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Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opiniões nele expressas, que não são necessariamente as da UNESCO nem
comprometem a Organização. As indicações de nomes e a apresentação do material ao longo
deste livro não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da UNESCO a respeito
da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, região ou de suas autoridades nem
tampouco a delimitação de suas fronteiras ou limites.
Título original: Educación Secundaria: cambio o inmutabilidad?
© Santillana, 2001
© UNESCO 2002-Edição brasileira
A edição brasileira foi publicada pelo Escritório da UNESCO no Brasil.
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edições UNESCO BRASIL
Conselho Editorial da UNESCO
Jorge Werthein
Juan Carlos Tedesco
Cecilia Braslavsky
Adama Ouane
Célio da Cunha
Comitê para a Área de Educação
Angela Rabelo Barreto
Célio da Cunha
Lúcia Maria Golçalves Resende
Marilza Machado Gomes Regattieri
Tradução: Francisco Baltar e Joaquim Ozório
Revisão: Maria da Conceição Ferreira
Assistentes Editoriais: Larissa Vieira Leite e Maria Luiza Monteiro
Diagramação: Fernando Brandão
Projeto Gráfico: Edson Fogaça
Copyrigth © 2002, UNESCO
Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura
Representação no Brasil
SAS, Quadra 5 Bloco H, Lote 6,
Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, andar.
70070-914 Brasília DF Brasil
Tel.: (55 61) 321-3525
Fax: (55 61) 322-4261
Braslavsky, Cecilia
Educação secundária: mudança ou imutabilidade? / Cecilia Braslavsky.
Tradução de Francisco Baltar e J oaquim Ozório. Brasília : UNESCO, 2002.
406p .
ISBN: 85-87853-51-1
Título original: Educación secundaria: cambio o inmutabilidad?
1. Educação Secundária I. Baltar, Francisco II. Ozório, Joaquim
III. UNESCO IV. Título.
CDD 370
5
SUMÁRIO
Apresentação da Edição Brasileira ................................................................. 7
Jor ge Werthein
Prólogo.................................................................................................................. 9
Juan Carlos Tedesco
Abstract ............................................................................................................... 13
Introdução .......................................................................................................... 15
Juan Carlos Tedesco
1. Aumentar a Participação na Educação Secundária na América
Latina? Diversificação e Eqüidade ....................................................... 23
Françoise Caillods e Francis Hutchinson
2. Continuidades e Rupturas no Ensino Secundário na Europa ...... 61
Joaquim Az evedo
3. Os Processos de Mudança na Educação Secundária Espanhola:
Balanço Provisório ..................................................................................... 97
Elena Martín Ortega
4. A Educação Média Diante do Mercado de Trabalho: Cada
Vez Mais Necessária, Cada Vez Mais Insuficiente .........................127
Daniel Filmus
6
5. Os Processos Contemporâneos de Mudanças da Educação
Secundária na América Latina: Análise de Casos na América
do Sul.........................................................................................................187
Cecilia Braslavsky
6. Políticas Educacionais e Processos de Mudança na Educação
Média do Chile nos Anos Noventa ................................................... 235
Cristián Cox
7. Ensino Médio: Os Desafios da Inclusão .........................................281
Ruy Leite Ber ger Filho
8. Os Processos Contemporâneos de Mudança na Educação
Secundária no Uruguai ............................................................................ 311
María Éster Mancebo
9. Mudanças da Educação Secundária na Argentina .........................339
Ana Lía Fernandez, Silvia Finocchio e Laura Fumagalli
10. A Educação Secundária na Europa e na América Latina.
Síntese de um Diálogo Compartilhado............................................ 387
Cecilia Braslavsky
7
APRESENTAÇÃO
DA EDIÇÃO BRASILEIRA
A UNESCO-Brasil sente-se honrada em apresentar esta edição do
livro A Educação Secundária: Mudança ou Imutabilidade?”, resultante de
dois ricos seminários realizados pelo Instituto Internacional de Planejamento
Educacional desta Instituição em Buenos Aires. A obra abre um leque
diversificado de temas e experiências, pautado pela riqueza profissional dos
seus co-autores. De um lado, temos eminentes educadores que, na maior
parte das vezes, reúnem uma aprofundada formação intelectual com a prática
diuturna de fazer educação e responder às necessidades de transformá-la.
De outro lado, contamos com a abertura de novas perspectivas, num mundo
cada vez mais interdependente. É assim que se focalizam as experiências
européias, em particular as ibéricas, de Portugal e da Espanha, bem como
sobre diversos países latino-americanos, em especial a Argentina, o Brasil, o
Chile e o Uruguai, cada um deles contando com um capítulo especial.
Os textos destacam as profundas transformações econômicas e sociais
do mundo de hoje, em que a ampulheta escorre mais depressa, quer em
países desenvolvidos, quer em desenvolvimento. A vida social e o trabalho
se transfor mam segundo redes que entrelaçam as necessidades de
competitividade e de cidadania, de habilidades e de valores, de saber como
e de saber o quê, para quê e por quê. Os países latino-americanos não se
situam nem entre os ricos que praticamente estenderam a escolaridade
obrigatória até aos 18 anos de idade, nem entre aqueles em que o ensino
secundário ou médio cumpre apenas a função de ponte, a ser transposta por
uma escassa elite rumo aos estudos superiores. Ao contrário, conforme a
expressão de um dos co-autores, essa escola se torna cada vez mais necessária
e cada vez mais insuficiente. Por isso mesmo, trata-se de uma escola que, na
sua expansão muitas vezes assombrosa, não pode oferecer a uma população
agora muito maior a educação que era oferecida antes a grupos restritos.
8
Isso seria transformar em pobreza a riqueza das formações sociais, étnicas e
culturais das novas ondas de adolescentes, jovens e adultos que acorrem ao
ensino médio. Tentar acomodar nas estr uturas velhas essa realidade
multifacetada é o mesmo que empurrar a diversidade para um funil, a fim
de convertê-la em uniformidade, ou num espectro estreito de uniformidades.
Os males que advêm dessa transformação forçada da pluralidade em
singularidade não podem ser poucos, inclusive as violências nas escolas.
Fala-se no livro da moratória juvenil. O trabalho cada vez mais escasso
obriga adolescentes e jovens a per manecer por tempo mais long o nessa
escola, como foi dito, cada vez mais necessária e cada vez mais insuficiente.
Portanto, em termos econômicos, o custo de oportunidade cai e o aluno
espera por tempo mais extenso pela colocação num emprego ou trabalho
de qualidade. Enquanto isso, adolescentes e jovens, independente das carências
pessoais e familiares, devem permanecer numa espécie de limbo, aguardando
o pleno protagonismo das suas vidas.
A obra em tela, ao aprofundar o estudo desses dramas, nos traz um
consolo: o Brasil não está sozinho, nem as dificuldades são exclusivas da
América Latina. Ao mesmo tempo, nos conduz à constatação de que a escola
média não pode mais ser um apêndice do ensino fundamental de massa ou,
ainda, um vestíbulo da educação superior. Ao contrário, precisa ter vida em
si mesma, assumir identidade própria e alcançar altos níveis de qualidade e
democratização. É nesse contexto de convivência necessária entre desiguais
que podemos tirar duas lições. A primeira, referida, que o aumento do
acesso à educação tradicional não responde aos desafios existentes. Não
adianta manter as clivagens sociais por meio da reserva da qualidade para
alguns e expandir a inadequação para muitos, continuando , sob outras formas ,
a divisão entre a “escola para os nossos filhos e a “escola para os filhos dos
outros”, no dizer de Anísio Teixeira. A segunda lição é que, nos interstícios
deixados pela família, pela comunidade e pelos meios de comunicação de
massa, a escola precisa exercer sua função socializadora, em que a sua missão
mais nobreéadecompartir e debater valores, atingindo o homem todo.
Homem que pensa, sente e age. Não é demais relembrar ainda uma vez o
que nunca será lugar comum: cabe também à educação secundária, no século
XXI, basear-se nos pilares de aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a
conviver e aprender a ser.
Jorge Werthein
Diretor da UNESCO no Brasil
9
PRÓLOGO
Juan Carlos Tedesco
Este livro reúne uma série de artigos referentes aos processos de
expansão e às tendências de mudança na educação secundária da Euro-
pa e da América Latina. Tem sua orig em em dois seminários r ealizados
durante o mês de novembro de 1999, em Buenos Aires, pelo Instituto
Internacional de Planejamento Educativo (IIPE) da UNESCO.
O primeiro deles se referiu à A Educação Secundária: mudança ou
imutabilidade? Análise e debate de processos europeus e latino-americanos contempo-
râneos. Reuniu um grupo de mais de 250 expositores, comentaristas e
participantes da Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Brasil, Bolívia, Mé-
xico, França, Espanha e Portug al. O segundo aprofundou aspectos rela-
cionados com a gestão da mudança do ensino secundário na América
Latina e as modalidades mais eficazes de cooperação regional que po-
deriam ser desenvolvidas.
Os seminários, bem como este livro, pr etendem contribuir par a o
diálogo regional a respeito da educação dos adolescentes e dos jovens na
região, incorporando a r eferência a tendências e processos selecionados
do horizonte europeu. A incorporação da análise européia tem a finalida-
de de facilitar a compreensão das origens de algumas características da
ofer ta de educação secundária que se deseja reformar na atualidade.
Na introdução, pretende-se descrever o contexto regional e os
ter mos g erais do debate. A par tir dessa descrição, postulam-se algumas
linhas de r eflexão sobre a vinculação entre planejamento e ação.
O artigo de Françoise Caillods e Francis Hutchinson, pesquisado-
res da sede central do IIPE de Paris, informa a respeito das tendências
de expansão da educação secundária latino-americana, comparando-as
com os processos mundiais.
10
O trabalho de Joaquim Azevedo, ex-Secretário de Educação de Por-
tugal, analisa as continuidades e rupturas que ocorreram no ensino secundá-
rio da Europa, nas últimas décadas. O texto de Elena Mar tín Ortega, ex-
Secretária de Educação da Espanha, e acadêmica da Universidade Autôno-
ma de Madri, aborda o processo de reforma da educação secundária em
seu país, a partir do enfoque de quem, após vários anos de protagonismo,
distancia-se e discrimina aspectos mais ou menos alcançados.
A esses três trabalhos, incluem-se seis que se referem de modo
mais específico à América Latina. O primeiro, de Daniel Filmus, diretor
da FLACSO-Argentina, discute a relação entre o mercado de trabalho e
a expansão da educação secundária. O segundo, de Cecilia Braslavsky,
refere-se às tendências de mudança que se manifestam no mundo e a
seus impactos na América Latina, relacionando-as com as novas deman-
das, pertinentes à educação secundária, e com certos aspectos das refor-
mas em curso.
Em seguida, quatro estudos aprofundam a análise das reformas
na América do Sul. Seus autores têm em comum o fato de que ocupam
posições de responsabilidade na for mulação e g estão de políticas públi-
cas. Eles apresentam as propostas e as metodologias de r efor ma da
educação secundária em seus respectivos países. Trata-se dos trabalhos
de Cristián Cox, diretor de Cur rículo e Avaliação do Ministério de Edu-
cação do Chile; Ruy Leite Berger Filho, secretário de Educação no Bra-
sil; María Éster Mancebo, ex-coordenadora do Projeto de Melhoria da
Educação Média na Administração Nacional de Educação Pública
(ANEP), do Uruguai, e docente nas universidades Católica e da Repú-
blica de seu país; Ana Lía Fernandez, Silvia Finocchio e Laura Fuma g alli,
funcionárias do Ministério da Educação da Argentina.
Embora todos os textos tenham sido revisados depois de suas
apresentações nos seminários, recuperando contribuições dos comenta-
ristas e do público, a riqueza dos debates e dos diálog os foi tal, que
também merecem uma menção especial. Nesse sentido, o último texto
de Cecilia Braslavsky pretende apontar, pelo menos, algumas das princi-
pais convergências entre as análises das apresentações e as reflexões dos
demais comentaristas e participantes dos seminários, organizados pelo
IIPE, em Buenos Aires.
Nesta síntese, recuperam-se contribuições de Etelvina Sandoval,
docente da Universidade Pedagógica do México; Daniel Pinkasz,
11
ex-coordenador do Programa de Transformação Curricular do
Ministério de Educação da Argentina; Marco Antonio Salazar,
coordenador de Secundário do Prog rama de Transformação Cur ricular
da Bolívia; Alicia Camilloni, secretária acadêmica da Universidade de
Buenos Aires; Cristina Vairo, ex-diretora de Planejamento da província
de Córdoba; Jesus Montero Tir ado, destacado educador paraguaio, e
María Antonia Gallar t, pesquisadora do CENEP, da Arg entina. Nela,
pretende-se também r efletir o sentido de numerosas inter venções
adicionais de investigadores, funcionários, professores e diretores de
estabelecimentos educativos que participaram dos diálo g os.
A diversidade de perfis e de inserções institucionais dos autores
dos textos incluídos nesta obra, e de todos os comentaristas e partici-
pantes de ambos os seminários, confere a essas ênfases e convergências
um valor significativo, em termos do estado atual do diálog o latino-
americano, com relação à educação secundária. Em conjunto, esses tex-
tos ajudam a compreender dois fenômenos intimamente vinculados: a
tendência à expansão quantitativa do ensino secundário e os esforços
para constr uir visões e práticas alter nativas. Sua publicação está destina-
da a oferecer, a todos aqueles que se encontram comprometidos com a
análiseeatransfor mação desse nível de ensino, um insumo que per mita
enriquecer a discussão e a tomada de decisões, tanto em nível político
como institucional.
13
ABSTRACT
Secondary Education: Change or Immutability? - Analysis and Debate on
Contemporary European and Latin American Processes is a collection of works
presented in two seminars that took place in November 1999. The seminars
were offered by the International Educational Planning Institute in Buenos
Aires. The different chapters describe the expansion of secondary education
in Latin America and the proposed challenges that exist in terms of identity,
quality and democratization. The processes that occur in Latin America are
compared to the tendencies for change that exist in the world today, particularly
in Europe. This is done with the understanding that secondary school has
been responding to these tendencies and their repercussions in Latin America.
Four case studies on South America are presented from Argentina, Brazil,
Chile and Uruguay. One highlight of the themes that are discussed is the
challenge of the universalization of basic education for all Latin American
youths between 16 and 18 years of age. The entrance of this new population
requires an urgent need for change in order to incorporate diversity and to
adequately respond to the necessities of the social context. One of the
characteristics of this social context is the fact that the process of work
production itself is in transformation. This reduces the number of quality
job opportunities for the population in general, and for youths in particular.
In this sense, youth unemployment causes longer time spent in school and
also creates expectations in relation to job preparation. At the same time,
groups of adolescents and youths as well as adults seeking new school
opportunities, all acquire a new profile. These groups’ demands need to be
met by schools that have their own identity. This means that schools need to
become less identified as secondary schools and more identified as schools
for youths. One of the basic challenges includes the need for a heterogeneous
and flexible approach in order to contribute to reducing social inequality in a
process of democratization.
15
INTRODUÇÃO
Juan Carlos Tedesco*
AS MUDANÇAS NA EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA E O
PAPEL DOS PLANEJADORES
A América Latina é uma região com algumas características pecu-
liares do ponto de vista de sua estrutura social e de seu desenvolvimen-
to. Em termos culturais, embora possua uma enorme diversidade, nela
não se produzir am os fenômenos de integrismo, fanatismo e funda-
mentalismo que se observam em outras regiões do mundo. Em termos
políticos, parece haver superado as tentações autoritárias que prevalece-
ram nas últimas décadas, e a democracia com sérias dificuldades, por
certo tende a consolidar-se na maior par te da re gião.
Do ponto de vista econômico, a maioria dos países conseguiu, nos
últimos anos, alguns avanços importantes, no que diz respeito à estabilidade
das moedas e à integração no mercado mundial. Inclusive, alguns deles
recuperaram também o crescimento. Todavia, as pautas do processo de
desenvolvimento não permitiram reduzir os elevados índices de pobreza,
desemprego e concentração de renda que, tradicionalmente, caracterizam
as diversas sociedades latino-americanas e, na maioria dos casos, essas
marcas se acentuaram.
*
Juan Carlos Tedesco é licenciado em Ciências da Educação (UBA). Foi especialista em
política educacional do Projeto UNESCO-CEPAL “Desenvolvimento e educação
na América Latina e Caribe”, onde foi responsável pelas investigações sobre educa-
ção e emprego; diretor do CRESALC (Centro Regional de Educação Superior para
América Latina e Caribe); diretor do Escritório Regional de Educação para a Amé-
rica Latina e Caribe (OREALC) e diretor do Escritório Internacional de Educação
da UNESCO, em Genebra. Atualmente, é diretor da sede regional do Instituto de
Planificação da Educação, em Buenos Aires.
16
Nesse contexto cultural, político e econômico, existem evidências
fortes de que a educação se converteu num setor-chave das políticas
públicas. Praticamente, todos os países estão executando processos de
transfor mação educativa, que se encontram no centro dos deba tes, tan-
to dos educadores e especialistas em educação como dos demais agen-
tes sociais em seu conjunto.
Os processos de transformação educativa, vig entes na América
Latina, têm exigido, às vezes, dolorosamente, a revisão de muitas idéias,
metodologias e procedimentos tradicionais. Parafraseando uma expres-
são bastante comum, pode-se afirmar que as refor mas não são o que
eram antes. Em primeiro lug ar, não o são, porquanto o que está em
jogo é muito mais transcendental do que aquilo que existia antes dos
processos de mudança educativa. Paradoxalmente, a entrada no século
XXI se parece muito mais com o fim do século XIX do que com os
meados do século XX.
Nessas decisões sobre a transfor mação educativa, está em jogo
nada mais nada menos que o destino das sociedades e das pessoas. A
educação é o sistema social mais importante, do ponto de vista da pro-
dução e da distribuição de conhecimentos, e um consenso bastante
generalizado em reconhecer que será o fator-chave do desenvolvimento
social, político e pessoal no século em que estamos entrando. Por isso,
não é de se estranhar que a discussão sobre os processos de transfor ma-
ção educativa provoque, simultaneamente, grande demanda de consen-
sos, de acordos e de acer tos, e constitua um foco intenso de conf litos.
Dentro desta análise geral, a educação secundária é, provavelmente,
o tema que provoca maiores controvérsias na agenda de discussões dos
processos de transformação educativa. muito tempo que os diag-
nósticos, tanto qualitativos como quantitativos, assinalaram que no ensi-
no médio se concentra a maior densidade de problemas ou, do ponto
de vista das políticas de educação, existe a menor quantidade de solu-
ções e respostas.
Para compreender as razões desse déficit de respostas, é preciso
lembrar que a expansão do ensino fundamental provocou, em quase
todos os países, a massificação do ensino médio e, com isto, a crise do
modelo tradicional que concebia esse nível como um mecanismo de
passagem para a universidade, mediante o acesso à cultura geral.
17
A massificação do ensino médio, no entanto, está também associ-
ada à situação da juventude na sociedade moder na. A propósito, é pos-
sível identificar três g randes tendências nem sempr e harmônicas ou, me-
lhor dizendo, contraditórias entre si, que afetam de maneira decisiva a
situação da juventude. Em primeiro lugar, a tendência para aumentar as
dimensões da vida social sobre as quais os jovens devem tomar deci-
sões. No passado, o referencial do estilo de vida, das maneiras de s e
relacionar e de escolher amigos, de se vestir ou de constituir uma famí-
lia, por e xemplo, estava em g rande par te determinado pela origem soci-
al, pela cultura e pelas instituições. Atualmente, ao contrário, ainda que
existam limitações materiais para fazê-lo, todos os estímulos sociais es-
tão voltados para apresentar muito mais opções nesses âmbitos e para
pretender que cada um tome suas próprias decisões.
Em segundo lugar, o momento de tomar decisões está adiantan-
do de maneira prog ressiva. Tomam-se as decisões cada vez mais cedo.
Até as crianças tomam hoje algumas decisões ou participam de delibe-
rações sobre seus estilos de vida, suas maneiras de vestir, a escolha de
seus amigos, etc., o que antes era totalmente regulado de fora. Noutro
sentido, esse fenômeno se apresenta, por exemplo, por meio da discus-
são que se produz no âmbito jurídico a respeito da idade mínima a
partir da qual uma pessoa é responsável por seus atos, discussão funda-
mental desde que aumentou a delinqüência juvenil e infantil.
Contraditoriamente a essas duas tendências, que melhor refletem
o aumento da autonomia, assistimos a um terceiro f enômeno, segundo
o qual se protela cada vez mais o momento da independência, da auto-
nomia material e financeira, porque cada vez mais é adiado o ingresso
no mer cado de trabalho.
Nesse jogo contraditório de tendências vigentes na sociedade, a
juventude encontra-se numa situação muito complexa. Por um lado,
aparece lig ada a imagens que lhe apresentam um futuro incer to, com
carência de possibilidades, riscos de exclusão, ausência de utopias e de
projetos nos quais vale a pena investir energias e emoções. Por outro, ao
contrário, ela é concebida como o símbolo da criatividade, das
possibilidades de utilização plena das margens de liberdade existentes,
de ruptura com o passado. Embora existam poucos estudos empíricos
sobre esses fenômenos na região, é possível afirmar que esse jog o de
tendências contraditórias não é um fenômeno conjuntural. Tr ata-se de
18
uma questão estrutural muito profunda, à qual se deve prestar muito
mais atenção, se pretendemos encontrar respostas pedagógicas e
educativas adequadas.
A partir desta descrição superficial das transformações sociais, é
possível afirmar que são mudanças integ rais as que se requerem no ensi-
no secundário. Não se trata, apenas, de modificar métodos pedagógicos
nem de r enovar conteúdos, mas de encontrar as fór mulas pedagógicas
e institucionais, tanto do ponto de vista dos conteúdos e dos métodos
como da conce pção institucional da educação, que per mitam articular
essas demandas diferentes e contraditórias. O ensino secundário deve
proporcionar for mação básica a fim de responder ao fenômeno da
universalização da matrícula; preparar para a universidade aqueles que
aspiram a continuar seus estudos; preparar para o mundo do trabalho
os que não continuam estudando e desejam incorporar-se à vida ativa, e
for mar a personalidade integ ral dos jovens, par ticularmente naqueles
aspectos r elacionados com o desempenho do cidadão. Esse conjunto
de demandas implica, sem dúvida alguma, que o tema do ensino secun-
dário seja discutido de forma integ r al.
Nesse sentido, talvez a própria idéia de or g anização do sistema edu-
cativo no primeiro, segundo e terceiro níveis não seja compatível com a
realidade. As exigências sociais e as demandas do desenvolvimento cientí-
fico e técnico suscitam a obrigação de educar-se ao longo da vida, o que
se choca com o conceito de que o conhecimento se desenvolve de forma
progressiva, mediante uma seqüência linear de níveis. Os novos enfoques
indicam que o mais importante é ter boa educação básica geral que per-
mita logo um processo de a prendizag em per manente, ao longo de toda a
vida. Isto, embora possa parecer um pouco distante a países caracteriza-
dos pela existência de populações em situação de extrema pobreza, não é
tanto, desde que se admita que os países e as populações, nesta situação,
não necessariamente têm que percorrer o mesmo caminho que os demais
e as outras sociedades, a fim de chegar ao ponto em que hoje se encon-
tram. É possível, senão necessário, pular algumas dessas etapas, caso se
tenha bem clara a meta que se pretende alcançar.
Dentro dessa significativa diversidade de situações, parece que o
importante, no momento de definir estratégias de mudança, é estabelecer
a seqüência mais adequada às condições e aos pontos de partida. Nesse
sentido, os trabalhos apresentados neste livro permitem, por um lado,
19
articular as tendências g e rais e, por outr o, os casos específicos de países
que enfrentam esses desafios, a partir de situações diferentes. Os casos
constituem exemplos de processos de mudança e são, por isso, uma boa
amostra de que a América Latina não é uma região passiva nem estática.
Além das limitações financeiras, sociais ou políticas, existem processos de
mudança que indicam a presença de uma sociedade e de uma comunida-
de educativa dinâmicas, na busca de soluções. Por essa razão, essa comu-
nidade mer ece um debate mais qualificado de suas pr opostas.
A necessidade de promover um debate mais qualificado das ques-
tões educativas obriga-nos a pensar nossas próprias maneiras de traba-
lhar, nossos deveres e responsabilidades. Nesse sentido, os trabalhos reu-
nidos neste livro, e que cor respondem aos resultados de dois seminários
organizados pelo IIPE, constituem uma boa ocasião para refletir sobre
os novos desafios da prática profissional dos especialistas em educação.
Em primeiro lugar, é preciso assumir a obrigação da clareza. Muitas
vezes, os debates educativos costumam ficar ocultos atrás de explica-
ções muito obscuras, supostamente técnicas, que os agentes sociais não
conseguem compreender e, por conseguinte, não encontram neles ne-
nhum estímulo para sua participação nem qualquer entusiasmo para sua
mobilização.
Em segundo lug ar, existe o dever de serem rig orosos. Nesse pon-
to de vista, é necessário introduzir nas discussões maiores doses de raci-
onalidade, de rig or científico e acadêmico. A experiência de alguns de-
bates recentes mostra que devemos estabelecer o objetivo de superar a
idéia de que o debate educativo é meramente ideológico, e de que nele
são discutidos fundamentos teóricos ou princípios gerais que não
têm muito a ver com o que acontece na realidade. Superar esse enfoque
retórico e puramente ideológico não significa abandonar os valores e a
defesa dos ideais de uma educação comprometida com a eqüidade so-
cial, a democracia, o respeito à diversidade e o desenvolvimento integral
da personalidade. Pelo contrário, a legitimidade da defesa desses valores
será possível se conse guir mos traduzir os postulados gerais por alter-
nativas coerentes de ação política.
Em terceiro lugar, é preciso enfrentar o desafio da complexida-
de. É evidente que não cabem explicações ou estratégias puramente
pedagógicas, separadas do econômico, do social e do cultur al. Esse re-
conhecimento, de que não é possível nenhum reducionismo, também é
20
válido para os outros enfoques: tampouco são possíveis reducionismos
economicistas, sociologistas e culturalistas. Nenhum reducionismo é legítimo
neste momento em que se observa que as situações são enor memente
complexas e que, para entendê-las, são necessários enfoques interdisci-
plinares e que uma das condições fundamentais para o êxito das estraté-
gias de ação é que assumam um caráter sistêmico.
Em contraposição a certas idéias e estereótipos comuns, a com-
plexidade aumenta em condições de pobreza. Com freqüência, desco-
brimos que, quando se trata de entender e trabalhar em situações de
pobreza, formulam-se enfoques simplistas e unidir ecionais. A comple-
xidade parece reser vada às situações de outros setores da população e
da sociedade. A experiência indica justamente o contrário. Na realidade,
a única coisa que é pobre e escassa, em situações de pobreza, são os
recursos materiais; tudo o mais possui muita riqueza e complexidade.
Continuar insistindo numa visão simplista pode ser uma fonte de frus-
trações, que não deve seguir sendo estimulada.
Todos esses elementos são decisivos para a redefinição que atual-
mente experimentam os processos de planejamento educativo. Nesse
sentido, o maior desafio que o planejamentoeagestão educativa en-
frenta é que se vinculam com o dever da antecipação. O planejamento
tradicional antecipava-se ao futur o, fazendo projeções lineares a par tir
do presente e de certos pressupostos que a realidade logo se encarrega-
va de desmentir. A incer teza transfor mou-se em uma constante da soci-
edade moder na, e o futuro, em g rande medida, é um objeto a constr uir.
Nessas condições, antecipar o futuro implica que, até certo ponto, deve-
mos produzi-lo. O futuro não está escrito, os determinismos fatais não
existem e margens importantes para a liberdade e para a ação dos
agentes sociais.
O planejamento educativo não pode continuar sendo um exer-
cício tecnocrático e autoritário que supõe comportamentos dos agentes
sociais, concordantes com estimativas que se podem traçar em escritóri-
os. Embora tenhamos a prendido a valorizar o exercício da liberdade,
nessa última década também aprendemos que a falta total de regulação
também não constrói uma sociedade, e que a aplicação ideológica do
conceito de mercado a todos os âmbitos da sociedade pode provocar
ir racionalidades de custo elevado, do ponto de vista da instr umentação
de políticas públicas. Não se pode sacrificar a liberdade à racionalidade,
21
porque isso conduz ao autoritarismo. Porém, não é também possível,
em função da liberdade, negar a racionalidade e criar uma situação em
que a lei do mais forte prevalece, e não se consegue construir uma
sociedade coesa em que seja possível a convivência.
Essas considerações teóricas ajudam também a encontrar os ca-
minhos a fim de melhorar nossas formas concretas de tr abalhar. Existe
um sentimento compartilhado e generalizado de insatisfação com as ma-
neiras que utilizamos para org anizar nosso trabalho. Em alguns casos,
inclusive, agravou-se a velha dissociação entre os que pensam, planejam
e decidem, sem executar, e aqueles que supostamente executam sem
participar da conce pção das decisões. Hoje, essa distinção está superada
por completo. Nenhuma org anização moder na pode funcionar sem vin-
cular pensamento e ação em todos os seus níveis. Qualquer empresa
moder na caracteriza-se justamente pela ar ticulação entre a concepção, o
planejamentoeaexecução. Por isso, é muito impor tante que os planeja-
dores e administradores da educação assumam o desafio de superar a
dissociação entre planejamento e execução, entre macronível e microní-
vel, entre sistema e instituição educativa.
A teoria, os planos e as concepções, sem compromisso com a
aplicação prática e sem o enriquecimento que chega da realidade, ter mi-
nam por ser um conjunto muito pobre de abstrações que não explicam
nada relevante e não transfor mam realmente o que acontece no sistema
educativo. E, inversamente, as práticas empíricas, acompanhadas por
uma reflexão sistemática sobre si mesmas, não conseguem superar os
limites do imediato e, conseqüentemente, não logram explicar e resolver
problemas cada vez mais complexos.
Em síntese, o planejamento e a gestão educativa tendem a possuir
cada vez mais densidade cultural e política. Esse processo é a contrapar-
tida lógica de nossa pretensão de proporcionar mais densidade técnica
aos compor tamentos políticos e culturais. O caso específico da refor m a
do ensino secundário é um espaço onde se apresenta, com toda a clare-
za, a necessidade de converter a reforma num processo cultural e polí-
tico, sem o que ela não terá o êxito para o qual tecnicamente todos
estamos impulsionando.
23
1.
AUMENTAR A PARTICIPAÇÃO NA EDUCAÇÃO
SECUNDÁRIA NA AMÉRICA LATINA?
DIVERSIFICAÇÃO E EQÜIDADE
Françoise Caillods*
Francis Hutchinson**
A educação secundária é uma das etapas do sistema educativo
que mais se discute atualmente, tanto nos países desenvolvidos como
nos países em desenvolvimento. Nestes últimos, os g overnos e as agên-
cias de cooper ação não haviam dado, até ag or a, a suf iciente importância
à educação secundária. Na verdade, fixaram suas prioridades na educa-
ção fundamental, por um lado, e na educação superior, por outro. Além
disso, esta última nunca deixou de ser prioritária. No entanto, a educa-
ção secundária é parte vital do setor educativo: desempenha um papel
*
Françoise Caillods é licenciada em Ciências Econômicas (opção Econometria) pela
Faculdade de Direito e Ciências Econômicas de Paris e máster de Ciências Econômi-
cas pela Columbia University, Nova York. Atualmente, exerce as seguintes a tivida-
des no IIPE: coordenadora dos programas descentralizados do IIPE; diretora de um
programa de investigação sobre as estratégias de desenvolvimento do ensino secun-
dário; coordenadora do programa de investigação sobre as estratégias alternativas
para os grupos desfavorecidos; coordenadora e participante das atividades de forma-
ção do IIPE e redatora-chefe da série de Princípios do Planejamento da Educação.
Além disso, representa o Instituto no Comitê Executivo da Associação par a o De-
senvolvimento da Educação na África (DAE) e coordena as atividades do Instituto
relativas à DAE.
**
Francis Hutchinson tra balhou, como especialista r esidente/investigador ( r esearch f ellow)
no IIPE, com temas relacionados à expansão da educação secundária. Dirigiu a
edição de um livro sobre o ensino a distância para o IIPE-UNESCO, que será
lançado em breve.
24
central nos esforços que um país realiza para elevar a qualidade de vida
de seus cidadãos e para competir numa economia mundial cada dia
mais globalizada. No começo do século XXI, o desafio da América
Latina será o de oferecer, a cada jovem entre 16 e 18 anos, uma educa-
ção básica de doze anos. Isso significará, por tanto, abrir a educação se-
cundária para todos.
Para aumentar a cobertura, reduzir as desigualdades entre grupos
sociais e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade, é necessário ref or mar
profundamente a educação secundária, adaptando-a, tanto às necessida-
des dos alunos como às dos países. A fim de atender às necessidades de
uma população estudantil muito exigente, bastante heterogênea, é preci-
so diferenciar o tipo de educação que se oferece, permitindo a cada um
explorar seus interesses e aptidões, com o objetivo de favorecer uma
inserção positiva e criativa no mundo dos adultos.
Neste trabalho, discutiremos a necessidade de diversificar as es-
truturas, os conteúdos, a maneira de ensinar e, inclusive, o tipo de peda-
gogia que se deveria propor, se o objetivo que se pretende alcançar for
o de aumentar a cobertura e reduzir as desigualdades, sem que a quali-
dade venha a ser prejudicada.
O nascimento da sociedade da infor mação, g raças ao desenvolvi-
mento das novas tecnologias de infor mação (NTI) e de comunicação,
constitui uma das maiores mudanças desses últimos dez anos. A revolu-
ção das NTI, combinada com a falta de regulação dos fluxos de capital,
per mitiu a universalização da economia. Da mesma for ma que o restan-
te do mundo, a América Latina tem de se adaptar às novas circunstânci-
as. Hoje em dia, os capitais se deslocam muito rapidamente, na busca de
maiores lucros e oportunidades, e nem a existência de recursos naturais
ou de energia nem sequer o preço baixo da mão-de-obra são suficientes
para garantir um crescimento estável. O mais importante é dispor de
uma força de trabalho formada, competitiva e fle xível.
As novas tecnologias transfor mar am profundamente a organização
do trabalho, e os estudos concordam em af ir mar que, para a s empresas,
não basta que uma pessoa saiba ler, escrever e contar; também são
necessárias competências transversais e metodológicas, como a
capacidade de ser cria tivo, solucionar problemas concretos, tomar
decisões de maneira autônoma, tr abalhar em equipe e saber aprender.
25
A maior parte dessas competências metodológicas pode ser adquirida
graças a um ensino secundário de qualidade. Aqueles que não o possuem,
correm o risco de ser excluídos e marginalizados.
A globalização e as novas tecnologias não somente afetam o mundo
econômico e o indivíduo como trabalhador, também têm importantes
repercussões sobre sua vida cotidiana, com o aparecimento constante
de novos pr odutos e serviços que inf luem sobre todos, inclusive nas
populações mais af astadas. Num mundo em permanente mudança, ser
analfabeto não significa não saber ler e escrever, mas, sim, não poder ler
instr uções de uso de um produto novo, não saber decifrar um itinerário
de ônibus, não ser capaz de enfrentar uma série de papéis administrati-
vos que per mitam ter acesso a um crédito bancário nem abrir uma
microempresa ou um negócio e, tampouco, saber usar um computador
ou a internet.
As biotecnologias, que abrem possibilidades de inter venção so-
bre os mecanismos da vida e que permitem as manipulações g enéticas,
implicam uma série de perguntas muito relevantes do ponto de vista
ético, que interessam a todo cidadão. Somente uma educação secundária
completa e profunda, amplamente compartilhada, que integre uma di-
mensão científica e técnica, assim como um conhecimento da história,
da liter atura e d a filosofia, e que permita desenvolver um espírito críti-
co, pode capacitar indivíduos para enfrentar um futuro muito incer to e
prepará-los para desempenhar plenamente seu papel de cidadãos.
Ao mesmo tempo, a globalização, embora permita importantes
possibilidades de desenvolvimento econômico, parece aumentar a
heterogeneidade estrutural que caracteriza os sistemas produtivos da re-
gião latino-americana, assim como aprofundar ainda mais a separação
entre os que possuem mais e os que têm menos, apesar de ser, por si só,
uma das mais altas do mundo. A taxa de desempre go, que também
havia aumentado com as políticas de ajuste estrutural das décadas de 80
e de 90, continua sendo muito alta. O desemprego juvenil é preocupante:
a taxa de desemprego dos jovens entre 15 e 19 anos é três vezes maior
que a nacional (CEPAL, 1997). A CEPAL estima que ag ora, na América
Latina, é necessário ter cursado dez anos de estudos, ou mais, para ter
uma oportunidade razoável de evitar a pobreza.
26
Aumentar a cobertura da educação secundária, dirigindo esforços
paras os mais desfavorecidos, a fim de que eles também tenham acesso
a esse nível, é uma prioridade que deveria per mitir que se rompesse o
círculo vicioso da pobreza.
QUE É A EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA?
QUAL É SEU PAPEL?
A divisão em três níveis, fundamental, secundário e superior, foi
fixada em princípios do século XX. Corresponde a uma certa divisão da
sociedade em classes sociais e a uma estrutura piramidal das qualifica-
ções no mundo do trabalho. Na base dessa pirâmide, um grande núme-
ro de operários e camponeses não necessitava ir além do primário ou
fundamental, onde poderiam aprender a ler e escrever em seis ou sete
anos, além de se disciplinar. No secundário, for mavam as chefias médi-
as, em número muito mais limitado; a elite e os dirigentes do nível mais
alto eram formados na universidade. A educação secundária tinha um
duplo objetivo: selecionar os que iriam ingressar na universidade e for-
mar aqueles que iriam entrar no mundo do trabalho. Aos primeiros,
correspondia a modalidade humanista-científica e, aos outros, a moda-
lidade técnico-profissional.
Agora, com o rápido crescimento do conhecimento e com a
necessidade de que cada um aprenda a aprender para ser mais autôno-
mo e poder desenvolver-se num mundo cada dia mais complexo, essa
estr utura não serve. Em vários países, foi aumentada a duração da
educação obrig atória, criando-se uma educação de base que absor va
todo ou parte do primeiro ciclo da educação secundária (secundária
ou média inferior). Por outro lado, o nível superior está se desenvol-
vendo e diversificando bastante, de maneira que o papel tradicional de
orientação e de formação para o trabalho, que tinha a educação secun-
dária, não é de sua exclusiva responsabilidade. Muitas for mações
curtas de nível superior estão direcionadas para técnicos; outros cur-
sos oferecem uma for mação mais propedêutica e se encarreg am da
orientação dos estudantes. Entre os dois, a educação secundária deve
redefinir seu papel específico.
27
Definida como etapa educacional entre o primário ou fundamen-
tal e a educação superior, que atende aos adolescentes e jovens entre,
aproximadamente, 12 e 18 anos, a educação secundária desempenha um
papel essencial ao consolidar as competências básicas adquiridas na edu-
cação de base e, ao mesmo tempo, orientar os estudantes para as diver-
sas áreas do saber, e facilitar ao indivíduo a identificação e a seleção de
seu futuro educativo e ocupacional. O nível de estudos deveria permitir
aos jovens desempenharem-se, essencialmente, em três níveis:
em nível social, garantir a integração dos jovens de diversas
classes sociais e subculturas e reduzir as desigualdades;
em nível econômico, proporcionar os recursos humanos ne-
cessários para que as economias dos diferentes países continu-
em sendo competitivas e per mitam reduzir os níveis de po-
breza;
em nível ético, for talecer valores e atitudes que possibilitem a
convivência e o respeito ao próximo.
Não podemos dizer que, no momento, o papel destinado à edu-
cação secundária esteja sendo cumprido com êxito. Antes de detalhar
como poderia diversificar-se, a fim de prestar maior atenção às necessi-
dades dos estudantes e dos países, parece necessário analisar o nível de
escolarização secundária na América La tina e sua condição, comparan-
do, par ticularmente, sua situação com a que se observa nos diferentes
países europeus e nos países asiáticos emerg entes.
O NÍVEL DA ESCOLARIZAÇÃO
SECUNDÁRIA NA AMÉRICA LATINA
Nos últimos anos, vários países da região começaram a avaliar a
importância atribuída à educação secundária. Existe uma consciência cres-
cente quanto aos benefícios que o investimento nesse subsetor pode pro-
duzir e do papel que pode protagonizar no desenvolvimento do sistema
educativo, em sua totalidade. O crescimento das taxas br utas de
escolarização é uma prova dessa tomada de consciência, apesar de que a
28
média da região continua muito abaixo das taxas dos países europeus
ou de países emerg entes, como Coréia e Hong Kong. A média a tual é
comparável a das taxas dos novos países emergentes, tais como Malásia,
Tailândia e Indonésia.
A taxa de escolarização no secundário
As taxas brutas da matrícula escolarizada na educação secundária
têm aumentado nos últimos anos na América Latina. Como se depreende
do Gráfico 1, entre 1990 e 1996, as taxas aumentaram em média cinco
pontos percentuais, alcançando 50% do grupo de população corres-
pondente. Alguns países que tiveram um crescimento mais significativo
da escolarização, nesse nível, são: Arg entina, Brasil, Colômbia, Paraguai
e República Dominicana, assim como México e Costa Rica. Outros,
como Cuba, Honduras e Equador, parecem, na realidade, haver regis-
trado uma diminuição.
Embora quase toda a região tenha experimentado um aumento
na taxa da matrícula na educação secundária, existe uma variação consi-
derável entre os diversos países. Três gr upos podem ser distinguidos. O
primeiro inclui países, como Uruguai, Argentina, Chile, Cuba, Peru, Pa-
namá e México, cujas taxas re presentam entre 60% e 85% do g rupo de
idade cor respondente. No segundo, encontram-se países, como Brasil,
Equador e Paraguai, em que entre 40% e 60% dos jovens estão no siste-
ma educativo. O último g rupo compreende países, como Bolívia,
Honduras e Guatemala, onde apenas 40% do g r upo etário, ou menos,
tem acesso à educação secundária.
Existe uma relação entre a riqueza de um país e seu nível de partici-
pação na educação secundária. No Quadro 1, pode-se ver como os paí-
ses com mais riqueza por habitante costumam registrar taxas de matrícula
mais elevadas do que aqueles que dispõem de menos recursos. Além do
fato evidente de que uma maior riqueza permite financiar maiores opor-
tunidades educativas, é provável que os países, com uma renda mais alta
por habitante, tenham um mercado de trabalho que exija de seus trabalha-
dores maior nível de educação. É impor tante, todavia, assinalar que est a
não é uma relação automática, uma vez que certos países cujas estrutu-
ras educativas não se encaixam, da maneira esperada, com sua estrutura
29
econômica. Assim, Peru e Colômbia possuem taxas brutas de matrícula,
na educação secundária, muito mais altas que um país, como o México,
que r e gistra um Produto Inter no Bruto (PIB) muito mais elevado.
É importante comparar a escolarização dos países latino-america-
nos com os níveis alcançados na Europa e no Leste Asiático. Nos países
desenvolvidos, o acesso à educação secundária é quase universal. No que
diz respeito aos países asiáticos, pode-se ver que a Coréia também possui
uma taxa bruta de escolarização, em nível secundário, superior a 100%.
Malásia, Tailândia e Indonésia, países emergentes da segunda ge ração, têm
taxas de escolarização, em nível secundário, acima de 62%, 57% e 52%,
respectivamente, ligeiramente inferiores às taxas do primeiro grupo da
América Latina, com um PIB por habitante, em ger al, mais baixo.
As taxas líquidas de escolarização por idade (Gráfico 2) mostram
uma imagem um tanto diferente. Em geral, as taxas de escolarização
líquidas são muito mais baixas. Através delas, pode-se ver que os países
da região ainda estão distantes de uma educação secundária para todos.
Na idade de 15 anos, que corresponde aproximadamente ao ingresso
na educação secundária no Chile e no Polimodal na Arg entina (nível
secundário superior), as taxas mais altas são registradas no Chile, no
Uruguai e na Argentina. São inferiores às taxas líquidas de escolarização
secundária na Coréia e nos países europeus, porém superiores às da
Tailândia e da Indonésia. Não é o caso dos demais países, cujas taxas de
escolarização são significativamente mais baixas nesse grupo de idade.
Em todos os países, a diminuição das taxas de escolarização entre 15 e
17 anos é importante, o que demonstra uma elevada evasão no nível
secundário superior.
O Gráfico 3 mostra o número de egressos da educação secun-
dária com o percentual do grupo de idade correspondente. Confor-
me pode-se observar no g ráfico, os países latino-americanos não têm
taxas muito elevadas. O Chile tem uma taxa de 49%, Arg entina, Brasil
e México têm taxas de 34%, 34% e 26%, respectivamente. Isso quer
dizer que, no país com a cobertura educativa mais ampla, a metade
dos jovens não consegue obter uma qualificação secundária completa.
No México, esse g rupo re presenta, apenas, a quarta par te do g rupo de
idade relevante. A comparação com os países desenvolvidos ou com
os países emergentes da Ásia torna-se, assim, bastante desfavorável
para a América Latina.
30
O crescimento da ma trícula do nível secundário, em muitos países
da América Latina, deve-se, sem dúvida, a que um maior número de
crianças termina ag ora a educação primária ou fundamental. Em princípio,
a maioria dos países da região tem taxas brutas de matrícula na educação
fundamental superiores a 100%. Há, todavia, diferentes níveis de eficiência
interna e, em certos países, muitas crianças que começam, não chegam a
ter miná-la. Uma análise das taxas de retenção nos diferentes países latino-
americanos mostra que existe uma grande variedade, e que ainda são
poucos os países em que 80% das crianças, que ingressam, chegam a
concluir o quinto ano da educação fundamental (Cuba, Uruguai, Chile,
Costa Rica, México e Panamá).
Uma análise do fluxo de estudantes, através de três sistemas
educativos (Costa Rica, Arg entina e Chile), permite destacar certas dinâ-
micas interessantes.
Em Costa Rica, o número de estudantes diminui, de for ma
gradativa, durante a educação fundamental. uma boa transição entre
a educação fundamental e a secundária, porém, depois do primeiro ano
de educação secundária, muitos estudantes abandonam o sistema
educativo. Somente 20% dos que ing ressaram no primeiro ano chegam
ao último ano da educação secundária.
A situação na Argentina é muito semelhante. Existe uma diminui-
ção constante do número de estudantes durante a educação primária.
Não grande diferença entre o número de estudantes de série e do
ano da educação secundária. Isto significa que quase todos os egres-
sos da educação primára entram em uma escola secundária. Depois do
primeiro ano, porém, o s estudantes começam a abandonar o sistema
educativo. O número de estudantes no último ano é uma fração diminuta
dos que ingressaram no sistema educativo (Gráficos 4, 5,6e7).
Em ambos os casos, a perda de estudantes ocorre de maneira
constante, mas não assustadora, durante a educação fundamental. De-
pois, contrariamente ao que se poderia supor, a transição entre a educa-
ção primária ou fundamental e a secundária produz-se sem maiores pro-
blemas. Por último, é durante a educação secundária que a e vasão cheg a
a uma proporção preocupante.
A situação no Chile é diferente. Existe uma boa retenção duran-
te os primeiros anos da educação primária (fundamental). Depois do
quinto ano, os estudantes começam a evadir-se do sistema educativo.
31
No entanto, diferentemente de Costa Rica e da Argentina, esse f enôme-
no não é intenso e não se agrava tanto durante a educação secundária.
A análise anterior permite destacar que não é tanto a transição
entre a educação fundamental e a secundária que oferece dificuldades,
mas a evasão gradual ao longo de todo o processo de escolarização que
se amplia a partir do primeiro ano da educação secundária. A que se
deve essa evasão?
Faltam estudos precisos, mas é muito provável que esteja ligada
ao problema da oferta (nem a qualidade e nem a organização da oferta
são adequadas) e a problemas de demanda (os jovens têm que trabalhar
e ajudar a sua família e/ou não podem financiar os custos de sua esco-
laridade). O peso de cada um desses fatores depende do país e da re-
gião dentro do país.
Qualidade do ensino
A qualidade da educação depende também do país e mais ainda de
quem financia e dirige as instituições. Em geral, a qualidade da educação
secundária não é satisfatória, devido, entre muitos fatores: a um pessoal
docente insuficientemente capacitado e motivado (com baixos salários); à
escassez de material didático de qualidade; a conteúdos curriculares
ir relevantes e a práticas administrativas ineficientes. Esses fatores afetam,
neg ativamente, os resultados pedagógicos. No Brasil, por exemplo, em
1995, 60% dos estudantes do ano da educação secundária não respon-
deram, de forma adequada, a perguntas de matemática de nível de ou
série no exame do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica).
Alguns países, tais como Argentina, Chile, Uruguai e, agora, Bra-
sil, levaram a cabo, ou estão começando a fazê-lo, uma profunda re vi-
são de seus cur rículos. Nos demais países, contudo, o cur rículo, tal como
está oper acionalizado nas aulas, privilegia a formação de uma cultura
científica e humanística, de caráter essencialmente academicista e
enciclopedista, para uma elite constituída pelos filhos da classe média e
média alta, que continuarão na universidade. Nesse cur rículo, são privi-
legiados todos os conhecimentos, acima das habilidades e competênci-
as. Não está orientado para satisfazer nem aos interesses nem às necessi-
dades dos adolescentes que, muitas vezes, se aborrecem nas escolas.
32
Outro problema, ainda mais impor tante, é o do professorado.
Em muitos países da região, os professores têm um encarg o por hora.
Para compensar um salário baixo, muitos deles ensinam em várias insti-
tuições, públicas e privadas, diurnas e noturnas (os “professores táxis”).
Uma vez ter minada sua aula, o professor par te para atender à outra,
muitas vezes fora do estabelecimento, de tal for ma que não fica nem à
disposição dos alunos nem do dir etor da instituição. Entre os diretor es
de secundário, poucos são os que podem reunir seu corpo docente, a
fim de discutir e construir, conjuntamente, uma proposta pedagógica
para o g r upo. Isso também significa que os professores não estão dis-
poníveis para r eceber capacitação adicional em seu local de trabalho.
Em cada país, instituições de alta qualidade que dependem do
setor privado, mais que do setor público e das universidades. Os Gráfi-
cos4e5comparam, em 1992, os rendimentos em matemática e ciência,
entre a média dos estabelecimentos particulares de prestígio e as institui-
ções públicas de baixa qualidade. As diferenças de resultados podem ser
muito importantes, como na Colômbia, onde os alunos dos estabeleci-
mentos particulares para a elite tinham, em 1992, resultados em mate-
mática, mais de duas vezes melhores do que os das instituições públicas
de baixa qualidade. Esses gráficos ilustram as desigualdades profundas
na qualidade da educação entr e os estabelecimentos: o cur rículo, o perfil
dos prof essores e do alunad o e o equipamento variam confo r me a or-
ganização que financia ou organiza a oferta (entidade privada, federal,
provincial, estadual ou universidade) (Gráficos8e9).
Assim, a educação secundária não contribui para reproduzir
como para aumentar as desigualdades sociais.
Gasto
O aumento da participação e da qualidade na educação primária
ou fundamental e secundária requer um maior investimento de recursos.
No que diz respeito ao gasto com educação, todos os países latino-
americanos estão investindo quantidades maiores de recursos em 1995,
em comparação com 1990, com exceção do Uruguai.
Em ter mos relativos, a maior parte dos países da região aumen-
tou, de modo significativo, a proporção do PIB investida em educação,
33
entre 1990 e 1995, que essa proporção alcança agora entre3%e4%.
O nível de investimento atual compara-se, de maneira favorável, com o
dos países asiáticos, porém permanece abaixo do que gastam os países
desenvolvidos. Esses, exceto Japão e Alemanha, investem mais de 5%
do PIB no setor educativo.
No entanto, se o g asto com educação for analisado como
percentual do gasto público, a situação se inverte. Os países latino-ame-
ricanos investem em educação uma proporção maior de seus recursos
públicos do que os países desenvolvidos. Em média, investem em tor no
de 15% do orçamento estatal, com o que se colocam acima dos países
desenvolvidos que investem, aproximadamente, 10% de seus recursos
públicos nesse setor.
Em outras palavras, convém dizer que, se os países da América
Latina quisessem gastar em educação a mesma proporção do PIB apli-
cada pelos países desenvolvidos, d everiam dedicar, para tanto, um
altíssimo percentual de seu orçamento estatal (o que parece muito difícil,
num contexto de desregulação e de ajuste estrutural), ou privatizar, de
for ma substancial, o financiamento da educação, o que também parece
inaceitável, quando o objetivo é aumentar a escolarização de todos os
setores da população. De vido ao teto orçamentário, parece que os paí-
ses da América Latina têm que buscar uma maneira de dar educação de
melhor qualidade a um maior número de pessoas, sem que aumente
muito o custo por habitante. Em conseqüência, é necessário melhorar a
eficiência no uso de seus recursos e buscar, continuamente, soluções efi-
cientes e originais (Gráficos 10 e 11).
O Gráfico 12 ilustra a grande variedade de custo por aluno na
educação secundária, que e xiste entre os países, em ter mos do percentual
do PIB por habitante. Demonstra que esse custo é bastante baixo em
alguns, tais como Uruguai, Chile e Peru, que alcançam altos níveis de
participação no secundário, e muito mais alto em outros, como México
e Costa Rica, cujas taxas de participação no secundário são muito mais
baixas. Cabe destacar que, dentro de cer tos limites, não existe uma rela-
ção direta entre o custo por alun o e a qualidade do processo educativo,
tal como se mede em pesquisas inter nacionais sobre resultados educativos.
Japão e Coréia têm, em média, melhores resultados que os Estados
Unidos nas recentes pesquisas internacionais em ciências e matemática,
apesar de gastarem muito menos por aluno (IEA, 1995). Sendo assim,
34
as cifras mencionadas antes, sobre os custos por aluno, devem ser anali-
sadas com o maior cuidado, que se faz necessário estudar, em cada
país, o nível de g asto e o padrão de financiamento. Elas demonstram,
contudo, que, em cer tos países, seria possível fazer mais, utilizando me-
lhor os recursos existentes (
AGUERRONDO, s.d.). (Gráfico 12).
Em resumo, ao começar o século XXI, os países latino-america-
nos terão que:
ampliar a participação na educação secundária para grupos so-
ciais, étnicos e geográficos que atualmente não têm acesso a ela;
melhorar a qualidade, pois, expandir o modelo tal como está,
com os prob lemas que tem, não teria sentido e não permitiria
aumentar a retenção e os resultados educacionais;
melhorar a relevância dos cursos que, entre os estudantes
que estão por concluir a educação secundária, são poucos os
que poderão continuar seus estudos em nível superior. De fato,
para muitos estudantes, a educação secundária representa a úl-
tima opor tunidade de escolarização for mal.
Todas essas mudanças deveriam produzir-se, levando em conta a
existência de um teto orçamentário.
Nesse contexto, serão discutidas as possibilidades de diversificar
estruturas, conteúdos e modalidades de oferta da educação secundária.
AS ESTRUTURAS DE EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA
SÃO OBSTÁCULOS A UMA MAIOR PARTICIPAÇÃO?
A estrutura do sistema educativo apresenta profundas transfor-
mações em muitos países latino-americanos. O Quadro 1 demonstra a
diversidade de estr uturas educacionais nos países da região. Como se
pode ver, não consenso com relação onde termina a educação fun-
damental e onde começa a secundária. Dependendo do anterior e da
duração da educação primária ou fundamental, o número de anos que a
educação secundária cobr e varia de forma significativa: três anos em El
Salvador e no Brasil; quatro anos na Bolívia e no Chile; cinco anos no
Peru e seis anos na Colômbia. Muitas vezes, a educação secundária está
35
diversificada inter namente em dois ciclos de vários anos de duração, um
inferior e outro superior, e cada um deles tem seus objetivos pedagógi-
cos. Cada um pode responder a nomes distintos (secundário, médio,
terceiro ciclo, ensino médio, polimodal, etc.). A promoção não é auto-
mática (pelo contrário, as taxas de repr ovação e re petência continuam
sendo bastante altas), porém, uma vez aprovado em um nível, o aluno
pode passar para o ciclo ou nível seguinte. Não existe, pois, seleção de
um cic lo para outro, mas esses ciclos podem ser dividirdos em institui-
ções diferentes.
Simplificando um pouco, destacam-se na região dois ou três mo-
delos de estr utura: seis anos de primário, seguidos por três anos de pri-
meiro ciclo de secundário e três ou dois anos de secundário superior
(6+3+3 ou 2). Esse parece ser o modelo dominante na região, também
encontrado em muitos países da Ásia, influenciados pelo sistema america-
no. Um segundo modelo se observa no Brasil, Chile e Bolívia: oito anos
de primáro ou fundamental, seguidos por três ou quatro anos de secun-
dário, divididos em dois ciclos (8+3/4). O terceiro modelo encontra-se
agora na Argentina, Venezuela e El Salvador: compreende nove anos de edu-
cação de base (excluindo o pré-escolar) e três (ou dois) anos de secundário .
Não se sabe exatamente por que um país opta por um modelo
ou outro. De pende da tradição, do modelo nos países vizinhos, da opi-
nião de vários grupos de pressão (mestres, professores ou acadêmicos),
da idade com que se considera normal que os jovens saiam e comecem
a tr abalhar e, talvez, dos recursos disponíveis.
Até que ponto, estruturas diversas inf luem sobre a retenção, os
resultados educativos e os custos?
Os pedagogos conhecem muito bem a dificuldade que têm os
alunos que ingressam na educação secundária para adaptar-se à nova
org anização. Nas primeiras séries do primário ou fundamental, na mai-
oria dos casos, um mestre ensina todas as disciplinas ao mesmo
grupo de alunos; é ele quem se encarrega de realizar a integração das
diversas disciplinas para seus alunos. Na educação secundária, ao con-
trário, predomina a lógica da disciplina, isto é, para cobrir o cur rículo,
são necessários até onze professores, cada um dos quais ensina uma
ou duas disciplinas.
A integração das diversas disciplinas e a relação do que ele aprende
com o contexto que conhece em sua vida diária, e com o que sabe, é
36
responsabilidade do próprio estudante. Segundo algumas interpretações,
a lógica da disciplina passa por cima da lógica do aluno (UNESCO, 1998).
A partir desse ponto de vista, uma educação de base integrada, de
oito ou nove anos, em que poucos professores ensinam menos discipli-
nas, deveria facilitar a compreensão dos alunos, seus resultados e, no
final, sua retenção até terminar os oito ou nove anos de educação fun-
damental. O fato de não mudar de estabelecimento se os alunos con-
tinuam dentro da mesma escola e não têm que percorrer grande distân-
cia também deveria facilitar a per manência no sistema educa tivo. Por
outro lado, uma educação de base, de oito ou nove anos, pode sair
menos onerosa do que uma educação primária ou fundamental de seis
anos, seguidos por três anos de escola secundária.
Na realidade, a situação não é tão c lara nem tão simples. No Chile
e no Brasil, desde o segundo ciclo da educação primária ou fundamental
(da à série), o ensino não é globalizado, e diversos prof essores
até sete ensinam as diferentes ma térias do currículo. Na Argentina, em-
bora se fale de nove anos de educação primária, em muitos casos os
alunos que passam da para a série devem mudar de esta belecimento.
Deixando que os especialistas do currículo e os pedagogos deci-
dam a partir de que idade deveriam ser ensinadas as disciplinas de ma-
neira separada, com diversos professores, para não prejudicar a qualida-
de da aprendizagem, deve-se reconhecer que o fator mais importante
não é tanto a questão da estrutura, mas a questão do professorado (mes-
mo que se queira dar prioridade à per manência, seria melhor localizar a
escola secundária inferio r o terceiro ciclo perto da escola primária
ou fundamental e não dentro do segundo grau ou do ensino médio).
Para facilitar a aprendizagem dos alunos, pelo menos até o ano,
seria desejável ter menos professores que ensinem duas ou três discipli-
nas, de maneira integrada, construindo a partir do que a criança sabe.
Seria ainda melhor, se fosse possível mudar os termos de recrutamento
e de pag amento dos professores, de modo tal que per manecessem mais
tempo na instituição a f im de, por um lado, dedicarem mais tempo a
seus alunos e, inclusive, poderem oferecer apoio àqueles que têm difi-
culdades e, por outro, coordenarem suas matérias com as dos demais
professores da classe. Se não se consegue chegar a essas modificações,
as medidas que se tomarem para melhorar o currículo e a qualidade em
geral cor rem o risco de não ser eficazes.
37
A DIVERSIFICAÇÃO NECESSÁRIA DOS CONTEÚDOS
A massificação da educação secundária faz com que ingressem
nos colégios e estabelecimentos de segundo grau grupos muito mais
heterogêneos que antes, em ter mos de idade, origem socioeconômica,
capital cultural, atitudes e resultados. Pode ser que haja, numa mesma
escola ou aula, crianças que saibam ler e escrever e outras que não. O
desafio é saber como ensinar e como motivar um gr upo heterogêneo.
Diversificação ou compreensibilidade?
alguns anos, organizavam-se modalidades em vários países,
paralelamente com o nível do ciclo inferior do secundário. Com o pro-
longamento da educação obrigatória, a tendência foi unificar os currícu-
los no ciclo inferior e enfatizar os conteúdos básicos comuns, no que se
definiu como um ciclo de orientação. O objetivo nesse nível foi, na
verdade, consolidar os saberes e competências básicas.
Somente em alguns países, como Costa Rica, México ou Brasil, con-
tinua existindo, no nível do ciclo inferior, uma diferenciação entre modalida-
des profissional e geral. Uma maioria de países latino-americanos considera
que a melhor maneira de atender à diversidade do alunado é escolarizar
todos os estudantes, em um mesmo tipo de instituição, no secundário infe-
rior, aceitando, não obstante, uma diversificação de fato entre instituições,
províncias ou estados. Em nível da educação secundária superior, várias
modalidades (humanidades, artes ou ciências, agrícola, industrial, etc.) que
são oferecidas em vários tipos de instituições de qualidade diversa.
Todavia, oferecer a todos, em nome da eqüidade, o mesmo con-
teúdo, pr estar os mesmos ser viços e adotar idênticas estratégias peda-
gógicas, equivale a privilegiar uma eqüidade formal, teórica, diante de
uma eqüidade real. Para chegar a uma eqüidade real, não seria necessário
diferenciar mais os conteúdos, deixando para cada escola ou província a
possibilidade de definir seu próprio currículo?
O debate existe em nível internacional. Na Europa, grande
diversidade de práticas entre, por exemplo, os países g er mânicos e a
França. Nos primeiros, mantém-se uma diferenciação depois da educa-
ção fundamental. Atualmente, é oferecido o ciclo inferior da educação
38
secundária, denominado ciclo de orientação, em vários tipos de institui-
ções que preparam os alunos para ingressar nas diversas instituições e
modalidades existentes na educação secundária superior. Na França,
um único tipo de escola com muito pouca flexibilidade em relação a
cur rículo. Em nenhum dos dois casos existe cor respondência.
Na Alemanha, compatibilizou-se o currículo oferecido nas diver-
sas instituições e foram abertas possibilidades de mudança de orienta-
ção. Na r ealidade, uma orientação tão avançada se justifica porque
não grandes diferenças de prestígio entre as modalidades acadêmica
e técnico-vocacional, na sociedade desse país e em seu mercado de tra-
balho. Isso, contudo, constitui um caso muito específico. Na França, o
colégio único é objeto de muitos debates, que não puderam eliminar
nem as desigualdades sociais nem as diferenças entre esta belecimentos.
Pretende-se introduzir maior flexibilidade, mediante poucas opções e
os projetos institucionais que os estabelecimentos desenvolvem.
Na educação secundária superior, em nível internacional, é ofere-
cida uma diversidade de currículos, paralelamente por meio de ramos e
modalidades (tradição da Europa continental), ou por meio de opções
(tradição mais anglo-saxônica).
Do ponto de vista do planejador, fica mais fácil prever o número
de alunos e de professores que devem ser escolhidos num sistema que
oferece modalidades e poucas opções. Além disso, a org anização em
modalidades tor na-se, no final, menos oner osa, que per mite maior
utilização dos professores. A menos que se ofereçam muitas modalida-
des na mesma escola, o problema é que não grande flexibilidade
cur ricular. Em ter mos de igualdade de oportunidades, duas questões
devem ser levadas em conta: Quando introduzir a especialização o
mais tarde possível para não cometer erros graves e como garantir
que todas as modalidades se beneficiem com o mesmo reconhecimento
social e de trabalho.
O outro sistema consiste em introduzir opções que os estabeleci-
mentos ou os alunos possam escolher. Esse sistema oferece, em princí-
pio, maior flexibilidade e per mite, por exemplo, que cada estabeleci-
mento adapte sua ofer ta às características da zona, onde está localizado,
e de seu alunado. A experiência da Inglater ra, como a de muitos países
da Ásia e da África, demonstra que também não é tão simples. Em
primeiro lugar, essa possibilidade pode sair muito cara, se numerosos
39
estabelecimentos pequenos tratarem de oferecer várias opções. Em se-
gundo lugar, muitas vezes, o sistema aumenta as desigualdades: primei-
ramente, entre estabelecimentos entre escolas rurais, com um reduzi-
do número de alunos e que, por essa razão, podem oferecer todas as
opções; escolas particulares de prestígio e colégios grandes, em zonas
urbanas, que podem oferecer todas as opções e, depois, entre classes
sociais: os estudantes e as famílias de classe média e média alta sabem
quais são as opções que abrem maiores oportunidades para o restante
da carreira acadêmica e profissional, enquanto que os demais que não
estão “infor mados” costumam selecionar opções somente porque
parecem mais simples.
Na América Latina, como vimos, as diferenças entre os colégios
são muito g randes. O cur rículo e a qualidade da educação varia confor-
me a modalidade oferecida e, mais ainda, confor me a entidade
financiadora ou org anizadora dos serviços (entidade privada, pública,
federal, provincial, estadual, universidade).
O desafio é como injetar mais eqüidade em um sistema tão segmen-
tado. Aumentar a autonomia dos estabelecimentos, deixando com cada um
a responsabilidade de selecionar as opções que vão oferecer, pode, na ver-
dade, incrementar as diferenças entre eles, em lugar de atenuá-las. Or ganizar
uma competição entre instituições educativas, com as famílias que selecio-
nam as escolas para onde mandarão seus filhos, não é suficiente para reduzir
essas desigualdades. Tampouco é seguro que uma maior privatização da
administração das escolas, com subsídios através de vouchers, solucione o
problema (
CARNOY, 1999). Para reduzir as desigualdades entre escolas, é pre-
ciso melhorar a qualidade em todas, mas focalizar também a atenção, locar
os recursos e prestar uma assistência técnica às escolas e às províncias que
possuem menos recursos humanos e financeiros.
O futuro da educação técnico-profissional: preparação para
o trabalho, proposta pedagógica ou necessidade de atender
às carências dos alunos?
A transição da escola para o lugar de trabalho representa um dos
grandes problemas que os sistemas educacionais da América Latina
devem enfrentar. A educação técnico-profissional foi criada como
40
resposta a esse problema. No momento, a ma trícula nas modalidades
técnico-profissionais representa mais de 20% da matrícula secundária
total, praticamente na metade dos países. Este percentual é
particular mente elevado em El Salvador e no Chile, onde as escolas
técnico-profissionais detêm mais, ou aproximadamente, a metade da
matrícula total.
Nos últimos anos, a utilidade de uma formação técnico-profissio-
nal, dentro das escolas secundárias, foi objeto de críticas muito virulentas: a
formação é onerosa, que nela o custo de escolarização por aluno duplica
ou triplica o dos colégios acadêmicos; nem sempre é de boa qualidade e os
estabelecimentos não se adaptam com suficiente rapidez às mudanças que
se produzem na esfera produtiva. O desemprego de um grande número de
egressos de institutos técnicos demonstra que a habilidade para encontrar
ocupação está mais estreitamente vinculada com a condição socioeconômica
do aluno e com a qualidade da educação recebida, do que com o tipo de
educação demandado. Além disso, consider a-se que a educação técnico-
profissional não oferece custo/benefício positivo, pois, quando possui alta
qualidade, muitos de seus egressos entram na universidade, em lugar de se
inserir no mercado de tra balho.
Nesse debate, estão entrelaçadas três lógicas:
uma lógica da demanda de mercado de trabalho, segundo a qual
não se deveriam formar mais pessoas do que as que podem ser
absorvidas por ele (
MIDDELTON; ZIDERMAN & VAN ADAMS, 1993);
uma lógica das demandas das famílias, de acordo com a qual
as da classe média baixa tratam de dar a seus filhos uma dupla
qualificação: uma educação científica geral, que os prepara para
ingressar na universidade, se pudere m, e uma formação técni-
ca especializada que os prepara para um ofício, no caso de não
poderem continuar seus estudos;
uma lógica pedagógica, segundo a qual o valor da for mação
técnico-profissional vai além da preparação para uma entrada
imediata n o mundo do trabalho, e tem uma função pedagógi-
ca, integ rando a formação científica e tecnológica com o apren-
der fazendo, e enfatizando uma metodologia indutiva. Dessa
for ma, facilita a aquisição de saberes e competências àquelas
crianças que têm dificuldades com disciplinas abstratas.
41
As aceleradas transformações ocorridas nos modelos produtivos
e a organização do trabalho obrigam a que se desenvolvam novas com-
petências por parte dos trabalhadores. O antig o modelo de um operá-
rio “qualificado”– que possuía formação profissional especializada e
experiência de trabalho foi substituído por um operário ou um técni-
co “competente”, flexível, capaz de pensar e de solucionar problemas,
responsável, apto a tomar decisões de maneira autônoma e de respon-
der rapidamente a “sinais” que vêm da máquina ou do mer cado. Essas
competências se adquirem na educação secundária geral (se realmente se
mudarem e desenvolverem conteúdos menos abstratos, mais práticos e
mais contextualizados) e em uma educação técnico-profissional de qua-
lidade, em nível secundário e superior.
As tendências internacionais consistem em elevar o nível de recru-
tamento (em nível do secundário superior), reforçar os conteúdos técni-
co-científicos (como uma das competências fundamentais básicas), re-
duzir o número de especialidades que se oferecem na educação técnica,
reagrupando os programas por famílias de profissionais (em torno de
competências comuns ou chaves) e introduzindo, ao longo do curso,
módulos especializados e opções (
ATCHOARENA & CAILLODS, 1999).
Em certos países, a educação técnica está sendo integrada com a
educação geral, em um número limitado de modalidades, cujo objetivo
é orientar os alunos par a g randes famílias ocupacionais. Ao mesmo tempo,
desenvolvem-se alter nativas de f or mação profissional, de for ma análo-
ga, (em horário especial), para os que desejam realizar uma opção
vocacional. Na Argentina, foram formatados Trajetos Técnico-Profissi-
onais, em várias especialidades, que poderiam funcionar no horário es-
pecial das antigas escolas técnicas. Mesmo assim, no Brasil, as escolas
técnicas oferecem, em horário especial, uma formação técnica aos que
seguem (ou seguiram) uma educação secundária.
A elevação do nível teórico da educação não deixa de apresentar
problemas referentes à preparação direta para o trabalho: muitas em-
presas mais tradicionais, que trabalham para o mercado local, buscam
jovens que sejam capazes de desempenhar funções concretas ao termi-
nar a escola. Para resolver esse problema, muitos países tratam de estrei-
tar laços com o mundo do trabalho, mediante estágios, formação práti-
ca em empresas ou aprendizagem de longa duração na empresa.
42
Surge outro problema, porque o emprego no setor moderno
diminuiu, de forma muito significativa, em vários países da região, e porque
o desempre go afeta jovens ou adultos de nível educativo cada dia mais alto.
Em muitos países da América Latina, uma pessoa que não ter minou a
educação secundária tem dificuldades de encontrar um trabalho fixo no
setor moderno. Muitos alunos, que cursam somente a educação fundamental
obrigatória ou que não completam a secundária, correm grande risco de
ficar desempreg ados ou subempregados no setor informal da economia.
Não muitas soluções para esse problema somente em nível da
educação, no máximo, pode-se tratar, em primeiro lugar, de manter o mai-
or número de jovens dentro da escola, com o risco de deslocar o problema
para um nível mais elevado do ensino. Em segundo lugar, é indispensável
proporcionar, na educação secundária, uma educação de qualidade e
contextualizada, e adotar métodos de ensino que favoreçam a aprendiza-
gem da autonomia, por meio do trabalho individual, utilizando materiais
didáticos ou novos meios de comunicação, ou mediante a realização de
projetos em grupo, como se faz na educação técnico-profissional.
Em terceiro lugar, é indispensável diversificar os lugares onde se
adquirem as diversas competências: na escola geral, na escola técnico-
profissional, em centros de for mação prof issional e no trabalho; cons-
truindo pontes entre vários cursos e modalidades de aprendizagem e
facilitando o retor no à educação ou à formação prof issional, de pois de
um período de ausência, trabalho ou desempreg o (UNESCO, 1996).
Em um mundo de mudança permanente, é preciso pensar numa educa-
ção ao longo de toda a vida. A idéia não é nova, sua implementação é
muito difícil, requer um sistema educativo bastante flexível, que até ago-
ra não existe, e um sistema longo de certificação das competências, que
também não existe em muitos países.
Diversificação da Oferta
Grande número de países está longe de oferecer uma educação
secundária para todos. Também, não se encontram em condições de
assegurar uma oferta a todos os egressos da educação primária ou fun-
damental, seja por motivos financeiros, por razões físicas (seria muito
dispendioso oferecer uma educação secundária tradicional, em comuni-
43
dades tão af astadas e dispersas, como as que se encontram no México,
no Peru, na Argentina e em muitos países da região) e/ou por falta de
flexibilidade do sistema tradicional (muitos jovens estão trabalhando).
Não obstante, vários países decretaram a obrigatoriedade da educa-
ção secundária (como fizeram México e Peru ) e terão de cumprir com essa
obrigação. A única maneira de oferecer educação a toda a população, em
idade de freqüentar a escola, é mediante modalidades alternativas. Essas
modalidades podem ser, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade de
revisar o modelo pedagógico que está sendo oferecido.
Educação a distância
A América Latina acumulou muitas experiências em matéria de edu-
cação a distância, sobretudo no primeiro e terceiro níveis. Ultimamente,
vários programas foram desenvolvidos em nível secundário: alguns utilizam
os novos meios de comunicação, tal como o prog r ama “Telessecundário”,
no México” , e o Telecurso 2000, no Brasil; outros combinam o uso de
material didático, autores e professores itinerantes: é o caso do programa de
terceiro ciclo da Educação Geral Básica, em escolas rurais da Argentina.
O prog rama “Telessecundário” foi criado no México, no f inal da
década de 60, como um instrumento elaborado para levar o serviço
educacional a zonas afastadas e escassamente povoadas, onde o custo
de criar e manter escolas secundárias convencionais seria proibitivo. O
ensino é executado utilizando-se três componentes: televisão; livros e
materiais didáticos; professores/facilitador es. Cada lição começa com
um programa de televisão de 15 minutos, seguido por uma sessão de
discussão com o pr ofessor /facilitador. Com poucos recursos humanos
(um mestre por série) e com o apoio de programas de televisão, pro-
porciona-se uma oferta educativa semelhante à que funciona nos secun-
dários convencionais. Além disso, enfatiza-se o papel dos estudantes na
comunidade. Em 1999, quase um milhão de jovens acompanhou esse
curso. É, pois, um instr umento muito impor tante para a escolarização
de adolescentes em zonas rur ais.
Os resultados mostram que a permanência no programa
“Telessecundário” não é tão alta como nas outras modalidades, o que
era previsível. No entanto, os resultados são muito positivos:
44
Uma avaliação recente dessa modalidade educativa mostra que, embora
seja, das três modalidades existentes (gerais, técnicas e secundárias), a que
recebe os alunos em piores condições acadêmicas para o início do grau,
os igualou em leitura e, para o início do 3º, em matemática, a os alunos
com suas compensações em escolas secundárias gerais e técnicas
(SCHMELKES, 1999).
Outra maneira de levar serviços educacionais a zonas afastadas,
que também parece ter obtido êxito, é o Terceiro Ciclo Rural da Argen-
tina. Aqui, não se utiliza a televisão, porém se estabelecem ter ceiros ci-
clos nas mesmas escolas em que os alunos tinham cursado a escolarida-
de primária ou fundamental. Em cada escola, designa-se um professor
para trabalhar diariamente com os alunos. Sua função é apoiar e organi-
zar o processo de aprendizagem dos jovens. Estão apoiados em seu
ensino com material autodidático, que cada estudante recebe, e por uma
equipe de pr ofessores itinerantes especializados por matérias.
Embora não se saiba como comparar os resultados educacionais
desse pr og rama com outros em zonas rur ais, ele possibilitou a perma-
nência, nas escolas, de muitos jovens de zonas rurais, a um custo bastan-
te raz oável, inferior a qualquer outra fórmula que implicaria estadias ou
transpor te escolar (
GOLZMAN & JACINTO, 1999).
Escolas vespertinas
Merecem atenção também os programas de escolas noturnas que
foram criados, alguns anos, em muitos países da América Latina, a
fim de atender a alunos e a adultos que não podem assistir às aulas nas
horas de trabalho. A demanda crescente de educação secundária aumen-
tou as taxas de ingresso nessas escolas, embora tenham demonstrado
que proporcionam baixa qualidade de educação. No Brasil, por exem-
plo, 66% da matrícula no secundário está em escolas notur nas. A litera-
tura a respeito das escolas secundárias noturnas é escassa, porém um
maior número de adolescentes e jovens começa a freqüentar esses cur-
sos, constituindo uma grande parte da matrícula total da educação se-
cundária, fato que merece maior investigação e análise.
Antes de chegar a conclusões a respeito da sustentabilidade desses
programas e da possibilidade de institucionalizá-los, como uma alternativa
45
à educação convencional, é preciso proceder a uma análise mais profunda
de quatro temas: Qual é o custo e a qualidade desses programas? Como
comparar os resultados escolares conseguidos com esse tipo de programa
com os dos programas tradicionais? De que maneira representam uma
inovação pedagógica? Como se efetua sua diplomação e qual é o valor
desses diplomas no mercado de trabalho e no restante do sistema educativo?
Se forem aplicados esses quatro critérios, irá parecer que a educação a
distância, utilizando os novos meios de comunicação, será a que teria
maiores opor tunidades de desenvolvimento. A utilização desses meios não
significa que não se tenha de dar muita importância à qualificação e ao
assessoramento aos professores e orientadores.
EDUCAÇÃO DOS GRUPOS DESFAVORECIDOS:
PROGRAMAS COMPENSATÓRIOS E
DIVERSIFICAÇÃO DA PEDAGOGIA
Um problema impor tante, que permanece em matéria de refor-
ma das estruturas da educação secundária, se relaciona com a atenção e
o tratamento que deve ser dado aos g r upos desfavorecidos. Quando as
desigualdades no nível de renda das famílias, suas condições
socioeconômicas e de vida, seu capital cultural e econômico são tão
grandes, um tratamento educativo igual e homogeneizado dos meni-
nos/meninas pode levar a reproduzir e, ainda, reforçar as desigual-
dades. Essencialmente, são as crianças procedentes de g r upos marginali-
zados as que re petem e se evadem do sistema educativo, antes de ter mi-
nar a educação fundamental. São jovens da mesma origem os que têm
problemas para inserir-se na escola secundária tradicional e abandonam
no final de um ano ou dois.
Assim, repete-se o círculo vicioso da pobreza. Os mais pobres, que
não puderam continuar os cursos de educação formal, são excluídos de
muitas oportunidades de trabalho. faz alguns anos que diversos países
da América Latina desenvolveram estratégias de discriminação positiva,
destinando mais recursos àquelas escolas mais carentes. Muitas dessas es-
tratégias são implementadas no nível da educação fundamental, principal-
mente nos primeiros anos. No primeir o ciclo da educação secundária que,
46
em muitos países constitui parte da educação obrigatória, o problema
também é sério, mas as estr atégias compensa tórias não são tão numero-
sas nem tão diversas.
Dentro dos programas existentes, podemos distinguir os que pre-
tendem atuar sobre a demanda (estratégias de provisão de recursos a
famílias) dos que atuam sobre a oferta, mediante uma diversificação
dessa, como se acaba de apresentar, dos que atuam sobre a gestão das
escolas (dando mais autonomia às comunidades para recrutar ou licen-
ciar professores, confor me modelo do prog rama EDUCO para as es-
colas primárias de São Salvador supondo que o maior problema da
qualidade da educação resulta da ausência de docentes dos que atuam
sobre a qualidade e a relevância da oferta (estratégias pedagógico-didáticas).
Muitas vezes, é necessário combinar três a quatro estratégias:
dar autonomia às escolas e às comunidades para que se
estruturem e desenvolvam um projeto pedagógico que leve
em consideração o contexto local;
distribuir material didático aos estabelecimentos, em zonas ru-
rais afastadas ou na periferia das cidades, construir e reparar
edifícios e salas de aula;
dar supor te ao pr ofessorado, por meio de material didático e
equipamento, bem como assessoramento por par te de profes-
sores mais experientes;
desenvolver uma nova proposta pedagógica.
As inovações pedagógicas de certa escala são escassas e, muitas
vezes, de cur ta duração.
Merecem destaque várias experiências elaboradas na região por
algumas organizações não-governamentais (ONG) e pela igreja, que tra-
tam de combinar a educação com trabalho em empresas, ou seja, edu-
cando a par tir do trabalho e com o tr abalho. São e xperiências que pre-
tendem dar aos jovens a responsabilidade de serem protagonistas de
sua própria história.
Assim, o prog rama desenvolvido, desde 1986, pelo Polígono Dom
Bosco, em São Salvador, combina uma educação técnica de nível médio
com uma prática de trabalho dirigida ao auto-emprego ou ao setor
informal, dando um forte peso à for mação pessoal e social e grande
47
apoio afetivo, como estratégia de ressocialização de jovens em situações
de alta vulnerabilidade. Essa instituição salesiana mostra interessantes re-
sultados com jovens extremamente desfavorecidos, preparando-os para
iniciar microempreendimentos associativos próprios para trabalhar por
sua conta.
Outros programas, como o de pós-primário comunitário rural
da CONAFE, no México, repr esentam inovações interessantes na ma-
neira de enfatizar a autonomia dos estudanteseaformadeaprender a
aprender. O objetivo central desse projeto é oferecer educação pós-
primária em comunidades rurais que foram excluídas do sistema educativo
e do “Telessecundário”.
O projeto baseia-se em uma idéia central: ensinar ao estudante
como aprender por si mesmo. O plano de estudo segue o da educação
secundária, porém é aberto, o que per mite aos estudantes escolherem
aquelas matérias que são de seu interesse. Não horários nem idades
específicas; desse modo, é possível a incor poração de todos os que de-
sejam ampliar seus horizontes educativos. Trabalham sob a vigilância de
instrutores que se encarregam de estimular e apoiar o interesse dos estu-
dantes, acompanhando seu progresso com o material didático (
CONAFE,
1999;
PIECK, 1999).
Conclusão
Para poder competir num mundo globalizado e preparar-se para
entrar na modernidade, os países latino-americanos têm que aumentar o
nível educativo de sua população ativa, o que significa incrementar a
participação dos jovens na educação secundária. Sob esse ponto de vis-
ta, os países da região têm conseguido elevar a taxa de escolarização
desse nível, de maneira expressiva, embora ainda haja muitas diferenças
entre eles. Ao mesmo tempo, a denominação, a duraçãoeopapelda
educação secundária estão experimentando importante transformação.
Pode-se supor que, dentro de uma década, se falará de uma educação
de base de doze anos, que incluirá a educação primária ou fundamental
e a educação secundária.
A despeito desses avanços louváveis, permanecem pendentes vá-
rios desafios. Entre eles, incluem-se: incr ementar a r etenção e assegurar
48
a permanência de um percentual maior dos alunos no sistema; aumentar
a qualidade e reduzir as g randes desigualdades entre escolas e alunos.
Muitos desses aspectos estão vinculados entre si e não se pode pensar
em incrementar a r etenção, sem aumentar a qualidade e a igualdade reais.
Este trabalho enfocou o primeiro tema, tratando de ver como se pode-
ria atender à diversidade crescente no perfil dos alunos que ingressam na
educação secundária.
Para melhor ar a retenção, deveriam ser reconsideradas várias es-
tratégias, levando em conta as limitações financeiras. Primeiro, aumentar
a qualidade em todas as escolas de maneira significativa. Este tema está
fora do alcance deste trabalho e implica uma investigação em profundi-
dade sobre os níveis de capacitação e apoio e as condições de trabalho
dos professores, bem como sobre os modelos de gestão dos estabeleci-
mentos educativos. Segundo, aumentar a relevância da educação, medi-
ante a moder nização do cur rículo, e da diversificação do conteúdo e
dos enfoques pedagógicos. O nível de diversificação dos conteúdos
educativos costuma ser mais importante no segundo ciclo da educação
secundária do que no primeiro.
Este trabalho argumenta que, embora não pareça ser esta a tendên-
cia atual, é necessário cer ta flexibilidade de conteúdo, ainda durante o pri-
meiro ciclo da educação secundária. Quanto ao segundo ciclo, no mo-
mento, em muitos países, a diversificação se produz por meio de moda-
lidades distintas. Devido às desigualdades de qualidade e xistentes entre
essas modalidades e a seu impacto negativo sobre a igualdade de oportu-
nidades, a tendência par ece ser, na verdade, a de introduzir opções.
Assim, as vantagens e desvantagens das duas possibilidades, quan-
to a custo e igualdade de opor tunidades, devem ser avaliadas de f or ma
cuidadosa, que não é claro o impacto de cada uma sobre o custo e a
igualdade de opor tunidades. O debate sobre a diversificação contra a
homogeneização da estrutura e da organização curricular é candente e
está bastante ligado a considerações ideológicas (a respeito do papel do
Estado e do mercado)eatradições. De qualquer forma, uma carên-
cia nítida de evidência sobre o impacto de cada uma dessas políticas, em
diversos conte xtos socioeconômicos.
A oferta de conteúdos profissionalizantes na educação secundária
e a organização da modalidade técnico-profissional deveriam ser avali-
adas dentro desse quadro. O valor da educação técnico-profissional tem
49
de ser considerado não por sua importância quanto à preparação
para o mundo do trabalho, como também pelo valor de seu enfoque
pedagógico e por sua capacidade de possibilitar a escolarização de estu-
dantes em risco ou que não têm facilidade para matérias abstratas.
O desafio dessa modalidade consiste em aumentar o nível de ren-
dimento do que se refere aos conhecimentos e competências dos alunos
para satisfazer às novas exigências do mercado de trabalho e, ao mesmo
tempo, conseguir escolarizar gr upos com interesses e capacidades dife-
rentes. Em todo caso, é necessário visualizar um sistema fle xível e aber-
to, que per mita a alguém que começou a especializar-se, mudar de r umo,
ou a quem deixou o sistema educativo, retomar os estudos.
É necessário também avançar na diversificação das for mas de
prover os serviços educativos. Isto pode ser obtido, mediante uma apro-
ximação, por par te das escolas, das áreas onde habitam os estudantes,
ou por meio de educação a distância.
As experiências em países da região, como México, Brasil e Ar-
gentina, mostram o potencial desses mecanismos para aumentar a parti-
cipação de adolescentes e jovens que não têm acesso a uma escola tradi-
cional, por diversas razões. Ao mesmo tempo, demonstram a impor-
tância de ter material didático de alta qualidade e facilitadores capacita-
dos e motivados que organizem o trabalho do alunado, apoiando-se
preferencialmente em modelos de comunicação como TV e rádio.
Alguns dos programas existentes, em termos de educação a distân-
cia, de auto-inf ormação e de a prendizag em da autonomia, constituem as
premissas do que poderia ser no futuro uma mudança maior nos méto-
dos de ensino. A auto-aprendizag emeaaprendizagem cooperativa estão
sendo chamadas a desempenhar, futuramente, um papel muito importan-
te, graças aos novos meios de comunicação. Espera-se que ambas pode-
rão contribuir para incrementar, de forma expressiva, a qualidadeeare-
levância da educação, sem onerar demasiadamente os orçamentos.
Por último, é necessário prestar atenção especial aos g r upos
desfavorecidos, a fim de assegurar sua per manência no sistema educativo.
É preciso implementar políticas de discriminação positiva, dando mais,
em ter mos de recursos, ca pacitação de professores, bolsas e material
didático, aos que menos possuem. No entanto, mais importante ainda, é
necessário prever estratégias mais flexíveis de ensino, em ter mos de
50
horário, de conteúdo, de prestação de ser viço, e desenvolver novos
enfoques pedagógicos. Alguns prog ramas experimentais estão sendo
implementados em vários países, tanto em nível fundamental como
secundário. Espera-se que, em cur to prazo, per mitam extrair conclusões
que possam ser válidas par a o sistema for mal, em sua totalidade.
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51
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IIPE/UNESCO, 1999.
SCHMELKES, S. Comentario sobre el libr o Posprimaria Comunitaria Rural: el
desafío de la rele vancia, la pertinencia y la calidad de CONAFE. 1999. Mimeo.
TEDESCO, J. C. Desafíos de las reformas educativas en América Latina. Ponencia
presentada en la conferencia Building for Latin America’s future: public/
private par tnership for education. Washington: Wolrd Bank, 1998.
UNESCO. Rappor t mondial sur l’ éducation. Editions UNESCO, 1998/1999.
52
ANEXO
QUADRO 1
Escolarização secundária e renda per capita
Matrícula de educação PBN per capita
secundária (US$ 1996)
Uruguai 85 5760
Argentina 77 8380
Chile 7 5 4860
Colômbia 7 2 2140
Peru 70 2420
Panamá 69 3080
México 63 3670
Brasil 50 4400
Costa Risca 50 2640
República Dominicana 50 1600
Equador 50 1500
Nicarágua 47 3 8 0
Paraguai 44 1850
Bolívia 40 830
Venezuela 40 3020
El Salvador 33 1700
Honduras 3 2 660
Guatemala 25 1470
Coréia 102 10.610
Hong Kong 75 24.290
Malásia 62 4370
Tailândia 57 2960
Indonésia 52 1080
Fonte: Banco Mundial, 1998; UNESCO, 1999.
53
QUADRO 2
Duração da educação secundária e divisão em ciclos
Obrigatória Primário Secundário Secundário Reformas
/Básico primeiro segundo
ciclo ciclo
Guatemala 6 6 3 3
Honduras 6 6 3 2
Nicarágua 6 6 3 2
Panamá 6 6 3 3
Paraguai 6 6 3 3
Bolívia 8 8 4
Brasil 8 8 3 Educação
Chile 8 8 2 2 obrigatória
Colômbia 9 5 4 2 de5a9anos
Costa Rica 9 6 3 2
Cuba 9 6 3 3 Educação
Equador 9 6 3 3 obrigatória
México 9 6 3 3 de6a9anos
Uruguai 9 6 3 3 Educação
Venezuela 9 9 2 obrigatória de
Argentina 9 9 3 7 a 9 anos, alteração de
7+5 a 9+3
El Salvador 9 9 3 Educação
Peru 11 6 2 3 obrigatória de
6 a 11 anos
Malásia 6 3 4 Educação
Coréia 9 6 3 3 obrigatória de
Indonésia 9 6 3 3 6 a 9 anos
Hong Kong 9 6 5 2
Excluída
educação
pré-escolar
Fonte: 1998 Statistical Yearbook, 1998 UNESCO World Education Repor t, IBE. World Data on
Education Data base, 1999.
54
GRÁFICO 1
Taxas brutas de matrícula secundária
GRÁFICO 2
Taxas líquidas de matrícula por idade
Fonte: Education at a Glance, OCDE, 1998.
55
GRÁFICO 3
Número de egressos do secundário como porcentagem do grupo
etário relevante
GRÁFICO 4
Pirâmide Educativa de Costa Rica. Coorte (1985-1996)
Fonte: Education at a Glance, OCDE, 1998.
Fonte: Ministério de Educación Pública, 1999.
56
GRÁFICO 5
Argentina: Matrícula de educação primária por ano (1994)
GRÁFICO 6
Argentina: Matrícula de educação secundária por ano (1994)
Fonte: Ministério de Educación y Cultura, 1999.
57
GRÁFICO 7
Pirâmide educativa do Chile. Taxas líquidas de escolarização por idade (1998)
GRÁFICO 8
Rendimento em matemática de estudantes de 13 anos (1992)
Fonte: Ministerio de Educación Pública, 1999.
Fonte: Schiefelbein, 1995.
58
GRÁFICO 9
Rendimento em ciências de estudantes de 13 anos (1992)
GRÁFICO 10
Gasto público em educação como porcentagemdo PIB (1990-1995)
Fonte: UNESCO, 1999.
Fonte: Schiefelbein, 1995.
59
GRÁFICO 11
Gasto em educação como porcentagem do gasto público total (1995)
GRÁFICO 12
Gasto por aluno de secundário como porcentagem do gasto per capita
Fonte: UNESCO, 1998.
Fonte: UNESCO, 1998.
61
*
Joaquim Azevedo é licenciado em História pela Universidade do Porto e doutor em
Ciências da Educação pela Universidade de Lisboa. Entre outras atividades, foi
membro da Comissão de Refor ma do Sistema Educativo; diretor g eral do GETAP,
Ministério da Educação, Gabinete de Educação Tecnológica, Artística e Profissio-
nal, e membro do Comitê Diretor do CERI (Centro de estudos e Investigação sobre
Inovação em Educação, da OCDE). Foi re presentante do governo por tuguês em
vários seminários e conferências da UNESCO, OCDE e CE, Secretário de Estado do
Ensino Básico e Secundário do XII governo constitucional, e membro eleito pelo
Parlamento para o Conselho Nacional de Educação (mandato 1996/1999).
1
O termo ensino secundário utiliza-se aqui como sinônimo de educação secundária
superior ou educação secundária de segundo g rau / ciclo, tal como se designa na
grande maioria dos países europeus.
2
O conceito de ensino e formação de nível secundário traduz melhor a complexidade
da oferta educativa que existe hoje, para a população do grupo etário 16-18 anos.
Engloba toda a oferta tradicional de base escolar e a formação profissional inicial,
tanto no regime de alternância como no de base escolar.
2.
CONTINUIDADES E RUPTURAS NO ENSINO
SECUNDÁRIO NA EUROPA
Joaquim Az e vedo*
INTRODUÇÃO
O ensino secundário
1
na Europa está atualmente na agenda polí-
tica de vários g overnos. Situado entre a educação básica para todos e o
ensino superior, crescentemente de massa, o ensinoeaformação de
nível secundário
2
estão atravessando uma crise de identidade. Ao longo
do texto serão descritas as principais tensões inerentes a essa crise no
cenário europeu.
Em primeiro lugar, realiza-se uma contextualização social, porque
é o passo indispensável para compreender os desafios que se lançam
62
sobre os sistemas escolares, em geral, e sobre as escolas de nível
secundário, em par ticular. Segue uma bre ve apresentação da diversidade
de modelos existentes no cenário europeu, tentando descrevê-los, sob
diferentes pontos de vista e de algumas tendências que marcam a
evolução dos sistemas nacionais de educação e de formação no nível
universitário, na década de 90. Esta delimitação de tendências baseia-se
num estudo que efetuei sobre as refor mas do nível secundário, na Europa,
centrado na primeira metade dos anos 90.
3
Por último, propõe-se um debate em torno de alguns tipos de
tensões por que passam as políticas educativas referentes a esse nível e
que são comuns à g eneralidade dos países europeus. Essas tensões veri-
ficam-se entre pólos muito diversos, tais como: função seletiva e função
social de pr omoção, pre paração para a continuação de estudos e pre pa-
ração para a vida ativa, perspectiva unificadora e perspectiva diferencial
de tr ajetos e de instituições.
A reflexão conclui com uma perspectiva crítica dessas tensões e
com um propósito de, no seio das ambigüidades reinantes nas reformas
do ensino e da formação de nível secundário na Europa, encontrar ves-
tígios de promessa de outros rumos, sob a proteção de novos concei-
tos, como o de metaprofissionalismo ou de escola de subjetivação e
defendendo a idéia de urgente reinstitucionalização do “modelo mo-
derno de educação escolar”.
CONTEXTUALIZAÇÃO
A crise econômica que se desenvolveu a partir dos cracks do petró-
leo, na década de 70, teve g randes efeitos sociais e fortes repercussões
nas políticas de educação e f ormação, sobretudo na educação secundá ria
européia. Na seqüência da f or midável alta dos preços do petróleo o
primeiro choque do petróleo ocor reu em 1973-1974, e o segundo, em
3
O ensino secundário na Europa, nos anos 90. O neoprofissionalismo e a ação do sistema educativo
mundial: um estudo inter nacional. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1998. (ver www.cesae.pt
/ tese-ja.pdf). Este estudo limitou-se a nove países: Dinamarca, Espanha, Finlândia,
França, Holanda, Itália, Noruega, Suécia e Suíça.
63
1979/1980 e da subseqüente explosão inflacionária, teve início uma
crise da economia capitalista que se revelaria como duradoura e cujo
impacto está longe de ter minar.
Ainda assim, os “impactos do petróleo” são uma ponta do ice-
berg e o take-off de um conjunto de mudanças que estavam, em cur so,
na sociedade e na economia contemporâneas. Vários autores analisam as
alterações ocorridas e destacam sua intensidade e profundidade. Crozi-
er (1995, p. 22), ao observar as últimas décadas do século XX, consta ta
que o mundo mudou nesses últimos 20 anos, mais do que durante todo o século
precedente”. Para muitos autores, a sociedade industrial entra em rota de
desaparecimento. Hobsbawn (1996, p. 395) afirma que a história dos 20
anos posteriores a 1973éade“um mundo que perdeu suas referências e resva-
lou para a desestabilização e a crise”.
Outros autores af irmam que, de pois das décadas de 50 e 60, em que
se fizeram sentir, de modo inequívoco, os impactos previsíveis da geração
da microeletrônica, existe uma nova sociedade em for mação, na qual o
conhecimento tem um papel central na configuração de novas atividades e
serviços: a sociedade da informação”oua“sociedade pós-industrial, como a de-
nominaram Daniel Bell e Alain Touraine, respectivamente.
Enquanto a sociedade industrial repousava sobre o modelo da
racionalização das atividades, o que permitia aplicar o movimento per-
pétuo do crescimento produção de massa/consumo de massa, na
expressão de Crozier –, a sociedade emergente se caracteriza pelo apa-
recimento de novas atividades econômicas, como as imateriais e os ser-
viços de base relacional; a internacionalização crescente das atividades
econômicas e o aumento da competição e dos desequilíbrios internacio-
nais; e a incorporação generalizada das novas tecnologias, em particular
as da inf ormação e da comunicação. Tudo isso alterou d e f or ma signi-
ficativa os processos produtivos, desencadeando um efeito de reestru-
turação contínua da economia capitalista.
Assim, o sistema produtivo começa a exigir uma mobilidade mais
acelerada da mão-de-obra e reduz os próprios ciclos de pertinência das
qualificações, provocando uma rápida desatualização dos saberes e das
competências.
Nesse quadro de mudança social, é importante ter em conta ou-
tros fenômenos sociais concomitantes como a urbanização, as mutações
nas famílias e a própria explosão na demanda de educação escolar.
64
A urbanização está profundamente relacionada com as enor mes
transfor mações produzidas no setor ag rícola no espaço europeu e com
a transferência contínua da mão-de-obra em direção ao setor terciário e
às indústrias de serviços. A estr utura familiar tradicional altera-se devido
ao exercício de novos papéis sociais por parte da mulher, à acentuada
diminuição do número de filhos por casal, o aumento dos divórcios e o
crescimento de famílias monoparentais e de geometria variável.
A escolarização de massa, por sua vez, converte-se no principal
veículo de mobilidade social e no trampolim elementar para as carreiras
profissionais. Além disso, o mercado de trabalho começa a considerar,
cada vez mais, os diplomas escolares como o primeiro critério de sele-
ção e de recrutamento entre os que buscam trabalho (
HUSÉN, 1990).
Foi, porém, particular mente com a queda das taxas de crescimen-
to, com a crescente e contínua automatização e com os novos ímpetos
de reestruturação da economia capitalista que se incrementou o desem-
preg o, fato não habitual nas décadas imedia tamente anteriores. Afetou,
sobretudo, os jovens e, entre eles, as mulheres jovens. Lentamente, aqui-
lo que parecia ter relação com um fenômeno de conjuntura um de-
semprego do tipo friccional ou, até, um desemprego keynesiano e con-
juntural (
LESOURNE, 1996) começou a adquirir contornos de fenômeno
socioestr utural. Com efeito, a partir de meados da década de 70, as
taxas de desemprego juvenil raramente voltariam a descer, de modo
expressivo, nos 20 anos se guintes, em que pese a diversidade de situa-
ções existentes na Europa.
A persistência do f enômeno do desempreg o, que afetava em par-
ticular os mais jovens, em sua entrada no mercado de trabalho, marcaria
profundamente a evolução da oferta e da demanda da educação secun-
dária superior na Europa, nos 20 anos seguintes, mesmo quando, muitas
vezes, esta fosse na retórica política uma motivação mais ou menos si-
lenciada. Com grande freqüência, as medidas reformadoras transfor-
maram os problemas do desemprego juvenil em problemas educativos,
como obser va Lucie Tanguy (1995) em sua análise do caso da Grã-
Bretanha, e também como assinalaram Ginsburg & Cooper (1991),
em sua análise mais global da relação entre as contradições dentro e
entre a economia, o Estado, a família e a educação, por um lado, e a
retórica reformadora no campo das políticas de educação, pelo outro.
65
De forma sistemática e generalizada, os g overnos começaram a
adotar medidas de política educativa como suporte de políticas sociais,
a fim de enfrentar o desempreg o crescente entre os jovens. Desde mea-
dos da década de 70, esse foi o eixo central, em torno do qual giraram
as políticas de educação e de formação, sobretudo no nível pós-obrig a-
tório, e para o grupo etário de 16 a 19 anos, que era o mais exposto
nesse conte xto de mutações vastas e imprevisíveis.
As conseqüências para o sistema escolar foram bastante profun-
das. Sob o efeito do aumento do desempreg o, e num contexto de pro-
funda reestruturação industrial, cristaliza-se a idéia de uma crise estrutu-
ral dos sistemas nacionais de educação. Começa-se a responsabilizar os
sistemas educativos, nascidos e incrementados para acompanhar a mo-
dernidade e, mais recentemente, destinados a promover o bem-estar e a
mobilidade social, supostamente de maneira articulada e quase mecâni-
ca, por não desempenhar na forma devida sua função de ajuste, diante
da evolução da economia e do mercado de trabalho. Nesse sentido,
também são culpados pelo próprio desemprego juvenil. No contexto
novo, o clima de opinião predominante muda de modo substancial.
Na década de 90, a economia de mercado se difunde por todo o
mundo, quase como uma r eferência econômica implacável, sobretudo
depois da queda do Muro de Berlim e do desmembramento do impé-
rio soviético. O mercado se globaliza e desenvolve um segmento em-
presarial de ponta, que incorpora amplamente as novas tecnologias da
infor mação e da comunicação, e é muito competitivo, dominado que
está por g randes empresas inter nacionais.
No nível produtivo, a substituição tecnológica mantém-se em rit-
mo forte, racionalizam -se os processos a fim de diminuir os custos de
produção, e os níveis de desemprego associados não se fazem per-
manentes, como alcançam também aqueles que obtiveram seus diplo-
mas, em níveis mais altos de estudo. Além disso, junto com o desempre-
g o, prolifera o subempre go de diplomados. Enquanto a educação supe-
rior se convertia progressivamente numa educação de massa, essa ten-
dência poderia reforçar-se (
HALLS, 1994).
Juan Carlos Tedesco também obser va que a massificação da
educação secundária e superior torna possível um efeito de
“superdiplomação” educativa, principalmente quando a evolução da
66
hierarquia dos empregos não acompanha a evolução dos novos níveis
dos diplomas escolar es; manifesta-se, então, um problema social g rave
de não-correspondência entre níveis educativos e postos de trabalho
(
TEDESCO, 1995). Mesmo assim, de ve-se destacar, nesse quadro geral, a
expansão progressiva da desregulação dos vínculos trabalhistas: novos
empregos ou “atividades” sustentados por vínculos contratuais precários
proliferam em toda a Europa.
Para os jovens do grupo etário, ora considerado, foi cada vez mais
difícil vislumbr ar o momento em que obteriam o primeir o empreg o, sua
duração e adequação à f ormação especializada recebida, assim como a
natureza do vínculo contratual, o número de vezes que deveriam mudar
de empr ego, ao long o de sua vida profissional, e a quantidade e profundi-
dade das atualizações de conhecimentos e competências que teriam de
realizar, durante sua carreira profissional. Inclusive, surge a interrogação a
respeito de se haveria sentido falar de carreira profissional, nos termos
tradicionais, ou seja, tendo como referências fundamentais a estabilidade,
a segurança, a progressão vertical e a longevidade.
Tudo levava a cr er que era possível assegurar no futuro o funcio-
namento nor mal da economia capitalista, com os mesmos melhores ní-
veis de produtividade e rendimento, e mantendo à marg em do mercado
de trabalho uma boa parte da mão-de-obra disponível. Para os novos
candidatos e diplomados nos níveis pós-obrigatórios, esse universo pro-
blemático não deixaria, seguramente, de influir na orientação de suas
opções escolares e em geral nas orientações da demanda social.
O tempo da ordem, da estabilidade, das referências com conti-
nuidade intergeracional, é um tempo encer rado. Como disse Alain Tou-
raine (1997, p. 23), “começou o tempo da mudança, como categoria social da expe-
riência pessoal e da or ganização social”. Nesses tempos novos de transforma-
ções tão rápidas, os indivíduos têm consciência de que estão desorienta-
dos, sem liberdade, incapazes de produzir-se a si mesmos, esmagados
entre uma cidadania mundial sem responsabilidades, direitos ou deveres
e um espaço privado e ensimesmado, submerso também nas ondas da
cultura mundial (
TOURAINE, 1997).
A retórica subjacente nas políticas de educação foi mudando na tran-
sição das décadas de 70 e de 80. Desenvolve-se uma importante retórica
técnica e política que, à luz da intensa reestruturação da economia, argu-
67
menta que a produção em massaeaorganização taylorista do trabalho, a ela associ-
ada, mostram-se cada vez mais disfuncionais devido a sua rigidez e falta de adaptabilida-
de”(
KOVACS, 1991, p.16). A economia capitalista evoluiria, assim, em direção
a sistemas de produção pós-tayloristas e flexíveis.
Com a passagem descontínua e progressiva de um modelo taylo-
rista par a um modelo pós-taylorista de produção, assentado na flexibi-
lidade e caracterizado por um novo tipo de org anização, essa r etórica
técnico-econômica defende, ainda, as qualificações requeridas em deter-
minados níveis do exercício profissional, as quais registram também re-
voluções muito significativas.
O novo tipo de produção e organização associa-se ao exercício
profissional de tarefas mais amplas e complexas: o trabalho em equipe;
o autocontrole de execução de tarefas pelos grupos de trabalho; o en-
trelaçamento entre as tarefas de concepção/controle e execução; a auto-
nomia e a responsabilidade das equipes de trabalho; e recorre-se a co-
nhecimentos técnicos, teóricos e empíricos mais amplos e à capacidade
de adaptação de cada um às transformações permanentes.
Por meio desse discurso dominante, difunde-se uma visão parti-
cular mente otimista acerca do impacto da reestruturação da economia
capitalista, dos modelos de produção e de o rganização do tr abalho. Atri-
buem-se a eles novas características, em g eral sem nenhuma reserva ou
efeito ne g ativo, que vão desde a organização do trabalho em equipe, da
criatividade, da iniciativa e da cobrança constante do conhecimento, até
os poderes amplos de decisão das equipes de tr abalho, e a inovação
per manente. Dessa forma, o novo sistema pr oduti vo centra-se no uso
intensivo de conhecimentos e é potencialmente gerador de uma maior
realização humana pelo trabalho, que ag ora exige nova inteligência coleti-
va” (
BROWN & LAUDER , 1995).
Obviamente, esse novo quadro re percute no emprego. As gran-
des tendências que se verificam são:
crescimento do desempreg o, que atinge valores superiores a
20% da população ativa em vários países desenvolvidos;
terceirização extensiva da mão-de-obra e redução do empre-
go industrial;
aumento do emprego associado a funções mais qualificadas e
incremento do recrutamento de quadros altamente qualificados;
68
inclusão do emprego e do exercício profissional numa enorme
nuvem de incerteza, com relação aos tipos de profissões que se-
rão exercidas ao longo da vida profissional, sua duração, o con-
teúdo de cada atividade profissional e o modelo de contratação;
progressiva deterioração dos vínculos contratuais, maior flexi-
bilidade na gestão das carreiras profissionais e maior mobili-
dade intra-empresas e entre-empresas;
tendência à valorização progressiva do auto-emprego e do
teletrabalho.
Entre todas essas tendências, talvez a mais evidente e a que deixa
marcas sociais mais fortes seja a dualização crescente do mercado de
trabalho. De um lado, estão as elites ativas, os trabalhadores autoprogra-
máveis e muito produtivos, confor me declara Manuel Castells (1998),
ou os trabalhadores analistas-simbólicos”, nos termos de Robert Reich (1993).
Do outro lado, situa-se o trabalho g enérico e prescindível, a massa dos
trabalhadores que, cada vez mais inseguros, circulam entre os postos de
trabalho disponíveis. A educação escolar não é alheia a esta g rande frag-
mentação, ao contrário, está em seu centr o.
Se às transformações na esfera da produção somam-se aquelas
que provêm dos novos efeitos da acumulação, da transmissão e do uso
da informação, e as que derivam em geral da a plicação das novas tecno-
logias da informação e da comunicação, então se conclui, quase de for-
ma obrigatória, que o fato mais relevante é o consenso em reconhecer que o
conhecimento constitui a variável mais importante na explicação das novas formas de
or ganização social e econômica”, como afirma Juan Carlos Tedesco (1995, p.
22). Neste campo, o sistema escolar, produtor e distribuidor de conhe-
cimentos e títulos, adquire nova importância que o referido autor deno-
mina historicamente inédita”.
Atualmente, diante das reestruturações em curso na economia, for-
mula-se uma retórica que valoriza o papel dos sistemas de ensino e de
formação, na produção de um conjunto de saberes e de competências
g erais e profissionais que tradicionalmente os modelos formadores de
pre paração para o trabalho produtivo, por estarem sempre muito preo-
cupados com o desenvolvimento de qualificações técnicas e concentrados
no esforço de especialização profissional, não desenvolviam. Esse é o
69
novo mandato social, de caráter for temente econômico, relativo às quali-
ficações que se exigem dos trabalhadores, ao ingressar no mercado de
trabalho e concomitantemente do sistema de educação e de formação.
4
O sociólogo Alain Touraine (1997) analisa esse quadro g enérico
de transfor mações em que sobressaem, por um lado, a universalização
econômica e financeira, o poder dos mercados e a economia “dessoci-
alizada” e, por outro, o nacionalismo cultural, o poder da identidade
nacional e das pertinências coletivas, como um quadro de “desmoderni-
zação”, que engloba pr ocessos complexos de desinstitucionalização, des-
politização e dessocialização (entendida como o desaparecimento dos
papéis, normas e valores sociais comuns, com que se constr uía o mundo
vivido). Nesse contexto, Touraine se inter roga sobre o lug ar da liberda-
de e do sujeito pessoal, enquanto construtor de sua própria existência.
Antes de continuar com a análise, é importante entender do que fala-
mos, em ter mos de educação e formação de nível secundário na Europa.
OS MODELOS DE REFERÊNCIA
A Europa apresenta certa diversidade de configurações dos siste-
mas escolares nacionais que estão muito ligadas aos tecidos sociais locais
e às opões políticas dos diferentes países. Quanto ao ensinoeàforma-
ção de nível secundário, podemos mencionar três modelos principais no
cenário europeu: o escolar, o dua l e o não-for mal. Esses modelos não
se excluem mutuamente. Em alguns casos, predomina um deles, em
outros, coexistem dois e, em vários outros, coexistem os três, dentro da
oferta pública e privada de um mesmo sistema educativo nacional.
Nesse nível e para essa população, o modelo escolar de educação
secundária compreende as instituições que oferecem cursos nor malmente
estr uturados em três trajetos: o g eral ou acadêmico, o técnico e o
profissional. A ofer ta estrutura-se de forma exclusiva ou quase exclusiva,
4
Por mandato social, entendemos aqui um conjunto articulado de requisitos que certos
grupos sociais, organizações internacionais, redes de peritos e setores de atividade social
geralmente identificam, de maneira mais ou menos explícita e coerente, para sustentar
determinado ordenamento social global, e o cumprimento de certas funções por parte de
subsistemas sociais, como o do ensino e da formação profissional inicial.
70
a par tir do lócus escolar. O setor encontra-se sob a tutela da administr ação
educativa e são registradas evoluções recentes em direção à distribuição
de responsabilidades com outros departamentos da administração e com
outros ag entes sociais.
O modelo dual ou de “f or mação e alternância” cor responde a
uma oferta de for mação profissional inicial que se torna, ao mesmo
tempo, centro de ensino-formação e empresa. A direção é tripar tida ou
mista, dos empresários e da administração pública, e os cursos levam à
obtenção de diplomas reconhecidos por ambas as par tes.
O modelo não-for mal compreende uma gama de prog ramas
de f or mação e de for mação-empre g o, desenvolvidos com a inter ven-
ção do Estado e das empresas, que integra cursos de duração superior a
um ano e cur sos de duração inferior. Esse setor sinaliza a constituição de
uma alternativa para os estudos escolares e para o desempreg o, abran-
gendo jovens que saíram do sistema escolar e que buscam uma quali-
ficação específica a fim de ing ressar no mercado de trabalho. Mesmo
assim, não se confunde com a educação inf or mal, uma vez que se trata
de for mações org anizadas e sistemáticas, bem planejadas e com caráter
deliberadamente capacitador, destinadas normalmente a g rupos especí-
ficos da população.
Nesses últimos modelos organizativos, subjazem, entre outros
aspectos, modos diferentes de compreender a função social da educa-
çãoeaformação de nível secundário, assim como diferentes culturas
nacionais, diversos modos de organização social e produtiva e distin-
tas trajetórias históricas de desenvolvimento do ensino secundário tra-
dicional, de tipo médio, muito lig ado à função propedêutica de estu-
dos superiores.
No Quadro 1, obser va-se que esses modelos caracterizam-se por
uma qualidade predominante, dada por um lócus privilegiado onde trans-
corre a formação, pela orientação e o contr ole de iniciativa da of erta de
for mação, e pelo tipo de diploma que trazem. De modo crescente, qua-
se todos os países europeus valem-se das três modalidades de ensino e
for mação, como for ma de f azer expandir a oferta e responder a uma
demanda de massa, socialmente muito heterogênea, sem que, no entan-
to, se eliminem os predomínios de culturas “educacionalistas” e “profis-
sionalistas”, de acordo com cada contexto nacional.
71
ALGUMAS TENDÊNCIAS NAS REFORMAS DA
DÉCADA DE 90
Uma primeira tendência que se obser va nas refor mas educativas,
que incidiram sobre o ensinoeaformação de nível secundário na Euro-
pa, é a integ ração entre cursos e carreiras de for mação, até então dife-
renciados; a constr ução de novos troncos comuns de for mação, predo-
minantemente situados nos primeiros anos dos cursos, e a desespeciali-
zação, ou seja, a redução do número de especializações contidas nas
car reiras técnicas e prof issionais.
A integração curricular é a principal dinâmica presente nessa ten-
dência geral. Percorre diversos caminhos e alcança graus diferentes, con-
for me os contextos sociais nacionais e suas próprias histórias educacio-
nais. Embor a, em alguns casos, pretenda-se levar a integ ração até a cria-
ção de um único tipo de escola de nível secundário, como aconteceu na
Suécia, na maioria das vezes traduz-se num modelo de “convergência
subestr utur al”, confor me Kämäräinen (1995), no qual permanecem, lado
a lado, as diversas carreiras e os vários tipos de instituições de educação
e de for mação, integrando-se tão-somente componentes dos cur rículos.
Esse processo estende-se ao longo de amplo campo de possibili-
dades, desde a duração dos cursos até a organização dos currículos em
componentes idênticos para todas as carreiras, até a eventualidade da
freqüência de mais de um tipo de escola, a fim de realizar um único
curso de educação secundária. Um dos campos, no entanto, em que a
integração é mais evidente e recente, é a aproximação entre os distintos
modelos de educação e f or mação escolar, dual e não-formal –, que se
interpenetram em virtude da proteção que a maior parte dos governos
europeus se f orçada a e xercer para eles, com caráter de permanência.
A não-especialização apóia-se nas modalidades escolares de ensino téc-
nico e de for mação profissional inicial. No Quadro 2, algumas dessas
situações podem ser visualizadas.
5
5
Às vezes, como nos casos da Espanha e de Portugal, o leque das especializações
per manece no nível secundário. É transferido somente a par tir do ensino regular até
novas modalidades de formação profissional inicial (por exemplo, módulos
profissionais na Espanha e escolas profissionais, em Portugal).
72
A diversidade de caminhos, que o movimento desespecializador
e integ rador percorre, requer um esforço de sistematização. Dessa for-
ma, fica-se diante de dois tipos principais de estratégias de integração:
1. A primeira busca a integração estrutural entre as modalidades
e as instituições de ensino g eral e as de for mação técnica e profissional,
com possibilidade de oferecer aos jovens, do grupo etário de 16-18/19
anos, um currículo mais unif icado possível, combinando formação teó-
rica e prática com formação acadêmica e profissional. Essa estratégia
também se introduz no esforço político de estabelecer a paridade entre
car reiras for ma tivas, com aspecto mais acentuadamente profissional, e
as mais ge rais e acadêmicas.
A unificação que se estabelece nesse tipo de políticas de educação
está longe de traduzir-se na proposta de um cur rículo único, geral e
comum para a educação secundária. Embora seja certo que se empre-
gue, cada vez mais, ênfase na oferta de um core cur riculum geral e comum,
por outro lado deixa-se à livre escolha de cada jovem a construção de
car reiras for mativas individuais, de base mais optativa. Se a integ r ação é
evidente e aumenta, de forma inequívoca, a livre escolha individual e a
f lexibilidade cur ricular também o fazem. Tal como dissemos, é tênue a
integração estrutural no cenário europeu.
2. A segunda estratégia reúne um conjunto de medidas de inte-
gração estrutural, uma vez que deixa de lado ao menos, no momento
a integ ração entre instituições de educação e de formação que, habitu-
almente, possuem histórias muito diferentes. O núcleo dessa estratégia é
a ruptura de barreiras e a aproximação entre si de vias, até agora dife-
renciadas e estanques. Seus objetivos são, como reg ra geral, a demanda
de per mea bilidade entre as diferentes car reir as e a determinação da pa-
ridade legal entre elas.
No leque amplo de medidas, destacam-se cinco mais importantes,
três das quais têm incidência curricular, e as restantes são de caráter
mais geral.
Com maior incidência curricular:
a) estabelecimento de perfis de formação com uma estr utura
comum de componentes (for mação geral, for mação científica,
for mação prática, área optativa e for mação em ateliê, entre
outros) para as diversas carreiras existentes nos diferentes tipos
73
de escolas e centros de for mação que ainda per manecem
institucionalmente separados;
b) integração curricular mais limitada que a anterior, porém igual-
mente significativa, seja devido à adoção de estrutura modular
para todas as disciplinas de todas as carreiras ou de uma parte
delas, seja pela criação de uma gama de opções nos diferentes
cursos e car reiras, tendendo, especialmente, a f acilitar as pon-
tes entre eles;
c) inclusão de novos conteúdos disciplinares e revisão do nú-
mero de anos de duração dos cursos de for mação técnica e
profissional, de modo a ampliar seus objetivos e aproximar
esses cursos aos das car reiras tradicionais de for mação geral
acadêmica.
De caráter mais geral:
a) estabelecimento de novas regras, tanto de equivalência legal
entre diplomas obtidos por diferentes vias de educação e for-
mação como de acesso a cursos de ensino pós-secundário e
superior, abrindo o leque de oportunidades para os diploma-
dos pela educação técnica e pela formação profissional;
b) desenvolvimento (geralmente, ainda experimental) de
mecanismos de cooperação entre diferentes instituições de
educação e de formação, fle xibilizando carreiras individuais e
aumentando as possibilidades de escolha dos jovens que podem
chegar a freqüentar mais de um estabelecimento de ensino e
de for mação, para realizar apenas um curso de educação
secundária.
Vários autores confir mam também a tendência desespecializado-
ra e “generalizante”, configurando-a como um movimento importante
e comum das políticas educativas na Europa (
SANTOS, 1989; GARCÍA GAR-
RIDO, 1992; LECLERCQ & RAULT, 1992; AZEVEDO, 1998).
Além dessa primeira tendência geral e bastante comum na recente
revolução do ensino e na formação de nível secundário, é importante
destacar outras que são concomitantes e igualmente comuns a vários
países europeus:
74
1. A persistência da tendência para o prolongamento dos ciclos
unificados de estudos e para a extensão intrínseca do ciclo básico co-
mum e obrig atório, como nos casos da Itália, Espanha e Holanda, e
ainda para o adiamento da idade em que o aluno tenha que optar entre
car reiras alter nativas de formação.
2. A criação de novos sistemas de per mea bilidade entre as dife-
rentes carreiras de educação e de f or mação, ger al e profissional, por
meio da instauração de passagens entre cursos, mesmo com diferentes
g raus de dificuldade no processo de tr ansição. Entre os países que cria-
ram esse sistema, encontram-se: Espanha e França embora com um
alto grau de rigidez Dinamarca, Suécia, Holanda e Finlândia. Este últi-
mo país é o que apresenta maior grau de flexibilidade.
3. A criação de novos troncos comuns de for mação, semelhan-
tes para todas as car reiras desse nível de educação e de formação, em
ge ral com um ou dois anos de duração. Uma vez finalizados, admite-se
novamente uma especialização mais ou menos acentuada, conforme os
países. Essa via refor mista foi observada, sobretudo, nos casos de Ho-
landa, Suíça, Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia.
4. A reestruturação dos planos de estudos desse nível de educa-
ção e de formação num modelo de diversos componentes. O primeiro
deles é o conjunto de disciplinas gerais e comuns, seguido por um com-
ponente específico ligado ao curso que se escolhe, um componente op-
tativo individual e, em alguns casos, um componente voltado mais para
a for mação prática em empr esa, que deve ser elaborado pela escola. No
caso da Suécia e da Suíça, existe também um componente de projeto
individual ou de ateliê que cada aluno desenvolve. A essa nova estrutura
curricular, em seus componentes optativos, e também à introdução de
uma org anização cur ricular modular atribui-se, normalmente, em cará-
ter oficial, o papel de reforço da opcionalidade e da individualidade das
car reiras escolares que os jovens podem seguir. Além dos países menci-
onados, esse propósito também é acentuado nos casos da Finlândia,
Noruega, França e Itália.
5. Verifica-se que os a gentes sociais, especialmente os empreg a-
dores, começam a exercer em diversos países uma intervenção direta
mais reforçada no plano nacional, regional e local, na construção dos
planos de estudo desse nível de educação e de for mação. Esse procedi-
mento incide sobre todas as car reiras de formação pós-obrig atória, nos
75
casos em que os países optam por integrar as diferentes carreiras, rom-
pendo as barreiras tradicionais entre a educação geral e a educação pro-
fissional, e as respectivas instituições de for mação ou, então, mantém-se
ligado às car reiras estritamente técnicas e pr ofissionais. A presença dos
agentes sociais é reforçada nos casos da França, Holanda, Dinamarca,
Noruega, Finlândia, Espanha e Itália.
Freqüentemente, essa tendência surge associada a uma descentra-
lização da administração desses segmentos de educação e de formação,
e com uma maior autonomia dos estabelecimentos educativos e de for-
mação, circunstância que, em maior ou menor grau, ocor re em todos os
casos a que nos r eferimos.
6. Ao ampliar a ofer ta de for mação pós-obriga tória estabele-
cendo vasta g ama de cur sos e prog ramas de formação e ar ticulando os
modelos escolar, dual e não-for mal, com a finalidade de incor porar o
maior número possível de jovens da respectiva faixa etária –, grande
parte dos países combina a integração entre modalidades de educação e
for mação, com reforço da diversificação inter na, no nível das opções e
dos cursos.
7. Em algumas das refor mas, em análise, se introduzem nos cur-
rículos períodos obrigatórios e mais ou menos longos, destinados à re-
alização de experiências de tra balho. Estas destinam-se aos alunos que
pretendem obter um diploma técnico e profissional e são reforçadas
nos casos da Itália, Espanha, Finlândia, Dinamarca, Suécia e França.
8. Por último, vários são os países que enfatizam, em seu dis-
curso refor mador, o objetivo de imprimir maior f lexibilidade ao ensi-
noeàformação nesse nível. A f lexibilidade refere-se a diferentes as-
pectos: a possibilidade de combinar disciplinas de distintos tipos de
cursos e também de escolas, como é o caso mais extremo da Finlân-
dia; a mencionada per mea bilidade entre as carreir as e os cursos; a
exigência de responder à diversidade de interesses e aptidões dos jo-
vens, assim como a suas necessidades de orientação, como se apresen-
ta nos casos da Noruega, Suécia e Finlândia; a necessidade de aproxi-
mar mais cer tos componentes ter minais e optativos dos cursos com
os requisitos locais do setor produtivo, como está dito no caso da
Noruega; e a possibilidade de que as escolas organizem seus cursos de
modo diferenciado, em função de um conjunto estabelecido de crité-
rios, confor me fica c laro no caso da França.
76
Depois de haver descrito as tendências refor mistas na educação
e na formação de nível secundário, que se produz em na década de 90
na Europa, é importante discuti-las à luz de algumas contribuições
teóricas que o esforço da sociologia da educação e da sociologia do
trabalho per mite mobilizar. Para uma abordagem mais fácil, a discus-
são centra-se em torno da apresentação de um campo de tensões e
conflitos que atravessam esse nível de educação e de for mação.
UMA ARCA CHEIA DE TENSÕES
A crise que a educaçãoeaformação de nível secundário na
Europa atravessa é a expressão de tensões e conflitos eventualmente
insuperáveis que ocor rem em seu interior. É como se estivéssemos
diante de uma casa em que não pão, onde todos g ritam e discutem
e ninguém tem razão.
Entre essas tensões, existem algumas que se destacam por sua
atualidade e sua articulação com as tendências recentes das refor mas
da educação e da for mação de nível secundário:
1. A tensão entre uma função seletiva e uma função social de
promoção do desenvolvimento humano de todos os jovens. Do pon-
to de vista diacrônico, e retomando uma categ orização de Martín Trow
(1978), predomina na Europa, como ofer ta for mativa estatal para o
g r upo etário de 16-19 anos, o modelo de ensino médio, equivalente a
uma educação que esteve tradicionalmente destinada às elites e prope-
dêutica dos estudos superior es.
Na medida em que esse grupo etário foi ficando afastado do
acesso ao mercado de trabalho e a demanda do nível universitário se
massificou, começou a crescer uma bipolarização: por um lado, pers-
pectiva de educação e for mação como pre paração para estudos supe-
riores universitários e não-universitários; por outro, perspectiva de edu-
cação e de for mação mais multidimensional, em que a preparação para
estudos posteriores surge ao lado de outras funções sociais relevantes,
e a educaçãoeaformação de nível secundário manifestam-se como
mais autônomas, com finalidades educativas próprias.
77
Essa bipolarização também se pode analisar como uma tensão
entre uma educação secundária de massa, uma segunda etapa de educa-
ção universal e pré-obrigatória, que aproxima cada vez mais o nível
secundário das missões e configurações organizacionais da educação bá-
sica, e uma educação superior de massa, porém fortemente hierarquiza-
da, que conduz o nível secundário para um ordenamento orientado de
cima para baixo, disposto r egr essivamente e condicionado pelas mis-
sões de estratificação e seleção de jovens para o acesso aos diversos
tipos de diplomas.
6
É possível, no entanto, obser var que esse nível de educação e de
for mação evoluiu mais como um recipiente que se amplia linear mente
para receber a demanda crescente, do que como uma constelação de
modalidades e de carreiras, real e qualitativamente orientadas, para in-
corporar a diversidade sociocultural, que ora inunda os países europeus,
e para promover cada um dos jovens nas distintas dimensões do desen-
volvimento humano.
Entre a missão mais explícita do nível secundário que se enuncia
retoricamente dentro de um referente promocional, democrático e plu-
ridimensional–eamissão mais implícita e habitualmente não expressa-
da, existe enor me conflito que confunde e desorienta políticas e agentes
sociais e que, por força de não ser r evelado, discutido e nem assumido,
é um fator de perda de coerência, de qualidade e de relevância educativa
da ofer ta de educação e de for mação.
2. A grande tensão entre uma missão seletiva e uma missão pro-
mocional do desenvolvimento dos jovens traduz-se e reflete-se em vári-
os outros conf litos presentes nesse nível de educação e formação. No
meio deles, destacam-se as disputas entre a preparação para o exercício
profissional e a preparação para a educação superior, e entre ramos de
ensino médio e ramos técnicos, escolas técnicas e escolas pr ofissionais.
Mesmo que não pareça, a tensão entre esses diferentes pólos
está contida dentro da discussão da missão seletiva da educação e da
for mação de nível secundário. Na realidade, se a educaçãoeaforma-
6
Cada vez mais, a educação superior acolhe uma diversidade de carreiras, cursos e diplo-
mas fortemente hierarquizados e conducentes a estatutos sociais diferenciados (cursos
curtos profissionalizantes, cursos de ensino superior politécnico, cursos universitários,
cursos de pós-graduação, mestrados e doutorados, cur sos de pós-doutorado).
78
ção se organizassem em torno do presente dos alunos, do desenvolvi-
mento de todas as suas capacidades, segundo Alves (1999), numa pers-
pectiva multidimensional de preparação para o exercício de cidadania
livre e responsável, para o exercício de uma multiplicidade de papéis
sociais de suporte para a construção de projetos pessoais de vida, e
esse nível de educação se fizesse bastante mais autônomo, se tor naria
perfeitamente secundária e quase irrelevante a “magna” questão de sa-
ber se a educaçãoeaformação de nível secundário devem preparar
os jovens para o exercício profissional ou para a educação superior, se
devem estr uturar-se em escolas de ensino médio, em escolas técnicas
ou em escolas pr ofissionais.
Nesse plano do desenvolvimento humano, em que a orientação e
a busca de identidade pessoal são uma questão educacional central
7
, qual-
quer tipo de escola e qualquer carreira de educação e de f ormação de-
vem ser vir a esse objetivo nuclear.
O predomínio da seletividade é bem mais visível no tipo de dife-
renciação que se promove, baseada em diferentes modelos de organiza-
ção curricular e em diversos regimes de exames e de acesso a estudos
posteriores, o que se traduz, necessariamente, em diferentes tipos de
demanda social para as distintas modalidades.
Apesar de tudo, e sempre que essa for mação for demasiado es-
pecializada e condicionada por perfis profissionais configurados por
postos concretos de trabalho, pre parar para o e xercício profissional pode
ser uma missão educacional mais relevante do que preparar os jovens para
a educação superior”. Essa “preparação” equivale, muitas vezes, a uma mera
familiarização dos jovens com o currículo oculto e com as missões im-
plícitas de adaptação ao ordenamento social estabelecido.
Assim, as lógicas, pr opedêutica e ter minal, enfrentam-se no seio
da perspectiva seletiva da educação e da for mação de nível secundário e
tendem a ocupar o ter reno do debate, esgotando-o. Por outro lado,
essas mesmas lógicas continuam encerrando a educação num
funcionalismo socializante, de inclinação impessoal e coletivista.
7
É essa nova (velha) centralidade que leva Alain Tour aine (1997, p. 374) a declarar: “É
preciso renunciar a uma educação para a sociedade” e propor a escola da subjetivação
como alter n ativa à escola da socialização.
79
3. A educaçãoeaformação de nível secundário costumam reve-
lar outra tensão entre uma perspectiva unificadora e uma perspectiva
diferenciadora de car reiras e de instituições. No cenário europeu, a pro-
babilidade desse conflito é vasta e profunda.
Por um lado, tr adições e situações muito diversas quanto ao
momento em que se inicia a diversificação. Existem modelos de diver-
sificação precoce e de diversificação tardia (Quadro 3), e quanto ao
tipo de integração e unificação que efetivamente se pretende conseguir
e se alcança.
8
Em geral, a educação secundária européia apresenta-se diversifi-
cada. Todavia, registram-se movimentos, cada vez mais insistentes e di-
rigidos, que têm por objeto a aproximação entre as distintas carreiras e
cursos e a conseqüente redução da diversidade. Estão nesse caso, por
exemplo, as mencionadas refor mas que tendem a reduzir as especiali-
zações dos ramos técnicos e profissionais e pretendem aumentar as dis-
ciplinas curriculares relacionadas com a educação geral acadêmica.
A ref lexão empreendida permite um novo esforço de cate goriza-
ção ao r edor da questão da integ ração-unificação-diversificação. Assim,
na formulação do Quadro 4, esquematiza-se a elasticidade de configu-
rações existentes na educação secundária da Europa.
Com base na observação de K ämäräinen (1995), é muito freqüente
que as tentativas de integração e unificação se traduzam somente em
uma melhor justaposição entre as diferentes carreiras e cursos, seja por
aproximação nominal ou por convergência entre os planos de estudo,
sem que isto altere de modo significativo as relações entre diferentes
linhas e tipos de escolas e, sobretudo, entre tipos de diplomas e projetos
de prestígio associados a eles.
8
A diversificação escolar pode ser analisada a partir de duas óticas principais: o momento
e o modo em que ocor re. No que diz respeito ao momento, pode considerar-se precoce
ou tardia. É precoce, se acontece dentro do período da escolaridade obrigatória que, na
grande maioria dos países europeus, é uma escolaridade geral e comum. É tardia quando
surge depois de finalizada a escolaridade obrigatória.
Quanto ao modo, a diversificação pode ser curricular, ou seja, nasce no seio de
carreiras e modalidades, dentro de um mesmo tipo de instituição educativa, ou institu-
cional ou estrutural, quando diferentes carreiras de formação se oferecem a um mesmo
grupo etário em diferentes instituições (por exemplo, liceus, escolas técnicas, escolas
profissionais, centros de formação profissional).
80
Por outro lado, em diversos países eur opeus, n a medida em que
evoluem a integração e a unificação curricular e até institucional desse seg-
mento do sistema de educação, a diversificação tende a correr em direção
ao nível seguinte, o ensino pós-secundário e superior, no qual se introdu-
ziu uma série de novas modalidades de formação e de diplomas.
9
A esse respeito, Levin (1978) havia obser vado que a maior uni-
ficação no nível secundário conduz necessariamente a uma maior diver-
sificação nos níveis seguintes.
As perspectivas integradora e unificadora ganham cada vez mais
relevância política, passando até a primeira linha da retórica que legitima
as refor mas desse nível de educação. Essa tendência sustenta-se em três
pilares principais:
1. Do ponto de vista político, adquire enorme importância a re-
tórica econômica ao argumentar que a generalização das aplicações das
novas tecnologias da informação e da comunicação requer uma mão-
de-obra cada vez mais qualificada, e que a velocidade e envergadura das
transfor mações, que ocorrem nos processos de produção, nos produ-
tos, nos mercados e nas org anizações do trabalho, aconselham que os
sistemas de educação e for mação inicial se orientem sempre mais no
sentido de uma formação geral e polivalente, capaz de fomentar a aqui-
sição de competências gerais e transferíveis” (OCDE, 1989). Essa transfor-
mação seria a única capacitada para evitar a obsolescência dos saberes e
das competências ao longo das incertas carreiras profissionais que atual-
mente são traçadas.
2. Esse discur so econômico tende a traduzir-se em reformas edu-
cativas que se propõem a reforçar a chamada educação “geral” (melhor
dizendo, acadêmica) ou a for mação sociocultural dos jovens. Desse
modo, se g arantiria aos futuros profissionais a polivalência e a adapta-
ção necessárias para ingressar no mercado de trabalho.
3. Diante da retração do mercado do primeiro emprego e das
atitudes dos empregadores e suas estratégias concretas de recrutamento
10
,
9
Ver nota 5.
10
Acerca das práticas concretas de recrutamento por parte dos empregadores. Ver os
estudos sobre o caso de Portug al, em AZEVEDO, 1990, 1999; AIP (1997).
81
a demanda social opta cada vez mais (mesmo na Alemanha, onde
predomina o modelo “dual”) pela freqüência de carreiras gerais ou de
ensino médio, não por serem as mais relevantes, do ponto de vista
educativo, mas exatamente porque são as que conduzem, mais direta e
rapidamente, à obtenção dos mais altos títulos escolares, que constituem
a principal defesa contra o desemprego e a maior vantagem para alcançar
alguma mobilidade social ascendente.
11
Esta racionalidade tem-se traduzido vivamente em r efor mas da
educação e da f or mação de nível secundário e, em par ticular, dos seg-
mentos de educação técnica e profissional, o que alguns autores deno-
minam refor mas neoprofissionalistas.
O neoprofissionalismo consiste num movimento recente de polí-
ticas educativas européias, posicionado em torno dos quatro eixos men-
cionados que se pode resumir em: a) redução do número de especializa-
ções técnico-profissionais que existem no sistema de educação e de for-
mação, evoluindo para planos de estudos mais nucleares e polivalentes;
b) instalação e esforço dos troncos comuns de formação, obrig atórios
em todas as carreiras de educação e de formação, e o aumento expres-
sivo da for mação geral acadêmica em todas essas car reiras; c) estabele-
cimento de novos sistemas de equivalências entre cursos e entre carreiras
de educação e d e formação, de tipo ger al e de tipo técnico e profissional,
e a criação de passagens entre esses mesmos cursos e carreiras; d) desen-
volvimento de uma vasta gama de cursos e de modalidades de educação
e de formação, em nível da educação secundária, que criam novo e amplo
mercado de formação para o g rupo etário de 16-18/19 anos.
Atribui-se também ao neoprofissionalismo um caráter social que
se traduz pela crença nas potencialidades da flexibilização curricular e
das novas for mas de inter penetração entre os componentes g eral e pro-
fissional, seja como antídotos contra cer to deter minismo técnico, abrin-
do-se para uma nova compreensão do trabalho e de suas configurações
11
Caberia introduzir aqui uma reflexão mais profunda sobre a crise dos títulos que
acontece na Europa, junto com o aparecimento do desemprego dos egressos da
educação superior que, em alguns países, atinge muitos milhões de jovens na
entrada do mercado de trabalho.
82
éticas, culturais, políticas e econômicas, seja pelo fato de pretender aco-
lher no sistema educativo uma maior diversidade social de jovens, me-
diante uma ampliação da oferta.
A ideologia neoprofissionalista compartilha duas características im-
portantes com o pr ofissionalismo tradicional: por um lado, está imersa
numa retórica otimista, a respeito do valor de troca da educação técnica
e da f or mação profissional, e de toda a for mação para o trabalho e
para o exercício profissional, mantendo o sistema educativo no círculo
funcional e ocupacional, agora mais como importante fator de adapta-
bilidade e de empreg abilidade; por outro lado, sustenta uma visão dico-
tômica entr e educação geral e educação técnica e for mação pr ofissional,
o que equivale a enredar-se na função seletiva da educação e da forma-
ção de nível secundário, e a postergar a adoção do referencial educativo
promocional do desenvolvimento humano como elemento principal.
DO NEOPROFISSIONALISMO AO
METAPROFISSIONALISMO
Outro conceito, que se encontra na linha dos anteriores e que ten-
ciona mostrar a superação de alguns dos dilemas debatidos,éodeme-
taprofissionalismo. O metaprofissionalismo corresponde à outra f ase
na evolução dos sistemas educativos, em que não se considera o aluno
como o objeto central do jogo de inter-relações entre a economia e a
produção das qualificações, porém como o sujeito que quer e também é
capaz de construir seu lugar social e algum outro tipo de relação entre
esses campos sociais.
A perspectiva metaprofissionalista interroga e questiona o pró-
prio neoprofissionalismo em sua formulação de aproximação da edu-
cação profissional com a educação geral acadêmica, adotando um qua-
dro mais realista na análise da relação educação-economia.
12
12
Mesmo que não seja este o momento para explicitar a relação entre economia e
educação, entendo-a como uma long a história de desajuste crônico que leva muitos
dirigentes políticos a sistematicamente tomarem medidas de reajuste entre economia
e educação, que não passam de modos efêmeros de mudar tudo para que tudo, mais
cedo ou mais tarde, permaneça igual.
83
Enquanto predominar, na concepção da educação secundária, uma
matriz funcional, coletivista e instrumental, será inevitável a diversifica-
ção entre modalidades e tipos de ensino, com o selo de uma hierarquia
de prestígio associada. Sendo assim, impõem-se três conclusões. Em
primeiro lugar, tende-se a identificar todas as carreiras escolares e for-
madoras e as modalidades de educação secundária superior que, nos
países em que predomina o modelo escolar, não estão destinadas ao
acesso privilegiado a estudos superiores, como marcadas desde a ori-
gem pelo desprestígio social.
Em segundo lugar, a diversificação curricular e institucional cons-
titui uma inevitabilidade intrínseca à função seletiva dos sistemas escola-
res e ocorrerá sempre, seja qual for o nível escolar em que se produza. É
comum verificar sua maior incidência no segmento pós-obrigatório e
constatar seu deslocamento em direção à educação pós-secundária, o
que sucede em g rande parte dos Estados Unidos e no Japão. Estra-
nho seria, em vez disso, que sumisse totalmente, ao desaparecer de um
deter minado segmento do sistema escolar.
Em terceiro lugar, por mais amplo que seja o leque da oferta edu-
cativa, o modelo escolar polarizado pelo ensino superior tenderá sempre
a estender seu manto de prestígio sobre as outras formas de educação
escolar mais ou menos formais. Nessa ordem de idéias, é provável que,
nas re formas dos segmentos de educação técnica e profissional, esteja
presente um movimento de aproximação e quase identificação com o
referencial principal, o modelo escolar assim polarizado e prestigiado.
O debate ideológico, que atravessa transversalmente as políticas edu-
cativas nacionais, tem-se mantido preso no conflito entre o papel dominan-
te do modelo de educação geral e pré-universitária e o papel relevante que
se atrib ui no discurso político ao ensino técnic oeàformação profissional.
Embora no ordenamento das políticas de educação e de formação,
sobretudo nos países em que predomina o modelo escolar no
secundário
13
, tenha-se atribuído importância considerável a este último
13
Em países, como Alemanha, Áustria e Suíça, onde predomina o modelo dual, e a fre-
qüência da educação e da formação de nível secundário está situada principalmente nas
áreas técnicas e profissionais (mais de 70%), existem outra organização social e produti-
va e outra relação entr e a produção de qualificação e o mercado de trabalho, que afetam
de outro modo a relação educação geral / acadêmica e educação técnica e profissional.
Ver : MAURICE, SELLIER & SILVESTRE, 1982; M AURICE, 1989.
84
tipo de educação e de formação profissional, o fator estrutural continua
influindo muito sobre as escolhas, com seu rationale de educação escolhida,
acesso privilegiado aos mais altos e prestigiosos títulos escolares, seja atraindo
um número crescente de jovens para suas fileiras, seja trazendo as outras
fileiras para sua própria órbita. A linha geral mantém outras iniciativas e
algumas novas medidas de política, principalmente as relativas à educação e
à formação profissional, em sua dependência simbólica”(
VERDIER, 1995).
O neoprofissionalismo alimenta-se de um discurso otimista do-
minante que exalta os benefícios da emergência de uma sociedade pós-
industrial, da sociedade da infor mação e de um modo de produção
pós-fordista. Esse cenário social é apresentado como demandante de
qualificações mais altas e polivalentes, por parte de todos os cidadãos, e
se oculta o efeito de dualização crescente e preocupante que se opera na
mão-de-obra.
Para atualizar o papel social da educação e da formação em nível
universitário, os g overnos lhe a tribuem a função de desenvolver não
somente um leque mais amplo de competências como também uma maior
capacidade de adaptação e mobilidade nos contextos profissionais,
assumindo uma nova cara, marcada também pela flexibilidade, para fazer
frente à diversidade de interesses por uma demanda crescente, para
responder às novas necessidades do mercado de trabalho, em constante
mutação, e para formar cidadãos mais críticos, socialmente ativos e criativos.
O neoprofissionalismo é tributário de uma retórica funcionalista
generalista que ignora as segmentações entre empresas e as segmenta-
ções do mercado de trabalho, no qual impera uma economia de merca-
do cada vez mais globalizada e competitiva, onde recorrer ao saber será
papel cada vez mais central e em que uma nova organização pós-taylo-
rista do tr abalho requer dos sistemas de educação e de formação inicial
o fomento de novas e mais elevadas competências.
A ideologia neoprofissionalista também deve ser considerada como
um consenso abstrato, veiculado por um leque muito diverso de agentes
sociais empregadores, educadores, investigadores, políticos, legisladores
(
STASZ, KAGANOFF & EDEN, 1994) –, sustentado por uma retórica que emana
continuamente de organismos, agências internacionais e redes internacionais
de peritos vinculados com a economia, a educação e o desenvolvimento, e
adotado pelos dirigentes políticos nacionais que o incorporam com um
discurso próprio, compreendido nas reformas educa tivas nacionais.
85
No caso da educação secundária, essa ideologia sofre a adoção
de um conjunto de medidas a ser viço do ajuste funcional do sistema
educativo a três realidades sociais européias: o crescimento do desem-
preg o, a universalização crescente da freqüência da educação secundária,
por causa da explosão de sua demanda e oferta, e o que se designa
como novas exigências em qualificações por parte do modelo emergen-
te pós-fordista de produção flexível, marcado por uma forte dualiza-
ção socioprofissional que expressa grandes desigualdades sociais.
Assim, em nome do modo de produção pós-taylorista e de no-
vas for mas de org anização do tr abalho, as refor mas neoprofissionalis-
tas parecem separar o campo escolar do campo trabalhista. Dessa for-
ma, apagam-se no perfil da educação secundária européia os estigmas
da desvalorização social que o r elacionam com o trabalho. Cria-se a
tendência de educação e formação de nível secundário clean, sem escri-
tórios, sem especialização profissional, sem óleo e fornos mecânicos,
pronta para conduzir os jovens a estudos posteriores e apta para mantê-
los se parados por mais tempo do mercado de trabalho.
Talvez, haja pouca ou nenhuma ambigüidade na vertente econô-
mica do novo mandato social enunciado na atualidade, e no fosso que
parece cavar-se, cada vez mais profundamente, entre o ensino e a for-
mação e entre as empresaseotrabalho. Para o atual processo de rees-
truturação da economia européia, não será decisivo contar com uma
educação técnica e uma f or mação profissional inicial, inseridas no siste-
ma educa tivo for mal, a ptas para produzir os eg ressos dif erenciados para
uma economia altamente diversificada (
BENAVOT, 1983).
Atualmente, o que se requer da educação e da formação inicial é a
“produção” de cidadãos com formação g eral prolongada e de base, ap-
tos para exercer uma pluralidade de funções sociais, entre elas, a de traba-
lhadores e, quando for o caso, possuidores de um perfil não-especializa-
do de competências, que não ponha obstáculos à mobilidade e adaptabili-
dade profissionais. Um perfil que favoreça a possibilidade de circular entre
diversas atividades e diferentes postos de trabalho, que facilite a alternância
entre o emprego e o desemprego ao longo da vida, e que se adapte muito
mais ao atual modus operandi da economia de mercado. Por isso, assegura-se
que a racionalidade que estruturava, no nível do secundário, a relação educa-
ção-trabalho de modo utilitário, especializado, instrumental e estratificador,
deixou de se cor responder com o mercado de trabalho.
86
A mesma racionalidade produtivista defende, atualmente, para a edu-
caçãoeaformação de nível secundário, a desespecialização e a integração
curricular, como o novo e melhor modo de estabelecer aquela correspon-
dência. O fosso a que fizemos referência não se aprofunda; o diferente é o
modo de aproximação. A ambigüidade é fundamentalmente aparente. Den-
tro do mesmo quadro genérico de uma resposta aggiornatta do sistema es-
colar aos imperativos da evolução econômica, delineiam-se novas tensões e
confrontações. A retórica da desespecialização e da integração cur ricular
sobressai da nova ordem econômica e produtiva, mesmo que esse manda-
to se cruze com outros ordenamentos ideológicos igualmente relevantes
que questionam essa retórica e as políticas que com ela se constroem.
AS PROMISSORAS AMBIGÜIDADES DAS REFORMAS
A história do ensino e da formação de nível secundário europeu,
par ticular mente nos países estudados, é um long o processo social em
que se formulam inumeráveis perguntas e respostas, acerca da utilidade
desse nível de educação e de for mação, na busca constante de uma he-
tero-referência de sustentação. A investigação empreendida concluiu que
o funcionalismo técnico-econômico, lig ado atualmente à retórica da glo-
balizaçãoeaumnovomandato econômico, permanece como o princi-
pal referencial das refor mas educativas nesse nível.
Junto a isso, porém, manifesta-se a importância de um compo-
nente cultural que se inclui numa racionalidade humanista que proclama,
como seus eixos principais, o desenvolvimento pessoal dos jovens, o
aumento da polivalência de sua f or mação, o for talecimento da for ma-
ção “geral” e, fundamentalmente, a sustentação funcional da educação e
da for mação de nível secundário.
Os resultados podem admitir dois ângulos de leitura. Em primei-
ro lugar, verifica-se que existe uma tendência a que a especialização téc-
nica e profissional deixe de desempenhar, em distintos países, uma fun-
ção social útil no ensino e na for mação de nível secundário. Ao que
parece, não ser ve às demandas que se destacam de maneira dominan-
te como as necessidades da economia atual. Existe um “saber ser” que
substitui um “saber fazer”; cumpre-se, desta forma, um novo mandato
econômico, para o qual basta pre parar os jovens de acordo com o ethos
87
acadêmico da educação e da for mação de nível secundário, como a
for mação adequada e nova para o trabalho.
Esse novo corpus de saberes e competências põe em relevo a im-
portância do esforço da formação “geral” dos jovens, o que, em várias
das reformas descritas e analisadas, equivale a um crescimento da rele-
vância cur ricular da f or mação acadêmica tradicional e contém o refor-
ço de disciplinas típicas da educação média.
Não surg e de maneira explícita no mandato econômico, embora
esta análise destaque que a nova centralidade da formação ge ral acadê-
mica é corolário da necessidade de o próprio mandato econômico re-
novado selecionar os novos “analistas simbólicos”, de que necessitam
os mercados primários de trabalho; assegurar a continuação de estudos
com uma demanda em expansão e fomentar a adaptabilidade dos “re-
cursos humanos” aos novos contextos tr abalhistas e profissionais. Dessa
for ma, o caráter geral crescente da educação e da for mação de nível
secundário deve ser interpretado como uma funcionalidade eminente-
mente profissionalista e produtiva.
Em segundo lugar, os resultados da investigação refletem tam-
bém a manifestação de uma racionalidade mais próxima de um manda-
to cultural em que diferentes agentes sociais (pais, professores, dirigen-
tes políticos, técnicos responsáveis pelas r eformas) atribuem à educação
e à for mação de nível secundário uma multidimensionalidade que é par-
te integrante de um referencial humanista, inscrito também na cultura
européia, que atribui à educação a finalidade primordial do desenvolvi-
mento humano. As refor mas profissionais, enquanto políticas educati-
vas inscritas nesse modelo humanista e necessariamente multidimensio-
nal, não deixam de ser profundamente ambíguas.
A “nova cultura geral”, a que se refere Jean Marie Domenach (1989,
p. 143), e à qual competiria recuperar o valor social da educação secun-
dária, não se justifica nem se traduz num deter minado corpus curricular,
em função, por exemplo, de sua utilidade produtiva e econômica. Justi-
fica-se enquanto plataforma educativa que está voltada para proporcio-
nar o desenvolvimento humano, considerado fim último do desenvolvi-
mento, para usar os ter mos do informe da UNESCO (1996). A essa
nova cultura geral caberia o objetivo maior de fazer emergir em cada
um sua autenticidade, for mar criadores e não subordinados, a fim de
desenvolver uma idéia que entusiasma Agostinho da Silva (1990).
88
Na medida em que a revalorização da formação “geral” equivale
a um esforço defensivo da educação e da f ormação em torno do ensi-
no acadêmico, e a uma for ma mais integ radora de especialização, como
diz Michael Young (1993), a retórica aparentemente humanista das re-
for mas neoprofissionalistas não se traduz de maneira ef etiva em nova
cultura, mas em maior acomodação e ajuste escolar pseudocultural, tan-
to para um setor fordista da economia como para a nova demanda
social. A dicotomia entre educação geral e profissional tende a manter-
se. A educação geral acadêmica, com seu perfil elitista tradicional, fruto
de poderoso consenso abstrato geral, aparentemente sem autoria nem
lugar, surg e como a melhor maneira de realizar a nova formação pro-
fissional e de desenvolver as novas competências”.
Provavelmente, não era essa a intenção, mas parecem ser esses os
rumos práticos, como certamente o evidenciam muitas análises empíri-
cas desde a década de 60 (
PHILIP FOSTER, por exemplo, 1978 e 1992).
Boa parte da ambigüidade, presente no abandono da especializa-
ção profissional e no esforço da for mação g eral acadêmica, está contida
na incapacidade de que ambos os cursos políticos, aparentemente con-
traditórios, inscrevam-se na mesma racionalidade técnico-funcionalista e
na mesma busca de hetero-referenciação para a educação e para a for-
mação de nível secundário. A crise do império do meio
14
é nítida: as
sucessivas políticas dificilmente conferem importância e se apóiam na
constr ução de um modelo de educação e formação, auto-referenciado
sobre o desenvolvimento de cada ser humano em suas diferentes di-
mensões, que seja capaz de integrar em seu seio todos os adolescentes e
jovens, e possa, simultaneamente, diferenciar as propostas e as práticas
educativas como estratégia de inte gr ação.
O que essas reformas neoprofissionalistas enfrentam, e equaci-
onam muito timidamente, é a necessidade de reconfigurar o próprio
padrão de institucionalização educacional, lig ado de for ma tradicional
ao racionalismo acadêmico e à racionalidade econômica, redefinindo
o lugar da formação ética, estética, geral, técnica e profissional do de-
senvolvimento das expressões físicas e pessoais, o lugar da preparação
para o ócio e para o negócio. Ao que pare ce, a reconfiguração desse
padrão de institucionalização deve ser realizada, tanto no plano local e
14
Essa designação é atribuída a Lucien Fèvre.
89
nacional como no plano global, no seio de uma racionalidade devedora
da renovação do pensamento político em todos os esses planos.
Para diferentes correntes pedagógicas que se autodenominam pro-
g ressistas, conforme assinala também Hickox (1995), o movimento das
novas competências ou neoprofissionalistas está bem preparado para
dar origem ao trabalhador “flexível” que as indústrias pós-fordistas con-
temporâneas requer em e, ao mesmo tempo, liberar a escola de um de
seus instrumentos de seleção e de discriminação (a educação técnica e
profissional especializadas), confundindo acriticamente neoprofissiona-
lismo com igualitarismo e democratização.
A análise sociológica deveria ser mais prudente e não embarcar
com tanta facilidade na retórica pós-fordista. Enquanto a preparação
para o exercício profissional não for uma questão central da própria
educação geral acadêmica e, mais ainda, enquanto não se refaça o con-
ceito da racionalidade que preside a estr uturação do nível secundário,
manter-se-á e continuará ganhando adeptos no mundo a velha máxima
de Husén (1989) de que a melhor preparação profissional é uma boa formação
geral”. Se não se rompe essa dicotomia, a educaçãoeaformação de
nível secundário continuarão dificultando aos jovens uma participação
social adequada (
COPA & BENTLEY, 1992).
na 40ª reunião da Conferência Internacional de Educação (1986),
recomendava-se aos Estados-membros que reestruturassem o ensino
secundário, super ando sua tradicional orientação acadêmica e articulassem
a educação g eral, técnica e prof issional, que contribuem para a formação
de cada um, em um novo sistema equilibrado, harmonioso e
diversificado com f lexibilidade. Como obser vava Roland Paulston
(1992), é necessário um espírito ecumênico, e não se paratista.
Talvez, tenha-se que ir mais longe a fim de evitar a doença do cur ri-
culismo, ou seja, ajustar as propostas educativas à diversidade de inter esses,
talentos e expectativas sociais dos jovens; reordenando processos, métodos
e lugares; procurando integrar a cada um e a todos; aceitando suas diferen-
ças e diferenciando-os para integrá-los verdadeiramente. Para que todos
tenham, na escola ou no centro de formação, a opor tunidade de estudar e
aprender, ou seja, de construir projetos pessoais de vida.
O metaprofissionalismo não é compatível com a subordinação à
racionalidade técnico-funcionalista e à organização por subordinação à
90
hetero-referenciação. Requer, efetivamente, nova institucionalização edu-
cacional que seja capaz de adiantar-se ao modelo moder no de educação esco-
lar”, a fim de permitir aos jovens o acesso à pluralidade de sentidos e
saberes de que estão feitas a natureza, a humanidade e as culturas, e ao
próprio sentido da vida, numa perspectiva pessoal, em solidariedade
com os demais e com a natureza.
A escola reinstitucionalizada pode ser co-autora do cotidiano de
cada adolescente e de cada jovem, de sua própria constr ução, de sua
revelação de que cada um é aquilo que é e aquilo em que se converte
num lugar e num tempo determinados. É aquilo que pode ser. A educa-
çãoeaformação poderão contribuir para o acesso ao sentido, sempre
através da entrada num mundo simbólico, numa cultura de um lug ar.
A educação, como movimento inacabado, em que cada um se
torna humano, como um novelo que se desenrola, confor me seu pró-
prio perfil de dignidade, deveria fundamentar-se na capacidade de fazer
revelar a unidade ir repetível de cada um e, ao mesmo tempo, nas possi-
bilidades que oferece a fim de apropriar-se daquela parte do ser huma-
no que e xiste fora de cada um, que é o outro, uma cultura inserida na
história, em um tempo e em um lug ar.
A busca desses novos rumos, presentes em muitos lugares do
mundo, exige soluções compar tilhadas, estudadas e experimentadas em
comum, no plano mundial da articulação e do concer to de políticas.
Esse movimento internacional é também uma exigência ética. A esse
respeito, a ilusão ética pode ser, como destaca Lipovetsky (1994, p.
234), uma nova forma de consciência democrática”.
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94
ANEXO
QUADRO 1
Síntese comparativa entre modelos de ensino e formação
dominantes na educação secundária (grupo etário 16-19)
1
Transporte: As modalidades de ensino e formação aqui incluídas garantem a passagem para a
continuação de estudos no ensino e na formação do tipo pós-secundário e superior.
2
Ocupacional: Quando a finalidade principal é a capacitação para o emprego imediato.
QUADRO 2
Desespecialização na educação técnica e profissional na Europa
1
1
Nos casos de Espanha, Holanda e Suíça, a integração se processa por outras vias. Na Espanha,
o número de especializações da nova formação profissional aumenta.
2
Entretanto, foi criado o BAC Profissional (1995), que em 1993 se organiza em 332
especializações.
3
Foram criadas, entretanto, as escolas profissionais (1989).
95
QUADRO 3
Tipologia da incidência da diversificação escolar
QUADRO 4
Tipologia de sistemas de educação secundária segundo o grau
de integração/diversificação
97
*
Elena Martín Ortega é doutora em Psicologia pela Universidade Complutense de Madri e
professora de Psicologia Evolutiva e da Educação na Universidade Autônoma de Madri.
Foi subdiretora e diretora geral do Ministério de Educação e Ciência, fazendo parte do
grupo responsável pela concepção e implementação da Reforma Educativa. É membro da
Equipe Técnica do Instituto de Avaliação e Assessoramento de Centros Docentes (IDEA).
3.
OS PROCESSOS DE MUDANÇA NA EDUCAÇÃO
SECUNDÁRIA ESPANHOLA: BALANÇO
PROVISÓRIO
Elena Martín Ortega*
INTRODUÇÃO
O objetivo desta reflexão é aprofundar o sentido e a identidade
que a etapa de educação secundária deve e pode ter em nossos sistemas
educativos, à luz que a experiência da reforma espanhola pode lançar. A
entrada em vig or da nova lei de educação, Lei Orgânica de Ordenamen-
to Geral do Sistema Educativo (LOGSE), em 1990, embora ainda te-
nha cur to percurso, per mite vislumbrar algumas tendências interes-
santes que poderiam ajudar a entender deter minados processoseaevi-
tar cer tos er ros.
Não obstante, antes de passar a esta avaliação, pode ser útil situar
o modelo da LOGSE dentro da controvérsia suscitada nos outros capí-
tulos do livro, acerca das diversas finalidades da educação secundária.
As intenções que justificam as decisões tomadas nas refor mas dos siste-
mas educativos nem sempre são levadas a efeito depois de sua imple-
mentação. Por isso, é importante distinguir, nesta análise, a ideologia
98
educativa que subjaz nos pr ojetos de refor ma e o desenvolvimento real
dos processos educativos que se desencadeiam.
DUAS RACIONALIDADES EM TENSÃO
O excelente trabalho de Joaquim Azevedo estabelece distinção
entre duas racionalidades, per mitindo, por tanto, responder à per gunta
de quais seriam as finalidades da educação secundária uma racionali-
dade econômica e outra centrada no desenvolvimento pessoal do aluno.
No primeir o caso, a educação subordina-se aos interesses de rentabili-
dade do mercado; no segundo, é estabelecido como prioridade satisfa-
zer as necessidades dos cidadãos.
O discurso argumentativo do autor deixa evidente a possível con-
tradição que se pode perceber no fato de que, a partir de duas lógicas
tão distintas, chegue-se a uma mesma proposta: uma educação secundá-
ria mais generalista. Concordamos com sua descrição do problema,
porém acreditamos que, mesmo partindo de ambas as concepções, ao
propor a gestação de uma estrutura semelhante dessa etapa, as razões
são, em cada caso, tão diferentes que a condensação final do cur rículo e
a org anização do secundário acabam sendo muito distintas.
No caso da racionalidade técnico-econômica, o objetivo último é
preparar uma elite de analistas simbólicos para continuar utilizando a
ter minologia de Robert Reich (1993) para os quais as capacidades
mais abstr atas resultam imprescindíveis. Trata-se, por tanto, de uma lógi-
ca seletiva que não se justifica na satisfação das necessidades do conjun-
to da população que tenha acesso a esse nível. Do ponto de vista da
racionalidade humanista, o motivo para defender uma educação secun-
dária generalista baseia-se em dar respostas às capacidades relacionadas
com o aprender a aprender, e atender ao conjunto dos âmbitos de de-
senvolvimento da pessoa, de uma maneira equilibrada.
Tratar-se-ia de proporcionar mais formação a um segmento cada
vez mais amplo da sociedade, a partir da convicção de que é bom para
eles e necessário para a melhoria social. Não seriam, pois, as demandas
do mercado de trabalho que deveriam ser utilizadas como critério prin-
cipal para conce ber o ensino secundário.
99
Seguindo a proposta de Marchesi & Martín (1998), esta concep-
ção poderia situar-se dentro daquilo que esses autores consideram uma
ideologia pluralista, diante da liberal e da igualitária. Na linha que Azeve-
do destaca dessa racionalidade humanista de centrar-se na pessoa, teria
de ser acrescentada, dentro de nosso ponto de vista, ênfase na igualdade
de opor tunidades. Trata-se de potencializar o desenvolvimento pessoal
de todos os alunos e alunas e de proporcionar à escola a função social
de compensação de desigualdades, mesmo reconhecendo a margem re-
duzida, em alguns casos, desse potencial reequilíbrio.
Na sociedade do conhecimento em que nos desenvolvemos, é
preciso identificar as aptidões que permitirão aos futuros cidadãos con-
tinuarem aprendendo ao longo da vida e usarem seus conhecimentos
para atividades variadas (UNESCO, 1996). As tendências que se obser-
vam neste momento apontam para uma situação em que se mudará de
trabalho ao longo da vida profissional e o tempo de trabalho remunera-
do poderia perder importância; haveria alternância de momentos de
atividade e inatividade trabalhista; o trabalho social vinculado ao volun-
tariado iria, felizmente, ganhando espaço, e haveria de estar pr epar ado
para combater o ócio e preencher o tempo livre, como atividade for-
mativa e de desenvolvimento pessoal.
As aptidões requeridas para poder responder a essas demandas
vão, c laramente, além de um ensino especializado e lig ado, exclusivamen-
te, a competências profissionalizantes. Daí, propor-se também, dentro de
uma racionalidade humanista, uma educação secundária muito generalista.
Todavia, o objetivo é muito dif erente; não se trata de selecionar os mais
competentes que de pois dirigirão ao mundo do tr abalho, mas de dar mais
for mação a uma prog ressiva maioria de cidadãos, a fim de que possam
desenvolver-se como pessoas por meio do conhecimento.
QUE SE ENTENDE POR EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA
GENERALISTA?
O que é, pois, uma boa f or mação geral a serviço desses objetivos
de desenvolvimento pessoal? Sem dúvida, é muito grande o risco apon-
tado por Joaquim Azevedo de responder a esta pergunta com viés aca-
demicista, que assimila o g eral com o abstra to, com as lógicas formais,
100
dentro da tradição mais racionalista. No entanto, hoje em dia, mantém-
se uma posição muito controvertida em educação, que considera deter-
minadas disciplinas como depositárias exclusivas da capacidade de raci-
ocínio, relegando outros sa beres a uma categoria inferior, sob a tenden-
ciosa acusação de que são “aplicados” ou “técnicos”.
No caso do sistema educativo espanhol, esse debate teve uma in-
tensidade especial que chegou a concretizar-se num propósito de modifi-
cação do currículo da educação secundária da LOGSE por parte do go-
verno atual. Essas propostas de modificação, no entanto, não tiveram apoio
suficiente no Parlamento e não cheg aram a converter-se em norma
1
.
O objetivo da modificação apresentada era aumentar a carga horá-
ria de Língua, História, Filosofia e Latim, em detrimento das áreas restan-
tes do currículo: científicas, artísticas, tecnológicas e relacionadas com a
educação física. Esta posição mostra uma concepção muito restrita do
que é o humanismo no momento atual. Do nosso ponto de vista, os
conhecimentos relacionados com a compreensão da relação do ser hu-
mano com o meio ambiente, a análise da influência da economia sobre as
relações humanas e a reflexão a respeito das complexas relações entre
ciência, tecnologia e sociedade constituem, hoje em dia, saberes impres-
cindíveis para manter uma posição humanista diante da realidade.
Essa concepção mostra um cer to despre zo por outras formas de
conhecimento ligadas a áreas disciplinares distintas e, em especial, por
tudo o que se relaciona a “saberes práticos”. Obviamente, sua maneira
de entender a prática é reducionista. Responde a uma identificação errô-
nea entre o prático e o simplista e um enfrentamento igualmente gratui-
to entre prática e abstração. É um propósito, como muito acer tadamen-
te coloca Joaquim Aze vedo, de garantir uma educação secundária clean,
sem atropelos, a salvo das controvérsias que, em seu modo de ver, o
componente trabalhista necessariamente implica.
Quando nos referimos a uma educação secundária generalista, não
a entendemos, sem dúvida alguma, nesse sentido, por duas razões. A
dimensão profissional de qualquer cidadão é, certamente, um dos aspectos
1
Para uma análise detalhada da história dessa polêmica, veja-se o capítulo 6 do livro de
MARCHESI,A.Controvérsias en la educación española. Madrid: Alianza Editorial, 2000.
101
fundamentais de seu desenvolvimento pessoal. Por mais mudanças que
se produzam no mundo trabalhista, a atividade produtiva sempre fará
parte do ser humano. É uma experiência muito rica da qual se obtém
valiosas aprendizagens. Retirar este componente educativo é, por
conseguinte, cercear uma das funções básicas previstas na concepção
que vimos denominando humanista.
O outro argumento é de natureza mais psicológica, porém todos
os docentes são capazes de identificá-lo, embora em sua definição não
utilizem a mesma ter minologia técnica. Referimo-nos à sabedoria que
encerra o comentário de uma professora quando diz: Não aluno que
não tenha algo bom”. Esta frase daria para uma análise educativa extensa,
mas o que nos interessa é chamar atenção a respeito dos diferentes esti-
los dos alunos para enfrentar as situações escolares e os processos de
aprendizagem.
O objetivo da escola não é somente desenvolver capacitações cog-
nitivas, mas contribuir para o conjunto do desenvolvimento da pessoa.
Juntamente com o intelectual, os alunos têm que aprender a ser pessoas
equilibradas emocionalmente, empáticas, solidárias, responsáveis e ativas
diante dos problemas de seu ambiente. São muitos os currículos que in-
cluem essa variedade de capacitações. No caso do sistema educativo es-
panhol, seguindo o modelo de César Coll (1987), fala-se de cinco tipos de
capacitações: cognitivas, motoras, afetivas, de relação interpessoal e de
inserção e a tuação social. O desenvolvimento harmônico dessas diversas
áreas não se pode alcançar unicamente mediante as disciplinas que se con-
sideram habitualmente vinculadas ao r aciocínio abstra to e formal.
Em apoio a esses argumentos, estariam os enfoques mais recentes
sobre a inteligência, que questionam totalmente a existência de um tipo
único de inteligência e defendem modelos que mostram a variedade de
maneiras inteligentes que o ser humano tem para compreender a reali-
dade e agir sobre ela. Os trabalhos de Sternberg (1996) sobre inteligên-
cia inerte e inteligência de êxito; a proposta de Gardner (1993) sobre
inteligências múltiplas ou a de Goleman (1995) acerca da inteligência
emocional são exemplos de enfoques sobre o funcionamento intelectual
que respondem muito melhor ao que se comprova no comportamento
cotidiano das pessoas e que têm claras repercussões no currículo e na
org anização escolar. Os alunos devem encontrar, nos centros docentes,
for mas variadas de acesso à gênese do conhecimento que r espondam a
essa diversidade de aptidões intelectuais.
102
Por outro lado, a psicologia atual põe em dúvida as teorias sobre
capacitações gerais, no sentido de competências que se aplicam indistin-
tamente a qualquer área de conhecimento ou problema concreto. Na
verdade, parece que se aprende as teorias intimamente ligadas aos do-
mínios específicos, e, a partir dessas aprendizagens situacionais e con-
textualizadas, vai sendo produzido um processo de generalização que
no final nos permitiria falar de capacidades gerais (
POZO, 1996).
A aprendizagem, porém, deve partir do desenvolvimento dessas
habilidades em disciplinas variadas, cujas peculiaridades per mitirão cons-
tr uir o que log o poderia g eneralizar-se a outros campos. Esses proces-
sos de generalização não são automáticos, mas devem ser ensinados
durante a escolarização. Não é, portanto, cer to que essas capacitações
abstratas possam ser ensinadas, voltadas para o aprender a aprender,
unicamente mediante disciplinas mais formais. Ao contrário, é pr eciso
trabalhá-las a partir das disciplinas dos currículos, embora, na verdade,
buscando nesses processos, favorecer uma generalização que nunca será
automática.
Por último, a super ação dessa versão “academicista” deveria ma-
nifestar-se no secundário pela incorporação explícita de elementos pro-
fissionalizantes, no tronco geral da educação secundária. A compreen-
são do componente trabalhista de nossa sociedade deve ser, sem dúvi-
da, um ing rediente básico da for mação de qualquer cidadão. E esse
conhecimento é diferente da f or mação especializada para postos con-
cretos de trabalho. Vários países pr etenderam manter essa pr esença pro-
fissionalizante, inclusive na educação secundária mais acadêmica, como
se percebe na reflexão do professor Azevedo. No caso da ref or ma es-
panhola, esse princípio levou à distinção entre dois conceitos: for mação
profissional de base e formação profissional específica.
O primeiro refere-se àquelas aprendizagens que se introduziram
na educação secundária e no ensino médio, com a intenção explícita de
desenvolver nos estudantes capacitações necessárias para sua vida ativa e
adulta. Da mesma for ma que se considera básico e geral que uma pes-
soa saiba ler, falar, efetuar cálculos, relacionar-se com os demais e co-
nhecer minimamente seu meio (tudo isto objeto de for mação geral e
básica, articulado mediante as disciplinas tradicionais, como Língua, Ma-
temática, Ciências Naturais, Ciências Sociais, etc.), deve-se considerar
ge ral e básico que for me suas atitudes e aptidões para “saber trabalhar”.
103
A presença da for mação profissional de base se reflete num triplo
sentido. Primeiro, na existência de determinadas disciplinas como a Tecno-
logia e a Economia, a transição para a vida ativa e adulta, relacionadas às
optativas, com oficinas práticas ou com a disciplina de Ciência, tecnologia e
sociedade. Segundo, nos documentos de orientações metodológicas que o
Ministério forneceu aos centros, insistia-se na necessidade de utilizar um
enfoque didático que destacasse a funcionalidade da aprendizagem, isto é,
sua conexão com o papel que os conhecimentos adquiridos teriam nas trans-
formações sociais.
Por último, fez-se enorme esforço para organizar a orientação aca-
dêmica e profissional, introduzindo-a nos centros profissionais especializa-
dos nas horas de monitoração. Este último elemento está presente em mui-
tos sistemas educativos que, no entanto, não compartilham o conceito de
formação profissional de base. Não obstante, a maneira concreta, com que
eles planejam essa orientação, pode contribuir para o desenvolvimento das
capacitações anteriormente assinaladas.
Tais medidas , contudo , são ainda insuficientes; seria necessário planejar
contatos reais com o mundo trabalhista, durante a educação secundária, não
com a finalidade de adiantar a formação profissional, mas como meio de
desenvolver as competências gerais de compreensão do ambiente em que
cada um se move, e de inserção e atuação social. O divórcio entre as escolas e
o trabalho e a busca desse secundário clean favorecem uma visão sectária e
negativa da formação profissional, visão que continua colocando esses ensi-
nos num plano de inferioridade, reforçando com isso a mentalidade social
majoritariamente vigente.
Em síntese, mais formação secundária para todos, centrada, porém,
nas necessidades de desenvolvimento pessoal e, não exclusivamente, nas
demandas do mercado, superando o enfoque unilateral de disciplinas for-
mais abstratas e incorporando elementos profissionalizantes e de contato
real com o mundo do trabalho, tanto na educação secundária obrigatória
como no ensino médio.
A EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA NO SISTEMA
EDUCACIONAL ESPANHOL
A concepção da educação secundária da LOGSE responde a várias
características ressaltadas no segmento anterior, embora tenha, sem
104
dúvida, muitas limitações que deverão ser melhoradas. Em sua etapa
obrigatória (12 -16 anos), faz opção por um ensino compreensivo com
o objetivo de adiar o mais possível o momento em que os alunos teriam
que escolher entre um caminho acadêmico e outro profissional. Os
estudos sobre os modelos compreensivos mostraram suas dificuldades
para atender à diversidade, porém mostraram também que atrasar essa
escolha contribui para que as opções se r ealizem, de f or ma mais intensa,
por motivos acadêmicos e, nem tanto, pela origem sociocultural dos
alunos (
HUSÉN, 1986; PEDRÓ, 1996; MARCHESI & MARTÍN, 1998). Como
obser vam estes últimos autores:
A implantação de sistemas polivalentes ou abrangentes foi impulsionada
historicamente por políticas mais progressistas que situavam, no centro da
reforma, a igualdade de oportunidades para todos os alunos e a superação
de uma escolha prematura que era socialmente discriminatória [...]. A partir
das investigações orientadas para comparar os rendimentos acadêmicos
dos alunos, também não se comprova que os sistemas abrangentes pro-
duzam piores resultados [...]. Os dados fornecidos pela International Asso-
ciation for the Evaluation of Educational Achievement (IEA) puderam esclare-
cer o rendimento dos melhores alunos nos sistemas mais abrangentes e
nos mais seletivos [...]. Os resultados das comparações foram claros. Em
primeiro lugar, os melhores alunos de países com educação abrangente
mostravam o mesmo nível de competência que os dos países com maior
seleção precoce. Em segundo lugar, o desequilíbrio na representação de
classe alta e baixa entre alunos dos cursos anteriores à universidade era
menor nos países com sistemas abrangentes (HUSÉN, p. 71-72).
Maior conexão entre o ensino médio e a formação profissional
Com relação ao secundário pós-obrigatório, ele está or g anizado
em duas vias: uma acadêmica ensino médio e outra profissional
ciclos for madores. Porém, a relação entre essas opções é atualmente
muito mais estreita que no sistema educativo anterior (
PUELLES, 1996).
Em primeiro lugar, para ter acesso a ambos os ensinos, é necessário ter
obtido o certificado de conclusão da educação secundária obrigatória.
Com a Lei Geral da Educação, vig ente até 1990, os r equisitos de
titulação eram diferentes. D e fato, era permitido cursar a for mação pro-
105
fissional sem ter obtido o diploma da educação básica. A vontade fir me
da reforma, de fazer da fo r mação prof issional uma alter nativa educati-
va de qualidade, atraente para os estudantes, levou a que se exigisse desta
a mesma titulação para o ensino médio, de maneira que se mudasse a
tendência de que estes estudos fossem realizados, fundamentalmente,
por alunos que não tiveram oportunidade de cursar o ensino médio,
mas sim por escolha própria.
Junto a essa primeira mudança, introduziram-se outras duas, tam-
bém muito importantes e diretamente vinculadas a ela: para ter acesso à
for mação profissional de nível superior, era preciso cursar o ensino mé-
dio, e em suas disciplinas incluíram-se elementos profissionalizantes.
Analisemos o sentido dessas duas medidas.
A melhoria do status educativo da formação profissional e as de-
mandas do mercado de técnicos superiores exigiam uma oferta de alto
nível nesses ensinos. Por isso, os ciclos for madores de nível superior
situaram-se de pois do ensino médio, com a finalidade de assegurar uma
for mação básica, de caráter bastante generalista, que pudesse garantir as
capacitações necessárias ao exercício de qualquer profissão de nível téc-
nico superior.
2
Nesse modelo, está subjacente, por tanto, a idéia de que as mudan-
ças nos postos de trabalho que uma pessoa vai experimentar, ao longo
de sua vida profissional, requerem que o sistema educacional desenvol-
va nos estudantes deter minadas capacitações cognitivas (autonomia, pro-
dução de novos conhecimentos, etc.); de equilíbrio pessoal (autocrítica e
auto-estima ajustadas, controle diante dos conflitos, etc.); e sociais (capa-
cidade de trabalho em equipe, valorização dos outros pontos de vista,
respeito pela diversidade, etc.), que são imprescindíveis para a vida adulta
em geral, porém, sem dúvida alguma, também para a profissional.
A aquisição dessas capacitações requer tempo e são próprias de
uma formação secundária superior em nossa sociedade. É adequado,
por conseguinte, que os técnicos superiores passem pelo ensino médio
para que depois, no ciclo formativo superior, recebam uma for mação
profissional específica, dirigida a um determinado posto de trabalho.
2
O sistema educativo espanhol corresponde aos níveis de qualificação profissional da
Comunidade Européia: nível 5 licenciatura; nível 4 diplomação; nível 3 técnico
superior; nível 2 técnico.
106
Os ciclos de for mação estão concebidos como ensinos de dura-
ção média (ano e meio, dois anos), muito especializados e org anizados
mediante sistema de créditos, de maneira que servem também para a
reciclagem dos tr abalhadores ativos que precisam se atualizar.
3
Essa org anização significa que um aluno, ao terminar o secundá-
rio obrigatório e tenha escolhido cursar um ciclo for mativo de nível
médio, não pode passar diretamente para um ciclo superior, sem faz er,
previamente, o curso de ensino médio.
A falta de conexão direta entre ambos os níveis foi um dos aspec-
tos mais debatidos no momento de elaboração da lei. No próximo
segmento, serão apresentadas algumas r efle xões acerca das conseqüên-
cias que foram sendo observadas no sistema.
O desejo de romper com a secular dissociação entr e a formação
profissional e o ensino médio reflete-se também na incorporação, a este
último, de elementos mais profissionalizantes que respondem à idéia de
for mação profissional de base no tronco comum, a que se fez referên-
cia no segmento anterior. A criação de um ensino médio tecnológico
pode ser entendida como manifestação dessa tendência, embora não
seja a mais relevante.
Maior importância tem a existência de itinerários, dentro de todas
as modalidades que se dirigem aos ciclos, a inclusão de disciplinas, como
Economia, Direito ou Mecânica, e o caráter mais funcional que se preten-
deu dar ao conjunto do currículo . A maior lig ação entre ambas as vias se
completa com a conexão direta de determinados ciclos de formação de
nível superior com carreiras de primeiro ciclo na universidade.
Por último, a LOGSE consolida a inter-relação dos ensinos acadêmi-
cos e profissionais, mediante a fusão num único corpo docente, denomina-
do professor de secundário, daqueles que, a esse momento, se dividiam
em professores de ensino médio e professores de formação profissional.
4
3
Essa reflexão sobre as capacitações gerais necessárias para a formação profissional seria
extensiva aos ciclos formadores de g rau médio, razão por que, entre outras assinaladas,
estão situados depois do secundário obrigatório, e não paralelamente a ele.
4
Na nova formação profissional, produziu-se também uma novidade que representa,
a nosso ver, um avanço importante. Criou-se a figura de professor especialista, que
permite a profissionais do universo trabalhista, repartir aulas de tempo parcial, sem
107
Mesmo assim, unificaram-se os centros de tal maneira que, em um mes-
mo instituto, se para-se a educação secundária obrigatória, o ensino médio
embora nem sempre todas as modalidades e alguns ciclos formado-
res de nível médio e superior. No segmento próximo, comentaremos tam-
bém algumas valorizações em relação a esta decisão. Antes, porém, é p re-
ciso faz er um a br eve descrição da estrutura do ensino médio.
O equilíbrio entre o comum e o optativo no ensino médio
A estrutura e o currículo do ensino médio respondem à intenção de
oferecer um secundário que equilibr e formação g er al com diversidade de
opções que encaminhem os estudantes em direção a diferentes carreiras
ou ciclos for madores. A procura desse difícil equilíbrio, aliada à duração
reduzida dessa etapa educativa (dois anos), fez com que se organizasse
esse ensino em modalidades distintas e com um conjunto interno de três
tipos de disciplinas: comuns, específicas de modalidade e optativas.
No primeiro gr upo, juntam-se disciplinas “clássicas” nas quais, em
nossa opinião, deixa-se de fora alguma matéria mais atual, como, por exem-
plo, ciências ambientais. A seleção a que por fim se chegou reflete, mais uma
vez, o quanto é difícil superar o peso da tradição e dos conhecimentos
considerados exclusivamente como humanistas. A preponderância desse tipo
de disciplina não evitou, todavia, a crítica à perda de peso das humanidades
no currículo, como se comentou no parágrafo anterior.
As disciplinas específicas de modalidade oferecem um cunjunto
de alternativas que, juntamente com as disciplinas claramente optativas,
per mitem configurar diferentes itinerários dentro de cada uma das
modalidades ( Figuras 1 e 2). Nas optativas, diferencia-se também entre
próprias de modalidade e transversais, com o é o caso da disciplina
Ciência, tecnologia e sociedade ou das “tecnologias da infor mação e
serem funcionários docentes. Essa iniciativa tem importantes vantagens, uma vez
que garante a presença de professores bastante atualizados nos conhecimentos pró-
prios de sua disciplina, precisamente por continuar em contato direto com a realida-
de do trabalho, e que nunca se teriam incorporado ao sistema educativo como
atividade profissional.
108
comunicação”, que se consideram úteis a qualquer tipo de estudos e
para o desenvolvimento na vida adulta. Um aluno pode chegar a cursar
dois itinerários e, inclusive, duas modalidades, escolhendo, no espaço
das disciplinas optativas, as específicas de outra modalidade.
O título que se obtém é único, seja qual for a modalidade cursada,
e não tem caráter profissional. A conexão com as carreiras universitárias
e com os ciclos formadores de nível superior se estabelece mediante a
obrigação de haver cursado deter minadas disciplinas do ensino médio,
porém não fica ligada ao conjunto da modalidade. O ingresso nas car-
reiras universitárias exig e que se vença uma pr ova confir mada de acesso,
e o peso na nota final, segundo a qual o aluno tem prioridade para
escolher os estudos que deseja, é de 40%, e se reser va o de 60% para a
nota média do ensino médio (Figuras1e2).
Antes de apresentar alguns dados sobre o funcionamento desse
novo ensino, devem ser obser vadas algumas de suas limitações, pre-
sentes desde a f ase de conce pção. Primeiramente, sua duração talvez seja
excessivamente curta. Isto requer a concentração de muitos conteúdos
nesse período, o que faz a etapa pesada. Por outro lado, a nosso modo
de ver, o cur rículo estabelecido torna-se e xcessivamente conservador.
Deixa-se fora, entre as disciplinas específicas de modalidade, as discipli-
nas sociais, como a Psicologia ou a Sociologia, e confere um maior peso
à Economia. Cremos também que teria sido desejável uma organização
mais interdisciplinar do conhecimento, algo que caracteriza o prog resso
da ciência no momento atual.
Por último, apesar do esforço para introduzir a formação prof is-
sional de base, está sendo difícil a mudança no professorado, a fim de
levar par a a prática os elementos profissionalizantes. Por outro lado, a
possibilidade de um maior contato com o mundo do trabalho não é
contemplada nas atividades cur ricular es.
Sabe-se que as refor mas sofrem um duplo “desg aste” em seu
processo. Primeiro, no sistema de debate das decisões básicas, anterior
a sua aprovação, são descar tadas muitas das inovações que os legis-
ladores desejam introduzir. E m segundo lug ar, na prática, a implanta-
ção modifica, de f or ma substancial, as intenções que finalmente se in-
troduziram nas leis (
FULLAN, 1991). No segmento seguinte, analisare-
mos alguns dados sobre a realidade da educação secundária no siste-
ma educativo espanhol.
109
TENDÊNCIAS OBSERVADAS NOS PRIMEIROS ANOS
DE APLICAÇÃO DO SECUNDÁRIO ESTABELECIDO
NA LOGSE
Antes de mais nada, é preciso destacar que os resultados que serão
comentados têm valor relativo, uma vez que são muito poucos os anos de
funcionamento da nova educação secundária. O calendário de aplicação da
reforma prescrevia uma entrada escalonada dos diferentes cursos do in-
fantil ao ensino médio a partir dos anos 90, de maneira que, no momento
em que este texto está sendo escrito período 1999/2000 –, generalizou-se
a implantação do último curso da educação secundária (15-16 anos). O
ensino médio, por conseguinte, se incorporará a todos os centros, nos dois
próximos cursos. Contudo, algumas comunidades autônomas adiantaram a
implantação da reforma, e seus centros dividem entre si, faz vários anos,
o novo ensino. No restante do Estado, também um importante número de
centros decidiu incorporar -se ao novo sistema, antes da data obrigatória.
O Quadro 1 apresenta os dados atuais sobre alunos matriculados
nos diferentes cursos nos últimos anos. Esse panorama permite, pois, dar
início à análise do funcionamento da etapa secundária, mas com muita pru-
dência. As mudanças nos sistemas educativos passam por fases diversas e
demoram em consolidar suas inovações. Por isso, como observa César Coll
(1999), é conveniente estabelecer diferença entre três visões ou lógicas, a
partir das quais pode-se realizar a análise das reformas. A lógica da justifica-
ção, que remete às razões que fundamentam as decisões tomadas; a lógica
da possibilidade, que avalia a medida em que foram disponibilizados os
recursos que essas decisões exigiam; e a lógica da implantação, que supõe a
refl exão a respeito das condições em que se concluiu a efetivação. À primei-
ra visão foram dedicados os segmentos anteriores. Passemos agora a apre-
sentar algumas tendências observadas nesses anos e a destacar possíveis fa-
tores que ajudam a entendê-las (Quadro 1).
Os níveis de aprendizagem
A primeira tendência é precisamente a enorme escassez de informa-
ção rigorosa e sistemática com que se conta. Sem dúvida, ainda são muito
poucos os dados estatísticos e os estudos ou avaliações realizados sobre a
implantação da educação secundária. O mais importante trabalhoéoqueo
110
Instituto Nacional de Qualidade e Avaliação (INCE) ela borou em 1997 e
publicou em 1998, em que analisava, entre outras coisas
5
, o rendimento dos
alunos entre 14 e 16 anos que cursavam três tipos distintos de ensino: os
dois primeiros anos do ensino médio da Lei Geral de Educação do ano 70
(BUP), os dois primeiros anos da formação profissional também da lei de
70, e os dois últimos anos da educação secundária obrigatória (ESO), da
LOGSE, numa mostra representativa de toda a Espanha.
Os resultados apresentados no Quadro 2 mostram que os alunos
de de BUP obtiveram, em linhas gerais, melhores rendimentos que os
de da ESO. No entanto, quando se tomam conjuntamente os resulta-
dos de de BUP e de de curso de formação profissional, as notas
dos alunos da ESO são lig eiramente superiores. E este é o dado adequa-
do. Comparar os resultados da nova educação secundária obrigatória
apenas com os de ensino médio não é viável, que, atualmente, nas
aulas, estão os que cursavam ensino médio, mas também os que cursa-
vam a formação profissional. E mais: estão os que abandonavam antes
e os que, ao ter minar aos 14 anos, não continuaram estudando.
Os dados desses dois últimos grupos são insuficientes, porém,
pelo menos, permitem fazer a comparação com as pontuações de BUP
e da f or mação profissional, de for ma conjunta. Quando o cálculo é
esse, comprova-se que, apesar da maior diversidade, as pontuações
médias não caíram (Quadro 2).
Outro dado que também ajuda a avaliar os resultados da educa-
ção secundária obrigatória procede da comparação dos alunos aprova-
dos na ESO e no final dos cursos correspondentes, da Lei Geral de
Educação (2º de BUP e de FP), que Marchesi (2000) apresenta em
seu livro. Como se observa no Quadro 3, o percentual de alunos que
conclui o curso correspondente é algo superior na ESO
6
.
5
O estudo incluía cinco grandes temas: os resultados dos alunos; os planos de estudo
e os métodos de ensino; o funcionamento dos centros; a profissão docente, e família
e escola.
6
Como observa o autor, é preciso ser cuidadoso na interpretação desses dados, por-
que alunos que, ao terminar a educação básica da lei de 70, não continuam
estudando FP nem BUP, com o que os dados desses dois segmentos educativos não
representam toda a população. E, por outro lado, porque os sistemas de promoção na
Lei Geral de Educação e na LOGSE são diferentes.
111
Esse resultado aponta na mesma direção que os dados do estudo
do INCE (Quadro 3).
Com relação aos resultados dos alunos do novo ensino médio, o
dado mais relevante, com que contamos, refere-se as suas qualificações,
quando eles comparecem para a prova de acesso à universidade, em
comparação com as que obtêm os alunos que ainda vêm pelo sistema
de BUP da lei anterior. No Quadro 4, esses resultados se apresentam
durante os três últimos cursos. Como se obser va, as diferenças entre os
alunos do último cur so da Lei Geral de Educação, do Curso de Orien-
tação Universitária (COU) e do ensino médio LOGSE não chamam
muito a atenção, em nenhum momento.
É impor tante destacar que, no último ano, os alunos da LOGSE
super am lig eiramente os de COU. Este dado é mais relevante se for
levado em conta que o número de alunos que, em 1999, se apresenta-
ram para a seleção era muito mais elevado do que nos cursos anteriores,
o que confere maior validade estatística a esse último número. Não pa-
rece, pois, que os níveis de aprendizagem dos alunos do novo ensino
médio sejam piores do que os do antigo (Quadro 4).
Antes de encerrar esta breve apresentação de alguns dados sobre
a implementação da refor ma, a par tir do ponto de vista do rendimento
dos alunos, convém insistir em que o novo sistema está ainda se conso-
lidando, e que a convivência de duas estr uturas escolares, a da Lei Geral
de EducaçãoeadaLOGSE, é mais uma dificuldade. Tudo isso faria
pensar que no futuro as tendências poderiam melhorar ou, pelo menos,
manter-se nesse mesmo sentido.
O desenvolvimento da nova for mação profissional
Em relação ao novo ensino de for mação profissional (FP), a ava-
liação é bastante positiva e algumas conclusões provisórias podem ser
extraídas (Quadros5e6).
Uma mudança de mentalidade que exige tempo
Os alunos que têm acesso a um ciclo formador de grau médio
têm alcançado a diplomação em educação secundária, portanto poderiam
112
ter cur sado tanto a FP como o ensino médio. A LOGSE estabelece que,
quando acabam o ciclo for mador de nível médio, não podem passar
diretamente para um ciclo superior, mas deveriam cursar o ensino médio
ou, se têm 21 anos, fazer uma prova de admissão que, se for bem-
sucedida, per mitirá a entrada no ensino técnico superior. Como se
obser vou, a justif icação dessa estr utura era devida, por um lado, ao alto
nível de preparação com que foram concebidos os ciclos superiores e,
por outro, ao caráter ter minal que para alguns alunos poderia ter a
for mação como técnico, a fim de se inserirem diretamente no mundo
do trabalho. De fa to, as análises do mercado mostram que é necessário
esse tipo de profissional.
No entanto, ambas as razões se baseiam numa mudança de men-
talidade que está demorando a produzir-se. Existe uma tendência secu-
lar para pensar na for mação profissional como uma via paralela à aca-
dêmica, onde, uma vez que se entrou, espera-se encontrar sucessivos
ensinamentos, sem voltar ao tronco geral. Isso provocou uma pressão
para conectar diretamente os ciclos formadores de g r au médio com os
superiores. Assim tem sido durante muitos anos. A Lei Geral de Educa-
ção, do ano de 1970, unia diretamente a FP-1 e a FP-2.
Por outro lado, a sociedade continua considerando a formação
profissional uma via “de segunda classe”, e não anima seus filhos e filhas
a r ealizar esses estudos. Essa perce pção pejorativa manifesta-se aguda
no caso dos ciclos de nível médio que são vistos como um “efeito teto”,
tornando-os pouco atr aentes.
Na análise, é necessário levar em conta algum outro elemento. O
fato de considerar pouco atraentes os ciclos de grau médio faz com que
muitos alunos que não se sentem motivados pelo ensino médio, mesmo
assim, se matriculem nele, o que significa, em muitos casos, um problema
para o estudante e para o pr ofessorado. A LOGSE estabeleceu a obrig a-
ção de dar um “conselho orientador” a todo aluno, ao finalizar a educa-
ção secundária obrigatória, recomendando que ele leve em consideração
o passo mais importante em sua formação futura. Esse conselho é confi-
dencial e não-prescritivo. Confidencial para evitar que, se, por último, o
aluno optar por alg o diferente do sug erido, os professores ao r ecebê-lo,
desenvolvam expectativas negativas. Não-prescritivo porque, se o f osse,
não seria certo que existisse uma titulação única ao finalizar a ESO, que
abrisse, indistintamente, vias acadêmicas e profissionais.
113
Sendo essas razões corretas, dentro de nosso ponto de vista, o fato
de que a última decisão corresponda ao aluno, leva muitos professores a
temerem que, alguns estudantes aos quais se recomendou irem a um ciclo
“estejam no próximo sentados na primeira fila do ensino médio”, utilizando suas
próprias palavras. E consideram, não necessariamente com acerto, que o
escasso atrativo dos ciclos médios agrava esse problema.
Acrescente-se que as famílias costumam pretender que seus filhos
e filhas, “já que possuem o título”, aproveitem e f açam o ensino médio.
Além disso, se o centro não tem cic los for madores coisa que, confor-
me foi destacado antes, acontece em numerosos casos aparece uma
dificuldade a mais, uma vez que nor malmente nem o aluno nem a famí-
lia quer que o estudante tenha de mudar de centro e de amig os. Daí a
importância de os centros disporem de ambos os ensinos.
Por último, deve-se pensar que a procura por esse acesso direto
poderia obedecer também a razões muito mais pragmáticas por parte
de empresários de instituições privadas e dos próprios alunos. Alguns
destes últimos querem, às vezes, ter, simplesmente, um trampolim mais
fácil para conseguir acesso aos ciclos de grau superior, evitando o ensi-
no médio. Os outros buscam apenas otimizar seus equipamentos e, sem
dúvida, o acesso direto o faz.
Essas últimas razões não pretendem ocultar a possibilidade de
que, verdadeiramente, os ciclos for madores estejam mal conce bidos, e
seja conveniente conectar ambos os níveis da FP, porém, se querem es-
clarecer como a lógica da possibilidade e a lógica da implantação de-
vem ser levadas em conta para discernir se a ocasião é incorreta, se é que
não foram colocados os recursos necessários ou se, sendo correta “teo-
ricamente”, supõe uma mudança excessiva para a tradição de nosso sis-
tema educa tivo. Saber a causa ou causas que explicam a realidade que
obser vamos é, obviamente, fundamental, uma vez que são diferentes as
medidas necessárias que procedem de cada caso.
Recentemente, no início do curso 1999/2000, o governo introdu-
ziu uma modificação na LOGSE, de tal forma que existe uma cone xão
quase direta entre os ciclos de grau médio e superior para solucionar
esse pr oblema detectado.
7
Os alunos que tenham 18 anos, ao conc luir o
7
A mudança introduzida no artigo 69, da Lei 55/1999, de 29 de dezembro (BOE, 30
de dezembro) de Medidas fiscais, administrativas e de ordem social modifica o parágrafo
3, do artigo 32, da LOGSE.
114
ciclo médio, poderão ter acesso ao superior da mesma área ou de áreas
afins, mediante o exame de ing resso que, assim, retrocede em três anos.
Esse pode ser um g rupo numeroso, uma vez que muitos alunos finali-
zam a educação secundária aos 16 ou aos 17anos, e a duração do pró-
prio ciclo coloca-os nos 18. Os alunos que ainda não tenham esta
idade poderão realizar um “curso ponte”, onde serão trabalhados al-
guns dos aspectos do ensino médio. Fica claro que não necessitam pas-
sar pelo ensino médio, com tudo o que isso pode significar, do ponto
de vista das razões expostas no segmento anterior.
Esta mudança da lei acaba de ser aprovada e, por conseguinte,
ainda não foi posta em prática. Por outro lado, na nor ma confere-se
g rande inde pendência às comunidades autônomas, para dar forma final
a essa proposta. É impossível, por tanto, fazer uma avaliação baseada
em resultados. Não obstante, g ostaríamos de assinalar algumas circuns-
tâncias que poderiam pôr em dúvida o acerto dessa decisão. A mais
importante é que ela foi tomada muito apressadamente e quase sem
dados sistemáticos que ajudassem a compreender o problema.
O novo modelo de FP está circulando neste momento, e sabe-se
bem que os processos educativos necessitam de tempos prolongados para
que pr oduzam mudanças. No debate gerado, em decor rência da pr opos-
ta, quase não se contava com estatísticas que iluminassem a refle xão. Por
outro lado, é bastante razoável pensar que, ao pretender solucionar um
problema, esteja-se criando outro. Não é improvável que o nível dos ci-
clos f ormadores superiores possa ter diminuído a par tir desse momento.
Por último, teríamos desistido de superar a dissociação excessiva
entre a via acadêmic a e a profissional, e continuaremos contribuindo para
que socialmente essa última siga considerada uma alternativa de “segunda
classe”. Não temos, pois, argumentos para dizer que é uma decisão errô-
nea, porém acreditamos que razões suficientes para considerá-la irraci-
onalmente apressada. Grande parte dessas idéias ficam claramente refleti-
das nas palavras de Francisco de Asis de Blas, responsável pelo modelo
de FP proposto pela LOGSE, num artigo de debate, publicado no diário
El País, em conseqüência da decisão do g overno a esse respeito:
[...] Se fosse levada adiante a proposta do ministro Rajoy, de facilitar o
acesso direto da FP de grau médio à de grau superior (isto é, de rematar o
ensino médio e esquecer de exigir, daqueles que tenham acesso à FP supe-
115
rior, o nível mínimo de formação geral e de formação profissional básica
que o ensino médio proporciona e que se exige para cursar esses estudos
profissionais), não somente voltariam a baixar o prestígio e a qualidade da
FP, como também se produziriam, pelo menos, outros dois efeitos muito
graves. Um, que a FP de grau médio deixaria de ter um caráter terminal, ou
seja, deixaria de ser uma formação para adquirir uma qualificação profissi-
onal que permitisse, a par tir dos 18 anos, a inserção no mercado de trabalho,
e passaria a converter-se numa passagem, num lugar de trânsito acadêmico
para ter acesso à FP de g rau superior. E outro, que o alunado de ensino
médio voltaria a considerar pejorativamente a via da formação profissional e
voltaria a optar, em massa, por continuar seus estudos na universidade, ao
não considerar atraente a alternativa da FP de grau superior, tendência radi-
calmente oposta à de qualquer sistema educativo moderno.
Por que essa contra-reforma e por que agora? Ignoro qual tenha podido ser
a razão exata: talvez, as velhas pressões de um pequeno setor do professo-
rado de ensino médio que nunca aceitou que o mesmo se visse contamina-
do pela presença de alunos da FP ou, quem sabe, que no Ministério hajam
triunfado as teses partidárias de uma FP medíocre, que não possua nível
elevado de exigência, criando uma porta falsa de acesso à FP de grau supe-
rior que sirva de chamariz para atrair mais alunos à de g rau médio [...].
AUMENTAR AS TAXAS DE ALUNADO DO
SECUNDÁRIO
Não gostaríamos de encerrar esta reflexão sem voltar a insistir
sobre a impossibilidade de pensar a respeito da estrutura da educação
secundária superior, sem levar em conta a educação secundária obriga-
tória. foram destacadas, ao longo do texto, algumas dessas relações,
porém é conveniente insistir na importância de aumentar as taxas de
estudantes que cursem a educação secundária pós-obrigatória, indepen-
dentemente da modalidade em que o façam. Um objetivo de qualquer
sistema educa tivo é ampliar a for mação de seus cidadãos.
Isto significa, entre outras coisas, organizar uma educação secun-
dária obrig atória que responda à diversidade do alunado, a fim de que
os alunos, transitando por caminhos diferentes, ajustados a suas caracte-
rísticas peculiares, cheguem, no entanto, às metas que consideram im-
prescindíveis para incorporarem-se como cidadãos ativos na sociedade.
Como observa Wilson (1992, p. 34), a qualidade do ensino consiste em
116
planificar, pr oporcionar e avaliar o melhor currículo para cada aluno, no contexto
de uma diversidade de indivíduos que aprendem”.
A LOGSE tinha uma série de medidas previstas de atenção à
diversidade, planejadas de acordo com uma contínua normalização-se-
g reg ação, mediante as quais se tencionava responder às necessidades dos
alunos, nos contextos mais comuns, separando-os o menos possível de
seu grupo de classe (
MARTÍN & MAURI , 1996).
A realidade dos centros é que a mudança que tal demanda pressu-
põe, com relação ao ensino médio, aos quais tinha acesso uma popu-
lação selecionada, a inadequada for mação inicial do professorado de
secundário e o descumprimento dos recursos previstos, entre outros
fatores, estão tornando muito difícil atender a essa diversidade do alu-
nado (
COLL, 1999).
No entanto, entre as experiências que mostr aram g rande eficácia,
encontram-se os denominados “programas de diversificação curricu-
lar”. E queremos nos referir a eles em consonância a uma das idéias
defendidas por Françoise Caillods, neste mesmo volume, no sentido de
que, nas reformas da educação secundária, as mudanças estruturais não
são suficientes. É preciso modificar também a maneira de ensinar, as
metodologias, o clima da classe, a prática educativa. Os programas de
diversificação que a LOGSE implementou são um exemplo paradig-
mático de que, quando se faz isso, muitos alunos, que os pr ofessores
consideravam “casos perdidos”, conseguem terminar a educação se-
cundária com êxito.
Quando se planejou a nova educação secundária básica (12-16),
tinha-se consciência de que o prolongamento da obrigatoriedade e a
opção abrangente demandariam necessárias medidas radicais para de-
ter minados alunos que iriam acumulando defasagens de aprendizado o
que lhes dificultaria muito continuar os estudos, assistindo unicamente
aos grupos ordinários de seu respectivo nível. Calculou-se que, nos dois
últimos cursos da ESO (14-16), de cada quatro grupos, um poderia
necessitar de apoio especial. Evidentemente, tratava-se de um cálculo
geral que, dada a clara influência da classe social sobre o rendimento
dos alunos, em alguns centros esse percentual aumentaria, enquanto que
em outr os seria praticamente nulo.
A resposta que se planejou atende conceitualmente à idéia de uma
adaptação curricular extrema. Isto é, uma modificação tão radical do
117
currículo, que se parte a estrutura das nove áreas que os alunos cursavam
na educação secundária e se or g aniza em função de suas necessidades.
8
Mantêm-se os mesmos objetivos para o restante dos alunos, embora o
contexto de ensino se modifique de forma expressiva.
Trata-se de tornar mais transitável o percurso de aprendizag em
desses alunos, dirigido, porém, para as mesmas metas da educação se-
cundária obrig atória. Isso per mite que um aluno que tenha cursado com
êxito esses programas, superando sua defasagem, possa obter a titula-
ção correspondente. Um estudante que cursa um programa de diversifi-
cação curricular estuda o seguinte:
1) Mantém, pelo menos, três áreas com seu grupo de referência,
a fim de inserir-se na dinâmica geral do instituto e continuar, sempre que
possível, num ambiente social har mônico. Essas ár eas costumam ser :
Música, Tecnologia, Educação Visual e Plástica ou Educação Física.
2) O restante das áreas obrigatórias organizam-se em dois âm-
bitos interdisciplinares:
Sociolingüístico: agrupa Língua e Literatura, Ciências Sociais e,
onde for o caso, idioma;
Científico-tecnológico: agrupa Ciências da Natureza, Matemá-
tica e Tecnologia;
Cursa duas optativas ajustadas a seus interesses e motivações;
Tem duas horas de monitoria, uma a mais que o resto de seus
companheiros.
A responsabilidade de organizar esses programas é do conjunto
do centro, mas, e m especial, do Depar tamento de Orientação, estrutura
criada pela LOGSE (
MARTÍN & TIRADO, 1996). Nesse de partamento, além
8
No secundário obrigatório, estudam-se as seguintes áreas: Língua e Literatura, Mate-
máticas, Ciências Sociais, Geografia e História, Ciências da Natureza, Música, Edu-
cação Física, Educação Visual e Plástica, Tecnologia, Língua estrangeira. Esse cur rí-
culo se complementa com algumas disciplinas optativas. No quarto curso (15-16
anos), os alunos podem escolher, inclusive, entre as disciplinas obrigatórias numa
estrutura que orientando para futuros itinerários no secundário pós-obrigatório
118
de um psicopedag og o, professores de secundário que dividem os
âmbitos antes assinalados e que são os monitores desses alunos.
O perfil do aluno que tem acesso aos programas de diversifica-
ção é de um estudante que acumulou uma defasagem de aprendizado
superior a um ciclo e, portanto, numa aula or dinária teria probabilidade
muito baixa de conse guir a titulação. São alunos que querem continuar
estudando, porém necessitam de ajuda muito especial. Não se trata, pois,
de um programa para aqueles estudantes que poderíamos denominar
“opositores da escola”
9
, que precisam de outra resposta diferente. Os
alunos de diversificação têm uma atitude razoavelmente favorável e, em
princípio, estão dispostos a faz er esforço que esse ensino exig e.
Os alunos podem cursar programas de diversificação de um ou dois
anos, confor me a defasage m acumulada. Não podem incorporar-se ao
programa antes dos 16 anos, porém, uma vez consumidas as duas repeti-
ções que se autorizam nos dez anos de escolarização obrigatória, muitos
têm essa idade, quando começam o segundo cic lo da ESO, que cursam
então nessa modalidade cur ricular. Os programas de diversificação organi-
zam-se em grupos que não ultrapassam em nenhum caso 15 alunos, e são
autorizados e supervisionados pela inspeção educativa.
Quando se planejou essa modalidade de cursar a educação secun-
dária, a maior parte da comunidade escolar mostrava sérias dúvidas so-
bre sua eficácia. Os dados com que contamos neste momento permi-
tem-nos afirmar precisamente que foi um sucesso.
Nos Quadros5e6,apresentam-se os dados dos programas de
diversificação dos centros públicos de Madri (capital), durante os cursos
97/98 e 98/99.
10
Como pode ser obser vado, o percentual de alunos
que obtém titulação é de 73,4%.
Mais importante, talvez, que esse dadoéodacontinuidade de
estudos que esses alunos se guem cursando. A maioria deles tem acesso a
um cic lo formador de g rau médio (58%), e 31% continuam em estudos
9
Começou-se a utilizar esse termo na Espanha, em decorrência da implantação do secundário
obrigatório, para fazer re ferência aos alunos que manifestam uma clara rejeição ao
sistema escolar, sem que isso signifique em absoluto problemas de capacidade de
aprendizagem.
10
Não contamos com dados estatísticos mais gerais, porém os resultados apresentados em
jornadas de reflexão sobre esses programas mostram tendências muito semelhantes.
119
de ensino médio. De f ato, alguns desses alunos dos cursos de 94/95 e
de 95/96 ingressaram na universidade, embora esse seja um número
muito reduzido de estudantes.
Quando se analisam as razões que explicam o sucesso obtido com
uns alunos que têm graves dificuldades de aprendizagem, apontam-se
diversos argumentos:
1. O menor número de alunos por classe.
2. O fato de que poucos professores se encarregam do grupo de
alunos. Isso per mite um acompanhamento mais individualizado e um
maior conhecimento do aluno por parte do docente, que fica muito
mais horas com ele. Na realidade, um problema do secundário obriga-
tório é o excessivo número de disciplinas e de professores que o estu-
dante tem (até 12-13 docentes diferentes). Os alunos de diversificação
dependem de uma equipe que não costuma ir além de sete professores
e, destes, dois dividem mais da metade do conjunto do cur rículo, sendo,
além disso, seus monitores.
3. O princípio de interdisciplinaridade, a partir do qual se organi-
zam as áreas científico-tecnológica e sociolingüística. Um dos fatores
que explicam alguns problemas de aprendizagem é a excessiva compar-
timentação com que se ap resenta a realidade nas diversas disciplinas.
Desse ponto de vista, estruturar o currículo em áreas mais inter-relacio-
nadas per mite destacar as conexões dos distintos conteúdos, dando-
lhes maior sentido e significação, facilitando com isso a aprendizag em.
4. No entanto, o fator que, talvez, mais explica a reincor poração
desses alunos e alunas a situações de êxito escolar está relacionado com a
motivação. Esses estudantes começam a ter experiências de aprendizagem
que os conduzem a mudar sua autocrítica e sua auto-estima prejudicadas,
e a começar a pensar que podem a prender. Os alunos relatam com muita
clareza essas mudanças e contam como os temas começam a despertar
interesse e como vão enfrentando a aprendizagem como um desafio esti-
mulante, em vez de uma tarefa em que o fracasso está assegurado.
A mudança nos alunos repercute, logicamente, nos professores que
também começam a ter expectativas mais favoráveis, em relação aos estu-
dantes desses grupos, beneficiando, portanto, a aprendizagem (
MIRAS, 1996).
120
Esses fatores e outros, que possivelmente expliquem a eficácia
dessa resposta à diversidade, estão permitindo a um expressivo número
de alunos alcançar o secundário pós-obriga tório. Esta experiência tem a
nosso ver um duplo valor. O primeiro, obviamente, é aumentar as taxas
de êxito escolar. O segundo, mostrar a utilidade de deter minadas ma-
neiras de organizar a metodologia de aprendizagem. Os processos de
aprendizagem, que se põem em funcionamento nesses grupos, seriam
igualmente úteis para o conjunto dos alunos. Deveríamos, pois, apr en-
der com isto e insistir quanto a mudanças na prática docente, se quiser-
mos realmente um secundário que cumpra a função social de desenvol-
vimento pessoal, a que nos referíamos no começo desta ref lexão.
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122
ANEXO
QUADRO 1
Previsão do número de alunos para o curso 1999-2000
no ensino não-universitário
1
Inclui também o alunado de centros de convênio com o MEC.
2
Refere-se ao alunado de ensino conveniado ou subvencionado.
Nota: O âmbito de gestão do MEC reduziu-se no curso 1999-2000, com relação ao curso
superior, em 1.448.107 alunos devido à ultrapassagem de todas as competências em
matéria educativa, referente às comunidades autônomas de Aragão, Cantábria, Madri,
Múrcia e La Rioja.
Alunado financiado
Alunadofinanciado
pelo MEC
pelo MEC
Total Em centros Em centros
do MEC
1
conveniados
2
C. absol. % C. absol. % C. absol. %
Educação infantil 166.372 127.283 76,5 11.661 7,0 27.428 16,5
Educação primária 394.838 293.628 74,4 98.772 25,0 2.438 0,6
Educação secundária
obrigatória 329.686 242.717 73,6 82.952 25,2 4.017 1,2
- Primeiro ciclo 154.197 111.367 72,2 40.852 26,5 1.978 1,3
- Segundo ciclo 175.489 131.350 74,8 42.100 24,0 2.039 1,2
BUP e COU 31.150 14.251 45,7 2.827 9,1 14.072 45,2
Nível médio LOGSE 97.395 92.441 94,9 2.735 2,8 2.219 2,3
Formação profissional
grau 13.936 9.595 68,9 3.680 26,4 6 61 4,7
Ciclos formativos
grau médio 27.821 22.124 79,5 43.536 16,3 1.161 4,2
Ciclos formativos
grau superior 24.995 21.213 84,9 2.250 9,0 1.532 6,1
Programas de garantia
social 7.619 3.290 43,2 4.329 56,8 0 0,0
Educação especial 3.703 2.203 59,5 1.414 38,2 8 6 2,3
Total 1.097.515 828.745 75,5 215.156 19,6 53.614 4,9
123
QUADRO 2
Medidas de rendimento nas áreas avaliadas por tipo de
ensino aos dezesseis anos
Fonte: INCE, 1998. Tomado de Marchesi (2000).
QUADRO 3
Porcentagem de alunos que terminam os cursos
correspondentes de de BUP, de FP-1 e da ESO
Fonte: Ministério de Educação e Cultura, Direção Geral de Coordenação e de Alta Inspeção,
1998. Tomado de Marchesi (2000).
QUADRO 4
Dados sobre percentual de aprovados na seleção dos alunos
de ensino médio da Lei Geral de Educação e da LOGSE em Madri
Fonte: El País, 17 de junho de 1999e2dejulho de 1999.
124
QUADRO 5
Dados sobre número de alunos e percentual de diplomação dos
programas de diversificação em Madri (capital)
Fonte: Subdireção Territorial de Madri (Centro).
QUADRO 6
Dados sobre a continuidade de estudos ou de incorporação
ao mundo trabalhista dos alunos dos programas de
diversificação de Madri (capital)
Fonte: Subdireção Territorial de Madri (Centro).
125
FIGURA 1
Modalidades de ensino médio e tipos de matérias que o compõem
ENSINO MÉDIO
MODALIDADES
ARTES CIÊNCIAS DA NATUREZA HUMANIDADES E TECNOLOGIA
E DA SAÚDE CIÊNCIAS SOCIAIS
MATÉRIAS COMUNS
1º Educação Física
Filosofia
Língua castelhana e literatura
Língua estrangeira
2º História
Língua castelhana e literatura
Língua estrangeira
MATÉRIAS PRÓPRIAS DE MODALIDADE
MATÉRIAS OPTATIVAS
126
FIGURA 2
Itinerários das distintas modalidades de ensino médio
Ensino Médio
Artes Ciências Humanidades e Tecnologia
da natureza e da saúde Ciências Sociais
Artes Ciências Opção 1 Opção 2 Tecnologia
da natureza e da saúde Humanidades Ciências sociais
Opção 1 Opção 1 Opção 1 Opção 2 Opção 1
Artes plásticas Ciências e engenharia Humanidades Ciências sociais: Ciências e
Geografia e Engenharia
História
Opção 2 Opção 2 Opção 3 Opção 2
Artes aplicadas Ciências da Saúde Ciências Tecnologia
e desenho sociais: industrial
Administração
e gestão
127
Com a colaboração de Mariana Moragues.
*
Daniel Filmus é licenciado em Sociologia (UBA), especialista em Educação para Adultos e
mestre em Educação (UFF). É professor titular de Sociologia na Universidade Nacional
de Buenos Aire s, investigador Categoria I da UBA e da carreira do CONICET, e reitor do
CENT 2. Anteriormente, exerceu o cargo de diretor da Faculdade Latino-americana de
Ciências Sociais Sede Acadêmica Argentina. Recebeu o Primeiro Prêmio Academia
Nacional de Educação pelos trabalhos: Estado, sociedad y educación em la Argentina de fin de
siglo. Proceso y desafios”(1995) y Educación y empleo en el marco de la globalización” (2000).
Atualmente, ocupa o cargo de secretário de Educação do Governo da Cidade de Buenos
Aires.
4.
A EDUCAÇÃO MÉDIA DIANTE DO MERCADO
DE TRABALHO: CADA VEZ MAIS NECESSÁRIA,
CADA VEZ MAIS INSUFICIENTE
Daniel Filmus*
INTRODUÇÃO
Uma das críticas mais freqüentes que se faz à educação é sua falta
de ar ticulação com as demandas do mercado de trabalho. Essas críticas
se a profundam, quando se trata da escola de ensino médio. Sua desvin-
culação das necessidades de conhecimento e capacitações, que o mundo
do trabalho requer é, juntamente com a perda de capacidade para asse-
gurar o acesso ao nível superior, uma das principais causas de uma crise
que tem sido definida, em reiteradas ocasiões, como de “identidade”
(
IBARROLA & GALLART, 1994).
Essas observações partem do pressuposto de que e xiste um mer-
cado de trabalho que está organizado e evolui em estreita correlação
128
com os avanços tecnológicos aplicados à produção e aos ser viços e
com os novos modos de org anização do tr abalho. A forma de ar ticula-
ção da educação com esse mercado, em par ticular da escola média, cen-
tralizaria na necessidade de capacitar seus alunos para o desempenho
dos postos moder nos de trabalho.
A partir dessas constatações, a principal responsabilidade pela falta de
articulação estaria radicada no sistema educativo, que está atrasado em rela-
ção às novas demandas de formação que o mercado atualmente requer.
Sem qualquer dúvida, essas críticas com relação ao mercado de traba-
lho têm um forte respaldo na realidade. Ocupando-nos desta temática, de-
dicamos, em outros trabalhos, a analisar as dificuldades especificamente edu-
cativas que a escola média tem tido para avançar na mesma velocidade com
que as transformações produtivas se impuseram nos setores modernos da
economia. Também temos estudado e argumentado no sentido de defen-
der a necessidade de que a escola ofereça competências e conhecimentos
afinados com os processos tecnológicos e de organização do trabalho de
ponta, a todos os setores sociais, mesmo àqueles que, pelos limites do mo-
delo, fiquem à margem desses processos.
Isso contribuiria tanto para democratizar as condições de empregabi-
lidade no setor de alta produtividade para toda a população, quanto para
proporcionar maiores condições de melhorar a remuneração daqueles que
permanecessem incorporados aos setores formais da economia (
FILMUS, 1996).
Em vez disso, neste trabalho nos propomos a analisar a problemática sob
outra perspectiva.
Situando no ponto de vista do sistema educativo, analisaremos a
evolução da demanda trabalhista. Em que medida o padrão de desenvol-
vimento, seguido pelos países da América Latina, promoveu a estrutur a-
ção de um mercado de trabalho que, na prática, limitou a possibilidade de
g eração de uma escola média de alta qualidade para todos? Posto em
outros termos: Para que tipo de emprego o mercado de trabalho latino-
americano historicamente exigiu e hoje em dia demanda a for mação que
a escola média oferece?
A procura de alguns elementos empíricos para atender a essas inter-
rogações pretende direcionar o debate da relação entre educação e trabalho,
a partir de uma dupla perspectiva. Por um lado, sob o ponto de vista da
análise do grau de correspondência ou contradição entre a estruturação do
sistema econômico e o sistema educativo das sociedades latino-americanas
129
e, por outro, a partir da discussão entre as diferentes teorias que analisaram
as demandas de qualificação que produzem as transformações científico-
tecnológicas aplicadas à produção.
Com relação à primeira perspectiva, trataremos de oferecer alguns
elementos para analisar a função da escola média, partindo dos diferentes
processos e períodos da evolução do mercado de trabalho na região, pres-
tando especial atenção ao papel de reprodutor ou de promotor da mobili-
dade social que a educação exerce nas diferentes etapas do desenvolvimento
socioeconômico. Longe de propor uma função econômica universal e pre-
determinada para a educação, e m relação ao mercado de trabalho, partire-
mos da concepção de que sua função pode ser definida mediante a aná-
lise precisa de situações histórico-sociais concretas (
BRASLAVSKY & FILMUS, 1988).
Com relação à segunda perspectiva, deixaremos de lado as visões que
propõem uma relação linear entre a evolução tecnológica aplicada à produ-
ção e à qualificação ou desqualificação absoluta da força de trabalho. Pelo
impacto integral que produz a modernização dos processos produtivos em
sociedades que, com insuficiente nível de desenvolvimento, se vêem incluí-
das nos atuais processos de globalização das economias, observaremos a
vigência das perspectivas teóricas que enfatizam as conseqüências contradi-
tórias do processo.
Por um lado, as teses de polarização das qualificações, a partir da
segmentação crescente do mercado de trabalho e, por outro, as teses de
qualificação absoluta, porém de desqualificação relativa da maior parte da
força de trabalho (
PAIVA, 1992). Neste último caso, estamo-nos referindo às
teorias que propõem que o aumento absoluto de anos de escolaridade e,
ainda, de aprendizagens da maioria da população, não garante uma aproxi-
mação dos conhecimentos “de ponta” que a sociedade possui num deter-
minado momento histórico. Pelo contrário, a rapidez da evolução desses
últimos poderia colocá-los cada vez mais distanciados dos saberes da maio-
ria da população, embora tenha atualmente mais anos de escolarização.
O nível de deterioração do emprego latino-americano nas últimas
décadas, sua tendência à informalização, polarização, precariedade e sua res-
ponsabilidade na distribuição de renda, cada vez mais desigual, exige uma
redefinição do papel da escola média e uma nova postura perante às de-
mandas reais de um mercado de trabalho.
A perda de identidade e a crise da escola média atual são produto
de sua falta de articulação com o mercado de trabalho ou, pelo contrário,
130
de haver correspondido às características de sua evolução? A partir das
difíceis condições que a nova ordem econômica mundial e a globalização
impõem aos países latino-americanos, pode a escola média desempenhar
um importante papel dirigido à democratização de oportunidades de
trabalho de alta qualidade para todos os cidadãos?
Em texto recente, invertendo a colocação tradicional acerca da
importância da educação para combater a desigualdade, Juan Carlos
Tedesco (1998) formulou a seguinte pergunta: Quanta eqüidade social é
necessária para que a educação seja bem-sucedida em sua tarefa de igua-
lização? Seguindo essa mesma linha de pensamento, este breve trabalho
também pretende inverter, com outra, a pergunta acerca de como arti-
cular a escola média com o mercado de trabalho: Quais são as condi-
ções mínimas que devem ter as demandas que provêm do mercado de
trabalho para tornar realidade o objetivo de construir uma educação
média de qualidade para todos os jovens da região?
Para nos aproximarmos de alguns elementos que permitam res-
ponder a essas interrogações, tentaremos analisar aqui a evolução do
mercado de trabalho latino-americano e o papel que coube à escola
média, nos diferentes períodos do desenvolvimento socioeconômico
da região. Depois, a partir de informação atualizada, centralizaremos
nas características da inserção atual dos egressos da escola média, apro-
fundando, par ticular mente, o caso da Arg entina, por ser um dos países
onde as transformações ocor ridas na última década têm exercido maior
impacto na deterioração do mercado de trabalho.
A brevidade e o objetivo específico do trabalho impedirão que
nos ocupemos dos fatores culturais e sociopolíticos que também condi-
cionaram a expansão da escola média. É importante esclarecer que, de
for ma alguma, pretendemos sug erir que esse processo se reduz a suas
dimensões econômicas.
MERCADO DE TRABALHO E EDUCAÇÃO
SECUNDÁRIA ATÉ 1980
Existe consenso acerca de que, em suas origens e até as primeiras
décadas do século XX, a principal função da educação secundária esteve
dirigida à seleção e preparação da população que teria acesso ao ensino
131
superior. Essa função correspondeu ao padrão de crescimento baseado
no modelo de “desenvolvimento para fora”, sustentado pela exporta-
ção de produtos de origem agrícola e mineira, que a maioria das nações
latino-americanas adotou. O rápido desenvolvimento do setor primá-
rio-exportador não teve seu correspondente no crescimento do setor
industrial (
INFANTE & T OKMAN, 1998) e, por tanto, foram muito escassas
as taref as produtivas que exigiram certo nível de capacitação.
Somente naqueles países em que a estrutura da administração pú-
blica alcançou um relativo grau de desenvolvimento e complexidade ou,
no caso, em que faltou criar uma rede de ser viços em apoio ao mercado
exportador, o nível médio também contribuiu para prover quadros pre-
parados para a burocracia oficial ou para o setor terciário emergente.
Deixando de lado experiências incipientes de educação técnica, é possí-
vel afirmar que o ensino nor mal é o primeiro segmento educativo de
nível pós-fundamental, dirigido ao exercício profissional (
RAMA, 1987).
A dinâmica que o desenvolvimento socioeconômico latino-ame-
ricano adquire, a partir do processo de substituição de importações, que
se inicia com a crise de 30 e se aprofunda no período de pós-guerra,
modifica em alto grau esse estilo inicial com que surge a escola média. O
modelo de crescimento anterior lugar a uma nova estratégia, centra-
da atualmente no “desenvolvimento para dentro”. Sustentou-se essa es-
tratégia, sobretudo, na ampliação do mercado inter no e na substituição
de bens impor tados. O pr ocesso de industrialização, embora de forma
heterogênea
1
, esteve em vigor até a entrada da década de 70 e produziu
importantes mudanças populacionais na estrutura social de quase todos
os países da região.
Em 1980, o PIB latino-americano era cinco vezes superior ao de
1950. O produto industrial, por sua vez, cresceu num ritmo de 6,4%
que superou a média mundial (PREALC, 1991). Tal crescimento produ-
ziu um forte incremento da força de trabalho urbana que aumentou à
razão de 4% ao ano. Isto significou que, entre 1950 e 1980, a força de
trabalho r ural diminuiu sua participação de 55% para 32% (
ALTIMIR, 1999).
1
A desigualdade com que esse processo causa impacto nos diferentes países, mostra
claramente quando se observa que em 1980 três deles (Argentina, México e Brasil)
concentram 78% da produção industrial latino-americana.
132
O setor moderno da economia, composto principalmente pelo
Estado e por grandes empresas industriais e de serviços, foi o principal
demandante de emprego (
KLEIN, 1999). Seis de cada dez novos postos
ocupacionais foram criados por esse setor (Gráfico 1). As ocupações com
menor produtividade, em especial as agrárias, diminuíram sua participação
em detrimento dos postos industriais de trabalho e de serviços. Os primeiros
aumentaram sua par-ticipação em 7%, enquanto os últimos o fizeram em
16%. Tal como observa a CEPAL (1989), houve um crescimento lento das
camadas de trabalhadores manuais, e um rápido incremento dos trabalhos
não-manuais, com maior qualificação e rendimentos.
Apesar desse crescimento, apenas parte dos novos trabalhadores
conseguiu incor porar-se ao setor moderno. Esse fenômeno desenvol-
veu processos simultâneos de incorporação e exclusão social (PREALC ,
1991). Isso aconteceu porque os novos postos de trabalho não conse-
guiram incor porar o importante aumento da oferta de tr abalho, produ-
to do forte crescimento populacional, da urbanização da força de traba-
lho e do aumento das taxas de participação, em par ticular, a feminina.
Dessa for ma, o processo de industrialização conseguiu incor porar o
setor mais dinâmico da economia à população economicamente ativa
(PEA), que proveio do crescimento demo g ráfico do setor urbano.
Outro percentual muito expressivo da população, que se viu ex-
pulsa do setor ag ropecuário, encontrou possibilidades de trabalho
em atividades de produtividade muito baixa e também de baixas remu-
nerações (
WELLS, 1987).
Em 1980, cerca de 30% da força de trabalho urbana encontrava-
se sub utilizada (CEPAL-UNESCO, 1992). Se tomar mos em seu con-
junto, a subutilização (desempreg o mais subempre g o) de mão-de-obr a
urbana e rural caiu de 46% para 40%, entre 1950 e 1980 (Quadro 1). No
entanto, se consideramos que nesse período a PEA cresceu pouco mais
do dobro, é possível afirmar que os trabalhadores subutilizados cr es-
ceram de 27 a 49 milhões de pessoas nos 30 anos (PREALC, 1991).
Uma análise cuidadosa do Quadro 1 permite observar que, apesar
do importante fluxo de mão-de-obra rural para o setor urbano, dentro de
cada um desses setores, seus componentes mantiveram os mesmos níveis
de participação, ao longo dos 30 anos. Em 1980, 25% da PEA urbana
ocupava-se no setor informal e 58% da PEA agrícola o fazia no setor tradi-
cional. Como destaca o documento de PREALC (1991, p. 13):
133
Essa heterogeneidade estrutural que caracteriza o desenvolvimento econô-
mico da América Latina e que se refere a formas de produção, com níveis de
produtividade diferentes, gera, como um de seus efeitos, a segmentação
do mercado de trabalho: um estrato moderno com alta produtividade e
outro, tradicional, com baixa produtividade.
Em recente trabalho da OIT, Infante & Tokman (1997) colocam
que a persistência dessa dualização no mercado de trabalho é uma das
principais características que diferenciam o estilo de crescimento das
economias latino-americanas, do que caracteriza as do Sudeste Asiático.
Nesse mesmo documento, faz-se advertência a respeito da incidência
desse fator, tanto na construção de sociedades com maior homogenei-
dade na distribuição de renda, como na maior democratização das opor-
tunidades educativas, principalmente as referentes à escola média.
Neste ponto, é necessário destacar que o processo de absorção de
mão-de-obra pelos setores modernos, nos países de industrialização tardia,
foi radicalmente diferente do que ocorreu nos países industrializados, pre-
cocemente. Nestes últimos, o padrão de crescimento permitiu que o rápido
desenvolvimento do setor secundário incorporasse a maior parte do incre-
mento da mão-de-obra urbana proveniente da imigração rural.
O desempenho no setor moderno da economia, que apresentava
altos níveis de produtividade, permitiu-lhes o acesso a empreg os razoa-
velmente bem remunerados e a disputa por uma maior porção do exce-
dente econômico da sociedade (
WELLS, 1987). No caso dos países lati-
no-americanos, esse processo foi estr uturalmente distinto. na década
de 70, Prebisch (1970) observara que a escassa capacidade de gerar em-
preg o, por par te do setor secundário, produziu uma deformação na
estr utura do emprego, ao obrig ar uma g rande porção da mão-de-obra
urbana a que se terceirizasse antecipadamente”.
Tal fenômeno explica porque as tecnologias e as formas de org a-
nização do trabalho, utilizadas na produção manufatureira dos países
industrializados tardiamente, geram um incremento na taxa de produti-
vidade, superior à obtida na primeira onda de países industriais da Eu-
ropa ocidental. Por isso, as taxas de incr emento do empre g o foram in-
feriores em relação ao aumento da produção industrial. Não pode cau-
sar estr anheza, então, que o crescimento do setor serviços tenha sido mui-
to superior ao industrial, no conjunto dos países da região (Quadro 2 ) .
134
Desta maneira, o incipiente setor ter ciário, que possui alta produ-
tividade, não pode alojar o excedente de mão-de-obra que passa a fazer
par te do setor infor mal. Embora o empre g o inf or mal possa ser g erado
em qualquer dos três setor es da economia, em nossa região, a maior
par te dos trabalhadores se incor pora ao setor terciário, onde não so-
mente são mal remunerados e pouco capitalizados, mas socialmente im-
produtivos (
WELLS, 1987). Trata-se, sobretudo, de trabalhadores por conta
própria, não-profissionais, do serviço doméstico e daqueles com ocu-
pação em pequenas empresas de muito baixa produtividade.
Esta situação se agrava porque nos países latino-americanos o setor
moderno da economia absorve uma par te proporcionalmente muito im-
por tante dos recursos investidos na região, em relação à mão-de-obra que
ocupa. Em conseqüência, a parte do capital social excedente torna-se real-
mente pequena para manter os trabalhos do restante da força trabalhista.
A revolução do sistema educativo
As novas características que a evolução do mercado de trabalho
apresentou, a partir do desenvolvimento do modelo de “crescimento
para dentro”, exerceram forte impacto no desenvolvimento dos siste-
mas educativos. A centralização política, que a té o momento havia es-
timulado a educação, foi substituída paulatinamente por sua função
econômica. O modo vertiginoso, com que se desenvolveram o mode-
lo substitutivoeoprocesso de industrialização, produziu em muitos
países da região um primeiro momento em que a carência de recursos
humanos qualificados representou sério obstáculo ao aumento da pro-
dutividade.
A falta de capital humano, acumulado pelo sistema educativo, foi
suprida por sua formação mediante a experiência de trabalhoeacapa-
citação em serviço. A subqualificação foi uma das principais car acterísti-
cas desse período, isto é, um conjunto de postos de trabalho, que exigia
cer to nível de formação, foi ocupado por trabalhadores com menos
anos de escolaridade que o demandado.
Essas demandas de qualificação articularam-se com as perspecti-
vas teóricas que, provenientes das concepções do ca pital humano, se
tornar am hegemônicas durante essa etapa. Trabalhos, como os de
135
Becker (1967), Carnoy (1967), Blaug (1970) e Shultz (1986), justificaram
o investimento em educação, a par tir de sua contribuição para o aumen-
to da produtividade e da expansão educativa, a partir das taxas de re-
torno social e individual que ela produzia. Dessa f orma, orientaram a
elaboração das políticas públicas do pós-guerra, em função das taxas de
retorno diferenciais esperadas, ao investir em cada um dos níveis do
sistema educativo.
Acompanhando o processo de crescimento econômico, a expan-
são da matrícula em todos os níveis atingiu proporções significativas da
população. A proporção de crianças e jovens matriculados na América
Latina em 1980 havia subido até 82% no nível fundamental, 63% no
médio e 24% no superior, para cada um dos respectivos g r upos etários.
Várias investigações registram que essa expansão educativa sustentou os
altos índices de mobilidade social ascendente que se verificaram em dife-
rentes países da regiã o (
GERMANI, 1963; FILGUEIRA, 1977; RAMA, 1987, etc.).
Contudo, é possível afirmar que o modelo dual “inclusão-exclu-
são”, a que anteriormente fizemos referência, também se expressou na
educação. Ao mesmo tempo em que impor tantes setores da população
conseguiram permanecer cada vez mais anos no sistema educativo, gr an-
des grupos ficaram marginalizados da escolaridade. Dessa maneira, os
trabalhos não-qualificados no âmbito rural e os empreg os infor mais e
de baixa produtividade no meio urbano estiveram ocupados principal-
mente por cerca de metade da população latino-americana que não con-
seguia concluir a escola primária ou fundamental.
Nos países mais industrializados da região, o acesso ao ensino
médio e superior dos setores médios e altos, e de uma porção relativa-
mente e xpressiva de setores popular es, per mitiu-lhes um crescente mo-
nopólio sobre o acesso aos setores modernos da economia, de mais alta
produtividade e de melhores salários. O nível de instr ução converteu-se
em um dos fatores que poderiam explicar com maior força a desigual-
dade de r endas. De acordo com a conhecida análise de Altimir & Piñei-
ra (1982), o nível educativo, somado à estatística com outras variáveis,
explicava entre 22% e 36% da desigualdade total.
Neste ponto, é preciso destacar que as tendências à democratiza-
ção da educação da escola média, por e xemplo, foram limitadas e mui-
to desiguais, nos diversos países da região. N o final da década de 70,
136
apenas 1 em cada 10 jovens cursava a escola média, em países como
República Dominicana, El Salvador, Honduras e Guatemala. No outro
extremo, cerca da metade o fazia em Cuba, Panamá, Ur uguai e Arg enti-
na (
RAMA, 1987) (Quadro 3).
Embora não seja possível estabelecer correlação linear, é evidente
que existe uma vinculação positiva entre maior urbanização da popula-
ção, maior integ ração com o setor formal do mercado, mais alto nível
de desenvolvimento econômico e as taxas mais elevadas de escolariza-
ção média (
CAILLODS & HUTCHINSON, 1999). Como obser va María de
Ibar rola (1985, p. 123):
São os grupos urbanos, incorporados organicamente à maneira capitalista
de produção, incluindo os trabalhadores, os que têm acesso ao nível médio
e os que, havendo concluído o primário, têm capacidade legal para pedir
maior escolaridade.
A magnitude da expansão da educação secundária em cada país
dependeu, em grande parte, da envergadura que esses grupos atingiram
e de sua capacidade de pressão sobr e o Estado.
A modalidade da escola média selecionada para atender aos cres-
centes contingentes de estudantes também esteve relacionada com as
mudanças na demanda de mão-de-obra. De acordo com Gallart (1984),
é possível assinalar três etapas. A primeira delas, mencionada, não
vincula diretamente a escola média ao mercado de trabalho, mas com
a possibilidade de ter acesso aos estudos superior es. Por isso, a moda-
lidade predominante é o ensino médio com orientação marcadamente
acadêmica.
Na segunda etapa, o pr ocesso de industrialização, que se desen-
volve a partir da década de 30, promove a modalidade industrial como
a de maior taxa de cr escimento no nível médio. A contar do início dos
anos 60, começa uma nova etapa. Embora o processo de industrializa-
ção não se detenha, as mudanças tecnológicas que se introduzem no
setor secundário fazem com que a expansão da produção não tenha sua
correlação com um aumento proporcional da demanda de trabalhado-
res. Os novos processos tecnológicos e as modernas for mas de org ani-
zação do trabalho exigem insumos de mão-de-obra decrescentes em
relação ao produto.
137
Paralelamente a esse processo, confor me analisamos, nos países
de mais rápida modernização e urbanização começa a crescer com mai-
or intensidade o setor terciário. Produto do crescimento do a parato do
Estado, dos ser viços sociais, como a educação e a saúde, do comércio e
dos serviços de apoio à pr odução, esse setor se transforma no principal
criador de empre g o. De maneira cor relata, estanca-se o crescimento da
modalidade industrial e as escolas comerciais adquirem maior dinamis-
mo, enquanto que os ramos acadêmicos recuperam demanda.
Diferentes autores, como Tedesco (1990) e Weimberg (1984),
analisaram as características polarizadas que a demanda de educação
na América Latina mostrava, no início da década de 80. Existia uma
forte pressão sobre a escolaridade básica no sentido da universaliza-
ção. Também se desenvolvia uma g rande demanda de educação supe-
rior. Em ambos os níveis, muitos países da re gião apresentavam suas
taxas de matrícula superiores àquelas de países de grau semelhante de
desenvolvimento.
No caso do nível médio, contudo, a pirâmide se estreita va relati-
vamente”. Como veremos mais adiante, a expansão insuficiente da escola
média foi um dos fatores mais importantes na consolidação de uma
marcante desigualdade educativa (BID, 1998).
Embora, no primeiro momento, a expansão da escola secundária
tenha sido vinculada à demanda cultural e política dos setores médios
que pressionaram para ter acesso aos benefícios educacionais, sem que
isso correspondesse, em todos os países, às exigências do crescimento
econômico, segundo Rama (1971) e Cariola (1992), é possível afirmar
que os limites para a expansão da matrícula estiveram relacionados com
as características do modelo econômico. Entre outros, existem três ele-
mentos principais, mediante os quais o padrão de crescimento gerou
um mercado de trabalho que condicionou fortemente o modelo restri-
to de expansão da escola média e, mais adiante, a crescente segmentação
da qualidade da educação oferecida.
O primeiro deles é a limitação da demanda de escolaridade média
por par te do mercado de trabalho. Deve-se isso, principalmente, à
persistência de uma significativa proporção de subutilização da força de
trabalho, a partir da existência do setor inf or mal urbano e arcaico-r ural.
Como vimos, os primeiros concentram-se em tarefas de pouca
produtividade, sobretudo orientadas par a serviços individuais, a fim de
138
atender a necessidades dos grupos de maiores rendas; não exigem,
por tanto, mais anos de instr ução f ormal.
O setor rural, que ficou à margem dos processos de moderniza-
ção produtiva, está incorporado em sua maior parte a circuitos de
economia de subsistência e também distanciado de necessidades de
capacitação for mal par a o desempenho de suas tarefas. A subutiliza-
ção da força de trabalho no mercado infor mal, somada ao importan-
te setor que, mesmo incorporado ao setor moderno da economia,
desempenha tarefas de baixa qualificação nas empresas privadas e no
Estado, limita a capacidade de incorpor ação de mão-de-obra com
escolaridade média.
No final da década de 70, em alguns países, a oferta de egressos
do secundário começa a superar a demanda do mercado de trabalho.
Nesse caso, inicia-se um pr ocesso que se aprofundará nas décadas se-
guintes: um setor, dos que chegam ao ponto mais alto da escola
média, começa a ficar subutilizado para as tarefas que desempe-
nha, iniciando um processo de baixa nas taxas de rendimento da
educação (
FILGUEIRA & GENELETTI, 1981).
A desaceleração do crescimento econômico, mesmo acompa-
nhada por uma maior taxa de matrícula educativa em todos os níveis,
atenuou o efeito igualitário da educação. A esse respeito, observa Alti-
mir (1999, p. 27):
Por que, diante de uma expansão educativa mais intensa, um crescimento
mais moderado esteve quase sempre acompanhado por aumento da desi-
gualdade? Uma hipótese admissível é que, com taxas de crescimento baixas
e instáveis, os fatores institucionais e de segmentação do mercado de traba-
lho têm precedência com r elação à dinâmica do capital humano, a fim de
manter ou incrementar os rendimentos da educação no setor formal, e para
manter mal remunerados ainda os trabalhadores de bom nível de instru-
ção nas atividades informais.
Cria-se dessa maneira um fenômeno que “justificará”, a partir
do mercado de trabalho, uma deterioração da qualidade educativa,
num conjunto de circuitos da escolaridade média, começando por
aqueles que atendem aos grupos sociais que podem ter acesso a ela
pela primeira vez.
139
O segundo dos fatores está relacionado com a desigualdade so-
cial. Diversos trabalhos fazem referência ao fato de que a América
Latina, embora não seja a região mais pobre, é a que mostra maior
falta de eqüidade (BID, 1998; CEPAL, 1997; BM, 1990). O modelo de
desenvolvimento, a que nos referimos , e o tipo de mercado de tra-
balho que enseja produzem uma estr utura social que per mite extrema
desigualdade na distribuição de renda.
Uma de suas principais conseqüências é impedir que grandes
grupos populacionais tenham condições de escolarizar-se durante um
número expressivo de anos. Essa desvantagem manifesta-se, inclusive,
naqueles casos em que se dispõe de oferta educativa gratuita. A contri-
buição familiar, que exige ainda a educação pública, o custo-oportuni-
dade, que significa retirar a criança do trabalho, e a s egmentação de
expectativas culturais parecem desempenhar um papel decisivo (
ATTA-
NASIO & SZÉKELY, 1999).
Por último, a baixa produtividade do trabalho e a concentração
de renda, juntamente com as condições políticas, geram poucas condi-
ções para que o Estado possua recursos e disposição política para
expandir a escola média, de for ma que produza ofer ta g ratuita para
os setores populares, sobretudo no caso da população rural. A oferta
que o Estado proporciona, em diferentes períodos históricos, parece
estar muito mais relacionada com a capacidade de demanda do que
com as necessidades dos diferentes g r upos sociais. À maior educação,
maior capacidade de demanda.
Por outro lado, as perspectivas do capital humano desestimulam
a possibilidade de investir naqueles níveis em que a demanda do mer-
cado de trabalho e, por conseguinte, o rendimento futuro da educa-
ção não parecem rentáveis. A r acionalidade economicista é implacável:
Quando a taxa de rendimento desce a um dígito e se mantém nele
muito tempo, a causa pode ser a sobreeducação. Em tal caso, seria mais
eficiente destinar recursos ao investimento em capital físico do que em
capital humano. Os par tidários da expansão (ou da manutenção) do ensino
público, em tais circunstâncias, têm de apelar para benefícios da educação
diferentes dos econômicos, tais como o desenvolvimento pessoal, valor
que muito raramente se inclui nos cálculos econômicos (JHONES, 1995).
140
As limitações do modelo desenvolvimentista
Existe uma tendência para idealizar o processo de expansão do
mercado de trabalho latino-americano no período 1950-1980, e sugerir
que sua deterioração começa junto com as políticas de ajuste e com a
“década perdida”. Esta mesma “lenda dourada”, acerca do modelo de
desenvolvimento socioeconômico do pós-guer ra, vigente na região, tam-
bém tem capítulos escritos a respeito do papel do Estado benfeitor, a
distribuição de renda, a expansão educativa e outro conjunto de proces-
sos que aconteceram nesse período.
É possível afirmar que essas perspectivas idealizadas são mais pro-
duto da gravidade da crise pós-ajuste, do que das condições econômi-
cas, sociais e educativas dos setores populares da maioria dos países
latino-americanos antes da década de 80. Mais ainda, uma boa parte do
aprofundamento posterior da crise se pode entender a partir
das falências, falta de eqüidade e limites do modelo desenvolvi-
mentista de “crescimento para dentro”.
A análise do comportamento trabalhista da América Latina, entre
1950 e 1980, mostra que, somente naqueles países que apresentaram
taxas de crescimento muito altas, foram obser vadas baixas significativas
na proporção de trabalhadores infor mais. Nos países em que a taxa de
crescimento foi moderada, a proporção de trabalhadores infor mais se
manteve ou cresceu levemente. Embora haja decrescido no setor rural,
isto foi compensado por um aumento da massa informal urbana.
Por último, naqueles países onde o compor tamento da economia
foi ir regular, a taxa de crescimento do setor infor mal e xperimentou sen-
sível incremento. Paradoxalmente, trata-se de países com renda per capita
maior e com força de trabalho mais madura
2
(PREALC, 1987).
No final dos anos 70, existia consenso a respeito de que, confor-
me o padrão de desenvolvimento predominante na América Latina, so-
mente processos de crescimento econômico muito rápidos e pujantes
2
Entre os países de crescimento rápido, encontr am-se: México, Panamá, Costa Rica,
Venezuela, Brasil e Colômbia. Os de cr escimento moderado são: Arg entina, Chile e
Uruguai. Formam o grupo de países com baixo crescimento econômico: Guatemala,
Equador, Peru, Bolívia e El Salvador.
141
per mitiriam expandir o mercado de trabalho, no mesmo ritmo com
que se aumentava a força trabalhista. Se observarmos as predições refe-
ridas, em especial os trabalhos com certa qualificação e melhores remu-
nerações no setor moderno da economia, as perspectivas parecem ser
ainda mais pessimistas:
A conclusão provisória é que, salvo uma mudança na estrutura da distri-
buição da renda, por mais rapidamente que aumente o setor moderno da
economia e, embora isto se conseguisse sem introduzir fortemente inova-
ções tendentes a economizar mão-de-obra, o tamanho absoluto desse se-
tor é demasiado pequeno para absorver mais que uma fração da força de
trabalho urbana (RAMA, CEPAL, 1987, p. 26 e 27).
Por esta razão, alguns dos estudos que pretendem interpretar a
relação entre educação e trabalho começam a questionar a idéia de ajus-
tar a educação ao mercado de trabalho:
[...] Chegou-se a um ponto em que o desenvolvimento educativo deman-
da um maior nível de independência, com relação às exigências diretas do
mercado de trabalho, que, se continuasse aplicando uma lógica puramen-
te econômica, não haveria outra saída, a não ser restringir a expansão edu-
cacional [...] (TEDESCO, 1983).
Longe, porém, de estar às vésperas de um período de crescimento
que permitisse melhorar as condições do mercado de trabalho e manter
vigente a promessa keynesiana do pleno emprego, a América Latina co-
meçou a enfrentar uma das etapas de maior crise econômica, que produ-
ziu uma reversão das principais tendências analisadas até o momento.
MUDANÇAS NO MERCADO DE TRABALHO E NA
DISTRIBUIÇÃO DA RENDA NO PERÍODO 1980/1999
A década de 80
Juntamente com as limitações do modelo de “crescimento para den-
tro”, a que nos referimos, a década de 80 teve início com um conjunto de
restrições pr ovenientes das condições internacionais. O aumento dos preços
142
da energia, a reestruturação do comércio mundial, a deterioração dos ter-
mos de intercâmbio, a retração do financiamento exterior e um alto endivi-
damento externo foram alguns dos fatores que geraram os processos de
ajuste estrutural a que se viram submetidos quase todos os países da Améri-
ca Latina. A necessidade do ajuste e as novas condições econômicas interna-
cionais produziram uma mudança nos paradigmas do desenvolvimento,
orientados para consolidar um novo modelo econômico (NME) de carac-
terísticas radicalmente opostas ao vigente na re gião, no período de industri-
alização (
BULMER THOMAS, 1996).
Alguns dos elementos constitutivos do novo modelo foram apli-
cados de forma incipiente em diversos países, no final da década de 70,
porém sua consolidação como paradigma hegemônico do desenvolvi-
mento produziu-se a par tir de meados dos anos 80 (
LOZANO, 1999). As
linhas principais do NME foram: a diminuição do Estado, a estabilida-
de macroeconômica, o deslocamento do papel diretor do Estado para
a condução da economia por par te das forças do mercado, um modelo
de crescimento baseado nas exportações e na abertura da economia
para o comércio e para as finanças internacionais e a desregulação e
flexibilização do mercado de trabalho (
NUN, 1999; FILMUS, 1999).
O impacto dos condicionantes externos, das políticas de ajuste e
da implantação do NME sobre as economias latino-americanas foi muito
profundo. De pois de uma queda no PIB de 1,3% anual, no período
1980/83, a região obteve taxas de crescimento muito moderadas até o
final da década. A taxa de crescimento do PIB, durante os anos 80, foi
de 1,2% anual, muito long e dos 5,5% de média por ano, obtidos entre
1950 e 1980. O crescimento escasso não conseguiu manter o PIB per
capita que a América Latina havia alcançado em 1980, caindo para 1%
anual. Somente dois países mostraram incremento no PIB per capita: Chile
e Colômbia ( CEPAL, 1990).
As mudanças na estrutura do emprego latino-americano significaram
uma modificação das tendências que se vinham observando nas últimas
décadas. O incremento anual da PEA (2,7%) foi inferior ao da década de 70
(3,1%). Isto foi devido ao fato de que a redução da população disposta a
trabalhar produto de fatores vinculados à diminuição no crescimento
demográfico, e com a queda na taxa de participação dos grupos mais jo-
vens, devido a sua maior permanência no sistema educativo neutralizou a
tendência ao aumento constante da taxa de participação feminina.
143
Apesar desse menor crescimento da PEA, foram evidentes os si-
nais de deterioração do mercado de trabalho. Acompanhando os dados
proporcionados pelo PREALC (1991), é possível afir mar que:
a) Manteve-se o ritmo de crescimento da PEA urbana (3,7% anu-
al). Vale dizer que, no final da década de 80, três em cada quatro trabalha-
dores exerceram seu trabalho no setor urbano. Todavia, o setor moderno
teve expansão muito fraca e inferior ao crescimento da PEA urbana,
que as empresas grandes e médias diminuíram drasticamente seu ritmo de
criação de empregos (0,5% ao ano). Sua incidência na PEA não-agrícola
diminuiu, na década de 80, de 40% para 30%. Em segundo lugar, como
produto das políticas de ajuste, o Estado começou a mostrar leve tendên-
cia a incorporar uma proporção menor de trabalhadores. Sua participa-
ção na PEA urbana caiu de 15% para 14%. Dessa maneira, a proporção
total de trabalhadores urbanos, ocupados no setor moderno da econo-
mia, diminuiu de 55% para 44%, durante os 10 anos (Quadro 3).
b) Diante da queda do setor moder no, os que cresceram em mai-
or proporção foram os setores de mais baixa produtividade. As peque-
nas empresas urbanas geraram 40% do total de empregos urbanos, cri-
ados nesse período, o que as levou a aumentar sua par ticipação de 15%,
em 1980, para 21%, em 1989. No entanto, o setor infor mal urbano
tradicional foi o que gerou mais empregos na década: 45% (Gráfico 1).
A maior parte dessas vagas foram criadas no setor terciário de baixa
produtividade (80%), enquanto que 10% foram produto do emprego
industrial e os outros 10%, da constr ução.
c) O crescimento do desempenho produzido nos primeiros anos
da década (40%, em três anos) foi-se reduzindo lentamente nos anos pos-
teriores, sobretudo mediante o empre g o informal que funcionou como
“ocupação refúgio” para os grupos desalojados do empre go formal. Isto
implicou que a subutilização da força de tra balho urbano (informalidade
mais desocupação) crescesse na década de 80, de 31% para 35%.
Como resultado da conjunção da aplicação das políticas de ajuste e
a deterioração do mercado trabalhista, os salários e as rendas médias reais
dos trabalhadores caíram em todos os ramos e segmentos do mercado
de trabalho. Os grupos de trabalhadores que menos sofrer am a queda
144
foram os pertencentes às empresas privadas grandes e médias, que termi-
naram sendo as mais favorecidas pelas políticas orientadas para a expor-
tação. Ao contrário, os mais prejudicados for am os trabalhadores púb li-
cos, os empregados em empresas pequenas e, em particular, os que per-
tencem ao setor informal. Neste último g rupo, a renda caiu para 58%.
Essa queda na renda dos trabalhadores causou impacto de maneira
reg ressiva na distribuição da renda, na maior par te dos países da região,
“uma vez que o custo do ajuste interno foi absorvido, praticamente em sua totalidade,
pelo conjunto dos trabalhadores cujo volume de rendas de trabalho diminuiu 0,6% por
ano, no período 1980/1989” (PREAL C, 1991, p. 36). Como conseqüência,
foi incrementada a marcante desigualdade social existente: a participa-
ção da renda do trabalho no PIB caiu, de 44% para 38% na década de 80,
revertendo a tendência para uma lenta diminuição da pobreza que havia
ocorrido no período anterior.
Porém, a característica principal dessa regressão distribu-
tiva é que não afetou os setores mais pobres dos trabalhado-
res, como também os setores médios. Da diminuição dos seis pon-
tos da par ticipação do trabalho no PIB, dois pontos cor responder am
à queda da r enda das camadas mais pobres. Os quat ro pontos res-
tantes foram perdidos por trabalhadores pertencentes aos seto-
res médios. Somente os grupos de trabalhadores profissionais, ou
altamente qualificados, vinculados a empresas modernas dedicadas às
exportações e, principalmente, os setores cujas remunerações provêm
das utilidades e outros tipos de rendimento, viram suas rendas incr e-
mentadas (PREALC, 1991).
A principal conseqüência desse processo foi o aprofundamento da
segmentação social, mas significou também um retrocesso para uma das
principais características do desenvolvimento latino-americano das déca-
das anteriores: a evoluçãoeofortalecimento dos setor es médios. Esse
golpe nos setores médios afetará em particular as possibilidades de acesso
ao trabalho e o nível de renda dos egressos da escola secundária, e terá
sérias re per cussões sobr e a demanda de trabalho até esse nível educativo.
De acordo com o que foi analisado até aqui, é possível concluir
que a hipótese sustentada em fins da década de 70, segundo a qual um
crescimento econômico acelerado poderia constituir-se numa alternati-
va suficiente para a melhoria do mercado de trabalho, não pôde ser
confir mada na década de 80.
145
Isto porque o tal crescimento acelerado não existiu, uma vez que a
economia latino-americana, em seu conjunto, estancou e, inclusive, retroce-
deu em alguns países. Tampouco, porém, poderá confirmar-se durante a
década de 90, embora a América Latina tenha retomado o caminho do
crescimento. A seguir, analisaremos as causas desse processo, a partir das
mudanças produzidas no mercado de trabalho, durante essa última década.
A década de 90
As transfor mações ocorridas no cenário mundial, sobretudo aque-
las vinculadas ao fim da popularidade política, a partir da queda do
Muro de Berlim, à maior globalização das relações econômicas e ao
impacto dos avanços científico-tecnológicos nos processos produtivos,
geraram condições mais propícias para a implementação do NME, cu-
jas características mais impor tantes definimos.
A efetivação das principais diretrizes, estabelecidas pelo denomi-
nado Consenso de Washington, pr oduziu conseqüências contraditórias
no conjunto dos países da região (
KLEIN, 1999; LOZANO, 1999). Por um
lado, permitiu um crescimento econômico que, embora com caracterís-
ticas moderadas (3,3% anuais), reverteu a tendência dos anos 80. Ao
mesmo tempo, atingiu cer ta estabilidade macroeconômica, incremen-
tou-se a capacidade de poupança e investimento, e modernizou-se uma
porção dos processos produtivos (
OTTONE, 1998).
Em contrapartida, a pobreza e a desigualdade da distribuição da
renda aumentaram, e obser vou-se mar cante deterioração do mercado
de trabalho (
MINUJIN, 1999). Alguns dos principais indicadores desse des-
gaste na situação trabalhista são os seguintes:
a) Aumento da desocupação. A criação de emprego na América
Latina (2,6% anuais) tem sido sensivelmente inferior ao crescimento da PEA
(3,2%) e, inclusive, menor do que o crescimento do PIB (3,3%) (CEPAL,
1998). Isto representou uma ruptura em relação à tendência para a recuperação
do emprego que se observou nos últimos anos da década de 80. O desemprego
estimado para fins de 1999 era de 8,8%. Esta taxa quase duplica a que existia
na região dez anos, e a região retrocede para a situação de desocupação
que havia vivido no ano de 1983. A diferença principal é que naquele caso
146
coincidiu com o processo de deterioração que veio depois da crise da dívida
externa. Ao contrário , na situação atual apresenta-se depois de uma década
caracterizada pela estabilidade em nível macroeconômico e pelo crescimento
econômico (OIT, 1999). Até o final dos anos 90, dez países da região
apresentavam uma taxa de desemprego de dois dígitos
3
, e alguns deles a
mantiv eram durante vários anos. P or outro lado , cabe destacar que os principais
prejudicados pelo aumento da desocupação foram os pobres e os jovens.
Entre os primeiros, as taxas de desemprego alcançaram 15,2%, enquanto que,
entre os segundos, elas duplicam o nível geral: 20,6% (OIT, 1999b). Ao mesmo
tempo, a falta de trabalho também começa a manif estar-se como uma
problemática que trabalhadores com maior escolaridade devem enfrentar,
inclusiv e um importante setor dos que terminaram a escola média. Mais adiante,
aprofundaremos esse último processo.
b) O setor informal continuou sendo o principal demandante
de emprego. Nesse setor, o trabalho cresceu a uma taxa anual superior à
do conjunto do empr ego (3,9%). Por isso, seis de cada dez novos empre-
gos, gerados na década de 90, foram criados por esse setor, o que implicou
que sua participação no total do emprego aumentasse de 44,4% em 1990
para 47,9% em 1998
4
(Gráfico 1 e Quadro 4). Pouco mais da metade
desses trabalhadores são autônomos (51,6%). Dentro do crescimento do
emprego informal, também se produziram modificações. O serviço do-
méstico cresceu a uma taxa mais alta (5,2%) que a do trabalho autônomo
(3,6%) e os postos ocupados em microempresas (3,8%). Como se pode
observar, embora tenha havido certa modernização num pequeno setor
das microempresas, a incorporação de grande parte de trabalhadores, da
mesma forma como na década de 80, ocorreu em setores de muito baixa
renda e produtividade. Isto explica porque, apesar de haver aumentado o
3
Esses países são: Argentina, Barbados, Chile, Colômbia, Equador, Jamaica, Panamá,
Trinidad e Toba go, Uruguai e Venezuela.
4
Até 1997, a OIT havia publicado uma série estatística mostrando que a totalidade
do emprego na região tinha sido criada pelo setor informal. Isso significava uma
participação do emprego informal de 57,7% no total. A respeito da base desses
dados, foi escrita a maior parte dos documentos que analisam o mercado de traba-
lho da região. O último infor me da OIT proporciona novas cifr as que atenuam o
crescimento do setor infor mal. Para maiores detalhes refer entes ao novo cálculo.
Veja: Panorama Trabalhista. OIT, 1999.
147
PIB, e de se haver excluído proporcionalmente um maior número de tra ba-
lhadores do mercado, a produtividade das atividades não-ag ropecuárias
não cresceu sensivelmente na década 0,6% anuais (OIT, 1998).
c) Paralelamente ao crescimento do setor informal, o setor mo-
der no da economia diminuiu sua participação no emprego, de
55,6% em 1990 para 52,1% em 1999. Isto se explica, sobretudo, por-
que o setor púb lico, produto das políticas de ajuste e das privatizações,
desapareceu como criador de empreg o. As empresas privadas do setor
moderno recuperaram parcialmente a capacidade de incorporar mão-
de-obra, que haviam perdido no transcurso da década de 80, e geraram
quatro de cada dez empreg os criados na década. Dessa for ma, sua par-
ticipação no total do emprego moderno cresceu, em detrimento do
empreg o público, de 72% para 75%, no mesmo período (Quadro 4).
Dentro do setor moderno, embora continuem sendo as empresas mai-
ores (mais de 100 empregados) as que geraram proporcionalmente maior
emprego (43 de cada 100) e, atualmente, ocupem maior número de
trabalhadores, são as empresas pequenas (de6a20trabalhadores) que
cresceram numa maior proporção (Quadro 4).
d) A terceirização do emprego é um dos fatores que mais
incidem na inf ormalização e na deterioração do mercado de
trabalho. Os dados da OIT (1997) per mitem obser var que nove de
cada dez empre gos novos criaram serviços no setor. Ao mesmo tempo,
a composição desse setor heterogeineizou-se de f orma notória. Uma
parte desses postos foi gerada como produto da modernização e
substitui postos de boa qualidade na indústria por outros que, com
qualidade semelhante, se concentram em setores de serviços de alta
tecnologia. Um exemplo deles foram os trabalhadores incorporados
nos setores da informática, nas comunicações e nas entidades financeiras.
Contudo, a g rande expansão do setor terciário produziu-se em serviços
pessoais, sociais e comunais que, em sua maioria, correspondem a
empregos de alta qualidade. Sete de cada dez empregos gerados no
setor ser viços foram infor mais.
e) Os dados até aqui oferecidos per mitem compreender por
que somente uma pequena proporção de novos empregos criados
pode ser catalogada como de “boa qualidade”, isto é, de acordo
com as definições da OIT, com nível aceitável de remunerações e
148
condições contr atuais e níveis adequados de proteção. Unicamente três
de cada dez empregos criados na década podem ser incluídos nessa
categoria, o que reduz sua participação no total do emprego de 46,4%,
em 1990, para 42,4%, em 1998. Os empregos de boa qualidade foram
gerados em sua maioria pelas empresas grandes (dois de cada três). A
terça parte foi pelas empresas médias (OIT, 1999). Na deterioração
das condições do empreg o, desempenharam papel preponderante as
políticas de flexibilização dos contratos de trabalho que procuraram
ter minar com os esquemas de relações trabalhistas os quais, nas décadas
anteriores, proteg eram os trabalhadores assalariados. Embora essas
políticas se impusessem de fato, a partir das novas condições do mercado,
também foram produto de legislações que incluíram, entre outros
aspectos, os esquemas temporários de contratação, os contratos
individuais acima dos coletivos, a flexibilização dos horários de trabalho
e r econheceram a demissão por causas econômicas (
LOZANO, 1999).
As características mencionadas até aqui, referentes à evolução do
mercado de trabalho, são a principal causa do mau desempenho que,
apesar do crescimento econômico, a região teve em matéria de distri-
buição da renda (CEPAL, 1988). Isso é devido ao fato de que a evolu-
ção do emprego e dos rendimentos do trabalho na região contribuiu
para acentuar as tendências regressivas, por causa da deterioração com-
parativamente maior dos rendimentos nas ocupações de baixa produti-
vidade, onde se concentra a maior par te do crescimento do empr eg o.
A diferença salarial entre os diversos tipos de inserção trabalhis-
ta aumentou de modo considerável. As diferenças de rendas entre os
profissionais e técnicos e os setores que trabalham em empregos de
baixa produtividade aumentaram entre 40% e 60%, entre 1990 e 1994.
Também se elevaram os diferenciais de rendas entre o setor de produ-
tores de bens e ser viços e entre os setores moder nos e infor mais (OIT,
1997). Aqueles que trabalham no setor inf or mal g anham em média
50% do salário que obtêm os que trabalham em empresas modernas
(CEPAL, 1997).
Um estudo recente de Lora & Márquez (1998) mostra que as
diferenças salariais na região foram aumentando com tal intensidade
que duplicam as dos países desenvolvidos (
KLISBERG, 1999). Dessa
149
maneira, a participação na distribuição da renda dos 40% mais pobres
da população caiu em 10 de 14 países latino-americanos.
Porém, continuando com o processo de deterioração dos setores
médios, que havíamos destacado para a década anterior, nos anos 90,
também em 10 de 14 países, caiu a proporção da renda de 30% da
população seguinte (CEPAL, 1998). O único setor que incrementou sua
participação na renda, na maior parte dos países, foi o dos 10% mais
ricos. Esse processo converteu a América Latina na região que tem o
grau de desigualdade mais alto do mundo”(
LONDOÑO & SZÉKELY, 1998), e no
caso antiexemplar na definição das estratégias que produzem maior
eqüidade (
KLISBERG, 1999).
Cabe destacar que os comportamentos das rendas nos países em
desenvolvimento e, em particular, na América Latina, foram contraditó-
rios em relação às previsões acerca do impacto da globalização sobre as
economias que se realizaram no começo da década. A internacionaliza-
ção dos mercados deveria produzir, em cada país e região, uma especi-
alização naqueles produtos que lhes per mitissem utilizar de maneira in-
tensiva suas vantagens comparativas, e um aumento na importação de
bens cuja produção exige fatores não disponíveis em abundância.
Com observam Fitoussi & Rosanvallón (1996, p. 134):
[...] Mais bem-dotadas de trabalho qualificado, as nações do Nor te vão
procurar expor tar bens de alto valor agregado, em razão da qualidade de
trabalho que incorporam [...], enquanto que no Sul se especializarão em
bens que incor porarão intensivamente trabalho não qualificado. Entre nós,
por conseguinte, a globalização faz-se contra os trabalhadores menos qua-
lificados, e lá, em seu favor.
Embora tenha existido a divisão do trabalho internacional, a que
fazem referência esses autores, em ambos os casos, os prejudicados fo-
ram os tr abalhadores com menor qualificação, globalizando também as
tendências à desigualdade, previstas no mesmo texto:
[...] A globalização [...] põe em marcha uma dinâmica profundamente desi-
gualitária, no fim da qual as diferenças nas condições iniciais dos indivíduos
parecem cristalizadas: os que se beneficiam são aqueles cujo passado permi-
tiu uma acumulação de capital ou de saber; os outros correm o risco de ficar
à margem do caminho [...] (FITOUSSI & ROSANVALLÓN, 1996, p. 142).
150
O último documento do BM analisa as causas dessa polarização:
A colocação formulada, faz mais de uma década, de que a eliminação dos
obstáculos ao comércio daria como resultado um crescimento com uso
intensivo de mão-de-obra não-qualificada, baseia-se em predições estan-
dardizadas da teoria do comércio. Uma vez que os países em desenvolvi-
mento têm uma vantagem comparativa na produção de bens que requerem
mão-de-obra não-qualificada, a reforma do comércio deveria fazer com que
a produção de tais bens fosse mais rentável, o que aumentaria a demanda
(e, portanto, os salários) da mão-de-obra não-qualificada.
Não obstante, os dados disponíveis dos últimos 15 anos revelam o con-
trário: aumentaram mais as rendas relativas da mão-de-obra qualificada.
Embora a mudança tecnológica explique claramente essa diferença cada vez
maior, existem estudos que mostram que a liberalização do comércio tam-
bém foi um fator explicativo importante (BANCO MUNDIAL, 2000).
Lamentavelmente, essa “autocrítica”, relativa à previsão do com-
portamento da economia e dos mercados de trabalho, realizou-se de-
pois que a maior parte dos países da região aplicou as anunciadas reco-
mendações de abertura quase indiscriminada do comércio.
O impacto das transf or mações do mercado de tr abalho nos
sistemas educativos
Conforme analisamos, a década de 90 significou o fim da ilusão que
afirmava que o crescimento devia gerar necessariamente uma melhoria na
estrutura ocupacional e na distribuição da renda. O mercado de trabalho
continuou a deterioração que havia iniciado na década anterior. Por um
lado, diminuiu, ao crescer menos que a PEA e, por outro, polarizou-se,
aumentando a diferença entre os diversos tipos de ocupações. As concep-
ções que afirmaram que a nova inserção na economia globalizada iria pro-
duzir condições de competitividade sistêmica, forçando uma melhoria for-
te e generalizada da qualificação do conjunto da força de trabalho, não se
viram refletidas na realidade (CEPAL-UNESCO, 1992).
Os setores em que o crescimento da produtividade significou me-
lhoras significativas nas condições de trabalho, principalmente os vincu-
lados ao comércio inter nacional e aos serviços básicos, mostraram-se
incapazes de incorporar importantes contingentes de mão-de-obra.
151
Os sinais que cheg aram à educação, a par tir do mercado de tra-
balho, f oram muito contraditórios. Por um lado, desenvolveu-se fort e
pressão no sentido de aumento dos anos de escolarização da popula-
ção, em par ticular dos jovens. Em primeiro lug ar, por fatores que po-
deríamos denominar genuínos”. Com essa denominação, referimos
às demandas educativas que provêm do setor da economia que conse-
guiu incorporar-se ao mercado mundial e que também transfor mou
seus paradigmas tecnológicos e organizacionais, a fim de repor um
uso e xtensivo de mão-de-obra semiqualificada (
GITAHY, 1994). A essa
demanda soma-se a de certos setores do Estado, de empresas produ-
toras de bens e serviços, dedicadas ao mercado interno e, inclusive,
uma parcela do trabalho infor mal em vias de moder nização, sobretu-
do o vinculado às microempresas.
Todos esses setores exigem trabalhadores que possuam capaci-
tações que podem ser adquiridas a partir de um maior número de
anos de escolaridade, tais como: multifuncionalidade, criatividade,
manejo correto dos códigos da língua materna e, pelo menos, uma
língua estr angeira, informática e comunicação, trabalho em equipe, dis-
posição para mudança e aprendizagem permanente.
Em segundo lugar, por razões que poderíamos denominar es-
púrias”, mas vinculadas às for mas de seleção dos trabalhadores por
parte dos empregadores, a partir das novas condições do mercado de
trabalho. É evidente que a diminuição das oportunidades tr abalhistas
gerou uma competitividade maior para a obtenção de melhores postos
de trabalho. Acentuou-se a vantagem comparativa de obter mais anos
de escolaridade. Por exemplo, o acesso ao título superior converteu-se
no principal passaporte para a entrada nos setores modernos da econo-
mia e, em particular, nos postos de trabalho de boa qualidade (
FILMUS,
1999). Ao mesmo tempo, o aumento da ofer ta de trabalhadores com
mais anos de escolaridade, diante da inelasticidade da demanda traba-
lhista, potencializou o processo denominado “efeito fila” (
CARNOY, 1982).
Esse processo faz referência ao seguinte: a superoferta possibilitou
aos empregadores exigir maiores credenciais do que aquelas que o
desempenho do posto a ser ocupado demandava, com o objetivo de
discriminar os que não tiveram a possibilidade de continuar seus estudos.
A desocupação, a infor malidade e os empreg os mais precários se
converteram no destino mais previsível para os que ficaram precocemente
152
fora do sistema educativo. Te ve papel importante no aumento dos anos
de escolaridade da PEA o efeito “desânimo”. A falta de alternativas de
trabalho para os adolescentes e jovens também se converteu numa das
razões para sua maior per manência no sistema educativo.
Por outr o lado, cheg aram também sinais ao sistema educativo que
não estimularam um crescimento vertiginoso da escolaridade fundamental.
Esses sinais estiveram intimamente relacionados com a deterioração do
mercado de trabalho e da distribuição da renda, analisados. O mode-
lo de desenvolvimento implementado gerou uma economia muito dua-
lizada em que os setores, que deveriam enfrentar o desafio de aumentar
sensivelmente a produtividade, converteram-se em “ilhas” que incor-
poraram altas tecnologias no modelo de um contexto que modificou
muito pouco sua estrutura produtiva. As exigências desse setor da eco-
nomia puderam ser resolvidas, oferecendo educação de alta qualidade a
uma pequena porção da população. Embora as demandas de maior
escolaridade, por parte da população, tenham sido importantes, tam-
bém estiveram contidas pelo aumento da pobreza e da vulnerabilidade
de importantes setores da sociedade.
A deterioração das condições socioeconômicas das famílias im-
pediu que muitas delas pudessem liberar os jovens da tarefa de procurar
rendas para o lar e, portanto, afastou-os da possibilidade de continuar
seus estudos. Em vez disso, para aqueles novos setores que, apesar das
dificuldades conseguiram acesso ao nível médio, a briram-se ofertas edu-
cativas que, em sua maioria, ofereceram serviço de mais baixa qualida-
de. A compatibilização de circuitos educativos de qualidade diferencia-
da, de acordo com o setor da população a que se dirigem, foi consoli-
dada. Dessa maneira, produziram-se verdadeiros subsistemas, cada um
dos quais desenvolveu critérios autônomos de aprendizagem, avaliação
e, até, de diplomação.
Como resultado dessas pressões contraditórias do mercado de
trabalho, nas duas últimas décadas, a região mostrou processos
complementares:
a) uma expansão do sistema educativo relativamente lenta, com re-
lação ao restante do mundo; e b) a maior escolarização foi acompanhada
por um crescimento da desigualdade entre as possibili dades de acesso à
educação entre os diferentes setores sociais.
153
No início da década de 70, a América Latina mostrava nível edu-
cativo de acordo com seu grau de desenvolvimento. Em meados dos
anos 90, ao contrário,
a América Latina tem apenas 5,2 anos de educação, dois a menos que o
esperado para seu nível de desenvolvimento e quatro a menos que os
países do Sudeste Asiático, de desenvolvimento similar (Gráfico 2). A in-
suficiência educativa para a média da região foi acompanhada, além disso,
de um grau de desigualdade crescente das oportunidades educativas, toda
vez que o desvio padrão cresceu sistematicamente nesse período (Gráfico 3
LONDOÑO & SZÉKELY, 1999, p. 215).
Esses dois processos, um crescimento relativamente lento das ma-
trículas e uma maior desigualdade na distribuição da educação, foram
constatados por um estudo recente do BID. Nele se assinala que, nas
últimas décadas, a educação na América Latina cresceu no ritmo médio
de 0,9% ao ano. No mesmo período, os países do Leste Asiático cr esce-
ram 3% ao ano. Com relação à desigualdade, o informe destaca que, na
medida em que aumentou a média de educação, foi alcançado e log o
ultrapassado o nível de disper são nor mal da educação, e que, a par tir dos
anos 80, “[...] a educação esteve distribuída pior na América Latina do que se
poderia justificar pelo a vanço nor mal do processo [...]” (BID, 1998, p. 51).
A EVOLUÇÃO DA ESCOLA MÉDIA
Conforme vimos, um mercado de trabalho que se deteriora, diminui
e se polariza e uma distribuição da renda, cada vez mais regressiva, se corre-
lacionam com um crescimento da educação mais lento que o esperado, que
também se distribui de for ma cada vez mais desigual. É evidente que a
polarização prejudicou, sobr etudo, aqueles que conseguem avançar menos
anos no sistema educativo e concentrou as rendas e significou melhorias nos
gr upos que têm acesso aos níveis superiores do sistema. Assim sendo, de
que lado dessa polarização ficam aqueles que atingem a escola média? Que
conseqüência tem o processo na inserção ocupacional dos que terminam o
nível secundário? Vejamos alguns dados empíricos que nos permitam apro -
ximar de uma análise do papel da escola média nessa nova realidade.
154
A escola média é cada vez mais necessária
Um conjunto de estudos mostra que a obtenção do diploma de
egresso da escola média é cada vez mais necessário para o acesso ao
trabalho e, em particular, para o ingresso em empregos de qualidade
que pertencem ao setor moderno da economia. Alguns desses estudos
enfatizam os aspectos que denominamos “genuínos”, e que estão vincu-
lados às capacitações e conhecimentos que exigem os modernos pro-
cessos produtivos e as novas for mas de org anização do trabalho, que
requerem platafor mas mais altas de escolarização, a fim de par ticipar
dos processos tecnológicos e sociais que ocorrem dentro das empresas
(
BAILEY & EICHER, 1994, BRASLAVSKY , 1999).
Outros trabalhos, ao contrário, sem deixar de levar em conta esses
elementos, incorporam à análise as conseqüências dos processos “espúrios”
mais vinculados à relação “ofer ta-demanda” no mercado de trabalho.
Nesses casos, presta-se atenção especial à crescente importância dos estudos
médios, no padrão dos mencionados fenômenos de desvalorização de
credenciais, fuga para frente”e“efeito fila”(
FILMUS, 1999). Sem lugar para
dúvidas, ambos os fatores desempenham papel preponderante no fato
de que o diploma da escola média esteja se convertendo no limiar mínimo
requerido para ter acesso a postos de trabalho de qualidade.
Recente estudo da CEPAL (1997) per mite analisar com detalhe a
influência determinante que tem, entre os jovens de vinte a vinte e nove
anos, ser aprovado em doze ou mais anos de educação, para poderem
trabalhar em empregos de qualidade. No meio desse grupo de jovens, é
claramente majoritária a proporção dos profissionais, técnicos e diri-
gentes, e também têm uma forte presença os empregados administrati-
vos e contabilistas. Apenas uma pequena minoria está empreg ada em
trabalhos pouco qualificados, como vendedores, operários, emprega-
dos domésticos, etc. (Quadro 5). Esse mesmo quadro per mite obser-
var que as diferenças com relação ao trabalho a que podem ter acesso
os que cur saram entre9e11anos, por exemplo, são muito marcantes.
Esse grupo concentra-se principalmente em categorias que requerem
qualificação média e baixa (operários da indústria e do transporte, ven-
dedores e balconistas, empregados administrativos e contabilistas).
Essas diferenças também se verificam no nível de rendimentos em
que os jovens com diferentes níveis educativos compartilham a mesma ca-
155
tegoria ocupacional. Quando cursaram doze ou mais anos de estudo, as
médias de renda para cada categoria nunca são inferiores a quatro linhas de
pobreza per capita, e ating em as nove linhas no caso dos dirigentes. Os que
possuem de9a11anos obtêm uma média aproximada de três linhas de
pobreza (Quadro 6).
Classificando as ocupações de acordo com o nível de bem-estar a
que per mitem ter acesso, o citado documento da CEPAL mostra que,
tanto para o âmbito urbano quanto para o rural, somente os que tiveram
oportunidade de estudar 12 ou mais anos podem ingressar
majoritariamente nas ocupações que permitem um bem-estar suficiente
ou mediano
5
(Gráfico 4). A pesar da importante correlação que se obser va
entre os anos de escolaridade e os melhores trabalhos, chama atenção a
presença de um núcleo de trabalhadores com alto nível de educação que
se inclui entre aqueles que têm acesso a ocupações que proporcionam
bem-estar insuficiente. Isso será motivo de análise no próximo item.
Uma análise econômica que apresenta conclusões similares foi realizada
pelo BID (1999), com base no estudo da pobreza e da desigualdade na
distribuição de renda em seis países latino-americanos, a partir do papel que
os ativos desempenham. Esse estudo conclui: A desigualdadeéoreflexo de uma
distribuição muito deformada dos ativos produtores de rendas, sendo o mais importante
deles o capital humano”. Analisando comparativamente aqueles que conseguem
atingir os estudos médios e superiores, em comparação com os que ficam à
margem deles, propõe-se que a principal vantagem está em que “[...] os
rendimentos dos ativos educativos não são lineares e aumentam com o trabalho do acervo
[...] o qual obriga os pobres com menor educação a utilizarem seus ativos a uma taxa
menor [...]” (
ATTANASIO & SZÉKEY, 1999).
A educação média é cada vez mais insuficiente
Ao coincidir a diminuição das oportunidades trabalhistas, em parti-
cular as de boa qualidade, com o crescimento da proporção da população
5
A CEPAL considera ocupações que proporcionam bem-estar suficiente aquelas que
permitem renda mensal média, que estão entre cinco e sete linhas de pobreza; ocu-
pações que proporcionam bem-estar mediano, que estão entre três e quatro linhas de
pobreza; e as que promovem bem-estar insuficiente, que estão entre duas e três
linhas de pobreza (CEPAL, 1997).
156
latino-americana que atinge a escola média, produz-se um paradoxo digno
de nota: ao mesmo tempo em que a escola média aumenta sua impor-
tância par a o acesso ao trabalho, tor na-se cada vez mais insuficiente para
assegurar a todos os seus egressos a possibilidade de emprego nos seg-
mentos de qualidade. Os dados disponíveis mostram que o percen-
tual de desempregados com 12 ou mais anos de escolarização, pro-
porcionalmente ao total de desempregados, aumentou entre 1990
e 1997, em 10 de 15 países da região sobre os quais se dispõe de
infor mação.
Esse aumento também se verifica na mesma quantidade de paí-
ses, quando analisamos em especial os jovens de 12 ou mais anos de
escolaridade (Quadro 7). O incremento do número de egressos de
escola média diante de um mercado de trabalho que cresce mais
lentamente, fez com que cerca da metade dos desempregados jo-
vens, em países como Chile, Panamá ou Equador, terminassem o
colégio secundário (CEPAL, 1998). Ao mesmo tempo, em 1997 a
taxa de desocupação entre os que tinham de dez a 12 anos de estudo era
superior à taxa nacional em 15 de 16 países da região (Quadro 7). Em
13 desses países, a desocupação do mesmo grupo era superior à dos
que tinham menos de seis anos de educação.
Diferentes autores abordaram a crescente “desocupação dos edu-
cados” e a existência de um setor de “supernumerários” com educação
média e, inclusive, superior, nos países desenvolvidos, e as vinculam di-
retamente com a nova configur ação dos mercados de trabalho, a par tir
das reestr utur ações produtivas de fim de século, que acompanham as
mudanças nas tecnologias e a organização da produção (
CASTELLS, 1998;
FITOUSSI, 1994). Por outro lado, trata-se em sua maioria de países que se
encontram perto da universalização da escola média e que oferecem
alternativas de cobertura social e requalificação para os períodos de de-
sempreg o, que costumam ser mais bre ves.
Na América Latina, o desemprego dos que concluem a escola
média possui características muito diferenciadas. Por um lado, não so-
mente ocorre em países nos quais, embora de for ma parcial, houve
mudanças importantes nas estruturas produtivas, a partir da incorpora-
ção de modernas tecnologias, e uma taxa relativamente alta de escolari-
zação média, como Chile e Argentina, como também em países onde o
157
impacto das novas tecnologias é muito pequeno, e apresentam uma taxa
de matrícula secundária baixa, que não vai além de 50%. Tal é o caso da
República Dominicana, do Paraguai, da Nicarágua e de El Salvador, entre
outros (Quadro 8).
Por outro lado, quase não existem políticas oficiais de proteção social
ou de reconversão trabalhista par a esses setores. Um dado significativo é
que se começou a incluir um núcleo importante de egressos da escola média
empobrecidos dentro da categoria de vulneráveis”, que, por sua precarie-
dade de trabalho e falta de proteção social, correm o risco de passar a
engrossar a zona de exclusão”(
MINUJIN & KESSLER, 1999; MINUJIN, 1999).
Com relação ao tipo de trabalho que os egressos da escola média
conseguem, não temos dados comparativos recentes que per mitam ana-
lisar a deterioração de sua situação trabalhista. Investigações realizadas
nos últimos anos per mitem-nos contar com algum indicador para os
casos da Argentina e do Uruguai. Na Argentina, entre 1990 e 1999, como
analisaremos em detalhe mais adiante, a informalização desse setor cres-
ceu entre 29,6% e 36,7% (
FILMUS & MIRANDA, 2000). Para o Uruguai, um
estudo acerca dos jovens com escola média mostrou que mais de 60%
dos que tinham entre 20 e 29 anos e trabalhavam não estavam em con-
dições de manter uma família (
KATZMAN, 1999).
Apesar de não contar com dados precisos, é possível inferir que
para o conjunto da região existe uma crescente proporção desse setor
em condições de informalidade e de subempreg o. Uma for ma de nos
aproximarmos dessa r ealidade é voltar ao Gráfico 4. Ele mostra que
15% da população urbana e 23% da população rural, com 12 e mais
anos de escolaridade, encontravam-se ocupando empregos que lhes pro-
porcionavam bem-estar insuficiente.
Outra forma de comprovar a deterioração dos postos de trabalho,
ocupados por aqueles que terminaram a escola média, é mediante a análise
das taxas de retor no. Embora se trate de um tipo de estudo cuja validade
induz à polêmica, nesse caso a análise das taxas de rendimento das escolas
médias na América Latina parece coincidir com as tendências examinadas
até aqui, quanto à perda relativa do valor de seus diplomas no mercado.
Um estudo recente do BID (1998) mostra que as taxas de rendimento dos
estudos médios (11%) desceram quase ao nível dos primários (10%) e que a
diferença se ampliou com os estudos superiores (18%).
158
Uma análise comparativa dessas taxas, em relação com o que ocorre
em outras regiões do mundo, permite observar que a América Latina
mostra taxas de rendimento mais próximas dos países desenvolvidos
que qualquer outra região do mundo, inclusive os países do Leste Asiá-
tico, onde é maior a proporção de eg ressos da escola média no merca-
do de trabalho (Gráfico 5).
A queda no rendimento da escola média é característica dos pa-
íses onde esse nível está próximo da universalização, que os traba-
lhos que exig em pouca qualificação e, por tanto, têm menor produtivi-
dade e salários, também devem ser desempenhados por egressos do
secundário. Em nosso caso, como vimos, longe da universalização, esse
processo está vinculado à deterioração do mercado de trabalho. Entre
outros, são os perigos principais que tal fenômeno pode implicar. O
primeiro deles está relacionado com a importância que têm os cálcu-
los das taxas de rendimento, no momento de definir os investimentos
educativos. Muitas vezes, as perspectivas dos org anismos de financia-
mento internacional e as dos próprios governos estão inter mediadas
por visões estritamente economicistas que, diante da escassez de re-
cursos, poderiam sug erir o não-investimento no capital humano, e m
setores ou níveis educativos, onde a expectativa de retorno econômi-
co não o justifique.
Isto poderia significar a falta de recursos para financiar a expan-
são da escola média (
FILMUS, 1999). O segundo dos perigos vincula-se às
expectativas da população dos setores pobres da região. Se esses setores
percebem que o principal incentivo econômico relativo à educação ob-
tém-se ao atingir o nível superior, a desigualdade educativa poderia au-
mentar mais ainda. Portanto, procurariam estudar na escola média so-
mente aqueles grupos que, posteriormente, tivessem possibilidades de
chegar até os estudos superiores e concluí-los.
De acordo com o infor me do BID (1998, p. 55) que citamos,
esse processo estaria ocorrendo:
[...] A estrutura de rendimento da educação na América Latina conduz à
estratificação da educação, porque implica incentivos muito baixos para
avançar na educação básica, a menos que se tenha a possibilidade de atingir
a educação universitária. A baixa proporção da população que chega à escola
secundária está de acordo com essa interpretação.
159
Crescimento insatisfatório e desigual da escola média
Tudo o que foi destacado até aqui permite compreender a inf lu-
ência da deterioração do mercado de trabalho e a distribuição de renda
em dois dos processos que mostram os limites da expansão de uma
escola média de qualidade para toda a população. O primeir o deles é
que, apesar do crescimento sustentado da matrícula, a proporção de
egressos de escola média continua sendo baixa, tanto em relação aos
outros níveis educativos como em relação a outras regiões do mundo
(
CAILLODS & HUTCHINSON , 1999). O segundo dos processos é a desigual-
dade de oportunidades que os diferentes estratos sociais têm para che-
gar à escola média e ter miná-la.
A expansão da escola média, ocorrida nas últimas duas décadas, não
pôde transformar profundamente a estrutura da população da região:
A desproporção entre os grupos de educação primária e secundária é um traço
que distingue a América Latina de qualquer outra região do mundo [...]. É a
região onde é mais elevada a proporção de trabalhadores com alguma educação
primária e, depois da África subsaariana, é a região em que é mais reduzida a
proporção de tr abalhadores com estudos secundários (BID, 1998, p. 49).
Em relação aos países do Sudeste Asiático, essa desproporção
torna-se mais evidente. A América Latina tem um maior percentual de
população com mais de 25 anos, com educação primária ou fundamen-
tal e com educação superior. No entanto, no que se refere à população
com secundário incompleto ou completo, a proporção nos países do
Leste da Ásia é de 28%, diante dos 16,9 % da América Latina.
No caso da matrícula atual na escola média, esta diferença se mantém.
Enquanto que a maioria dos países latino-americanos apresenta taxas de
escolarização entre 45% e 55%, nos NIC esta proporção oscila entre 70% e
88% (
INFANTE & TOKMAN, 1997). Nessa fraca presença de egressos da
escola média, encontramos uma das principais causas da extrema
desigualdade na distribuição dos anos de escolaridade na região.
Por outro lado, a possibilidade de concluir o nível secundário con-
tinua sendo um privilégio aspir ado, em proporções significativas, so-
mente pelos setores da população que têm maiores rendas. São gritantes
as diferenças nas taxas de egressos entre os grupos que pertencem às
160
distintas faixas de rendas. Se tomarmos a população de 20 a 25 anos,
podemos observar que, em cerca da metade dos países latino-america-
nos, apenas um de cada dez jovens dos 20% mais pobres da população
conseguiu atingir o nível médio. Se ampliar mos a visão para os 50%
mais pobres, essa proporção sobe para um de cada cinco (Quadro 8).
A combinação da deterioração do mercado de trabalho com uma
distribuição mais regressiva das rendas e uma limitada expansão educativa
geram condições que desestimulam a mobilidade social ascendente, que cons-
tituía uma possibilidade certa para importantes setores sociais antes da crise
da década de 80. A concentração dos melhores empregos, os mais altos
níveis de rendas e a maior quantidade de anos de escolaridade em determi-
nados grupos sociais parecem fazer retroagir a situação a modelos de estra-
tificação mais vinculados com o tipo estamental (no sentido weberiano), em
que as possibilidades de superação social são seriamente condicionadas pela
origem. Os estudos a respeito da mobilidade educativa intergeracional mos-
tram que o aumento da escolaridade permite a uma limitada proporção
de jovens superar o nível educativo dos pais.
Apenas 31% desses jovens de 20 a 24 anos, nas áreas urbanas, e
11%, nas rurais, conseguem ultrapassar o nível educativo de seus pais e,
ao mesmo tempo, adquirir capital educativo básico de 12 anos de esco-
laridade. 47% dos jovens urbanos e 75% dos rurais não superam o nível
educativo dos pais, nem conseguem atingir um limiar educativo básico
(Gráfico 6). Por outro lado, unicamente 20% dos jovens, cujos pais não
ter minaram o primário ou fundamental, conseguem concluir o nível mé-
dio, enquanto que esse percentual supera 60%, quando se trata de pais
que cursaram pelo menos dez anos de estudos (CEPAL, 1997).
destacamos que a cristalização da segmentação educativa não
per mite supor que o acesso a uma quantidade semelhante de anos de
estudo implica em ter recebido a mesma qualidade educativa, e que está
suficientemente comprovado que são as crianças e jovens, cujos pais
possuem menos anos de escolaridade, os que recebem uma educação
de pior qualidade. Portanto, a orig em social e o circuito educativo per-
corrido incidem nos rendimentos que perceberão em seu futuro traba-
lho, que esses fatores, juntamente com os melhores contatos familia-
res, representam em média 30% a mais de rendimentos dos jovens, mesmo que
trabalhem nos mesmos grupos ocupacionais e tenham níveis semelhantes de educação
(CEPAL, 1997, p. 84).
161
Breve referência a um caso paradigmático: A Argentina
A dificuldade para trabalhar com dados comparativos, acerca da
evolução da inscrição ocupacional dos egressos da escola média, convi-
da-nos a aprofundar a análise, utilizando a informação que, para outra
investigação, possuímos do caso argentino. A Arg entina concentra um
conjunto de fatores que temos obser vado na maioria dos países da
região. A partir da década de 30, desenvolveu-se pujante processo de
substituição de importações que significou um crescimento econômi-
co sustentado, e que foi acompanhado pela rápida urbanização e mo-
dernização de seu mercado de trabalho. Desde 1975, esse processo f oi
inter rompido. Nos 15 anos seguintes, sofr eu um processo de crise do
crescimento do PIB, que não somente estancou, como no caso de ou-
tros países da região, mas também mostrou resultados neg ativos para
o conjunto do período. Apesar da crise econômica, a matrícula educa-
tiva continuou com ritmo ascendente, par ticular mente para o nível
médio (
TEDESCO, 1985). Dessa maneira, o perfil educativo de sua PEA
elevou-se expressivamente.
Embora os primeiros elementos da aplicação do NME tenham
sido postos em prática nas décadas anteriores, o início da década de
1990 significou a aplicação do conjunto das medidas propostas pelo
Consenso de Washington. As conseqüências dessas políticas foram no-
toriamente contraditórias. A Arg entina apresenta taxas de incr emento
do PIB (5,3% anuais) e de produtividade (4,8% anuais) superiores à
média da região. Porém, ao mesmo tempo, a deterioração do merca-
do de trabalho e o incremento da regressão na distribuição da renda
ficaram também acima da média. A característica diferenciadora da
evolução do mercado de trabalho argentino foi que, tanto o trabalho
for mal como o infor mal diminuiu sua par ticipação na PEA, uma vez
que a desocupação cresceu de for ma considerável (entre 5,3%, em
1991 e 13,3%, em 1998). Que aconteceu nesse período com os egres-
sos da escola média?
Os dados per mitem afir mar que esse setor foi muito vulnerável
à polarização do mercado de trabalho. No final da década, sua taxa de
desocupação (13,4%) estava muito mais próxima daqueles que tinham
somente o primário completo (16,6%), do que dos que haviam conse-
guido ter minar os estudos superiores (5,9%) (
FILMUS & MIRANDA, 1999).
162
Se tomarmos o período compreendido entre 1980 e 1999, podemos ob-
servar a magnitude da deterioração ocorrida entre os e gressos da escola
média. Em 1980, mais de dois em cada três deles trabalhavam no setor
formal. Atualmente, acontece apenas com um em cada dois. A participação
no setor informal cresceu, no mesmo período, de 29,6% par a 36,7%. É
importante destacar que, embora o início do processo de deterioração ocor-
rera no período de crise de crescimento, a recuperação econômicaeaevo-
lução positiva do PIB não significaramuma reversão desse processo. Pelo
contrário, no caso da desocupação, aprofundou-se.
Um estudo recente do INDEC (1998) sobre as séries históricas da
EPH permite analisar um dos principais processos aos quais se viram
submetidos os egressos da escola média: a sobreeducação (ou subqualifi-
cação). Incluem-se nessa categoria aqueles trabalhadores que desempe-
nham qualificação profissional hipoteticamente inferior ao nível de educa-
ção que alcançaram. Para o caso que ora tratamos, consideram-se em
situação de sobreeducação os que, com estudos secundários completos,
devem realizar trabalhos não-qualificados ou com qualificação operativa.
Os dados permitem observar que a sobreeducação cresceu de
maneira expressiva (entre 53,2”, em 1991 e 59%, em 1997) e, em maior
proporção que as outras categorias educativas (Quadro 10). Uma análise
que incorpora as diferenças de acordo com o grupo de idade mostra
que, embora a sobreeducação haja crescido em todas as faixas etárias,
a situação é par ticular mente g rave entre os g raduados mais recentes;
três de cada quatro dos que conseguiram trabalho encontram-se
supereducados para as tarefas que devem desempenhar (Quadro 11).
Por último, é importante r essaltar que, tanto em nível das remu-
nerações como das taxas de retorno, os eg ressos da escola média tam-
bém viram deteriorada sua participação em relação às outras categori-
as educa tivas. Dois recentes estudos sobre a liberalização da balança
de pag amentos e seus efeitos no empreg o per mitem que nos a proxi-
memos dessa dimensão (
FRENKEL & GONZÁLEZ ROZADA, 1999 e 2000).
Neles se analisa que a polarização que ocorreu em nível de rendas
coloca os egressos do ensino médio, e que não podem concluir o su-
perior, entre os perdedores da década. Enquanto aqueles que possu-
em educação de terceiro grau viram subir seus retornos a 2% anuais,
no caso dos que possuem educação secundária, a tendência foi negati-
va, de 0,7% ao ano (Gráfico 8).
163
As conclusões extraídas do trabalho citado resumem as conse-
qüências que tiveram as transformações operadas na última década
nos egressos do nível médio:
[...] A tendência crescente dos retornos do nível de terceiro grau desempe-
nha um papel significativo no aumento da desigualdade e supõe um in-
centivo crescente à educação. Porém, a tendência decrescente do retorno por
educação secundária opera no sentido oposto e assinala que as rendas dos
trabalhadores com educação menor que a de terceiro grau tendem a unifor-
mizar-se. A distribuição de renda por educação tendeu a polarizar-se [...] e
a reduzir o diferencial de renda por educação secundária [...].
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise procedida até aqui per mite propor que uma escola mé-
dia de massa, de alta qualidade, que prepare seus egressos para terem
acesso a empregos de categoria no setor moderno da economia, sempre
esteve em contradição com o modelo de mercado de trabalho que pro-
duziu o estilo de desenvolvimento aplicado na América Latina. Aind a na
etapa da rápida industrialização por substituição de importações, em
que o crescimento do mercado de trabalho moderno foi importante,
este não cresceu em grandeza, a ponto de exigir uma escolarização mé-
dia de massa. Isto devido ao fato de terem substituído importantes se-
tores que permaneceram no trabalho ag rário tradicional e em distintas
for mas de empreg o infor mal e de subempreg o. Dessa for ma, con-
seguiu incor porar uma porção relativamente pequena da população.
O período de massificação da escola média coincidiu rapidamen-
te com os limites do modelo, bem como com o processo de desindus-
trialização que acompanhou as políticas de ajuste e a crise nos índices de
crescimento na re gião. Também fracassaram as perspectivas que propu-
seram que a recuperação do crescimento econômico teria como resulta-
do a recuperação do mercado de trabalho. Na década de 90, a América
Latina voltou a crescer. Contudo, na maioria dos países da re gião, man-
teve-se a deterioração da demanda de trabalho.
Nesse contexto, o estudo que realizamos a r espeito da evolução
da relação entre escola média e mercado de trabalho permite-nos reto-
mar algumas das indagações suscitadas na introdução:
164
a) Em primeiro lugar, parece possível definir uma função social
única da escola média em torno da mobilidade social de seus egressos,
tanto para os diferentes países como para os diversos períodos históri-
cos. Sua contribuição para a ascensão social está for temente inter media-
da pela dinâmica que o mercado de trabalho adquire. Constituiu-se num
veículo de mobilidade ascendente para uma parcela importante da po-
pulação, no período de industrialização, porém não garantiu o mesmo
movimento a partir do começo da deterioração do mercado de traba-
lho e, em particular, dos processos de crescimento do desempr eg o, in-
for malização, precariedade e polarização do empreg o. Embora esses
processos tenham afetado, especialmente, aos que possuem menor edu-
cação formal, também paralisaram a possibilidade de ascensão de uma
importante proporção dos egressos da escola secundária.
Anteriormente, perguntamos de que lado da polarização ficaram
aqueles que possuem estudos secundários completos. Os dados obtidos
parecem assinalar que ficaram “no meio”. Num contexto de crescente
heterogeneização do trabalho, os egressos também heterog eneizaram seus
destinos. A possibilidade ou não de entrar nos empregos de qualidade, no
mercado de tra balho formal ou informal, diversificou as alter na tivas dos
egressos da escola média e, em proporção diferente para cada país, uma
parte deles ingressou em situações de crescente vulnerabilidade. A origem
socioeconômica, o nível educativo da família e a qualidade do circuito
educativo pe r co rrido par ecem ser os determinantes do destino trabalhis-
ta dos egressos.
b) Em segundo lugar, esta análise nos per mite propor que a
escola média é cada vez mais necessária, pois os que não atingiram esse
nível ficam quase totalmente à margem da possibilidade de conseguir
empreg os de qualidade e, em par ticular, do setor moder no. Porém, ao
mesmo tempo, tornou-se insuficiente para ser uma g arantia de acesso a
eles. Nem todos os eg ressos da escola média conseguem trabalho e uma
boa parte dos que obtém, não se incorpora aos setores de maior produ-
tividade e de rendas. Cabe destacar que a razão desse processo se relaci-
ona muito mais com o tipo de estr uturação do mercado de trabalho,
produto do impacto dos processos de globalização e abertura das eco-
nomias em países produtores de bens primários e de industrialização
restrita, do que com “excesso de oferta” por um crescimento desmedi-
do das matrículas de nível médio. Confor me vimos, as taxas de matrí-
165
cula e de egresso da escola média na América Latina são inferiores àque-
las apresentadas por países com grau semelhante de desenvolvimento
econômico. Por outro lado, altas taxas de desocupação e subqualif i-
cação entre os egressos de escolas médias, mesmo em países com pro-
porção muito baixa de população com esse nível de escolaridade.
c) Em terceiro lug ar, as evidências encontradas permitem pro-
por que é possível criticar a escola média por não ter conseguido reali-
zar as transfor mações necessárias que lhe permitissem for mar, em mas-
sa, seus estudantes, nas competências e conhecimentos que os setores
modernos da economia requerem, porém, de nenhuma maneira, parece
ser justa a crítica dirigida a sua falta de adequação com a estrutura que o
mercado de trabalho apresenta. Precisamente, oferecer uma educação
de alta qualidade, unicamente a uma parcela de seus alunos, é uma das
for mas de se ajustar às demandas reais de um mercado de trabalho cada
vez mais elitista. Se considerar mos que apenas três de cada dez postos
de trabalho, criados nas últimas décadas, são de boa qualidade, é possí-
vel supor que aqueles que almejarem a eles podem ser formados em
certos circuitos de privilégio. As perspectivas economicistas e neolibe-
rais podem achar pouco conveniente o investimento em “sobrequalifi-
car” egressos de escola média que estarão destinados aos setores pouco
produtivos. Se a necessidade de uma educação em massa pr ovém unica-
mente de fatores culturais ou daqueles que denominamos espúrios, pode
ser funcional investir pouco em sua for mação, embora se obtenha uma
qualidade deficiente.
d) Dessa maneira, as duas teses for muladas na introdução, refe-
rentes ao impacto global do tipo de aplicação das transfor mações eco-
nômicas e produtivas, em países de capitalismo tardio, par ecem com-
plementar-se e ter validade. Por um lado, existe uma crescente polariza-
ção das qualificações diante da dualização do mercado de trabalho. Como
vimos, apesar do crescimento das matrículas, aprofundou-se a separa-
ção educativa entre os distintos grupos sociais. Por outro, pode-se veri-
ficar que existe maior escolaridade, medida em ter mos absolutos, com
referência à g eração anterior. Porém, esse processo não conse gue evitar
uma crescente desqualificação relativa da maior par te da população. Por
exemplo, os novos g r upos que chegam à escola média a presentam mais
anos de escolarização do que seus pais. Ao mesmo tempo, os que con-
correm aos segmentos de qualidade insuficiente e aqueles que não po-
166
dem continuar os estudos superiores sofrem um processo de desqualifi-
cação relativa, tanto no que diz respeito aos conhecimentos de ponta
como às capacitações exigidas para ter acesso aos postos de trabalho
que requerem maior qualificação.
Nesse contexto, a conclusão do nível superior passa a ser a princi-
pal garantia educativa para o acesso a um posto de trabalho de qualida-
de. A redução da função da escola média a um “lugar de passagem” em
direção à universidade e o crescimento desmedido da pressão da matrí-
cula sobre o nível superior são dois dos principais problemas que se
aprofundam. Embora o conjunto dos países da região esteja afetado
por essa problemática, aqueles que mantêm maiores déficits de cobertura
e qualidade, nos níveis básico e médio, são os que devem enfrentar uma
batalha social mais forte em torno das prioridades na distribuição dos
escassos recur sos. Se m dúvida alguma, essa batalha estará no centro da
cena do debate educativo dos próximos anos.
e) Por último, a análise efetuada questiona as perspectivas que con-
cebem a falta de educação como o fator principal da problemática do
empreg o na América Latina. Por conseguinte, também são questionadas
as idéias que propõem a solução para a crise do emprego unicamente a
partir de políticas educativas. É possível afirmar que o panorama das duas
últimas décadas demonstra o fracasso das concepções propostas de que a
educação e, inclusive, as políticas sociais se constituiriam em paliativos que
conseguiriam neutralizar, eficazmente, os resultados expulsivos e diferen-
ciadores que a aplicação do NME implica. Aquilo que o modelo econômico e o
mercado de trabalho não dão, o sistema educativo não oferece” , parece ser a principal
conclusão dos dados apresentados. Se se concebe principalmente a edu-
cação como uma política social dirigida para evitar a marginalização, ter-
mina-se de g radando a própria educação.
Longe de ser mos pessimistas, com relação ao papel do sistema
educativo e, em particular, da escola média na melhoria e democratiza-
ção do mercado de trabalho, o presente estudo enfa tiza sua condição de
necessária, porém também de insuficiente, o que implica, entre outras,
duas ref lexões finais.
A primeira refere-se às políticas de ampliação de oportunidades e
melhoria da qualidade e pertinência da escola média que devem fazer
parte de um conjunto de estratégias econômicas, políticas e sociais que
167
promovam um mercado de trabalho inclusivo que ofereça, em massa,
empregos de boa qualidade. A segunda reflexão está dirigida à revalori-
zação das funções da escola média, que não a bordamos neste trabalho.
O papel da escola média, na formação de jovens com uma cons-
ciência ética, tolerante, participativa e solidária, é fundamental para sua
integração na sociedade democrática, mas também é imprescindível para
que sejam capazes de desenvolver uma visão crítica da realidade atual.
Visão que per mita colocarem-se como protag onistas na constr ução de
uma sociedade que ofereça igualdade de possibilidades de acesso à edu-
cação e ao trabalho digno para todos os seus cidadãos.
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172
ANEXO
QUADRO 1
América Latina: evolução estimada da estrutura do emprego
1950-89 (porcentagens)
(Setores tradicionais/PEA)
Fonte: Elaboração própria com base em: Empleo y equidad: el desafío de los 90. PREALC, 1991. Estimativas do
PREALC com base nos Censos Nacionales y Encuestas de Hogares. CEPAL, 1978. Para 1980, a base de
dados corresponde aos seguintes países: Argentina, Colômbia, Brasil, Costa Rica, Chile e Venezuela,
que representam 80% da PEA da região.
Nota: Com fins de comparação pode-se mencionar que durante 1950-1980 a taxa de crescimento anual
de alguns indicadores econômicos foi a seguinte: total- 5.5; PIB agrícola- 3,5; PIB não-agrícola- 5,8; PIB
industrial- 6,2; PIB per capita- 2,7. CEPAL, 1990.
173
QUADRO 2
América Latina: mudanças na estrutura do emprego, 1950-1980
(países classificados de acordo com a renda per capita de 1980)
Fonte: CEPAL, Anuário Estatístico da América Latina. 1984. (Exceto para México e Venezuela no caso dos dados
de 1980).
Informe do Banco Mundial em Empleo en América latina.. Una búsqueda de opciones. John Wells, PREALC.
174
QUADRO 3
Taxa de matrícula nas quatro últimas décadas
Fonte: (1) UNESCO, Statistical Yearbook, 1963, C.3. (2)UNESCO, Statistical Yearbook, 1975, C.3.2. (3) UNESCO,
Anuário Estatístico, 1988 e 1990(#). (4)UNESCO, Anuário Estatístico, 1990. Em: María Antonia Gallart,
CINTERFOR. Educación yTrabajo:Desafíos y perspectivas de investigación y prácticas para la década de los noventa.
* A matrícula corresponde ao ano de 1970, salvo em: a=1971
175
QUADRO 4
América Latina: Estrutura do emprego segundo o mercado de
trabalho e o tamanho das empresas, 1990-1998 (porcentagens)
Fonte: Elaboração OIT (1999) com base em tabulações especiais dos levantamentos de lares da Argentina, Brasil,
Colômbia, Costa Rica, Chile, Equador, Honduras, México, Panamá, Peru, Uruguai e Venezuela. A ocupação
agregada destes países representa 91% do emprego total na América Latina e Caribe.
176
QUADRO 5
América Latina (média simples de seis países): distribuição percentual
dos jovens de 20 a 29 anos de idade que trabalham 20 ou mais horas
por semana, segundo inserção no mercado de trabalho e nível
educacional, 1994
Fonte: CEPAL (1998), com base em tabulações especiais dos levantamentos de lares dos países: Brasil, Chile,
Colômbia, Costa Rica e Honduras.
177
QUADRO 6
América Latina (média simples de seis países): renda média dos jovens
de 20 a 29 anos de idade que trabalham 20 ou menos horas por
semana, segundo inserção no mercado de trabalho e nível
educacional, 1994 (expresso em múltiplos de linhas de pobreza)
Fonte: CEPAL (1998) (1998), com base em tabulações especiais dos levantamentos de lares dos países: Brasil, Chile,
Colômbia, Costa Rica e Honduras.
178
QUADRO 7
América Latina (16 países): nível de escolaridade da força de trabalho
urbana em condição de desempenho (em percentuais)
Fonte: CEPAL(1998), com base nas tabulações especiais dos levantamentos de lares.
a) Grande Buenos Aires
b) Os levantamentos de 1990 e 1994 não incluem o número de anos de estudos das pessoas.
c) Assunção
d) Total nacional
179
QUADRO 8
América Latina (16 países): taxas de desemprego aberto segundo o
número de anos de instrução, zonas urbanas, 1997.
Fonte: CEPAL (1998), com base em tabulações especiais dos levantamentos de lares dos países.
a) a partir de 1997 o tipo de amostra do levantamento não permite o desmembramento urbano/rural. Portanto,
as cifras correspondem ao total nacional.
180
QUADRO 9
Taxa de segundo grau completo para a população entre 20 e 25 anos
por nível de renda
Fonte: América Latina frente à desigualdade. BID, Informe 1998-99.
1) O levantamento da Argentina inclui apenas a Grande Buenos Aires.
2) Os levantamentos da Bolívia e do Uruguai incluem apenas dados urbanos.
QUADRO 10
Distribuição percentual da PEA com secundário completo ou mais,
segundo condição de atividade e setor econômico de participação
Fonte: Elaboração própria com base em dados da EPH-INDEC, Onda Outubro.
181
QUADRO 11
Relação entre qualificação ocupacional e nível educacional formal
segundo o nível de educação formal. População ocupada. Grande
Buenos Aires Período 1991-1997
Fonte: Elaboração própria com base em: INDEC. La calificación ocupacional y la educación formal:? una relación dificil?
1998. (Serie estructura ocupacional; 4). Os dados correspondem à pesquisa “Onda Maio da Encuesta
Permanente de Hogares”.
QUADRO 12
População ativa de nível educacional secundário em condição de
subqualificação por grupos etários. Grande Buenos Aires
Fonte: Elaboração própria com base em: INDEC. La calificación ocupacional y la educación formal:? una relación
dificil?1998. (Serie estructura ocupacional; 4). Os dados correspondem à pesquisa “Onda Maio da Encuesta
Permanente de Hogares”.
182
GRÁFICO 1
América Latina:
Participação dos setores na geração de emprego (1950-1998)
(números de ocupados nos setores por cada 10 novos empregos)
Fonte: Elaboração própria com base em trabalho da OIT
Setor
público
Setor
moderno
Micro-
empresas
Por conta
própria
Serviço
doméstico
183
GRÁFICO 2
A brecha educacional
Fonte: LONDOÑO, J . L., y Székely, M. “Sorpresas distributivas después de una década de reformas:
América latina en los noventa.” En: Pensamiento Iberoamericano, Revista de Economía Política , volumen
extraordinario, BID, 1998.
Anos de diferença perante o padrão internacional
2
1
0
–1
–2
–3
América Latina
Leste asiático
1970 1975 1980 1985 1990 1995
GRÁFICO 3
A desigualdade do capital humano
Desvio padrão
Fonte: LONDOÑO, J. L., y Székely, M. “Sorpresas distributivas después de una década de reformas:
América latina en los noventa.” En: Pensamiento Iberoamericano, Revista de Economía Política,
volumen extraordinario, BID, 1998.
184
GRÁFICO 4
Fonte: CEP AL, com base em tabulações especiais dos levantamentos de lares dos respectivos países.
GRÁFICO 5
Rendimento da educação em relação à escolaridade
África
Oriente Médio
Leste
Asiático
Ásia
América Latina
Países
Industrializados
Secundária Universitária
Fonte: Psacharopoulos(1994) em Amér ica frente a la desigualdad. BID, 1998.
Ocupação dos Jovens de
20 a 29 anos, zonas urbanas, 1994
Ocupação dos Jovens de
20 a 29 anos, zonas rurais, 1994
Ocupações que proporcionam suficiente bem-estar.
Ocupações que proporcionam bem-estar médio.
Ocupações que proporcionam insuficiente bem-estar.
185
Zonas urbanas
Fonte: CEPAL (1998), sobre a base de dados especiais coletada nos lares dos respectivos países.
Jovens que não superam a
educação de seus pais nem
adquirem um nível mínimo de
educação
Jovens que superam a
educação de seus pais e
adquirem um nível mínimo
de educação
Jovens que não superam a
educação de seus pais e
adquirem um nível mínimo
de educação
Jovens que superam a educação
de seus pais e não adquirem um
nível mínimo de educação
Zonas rurais
Jovens que não superam a
educação de seus pais e
adquirem um nível mínimo
de educação
Jovens que superam a
educação de seus pais e não
adquirem um nível mínimo de
educação
Jovens que não superam a educação de
seus pais nem adquirem um nível mínimo
de educação
Jovens que superam a educação de seus
pais e adquirem um nível mínimo de
educação
GRÁFICO 6
Ganho educacional dos jovens de 20 a 24 anos em relação ao ganho
de seus pais
186
GRÁFICO 7
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da EPH-INDEC, Onda Outubro.
Distribuição percentual dos egressos do segundo
grau. Grande Buenos Aires, 1980
Distribuição percentual dos egressos do segundo
grau. Grande Buenos Aires, 1999
Setor informal Setor formal Desocupados Setor informal Setor formal Desocupados
GRÁFICO 8
Retorno por nível de educação
Fonte: FRENKEL, R ., y GONZÁLEZ ROZADA, M. Liberalización del balance de pagos. Efectos sobre el crecimiento,
el empleo y los ingresos en la Argentina. CEDES/Universidade de Palermo. (Série de documentos de
Economia, n. 11). Buenos Aires, 1999.
Retorno por nível de terceiro grau
Retorno por nível secundário
187
* Cecilia Braslavsky é Doctor Philosophiae (Dr. Phil.) pela Universidade de Leipzig e professora
de Ensino Médio, Normal e Especial de Ciências da Educação (UBA). É membro do
Diretório da Agência Nacional de Promoção da Ciência e da Tecnologia da República
Argentina, membro da carreira de Investigador Científico do CONICET, categoria inde-
pendente, e membro da Associação Internacional de Sociologia (ISA). Exerceu atividades
docentes no Departamento de Ciências da Educação da Faculdade de Filosofia e Letras da
UBA e em FLACSO. Atualmente, é diretora do Escritório Internacional de Educação da
UNESCO, em Genebra.
5.
OS PROCESSOS CONTEMPORÂNEOS DE
MUDANÇAS DA EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA NA
AMÉRICA LATINA: ANÁLISE DE CASOS NA
AMÉRICA DO SUL
Cecilia Brasla vsky*
INTRODUÇÃO
A década de 90 na América Latina é par ticularmente criativa em
ter mos de produção de refor mas e inovações educativas. A reforma e
as inovações vão se instalando pouco a pouco como uma necessidade,
um discurso e uma prática em todos e em cada um dos níveis e moda-
lidades dos sistemas educativos, embora num ritmo e iniciativas diferen-
tes. Pouco a pouco, vão alcançando este ambíguo e diferenciado nível
denominado educação média ou secundária”, cuja identidade tempo se
questiona (
IBARROLA & GALLART, 1994).
Até 1990, a denominação de educação média ou secundária apli-
cava-se nos diferentes países latino-americanos a um patamar de dura-
ção e situação diferentes. Cor respondia a um ou dois ciclos situados em
188
continuação a uma educação primária geral ou fundamental, que se
estendia entre seis e nove anos, confor me os países (
BRASLAVSKY , 1995).
Novos setores e classes sociais, que até então haviam sido excluídos da
educação secundária, tiveram acesso a ela em ritmo muito acelerado.
Em 1991, a escolarização na educação secundária da América Latina
tinha alcançado 52,4% da população na idade correspondente.
Ao longo da década embora em ritmo mais baixo do que no
Sudeste Asiático, e com diferenças muito signif icativas entre países e
regiões, dentro de cada país a educação secundária continuou seu pro-
cesso expansivo. Ao mesmo tempo, porém, iniciaram-se discursos polí-
ticos e processos de tr ansformação (
CAILLODS & HUTCHINSON, 1999).
No entanto, não se estava ainda desenvolvendo uma ref lexão co-
letiva em ter mos de políticas de mudança que permitissem enfrentar,
com decisão o per sistente questionamento, os múltiplos prob lemas anti-
g os que ar rastava e os novos problemas emerg entes.
Em outros termos, pode-se afir mar que no início da década de
1990, era insustentável o agravamento dos conflitos entre um mundo
externo em processo acelerado de mudança, a imutabilidade da educa-
ção secundária e o que se poderia considerar sua invasão por adolescen-
tes e jovens de setores sociais para os quais não havia sido criada.
Razões históricas, econômicas, sociais e institucionais, vinculadas ao
protagonismo do Estado nacional na organização e na prestação da edu-
cação secundária, incidiram para que a Argentina fosse o primeiro país da
região que, na década de 80, tentou encarar uma política de melhoramen-
to da qualidade de um conjunto de estabelecimentos de educação secun-
dária os quais, naquele momento, ainda dependiam do Estado nacional. A
transferência desses serviços, da nação para as províncias, inter rompeu a
execução dessa política e determinou uma maneira de inibição temporá-
ria da capacidade do Estado de promover mudanças que comprometes-
sem esse setor da educação em todo o ter ritório. Ao mesmo tempo, al-
guns governos provinciais iniciaram processo de mudança cuja promo-
ção em nível nacional se retomaria por volta de 1995.
Num segundo momento, outros países incorporaram-se ao mo-
vimento pela mudança da educação secundária, em particular, Chile e
Uruguai. Atualmente, a maioria dos países da América Latina começa a
incluir em sua agenda a questão da educação secundária. Brasil, Peru e
Bolívia, entre outros, iniciaram a formulação de processos de r eforma,
189
ou de programas de melhoria e de expansão da educação secundária
que se encontram em diferentes momentos de sua execução.
Dada a existência de grandes tendências do desenvolvimento eco-
nômico, político e social que afetam todos os países da região, a proxi-
midade desses processos no tempo, a facilidadeearapidez das comuni-
cações, por trás dos processos de promoção da mudança da educação
secundária, existem, simultaneamente, certos problemas comuns e signi-
ficativos intercâmbios e empréstimos, com relação às soluções que se
vão dando nos diversos países. Porém, por outro lado, a diversidade
cultural, histórica e econômica implica um conjunto de problemas parti-
culares, de cada país e de certas regiões, e situações que demandam
grande criatividade a fim de poder enfrentá-las em sua especificidade.
Ao longo deste texto, pretende-se apresentar algumas dessas ten-
dências e organizar os problemas e as soluções comuns e diferentes que
estão sendo colocadas. Esta apresentação tem o propósito de reforçar
o inter câmbio, a discussão e a identificação de algumas questões rele-
vantes sobre as quais parece necessário aprofundar o diálogo internaci-
onal. Com efeito, superar os pr oblemas da tensão entre um nível que
per maneceu imutável durante muito tempo e o desafio que suscitam as
novas demandas do século XXI, bem como a incorporação de novos
setores e gr upos sociais, seja na própria região, ou em outr as regiões do
mundo, não será tarefa simples. Exigirá, por um lado, uma visão pros-
pectiva atr aente e, por outro, uma forte ancorag em no conhecimento da
história e das situações atuais. Ambos os aspectos poderiam ser f or tale-
cidos no diálogo internacional.
AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO
DESENVOLVIMENTO CONTEMPORÂNEO E A
EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA NA AMÉRICA LATINA NO
SÉCULO XXI
O século XXI começou, na realidade, a par tir de 1989 (
HOBSBAWN,
1995). Desde esta data, os processos de todas as latitudes foram-se arti-
culando e inter penetr ando, d e maneira ainda mais decidida que em perí-
odos anteriores. Os processos de mundialização e de globalização, que
tiveram início no princípio mesmo da modernidade no século XV, est ã o
190
atingindo uma profundidade e uma extensão que, não faz muito tempo,
eram impensáveis. De um modo ou de outro, certas tendências de de-
senvolvimento econômico, social, político e cultural atravessam hoje to-
dos os continentes e afetam todos os povos (
ORTIZ, 1998).
As tendências do desenvolvimento contemporâneo na
América Latina
Neste se gmento, procurar-se-á delinear quais são r ealmente essas
tendências de desenvolvimento econômico, social, cultural e político por
que passam o mundo e a América Latina, para apresentar logo no se-
guinte, de maneira sistemática, os desafios que a educação secundária
enfrenta em relação a elas.
Um mundo de trabalho heterogêneo, decrescente e
aceleradamente mutável
Em todo o mundo, estão sendo produzidos pelo menos cinco
processos econômicos que também se fazem presentes na América La-
tina. O primeiro é a diminuição do volume de trabalho disponível e,
inclusive, necessário à satisfação das necessidades básicas das socieda-
des. Isto implica na possibilidade de que os jovens que hoje estão se
for mando tenham uma demora crescente em seu ing resso no mercado
de trabalho e a travessem períodos de desocupação ou subocupação.
O segundo é o crescimento dos trabalhos disponíveis no setor de
serviços com relação ao setor agropecuário e industrial. O terceiroéocres-
cimento do trabalho informal em relação ao for mal. O quar to consiste
numa mudança cada vez mais rápida do perfil das ocupações, em particu-
lar, no que se refere a habilidades (skills) específicas e, o quinto, na modifica-
ção das escalas em que se realiza e resolve o destino trabalhista das pessoas.
Os conceitos de globalização e de transnacionalização do mercado
de trabalho fazem referência às manifestações atuais de mudanças que,
embora tenham iniciado muito tempo, experimentaram forte
aceleração no período mais recente. A globalizaçã o e a transnacionalização
191
do trabalho significam, entre outros aspectos, que tanto o capital como
as empresas e os trabalhadores têm a possibilidade de se moverem, de
um país a outro, de modo a “empatar” melhor as exigências e as
disponibilidades de suas mútuas capacidades e opor tunidades.
Esses processos econômicos propõem diferentes desafios para a
educação secundária. A diminuição do volume de trabalho disponível
coloca na agenda as questões do adiamento do ingresso no mercado de
trabalho e da extensão da escolaridade obrigatória e abarca, decidida-
mente, os patamares da oferta educativa, destinados aos jovens e ado-
lescentes. Por outro lado, a velocidade das mudanças dos perfis ocupa-
cionais reatualiza cada vez mais a velha demanda pedagógica de ensinar
a aprender, transformando-a num imperativo socioeconômico e pesso-
al, ao mesmo tempo em que a perda de capacidade de criação de traba-
lho das economias ag rícola e industrial leva a re pensar a for mação para
o tr abalho e a demandar sua for te associação com a formação para os
ser viços e com atividades de colarinho branco, ainda dentro da produ-
ção de bens ag ropecuários e industriais.
Por último, o crescimento do setor não-formal, com relação ao
setor for mal da economia, induz a admitir que é muito conveniente que
todos os jovens aprendam a empreender, além de se familiarizar com
uma série de conhecimentos-chave da cultura.
Em conjunto, as novas tendências da economia obrig am a que
se estabeleçam muito seriamente as questões da identidade da educa-
ção secundária e da existência de especializações precoces. Nesse con-
texto, renovam sua per tinência as perguntas com relação a até onde é
necessário e possível sustentar um nível com identidade própria para
os adolescentes e para os jovens,e em que medida convém produzir
uma especialização aos 12 ou, inclusive, aos 15 anos, como sucedeu
historicamente na educação secundária de todo o mundo e também
na da América Latina.
Mais adiante, porém, as mudanças na economia levam a estabele-
cer também a necessidade de r epensar a f or ma de responder à deman-
da de que a educação secundária se articule com a economia. É necessá-
rio, possível e, inclusive, desejável que a educação secundária aceite for-
mar para o mercado de trabalho, quando esse não parece ter espaço
para incorporar todos os jovens egressos dela?
192
Na última década, foi adquirindo força a posição segundo a qual
a educação secundária não deveria assumir, como desafio próprio, a
for mação para o mercado de trabalho, tal como org anizado num de-
ter minado momento, mas, sim, a formação para o trabalho. É provável
que tenha de se estabelecer, inclusive, que a educação em sua totalida-
de deve formar para a multiatividade (
GORZ, 1998): par a o trabalho
produtivo, a criação cultural, a vida social har mônica, a vida familiar,
etc.; e, diferentemente do que ocorreu ao longo do século XX, para a
alternância entre períodos de predomínio de um ou outro tipo de ativi-
dade, ao longo de uma mesma vida. Se assim for, no entanto haveria de
ser estabelecido, ao mesmo tempo, como resolver a questão da forma-
ção para trabalhos específicos que requerem habilitações também espe-
cíficas, mesmo quando esses trabalhos vão desaparecer ou transfor mar-
se muito rapidamente.
O aprofundamento das desigualdades sociais
Uma das características mais complexas e de conseqüências me-
nos previsíveis, derivada das novas modalidades de desenvolvimento
econômico, é o aprofundamento das desigualdades sociais pre existentes
e a emergência de outras novas. De acordo com diversos autores, nas
sociedades contemporâneas, o ponto de partida seria cada vez mais re-
levante, como determinante dos destinos das pessoas. A mobilidade so-
cial seria muito débil e as diferenças na possibilidade de acumulação de
capital educativo, por par te das crianças e dos jovens, deter minariam
que as desigualdades nos destinos fossem muito maiores que as desi-
gualdades nos pontos de par tida (
FITOUSSI & ROSANVALLÓN, 1997; ALTI-
MIR, 1997; MINUJIN, 1999).
Nessas condições, seria muito complexo tornar realidade o desa-
fio de o crescimento econômico e a democracia viverem juntos. A vio-
lência cotidiana cresceria constantemente, assumindo for mas semelhan-
tes às de um tipo de guer rilha permanente, porém sem finalidade políti-
ca de r eforma ou re volução social (
RIFKIN, 1996).
Embora seja difícil pensar que esse tipo de situação possa
reverter-se exclusivamente mediante decisões educativas, nesse contexto
parece ter particular importância a concepção de estruturas e processos
193
educativos que, pelo menos, tentem oferecer oportunidades equivalentes
de formação ao conjunto dos jovens e adolescentes, que contemplem
a diversidade de seus pontos de partida e desafiem sem cessar a hipótese
de determinação estr utural ir reversível dos destinos educativos, inclusive
com a cer teza de que os resultados alcançados terão limitações.
A educação secundária na América Latina supunha que as elites
não exigiam nenhuma for mação vinculada às atividades de produção e
distribuição de bens e ser viços e que por seu lado os trabalhadores
manuais, mesmo os de qualificações medianas e superiores, não necessi-
tavam de nenhuma formação relacionada com o aprofundamento de
seus conhecimentos referentes ao funcionamento socioeconômico e de
amplos horizontes culturais.
Todavia, os recentes avanços científicos e tecnológicos vão trans-
for mando pouco a pouco as ocupações, de modo que os trabalhos
manuais tenderão a desaparecer como opção de vida, em função de
soluções robotizadas em amplos setores da economia, enquanto que em
outros serão mantidas economias submersas em formas muito antigas.
Aqueles que permanecerem nessas economias dificilmente terão opor-
tunidades de melhorar sua qualidade de vida.
Com efeito, tudo faz prever que o trabalho, associado a opor tu-
nidades de uma melhor qualidade, demandará, cada vez mais, uma sóli-
da e r enovada for mação intelectual e uma igualmente sólida e também
renovada orientação para a resolução de problemas, ou seja, para a ação.
Nesse contexto, apresenta-se um triplo desafio: i) obter melhor distri-
buição dos poucos bons trabalhos existentes; ii) promover a construção
de pontes entre eles e outros trabalhos com menor incorporação de
prog resso técnico; e iii) facilitar a transformação de trabalhos do setor
submerso da economia em trabalhos que incorporem progresso técnico
e facilitem uma melhor qualidade de vida.
Para poder enfrentar esses três desafios de for ma sistemática e
com a menor quantidade e impacto de efeitos paradoxais possíveis, exi-
ge-se que todas as pessoas desenvolvam as competências necessárias para
desempenhar-se no contexto do prog resso técnico, levando em conta
suas conseqüências.
A combinação de uma sólida for mação g eral, com componentes
humanísticos, científicos e tecnológicos, com metodologias pedagógicas
194
de contextualização, segundo Araújo & Oliveira (1994) e Moura Castro
(1984), constituiria a única alternativa para que todos os adolescentes e
jovens pudessem ter acesso aos tipos de trabalho que garantissem melhor
qualidade de vida e para os quais teriam que saber pensar e, ao mesmo
tempo, fazer. Para tanto, é necessário que todos os possíveis percursos
dentro da educação secundária tenham, por um lado, componentes
humanísticos e tecnológicos e, por outro, opor tunidades de f or mação
contextualizada na resolução de pr oblemas.
Essa combinação facilitaria, além disso, que o s adolescentes e jo-
vens apr endessem a pensar melhoreafazermelhor. De fat o, haveria no
mundo crescentes evidências empíricas de que a combinação entre ambos
os tipos de aprendizagens reforçasse a qualidade de cada um deles e per-
mitisse buscar novas soluções para problemas que ainda não as têm.
A concepção de propostas pedagógicas baseadas em experiên-
cias f ormativas, com f ortes componentes situacionais e de resolução
de problemas, tem raízes históricas nos processos de construção das
disciplinas escolares, porém foi, por tendência, uma alternativa com-
batida. Segundo a interpretação de alguns autores, como Goodson
(1998), os esforços para construir uma educação secundária mais con-
textualizada não puderam instalar-se no século XIX, porque sua vitó-
ria teria significado a perda do valor do acesso e da permanência na
educação secundária, como dispositivo de diferenciação entre as elites
e os trabalhador es.
A revitalização da consciência acerca do valor dos conhecimentos
acarretará novos movimentos na dinâmica por controlar sua distribui-
ção. Em conseqüência, a passag em em direção ao tipo de educação que
se propõe, para os patamares que substituam a educação secundária,
exacerbará alguns conf litos de interesses e provocará outros novos. Tal
situação demandará dos líderes das mudanças uma forte capacidade de
argumentação, de ar ticulação e de geração de formas a propriadas para
seu monitoramento nas condições particulares de cada país, e em escala
regional e mundial.
Esse aspecto do desafio está relacionado à outra dimensão for-
mativa que se deve priorizar. Quer dize r, fortalecer a for mação em valo-
res de tal modo que os jovens assumam a necessidade da coesão e rejei-
tem a polarização social. Dito em outros termos, trata-se de a educação
195
secundária promover a construção de uma forte consciência coletiva no
sentido de que uma distribuição desigual e arbitrária das oportunidades
de acesso aos bens sociais, em especial à educação e ao trabalho, não
somente significa lesão aos direitos humanos de alguns, mas um risco
para a sobrevivência de todos.
Diversidade mais reconhecida em contexto de mudança acelerada
Historicamente, os sistemas educativos foram pensados para trans-
ferir a cultura das gerações adultas para as gerações jovens”, com mais força
ainda no caso da educação secundária do que no da educação funda-
mental. Esta posição continha cinco pressupostos que atualmente são
discutíveis. O primeiro é que as g erações mais jovens não possuem cul-
tura própria e, em conseqüência, não oferecem nenhum tipo de resistên-
cia à aprendizagem de conteúdos e aceitação de pautas culturais dos
adultos; o segundo é que a cultura adulta é homogênea; o terceiro é que
as gerações jovens também são homogêneas; o quarto é que a cultura
adulta e, como parte dela, as características da produção e da estrutura
dos conhecimentos são estáveis através do tempo; e o quinto é que os
sistemas educativos e as escolas são o principal sistema com experiência
na tr ansmissão de infor mação.
Nos últimos anos, assiste-se ao reconhecimento da heterogenei-
dade cultural latino-americana e das culturas historicamente subordina-
das, em particular, às culturas originárias (
CALDERÓN & SANTOS, 1998;
MARTÍN BARBERO, 1998). Como conseqüência desse reconhecimento, em
muitos países emerge a demanda de atenção para essa diversidade, tam-
bém nos processos de mudança da educação secundária, e se estabele-
cem temas, tais como a possibilidade do ensino de línguas originárias,
como par te do cur rículo. Na América Latina, vive-se também um cres-
cente processo de emergência e de fortalecimento de culturas juvenis,
por meio de produções e de consumos que acontecem em circuitos
diferentes dos escolares (ver, por exemplo,
SEMÁN & VILA, 1999).
Algumas investigações oferecem descobertas que dão conta de
que a falta de adequação do modelo de escola secundária às caracterís-
ticas dos novos grupos e setores sociais, que agora têm acesso a ela,
mais a falta de consideração da existência de necessidades e demandas
196
próprias dos jovens, são motivos relevantes de evasão e de baixos resul-
tados de aprendizagem dos pré-adolescentes e dos jovens (
OBIOLS & DI
SEGNI DE OBIOLS
, 1994).
Em outras palavras, para que os jovens entrem, per maneçam e
aprendam nas instituições educativas, têm que ali encontrar oportunida-
des de se desprenderem de sua condição protagônica através de práti-
cas muito variadas que lhes permitam f azer das escolas espaços de vida
juvenil. Além disso, essa juventude não é um conglomerado homogê-
neo, mas um conjunto de gr upos de pessoas com interesses, necessida-
des e saberes diversos, por momentos convergentes e por momentos
divergentes, com relação aos adultos e entre si.
Por outro lado, a educação secundária surgiu numa etapa em que
os saberes se estruturavam em disciplinas acadêmicas, consideradas for-
temente se par adas entre si, e com uma perspectiva de per manência sig-
nificativa ao longo do tempo. Com o surgimento de um novo sistema
científico-tecnológico-produtivo, segundo Lesour ne (1993), também se
desmarcam e remarcam, de maneira constante, os limites entre as disci-
plinas acadêmicas e produzem articulações internas que no entanto
têm baixa permanência temporal. Nesse contexto, g randes campos dis-
ciplinares, estruturados durante a segunda metade do século XX, fica-
ram fora da educação secundária, e campos disciplinares de vigência
duvidosa continuam permanecendo nela.
Por último, a revolução das comunicações abriu passag em para
novos sistemas especializados na transmissão e no acesso à infor mação,
que são muito mais eficazes para cumprir essas funções do que os siste-
mas educativos e os colégios (
PALLOFF & PRATT, 1999; HARASIM, HILTZ,
TELES & TUROFF, 1998). Em conseqüência, é imprescindível que as insti-
tuições educativas estabeleçam os riscos e as oportunidades que a exis-
tência desses novos sistemas especializados implica, principalmente me-
diante a emergência do conceito de conectividade das inteligências (
KER-
CKHOVE, 1997).
Tor na-se particularmente atraente e, ao mesmo tempo, conf lituo-
sa, a idéia de que as políticas educativas se encarreguem de reinventar
processos de institucionalização, em condições de deslig amento institu-
cional que trazem sérios riscos para o desenvolvimento pessoal, a coe-
são socialeapaz(
CASTELLS, 1997).
197
A busca de aprofundamento democrático: melhor representação e
maior protagonismo
Amplos setores sociais estão buscando, na América Latina, alter-
nativas para transformar a maneira de fazer política, entendendo, como
tal, todas as definições e ações vinculadas ao público. Essas buscas se
associam à crise de re presentação e de legitimidade das for mas peculia-
res de fazer política na r egião, bem como com as mudanças nas for mas
de inserção econômica, o aumento da exclusão social e as reestrutura-
ções do mundo das comunicações. De seu conjunto emergiu o modelo
de “sociedade de mercado”. Nela, tudo é praticável e se desenvolvem
com energia estratégias individualistas de sucesso. Essas estratégias são
refratárias a compromissos coletivos (
LECHNER, 1999). Tal situação pro-
duz for te mal-estar e desencanto.
algumas décadas, na América Latina associava-se a democra-
cia, exclusivamente, às for mas institucionais do liberalismo democráti-
co. Nesse conte xto, os desafios que se apresentavam à educação secun-
dária consistiam em formar os eleitores, os representantes e funcionári-
os de um Estado de direito. As possibilidades de superar o mal-estar e
o desencanto se relacionam à ampliação do conceito de democracia, ou
à sua transformação em outro que seja potente para reativar a disponibi-
lidade de reconstr uir compromissos coletivos, a par tir de práticas sociais.
Nesse cenário, ampliam-se as ambições relativas às contrib uições
da educação secundária para a democracia. O próprio conceito de de-
mocracia incorporou, como seu núcleo principal, a defesa e a promo-
ção dos direitos humanos e, em conseqüência, as for mas de vida que,
em conjunto, significaram uma r ealização e, nela, uma aprendizag em pe-
rante esses novos compromissos coletivos.
A partir dessa ampliação conceitual, de forte penetração em nu-
merosos países da região, novos temas foram conquistando um lugar
cada vez mais preponderante na agenda e também como desafios para
a educação secundária. Alguns deles são: o ensino dos direitos humanos,
de um ponto de vista conceitual e vivencial; o respeito às diferenças e a
integ ração dos jovens com necessidades educativas especiais.
Os mesmos jovens parecem inscritos numa tensão entre um
aparente desencanto com a política e um dinamismo de suas formas de
intervir, de maneira associativa e pública, em movimentos sociais, culturais
198
e religiosos, que concitam um maior número e uma maior variedade de
instituições e de pessoas, e os afastam da suposta acusação de apatia de
quem concebe como formas legítimas de par ticipação política as que
podem ser vistas por um olhar acostumado às especificidades do sistema
de par tidos.
As possibilidades de que essas novas formas de protagonismo
encontrem caminhos novos de institucionalização e se estabeleçam em
espaços adequados à promoção solidária e compartilhada de uma me-
lhor qualidade de vida dependem também, de for ma expressiva, de que
as pessoas possuam capacitações e valores apropriados para isso, os
quais e xigem maior tempo e novas concepções para sua formação.
A educação secundária na América Latina: um nível com
identidade ou um ciclo numa continuidade?
Sistematizando os desafios emergentes das grandes tendências
econômicas, sociais, culturais e políticas, que estão presentes na América
Latina, pode-se afirmar que a educação secundária é e continuará sendo
cada vez mais demandada pelas famílias e pelos jovens que até agora
não tiveram acesso a ela. Para dar conta dessa demanda, terá que se
transfor mar consideravelmente em todos e em cada um de seus aspec-
tos constitutivos. Mais ainda, essa transformação deverá ser de tal por te
que é lícito considerar se a educação secundária tem que continuar exis-
tindo como tal.
A educação secundária originou-se como alternativa, contida em
si mesma, de educação formal para os setores dirigentes das sociedades
européias. Seus inventores não a conceberam como um momento num
sistema educativo estruturado por níveis, mas como um segmento num
sistema educativo estruturado em vias paralelas, para uma sociedade
constituída por estamentos, que poderia ser representada graficamente
sob a f or ma de blocos superpostos e quase sem interconexões nem
possibilidades de trânsito de um para o outro.
Esse conjunto de blocos superpostos não alcançava nem sequer
a for ma de uma pirâmide, mas a de um amplo retângulo inferior,
colocado em for ma horizontal para cujos integ rantes existia a escola
primária–eumretângulo delg ado inter mediário, colocado de forma
199
vertical, que culminava em ponta. Os liceus franceses e os ginásios
alemães, por e xemplo, for mavam o fino retângulo verticaleauniver-
sidade a ponta superior.
A emergência das classes médias européias e a progressiva trans-
for mação dessa sociedade estamentada numa pirâmide de classes, com
oportunidades de mobilidade ascendente, que existe desde meados do
século XIX, aceleraram-se depois da Segunda Guerra Mundial, e até a
década de 1970 foi impulsionando um longo período de reconfigura-
ção ou de reestruturação dos sistemas educa tivos. Essa reconfiguração
teve como eixo a localização da educação secundária em continuação da
educação primária ou fundamental, superpondo dois modelos instituci-
onais muito diferentes e sem que se procedesse a um profundo redese-
nho de ambos (
MUELLER, RINGER &SIMON, 1992).
Dentro do nível médio, essa reconfiguração orientou-se par a uma
especialização da educação secundária em três modalidades coinciden-
tes com os setores das economias industriais estáveis e que deviam for-
mar para as ocupações dos que integ ravam o setor inter mediário da
pirâmide: o comercial para os serviços de então, o industrial par a o
trabalho fabril e as escolas agrotécnicas para as ocupações que incorpo-
ravam progresso técnico do setor primário da economia.
Recentemente, na década de 1950, fortaleceu-se na Europa a pro-
posta da “escola abrang ente” de longa duração, pensada não somente
para a formação de todos os cidadãos, mas para a de cidadãos igualados
mediante uma educação comum para todos (
HARGREAVES, 1982). Tal pro-
posta surgiu dos primeiros diagnósticos a respeito da “revolução científi-
ca e tecnológica”, da previsão de mudanças progressivas na estrutura das
ocupações e da vontade de promover uma distribuição de oportunidades
de tr abalho e de inserção social. Por trás dela, posicionava-se uma utopia
de construção de uma sociedade circular, em que as pessoas não ficassem
fixadas num lugar, dentro de uma estrutura estamental.
Embora, no início, a proposta da escola abr angente tenha enfren-
tado forte resistência, segundo Dussell & Pineau (1995), seu peso foi
avançando para facilitar a colocação de pontes entre diferentes trajetos
educativose–nocaso da América Latina processos de homologação
dos primeiros anos de uma educação secundária longa, como a da Ar-
gentina, ou da educação secundária inferior, como é o caso mexicano.
200
As mudanças na economia, a consciência do aprofundamento dos
riscos da exclusão, a progressiva aceitação da diversidade, como um aspec-
to valioso e diferente da marginalização e da exclusão social, e a busca de
alternativas para o protagonismo coletivo induzem a uma séria reflexão
acerca dos três aspectos estruturais da educação secundária: seu lugar nos
sistemas regulares de ensino, a validade da especialização precoceeadife-
renciação em modalidades associadas à estrutura da economia em setores.
As reflexões sobre os aspectos referentes à localização e estrutu-
ração da educação secundária têm particular relevância na hora de pen-
sar nas estratégias de mudança. Em princípio, pode-se propor que a
aceitação da vigência da educação secundária, como um nível com iden-
tidade interior mente estruturado nas modalidades herdadas, leva a prio-
rizar uma estratégia de mudança, mediante a inovação em cada institui-
ção. Ao contrário, a tomada de posição, referente à necessidade de trans-
for mar essa educação secundária num patamar de um continuum edereor-
denar fortemente a estrutura de modalidades, prioriza uma estratégia de
mudança, mediante r ef orm a s estr uturais e cur riculares.
Na realidade, o verdadeiro desafio para a promoção da mudança
da educação secundária na América Latina consiste em encontrar cami-
nhos para potencializar ao máximo as possibilidades das inovações, sem
abandonar as pretensões de refor ma estr utural e curricular, a fim de que
essas propostas de reform a se constituam, por sua vez, nos parâmetros
para promover, avaliar e potencializar as inovações.
É provável que, sem uma concepção para a mudança estrutural e
curricular da educação secundária, não seja possível dar novo sentido às
oportunidades educativas para os adolescentes e para os jovens, diante
das tendências tão significativas como as apresentadas. Todavia, é muito
provável também que não seja possível impulsionar refor mas estrutu-
rais e curriculares, por meio de estratégias de planejamento centralizado
e de um seqüenciamento pretensamente rígido nos sucessivos passos de
diagnóstico, implementação e avaliação.
Tudo indica que, para terem êxito, as reformas estruturais e cur ri-
culares devem apoiar-se em processos graduais e heterogêneos de mu-
dança, mais próximos da dinâmica de pr omoção da inovação perma-
nente que da dinâmica da reforma global, construindo e sustentando
uma visão alternativa, ao mesmo tempo global e local, com relação ao
tipo de educação secundária que se deseja obter.
201
A partir dessa posição, na realidade, sempre deveriam estar im-
bricados os aspectos referentes à mudança estrutural e curricular com as
inovações na prática. É possível e também desejável que, em alguns ca-
sos, os processos de mudança comecem mediante a promoção de ino-
vações e ter minem numa mudança estr utural e cur ricular, mas que tam-
bém ao mesmo tempo se construa uma concepção nova em relação
à estrutura e ao currículo e, a partir daí, se promovam inovações com
mais pr obabilidades de conseguir melhor formação dos jovens e dos
adolescentes e de se manter a través do tempo.
O LUGAR DA EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA NA
ESTRUTURA DOS SISTEMAS REGULARES DE ENSINO
Em vários países da América Latina, existe uma tendência, des-
de a década de 1960 mais ou menos explícita –, para conceber os
sistemas educativos como um continuum estruturado em ciclos, e para
organizar, dentro desse continuum , ciclos com diferente duração, de acordo
com as tradições e, inclusive, com as preferências dos governos e das
comunidades educativas. Essa tendência está mais acentuada no setor pri-
vado, onde numerosos estabelecimentos educativos se concebem como
espaços que garantem uma continuidade formativa para as crianças e os
jovens, desde a primeira infância até a juventude.
Nas refo r mas educativas contemporâneas, distintos estados den-
tro de um mesmo país por exemplo, no Brasil e na A rgentina r eor-
ganizam a estrutura de estudos, introduzindo os cortes entre ciclo e ci-
clo, em dif erentes momentos desse continuum (
NEUBAUER, 1998). As duas
maiores províncias argentinas optaram pela introdução dos cortes entre os
diferentes patamares de escolaridade em momentos distintos. Uma delas , por
um corte seis e seis. A outra, por um corte nove e três (
FERNANDEZ, FINOCCHIO
& FUMAGALLI, 1999). Qual é então a “educação secundária”? Em cada país,
está sendo relocalizada em outro lugar, ou em nenhum.
Uma leitura que facilita a comparação é considerar como educa-
ção secundária toda of erta formativa que atende à puber dade e à ado-
lescência, independentemente do lugar que ocupa na estrutura do siste-
ma regular de ensino, isto é, aos sete, oito e nove anos (equivalentes ao
nível ou ciclo que em vários países europeus se denomina secundário
202
inferior) e 10, 11e 12 (equivalentes ao nível ou ciclo que se tende a deno-
minar secundário superior).
Diante dessa situação, existem reações que marcam os riscos de
um aprofundamento das diferenças entre os que instalam os “cortes”
em diferentes momentos do continuum. Efetivamente, esses riscos exis-
tem, assim como existem outros derivados do fato de se instalarem
esses cortes sempre nos mesmos anos, sem levar em conta as situações
econômicas, sociodemográficas e de infra-estrutura educativa de cada
zona. Nesse sentido, parece que as novas perguntas que de veriam ser
for muladas, mais do que onde instalar os cor tes org anizacionais, é como
garantir que as transições entre diferentes modelos institucionais não se-
jam br uscas e facilitem a circulação pelo continuum educativo, e como
garantir que os jovens e os adolescentes, que estejam em patamares de-
marcados por cor tes diferentes, tenham uma formação equivalente.
Por outr o lado, apresenta-se também um desaf io semelhante em
torno da questão da diferenciação horizontal dentro das ofertas educa-
tivas para os jovens e os adolescentes. Tal como se destacou, até 1950
havia, em pra ticamente todos os países da região, as modalidades ade-
quadas par a formar os jovens para as ocupações da pirâmide da socie-
dade industrial madura. O ensino médio estava orientado para oferecer
a eles uma for mação propedêutica de caráter lógico-lingüístico-mate-
mático, a f im de que tivessem, em se guida, acesso à universidade. Os
cursos de orientação comercial, industrial e normal se propunham a ofe-
recer aos jovens uma formação profissionalizante, de caráter mais con-
textualizado, par a que logo conseguissem um posto de trabalho de téc-
nicos de nível médio no campo, na indústria ou nos serviços comerciais
e educativos.
As duas mudanças mais relevantes, produzidas depois de 1950,
consistiram em transferir, num conjunto de países, a formação docente
para as escolas primária ou fundamental, do nível médio ao superior,
não-universitário ou universitário e em abrir o caminho para que os
egressos das escolas técnicas e agrícolas pudessem ter acesso a estudos
superiores e universitários (
MESSINA, 1997). Paralelamente, outras alter-
nativas de mudança tiveram pouco impacto, tais como a intr odução de
planos de alternância, inspirados no Plano Dual da Alemanha nos anos
equivalentes a um nível secundário inferior.
203
O balanço entre as inovações bem-sucedidas e as propostas de
baixo impacto, nas décadas de 60, 70 e 80, inaugurou uma tendência a
dissociar a f or mação para um posto de trabalho da educação secun-
dária, tendendo a promover a transferência da primeira para o nível
superior.
A continuidade dessa tendência de for ma homogênea tem, pelo
menos, dois riscos. O primeiro é que desapareça toda ofer ta gratuita de
capacitação profissional para os trabalhos que requerem qualificação li-
mitada. O segundo é que se neguem oportunidades para os jovens dos
setores populares, que aprendem melhor por meio de metodologias
pedagógicas contextualizadas na ação.
Atualmente, buscam-se alternativas que permitam transitar de um
conjunto de modalidades internamente homogêneas e claramente dife-
renciadas entre si, orientadas, uma a formar para pensar e, outras, a
for mar para fazer, até uma série de opor tunidades de desenvolvimentos
institucionais heterogêneos, porém equivalentes, onde todos os estudan-
tes possam a prender, ao mesmo tempo, a fazer e a pensar.
Em alguns países, essa busca tende, além disso, a dissociar a for-
mação geral, adequada ao mesmo tempo para a participação cidadã e
cultural, num mundo de trabalho e multiatividade em processo de mu-
dança permanente da formação, para uma família prof issional que per-
mita o ing resso num primeiro trabalho.
No Chile, per manece a existência de duas vias ou trajetos para os
estudantes: um, mais propedêutico e outro, mais profissional (
COX, 1999).
No entanto, mesmo assim, a tendência é de diminuir a rigidez na dife-
renciação entre aquelas duas vias ou trajetos, incorporando, ao primeiro,
espaços de f or mação tecnológica e, ao segundo, mais for mação g eral.
Por outro lado, se reconhece plenamente o valor da educação que se
adquire em ambas as vias, para continuar estudos universitários. Essa
opção complementa-se com uma expressiva redução da quantidade de
especializações na f or mação profissional. O caminho chileno parece ter,
em curto praz o, a vantagem de neg ociar mais claramente com as tradi-
ções e de gerar menos resistências entre professores, alunos e pais do
que outras alternativas mais audaciosas, como a da Argentina.
No Brasil, Ber ger Filho (1999) e na Arg entina, Fernández, Finoc-
chio & Fumag alli (1999), a presentam a refor ma radical da estr utura de
estudos da educação secundária, dispondo a reorganização dos trajetos
204
possíveis em dois caminhos discriminados e articuláveis que os estudan-
tes podem percorrer, de for ma paralela e combinada ou de for ma su-
cessiva: o da for mação g eral e fundamentaleodaformação técnico-
profissional. Nesses países, busca-se, além disso, org anizar o cur rículo
da for mação técnico-pr ofissional em módulos sujeitos a créditos, que
podem ser cur sados juntos ou separados no tempo. Seus idealizadores
perseguem dois propósitos: i) que os adolescentes e os jovens possam
realizar sua formação técnico-profissional toda de uma vez ou em eta-
pas; e ii) que também os jovens e os adultos, que finalizaram anterior-
mente a educação secundária, possam cursar a formação técnico-pro-
fissional modular. Com isso, procura-se abrir caminhos par a for talecer a
presença de uma segunda oportunidade para ter acesso a uma for ma-
ção técnico-profissional.
Na Argentina, a definição de uma nova estrutura curricular fede-
ral, ajustada e válida para os sistemas educativos das 24 províncias que
paradoxalmente diminua a determinação que essa estrutura possa ter
na organização das trajetórias e nas oportunidades de aprendizagem dos
adolescentes e dos jovens, por enquanto concentrou um enor me esfor-
ço institucional. Dito em outros ter mos, trata-se de perseguir um mo-
delo de referência compartilhado e compreensível que deter mine um
leque de possibilidades de organização curricular, que possibilite às ins-
tituições moverem-se com liberdade dentro dele e não fiquem sujeitas a
três ou quatr o modelos rígidos, como na org anização por modalidades.
O esforço institucional para construir esse modelo compartilhado de
referência é muito superior ao que se dedicou à transfor mação inova-
dora dos próprios serviços educativos.
Ao receber a proposta da nova estrutura curricular federal, os
estabelecimentos oscilam entre o beneplácito diante da chegada de alter-
nativas que impressionam melhor que as desacreditadas for mas herda-
das do passado e o temor da perda de suas tradições e identidades. As
políticas de promoção da mudança educativa para as novas estruturas
variam conforme as pr ovíncias, entre a decisão de impulsionar uma mo-
dificação radical e a promoção ou aceitação de movimentos que reci-
clam, sob novos termos, as velhas concepções do ensino médio, por
um lado, e da educação técnica, moldada entre 1930 e 1950, por outro.
Se, até pouco tempo, concedia-se impor tância cr ucial à localiza-
ção de cada nível ou ciclo na estrutura de estudos e à definição dos
205
perfis de modalidades rígidas, de acordo com as características dos
setores da economia, parece que, atualmente, as principais preocupa-
ções não são a busca da identidade do nível secundário e nem o
momento em que se introduzem os cortes e a rigidez nos perfis de
cada modalidade.
As novas preocupações estr uturais parecem ser duas. Em primei-
ro lugar, a definição da identidade de ciclos que tenham unidade de
sentido formativo, sem necessidade de passar por cor tes abr uptos entre
modelos institucionais e conseguindo que cada um deles se articule com
o anterior e com o posterior. A esse respeito, acredita-se que uma deter-
minada localização dos cortes é melhor ou pior, de acordo com cada
contexto, e não abstratamente.
Em segundo lugar, a invenção de certos critérios de diferenciação
entre instituições que não as amarrem nem a setores econômicos nem a
atividades que acarretam barreiras cada vez mais difusas entre si, bem
como a suposta existência de três ou quatro modelos de profissionais
o perito mercantil, o técnico industrial, o técnico agropecuárioeodi-
plomado em ensino médio com perfis preconcebidos de rigidez pou-
co compatível com tempos de for te dinamismo e transformação.
A diversidade de estruturas, antes considerada uma heresia contra
a eqüidade, começa a visualizar-se em alguns países como alternativa
para obter maior per tinência org anizador a em contextos diversos. Os
requisitos para que essa diversidade não se converta numa provocação
para o incremento da exclusão seriam três: metas (padrões ou parâme-
tros) equivalentes ao finalizar o continuum do sistema regular de ensino;
um único esquema cur ricular básico e compar tilhado, apropriado para a
promoção educativa em todas as alternativas estruturais; e uma política
e gestão sistêmica da educação que dêem coesão às diferentes alternati-
vas, articulando-as com uma dinâmica compartilhada.
O PAPEL DOS PADRÕES E DAS AVALIAÇÕES:
ALTERNATIVAS EXISTENTES E POSSIBILIDADES
NÃO EXPLORADAS
A refor ma da educação secundária na América Latina ing ressa na
agenda pública depois de iniciados importantes processos de
206
descentralização educativa, que tiveram diferentes características em
cada país, mas em todos eles foram executadas, durante décadas, muito
comprometidas com políticas de ajuste fiscal. Nesses momentos, a
busca de maior eficiência era entendida, de modo predominante, como
uma oportunidade insubstituível de reduzir o volume total das
destinações orçamentárias para o setor educação. Essas destinações
eram concebidas como uma variável privilegiada para adiantar o ajuste
considerado imprescindível, diante das exigências de pagamento de
uma dívida externa crescente.
Em conseqüência, durante a primeira etapa de promoção da
descentralização educativa não se prestou atenção a questões tais como:
a avaliação, a inf or mação, o cur rículoeaformação de novos perfis
profissionais para uma nova for ma de exercício das políticas e das
práticas educa tivas. Assim, na Colômbia e na Arg entina, por exemplo,
desconcentrou-se a gestão educa tiva, transferindo-se os serviços para
as províncias, respectivamente, sem atender a nenhum aspecto que ga-
rantisse as condições para seu bom funcionamento.
Por trás dessa desatenção, ocultava-se, em nosso modo de ver,
uma perda do sentido dos fins da educação em geral e da educação
média em par ticular. Na medida em que se difundiu a tomada de
consciência acerca da importância da competitividade nacional no
contexto da globalização, do prog resso técnico, como fator de com-
petitividade nacional, e da variável educação, como elemento rele-
vante para a introdução de prog resso técnico, os processos de des-
centralização foram-se complementando, com atenção crescente par a
os dispositivos de controle da qualidade da educação, constr ução e
difusão de infor mação.
Portanto, em vários países onde não existiam sistemas de admi-
nistração de provas padronizadas para os estudantes nem procedi-
mentos de publicação de seus resultados, esses sistemas foram sendo
criados. O pressuposto era que um público, na posse de maior infor-
mação, poderia tomar melhores decisões individuais que em conjun-
to configurariam uma melhor situação coletiva.
Isso explica por que países como o Chile e a República Domini-
cana contaram primeiro com operativos ou sistemas de avaliação de
resultados de aprendizagem dos alunos da educação secundária do
207
que com novos cur rículos. Sem dúvida, a existência desses oper ativos
e a introdução da administração periódica de provas para os estudan-
tes contribuíram para introduzir uma crescente preocupação com os
resultados da aprendizagem e pôr em evidência os problemas da quali-
dade da educação secundária da r egião (
CARNOY & MOURA CASTRO, 1997).
Todavia, pouco a pouco, tor nou-se evidente que a administração
de provas e a fixação de padrões de avaliação podem não ser uma
alavanca suficientemente apropriada para incentivar mudanças na edu-
cação secundária. Com efeito, a pergunta que surge é se a fixação de
padrões e a administração de provas podem contribuir para que os
professores ensinem algo que não sabem ensinar ou para que os estu-
dantes se for mem em algumas habilitações de difícil padronização e
avaliação em massa, tais como as habilitações de empreender e de tra-
balhar em equipe.
Em outras palavras, pode-se afir mar que, até meados da década
de 90, criaram-se dúvidas sobre que dispositivos de r egulação, por meio
da informação e do controle, permitiriam alcançar os objetivos de uma
educação de qualidade par a todos os adolescentes e jovens. Não obs-
tante, em todos os países da região, admite-se que a primeira condição
para propiciar uma educação diversa, mas de qualidade para todos, isto
é, com eqüidade, é a existência de certos compromissos, com relação
aos resultados da educação, os quais podem denominar-se padrões, e x-
pectativas de resultados, objetivos gerais ou qualquer outro nome.
O importante não parece ser tanto a existência desses “padrões”,
mas precisamente sua condição de compromissos públicos com-
preensíveis, com relação às ca pacidades e valores relativamente perma-
nentes que a educação tem de for mar, contraídos entre a sociedade que
requer e demanda educação, os profissionais encar reg ados de promo-
vê-la e os cientistas e empreendedores que geram conhecimentos e pro-
cedimentos apropriados para formar essas capacitações e esses valores.
Alguns países, algumas províncias ou estados, dentro dos grandes
países federativos, em que os estudantes firmaram uma espécie de acor-
do entre técnicos, não conseguiram que esses padrões orientassem, do
mesmo modo, a prática peda gógica, como aqueles que utilizaram meto-
dologias consultivas envolvendo mestres, professores e setores impor-
tantes da sociedade.
208
EM BUSCA DE UM NOVO CURRÍCULO PARA O
SÉCULO XXI
Os materiais curriculares característicos da educação secundária
latino-americana foram os planos e prog ramas de estudo. Seu ponto de
partida eram os conhecimentos construídos entre fins do século XVIII e
as primeiras décadas do século XIX. Sua estrutura interna era isomórfica
com a estrutura de prog ressiva constr ução desses conhecimentos. Suas
referências exter nas eram, primeiro, o fino r etângulo vertical e a ponta
da sociedade em estamentos e, depois, a sociedade da pirâmide com
mobilidade social ascendente e a economia trissetorial, com um merca-
do de trabalho em expansão e uma sociedade com oportunidades de
mobilidade social ascendente.
Esses materiais eram, por tendência, pobres e rígidos. Isso quer
dizer que se referiam somente a alguns dos aspectos que incidem na
qualidade das aprendizagens das respectivas instituições e que o faziam
por meio de uma lógica pr escritiva inf lexível. Em g eral, deter mina-
vam o que deveria ser ensinad o e o faziam de f or ma categórica.
Na realidade, tudo leva a pensar que, hoje em dia, é necessário
adotar outro ponto de partida e elaborar modelos curriculares flexíveis,
mas, ao mesmo tempo, ricos, que facilitem a construção das identidades
institucionais e as opções pessoais dos jovens, sem perder de vista as
obrigações referentes à eqüidade formativa e o desenvolvimento de va-
lores compartilhados, orientados no sentido da coesão social e do for-
talecimento e aprofundamento de uma democracia centrada na promo-
ção dos direitos humanos.
O ponto de par tida: a formação de competências e a
promoção das identidades
Em linhas gerais, existe uma tendência de propor que o ponto de
partida para a elaboração de modelos curriculares ricos e flexíveis consiste
na adoção do desafio de f or mação de competências. Embora o diálog o
e o debate público a esse respeito seja menos intenso, abre-se passagem
também à reflexão relativa à necessidade de que os modelos curriculares
sejam apropriados para fortalecer nos jovens uma identidade múltipla e
209
articulada. No entanto, não existe suficiente consenso nem experiência
na definição dos conceitos de competência e de identidade, ou em sua
tradução operativa. Por conseguinte, parece importante realizar
per manente revisão de ambas as noções, com o propósito de for talecer
sua eficiência pedagógica.
Nos materiais de vários países, define-se uma competência de modo
amplo, compatível com sua conceituação, como um sa ber fazer com sa-
ber e com consciência em r elação ao impacto desse faze r (
BRASLAVSKY ,
1993/ 1999). Outra forma de expressar essa mesma noção de competên-
cia é com um procedimento internalizado que incorpore conhecimentos
conceituais e que esteja em permanente processo de revisão e aperfeiçoa-
mento, de tal modo que permita r esolver um problema ma terial ou espi-
ritual, prático ou simbólico, assumindo as conseqüências.
A partir dessas definições, uma competência haveria de ter dupla
referência: a da dimensão das capacidades das pessoas e a dos espaços
de interação de todas as pessoas. Nesse sentido, seria contrário, a todo
princípio de busca de desenvolvimento de uma sociedade justa, promo-
ver a especialização em determinadas competências, abandonando ou-
tras, ou a r eferência a um espaço, em seguida abandonando também
outros. Todos os jovens deveriam ter opor tunidades de continuar for-
mando suas capacidades intelectuais, afetivas, sociais, éticas, estéticas, cor-
porais e práticas a fim de se desempenhar em espaços naturais, simbóli-
cos, sociais e tecnológicos que, além disso, seriam analiticamente di-
ferenciáveis, mas sempre estariam inter penetrados.
Em outras palavras, todos os jovens deveriam aprender a pensar, a
sentir, a viver e a conviver com outros, a valorizar, a criar, a cuidar e
desenvolver seu cor po, assim como a empr eender. Além disso, deveriam
poder continuar aprendendo tudo isso por si, uma vez que completarão
seu trânsito pelo continuum de oportunidades de educação básica e, em
particular, pelos patamares que substituam a educação secundária atual.
O princípio pedagógico que está detrás da opção pelas compe-
tências, como ponto de par tida da for mulação dos materiais curricula-
res e ponto de chegada do processo educativo na educação secundária,
é que as mesmas competências podem ser for madas com conteúdos,
metodologias e modelos institucionais diferentes. Esse princípio peda-
gógico não significa, porém, que os referidos conteúdos, metodologias
e modelos institucionais sejam irrelevantes nem que todos tenham a
210
mesma fecundidade formativa. Longe de diminuir a pressão sobre os
desafios referentes a eles, multiplicam-na, pois realizam a necessidade de
prever a relevância dos conteúdos e das metodologias pedagógicas, a
longo prazo e em relação a seu “sedimento” f or mativo.
Além disso, num contexto mutável, é particular mente desejável
que os adolescentes e os jovens se for mem para ser eles mesmos e para
continuar sendo, num processo de interação e de enriquecimento com
as próprias mudanças e do mundo exter no. Significa que esses patama-
res da educação podem fortalecer sua condição de sujeitos auto-susten-
táveis, seu sentido do eu e da pertinência a seus grupos de referência
familiar e cultural, às nações e à comunidade mundial (
TOURAINE, 1997).
Um cur rículo pobre e rígido, sem opções, com uma org anização
sempre idêntica do tempo e sem previsões para uso intenso das oportu-
nidades de aprendizagem nos espaços abertos das comunidades, medi-
ante projetos compartilhados com outras instituições não-escolares des-
sas mesmas comunidades, não facilita esse for talecimento.
O desafio de combinar riqueza e flexibilidade
A par tir deste ponto, parece que os novos materiais cur riculares
da América Latina deveriam procurar oferecer mais orientações que as
prescrições rígidas, revelando os critérios que oferecem essas orienta-
ções, e não outras, dando parâmetros de referência e oferecendo tam-
bém alternativas de utilização desses critérios, com esses parâmetros,
por meio de e xemplos. Por último, deveriam reconhecer explicitamente
o direito e a capacidade que as diferentes instituições possuem para en-
contrar alternativas melhores do que as que o próprio documento ofe-
rece como exemplo.
O desdobramento desse exercício, por par te das instituições edu-
cativas, permite que se conte com iniciativas par a constr uir um diálog o
mais fluido e confiável entre as autoridades e os técnicos encarregados
de elaborar os modelos de referência e as regulações necessárias a uma
melhor prática institucional, os diretores e diretoras, as mestras, mestres
e professores. Faz-se referência a isso, quando se propõe que os novos
materiais curriculares da educação secundária latino-americana deveri-
am ser ricos e f lexíveis.
211
Um modelo curricular rico é aquele que pode orientar os prota-
g onistas da ocupação educativa do cotidiano, com relação à g rande va-
riedade de aspectos que incidem na qualidade da aprendizagem que se
propicia aos alunos das diferentes instituições. Um modelo curricular
rico não se refere, exclusivamente, a que coisa ensinar, mas também para
o quê, o porquê, quando, ond e e a quem.
Entende-se por modelo curricular flexível aquele que admite variantes,
de acordo com as características de cada uma dessas diferentes instituições.
Na prática, são diferentes as características dos modelos curricu-
lares que estão sendo produzidos nos diversos países da América Lati-
na. Em alguns casos, são mais ricos e, em outros, menos. Em alguns,
mais f lexíveis, e em outros menos. Por tendência, nos gr andes países
federais, os modelos cur riculares de alcance nacional são mais fle xíveis.
Nas províncias e nos países unitários, tendem a ser menos flexíveis em
alguns aspectos, por exemplo, na deter minação das matérias ou espaços
curricular es de caráter obrig atório, que os alunos e alunas devem cursar,
e na distribuição do tempo.
Por outro lado, cer tos materiais curriculares desenvolvem, de ma-
neira muito ampla, critérios para alguns aspectos, indicadores e parâme-
tros para outros e soluções ou respostas para mais outros. Por exemplo,
em certos países, documentos curriculares propõem estruturas curricu-
lares básicas, sem que sejam levados em conta os critérios adotados para
propô-las. Isso dificulta a avaliação dos usuários, no que diz respeito ao
fato de uma estr utura ser boa, ou r egular. Quando isso acontece, é
muito difícil sustentar debates racionais sobre as propostas com os agentes
que não participaram da elaboração dos documentos ou remover as
resistências que todo processo de mudança suscita.
Das matérias homogêneas aos espaços curriculares
heterogêneos
As novas propostas curriculares tendem a coincidir na definição
de dois pr oblemas como tais. O primeiro é que não é possível que os
alunos e as alunas entre 13 e 18 anos sejam submetidos a uma estrutura
fragmentada e neg ociada de 12 a 14 par tes semanais. O segundo é que
as exigências de aprender a aprender, a viver junto, a conhecer e a
212
empreender não podem ser atendidas se essas partes todas têm a forma
de “matérias” ou “disciplinas” estruturadas em torno de conteúdos
conceituais, que podem ser re petidos do professor para o aluno, sem
atravessar experiências de aprendizagens, envolvendo os alunos de outro
modo que não seja essa r e petição.
Em alguns países, orientações que facilitam a superação de
ambos os problemas ao mesmo tempo. Em outros, ao contrário, enfa-
tiza-se mais a atenção a um deles do que ao outro. De qualquer modo,
em praticamente todos os países, que estão em processo de produção
de modelos de referência, políticas e estratégias de melhoria da qualida-
de e de expansão do ensino secundário, detecta-se um esforço por pres-
crever menor quantidade de “matérias” e dispor que as partes não se
org anizem sempre de acordo com conteúdos conceituais, sob a forma
de “matéria”, mas também de acordo com produtos ou metas a con-
quistar ou de projetos a desenvolver.
A redução da fragmentação: entre as áreas e as opções
Com o propósito de reduzir a quantidade de “espaços curricula-
res”, que os alunos têm de atender, em alguns casos, paralelamente, os
novos materiais curriculares procuram substituir as disciplinas por áreas,
especialmente no patamar equivalente àquele que, em muitos países eu-
ropeus, se identifica como “educação secundária inferior” (7º, e 9º).
A esse respeito, o país que mais avançaéoUruguai (
MANCEBO, 1999). As
áreas seriam “disciplinas escolares”, construídas a partir de uma seleção
de conteúdos provenientes de um conjunto de disciplinas acadêmicas que
utilizam procedimentos afins para criar conhecimentos, em particular no
caso das ciências sociais, por um lado, e das ciências naturais, por outro.
Em alguns casos, existe um forte ceticismo relativo à possibilida-
de de construir “disciplinas escolares”, que respondam ao conceito de
áreas, porque não têm sólida tradição acadêmica. Os que participam
desse ceticismo argumentam que as disciplinas escolares costumam res-
ponder a disciplinas acadêmicas que têm long a tradição e permitem
aprender “um léxico, uma gramática e uma sintaxe” específicos. Em outros
ter mos, argumentam: uma disciplina é uma f or ma de org anizar a leitura
213
da realidade, mediante um conjunto de conceitos e de relações específi-
cas, que vão se modificando por meio de uma lógica interna.
Aprender bem uma disciplina é aprender bem uma linguagem,
com profundidade e rigor. Em conseqüência, diante da necessidade de
diminuir a quantidade de questões com as quais se defronta cada estu-
dante, a um tempo, e a quantidade de alunos que um professor tem a
seu car g o, de forma simultânea, seria preferível introduzir opções entre
disciplinas escolares homólogas às disciplinas acadêmicas, do que cons-
truir disciplinas escolares denominadas áreas, sem tradição alguma como
unidades de sentido.
Essa alternativa facilitaria a todos os estudantes, no sentido de
poderem, por um lado, aprender os procedimentos próprios de um
conjunto de disciplinas acadêmicas as quais constituem uma área ou um
g rande campo do conhecimento e, por outro, ter acesso a uma lingua-
gem para a interpretação do mundo com rigor e profundidade. A apren-
dizagem por áreas na educação secundária não o per mitiria. Ao contrá-
rio, a transformaria numa educação muito parecida com a primária ou
fundamental.
O tipo e a quantidade de disciplinas, que deveriam estruturar a
for mação de competências dos adolescentes e dos jovens, dependeri-
am, para os partidários de sua manutenção com opções de questões tais
como: os interesses dos jovens, as características da zona de influência
dos estabelecimentos, em ter mos econômicos, políticos e sociais, e a
disponibilidade de recursos e conhecimentos entre as equipes de profes-
sores de cada estabelecimento educativo.
A renovação das disciplinas com presença na educação secundária
Os conteúdos escolares são revisados tanto no caso da constru-
ção de “áreas” como no de manutenção de “disciplinas”. Em vários
países, pela primeira vez em décadas, pelo menos, como fontes acadê-
micas para a construção de disciplinas escolares, conteúdos provenien-
tes da Geologia, entre as ciências naturais, da Sociologia, da Ciência Po-
lítica, da Antropologia e da Economia, entre as ciências sociais, são con-
siderados. Ao mesmo tempo, questiona-se a Geografia, a Física e a
Química como disciplinas escolar es.
214
No lugar em que, por temor às reações corporativas dos profes-
sores das disciplinas afetadas, não se modificam for malmente as inclu-
sões e as exclusões curriculares, revisa-se a seleção dos conteúdos pro-
postos nas matérias com tradição escolar, para incluir perspectivas cor-
respondentes a novas disciplinas acadêmicas sem tradição escolar e para
excluir outras, de disciplinas que haviam perdido a vigência.
Por outro lado, na maioria dos casos, a “tecnologia” começa a
ganhar estatuto escolar, embor a com enfoques diferentes. Por último,
avança-se na introdução do Inglês e, de maneira mais limitada, do
Português ou do Espanhol. Perdem peso o Francês e o Italiano. Nos
países andinos e da América Central, promulgam-se nor mas para a
introdução de línguas de populações nativas, como disciplinas obriga-
tórias ou optativas.
Os projetos de investigação e intervenção comunitária e os
empreendimentos produtivos
Nos novos currículos, pelo menos três alternativas de projetos
são contempladas: de investig ação, de inter venção comunitária ou de
produção.
No primeiro caso popõe-se que os jovens construam sistematica-
mente novos conhecimentos para eles, por meio de processos de inves-
tigação escolar. Esses processos buscariam a familiarização dos jovens
com metodologias e estratégias da investigação científica, porém sem a
pretensão de que sejam construídos conhecimentos de ponta. Na práti-
ca, o fomento desses projetos permitiria, em troca, em alguns casos,
produzir conhecimentos contextualizados que efetivamente possam ser
novos para a área de inf luência do colégio, por exemplo, referentes às
características do ambiente: a água, o ar, a história local, o conhecimento
da realidade por parte dos habitantes, etc. (
REPÚBLICA ARGENTINA, 1998).
No segundo caso, espera-se que os jovens inter venham na comu-
nidade, por inter médio de diferentes práticas: campanhas de prevenção
sanitária; ajuda escolar para alunos de escola primária ou fundamental;
elaboração de projetos, como de saneamento ambiental, para apresen-
tação aos le gislativos locais para sua aprovação, etc.
215
No terceiro caso, o objetivo é de que os jovens conce bam, po-
nham em prática e avaliem processos produtivos de natureza diversa,
em par ticular, de alimentação natural e de ser viços: produção de ar tesa-
natos, doces, pequenos quiosques; plantas decorativas, hortas, floricultu-
ra; manutenção e re paros de automóveis e outros.
A introdução de orientações curriculares, para esses três tipos de
projetos, busca sempre o mesmo objetivo: que os jovens aprendam a
empreender, fortalecendo ao mesmo tempo sua capacidade de coope-
rar e de conviver. Por outro lado, parecem buscar a construção de alterna-
tivas para a clássica ar ticulação do colégio com o mundo do trabalho, por
meio de estágios em empresas, cada vez mais difíceis de organizar, diante
das novas características do mundo da produção: introdução crescente
de progresso técnico e sofisticação das tecnologias, em certos segmen-
tos, e super simplificação de alguns processos de tr abalho, em outros.
Ambas as tendências dificultam a articulação das instituições edu-
cativas com os locais de trabalho, numa região de baixa tr adição a esse
respeito. Com efeito, no primeiro caso, aumenta-se o risco empr esarial e
seu interesse na aceitação de estagiários se diminuído. No segundo,
limita-se a capacidade formativa dos locais de trabalho, e o que diminui
é a eficácia pedagógica do eventual estágio. Diante disso, procura-se que
os jovens aprendam a empreender e a fazer por meio de outras experi-
ências, por exemplo, as de produção de uma mais dinâmica “vida juve-
nil” nas instituições educativas.
Essa dinamização da “vida juvenil” nos colégios é, ao mesmo tem-
po, um supor te fundamental no processo de afirmação institucional de
populações à margem do trabalho e de outras formas de inserção social.
A CULTURA JUVENIL, A CULTURA ESCOLAR E A
VIDA ESTUDANTIL
Em vários casos, os currículos latino-americanos para a educação
secundária incluem locais especificamente orientados para o desenvolvi-
mento de formas de vida juvenil e da relação com as comunidades.
Um tipo de proposta, mais promovida na Argentina, é uma es-
tratégia de promoção da “apr endizag em em serviço”. A segunda, of ici-
almente consagrada no Chile, é uma estratégia de promoção da “vida
216
juvenil”. A estratégia de promoção da vida juvenil nos colégios orienta-
se para propiciar elementos, a fim de que os jovens empreguem seu
tempo livre, de acordo com seus interesses próprios, mediante a organi-
zação de atividades decidida por eles, em função do valor que têm so-
mente para eles, e de seu sentido lúdico. A participação nas atividades é
absolutamente voluntária.
A estratégia de promoção da aprendizag em em ser viço orienta-
se para dinamizar o uso do tempo institucional, e não do tempo livre
dos jovens. Procura atender às necessidades e aos interesses das comuni-
dades, mediante intervenções pedagógicas intencionais e progr amadas
por seu valor f or mativo. Embora aceite o protag onismo juvenil, com-
bina-o com a responsabilidade dos professores, que o conteúdo das
atividades de aprendizagem em ser viço é definido pelos professores,
com diferentes margens de par ticipação dos jovens. A par ticipação ne-
las pode ser obrigatória.
A GESTÃO DA EXPANSÃO E DA MUDANÇA DA
EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA
Embora, em outros segmentos deste texto tenham sido feitas al-
gumas referências à relação entre inovação e refor ma educativa, a ques-
tão da mudança na educação secundária não se esgota aí. Além das ques-
tões referidas, acerca dessa relação em todo processo de mudança edu-
cativa, pelo menos, outras questões desempenham papel destacado: i) as
estratégias para sua promoção; ii) os ag entes que inter vêm nele; iii) os
recursos; e iv) a institucionalidade que o sustenta ou ao contrário que
o enfraquece.
As estratégias para a promoção da mudança da educação
secundária
Os processos de mudança educativa podem ser, pelo menos na
teoria, autogeridos ou promovidos de fora das próprias instituições edu-
cativas. Nos sistemas educativos piramidais, hierárquicos e bur ocratiza-
dos da América Latina, as possibilidades de desencadear e de sustentar
217
processos de mudança da educação secundária, por meio da autoges-
tão, estão bastante reduzidos. A inovação ainda requer, a fim de se g ene-
ralizar, políticas e estratégias efetivas de promoção da mudança.
Com efeito, a distribuição de professor es por horas-aula; a rigi-
dez na deter minação das plantas funcionais dos estabelecimentos edu-
cativos; as dificuldades para produzir mudanças no uso do tempo e nos
agrupamentos de alunos e a impossibilidade de realizar contratações
temporárias são alguns dos aspectos que inibem a possibilidade de que
as próprias instituições de educação secundária encontrem alternativas para
formar os adolescentes e os jovens, de acordo com suas necessidades e carac-
terísticas , e com os recursos disponíveis nas escolas. As restrições organizado-
ras e administrativas são tantas que inibem, inclusive, a possibilidade de pro-
duzir mudanças nas metodologias de trabalho nas classes.
Por exemplo, se não é possível modificar parâmetros horários
que definem horas-aula de 40 ou 45 minutos, é muito difícil introduzir
práticas de trabalho em equipe ou por projetos, trabalhos de debates ou
estratégias com processamento de informação nas aulas, utilizando no-
vas tecnologias.
No entanto, mesmo assim, um conjunto quantitativamente pouco
representativo de estabelecimentos produz mudanças, sob f or ma auto-
gestora. Embora ainda não haja amplas bases de dados sobre inovações
em curso na educação secundária, alguns indícios com relação às ca-
racterísticas dessas inovações.
Em princípio, parece que um gr upo dessas inovações autog esto-
ras se concentra na promoção da aprendiza gem em serviço, na ar ticula-
ção dos estabelecimentos educativos com as comunidades e com os
microempreendimentos produtivos. As mudanças autogeridas em dife-
rentes matérias ou espaços curriculares concentram-se, principalmente,
na promoção de novas aprendizagens na área de língua ou de comuni-
cação, em biologia e história e em educação física. A edição de jor nais e
murais, a organização de rádios escolares e mais recentemente a
produção de vídeos ocupam um lugar importante.
A organização de estudos sobre ecologia e meio ambiente, as in-
vestigações com metodologias de história oral e a indagação ou, ainda,
articulação com os poderes públicos dos municípios estão relativamen-
te difundidas. Os acampamentos org anizados a par tir das instituições ou
da disciplina Educação Física, os centros de estudantes ou grupos de
218
alunos têm presença destacada. Em alguns casos, as instituições traçam
projetos em que combinam o conceito do projeto, a promoção da vida
juvenilearenovação dos conteúdos e das metodologias de ensino.
Na Argentina, por exemplo, existem algumas inovações autog eri-
das exemplares, que se sustentaram ao longo de vários anos e que con-
seguiram produzir forte impacto na for mação das competências dos
estudantes e na melhoria da qualidade de vida das comunidades. A título
de exemplo, pode-se citar um estabelecimento ag rotécnico de pequena
povoação de 1.500 habitantes, da província de Chubut, que, a partir da
incor poração do conceito de projeto supervisionado, no último ano,
promoveu a aprendizagem de cultivo em invernadouros e logo conse-
guiu que várias famílias o organizassem em suas moradias, mudando
seus hábitos alimentares, numa zona desértica, onde não chegavam fru-
tas nem verduras.
Outro caso interessanteéodeumcolégio secundário na provín-
cia de Santa que, a partir de uma investigação nas aulas de Biologia,
descobriu que a água de sua localidade, La Ramona, estava contamina-
da. Com base nessa descoberta, iniciou um processo que, ao longo de
dez anos, culminou com a potabilidade da água do lugar.
Pelo visto, na capacidade de promoção de mudanças autog esto-
ras, diversos fatores se conjug am: as características da direção, em par-
ticular; o acesso ao cargo por concurso; certa antigüidade e um modo
especial de exercer a direção; a coesão da equipe de trabalho; a dispo-
sição dessa direção e dessa equipe para transgredir algumas normas
rígidas que travam a ação, cer tas capacidades não-habituais nos docen-
tes, e que se costumam adquirir em outros espaços f ormativos que
não são as instituições de for mação docente nem os cursos tradicio-
nais de capacitação.
Se essas características pudessem fortalecer-se, por meio de in-
vestigações sistemáticas, seria possível identificar variáveis para gerar po-
líticas púb licas não-tradicionais: primeiro, a transformação das nor mas
rígidas; segundo, a capacitação diretiva; terceiro, a geração de estratégias
de coesão d as equipes profissionais; e quar to, a promoção de formas de
capacitação para os professores, que lhes permitam desenvolver experi-
ências d e a pr endizag em, fora do próprio sistema educativo.
Em princípio, nada parece demonstrar que essa capacidade de
produzir mudanças, em forma autogestora, se associe à existência de
219
concor rências ou disputas por recursos. Pelo contrário, a relação pare-
ce ser inversa: quando existem capacidades instaladas para inovar, as
concorrências e as competições por recursos recuperam práticas pre-
existentes e as tor nam visíveis. Isso não significa que não devam existir
políticas orientadas a promover a capacidade de inovação nos estabe-
lecimentos educativos, mas que não bastam para que as instituições
tenham a capacidade de elaborar estratégias inovadoras, produtoras
de qualidade.
Se fosse correta a hipótese segundo a qual a competição por re-
cursos além do mais, escassos não promove a atividade autogestora
de produção de inovações de qualidade, haveria de se pensar em outras
estratégias de promoção da capacidade de mudança em educação, mais
orientadas a promover a exibição dos resultados e dos processos de
mudança por autogestão, do que distribuir recursos. Desse modo, seria
possível g arantir que, na hora de realizar cer to tipo de concur so, ligado,
talvez, a incentivos de pro fissionalização, os projetos fossem de melhor
qualidade. Do mesmo modo, nos processos para a promoção dos con-
cursos, d everiam incluir-se mecanismos de assistência e assessoramento,
provavelmente entre pares, que permitissem melhor acompanhamento
às instituições mais fracas.
Nesse sentido, a realização de exposições, jor nadas de intercâm-
bio, estágios entre estabelecimentos educativos e dinamização de redes
interinstitucionais parecem caminhos pouco explorados e muito férteis,
a fim de promover, com base nas políticas públicas, a produção de
maior capacidade de autog estão da inovação. De fato, na Argentina esse
tipo de atividade atravessou, nos últimos anos, um período relativamen-
te dinâmico. Em alguns casos, sua organização cor reu por conta das
autoridades públicas. Em outros, de associações de colégios, de publi-
cações periódicas de editoras e ou de fundações.
Mais além, contudo, da questão das estratégias para a promoção
da mudança nas instituições, parece também relevante destacar que, por
tendência, as mudanças que se identificam, como resultado de processos
autogestores, costumam ir na mesma direção do modelo institucional e
do tipo de práticas pedagógicas que se sustenta nos novos materiais
curriculares. Nesses esta belecimentos, se fazem pr esentes processos de
eleição, introdução de conteúdos que cor respondem a novas disciplinas
não consideradas nos antigos planos e programas, projetos, aberturas
220
para a vida juvenil nas instituições, e uma nova pedagogia orientada a
ensinar procedimentos, o trabalho em equip eeaformação de valores, e
não somente transmitir inf or mação.
Isto poderia indicar a existência de certo consenso relativo às carac-
terísticas que as instituições educativas deveriam ter para os pré-adoles-
centes e para os adolescentes, entre os responsáveis pelos processos de
elaboração curricular e as instituições capazes de inovar, de forma auto-
gestora. A dificuldade começa quando se pretende instalar, em massa,
essas características. surg em entraves vinculados à representação coleti-
va, no que diz respeito a como deve ser um colégio secundário, com os
recursos disponíveis no conjunto dos sistemas educativos, com os agentes
que têm de intervir, com os interesses e direitos adquiridos pelos profes-
sores e com a pouca capacidade de promover metodologias de mudan-
ças, na escala que têm neste momento as autoridades públicas. Todas essas
dificuldades exercem uma incidência diferente, confor me se trate de criar
ofer ta onde não existe ou de transformar instituições existentes.
País, como o Brasil, onde é muito importante o peso do desafio
de criação de uma nova oferta, prepara-se para prestar atenção muito
especial à questão das representações coletivas, com relação a como
deve ser a oferta para essas idades, uma vez que existe menos obstá-
culos materiais, nor mativos e funcionais par a a criação de um tipo novo
de instituição e de uma nova estrutura com currículo adequado para
enfrentar o século XXI.
Os agentes do processo de mudança da educação secundária
Uma das perguntas-chave para promover os processos de mu-
dança da educação secundária e de criação de nova oferta com caracte-
rísticas diferentes, em lugar onde não existe, é: Quem são os agentes que
devem inter vir? É for a de dúvida que, entre eles, os mestr es e professo-
res ocupam um lugar central.
Comumente, diferentes análises críticas, comprometidas com os
processos de mudança da educação secundária, concluem que os pro-
fessores não intervieram o suficiente nos processos de conce pção da
direção das mudanças e que a relação com as associações foi complexa
(
FERNÁNDEZ, FINOCCHIO & FUMAGALLI, 1999; MANCEBO, 1999).
221
Pode-se for mular a hipótese de que par te das dificuldades, para
um diálog o amigável, está localizada nas car acterísticas de sua for ma-
ção, que os colocam numa situação refratária a modificações estruturais.
Com efeito, por tendência, na América Latina, os professor es da educa-
ção secundária foram for mados de acordo com uma especialização e
um título, com denominação equivalente à matéria que se supunha que
eles teriam de ensinar.
Esse princípio contribuiu para consolidar a fragmentação, pois
cada professor podia ser contratado para a disciplina idêntica à con-
signada em seu título. Por outro lado, em muitos países, a formação de
professores de educação secundária está relacionada com a for mação
de licenciados, isto é, com car reiras longas. Os baixos salários e o crité-
rio de contratação por horas, sem que houvesse disponibilidade para
um trabalho em equipe, criativo e gratificante, não contribuíram para
que se optasse por essas carreiras long as, num ritmo adequado, a fim de
atender às crescentes demandas de expansão da matrícula.
Por outro lado, as mudanças propostas e também a crescente dispo-
nibilidade de novas tecnologias demandam forte reorganização institucio-
nal, que é possível se os professores aceitarem outros critérios de distri-
buição de trabalho, que não sejam o de concessão de horas corresponden-
tes à matéria com denominação igual à de seu título. Isto, por sua vez, impli-
ca sérias necessidades de capacitação, não somente ligadas à a tualização dis-
ciplinar, mas a uma reconversão prof issional que lhes permita utilizar novas
tecnologias, trabalhar em espaços curriculares estranhos, não isomórficos
com sua formação, trabalhar em equipe, encarar os pr ojetos, etc.
Em síntese, para que os professores possam participar de outro
modo na mudança da educação secundária, é preciso encarar decidida-
mente a reconversão de sua for mação e capacitação em serviço. Na
década de 90, Uruguai, Argentina e Chile tomaram iniciativas a esse res-
peito. Várias delas, relatadas em outros textos deste volume, são questi-
onadas. No caso do Ur uguai, criou-se um novo modelo de formação.
O questionamento é que “não responde às tradições”. No da Argentina, in-
vestiram-se somas milionárias numa capacitação por concurso entre as
instituições pr eexistentes. Em muitos casos, os professores denunciaram
seu teoricismo.
Diante dessas situações, surg em inumeráveis perguntas. Por exem-
plo: Por que não se introduzem, em massa, as novas tecnologias nem
222
metodologias pedagógicas alter nativas, na for mação e capacitação de
professores? A esse respeito, o que está acontecendo com as universida-
des? Para produzir um novo tipo de educação para os adolescentes e
para os jovens, é preciso incluir todos os professores na aprendizagem
de estratégias de gestão? Como elaborar realmente uma estratégia, a fim
de modificar a velha idéia de que o professor está para ensinar algo, e
não para for mar alguém?
Por outr o lado, a revisão dos processos de mudança deixa claro
que, em distintas dimensões e níveis da mudança, participam também
outros agentes muito diversos. Nos aspectos vinculados à estrutura, os
professores inter vêm fortemente, porque esses aspectos afetam sua si-
tuação trabalhista, porém, também os dirigentes e as forças vivas das
cidades e povoados onde se pode criar a oferta.
Nos aspectos vinculados ao currículo e à execução de projetos,
que abordam aspectos tradicionalmente conflituosos, tais como a edu-
cação sexual, inter vêm as ig rejas, em especial a Ig reja Ca tólica. Na cons-
tr ução de opinião, em relação a todas essas questões, os jornalistas par-
ticipam. Esses a gentes contam com informação suficiente? Sabem utili-
zá-la? Quando não intervêm, são convocados pelo sistema educativo, a
fim de incorporá-los às conversações e contribuir para enriquecer a pers-
pectiva dos professores?
Por último, está claro que um processo da envergadura, comple-
xidade e heterogeneidade que tem a mudança da educação secundária
requer recursos e deve ser assumido como um desafio público por par-
te do Estado. Quem é, porém, o Estado? Quais de seus níveis devem
inter vir na promoção da mudança da educação secundária, e como?
Suas instituições e funcionários estão em condições de liderar um pro-
cesso com tais características? No caso de não estarem, quem poderia
fazê-lo ou que seria exigido para colocar-se à altura do desafio?
Os recursos financeiros para a mudança da educação secundária
As tendências ao aumento da demanda de mais anos de escolari-
dade por parte da população implicam também uma pesada exigência
de recursos a fim de financiar essa demanda. O percentual mencionado
no começo deste texto, de que em 1991 a escolarização na educação
223
secundária na América Latina havia alcançado 52,4% da população da
idade correspondente, pode ser visto como uma vantagem, porém deve
ser inter pretado também como um desafio. Quase quatro em cada dez
jovens, naquele momento, ainda não faziam parte da educação secundá-
ria. Além disso, levando em conta o cr escimento demog ráfico da popu-
lação e o fato de que, n uma elevada proporção das instituições educati-
vas, os jovens têm quatro horas diárias de escolarização, não é difícil
perceber o enor me esforço econômico e financeiro que significa, sim-
plesmente, acolher a todos aqueles que procurarão mais educação, na ida-
de da adolescência e da juventude e, além disso, elevar o tempo de es-
colarização a padrões comparáveis com o dos países europeus ou asiáticos.
Pode-se propor, sem cor rer riscos demasiados que, se não se mo-
dificam decididamente os critérios de organização curricular e instituci-
onal, nos próximos anos será necessário duplicar o montante dos recur-
sos destinados a atender aos adolescentes e aos jovens, e isso sem pensar
em nenhum aumento dos salários docentes.
Diante dessa situação, surg em várias alter nativas. A primeir a é elu-
dir o problema da insuficiência dos recursos disponíveis para financiar a
expansão. Para tanto, diferentes estratégias. Uma delas é faz er vistas
g rossas à questão e continuar avançando exclusivamente na f or mulação
de políticas de estrutur a, cur rículo e promoção da inovação. É o cami-
nho que se costuma seguir, a par tir de dentro do setor. Outra estratégia
para evitar o problema da insuficiência dos fundos, a fim de financiar a
expansão da educação secundária, consiste em concentrar a energia na
busca de mecanismos de destinação e distribuição dos recursos sem
considerar a questão de seu volume.
Nesta opção, dá-se ênfase à possibilidade de instalar dispositivos
de financiamento à demanda, em particular, os vouchers ou cheques
educativos. O pressuposto desta proposta é que os recursos não são
suficientes, porque são g astos mal, e não por seu baixo montante. Afir ma-
se que, se o dinheiro fosse dado diretamente aos usuários, e não às
instituições, renderia muito mais. Não se comparam, por exemplo, os
custos eventuais por “má administração” com os custos de administração
dos vouchers nem com as economias que se poderiam produzir, por meio
de uma reorg anização racional dos serviços, que suprima as viagens dos
professores contratados por hora, para ir de um estabelecimento a outro,
ou com as vantagens que um novo modelo institucional teria, que facilitasse
224
a concentração dos professores em um ou dois estabelecimentos para seu
bem-estar, com o conseqüente resultado de uma redução de gastos
destinados a cobrir licenças em casos de ausências por doença.
A segunda maneira de enfrentar a questão da necessidade de du-
plicar o montante dos recursos, para atender à demanda por educação
secundária, é estabelecer que a educação dos jovens não tem que ser
gratuita, e propor que as famílias que podem, paguem-na, e as que não
podem, fiquem fora ou obtenham, elas sim, for mas de apoio ou vagas
g ratuitas. Diante dessa proposta, surge a pergunta acerca de se é possível
manter o caráter público, de compromisso coletivo com o futuro, numa
educação paga. Em princípio, pode parecer que, em toda a América
Latina, se aceita a coexistência da educação de gestão estatal gratuita e
de gestão privada pag a pelas f amílias ou subvencionada pelo Estado.
Aceita-se também a idéia de que todas podem fazer parte de um pro-
cesso de constr ução de uma educação de caráter público.
O problema não está aí. O problema está em que se encontram
no sistema educativo aqueles que podem pagar pela educação para pré-
adolescentes e jovens. Por isso, um per centual expressivo de educa-
ção secundária privada, não subvencionada pelo Estado. O problema
está em que aqueles que lutam para ingressar ou para continuar mais
anos na educação secundária pertencem aos setores que não parecem
poder agregar recursos privados para financiar a expansão educativa.
A questão não parece ser, apenas, de gestão nem de origem dos
recursos, mas, realmente, de disponibilidade. Diante disso: Pode redis-
tribuir recursos de outras finalidades para essa expansão? De quais? A
introdução de novas tecnologias, do rádio e da televisão, pode contri-
buir para gerar modelos menos onerosos, mas que garantam, ao mes-
mo tempo, a imprescindível interação pedagógica pessoaleaafiliação
institucional? Por que, da mesma for ma que no caso da capacitação
docente, até agora se avançou tão pouco nessa direção?
A necessidade de institucionalizar mecanismos para a
mudança permanente
A combinação da demanda de oportunidades de educação secundá-
ria e das que derivam das propostas de reforma dessa educação está sendo
225
tecnicamente atendida, em geral, por equipes ad hoc de caráter transitório,
financiadas por recursos pr ocedentes de empréstimos internacionais.
Os processos de deterioração institucional, que foram vividos na
América Latina, atentaram contra a conservação e a moder nização de
espaços de programação e planejamento nos ministérios de Educação
latino-americanos.
A demanda em massa de oportunidades de educação secundária
e da disponibilidade de recursos para investimentos exige a tomada de
decisões rápidas: Onde criar as novas instalações? Quem deve adminis-
trar os fundos, e como? Como se deve decidir e adquirir o novo equi-
pamento didático, incluído o informático? Se o currículo novo é f lexível
e cada esta belecimento pode armar seu próprio projeto, com que crité-
rio, por antecipação, as obras devem ser constr uídas? Em todo caso,
como compatibilizar eficiência com pertinência comunitária nos pro-
cessos de edificação?
As respostas que vão sendo encontradas são extremamente diver-
sas. Entre as inovadoras para a região, citam-se as se guintes: i) no Pampa
e em outras províncias argentinas, a identificação dos lugares para criar
novos estabelecimentos se realiza com os dirigentes e outras forças vi-
vas; ii) em muitos casos da Argentina e do Chile, a administração de
fundos para investimentos delega-se às comunidades educativas; iii) em
vários estados do Brasil, os diretores de estabelecimentos educativos,
eleitos pelos Conselhos Escolares, têm uma intervenção decisiva nessa
administração, iv) no Chile, os estabelecimentos podem escolher que
livros comprar para suas bibliotecas profissionais, entre os registrados
num catálog o, enquanto que na Argentina ainda são comprados de for-
ma centralizada pelo governo nacional; v) no Uruguai, foram elabora-
dos planos-modelo para a construção de instituições de ensino médio
que, embora limitem espaços de autonomia, garantem rapidez e eficiên-
cia na administração dos recursos.
foi dito que em muitos casos a reinvenção da educação secun-
dária esteve a cargo de equipes financiadas com recursos provenientes
de empréstimos inter nacionais, a cur to prazo, a administrações provin-
ciais e nacionais. De algum modo, pode-se af irmar que se atuou como
se existisse uma emergência educativa, que exigia também uma estraté-
gia de emergência. Diante dessa situação, os países ou províncias, em
226
que o processo de reinvenção está mais avançado, começam a visualizar
dois novos problemas: conseguir que os produtos curriculares e os no-
vos modelos institucionais se introduzam em todas as instituições edu-
cativas, e institucionalizar a capacidade inovadora.
Reduzir a capacidade de matérias ou de espaços curriculares im-
plica, por e xemplo, transfor mar as plantas funcionais dos esta beleci-
mentos educativos. Por sua vez, isso envolve professores que tr abalham
em mais de uma instituição. Em conseqüência, não possibilidade de
produzir realmente o que os currículos pedem, se não se planeja de
for ma estratégica a mudança com par ticipação de todos os interessados
e, ao mesmo tempo, utilizando e acumulando experiência prof issional.
Em vários casos, existe o temor de que, terminada a implementa-
ção das novas propostas, se desmontem as precárias equipes que as pro-
moveram, os produtos se cristalizem e, dentro de dez anos, se esteja
novamente numa situação de atraso em relação às necessidades e sem
que acertos e erros tenham sido identificados por meio de processos de
avaliação, investigação e acompanhamento. Em face disso, começa-se a
colocar a questão da institucionalização de mecanismos de investigação
e inovação per manentes.
Por conse guinte, coloca-se a urgente necessidade de continuar re-
f letindo, de maneir a mais sistemática, sobre as estratégias que estão sen-
do empreg adas a fim de atender às demandas de expansão, e a impor-
tância de introduzir mecanismos de inovação per manente para a pro-
moção da mudança e a melhoria da educação secundária, que sejam
diferentes dos que se empregaram para inventar os novos modelos pos-
síveis. Nesse sentido, par ece, além disso, relevante refletir sobre a relação
entre a gestão da mudança e sua relação com os recentemente criados
ou reforçados sistemas de informação e de avaliação de resultados de
aprendizag em, por par te dos estudantes.
OS CONFLITOS DAS MUDANÇAS
A expansão e a mudança da educação secundária na América La-
tina geram múltiplos conflitos que também diferem de um país para
outro; alguns deles foram antecipados ao longo deste texto. Outros,
227
não. Tais conflitos podem ser org anizados em três gr andes g r upos: i)
mais vinculados às tensões entre educação dos jovens e modelos de
desenvolvimento; ii) mais vinculados às novas visões relativas à educa-
ção dos jovens e às tradições da educação secundária; e iii) mais vincula-
dos à org anização do aparato institucional público e com suas formas
de promover as mudanças na educação secundária.
Entre os conflitos mais relacionados com as tensões entre a edu-
cação dos jovens e os modelos de desenvolvimento, as mais habituais se
apresentam: i) entre a necessidade de organizar espaços de inserção e
aprendizagem para os jovens e as limitações dos orçamentos destinados
à educação e, especialmente, à educação para os jovens; ii) entre a certe-
za de um mundo de atividades mutáveis que exige preparação poliva-
lente e as necessidades imediatas de f or mação para desempenhar ofíci-
os nas economia atual, formal e infor mal; iii) entre os conteúdos reque-
ridos pela globalização e pela abertura, como o inglês e outros, deman-
dados pela reivindicação da diversidade e da identidade dos povos na-
tivos, como suas línguas próprias, por exemplo, na Bolívia e na Guate-
mala; e iv) entre o reconhecimento da necessidade de transfor mar as
escolas secundárias em verdadeiras escolas para jovens, e o medo dos
jovens que está sendo instalado em muitas sociedades.
Os professores e os antigos modelos pedagógicos encontram-se
no eixo dos conflitos mais relacionados com as tensões entre as novas
visões referentes à educação dos jovens e às tradições da educação se-
cundária, por exemplo: i) entre a necessidade de transfor mar a estr utura
de níveis e modalidades e a organização em disciplinas dos colégios
secundários; ii) entre a convicção e o desejo de mudar dos professores e
seu temor de perder os direitos trabalhistas adquiridos no modelo de
tendências de médio e longo prazo que, em períodos recentes, suporta-
ram fases em que experimentaram retrações de seus rendimentos reais;
iii) entre as propostas de conteúdos e metodologias quase sempre acei-
tas por sua fertilidade para formar necessidades básicas de aprendiza-
gem e os saberes de que dispõem esses mesmos professores, que acham
as propostas atraentes, porém reconhecem que “não sabem como fa-
zer”; e iv) entre as demandas e os investimentos crescentes em capacita-
ção e formação de professores e a utilização de metodologias pedagó-
gicas repetitivas e atrasadas.
228
Por último, existe uma série de tensões relacionadas com a neces-
sidade de liberar a criatividade pedagógica das instituições educativas,
das comunidades e do professorado, for talecendo ao mesmo tempo a
capacidade de orientação e promoção dos Estados nacionais. Com efeito,
a análise das reformas educativas fiscalistas da década de 80 e dos pri-
meiros anos da de 90, em vários países da região, mostrou que, ao se
buscar qualidade e eqüidade educativas, não é possível desmontar os
antigos aparatos burocráticos dos ministérios de Educação, sem mon-
tar, ao mesmo tempo, novas e diferentes instâncias institucionais para
orientar a refor ma dos sistemas educativos, a inovação institucional e
promover essa criatividade.
Nesse sentido, é necessário encontrar novas for mas institucionais
de condução pública da educação, sem constr uir modalidades pirami-
dais, hierárquicas e autoritárias que asfixiem a criatividade das institui-
ções educativas, as comunidadeseoprofessorado. As refor mas, que
estão sendo levadas adiante, promovem-se utilizando, às vezes, velhas
estruturas dinamizadas por lideranças pessoais muito poderosas, pro-
gramas de investimentos de curto prazo ou estruturas institucionais tran-
sitórias. Não é desejável voltar aos pesados aparatos burocráticos e ro-
tineiros do passado, porém, tampouco continuar com uma instituciona-
lidade tão precária.
REFLEXÕES FINAIS
É evidente que a questão da atenção às necessidades educativas
dos adolescentes e dos jovens será um dos temas prioritários da agen-
da educativa das primeiras décadas do século XXI. Também é eviden-
te que essa agenda tem três dimensões diferenciadas e ao mesmo tem-
po ar ticuladas. A primeira está associada à necessidade de reinventar as
for mas educativas que tradicionalmente eram oferecidas à população
dessas idades; a segunda, com a necessidade de transfor mar as institui-
ções que hoje existem e estão atendendo a algo mais da metade dos
adolescentes e dos jovens, de idade correspondente em todo o conti-
nente e, a terceira, com a criação de mais oportunidades institucionais
para incorporar todos eles.
229
O peso que adquirem essas três dimensões nos diferentes países é
muito distinto, mas, em todo caso, parece que, independentemente des-
se peso das diferenças para dar respostas aos problemas que se apresen-
tam nelas e em todos os países, não existem recursos suficientes na re-
gião. No contexto das tendências economicistas de nosso tempo, segu-
ramente é difícil evitar a tentação de pensar que a principal carência são
os recursos financeiros. Na realidade, porém, o górdio não está e x-
clusivamente na dimensão de busca de recursos econômicos e financei-
ros, mas num horizonte mais amplo, ou seja, como fazer para ger ar
nessas sociedades a capacidade de inventar soluções a fim de incorporar
os adolescentes e os jovens em algum circuito institucional que facilite
seu desenvolvimento pessoal. Por ora, na maioria dos casos, eles
podem chegar a ter um espaço em instituições inadequadas, envelheci-
das e desprestigiadas, que nem sequer estão disponíveis para todos e às
quais concorrem de todos os modos, porque não têm outro lugar me-
lhor para procurar. A violência e o abandono escolar não são de forma
alguma alheios a essa realidade.
Ao mesmo tempo, a América Latina está sendo transfor mada
num verdadeiro laboratório de reflexão acerca da educação secundária
e do seu destino que pode redundar em seu progressivo desapareci-
mento, como espaço formativo, criado para dar resposta à sociedade
industrial moderna do final do século XIX europeu e adequado às suas
transições da primeira metade do século XX. Essa educação secundária
foi adotada por uma América Latina que sempre olhou em direção à
Europa e, ocasionalmente, aos Estados Unidos, a fim de traçar suas
próprias for mas educativas e que a g ora exige combinar de modo dife-
rente o olhar para fora com a reflexão sobre si mesma.
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na y Comunicación. Prog rama de estudio primer año médio. 1998b.
REPÚBLICA ORIENTAL DEL URUGAY. Administración Nacional
de Educación Pública. Programas ciclo básico educación media primer
año. Plan 1996/1999.
REPÚBLICA ORIENTAL DEL URUGAY. Administración Nacional
de Educación Pública. Programas ciclo básico educación media tercer
año. Plan 1996/1999.
235
*
Cristián Cox é Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Londres. Trabalhou em pesquisa
em temas de política educacional escolar e universitária na Faculdade Latino-Americana
de Ciências Sociais (FLACSO-Santiago) e no Centro de Investigação e Desenvolvimento
da Educação (CIDE-Santiago). Atualmente é chefe da Unidade de Currículo e Avaliação
de Educação do Chile, onde dirigiu, na década de 1990, o Programa de Melhoria da
Qualidade e Eqüidade da Educação (MECE). Foi consultor do Banco Mundial e do Banco
Interamericano de Desenvolvimento.
6.
POLÍTICAS EDUCACIONAIS E PROCESSOS DE
MUDANÇA NA EDUCAÇÃO MÉDIA DO CHILE,
NOS ANOS NOVENTA
Cristián Cox*
INTRODUÇÃO
Durante a década de 1990, a educação secundária do Chile, junto
com a manutenção de uma dinâmica de crescimento de sua cobertura,
que def ine sua evolução no último quar to de século, experimentou mu-
danças importantes em três âmbitos: o da distribuição de sua matrícula
entre a modalidade geral e a profissionalizante, onde esta última experi-
menta um crescimento substantivo; o de sua organização e conteúdos
curriculares, que as políticas governamentais buscam adaptar aos requi-
sitos formativos do século XXI, elevando padrões e, contra as expecta-
tivas da demanda social, enfatizando a formação geral; e nas caracterís-
ticas de seus contextos de aprendizag em, que são melhorados de forma
visível, tanto ma terialmente como em termos de processos, através de
um programa integral de melhoria que tem cobertura universal.
236
Enquanto a continuidade da expansão da cobertura e a mudança
no peso da modalidade técnico-profissional podem ser consideradas
como processos prioritariamente ligados à demanda por educação e a
lutas de concorrência, segundo Bourdieu (1979), dentro de uma dinâmi-
ca de aumento geral do capital educacional da sociedade, as outras mu-
danças são efeitos dir etos das políticas públicas do período. A evolução
do sistema secundário, em seu conjunto, é inse parável, por sua vez, de
um contexto sociopolítico favorável que, em termos consensuais, defi-
ne a educação como o fator estratégico para o projeto de uma socieda-
de desenvolvida e integrada, o que se manifesta em recursos e vontade
política par a investir na melhoria e refor ma do setor, ao long o dos dois
períodos governamentais que abrangem a década.
No marco acima configurado, de riqueza e consistência em inici-
ativas de política e complexidade do entrelaçamento destas com os pro-
cessos de caráter social, vinculados à demanda, este trabalho procura
oferecer uma descrição e análise dos traços estruturais e processos de
mudança mais importantes da educação média do Chile, na última dé-
cada do século XX.
O trabalho está organizado em seis seções. Na primeira, são
abordados o contexto e as características de elaboração das políticas
educacionais da década primeiro fator de transfor mação do perío-
do. A segunda trata da evolução da matrícula e de sua distribuição
entre as modalidades de educação média, bem como de suas relações
com outros níveis do sistema educacional. As três seções seguintes
descrevem as políticas de melhoria e refor ma de que é objeto o nível,
a partir de 1995. Uma seção de encerramento oferece evidências so-
bre resultados e esboça uma visão avaliadora e prospectiva do con-
junto da evolução examinada.
1. CONTEXTO, DIAGNÓSTICO, ESTRATÉGIA
O fim do governo militar, em 1990, e de duas décadas de conflito
irredutível sobre o projeto de país significam para o setor educacional
que as questões sobre o que repassar, culturalmente, para a nova geração
e como educar sua inteligência e vontade passam a ocupar o centro das
preocupações da política, tanto na sociedade como no sistema
237
educacional. Elas se articulam no marco de uma extensa consciência de
que a sociedade do futuro globalizada e dinamizada pela expansão e
centralidade crescente do uso da infor mação e do conhecimento coloca
ao sistema educacional exigências de for mação diferenciada. Das
respostas desse sistema dependem, além disso, a competitividade do
país e suas possibilidades de desenvolvimento, integ ração social e
crescimento da cidadania.
Por razões próprias da história política r ecente do Chil e e o con-
texto de transição para a democracia, bem como por razões mais uni-
versais relacionadas com o processo de modernização e o papel estraté-
gico que desempenham o conhecimento e os recursos humanos capazes
de utilizá-lo, no início da década, existe um sentimento tanto político
como cultural que cruza os limites entre g overno e oposição, na ur gência
de se efetuar um esforço integral de melhoria do sistema educacional. O
clima de acordos, imperante no começo da transição sobre o projeto de
paíseopapeldaeducação para o seu êxito, torna possível, pela primei-
ra vez, em duas décadas, uma relação do sistema político com a educa-
ção, em ter mos nacionais
1
.
Deve-se acrescentar, ao que se disse sobre a existência de consen-
so para se investir e agir em educação, uma conjunção de fatores favo-
ráveis à mudança: vontade política do Poder Executivo, que torna a
educação, ao longo de dois períodos g over namentais, sua prioridade
máxima; disponibilidade de recursos financeiros para investir e conti-
nuidade das políticas.
O guia de orientação do esforço, no seu conjunto, é a provisão de
uma educação escolar de alta qualidade para todos, onde “alta qualida-
de” significa concluintes de cursos com maiores capacidades de abstra-
ção, de pensar em sistemas, de comunicar e trabalhar em equipe, de
1
O acima mencionado foi concretizado em 1994, na convocação presidencial de
uma comissão de alto nível, política, institucional e disciplinarmente plural, que
especificou acordos fundamentais sobre objetivos e prioridades a respeito da
educação. Seu relatório definiu a refor ma da educação média como uma das quatro
grandes prioridades (Comissão Nacional para a Modernização da Educação, 1995).
A prioridade da execução na estratégia governamental foi fixada em uma exposição
ao país feita pelo ministro da Fazenda, Discurso sobre prioridades gubernamentales,29
de agosto de 1994.
238
aprender a aprender, de julgar e discer nir moralmente, de forma con-
sentânea com a complexidade do mundo no qual haverão de se inserir.
As mudanças realizadas pelas políticas dos anos 90 são desenvol-
vidas numa matriz institucional descentralizada, na qual operam meca-
nismos de financiamento competitivos, instaurados no início da década
de 80, em vez de serem os mecanismos próprios de um centro capaz de
elaborar e executar programas integrais de melhoria da qualidade e eqüi-
dade da educação, que define e implementa políticas compensatórias
com critérios de igualdade, e que deter mina um marco curricular nacio-
nal. A política educacional do Chile, nesta década, estabeleceu novas
combinações entre princípios estatais e de mercado, na r egulação do
setor, no marco de um esforço consistente e sem precedentes quanto à
magnitude dos recursos envolvidos, para mudar a qualidade de sua oferta
educacional e a eqüidade da distrib uição social de seus resultados.
As políticas educacionais da década de 90 são concebidas e im-
plementadas num quadro de pensamento que se distancia tanto do pas-
sado remoto dos sistemas centralizados e de políticas, cujo problema
crítico a ser resolvido foi o da cobertura, como o da combinação de
privatização e descentralização que, no Chile, caracterizou as políticas
dos anos 80. Tais políticas são inse paráveis de um novo marco de idéias
sobre as formas institucionais de financiamento e de gestão dos sistemas
educacionais. Este marco combina critérios de descentr alização e com-
petição por recursos, com critérios de discriminação positiva e de ação
proativa do Estado, através de prog ramas de melhoria da qualidade e
eqüidade da educação, a introdução de novos instr umentos de informa-
ção e avaliação pública de programas e de instituições e a abertura de
escolas e liceus a “r edes de apoio” externo, especialmente de universida-
des e empresas (
COX & LEMAITRE, 1999).
Pesquisa e Par ticipação na For mulação de Políticas
No final da década de 80, não a educação básica, como tam-
bém a superior, ocupava uma alta posição na agenda da política educa-
cional. Por mais de uma década, foram r ealizadas pesquisas e discussão
acadêmica e política sobre as mudanças requeridas em ambos os níveis,
239
ao iniciar a transição democrática. O nível secundário, pelo contrário,
de modo similar a outros países da re gião, estava numa “zona cinz en-
ta” da pesquisa e das políticas (CALVO, 1997). A maior de suas transfor-
mações, nos últimos vinte anos a massificação ocorreu à margem
das decisões políticas e sem que o campo da pesquisa a tivesse obser-
vado nem tematizado
2
.
Diante da inexistência de uma base analítica que orientasse a me-
lhoriaeatransfor mação de um nível que se julg ou precocemente como
chave, o governo optou por um duplo processo: de geração de co-
nhecimento para a definição de políticas, bem como consulta e parti-
cipação para a geração de acordos e apoio às mudanças que seriam
implementadas. O esforço de pesquisa foi centrado em seis áreas pro-
blemáticas: exigências sociais quanto a esse nível; currículo e estrutura
da educação média, com particular ênfase na história de produção
curricular para esse nível, no Chile, e a experiência comparada interna-
cional recente de refor mas de cur rículos secundários; práticas pedagó-
gicas; avaliação dos resultados de aprendizagem, eficiência desse nível
e for mação dos professores. Treze estudos foram licitados publica-
mente, tendo postulado, para sua realização, os principais centros de
pesquisa educacional do país.
2
O governo militar (1973-1990), contra o que estava ocor rendo, de fato, do lado da
demanda, definiu, em fins da década de 70, que a educação média não seria massiva.
A “Diretiva Presidencial em torno da educação nacional” (1979) afirmou que, al-
cançar o nível médio de educação constituía uma situação excepcional”. O Estado
não promoveria o aumento de sua cobertura e concentraria seus esforços no dever
constitucional de assegurar a educação básica universal e gratuita. Contudo, o esque-
ma de financiamento da educação chilena, instaurado em 1981, através do pagamen-
to de uma subvenção por aluno, lig ou as dinâmicas de crescimento da matrícula às
opções da demanda, e esta fez passar a cobertura da educação média de 65% para
77%, na década de 80.
No campo da pesquisa, um trabalho do ano de 1989 constatava “a falta de atendi-
mento público e de especialistas sobre ela [a educação média] tem muito a ver com
a sensação de abandono, fr ustração e crise de sentido que permeia par te importante
deste nível do sistema educacional”. O mesmo artigo menciona que, na década, eram
contabilizados apenas quatro trabalhos de campo em termos de pesquisa socioedu-
cativa chilena sobre educação secundária (CARIOLA & COX , 1989).
240
Os resultados obtidos no decurso de um ano e meio de traba-
lho transfor maram, de for ma decisiva, o nível médio e a precisão do
diagnóstico acerca dos problemas, assim como a profundidade e exaus-
tão da visão prospectiva sobre o setor
3
.
Unido ao esforço de pesquisa, realizou-se um amplo processo de
consulta e discussão sobre os dilemas decisivos do desenvolvimento do
nível médio, do qual par ticiparam gr upos de trabalho ad hoc de cada
estabelecimento, constituídos por professores, alunos, pais e membros
da comunidade. Para isso, preparou-se um material de base e um guia
metodológico que foram distribuídos por todo o país
4
. O tema funda-
mental, em termos de refor ma, er a o da estr utur a da educação média,
que o documento discutido se r eferia maciçamente da seguinte for ma:
O grande dilema de política, a respeito da estrutura da educação média,
refere-se à alternativa de se diferenciar ou não entre uma ramificação de
educação geral e uma profissionalizante (ou técnica),eàdeseestabelecer
uma diferenciação: em que idade ou grau fazê-lo (MINISTERIO DE
EDUCACIÓN, 1993).
Como se verá, na seção dedicada à reforma cur ricular, esta incluiu
que, cinco anos mais tarde, o processo participativo referido seria subme-
tido a uma nova consulta a todo o magistério do nível médio, a par tir de
uma proposta acabada de um novo marco curricular; a proposta foi mo-
dificada, de maneira significativa, como resultado da consulta.
As políticas da década de 90 para a educação média começam
com um esforço maior de produção de conhecimento e reflexão social
3
Cinco das pesquisas foram publicadas pelo Ministério de Educação (CARIOLA et al., 1994;
EDWARDS et al., 1995; ERRÁZURIZ et al., 1994; SALAS & GAYMEr, 1995; OTEIZA et al., 1994).
4
Participaram mais de trinta mil pessoas organizadas em 2.043 grupos de discussão
(no ano de 1992, havia aproximadamente 1.600 estabelecimentos escolares de nível
médio no Chile). Suas opiniões foram reunidas em 2.905 relatórios recebidos e
processados pelo Ministério de Educação, que publicou um documento com os
resultados; esse documento foi distribuído a todos os estabelecimentos de nível
médio do país. Ver : MINISTERIO DE EDUCACIÓN, 1993.
241
sobre a mesma, seguido por um período prolongado de discussão
política, dentro do g overno, sobre as mudanças requeridas e a estratégia
a se guir. O conjunto do processo abrangeu os anos 1991 a 1994 e se
constituiu, como resultado, em uma base analítica consistente e
compartilhada, muito além dos quadros governamentais, sobre a
educação média, que o país tinha e a que necessitava.
Diagnóstico da Educação Média no Início da Década
Os problemas fundamentais da educação média do Chile, no
início dos anos 90, eram seu anacr onismo, sua qualidade deficiente e
sua iniqüidade.
O primeiro termo significa o atraso com relação à sua socieda-
de: for mas institucionais e cur riculares, que tinham sido adequadas para
um sistema que atendia 15% do grupo de idade, três décadas atrás,
numa sociedade de infor mação escassa, crescimento e mudanças len-
tas, eram manifestamente disfuncionais, num contexto de presença
massiva de jovens em suas salas de aula e uma sociedade repleta de
infor mação, submetida à tensão de processos de crescimento e mu-
danças aceleradas.
O atraso da educação média se manifestava, com particular niti-
dez, na relação com o currículo, onde predominava uma orientação
global e formas próprias de um enciclopedismo, que tinha sido funci-
onal quando o sistema contava com uma matrícula reduzida e alunos
com maior capital cultural, mas que se tinha tornado trivial e tinha
perdido sentido, ao oferecê-lo a uma matrícula massiva, mais da me-
tade da qual corresponderia à primeira geração em educação secundá-
ria. Para uma proporção majoritária dos alunos, o que a educação
média humanista-científ ica propunha, como estudo, não tinha signif i-
cado nem valor par a suas vidas. Quanto à educação técnico-prof issio-
nal, vista pelos alunos e suas famílias como mais relevante e direta-
mente conectada com saídas ocupacionais específicas, contava com
uma maioria de programas desatualizados e distantes das práticas reais
do mer cado de trabalho e com carências sérias em ter mos do êxito de
competências próprias de uma for mação geral de qualidade.
242
No outro plano, o anacronismo se manifestava na falta de dife-
renciação da educação média: rigidez e simplicidade estrutural que im-
pediam uma resposta às múltiplas trajetórias para as quais deveria pre-
parar, concorde com a diversidade de interesses e aptidões da socie-
dade e suas demandas for mativas.
No âmbito pedagógico e avaliativo, as práticas predominantes
tendiam à redução e fragmentação do conhecimento e a favorecer
uma relação passiva com este, demandando dos alunos a reprodução
memorística dos conteúdos. Os estudos do diagnóstico re velaram a
existência generalizada de estratégias do ditado e avaliações que solici-
tavam a repetição textual de conteúdos
5
; traços de infantilização dos
alunos e também de discriminação, em ter mos raciais e de gênero.
Ademais, independente do tipo de instituições, a educação média, pre-
dominantemente, tratava os jovens apenas na sua condição de alunos,
homogeneizando-os e não respondendo a dimensões decisivas de seus
interesses, cultur a e identidade como jovens.
A conclusão mais abrangente e profunda do diagnóstico, nesta
dimensão, aponta que a experiência escolar na educação média, no
início dos anos 90, estava marcada por um estilo de relação (tanto da
gestão diretiva para com os professores, bem como entre ele se–de
for ma cr ucial dos professor es para com os alunos), que não abria
espaço nem ensinava a relacionar-se de for ma ativa e criativa com o
próprio ofício.
No âmbito dos resultados de aprendizagem, a aplicação de uma
bateria de provas a uma amostra de estudantes da 1
a
,2
a
e4
a
série do
ensino médio, no ano de 1992, revelou uma situação de séria precari-
edade: o percentual de respostas corretas era baixo e, em muitos ca-
sos, tendia a decrescer na medida em que se avançava nos cursos
6
.
5
Em menos de 3% da amostra de provas de Espanhol, estudadas no marco de uma das
pesquisas encomendadas pelo programa MECE do Ministério de Educação, encon-
trou-se uma pergunta que exigia uma produção original dos alunos (TRUFELLO, Irene
et al, 1993).
6
HIMMEL, Érika et al. Determinación de la calidad de la educación media chilena, 1993. O
estudo foi aplicado a uma amostra representativa de 6000 estudantes, de 138 colé-
gios das duas modalidades e das diferentes dependências, em cinco regiões, além da
metropolitana.
243
Em ter mos de eqüidade no acesso, existia, em 1990, uma dif e-
rença de mais de vinte pontos percentuais entre o primeiro e o quinto
quintil de ing ressos. Em ter mos de evasão e velocidade de conclusão,
no ano de 1992, cerca de 91% dos alunos dos estabelecimentos pagos
chegavam ao 4
o
ano médio e 88% concluíam, enquanto que, nos colé-
gios municipais, 67% chegavam à 4
a
série do ensino médio e 59%
concluíam. Em ter mos de resultados de aprendizag em, em 1993, as
diferenças por nível socioeconômico dos estabelecimentos chegavam
a ser de 30 pontos percentuais entre os de nível socioeconômico bai-
xo, de cidades pequenas, e os de nível socioeconômico alto da capi-
tal
7
. Em se tratando de eficiência interna, o problema principal era o
da evasão que, para o período 1985-1992, dependendo das hipóteses
e metodologias de cálculo, variava entre 8% e 12% ao ano, o que, em
ter mos agreg ados, implicava que cerca de um terço dos que ingressa-
vam nesse nível de ensino, não o concluíam
8
.
A situação descrita de problemas e desafios
9
tinha como con-
trapartida um quadro de pontos fortes, lugar de partida da agenda de
melhoria e refor ma da educação secundária. Entre esses se destaca-
vam: o nível de cobertura alcançado e a solidez institucional de um
sistema sustentado por um corpo de professores que, em mais de 90%,
tinha uma for mação universitária de quatro ou cinco anos; a alta valo-
ração social desta, tanto pelos pais como pelos jovens, como veículo
essencial para emergir e sair da pobreza; a valorização, por par te dos
alunos em especial dos de menores recursos de seus professores; a
existência de um conjunto importante de experiências de inovação cur-
ricular e de vinculação com o meio exter no, sobretudo na modalidade
técnico-profissional (
MINISTERIO DE EDUCACIÓN , 1997).
7
Todos os dados encontram-se no documento matriz do Programa de Melhoria da Quali-
dade e Eqüidade da Educação Média (MECE-EM), Programa de Modernización de la
Educación Media. Fundamento, Estrategia, Componentes. Setembro de 1994.
8
Ibid.
9
A enumeração de problemas não pretende ser exaustiva. Foram deixados de fora os
problemas de gestão que, sendo centrais, não eram específicos do nível secundário.
244
Complementariedade entr e Políticas de Melhoria e de Reforma
A intervenção sistêmica sobre a educação média, que as políticas dos
anos 90 realizam, combina programas de melhoria, dirigidos aos proble-
mas de qualidade e eqüidade, com uma reforma que tenta a adequação do
currículo e seu marco temporal à mudança global da sociedade chilena. A
estratégia ar ticula ambas as dimensões no tempo, de modo a abordar a
agenda de reformas, uma vez que se instalaram, nas instituições, as bases
de melhorias de funcionamento (
COX & GONZÁLEZ , 1998). Aqui reside uma
importante especificidade do processo de mudança da educação média no
Chile: a reforma de seu currículoearesposta aos dilemas de sua organiza-
ção estrutural currículo comum ou especializado, através de tipos deter-
minados de formas institucionais foram abor dados depois de verifica-
do o impacto sobre cada um de seus contextos de aprendizagem, com uma
intervenção que modernizou, de forma substancial e com cobertura univer-
sal, a materialidade desses e foi efetiva para iniciar dinâmicas de mudança,
de cobertura e profundidade variáveis, de acordo com as instituições e con-
textos, nas relações de gestão, de ensino e aprendizagem.
Também é impor tante ter presente que as políticas especificamente
dirigidas ao nível médio começam a produzir o devido impacto em mea-
dos da década, quando se início gradual (em 1995) ao programa de
Melhoria da Qualidade e Eqüidade da Educação Média (MECE-Media),
que alcança cobertura universal apenas em 1997. A reforma curricular pro-
duz impacto no primeiro grupo de alunos em março de 1999 (1
a
série do
ensino médio) e alcançará o conjunto das séries da educação média quando
a geração mencionada obtiver sua conclusão, no ano 2002.
Duas dimensões gerais da política educacional da primeira meta-
de da década e xerceram, contudo, for te efeito sobre a educação média:
o aumento do financiamento por aluno (em 1994 era quase o dobro do
que em 1990 (Quadro 1), para o qual contribui o financiamento público
e também o privado, através de uma mudança leg al (1993), que per mi-
tiu contribuições dos pais (financiamento compartilhado), e a decreta-
ção de um Estatuto Docente (1991 e 1995), que significou segurança no
empreg o, aumentos salariais substantivos par a o conjunto da profissão
docente e o estabelecimento de incentivos monetários para o desempe-
nho de equipes docentes.
245
2. MATRÍCULA, COBERTURA, SAÍDAS
Caso seja considerado o tamanho, a organização por modalidades
(geral, profissionalizante) do nível médio e suas relações com a educação
superior, as marcas da década são as de expansão moderada, a mudança no
perfil institucional do nível e um forte crescimento da educação superior,
que redefine o caráter terminal da educação secundária para a maioria. Com
efeito, a cobertura do sistema passa de 77% para 83%; a modalidade técni-
co-profissional cresce mais aceleradamente que a modalidade humanista-
científica, chegando a 45% do total da matrícula; uma nova categoria de
estabelecimento é aprovada: os polivalentes que, além da educação geral,
passam a oferecer especialidades técnico-profissionais; diminui, de maneira
radical, a seletividade da educação superior, ao multiplicarem-se as institui-
ções e expandir-se a matrícula e, portanto, reduz-se a proporção de alunos
para quem a educação secundária tem caráter terminal.
Sistema educacional: estrutura, tamanho, categorias de
administração
O sistema escolar do Chile está organizado num nível básico
de oito anos de educação obrigatória, que atende ao grupo de idade
entre os6eos13anos e u m nível médio, não-obrig atório, de quatro
anos de duração, que atende ao g r upo de idade entre os 14 e os 17
anos, em duas modalidades: uma definida pelo caráter geral de seu
currículo (humanístico-científico) e outra de tipo vocacional (técnico-
profissional), que pre para para a inserção no tr abalho.
A matrícula total do sistema escolar níveis básico e médio
alcançou 3,38 milhões de estudantes, em 1999: 2,28 milhões em
educação básica, com 98% de cobertura líquida (1998) no grupo de 6
a 13 anos, e 793.766 estudantes de ensino médio, com 83% de
cobertura líquida (1998-99), no g r upo de 14 a 17 anos. O sistema é
atendido por 129.000 professores, em aproximadamente 9.000
estabelecimentos de educação básica e 1.600 de educação média.
Do ponto de vista administrativo, três modalidades de
estabelecimentos financiados pelo Estado: os da educação municipal, os
particulares subvencionados e os estatais administrados por corporações,

246
Matrícula e Cobertura
Os dados do Quadro 1 (ver anexo) revelam um aumento da matrí-
cula entre 1990 e 1999, equivalente a 10,3%, que contrasta com a década
precedente, na qual o aumento foi de 29,8%, e que revela o ritmo necessa-
riamente mais lento do crescimento, quando se chega aos níveis de cobertu-
ra alcançados em 1990. Esta cresce 6 pontos percentuais, de 77% a 83%,
entre 1990 e 1998
11
. A matrícula total experimenta uma baixa entre os anos
1990 e 1994, provavelmente associada a demandas do mercado de traba-
lho
12
. A partir de 1995, cresce de forma sustentada.
que, em conjunto, atendem a cerca de 92% da matrícula; o restante
corresponde à educação particular paga. As diferentes categorias têm os
percentuais seguintes, em termos de matrícula de 1999:
Educação municipal:54,8%
Educação particular subvencionada34,5%
Educação paga: 9,1%
Corporações
10
: 1,5%
A educação superior do país está organizada em três níveis:
universidades, institutos prof issionais e centros de formação técnica,
com uma matrícula total de 406.553 estudantes, em 1998 (70,7%, nas
universidades), o que corresponde a uma cobertura, para o grupo de
idade de 18 a 23 anos, de 27%, (o mesmo percentual em 1990: 19%).
10
Administração de liceus técnico-profissionais de responsabilidade de grêmios em-
presariais ou corporações ad hoc, com financiamento público via convênio e não
subvenção, como o restante do sistema.
11
O cálculo da cobertura pelo Ministério da Educação não corresponde exatamente ao da
cobertura líquida utilizado pela UNESCO, que a fórmula, além de excluir a defasagem
etária (e, portanto, referir-se à cober tura líquida), inc lui os jovens entre 14 e 17 anos
matriculados em outros níveis: educação básica, especial, de adultos e superior.
12
Para o período 1986-1999, a taxa de desocupação de jovens entre 15 e 24 anos teve uma
média de 14,2%; os dois anos de mais baixa desocupação juvenil são 1992 (10,9%) e
1993 (11,0%). Elaboração Programa MECE-Media com base nos dados da OIT e INE
(1999), baseados na Pesquisa Nacional de Emprego, Santiago.
247
O aumento da cobertura da educação média produz impacto
de for ma diferenciada nos diferentes g r upos classificados de acor do
com os níveis de renda. O Quadro 3 mostra que a distância entre o
primeiro quintil (com 73,3% de cobertura, em 1990 ) e o quinto quintil
(com 94,2% de cobertura, no mesmo ano), praticamente não varia
entre início e fim da década (passa de 20,9 a 20,3 pontos de diferença).
Pelo contrário, encur tamentos de distância significativos dos quintis
segundo e terceiro, com relação a o quinto. Com efeito, a lacuna entre
o segundo e o quinto passa de 17,9 pontos para 13,6 pontos, entre
1990 e 1998; um encurtamento de distância equivalente a 24%. A evo-
lução equivalente das distâncias entre os quintis terceiro e quinto repre-
senta um encurtamento de espaço correspondente a 32,1%. Em ter-
mos de eqüidade, é claro que um avanço importante dos grupos
médios e médio-baixos; a distância dos mais pobres, com relação aos
20% de maiores rendas, per manece praticamente inalterada, enquanto
que seu espaço se alarga de modo significativo com o grupo de renda
imediatamente superior (segundo quintil): de 3 pontos em 1990 para
6,7 pontos, em 1998.
O crescimento é consistente com a mencionada alta valoriza-
ção social da educação, como via de ascensão pessoal e social, e sua
simultânea desvalorização, fr uto do aumento médio dos anos de edu-
cação na força de trabalho. Sob o ponto de vista do bem-estar social,
no Chile, durante os anos 90 (de acordo com uma estimativa da CE-
PAL), o mínimo de anos de educação requeridos, para contar com
90% ou mais de probabilidade de não cair na pobreza, era entre 12 e
14 anos (CEPAL, 1996). Como se verá, ao tr atar o crescimento da
educação superior, este nível é o que mais cresce na década.
Aumento da Matrícula Técnico-profissional
O crescimento da matrícula e da cobertura se acompanhado
por uma significativa mudança da importância relativa das duas mo-
dalidades da educação média, em termos de matrícula. Entre 1981 e
1999, a matrícula da modalidade profissionalizante duplicou, enquan-
to que, para o mesmo período, a matrícula da modalidade g eral cres-
ceu 11,2%, com o que a razão entre matrícula humanista-científica e
248
técnico-profissionalizante passou de 70,30 (1981) para 55,45 (1999)
13
.
Os dados do Quadro 1 revelam, além disso, que esta evolução experi-
mentou uma aceleração dur ante a década de 90. Com efeito, durante os
anos 80, a proporção da modalidade geral, no total da matrícula, dimi-
nuiu 6,3%, diminuição que, para o período 1990-98, foi de 9,5%.
A evolução descrita é convergente com as expectativas educacio-
nais e ocupacionais de grupos que, pela primeira vez, têm a oportunida-
de de completar sua educação secundária
14
e que vêem a opção técnico-
profissional com vantagens em ter mos de empreg o e renda, com rela-
ção à opção geral. No Chile, a modalidade técnica habilita para o exame
de admissão à universidade e institutos profissionais, com o que a mo-
dalidade aparece com este duplo significado: qualificação específica para
o mer cado de trabalho e ponte para a educação superior. De fato, 71%
dos alunos da modalidade técnica optaram pelo liceu por razões relaci-
onadas com uma pr eparação para a vida de tr abalho, enquanto que 27%
o fizeram para obter um título técnico que per mitisse prosseguir estu-
dos pós-secundários. Aos cinco anos de egresso, 30% estão cursando ou
realizaram estudos superiores (
DEPARTAMENTO DE ECONOMÍA, UNIVERSI-
DAD DE CHILE, 1998).
O acima exposto, impulsionado pelos mecanismos da demanda,
teve um cor relato de política educacional na autorização, por par te do
Ministério de Educação, nos anos 1992-1993, de uma categ oria nova de
estabelecimentos “polivalentes” que significou oferecer em institui-
ções da modalidade humanista-científica, de forma paralela a seus pla-
nos e programas de estudos gerais, as correspondentes especialidades
profissionais. Em 1999, havia um total de 306 liceus polivalentes (19%
do total). A autorização dos liceus polivalentes, no início da década, e o
13
Na América Latina e no Caribe, Brasil, Argentina e El Salvador têm modalidades
profissionalizantes que representam mais de 40% da matrícula secundária (MOURA
CASTRO
& CARNOY, 1998).
14
Os dados revelam o salto intergeracional aludido: 51% das mães do universo de alunos
que, em 1998, prestar am o SIMCE do 2
o
ano médio, alcançaram este nível de educação
média, ou menos; 45% dos pais se encontram em tal situação. A expectativa dos pais:
99.2% crêem que o aluno completará sua educação média; 49% crêem que completará
um nível de ensino superior (Ministerio de Educación. Resultados de la prueba SIMCE
2
o
año medio, 1998, dezembro de 1999).
249
apoio dado não foram consistentes com o processo paralelo de pesqui-
sas e participação para fundamentar a refo r ma da educação média nem
tampouco com as decisões curriculares de fins da década que, como se
verá na seção 5, orientaram-se numa direção diferente das pressões da
demanda por “especialidades técnicas”
15
.
As Saídas: Trajetórias Educativas Mais Longas, Aumento
da Moratória Juvenil
A situação do emprego na década mostra que o grupo de 15 a
24 anos tem mais do dobro de desemprego que a média do total da
população
16
, o que é consistente não com tendências gerais dos
mercados de trabalho (para a diminuição do volume de trabalho), mas
também com as lógicas de “concorrência”, que estão elevando os
umbrais da qualificação-certificação das trajetórias educacionais e a
moratória dos jovens.
A esse respeito, a expansão do terceiro nível é decisiva. O cr esci-
mento da matrícula da educação superior no período 1990-1999 foi de
65% (de 249.500 para 406.000 alunos), o que fez passar a cobertura do
grupo de 18 a 23 anos de 19% para 27% (
ALLARD, 1999). Em 1998, o
sistema de educação superior teve 130.200 matriculados novos; os con-
cluintes da educação média, nesse ano, foram de 146.300. Ainda que o
primeiro número inclua alunos de outras promoções
17
, o antes exposto
mostra que a educação média deixou de ser ter minal para a imensa
maioria dos que a completam, a competição por credenciais educacio-
nais, que representem uma diferença em ter mos de emprego e renda,
deslocou-se para a educação superior.
15
Para a análise crítica desta política, coincidente com o curso de ação posterior da
refor ma a respeito. Ver : BELLEI,C.Equidad social y expansión de la educación media
técnicoprofesional. 1996.
16
5,7% em média, para a população total e 14/2% para o grupo de 15 a 24 anos, no
período 1986-1999. Elaboração Programa MECE. Medida sobre a base de dados da
OIT e INE (1999), baseados na Pesquisa Nacional de Empreg o.
17
15% do total de inscritos nas provas do sistema de ingresso às universidades, em
1999, não pertenciam à promoção desse ano da educação média.
250
3. POLÍTICAS 1: FINANCIAMENTO, PROFESSORES,
EXTENSÃO DA JORNADA
Nesta seção, como nas seguintes, serão abordadas as políticas pú-
blicas que, na década de 90, produziram impacto na educação média.
Foram ag r upadas segundo a ordem dos fatores que buscavam af etar, e
não com o critério cronológico. Nesta seção trata-se das políticas perti-
nentes às condições mais gerais que afetam o funcionamento do nível de
educação média: recursos financeiros, salários docentes, horas de traba-
lho. Na seguinte, a política de melhoria dos contextos e processos de
aprendizagem, estabelecida no Programa MECE-Educação Média; e,
na subseqüente, a mudança do cur rículo.
Financiamento
Entre os anos 1990 e 1998, o gasto em educação no Chile passou
de 4,3% para 6,6% do produto br uto interno; este cresceu, além disso, a
uma média anual de mais de 6% nesse período
18
. A mencionada cen-
tralidade da educação para as pessoas e o projeto de país tem seu corre-
lato mais claro na mudança de escala dos recursos destinados ao setor,
como se pode apreciar em detalhe no Quadro 4. O gasto público em
educação passa a ser mais do dobro, de 1.167 para 2.752 milhões de
dólares (de igual valor) entre 1990 e 1998; o gasto por aluno cresce de
for ma concordante. Em 1996, segundo ano de implementação do pro-
grama MECE-MEDIA, o gasto por aluno do nível secundário ultra-
passa o gasto por aluno de educação básica. Com referência a 1990, o
nível médio, de forma consistente como prioridade de políticas for mu-
ladas em 1994 pela plural Comissão Nacional de Modernização da Edu-
cação, é o que mais cresce em ter mos de r ecursos.
A definição da refor ma da educação média, como um objetivo na-
cional, foi acompanhada por recursos; o conjunto do nível, a partir de 1995,
decisivamente transformada a base material de seu funcionamento.
18
A cifra total de 1998 pressupõe que o gasto privado em educação não experimentou
mudanças com relação a 1997 (último ano em que dados sobre gasto privado, o
que é uma subestimação (Quadro 4).
251
Fortalecimento da Profissão Docente
Uma agenda de mudança em educação, centrada na qualidade e na
eqüidade, não pode senão ter nos docentes seu pivô fundamental de im-
plementação. Neste âmbito, os componentes das políticas em cur so são:
um aumento sustentado dos salários reais que, entre 1990 e 1998, melho-
ram em 120%; um estatuto docente, que significa condições de trabalho
protegidas e, ao mesmo tempo, a existência de incentivos para o desem-
penho, mediante bonificações anuais par a as equipes docentes responsá-
veis de estabelecimentos localizados entre os 25% com melhores resulta-
dos de aprendizagem por região; e três programas destinados ao fortale-
cimento e atualização de suas capacidades: a) pr og rama de reforma de 17
instituições formadoras de pr of essores; b) prog rama de bolsas no exteri-
or; e c) programa de capacitação para a implementação do novo currícu-
lo (
NÚÑEZ, 1999; ÁVALOS, 1999; UNDURRAGA, 1999). A essa capacitação
mencionada, deve-se acrescentar a que prevê o programa MECE, através
de seus diversos componentes, detalhados na seção 4.
Extensão da Jo rnada
Um componente central da refor ma do sistema escolar chileno,
em seu conjunto, é a ampliação de seu tempo de trabalho. Em 1996, o
governo decide passar de um sistema escolar organizado em dois tur-
nos de seis horas pedagógicas para outro capaz de oferecer uma jorna-
da completa de 8 horas pedagógicas
19
. Isto implica uma melhoria abso-
luta no tempo de trabalho dos alunos nas disciplinas do cur rículo, bem
como nas atividades extracurriculares. Significa, assim, atividade para
apenas um grupo de alunos por estabelecimento, o que oferece um a pro-
veitamento educativo fora da jornada de aulas, nas instalações, para alu-
nos e pr ofessores, com impor tantes implicações formativas e impactos
sobre a eqüidade (uma vez que se oferece um espaço pedagógico ao
alunado que tem dificuldades para trabalhar em suas casas).
19
Equivalente a 45 minutos.
252
A extensão do tempo de trabalho escolar significa passar de 33
para 42 horas pedagógicas por semana na 1
a
e2
a
série do ensino médio
(27% a mais de tempo), e de 36 para 42 horas pedagógicas por semana
para as séries 3
a
e4
a
do ensino médio (17% de tempo adicional) da
modalidade humanista-científica. No caso da modalidade técnico-pro-
fissional, a mudança é de 38 para 42 horas semanais (10% mais de tem-
po). No total da educação média, uma vez completada a mudança, se-
rão trabalhadas 1.216 horas cronológicas anuais (equivalentes a 1.621
horas pedagógicas). As implicações curriculares desta ampliação tem-
poral são enor mes: de f ato, g arantem que a maior rique za e profundida-
de, demandada em cada âmbito do novo currículo, tenha assegurada a
mais elementar das condições: o tempo suficiente para o trabalho de
alunos e prof essores.
A implementação da jornada escolar completa supõe investimen-
tos em infra-estrutura em torno de 3.700 estabelecimentos (tanto de
educação básica como de média). Em termos de salas de aula, a exigên-
cia é de cerca de 20.000 unidades, suficientes para 760.000 alunos (26%
do total da matrícula subvencionada). A jornada escolar completa é fi-
nanciada mediante um incremento médio na subvenção de 34%, desti-
nado a financiar a maior quantidade de horas docentes. Para o f inancia-
mento das exigências de infra-estrutura, tanto dos estabelecimentos
municipais como dos privados subvencionados, o Estado estabeleceu
um mecanismo especial de repasse de uma contribuição de capital, para
as construções, aos estabelecimentos que o solicitassem até março de
2002. O investimento par a a infra-estr utura e o equipamento necessário,
para se ter toda a matrícula em jornada completa, é de 1.200 milhões de
dólares, a ser executado entre 1998 e 2002 (
CONCHA; JARA et al., 1999).
Em 1999, havia em r egime de jor nada completa, no nível médio,
uma matrícula de 138.391 alunos (17,4% do total).
4. POLÍTICAS 2: PROGRAMA DE MELHORIA DA
QUALIDADE E EQÜIDADE DA EDUCAÇÃO MÉDIA
Como se abordou anterior mente, as políticas da década de 90,
referentes à educação secundária, combinam programas integrais de
melhoria com reforma, e situam esta, posterior mente, ao esforço par a
253
melhorar os contextos de aprendizagem de cada estabelecimento do
sistema f inanciado com recursos púb licos. Isto se concretiza de forma
fundamental, através do Programa de Melhoria de Qualidade e Eqüidade
da Educação Média (MECE-Media), de cobertura universal e de
implementação no período de 1995-2000
20
.
Com 207 milhões de dólares (equivalentes a mais do dobro do
investimento per capita do MECE-Básica, no nível primário)
21
e 6 anos
de duração, o prog rama começa integ rando 325 estabelecimentos, em
1995, aos quais se somam 440, em 1996, e 585, em 1997, terceiro ano
de execução do programa, quando se alcança a cobertura do total de
liceus subvencionados (1.350). O programa apresenta uma combinação
de investimentos materiais e inovação em processos que produz impac-
to no conjunto da educação média subvencionada, transfor mando efe-
tivamente sua base material e dando início a mudanças consistentes em
suas relações de gestão e de ensino e aprendizagem.
O programa MECE-Média articula nove “componentes”, cinco
dos quais correspondem a investimentos em meios de enriquecimento
de contextos de aprendizagem. Os quatro restantes consistem na cria-
ção de novos espaços e relações de trabalho para docentes e jovens,
destinados a melhorar o núcleo da relação pedagógica e a gestão da
instituição escolar secundária, abri-la ao meio externo e potencializar sua
capacidade de auto-avaliação e empreendimento.
20
Existe, além disso, um programa focalizado em 51 estabelecimentos espalhados pelo
país (Projeto MonteGrande), que representam 5% da matrícula e que foram defini-
dos como “liceus de antecipação” da reforma, dinamizadores do resto do sistema,
através de “melhores práticas” de g estão da inovação. um terceiro p rogr ama
destinado ao desenvolvimento do modelo dual, na modalidade técnico-profissional,
com 82 liceus participantes, em 1999, e 5.823 alunos, que realizam suas práticas em
mais de 2000 empresas.
“Universal” se refere, neste contexto, ao conjunto de estabelecimentos subvencio-
nados por recursos públicos, os quais equivalem a 92% da matrícula.
21
Em média, o MECE-Educação Média investiu cerca de 34,5 milhões de dólares por
ano, entre 1995 e 1999, nos liceus subvencionados (cerca de 25.000 dólares por
estabelecimento por ano). A cifra anual mencionada equivale a 13% do gasto em
subvenções da educação secundária do ano de 1996. O Programa é financiado em
16% pelo Banco Mundial. Sobre as relações dos programas MECE com esta agência
multilateral. Ver : COX & ÁVALOS, 1999.
254
Do ponto de vista da estratégia de mudança e das inter-relações
de um conjunto complexo de intervenções, o prog rama combina uma
tríade de estratégias, que tornam concreta sua abordagem sistêmica “ação
direta”, a partir do Ministério para os estabelecimentos (“de cima para
baixo”); incentivos para a autogestão dos estabelecimentos (“de baixo
para cima”), e instituição de “redes de apoio” externo às instituições. O
conjunto está orientado para uma visão do esforço de melhoria e de
mudança, em ter mos de aprendiza gem, por atores e org anizações, onde
o importante se consegue através de processos em que se conjugam, de
maneira gerativa, definições e iniciativas da cúpula e da base do sistema,
que são de natureza prolongada, aberta e “indutiva”, mas regulada den-
tro de certos parâmetros orientadores; onde os incentivos e a competi-
ção têm um papel, mas também o têm a nor ma e o papel proativo do
centro do sistema, a respeito dos setores mais vulneráveis; onde as no-
vas idéias desempenham um papel crucial, mas também o fazem as “pres-
sões fáticas”, estabelecidas pelos novos meios (bibliotecas, computado-
res, material didático) e os espaços e mecanismos, nos quais se desdo-
bram novas práticas (concursos de projetos, contratação de assistência
técnica externa, aquisições definidas com a participação da demanda).
Novos Meios: Enriquecimento das Oportunidades de
Aprendizagem
Os cincos componentes MECE, que correspondem a investimentos
em novos meios, destinados a transformar a base material e de acesso ao
conhecimento de alguns contextos de aprendizagem, diagnosticados no iní-
cio da década, como pobres e anacrônicos, são: i) investimentos em infra-
estrutura e equipamento (instrumental para o funcionamento de novas bi-
bliotecas); ii) textos de estudo para cinco disciplinas de currículo; iii) biblio-
tecas para cada estabelecimento; iv) material didático; e v) laboratórios de
computação. E m fins de 1999, o conjunto desses componentes (exceto os
textos correspondentes a duas áreas)
22
encontrava-se executado e implanta-
do em todos os estabelecimentos subvencionados.
22
O conjunto referido de componentes de investimento representa 138,8 milhões de
dólares (67% do custo total do MECE-EM).
255
A seguir, destacam-se os componentes maiores: textos, bibliote-
cas e informática.
Textos
No Chile, o Estado distribuía, antes, textos de estudo em nível
secundário, herança de um passado de seleção social e baixa cober tura
desse nível de ensino. No início da década, as pesquisas mencionadas na
seção 1 tinham demonstrado que grande parte dos conteúdos discipli-
nares chegava aos alunos através do ditado em salas de aula e resumos
mimeog rafados, produzidos pelos docentes. A respeito desta ação bási-
ca de distribuição de te xtos de estudo para cada aluno, acompanhada de
um texto mais amplo, rico e explicativo para o docente, nas disciplinas
de Língua, Matemática, Ciências, História, Ciências Sociais e Inglês, su-
põe-se um salto qualitativo. Trata-se de textos com amplitude e riqueza
de conteúdos e possibilidades de uso, inovadores em sua for ma, alinha-
dos não apenas com as novas orientações curriculares, mas também
com formas de org anização textual novas, long e da linearidade tradici-
onal e consistentes com o uso de uma pedagogia ativa e promotora de
questionamento. Em ter mos de cober tura, esta foi avançando g radual-
mente a partir de 1997, quando se cobriu o 1
o
ano de ensino médio com
textos de Língua e Matemática, para os graus superiores e outras disci-
plinas mencionadas. Em 1999, foram distribuídos textos a três das qua-
tro séries do ensino médio, em Língua, Matemática e Inglês; em 2000,
será incluída a 4
a
série e as áreas que faltam (Ciências e História).
Bibliotecas
A biblioteca ocupa um lugar de destaque na estratégia de mudança
da qualidade dos liceus chilenos, não apenas no sentido elementar de
que, em cada estabelecimento, deve haver um corpo de conhecimento
que além dos textos de estudo e que seja o mais rico, variado e
contemporâneo possível, mas também como apoio insubstituível para
uma peda g ogia que deve formar em certas habilidades, com referência
ao trabalho, ao conhecimento e à infor mação que não podem ser
256
adquiridos senão vivendo a experiência da busca, seleção, hierarquização
e uso de fontes variadas. Mais concretamente: as novas bibliotecas
constituem uma base de realização para uma pedagogia que recorre,
cada vez mais, ao trabalho de projetos. Se não existissem, sobretudo
em conte xtos de pobreza, a pedag ogia ficaria sem sustentação.
O que foi mencionado implicou um desenho do processo de se-
leção dos materiais das bibliotecas, que somou a capacidade de seleção
de materiais, pelos peritos convocados, principalmente pelo Ministério
de Educação, às definições das equipes docentes e, em alguns estabeleci-
mentos, dos alunos, que escolheram, nos catálogos especialmente elabo-
rados em função de seus interesses e projetos. Com a estratégia descrita,
buscou-se somar as vantagens de uma seleção centralizada (que ori-
gem aos catálogos do caso), que se relacionam com elevadas exigências
de qualidade e equilíbrio na representação das diferentes áreas, às vanta-
gens de uma definição descentralizada, proveniente dos docentes, “de
baixo para cima”, que faz com que não haja uma biblioteca idêntica à
outra, na totalidade da educação média do país. E que, em troca, cada
uma delas le ve, desde o começo, a marca de uma definição própria,
adequada às necessidades e prioridades localmente definidas. A coleção
de livros e outros materiais, assim definida, compreende mais de mil
títulos por estabelecimento e foi adquirida e distribuída em três etapas,
entre 1995 e 2000 (
COX & MEKIS, 1999).
Infor mática Educacional
O componente de informática educacional do Programa
MECE-Media, conhecido como Projeto Enlaces, teve como propósito
ge ral o estabelecimento de uma rede interescolar de comunicação,
através de computadores, entre alunos e professores de liceus e destes
com o mundo exter no, além do critério diretor de que apenas o
investimento em infra-estr utura informatizada não basta para provocar
mudanças significativas na qualidade da educação. Por conseguinte, a
estratégia Enlaces tem seu foco nos docentes e respectivo domínio da
nova tecnologia e suas possibilidades. Para tanto, desenvolveu uma rede
de universidades que realiza um treinamento prolongado, em cada
257
estabelecimento, e tutela o processo de domínio, primeiro pelos
docentes, depois pelos alunos, do uso do hardware e do software, no
contexto educacional e da cultura de comunicação eletrônica (uso de
correio, f oros eletrônicos e Inter net).
A ação do Enlaces consistiu na montagem de um laboratório de
computação, que conta com 9 ou 12 equipes, no caso dos liceus, de
acordo com a matrícula. As equipes são de última geração e têm capa-
cidades multimediáticas e de comunicação. O que é mais impor tante,
estão conectadas a uma rede entre escolas e, como se disse, dessas
com universidades que desempenham o papel de “tutoras” no pro-
cesso de introduzir a nova tecnologia, em cada escola e liceu, capaci-
tando 20 professores por estabelecimento, através de um processo de
treinamento e de acompanhamento de dois anos
23
.
Em 1999, a rede interescolar de comunicação, através de com-
putadores, alcançava o conjunto dos liceus subvencionados do país e
3.950 escolas básicas: um total de 5.300 estabelecimentos que atendem
90% da matrícula total do sistema escolar. O uso da rede
24
tem vastas
implicações sobre a qualidade e eqüidade da educação escolar do país,
ao colocar à disposição das escolas e liceus uma tecnologia de redes e
infor mática que possibilita o acesso ao conhecimento e à infor mação
23
Enlaces capacitou (desde 1993) aproximadamente 70.000 professores (dos níveis básico e
médio), instalou 38.000 computadores, dotou os estabelecimentos de software educacio-
nal para apoiar as disciplinas dos pro gramas de estudo e criou um site Web na Internet
(www.enlaces.cl), que ag rupa uma seleção de conteúdos e serviços educacionais relevan-
tes para professores e alunos. A rede é coordenada por sete centros zonais, universidades
que constituíram Centros de Informática Educacional, cuja responsabilidadeéadeplanejar e
gerir o Projeto Enlaces em suas zonas.
24
Os estabelecimentos da Rede Enlaces têm acesso completo à Internet desde março de
1999, quando a empresa Telefônica-CTC fez uma doação de 5.000 linhas telefônicas para
o sistema escolar (incluindo toda a educação média). Doa também o uso gratuito de
comunicações, durante 10 anos, a todos os estabelecimentos da rede. O crescimento do
uso da Internet pelos estabelecimentos da Rede Enlaces experimentou um salto a partir do
momento em que isto não reverte em custos para as universidades educacionais. A evolu-
ção das cifras médias, diárias, de consultas no site web de Enlaces, para os meses que vão
de dezembro de 1998 a setembro de 1999, é eloqüente a respeito: dezembro de 1998:
4.015; janeiro de 1999: 4.665; fevereiro de 1999: 4.315 (mês de férias); março de 1999:
9.745; abril de 1999: 10.957; maio de 1999: 11.894; junho de 1999: 19.402; julho de
1999 (mês de férias): 15.968; agosto de 1999: 38.720; setembro de 1999: 53.290.
258
do mundo, redefinindo, de forma drástica, os limites do que é possível
fazer e trabalhar no contexto escolar, nos aspectos curricular e pedagó-
gico, e possibilitando o acesso aos mesmos recursos de infor mação e de
intercâmbio cultural, independentemente da situação geográfica ou so-
cial, ao conjunto da matrícula.
Novos Espaços e Relações para a Renovação da Pedagogia
Nesta categoria de componentes, situam-se: i) a instalação, em cada
colégio e liceu, de um espaço per manente de discussão e atualização profis-
sional dos docentes Grupos Profissionais de Trabalho; ii) a criação de um
espaço de atividades curriculares orientadas aos interesses dos jovens ati-
vidades curriculares de livre escolha; iii) a instalação de um fundo de recur-
sos para um concurso anual de Projetos de Melhoria Educacional, elabora-
dos por equipes docentes; e iv) fundos para a contratação de assistência
técnica, de forma independente, por parte dos estabelecimentos.
Gr upos Pr ofissionais de Trabalho
O programa teve êxito, no que se relaciona com o esta belecimen-
to, na maioria das instituições, de um espaço de desenvolvimento pro-
fissional docente, com funcionamento quinzenal, que é alimentado com
materiais e apoio técnico e de procedimentos, por parte do sistema de
super visão do Ministério de Educação. Em sua versão máxima, funcio-
na como instância per manente de dinamização da mudança pedagógica,
através de um trabalho de definição, implementação, avaliação e redefi-
nição de práticas; em sua versão mínima, opera como espaço de discus-
são coletiva e intercâmbio de informação e perspectivas sobre a marcha
das inovações, numa cultura organizacional marcada por uma longa his-
tória de forte compartimentação do trabalho docente
25
.
25
Não se pode falar de uma linha de ação importante do programa, neste âmbito,
Gestão Diretora, que deve consistir em apoio mediante treinamento, oficinas e
materiais, para a modernização das práticas de gestão de reitores e diretores de
estabelecimentos.
259
O total de docentes participantes nos Grupos Profissionais de
Trabalho é de aproximadamente 25.000, de um total de 30.000 do-
centes, no nível secundário. Na atualidade, funcionam 2.700 g r upos,
pouco menos de 3 g r upos por estabelecimento, em média. De acor do
com os próprios docentes, a freqüência média é de 78,3%. Cerca de
9,5% dos professores de ensino médio declararam que não participam
(CIDE, 1999).
Atividades Cur riculares de Livre Escolha para os Jovens
Este espaço tem por objeto redefinir a relação de alienação de
muitos jovens com o liceu par ticular mente em contextos de pobreza
–, estabelecendo um conjunto de oficinas (atividades curriculares de li-
vre escolha), que funcionam aos sábados e na época de férias, abordan-
do temas próximos às necessidades expressivas e de recreação de alunas
e alunos, como ar te, comunicação, espor te e meio ambiente.
As oficinas têm uma forte marca juvenil, pois são coordenadas e
dirigidas por docentes especialmente contratados para isso. É um êxito
deste componente o fato de ter estabelecido bases para uma redução da
distância entre a cultura juvenil e os docentes, por um lado, assim como
entre os jovens e seu liceu. Desse modo, em contextos de pobreza, as
oficinas exercem um impacto social direto, ao diminuir o tempo livre
em situações de risco e aproveitar a força associativa dos jovens em
atividades, que, além de serem recreativas, em suas expressões mais bem-
sucedidas, buscam promover as capacidades de criatividade, planeja-
mento e empreendimento (
WEINSTEIN, 1998).
Cerca de 24% (162.279 jovens) do total da matrícula subvencio-
nada par ticipam, de forma per manente, dessas oficinas (dados de 1998
e 1999); sete oficinas, em média, por estabelecimento; 21 jovens, em
média, por oficina (
PÉREZ & MECKLENBURG, 1999).
Projetos de Melhoria Educacional
O Programa MECE estabeleceu um mecanismo de competitivida-
de da capacidade de resposta em equipe dos professores aos desafios de
260
melhoria da aprendizagem, que consiste no financiamento público de um
conjunto de Projetos de Melhoria Educativa (PME). Tais pr ojetos são
gerados pelos liceus que competem, anualmente, por esse f inanciamento,
num marco institucional que avalia a qualidade dos projetos, em termos
de seu impacto potencial sobre a aprendizagem de competências funda-
mentais. O esta belecimento que conquistar um PME tor na - se credor de
uma quantidade de recursos, num valor médio de US$ 12.000 (variável de
acordo com a matrícula), e de um Pacote de Apoio Didático (televisor,
videogravador, retroprojetor, etc., num valor aproximado de US$ 1.500).
Entre 1996 e 1999, em quatro concursos anuais, foram aprova-
dos 846 projetos, o equivalente a 62,6% do total de estabelecimentos
subvencionados de ensino médio.
Os projetos dos liceus devem ter como objetivos específicos ele-
var os níveis de êxito nas áreas de currículo do sistema escolar, ou seja,
dos conhecimentos e habilidades culturais básicos nas áreas de língua
oral e escrita, matemática, ciências sociais, artes, estratégias metacogniti-
vas de aprender a aprender e desenvolvimento ético e afetivo. Contudo,
no que diz respeito a qual dessas competências dar prioridade ou a qual
combinação delas, bem como ao modo de obter impactos positivos
sobre o aprendizado, cada g r upo docente tem completa autonomia. A
estratégia PME combina, assim, definições e recursos do centro do sis-
tema com iniciativas que surgem dos liceus.
Na maioria dos casos, o processo de elaboração e execução em equipe
de um PME tem importantes efeitos positivos sobre a cultura de gestão
dos docentes. Mas isto não é, certamente, garantia de impacto sobre o apren-
dizado. Sob esta perspectiva, desempenham um papel determinante os cru-
zamentos deste componente com a reflexão pedagógica que o Grupo Pro-
fissional de Trabalho promover, ou não, e com a pressão de mudança, “de
cima para baixo”, exercida pelo novo currículo e suas definições de objeti-
vos de aprendizag em mais exigentes a serem obtidos por todos.
Assistência Técnica Contratada pelos Estabelecimentos
O programa inclui um mecanismo adicional de apoio aos estabe-
lecimentos, que consiste numa rede de assistência técnica de caráter nacio-
nal, organizada num Diretório de Assistência Técnica, que contém a in-
261
formação básica sobre a ofer ta de serviços e de recursos a cada esta-
belecimento para poder contratar, de for ma autônoma, os apoios téc-
nicos externos funcionais para seu projeto educacional
26
. O Diretório
está integ rado, basicamente, por equipes das universidades e, em me-
nor medida, por equipes de profissionais de consultoria e empresas.
5. POLÍTICAS 3: REFORMA CURRICULAR DA EDU-
CAÇÃO SECUNDÁRIA
A refor ma cur ricular da educação média r esponde a uma ag en-
da de mudanças que inclui três tipos de necessidades. Em primeiro
lug ar, a de redefinir a regulação centralizada do cur rículo, abrindo es-
paços para sua elaboração pelas unidades educacionais. Em segundo, a
de resolver o anacronismo da estr utura do ensino médio, com uma
separação curricular forte entre suas duas modalidades, a partir da 9
a
série (ou 1
a
série média), julgada prematura. Em terceiro lugar, as vin-
culadas com a atualização, contextualização e enriquecimento de seus
objetivos e conteúdos.
A reforma do cur rículo pr oduz impacto e reorg aniza o conjunto
da educação secundária, a partir de 1998. Sua implementação está em
pleno desenvolvimento (culmina no ano de 2002), num marco caracteri-
zado pela ausência de conflitos dentro do campo educacional e de reco-
nhecimento social e político que vai além da educação, simplesmente.
Processo de Elaboração de Base Profissional e Institucional
Ampla e Participativa
A elaboração da refor ma cur ricular combinou processos de na-
tureza técnica por parte do Ministério da Educação, que convocou
equipes externas de acadêmicos e professores de sala de aula, com
processos de consultas amplas e neg ociação.
26
Recursos equivalentes a aproximadamente 2.780 dólares por estabelecimento, na
vida do programa.
262
A fase mais importante do processo, que abrang eu três níveis de
consultas
27
, foi realizada em 1997 com o conjunto dos professores de
ensino médio, tendo o tríplice propósito de melhorar a proposta cur ri-
cular, com a visão e experiência do magistério, iniciá-los nesta r efle xão
crítica sobre os conteúdos presentes da educação média e obter consen-
so nas mudanças requeridas. A proposta de mudanças foi org anizada
em um livro Mineduc, 1997, distribuído a todos os estabelecimentos, com
três semanas de antecedência a um dia de interrupção de aulas (20 de
junho de 1997), em que o conjunto da educação média do país respon-
deu a instr umentos de discussão, avaliação e sug estões acerca da pro-
posta ministerial. O processo de consulta foi levado a cabo com um
alto grau de par ticipação e tomou f or ma na resposta pelo estabeleci-
mento (com referência a aspectos de estrutura e viabilidade das mudan-
ças) e por departamentos disciplinares (em relação aos objetivos e con-
teúdos de cada disciplina) a questionários que continham perguntas fe-
chadas e abertas
28
. A proposta ministerial obteve altos níveis de aprova-
ção, em todas as suas dimensões, com exceção de uma, bem como
sugestões de melhoria por disciplina e outras mudanças que foram acei-
tas
29
. A maioria dos professores da modalidade técnico-profissional
rejeitou a extensão da f or mação g eral em dois anos, com a conseqüente
diminuição do tempo para a for mação profissional.
27
Abrangeu: um conjunto de pouco mais de cem instituições-clave, um grupo repre-
sentativo de professores de todo o país (agrupados por disciplina), o conjunto do
magistério de educação média, por estabelecimento.
28
Participou da Consulta Nacional um total de 31.614 professores (acima de 90% do
total) de 1.595 estabelecimentos de educação média do país (97,1% do total).
29
Foi incluído um setor (Indústria) Química e oito novas especialidades na Formação
Diferenciada técnico-profissional, elevando o total de 36 a 44; diversos perfis da educa-
ção técnico-profissional receberam mudanças parciais e outros, uma modificação total.
Em Linguagem e Comunicação foram incorporados conteúdos de gramática e ortografia
e se definiu um repertório de autores e obras, dentro do qual os professores iriam
selecionar um mínimo de seis obras obrig atórias por ano, para leitura de seus alunos e
alunas; foram incorporados novos conteúdos em Matemática, aumentando sua extensão
temática e elevando seu nível, etc.
Dos 12.888 departamentos disciplinares, que responderam à pergunta se eliminariam
conteúdos daqueles propostos pelo Ministério da Educação, apenas cerca de 20% res-
ponderam afirmativamente; em troca, um terço deles respondeu afirmativamente diante
da possibilidade de acrescentar conteúdos (MINEDUC, UCE, 1998).
263
A proposta ministerial questionada destinava um tempo para a
for mação profissional (For mação Diferenciada Técnico-Prof issional) de
45% a 55% do tempo total na 3
a
e4
a
série do ensino médio. De pois da
constituição, pelo Ministro da Educação, de uma Comissão Técnica ad
hoc, com representantes do campo da educação técnica (professores,
empresários, Igreja, fundações, municípios) e de um processo de busca
de acordo e apoio às mudanças por esse campo, o Ministério, sem mo-
dificar sua proposta de estrutura e, por tanto, de extensão da for mação
geral até a segunda série (10
a
) , outorg ou mais tempo à f or mação pro-
fissional nas 11
a
e12
a
séries (68% do tempo, enquanto não se completa-
va a extensão da jornada; 71% do tempo total, com extensão da jorna-
da). Isto foi aceito pela Comissão Técnica e as mudanças, em processo
de implementação, não foram objeto de conf lito.
Por mandado legal, o novo cur rículo elaborado pelo Ministério de
Educação e modificado pelo processo de consulta descrito foi apresenta-
do, para sua aprovação, ao Conselho Superior de Educação, instância cri-
ada pela Lei Orgânica Constitucional de Ensino (LOCE) de 1990
30
.O
Conselho solicitou, como componentes obrigatórios da formação g eral
na 3
a
e4
a
série do ensino médio, duas disciplinas científicas (e não uma,
como propunha o documento do Ministério de Educação). No caso da
formação diferenciada técnico-profissional, o Conselho requereu que se
reparasse a desestruturação de objetivos formativos gerais, relevantes para
uma vida, e não para um posto de trabalho, em algumas especialidades
de formação difer enciada da modalidade técnico-profissional.
Regulação: Descentralização Curricular Equilibrada
A mencionada Lei Orgânica de 1990 definiu uma mudança regu-
latória maior na direção da descentralização do cur rículo. Com efeito, a
LOCE estabeleceu a distinção entre marco curricular nacional e planos e
prog ramas de estudo, deixando a definição desses nas mãos dos esta be-
lecimentos e, subsidiariamente, do Ministério da Educação. O conjunto
das dinâmicas de mudança do currículo na década se situa dentro da
30
Esta lei foi aprovada no último dia do governo militar, 10 de março de 1990.
264
distinção aludida e suas interpretações minimalistas ou maximalistas,
em relação às características do marco curricular nacional, bem como
centralizadoras ou descentralizadoras, no que diz respeito à elabora-
ção dos prog ramas de estudo que “baixam” ou realizam esse marco.
No que se refere à definição do marco obrigatório de objetivos e
conteúdos, em nível nacional, a política curricular da reforma optou por
um critério maximalista: em relação ao ponto inicial, sem dúvida que o
marco curricular nacional constitui um “teto” ou horizonte, e não um
“piso”. A respeito do segundo dilema, a opção foi a de um caminho
misto, no qual os programas de estudo, que o Ministério da Educação
elaboraria, seriam específicos e, nesse sentido, “diretivos”, mas ao mes-
mo tempo aber tos, com múltiplos pontos de decisão para os docentes.
Estrutura
O Chile respondeu ao dilema secular da educação média massi-
ficada como organizar suas funções de preparação para a educação
superior e para o mercado de trabalho através de uma refor ma de
cur rículo, refor ma que é levada a cabo dentr o da organização institu-
cional do ensino médio em duas modalidades de liceus: humanista-
científicos e técnico-profissionais.
De acordo com um trabalho recente de Moura Castro & Car-
noy (1998), as questões cruciais que demandam reposta hoje em dia,
em relação à organização da educação secundária, são:
a) Onde situar a preparação orientada para o trabalho?
b) Quando oferecê-la: cedo ou tarde?
c) Grau de separação desta preparação para o trabalho em re-
lação à educação acadêmica geral.
A refor ma da educação secundária no Chile r espondeu ao pri-
meiro dilema de forma conser vadora, com referência à sua tradição,
sem modificar limites institucionais existentes: a for mação especializa-
da orientada para o trabalho se concretizaria em estabelecimentos téc-
nico-profissionais de nível médio, diferentes dos estabelecimentos de
265
educação g eral
31
. Quanto ao segundo e terceiro dilemas, a refor ma
inova, de maneira decisiva, postergando em dois anos o início da for-
mação especializada (dos 14 aos 16 anos; ou da 9
a
série para a 11
a
do
ciclo escolar) e diminuindo, tanto no tempo como nos conteúdos e abor-
dagem, a distância entr e a experiência formativa geral e a especializada,
orientada para o trabalho.
A refor ma cur ricular da educação média mudou o caráter da dis-
tinção tradicional entre educação geral e profissionalizante, estabelecen-
do as categ orias de For mação Geral e Formação Diferenciada. Esta
mudança redefine a diferença das duas modalidades da educação secun-
dária, ao estabelecer uma formação g eral de novo tipo em suas duas
primeiras séries, independente do tipo de liceu geral ou técnico em
que se ofereça; mudam de sentido e conteúdos os dois primeiros anos
da educação técnico-profissional. Abre opções de diferenciação nos dois
últimos anos da modalidade humanista-científica, que não tem prece-
dentes em seu caráter e projeções e, por último, r eduz drasticamente a
dispersão das opções no ciclo diferenciado da modalidade técnico-pro-
fissional (ao passar de mais de 400 especialidades para 44).
O conceito de For mação Ger al redefine, de maneira impor tante,
a divisão entre educação humanista-científica e educação técnico-profis-
sional, porque estabelece um mesmo espaço temático e formativo, para
ambas as modalidades, nos dois primeiros anos da educação média, que
ocupa a maior par te do tempo de trabalho escolar. Desse modo, define
objetivos e conteúdos comuns para uma proporção significativa do tem-
po, nos últimos dois níveis.
A Formação Geral está longe de re pr oduzir o cur rículo humanista-
científico tradicional na educação técnico-profissional; supõe uma mu-
dança na concepção cur ricular. Seus objetivos e conteúdos buscam supe-
rar o dualismo acadêmico/técnico, articulando uma preparação orientada
tanto para o trabalho como para o estudo. Esses objetivos e conteúdos
significam uma mudança para a modalidade humanista-científica, porque
se orientam para sua contextualização e aplicação na vida das pessoas;
31
Embora com o matiz colocado pelos liceus “polivalentes” autorizados no início da
década (19% do total dos liceus) , ou seja estabelecimentos que podem oferecer
planos de estudo de ambas as modalidades. sob o mesmo teto.
266
paralelamente, implicam uma mudança para a modalidade técnico-pro-
fissional, porque estão articulados para desenvolver capacidades gerais e
transferíveis, aplicáveis a domínios e desempenhos práticos em contextos
produtivos muito mais amplamente concebidos que um posto de traba-
lho e que, ademais, possibilitam trajetórias educacionais no terceiro nível.
A For mação Ger al responde às necessidades de um pr ocesso de
for mação humana integ ral nas condições socioculturais contemporâne-
as. Estas necessidades foram explicitadas consensualmente, em nível
político e técnico, em ter mos de requerimento de for mar o conjunto
dos jovens do país em competências básicas, fundamentais para o cres-
cimento, identidade e auto-afir mação pessoal, para qualquer trajetória
profissional ou de estudos e para as perspectivas de integração cultural,
política e de desenvolvimento do país. Estas competências básicas fo-
ram categorizadas como tendo referência a:
capacidades fundamentais (de linguagem, comunicação e cálculo);
disposições pessoais e sociais (relacionadas com o desenvol-
vimento pessoal, a auto-estima, a solidariedade, o trabalho em
equipe, o autocontrole, a integridade, a capacidade de empre-
ender e a responsabilidade individual, entre outras);
aptidões cognitivas (capacidades de a bstração, de pensar em
sistemas, de aprender, de inovar e criar);
conhecimentos básicos (do meio natural e social, das artes da
tecnologia, da transcendência e de si mesmo).
32
A For mação Geral inclui nove áreas características de ap rendiza-
gem (algumas das quais estão especificadas em mais de uma disciplina),
com componentes humanísticos, artísticos, científicos e tecnológicos
(Religião é obrigatória para os estabelecimentos, optativa para os alunos
e suas famílias). O conjunto está fundamentado em critérios de forma-
ção contextualizada na resolução de problemas e as orientações morais
dos Objetivos Fundamentais Transversais.
32
Definições sobre “Formação Geral de Qualidade para Todos” da Comissão Nacional para
a Modernização da Educação, bem como sobre “Competências Essenciais”, do Comitê
Técnico desta. Ver: Los desafíos de la educación chilena frente al siglo XXI, 1995.
267
A Formação Diferenciada ag r upa os objetivos e conteúdos obri-
gatórios correspondentes aos diferentes planos de diferenciação ou de
especialização que oferecerá a educação média em suas duas modalida-
des. Inicia a par tir da 3
a
série do ensino médio (11
a
série) e poderá vari-
ar, de um liceu para outro, segundo os planos de especialização que
ofereçam, de acordo com os interesses e aptidões dos alunos, e com as
definições cur riculares dos estabelecimentos. Do ponto de vista do de-
senvolvimento pessoal, o âmbito da formação diferenciada se baseia na
necessidade de atender às aptidões e interesses pessoais, e às disposições
profissionalizantes de alunos e alunas, harmonizando suas opções com
os requisitos do desenvolvimento produtivo, social, cultural e de cida-
dania do país e da região ou localidade.
No caso da educação média humanista-científica, a For mação Di-
ferenciada consiste em objetivos e conteúdos curriculares que expan-
dem ou ap rofundam disciplinas da Formação Geral, que supõem a de-
dicação de um tempo adicional e que buscam responder a aptidões,
interesses ou expectativas de saída dos alunos. A For mação Diferencia-
da articula em cada um de seus canais ou opções um número redu-
zido de disciplinas. A decisão, no que diz respeito a tais canais ou opções
de dif erenciação, cor responde aos estabelecimentos, tanto em seu nú-
mero como em sua composição (ou seja, quantidade de opções e com-
binação de disciplinas que constituem cada uma delas). Simultaneamen-
te, os objetivos e conteúdos mínimos obrigatórios de cada disciplina,
em seu nível de Formação Diferenciada, são definidos pelo marco cur-
ricular nacional.
Nesta dimensão, o plano da arquitetura cur ricular é livre, dentro
de certas regras de composição sobre o número de planos e o tempo
total determinado para eles, enquanto que seus componentes são defi-
nidos pelo marco curricular nacional. Com isto, cumpre-se o critério
político de salvaguardar certa unidade na provisão de oportunidades,
bem como de deixar que estas se organizem segundo definições locais,
que outor g am diversidade e riqueza para o sistema, em seu conjunto.
No caso da educação média técnico-profissional, a diferenciação
alude à f or mação especializada, que se define de acordo com objetivos
ter minais (agr upados em perfis de saída), cor respondentes a 13 setores
ocupacionais e 44 canais de especialização. Os 13 setores ou famílias
268
ocupacionais, em que se ordenam os objetivos ter minais desta
modalidade, são: madeireiro, ag ropecuário, alimentação, constr ução,
metal-mecânico, eletricidade, químico, marítimo, mineral, gráfico,
confecção, administração e comér cio, progr amas e projetos sociais.
Os perfis elaborados têm o propósito de responder a padrões de
qualidade de acordo com as exigências de um mundo produtivo que se
desenvolve numa economia competitiva e internacionalizada. Ao mesmo
tempo, re presentam instrumentos que promovem a eqüidade ao assegu-
rar que as especialidades considerem uma base comum compartilhada na
ordem nacional e de nível adequado, ao expressar o mínimo e fundamen-
tal que deve aprender todo aluno ou aluna do país, que curse esta especi-
alidade. Por último, são objetivos transversais da formação diferenciada
técnico-profissional, orientados para a vida, e não apenas para um posto
de trabalho, entr e outros mais específicos, as capacidades de planejamen-
to e gestão, de iniciativa pessoal e trabalho em equipe, o espírito empreen-
dedor e as relações baseadas na confiança mútua e responsável.
Objetivos e Conteúdos: Reorientação, Enriquecimento
Além dos traços organizacionais descritos, o novo currículo da
educação média busca proporcionar uma experiência for mativa que res-
ponda, de maneira apropriada, ao duplo desafio de oferecer oportuni-
dades de aprendizagem de novas competências, mais complexas e de-
mandantes que as do passado, bem como identidades, ou seja, sentidos
que proporcionem respostas adequadas às exigências do futuro.
O novo marco curricular e os programas de estudo que o
especificam estão fundamentados numa mudança de orientação e de
ênfase, que pode ser descrita como a passagem da comunicação da
enciclopédia para o desenvolvimento de habilidades susceptíveis de dar
acesso ao conhecimento como princípio orientador maior. Juntamente
com transferência de um acúmulo de saberes (cuja seleção é cada vez
mais difícil pela superabundância de informação e conhecimento, bem
como pela velocidade de sua mudança), adquire importância central a
for mação em critérios e esquemas de compreensão, manejo de métodos
e de capacidades para selecionar e discernir, bem como competências
269
que permitam crescer e adaptar-se a esses conhecimentos e à sociedade
em mudança. O novo currículo especifica estas competências em termos
de concluintes com maiores capacidades de abstr ação, pensamento
sistêmico, experimentação e interesse de“aprender a aprender”,
comunicação e trabalho colaborador, resolução de problemas, manejo
da incerteza e adaptação à mudança.
O novo cur rículo da educação secundária propicia, desse modo,
uma intensif icação da for mação moral, através de um conjunto de ob-
jetivos transversais, que respondem à crise de socialização e sentido do
presente (
TEDESCO, 1998).
Em termos de atualização, existem, no novo cur rículo da educa-
ção secundária, três áreas de objetivos e conteúdos novos:
Objetivos transversais de formação intelectual e moral, que de-
vem tr abalhar todas as disciplinas e a cultura do liceu ou colégio,
como um todo, referentes a: crescimento e auto-afirmação pes-
soal; desenvolvimento do pensamento; formação ética; a pes-
soa e seu entorno (familiar, social, profissional, de cidadania).
Objetivos transversais de informática, que têm o propósito de
proporcionar a todos os alunos e alunas as ferramentas que lhes
permitirão manejar o “mundo digital” e nele se desenvolver de
for ma competente
33
.
Educação tecnológica, cujo propósito é o desenvolvimento das
habilidades e conhecimentos necessários para identificar e resol-
ver problemas, nos quais a aplicação de tecnologias significa uma
contribuição à capacidade de vida das pessoas, bem como à sua
compreensão do mundo tecnológico, fazendo-as consumido-
ras críticas e informadas.
Por último, a reforma cur ricular cuidou de não se acoplar as po-
sições metodológicas; em troca, as atividades, nas quais se especificam
33
Estes objetivos têm sua base material de realização no Projeto Enlaces e a cobertura
universal dos liceus e colégios subvencionados, em julho de 1999, tanto com compu-
tadores de capacidades multimediáticas, como com capacitação dada aos docentes,
software e comunicação entre os estabelecimentos, com universidades e acesso full,
sem custos para os estabelecimentos, à Internet.
270
objetivos e conteúdos dos novos programas de estudo do Ministério da
Educação, procuram estabelecer equilíbrios metodológico-didáticos entre
polaridades (de diferentes níveis, mas importantes na visão e debates
docentes) como as seguintes: letivo/ativo; trabalho individual/grupal;
busca biblio g ráfica/observação e práticas; descober ta/exercitação.
6. RESULTADOS E PROSPECTIVA
Com a mudança de século, a educação secundária do Chile se
encontra imersa num processo de transformação que a situa verdadeira-
mente afastada da situação de 1990.
A evidência, produto de avaliação de diferentes tipos (amostras,
censos), e a evolução de indicadores convencionais sobre fluxos mostram
que o processo de mudança mencionado afetou contextos e relações de
aprendizagem, de forma signif icativa; por outro lado, seu impacto sobre
êxitos de aprendizagem, embora positivo, ainda é fraco. Uns e outros
mantêm fortes marcas de iniqüidade em sua distribuição social.
Uma avaliação externa integral da efetividade do programa MECE-
Media, fundada em pesquisas e entrevistas, numa amostra de 9.184 alu-
nos e 2.235 professores e administradores, representativa do país, reali-
zada no segundo semestre de 1999 (CIDE, 1999), aponta, como resul-
tado global, que:
os novos meios de aprendizagem não estão em todos os
contextos de aprendizagem, como também são colocados em
prática;
as práticas de trabalho de alunos e professores estão evoluin-
do de modo consistente, das for mas quase exclusivamente le-
tivas para formas mais ativas indag atórias e variadas em suas
estratégias de acesso ao conhecimento e de trabalho com ele;
processos participativos em escala maciça, tanto de professo-
res como de alunos e, em menor escala, de administradores,
operam de for ma per manente, contribuindo, de modo signi-
ficativo, para desburocratizar e enriquecer o clima do liceu
subvencionado chileno, que é reconhecido e apreciado pelos
271
alunos que, de f or ma imensamente majoritária, expressam sua
satisfação a respeito do trabalho de aulas e do seu liceu.
Junto com a permanência de modalidades tradicionais de ensino
(dois terços dos alunos afir mam que o professor sempre explica, en-
quanto a metade deles sustenta que o professor sempre dita e usa o
quadro-neg ro), começaram a ter presença generalizada, novas for mas
de dar aula. Mais de 70% dos alunos afirmam que, nas aulas se trabalha
em equipe e se utilizam diversos livros; mais de 80% indicam que as
matérias são abordadas resolvendo problemas concretos e 50% mani-
festam que se lhes fomenta a leitura individual em aulas. Dois terços dos
jovens declaram que utilizam, com freqüência, a biblioteca para suas
atividades de aprendizado (CIDE, 1999).
Se ao que foi mencionado pelos alunos, com referência a métodos
de trabalho, somar-se a evidência proveniente dos professores, surge um
quadro de mudança gradual consistente na sala de aula. Conforme se pode
ver no Quadro 5, a maioria dos professores declara que emprega diversos
recursos de aprendizagem, no desenvolvimento de suas aulas, com uma
freqüência que é indicação clara do início do novo, em nível de sistema:
quatro de cada cinco professores usam, freqüentemente, textos de estudo
com seus alunos, enquanto que três de cada quatro docentes trabalham com
materiais didáticos e ocupam a biblioteca para suas aulas; por outro lado,
quem nunca utiliza tais recursos constitui uma fração marginal.
Apesar da enor me novidade, que implica o uso da infor mática
para o trabalho docente, um terço deles assumiu a computação como
uma ferramenta pedagógica para com seus alunos e o grupo de profes-
sores que ainda se mantém completamente à margem desta tecnologia,
ficou reduzido a um quarto.
As mudanças em curso, nos contextos de aprendizag em, coinci-
dem com diminuições signif icativas das taxas de repetência e evasão, a
partir de 1995. O percentual médio de alunos reprovados anualmente,
no conjunto da educação média, oscilou em torno dos 12% entre 1990
e 1995; nos três anos seguintes, esta taxa baixou de maneira gradual, até
chegar a ser de 8,3%, em 1998. Deve-se levar em conta, além disso, que
esta redução da taxa de reprovação tem lugar sobre uma base de cober-
tura mais ampla. Alg o similar ocor re com a taxa de evasão, que baixou
de for ma consistente, desde 1995, ano em que foi de 12,5%, para 10%,
272
em 1997 e 6%, em 1999 (
MINISTERIO DE EDUCACIÓN, DEPARTAMENTO DE
ESTUDIOS
, 1999)
34
.
Nas melhorias indicadas, persistem, como se mencionou, desigual-
dades marcantes, de acordo com a origem socioeconômica dos jovens.
O impacto sobre a aprendizagem, medido por testes padroniza-
dos de escala censitária, é leve em Língua e significativo em Matemática. A
avaliação nacional de resultados de aprendizagem, em ambas as discipli-
nas, aplicada aos alunos da 2
a
série média de todo o país, em 1998, e que
pôde ser comparada com o que se obteve de resultados da mesma prova,
em 1994 (depois de um estudo de equating, no qual ambos os instrumen-
tos foram aplicados a uma mesma amostra de alunos), apontou um avan-
ço de 3,3 pontos percentuais em Matemática e estabilidade no resultado
de Língua. Ao mesmo tempo, 69,4% do total de estabelecimentos expe-
rimentaram incremento de algum nível em suas pontuações de Matemáti-
ca, e 53,7% deles em Língua (
MINISTERIO DE EDUCACIÓN, 1999).
Que Fase, de Que Evolução?
Os resultados descritos, convergentes em seu significado de melhoria
e transformação, falam do início de um processo de mudança, cujas fases
(em termos de tempo) não devem ser perdidas de vista: iniciou-se, em
1995, num subconjunto de liceus e, em 1997, no conjunto total
35
.
De uma perspectiva de evolução da educação média, em seu
conjunto, cabem poucas dúvidas de que o processo de mudança superou
o limiar crítico em que podia ser r evertido ou diluído, e que se encontra
numa fase de acumulação e de crescente importância: componentes-chaves
34
No decréscimo notado, provavelmente, influem não as políticas de reforma da
educação secundária, mas também as oscilações do mercado de trabalho. Em especi-
al, a queda de três pontos na evasão, em 1999, com relação a 1998, pode estar
significativamente associada ao fato de que, em 1999, foi o ano de mais alto desem-
prego de toda a década.
35
Segundo Michael Fullan (1999), em sua experiência (norte-americana, canadense),
“[...] pode-se melhorar uma escola primária em cerca de 2-3 anos; escolas secundári-
as, em cerca de 5-6 anos; distritos educacionais (obviamente, dependendo do tama-
nho) entre 6-8 anos. Não sabemos quanto tempo levaria em estados ou países”.
273
da tr ansformação, como o currículo e a jornada ampliada, a g or a estão
entrando em cena, numa obra preparada ampla e cuidadosamente para
acolher essas novas “peças”.
Se o que foi dito acima for correto, a per spectiva da reforma da
educação média no Chile é de acumulação e progresso, numa mudança
paulatina, cujos pilares foram estabelecidos e cujos próximos passos funda-
mentais, não necessariamente consecutivos, parece-nos que são os seguintes:
Finalização da implementação do novo currículo: passagem
de uma formulação, pactuada em nível nacional, de objetivos
e conteúdos de aprendizagem desejados, para um currículo
posto em prática primeiro e apenas depois bem-sucedido nos
alunos.
Estabelecimento de padrões de êxito como metas publicamente
comprometidas e avaliáveis de aprendizagens a serem obtidas,
e que operam como parâmetros reguladores da g estão, tanto
em nível de estabelecimento e de subsistemas (locais ou regio-
nais) como de país, em seu conjunto.
A intensificação dos esforços em prol da eqüidade. Objetivos
e conteúdos mais ricos e exigentes, em contextos de pobreza
material e cultural, colocam a necessidade de se criar e imple-
mentar estratégias de discriminação positiva que, até agora, di-
ferentemente do caso da educação básica, não foram aborda-
das e que devem responder, de forma efetiva, às necessidades
diferenciadas de apoio para a aprendizagem dos grupos com
menor capital cultural.
A elaboração de respostas às necessidades de educação, ao lon-
go da vida, que as novas r elações entre trabalho, capacitação e
educação técnico-profissional exigem.
Na última década do século XX, as políticas educacionais
conseguiram estabelecer, na educação média do Chile, meios e princípios
de mudança, que estão demonstrando sua efetividade na maioria dos
fatores-chave deter minantes do nível educacional de um país. Nisso
desempenhou um papel decisivo a continuidade do esforço. Para o futuro,
o progresso na mudança gradativa e os novos desafios mencionados
274
dependerão tanto dos processos de descoberta, apreciação e
aprendizagem de novas práticas, na base do sistema, como das decisões
políticas e técnicas em sua cúpula. O que deve ser destacado é que os
consensos sociais e políticos, sobre a centralidade e natureza das mudanças
requeridas na educação média, articuladas no início da década de 90,
estão mantidos no começo do século XXI. Isto é, uma base sólida para
que o sistema escolar secundário possa contar com os tempos longos
exigidos para que a evolução nas práticas e critérios orientadores de sua
base profissional tenha lugar, assim como um marco de políticas que
garanta a manutenção do impulso transformador.
BIBLIOGRAFIA
ALLARD, Raúl. Rol del Estado, políticas e instr umentos de acción en
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278
ANEXO
QUADRO 1
Matrícula e cobertura da educação secundária
* Cobertura correspondente a 1982.
Fonte: Ministerio de Educación. Compendio de Información Estadística, anos 1997-98.
QUADRO 3
Cobertura em educação média 1990-98 por quintil de renda
Fonte: Encuesta Casen. Mideplan, 1999.
QUADRO 2
Matrícula técnico-profissional, 1998
Fonte: Ministerio de Educación. Compendio de Información Estadística, 1998.
279
QUADRO 4
Gasto público e total em educação. Gasto por aluno, por níveis,
1990-98
Fonte: Minist. Educ. Compendio de Información Estadística, 1998.
González, P. Financiamiento, incentivos y reforma educacional. En: García-Huidobro, J.E.(Ed.). La reforma
educacional chilena. Madrid: Proa, 1999.
QUADRO 5
Professores: freqüência de uso de novos meios para
desenvolver aulas (%)
Fonte: Evaluación intermedia del Programa MECE-Media.CIDE, 1999.
281
*
Ruy Leite Berger Filho é licenciado em Letras pela Universidade Católica do Rio de
Janeiro e pós-g raduado em Lingüística pela Univ. Fed. do Rio de Janeiro. Foi Secre-
tário de Estado de Educação (PI), assessor da Assembléia Legislativa do Piauí,
assessor de Planejamento e Orçamento (SEC/PI), consultor na SEC/RJ, diretor
pedagógico no Centro Educacional Santa Teresa (RJ) e diretor do De partamento de
Desenvolvimento da Educação Média e Tecnológica da Secretaria de Educação
Média e Tecnológica do Ministério da Educação. Atualmente é secretário de Educa-
ção Média e Tecnológica do Ministério da Educação.
7.
ENSINO MÉDIO: OS DESAFIOS DA INCLUSÃO
Ruy Leite Berger Filho*
“Longe de onde deveríamos estar e queremos chegar, mas muito
melhor do que estávamos”.
(Paulo Renato Souza, Ministro da Educação)
INTRODUÇÃO
Este texto sobre a reforma do ensino secundário no Brasil abor-
dará, de fato, uma etapa do que tradicionalmente se chama secundária,
sua eta pa final, o ensino médio. Contudo, sempre que seja r elevante, far-se-
á referência a sua etapa anterior, os quatro anos finais do ensino fundamen-
tal. Para uma melhor compreensão da estrutura educacional no Brasil e
sua nomenclatura, inclui-se um quadro com a atual org anização.
A educação básica no Brasil, a partir da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação (LDB), de dezembro de 1996, está formada pela educação infantil,
um segmento obrigatório de oito anos ensino fundamental –, e a educação
282
secundária superior ensino médio –. O ensino fundamental inclui o ciclo
primário (1
a
à4
a
série) e o secundário inferior (5
a
à8
a
série).
Apesar da unificação legal, a característica dos quatro anos finais
da educação fundamental está mais próxima do segmento que segue, o
ensino médio, do que do precedente.
O Brasil teve grandes avanços na educação secundária, nos últi-
mos cinco anos. A ampliação da cobertura e a melhoria da qualidade e,
por conseguinte, do fluxo escolar do ensino fundamental, que se obser-
vou na década de 90, e, de maneira mais consistente, a partir de 1995,
ge rou um aumento significa tivo das matrículas no ensino secundário. A
matrícula no ensino médio cresceu, no período de 1994 a 1999, 57,3%,
com uma média de 11,5% ao ano, eéosegmento do ensino que mais
cresceu, no período. Neste mesmo espaço, o índice líquido de escolari-
zação da população de 15 a 17 anos, que reflete o percentual desses
matriculados no ensino médio, evoluiu de 22,7% para 32,6%, um au-
mento de 9,9%, em apenas cinco anos.
Entretanto, o quadro educacional brasileiro ainda experimenta sé-
rios problemas derivados de fatores endógenos e exóg enos. Por um
lado, ainda temos questões quanto ao fluxo de alunos, à formação dos
professores, à política de organização das redes escolares e à indefinição
283
de responsabilidades de g estão e financiamento; por outro, for tes desi-
gualdades regionais e sociais, dificuldades econômicas e um contraste
acentuado entre o nível de desenvolvimento social e a rápida moderni-
zação da produção.
Hoje, 43.937.734 crianças, jovens e adultos brasileiros estão nas
escolas de ensino fundamental e médio, mas a população de7a17anos
se aproxima dos 37.000.000; isto representa dizer que, aproximadamen-
te, sete milhões de alunos têm uma defasagem na relação idade/série
escolar. Não obstante, isto significa também que se superou a capacida-
de instalada para que todas as crianças e jovens, com a idade adequada,
sejam atendidos. Em 1999, alcançamos um número de 7.767.091 alunos
na educação média. Mas o índice líquido de escolarização representa
apenas 32,6% dos 8.896.487 de jovens de 15 a 17 anos. A g rande maio-
ria dos professores do ensino médio tem cur so superior completo, ou
seja, 88% das funções docentes, mas isto significa que mais de 45.000
necessitam f or mar-se em cursos de gr aduação. O ensino médio cresceu
de forma desordenada, ocupando espaços ociosos de escolas do ensino
fundamental, quase sempre no turno da noite, sem as condições físicas
adequadas, sem espaços próprios e, muitas vezes, sem poder utilizar
outros locais da escola fora das salas de aula. Segundo dados do Censo
Escolar de 1998, 54,8% das matrículas são para o período noturno e
apenas 14,4% das escolas, onde se oferece este segmento da educação
básica, estão e xclusivamente dedicadas ao ensino médio.
Não cabe aqui fazer um diagnóstico exaustivo do ensino médio
no Brasil, mas as questões e as informações, que se apresentam, tentam
mostrar os progr essos obtidos e os g randes desafios que a reforma do
ensino médio enfrenta.
A REFORMA
Nestes tempos de refor mas, falar daquelas em que estamos en-
volvidos, constitui um risco. Risco de falta de entendimento, risco da
ilusão, risco de que o discernimento esteja velado pelo querer. Mas é
preciso correr o risco e não correr dele.
Formular políticas públicas, propor uma política educacional, conce-
ber uma reforma para a educação é caminhar perigosamente no estreito
284
limite entre o real e a utopia. É andar sobre um fio em que o conhecimento
da realidadeeoresgatedeumdesejo coletivo inter pretado são, ao mesmo
tempo, premissa e risco. Eqüidade e qualidade são princípios e desafios. Fazer
isto para um país como o Brasil, com tantas diferenças, com tanta falta de
equanimidade, significa potencializar este risco.
O prog rama de reforma está estr utur ado em quatro eixos princi-
pais: i) promover a expansão do acesso ao ensino médio com eqüida-
de e a adequação da oferta atual, de maneira ordenada e com padrões
básicos mínimos; ii) definir uma concepção para o ensino médio que
responda às deter minações da LDB, às necessidades de sua demanda, às
características do mundo contemporâneo e aos cenários do futuro; iii)
incrementar a qualidade do ensino, com inter venções em segmentos
deter minantes do êxito escolar; iv) definir o financiamento e a otimi-
zação no uso dos recursos.
Ensino médio: aspiração e inclusão. A expansão do acesso
O caminho para garantir o direito de todos à educação básica no
Brasil começou. Este ano, alcançamos a proporção de 96,1% das
crianças e adolescentes de7a14anos no ensino fundamental. A matrí-
cula do ensino médio cresceu, exclusivamente neste último ano, em
11,5%. Pela primeira vez uma Constituição brasileira considera o ensino
médio como direito de todos: a Constituição Federal de 1988 estabele-
ceu como preceito a “progressiva universalização do ensino médio gra-
tuito”, ou seja: a oferta do ensino médio deve ser estendida, progressi-
vamente, a todos os que concluam o ensino fundamental, ainda que não
exista a obrigatoriedade de freqüentá-la. O ensino médio passa a inte-
grar o processo educacional que a nação considera básico para o exercí-
cio da cidadania, para o acesso às atividades produtivas, inclusive para a
continuação, nos níveis mais ele vados e complexos da educação, e para
o desenvolvimento pessoal.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional um novo
significado a esse ensino, ao incluí-lo na educação básica, como sua eta-
pa final, na continuação da educação infantil e do ensino fundamental.
Na verdade, reafir ma o mandato constitucional, quanto a seu caráter de
base, mas vai mais além na definição de sua concepção e função no
285
sistema educacional brasileiro: não é um grau de ensino, mas um seg-
mento da educação básica.
A capacidade do país de responder a este mandato e atender à
demanda gerada não pela lei, mas também pela necessidade social,
ainda é muito limitada, e ainda que as redes públicas, em especial as dos
estados, tenham conseguido for mas de corresponder parcialmente, este
quadro nos faz crer que não terão condições para continuar dando
atendimento, sem a definição de uma identidade para este novo ensino
médio, que crie um modelo de escola, ordene o sistema, tenha um es-
forço sério de planejamento e trace uma política de atendimento.
A falta de vagas no ensino médio gratuito e a forte demanda de
qualidade chamam a atenção sobre o fato de que a extensão desse seg-
mento de ensino para um número maior e muito mais diversificado de
alunos seria uma tarefa complexa. A incorporação de grupos sociais
excluídos até então da continuidade de estudos depois da educação obri-
gatória, o retorno dos que tinham deixado o sistema educacional e a
chegada de uma quantidade maior de adolescentes ao ensino médio,
como resultado da melhoria do fluxo no ensino fundamental, criam um
quadro de explosão da demanda e de uma grande diferenciação da cli-
entela. Equacionar as políticas de melhoria do fluxo do ensino funda-
mental e de aumento da cober tura no ensino médio, durante o período
em que este f luxo não se re gularize, sem criar distorções num futuro,
que esperamos esteja muito próximo, é um grande desafio.
É preciso somar a isto o fenômeno demográfico da “onda ado-
lescente”, que se ar ma numa época de poucas opor tunidades para o
primeiro emprego dos jovens e de uma grande competitividade pelas
ofer tas existentes. Os dois fatos somados respondem pela expressiva
diminuição, na população de adolescentes, dos que formam par te da
população economicamente ativa. E isto é um fator para que essa po-
pulação per maneça mais tempo na escola, buscando uma for mação
melhor, para entrar com maior qualificação na disputa por um lugar no
mercado de trabalho.
O Brasil, contudo, ainda tem uma baixa taxa de matrícula bruta
neste segmento de ensino, embora esteja bem situado na América Lati-
na, com 74,8%. Os países que têm uma taxa bruta de matrícula menor
se concentram na América Central: Costa Rica, Nicarágua, República
Dominicana, Honduras, Haiti, El Salvador e Guatemala. Entre os países
286
que, desde 1995, alcançaram taxas superiores a 50%, estão Equador,
Peru, México e Colômbia. No Mercosul, o Paraguai tem uma situa-
ção pior: 37%. A Argentina (76%), Chile (73%), Uruguai (81%) mar-
cham, como o Brasil, para alcançar a média dos países desenvolvidos
(90%). A taxa de escolarização líquida no ensino médio é muito baixa,
32,6%, embora tenha aumentado em 27%, desde 1970 e, apenas nos
últimos cinco anos, cerca de 10%. Outros tantos jovens desse grupo de
idade, apesar de estarem no sistema educacional, ainda estão presos por
atraso escolar no ensino fundamental. Considerando que o concluinte
do ensino fundamental permaneceu, em média, onze e não oito anos na
escola, a correção do fluxo de alunos desse nível colocará às portas do
ensino médio um g r ande número de jovens, cuja expectativa de per ma-
nência no sistema ultrapassa os oito anos de escolaridade obrigatória.
Por outro lado, o país necessita de uma população com níveis de
escolaridade mais altos para avançar em seu aperfeiçoamento político e
em seu desenvolvimento social e econômico. Isto significa que uma po-
lítica, cujo objeto seja melhorar o acesso ao ensino médio necessita agir
nos quatro anos finais do ensino fundamental, com estratégias de corre-
ção do f luxo. Ao mesmo tempo em que o Ministério da Educação está
estimulando os sistemas dos estados para que ponham, em prática, aulas
de aceleração de estudos, com investimentos e materiais para uso na sala
de aula e capacitação de professores, estabelece a adoção de medidas de
correção de f luxo, como condição prévia para financiar, nos estados, os
projetos de investimento no ensino médio.
É preciso apresentar a universalização com soluções diversifica-
das, sem reduzir as ações à construção de edifícios escolare s e à con-
tratação de professores, mesmo porque a regularização do fluxo libe-
rará espaços físicos, recursos humanos e recursos financeiros que se-
rão transferidos do ensino fundamental par a o médio. O país terá que
ser capaz de cobrir a necessidade de oferecer alternativas para os que,
fora do grupo de idade, necessitam de um processo mais adequado
do que o convencional, mas com resultados de igual qualidade. Para
os que estão no mer cado de trabalho, é necessário que tenham a tendi-
mento noturno ou a distância e estruturas curriculares e metodologias
adequadas à menor possibilidade de dedicação diária ao estudo. Para
os jovens, cuja principal atividade é sua educação, a escola deve ofere-
cer um tempo maior, diurno, e atividades mais adequadas à cultura
287
juvenil. Enfim, é preciso aumentar a cobertura com estruturas educa-
cionais que per mitam diferentes estratégias de a tendimento às diferen-
tes necessidades. Diversidade é a palavra-chave para a f or mulação de
políticas para o ensino médio.
Outro ponto urgente é que a expansão seja feita junto com a cons-
tituição de uma rede de escolas de ensino médio ou, pelo menos, de
“escolas secundárias”, com instalações para os anos finais do ensino fun-
damental e ensino médio. Colégios com identidade de escolas para jo-
vens e adultos. O cr escimento do ensino médio foi acontecendo sem
que se notasse. A demanda cresceu, os estados abriram cursos de ensino
médio em espaços ociosos do ensino fundamental, nor malmente no
turno da noite. Aumentaram as horas de aula dos professores da segun-
da fase deste mesmo segmento de ensino e assim o segundo grau foi-se
infiltrando na ofer ta escolar. As condições físicas são inadequadas e não
existem condições para a intervenção dos alunos e professor es do ensi-
no médio no espaço escolar, que crie uma identidade favorável à for-
mação de vínculos com a escola. A principal linha de políticas recomen-
dada é a reordenação da rede, que envolva a reorganização da infra-
estrutura física, para otimizar seu uso e “criar” uma escola para jovens,
diferente de uma escola para crianças, e a redistribuição de recursos
humanos para um uso mais adequado dos quadros docentes, técnicos e
administrativos, favorecendo, em especial, a permanência dos professo-
res numa única escola.
A “escola de ensino médio”, contudo, não pode ser confundida
com a existência de um espaço físico que lhe corresponda. O uso de
novas tecnologias algumas não tão novas pode propiciar a consti-
tuição de “escolas virtuais”, mas com identidade própria de “colégi-
os” para jovens e jovens adultos. A utilização da televisão e do rádio,
de materiais impressos com metodologia para a educação a distância,
de Internet, para tutoria e redes de alunos, de outras possibilidades
oferecidas pelos computadores, com uso de softwares, ademais de
outros meios, associados ou não, podem constituir redes alter nati-
vas para situações específicas da clientela ou ár eas g eog ráficas. O que
se necessita é garantir o direito de todos à inserção na etapa final da
educação básica, etapa que tem uma identidade própria. A diversidade
e a f lexibilidade na oferta devem ser princípios para a for mulação de
políticas de universalização.
288
Qual o ensino médio que deve ser universalizado? Uma
concepção para o ensino médio
O ensino secundário deve ser repensado nesta perspectiva de educação ao
longo da vida inteira. O princípio essencial é organizar a diversidade de cami-
nhos educacionais, sem fechar jamais a possibilidade de retornar, posterior-
mente, ao sistema (DELORS, 1998).
A definição da concepção do ensino médio de que o país neces-
sita, para atender às necessidades de hoje e dos anos que seguirão,
deve estar assentada sobre três eixos básicos: a flexibilidade para aten-
der a diferentes pessoas e situações e às mudanças per manentes que
caracterizam o mundo da sociedade da infor mação; a diversidade que
garante o atendimento das necessidades de diferentes grupos em dife-
rentes espaços e a contextualização que, garantindo uma base comum,
diversifique os tr ajetos e per mita a constituição dos signif icados que
sentido à apr endizagem e ao aprendido.
A LDB optou por um desenho que entende o ensino médio
como educação geral, que articula um forte segmento científico e tec-
nológico ao humanismo, com diversidade de trajetos, e pela comple-
mentaridade da educação profissional em relação à educação básica
que pode ser realizada em escolas especializadas ou nas empresas.
Rompeu com o modelo vigente até então, que deter minava uma
solução conciliatória entre os objetivos de preparar para a continua-
ção dos estudoseaformação para o trabalho, num ensino de segun-
do grau profissionalizante, ao qual se somou, depois, uma vertente
exclusivamente propedêutica, cada vez mais subordinada aos proces-
sos seletivos para o ensino superior.
A concepção deste segmento do ensino integra, numa mesma e
única modalidade, finalidades que, até o momento, estavam dissocia-
das, para oferecer, de maneira articulada, uma educação equilibrada,
com funções equivalentes para todos os educandos:
a for mação da pessoa, com o objetivo de desenvolver seus
valores e as competências necessárias para a integração de
seu projeto ao projeto da sociedade em que se situa;
289
a preparação e orientação básicas para a sua integração ao mun-
do do trabalho, com as competências que assegurem seu aper-
feiçoamento profissional e lhe permitam seguir de per to as
mudanças que caracterizam a produção em nosso tempo;
o desenvolvimento das competências para continuar apren-
dendo, de forma autônoma e crítica, em níveis mais comple-
xos de estudo.
O fato de que seja entendida como uma única modalidade não
significa que deve ser vista como única, mas como unitária. Necessita
contemplar a diversidade e deve ter flexibilidade para estruturar-se. Para
alcançar isto, duas condições se fazem necessárias:
a) a adoção de currículos que, concomitantemente, sejam:
diversificados quanto aos conteúdos, enfocando áreas ou núcle-
os de conhecimento que respondam às necessidades da produ-
ção de bens, serviços e conhecimentos e dos indivíduos ou
grupos de indivíduos;
unificados quanto às competências cognitivas, afetivas e sociais,
que precisam ser constituídas sobre a base desses conteúdos di-
versificados, de modo a dar educação geral e comum a todos.
b) A articulação adequada da pr eparação básica para o trabalho, ofereci-
da pelo ensino médio, com a educação profissional, destinada a prepa-
rar para funções de trabalho, no nível técnico ou superior, que se obte-
em estudos posteriores ou diretamente no tr abalho. Nesse sentido, a
preparação para o trabalho no ensino médio será básica, porque:
deverá per mitir a apropriação de conhecimentos que são úteis
ou necessários para um determinado ramo ou área profissio-
nal (a isso se deve a necessidade de diversificar os currículos);
conduzirá à constituição de competências que são indispensá-
veis em todas as profissões (a isso se deve a necessidade de
centrar e unificar a proposta curricular em torno de compe-
tências cognitivas, afetivas e sociais gerais).
290
Na etapa final da educação básica, é preciso que o ensino médio
conclua a vida escolar básica de tal modo que assegure uma base co-
mum a todos os que a tenham cursado, pela própria compreensão do
que é a etapa educativa, um direito de todos que deve favorecer a cons-
trução das fundações para o exercício da vida cidadã uma inserção
social situada, uma possibilidade de inserção econômica plena –. Desse
modo, pressupõe uma unidade de constr ução que tenha por objeto a
igualdade de acesso aos bens econômicos e culturais, cuja premissa seja
a preparação para a vida adulta com autonomia. A Lei de Diretrizes e
Bases da Educação estabelece os resultados finais esperados: i) o domí-
nio das linguagens e dos códigos, com os quais se negociam os significa-
dos no mundo contemporâneo; ii) o domínio dos princípios científicos
e tecnológicos, que mantém a produção em per manente modif icação; e
iii) o domínio dos princípios da organização social e cultural situada no
espaço e no tempo, para a compreensão da produção da humanidade
nos âmbitos das idéias e das relações sociais, políticas e econômicas, em
sua história. Esta unidade à educação básica em geral, e ao ensino
médio em especial, uma identidade que é a fonte de sua unidade.
Por outro lado, seja pelo princípio do respeito à pluralidade cul-
tural ou pelo reconhecimento das diferentes trajetórias de vida e de es-
colaridade e dos diversos projetos de vida, é necessário que o segmento
final da educação básica seja diferente. A diversidade é um princípio
estruturador do ensino médio tanto como sua unidade. Este é o primei-
ro paradoxo aparente que a reforma do ensino médio deve enfrentar
para cumprir seus objetivos. Como estabelecer diretrizes e parâmetros
nacionais que reconheçam e respeitem a diversidade? Os fundamentos
de uma estética da sensibilidade, de uma política da igualdade e de uma
ética da identidade contêm este paradoxoeoresolvem, sem dissolvê-lo,
numa dialética que ar ticula crenças contraditórias. Mas, como a prática
pedagógica e sua avaliação podem ser exercidas de tal modo que sejam
preser vadas, de forma dialógica, estas lógicas? Um conjunto de princí-
pios educacionais, epistemológicos e pedagógicos dialoga para indicar
diretrizes que, mantendo a tensão do paradoxo, sustentam práticas pe-
dagógicas que o resolvam.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (DCNEM),
aprovadas em junho de 1998 pela Câmara de Educação Básica do Conselho
Nacional de Educação, estabelecem, a partir desses fundamentos e princípios,
291
um cor po doutrinário e normativo que deve orientar a f ormulação dos
projetos pedagógicos e das matrizes curriculares das escolas brasileiras de
ensino médio. Mais que diretrizes curriculares, estas normas constroem uma
concepção para este segmento da educação básica.
Este desenho indica a necessidade de se construir novas alternati-
vas de org anização curricular comprometidas, por um lado, com o novo
significado do trabalho e, por outro, com o sujeito at ivo, a pessoa que se
apropriará desses conhecimentos para aperfeiçoar-se como tal, no mundo
do trabalho, nos estudos posteriores e na prática social.
As competências que o educando deve demonstrar, ao final do
ensino médio, requerem, na construção do currículo desse ensino, um
compromisso com o mundo do trabalho e com a prática social, dentro
de uma dimensão do aperfeiçoamento do educando, incluindo a for-
mação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensa-
mento crítico.
Os fundamentos filosóficos e os princípios educacionais
O conhecimento converteu-se no fator principal da produção e
numa necessidade básica para a vida ativa na sociedade. Aprender a
aprender se coloca como competência fundamental para a inserção numa
dinâmica social que se reestrutura continuamente. A perspectiva é, então,
a de uma apr endizag em permanente, de uma formação continuada, com
vistas à construção e exercício da cidadania.
O relatório Delors, solicitado pela UNESCO, que faz uma reflexão
e apresenta recomendações para a educação no cor rente milênio, indica
quatro eixos para apoiar a idéia da educação ao longo da vida inteira: apren-
der a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.
Ao preconizar o aprender a conhecer, são consideradas as rápi-
das transformações causadas pela evolução do conhecimento científ ico
e do processo tecnológico, as novas for mas de atividade econômica e
social e a importância de uma educação geral, suficientemente ampla,
com possibilidade de apr ofundamento numa determinada área do co-
nhecimento. Essa educação geral constitui o passaporte par a a educação
per manente, na medida em que proporciona as bases para continuar
aprendendo ao longo da vida.
292
O aprender a fazer tem suma importância para o desenvolvimen-
to de habilidades que tornem possível enfrentar novas situações, privile-
giando a aplicação da teoria à prática e enriquecendo a vivência da ciên-
cia na tecnologia, e destas, no social, por sua significação no desenvolvi-
mento da sociedade contemporânea. Está identificado com uma estéti-
ca da sensibilidade.
O aprender a convive r e o aprender a ser resultam da integração
dessas aprendizagens anteriores e devem constituir ações permanentes, cujo
propósito seja a formação do educando como pessoa inteira, como cidadão.
A estética da sensibilidade, a política da igualdad e e a ética da
identidade devem fundamentar, pois, o novo conceito de ensino médio.
É necessário que a criatividade, o espírito inventivo, a curiosidade pelo
inusitado e a afetividade estejam apoiados por identidades capazes de sus-
tentar a inquietude, conviver com o incerto e o imprevisível, acolher e conviver com a
diversidade, valorizar a qualidade, a delicadeza, a sutileza”. A pluralidade cultu-
ral e uma concepção de qualidade, baseada no permanente aperfeiçoa-
mento, são as bases de uma estética da sensibilidade. A política da igual-
dade, onde o acesso aos bens sociais e culturais, o reconhecimento e o
exercício dos direitos humanos e dos deveres e direitos da cidadania, o
respeito ao bem comum, o destaque e a responsabilidade no âmbito
público e privado. O r econhecimento, r espeito e acolhimento da identi-
dade do outro, a solidariedade, a r esponsabilidadeeareciprocidade,
como orientadoras dos atos da vida, devem ser princípio de uma ética
da identidade que infor me todo o ato de ensinar e de aprender
(BRASIL.MEC.CEB/CNE, 1998).
Destes fundamentos derivam os princípios de diversidade, auto-
nomia e identidade que precisam orientar os projetos educacionais dos
sistemas, das escolas, dos professores e dos alunos. Os sistemas devem
estimular a diversidade de projetos escolares, a busca da autonomia e a
manifestação da identidade das escolas. Estas devem favorecer e reco-
nhecer a diversidade de seus coletivos e dos indivíduos que as com-
põem, construindo projetos que a contemplem; devem traçar o cami-
nho de sua autonomia, porque a autonomia escolar é uma constr ução,
não pode ser outorgada; é preciso desvendar sua identidade, para reve-
lá-la em seu projeto pedagógico. Para isso, este tem que ser um projeto
coletivo, da comunidade interna e exter na de cada escola. A prática pe-
293
dagógica, principalmente, necessita considerar estes princípios como sua
base. A diversidade de propostas e de resultados e a autonomia dos
processos devem ser cotidianas, como reconhecimento da identidade e
respeito da alteridade, para a constituição de identidades autônomas.
Os fundamentos epistemológicos e os princípios
pedagógicos
As DCNEM tomam como pressuposições que o conhecimento
é uma construção coletiva, resultado de interações cognitivas e socio-
afetivas; que as linguagens são indispensáveis para a constituição de co-
nhecimentos e competências, que os conteúdos curriculares são fins em
si mesmos, sem meios básicos para constituir competências cognitivas
ou sociais, priorizando-as sobre as info r mações.
Philippe Perrenoud (1999) pergunta, no início de um de seus li-
vros: Depois de tudo, freqüenta-se a escola para se adquirir conhecimentos ou para
se desenvolver competências?”, e, a seguir, afirma: Esta pergunta oculta um mal-
entendido e designa um verdadeiro dilema”. O mal-entendido, segundo o autor,
seria a idéia de que, ao estimular a construção de competências, desiste-
se de transmitir conhecimentos. O verdadeiro dilema seria a compatibi-
lização entre o tempo necessário para o desenvolvimento de competên-
cias e o necessário para distribuir (sic) conhecimentos.
Creio que sua abordagem contém vários mal-entendidos sobre
os quais não vou me deter aqui, pois isto escapa do objetivo deste texto.
Contudo, é relevante esclarecer dois deles e superar o f also dilema de
centrar a aprendizag em nos conhecimentos ou nas competências. Pri-
meiro, é preciso desvendar o processo de apropriação dos saberes soci-
almente construídos e da construção dos esquemas de estruturação e
mobilização destes saberes e de sua relação.
A escola deve oferecer os conhecimentos produzidos pela humanidade,
em seu processo histórico, que são significativos para a inclusão de cada
grupo de alunos em cada etapa de sua escolarização e de sua vida, os cami-
nhos para se ter acesso a estes conhecimentos e os que venham a ser produ-
zidos e as competências para significá-los, mobilizá-los, colocá-los em ação
(BERGER FILHO, 1999).
294
A construção do conhecimento pressupõe a construção de seu
próprio saber, a construção de competências e a aquisição dos saberes
construídos pela humanidade. Construir competências não pressupõe
abandonar a apropriação de conhecimentos nem a construção de novos
conhecimentos; pelo contrário, esses processos são articulados sistemi-
camente. As competências são “modalidades estruturais da inteligência ou, me-
lhor, ações e operações que utilizamos para estabelecer relações com e entre objetos,
situações, fenômenos e pessoas que desejamos conhecer (BRASIL.MEC.INEP,
1998). São operações mentais estruturadas em rede que, ao mobiliza-
rem-se, per mitem a incorporação de novos conhecimentos e sua inte-
gração significativa a esta rede, possibilitando a reativação de esquemas
mentais e saberes em novas situações, de maneira sempre diferenciada.
O segundo mal-entendido: como conseqüência do entendimento
anterior, não podemos fazer uma dicotomia dos tempos de cada uma
daquelas produções. Não tempos diversos, processos simultâneos
e indissociáveis. Portanto, construir competências pressupõe apropriar-
se de conhecimentos. Não obstante, o que g arante a unidade é a cons-
tr ução de um currículo, de um projeto escolar e de uma prática pedagó-
gica, mesmo na avaliação, centrada nas competências. Mas também é
esta centralidade o que possibilitará a diversidade, e não uma organiza-
ção do processo baseada na transmissão de um conjunto de conteúdos
selecionados e re-significados pela transposição didática de disciplinas,
ciências ou campos do saber. A seleção dos conhecimentos, que deve-
rão ser trabalhados na sala de aula, a opção pelos contextos de onde vão
ser extraídos tais conhecimentos e para onde eles retornarão como reu-
tilização de conceitos e geradores de novos conhecimentos e as relações
interdisciplinares que restabelecerão, vão diversificar o currículo vivo, na
sala de aula. A contextualização e a interdisciplinaridade são dois princí-
pios pedagógicos definidos como fundamentais pelo DCNEM.
Três são os eixos que de vem ser ar ticulados para uma contextua-
lização que, ao diversificar a atividade de aprendizagem, oferece a opor-
tunidade de significação pelo aluno dos saberes que devem ser apropri-
ados, de tal modo que produzam um verdadeiro aprendizado: i) tem-
poral; ii) espacial; e iii) epistemológico.
O eixo temporal deve per mitir a ar ticulação do saber : i) no con-
texto do tempo de sua produção uma sincronia que o situe pelas
relações com outros saberes, com a prática social e com a organização
295
do mundo do trabalho; ii) com as mudanças produzidas ao longo da
história, a partir de uma perspectiva diacrônica, que a relativizem na
perspectiva histórica de longa duração; e iii) com a perspectiva da sin-
cronia de seu tempo.
Na perspectiva espacial, as relações de contigüidade são o fio con-
dutor que parte dos contextos próximos ao alun o o espaço local para
alcançar os contextos mais distantes global. É necessário prestar muita
atenção para que a significação gerada pela contextualização não se reduza
apenas aos contextos mais próximos, sob pena de se limitar o sentido do
que foi apropriado, perdendo o significado da a prendizag em neste seg-
mento educacional que, para for mar para a cidadania, deve situá-la no
mundo. A relação metonímica pressupõe uma relação todo-parte.
A dimensão epistemológica gera o espaço da interdisciplinaridade.
As relações de um saber com o conjunto dos saberes produzidos são uma
contextualização, que permite a integr ação do conhecimento pela compre-
ensão da economia dos conhecimentos, de sua complementaridade.
A organização curricular
A organização curricular está distribuída em três áreas: i) Lingua-
gens, códigos e suas tecnologias; ii) Ciências da natureza, Matemática e
suas tecnolo gias; ii) Ciências humanas e suas tecnologias. Para cada uma
dessas áreas foi definido um conjunto de competências básicas, espera-
das como resultado final do ensino médio, que se constituem na Base
Nacional Comum:
Ar t. 10 A Base Nacional Comum dos cur rículos do ensino
médio será org anizada em áreas de conhecimento, a saber :
1) Linguagens, códigos e suas tecnologias, tendo por objeto a
constituição de competências e habilidades que permitam ao educando:
a) Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes lingua-
gens como meios de organização cognitiva da realidade pela cons-
tituição de significados, e xpressão, comunicação e informação.
296
b) Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes lingua-
gens e suas manifestações específicas.
c) Analisar, interpretar e aplicar os recursos expressivos das lingua-
gens, relacionando textos com seus contextos, mediante a nature-
za, função, organização, estr utur a das manifestações, de acordo
com as condições de produção e rece pção.
d) Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna,
geradora de significação e integradora da organização do mundo
e da própria identidade.
e ) Conhecer e usar língua(s) estrangeiras(s) moderna(s) como instrumento
de acesso a infor mações e a outr as culturas e grupos sociais.
f) Entender os princípios das tecnologias da comunicação e da
informação, associá-las com os conhecimentos científicos, com as
linguagens que lhes dão suporte e com os problemas que se propõem
a resolver.
g) Entender a natureza das tecnologias da infor mação como inte-
gr ação de diferentes meios de comunicação, linguag ens e códi-
gos, assim como a função integradora que elas estão exercendo
em sua relação com as demais tecnologias.
h) Entender o impacto das tecnologias da comunicação e da infor-
mação em sua vida, nos processos de produção, no desenvolvi-
mento do conhecimento e na vida social.
i) Aplicar as tecnologias de comunicação e da informação na esco-
la, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida.
2) Ciências da natureza, Matemática e suas tecnologias, tendo por objetivo
a constituição de habilidades e competências que permitam ao educando:
a) Compreender as ciências como construções humanas, entenden-
do como elas se desenvolvem pela acumulação, continuidade ou
ruptura de paradigmas, relacionando o desenvolvimento científi-
co com a transfor mação da sociedade.
b) Entender e aplicar métodos e procedimentos próprios das ciênci-
as naturais.
c) Identificar variáveis relevantes e selecionar os procedimentos ne-
cessários para a produção, análise e interpretação de resultados de
processos ou experimentos científicos e tecnológicos.
297
d) Compreender o caráter aleatório e não determinista dos fenôme-
nos naturais e sociais e utilizar instrumentos adequados para medi-
das, deter minação de amostras e cálculo de probabilidades.
e) Identificar, analisar e aplicar conhecimentos sobre valores de va-
riáveis, representados em gráficos, diagramas ou expressões al-
gébricas, realizando previsão de tendências, extrapolações e in-
terpolações e inter pretações.
f) Analisar qualitativamente dados quantitativos representados gráfi-
ca ou algebricamente relacionados com contextos socioeconômi-
cos da física, química e da biologia e aplicar tais conhecimentos
para explicar o funcionamento do mundo natural, planejar, exe-
cutar e avaliar ações de intervenção na realidade natural.
g) Identificar, representar e utilizar o conhecimento geométrico para
o aperfeiçoamento da leitura, da compreensão e da ação sobre a
realidade.
h) Entender a relação entre o desenvolvimento das ciências naturais e o
desenvolvimento tecnológico e associar as diferentes tecnologias com
os problemas que se propuseram e propõem solucionar.
i) Entender o impacto das tecnologias associadas com as ciências
naturais em sua vida pessoal, nos processos de produção, no
desenvolvimento do conhecimento e na vida social.
j) Aplicar as tecnologias associadas com as ciências naturais na es-
cola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida.
Compreender conceitos, procedimentos e estratégias matemáti-
cas e aplicá-las a situações diversas no contexto das ciências, da
tecnologia e das atividades cotidianas.
3. Ciências humanas e suas tecnologias, tendo como objetivo a
constituição de competências e habilidades que permitam ao educando:
a) Compreender os elementos cognitivos, afetivos, sociais e cultu-
rais que constituem a identidade própria e dos outros.
b) Compreender a sociedade, sua gênese e transf ormação e os múl-
tiplos fatores que nela intervêm, como produtos da ação huma-
na; compreender a si mesmo, como agente social; compr eender
os processos sociais como orientadores da dinâmica dos dife-
rentes g r upos de indivíduos.
298
c) Compreender o desenvolvimento da sociedade como um pro-
cesso de ocupação de espaços físicos e as relações da vida hu-
mana com a paisagem, em seus desdobramentos político-soci-
ais, cultur ais, econômicos e humanos.
d) Compreender a produção e o papel histórico das instituições soci-
ais, políticas e econômicas, associando-as com as práticas dos dife-
rentes grupos e atores sociais, com os princípios que regulam a
convivência na sociedade, com os direitos e deveres da cidadania,
com a justiça e com a distribuição dos benefícios econômicos.
e) Traduzir os conhecimentos sobre a pessoa, a sociedade, a econo-
mia, as práticas sociais e culturais em condutas de questionamen-
to, análise, problematização e destaque ante situações novas, pro-
blemas ou questões da vida pessoal, social, política, econômica e
cultural.
f) Entender os princípios das tecnologias associadas com o conhe-
cimento do indivíduo, da sociedade e da cultura, entre as quais se
encontram as de planejamento, org anização, g estão, trabalho de
equipe e associa-las com os problemas que se propõem r esolver.
g) Entender o impacto das tecnologias associadas com as ciências
humanas sobre sua vida pessoal, os processos de produção, o
desenvolvimento do conhecimento e a vida social.
h) Entender a importância das tecnologias contemporâneas de co-
municação e infor mação para o planejamento, gestão, or g aniza-
ção, for talecimento do trabalho em equipe.
i) Aplicar as tecnologias das ciências humanas e sociais na escola, no
trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida”
(BRASIL.MEC.CEB/CNE, 1998).
A Base Nacional Comum dos currículos do ensino médio deverá
contemplar as três ár eas do conhecimento. A estrutura cur ricular se com-
põe também de uma Parte Diversificada, que poderá ser variada a cada
ano, considerando as características locais e seu alunado, e que pode ser
constituída por projetos ou programas definidos por seus professores
e/ou alunos. A Parte Diversificada deverá ser organicamente inte g rada
com a Base Nacional Comum, por contextualização e por complemen-
tação, diversificação, enriquecimento e desdobramento, entre outras for-
299
mas de integ ração. A org anização da matriz cur ricular e a ocupação dos
espaços curriculares de cada escola são uma atribuição desta mesma e
devem ser definidas por seu pr ojeto pedagógico.
Não dissociação entre a for mação g eraleapreparação básica
para o trabalho nem esta última se confunde com a for mação pr ofissi-
onal. A preparação básica para o trabalho deve estar presente tanto na
Base Nacional Comum como na Parte Diversificada. A educação básica
mantém uma relação de complementaridade com a educação profissio-
nal, que deve capacitar jovens e adultos com competências e habilidades
gerais e específicas para o e xercício de atividades produtivas.
A complementaridade da educação profissional na relação com a
educação básica é o mecanismo que per mite a f lexibilidade que se pre-
coniza, tanto na ar ticulação entre elas como dentro de cada uma delas.
Este desenho indica a necessidade de se construir novas alternativas de
org anização cur ricular comprometidas, por um lado, com o novo signi-
ficado do trabalho e, por outro, com o sujeito ativo, a pessoa que se
apropriará desses conhecimentos para aperfeiçoar-se, como tal, no mun-
do do trabalho, em estudos posteriores e na prática social.
Êxito escolar: A qualidade como aperf eiçoamento permanente
Um dos maiores desafios da r efor ma do ensino médio, no Brasil,
é a compatibilização entre a necessária expansão da oferta, para atender
à demanda que está crescendo nos últimos anos, e os esforços no senti-
do de se melhorar a qualidade da oferta atual e assegurar qualidade na
expansão. Trata-se de uma massificação do ensino médio que deve estar
acompanhada por uma melhoria da qualidade, garantindo-lhe o papel
de inclusão social.
Historicamente, a expansão do ensino fundamental, nos anos 70,
não significou a simultânea melhoria da qualidade. Pelo contrário, o que se
viu foi um desmoronamento progressivo da escola pública e uma expan-
são desenfreada da escola privada, que nem sempre preservava padrões
mínimos de qualidade. Pressionado por essa expansão, o ensino médio
chegou a perder espaços, comprometendo a tradição de escolas públicas
de referência, de ensino médio, nas g randes cidades do país.
300
Nesse sentido, são várias as políticas formuladas pelo Ministério
da Educação, com vistas à melhoria da qualidade da ofer ta de ensino
médio e que deverão ser postas em prática, mediante uma ação com-
par tilhada entre os poderes públicos, federal e dos estados.
O grande eixo de ação se situa na centralidade que se atribui à
melhoria do pr ocesso pedagógico, dentro das escolas, e à esfera admi-
nistrativa central como atividade-meio cabe uma ação fomentadora
e subsidiadora da atividade-fim. Isso requer, por um lado, a melhoria da
prática pedagógica, assegurada pela construção efetiva, nas escolas, de
uma pedagogia inovadora amparada nos princípios descritos e, por
outro, a melhoria da prática político-administr ativa, que ampara a pri-
meira. No apoio a tais campos situados na escola a ação pedagógica e
a ação político-administrativa repousa a ação gerencial dos sistemas
federal e estaduais, que deverão conduzir à autonomia progressiva das
escolas nas esferas pedagógica, administrativa e financeira.
Portanto, um primeiro foco de for mulação das políticas para o
ensino médio tem sua raiz na melhoria dos processos de gestão: a ges-
tão da sala de aula, a saber: do currículo e da aprendizagem; a gestão da
escola, ou seja, do projeto escolar; e a gestão dos órgãos centrais e inter-
mediários, ou seja, dos g estores dos sistemas educacionais. No centro
está a escola, cujo projeto pedagógico é constr uído e permanentemente
reconstruído pela comunidade escolar, na articulação entre professores,
gestores, alunos e comunidade imediata.
As bases da ação pedagógica inovadora estão na formação conti-
nuada dos professores e no desenvolvimento dos recursos e metodolo-
gias adequadas à nova conce pção curricular. Por sua vez, a g estão esco-
lar inovadora repousa na formação continuada dos gestores e no desen-
volvimento de uma cultura de planejamento estratégico escolar e avalia-
ção institucional.
A melhoria desses processos de gestão, intrínsecos à escola, se
produz na medida em que a gerência dos sistemas educacionais esteja
apta para coordenar uma série de eixos de políticas capazes de subsidiar
o processo de transformação e melhoria.
O primeiro eixo de políticaséodegestão, que de verá assegurar
às escolas o necessário apoio técnico-financeir o e a consolidação dos
sistemas de infor mação, planejamento e avaliação, que g arantem a efeti-
301
va constr ução da autonomia escolar. No plano pedagógico, o eixo de
gestão coordenará a criação de estruturas infor mais, não burocratizadas
nem hierarquizadas de apoio às escolas, concretizadas na forma de re-
des de apoio, for madas por professores e g estores identificados por
sua ação inovadora, que serão estrategicamente importantes para a cons-
trução de novos desenhos curriculares nas escolas, assim como para a
elaboração de seus projetos.
O segundo eixo de políticaséodoatendimento, que deverá, por
um lado, g arantir a expansão da ofer ta, mediante a reordenação da rede
pública de escolas. Essa reordenação, prévia a qualquer ação de constr u-
ção e de ampliação de estruturas físicas, está baseada na racionalização
do uso dos recursos materiais e humanos, fazendo-se uma redistribui-
ção de edifícios, móveis, equipamentos, profissionais e matrículas, de
acordo com a necessidade e conveniência efetivas. A finalidade dessa
reordenação é a construção de uma “escola para jovens”, adequada do
ponto de vista do g r upo etário, que se atende, e dos recur sos que estão
disponíveis para esse atendimento. Entr e suas vantagens, está a fixação
do professor numa escola, a reorganização e adaptação do espaço
interno para atender melhor os alunos jovens e jovens adultos,eame-
lhor utilização dos recursos materiais e financeiros.
Além dessa ação direta de planejamento e reestr uturação, a f ixa-
ção de padrões básicos de qualidade e o conseqüente apoio às escolas,
proporcionando-lhes recursos e propiciando o desenvolvimento de no-
vas metodologias, contribuem para assegurar a melhoria da qualidade.
Um conjunto de políticas e ações, também vinculado a uma po-
lítica de atendimento, que assegure não a qualidade, mas também a
eqüidade na oferta, é a adoção de estratégias diversificadas de atendi-
mento, que solucionem a impossibilidade da oferta convencional, medi-
ante a educação a distância, ou das especificidades especiais, mediante
adaptações nos currículos ou nos materiais e metodologias.
Um terceiro eixo de políticas corresponde às ações de valorização
dos agentes do processo de aprendizagem: professores, equipamentos téc-
nicos e alunos. Aos profissionais deverão ser assegurados prêmios e incenti-
vos, que permitam a identificação, o fomento e a difusão de experiências
inovadoras, ademais de estágios e intercâmbios, que sir vam para ampliar as
experiências profissionais e pessoais. Nessa mesma linha, a ação mestra é a
302
constituição de pr ogramas de acesso a bens culturais e da informação que
assegure aos profissionais a aquisição de livros, periódicos e outros bens
culturais, tais como espetáculos diversos, CD-Roms, fitas de vídeo, além de
computadores e acesso à Internet. A concretização de tal política prevê um
enorme impacto no desenvolvimento profissional do professor.
No que diz respeito aos jovens alunos, a política de valorização
está centrada na incorporação da cultura juvenil à prática quotidiana da
escola, mediante o apoio à associatividade e à inserção curricular de
projetos for mulados e administrados pelos próprios alunos, com o que
se contribui par a a formação de sua autonomia como cidadãos.
O quarto grande eixo de políticas, que congrega várias das ações
dispostas nos eixos anteriores, é o da for mação continuada dos prof is-
sionais da educação. A conce pção central de formação continuada está
radicada no conceito de autoformação das equipes escolares, centrada
no entendimento de que o professor deve ser o responsável por seu
próprio desenvolvimento profissional. Atribuir ao profissional essa res-
ponsabilidade, contudo, não significa faze r recair sobre seus ombros
o peso da ação. Uma vez mais, o papel dos ór gãos g estores se mostra
fundamental para a sustentação da escola.
A concepção de autoformação implica o reconhecimento do fra-
casso dos modelos tradicionais de ca pacitação, por ofer ta de cur sos de
reciclagem ou de atualização, e a constr ução de novas estratégias de ca-
pacitação, que se desenvolvam por demanda, estejam centradas nas equi-
pes escolares e se desencadeiem nas próprias escolas, mais per to, por-
tanto, da realidade efetiva dos profissionais, que são o objetivo da ação
de capacitação.
Neste eixo, a própria difusão dos princípios e documentos ori-
entadores da refor ma diretrizes e parâmetros curriculares nacionais
e a elaboração dos projetos escolares são ações de capacitação.
Os estágios e intercâmbios, bem como o acesso a bens culturais, são
igualmente estratégias importantíssimas centradas no próprio desen-
volvimento pro fissional. Por fim, a constituição das redes de apoio às
escolas, for madas pelos próprios profissionais e não por especialistas
alheios à realidade escolar , é a grande chave, tanto para a concretiza-
ção da autofor mação como para a concretização da efetiva capacida-
de de autonomia do profissional.
303
Financiamento
Pela legislação em vigor, a esfera em nível dos estados é respon-
sável pela ofer ta e pelo financiamento do ensino médio, e estão previs-
tas sua progressiva expansão e obrigatoriedade. Ao governo federal cor-
responde a ação redistributiva e supletiva.
Neste sentido, estão sendo empreendidos vários estudos e se en-
contram em curso diversas ações, cujo objetivo é o estabelecimento de
uma política de longo prazo da esfera federal de financiamento para o
ensino médio e profissional, tendo como perspectiva o apoio à implan-
tação da refor ma e à manutenção do a tendimento universalizado, gra-
tuito e de qualidade.
Um primeiro passo nessa direção está sendo dado com a implan-
tação do PROEP e do “Projeto Escola Jovem”, financiados, parcial-
mente, com recursos externos e dedicados ao ensino profissional e mé-
dio, respectivamente. Em ambos os casos, os empréstimos são contra-
ídos pelo governo federal, com a maior parcela dos recursos transferi-
dos para as unidades da f ederação, mediante a aprovação de pr ojetos
de investimento compatíveis com a refor ma. Em temos financeiros, no
caso do PROEP, todo investimento é feder al, proveniente de recursos
externos e contrapartida nacional composta por recursos do orçamento
do Ministério de Educação e do Fundo de Amparo ao Trabalhador; no
segundo caso, do “Projeto Escola Jovem”, cabe a cada unidade federa-
da aportar apenas os recursos relativos à contrapartida, que é diferenci-
ada, segundo a capacidade econômica de cada uma delas, e varia entre
60% e 40% do total do investimento.
O DESAFIO DA IMPLANTAÇÃO
A refor ma derivada desta concepção para o ensino médio está
estruturada num conjunto de outras políticas que se referem ao conjunto do
sistema educacional brasileiro, formado sobre a base da política educacional
do gov erno de F ernando Henrique Cardoso. Desenvolveu-se uma concepção
curricular para a educação infantil e para a educação fundamental, em suas
diferentes modalidades. Distribuíram-se e difundiram-se Parâmetros
304
Curriculares Nacionais ou Referências Curriculares e se iniciou um processo
de formação continuada para os professores.
O financiamento do ensino fundamental foi equacionado com a
constituição do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e
Valorização do Magistério o FUNDEF, com financiamento baseado
nas matrículas de cada r ede de ensino. A política do livro didático f oi
revisada. Descentralizaram-se recursos diretamente para a escola e fi-
nanciamento da alimentação escolar diretamente para os municípios.
Fomentaram-se prog ramas de cor reção do fluxo escolar. Estes e outros
programas estão em desenvolvimento e apresentam seus primeiros re-
sultados positivos.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais INEP,
órgão vinculado ao Ministério da Educação, foi reestrutur ado, ficando
como r esponsável pelas infor mações educacionais e pela avaliação. A
avaliação do ensino médio está inserida no conjunto do sistema nacional
de avaliação, como par te do Sistema Nacional de Avaliação da Educa-
ção Básica (SAEB) e conta, além disso, com um exame próprio, o Exa-
me Nacional do Ensino Médio (ENEM). O SAEB é uma avaliação do
sistema de ensino, mediante a técnica da amostr ag em, realizada a cada
dois anos, que analisa os resultados dos alunos com base no currículo
praticado pelos estados, no 4
o
e8
o
ano de estudos do ensino fundamen-
taleno3
o
ano do ensino médio. O ENEM foi concebido junto com a
reform a do ensino médio e compartilha, portanto, dos mesmos princí-
pios. É um e xame de saída, não-obrigatório, cujo objetivo é oferecer
uma referência, ao final do ensino médio, em relação às competências
construídas pelo aluno ao longo da educação básica, e pode ser utiliza-
do para processos seletivos, com vistas à continuação de estudos ou ao
mercado de trabalho.
O ensino superior está iniciando, ag ora, um movimento de refor-
ma, com a preparação de uma lei de autonomia das universidades e
com a reestr uturação da conce pção cur ricular.
O ensino médio e a educação profissional passaram, nos primeiros
quatro anos do g over no, por um processo de estudos e revisão de sua
concepção, de constituição do quadro normativo para as refor mas e de
for mulação das políticas. Depois dos esforços par a a votação, no
Congresso Nacional, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
preparou-se o decreto de regulamentação da educação profissional e
305
suas relações com a educação básica. Em articulação com as unidades
da federação, constr uír am-se os Parâmetros Cur riculares Nacionais para
o Ensino Médio e os Referenciais Curriculares para a Educação
Profissional. Estes documentos de referência foram a base para a
proposta de Diretrizes Curriculares Nacionais que o Ministério da
Educação dirigiu ao Conselho Nacional de Educação e, depois, que este
as definiu, foram revistos à luz de suas resoluções.
A implantação da refor ma do ensino médio no Brasil está ampa-
rada por um prog rama bastante amplo de investimentos, financiado,
parcialmente, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID),
com o propósito de melhorar e expandir a oferta, visando garantir a
qualidade da aprendizagem ao número crescente de jovens que desejam
ingressar nas escolas de ensino médio.
O programa, denominado “Projeto Escola Jovem”, tem como
meta a criação de uma escola específica para os jovens e jovens adultos,
separada das escolas dedicadas às crianças e equipada de forma adequa-
da para cobrir as necessidades dos alunos jovens.
O projeto se estrutura em dois subprogramas: um subprograma
nacional que será executado pelo Ministério de Educação e o subprogra-
ma das Unidades da Federação, para ser executado pelas 27 unidades
federadas, que cumpram determinadas condições prévias, a saber: a ado-
ção de um plano de reordenamento e racionalização de sua rede de esco-
las, ações de correção do fluxo escolar de ensino fundamental, a instituci-
onalização de um órgão gestor próprio para o ensino médio, no marco
de cada Secretaria, e a disponibilidade financeira para a contrapartida.
O subprograma das Unidades da Federação, dependente da elabo-
ração de cada Secretaria de Educação de um pr ojeto de investimento, deve-
escolher os componentes e as atividades consideradas pertinentes e prio-
ritárias, segundo o contexto local. Tais componentes e atividades cor res-
pondem exatamente aos eixos de políticas descritos no item êxito escolar; a
qualidade como aperfeiçoamento permanente”, referente à melhoria da qualidade da
educação. Formam um elenco de itens financiáveis, que podem ser escolhi-
dos por cada uma das Secretarias, que deverão ser apropriados por elas na
formulação de seu projeto específico.
O subprograma nacional se divide em quatro grandes compo-
nentes: de formulação de políticas, de execução de políticas, de acom-
panhamento e avaliação e de comunicação social. Sua concretização per-
306
mitirá a execução de ações de caráter universal destinadas a compensar
as disparidades entre os diversos estados, que alguns encontrarão
maiores obstáculos na implantação da ref or ma e na montag em de um
projeto de investimento, diante das dificuldades financeiras.
Os componentes de formulação de políticas têm como objetivo
a produção de um referencial teórico-operacional, que fundamente as
diversas ações e pr og ramas a serem adotados. As linhas de formulação
de políticas pretendem cobrir todas as esferas de ação envolvidas no
processo de refor ma. Elas são:
articulação política com as Secretarias de Educação das Unidades
Federadas, dirigida para a construção de estratégias de ação con-
junta, assistência técnica, bem como de acompanhamento da im-
plantação da reforma, no âmbito das Unidades Federadas;
for mação inicial e continuada de professores e gestores, res-
ponsável pela definição de novos modelos de for mação tanto
inicial como continuada, que se ocupem das inovações intro-
duzidas pelo novo paradigma curricular adotado;
gestão escolar e de sistemas educacionais, na qual se concebem
as principais estratégias para a melhoria dos processos de gestão
educacional e se geram subsídios para a concretização das mes-
mas estratégias, abrangendo a racionalização do uso da rede de
escolas, a instituição de mecanismos de apoio à implementação
da reforma e construção dos projetos pedagógicos nas escolas;
desenvolvimento curricular, que engloba a definição de novos de-
senhos curriculares e a produção de subsídios aos professores, no
que se refere aos esclarecimentos de conceitos gerais da nova con-
cepção curricular e educacional, bem como de conceitos específi-
cos das áreas de conhecimento previstas no currículo;
desenvolvimento de materiais pedagógicos e metodologias, res-
ponsável pela for mulação da política nacional para a produ-
ção e distribuição de materiais pedagógicos para as escolas e
para o desenvolvimento de novas metodologias, com vistas a
propiciar a melhoria na produção e utilização destes;
desenvolvimento do uso de tecnologias educacionais, que desdo-
bre a linha anterior, centrando-se sobre o uso educacional das
tecnologias de comunicação e informação;
307
mobilização e projetos juvenis, que prevêem a definição de estra-
tégias para envolver os próprios alunos, de forma ativa e organi-
zada, no processo de implementação da reforma, ademais de as-
segurar a inserção curricular de projetos de sua apropria iniciativa;
financiamento, que tem por objeto a realização de estudos r elati-
vos ao financiamento vigente e à institucionalização de mecanis-
mos permanentes de financiamento do ensino médio.
O componente de formulação tem seu desenvolvimento na execu-
ção de políticas e está amparado num conjunto de estratégias de difusão,
fomento e capacitação. Na linha de difusão, tanto os princípios da reforma
como as políticas de implementação da execução estão sendo amplamente
discutidos com os setores envolvidos de forma direta na reforma, tais como
professores, alunos e gestores educacionais, por meio da publicação de bo-
letins e revistas informativas, a realização de seminários, eventos e teleconfe-
rências, além de programas televisados, com recepção organizada nas esco-
las e órgãos gestores. Outra estratégia importante para a difusãoéarealiza-
ção de concursos com prêmios, destinados a identificar experiências inova-
doras realizadas nas escolas, tanto no que se refere ao desenvolvimento cur-
ricular como ao desenvolvimento de novas metodologias e materiais. Tais
experiências, uma vez avaliadas, serão difundidas por meios eletrônicos e
impressos com o fim de levar à realização de novas mudanças e inovações.
Na linha de fomento, também estão previstos concursos que permi-
tirão identificar projetos, que devem ser apoiados técnica e financeiramente
em seu desenvolvimento. Serão financiados, além disso, três projetos dirigi-
dos ao uso de novas tecnologias, que têm o objetivo de apoiar o trabalho
dos professores: a ela boração, produção e disponibilidade, no âmbito naci-
onal, de um curso de ensino médio regular a distância, a implementação da
Rede Internacional de Educação Virtual (International Virtual Educational
Network), integrada a outros países da América Latina e Caribe, e a instala-
ção de um centro de referência virtual para professores, na página do Mi-
nistério de Educação na Internet, que contém indicações de pesquisa e
orientações para o planejamento das atividades escolares.
A capacitação está sendo desenvolvida mediante a produção, pub li-
cação e distribuição dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino
Médio, que contêm os textos legais e um conjunto de referências de apoio
ao professor; a produção de uma banda de programação para o ensino
308
médio transmitida pelo canal de televisão do Ministério da Educação, e a
produção e distribuição para as escolas e órgãos gestores de uma série de
“caixas de ferramentas” para a implementação da reforma.
Os parâmetros foram produzidos por consultores das três áreas do
novo currículo, num processo que acompanhou de perto a formulação da
reforma como um todo e orientou o trabalho de sistematização realizado
pelo Conselho Nacional de Educação. Tais parâmetros estão sendo distri-
buídos e transmitidos para as Secr etarias de Educação, universidades, edito-
res de livros didáticos, professores e para todas as escolas de ensino médio
do país, públicas e privadas, em diversos formatos, impressos e eletrônicos.
A TV Escola, que vinha atendendo, nos últimos anos, as escolas do
ensino fundamental, iniciou pouco uma nova fase, que inclui uma pro-
gramação especialmente concebida para apoiar a implementação da refor-
ma do ensino médio. São programas de uma hora de duração, exibidos de
segunda a sexta-feira e transmitidos por satélite às escolas do país, equipa-
das com antena parabólica.
De segunda a quarta-feira, exibe-se o programa “Como fazer?”,
formado por um documentário seguido de comentários de três professores
de ensino médio de cada uma das áreas do currículo. Esses comentários
ilustram, para os professores, possibilidades concretas de uso, na sala de
aula, do material transmitido. O fato de as sugestões serem extraídas de
documentários sobre aspectos da realidade cotidiana indica o sentido do
que se entende por ensino contextualizado, e o fato de se tratar de professores
de áreas diferentes, enfatiza a viabilidade da realização de trabalhos
interdisciplinares.
Nas quintas-feiras, o programa se chama “Ensino Estupendo”. De-
pois de um pequeno vídeo de cerca de doze minutos, que recolhe experiên-
cias e declarações e traduz, em música e imagens, a reforma, dois especialis-
tas vinculados com a concepção da reforma respondem perguntas formu-
ladas por um professor, um diretor de escola, um aluno e um pai ou mãe
de aluno. Produziu-se, inicialmente, uma série de dez programas centrados
nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, que versam,
portanto, sobre os princípios g erais da reforma, e nos Parâmetros Curricu-
lares Nacionais para o Ensino Médio, que versam sobre as áreas de conhe-
cimentos e disciplinas potenciais.
Nas sextas-feiras, vai ao ar o programa Acervo”, um documentário
longo, precedido por um brevíssimo comentário de professores, que aprofun-
309
da um dos temas trabalhados no “Como fazer?” da semana. Os comentá-
rios dos dois programas, gravados em vídeo, estão sendo transpostos para
o papel, a fim de serem encaminhados às escolas, além de estarem disponí-
veis na Internet, para que os professores possam examinar, mais atentamen-
te, as sugestões e orientações.
Vale a pena re gistrar que essa programação cumpre três objetivos:
apoiar o trabalho do professor na sala de aula, colocando a sua disposição
materiais e infor mações atualizadas, respaldar as ações de capacitação de
professores e gestores de escolas, mediante o esclarecimento de conceitos e
sugestões de trabalhos, que deverão ser desenvolvidos nas escolas, baseados
na concepção curricular interdisciplinar e contextualizada, e difundir os prin-
cípios gerais da reforma. O êxito dessas ações depende da or ganização da
rece pção ou da gravação e re produção dos programas nas escolas. Para
isso, o Ministério da Educação tem estado desenvolvendo um trabalho de
capacitação de equipes nos estados, responsáveis pelo acompanhamento da
utilização dos programas nas escolas.
O terceiro conjunto de ações de ca pacitação segue o mesmo forma-
to desses comentários destinados às escolas. Trata-se da produção de três
séries de “caixas de ferramentas”, ou seja, de materiais de apoio à imple-
mentação da reforma, dando instrumentos às equipes pedagógicas e de
gestão envolvidas no ensino médio. Tais materiais foram concebidos para
levarem à ponta do sistema educacional os resultados da produção de sub-
sídios que o Ministério está desenvolvendo e, ao mesmo tempo, tornando
públicas as políticas e estratégias formuladas no âmbito federal e capacitan-
do os pr ofessores e gestores, com vistas à sua execução.
Os materiais se receberam o mesmo nome do programa da TV
Escola: “Como fazer?” Não são exatamente receitas prontas, mas conjun-
tos de sugestões, orientações e esclarecimentos, que se repor tarão, de forma
periódica, para os agentes de implementação da reforma, para que sejam
colecionados e utilizados cotidianamente. A primeira série, dedicada à sala
de aula, ou seja, à gestão do currículo e da aprendizagem, trata do desenvol-
vimento curricular nas escolas. A segunda, dedicada à escola para a gestão
do projeto escolar, tem o objetivo de apoiar as equipes de gestão na mon-
tagem dos projetos escolares. A terceira, dedicada à Secretaria de Educação,
trata da gestão do sistema educacional, para apoiar as equipes dos órgãos
gestores na f ormulação e execução das políticas dos estados.
310
À GUISA DE CONCLUSÃO
Reinventar a escola é uma tarefa de todos, de quem a institui e a
procura a sociedade–edequem tem o mandato de constituí-la os
educadores. Ao propor uma r eforma para este segmento do ensino e, de
forma articulada com o Conselho Nacional de Educação, defini-la, o Mi-
nistério da Educação fomenta um processo de transformação e oferece as
bases conceituais e as ferramentas para sua efetivação. O jovemeojovem
adulto esperam um processo escolar que contribua para sua presença desta-
cada na vida cotidiana e para a construção de seu projeto de vida e do
projeto social e cultural de sua coletividade. É nas tensões entre o presente e
o futuro, entre o individual e o coletivo, entre a unidadeeadiversidade,
entre o saber constituído e o saber que se de constituir, que a tarefa
educacional deve se estabelecer.
A educação é uma aposta no presente e no futuro, é um investimento
na esperança. A falta de esperança da juventude, presença constante num
certo discurso cético e cínico que está ficando na moda, não está no jovem,
mas na negação do direito de que a juventude seja a época da arquitetura da
utopia e de que a educação seja para ela a possibilidade de se apropriar dos
meios para sua construção. O que se espera da etapa final da educação
básica, universalizada, é que concretize essa possibilidade para todos.
BIBLIOGRAFIA
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g rafado.
BRASIL. MEC. CEB/CNE. Parecer CBE n. 15. Diretrizes Curriculares Na-
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BRASIL.MEC.CEB/CNE. Resolução n. 03/98.
DELORS, Jacques et al. Educação: um tesour o a descobrir. São Paulo: Cortez;
Brasília/DF: MEC, UNESCO, 1998.
PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Ale-
gre: Artes Médicas Sul, 1999.
311
*
María Ester Mancebo é professora de História pelo Instituto de Professores Artigas,
Montevidéu, e candidata ao doutorado na Universidade Católica do Uruguai, na
área de Especialização em Políticas Educacionais. Fez o mestrado em Ciências Soci-
ais (FLACSO-Argentina) e cursos de pós-g raduação na Pepperdine University,
Califórnia. Atualmente faz trabalho de pesquisa e docência na Universidade da
República e na Universidade Católica do Uruguai, em nível de graduação e pós-
gr aduação. É docente no Mestrado de Políticas Sociais no CLAEH Instituto Univer-
sitário, bem como consultora em equipes MORI.
8.
OS PROCESSOS CONTEMPORÂNEOS
DE MUDANÇA NA EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA
NO URUGUAI
María Ester Mancebo*
UMA VISÃO DE LONGO PRAZO SOBRE A EDUCAÇÃO
SECUNDÁRIA NO URUGUAI
Da criação do ensino secundário a sua massificação
Concebido como preparação para os estudos universitários e situa-
do sob a órbita da Universidade da República, o ensino secundário nasceu
no Uruguai em fins do século passado e recebeu um grande impulso em
1912, com a criação dos “liceus departamentais”, na razão de um para cada
capital departamental do interior do país. A partir de então, ao longo do
século XX, o país assistiu a uma g radual transformação do ensino secundá-
rio de educação de elites para educação de massas, processo no qual foi
decisivo o período de redemocratização, iniciado em 1985.
312
Considerando o contexto regional, Uruguai estabeleceu precoce-
mente uma escolaridade obrig atória de nove anos. Assim, nos convulsio-
nados meses anteriores ao golpe de Estado de junho de 1973, foi aprova-
da a Lei 14.101
1
, que seria conhecida popularmente como a “Lei de Edu-
cação” ou “Lei Sanguinetti”, que dispôs, em seu ar tig o 5
o
, que a educação
seria obrigatória, comum e geral para o primeiro nível (Primário de seis anos) e para
o segundo nível, até três anos mínimos da Educação Secundária Básica”.
Entretanto, a lei não pr oduziu, imediatamente, uma expansão signi-
ficativa da matrícula do ciclo obrig atório de ensino médio, o que se
explica, em grande parte, pelas dificuldades econômicas experimenta-
das pelas famílias uruguaias, entre 1975 e 1985, que impediam o prolon-
gamento da escolaridade de seus filhos mais jovens, obrigados a ingres-
sar no mer cado de trabalho.
Numa perspectiva histórica, Uruguai está, hoje, numa situação de “qua-
se universalização” de seu primeiro ciclo com uma taxa bruta de escolari-
zação de 84,3%
2
depois de ter atravessado três ciclos bem distintos:
1. Um primeiro ciclo vai de 1978 a 1983, com um crescimento
inferior à matrícula, situada em torno da média de 2%, abaixo da ten-
dência histórica prevalecente até 1970.
2. Nos anos restantes da década de 80, o incremento médio quase
duplica o do período anterior e se situa nos 3,6%, o que acelera o proces-
so de massif icação do ciclo básico; de fato, este ciclo passou, no nível
público, de 60.067 estudantes par a 93.641, o que supõe um incremento de
56 pontos percentuais, com relação à base 100 de 1980.
3. Nos anos 90, continua o crescimento, mas com um ritmo mais
moderado, e a matrícula secundária tende a estabilizar-se; no âmbito
público, de 94.767 estudantes, em 1990, chega-se a 99.624, em 1999 (10
pontos percentuais de aumento).
1
Esta lei veio interpretar o mandato constitucional estabelecido no artigo 70 da Carta
Magna de 1967.
2
Segundo o último censo da população de 1996, a população de 12 a 14 anos chegava
a 154.055 jovens; em 1996, registraram-se, no ciclo básico público secundário e
educação técnica 108.500 estudantes e 21.417 freqüentavam o ensino privado.
Complementarmente, também se estabeleceu que a taxa de transição da educação
primária para o ciclo básico está situada nos 80% (VILARÓ, 1999).
313
Esta forte expansão da matrícula, a partir de meados dos anos
80, foi explicada pela confluência de dois fatores um de caráter social
e outr o político. Em r elação ao primeiro, a CEPAL (1990, p. 83) enfati-
zou a existência de uma forte demanda social pela educação, a ponto de
que quando a lei é aprovada, o comportamento de amplos grupos da sociedade
era o de considerar como estudos social e culturalmente básicos um ciclo de 3 ou 4 anos
pós-primário”.
Quanto ao segundo fator, de ve-se assinalar a fir me política de
expansão do ciclo médio obrig atório, impulsionada pelo primeiro CO-
DICEN do período de redemocratização presidido pelo professor
Juan E. Pivel De voto concretizada na criação, em 1986, de um novo
plano de estudos para o ciclo básico e a abertura de 21 liceus oficiais,
entre 1985 e 1989, com um notório esforço para atender às necessida-
des de educação básica das localidades pequenas do interior do país. Na
mesma direção, no primeiro quarto dos anos 90, as políticas públicas
também se orientaram para consolidar a alta cobertura do ensino mé-
dio, em particular, do cic lo básico:
a) Criaram-se 48 novos liceus, entre 1990 e 1994, 37 dos quais
estavam situados no interior.
b) Abriram-se ter minalidades diversificadas de ensino secundá-
rio nas capitais departamentais e nas cidades menores, de modo que, se
em 1976 cerca de 80% da matrícula de 5
a
e6
a
série do interior corres-
pondia a capitais departamentais, em 1992 tal proporção era de 71%,
com 29% restantes em cidades menores (CEPAL, 1994).
c) A partir de 1987, criaram-se liceus rurais, buscando favorecer o
acesso ao ensino médio a quem concluía a escola rural e, simultaneamente,
dinamizar a vida da comunidade (ANEP, 1990).
Estas e outras medidas foram acompanhadas por um firme dis-
curso legitimador do crescimento, tal como mostram as palavras do
diretor-geral de ensino secundário, Daniel Corbo, em fevereiro d e 1994:
Se ao final do que se percorreu, voltarmos a vista para o longo prazo do
ensino secundário, poderemos observar que sua evolução histórica se resu-
me, basicamente, num processo de progressiva abertura de suas institui-
ções para a totalidade dos estratificados grupos socioculturais do país e de
314
crescente ampliação de sua cobertura territorial. Cada um dos três impul-
sos transfor madores re presenta uma etapa desse caminho. O primeiro
(1912), ao fazer das capitais departamentais a base geográfica do impulso
germinal descentralizador da cultura; o segundo, ao quebrar a estrutura de
uma educação média de base restrita, para habilitar seus acessos ao conjun-
to de camadas médias e, o último, a par tir da refor ma do ciclo básico até
nossos dias, ao incorporar o ensino secundário aos setores excluídos, me-
diante a ampliação das oportunidades de acesso e de permanência no ciclo
de estudos (CONSEJO DE EDUCACIÓN SECUNDARIA, 1994).
Esta expansão da matrícula de ensino médio pode ser inter-
pretada como uma considerável ampliação das oportunidades educa-
cionais, em vários níveis:
1) No social, porque a cobertura se ampliou em todos os quintis de
renda e setores sociais que, tradicionalmente, eram excluídos da educação
média, tiveram acesso a ela. Segundo dados de 1993, em Montevidéu, a
taxa líquida de escolarização no ciclo básico foi de 55,8% no quintil I, de
69,4% no quintil II, de 80,4% no quintil III, de 86,9% no quintil IV e de
83,6% no quintil V.
2) No plano geográfico, porque se produziu um crescimento maior
no interior do que na capital, a ponto de que a maior demanda passou a situar-
se naquela zona: da matrícula oficial do ciclo básico de ensino secundário , em
1999, 64,3% pertencia ao interior do país .
3) Em ter mos regionais, Ur uguai integ ra, com 83% da taxa br uta
de escolarização no nível secundário, na década de 90, junto com a A r-
gentina 71% e Chile 70% , um primeiro grupo de países latino-
americanos, cujos números se aproximam daqueles dos países europeus,
como Itália (77%) ou Áustria (83%).
Como contrapartida dessa democratização educacional, o país
passou, em poucos anos, por um duplo processo de massificação: do
alunado e dos docentes, o que produziu um impacto negativo na qua-
lidade da educação média e na atuação profissional de seus docentes:
1) Baixíssimo nível de suficiência em provas padronizadas de Língua
e Matemática, tanto no ciclo básico como no segundo ciclo terminalidade
diversificada (CEPAL, 1992, 1994).
315
2) Forte desigualdade na distribuição social dos conhecimentos signi-
ficativos (CEPAL, 1992, 1994).
3) Altos níveis de fracasso escolar, medidos através das taxas de re-
petência, evasão e recuperação.
4) Altíssima proporção de docentes sem título de habilitação para
o exercício da docência em educação secundária (ANEP, 1996). Se gun-
do o censo de docentes, realizado em fins de 1995, apenas 30,6% dos
docentes da educação secundária tinham completado a carreira de pro-
fessorado e obtido o título correspondente. No restante do corpo do-
cente, 9,2% completou estudos universitários, 11,5% fez o magistério,
32,3% tinha curso superior incompleto e 11% alcançou, no máximo, o
nível educacional secundário.
A ampla difusão de indicadores tão contundentes como estes, na pri-
meira metade dos anos 90, colocou a questão da educação secundária na
agenda pública e na agenda política, e preparou o terreno para o lançamento
de uma reforma educacional, em que muitos atores depositaram altíssimas
expectativa s.
Uma organização institucional peculiar
Em nível institucional, o sistema educacional uruguaio apresenta
uma organização muito peculiar, estabelecida na lei concebida com ca-
ráter de “lei de emergência”, sancionada em março de 1985, no começo
da transição democrática. Com efeito, neg ociada no marco da chamada
Concertação Nacional Programática, a Lei 15.739 criou a Administra-
ção Nacional de Educação Pública (ANEP), como órgão autônomo, e
estabeleceu como governo da educação um Conselho de cinco mem-
bros (Conselho Diretivo Central CODICEN), eleito com a vênia do
Parlamento
3
. Este Conselho é apoiado na administração do sistema por
3
Os membros do CODICEN são nomeados pelo Poder Executivo, com prévia vênia
do Senado, com um número de votos de, pelo menos, três quintos de seus integ ran-
tes. Por sua vez, os conselheiros de educação primária, secundária e educação técni-
ca são designados pelo CODICEN.
316
três Conselhos descentralizados (Conselho de Educação Primária, Con-
selho de Educação Secundária e Conselho de Educação Técnica, com
três membros cada um deles), e por uma dir eção de For mação e Aper-
feiçoamento Docente, todos nomeados pelo CODICEN.
Por outro lado, a Lei 15.739 criou quatro Assembléias Técnico-
Docentes” (ATD), órgãos integrados por representantes dos docentes
de cada setor, que funcionam com caráter assessor dos Conselhos de
Educação Primária, Educação Secundária, Educação Técnica e da Dire-
ção de Formação e Aperf eiçoamento Docente. Estas Assembléias
4
não
funcionaram durante a primeira administração democrática (1985-1989);
foram instaladas no período 1991-1995, exibindo uma participação téc-
nica destacada em alguns dos setores (tal foi o caso da ATD de Educa-
ção Secundária).
Por último, a lei de 1985 também estabeleceu a “Comissão Coor-
denadora do Ensino”, integrada por representantes do CODICEN da
ANEP, os três Conselhos Desconcentrados, a Universidade da Repúbli-
ca, o Ministério da Educação e Cultura e a educação privada.
A partir do acima descrito, cabe a g ora apontar porque é possível
falar de uma organização institucional “peculiar”. Em primeiro lugar,
porque, passada uma década e meia, o sistema educacional nacional con-
tinua regido por uma lei de emergência, lançada para um prazo máximo
de dois anos. De fato, nem sequer numa etapa de refor mas profundas
em educação, como foi a de 1995-1999, esteve na ag enda política a
sanção de um novo marco leg al. Nesse sentido, o Ur uguai marca uma
diferença com o que aconteceu em muitos outros países da região, nos
quais foram promulgadas novas leis de educação geral, como indicador
nítido da intenção de novos fundamentos, que se estendeu pelo conti-
nente (
BRASLAVSKY, 1995).
Em segundo lugar, o fato de o ensino básico situar-se na órbita
de um organismo de caráter autônomo, como ANEP, e não de um
ministério com dependência hierárquica direta da Presidência da
República significa uma originalidade no contexto internacional. Não
obstante isso, a existência de um Ministério de Educação e Cultura,
4
As ATD reconheciam um antecedente impor tante nas chamadas Assembléias ar tigo
40”, que funcionaram sem interrupção entre 1958 e 1973, ano em que foram supri-
midas pela Lei de Educação de 1973.
317
dedicado à educação superior e à cultura, cria uma confusa bicefalia que
pesa, sobretudo, em matéria de contatos internacionais que passam, muito
freqüentemente, pelos canais do Ministério. Este sistema dual redundou
em conflitos entre o diretor nacional da ANEP e o ministro da pasta,
em várias oportunidades, mesmo em momentos em que ambas as
autoridades per tenciam ao mesmo par tido.
Em terceiro lugar, a educação uruguaia está em mãos de órgãos
colegiados. As potestades de uns e outros estão marcadas por lei: ao
CODICEN, cabe o governo de todo o sistema; aos Conselhos Des-
concentrados, cabe a administração de cada subsistema. Mais além des-
ta delimitação legal, na elaboração das políticas educacionais do perío-
do 1985-1999, foram registradas oscilações importantes, quanto à auto-
nomia dos segundos e a concentração de poder no primeiro.
Em quarto lugar, os docentes, enquanto técnicos da educação,
contam com as ATD como órgãos legalmente constituídos, que os re-
presentam junto às unidades decisórias, as autoridades. Contudo, o perí-
odo 1985-1999 mostra que são sumamente dependentes da equação
tecnopolítica de cada conjuntura. Enquanto cada ATD é “assessora” de
seu Conselho Desconcentrado respectivo, que é responsável, por sua
vez, pela administração não pelo governo de seu subsistema, o peso
da ATD depende de dois fatores: i) de seu nível técnico e independência
que exibe com relação às posturas dos sindicatos de ensino; e ii) do peso
relativo do respectivo Conselho na elaboração das políticas educacio-
nais. Em outr as palavras, sua voz pode ser ouvida tal foi o caso da
ATD de Educação Secundária na segunda administração democrática
ou pode ser ignorada.
Uma organização curricular tradicional
No que concer ne à estr utura do nível secundário, o Ur uguai segue
as tendências mais freqüentes no mundo (
CARIOLA et al., 1994). Depois
de um ciclo primário de seis anos de duração, a educação secundária
tem também seis anos de duração total, como um primeiro ciclo obri-
gatório de três anos (1
a
,2
a
e3
a
série) e um segundo opcional. Na secun-
dária superior, diferencia-se um ano de transição (4
a
série) e um bachil-
lerato di versificado”(5
a
e6
a
série), com as se guintes ter minalidades:
318
5
a
série 6
a
série
Humanístico Direito / Economia
Biológico Medicina / Agronomia
Científico Arquitetura / Engenharia
O ciclo básico, por outr o lado, é de educação compr eensiva, en-
quanto ministra uma formação comum e básica, que se mantém ar ticu-
lada em três planos sucessivos: 1976, 1986 e 1996. Neste trabalho, fare-
mos referência aos dois últimos, como instrumentos do mencionado
processo de massificação e objeto privilegiado do debate sobre a refor-
ma educacional em curso.
Logo depois de iniciado o processo de recuperação democrática,
em 1986, criou-se o chamado CBU ciclo básico único com as se-
guintes características:
1) Um mesmo plano para o ciclo básico de ensino secundário e
da educação técnica, entendendo que, desse modo, estava sendo pro-
porcionada uma base comum mínima e imprescindível para todos os
educandos e se lhes assegurava igualdade de oportunidades
5
.
2) Inclusão formal das disciplinas em áreas, isto é, no currículo
prescrito foram classificadas as matérias em áreas; assim, Matemática e
Língua Espanhola integraram a área “instrumental”, e Geografia e His-
tória, a área de Ciências Sociais.
5
Pelo Plano 1976, o ciclo básico de ensino médio se denominou “ciclo básico comum
(CBC) e foi aplicado em duas modalidades, com algumas diferenças curriculares:
uma dependente do Conselho de Educação Secundária (CES) e outra administrada
pelo Conselho de Educação Técnico-Profissional (CETP). Pelo Plano 1986, o ciclo
básico passou a ser “ciclo básico único” (CBU) e se instalou uma única modalidade
em liceus e escolas técnicas. Ademais, do ponto de vista de sua administração, o país
observou oscilações, uma vez que, no período 1986-1991, o CBU esteve sob a
jurisdição do Conselho de Ensino Secundário, para voltar, a par tir de 1992, para a
administração separada pela par te de CES e de CETP.
319
3) Dia letivo de liceu bastante breve, de apenas três horas e vinte
minutos, como for ma de adequação cur ricular às carências de espaço
de ensino secundário.
4) Mecanismos de “retenção” dos alunos, alguns dos quais (com-
pensação e recuperação ao final do ano) for am, com o tempo, avaliados
em ter mos muito positivos, segundo Aristimuño (1999); outros deram
lugar a críticas severas, tal é o caso dos critérios de avaliação vigentes no
começo da aplicação do plano, que eram a bsolutamente cabíveis.
O plano de 1986 foi objeto de numerosas reformas cur riculares
pontuais (
MANCEBO & RAVELA, 1995). Ampliação da carg a horária de uma
ou outra matéria, redefinição de programas entre 1991 e 1992, varia-
ções nas pautas de avaliação, etc. A par tir de um desenho muito frag-
mentado, introduzir am-se modificações que operaram como “variações
sobre um mesmo tema”, fundamentalmente, porque foram aprovadas
com relativa independência dos recursos organizacionais e humanos, que
o centro educacional poderia requerer para sua aplicação.
Mencionou-se que estas transfor mações curriculares não foram
assimiladas de for ma positiva, porque a instituição educacional com
sua estrutura, recursos e cultura organizacional não podia abrigá-las
(
MANCEBO, 1999). Mais ainda, não não houve ações sistemáticas de
fortalecimento das instituições educacionais, como também muitas das
mudanças mencionadas foram contraproducentes para a organização e
dinâmica dos centros educacionais.
Com uma visão profundamente crítica deste Plano 1986, a refor-
ma educacional, em curso, veio instaurar uma nova modalidade de ciclo
básico, primeiro com caráter de experiência-piloto e, posteriormente,
como Plano 1996.
A REFORMA EDUCACIONAL EM CURSO:
PRINCIPAIS LINHAS DE AÇÃO
A partir de 1995, o Uruguai viveu um profundo processo de
refor ma educacional de caráter sistêmico que alcançou, com suas ações,
todos os níveis do sistema educacional: educação inicial, ensino primário,
320
nível médio e também for mação docente.
Liderada a partir do Conselho Diretivo Central (CODICEN) da
Administração Nacional de Educação Pública (ANEP), com a marca
do presidente deste org anismo, professor Ger mán Rama, a r efor ma
não passou inadvertida na sociedade uruguaia, onde foram realizados
debates apaixonados em torno de muitas de suas iniciativas: pré-escola-
rização, serviço de alimentação escolar, experiência-piloto no ciclo bási-
co de educação básica, criação de novos centros de formação docente
(para citar os pontos mais críticos).
No item anterior, foi sendo definido o ponto de partida da re-
for ma no ciclo secundário:
1) Altíssima cober tura do ensino secundário, de pois de um sus-
tentado processo de massif icação do alunado.
2) Preocupantes indicadores de fracasso escolar (baixos níveis de
aprendizag em registrados em provas padronizadas, repetência e evasão,
recuperação).
3) Cur rículo sumamente fragmentado no primeiro ciclo.
4) Sérios problemas de profissionalização do corpo docente, tanto
em matéria de condições de trabalho como de exercício da profissão
(nível de formação, autonomia profissional, etc.).
Em 1996, instaurou-se, com caráter de “experiência-piloto”, uma
nova modalidade de ciclo básico de educação média (secundária e técnica),
que foi se expandindo de forma gradual: num total de 250 liceus que tem o
país, ficaram integrados ao novo plano 8 liceus em 1996, 20 em 1997, 38
em 1998. Em 1999, passou-se a falar de um “Plano 1996”, em virtude de
que 50% da matrícula do liceu, na 1
a
série, estava integrada nesse plano.
A principal inovação curricular foi constituída pelo ensino por
áreas, com o objetivo explícito de superação da forte fragmentação em
disciplinas do ciclo básico, que tinha sido diagnosticada como problema
em estudos de g rande aceitação acadêmica (CEPAL, 1992). Estritamente
falando, a org anização teórica do saber em áreas não era uma novidade
absoluta na história do ensino secundário, uma vez que estava presente
em planos que o professorado tinha em alta estima, como o de 1963
(ANEP MES y FOD, 1996, p. 9). Na mesma direção, nos documentos
321
de criação do Plano 1986, também se tinha destacado a importância de
superar o “disciplinarismo” e a necessidade de trabalhar por áreas. Não
obstante isso, além do cur rículo prescrito, o cur rículo real esteve
historicamente articulado em matérias individuais, isoladas do ponto de
vista dos conteúdos e das metodologias de ensino. Por isso se entende a
aber tura de um for te centro nodal de discussão, quando a refor ma tor nou
efetivos os ag r upamentos em áreas.
Por outro lado, na fundamentação da reforma, na capacitação de
seus docentes e nas instâncias de inf ormação pública, as autoridades enfa-
tizaram, a todo momento, a centralidade da dimensão org anizacional, di-
ferenciando-a e priorizando-a sempr e, com referência ao setor curricular.
De fato, no discurso, insistiu-se na impor tância do novo “modelo de cen-
tro”, no qual os estudantes per manecem mais tempo no centro educacio-
nal (cinco horas e meia, em comparação com as escassas três horas e meia
do Plano 1986), os docentes estão mais concentrados por estabelecimen-
to (trinta horas semanais num mesmo estabelecimento, ao contrário do
“professor táxi”, do Plano 1986), os diretores contam com maiores espa-
ços de autonomia e devem reunir seus docentes em instâncias semanais de
coordenação (com cinco horas pagas aos professores para tal fim).
A implementação desta inovação educacional foi monitorada através
do “Estudo de Acompanhamento da Experiência-Piloto”, realizado pelo
Programa de Melhoria do Ensino Secundário e Formação Docente (MES
y FOD)
6
, que ano a ano foi difundindo os resultados por diversos meios
reuniões com a imprensa, livros publicados, reuniões com diretores e do-
centes. Em termos de resultados educacionais, esta pesquisa mostrou que:
1) Em provas padronizadas de Matemática, Língua, Ciências So-
ciais e Ciências Experimentais, os centros-piloto conseguiram, em 1998,
com três anos de implantação maiores proporções de estudantes
com suficiência do que os centros “testemunho” (centros com Plano
1986, sem inovação 1996), com diferenças que foram de1a7pontos
percentuais.
6
Junto com os Projetos MECAEP, UTU-BID e FAS, MES y FOD é um dos quatro
programas com financiamento internacional que funcionaram na administração atual.
322
2) Os centros-piloto tiveram, nos três anos, taxas de evasão inferi-
ores às dos centros “testemunho”. Em 1998, concretamente, os números
foram de 10,4% na primeira série (frente a 1,9% dos centros “testemu-
nho”), 6,7% na segunda (frente a 11,1%) e 5,5% na terceira (frente a 13,0%).
3) A taxa de repetência também é favorável aos centros-piloto,
ainda que aqui deva ser considerado que o regulamento da avaliação das
duas modalidades de ciclo básico não seja o mesmo. De qualquer manei-
ra, com o novo Plano, diminui de 30% a re petência no ciclo básico dos
liceus oficiais diurnos, para cerca de 20% na primeira série, 15% na segun-
da e 10% na terceira.
Em segundo lugar, a reforma desenvolveu uma linha de “r acio-
nalização da matrícula”, pela qual se procurou a especialização dos li-
ceus no ciclo básico ou na conclusão do profissionalizante (“ bachillera-
to”) na hipótese de que os dois ciclos recebem clientela com idades
muito diversas, que requerem atendimento específico
7
–, ao mesmo tem-
po em que se tratou de estender a jornada de todos os educandos do
ciclo básico, não a dos integ rados à experiência-piloto.
Em terceiro lugar, do mesmo modo que em outros países da
região, f oi implantada uma linha de “pr ojetos de centro”, orientada para
dinamizar a vida dos liceus nos processos de ensino e aprendizagem,
assim como na g estão. No caso do ensino secundário, a implementação
deste sistema de concurso começou em 1998, com a meta de financiar
100 pr ojetos no período 1998-2000, num total de 220 liceus do país.
Em quarto lugar, em continuidade com uma linha de política ini-
ciada no período 1990-1994, a reforma destinou importantes quantias
para a dotação de recursos didáticos para os liceus (desde mapas até
instr umentos de geometria) e de textos para os alunos do ciclo básico,
em cinco disciplinas: Matemática, Língua, Ciências Sociais, Ciências Ex-
perimentais e Inglês.
7
Em 1947, dos 54 liceus diurnos de Montevidéu, 9 tinham sido especializados para
atender o bachillerato diversificado, 7 mantinham os dois ciclos, mas em turnos
diferenciais e 38 liceus tinham se transformado em unidades educacionais para o
ciclo básico (RAMA, 1998, p. 32).
323
Em quinto lug ar, tentou-se avançar na informatização do subsis-
tema, com a instalação de salas de aula informatizadas, de modo parale-
lo à implementação da experiência-piloto.
Em sexto lug ar, como resposta ao alar mante déficit de for mação
do cor po docente do ensino secundário, desenvolveram-se duas linhas
de ação: a criação de cinco Centros Regionais de Professores (CERP)
com uma modalidade de formação inicial completamente diferente da
que historicamente prevaleceu no país, na segunda metade do século
8
e a execução de múltiplas ações de capacitação docente, dirigidas funda-
mentalmente aos professores não-titulados em educação média.
Por sua vez, trabalhou-se na formação em gestão dos diretores
de liceus, que tiveram que prestar concurso público, em 1998.
Por último, diante das dificuldades de instalar e, sobretudo, manter
liceus rurais, foram criadas, em 1999, as escolas rurais integradas com 7
a
,
8
a
e9
a
série, visando, expressamente, que o aluno concluinte da 9
a
série da
formação pós-escolar rural estivesse plenamente habilitado par a continu-
ar avançando no sistema de educação formal, 1
a
série de conclusão pro-
fissionalizante, em de igualdade com os concluintes do ciclo básico.
A ESPECIFICIDADE DOS PROCESSOS DE MUDANÇA
NO URUGUAI
O impulso ref ormista
A refor ma educacional ur uguaia teve condições francamente fa-
voráveis, em seu ponto de partida, tanto no plano técnico-pedagógico
como no plano político.
Tanto no nível político como nos setores sociais havia um acordo
básico sobre a necessidade de impulsionar uma refor ma educacional. O
tema integrava a agenda pública, foi parte central da agenda eleitoral de
1994 e se constituiu numa par te impor tante da ag enda do g overno, ar-
mada quando se f or mava a coalizão que g overnou de 1995 a 1999.
8
O primeiro centro de formação de professores para o nível secundário foi criado em
1949, com um modelo que permaneceu basicamente sem mudanças até o presente.
324
Em segundo lug ar, se aceitamos com Tedesco (1993, p. 3) que o
caráter sistêmico das políticas educacionais é uma condição necessária de seu êxito (o
que) significa que o processo de mudança não abrange diversas dimensões, como
também uma deter minada seqüência”, em 1995 a reforma tinha a seu favor
uma concepção global, em grande parte trazida por seu condutor, o pro-
fessor Rama, sociólogo uruguaio de imensa trajetória no âmbito interna-
cional e nacional, com especialização na temática socioeducacional e in-
tegrante de uma geração de intelectuais com capacidade de articular densas
perspectivas em nível macro.
Isto estava claro, em nível de sociedade uruguaia, motivo por que
houve elevado consenso a respeito da capacidade técnica de quem encabe-
çaria o processo de transformação. Nas palavras de um dirigente gremial:
Com Rama chega à presidência do CODICEN alguém com grande prestí-
gio intelectual, com forte apelo em nível de opinião pública e setores polí-
ticos, com capacidade de elaboração de um discurso tecnicamente significa-
tivo [...]. Em virtude disso, o grêmio um voto de confiança inicial
9
.
Existia, por outro lado, um diagnóstico básico de situação, cons-
tituído pelos estudos realizados no período 1990-1994, pelo Escritório
da CEPAL, em Montevidéu que tinham sido dirigidos pelo próprio
Rama e pelo Programa de Investimento Social (PRIS), dependente do
Org anismo de Planejamento e Orçamento. Tal diagnóstico atuou como
uma plataforma inicial para a tomada de decisões, ainda que tivesse que
ser complementado por meio de levantamentos ad hoc , que proporcio-
naram a infor mação básica não registrada nem integrada sistematica-
mente pela ANEP num sistema de informação
10
.
Apesar deste marco f avorável, de pois de pouco tempo, a refor-
ma encontrou resistências importantes, exógenas e endógenas, proveni-
entes de diversos pontos do espectro político-ideológico. A dinâmica
do jog o de todas essas forças per mite f azer uma periodização da tenta-
tiva de r eforma, distinguindo três etapas:
9
Entrevista realizada no dia 27 de setembro de 1999.
10
Na maioria dos casos, tratava-se de informação muito básica, com que a ANEP não
contava (por exemplo, número de docentes que trabalham no ensino secundário ou
a quantidade de salas de aula dos prédios escolares).
325
1) Uma primeira etapa de “lua de mel” que coincide, basicamente,
com o ano 1995, quando o CODICEN dialoga com os grêmios
docentes e com as ATD em tom amistoso, enquanto vai articulando
sua proposta e obtém sua aprovação parlamentar como parte da lei
de orçamento.
2) De 1996 a 1998 transcorre uma fase de “xeque” à refor ma.
Por um lado, os g rêmios estudantis e docentes com exceção do g rê-
mio de professores de ensino primário exerceram uma resistência ati-
va, resistência que estava ligada às forças políticas mais radicais do país,
que teve como foco a reforma em nível do ensino médio e que se man-
teve até 1998; registraram-se dois “picos” de enfrentamento: o primei-
ro, constituído pelas ocupações estudantis dos liceus, em ag osto de 1996
e, o segundo, em fins de 1998, em relação com o serviço de alimentação
nas escolas primárias. Por outro lado, é também neste período inter me-
diário que se desdobra a postura liberal contrária à r eforma.
3) O ano de 1999, com eleições nacionais em outubro e novem-
bro, pode ser considerado um ano de transição, com uma atitude de
espera por parte das forças opositoras e uma linha de consolidação /
institucionalização do que tinha sido feito, por par te das autoridades.
Para compreender este processo, passa-se a expor, neste item,
os traços centrais do impulso refor mista e se apresentam, a seguir, as
principais resistências que enfrentou, na hipótese de que, do percurso
feito, fica muito por aprender, em ter mos de conteúdos e também
da for ma em que se processam as mudanças, em educação, na socie-
dade uruguaia
11
.
A refor ma ur uguaia é, em primeiro lugar, filha de seu tempo.
Assim, se perguntássemos a um perito em educação comparada, quais
11
Uma autora, estudiosa da mudança em educação, faz recordar que “os processos de
mudança educacional, na América Latina, apresentam algumas especificidades atri-
buíveis às peculiaridades de seus sistemas sociais. Alguns exemplos de tal especifici-
dade constituem o modo como se organizaram os sistemas educacionais, bem como
a mais absoluta falta de pesquisa, em nível da implementação das políticas educaci-
onais postas em prática. Esta carência determinou que os sistemas educacionais
tenham negado a si mesmos a possibilidade de aprender de suas próprias experiênci-
as” (ARISTIMUÑO, 1999, p. 24).
326
são os princípios diretores das políticas educacionais dos anos 90, cer-
tamente responderia “qualidade” e “equidade” “conceitos estela-
res”, na expr essão de Braslavsky (1997, p. 32). Se perguntássemos a ele
sobre os g randes de bates deste fim de século, provavelmente afirmaria
a centralidade de duas clivagens: “ensino público-privatização” e “cen-
tralização-descentralização”. Se lhe pedíssemos que indicasse quais são,
na sua opinião, os temas que significam os maiores desafios dos sistemas
educacionais contemporâneos, muito provavelmente situaria, num pri-
meiro lugar, o ensino médio com sua difundida crise de fins e de
funcionamento–eaquestão docente.
Analisada sob esta perspectiva, não cabe dúvida de que a reforma
da educação uruguaia, iniciada em 1995, é fiel reflexo de sua época. A
melhoria da qualidade, o avanço do sistema educacional, em termos de
eqüidade e a profissionalização da função docente são três dos quatro
12
objetivos levantados pelas autoridades como pilares da refor ma
13
.Por
sua vez, as autoridades fizeram uma férrea defesa do ensino público e
declararam a necessidade de atenuar os rígidos canais de centralização
da ANEP, avançando, g radualmente, para um esquema um pouco mais
descentralizado, na medida em que a capacitação dos recursos humanos
assim o permitisse. Do mesmo modo, a reforma tentou atacar, fr ontal-
mente, a problemática do ensino médio em seu ciclo obrigatório e
fez, da política de f or mação inicial dos docentes de nível médio, um
eixo fundamental.
Em segundo lugar, diferentemente do que se registrou em outros
processos de reforma educacional dos anos 90, no caso uruguaio não se
levantou a necessidade de se construir o lugar do novo Estado, no cenário educacional
(
COSSE & BRASLAVSKY, 1996, p.18). De f ato, a reforma, em seu conjunto,
significa uma reafir mação do for te pa pel que o Estado teve na história da
educação uruguaia. Por um lado, as políticas do período supõem uma
franca rejeição da lógica da “regulação mínima”, a adoção de uma postu-
ra de “regulação necessária”, segundo Braslavsky (1996) e também a ma-
12
O quar to é a modernização da g estão do ANEP.
13
Ver a respeito o Projeto de Lei de Orçamento, ela borado pela ANEP (1995) e a
Exposição de Motivos do Projeto de Prestação de Contas correspondente ao exercí-
cio de 1997 (ANEP, 1998).
327
nutenção da clássica prestação de serviços educacionais, de forma direta,
por par te do Estado. Por outro, no discurso aparece uma firme defesa da
educação pública, fundada em razões históricas e ideológicas:
O estado de situação, as orientações e os objetivos da reforma apontam para
fundar novamente o papel da educação como fator formador de uma cons-
ciência cultural e científica orientada a elevar a qualidade dos recursos huma-
nos, atenuador da desigualdade social e a pobreza, dinamizador dos canais
de mobilidade social e modernizador das relações com os contextos produ-
tivos e trabalhistas. A obtenção de tais objetivos [...] nos remete a um pro-
blema de compatibilidade e integração, num projeto educacional comum, na
realidade, porém, sua transformação e, em grande parte, sua projeção e per-
durabilidade, estão inextricavelmente associadas a uma forte presença do
Estado como condutor e suporte desse processo (RAMA, 1998, p. 16).
Em terceiro lugar, do ângulo do modelo de política educacional,
em seus componentes de elaboração e intervenção, o caso uruguaio coin-
cide plenamente com o que Gimeno Sacristán (1998, p. 258) denominou
modelo clássico”: as autoridades do ensino são legitimadas pelas autoridades
nacionais do governo por representação democrática; elaboram as po-
líticas educacionais como expressão emanada dos interesses gerais da
sociedade; org anizam o ser viço da educação, dotam-no de recursos, or-
denam as formas de administrá-lo, re gulam seus conteúdos básicos e ce-
dem ao centro escolar a capacidade de produzir o serviço educacional
dentro de alguns limites estabelecidos e sob determinados controles. Isto
significa uma contraposição nítida com o Estado liberal “pós-moder-
no”, segundo Gimeno Sacristán e com as vertentes de maior participa-
ção, que se fizeram presentes na crítica à refor ma educacional:
Um Projeto Educacional de Centro deve ser construído por todos os ato-
res: comunidade, autoridades, docentes, alunos. Isto por três razões: em
primeiro lugar, porque a educação é parte de todos, não pertence a nenhum
grupo em especial que queira se atribuir o direito à verdade científica sobre
como dirigir o ensino ou como desenhar um centro educacional. Em se-
gundo lug ar, porque esse processo de reflexão coletiva é, por si mesmo,
educador, liberador de preconceitos e pré-julgamentos, esclarecedor, que
ajuda a convivência democrática. E, em terceiro lugar, porque quem tem
que levar adiante os planos de reforma (docentes, alunos, funcionários)
precisa estar totalmente compenetrado com seus fins e suas formas e isso
328
se consegue com sua participação na criação dos projetos, senão, natural-
mente, surgirão resistências de quem se sente utilizado e desprezado (BAR-
BOZA, 1998, p. 138).
Em quarto lugar, como estratégia de mudança, as novas políticas
foram implantadas a partir de instituições “novas”. Assim, por exemplo, o
novo modelo de formação inicial foi implantado nos Centros Regionais de
Professores (instalados em 1997, 1998 e 1999), não no Instituto de Profes-
sores Ar tigas ou nos Institutos de Formação Docente preexistentes; o pla-
nejamento, a org anização e o controle desses centros são administrados a
partir da Secretaria de Capacitação e Aperfeiçoamento Docente (criada em
1995), não a partir da Direção de Formação e Aperfeiçoamento Docente,
responsável por todo o resto da formação docente do país.
No caso do nível médio, a supervisão da experiência-piloto esteve a
cargo dos chamados “Grupos de Apoio”
14
, que orientaram, programática
e didaticamente, os docentes, o que significou a introdução de uma dose de
competição com os inspetores r e gulares do sistema. Por outro lado, em
1999 foram constituídas duas sedes regionais de inspetoria, uma no norte e
outra no litoral, buscando quebrar a histórica centralização da matéria em
Montevidéu e debilitar a desalentada posição dos tradicionais inspetores o
que, sem dúvida, pode ser interpretado como uma linha de descentralização.
Por último, um traço específ ico do processo de mudança no Uru-
guai é a ausência de uma lei fundamental de educação. Com efeito, entre
1985 e 1995, o país revisou, intensa e profundamente, a situação do
sistema educacional e, a par tir de então, processou uma reforma de en-
vergadura, mas em nenhum momento, nesses quinze anos, for mou par-
te da ag enda política, a promulgação de uma lei geral de educação.
Isto constitui uma peculiaridade porque como se viu o siste-
ma educacional nacional continua regido por uma lei (15.739) concebi-
da como provisória, à espera da lei definitiva que viesse regular o siste-
ma educacional. Por outro lado, marca uma dif erença com a onda de
novas leis de educação g eral, que se estendeu pela re gião, como indica-
dor da intenção de novos fundamentos, em muitos dos processos de
mudança (
BRASLAVSKY, 1995).
14
Para aprofundamento no papel dos Grupos de Apoio na reforma. Ver : VILARÓ, 1999.
329
As demandas de mudança
I. Entre as forças exóg enas opostas à ref or ma, o primeiro lugar
esteve ocupado pelos grêmios estudantil
15
e docente e pelas Assembléi-
as Técnico-Docentes de Ensino Secundário e UTU, com demandas em
vários níveis.
Em primeiro lugar, em relação ao “modelo de política educacio-
nal”, exigiu-se participação
16
:
Reiteramos a necessidade de mudanças em nosso sistema educacional, que
sejam fruto de uma elaboração participativa e que sinalizem para a forma-
ção do homem interal, cidadão comprometido, capaz de situar-se nas con-
junturas que se apresentam para analisar e modificar a realidade. Insisti-
mos em que a Reforma Educacional ignora e tergiversa as propostas dos
docentes [...]. Responde a uma concepção economicista, que subordina os
objetivos pedagógicos aos econômicos e que desconhece nossa tradição
humanista-reflexiva (ATD, 1998, p. 56).
Em segundo lugar, defendeu-se a autonomia dos Conselhos
Desconcentrados, questionando-se a concentração da tomada de deci-
sões no CODICEN:
Com Rama, chega à Presidência do CODICEN alguém com grande prestí-
gio intelectual [...]. Em virtude disso, o g rêmio um voto de confiança
inicial, mas ao mesmo tempo, observa que na r efor ma um ‘pr ocesso de
forte centralização’, que despreza a autonomia dos (Conselhos), para o que
também pesa a forte influência das Gerências e dos Projetos, com financi-
amento internacional, por onde passaram todas as linhas mais significati-
vas da reforma (entrevista de um importante dirigente sindical, no dia 27
de setembro de 1999).
15
O grêmio estudantil protagonizou uma instância chave de oposição à reforma, que
foi a greve estudantil com a ocupação de liceus, em 1996.
16
Nesta exigência, certamente, incidiu o fato de que, no período imediatamente ante-
rior à reforma (1990-1994), tinha sido instaurada na ANEP, uma modalidade de
trabalho em comissões, onde houve uma ampla participação dos comandos médios
inspetores e das ATD, enquanto org anismos assessores. Com essa modalidade
participativa, processaram-se as mudanças de programas do ciclo básico e o acompa-
nhamento de inovações no ciclo básico (“Experiência de extensão do tempo peda-
gógico”) e na terminalidade profissionalizante de segundo grau (“bachillerato”).
330
Em terceiro lugar, existia um consenso social básico acerca da
necessidade de se refor mar a educação ur uguaia, mas não sobre a
velocidade da mudança. Viveu-se agudamente a tensão entre consenso
social e eficiência, que Braslavsky & Cosse (1996) identificam como típicas
dos pr ocessos reformistas dos anos 90, na América La tina. O tempo
era o recurso mais escasso para as autoridades, que mostraram sua
ansiedade em concretizar, em cinco anos, todas e cada uma das inovações
desenhadas e priorizaram a eficiência. A ATD de Educação Secundária,
por sua vez, considerou que:
As ATD, desde o ano de 1991, vêm apontando a necessidade de se imple-
mentar mudanças e transformações que permitam que se supere, paulati-
namente, a profunda crise em que está imerso o sistema educacional. Os
relatórios produzidos desde então mostram nossa vontade de se levar
adiante mudanças, desde que tais mudanças sejam feitas com o devido
planejamento, implementação e avaliação (1997, p. 289).
Em quarto lugar, para o caso uruguaio é completamente válida
a ref lexão de Braslavsky & Cosse (1996, p. 8), no sentido de que
as reformas educacionais dos anos 90 puderam ser iniciadas graças ao
imperativo da necessidade e com uma alta quota de voluntarismo. Em
muitos casos, esse início se deu através da montagem de estruturas paralelas
às da estrutura funcional permanente dos ministérios.
Contudo, na oposição, houve uma clar a dificuldade para visuali-
zar e/ou aceitar a debilidade dos recursos técnicos do próprio sistema,
motivo por que se questionou o recurso, por parte do CODICEN, a
assessores externos ao sistema educacional (em muitos casos, “analistas
simbólicos”).
Em quinto lug ar, além das for mas, no caso do ensino médio,
também houve questionamento aos conteúdos da reforma, numa atitu-
de rea tiva mais que proativa. Com relação ao segundo ciclo, criticou-se
“a não-refor ma”, ou seja, a falta de impulso transformador, mas o cen-
tro do ataque esteve constituído pelas experiências-piloto do ciclo bási-
co, questionando-se a eliminação de disciplinas como História e Geo-
grafia, e sua integração na área de “Ciências Sociais”, a carga horária de
Inglês e Informática estimada como muito alta a eliminação dos
331
cursos de compensação do Plano 1986. Em particular, a estruturação
do currículo em áreas foi o ponto de maior crítica pública:
Reafirmamos o conceito de área como uma proposta de trabalho interdiscipli-
nar, onde cada disciplina conserva sua própria identidade e expressamos nos-
so desacordo com a área considerada como fusão de disciplinas e soma de
conteúdos, tal como aparece nas denominadas Áreas Ciências Experimentais e
Ciências Sociais do Plano Piloto (1997, p. 292).
Esta atitude de forte dissenso dos grêmios e as ATD do nível
médio não se apresentou no ensino primário, onde não houve, basica-
mente, questionamentos em matéria de conteúdos: entre os mestres existiu
consenso a respeito da política de pré-escolarização e tempo completo
e mesmo se aceitou depois de uma atitude inicial de desconfiança a
avaliação padronizada de aprendizagens desenvolvida a partir do Pro-
g rama MECAEP. Nas palavras de um dirigente g remial:
A crítica maior em relação à reforma originou-se na comoção que o estilo da
refor ma causou na cultura do magistério, não no conteúdo, onde houve
apenas questionamentos pontuais. Na reação do grêmio de docentes fren-
te à reforma, pesou o caráter profissional do corpo, mais que a dimensão
ideológica, que foi muitíssimo mais forte no ensino secundário (entrevista
realizada no dia 27 de setembro de 1999).
A conduta da Federação Uruguaia do Magistério consistiu, pois, em
evitar o desgaste do sindicato e alcançar ajustes na reforma educacional em
curso. No ensino secundário, ao contrário, o marco geral foi uma crítica
aguda e constante, a tal ponto que se chegou a catalogar de “colaboracionis-
tas” os que trabalhar am na reforma
17
, o que gerou uma verdadeira fratura
interna do grêmio e uma importante falta de legitimação na representação.
II. As demandas por mudança não vinham somente da esquer-
da. Também apareceu em cena a postura liberal líquida, de impacto
bastante mais reduzido em termos quantitativos, mas com incidência
qualitativa em nível de elites do país e do âmbito da educação privada.
17
O radicalismo anti-refor ma chegou mesmo a expulsar da Federação de Professores
um dirigente sindical histórico, no final de 1995.
332
18
Em 1994, a participação privada alcançava 16,4% no ciclo primário e 18,1% no
secundário (básico e profissionalizante).
Um pilar desta posição foi o livro La segunda reforma. Por qué nece-
sitamos una enseñanza postvaleriana y como podemos ponerla en marcha de Silveira
(1995, p. 89), que assume o diagnóstico da CEPAL, de crise do sistema
educacional uruguaio, como ponto de partida:
Os uruguaios estão obrigados a revisar profundamente seu sistema educa-
cional [...]. Independentemente da vontade de quem seja os dirigentes,
nosso ensino parece condenado a re petir-se a si mesmo [...]. Por isso,
acontece que nosso ensino não muda várias décadas. Não pode fixar
prioridades nem se dar novos objetivos, não pode ensaiar novas idéias
nem sequer é capaz de modificar sua própria estrutura.
A estratégia de mudança sugerida no livro demonstraria estar bas-
tante distante da que a reforma uruguaia haveria de percor rer entre 1995
e 1999:
O modelo final a ser instalado deve depender escassamente de decisões
centralizadas [...]. Em segundo lugar, a própria estratégia de reforma deve
ser descentralizada e pouco burocrática. Se algo que deveríamos ter apren-
dido de todas as experiências educacionais, realizadas no decorrer deste
século, é que as refor mas educacionais globais, planejadas e dirigidas de
for ma central nunca dão bons resultados. São gigantes com pés de bar ro,
aos quais é muito fácil por obstáculos (p. 91).
Portanto, se existe uma g rande falta de dinamismo da ofer ta edu-
cacional, se a qualidade do ensino se deteriorou, se existe uma profunda
segmentação do sistema educacional, se a função docente foi despreza-
da, se se vive uma falta de liberdade de escolha dos pais, o que resta é
mudar. A proposta de Silveira (1995, p. 135) consiste em avançar par a
um sistema tripartite, em que haja: i) um ensino estatal gratuito como
o que existe; ii) um ensino privado pago similar ao que existe; e iii) um
setor subvencionado, composto por escolas de g estão privada, que seri-
am financiadas em parte pelo Estado e em parte pelos pais novidade
total no caso uruguaio
18
.
333
Esta proposta de vouchers implícitos” na expressão do próprio
autor gerou adesões em alguns setores da educação privada e desatou
uma indignada reação por par te das autoridades de uma reforma que, a
todo momento, foi reivindicativa do Estado benfeitor (
OPERTTI, 1997).
III. As resistências “endógenas” ao próprio sistema de mudança
estiveram presentes ao long o das três etapas da refor ma, com mais ou
menos intensidade segundo os momentos, e aparecem através das vári-
as das tensões identificadas no sugestivo texto de Braslavsky & Cosse
(1996) Cómo se reforma la educación en América Latina .
A tensão derivada da conexão com diferentes contextos de refe-
rência foi forte. Na medida em que a refor ma reuniu em suas fileiras
algumas pessoas com perfil político, técnicos com trajetória acadêmica
fora do sistema, burocratas com uma car reira no ANEP, docentes de
sala de aula, que assumiram tarefas extraclasse, por ocasiões, esses ato-
res entraram em choque, devido aos diferentes marcos referenciais de
cada grupo.
As preocupações de uns e de outros nem sempre foram coinci-
dentes: os mais políticos buscaram destacar a projeção da refor ma edu-
cacional enquanto principal política social da administração Sanguinetti;
os mais acadêmicos tentaram fazer surgir a dinâmica da pesquisa pró-
pria dos âmbitos universitários e a burocracia velou pela salvaguarda
dos procedimentos administrativos, em meio à tormenta da mudança.
Tudo isto fez emergir outras duas das tensões mencionadas: Entr e os
tempos políticos, profissionais e burocráticos de ritmos muito diversos, por
definição–e“entre o cumprimento das normas e a ação”.
À GUISA DE CONCLUSÃO
A revisão da evolução da educação secundária no Ur uguai permite
distinguir um período de cr escimento moderado, que se estendeu ao lon-
go das sete primeiras décadas do século XX, de uma fase de fortes mu-
danças que se inicia nos anos 80. O acompanhamento desta evolução leva
a reconhecer a passagem de um ensino secundário de elites para um de
massas, a par tir da precoce implantação legal do ciclo básico obrigatório.
Por sua vez, este quadro está na base da crise de fins e de funcionamento
334
que afetou, contemporaneamente, o ensino médio, com vertentes bem
visíveis: deterioração da qualidade educacional, segmentação, desprof issi-
onalização, estabelecimentos educacionais anômicos.
Sobre esta base foi implantada, em 1995, uma refor ma educativa
caracterizada por:
1. A for te liderança do presidente do CODICEN, professor Ger-
mán Rama, um prestigiado sociólogo da educação.
2. Um discurso de claro tom de refundamentação, ar ticulado per-
manentemente em torno de quatro objetivos: melhoria da qualidade edu-
cacional, eqüidade, profissionalização docente e moder nização da gestão.
3. Um enfoque sistêmico que tinha estado ausente nas políticas
educacionais durante muito tempo.
4. A reafir mação do papel do Estado em matéria educacional,
rejeitando a figura do Estado dispensável”, revigorando a do Estado or-
ganizador e solidário” e mantendo plenamente o papel do Estado docente
(
BRASLAVSKY, 1996, p. 7).
5. Um modelo muito clássico de elaboração e implantação de
políticas públicas.
6. A aposta tíbia e g radual em algumas linhas de descentralização.
7. Uma concepção de mudança a partir de instituições novas,
mais que da transformação inter na das antig as.
Cada um desses traços pesou na transformação específica do ensi-
no secundário. Assim, a mudança foi impulsionada a partir do CODI-
CEN e o Conselho de Ensino Secundário fez o acompanhamento. O
novo plano para o ciclo básico não foi conce bido em termos exclusiva-
mente curriculares, mas integrou um novo for mato organizacional; cria-
ram-se duas Inspetorias Regionais, ao final do período, como forma de
atenuar a centralidade da ca pital na supervisão e controle dos docentes.
Como se viu, as demandas de mudança não se fizeram esperar,
posto que começaram a desdobrar-se no primeiro ano da refor ma.
Afetaram, de modo muito especial o ensino secundário, por duas razões:
pela envergadura das políticas r eformistas dirigidas a este nível e porque
foram atores centrais da oposição o grêmio de estudantes, o grêmio de
docentes e a ATD de Educação Secundária. Seus questionamentos,
335
re at ivos mais que proativos, visavam o for mato baixa participação
docente no pr ocesso, problemas de comunicação, concentração da tomada
de decisões–eosconteúdos com o centro do debate público ocupado
pela inovação do ciclo básico. Por sua vez, do outro lado do espectro
político, entrou em cena o liberalismo, com uma proposta de vouchers
implícitos”, que ideológica e operacionalmente está muito distante dos
eixos pelos quais transitou a reforma no período 1995-1999.
Num estudo comparativo de recentes processos de reforma edu-
cacional em vários países, segundo Corrales (1998), e numa pesquisa
sobre três reformas institucionais no Uruguai seguridade social, edu-
cação e saúde de acordo com Filgueira & Moraes (1999), classifica-se
a reforma educacional ur uguaia como “bem-sucedida” enquanto alcan-
çou sua implementação, apesar da oposição gerada. Esta classificação
pode ser aceita com a condição de que se entenda que a transformação
da educação uruguaia está distante de ser consolidada. Muitos são os
atores que deverão continuar construindo-a, dia-a-dia, nas salas de aula
e nos centros educacionais. Em nível macro, pesarão, além disso, os re-
sultados das eleições nacionais de outubro e novembro de 1999 (pri-
meira e segundo turno), que habilitarão uma continuação das linhas
traçadas ou impulsionarão uma virada.
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339
*
Ana Lía Fernández é professora e licenciada em História pela Faculdade de Filosofia e
Letras da Universidade de Morón. Foi coordenadora do programa de transformação
curricular e diretora geral de pesquisa e desenvolvimento educacional (interina), na dire-
ção geral de pesquisa e desenvolvimento do Ministério de Cultura e Educação Nacional.
Também e xerceu a função de assessora para inovações no ensino médio, no Instituto
Latinoamericano de la Comunicación Educativa (ILCE) e como coordenadora acadêmica no
Instituto Educación Olinca, México, D.F.
**
Silvia Finocchio é professora de História diplomada pela Faculdade de Filosofia e Letras da
Universidade de Buenos Aires. É professora titular de história da educação na Faculdade
9.
MUDANÇAS NA EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA
NA ARGENTINA
Ana Lía Fer nández*
Silvia Finocchio**
Laura Fumagalli***
INTRODUÇÃO
Nos últimos 30 anos, produziu-se na Argentina um forte proces-
so de expansão da educação secundária, consistente com o comporta-
mento evidenciado em outr os países da r egião. Com efeito, em 1960,
freqüentavam a escola secundária 24,5% dos adolescentes e dos jovens
entre 13 e 18 anos. Mas, em 1996, esse númer o se tinha elevado para
67,2% (Gráfico 1), ainda que com diferenças notáveis nos ritmos de
expansão segundo as províncias: inferiores, nas socioeconomicamente
mais atrasadas, e superiores nas de baixa densidade populacional (
MOR-
DUCHOWICZ, 1999). Como conseqüência dessa expansão, em 1980 a
média de per manência de anos de escolarização alcançada pela popula-
ção, em idade de ter finalizado a educação formal, era de 9,7 anos e, em
1991, de 10,3 anos.
340
Contudo, o processo de expansão não pôde evitar a persistência
de muitos dos velhos problemas que sufocavam a educação secundária,
por e xemplo, a repetência, a evasão e a baixa qualidade das aprendiza-
gens. A distribuição dos alunos, que cursavam o nível secundário entre
os diferentes anos de 1994 e em 1998, conta do alto impacto de
deterioração (Quadro 1). Em 1993, o Primer Operativo Nacional de Evalu-
ación do Ministério de Cultura e Educação Nacional avaliou os êxitos de
aprendizag em dos estudantes do último ano do nível secundário. De
acordo com seus dados, os estudantes alcançavam 46,49% do mínimo
exigível em Matemática e 61,41% do mínimo exigível em Língua, com
diferenças também notáveis entre os resultados obtidos nas diferentes
províncias (Quadro 3).
Em fins da década de 80 e começo da de 90, as universidades,
empregadores, famílias e jovens, grêmios e meios de comunicação de
massa for am tomando consciência dos problemas assinalados. Essa to-
mada de consciência levou, por sua vez, à elaboração e implementação
de dif erentes propostas para sua transfor mação. Este trabalho pretende
oferecer elementos para análise de alguns aspectos dessas propostas, de
modo particular os que se ref erem à questão cur ricular. O motivo da
focalização nessa questão se relaciona com o fato de que a maioria das
propostas de transfor mação da educação secundária, implementadas a
partir do começo do período democrático iniciado em 1983, estão es-
tr uturadas em tor no de um eixo cur ricular.
De fato, em 1984 começou na Argentina um movimento de trans-
for mação cur ricular da educação secundária que envolveu numerosas
províncias e instituições. Esse movimento assentou as bases das tr ans-
for mações impulsionadas mais tarde, na década de 90, a par tir da san-
ção da Lei Federal de Educação que redefiniu os critérios de re gulação
de Humanidades e Ciências da Educação da Universidade Nacional de La Plata. Além
disso, exerce a função de coordenadora do programa nacional de gestão curricular e
capacitação do Ministério de Educação Nacional.
***
Inés Laura Fumagalli é licenciada em Ciências da Educação (UBA) e mestra em Educação
e Sociedade (FLACSO Argentina). Exerceu a docência universitária na Universidade
CAECE e na UBA, bem como a docência de pós-graduação em diversas universidades.
Realizou trabalhos de pesquisa na área de Educação da FLACSO e foi membro da equipe
de pesquisa educacional da direção de pesquisa educacional da Secretaria de Educação do
Município de Buenos Aires
341
e assentou novos parâmetros para a organização de todo o sistema edu-
cacional ar gentino, envolvendo a educação média ou secundária.
Tomando como eixo das mudanças cur riculares, porém conside-
rando também o conjunto da dinâmica do nível de ensino, pode-se apre-
sentar os processos de mudança recentes da educação secundária estru-
turados em três fases (
BRASLAVSKY, 1997). A primeira fase corresponde
às transformações que se produziram durante a tr ansição democrática.
A segunda, às mudanças impulsionadas a par tir da sanção da Lei Feder al
de Educação, em 1993. A terceira refere-se aos desafios lançados para o
futuro, a par tir da situação atual.
A PRIMEIRA ETAPA DE TRANSFORMAÇÃO
DEMOCRÁTICA DA EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA:
1984-1991
A primeira etapa da transfor mação da educação secundária, inici-
ada com a chegada da democracia, foi caracterizada como um período
de acentuação da desagregação federal. Nela se destacam dois proces-
sos paralelos. Por um lado, o f ortalecimento do papel principal das pro-
víncias, através da criação de estabelecimentos de educação secundária
sob sua de pendência e, por último, da obrigação de assumirem a gestão
das prestações que, historicamente, neste nível, cabia ao governo nacio-
nal prover. Por outro lado, o dinamismo reformador do Estado nacio-
nal e de alguns governos provinciais que acentuou um processo de dis-
persão cur ricular, no contexto de um Estado nacional débil e indeciso,
com relação a seu papel de promotor de políticas nacionais.
Para a reestruturação federal do sistema educacional
Em meados do século XIX, a educação média Argentina come-
çou a desenvolver-se como uma prestação centralizada, a cargo do Es-
tado nacional, que organizou “colégios nacionais” em diferentes lugares
do ter ritório. Posteriormente, o nível se expandiu por iniciativa do mes-
mo Estado nacional e progressivamente também do setor privado e
dos g overnos provinciais.
342
Dessa dinâmica derivou a presença posterior, num mesmo terri-
tório, de instituições de ensino médio sustentadas por diversos ag entes e
dependentes de diferentes autoridades. A coexistência de diversos org a-
nismos de governo na educação secundária conduziu à justaposição de
orientações de política educacional, normas, condições de trabalho do-
cente, planos e prog ramas de estudo.
No marco do processo de descentr alização dos serviços educacio-
nais fornecidos pelo Estado nacional às províncias, iniciado na década de
60, em 1992 os colégios secundários nacionais foram transferidos para os
governos provinciais. Essa transferência foi precedida por um intenso de-
bate educacional, mas executada, em certa medida, à margem desse debate.
Reinstalado o g overno democrático, convocou-se, em 1984, um
Congresso Pedagógico Nacional. Esse Congresso reabriu o debate em
torno da questão educacional e permitiu que se colocasse a necessidade
de se regular coerentemente o conjunto do sistema educacional. Em seu
interior, se relançou também a questão das atribuições das jurisdições
nacional e provincial na provisão e financiamento das prestações. Daí
surgiu for talecida a demanda de sancionar uma nova lei de educação,
que substituiria a Lei 1420, sancionada cem anos atrás. Essa lei se ocupa-
va apenas da educação primária e tinha vigência nos territórios sob go-
verno do Estado nacional, pouco a pouco transfor mados em provínci-
as com g overnos próprios. Como resultado do Congresso Pedagógico
Nacional, f oi ativado o debate legislativo sobre questões educacionais.
Como corolário dessa ativação, no período 1988-1991, foram apre-
sentados ao Congresso Nacional dez projetos de lei de educação junto com
outros referentes à reestruturação federal do sistema educacional (projetos
de lei relacionados com a transferência dos serviços educacionais do Esta-
do nacional aos Estados provinciais, o funcionamento do Conselho Federal
de Cultur a e Educação, a organização da universidade, etc.). Nunca houve,
na história da educação argentina, tal quantidade de projetos de leis de edu-
cação com estato parlamentar (
CARLANA & PAEZ, 1992).
Todos os projetos apresentados se ocupavam do conjunto do
sistema regular de ensino, ou seja, envolviam também a educação secun-
dária. Por sua vez, as constituições provinciais pro mulgadas depois de
1983 doze do total de províncias incluíam uma articulação referente
à ampliação da obrigatoriedade escolar, o reconhecimento das peculia-
ridades regionais, a descentralização dos serviços e a participação da
sociedade civil na g estão do sistema (
TIRAMONTI & BRASLAVSKY , 1995).
343
Contudo, no início da década de 90, o consenso em tor no da
necessidade de que as províncias assumissem o conjunto das prestações
educacionais encontr ou uma cor relação nor ma tiva. A Lei 14.049 esta-
beleceu a transferência dos ser viços educacionais de nível secundário
até então diretamente administrados pelo Ministério de Cultura e Edu-
cação Nacional e das faculdades sobre os estabelecimentos primários
às províncias (
TIRAMONTI, 1995).
A transferência dos ser viços de educação secundária para as pro-
víncias foi de grande envergadura. Ainda que os números sejam escas-
sos, incoerentes e difíceis de serem inter pretados, pode-se afirmar que o
processo envolveu centenas de milhares de docentes e em torno de
dois milhões de alunos (Quadro 3).
Diferentemente do que tinha ocorrido com a transferência dos
ser viços de educação primária para as províncias, determinada durante
os governos militares, as províncias receberam o orçamento necessário
para g arantir a continuidade das prestações. Contudo, o mecanismo para
a destinação de tais recursos foi modificado. Em lug ar de vincular sua
transferência com os investimentos em educação, esses r ecursos passa-
ram a fazer parte dos recursos de co-participação provenientes dos im-
postos nacionais. Por outro lado, as províncias assumiram os custos da
expansão a par tir do momento das transferências dos ser viços e tam-
bém, em muitos casos, do pagamento de salários de professores de
montantes muito diferentes entre si.
A mudança do volume do sistema que deveria governar e da quan-
tidade de recursos que teria de administrar não foi acompanhada por
um processo de reforma dos órgãos e mecanismos para o governo da
educação, mas, em alguns casos, tinha sido precedido por pr ocessos de
refor m a curricular, que fo ram levados a cabo, se paradamente, em cada
espaço governamental.
A dispersão curricular
Até o momento da abertur a democrática, o universo for mal de
planos de estudo vigentes par a a educação secundária era muito amplo.
Segundo algumas pesquisas, existiam, pelo menos, 187 planos de alcance
,nacional, aos quais se deviam acrescentar numerosos planos provinciais.
344
Entretanto, ef etivamente, à diversidade for mal de planos de estudo, que
dificultava o funcionamento burocrático do sistema, juntava-se uma
tendência para a homogeneidade do conteúdo dos planos, que dificultava
o atendimento da diversidade de situações socioeconômicas e de
necessidades pessoais dos estudantes. Na realidade, predominava um
modelo rígido e lógico-for mal, correspondente a um plano de
terminalidade secundária humanística convencional, ao qual se
acrescentavam ou tiravam algumas horas ou disciplinas, ampliando ou
reduzindo a quantidade semanal de horas de aula (
AGUERRONDO, 1987).
Frente a esta realidade pouco tr ansparente, uniformizante e desa-
tualizada, no marco da abertura democrática, tiveram lugar diversos pro-
cessos de transfor mação cur ricular, de modo especial nos estabeleci-
mentos de jurisdição nacional (antes da transferência), na cidade de Bu-
enos Aires e em algumas das províncias de modernização precoce e,
conseqüentemente, com maior tradição e expansão da educação secun-
dária. Produziu-se, assim, um processo de dispersão curricular, caracte-
rizado pela coexistência paralela de processos de mudança curricular,
que, no caso da educação secundária, se expressou na concretização de
16 r efor mas diferentes (Quadro 4).
Com efeito, entre 1984 e 1992, 16 das 24 autoridades educacio-
nais argentinas avançaram em processos de mudança dos planos e pro-
gramas vigentes na educação secundária. Em alguns casos, foram reno-
vados os conteúdos de algumas disciplinas. Em outros, foram modifi-
cadas as car gas horárias. Num menor número de casos, promoveram-se
mudanças institucionais. Por outro lado, tais mudanças foram postas em
prática a través de diferentes modalidades. Em algumas províncias, as
mudanças foram implementadas como experiência restrita a um núme-
ro especificado de estabelecimentos e, em outras, foram envolvidos to-
dos os colégios secundários. Por último, em alguns casos, as mudanças
foram ef etuadas através de um modelo técnico clássico, ou seja, medi-
ante um desenho elaborado por equipes profissionais, que se aproxima-
ram das instituições educacionais para sua aplicação e, em outros, ensai-
ando processos consultivos que envolveram os diretores e os professo-
res na definição da proposta.
Não obstante, mesmo quando as dinâmicas das mudanças
curriculares foram muito diversas, as propostas tiveram algumas
tendências em comum. Essas tendências foram: i) a busca de integração
345
dos conteúdos; ii) a regionalização; iii) a inclusão de conteúdos de
tecnologia; iv) a introdução de uma for mação para o trabalho nas
modalidades de educação secundária geral; e v) a abertura ( DUSSEL, 1994).
A busca de integração de conteúdos foi realizada através de diver-
sas alternativas: i) conformação de áreas de disciplinas afins, que a g rupa-
vam conteúdos procedentes de um mesmo campo de conhecimentos
(
TUCUMÁN, MISIONES e JUJUY); ii) org anização de eixos formativos referentes
a difer entes aspectos da for mação da per sonalidade, por exemplo, ético,
social, dinâmico, estético e intelectual (província de Buenos Aires); iii) pro-
blemas-eixo selecionados para articular os conteúdos de todas as discipli-
nas de uma série em torno de um problema (Córdoba, Santa e Entre
Rios); e iv) oficinas integradas por áreas que vinculavam os conteúdos de
várias disciplinas afins (Mendo za, Rio Neg r o, Chubut e Neuquén).
As propostas de integração demandavam uma nova modalidade
de gestão do currículo que dera lugar ao trabalho em equipe dos pro-
fessores. Em cer tas ocasiões, essas modalidades de g estão puderam ser
postas em prática, a partir da concessão de horas de sala de aula aos
professores, para que desempenhassem tarefas institucionais, da desig-
nação de professores para cargos e do conseqüente aumento dos inves-
timentos por aluno da educação secundária. Não obstante, em geral,
essas inovações não redundaram em articulações pedagógicas significa-
tivas em ter mos de constr ução de conhecimentos, porque se estabelece-
ram sobre a base de relações conceituais com escassas tradições e sem
uma preparação dos pr ofessores para essas modalidades de tr abalho.
Em alguns casos, ter minaram mesmo por empobrecer o ensino.
A tendência para a regionalização se expressou de maneira dife-
rente nos diferentes desenhos cur riculares, por exemplo, como: i) aten-
dimento à realidade circundante; ii) respeito à diversidade cultural; e iii)
for mação de identidades culturais específicas. Na maioria dos casos, a
tendência à regionalização significou uma reafir mação da identidade cul-
tural provincial, dissociada de um processo de renovação do tipo e da
seleção de conteúdos pr opostos para o ensino.
As novas estruturas curriculares adotadas fortaleceram a tendência
a consolidar um ciclo básico comum de três anos (equivalentes às 8
a
,9
a
e10
a
séries do percurso do sistema de educação for mal), orientado à
for mação geral, que recebeu diferentes denominações (ciclo básico
346
conum, ciclo básico geral) e um ciclo superior diversificado de dois
anos de duração.
A tendência ao fortalecimento da educação para o trabalho teve
impacto de modo diferente nos dois ciclos.
Na maior parte dos casos, no ciclo básico, for am incluídas ofici-
nas para trabalhar conteúdos de tecnologia, concebida, por sua vez, como
ciência aplicada. Essas oficinas, assumiram diferentes denominações: i)
oficinas pré-tecnológicas (Chubut); ii) oficinas tecnológicas (Neuquén);
iii) oficinas integradas tecnológicas (Jujuy); iv) oficinas optativas de tec-
nologia (Rio Negro); e v) oficinas de orientação vocacional (CBU-Naci-
onal). Em outros casos, foram concebidas áreas ou orientações mais
amplas que assumiram as seguintes formas: i) área de educação para o
trabalho (Misiones); ii) campo de orientação profissional (Mendoza); iii)
área de educação tecnológica e administrativa (Córdoba). Neste segun-
do caso, pode-se ver uma prog ressiva recuperação mais ou menos ex-
plícita da necessidade de “orientação”.
Para o ciclo superior da educação secundária, diferentes governos
provinciais dispuseram em seus currículos a articulação da oferta educa-
cional às estruturas produtivas locais, mediante a organização de experi-
ências diretas no mundo da pr odução, tais como estágios e o desenvol-
vimento de atividades produtivas nos estabelecimentos educacionais,
como microempreendimentos. Em alguns casos, foi proposta a imple-
mentação de e xperiências de desenvolvimento comunitário. Exemplos
dessas r eformas do ciclo superior da educação secundária podem ser
encontrados em Entre Ríos, La Pampa e Santa Fé.
Estado de situação e desafios nos começos dos anos 90
As mudanças mencionadas produziram um interessante estado de
mobilização, debate e transformação em parte da oferta educacional de
ensino secundário. Mas, enquanto isso, em outro grande número de estabe-
lecimentos de ensino secundário continuaram vigentes planos e programas
anteriores à abertura democrática. A maioria dos milhares de estabeleci-
mentos dependentes do Ministério de Educação Nacional, por e xemplo,
continuava regendo-se por planos e programas de fins do século XIX, ape-
nas parcialmente modificados em 1957 e retocados ideologicamente em
347
1983. Em várias províncias continuavam vigentes os Conteúdos Mínimos
aprovados pelo Conselho Federal da ditadura militar em 1978.
A vigência de tais planos e programas era consistente com a con-
tinuidade de um modelo institucional fragmentado e rígido que promo-
via um tratamento impessoal e indiferenciado aos estudantes em con-
textos de forte diversidade.
A disparidade de situações e as evidências a respeito da insuficiên-
cia das mudanças propostas para melhorar a qualidade das aprendiza-
gens dos alunos indicavam que, para avançar na melhoria da qualidade e
na conquista de uma maior eqüidade educacional para os adolescentes e
jovens, eram necessários, pelo menos, quatro tipos de ação: i) estender o
espírito transfor mador iniciado por algumas pr ovíncias e pela jurisdição
nacional ao conjunto do sistema educacional; ii) aprofundar a renovação
dos conteúdos do ensino; iii) recuperar e potencializar a experiência de
equipes técnicas isoladas e dispersas; e iv) garantir melhores condições
para continuar expandindo as oportunidades de educação secundária,
de modo especial para os n ovos setores sociais.
DA DISPERSÃO PARA A CONCERTAÇÃO FEDERAL:
1992-1999
A partir da sanção da Lei Federal de Educação iniciou-se uma
nova etapa na transformação da educação secundária. Nela, o Ministé-
rio de Educação Nacional cumpriu um papel diferente. Liberado da
gestão direta de um volume nada desprezível de estabelecimentos edu-
cacionais, tentou liderar um processo de mudança curricular de alcance
nacional, oferecendo às equipes provinciais cenários de diálogo e con-
certação e insumos técnicos para aproximar propostas que pudessem
ser apr ovadas pelo Conselho Federal de Cultura e Educação.
Contudo, ao mesmo tempo em que se procurava chegar, no terreno
curricular, a acertos federais, as duas províncias com maior população e
recursos iniciaram, por sua vez, processos de transformação dos serviços
de educação secundária, orientados por sua própria interpretação da Lei
Federal de Educação. No interstício entre ambos os processos, o Ministério
de Educação Nacional tentou apoiar as ações de melhoria da qualidade e de
expansão da matrícula através de algumas políticas e programas próprios.
348
Ampliação das bases de organização federal do sistema
educacional
A Lei Federal de Educação abandonou a idéia de diferentes níveis
de ensino. Em seu lug ar, definiu distintos tipos de educação, que pode-
riam ou não dar lug ar a uma nova estr utura de estudos. Com ef eito, a
Lei Federal de Educação dispôs sobre a existência de uma Educação
Inicial, com um último ano obrig atório, uma Educação Geral Básica de
9 anos de caráter também obrig atório e uma Educação Polimodal de 3
anos, não-obrigatória.
Por outr o lado, a Lei Federal de Educação dispôs sobr e uma nova
distribuição de responsabilidades entre os diferentes níveis do Estado: o
Estado nacional deve fixar as linhas da política educacional, promover o
acordo, compensar diferenças e impulsionar a pesquisa, além de avaliar e
informar sobre a marcha geral da educação. Os Estados provinciais e a
cidade de Buenos Air es devem planejar, org anizar, administrar e supervi-
sionar os serviços educacionais de seus territórios, incluindo os privados.
O Conselho Federal de Cultura e Educação, integrado pelos mi-
nistros de Educação de todas as províncias e presidido pelo ministro
nacional de Educação, deve ser o org anismo de conciliação, no qual se
acertam as articulações entre as linhas da política e as tarefas de planeja-
mento, org anização e administração educacional. Por isso, em seu estra-
tégico artig o 66, a Lei Federal de Educação previu que o Conselho Fe-
deral de Cultura e Educação deveria: i) determinar os ciclos da Educa-
ção Geral Básica, ou seja, a estrutura organizacional através da qual se
prestaria essa educação; ii) acordar as modalidades do Polimodal; e iii)
estabelecer Conteúdos Básicos Comuns para todo o país, que fixassem
padrões de elevação da qualidade do conjunto da oferta e levando em
consideração a diversidade.
Pouco a pouco, o Conselho Federal de Cultura e Educação assu-
miu o encarg o de cumprir a Lei Federal de Educação, mediante o acerto
de diferentes acordos para sua aplicação. Tais acordos foram de caráter
estrutural, curricular-institucional, referentes aos docente s e à avaliação
dos alunos.
Os principais acordos estruturais consistiram em dispor que a
Educação Geral Básica de 9 anos de duração se organizasse em três
349
ciclos de três anos cada um (Resolução n. 30/93, CFCeE). Tal acordo
ser viu, além disso, para estabelecer que o último ciclo da Educação
Geral Básica, também denominado EGB 3, pudesse organizar-se em
continuidade nos dois primeiros anos num ex-estabelecimento de
educação primária, ou com antecedência ao Polimodal, num ex-
estabelecimento de educação secundária. Parte dos acordos estruturais
estiveram também orientados a estabelecer as modalidades do
Polimodal e construir um novo equilíbrio entre a for mação para o
mundo do trabalho, num sentido amplo,eaformaçãotécnico-
profissional (Quadro 5).
Os principais acor dos cur riculares-institucionais do Conselho Fe-
deral de Cultur a e Educação, que afetavam a educação secundária, con-
sistiam em aprovar os Conteúdos Básicos Comuns, deter minados pela
lei, definir que o cur rículo do EGB3edoPolimodal teria uma “estru-
tura cur ricular básica”, aprovar a conce pção de “Trajetos Técnico-Pro-
fissionais” (TTP), os primeiros trajetos e módulos e a concepção refe-
rente aos “Trajetos Ar tístico-Profissionais” (TAP), bem como os con-
teúdos correspondentes (Resoluções n. 39/94, 40/90, 55/96, 57/97,
73/98, 79/98, 80/98, 86/98, 88/98 e 96/99).
Os acordos mais relevantes relacionados com os docentes con-
sistiram em definir que os professores de educação secundária teriam
prioridade para ensinar no EGB3enoPolimodal; os professores da
7
a
série poderiam continuar ensinando no EGB 3; os professores para
oEGB3ePolimodal continuariam sendo for mados por disciplina,
mas os conteúdos de sua for mação incluiriam uma sólida perspectiva
multidisciplinar, que lhes per mitiria ensinar em áreas ou em outras dis-
ciplinas afins, diferentes das de sua formação inicial. Além de se for-
mar numa disciplina principal, os professores poderiam for mar-se numa
disciplina complementar.
Por último, os acordos r elativos à avaliação deter minaram que
seriam administradas provas anuais censitárias aos alunos(as) que con-
cluíam o nível secundário, uma vez pr oduzidas as mudanças cur ricula-
res e institucionais de Polimodal. Tais provas teriam, primeiro, um ca-
ráter anônimo e de diagnóstico, mas, e m cinco anos de prazo, seriam
administradas de for ma personalizada e as notas obtidas interviriam
na promoção e na circulação dos alunos pelo sistema educacional.
350
A transf ormação curricular na reconfiguração da educação
secundária
Os marcos cur riculares aprovados pelo Conselho Federal de Cul-
tura e Educação foram elaborados pelas equipes técnicas das províncias
e do Ministério de Cultura e Educação Nacional, mediante árduos pro-
cessos de diálog o e neg ociação.
No caso dos Conteúdos Básicos Comuns, o processo se desen-
volveu através de três circuitos: técnico, federal e nacional. No circuito
técnico, foram elaborados os esboços. No circuito f ederal, foram discu-
tidos tais esboços nos territórios provinciais, com docentes e, no circui-
to nacional, foram aceitas as contribuições de diferentes instituições, tais
como grêmios, academias, universidades, igrejas e organizações não-
g overnamentais. Os conteúdos foram ag r upados em diferentes capítu-
los. Dentr o de cada capítulo, f oi redigida uma síntese explicativa, desti-
nada a informar a respeito do sentido das inclusões, e xpectativas de
sucesso orientadas par a definir as competências a for mar e, como ane-
xo, propostas de alcance de conteúdos conceituais, procedimentais e
atitudes adequadas para cobrir as expectativas de êxito (Conselho Fede-
ral de Cultura e Educação, CBC par a a EGB e para o nível Polimodal).
Ao long o do pr ocesso de elaboração dos CBC, intervieram milhares de
pessoas e se produziram debates relevantes sobre diferentes temas e
com dif erentes atores.
No caso dos Conteúdos Básicos Comuns par a a Educação Poli-
modal, foi um pré-requisito definir o que se entenderia por modalidade e
quais seriam as novas modalidades. O diálog o prof issional permitiu acor-
dar que o sentido que se outorgaria ao conceito de modalidade seria mais
aber to que o do passado, que cada estabelecimento poderia organizar
mais de uma modalidade e que estas seriam cinco: i) economia e gestão
das organizações; ii) produção de bens e serviços; iii) ar tes, desenho e
comunicação; iv) ciências naturais; e v) humanidades e ciências sociais.
Os Conteúdos Básicos Comuns par a o Terceiro Ciclo da Educa-
ção Geral Básica se organizaram nos oito capítulos próprios de toda a
Educação Geral Básica, ou seja: i) Língua; ii) Matemática; iii) Ciências
Sociais; iv) Ciências Naturais; v) For mação Ética e Cidadã; vi) Educação
Física; vii) Educação Artística; e viii) Tecnolo gia.
351
Esses conteúdos colocam ênfase em: i) compreensão e produção
de textos orais e escritos; ii) resolução de problemas e raciocínios mate-
máticos; iii e iv) pesquisa escolar para a compreensão e a explicação do
mundo natural e da realidade social; v) discernimento moral das ações
individuais e sociais e o pensamento analítico, reflexivo e crítico; vi) domí-
nio corporal e motriz e a cooperação na natureza e no esporte; vii) desfru-
te e produção com diferentes linguagens artísticas e a criatividade; e viii)
análise de produtos, desenho e execução de projetos.
Os Conteúdos Básicos Comuns para o Polimodal foram formu-
lados em três grupos: i) Conteúdos Básicos Comuns para todas as mo-
dalidades, organizados nos mesmos capítulos que os correspondentes a
EGB; ii) Conteúdos Básicos orientados a fortalecer aqueles CBC mais
afins com uma modalidade; e iii) Conteúdos Diferenciados, de caráter
optativo e orientados a for talecer a identidade de cada instituição, facili-
tando o desenvolvimento de projetos de intervenção, produção ou de-
senvolvimento comunitário ou as especificações dos módulos dos Tra-
jetos Técnico-Profissionais.
A inclusão da possibilidade de cursar módulos dos Tr ajetos Téc-
nico-Profissionais, dentro dos Conteúdos Diferenciados, foi possível
porque, paralelamente, ficou definido que a f or mação técnico-profissi-
onal seria desenvolvida de forma modular, através de Trajetos Técnico-
Profissionais, que poderiam ser cursados juntamente com qualquer das
cinco modalidades, posterior mente à conclusão do Polimodal ou par te
em paralelo e parte posterior mente a ele, que cada um dos Trajetos
estaria org anizado para conferir f ormação em famílias técnico-prof issio-
nais e para ir alcançando diferentes níveis certificáveis de competência, em
geral três. Os Trajetos Ar tístico-Profissionais se guem a mesma lógica.
A discriminação entre f ormação ge ral e formação técnico-profis-
sional buscava resolver, pelo menos, quatro problemas: i) prevenir as
altas taxas de evasão da educação técnica tradicional que alcançavam,
em muitos casos, mais de 50% do alunado das escolas técnicas tradicio-
nais; ii) dar alter nativas de for mação contextualizada também a quem
teve a intenção de cursar um Polimodal em Ciências Naturais ou em
Ciências Sociais, em especial a quem tinha b uscado uma for mação téc-
nico-profissional em áreas como saúde e turismo, que possuem boas
expectativas ocupacionais e que se complementam adequadamente com
uma maior for mação básica a profundada nessas disciplinas; e iii) facili-
352
tar a concentração de equipamento dispendioso em alguns estabeleci-
mentos para ser utilizado de for ma intensiva, nas ofer tas de for mação
técnico-profissional para estudantes que podem estar cursando o Poli-
modal nesses mesmos estabelecimentos ou em outros.
As definições estruturais e a aprovação de Conteúdos Básicos não
foram, na opinião das equipes provinciais, dispositivos suficientemente ori-
entadores para garantir a elaboração de novos desenhos curriculares pro-
vinciais compatíveis entre si nem muito menos para orientar a transfor-
mação institucional nos tradicionais estabelecimentos de educação secundá-
ria, conclusões profissionalizantes do ensino médio, cursos comerciais ou
escolas técnicas. Conseqüentemente, pouco a pouco chegou-se à conclusão
de que era necessário também estabelecer “Estruturas Curriculares Básicas”.
As Estr uturas Curriculares Básicas (ECB) par a EG B3eparaPo-
limodal f oram concebidas como um dispositivo de inter mediação entre
os CBC e os lineamentos curriculares das províncias. Entende-se por
Estr uturas Curriculares Básicas uma “matriz” que permite org anizar e
distribuir, no tempo, os conteúdos a ser em ensinados, define as relações
entre eles, incorpora regras de composição e agrupa-os em unidades de
autenticação, chamadas “espaços curricular es”. O conceito de “espaço
curricular” pretende, por sua vez, superar o conceito de matéria, pois
admite uma organização das experiências pedagógicas a partir de um
eixo temático ou conceitual, por projetos, em oficinas ou de acordo
com outr os critérios.
As Estruturas Curriculares Básicas aprovadas se propõem a al-
cançar padrões horários mais próximos dos padrões internacionais; fi-
xam faixas horárias dentro das quais os desenhos curriculares provinci-
ais podem ser manejados com flexibilidade ou deixar, por sua vez, mar-
gens de decisão aos estabelecimentos educacionais; propõem alternati-
vas de constituição de áreas ou de opções entre disciplinas para diminuir
a fragmentação, dispondo, por outro lado, que nenhum estudante pode
estar exposto, em cada ano, a mais de 10 Espaços Cur riculares por vez,
em lug ar dos 12 a 14 de muitos dos planos prévios. Desse modo, eleva-
se o mínimo de carga horária para cada Espaço Curricular a 72 horas
anuais, muito superior às 38 horas com que contavam antes algumas
matérias, e busca-se atender a uma carga horária por ciclo de 2.700
horas, também muito superior às de 1800 e 1900 próprias de muitos
planos de estudo vig entes.
353
Os Trajetos Técnico-Profissionais e os Trajetos Artístico-Profissi-
onais receberam também uma organização interna, cujo desenvolvimento
excede as margens deste trabalho (Quadros5e6).
Para o caso de EGB 3, as províncias elaboraram, a partir dos
CBC, seus próprios modelos curriculares e, na realidade, foi depois ou
paralelamente com essa elaboração que se desenhou a respectiva Estru-
tura Curricular Básica, com uma lógica mais indutiva que dedutiva e
com o propósito de dar transparência à diversidade, antes de lhe dar
alguma forma particular.
No caso de Polimodal, pelo contrário, primeiro se elaborou a
Estrutura Curricular Básica e não se prepararam desenhos curriculares
provinciais. Numerosos estabelecimentos e províncias preferiram, em
troca, avançar na elaboração de “protótipos de modalidade” e “pro-
gramas indicativos”. Os protótipos de modalidade são exercícios de
organização institucional de acordo com os CBC. Os programas indica-
tivos são exercícios de antecipação de desenvolvimentos curriculares,
sem caráter prescritivo (Quadro 7).
A comparação dos materiais curriculares desenvolvidos no perí-
odo 1992-1999 aponta dois processos simultâneos: i) um processo de
recuperação e de re-significação das linhas inovadoras iniciadas pelas
províncias mais dinâmicas e pelo governo nacional, em suas duas pro-
postas inovadoras, durante o período 1984-1991; e ii) um processo mais
ambicioso de reinvenção da educação secundária.
A respeito da recuperação e da re-significação das linhas inovadoras
iniciadas durante o período 1984-1991, podem ser registradas tendências
de regionalização, interdisciplinaridade e reconsideração da formação
para o mundo do tr abalho. Os CBCe–emespecial os novos desenhos
cur riculares provinciais para EGB 3 mantêm referências à regionalização,
embora no momento da organização e especificação dessa regionalização
não se obser vem avanços particularmente inovadores. Mantém-se
também a pretensão de interdisciplinaridade, mas não se sustentam as
construções de áreas sem tradição. Busca-se, antes, respeitar a
especificidade das disciplinas ou estruturar áreas a partir de disciplinas
que tenham conteúdos de procedimentos em comum, tais como Ciências
Sociais, por um lado, Ciências Natur ais, por outro, e Educação Artística
em terceiro lug ar. Supera-se a visão da tecnologia como ciência aplicada
própria da década de 80 e se avança decididamente na concepção,
354
segundo a qual a educação tecnológica deve oferecer elementos para a
compreensão e a inter venção no mundo artificial, o qual implica tanto
oferecer oportunidades para a aprendizagem de técnicas de trabalho com
diferentes materiais, tais como os feitos para a análise crítica dos efeitos do
uso das tecnologias na sociedade e no meio-ambiente.
As contribuições mais ambiciosas ligadas à pretensão de contri-
buir para a reinvenção da educação destinada aos adolescentes e jovens,
desde os 13 até os 18 anos, centram-se em: i) adoção decidida de um
conceito mais amplo de conteúdo escolar que não se refere apenas aos
conceitos, mas também aos procedimentos para fazer e às atitudes, nor-
mas e valores; ii) atenção para a diversidade, mediante a inclusão de
opçõeseafixação de expectativas de êxito, com caráter prescritivo, mas
de propostas de alcance, com caráter orientador; iii) encargo explícito
da função orientadora da escola e a conseqüente incorporação da fun-
ção de orientação e tutoria como parte do currículo; iv) introdução de
enfoques articulados de temas associados com a qualidade de vida, por
exemplo, a saúde e a educação ambiental; v) atenção que se presta par a
a avaliação e a certificação de conhecimentos; e vi) contínua referência e
tomada de decisões para a promoção da autonomia das escolas e de
uma gestão institucional responsável e profissionalizada.
A gestação de uma nova estrutura de estudos nas províncias
Paralelamente aos processos de construção de bases curriculares
compartilhadas, no caso dos CBC, ou compatíveis, no caso dos Dese-
nhos Curriculares Provinciais para EG B 3 e das Estruturas Curriculares
Básicas para EG B3ePolimodal, alguns governos pr ovinciais foram
avançando em processos de gestação de uma nova estrutura de estudos.
As duas províncias que iniciaram os processos de mudança de suas
estruturas de estudos foram Buenos Aires e Córdoba. A província de
Buenos Aires priorizou o objetivo de ampliação da obrigatoriedade esco-
lar e de retenção do conjunto do alunado até o 9
o
ano, pelo menos, e
interpr etou que, para alcançá-lo, era necessário conceber a EGB como
uma unidade organizacional e dispor a criação de oitavo e nono anos em
continuação aos sete anos que antes correspondiam à educação primária.
Paralelamente, tomou a decisão de organizar o currículo do terceiro ciclo
355
integrando os conteúdos de Ciências Sociais e de Ciências Naturais em
cada espaço curricular das áreas e de dispor que o ensino dos conteúdos
de For mação ética, de cidadania e de tecnologia seria tratado de forma
transversal nos demais espaços curriculares. Também decidiu incorporar
o ensino do inglês, de f orma obrig a tória, neste ciclo, em lug ar de sustentar
a possibilidade de opção entre o inglêseofrancês, que existia anteriormen-
te, nos primeiros anos da educação secundária, o que levou a deslocamento
dos professores de francês par a outros espaços curriculares.
As decisões vinculadas com o terceiro ciclo foram interpretadas
como uma “primarização” dos primeiros anos da educação secundária,
mesmo quando reconhecidos funcionários da gestão governamental da
província de Buenos Aires puseram, de forma enfática e clara, a neces-
sidade de administrar o terceiro ciclo da Educação Geral Básica como
uma oferta pedagógica nova, diferente da educação primária e da edu-
cação secundária (
FEIJOO, 1996).
A decisão de organizar a EGB completa na província de Buenos
Aires teve diferentes efeitos. Por um lado, per mitiu reter um conjunto
importante de adolescentes de setores populares nos estabelecimentos
educacionais. Por outro, g erou resistência e, inclusive, rejeição em parte
do pr ofessor ado, especialmente entre os afetados pela nova proposta
curricular, e nos setores médios da sociedade que tinham tido acesso
à educação secundária. Os professores interpretavam que não estavam
preparados para o ensino integrado nem para acolher os novos setores
sociais que antes não per maneciam na educação secundária e que, inc lu-
sive, estavam regressando à 8
a
e9
a
série, com um ou vários anos de
atraso, d epois de terem concluído a educação primária e abandonado o
sistema educacional.
Por outro lado, na realidade, convive um amplo conjunto de esta-
belecimentos de EBG completos, mas também outro amplo conjunto
de terceiros ciclos “articulados”, cuja 7
a
série continua funcionando numa
ex-escola primária e cujas 8
a
e9
a
séries continuam funcionando numa
ex-escola secundária. (Tais tipos diferentes de escolas são administrados
a partir de diferentes dependências, com diferentes critérios, gerando
consideráveis quotas de confusão).
Ainda assim, Morduchowicz (1999) demonstra que na província de
Buenos Aires, em 1997, cursaram a 8
a
série da EGB quase 30% a mais de
alunos do que os que tinham cursado a antiga 7
a
série da escola primária, em
356
1996, e que, além disso, essa matrícula na 8
a
série superava, de maneir a
significativa, a matrícula correspondente à 1
a
série da escola secundária,
nos anos prévios à reforma. Contudo, os dados demonstram também
quea8
a
série teve, em 1998, cerca de 15% a menos de matrículas com
relação a 1997, mas que a 9
a
série teve uma matrícula superior em 11%
com relação à 2
a
série da escola secundária, em 1997. O conjunto da
informação parece assim dar conta de que, com a nova estr utur a, conse-
gue-se incorporar mais adolescentes, mas nem sempre retê-los pelo perí-
odo de três anos.
Por último, fica claro que o esforço de incor poração e de reincor-
poração da matrícula adolescente caiu, sobretudo nos estabelecimentos
educacionais de gestão estatal dependentes do Estado provincial, nos
quais o incremento da matrícula foi de 39%. Nos estabelecimentos de
gestão privada, em troca, esse incremento foi de apenas 5,4%.
Por outro lado, na província de Buenos Aires, foi determinada por
lei a obrig atoriedade do nível Polimodal e se tomaram decisões cur ricula-
res para o mesmo, que “acomodaram” o currículo existente à nova Estru-
tura Curricular Básica acertada entre os técnicos das diferentes províncias
e aprovada pelo Conselho Federal de Cultura e Educação.
A província de Córdoba, ao contrário, priorizou o objetivo de
abrir a educação secundária a todos, mais cedo. Em conseqüência,
tomou a decisão de organizar uma educação primária de seis anos e
uma educação secundária também de seis anos, fechando a 7
a
série da
educação primária e antecipando o ingresso a uma educação secundária,
na qual abriu um ano a mais e manteve o cur rículo por disciplinas. Esta
decisão, inter pr etada como uma decisão por “secundarizar” um ano da
ex-educação primária, teria tido como conseqüência, durante seu primei-
ro ano de aplicação, o abandono da escolarização por par te de 3000 estu-
dantes com um ano de antecedência, a respeito do momento em que eles
antes abandonavam o sistema educacional. Este problema foi enfrentado
com a organização de um dispositivo para acompanhar, cuidadosamente,
o aluno por parte dos diretores e supervisores. Por outro lado, a província
de Córdoba tentou uma racionalização da oferta de oportunidades de
educação secundária, sobretudo no interior da província, onde existia, em
1995, segundo as autoridades, uma quantidade de estabelecimentos de
educação técnica com especialidades desconectadas das mudanças na pro-
dução e com uma ineficiente relação docente/alunos.
357
Essas tentativas de racionalização apoiaram-se em cuidadosos exer-
cícios de planejamento a cargo de equipes técnicas, mas sem a participa-
ção de representantes dos grêmios docentes e das comunidades afeta-
das. Por último, geraram for tes reações adversas que impediram sua co-
locação em prática. De pois desse intento falido, foram tomadas outras
medidas que anteciparam uma reorganização do ciclo superior da edu-
cação secundária, denominado Ciclo de Especialização, dirigido para
atualizar os conteúdos das diferentes matérias e incorporar algum tipo
de f or mação afim à formação técnico-profissional ou tecnológica em
todas as ofer tas desse ciclo.
Como se pode obser var, tanto a solução de Buenos Aires como
a solução de Córdoba gerou diferentes conflitos e contribuiu, num pri-
meiro momento, para provocar um mal-estar gener alizado frente à Lei
Federal de Educação, que se instalou mais como uma exigência pouco
compreensível de mudança de estrutura, do que como uma necessidade
de gestação de um novo tipo de educação.
O incremento desse mal-estar pôde ser contido recentemente,
de for ma parcial, na medida em que os governos provinciais foram
revendo suas medidas iniciais e que as províncias restantes começaram a
tomar decisões mais heterodoxas e heterogêneas. Com efeito, essas pro-
víncias começaram a buscar alternativas diferentes para a extensão da
obrigatoriedade escolar que consistiram, basicamente, em assumir os
benefícios de instalar o terceiro ciclo da Educação Geral Básica em di-
ferentes instituições, de acordo com as características sociodemográfi-
cas e sobretudo com as disponibilidades de infra-estrutura. Mendo-
za, por exemplo, decidiu que o ter ceiro ciclo podia ser org anizado em
continuação do primeiro e do s egundo, numa e x-escola primária, ou
antecedendo o Polimodal, numa ex-escola secundária, e que pr ovisoria-
mente a 7
a
série poderia ficar numa ex-escola primária e as 8
a
e9
a
séries,
numa ex-escola secundária. Nesse caso, foi disposto que se promovesse
a “ar ticulação” do terceiro ciclo através de atividades específicas. No
caso de Santa Fé, foi dada prioridade à alternativa de “articulação” que,
por sua vez, foi abrindo passagem em muitos casos, inclusive, como
se antecipou, na província de Buenos Aires, em áreas nas quais a educa-
ção secundária estava bastante difundida.
Como conseqüência dessa diversidade de estratégias para a ex-
tensão da obrigatoriedade escolar e para gestação do terceiro ciclo e do
358
Polimodal, atualmente existe uma g rande heterogeneidade nacional rela-
cionada com: modalidade de transfor mação da educação secundária
preexistente tanto no terceiro ciclo da EGB como no Polimodal, a loca-
lização do ter ceiro ciclo, sua de pendência administrativa, a definição da
estr utura cur ricular e outros aspectos.
Em 1999, o terceiro ciclo da Educação Geral Básica era declara-
do instalado em sete províncias como ciclo completo; em nove estava
parcialmente estabelecido na totalidade das escolas e em seis se aplicava
numa amostra de instituições que, em alguns casos, se ampliava ano a
ano. em duas províncias o terceir o ciclo não estava sendo aplicado. A
definição a respeito da questão se o terceiro ciclo estava ou não sendo
instalado dependia, basicamente, da existência ou inexistência de um novo
cur rículo para esse terceiro ciclo e de cer tas decisões administrativas.
A localização do terceiro ciclo era realizada de acordo com qua-
tro alternativas: i) localização completa em escolas que ofereciam o pri-
meiro e o segundo ciclo; ii) localização completa em escolas que ofere-
ciam o Polimodal; iii) localização como ciclo autônomo; iv) localização
fragmentada da 7
a
série na primária e 8
a
e9
a
série na secundária, acom-
panhada, pelo menos formalmente, por estratégias de “articulação”. As
evidências empíricas recolhidas parecem mostrar que a ausência de uni-
dade organizacional para o terceiro ciclo dificulta sua unidade pedagó-
gica e produz uma série de problemas administrativos, que exercem um
impacto neg ativo na vida quotidiana das instituições. Com efeito, quan-
do o cic lo está instalado de for m a fragmentada, pode de pender, em seu
conjunto, das autoridades do Polimodal ou de ambas autoridades de
uma vez: os docentes da 7
a
geralmente professoras de educação
primária das autoridades de Educação Geral Básica, e os docentes da
8
a
e9
a
série normalmente pro fessoras e professores das autoridades
do Polimodal.
Por outro lado, em tor no de 1999, também começavam a ser
promovidas mudanças nos últimos anos da educação secundária em
algumas províncias, ainda que com diferentes estratégias e alcances: i)
em Buenos Aires e Córdoba estavam sendo implementadas mudanças
de f or ma massiva; ii) em dezoito províncias estavam sendo implemen-
tadas experiências em escala ou apenas piloto; e iii) em outras quatro
estavam sendo tomadas decisões para a implementação futura.
359
Na cidade de Buenos Aires não se estava tomando nenhuma de-
cisão a respeito de r efor mas estr utur ais, cur riculares nem institucionais
que afetassem a antiga educação secundária.
As políticas de apoio à expansão e à transformação das
oportunidades educacionais para os adolescentes e jovens
Além dos processos de elaboração de uma nova arquitetura para
a educação dos adolescentes e dos jovens, cujos eixos foram os Conteú-
dos Básicos Comuns, as Estruturas Curriculares Básicas, os módulos
dos Trajetos Técnico-Profissionais e outros materiais cur riculares, fo-
ram postas em prática, durante o período 1992-1994, políticas e estraté-
gias que constituíram apoios significativos, de impacto direto para a ex-
pansão e transfor mação de opor tunidades educacionais para os adoles-
centes e jovens, outras estr atégias que exerceram um impacto indireto, e
outras que, se tivessem avançado mais, poderiam ter contribuído para
dar maior integ ração e sistematização às mudanças.
Entre as políticas que tiveram um impacto direto na expansão e
transfor mação das opor tunidades educacionais para os adolescentes e
jovens, cabe mencionar os investimentos em infra-estrutura e bolsas
(Quadro 6)eoprojeto de terminalidade da Educação Geral Básica nas
áreas rur ais. Os investimentos em infra-estrutura e bolsas alcançaram
somas desconhecidas no país para um período de apenas seis anos. Ain-
da que, em nível nacional, não existam ainda dados elaborados que per-
mitam discriminar quais investimentos em infra-estrutura facilitaram a
melhoria e as criações necessárias para incorporar e reter os adolescen-
teseosjovensnaEGB3enoPolimodal, pode-se afir mar que cor res-
ponderam a um percentual muito elevado do total dos investimentos
realizados. Com efeito, o país contava, em 1992, com uma impor tan-
te infra-estrutura para garantir o atendimento à ex-educação primária,
não, porém, à secundária.
Por seu lado, o “Programa Nacional de Bolsas Estudantis” do Minis-
tério de Cultura e Educação Nacional consistiu em conceder bolsas aos
alunos em situações socioeconômicas que implicassem riscos para a conti-
nuidade de seus estudos. Seus mecanismos de aplicação permitiram identi-
ficar os beneficiários de acordo com critérios transparentes que compro-
360
meteram as famílias, os diretores e os docentes no projeto educacional dos
beneficiários e nos mecanismos de concessão, rendimento e contr ole do
impacto das bolsas. Uma das fraquezas do Programa Nacional de Bolsas
Estudantis é sua sustentabilidade atr avés do tempo. Esse programa foi fi-
nanciado com fundos de empréstimo do BID, que f inalizará em bre ve.
Algumas províncias realizaram também investimentos próprios
para garantir mais e melhores oportunidades de aprendizagem aos ado-
lescentes e aos jovens. Mendoza, por exemplo, destinou fundos proce-
dentes das privatizações a constr uções escolares.
O prog rama “Terceiro Cic lo da Educação Ger al Básica em Es-
colas Rurais” teve o propósito de dar oportunidade aos alunos de zonas
r urais para que pudessem completar a obrigatoriedade escolar. Consis-
tiu, principalmente, em: i) elaboração e distribuição de materiais de ensi-
no específicos, que contemplavam, ao mesmo tempo, as par ticularida-
des do contexto rural e as orientações federais em especial, os CBC; ii)
o equipamento e a provisão de materiais didáticos para as escolas rurais
envolvidas; iii) o apoio de uma equipe de professores especializados em
cada área de ensino a professores rurais para que eles, por sua vez, exer-
cessem uma função de tutoria no uso dos materiais didáticos; e iv) o
financiamento de projetos específicos em parceria com a comunidade
em cada estabelecimento educacional. Abrangeu quase 2000 estabeleci-
mentos educacionais, sendo 828 na província de Santa Fé, que decidiu
aplicá-lo de for ma massiva. Teve um impacto inegável na retenção, na
aprendizagem dos alunos e nas comunidades (
GOLZMAN & JACINTO, 1999).
Uma das políticas e programas que exerceram um impacto indi-
reto nos processos de transfor mação da educação secundária foi o pro-
grama “Nova Escola Argentina para o ano 2000”. Num primeiro mo-
mento, pr omoveu um funcionamento mais f lexível das instituições es-
colares, quanto ao uso do tempo e dos espaços e os agrupamentos dos
alunos por idade em g rupos sucessivos. Numa segunda etapa, enfatizou
a implementação de intercâmbios horizontais entre os docentes e os
diretores dos estabelecimentos educacionais, como elementos dinami-
zadores da reflexão e da inovação. Pode-se dizer que o progr ama tran-
sitou de uma primeira etapa, mais centrada em indicar o que seria pos-
sível modificar, para outra centrada em facilitar que os próprios direto-
res e professores constr uíssem alter nativas a respeito do que modificar.
361
Por outro lado, a “Rede Federal de For mação Docente Contí-
nua” convocou para concurso de ofertas de treinamento para profes-
sores, que se somaram a alguns programas preexistentes como o PRO-
CIENCIA, uma iniciativa do CONICET (Conselho Nacional de Pes-
quisas Científicas e Técnicas) para a atualização de professores de ma-
temática e ciências básicas. À tal pr ograma se ag reg ou a iniciativa FOR-
CIENCIA, impulsionado pela Televisão Ibero-Americana. Em linhas
ge rais, pode-se dizer, contudo, que as alternativas de atualização e trei-
namento par a professores da EGB3ePolimodal não foram suficien-
tes nem sempre resultaram pertinentes nem estiveram suficientemente
auditadas. Por outro lado, nã o conseguiram sair do modelo “cursilhis-
ta” nem incorporar as novas tecnologias, promovendo um uso inten-
sivo da televisão e da Internet. Não obstante, cabe assinalar que, du-
rante este período, foi posta em funcionamento a “Rede Eletrônica
Federal de For mação Docente Contínua”, que interconecta 1050 insti-
tutos no país. Isso cria uma base tecnológica interessante, mesmo quando
sua utilização seja apenas incipiente.
Para promover a atualização e alcançar um número maior de
professores de primário e secundário com as novas propostas de atu-
alização de conteúdos e de metodologias, tomou-se a iniciativa de se
aproximar os professores de uma “Biblioteca Profissional do Docen-
te” e se elaborou uma série de vídeos educacionais para a EGB 3, que
acaba de ser colocada em circulação.
Algumas das políticas e projetos, que teriam impulsionado uma
mudança mais acelerada e melhor orientada, tinham relação com a
refor ma institucional e com prog ramas que possuíssem recursos ex-
ter nos. Entre os primeiros, buscou-se avançar na criação de uma pasta
única par a os docentes, que per mitisse ordenar as contratações e avan-
çar desde a tradicional contratação por horas/aula até uma contrata-
ção por carg os. Entre os segundos, trabalhou-se nos Prog ramas
PRODyMESIeII(Programas de descentralização e Melhoria da Edu-
cação Secundária). Esses programas deveriam abastecer os 630 esta-
belecimentos de nível secundário de todo o país, selecionados pelas
características socioeconômicas do alunado e por seu tamanho, de
materiais e assistência técnica. Seu ritmo de execução e sua articulação
com as pr opostas de transfor mação cur ricular e institucional apresen-
taram múltiplas dificuldades.
362
PONTOS FORTES E PONTOS FRACOS DO
PROCESSO DE RECONFIGURAÇÃO DA
EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA
O processo de reconfiguração da educação secundária, que teve
lugar nos últimos anos, tentou dar resposta às demandas de inclusão
dos jovens e dos adolescentes, à melhoria da qualidade da educação e
de participação, recuperando a experiência das transformações cur ri-
culares e institucionais que tiveram lugar nos estabelecimentos educaci-
onais, então dependentes do Ministério nacional e em várias provínci-
as, g erando algumas políticas específicas e ensaiando novas for mas de
tomar decisões.
Isto significou fortalecer as discussões e deliberações sobre os
conteúdos a serem ensinados. Nesse sentido, pode-se sustentar que os
Conteúdos Básicos Comuns alcançaram um grau de legitimidade im-
portante, que fica evidente na recuperação que fazem deles os novos
desenhos cur riculares provinciais para EGB 3, as propostas par a Poli-
modal, os cursos de capacitação docente e os novos textos escolares.
Contudo, pode-se propor que tal legitimidade poderia ter sido ainda
maior se tivessem sido constituídos os dois Conselhos estabelecidos
pela lei para acompanhar os processos de decisões do Conselho Fede-
ral de Educação: i) o Conselho Econômico-Social e ii) o Conselho
Técnico-Pedagógico. Esta constituição teria permitido, além disso, ou-
torgar aos grêmios docentes um lugar mais destacado nas construções
dos marcos de referência para as novas ofertas de ensino para crianças
e jovens no século XXI.
Com efeito, os grêmios foram considerados em ter mos de igual-
dade com outras entidades no circuito de consulta nacional para a
elaboração dos Conteúdos Básicos Comuns e convidados a participar
nas sessões do “Seminário Federal para a Elaboração de Desenhos Cur ricula-
res Compatíveis”. Em diversas ocasiões, fizeram chegar, ademais, pro-
postas diversas. Algumas foram incorporadas às novas produções
porque coincidiam com as de outras instituições e atores. Outras, não.
Por outr o lado, o trabalho cooperativo r ealizado no processo
de transfor mação cur ricular e em vários dos prog ramas postos em
prática possibilitou o intercâmbio de experiências entre as equipes téc-
363
nicas de diferentes províncias, super visores e diretores. Esse intercâm-
bio e as metodologias de trabalho colocados em prática contribuíram
para fortalecer uma massa crítica de profissionais da educação em todo
o território nacional que: i) compartilham alguns aspectos decisivos
referentes a uma visão para uma nova educação para os adolescentes e
jovens; ii) possuem competências para o uso de novas tecnologias, o
trabalho em equipe, a crítica e o debate, a ação conjunta e a atualização
pedagógica, disciplinar e institucional; e iii) assumem a necessidade de
convergência entre os processo de definição de novas regulamenta-
ções ou marcos de referência, os processos de refor ma e a inovação.
Todavia, um dos principais problemas enfrentados, é que essa
massa crítica de profissionais não faz parte de uma estrutura profissio-
nal que possua uma adequada relação entre estabilidade e possibilidades
de renovação. Em sua maioria, trata-se de consultores temporários, cu-
jas contratações dependem de empréstimos externos e de sua articula-
ção com os par tidos políticos que, ocasionalmente, e xercem o poder.
De outro lado, obser va-se uma distância entre o desenho das
propostas e a realidade quotidiana das instituições educacionais. A esse
respeito, na atualidade se perc ebem diferentes níveis de apropriação
das propostas nas diferentes províncias e entre os diversos atores, que
levam à af ir mativa de que a transformação curricular e institucional
ainda está situada mais no plano das intenções do que no das concre-
tizações em salas de aula. Contribuem para esta situação dificuldades
de diferentes tipos e natureza.
No caso da EGB, essas dificuldades são de quatro tipos: i) orça-
mentárias; ii) de governo e planejamento; iii) de disponibilidade e per-
fil dos recursos humanos; e iv) de nor matividade.
As dificuldades orçamentárias impedem atender o incremento na
carga horária necessária para tornar realidade as novas pospostas
curriculares em sua totalidade e para a sustentabilidade das novas funções
e papéis necessários para um funcionamento ótimo da educação dos
adolescentes e dos jovens. Na atualidade, por exemplo, ao finalizar os
nove anos da Educação Geral Básica, um menino ou uma menina na
Argentina tem, de fato, três anos menos de horas de aula que um menino
ou menina de países como Holanda, França, Alemanha ou mesmo
Portug al. Por outro lado, a concretização das funções de orientação e de
364
tutoria requer investimentos que algumas províncias estão em condições
de sustentar ou uma criatividade, convicção, flexibilidade normativa e
consciência da necessidade de mudanças difíceis de serem obtidas.
A introdução de conteúdos de tecnologia e de inglês em todos os
estabelecimentos educacionais para os adolescentes e jovens se limitada
por deficiências orçamentárias e, em muitos casos, também pela falta de
professores formados. Devido a esta segunda razão, muitas vezes, con-
tratam-se prof essores que não possuem a for mação adequada.
As normas estatutárias docentes e a rigidez das “plantas funcio-
nais” impedem, em muitos casos, a reorganização das instituições edu-
cacionais, e xercendo margens de autonomia que per mitam, em cada
caso, reorg anizar a vida quotidiana de cada instituição ou de várias insti-
tuições de um mesmo raio de influência. Isto faz pensar na necessidade
de se fortalecer, no futuro, de uma forma ger al, as capacidades de ação
conjunta e de planejamento; isto, por sua vez, r equer a geração de uma
base mais ampla de confiança entre os a tores potenciais das mudanças.
A esse respeito, é possível afirmar que o temor da perda de trabalho,
num contexto de desocupação e desestabilidade, criou obstáculos, em
muitos casos, para o compromisso efetivo dos professores com as pro-
postas de mudança, mesmo quando “objetivamente” algumas delas
como a criação de áreas pudessem ser pertinentes para melhorar suas
próprias condições de trabalho.
DA AÇÃO CONJUNTA FEDERAL AO
FORTALECIMENTO INSTITUCIONAL
Concebe-se a etapa futura como de fortalecimento institucional
para que as mudanças acertadas sejam apropriadas pelas equipes de di-
reção e de docentes de todas as instituições. O percurso a ser realizado
nessa etapa deveria considerar o seguinte:
Os processos de ação conjunta federal, realizados até o presente,
deveriam ser consolidados com a incorporação e/ou a redefinição
da participação de atores sociais e com o estabelecimento de um
maior nível de institucionalidade das instâncias de participação.
365
As ações deveriam tender ao fortalecimento da capacidade de
ação conjunta, de gestão e de elaboração de propostas técni-
cas pertinentes e adequadas por parte dos ministérios provin-
ciais e das equipes de condução de seus sistemas educacionais
(ou seja, um fortalecimento do Estado educador provincial).
Deveria ser fortalecida a participação das instituições educaci-
onais no marco de uma política curricular de transformação
que redefina prioridades.
Perspectiva de mudança
Nesta etapa torna-se imprescindível passar da ênfase na estrutura
nor matizada pelos acordos do DFCyE para a apropriação e re-signifi-
cação de tais acordos, mediante um trabalho sistemático com as equipes
administrativas e docentes das instituições.
Dada a complexidade da questão docente, será necessário ter em
conta todos os fatores que, de modo interdependente, afetam o setor:
condições de trabalho, formação inicial e capacitação dos docentes. Isto
implica considerar a importância de reavaliar as condições de trabalho
dos docentes, com o propósito de modificar os aspectos que dificultam
os processos de mudança.
Será necessário redefinir as estratégias de for mação e capacitação,
destacando o for talecimento de alguns institutos de for mação docente,
selecionados por sua excelência acadêmica e pedagógica, em suas três
funções: for mação inicial, ca pacitação contínua e pesquisa.
Terá que abandonar a idéia de “uma” tr ansfor mação cur ricular e
instalar uma política curricular de inovação per manente, através de uma
instância institucional em nível nacional, que pesquise tendências curricu-
lares, valide as inovações no currículo pr escrito, por meio da análise das
práticas desenvolvidas em sala de aula, e busque, acompanhe e avalie
experiências de inovação cur ricular.
Desse modo, recomenda-se analisar a incidência de fatores, tais
como infra-estr utura, localização e r egulamentação, nos riscos de desar-
ticulação e de aprofundamento das desigualdades que se detectem na
configuração atual da ofer ta de ensino médio, bem como tomar as me-
didas necessárias para preveni-los.
366
Prioridades nas ações futuras
Para enfrentar o problema da desarticulação interna da EGB3,
propõe-se:
Imprimir novos ritmos de implementação da EGB 3, no seio
do Conselho Federal de Educação.
Oferecer os mecanismos para o financiamento da infra-estru-
tura edilícia necessária para garantir a unidade física da EGB 3,
em todos os casos nos quais o ciclo se encontre fragmentado
por sua localização em estabelecimentos diferentes.
Dar uma normativa específica, no interior do Conselho Federal
de Educação, a fim de g arantir a unidade funcional da EGB 3.
Para enfrentar o problema do desgaste e garantir o cumpri-
mento da obrigatoriedade da EGB 3, propõe-se:
Desenvolver programas de fortalecimento institucional direci-
onados a estabelecimentos com altos índices de desgaste e/ou
baixo rendimento acadêmico.
Para enfrentar o problema do desequilíbrio na oferta da edu-
cação Polimodal , propõe-se:
Promover o planejamento estratégico da localização das mo-
dalidades e realocação dos docentes em nível local, através de
uma intervenção conjunta de equipes político-técnicas provin-
ciais e equipes administr ativas das instituições.
Para enfr entar o problema da f or mação inicial dos docentes,
propõe-se:
Desenvolver um programa de fortalecimento acadêmico e
pedagógico de um número predeter minado de institutos de
formação docente, que contam atualmente com equipes
docentes dinâmicas e com altos índices de matrícula, nas
diferentes jurisdições provinciais.
367
Para enfrentar o problema da falta de capacitação docente,
propõe-se:
Gerar um prog rama de fortalecimento dos Institutos de For-
mação Docente, especialmente identificados, que podem li-
derar, nas jurisdições, a capacitação docente em serviço e com
base nas escolas, em redes de escolas e na articulação com os
marcos cur riculares provinciais.
Continuar e fortalecer os programas de estágios do quadro
dirigente e de docentes orientados para o desenvolvimento
dos projetos educacionais institucionais e cur riculares.
Constituir uma rede infor mática para o intercâmbioeadi-
vulgação de inovações educacionais.
Oferecer assistência técnica e financiamento para publicações
periódicas que recuperem inovações produzidas nas escolas
pelas equipes docentes.
Financiar e apoiar tecnicamente congressos, reuniões e jorna-
das des tinadas ao intercâmbio de inovações educacionais, em
nível provincial e interprovincial.
Para enfrentar o problema da condição de trabalho docente,
propõe-se:
Revisar as normas provinciais, que re gulam o trabalho docen-
te, para torná-las consistentes com os objetivos de qualidade e
eqüidade desejados, por e xemplo, através de incentivos ao de-
sempenho profissional, para a localização de serviço em áreas
prioritárias e através da concentração horária em poucos esta-
belecimentos, entre outras questões.
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(1996) Serie A - 10: Acuerdo marco para la Educación Polimodal.
Res. 54/96.
(1996) Serie A - 12: Acuerdo marco para los Trayectos Técnico-
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370
(1998) Serie A - 15: Acuerdo marco par a la enseñanza de lenguas.
Res. 72/98.
(1998) SerieA-Nº16:Estructura Curricular Básica para el tercer
ciclo de la EGB. Res. 79/98.
(1998) Seri eA-Nº17:Estructura Curricular Básica para la Educaci-
ón Polimodal. Res. 80/98.
(1998) Seri eA-Nº19:Acuerdo marco para la Educación Especial.
Res.87/98.
(1998) Seri eA-Nº20:Materiales de trabajo para la elaboración de
un acuerdo marco para la Educación Artística. Res. 88/98.
RESOLUCIONES SOBRE CONTENIDOS BÁSICOS.
CONSEJO FEDERAL DE CULTURA Y EDUCACIÓN,
REPÚBLICA ARGENTINA
(1994) Contenidos Básicos Comunes para el Nivel Inicial y la Educa-
ción General Básica. Res. 39/94.
(1995) Actualización de los Contenidos Básicos Comunes para el Ni-
vel y la Educación General Básica. Res. 40/95.
(1996) Contenidos Básicos Comunes de la For mación General, Espe-
cializada y Orientada de Formación Docente para Nivel Inicial
yEGB1y2.Res.53/96.
(1997) Contenidos Básicos Comunes y Orientados para la Educación
Polimodal. Res. 57/97.
(1998) Contenidos Básicos Comunes para el campo de la For mación
de Orientación de la Formación Docente para el Tercer Ciclo
de la EGB y la Educación Polimodal. Res. 75/98.
(1998) Contenidos Básicos Comunes de lenguas extranjeras para la
Educación General Básica y especificaciones para el Nivel Ini-
cial. Res. 73/98.
(1998) Documentos de base de los Trayectos Técnico-Profesionales.
Res. 86/98.
(1999) Borrador habilitado para la discusión sobre Contenidos Bási-
cos Comunes de las especialidades de Educación Artística. Res.
96/99.
371
PLANES DE ESTUDIO N ACIONALES PARA EL NIVEL
MEDIO HASTA 1999
Ministerio de Educación y Justicia: Planes y prog ramas de estudio. Ci-
clo Básico, Segundo Ciclo del Bachillerato, Cic lo del Magisterio, Escu-
elas Nor males Regionales, Escuelas Nacionales de Comercio, 1956.
Consejo Federal de Educación: Contenidos Mínimos del Ciclo Básico
para el Nivel Medio, 1978.
DISEÑOS CURRICULARES Y PLANES DE ESTUDIO
PROVINCIALES PARA EL NIVEL MEDIO HASTA 1993
Provincia de Córdoba: Anteproyecto lineamientos curriculares Ciclo
Básico Común Nivel Medio, 1990.
Provincia de Corrientes: Lineamientos curriculares nivel medio Ciclo
Básico, 1980.
Provincia de Corrientes: Documento curricular regionalizado Histo-
ria, 1989 (1° año), 1990 (2° año), 1991 (3° año).
Provincia del Chabut: Planes de estudio. Escuelas de origen provincial, 1993.
Provincia de Entre Ríos: Transformación curricular del nivel medio 1 °
año, 1990.
Provincia de Entre Ríos: Transformación curricular del nivel medio -
año, 1990.
Provincia de Entre Ríos: Transformación curricular del nivel medio 3 °
año, 1990.
Provincia de Jujuy: Plan de Estudios del Ciclo Básico General, San Sal-
vador, 1993. Resolución 1075/93.
Universidad Nacional de Jujuy, Escuela de Minas: Proyecto curricular.
Primera etapa: Reestructuración del Ciclo Superior, 1991.
Provincia de Jujuy: Contenidos Mínimos del Ciclo Básico, San Salvador,
1985. Resolución 5/85.
Provincia de La Pampa: Proyecto de cambio en la educación media, 1990.
Provincia de La Pampa: Curso Taller Estrategias para la Puesta en Mar-
cha del Proyecto Educa tivo, 1992.
Provincia de La Pampa: Curso Taller Marginalidad Educativa, 1990.
Provincia de La Pampa: Políticas y hechos educa tivos. Educación y
trabajo, 1992.
372
Provincia de Mendoza: Transfor mación de la enseñanza secundaria. Di-
seño curricular e institucional, 1991.
Provincia de Misiones: Diseño curricular institucional de escolaridad
básica, 1986. (Incluye el decreto 405/96 que modifica el cuarto ciclo)
Provincia de Misiones: Diseño curricular institucional del ciclo superi-
or del nivel medio, 1997.
Provincia del Neuquén: Propuesta Cur ricular: Ciclo superior. Centro
Provincial de Enseñanza Media 29, 1992. Resolución 495/92.
Provincia del Neuquén: Propuesta de estudios de bachillerato con ori-
entación en Ecología, 1992. Resolución 638/92.
Provincia de Río Negro: Ciclo Básico Unificado Diseño curricular, 1991.
Provincia de Santa Fe: Plan Provincial de Cambio Cur ricular En-
señanza media, 1991.
Provincia de Santa Fe : Planes de estudio para el cic lo superior del nivel
medio, 1990.
DISEÑOS, MATERIALES Y LINEAMIENTOS CURRICULARES
PROVINCIALES PARA EGB 3 ELABORADOS HASTA LA
FECHA
Provincia de Buenos Aires: Documentos curriculares, 1996-98.
Provincia de Catamarca: Diseño curricular, versión borrador, 1998.
Provincia de Córdoba: Materiales Ciclo Básico Unificado, 1996-97.
Provincia de Corrientes: Diseño curricular, versión borrador, 1998.
Provincia del Chaco: Diseño curricular, versión borrador para la con-
sulta, 1998.
Provincia del Chubut: Diseño curricular, versión preliminar, 1997-98.
Provincia de Entre Ríos: Diseño curricular, versión preliminar de con-
sulta, 1998.
Provincia de For mosa: Diseño cur ricular, versión def initiva, 1998.
Provincia de Jujuy: Diseño curricular, versión 2.0 (preliminar), 1999.
Provincia de La Pampa: Diseño curricular, marco general (versión de-
finitiva). Materiales curriculares por área (versión de consulta), 1998.
Provincia de La Rioja: Diseño curricular, 1999.
Provincia de Mendoza: Materiales de desarrollo cur ricular. Parte,
versión de consulta, 1998.
373
Provincia de Misiones: Dispositivo curricular y orientaciones didácticas, 1998.
Provincia del Neuquén: Diseño curricular, versión borrador, 1998.
Provincia de Salta: Diseño curricular, versión borrador, 1997-98.
Provincia de San Juan: Diseño curricular, versión de consulta, 1998.
Provincia de San Luis: Diseño curricular, primera versión, 1997.
Provincia de Santa Cruz: Módulos de capacitación, 1998.
Provincia de Santa Fe: Lineamientos y documentos para la elaboración
del Diseño curricular provincial y orientaciones didácticas, versión de
consulta, 1998.
Provincia de Santiago del Estero: Diseño curricular, versión borrador, 1998.
Provincia de Tierra del Fuego: Diseño curricular, versión 1.0, 1998.
Provincia de Tucumán: Diseño curricular, versión segundo borrador, 1998.
DISEÑOS, MATERIALES Y LINEAMIENTOS CURRICULARES
PARA EDUCACIÓN POLIMODAL
Provincia de Buenos Air es: Doc. Espacios Cur riculares del Nivel Poli-
modal, primer borrador, 1998.
Provincia de Córdoba: Materiales Ciclo Especialización, 1997.
Provincia del Chaco: Diseño cur ricular, Educación Polimodal, versión
preliminar, 1999.
Provincia de Entre Ríos: Orientaciones curriculares, versión preliminar, 1999.
Provincia del Neuquén: Borradores para el diseño curricular, 1999.
374
QUADRO 2
Argentina. Resultados das avaliações de qualidade* por províncias
(1993 e 1999) Ensino secundário
1993 1999 Crecimiento 1993-1999
(en %)
Língua Matemát. Média Língua Matemát. Média Língua Matemát. Média
Total país 61,41 46,39 53,90 65,73 68,66 67,20 107 14 8 125
CABA 68,41 53,85 61,13 72,99 74,59 73,79 107 13 9 121
Buenos Aires 59,29 46,56 52,93 70,25 73,58 71,92 118 158 136
Gran Bs. As. 60,79 48,44 54,62 68,51 71,87 70,19 113 148 129
Catamarca 55,18 36,17 45,68 48,61 50,75 49,68 88 1 40 109
Córdoba 64,03 47,22 55,63 69,25 70,74 70,00 108 15 0 1 26
Corrientes** 56,27 38,62 47,45 SD SD SD SD SD SD
Chaco 55,78 38,89 47,34 53,81 53,73 53,77 96 138 114
Chubut 61,82 45,75 53,79 60,78 63,17 61,98 98 138 115
Entre Ríos 60,25 39,54 49,90 65,73 67,35 66,54 10 9 1 70 133
Formosa 53,88 32,1 42,99 52,14 54,55 53,35 97 170 124
Jujuy 57,56 37,84 47,70 53,68 58,15 55,92 93 154 117
La Pampa 63,33 47,06 55,20 61,95 64,95 63,45 98 138 115
La Rioja 53,65 32,58 43,12 53,28 55,49 54,39 99 170 126
Mendoza 63,65 50,29 56,97 64,04 68,46 66,25 1 01 13 6 116
Misiones 54,73 37,07 45,90 55,59 57,82 56,71 102 1 56 124
Neuquén 61,16 43,24 52,20 56,85 62,62 59,74 93 14 5 1 14
Rio Negro 58,77 43,92 51,35 64,06 68,53 66,30 10 9 1 56 129
Salta 59,72 40,42 50,07 55,71 58,91 57,31 93 146 114
San Juan 56,45 36,82 46,64 55,11 59,44 57,28 98 161 123
San Luis 60,81 43,69 52,25 63,25 65,26 64,26 10 4 1 49 123
Santa Cruz 61,1 44,48 52,79 54,58 57,06 55,82 89 128 106
Santa Fe 64,19 52,34 58,27 68,17 71,96 70,07 10 6 1 37 120
Sgo. del
Estero 56,08 37,44 46,76 53,67 54,08 53,88 96 144 115
Tierra del
Fuego 58,15 44,18 51,17 57,49 60,19 58,84 99 136 115
Tucumán 60,21 40,16 50,19 58,90 64,13 61,52 98 160 123
Fonte: Direção de Avaliação da Qualidade. Ministério de Educação.
* 1993: Mostra; 1999: Censo. ** No se realizou a avaliação.
QUADRO 1
Argentina. Alunos matriculados no nível médio, por série.
Todo o país (1994 e 1998)
Anos 1994 1998
Total 2.144.372 2.539.749
631.760 701.619
503.293 626.616
387.594 459.126
319.345 383.919
263.274 325.107
39.106 42.424
Fontee: Censo Educativo, 1994. Relevamiento anual 1998, REDFIE.
ANEXO
375
QUADRO 3
Argentina. Educação secundária. Escolas*, alunos e docentes, por
províncias (1975-1998)
Total nacional Setor estatal Setor privado
Nacional Provincial ou municipal
Esc. Alunos Doc. Esc. Alunos Doc. Esc. Alunos Doc. Esc. Alunos Doc.
1975 4767 1.243.058 161.859 1319 574.811 74.655 1364 283.338 35.801 2094 384.909 51.403
1976 4887 1.283.056 168.732 1347 583.353 77.792 1479 309.655 39.612 2061 390.048 51.328
1977 4845 1.288.107 173.714 1354 578.702 80.857 1408 312.274 40.594 2083 397.131 52.263
1979 4952 1.295.815 178.675 1368 578.921 82.010 1451 316.395 63.212 2133 400.499 53.453
1980 4723 1.326.680 181.884 1371 600.564 80.142 1286 318.510 48.255 2066 407.606 53.487
1982 4896 1.425.648 191.729 1403 651.161 80.983 1308 341.966 53.829 2185 432.521 56.917
1983 4915 1.466.424 193.551 1387 623.021 79.844 1338 359.554 55.766 2190 443.849 57.941
1984 5104 1.562.274 206.183 1426 694.786 82.708 1403 394.144 61.975 2275 473.344 61.500
1985 5405 1.683.520 219.983 1529 755.560 88.299 1557 434.978 67.816 2319 492.982 63.868
1986 5638 1.810.374 227.781 1614 807.383 94.099 1712 471.640 68.917 2312 531.351 64.765
1987* 5870 1.859.323 252.804 1647 831.152 98.334 1898 498.493 86.885 2326 529.678 67.585
Crec.
1975-1987 123% 150% 156% 125% 145% 132% 139% 176% 243% 111% 188% 131%
**
1994 7323 2.298.692 555.500 4496 1.622.728 416.500 2827 675.964 139.000
***
1996 7627 2.573.951 4597 1.885.096 3030 688.855
1997 7829 2.767.704 4809 2.069.134 3020 698.570
1998 6373 2.864.927 3543 2.155.027 2830 709.900
Crec.
1994-1998 87% 125% 79% 133% 100% 105%
Fonte: 1975-1987: RASCHIA, J. Estado y políticas públicas , los establecimientos secundarios en Argentina, Programa
de Estudos de Custos do Sistema Educativo, MCE, 1997, com base en Series Estadísticas Educativas, MCE.
1994-98, REDFIE.
* A definição de “escolas” usada até 1987 não é a mesma que “estabelecimento educativo” usada desde
1994. No primeiro caso, os “Anexos” de uma unidade com edifício próprio são contados como “escolas”.
Desde 1994, conta-se uma unidade educativa sem considerar quantos locais possui. Por isso a rigor, a
informação não é estritamente comparável.
** A informação entre 1998 e 1993 não está disponível.
*** Depois de 1994, substituem-se os cargos, pelo que a informação não é comparável com a de 1994.
376
QUADRO 4
Argentina. Modificações curriculares para o nível médio, nas
províncias e na cidade de Buenos Aires (1980-1993)
Fuente: Dussel, I., 1994.
377
QUADRO 5
Argentina. Nova estrutura do sistema educacional, segundo
interpretação da Lei Federal de Educação realizada pela CFC e E.
N I ESCOLA PRIMÁRIA OBRIGATÓRIA ESCOLA SECUNDÁRIA E T
1
a
2
a
3
a
4
a
5
a
6
a
7
a
1
a
2
a
3
a
4
a
5
a
6
a
Velho sistema
Novo sistema
N I EDUCAÇÃO GERAL BÁSICA POLIMODAL TTP/
TAP
1
a
2
a
3
a
4
a
5
a
6
a
7
a
8
a
9
a
1
a
2
a
3
a
4
a
Primeiro ciclo Segundo ciclo Terceiro ciclo
ESCOLAS PRIMÁRIAS ESCOLAS SECUNDÁRIAS
ESCOLAS DE ECB COMPLETA
ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA TTP/TAP
ET = Escolas Técnicas
NI = Nível inicial (cinco anos)
TTP Trajetos Técnico-Profissionais
TAP = Trajetos Artístico-Profissionais
378
QUADRO 6
Argentina. Investimento do Plano social e Educacional e o Pacto
Federal por províncias e categorias (1993-1999)
Equipam. Subsídios Infraestrutura Bolsas Capacitação Total %
Buenos Aires 31.255.716 302.000 210.876.906 0 6.489.510 248.924.132 15,3
CABA 16.358.058 1.043.604 30.321.208 3.998.500 267.999 51.989.369 3,2
Catamarca 13.990.198 1.012.301 20.160.427 2.490.300 591.003 38.244.229 2,4
Chaco 25.973.653 1.709.968 60.658.230 7.409.350 894.632 96.645.833 5,9
Chubut 12.912.273 970.993 29.004.406 3.878.100 1.006.806 47.772.578 2,9
Córdoba 24.543.296 2.104.470 43.513.361 13.091.650 1.141.243 84.394.020 5,2
Corrientes 29.664.360 1.832.923 41.814.351 5.908.500 652.150 79.872.284 4,9
Entre Ríos 23.728.287 2.655.998 36.071.653 6.096.250 1.370.331 69.922.519 4,3
Formosa 15.499.341 866.576 38.666.018 4.163.650 372.600 59.568.185 3,7
Jujuy 20.721.477 1.201.648 21.591.926 4.868.100 198.901 48.582.052 3,0
La Pampa 12.620.485 786.249 41.328.343 2.388.500 2.128.527 59.252.104 3,6
La Rioja 11.310.278 728.825 16.162.151 2.573.450 573.206 31.347.910 1,9
Mendoza 29.303.272 3.024.156 46.110.934 8.064.400 862.363 87.365.125 5,4
Misiones 27.184.978 1.612.123 36.525.124 7.476.150 593.635 73.392.010 4,5
Neuquén 11.586.384 713.879 33.136.632 3.320.550 388.537 49.145.982 3,0
Rio Negro 16.006.300 987.738 20.079.846 3.592.700 134.730 40.801.314 2,5
Salta 24.838.551 1.551.285 31.800.691 6.778.200 1.562.632 66.531.359 4,1
San Juan 15.809.213 1.647.720 33.121.103 4.579.850 959.463 56.117.349 3,5
San Luis 13.503.154 681.038 10.311.076 2.174.600 659.877 27.329.745 1,7
Santa Cruz 7.182.229 582.584 19.672.068 952.500 294.236 28.683.617 1,8
Santa Fe 44.882.523 8.462.711 69.633.942 16.106.350 1.666.526 140.752.052 8,7
Sgo. del Estero 23.354.389 1.171.172 34.331.539 6.754.050 730.551 66.341.701 4,1
Tierra del Fuego 2.572.729 93.714 9.483.006 292.350 141.075 12.582.874 0,8
Tucumán 23.866.366 1.356.664 27.119.432 7.820.650 709.409 60.872.521 3,7
Total 478.667.510 37.100.339 961.494.373 124.778.700 24.789.942 1.626.430.864 100,0
Total % 29,4 2,3 59,1 7,7 1,5 100,0
Fonte: Programa de Estudos de Custos do Sistema Educacional, Minist. Educ.
Elaborado com base em informação prestada pelos seguintes antigos Programas do Ministério: Programa
Nacional de Equipamentos Educacionais (EQUIPA); Programa Nacional de Bolsas Estudantis; Programa
Melhor Educação para Todos, da Subsecretaria de Gestão Educacional, Direção Nacional de Programas
Compensatórios e pelos seguintes Programas: Projeto de Melhoria da Infra-Estrutura Escolar, Pacto
Federal Educacional (Infra-Estrutura), Pacto Federal Educacional (Equipamento) da Direção Geral de
Infra-Estrutura Escolar.
Na rubrica de Capacitação, além das transferências a províncias, ocorreram transferências de $ 1.235.000
para as instituições e $ 5.904.652 para livros.
DEMONSTRATIVO 1
Estrutura curricular de EGB 3. Distribuição do tempo disponível
Fonte: CFC e E, Acordo série A-16
379
DEMONSTRATIVO 2
Fonte: CFC e E, Acordo série A-16
380
DEMONSTRATIVO 3
Educação Polimodal Estrutura curricular básica
Fonte: CFC e E, Acordo série A-17
381
DEMONSTRATIVO 4
Educação Polimodal Estrutura curricular básica
Fonte: DFC e E, Acordo série A-17
382
DEMONSTRATIVO 5
Trajetos Técnico-Profissionais
Produção agropecuária: Atualiza uma formação tradicional e com muito de-
senvolvimento na Argentina, vinculada a uma de suas principais atividades
produtivas.
Eletrônica: Renova os conteúdos de uma das especialidades básicas para o
mundo da produção.
Equipamentos e instalações eletromecânicas: Supõe uma inovação, pois inte-
gra as especialidades anteriores separadas de Eletricidade, Eletromecânica e
Mecânica.
Informática profissional e pessoal: Esta habilidade técnica está dirigida apara
atender usuários de computadores pessoais e supera as orientações das
conclusões de segundo grau, orientadas para a informática, porque se esme-
ra em rigorosa formação técnica de nível médio.
Tempo livre, recreação e turismo: Esta especialidade é nova para a educação
secundária, pois incursiona no setor dos serviços e recupera alguns aspectos
das conclusões anteriores de segundo grau, embora esteja organizada em
três itinerários formativos.
Comunicação multimídia: Esta é uma nova habilidade técnica que contempla
conteúdos relacionados com a produção musical, o uso de animações, a
produção de materiais multimídias, entre outros; supõe um nível específico
de conhecimentos dos que se orientam para esta especialidade.
Gestão organizacional: Trata-se de nova modalidade técnica, orientada para
um perfil de técnico, que é demandado pelo sistema produtivo, recupera os
aspectos administrativos adquiridos antes nas escolas de comércio e incor-
pora conteúdos e competências vinculadas com a gestão das organizações
modernas.
Indústria de processos: Apóia-se no antigo perfil do técnico químico, que
podia se orientar para a produção ou para o trabalho de laboratório. Agora
dá-se ênfase na produção e se incorporam os aspectos vinculados ao con-
trole automático e à gestão.
Saúde e ambiente: Uma nova habilidade técnica, que se orienta para formar
competências profissionais ligadas com problemáticas epidemiológicas e da
contaminação ambiental e com a gestão de instituições desse setor.
Construções Mestre-de-Obras: Esta habilidade técnica é preexistente e
tem incumbências profissionais definidas; consta de uma primeira etapa em
que os alunos obtêm o certificado de técnicos em construções e, uma segun-
da, em que ampliam a de mestre-de-obras, com responsabilidade civil para
construção de edifícios de até três andares.
383
DEMONSTRATIVO 6
Trajetos Artístico-Profissionais
Música: Esta especialidade se refere ao conjunto de itinerários vinculados
à linguagem sonora em geral e com a musical, em especial, contextualizada
segundo diferentes gêneros e formas, instrumentos e modos de
interpretação.
Dança: Esta especialidade se refere ao conjunto de itinerários vinculados
à linguagem corporal, nos seus diferentes gêneros e formas de
representação coreográfica.
Teatro: Esta especialidade se refere ao conjunto de itinerários vinculados
à linguagem teatral, seus diferentes gêneros, técnicas dramáticas e
atividades próprias da produção.
Literatura: Esta especialidade, entendida como arte, refere-se ao conjunto
de itinerários vinculados à escrita, segundo intencionalidades, finalidades
e recursos utilizados.
Artes visuais: Esta especialidade se refere ao conjunto de itinerários
vinculados com a linguagem visual: desenho, pintura, escultura, gravação,
cerâmica, entre outras tradicionalmente denominadas plásticas, e a outros
tais como a fotografia, o desenho artístico, a tapeçaria, que supõem outros
meios para a composição de imagem, mas cujos elementos as situam
dentro da linguagem visual.
Artes audiovisuais: Esta especialidade se refere ao conjunto de itinerários
vinculados à linguagem audiovisual e a imagem em movimento, na
interação do visual com o sonoro e suas diferentes etapas de produção.
Artes multimídias: Esta especialidade se refere ao conjunto de itinerários
vinculados à linguagem multimídia, que integra a palavra, o som e a imagem
e que utiliza a informática para seu desenvolvimento.
384
DEMONSTRATIVO 7
Exemplos protótipos
*Reforça aspectos do estudo do ambiente
Modalidade Humanidades e Ciências Sociais
Modalidade Ciências Naturais*
385
GRÁFICO 1
Argentina. Taxas de escolarização por nível.
Anos 1960, 1980, 1991, 1996, 1997 e 1998
Fonte: Censos Nacionais Demográficos e Habitacionais. 1960, 1980 e 1991 INDEC. Estimativas e
projeções de população 1950-2050. INDEC, 1994
387
10.
A EDUCAÇÃO SECUNDÁRIA NA EUROPA E NA
AMÉRICA LATINA. SÍNTESE DE UM DIÁLOGO
COMPARTILHADO
Cecilia Braslavsky
Os artigos apresentados neste livro contêm uma série de conver-
gências a respeito das tendências de expansão e de r efor ma da educação
secundária na América Latina, bem como um conjunto de indicações,
também convergentes, sobre algumas questões críticas.
Em certo sentido, pode-se afir mar que esses ar tig os ref letem as-
pectos significativos do estado do diálogo sobre a educação secundária
na região, embora não o esg otem. Por outro lado, as respectivas apre-
sentações de seus autores, no Seminário Internacional A educação secun-
dária: mudança ou imutabilidade? Análise e debate de processos europeus e latino-
americanos contemporâneos”, organizado pelo IIPE, na sede da Biblioteca
Nacional de Buenos Aires, durante os dias 16 e 17 de novembro de
1999, deram lugar a um efetivo intercâmbio que reforça e amplia aspec-
tos de seus conteúdos.
O propósito desta sínteseéodedestacar aqueles aspectos em que
parece haver consenso regional, à luz desta produção. As considerações
vão desde a constatação de um forte dinamismo no contexto socioeco-
nômico, político e cultural, até uma cer ta alienação dos atores, no que
diz respeito ao destino da educação secundária, passando em meio a um
conjunto amplo de propostas em relação ao sentido e às metodologias
para a mudança. Estes aspectos serão apresentados sob a forma de dez
hipóteses extraídas da reflexão e das propostas de mudança da educa-
ção secundária na r egião.
Seu estilo responde ao momento em que foi apresentada sua pri-
meira versão: o encerramento do seminário de referência.
388
1. As mudanças no contexto socioeconômico político e
cultural demandam uma mudança radical da educação
secundária latino-americana
A primeira questão a respeito de que coincidência entre os que
se ocupam da educação secundária na América Latina é que, no contex-
to atual, existe muito mais mudança do que imutabilidade, e que tais
mudanças requerem que sejam enfrentados profundos processos de ino-
vação e de reforma na educação secundária.
Com efeito, como se depreende dos textos gerais e compar ativos
deste livro, a América Latina participa de um cenário global, em que
estão sendo pr oduzidas profundas transformações. Estas envolvem di-
versos tipos da atividade humana: a economia, a organização social, a
cultura, as práticas e as ambições políticas, a dinâmica de produção e de
aplicação dos conhecimentos e as relações humanas, em especial, as en-
tre gerações.
A par tir das contribuições r elativas a essas transfor mações, inclu-
ídas nos ca pítulos deste livro, a que os diálogos e as apresentações de-
ram lugar, podem ser construídos três tipos de raciocínio, que resultam
particularmente inovadores, a respeito da produção precedente sobre
tais temas, no contexto latino-americano.
O primeiro se refere ao impacto das mudanças do mercado de
trabalho latino-americano sobre a demanda de educação secundária. Tra-
ta-se da existência, das conseqüências e do alcance regional do “efeito
fila”, apresentado por Daniel Filmus.
O “efeito fila” consiste no fato de que, diante da decrescente oferta
de emprego e de opor tunidades de trabalho, as pessoas devem estudar
mais anos para poder per manecer na fila das opor tunidades empreg atí-
cias e ascender aos mesmos postos aos quais, anos atrás, teriam podido
obter, como menor quantidade de anos de estudo.
As contribuições oferecidas durante o Seminário do IIPE, sobre
a dinâmica populacional no continente, per mitem sug erir que, além
disso, esse efeito fila é de caráter regional e de crescente complexida-
de. Marco Antonio Salazar apresentou, como debatedor, o dado da
existência de 1.500.000 trabalhadores bolivianos na Argentina. Isto sig-
nifica dizer que esses bolivianos ingressam numa fila comum, com seus
389
pares argentinos, chilenos, uruguaios, paraguaios, peruanos e de ou-
tros países; ali disputam as oportunidades de trabalho em função de
uma diversidade de vantagens comparativas, entre elas, a quantidade
de anos de estudo, mas também os custos de oportunidade de não
trabalhar, o perfil e não apenas o nível de for mação e os valores em
relação à produtividade.
Frente à regionalização e pode-se atrever a dizer frente à
globalização do efeito fila, abre-se uma série de perguntas acerca de
qual é e qual deve ser a unidade territorial para se promover mudanças
na educação secundária. É adequado continuar impulsionando mu-
danças em nível de cada país, desconhecendo as convergências ou di-
vergências das orientações que ocorrem em cada um? É conveniente
para cada país tentar definirr uma educação secundária que garanta
maior competitividade a seus próprios trabalhadores, ou convém ten-
tar desenhar uma educação secundária compartilhada, que garanta uma
maior competitividade e uma melhor qualidade de vida em toda a
região? É eficiente continuar promovendo a descentralização educaci-
onal? Nesse caso: Devem ser descentralizados todos os aspectos refe-
rentes a um novo modelo para a educação secundária?
Em termos gerais, as novas reflexões sobre a educação secun-
dária no mundo e, em particular, na América Latina, tendem a propor
tomada de decisões, se não compar tilhadas, pelo menos convergentes.
Nesse sentido, as colocações dos textos incluídos neste livro se com-
plementam com a proposta de Jesus Montero Tirado, no sentido de
que as mudanças na educação secundária, nos países da América do
Sul, por exemplo, deveriam ser concretizadas tomando como unidade
de intervenção o MERCOSUL, mas entendendo este espaço não ape-
nas como um cenário de livre comér cio, mas também como um novo
horizonte e espaço de vida para os habitantes da região.
A segunda tendência, sobre a qual existe um for te consenso, é
que a expansão da educação secundária tem lugar no marco de um
processo de aprofundamento das desigualdades sociais preexistentes e
da emergência de outr as novas. A perce pção desse processo estaria
fortalecendo uma “obrigatoriedade subjetiva” de cursar estudos de
nível médio. Com este conceito, pretende-se dar conta da existência de
um imperativo internalizado por permanecer mais anos no sistema de
390
educação for mal. Esse imperativo é próprio, e não uma imposição
estatal. De acordo com esta visão, as famílias dos setores pobres e de
escassos recursos, que antes se confor mavam em enviar seus filhos
para a escola primária ou fundamental, agora desejam e lutam para que
esses filhos per maneçam doze anos no sistema educacional porque per-
cebem que, ao contrário, não poderão seguir fazendo par te da fila.
Como resultado dessa “obrigatoriedade subjetiva”, ingressam e
per manecem na educação secundária adolescentes e jovens para quem
essa educação secundária não foi pensada. Essa pressão é um dos ga-
tilhos do descontentamento com o modelo institucional e curricular
desenhado para outros contextos. Françoise Caillods apresentou o fato
de que, frente a essa situação, o modelo do colégio único (parte do
sistema educacional francês, que se estende após o 5
o
ano da educação
primária e ao longo d e quatro anos) está sendo objeto de intensos
debates, cujo eixo é que não pode contribuir para eliminar as desigual-
dades sociais.
A terceira tendência de mudanças no contexto, sobre a qual existe
coincidência, consiste em discriminar o conceito de desigualdades so-
ciais do conceito de diversidade e em aceitar a diversidade cultural
como um valor. Ainda que os textos incluídos neste livro apresentem
infor mação relativamente escassa sobre esta questão, ao long o d o Se-
minário numerosos comentaristas se referiram ao tema. Jesus Monte-
ro Tir ado, por exemplo, recordou que, no Paraguai, habitam 17 etnias
de população indígena. Marco Antonio Salazar destacou que a inter-
culturalidade é o horizonte para o qual se dirig e a refor ma da educa-
ção secundária na Bolívia. María Éster Mancebo assinalou que, embo-
ra no Uruguai não existam minorias étnicas nem grupos de popula-
ções indígenas, os desafios de multiculturalismo estão presentes atra-
vés dos códigos e práticas de diferentes setores sociais e grupos etári-
os que não costumam ser considerados na educação secundária.
Em síntese, pode-se afir mar que existe consenso em considerar
que, atualmente, a educação secundária enfrenta desafios derivados
de um contexto atravessado por mudanças profundas e múltiplas,
que lhe impõem a necessidade de se expandir, mas que, ao mesmo
tempo, dela exig em resultados, apesar das limitações e das necessi-
dades de mudar.
391
2. Os diagnósticos existentes sobre a educação secundária
na região são um ponto de partida insuficiente em relação
à magnitude dos desafios de mudança
Em cer to sentido, pode-se afir mar que, tanto a educação secun-
dária latino-americana como a européia, estão numa situação de mais
expansão, mais demanda e, ao mesmo tempo também, mais desconten-
tamento. Isto remete para um cenário extremamente excitante e com-
plexo. Para movimentar-se nele, é necessário contar, como propõe Juan
Carlos Tedesco, em sua Introdução, com um diagnóstico que r ecupere
essa complexidade. Contudo, tal diagnóstico ainda estaria ausente.
Em seu comentário do caso uruguaio, durante o Seminário Interna-
cional A educação secundária: mudança ou imutabilidade?”, Daniel Pinkasz colo-
cou o fato de que, mesmo quando se comprove um esforço em avançar,
com referência aos diagnósticos disponíveis em décadas anteriores, os exis-
tentes parecem ser inadequados, insuficientes e incompletos”.
A inadequação, insuficiência e imperfeição dos dia gnósticos exis-
tentes deveria ser atribuída ao uso privilegiado de indicadores sobre os
problemas-macro do sistema educacional, em seu conjunto, e à f alta de
uso de indicador es sobre os problemas-micro, de cada um dos estabe-
lecimentos e dos estudantes. De veria ser atribuída também à falta de
renovação das categorias que são utilizadas para tais indicadores, que
são muito similares às utilizadas, em fins da década de 70. Por último,
estariam associadas à incapacidade para reconhecer quais são e que sig-
nificado têm os antecedentes de mudança das refor mas que se pro-
põem para os diferentes ator es, que intervêm na educação secundária,
em par ticular para os professores.
Na opinião de Daniel Pinkasz, a falta de recuperação dos antece-
dentes das reformas, como parte dos diagnósticos disponíveis, estaria
na base de cer to r educionismo inter pretativo. Esse reducionismo impe-
diria, ademais, segundo Antonia Gallart, a instalação de debates atraen-
tes sobre a educação secundária nos meios de comunicação. A falta de
atenção desses meios aos processos nos quais, como se aborda na In-
trodução, está em jogo o destino das pessoas”, poderia ser explicada como
uma falta de tomada de consciência da gravidade dos problemas, que
constituiria, por sua vez, um dos correlatos da ausência de um diagnós-
tico compartilhado pelos especialista s e a opinião pública.
392
A partir das coincidências a respeito das deficiências dos diagnós-
ticos existentes, consenso em indicar a necessidade de dar prioridade
às pesquisas e estudos sobre a situação da educação secundária, mas,
sobretudo ao imperativo de que esse diagnóstico seja compartilhado
por toda a sociedade; inclua aspectos tais como: as representações dos
adolescentes, seus processos de aprendizagem, as características e repre-
sentações dos diretores dos estabelecimentos educacionais e dos funcio-
nários ministeriais e se constitua num ponto de partida para se construir
também um sentido compar tilhado para se orientar as mudanças.
3. É necessário transitar da educação “secundária” para a
educação dos jovens
Vários capítulos deste livro recuperam, como ponto de partida para
a reflexão sobre a educação secundária na América Latina, um texto coleti-
vo editado por María Antonia Gallart e María de Ibarrola, do começo dos
anos 90. Nele se destacava a falta de sentido da educação secundária vigente
e se incorporavam contribuições destinadas a recuperá-la ou construí-la.
Transcor rida quase uma década, pode-se afir mar que, acerca da
questão do sentido da educação secundária, conseguiu-se um consisten-
te avanço interpretativo e um novo posicionamento.
O avanço interpretativo consiste em identificar, com muito maior
clareza, qual foi a identidade madura dessa educação secundária, que
está em pr ocesso de expansão, e que é objeto de for tes críticas.
De acordo com todos os trabalhos deste livro, que se refe rem ao
tema, a identidade da educação secundária atual está fortemente associ-
ada à seleção das pessoas, à especialização precoceeàformação de
elites no contexto das economias características das sociedades industri-
alizadas maduras, de meados do século XX, e às formas de produção e
transmissão de conhecimentos próprias do apogeu da imprensa. Essas
associações impuseram, por sua vez, certos traços à estrutura, ao gover-
no e ao currículo de suas diferentes modalidades e instituições: estrutura
por níveis, g overno piramidal e hierárquico, currículo rígido de tipo ló-
gico-dedutivo for mal para as ter minalidades do segundo g rau e contex-
tualizado excessivamente na educação técnica, além de instituições frag-
mentadas e com atendimento de balcão.
393
Em vários textos deste livro se reconhece que, ao longo do século
XX, foram postas em prática várias tentativas de modificar essas caracte-
rísticas. Os primeiros diagnósticos, a respeito da revolução científica e
tecnológica, a intuição de mudanças progressivas na estrutura das ocupa-
ções e a vontade de promover uma redistribuição progressiva das opor-
tunidades de trabalho e de inserção social impulsionaram, na Europa do
pós-guerra, a proposta de uma escola compreensiva de longa duração,
pensada para a for mação de todos os cidadãos, igualados através de uma
educação comum para todos. A conce pção de escola compreensiva é, de
fato, uma proposta alternativa para a educação secundária long a e preco-
cemente diferenciada. Por detrás dela existe uma utopia de construção de
uma sociedade menos estanque e com mais mobilidade social.
Tal como rela tam alguns estudos de caso nacionais, pouco de-
pois, também na América Latina, produziram-se refor mas orientadas
para dissolver a rigideze paralisante, de modo especial duas: i) a homo-
logação dos primeiros anos da educação secundária de todas as moda-
lidades; e ii) a habilitação do acesso a todas as carreiras universitárias, a
partir de um maior número e variedade de percursos, através da oferta
de educação secundária. As limitações da estrutura produtiva e da cons-
trução democrática teriam colocado freio ao avanço e limites à qualida-
de de tais processos de transformação. Como conseqüência, o modelo
“madureza” da educação secundária, característico da década de 50, te-
ria sofrido deg radação, sem que se tenha alcançado um outro modelo
para substituí-lo.
Mas a identidade perdida da educação secundária não parece po-
der ser reconstruída, porque aquela sociedade industrial madura tampou-
co pode sê-lo. O consenso se orienta na direção de se propor a gestação
de instituições que, a partir dos colégios secundários atuais, possam aten-
der às necessidades educacionais dos adolescentes e dos jovens, sem fixá-
los em um lugar predeter minado numa estrutura estanque.
Deseja-se uma instituição para a formação de todos os adoles-
centes e jovens, a quem queira integrar e não selecionar, orientar, e não
especializar. Avança-se em propostas para que, como expressou Joa-
quim Az evedo, essas instituições possam ter sentido em si mesmas, ser um
lugar de vida”. Dito em ter mos de Alicia Camilloni, trata-se de os colégi-
os secundários tornarem-se “espaços de atuações de sujeitos jovens, orientados e
competentes em todos os contextos da vida real”.
394
Todas as apresentações nacionais dão conta das buscas que estão
sendo feitas nessa direção. Por exemplo, Cristián Cox afirmou que, na
educação secundária, não é importante aprender a saber, mas tam-
bém aprender a fazer, adquirir “ferramentas” para a vida: instrumentos
que respondam a necessidades de entendimento, de desempenhos práti-
cos e de juízo das pessoas em sua vida real. Elaboram-se propostas
diversificadas, além de constituir resoluções práticas diferentes que com-
par tilham o sentido.
No Brasil, fortalecem-se, de acordo com Ruy Berger, os funda-
mentos filosóficos do cur rículo. Em diferentes províncias arg entinas,
desenham-se propostas que, como explicou para o caso de Córdoba,
em 1999, Cristina Vairo, equilibr am os componentes científicos, tecno-
lógicos e sociais. Coincidem, utilizando os ter mos de Jesus Montero
Tirado, em fazer o esforço de formar, ao mesmo tempo, bons cidadãos e pessoas
que possam contribuir para se criar um novo modo de construir a sociedade”.
Conseqüentemente, pode-se af ir mar que o conjunto das referên-
cias ao sentido da educação secundária converge na preocupação para
for mar adolescentes e jovens que possam resolver, de modo aceitável,
uma série de situações diferentes para viver melhor e para que essa vida
melhor seja cada vez melhor, em suas múltiplas dimensões: culturais,
políticas, econômicas e sociais.
4. É conveniente discriminar entre uma educação básica dos
adolescentes e jovens e outra dos adultos
Os avanços nos conceitos do sentido da educação secundária im-
plicam uma forte mudança de perspectiva, a partir do lugar da trans-
missão de infor mação para o lugar da for mação das pessoas. Em con-
se-qüência, é preciso discriminar duas situações que, até agora, estiveram
sem diferenciação. Por um lado, a questão da constr ução de uma escola
para jovens, que per mita avançar em sua educação básica e que incor-
pore a cultur a juvenil à vida quotidiana das instituições. Mas, por outro
lado, a questão da of er ta de oportunidades para os adultos que não
tiveram suficientes chances de educação básica no passado, e possam tê-
las na a tualidade e no futuro.
395
Nesse sentido, coloca-se de f orma evidente a crescente necessidade
de discriminar o modelo pedagógico em relação aos diferentes sujeitos
que estão realizando experiências formativas. No caso da velha educação
secundária, o modelo institucional era pensa do em ter mos abstratos e
vinculad o s. Abstratos a respeito dos sujeitos em processo de formação,
mas vinculad os a respeito dos conteúdos a serem transmitidos.
As novas demandas acentuam o desafio de discriminar os mode-
los formativos de diferentes sujeitos. Com efeito, tanto no Brasil como
na Argentina, para citar dois exemplos, não apenas os adolescentes pre-
tendem frequentar, durante mais anos, estabelecimentos educacionais,
como também jovens e adultos retornam às instituições do sistema. Esta
situação provoca confusão entre os professores, porque existem poucas
estratégias comprovadas para atender a suas necessidades de aprendiza-
gem. Mas uma sociedade de inclusão deve ser capaz de gerar alternati-
vas; estas não podem ser convencionais e através de seu desenvolvimen-
to, devem-se alcançar resultados de alta qualidade.
As questões referentes às mudanças nos contextos, a nova visão
acerca do sentido da educação secundária e a focalização nos sujeitos
em processos de for mação r equerem um esforço duplo: encontrar pro-
jetos para o novo e caminhos para as mudanças. As seguintes conver-
gências do diálogo estão diretamente associadas a essas duas faces dos
processos que começaram a ser enfrentados para transformar o nível
secundário atual.
5. progresso na dessacralização das estruturas como eixo
dos desenhos para as novas f or mas educacionais
Os textos publicados neste livro permitem constatar que, no que
se refere ao modelo da educação dos jovens, existe uma tendência ao
deslocamento dos eixos das propostas, desde os temas estruturais para
temas cur riculares e institucionais.
As estr uturas estão sendo dessacralizadas. Isto se refere tanto à
estr utura ver tical do sistema educacional como à horizontal e às for mas
de organizar a relação entre a oferta educacional e o mundo do
trabalho.
396
Pode-se comprovar convergência na proposta de substituir uma
estrutura vertical do sistema educacional, cuja metáfora é uma escada
com degraus altos e bem diferenciados, por outra, cuja metáfora seja
uma rampa, que se possa transitar com suavidade e que esteja constitu-
ída por tr echos conectados através de por tas sempre abertas. Neste novo
esquema, a situação das portas tende a ser resolvida através de estratégi-
as menos homogêneas e mais situacionais, levando em conta as caracte-
rísticas de cada contexto local. Em conseqüência, a educação secundária
poderia deixar de ser um degrau ao qual, para subir, a pessoa precisa
fazer um grande esforço solitário e com um forte risco de queda, pas-
sando a ser um trecho de fácil trânsito e mesmo de conclusão de uma
primeira etapa de educação básica que possibilite uma quantidade de
voltas a processos educacionais, ao longo de toda a vida.
Existe a tendência, inclusive, de se obter mais consenso para a
substituição da oferta de diferenciação horizontal em três modalidades,
rigidamente separadas entre si e estruturadas em torno de currículos
pouco flexíveis, por uma oferta de modalidades interconectadas e es-
truturadas em torno de currículos mais flexíveis, que compartilhem um
núcleo comum e ofereçam opções aos estudantes. Sugere-se que, numa
mesma instituição educacional, poderiam coexistir ofertas correspon-
dentes a essas diversas modalidades. Ao mesmo tempo, existe a consci-
ência a respeito do fato de que a oferta de opções deve ser desenhada
de modo tal que não se aprofundem as desigualdades sociais e possa ser
administrada em estabelecimentos educacionais grandes ou pequenos,
urbanos ou rurais e com população mais ou menos homogênea, e que
tenha custos financiáveis.
Progride-se na concepção de uma série de estratégias variadas
que facilitem a articulação de cada instituição de jovens com o mundo
do trabalho, inde pendentemente de sua orig em na conclusão da escola
secundária, no curso comercial, em um estabelecimento de for mação
profissional ou em uma escola técnica. Buscam-se alternativas diferentes
a respeito das oficinas, características das escolas profissionais e técnicas,
que oferecem âmbitos para for mar habilidades muito específicas com
instalações muitas vezes antiquadas e com desenhos institucionais, como
o Plano Dual, cujo êxito se pode garantir em contextos culturais
muito específicos. Afirma-se o valor f or mativo dos estágios de dif eren-
te duração, dos projetos de intervenção comunitária, das visitas e das
397
microempresas. Insiste-se, coincidindo com as for mulações de Elena
Martín, na importância de explorar múltiplas modalidades de relação
entre as instituições educacionaiseomundo do trabalho, nos tr oncos ou
núcleos comuns a todas as modalidades, por seu valor formativo, e não
por suas produtos ou serviços que possam oferecer. As tendências a
dessacralizar as estr uturas desembocam, necessariamente, numa afir ma-
ção da capacidade local e das instituições educacionais para definir suas
próprias soluções estruturais, utilizando margens mais amplas de auto-
nomia. Frente a isto, coloca-se um novo pr oblema.
trinta anos, acreditava-se que uma crescente homogeneidade
estrutural bastaria para se construir maior igualdade educacional, e que
essa igualdade permitiria, por sua vez, contribuir para uma maior mobi-
lidade social. Hoje se sabe que essa crescente homogeneidade estrutural
pode ser, paradoxalmente, uma ferramenta para aprofundar as desi-
gualdades. Mas também é sabido que nem toda heterogeneidade estru-
tural terá um impacto equivalente. As características do impacto da he-
terogeneidade estrutural dependerão da intenção e das peculiaridades
que tenham e de outra série de políticas educacionais e sociais.
Sabe-se, em resumo, que a diversidade estr utur al não produz, em
si mesma, maior eqüidade, mas que pode ser utilizada como uma ferra-
menta para a promoção dessa igualdade.
6. É imperativo e possível conciliar o reconhecimento e a
promoção da diversidade com a promoção da eqüidade
Uma sexta convergência, que surge dos textos deste livro e das
reflexões de um número mais amplo de pesquisadores, funcionários e
docentes, consiste na afirmação da necessidade de se ar ticular a atenção
à diversidade com a busca de maior eqüidade. Nesse sentido, María
Antonia Gallart apresentou, em seu comentário ao Seminário
Internacional A educação secundária: mudança ou imutabilidade?”, a questão
sobre a eventual existência de contradições entre a atenção à diversidade
e a contribuição da educação para a compensação das desigualdades
sociais. A chave, na busca de um equilíbrio entre ambos desafios, estaria
em mudar o padrão pelo qual se oferecia a todos os adolescentes e
jovens uma educação com as mesmas características institucionais e
398
curriculares, sem levar em conta os antecedentes socioeconômicos e as
trajetórias escolares de cada um.
Uma for ma de avançar nessa mudança de padrão seria imple-
mentar “políticas de reforço” para todos os adolescentes e jovens que
ingressam na educação secundária com menor capital cultural e educaci-
onal acumulado, de maneira que tenham, realmente neste nível, a possi-
bilidade de construir um forte valor agregado em conhecimentos, habi-
lidades e competências. Outro caminho seria garantir, a partir de outros
âmbitos de políticas sociais e culturais, que todos os adolescentes e jo-
vens tenham “condições básicas de educabilidade”.
Entretanto, além disso, existe coincidência na posição de Etelvina
Sandoval, durante o mesmo Seminário, a respeito do fato de que é ne-
cessário considerar estratégias mais flexíveis de ensino e diversificar os
enfoques peda gógicos. Existe uma for te preocupação a respeito das r up-
turas entre os novos enf oques institucionais e cur riculareseaformação
que receberam os professores que estão trabalhando atualmente na edu-
cação secundária. Essa preocupação desemboca num explícito consen-
so a respeito da prioridade que se deve outorgar aos processos de re-
conversão da for mação inicial e da capacitação dos professor es, dando
par ticular impor tância ao desenho de dispositivos de intercâmbio, que
lhes per mitam aprender de suas próprias experiências, nos contextos
concretos e específicos de instituições diversas das que participam dife-
rentes grupos de jovens, cada um com suas car acterísticas peculiares.
7. Combinar políticas e estratégias de regulamentação,
liberalização e promoção
As reflexões sobre os casos nacionais e sobre os êxitos e fracassos
dos processos de re for ma educacional per mitem enriquecer a proposta
de Juan Carlos Tedesco de combinar estr atégias orientadas a for talecer a
liberdade com outras orientadas a fortalecer a regulamentação. Sem li-
berdade, sug ere, é possível cair-se em for mas autoritárias de atuação e
de promoção da mudança; sem re gulamentação, acrescenta, cer tamente
se aprofundarão ainda mais as desigualdades. Sendo assim, os mais po-
bres ter minariam expulsos da fila de ing resso nos circuitos produtivos e
das oportunidades de plena incorporação cidadã.
399
Contudo, a essa tensão entre busca de liberdade nas instituições e
de regulamentação no sistema, é necessário acrescentar a construção de
diversas estratégias de promoção. Com efeito, o exclusivo exercício da
regulamentação e da liberdade não garante que todas as instituições pos-
sam oferecer uma educação de qualidade a todos os adolescentes e jo-
vens. Em outras palavras, a possibilidade de que as mudanças da educa-
ção secundária consigam um maior equilíbrio entre a aceitação e o res-
peito à diversidade, por um lado, a luta pela eqüidade, por outro, e a
melhoria da qualidade da educação ficaria determinada pelo jog o entre
três dinâmicas: i) a dinâmica da liberdade, associada mais diretamente
com a atenção à diversidade; ii) a dinâmica da regulamentação, que se
relaciona de maneira mais direta com o desafio da eqüidade; e iii) a
dinâmica da promoção, que incrementa a possibilidade de encarar o
desafio da qualidade.
Os diversos países, que atravessam processos de reforma, outor-
gam prioridade a diferentes focos ou pontos possíveis de intervenção,
alguns mais voltados para a regulamentação, outros para a liberdade e
outros para a promoção. As apresentações incluídas neste livro per mi-
tem tomar conhecimento de algumas situações nacionais e compará-las
entre si e, ao mesmo tempo, distinguir momentos diferentes nos pro-
cessos de mudança dentro de alguns deles. Contudo, pareceria que mui-
to mais do que tratar de políticas de regulamentação, liberalização ou
promoção, em todos os casos presta-se par ticular atenção aos cur rícu-
los como dispositivos de inter venção. Mas dúvidas, mesmo entre
especialistas em cur rículo, a respeito da per tinência nesta ênf ase.
8. Um Estado ativo e convocador que recupere e dinamize
as experiências institucionais
As diferentes inter venções recolhidas neste livro dão conta da exis-
tência de um debate inconcluso sobre como devem ser essas dinâmicas
e quem é o responsável por promovê-las.
Em ter mos gerais, as análises dos casos nacionais per mitem ver
que, na década de 90, os Estados nacionais tentaram avançar na redefi-
nição e no cumprimento de um papel ativo nos três tipos de políticas:
de regulamentação, de liberalização e de promoção.
400
No texto sobre a gestão da mudança na América Latina, existe
uma reflexão especial sobre o papel do Estado como impulsionador de
refor mas e sobre a relação que existe entre as refor mas e as inovações
educacionais, de base institucional.
Contudo, além dos aspectos que se dep reendem dos estudos na-
cionais e do texto comparativo, o diálog o, que diversos especialistas ini-
ciaram, destacou outros dois problemas das reformas educacionais: a
baixa continuidade instituciona l e a multiplicidade inorgânica de proje-
tos de promoção que, na hora da ação, dificultam a recuperação de seus
insumos nas instituições educacionais.
Numa de suas inter venções, María Antonia Gallar t considerou
que as estratégias de promoção deveriam recuperar muito mais intensa-
mente a vontade de transfor mação, que existe hoje em dia nas institui-
ções educacionais e que, muitas vezes, constitui uma potência desperdiça-
da”. Em palavras de Cristina Vairo, tr atar-se-ia de colocar o peso nesse novo
sentido que tem a ver com o que se pode fazer entre as instituições e com o convenci-
mento interinstitucional de um trabalho compartilhado”.
É provável que o impulso para avançar mais aceleradamente nos pro-
cessos de mudança da educação secundária possa surgir de uma combinação
mais criativ a e intensa entre políticas de regulamentação, liberalização e pro-
moção, através da articulação entre o papel principal do Estado, a participa-
ção socialearecuperação, difusão, interconectividade auto-administrada e
análise crítica das experiências inovadoras nas instituições educacionais .
9. Detectar e ativar os recursos e as condições para a criação
de escolas de adolescentes e jovens
Outro conjunto de reflexões convergentes se refere à possibilida-
de de detectar e ativar os recursos e as condições que as próprias insti-
tuições possuem para rearticulá-los, com vistas a construir verdadeiras
escolas para adolescentes.
A esse respeito, foi lançado o duplo desafio de ar ticular as políti-
cas de curto prazo com os projetos de médio e longo prazos, as políti-
cas compensatórias, orientadas para garantir a educabilidade da popula-
ção, mediante a provisão de alimentação e de outros recursos básicos,
com as políticas de transformação.
401
Existe consenso acerca de que algumas das políticas educacionais,
que estão sendo levadas a ter mo, orientadas para uma transformação de
longo prazo, mas outras, igualmente legítimas, apontam mais para ga-
rantir condições básicas de educabilidade da população. Mas alguns
pesquisadores e funcionários colocam que, se forem garantidas apenas
as condições de educabilidade da população, os jovens, que de pois não
terão opor tunidade de que esta condição se transfor m e em realização,
através de um fortalecimento de suas capacidades, não abandonarão
a escola como também a rejeitarão. Por outro lado, ao mesmo tempo,
os investimentos públicos, que vierem a ser destinados para gerar tais
condições, terão sido, na verdade, um g asto e não um investimento.
Simultaneamente, vários textos abordam a questão das dificulda-
des que existem para financiar a expansão da educação secundária e a
melhoria da qualidade dos apr endizados.
A respeito da expansão da educação secundária, indica-se que,
embora se tenha avançado de forma considerável nos processos de
incorporação dos adolescentes e dos jovens, em estabelecimentos que
oferecem esse nível de educação, de qualquer modo, muitos adolescen-
tes e jovens per manecem ainda for a de toda inserção educacional e tam-
bém social, e existem outros para quem a oferta abrange jornadas muito
curtas. É difícil imaginar alternativas, levando em conta que o investi-
mento do Produto Interno Bruto na educação na América Latina corre
o risco de ficar estancado, por vários anos, em somas que oscilarão
entre os 3% e os 4%. Alguns países, como o Chile, estão projetando
programas para incrementar a quantidade de horas de aula em alguns
estabelecimentos de educação dos jovens. Prog ramam, ao mesmo tem-
po, incrementos consideráveis no investimento educacional.
Quanto à qualidade do processo educacional, assinala-se que as
sociedades dos países membros da OCDE investem, por aluno conclu-
inte da educação secundária, cerca de 13 vezes mais do que os países
latino-americanos. Percebe-se que, se o efeito fila for verdadeiramente
global, a disparidade nos investimentos terá sérias conseqüências negati-
vas para a população da região.
Não parece possível pensar em atender a demanda crescente nem
melhorar a qualidade educacional, sem incrementar os investimentos em
educação. Todavia, tampouco par ece possível obter os avanços necessá-
402
rios sem modificação dos modelos de organização e as dinâmicas de
funcionamento institucional.
Em outras palavras, a obrigatoriedade subjetiva com referência à
educação secundária torna imprescindível encontrar uma resposta ver-
dadeiramente transformadora para que a América Latina possa respon-
der a essa demanda com os recursos disponíveis ou previsíveis em mé-
dio praz o. Essa r esposta transformadora deve ser suficientemente efi-
caz para utilizar melhor os recursos existentes, mas também para obter
novos recursos, através de estr atégias diferentes de privatização. Nesse
sentido, assinala-se que as mar gens par a a privatização na educação se-
cundária estão sendo aproveitadas e que os novos grupos, que lutam
por ing ressar e per manecer mais anos no sistema educacional, provêm
de famílias que, na maioria, não possuem recursos próprios para inves-
tir. indicações de que, diante dessa situação, é imprescindível a con-
vocação de uma maior participação social em torno do tema da educa-
ção dos jovens, que permita desencadear maior compromisso e cria tivi-
dade na b usca de soluções.
10. A consideração e a participação dos atores são insuficientes
para promover uma mudança na educação secundária
O último ponto que se deve destacar, no processo de recupera-
ção de algumas contribuições, convergências e debates, que surgiram
deste exercício de infor mação, ref lexão e diálog o, em relação aos pro-
cessos de mudança e continuidade na educação secundária latino-ameri-
cana, refere-se aos atores.
Na realidade, a produção atual sobre a educação secundária lati-
no-americana incor pora escassas referências a seus atores. A pergunta é:
Por quê?
É possível aventurar a hipótese de que talvez a incorporação de
uma reflexão consistente, a respeito da relação dos vários atores com a
educação secundária e, em especial, com as propostas e os processos de
transfor mação, esteja dificultada porque, se forem considerados em se-
parado, todos os protag onistas reais e potenciais das mudanças têm ra-
zões para estarem a favor, mas também contra.
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Em ge ral, os políticos e os especialistas for mulam, de for ma alg o
idílica, as razões para o acordo e não as razões para o desacordo. Por
isso, prefere-se, nessa oportunidade, incluir referências ao outr o aspecto
da questão.
Na realidade, cada ator, separadamente, tem razões válidas para
opor-se às mudanças na educação secundária. Por que estariam os pro-
fessores de acordo com as propostas e com os processos de transfor-
mação da educação secundária, se precisarão mudar suas práticas de
trabalho, e isso implica risco, em contextos de desconfiança e esforços,
em muitos casos, com poucas ou inadequadas políticas de promoção?
Por que vão estar de acordo os empresários, s e g arantir a educação de
12 anos para todos poderia exigir incrementos orçamentários da ordem
de 25% a 35% e, por tanto, poderia ser necessário o incremento de im-
postos, em cenários onde o discurso predominante responsabiliza o in-
vestimento público pela baixa competitividade econômica? Por que vão
estar de acordo as organizações gremiais, se não se oferecem melhores
salários e se, além disso, as propostas de dar mais autonomia às institui-
ções educacionais podem cheg ar a fragmentar seu poder? Por que deve-
riam estar de acordo as camadas médias e altas, que aspiram per mane-
cer em lugares de maior privilégio, na fila por trabalhos escassos, com
uma educação que inclua mais pessoas, em vez de fazer uma seleção
entre elas? Por que estariam de acordo os poucos pr ofissionais e técni-
cos de car reira, que per manecem nas desacreditadas burocracias educa-
cionais, com as mudanças, se são muito difíceis de levar a cabo e podem
arrastá-las a situações de conflito? Por que vão estar de acordo os polí-
ticos, se isso acarreta tantas manifestações de rua?
É possível que, a partir de uma análise política de cur to pr azo,
não se consiga construir os apoios para se avançar em políticas de trans-
for mação da educação que se precisa. Contudo, o que pode não ser
bom para cada ator em se parado, pode chegar a ser impr escindível para
que todos eles possam coexistir, para que as sociedades sejam governá-
veis e nelas se possa viver, assim como para que exista alguma oportuni-
dade de se construir uma maior competitividade econômica coletiva.
Talvez o ponto mais fraco de quem pretende liderar um processo
de mudança na educação secundária seja o de não conseguir convencer
os atores acerca dos benefícios de uma sociedade incluidora, que garanta
aos jovens um lugar na sociedade e uma vida melhor. Por isso,
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provavelmente, o desafio maior seja o de encontrar e tornar transparentes
para todos e para cada um dos envolvidos as razões das mudanças.
Despolarizar, como se disse também no seminário A educação secundária:
mudança ou imutabilidade?”, o conflito entre alunos-professores ou
professores-Estado. Obter consenso e acordo em tor no dos elementos
mínimos dos problemas para que, a partir daí, sejam construídos os
rumos, as reorientações, as recolocações ou as permanências das diferentes
refor mas, que muitos países estão discutindo. Obter a compreensão do
que muita g ente sente, ainda que depois e, ao mesmo tempo, não se
esteja particular mente de acordo com algumas das propostas: que é
preciso mudar.
Para o caso dos professores chilenos, torna-se necessário reco-
nhecer que, por trás de legítimos temores, existe neles o desejo de mu-
dar, mas que, ao mesmo tempo, sentem-se pressionados pela enverga-
dura das mudanças necessárias e pela falta de força política, de esperança,
de capacidade de convicção, no que se ref ere à necessidade e ao sentido
das mudanças e da gestação de uma escola de adolescentes e jovens, em
quem se supõe q ue devam liderar os processos transfor mador es.
Aníbal Ponce dizia que os jovens se caracterizam por estarem na
idade da ambição e da angústia: querem ser mais e melhores, querem ser
autônomos, querem tomar decisões, mas têm muita angústia, porque
ainda não podem. Daria a sensação de que, com as reformas da educa-
ção secundária na América Latina, ocorre atualmente algo similar ao que
por outro lado tampouco é alheio à situação européia. Não apenas
existe muita dificuldade para se pensar na mudança, como colocou Jo-
aquim Azevedo; é mais difícil ainda torná-la realidade e impor limites a
suas expectativas.
A educação secundária parece ser o nível mais difícil de se trans-
for mar no mundo inteiro. Pre parada para receber jovens dos setores
médios e altos, começou, algumas décadas, a receber jovens de
todos os setores sociais. Por outr o lado, sua proposta cultural e pedagó-
gica segue, em importante medida, ancorada no século XIX. O diagnós-
tico é c laro. As alter nativas estão em construção.
Este livro oferece uma visão de algumas dessas alternativas na
América La tina e na Europa e os resultados de um diálog o fr utífero,
acerca delas, entre mais de 150 participantes de diferentes países de am-
bos os continentes. Dele emergem, de uma vez, referências às tendências
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históricas de seu desenvolvimento e às oportunidades, orientações e di-
ficuldades encontradas por aqueles que tentam transformar aquela edu-
cação secundária para as elites em uma educação de base para os jovens,
que lhes permita participar, com per tinência e sentido, das sociedades
do século XXI, contribuindo para seu enriquecimento e melhoria.
O Instituto de Pesquisa e Planejamento Educacional da UNES-
CO (IIPE-UNESCO) ofer ece, deste modo, uma contrib uição a mais
em acréscimo à reflexão e à mudança educacional, construída coletiva-
mente entre alguns dos atores e pesquisadores mais destacados de am-
bos os continentes.
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