama Bin Laden. In: TALIBAN.
ENCICLOPÉDIA Wikipédia, acesso em: 22 mar. 2008.
9
Osama Bin Laden, nascido em 1957, é atualmente o homem mais procurado do mundo, por conta da
responsabilidade assumida pela Al Qaeda, grupo do qual é líder, por vários ataques terroristas,
especialmente o de 11 de setembro de 2001 em Nova York. A dificuldade de ser encontrado deve-se à
intrincada rede montanhosa do Afeganistão. In: OSAMA BIN LADEN. ENCICLOPÉDIA Wikipédia,
Acesso em: 22 mar. 2008.
147
Estados Unidos em 2001, na Espanha em 2004 e na Inglaterra em 2005, e seus reflexos
sobre a sociedade destes países e do mundo.
Com o ataque ao World Trade Center no início deste século, o terrorismo
alcançou dimensões mundiais. Até então ficava restrito a regiões sob conflitos sociais,
políticos ou religiosos. Hoje em dia, o assunto é tratado como causa mundial que deve
ser extinta por questões de segurança nacional, especialmente das grandes potências.
Os ataques são parte de uma tática de terror adotada por grupos dominados para
tentar alcançar seus objetivos ou apenas para reagir à repressão de um agressor. Porém
esta tática nem sempre se reverte a favor daqueles que a promoveram, pois por sua
agressividade e por normalmente atingir civis, muitas vezes causam um efeito
psicológico sobre a população contrário àquele pretendido.
São imagens inesquecíveis: dois aviões chocam-se contra as torres do
World Trade Center e transformam em fumaça a inatingibilidade
americana. O dia 11 de setembro de 2001, sem dúvida, marcou o fim do
mundo que conhecíamos. E o início da era da paranóia. Desde então,
as potências ocidentais, capitaneadas pelos Estados Unidos,
consagraram uma espécie de guerra santa contra o terrorismo
10
.
Figura 5 – Imagem do primeiro avião
atingindo a Torre Norte do WTC, transmitida
pela televisão.
Fonte: ARCHIVE of screenshots of online
news sites on September 11/12, 2001.
Figura 6 – A colisão do avião causa uma explosão.
Fonte: KENNEDY, Garfield. 2002.
10
LIMA, Cláudia de Castro, p. 76, jan. 2005.
148
Figura 7 – Agora em transmissão pela televisão
“ao vivo”, outro se dirige à Torre Sul.
Fonte: ARCHIVE of screenshots of online news
sites on September 11/12, 2001.
Figura 8 – E também colide, explodindo a seguir.
Fonte: AMERICA’S day of terror. 2006.
O Terrorismo Midiático em Proporções Mundiais
O fato de ter sido captado e transmitido ao vivo pela televisão e Internet para
todo o mundo e de ter tido suas imagens captadas e transmitidas por qualquer civil, o
atentado terrorista acontecido em 11 de setembro de 2001 teve proporções desastrosas à
moral dos cidadãos norte-americanos, ferindo profundamente seu orgulho. Em várias
partes do mundo as pessoas pararam neste dia para assistir ao que estava acontecendo a
milhares de quilômetros, enquanto estarrecidas esperavam o início de uma Terceira
Guerra Mundial, como resposta dos Estados Unidos ao ataque sofrido.
Alguns passageiros e tripulantes conseguiram telefonar através de aparelhos
celulares dos vôos condenados. Eles avisavam às suas famílias do sequestro e se
despediam, além de passarem informações relevantes acerca da quantidade de
sequestradores que havia em cada avião e como eles haviam tomado o controle das
aeronaves. Segundo estas informações, os seqüestradores usaram facas para matar os
comissários de bordo, os pilotos, e até passageiros. No vôo 77 da American Airlines,
que colidiu no Pentágono, um dos passageiros relatou que os seqüestradores usavam
punhais. Nos vôos 11 da American Airlines e 175 da United Airlines, foi relatado o uso
de algum tipo de spray químico nocivo, como um gás de efeito moral para manter os
passageiros longe da primeira classe. Ao que parece, ameaças de bombas foram feitas
em todos os aviões, exceto no vôo 77 da American Airlines.
149
O dano psicológico superou em muito aquele causado às tropas americanas pela
força aérea japonesa no ataque surpresa à Pearl Harbor em 1941, pois mostrou para todo
o mundo, sem censura prévia, a fragilidade de um sistema de segurança que parecia
perfeito:
Tudo começou às 7h58 do dia 11 de setembro de 2001. Naquele exato
momento, o vôo 175 da United Airlines foi seqüestrado. Um minuto
depois, o vôo 11 da American Airlines caiu nas mãos dos guerrilheiros.
Às 8h01 foi a vez do vôo 93, também da United Airlines. E, às 8h40, o
vôo 77 da American Airlines teve o mesmo destino. Às 8h45, os
terroristas que estavam no vôo 11 jogaram a aeronave na torre norte
do World Trade Center. A 700 Km/h, o avião atingiu entre o 93º e o 98º
andares. Uma explosão ocorreu na hora, seguida de incêndio. Das 14
mil pessoas que estavam no edifício, cerca de mil não conseguiram
fugir. Sem poder usar a escada de incêndio, muitas pularam. O show de
Bin Laden estava sendo televisionado e o mundo ainda assistia
incrédulo às imagens quando, às 9h03, o vôo 175 foi jogado contra a
torre sul, atingindo entre os 78º e 84º andares. Às 10h05 a torre sul
desmoronou seguida pela torre norte, às 10h28. Às 9h43 o vôo 77
atingiu o Pentágono. Às 10h10 o último avião seqüestrado caiu em
Somerset Country, na Pensilvânia. Os passageiros, com os celulares,
descobriram que faziam parte de um ataque terrorista e reagiram. Em 7
de outubro de 2001, Osama Bin Laden fez um discurso na rede de
televisão al-Jazeera, admitindo ser o mentor da tragédia
11
.
Figura 9 – A Torre Sul desaba numa ‘chuva’ de
poeira.
Fonte: AMERICA’S day of terror. 2006.
Figura 10 – 20 minutos depois, a Torre Norte
também desaba.
Fonte: AMERICA’S day of terror. 2006.
11
LIMA, Cláudia de Castro, jan. 2005, p. 80.
150
Figura 11 – Um terceiro avião seqüestrado colide
no prédio do Pentágono.
Fonte: AMERICA’S day of terror. 2006.
Figura 12 – Restos do quarto avião que caiu na
Pensilvânia.
Fonte: AMERICA’S day of terror. 2006.
O primeiro bombeiro a chegar às Torres Gêmeas foi o comandante Pfeifer que
estava vistoriando um vazamento de gás nas proximidades do World Trade Center. Ele
foi filmado por um jornalista
12
que, em conjunto com seu irmão, estava fazendo um
documentário sobre a vida dos bombeiros de Nova York. As imagens mostravam o vôo
11 da United Airlines colidindo com a Torre Norte e pouco tempo depois já estavam
sendo transmitidas para o mundo inteiro, e foram as primeiras cenas do ataque naquele
dia.
Mesmo sendo o único a registrar as imagens do ataque ao World Trade Center
naquele momento, Jules Naudet deixou bem clara a questão da auto-censura a que
aqueles responsáveis pelo registro de imagens em momentos de conflito muitas vezes se
impõem, no depoimento que compõe o enredo do filme, transcrito a seguir:
Paramos embaixo da marquise da torre norte. O chefe Pfeifer (do
batalhão dos bombeiros daquela região) vestiu o equipamento e eu
perguntei: ‘Chefe posso ir com você? Quero ir com você.’ E ele disse:
‘Pode. Venha comigo. E não saia de perto de mim.’ Eu entrei e ouvi
gritos. E à minha direita, vi duas pessoas pegando fogo. Não pude
filmá-las. É o tipo de coisa que ninguém deve ver
13
.
Ao chegar à cena do atentado, do lado de fora dos prédios, Gedeon, em seu
depoimento, aponta a incapacidade de ajudar as pessoas senão apenas filmando sua
desgraça:
12
Gedeon Naudet era o cinegrafista oficial do documentário, porém nesta manhã, ele estava de folga.
Desta forma, seu irmão, Jules Naudet aproveitou para praticar a função de cinegrafista, filmando qualquer
ação dos bombeiros naquele dia. O documentário acabou ganhando outra forma e tornou-se o único
material com imagens do interior da Torre Norte do World Trade Center,e foi intitulado 11/9 (9/11, EUA,
2002).
13
In: 11/9, EUA, 2002.
151
Eu sabia que não podia fazer nada. Não era bombeiro. Não sabia nada
de primeiros-socorros. Era um cidadão comum. Mas como cinegrafista,
eu podia dar minha contribuição, documentar o que estava
acontecendo. Então encarnei o cinegrafista e somente filmei
14
.
Uma evidência da influência midiática na vida da sociedade atual foi mostrada
nesse filme, quando Tony Benetatos, bombeiro que por ser iniciante ficou no batalhão
para dar cobertura àqueles que chegavam até lá, acompanhou pela televisão o desenrolar
dos fatos. Dessa forma, assistiu ao vivo à colisão do segundo avião na Torre Sul e pôde
avisar via rádio para os bombeiros que estavam trabalhando na torre ao lado. Também
assistiu ao vivo pela televisão o desabamento da Torre Sul e mais tarde o da Torre
Norte. Neste momento, teve dúvidas acerca da vida de seus companheiros, e junto com
um chefe de bombeiros aposentado que se reapresentou para o trabalho, abandonou seu
posto e foi procurá-los. Estes, no entanto, sobreviveram e só foram saber que um
edifício inteiro havia caído sobre eles, quando ao retornarem para o batalhão,
conversando com outros bombeiros que estavam na Torre Norte foram informados do
fato:
– Tivemos sorte. A Torre Sul caiu e nos mandaram sair.
– A Torre Sul caiu primeiro? Não dá pra entender.
– Quando vocês...
– Caiu conosco lá dentro?
– Sim... Quando vocês saíram, ela já não existia mais.
– Sério?
– Com certeza... Eu vi na TV. A Torre Sul caiu, é por isto que nos
mandaram sair
15
.
Pouco depois da queda das duas torres, o presidente dos Estados Unidos, George
Bush fez uma declaração que foi transmitida ao vivo pela televisão para todo o mundo,
[...] Os Estados Unidos vão achar e punir os responsáveis por este ato de covardia...
16
Não se sabia ainda quem tinha atacado os Estados Unidos, como e por
que, sabia-se apenas que nada voltaria a ser como era. E havia é claro,
incessantes replays dos aviões colidindo com as torres e elas
desabando. E eu pensei: chega de TV. Ainda bem que houve um corte
de energia. Foi um alívio. – Jules Naudet
17
14
In: 11/9, EUA, 2002.
15
In: Ibidem.
16
In: Ibidem.
17
In: Ibidem.
152
Suspeitava-se que o ataque terrorista havia partido de algum dos países do
Oriente Médio, onde a influência norte-americana havia gerado conflitos com
organizações político-religiosas. Nesse ínterim, as agências de notícias buscaram
imagens pelo mundo mostrando consternação pelo ataque, mas do Oriente Médio
vieram imagens de palestinos comemorando o bem sucedido ataque terrorista de
dimensões assustadoras. Imediatamente, partidários da causa palestina perceberam a
impropriedade dessa comemoração e tentaram negar a veracidade daquelas imagens,
alegando que os palestinos comemoravam o resultado de uma competição esportiva.
Mas a veracidade das imagens foi logo comprovada e estabelecida.
Em reação, logo as agências de desinformação multiplicaram as teorias
conspiratórias tentando negar a autoria do atentado por terroristas islâmicos, criando
fantasias como as de um complô da CIA orquestrado pelos “sionistas” com o fim de
justificar uma “guerra ao terror” e a “humilhação dos islamitas”. Entre outras fantasias
anti-semitas, a mais popular foi a de que nenhum judeu teria morrido no atentado,
quando o próprio Bin Laden admitiu que o WTC foi visado justamente por ser um local
de Nova York onde se concentrava grande número de judeus, afirmando assim a
natureza não apenas anti-americana, como também anti-semita do atentado.
Com o corte de energia, o rádio voltou a ser o principal meio de comunicação.
Através deste aparelho, foi possível ouvir além das últimas notícias, uma declaração do
presidente Bush: Boa noite. Caros concidadãos, hoje nosso estilo de vida e até nossa
liberdade se vêem ameaçados por uma série de atos de terrorismo fatais...
18
As imagens de feridos e dos destroços proliferaram rapidamente através da
televisão e da internet, foram censuradas tarde demais, quando já haviam circulado por
todo o mundo.
18
In: 11/9, EUA, 2002.
153
Figura 13 – Um homem foge do desabamento.
Fonte: AMERICA’S day of terror. 2006.
Figura 14 – A bandeira norte-americana
foi hasteada sobre os destroços, numa
atitude patriótica.
Fonte: AMERICA’S day of terror. 2006.
Figura 15 – Um fotógrafo da polícia de Nova Iorque
registra os milhares de policiais e bombeiros
trabalhavam simultaneamente sobre os destroços.
Fonte: BOTTE, John. 2006. p. 157.
Figura 16 – O mesmo fotógrafo registra a
manifestação da população em reconhecimento aos
esforços dos bombeiros e policiais.
Fonte: BOTTE, John. 2006. p. 208.
Desde 1998, Osama Bin Laden já era caçado pelos Estados Unidos, pois passou
a ser visto como uma ameaça desde a entrevista concedida à rede de televisão americana
ABC na qual disse:
A América liderou a cruzada contra a nação islâmica, mandando
dezenas de milhares de tropas para a terra das duas mesquitas
154
sagradas, intrometendo-se em seus negócios e em sua política e dando
apoio ao opressivo, corrupto e tirano governo. Estas são as razões
pelas quais escolhemos a América como o alvo
19
.
Criada na década de 1980 com o objetivo de lutar contra a invasão soviética no
Afeganistão, a Al Qaeda contava então com o apoio da CIA
20
, que em dez anos de
conflito contra a União Soviética investiu cerca de 10 bilhões de dólares para manter,
armar e treinar os guerrilheiros. Com o fim da Guerra Fria, a organização de Osama Bin
Laden não suspendeu suas atividades, apenas modificou seus objetivos, hoje encobertos
pelo discurso da guerra santa: a eliminação de todos os infiéis
21
do mundo.
Para disseminar suas idéias, recrutar voluntários, treinar militantes, planejar
novos atentados terroristas e ainda para divulgar os ataques realizados, a organização
utiliza-se especialmente da Internet, pois através desta pode alcançar qualquer lugar do
mundo.
Porém, apesar do uso da Internet, inclusive pelos integrantes da Al Qaeda,
imagens da ação do exército norte-americano no Afeganistão não foram divulgadas,
conforme salienta Susan Sontag, [...] a maioria das ações americanas no Afeganistão,
no fim de 2001, se deu fora do alcance dos novos fotógrafos
22
. Talvez esta atitude tenha
sido tomada para evitar o acesso às informações militares pelos integrantes da Al
Qaeda, para que dessa forma, não fosse possível saber onde a ação militar norte-
americana se concentrava.
Como se esperava, a caça às bruxas desencadeou uma nova guerra, mas não de
proporções mundiais. Desde a Guerra do Golfo, em 1990, os Estados Unidos vinham
tentando capturar Saddam Hussein. Nesta época, o chefe do estado-maior da força
aérea, general Michael Dugan, em entrevista ao jornal Washington Post, declarou: O
líder iraquiano é o foco de todos os nossos esforços. Por causa desta declaração ele foi
afastado de seu cargo e obrigado a aposentar-se. Para contornar a situação, o governo
americano divulgou que a declaração fazia parte de uma estratégia para confundir o
19
Apud: LIMA, Cláudia de Castro, jan. 2005, p. 84.
20
A CIA, Central Intelligence Agency, ou Agência Central de Inteligência, é um serviço informação dos
Estados Unidos. Suas funções são basicamente: coletar informações através de fontes humanas; fazer a
correlação e avaliação das informações obtidas relativas à segurança nacional norte-americana e decidir
sobre a divulgação das informações. A CIA é proibida por lei de coletar informações sobre as atividades
domésticas dos cidadãos norte-americanos, o que é feito pelo FBI. Hoje já não é tão representativa, pois
as informações obtidas através de meios eletrônicos, tarefa da NSA, têm sido muito mais importantes que
as obtidas por fontes humanas.
21
Por infiéis, entende-se todos aqueles que não praticam o islamismo, especialmente os norte americanos.
22
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 58.
155
inimigo. Saddam Hussein foi capturado somente em 2003. Para tanto, diversos países
ocidentais entraram em alerta máximo contra o terrorismo. Segundo Adrian Gilbert,
(...) em 30 de janeiro de 2002, o presidente dos EUA, George W. Bush
declarou que o Iraque, juntamente com o Irã e a Coréia do Norte,
integrava o “eixo do mal”, por ter em seu poder armas de destruição
em massa e apoiar o terrorismo internacional. Bush afirmou ainda, que
era obrigação da ONU forçar o desarmamento do Iraque
23
.
O Iraque aceitou as condições da ONU e permitiu que as instalações de
armamentos fossem inspecionadas. Durante o governo de Saddam Hussein, as
companhias exploradoras de petróleo inglesas e norte-americanas foram substituídas por
empresas estatais, aumentando a influência iraquiana no mercado internacional de
petróleo e enfraquecendo a Inglaterra e os Estados Unidos, praticamente tornando-os de
fornecedores a simples consumidores
24
.
Sob a alegação de que era necessário desarmar o Iraque de suas supostas armas
químicas e nucleares, derrubar o governo do presidente Saddam Hussein e levar a
democracia ao Oriente Médio, através da “ocidentalização” da população iraquiana, os
Estados Unidos resolveram atacá-lo, numa operação de guerra chamada Iraque Livre,
com a esperança de uma rendição incondicional e rápida, mas não foi isso que
aconteceu. Os iraquianos reagiram ferozmente, fazendo a guerra estender-se até os dias
de hoje. Esta guerra não foi apoiada nem obteve o aval da ONU, pois apesar dos
objetivos propalados, suspeitava-se que os reais objetivos fossem outros, como a
expansão da influência geopolítica dos Estados Unidos na região, além do controle
sobre a exploração do petróleo, necessário para manutenção da economia norte-
americana; economia da qual o mundo inteiro parece depender, já que à menor de suas
crises internas, todas as Bolsas entram em pânico, com quedas vertiginosas nos valores
de suas ações.
Um comandante dos Marines afirmou que: Todos os marines entenderam que o
que fizemos lá foi libertar um povo
25
. Este tipo de pensamento era comum entre os
combatentes, apesar de outros motivos serem apontados para a declaração de guerra dos
Estados Unidos contra o Iraque.
23
In: GILBERT, Adrian, 2005. p. 302.
24
Os Estados Unidos extraem petróleo em seu território, porém a quantidade é insuficiente para o
consumo interno.
25
In: Guerra em Bagdá, 2004.
156
Segundo uma declaração do Coronel William Grimsley, das forças armadas
norte-americanas, o pensamento comum entre os oficiais militares que participaram da
invasão ao Iraque é de que a derrubada do regime de Saddam era o principal objetivo
desta guerra
26
.
Em apenas vinte dias de ocupação, o poder de Saddam foi suplantado. Enquanto
a ofensiva americana contava com armamentos de última geração e soldados bem
treinados, o Iraque dispunha de uma escassa força militar e milícias urbanas mal
treinadas, com armamentos pouco eficazes, pois o Iraque vinha sendo desarmado ao
longo do tempo, com as sucessivas inspeções da ONU. A ferocidade dos ataques
promovidos pelas milícias era facilmente suplantada pelo poderio bélico norte-
americano. O armamento mais utilizado pelos iraquianos foi o lançador de granadas,
enquanto os norte-americanos dispunham de mísseis carregados com bombas até 5000
vezes mais poderosas. O uso da bomba atômica não foi descartado pelo presidente
Bush.
27
A queda do poder de Saddam, simbolizada pela derrubada de sua estátua na
Praça do Paraíso aconteceu em seguida, sendo ele capturado em 13 de dezembro de
2003. Neste dia, foi declarado o cessar-fogo. Porém, isto não significaria a paz, nem que
os soldados norte-americanos poderiam voltar para casa.
Figura 17 – A derrubada da estátua de Saddam.
Fonte: PRITCHARD, Tim. 2004.
26
In: Guerra em Bagdá, 2004.
27
In: Ibidem.
157
A guerra teve, além da cobertura jornalística trabalhando sob censura, um
registro livre feito pelos próprios soldados, que usavam câmaras fotográficas e de vídeo
digitais, como se observa nas fotografias abaixo, que registram o comboio de tanques
entrando em Bagdá, feitas por um soldado do alto da torre de seu tanque.
Figura 18 – Na estrada para Bagdá.
Fonte: PRITCHARD, Tim. 2004.
Figura 19 – A entrada em Bagdá.
Fonte: PRITCHARD, Tim. 2004.
A diferença de registro entre as diversas guerras apresentadas até agora e esta, é que o
acesso de qualquer civil a equipamentos de registro e transmissão de imagens a torna
praticamente ilimitada e incensurável, pois a quantidade de informação é tão grande que
é impossível controlar a divulgação de certos tipos de imagens. Os próprios
combatentes captaram e transmitiram fotografias e vídeos durante e após o combate,
que contrariaram inúmeras vezes aquilo que estava sendo divulgado pelas fontes
oficiais.
Figura 20 – Civis mortos.
Fonte: PRITCHARD, Tim. 2004.
Figura 21 – Militares mortos.
Fonte: PRITCHARD, Tim. 2004.
Em contrapartida, em uma entrevista coletiva exibida numa emissora de
televisão local, um representante do governo iraquiano afirmou que [...] nós esmagamos
as forças (norte-americanas) no Aeroporto Internacional de Saddam e limpamos toda a
158
área do aeroporto. Agora a Guarda Republicana tem o controle total do Aeroporto
28
. A
realidade era bem diferente da informação divulgada, pois o aeroporto naquele exato
momento estava sob o domínio norte-americano.
Figura 22 – Cena da entrevista coletiva.
Fonte: PRITCHARD, Tim. 2004.
Figura 23 – No momento da entrevista,
soldados norte-americanos posam para
fotografias no aeroporto.
Fonte: PRITCHARD, Tim. 2004.
O Especialista Marshall June, encarregado da manutenção dos tanques disse:
Não vou mentir, eu tive muito medo. Eu fiquei apavorado, sabe? Muitos de nós
estávamos em nossa primeira guerra e tudo que eu sabia da guerra tinha visto em
filmes de Hollywood. Eu tentei manter a calma
29
.
O Capitão Dante Ruiz, comandante de tanque no Iraque, disse sobre as batalhas:
Foi como um “game”. Parecia um “game”, mas estávamos dentro dele. E para nós foi
tão rápido que, quando olhamos um para o outro e percebemos o avanço já estávamos
lutando havia horas
30
. O Piloto de um dos inúmeros tanques que invadiram o território
iraquiano, Jason Ramos, afirmou também sentir-se num jogo de “videogame”: Foi como
jogar “Playstation”. Sentado lá (pilotando o tanque), eu consigo ver tudo à minha
frente. Os artilheiros ficam num buraco e só vêem um pequeno círculo
31
.
Quando Paul Virilio e Paulo Roberto Pires constataram em 1993 em seu livro
Guerra e Cinema que os jovens que dirigiam e se interessavam por mecânica, eletrônica
e motocicletas estavam inconscientemente sendo treinados para a guerra, não pensavam
que poderia haver ainda um treinamento melhor que este. Os videogames são uma
forma de entretenimento bastante eficaz como treinamento militar. Tanto que os
controles dos tanques, aviões, helicópteros e de outros armamentos, foram adaptados ao
28
In: Guerra em Bagdá, 2004.
29
In: Ibidem.
30
In: Ibidem.
31
In: Ibidem.
159
formato do joystic, para se assemelharem à amigável e já assimilada interface pelos
jovens.
Permanecendo no país após o término da guerra, a fim de aumentar sua
influência política nesta região, parte da população até então receptiva aos invasores,
também passou a lutar contra sua presença. Foram mortos mais soldados nessa fase de
pacificação que durante os combates. Os ataques terroristas com homens-bomba e
carros-bomba sucederam-se, assim como os seqüestros, acompanhados de perto pela
mídia internacional. O fato de não terem sido encontradas armas de destruição em
massa no Iraque e ainda a discrepância nos dados obtidos e fornecidos pela imprensa,
aumentaram o clima de insegurança quanto à permanência dos norte-americanos em
território iraquiano.
Em 11 de março de 2004, ocorreu outro atentado terrorista múltiplo, em grande
escala, típico da Al Qaeda, desta vez em estações de metrô em Madri. O atentado foi
inicialmente atribuído à ETA
32
, mas logo a Al-Qaeda assumiu a autoria do ataque,
registrado tanto pelas câmaras de segurança das estações de trens quanto pelas dos
aparelhos de telefonia celular de passageiros que estavam nos vagões e nas plataformas
das estações atingidas. Em segundos, todo o mundo teve acesso a cenas fragmentadas
do que havia acontecido, percebendo, pelo menos parcialmente, o que tinha acontecido.
32
A organização Euskadi Ta Askatasuna do basco, Pátria Basca e Liberdade, mais conhecida pela sigla
ETA, é um grupo que pratica a luta armada e os atentados terroristas como meio de alcançar a
independência da região do País Basco, que se encontra atualmente sob o domínio espanhol e francês. A
ETA foi criada em 1959, como dissidência do Partido Nacionalista Basco, que foi fundado em 1895, e
que sobreviveu na clandestinidade durante o governo (1939-1975) de Francisco Franco. O seu lema é
bietan jarrai, que significa seguir nas duas, ou seja, seguir na luta política e na armada.
Figura 24 – Vagão destruído.
Fonte: OGRISH.COM. 2004.
160
Familiares congestionaram as linhas de telefonia e Internet em busca de
informações. Rapidamente se
soube quem havia
sobrevivido e quem estava
morto, bastando um alô
através do celular.
Entre os destroços,
ficaram presas algumas
vítimas, que as equipes de
socorro começaram pouco a
pouco a retirar do comboio
afetado pela explosão. Um
ferido, sentado na calçada,
respirava com ajuda de uma máscara de oxigênio. Outros, traumatizados, sentavam-se
ao lado colocando a cabeça entre as mãos. Estas foram imagens descritas pelas vítimas e
divulgadas pelo mundo. Não houve meios de censurar as imagens transmitidas, pois a
maioria delas foi captada por civis.
Figura 26 – Resgate dos feridos.
Fonte: OGRISH.COM. 2004.
Figura 27 – A procura por sobreviventes.
Fonte: OGRISH.COM. 2004.
Muitas pessoas se aproximaram rapidamente das estações em busca de notícias
de familiares que estariam nos trens, mas a polícia as impediu de passar. A primeira
noite após os atentados em Madri foi marcada pela busca desesperada dos familiares por
notícias sobre as vítimas. Enquanto algumas pessoas demonstravam alívio por terem
Figura 25 – Corpos enfileirados.
Fonte: OGRISH.COM. 2004.
161
recebido boas notícias, outras perdiam o controle diante do cenário desolador. Muitas
passaram o dia inteiro procurando informações e algumas conseguiram falar com seus
parentes por telefone. Várias saíram pela cidade a visitar todos os 14 hospitais da região
com a esperança de encontrar informações.
Em 7 de julho de 2005, houve
outro grande atentado múltiplo, desta
vez em Londres, também assumido
pela Al-Qaeda, alegadamente em
retaliação à presença de tropas inglesas
em território iraquiano. Uma série de
explosões atingiu o metrô e um ônibus
em Londres. Todas as linhas do metrô
de Londres utilizadas diariamente por
cerca de três milhões de pessoas
tiveram seu funcionamento
interrompido. Enquanto os serviços de
emergência tentavam chegar aos trens
para socorrer as vítimas e as viaturas policiais tomavam a cidade, a comunicação através
de telefones celulares ficou impossível. As imagens dos atentados a Londres foram
completamente censuradas e só se tem acesso àquelas feitas por civis ou àquelas
liberadas pelo governo inglês.
Um dia antes destes atentados
de Londres completarem um ano, a
rede de televisão Al Jazeera divulgou
um vídeo do vice-líder da Al-Qaeda,
Ayman al-Zawahri em que dizia:
Figura 28 – Ônibus destruído.
Fonte: ABC News Exclusive. 2005.
Figura 29 – Vagão de trem destruído.
Fonte: ABC News Exclusive. 2005.
162
O que vocês testemunharam é apenas o começo de uma série de
ataques que continuarão e que se tornarão mais fortes enquanto vocês
não tirarem suas forças do Afeganistão e do Iraque
33
.
A polícia britânica afirmou que já sabia da existência deste vídeo há algum
tempo e que sua transmissão naquele momento era inadequada. Segundo o
pronunciamento feito por Andy Hayman, comissário assistente de Londres,
[...] não há dúvida de que a divulgação da fita neste momento é feita
com o intuito de provocar o máximo de angústia e aflição nos
familiares e amigos das pessoas mortas há um ano atrás e nas centenas
de pessoas feridas nos ataques terroristas
34
.
As novas tecnologias passaram a ser usadas para prevenir a população quanto
aos riscos. Uma destas tecnologias é a comunicação via Internet. O governo britânico
adotou um novo sistema para alertar a sociedade sobre a possibilidade de atentados
terroristas, que pela primeira vez permitiu aos cidadãos ficarem conscientes do estado
atual desta ameaça.
Nos três atentados terroristas os meios de comunicação desempenharam um
importante papel na solução dos crimes e na identificação dos terroristas. Porém,
também colaboraram para a divulgação de cenas de horror que criaram um efeito
psicológico muito mais devastador sobre a sociedade que qualquer guerra havia causado
até então.
Enquanto as fotografias e vídeos dos atentados terroristas ocorridos em Nova
York e Madri, tanto de origem militar quanto civil, são facilmente encontrados na
Internet até hoje, as imagens, mesmo as captadas por civis, do atentado em Londres não
foram divulgadas. Neste caso, há dois motivos aparentes: um seria a impossibilidade de
uma ação de censura prévia em Nova York e Madri, por conta do imediatismo entre o
momento dos ataques e sua transmissão; outro motivo seria a campanha feita
intensivamente pelo governo inglês desde o atentado em Nova York, que visava
preparar a população para não divulgar imagens de um possível atentado em Londres,
como meio de diminuir o efeito psicológico do ataque, contrariando as expectativas dos
terroristas.
33
Apud. REUTERS, Agência, acesso em: 22 nov. 2006.
34
Apud. REUTERS, Agência, acesso em: 22 nov. 2006.
163
Evidências da Guerra Psicológica - II
A tortura é muito mais psicológica que física; mais eficazes que submeter os
prisioneiros a agressões físicas, facilmente detectáveis por órgãos reguladores dos
Direitos Humanos, as agressões psicológicas, são também mais difíceis de serem
comprovadas.
Desta forma, imagens divulgadas por várias redes televisivas de jornalistas
seqüestrados no Iraque sendo torturados e pedindo clamor, causaram grande impacto
psicológico.
Soldados norte-americanos, que deveriam zelar pela integridade dos seus
prisioneiros de guerra, fotografaram com celulares e câmaras digitais as humilhações a
que submeteram, na prisão de Abu Ghraib, iraquianos terroristas ou suspeitos de
terrorismo, e trocaram entre si, como imagens de álbum de figurinhas, através de correio
eletrônico ou fotologs
35
, as provas do próprio sadismo.
Figura 30 – Prisioneiro submetido a eletro choque.
Fonte: THE ABU Ghraib prison photos. 2004.
Figura 31 – Prisioneiro nu, com sua roupa
íntima usada como venda.
Fonte: THE ABU Ghraib prison photos. 2004.
O professor Bernard Haykel, especialista em Oriente Médio da Universidade de
Nova York afirma que o tipo de tortura psicológica infligida aos prisioneiros iraquianos
35
O flog, ou fotolog é um blog em que há a predominância da informação imagética sobre a textual. O
blog, ou weblog é uma espécie de diário eletrônico que fica disponível para qualquer pessoa acessar
através da Internet.
164
em Abu Ghraib pelo exército norte-americano praticamente igualou-se à tortura física
infligida anteriormente:
Esse tipo de tratamento desumano é inaceitável em qualquer cultura,
mas especialmente no mundo árabe. Atos homossexuais são contra as
leis do Islamismo e é uma humilhação para os homens ficarem nus
diante de outro homem. Colocá-los uns sobre os outros e forçá-los a
masturbar outro homem é efetivamente uma forma de tortura
psicológica
36
.
Figura 32 – A soldado aponta para os órgãos
genitais dos prisioneiros.
Fonte: THE ABU Ghraib prison photos. 2004.
Figura 33 – Os prisioneiros nus deveriam
deitar uns sobre os outros.
Fonte: THE ABU Ghraib prison photos. 2004.
Em 7 de maio de 2004, cerca de seis meses após a divulgação das imagens das
torturas infligidas aos prisioneiros em Abu Ghraib, o Secretário de Defesa dos Estados
Unidos, Donald Rumsfeld, fez o seguinte pronunciamento no Comitê das Forças
Armadas do Senado:
Estes eventos ocorreram quando eu era secretário de defesa. Tenho
total responsabilidade sobre eles, e me sinto muito mal pelo que
aconteceu com esses prisioneiros. Eles são seres humanos, e estavam
sob custódia norte-americana, nosso país tem a obrigação de tratá-los
corretamente. Porém, nós não fizemos isto e está errado. Para os
iraquianos que foram mal-tratados por membros do exército norte-
americano, eu peço perdão. Estamos trabalhando numa paz controlada
com leis de guerra, na era da informação, em que pessoas estão
bisbilhotando com suas câmaras digitais e fazendo estas inacreditáveis
fotografias e então as passando adiante, contra a lei. Para nossa
surpresa, elas nem haviam chegado ao Pentágono e já estavam na
mídia
37
.
36
Apud. HERSH, Seymour M, acesso em: 22 nov. 2006.
37
Apud. Wikipédia: Abu Ghraib torture and prisoner abuse, acesso em: 22 nov. 2006.
165
Numa tentativa frustrada de suavizar as atrocidades contra os direitos humanos
cometidas pelos soldados norte-americanos, alguns jornais deste país trataram de
publicar matérias com imagens mais agressivas de tortura acontecidas em Abu Ghraib
quando ainda estava sob o comando iraquiano:
Na era de Saddam Hussein, Abu Ghraib, distante cerca de trinta
quilômetros a oeste de Bagdá, foi uma das prisões mais notórias, com
tortura, execuções semanais, e condições de vida precárias. Em torno
de quinze mil homens e mulheres, não é possível precisar os números,
foram presos em Abu Ghraib pelo menos uma vez, em celas de
dezesseis metros quadrados, tão pequenas que iam contra os direitos
humanos
38
.
Figura 34 – Os dedos da mão de um prisioneiro são
cortados a sangue-frio com uma espada.
Fonte: TORTURES of Saddam’a Abu Ghraib and
their place in new Iraq, the. 2004.
Figura 35 – O prisioneiro vendado leva
pauladas.
Fonte: TORTURES of Saddam’a Abu Ghraib
and their place in new Iraq, the. 2004.
A questão não é quem torturou mais ou com mais crueldade, mas que a tortura
nunca deveria ser admitida, em qualquer caso. As tentativas de propaganda sobre a
“democratização” do Iraque pela Ocupação americana foram frustradas com as imagens
de Abu Ghraib. É horrível que tenha havido tortura sob a ditadura de Saddam, mas
ainda pior que tenham ocorrido sob o comando norte-americano. As imagens
transmitidas à revelia, sem qualquer controle governamental, tanto que as imagens
foram exibidas na televisão e Internet antes mesmo de chegarem ao Pentágono. As
imagens tornaram-se, então, um poder autônomo, incontrolável.
38
Apud. HERSH, Seymour M, acesso em: 22 nov. 2006.
166
Considerações Finais
Imagens do Mundo – Mundo das Imagens
‘Não existe guerra sem fotografia’, observou o notável esteta da guerra
Ernst Jünger em 1930, refinando desta maneira a irreprimível identificação da
câmara com a arma: ‘disparar’ a máquina fotográfica apontada para um tema
e disparar a arma apontada para um ser humano. Guerrear e fotografar são
atividades congruentes: ‘É a mesma inteligência, cujas armas de aniquilação
são capazes de localizar o inimigo com exatidão de metros e de segundos, que
se empenha a fim de preservar o importante acontecimento histórico em
detalhes nítidos’, escreveu Jünger
1
.
Os meios de comunicação visual evoluíram da crença no retrato fiel da
realidade a partir de imagens exibidas apenas após o término do conflito, com
distribuição limitada, e de curto alcance sobre a sociedade; até a criação da própria
realidade com a instantaneidade, de distribuição livre e alcance incalculável,
culminando com a modificação da relação da sociedade e dos governos com as imagens
à medida que o modo de captação e transmissão destas também se modifica.
A miniaturização e conseqüente portabilidade do equipamento fotográfico e de
vídeo tornaram possível a captação de imagens em situações até então impossíveis de
serem registradas. Os aparelhos de telefonia e internet móvel permitiram a transmissão
quase instantânea de informações textuais, visuais e sonoras, numa amplitude mundial,
criando uma nova relação da sociedade com as imagens, num fenômeno observado por
Mitchell Stephens: durante o século passado, o fluxo de notícias se transformou numa
torrente. Os fatos agora turbilhonam pelo ar, chovem dos satélites, transbordam dos
computadores
2
.
A tecnologia de captação de imagens evoluiu juntamente com a tecnologia de
guerra, e esta evolução tornou-se muitas vezes um trunfo sobre o inimigo:
1
In: SONTAG, Susan, 2003. p. 58.
2
In: STEPHENS, Mitchell, 1993. p. 659.
167
A guerra não atinge somente a vida material dos povos, mas também
seus pensamentos... E aqui voltamos a esta noção fundamental: não é o
racional que conduz o mundo, mas as forças de origem afetiva, mística ou
coletiva, que conduzem os homens, as sugestões arrebatadoras destas fórmulas
místicas, cada vez mais potentes, mas ainda vagas... As forças imateriais são as
verdadeiras condutoras dos combates.
3
O uso da fotografia no campo da espionagem também foi muito importante
quando a finalidade era a de planejar melhor um conflito ou de garantir a segurança
nacional, como o incidente com os mísseis em Cuba. Fazendo minhas as palavras de
Boris Kossoy, também são importantes para a história as próprias circunstâncias
ligadas ao processo que deu origem a estas imagens, bem como o uso que delas se fez
enquanto testemunho visual de certa situação ou fato.
4
Por isto, foram observadas nas
situações expostas, tanto a questão tecnológica, quanto a finalidade das imagens, para
somente então, analisar seu impacto sobre a sociedade.
Mesmo com toda a evolução tecnológica, e a evidente possibilidade de
manipulação da imagem, a crença na veracidade daquilo que se vê é um sentimento
ainda presente, apesar do impacto das imagens sobre a sociedade ter se alterando com o
tempo; fato decorrente da democratização e conseqüente desmistificação da tecnologia
empregada em sua captação e transmissão, acompanhada de mudanças na percepção
individual, que é determinada por fatores culturais, religiosos e econômicos.
Como destacou Boris Kossoy:
A descoberta da fotografia propiciaria, de outra parte, a inusitada
possibilidade de auto-conhecimento e recordação, de criação artística (e
portanto de ampliação dos horizontes da arte), de documentação e denúncia
graças a sua natureza testemunhal (melhor dizendo, sua condição técnica de
registro preciso do aparente e das aparências). Justamente em função deste
último aspecto ela se constituiria em arma temível, passível de toda sorte de
manipulações, na medida em que os receptores nela viam, apenas, a
“expressão da verdade”, posto que resultante da “imparcialidade” da objetiva
3
LE BOM, Gustave apud VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto, 1993, p. 54.
4
In: KOSSOY, Boris, 2001, p. 56.
168
fotográfica. A história, contudo, ganhava um novo documento: uma verdadeira
revolução estava a caminho.
O alto grau de iconicidade que é característico do registro fotográfico
não deixa de ser uma faca de dois gumes. Não raramente essa semelhança
“acentuada” entre a representação e o assunto torna-se “incômoda”, depen-
dendo dos fins a que se destina, razão por que ela é objeto de manipulação,
afastando-se da verdadeira aparência física ou natural do seu referente.
O fotógrafo sempre manipulou seus temas de alguma forma: técnica,
estética ou ideologicamente. O produto final, a fotografia, é o documento que
hoje temos diante de nós para o estudo: “interpretado” no passado antes
mesmo do próprio ato da tomada do registro e ao longo das sucessivas etapas
de sua materialização (laboratório, edição e publicação).
5
Com este pensamento, foram selecionados momentos dos conflitos que
evidenciavam a diferença ou a semelhança entre a o fato histórico e as imagens captadas
e transmitidas; concordando também com Susan Sontag, a imagem, na medida em que
constitui um vestígio e não uma construção montada com vestígios fotográficos
dispersos, não pode ser simplesmente um diapositivo de algo que não aconteceu. É
sempre a imagem que alguém escolheu; fotografar é enquadrar, e enquadrar é excluir.
6
Considerando-se que uma imagem sempre vai mostrar algo que aconteceu, e
mesmo estando sujeita a algum tipo de manipulação, ela ainda constitui um registro
histórico, pode-se afirmar que: [...] toda fotografia é um testemunho segundo um filtro
cultural, ao mesmo tempo em que é uma criação a partir de um visível fotográfico.
Toda fotografia representa o testemunho de uma criação. Por outro lado, ela
representará sempre a criação de um testemunho.
7
Na Guerra da Criméia, as imagens encomendadas pelo governo, serviram para
tranqüilizar a população, enquanto na de Secessão as imagens, captadas com o objetivo
do lucro comercial, criaram um desconforto ao mostrarem os corpos dos combatentes
mortos.
Na Guerra dos Bôeres, as cenas de conflito eram exibidas como atrações
noturnas de entretenimento, enquanto que na Primeira Guerra Mundial elas tiveram um
5
In: KOSSOY, Boris, 2001, p. 27, 108.
6
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 42.
7
In: KOSSOY, Boris, Op. cit., p. 50.
169
uso militar, tanto para espionagem, quanto para a motivação da população. A Guerra
Civil Espanhola, por sua vez, destacou-se pelo registro engajado, parcial e romântico:
Ao observarmos uma fotografia, devemos estar conscientes de que a
nossa compreensão do real será forçosamente influenciada por uma ou várias
interpretações anteriores. Por mais isenta que seja à interpretação dos con-
teúdos fotográficos, o passado será visto sempre conforme a interpretação
primeira do fotógrafo que optou por um aspecto determinado, o qual foi objeto
de manipulação desde o momento da tomada do registro e ao longo de todo o
processamento, até a obtenção da imagem final.
Entre o assunto e sua imagem materializada ocorreu uma sucessão de
interferências ao nível da expressão que alteraram a informação primeira; tal
fato é particularmente observado no foto-jornalismo impresso, cujas imagens,
uma vez associadas ao signo escrito, passam a orientar a leitura do receptor
com objetivos nem sempre inocentes.
O documento visual testemunha a atuação do fotógrafo enquanto filtro
cultural. Outros filtros se sucedem através de seus contratantes ao fazerem
determinado uso da imagem, o que redundará numa informação alterada do
fato ocorrido. Apesar da aparente neutralidade do olho da câmara e de todo o
verismo iconográfico, a fotografia será sempre uma interpretação.
8
Na Segunda Guerra Mundial, as imagens tiveram especial atenção quanto ao seu
uso como ferramenta de propaganda para mobilização da sociedade em prol dos
objetivos militares. Neste caso, ela se mostrou bastante eficaz, pois concilia a facilidade
de manipulação com a crença da sociedade na veracidade daquilo que se vê. Recursos
como a montagem cinematográfica foram bastante eficazes neste campo, pois
permitiam a manipulação ideológica: Decidir que opiniões devem ser permitidas ou
proibidas significa escolher opiniões para as pessoas, uma vez que não podem adotar
aquelas que não são apresentadas para seu exame. Quem escolhe opiniões para o povo
possui controle absoluto sobre suas ações e pode manipulá-las em beneficio próprio
com perfeita segurança
9
.
Já na Guerra do Vietnã, as imagens televisivas e em revistas fizeram a sociedade
se mobilizar contra o conflito. Como observou Sontag,
8
In: KOSSOY, Boris, 2001, p. 113, 114.
170
O fato de ter havido tão poucas fotos de guerra encenadas desde a
Guerra do Vietnã sugere que os fotógrafos têm-se mantido num padrão mais
elevado de probidade jornalística. Uma parte da explicação para isto pode
estar na circunstância de que, no Vietnã, a televisão tornou-se o meio de
comunicação supremo no que tange a mostrar imagens de guerra, e o intrépido
fotógrafo solitário com sua Leica ou sua Nikon na mão, trabalhando boa parte
do tempo fora de vista, tinha agora de competir com a proximidade das equipes
de tevê e aturar sua presença: o testemunho da guerra, hoje, quase nunca é
uma aventura solitária. Em termos técnicos, as possibilidades de retocar e
manipular fotos eletronicamente são maiores do que nunca – quase ilimitadas.
Mas o costume de inventar dramáticas fotos jornalísticas, encená-las para a
câmera, parece em via de se tornar uma arte perdida
10
.
O final da Guerra Fria foi marcado pela transmissão da entrevista Gunther
Shebowski, que anunciou a abertura das fronteiras ao vivo pela televisão, quando esta
informação só poderia ser dada após a implantação de regras para o controle migratório
e orientação dos postos de fronteira. E a Guerra do Golfo passou a fazer parte do
cotidiano social ao exibir diariamente imagens parecidas com as de um videogame, ao
vivo pela televisão. Nesta época, os critérios para o uso de câmaras no front com fins
não militares tornaram-se muito mais restritivos, ao passo que a guerra tornou-se uma
atividade levada a efeito com a ajuda de equipamentos óticos de precisão crescente,
para localizar o inimigo
11
.
Uma década mais tarde, a sociedade relaciona-se com as imagens tanto como
receptora, quanto como geradora. O mundo, a partir da alvorada do século XX, se viu,
aos poucos, substituído por sua imagem fotográfica. O mundo tornou-se, assim, portátil
e ilustrado.
12
Há uma interação e multiplicação da informação visual nunca
experimentada antes. Na era eletrônica, a comunidade é cada vez mais fundamentada
sobre o compartilhamento da mesma faixa de onda, e não do mesmo local. Os
telespectadores vivem num mundo de realidade indireta. Cada vez mais, falam e
9
In: MATTOS, Sergio, 1991, p. 10.
10
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 50, 51.
11
In: SONTAG, Susan, Ibidem, p. 58.
12
In: KOSSOY, Boris, 2001, p. 27.
171
pensam a respeito de pessoas que não conheceram, acerca de lugares onde não têm
estado.
13
O acesso facilitado aos recursos tecnológicos de captação e transmissão de
imagens contribui para a expansão do terror. Não é mais possível controlar os tipos de
imagens que circulam pelo mundo, embora regimes fechados como os da China e do Irã
ainda tentem controlar a Internet, filtrando a rede, fechando cybercafés, punindo
internautas. Mas nas atuais democracias eletrônicas, a única forma de evitar que certos
tipos de imagens sejam transmitidos ou mesmo captados é a educação. É esta a única
maneira de evitar a propagação do terrorismo, diminuindo a eficácia dos atentados, que
hoje apelam muito mais para o dano psicológico que para o material.
As sociedades podem ser soerguidas pela arte que criam; amparadas
pela história que preservam; mas as sociedades são, em certo sentido, susten-
tadas pelas notícias de que partilham. As notícias têm impacto político
inclusive quando são apenas trocadas, e não divulgadas. Efetivamente, a
estabilidade de certos agrupamentos políticos pode depender, em alguma
medida, de sua habilidade em fazer circular informações correntes
14
.
Em contrapartida, as novas tecnologias também são usadas para a manutenção
da vida e segurança das populações: alertas contra atentados terroristas ou desastres
naturais são emitidos pela Internet, possibilitando o salvamento de milhares de vidas. A
antecedência dos alertas somente é possível graças ao desenvolvimento de tecnologias
como a dos satélites, radares, telefonia, computadores, internet, etc.
Já em 1930, Duhamel discorria sobre o efeito das imagens no modo de pensar: A
partir de agora, não posso mais pensar o que quero. As imagens em movimento
substituem meus próprios pensamentos.
15
Nos anos 1960, Guy Debord observou uma
mutação global, ocorrida em apenas um século e meio, de uma sociedade “produtora de
imagens” para uma sociedade “produzida por imagens”: [...] o mundo real foi, então,
transformado em simples imagens que se tornaram seres reais e motivações eficientes
de um comportamento hipnótico
16
. Porém, como Susan Sontag destacou em 2003,
13
In: STEPHENS, Mitchell, 1993, p. 639, 640.
14
In: STEPHENS, Mitchell, Ibidem, p. 23.
15
Apud: VIRILIO, Paul; PIRES, Paulo Roberto, 1993, p. 54.
16
In: DEBORD, Guy; ABREU, Estela dos Santos, 1997, p. 18.
172
Dizer que a realidade se transforma num espetáculo é um pro-
vincianismo assombroso. Universaliza o modo de ver habitual de uma pequena
população instruída que vive na parte rica do mundo, onde as notícias
precisam ser transformadas em entretenimento – este estilo maduro de ver as
coisas, que constitui uma aquisição suprema do “moderno” é um pré-requisito
para desmantelar as formas tradicionais de política fundada em partidos, que
propiciam discórdia e debate genuínos. Supõe que todos sejam espectadores.
De modo impertinente e sem seriedade, sugere que não existe sofrimento
verdadeiro no mundo. Mas é absurdo identificar o mundo a essas regiões de
países abastados onde as pessoas gozam o dúbio privilégio de ser espectadores
ou furtar-se a ser espectadores da dor de um outro povo, assim como é absurdo
fazer generalizações acerca da capacidade de se mostrar sensível aos
sofrimentos de outros com base na atitude desses consumidores de notícias, que
não conhecem, na própria pele, nada a respeito de guerra, de injustiça em
massa e de terror. Existem centenas de milhões de espectadores de tevê que
estão longe de sentirem-se impassíveis ante o que vêem na televisão. Eles não
se dão ao luxo de fazer pouco caso da realidade
17
.
Nas democracias ocidentais, o poder das imagens é compartilhado por todos os
cidadãos; ou, melhor dizendo, por todos aqueles que dispõem dos meios para captação e
transmissão. De qualquer forma, não há mais um monopólio do Estado na produção
nem na distribuição de imagens. Essa “democratização” dos meios de produção de
imagens, disfarçada pela “liberdade de expressão”, dificulta a formação de uma visão
única dos conflitos, como acontecia antes. Porém, mesmo com essa pretensa liberdade,
a manipulação ideológica é ainda muito mais poderosa e abrangente do que se pensa a
princípio, pois antes mesmo da captação da imagem há sempre um ‘ideal’ a ser
transmitido.
A sociedade, mesmo com toda a liberdade de captar imagens e distribuí-las,
ainda é responsável por transmitir idéias pré-concebidas sobre determinado fato.
Portanto, as imagens fotográficas e cinematográficas não podem ser consideradas como
retrato fiel daquilo que é visto, mas sim como transmissoras da realidade cultural,
política, religiosa e econômica de quem as captou e transmitiu.
17
In: SONTAG, Susan, 2003, p. 91, 92.
173
Referências das Ilustrações
Capítulo 1:
A Descoberta do Poder das Imagens
Figura 1 – FENTON, Roger. [Fotografia]. The Photographic Van with Sparling
on the box. 1854. Colódio úmido. In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM,
Helmut. Roger Fenton: Photographer of the Crimean War. Secker &
Warburg: London, 1954. prancha 14.
Figura 2 – FENTON, Roger. [Fotografia]. His Day’s Work Over. 1854. Colódio
úmido. In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut. Roger Fenton:
Photographer of the Crimean War. Secker & Warburg: London, 1954.
prancha 44.
Figura 3 – FENTON, Roger. [Fotografia]. Captain Brown of the 4
th
Light
Dragoons. 1854. Colódio úmido. In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM,
Helmut. Roger Fenton: Photographer of the Crimean War. Secker &
Warburg: London, 1954. prancha 71.
Figura 4 – FENTON, Roger. [Fotografia]. The Valley of the Shadow of Death.
1854. Colódio úmido. In: GERNSHEIM, Alison; GERNSHEIM, Helmut. Roger
Fenton: Photographer of the Crimean War. Secker & Warburg: London,
1954. prancha 51.
Figura 5 – O’SULLIVAN, Thimoty H. [Fotografia]. Field where general
Reynolds Fell. Gettysburg, jul. 1863. Colódio úmido. In: GARDNER,
Alexander. Gardner’s photographic sketchbook of the american civil war,
1861-65. 2.ed. New York: Delano Greenidge Editions, 2001. prancha 37, p. 83.
Figura 6 – GARDNER, Alexander. [Fotografia]. What do I Want, John Henry?.
Warrenton, nov. 1862. Colódio úmido. In: GARDNER, Alexander. Gardner’s
photographic sketchbook of the american civil war, 1861-65. 2.ed. New
York: Delano Greenidge Editions, 2001. prancha 37, p. 63.
Figura 7 – O’SULLIVAN, Thimoty H. [Fotografia]. A Harvest of Death.
Warrenton, jul. 1863. Colódio úmido. In: GARDNER, Alexander. Gardner’s
photographic sketchbook of the american civil war, 1861-65. 2.ed. New
York: Delano Greenidge Editions, 2001. prancha 36, p. 81.
Figura 8 – GARDNER, Alexander. [Fotografia]. Home of a Rebel
Sharpshooter. Gettysburg, jul. 1863. Colódio úmido. In: GARDNER,
Alexander. Gardner’s photographic sketchbook of the american civil war,
1861-65. 2.ed. New York: Delano Greenidge Editions, 2001. prancha 41, p. 91.
Figura 9 – GARDNER, Alexander. [Fotografia]. A Sharpshooter’s Last Sleep.
Gettysburg, jul. 1863. Colódio úmido. In: GARDNER, Alexander. Gardner’s
photographic sketchbook of the american civil war, 1861-65. 2.ed. New
York: Delano Greenidge Editions, 2001. prancha 40, p. 89.
174
Capítulo 2:
O Rolo de Filme: entre a Realidade e a Ficção
Figura 1 – CASA de George Eastman, Ben Rose – Fototeca Histórica Nacional,
Milão. [Cartaz e Fotografia]. Câmara fotográfica compacta da Kodak. In:
VÁRIOS. Fotografia: Manual completo de arte e técnica. 3 ed. São Paulo:
Abril Cultural, 1981. p. 76.
Figura 2 – CASA de George Eastman, Ben Rose – Fototeca Histórica Nacional,
Milão. [Cartaz e Fotografia]. Cartaz da Kodak onde se lê o slogan. In: VÁRIOS.
Fotografia: Manual completo de arte e técnica. 3 ed. São Paulo: Abril
Cultural, 1981. p. 76.
Figura 3 – ANN Ronan Picture Library. [Fotografia]. Boer soldiers held in the
prisoner of war campa at Bloemfontein. In: FREMONT-BARNES, Gregory.
The Boer War 1899-1902. London: Osprey Publishing, 2003. p. 82.
Figura 4 – ANN Ronan Picture Library. [Fotografia]. Boers in Action. In:
FREMONT-BARNES, Gregory. The Boer War 1899-1902. London: Osprey
Publishing, 2003. p. 72.
Figura 5 – ZIPKOWITZ, Harold. Coleção Gernsheim, Centro de Pesquisas de
Humanidades da Universidade do Texas, Austin. [Fotografia]. In: VÁRIOS.
Fotografia: Manual completo de arte e técnica. 3 ed. São Paulo: Abril
Cultural, 1981. p. 71.
Figura 6 – SSPL Picture Researcher. [Fotografia]. The last message home,
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> Acesso em 30 mai. 2007. ref. 10303497.
Figura 7 – SSPL Picture Researcher. [Fotografia]. Royal Munster Fusiliers
going to the front, South Africa, 1900. In: SCIENCE & Society Picture
Library. London, 2004. Disponível em: < http://www.scienceandsociety.co.uk/
> Acesso em 30 mai. 2007. ref. 10303488.
Figura 8 – SSPL Picture Researcher. [Fotografia]. Royal Munster Fusiliers
fighting, Honey Nest Kloof Battery, South Africa, 1900. In: SCIENCE &
Society Picture Library. London, 2004. Disponível em: <
http://www.scienceandsociety.co.uk/ > Acesso em 30 mai. 2007. ref. 10303535.
Figura 9 – PHOTOGRAPH Archive at the Imperial War Museum. 1917.
[Fotografia]. Many tanks lost were ditched or broke down. In: HOLMES,
Richard. The First World War in photographs. London: Carlton Books, 2001.
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Figura 10 – PHOTOGRAPH Archive at the Imperial War Museum. 1915.
[Fotografia]. Protection against gas speedily grew more sophisticated. In:
HOLMES, Richard. The First World War in photographs. London: Carlton
Books, 2001. p. 89.
175
Figura 11 – PHOTOGRAPH Archive at the Imperial War Museum. 1916.
[Fotografia]. Faffémont Farm. In: HOLMES, Richard. The First World War in
photographs. London: Carlton Books, 2001. p. 179.
Figura 12 – RMS Lusitania: May, 7
th
1915. [Fotograma]. Afundamento do
Lusitânia. In: RMS Lusitania: May, 7
th
1915. YouTube, 2007. Disponível em: <
http://br.youtube.com/watch?v=ShOHb67h4Qc&feature=related > Acesso em:
27 mar. 2008.
Figura 13 – McCAY, Winsor. [Fotograma]. The Sinking of the Lusitania. In:
The Sinking of the Lusitania. Direção: Winsor McCay. [S.l.]: Universal, 1918.
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Figuras 14 e 15 – GRIFFITH, D. W. [Fotograma]. Hearts of the World. In:
Corações do Mundo (Hearts of the World). Direção: D. W. Griffith. [S.l.]: D.
W. Griffith Productions, 1918. MPEG4 (117 min.), full screen, P&B, mudo.
Figura 16 – PHOTOGRAPH Archive at the Imperial War Museum. 1916.
[Fotografia]. A front-line trench near Ovillers in July. In: HOLMES, Richard.
The First World War in photographs. London: Carlton Books, 2001. p. 169.
Figura 17 – IVENS, Joris. [Fotograma]. Spanish Earth. In: Terra Espanhola
(The Spanish Earth). Direção: Joris Ivens. [S.l.]: Contemporary Historians Inc.,
1937. MPEG4 (52 min.), widescreen, P&B, leg.
Figura 18 – A Guerra Civil na Espanha 1936-1939. [Cartaz]. Victoria. In:
AMELIE. Estou aqui de passagem. Disponível em: <
http://meninaurbana.blogspot.com/ > Acesso em: 24 mar. 2008.
Figura 19 – GUERRA Civil Espanhola: 70 anos. [Cartaz]. Pasaremos!. In:
GARCIA, Júlio. Blog do Júlio Garcia, Canoas, 2006. Disponível em: <
http://jc-garcia.zip.net/arch2006-07-16_2006-07-31.html > Acesso em: 24 mar.
2008.
Figura 20 – A Guerra Civil na Espanha 1936-1939. [Cartaz]. Ejercito Popular.
In: AMELIE. Estou aqui de passagem. Disponível em: <
http://meninaurbana.blogspot.com/ > Acesso em: 24 mar. 2008.
Figura 21 – Guerra Espanhola. [Cartaz]. Izquierda Republicana. In: PITA
Arquitetura. Álbuns da web do Picasa. Disponível em:
<http://picasaweb.google.com/arqpita02/Arquitetura/photo#5113161560715458
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Figura 22 – CAPA, Robert. [Fotografia]. Loyalist Militia. sep. 1936. In: CAPA,
Robert. Heart of Spain: Robert Capa’s photographs of the spanish civil war.
New York: Aperture, 1999. 201 p. Catálogo de Exposição, 02 feb. – 05 abr.
1999, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Madrid. p. 32.
176
Figura 23 – CAPA, Robert. [Fotografia]. The Death of a Loyalist Militiaman.
sep. 1936. In: CAPA, Robert. Heart of Spain: Robert Capa’s photographs of
the spanish civil war. New York: Aperture, 1999. 201 p. Catálogo de
Exposição, 02 feb. – 05 abr. 1999, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia,
Madrid. p. 26.
Figura 24 – CAPA, Robert. [Fotografia]. Bilbao. may 1937. In: ROBERT Capa.
Buenos Aires: [s.n.], 2006. 40 p. Catálogo de exposição, 01 mar. – 30 abr. 2006,
Centro Cultural Borges. p. 12.
Figura 25 – CAPA, Robert. [Fotografia]. Madrid. nov.-dec. 1936. In: CAPA,
Robert. Heart of Spain: Robert Capa’s photographs of the spanish civil war.
New York: Aperture, 1999. 201 p. Catálogo de Exposição, 02 feb. – 05 abr.
1999, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Madrid. p. 90.
Capítulo 3:
Entre a Ilusão e a Realidade
Figura 1 – Rádio. [Cartaz]. Toda a Alemanha ouve o Führer com o receptor
Volt. In: Arquivo Luiz Nazario.
Figura 2 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. Tomada aérea. In: Triunfo da
Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl. [S.l.]: Leni
Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B, leg.
Figura 3 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. Câmara colocada em um
elevador. In: Triunfo da Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni
Riefenstahl. [S.l.]: Leni Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.),
widescreen, P&B, leg.
Figura 4 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. Tomada de baixo para cima,
para assemelhar o poder do Führer ao de Deus. In: Triunfo da Vontade, O
(Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl. [S.l.]: Leni Riefenstahl
Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B, leg.
Figura 5 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. Uma mulher com seu filho no
colo entregam um buquê de flores a Hitler. In: Triunfo da Vontade, O
(Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl. [S.l.]: Leni Riefenstahl
Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B, leg.
Figura 6 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. Paradas coreografadas. In:
Triunfo da Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl.
[S.l.]: Leni Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B,
leg.
Figura 7 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. A catedral de luz. In: Triunfo
da Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl. [S.l.]: Leni
Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B, leg.
177
Figura 8 – CHAPLIN, Charles. [Fotograma]. Adenoid Hynkel discursando.
(Numa paródia clara ao discurso de Adolf Hitler filmado em Nurembergue em
O Triunfo da Vontade). In: Grande Ditador, O. Direção: Charles Chaplin.
[S.l.]: Charles Chaplin Productions, 1940. 1 DVD (124 min.), widescreen, P&B,
leg.
Figura 9 – CHAPLIN, Charles. [Fotograma]. O sonho de dominar o mundo...
In: Grande Ditador, O. Direção: Charles Chaplin. [S.l.]: Charles Chaplin
Productions, 1940. 1 DVD (124 min.), widescreen, P&B, leg.
Figura 10 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. Músicos na Parada Militar.
In: Triunfo da Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl.
[S.l.]: Leni Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B,
leg.
Figura 11 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Músicos na Parada Militar. In: Cara
do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney. [S.l.]: Walt Disney
Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 12 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. O cuco, com bigode, saudando. In:
Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney. [S.l.]: Walt
Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 13 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. Hitler saudando. In: Triunfo
da Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl. [S.l.]: Leni
Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B, leg.
Figura 14 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald molhando o único grão de
café na água. In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack
Kinney. [S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 15 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald se alimentando com ‘aroma
de ovos e bacon’. In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack
Kinney. [S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 16 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald cortando o pão com serrote.
In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney. [S.l.]: Walt
Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 17 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. A Frente de Trabalho Nazista.
In: Triunfo da Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl.
[S.l.]: Leni Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B,
leg.
Figura 18 – RIEFENSTAHL, Leni. [Fotograma]. A Frente de Trabalho Nazista
com suas pás. In: Triunfo da Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni
Riefenstahl. [S.l.]: Leni Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.),
widescreen, P&B, leg.
178
Figura 19 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald coagido a trabalhar. In:
Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney. [S.l.]: Walt
Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 20 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald reage à coação e é ameaçado
de morte. In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney.
[S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 21 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald nas férias controladas pelo
Estado. In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney.
[S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 22 – CHAPLIN, Charles. [Fotograma]. Carlitos se revolta contra os
opressores. In: Tempos modernos (Modern Times). Direção: Charles Chaplin.
[S.l.]: Charles Chaplin Productions, 1936. 1 DVD (87 min.), widescreen, P&B,
leg.
Figura 23 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald faz uma saudação às imagens
dos três líderes. In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack
Kinney. [S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 24 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald se revolta e saúda a imagem
de Hitler com a cauda. In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção:
Jack Kinney. [S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen,
cor.
Figura 25 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald saúda por engano a sombra
da Estátua da Liberdade, pensando ser Hitler. In: Cara do Führer, A (Der
fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney. [S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942.
MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 26 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. Donald percebe que a sombra
projetada na parede é da Estátua da Liberdade. In: Cara do Führer, A (Der
fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney. [S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942.
MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 27 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. As más condições de vida do Donald
nazista. In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney.
[S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 28 – KINNEY, Jack. [Fotograma]. O conforto da vida real do Donald
capitalista. In: Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney.
[S.l.]: Walt Disney Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Figura 29 – WILMSHURST, Paul. [Fotograma]. Mapa cronofotográfico
através do qual se determinou o alvo do lançamento da bomba atômica em
Hiroshima: a ponte em forma de T, 1945. In: Hiroshima: O Mundo Diante da
Ameaça Nuclear (Hiroshima). Produção: Paul Wilmshurst. [S.l.]: BBC / TFI /
Discovery Channel / ZDF / Abril, 2005. 1 DVD (97 min.), full screen, cor, leg.
179
Figura 30 – II Guerra Mundial: o maior conflito da história. [Cartaz]. Contra-
ataque Vermelho. In: II Guerra Mundial: O maior conflito da história. Veja, São
Paulo. Disponível em: <
http://veja.abril.com.br/especiais_online/segunda_guerra/edicao005/indice.shtml
> Acesso em: 25 mar. 2008.
Figura 31 – DW-World. [Fotografia]. Prisioneiros alemães capturados pela
URSS. 1946. In: 60 ANOS em imagens. DW-World, 2005. Disponível em: <
http://www.dw-world.de/dw/article/0,1564,1469115,00.html > Acesso em: 27
jun. 2006.
Figura 32 – STEVENS, George. [Fotograma]. Liberação de Paris, 1944. In: D-
Day to Berlin. Produção: George Stevens Jr. [S.l.]: Warner Home Video, 1998.
1 DVD (46 min.), full screen, cor, leg. inglês.
Figura 33 – STEVENS, George. [Fotograma]. Soldados descansando, 1944. In:
D-Day to Berlin. Produção: George Stevens Jr. [S.l.]: Warner Home Video,
1998. 1 DVD (46 min.), full screen, cor, leg. inglês.
Figura 34 – STEVENS, George. [Fotograma]. A morte em cores vivas. In: D-
Day to Berlin. Produção: George Stevens Jr. [S.l.]: Warner Home Video, 1998.
1 DVD (46 min.), full screen, cor, leg. inglês.
Figura 35 – STEVENS, George. [Fotograma]. Deserção em massa do exército
alemão. In: D-Day to Berlin. Produção: George Stevens Jr. [S.l.]: Warner Home
Video, 1998. 1 DVD (46 min.), full screen, cor, leg. inglês.
Figura 36 – STEVENS, George. [Fotograma]. Montanha de corpos, 1944. In:
D-Day to Berlin. Produção: George Stevens Jr. [S.l.]: Warner Home Video,
1998. 1 DVD (46 min.), full screen, cor, leg. inglês.
Figura 37 – STEVENS, George. [Fotograma]. Prisioneiros assassinados às
pressas, nem desembarcaram do trem, 1944. In: D-Day to Berlin. Produção:
George Stevens Jr. [S.l.]: Warner Home Video, 1998. 1 DVD (46 min.), full
screen, cor, leg. inglês.
Figura 38 – STEVENS, George. [Fotograma]. Prisioneiro morto congelado na
neve, 1944. In: D-Day to Berlin. Produção: George Stevens Jr. [S.l.]: Warner
Home Video, 1998. 1 DVD (46 min.), full screen, cor, leg. inglês.
Figura 39 – STEVENS, George. [Fotograma]. Soldados alemães fuzilados,
1944. In: D-Day to Berlin. Produção: George Stevens Jr. [S.l.]: Warner Home
Video, 1998. 1 DVD (46 min.), full screen, cor, leg. inglês.
Figura 40 – SEIBEL, Cel. Robert, (Coleção). [Fotografia]. Sobreviventes no
alojamento em Mauthausen. Entre 5 e 15 de maio de 1945. In: USHMM:
United States Holocaust Memorial Museum, New York. Disponível em: <
http://www.ushmm.org/ > Acesso em: 27 mar. 2008.
180
Figura 41 – SEIBEL, Cel. Robert, (Coleção). [Fotografia]. Sob as ordens do
exército norte-americano, cidadãos austríacos removem os cadáveres de
Mauthausen para o enterro em uma sepultura coletiva. Entre 10 e 15 de maio de
1945. In: USHMM: United States Holocaust Memorial Museum, New York.
Disponível em: < http://www.ushmm.org/ > Acesso em: 27 mar. 2008.
Figura 42 – WILMSHURST, Paul. [Fotograma]. Os homens selecionados para
a missão que lançaria a bomba atômica, 1945. In: Hiroshima: O Mundo
Diante da Ameaça Nuclear (Hiroshima). Produção: Paul Wilmshurst. [S.l.]:
BBC / TFI / Discovery Channel / ZDF / Abril, 2005. 1 DVD (97 min.), full
screen, cor, leg.
Figura 43 – WILMSHURST, Paul. [Fotograma]. A imagem do piloto acenando,
ao contrário do que pode parecer, ele estava pedindo para saírem da frente,
1945. In: Hiroshima: O Mundo Diante da Ameaça Nuclear (Hiroshima).
Produção: Paul Wilmshurst. [S.l.]: BBC / TFI / Discovery Channel / ZDF /
Abril, 2005. 1 DVD (97 min.), full screen, cor, leg.
Figura 44 – MATSUSHIGE, Yoshito. [Fotografia]. Restou apenas a silhueta do
homem que estava sentado nesta escada. In: ORIGINAL Prints by Mr. Yoshito
Matsushige. The Chugoku Shimbun, Hiroshima, 1945. Disponível em: <
http://pegasus.phys.saga-u.ac.jp/peace/matsushige.html > Acesso em: 27 mar.
2008.
Figura 45 –THE HEAT Rays Burned the Clothing Pattern Onto the Skin.
[Fotografia]. As estampas dos quimonos ficaram gravadas na pele. In:
GENSUIKIN: Photographs of Hiroshima and Nagasaki. Disponível em <
http://www.gensuikin.org/english/photo.html > Acesso em: 06 mar. 2008.
Figura 46 – MATSUSHIGE, Yoshito. [Fotografia]. Pessoas na fila para se
registrar, 1945. In: ORIGINAL Prints by Mr. Yoshito Matsushige. The
Chugoku Shimbun, Hiroshima, 1945. Disponível em: <
http://pegasus.phys.saga-u.ac.jp/peace/matsushige.html
> Acesso em: 27 mar.
2008.
Figura 47 – MATSUSHIGE, Yoshito. [Fotografia]. Um policial registra os
feridos, 1945. The Chugoku Shimbun, Hiroshima, 1945. Disponível em: <
http://pegasus.phys.saga-u.ac.jp/peace/matsushige.html
> Acesso em: 27 mar.
2008.
Figura 48 – WILMSHURST, Paul. [Fotograma]. O piloto é condecorado com
uma medalha, 1945. In: Hiroshima: O Mundo Diante da Ameaça Nuclear
(Hiroshima). Produção: Paul Wilmshurst. [S.l.]: BBC / TFI / Discovery Channel
/ ZDF / Abril, 2005. 1 DVD (97 min.), full screen, cor, leg.
Figura 49 – WILMSHURST, Paul. [Fotograma]. Cinegrafistas e fotógrafos
registram a chegada dos novos heróis, 1945. In: Hiroshima: O Mundo Diante
da Ameaça Nuclear (Hiroshima). Produção: Paul Wilmshurst. [S.l.]: BBC / TFI
/ Discovery Channel / ZDF / Abril, 2005. 1 DVD (97 min.), full screen, cor, leg.
181
Figura 50 – YAMAHATA, Yosuke. [Fotografia]. Uma das primeiras imagens
fotográficas captada logo após o bombardeio atômico, 1945. In: NAGASAKI
Jouney: the photographs of Yosuke Yamahata. Exploratorium: the museum of
science, art and human perception. San Francisco, 1995. Disponível em: <
http://www.exploratorium.edu/nagasaki/journey/journey1.html > Acesso em: 06
mar. 2008.
Figura 51 – YAMAHATA, Yosuke. [Fotografia]. Imagens como esta, foram
censuradas, 1945. In: NAGASAKI Jouney: the photographs of Yosuke
Yamahata. Exploratorium: the museum of science, art and human
perception. San Francisco, 1995. Disponível em: <
http://www.exploratorium.edu/nagasaki/journey/journey1.html > Acesso em: 06
mar. 2008.
Figura 52 – YAMAHATA, Yosuke. [Fotografia]. Apesar de o alvo principal
ser as indústrias a devastação estava por toda a cidade, 1945. In: NAGASAKI
Jouney: the photographs of Yosuke Yamahata. Exploratorium: the museum of
science, art and human perception. San Francisco, 1995. Disponível em: <
http://www.exploratorium.edu/nagasaki/journey/journey1.html > Acesso em: 06
mar. 2008.
Capítulo 4:
O Poder da Informação
Figura 1 – LIFE. [Capa]. The danger-filled week of decision Cuba. In: SOUSA,
Armando S. A Crise dos Mísseis Cubanos. A Fábrica, Lisboa, 2005. Disponível
em: < http://grandefabrica.blogspot.com/2005/10/crise-dos-msseis-cubanos.html
> Acesso em: 25 mar. 2008.
Figura 2 – USAF. [Fotografia]. Fotografia aérea mostrando base de
lançamento de mísseis em Cuba, 01 nov. 1962. In: CRISE DOS MÍSSEIS DE
CUBA. In: ENCICLOPÉDIA Wikipédia. Disponível em: <
http://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_dos_mísseis_de_Cuba > Acesso em: 17 out.
2007.
Figura 3 – CAPA, Robert. [Fotografia]. En la ruta de Namdinh a Taibinh, 25
mayo 1954. In: ROBERT Capa. Buenos Aires: [s.n.], 2006. 40 p. Catálogo de
exposição, 01 mar. – 30 abr. 2006, Centro Cultural Borges. p. 37.
Figura 4 – LIFE. [Capa]. Capa da Revista Life ilustrada com fotografia de
Larry Burrows, 27 nov. 1964. In: LARRY Burrows: a Life tribute. Life
Magazine, New York, 1996. Disponível em: <
http://www.life.com/Life/burrows/cv112764.html > Acesso em: 17 out. 2007.
Figura 5 – LIFE. [Capa]. Capa da Revista Life ilustrada com fotografia de
Larry Burrows, 28 oct. 1966. In: LARRY Burrows: a Life tribute. Life
Magazine, New York, 1996. Disponível em: <
http://www.life.com/Life/burrows/cv102866.html > Acesso em: 17 out. 2007.
182
Figura 6 – BURROWS GALERY. [Fotografia]. A woman mourns her husband,
killed by the Vietcong during the 1968 Tet offensive. His remains were
uncovered in a mass grave one year later, Huè, South Vietnam, 1969. In:
LARRY Burrows: a Life tribute. Life Magazine, New York, 1996. Disponível
em: < http://www.life.com/Life/burrows/c7.html > Acesso em: 17 out. 2007.
Figura 7 – BURROWS GALERY. [Fotografia]. U.S. marines recover a body
under fire during the battle for Hill 484, Near Dong Ha, South Vietnam, 1966.
In: LARRY Burrows: a Life tribute. Life Magazine, New York, 1996.
Disponível em: < http://www.life.com/Life/burrows/c4.html > Acesso em: 17
out. 2007.
Figura 8 – UT, Nick. [Fotografia]. Menina atingida por bomba de Napalm, 08
jun. 1972. In: NICK UT. In: ENCICLOPÉDIA Wikipédia. Disponível em: <
http://en.wikipedia.org/wiki/Nick_Ut
> Acesso em: 25 mar. 2008.
Figura 9 – ADAMS, Eddie. [Fotografia]. Morte de um informante vietcongue,
fev. 1968. In: MATTOS, Sergio. Censura de guerra: da Criméia ao Golfo
Pérsico. Salvador: Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia,
1991. p. 30.
Figura 10 – McCULLIN, Don. [Fotografia]. Shell Shocked Soldier, Huè, 1968.
In: DON McCullin. V&A – Victoria & Albert Museum: Exploring
Photography, London. Disponível em: <
http://www.vam.ac.uk/vastatic/microsites/photography/photographerframe.php?
photographerid=ph041 > Acesso em: 05 mar. 2008.
Figura 11 – GRIFFITHS, Philip Jones. [Fotografia]. Menino chora ao ver o
corpo de sua irmã sendo recolhido. In: GRIFFITHS, Philip Jones. Vietnam inc.
2. ed. New York: Phaidon Press, 2005. p. 118-119.
Figura 12 – GRIFFITHS, Philip Jones. [Fotografia]. Soldado do ‘Esquadrão
Zippo’, ateando fogo numa vila, com o famigerado isqueiro nas mãos. In:
GRIFFITHS, Philip Jones. Vietnam inc. 2. ed. New York: Phaidon Press, 2005.
p. 65.
Figura 13 – CLARK, David; BREGER, Brian. [Fotograma]. Prisioneiro norte-
americano. In: Vietnã uma outra Guerra: As Cenas que Ninguém Viu
(Vietnam’s Unseen War: Pictures from the Other Side). Produção: David Clark e
Brian Breger. [S.l.]: National Geographic Television, 2002. 1 DVD (82 min.),
full screen, cor. leg.
Figura 14 – CLARK, David; BREGER, Brian. [Fotograma]. Fotografia dentro
do esconderijo subterrâneo. In: Vietnã uma outra Guerra: As Cenas que
Ninguém Viu (Vietnam’s Unseen War: Pictures from the Other Side).
Produção: David Clark e Brian Breger. [S.l.]: National Geographic Television,
2002. 1 DVD (82 min.), full screen, cor. leg.
183
Figura 15 – CLARK, David; BREGER, Brian. [Fotograma]. Dentro da
fortaleza em Quang Tri. In: Vietnã uma outra Guerra: As Cenas que
Ninguém Viu (Vietnam’s Unseen War: Pictures from the Other Side).
Produção: David Clark e Brian Breger. [S.l.]: National Geographic Television,
2002. 1 DVD (82 min.), full screen, cor. leg.
Figura 16 – LOCKE, Bill; KELLY, Chris. [Fotograma]. Astronautas
caminhando na Lua, 20 jul. 1969. In: Chegada do Homem à Lua. Produção:
Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (58 min.), full
screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Figura 17 – LOCKE, Bill; KELLY, Chris. [Fotograma]. Transmissão televisiva
mostrando os astronautas na Lua, 20 jul. 1969. In: Chegada do Homem à Lua.
Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (58 min.),
full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Figura 18 – LOCKE, Bill; KELLY, Chris. [Fotograma]. Pessoas arriscavam a
vida para atravessar o muro. In: Queda do Muro de Berlim. Produção: Bill
Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (49 min.), full screen,
cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Figura 19 – LOCKE, Bill; KELLY, Chris. [Fotograma]. Os portões foram
finalmente abertos, 09 nov. 1989. In: Queda do Muro de Berlim. Produção:
Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (49 min.), full
screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Figura 20 – LOCKE, Bill; KELLY, Chris. [Fotograma]. As pessoas literalmente
“derrubam” o muro, 09 nov. 1989. In: Queda do Muro de Berlim. Produção:
Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (49 min.), full
screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Figura 21 – MIRANDA, Celso (Ed.). [Fotografia]. Imagens de múltiplas
câmaras de captação noturna, exibidas pela televisão. In: MIRANDA, Celso
(Ed.). Ao vivo de Bagdá: Guerra do golfo, São Paulo: Abril, jan. 2006, v.1,
n.9. p. 29. (Coleção Grandes Guerras)
Capítulo 5:
A Velocidade dos Meios de Comunicação como
Arma do Terror
Figura 1 – LOCKE, Bill; KELLY, Chris. [Fotograma]. A evacuação das
aeronaves, 1970. In: Setembro Negro. Produção: Bill Locke e Chris Kelly.
[S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (48 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias
que Abalaram o Mundo I).
Figura 2 – LOCKE, Bill; KELLY, Chris. [Fotograma]. A explosão das
aeronaves, 1970. In: Setembro Negro. Produção: Bill Locke e Chris Kelly.
[S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (48 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias
que Abalaram o Mundo I).
184
Figura 3 – Die Spiele der XX: Olympiade München. [Fotografia]. Um dos
terroristas é fotografado, 1972. In: Die olympische tragödie (5. September 1972:
Das Attentat). Die Spiele der XX: Olympiade München, Munique. Disponível
em: < http://www.olympia72.de/050972a.htm#Oben > Acesso em: 26 mar.
2008.
Figura 4 – Die Spiele der XX: Olympiade München. [Fotografia]. O corpo
carbonizado de um dos atletas assassinados, ainda dentro do helicóptero, 1972.
In: Die olympische tragödie (5. September 1972: Das Attentat). Die Spiele der
XX: Olympiade München, Munique. Disponível em: <
http://www.olympia72.de/050972a.htm#Oben > Acesso em: 26 mar. 2008.
Figura 5 – CNN. [Fotograma]. Imagem do primeiro avião atingindo a Torre
Norte do WTC, transmitida pela televisão, 2001. In: ARCHIVE of screenshots
of online news sites on September 11/12, 2001. Digital Collection: Interactive
Publishing. Zürich, 2001. Disponível em: <
http://www.interactivepublishing.net/september/ > Acesso em: 22 nov. 2006.
Figura 6 – KENNEDY, Garfield. [Fotograma]. A colisão do avião causa uma
explosão, 2001. In: 11 de Setembro. Produção: Garfield Kennedy. [S.l.]: BBC /
WGBH Boston / Abril, 2002. 1 DVD (50 min.), full screen, cor, leg. (Coleção
Dias que Abalaram o Mundo I).
Figura 7 – CNN. [Fotograma]. Agora em transmissão pela televisão ‘ao vivo’,
outro se dirige à Torre Sul, 2001. In: ARCHIVE of screenshots of online news
sites on September 11/12, 2001. Digital Collection: Interactive Publishing.
Zürich, 2001. Disponível em: < http://www.interactivepublishing.net/september/
> Acesso em: 22 nov. 2006.
Figura 8 – BBC News. [Fotografia]. It crashes into the south tower, creating a
massive fireball, 2001. In: AMERICA’S day of terror. BBC News, London,
2001. Disponível em: <
http://news.bbc.co.uk/hi/english/static/in_depth/americas/2001/day_of_terror/
>
Acesso em: 22 nov. 2006.
Figura 9 – BBC News. [Fotografia]. Back in New York, the south tower of the
World Trade Center collapses in a shower of ash and dust, 2001. In:
AMERICA’S day of terror. BBC News, London, 2001. Disponível em: <
http://news.bbc.co.uk/hi/english/static/in_depth/americas/2001/day_of_terror/ >
Acesso em: 22 nov. 2006.
Figura 10 – BBC News. [Fotografia]. The north tower collapses merely 20
minutes later, 2001. In: AMERICA’S day of terror. BBC News, London, 2001.
Disponível em: <
http://news.bbc.co.uk/hi/english/static/in_depth/americas/2001/day_of_terror/
>
Acesso em: 22 nov. 2006.
185
Figura 11 – BBC News. [Fotografia]. A third hijacked aircraft crashes into the
Pentagon, 2001. In: AMERICA’S day of terror. BBC News, London, 2001.
Disponível em: <
http://news.bbc.co.uk/hi/english/static/in_depth/americas/2001/day_of_terror/ >
Acesso em: 22 nov. 2006.
Figura 12 – BBC News. [Fotografia]. Reports come in of a fourth plane crash
in Pennsylvania, 2001. In: AMERICA’S day of terror. BBC News, London,
2001. Disponível em: <
http://news.bbc.co.uk/hi/english/static/in_depth/americas/2001/day_of_terror/ >
Acesso em: 22 nov. 2006.
Figura 13 – BBC News. [Fotografia]. A man hurries away from the World
Trade Center, covering his face against the smoke, 2001. In: AMERICA’S day
of terror. BBC News, London, 2001. Disponível em: <
http://news.bbc.co.uk/hi/english/static/in_depth/americas/2001/day_of_terror/ >
Acesso em: 22 nov. 2006.
Figura 14 – BBC News. [Fotografia]. Firefighters raise a US flag amongst the
wreckage in a gesture of defiance, 2001. In: AMERICA’S day of terror. BBC
News, London, 2001. Disponível em: <
http://news.bbc.co.uk/hi/english/static/in_depth/americas/2001/day_of_terror/ >
Acesso em: 22 nov. 2006.
Figura 15 – BOTTE, John. [Fotografia]. Um fotógrafo da polícia de Nova
Iorque registra os milhares de policiais e bombeiros trabalhavam
simultaneamente sobre os destroços, 2001. In: BOTTE, John. Aftermath:
unseen 9/11 photos by a New York City cop. New York: Regan, 2006. p. 157.
Figura 16 – BOTTE, John. [Fotografia]. O mesmo fotógrafo registra a
manifestação da população em reconhecimento aos esforços dos bombeiros e
policiais, 2001. In: BOTTE, John. Aftermath: unseen 9/11 photos by a New
York City cop. New York: Regan, 2006. p. 208.
Figura 17 – PRITCHARD, Tim. [Fotograma]. A derrubada da estátua de
Saddam. In: Guerra em Bagdá (The Fight for Baghdad). Direção: Tim
Pritchard. [S.l.]: Discovery Channel, 2004. 1 DVD (100 min. Aprox.), full
screen, cor, leg. (Ed. Esp.)
Figura 18 – PRITCHARD, Tim. [Fotograma]. Na estrada para Bagdá. In:
Guerra em Bagdá (The Fight for Baghdad). Direção: Tim Pritchard. [S.l.]:
Discovery Channel, 2004. 1 DVD (100 min. Aprox.), full screen, cor, leg. (Ed.
Esp.)
Figura 19 – PRITCHARD, Tim. [Fotograma]. A entrada em Bagdá. In: Guerra
em Bagdá (The Fight for Baghdad). Direção: Tim Pritchard. [S.l.]: Discovery
Channel, 2004. 1 DVD (100 min. Aprox.), full screen, cor, leg. (Ed. Esp.)
186
Figura 20 – PRITCHARD, Tim. [Fotograma]. Civis mortos. In: Guerra em
Bagdá (The Fight for Baghdad). Direção: Tim Pritchard. [S.l.]: Discovery
Channel, 2004. 1 DVD (100 min. Aprox.), full screen, cor, leg. (Ed. Esp.)
Figura 21 – PRITCHARD, Tim. [Fotograma]. Militares mortos. In: Guerra
em Bagdá (The Fight for Baghdad). Direção: Tim Pritchard. [S.l.]: Discovery
Channel, 2004. 1 DVD (100 min. Aprox.), full screen, cor, leg. (Ed. Esp.)
Figura 22 – PRITCHARD, Tim. [Fotograma]. Cena da entrevista coletiva. In:
Guerra em Bagdá (The Fight for Baghdad). Direção: Tim Pritchard. [S.l.]:
Discovery Channel, 2004. 1 DVD (100 min. Aprox.), full screen, cor, leg. (Ed.
Esp.)
Figura 23 – PRITCHARD, Tim. [Fotograma]. No momento da entrevista,
soldados norte-americanos posam para fotografias no aeroporto. In: Guerra
em Bagdá (The Fight for Baghdad). Direção: Tim Pritchard. [S.l.]: Discovery
Channel, 2004. 1 DVD (100 min. Aprox.), full screen, cor, leg. (Ed. Esp.)
Figura 24 – OGRISH.COM. [Fotografia]. Vagão destruído. In: OGRISH.COM:
Imagens do atentado em Madri. LiveLeak.com, 2004. Disponível em: <
http://www.liveleak.com/?ogr=1 > Acesso em: 27 out. 2006.
Figura 25 – OGRISH.COM. [Fotografia]. Corpos enfileirados. In:
OGRISH.COM: Imagens do atentado em Madri. LiveLeak.com, 2004.
Disponível em: < http://www.liveleak.com/?ogr=1 > Acesso em: 27 out. 2006.
Figura 26 – OGRISH.COM. [Fotografia]. Resgate dos feridos. In:
OGRISH.COM: Imagens do atentado em Madri. LiveLeak.com, 2004.
Disponível em: < http://www.liveleak.com/?ogr=1 > Acesso em: 27 out. 2006.
Figura 27 – OGRISH.COM. [Fotografia]. A procura por sobreviventes. In:
OGRISH.COM: Imagens do atentado em Madri. LiveLeak.com, 2004.
Disponível em: < http://www.liveleak.com/?ogr=1 > Acesso em: 27 out. 2006.
Figura 28 – ASSOCIATED Press. [Fotografia]. Ônibus destruído. In:
ASSOCIATED Press. Disponível em: < http://www.ap.org/ > Acesso em: 29
mai. 2007.
Figura 29 – ABC News. [Fotografia]. Vagão de trem destruído. In: ABC News.
Disponível em: < http://abcnews.go.com > Acesso em: 29 mai. 2007.
Figura 30 – THE ABU Ghraib prison photos. [Fotografia]. Prisioneiro nu, com
sua roupa íntima usada como venda. In: THE ABU Ghraib prison photos. Anti
war, Redwood City, 2004. Disponível em: <
http://www.antiwar.com/news/?articleid=2444 > Acesso em: 27 jun. 2006.
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deveriam deitar uns sobre os outros. In: THE ABU Ghraib prison photos. Anti
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Saddam’a Abu Ghraib and their place in new Iraq, the. AEI: American
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11 de Setembro. Produção: Garfield Kennedy. [S.l.]: BBC / WGBH Boston / Abril,
2002. 1 DVD (50 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Acidente em Chernobyl. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003.
1 DVD (50 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Assassinato do Arquiduque Ferdinando. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]:
BBC / Abril, 2003. 1 DVD (50 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram
o Mundo I).
Ataque a Pearl Harbor, O. Produção: David Upshal. [S.l.]: Lion TV / BBC / Abril,
2004/2005. 1 DVD (50 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o
Mundo II).
Atentado contra Hitler. Produção: David Upshal. [S.l.]: Lion TV / BBC / Abril,
2004/2005. 1 DVD (51 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o
Mundo II).
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Atentado de Munique. Produção: Nicole Wilkbanks [et. al]. [S.l.]: Youtube, 2007.
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Auschwitz: A Fábrica da Morte do Império Nazista (Auschwitz: The Nazis and “The
Final Solution”). Produção: Laurence Rees. [S.l.]: BBC / Abril, 2005. vol 1. 1 DVD
(143 min.), full screen, cor, leg.
Auschwitz: A Fábrica da Morte do Império Nazista (Auschwitz: The Nazis and “The
Final Solution”). Produção: Laurence Rees. [S.l.]: BBC / Abril, 2005. vol 2. 1 DVD
(157 min.), full screen, cor, leg.
Brasileiro no Dia-D, Um. Direção: Victor Lopes. [S.l.]: João Barone / Sambascope /
Tvzero / Abril, 2006. 1 DVD (53 min.), full screen, cor. (Coleção Grandes Guerras)
Caçando Osama Bin Laden (Hunting Osama Bin Laden). Produção: Mark Milano,
NBC News e Sue Simpson. [S.l.]: Discovery Channel, 2004. 1 DVD (50 min. Aprox.),
full screen, cor, leg. (Ed. Esp.)
Cara do Führer, A (Der fuehrer´s face). Direção: Jack Kinney. [S.l.]: Walt Disney
Pictures, 1942. MPEG4 (8 min.), widescreen, cor.
Chegada do Homem à Lua. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril,
2003. 1 DVD (58 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Corações do Mundo (Hearts of the World). Direção: D. W. Griffith. [S.l.]: D. W.
Griffith Productions, 1918. MPEG4 (117 min.), full screen, P&B, mudo.
Criação do Estado de Israel. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril,
2003. 1 DVD (49 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
D-Day to Berlin. Produção: George Stevens Jr. [S.l.]: Warner Home Video, 1998. 1
DVD (46 min.), full screen, cor, leg. inglês.
Especial Guerra EUA x Iraque. Direção: Marco Antônio Coelho Filho. [S.l.]: Cultura
Marcas, 2003. 1 DVD (95 min. Aprox.), full screen, cor.
Espionagem na Guerra Fria. Produção: David Upshal. [S.l.]: Lion TV / BBC / Abril,
2004/2005. 1 DVD (51 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o
Mundo II).
EUA x URSS: A Ameaça Nuclear. Produção: David Upshal. [S.l.]: Lion TV / BBC /
Abril, 2004/2005. 1 DVD (51 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o
Mundo II).
Filmando a Segunda Guerra Mundial: Cinegrafistas de Guerra (Shooting War:
World War II Cameramen ). Direção: Richard Schickel. [S.l.]: DreamWorks Television,
2000. 1 DVD RW (88 min.), full screen, cor. leg.
205
Gagarin: o Primeiro Homem no Espaço. Produção: David Upshal. [S.l.]: Lion TV /
BBC / Abril, 2004/2005. 1 DVD (52 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que
Abalaram o Mundo II).
Grande Ditador, O. Direção: Charles Chaplin. [S.l.]: Charles Chaplin Productions,
1940. 1 DVD (124 min.), widescreen, P&B, leg.
Guerra em Bagdá (The Fight for Baghdad). Direção: Tim Pritchard. [S.l.]: Discovery
Channel, 2004. 1 DVD (100 min. Aprox.), full screen, cor, leg. (Ed. Esp.)
Hiroshima. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (107
min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Hiroshima: O Mundo Diante da Ameaça Nuclear (Hiroshima). Produção: Paul
Wilmshurst. [S.l.]: BBC / TFI / Discovery Channel / ZDF / Abril, 2005. 1 DVD (97
min.), full screen, cor, leg.
História das Armas de Guerra, A: Câmara em Combate (Brute Force: The History
of Weapons at War: I Part: Combat Camera). Direção: Robert Lihani. [S.l.]: GNT,
2001. 1 DVD RW (35 min. aprox.), full screen, cor. leg.
História Oculta do Terceiro Reich, A (The Occult History of the Third Reich).
Direção: David Flitton. [S.l.]: Classicline, 1999. 1 DVD (150 min. aprox.), full screen,
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Hitler (The Life of Adolf Hitler). Direção: Paul Rotha. [S.l.]: Betafilm / Abril, 2006. 1
DVD (98 min.), full screen, cor, leg.
II Guerra Mundial: Armas (Weapons of World War II). Produção: Jonathan Martin.
[S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1 DVD (165 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Grandes
Guerras).
II Guerra Mundial: Guerra no Pacífico (War in the Pacific). Produção executiva:
Terry Shand e Geoff Kempin. [S.l.]: Eagle Rock Entertainment / Abril, 1999 / 2006. 1
DVD (59 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Grandes Guerras).
II Guerra Mundial: Heróis (Heroes of World War II). Direção e produção: Jonathan
Martin. [S.l.]: BBC / Abril, 2003 / 2006. 1 DVD (165 min.), full screen, cor, leg.
(Coleção Grandes Guerras).
II Guerra Mundial: Kamikaze (Kamikaze: The Die for na Emperor). Produção
executiva: Terry Shand e Geoff Kempin. [S.l.]: Eagle Rock Entertainment / Abril, 1999
/ 2006. 1 DVD (53 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Grandes Guerras).
Level Five (Level Five). Direção: Chris Marker. [S.l.]: Les Films de I’Astrophore, 1997.
1 DVD RW (106 min.), full screen, cor, leg.
Mein Kampf (Den Blodiga Tiden). Direção: Erwin Leiser. [S.l.]: Minerva Film AB,
1960. 1 DVD (111 min.), widescreen, P&B, leg. inglês.
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Olympia part One: Festival of the Nations (Olympia 1. Teil: Fest der Völker).
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Olympia part Two: Festival of Beauty (Olympia 2. Teil: Fest der Schönheit). Direção:
Leni Riefenstahl. [S.l.]: International Olympic Committee, 1938/1940. 1 DVD (90
min.), widescreen, P&B, leg. inglês.
Primeira Guerra Mundial: Natal nas Trincheiras. Produção: David Upshal. [S.l.]:
Lion TV / BBC / Abril, 2004/2005. 1 DVD (51 min.), full screen, cor, leg. (Coleção
Dias que Abalaram o Mundo II).
Primeiro Teste Nuclear. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003.
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DVD (50 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Queda do Muro de Berlim. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril,
2003. 1 DVD (49 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
RMS Lusitania: May, 7
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1915. Produção: Snakes3425. [S.l.]: YouTube, 2007.
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Rompendo o Silêncio (Broken Silence). Direção: Steven Spielberg. [S.l.]: Universal,
1995. 2 DVDs (169/113 min.), full screen, cor, leg.
Setembro Negro. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1
DVD (48 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Sob a Névoa da Guerra (The Fog of War). Direção: Errol Morris. [S.l.]: Sony Pictures
Classics, 2003. 1 DVD (107 min.), widescreen, cor, leg.
Suicídio de Hitler. Produção: Bill Locke e Chris Kelly. [S.l.]: BBC / Abril, 2003. 1
DVD (50 min.), full screen, cor, leg. (Coleção Dias que Abalaram o Mundo I).
Tempos modernos (Modern Times). Direção: Charles Chaplin. [S.l.]: Charles Chaplin
Productions, 1936. 1 DVD (87 min.), widescreen, P&B, leg.
The Sinking of the Lusitania. Direção: Winsor McCay. [S.l.]: Universal, 1918.
MPEG4 (12 min.), full screen, P&B, mudo.
Terra Espanhola (The Spanish Earth). Direção: Joris Ivens. [S.l.]: Contemporary
Historians Inc., 1937. MPEG4 (52 min.), widescreen, P&B, leg.
Triunfo da Vontade, O (Triumph des Willens). Direção: Leni Riefenstahl. [S.l.]: Leni
Riefenstahl Produktion, 1935. 1 DVD (110 min.), widescreen, P&B, leg.
207
Video of Madrid Train Bombs Exploding. Security cam., 2004. MPEG4 (14 sec.),
full screen, cor.
Vietnã uma outra Guerra: As Cenas que Ninguém Viu (Vietnam’s Unseen War:
Pictures from the Other Side). Produção: David Clark e Brian Breger. [S.l.]: National
Geographic Television, 2002. 1 DVD (82 min.), full screen, cor. leg.
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