impressão que lhe causara a moça. O seu coração estava inteiramente subjugado. Ainda assim,
lograria, talvez, vencer-se, se, vinte dias depois do seu encontro com Lalá, esta não lhe
escrevesse um bilhete que neutralizou todos os seus elementos de reação.
"Doutor. - Sinto que o nosso romance o enfastiasse tanto, que o senhor não quisesse ir além do
primeiro capítulo. Entretanto, não imagina como sofro por não saber os motivos que atuaram no
seu espírito para interromper tão bruscamente... a leitura. Diga-me alguma coisa, dê-me uma
explicação que me tranqüilize ou me desengane. Esta incerteza mata-me. Escreva-me sem
receio, porque só eu abro as minhas cartas. - Lalá."
A primeira idéia de Montenegro foi deixar a carta sem resposta, e empregar todos os meios e
modos para esquecer-se da moça e fazer-se esquecer por ela; refletiu, porém, que não poderia
justificar o seu procedimento, se recusasse a explicação com tanta delicadeza solicitada.
Resolveu, portanto, responder a Lalá com um desengano categórico e formal, e mandou-lhe
esta pílula dourada:
"Lalá. - Deus sabe quanto eu a amo e que sacrifício me imponho para renunciar à ventura e á
glória de pertencer-lhe; mas um motivo imperioso existe, que se opõe inexoravelmente á nossa
união. Não me pergunte que motivo é esse; se eu 1h
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revelasse, a senhora achar-me-ia ridículo.
Basta dizer-lhe que a objeção não parte de nenhuma circunstância a que esteja ligada a sua
pessoa; parte de mim mesmo, ou antes, da minha pobreza. Adeus, Lalá; creia que, ao escrever-
lhe estas linhas, sinto a pena pesada como se estivessem fundidos nela todos os meus
tormentos. - G. M."
- Que conselho me dá vossemecê? perguntou Lalá à sua tia, depois de ler para ela ouvir a carta
de Montenegro.
- O conselho que te dou é tratares de arranjar quanto antes uma entrevista com esse moço, e
entenderes-te verbalmente com ele. Isto de cartas não vale nada. Ele que te diga francamente
qual é o tal motivo... e talvez possamos remover todas as dificuldades. Não percas esse marido,
minha filha. O Doutor Montenegro é um advogado de muito futuro; pode fazer a tua felicidade.
No dia seguinte Montenegro recebeu as seguintes linhas:
"Amanhã, quinta-feira, às duas horas da tarde, tomarei um bonde no Largo da Lapa, porque vou
dar uma lição na Rua do Senador Vergueiro. Esteja ali por acaso, e por acaso tome o mesmo
bonde que eu e sente-se ao pé de mim. Recebi a sua carta; é preciso que nos entendamos de
viva voz. - Lalá."
O tom desse bilhete desagradou a Montenegro. Quem o lesse diria ter sido escrito por uma
senhora habituada a marcar entrevistas. Entretanto, à hora aprazada o bacharel achou-se no
Largo da Lapa. Recuar seria mostrar uma pusilanimidade moral, que o envergonharia
eternamente. Depois, como ele possuía todas as fraquezas do namorado, deixou-se seduzir
pela provável delícia dessa viagem de bonde. Quando o veículo parou no Largo do Machado,
Lalá sabia já qual o motivo pecuniário que se opunha ao casamento. Ouvira sem pestanejar a
confissão de Montenegro.