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negativo; positivo é seu contraposto, o obstáculo ou a necessidade. Toda demonstração é
regida pelo princípio de razão e recai sobre os conceitos situados em seus limites.
Segundo que, consciência e liberdade pertencem a domínios distintos: o da consciência é
a existência e o da liberdade é a essência. Não que se trate de duas realidades. Não há
dualidade entre essência e existência. São ambas imanentes. Schopenhauer concebe a
identidade essência-existência como uma realidade que se desdobra em dois aspectos,
profundamente distintos. O existencial é submetido à necessidade, que é sempre relativa,
enquanto o essencial é o da absoluta liberdade. O domínio da consciência se situa, assim,
muito aquém daquele que comporta a moral. Ele, então, concluirá que, em sua essência, a
vontade humana é livre. Essa liberdade, no entanto, é formal e virtual. Quanto à sua
atuação, afirma, não há liberdade da vontade humana, uma vez que o agir do homem está
“submetido a mais estrita necessidade”
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. Cada um dos atos do indivíduo remete à
Vontade que o atravessa e determina sua atuação, como afirmação de seu querer
onipotente. A liberdade moral no fenômeno humano somente se manifesta como exceção
ou, como diz o autor, “como contradição do fenômeno consigo mesmo”: a liberdade do
homem está em se decidir pelo não querer, pela negação de sua essência. É um tipo
superior de liberdade, isto é, transcendental. A presença de Kant se faz sentir, como
acontece em todo o desenvolvimento de seu pensamento, na distinção entre fenômeno e
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Livre e necessário têm sentidos opostos. No caso, necessário se opõe a voluntário, em sentido negativo e
em sentido contrário. No primeiro caso: (necessária é a ação que não só não pode não se produzir como não
pode ser voluntária). No sentido de contrário: (necessária é a ação que se produz sob violência ou coação,
contrária ao que se faria em condições normais, fiel ao apetite no animal ou à resolução humana). Há ainda as
ações que se dão por necessidade de preceito ou por submissão servil. Livre deriva de “liber” (livrar) ou
“libet” (agradar). No sentido que predominou na Escolástica, necessária é a ação divina e a de alguns homens
escolhidos por Deus. Indica superação da vontade individual ou, em Deus, absoluto despojamento. Segundo
Suarez, “nunca ninguém duvidou, nem pode duvidar, de se os homens, em muitas de suas ações, agem
espontaneamente e movendo-se e aplicando-se à obra por própria vontade, prévio o conhecimento, senão que
o submetido a controvérsia foi se neste mesmo voluntário se mescla a necessidade e a determinação a uma só
coisa”.(Disputaciones metafísicas. Disputación XIX-Sección II, p.331). Em Schopenhauer, “ser necessário”
significa tão somente “seguir-se de um fundamento suficiente”.