
INÉDITOS E ESPARSOS
metro do Sr. Piorny, imortal descoberta que, à falta de épicos, o pró-
prio autor celebrou em alexandrinos, e ouvir falar de Balzac, mas
como? Como de um profundo conhecedor do coração humano, repu-
tação adquirida com detrimento de Andral, de Bouillaud, de Laenec,
de Beau e tantos que por longa experiência clínica a mereciam.
Caprichos de opinião pública! Mas o certo é que essas gratui-
tas ideias, assim espalhadas pelos poetas, ganharam raízes profundas,
vulgarizaram-se e ao lado do coração fisiológico, científico, ortodoxo,
órgão motor da circulação sanguínea, de há muito se insinuara outro,
um coração convencional, romântico, poético, sem foro de ciência,
contra o qual do ádito do santuário se fulminaria a excomunhão, se
ele manifestasse tentações de lá entrar.
Seja porém dito em seu abono que nunca as manifestou; proce-
deu, como esses escritores, queridos das multidões e a quem as aca-
demias repelem, deviam todos proceder.
Agora é justo confessar que dos dois corações, o mais popular
e simpático, não era decerto o primeiro, o legal, o académico.
Que dama namorada, que mãe extremosa, que poeta inspirado,
que guerreiro sob o domínio da paixão de glória, que expatriado
consumido pelas saudades da sua terra, que nauta, suspirando no
meio da sublime mas desconsoladora solidão das vagas, aceitaria sem
repugnância, aquele coração máquina, músculo, órgão impulsor do
sangue e nada mais, que lhe apresentavam os sábios?
Embora lho vitalizassem um pouco ultimamente, não era ainda
nada, para aquele irresistível instinto que lhes pedia mais.
Verdade é que já lho não apresentavam como uma simples
máquina hidráulica, uma espécie de bomba aspirante e expelente,
concepção tão grosseiramente materialista que revoltou os próprios
fisiologistas; mas, em todo o caso, melhor enervado e vivificado,
promovido da categoria de máquina à de órgão, do mundo físico e
mecânico ao vital; era ainda o órgão da circulação e não passava daí.
Os poetas deixavam dizer os fisiologistas e continuavam na sua
propaganda e o vulgo aplaudia-os com alma e identificava-se com
aquelas crenças poéticas, sem cuidar do seu carácter hipotético.
Quantas vezes os adeptos da ciência, os discípulos em via de inicia-
ção, punham de lado, na banca do estudo, as páginas de ciência posi-
tiva sobre a vida do coração, para saborearem furtivamente a fisiologia
de contrabando, que em todas as línguas do mundo mortas e vivas os
poetas oferecem às imaginações seduzidas.
Mas o encanto era ainda poderoso; revelava-se por provas ainda
mais evidentes.
Os próprios sacerdotes, os que proclamavam o interdito contra
as falsas doutrinas, os que dentro do templo nunca permitiriam a
entrada a essas metrificadas fisiologias do coração — não obstante lá
terem entrado coisas muito menos racionais e em estilo incompara-
velmente pior — os próprios sacerdotes digo, fecharam muita vez