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INÉDITOS E ESPARSOS
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Carta do Visconde de Castilho a Júlio Dinis
acerca do seu romance Uma Família Inglesa,
transcrita, por amável concessão do Sr. Vis-
conde de Castilho Quito), das Novas Telas
Literárias (vol. IIP (1).
Ex.
mo
Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
Recebi, mas só muitos dias depois, o exemplar, com que V. Ex."
me obsequiou, do seu romance Uma Família Inglesa.
Dizer a V. Ex." que nos lançámos a ele com verdadeira sofregui-
dão, fora uma superfluidade; acrescentar que o levámos de um fôlego,
sem a mínima distracção, até à última página, e que depois dela nos
estava ainda inteiro o apetite para o dobro, ou o triplo, outra super-
fluidadeo menos escusada.
Sim senhor: a sua inglesinhao é menos para amores que a
Margarida. Esta sua segunda filha há-de-lhe dar tanta glória como a
primogénita; e se lhao der maior, é porqueo pode ser.
Coisa muito para se citar com louvor e admiração neste seu novo
livro, é (quanto a mim) que, sendoo sóbrio o enredo, eo pequeno
o teatro da acção, o interesse dela é todavia dos mais poderosos.
0 talento real foi sempre assim, e assim é também em todos os seus
poemas a Natureza: de elementos mínimos compõe, sem esforços nem
violência, os máximos efeitos.
Deus o conserve (e já se vê que o há-de conservar até ao fim)
no óptimo sistema que adoptou.
Outros que o elogiem (e com esses também eu faço coro) como
escritor de romances já distintíssimo,o só para entre nós. Eu, por
cima desse mérito, reconheço-lhe ainda o de filósofo e moralista, que
algum dia tem de ser colocado entre os de primeira plana. Teófrasto
e La Bruyèreo debuxaram com mais exacção os caracteres. Balzac
mesmoo lê mais por dentro nos indivíduos. V. Ex.
a
, além do esmero
com que nos pinta o mundo exterior, e nos fotografa a sociedade, tem
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NOTAS
Colhidas de um livro manuscrito.
PRINCIPIEI a escrever as «Pupilas» em Ovar (1863) durante os
meses de Julho e Agosto. Terminei-as no Porto em Setembro
ou Outubro. Ficaram-me na gaveta até ao ano de 1866 em que
solvi publicá-las. Alterei bastante o romance e ampliei-o introdu-
zindo-lhe personagens e capítulos novos. Publicou-se em 1866 de
Março a Julho. Publicou-se em volume em Outubro de 1867. O pri-
meiro exemplar brochado em 20 de Outubro.
Os primeiros factos da minha existência literária remontam aos
11 anos.o os recordo porque pretenda persuadir-te que efectiva-
mente de algum valor eram já essas façanhas de criança, maso
somente para me darem ensejo de fazer algumas reflexões sobre os
motivos principais que podem actuar sobre a inspiração nascente e
criar o gosto pelas letras; assim como, mais tarde, apreciar as causas
que podem educá-lo em melhor caminho.
Permite-me que te recorde alguns factos da minha vida.
Sabes que aos 5 anos fiquei sem mãe, que a nossa vida de
família...
...(Não continua).
P. Um homem que doma feras como está mais sujeito a morrer ?
R. De uma dor. (Domador).
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P. Que basta a qualquer para enriquecer ?
R. Ser Henrique. (Enrique-cer).
P, Em que dia do ano tocam melhor os sinos ?
R. No dia de defuntos porque tocam todos a finados. (Afinados).
P. Para que serve a cal na artilharia ?
R. Para fazer peças de cal e bronze. (Calibre onze).
P. Qual é o exemplo de um homem inevitavelmente incurável ?
R. Um abade sem cura. (Coadjutor).
Principiei a escrever «Os Fidalgos da Casa Mourisca», no Funchal,
em Março de 1869. Levava-o em meio do capitulo 8.° quando voltei
ao Porto em Maio do mesmo ano. Trabalhei no Porto e escrevi-o até
princípios do capítulo 17, desde Junho até Outubro, época em que
voltei para a Madeira. Concluí-o no Funchal em 11 de Abril de 1870.
Levei-o manuscrito para o Porto. Principiei a copiá-lo aí e levei a revi-
o e cópia até ao capítulo 22. Concluí este segundo trabalho no Funchal
a 27 de Novembro de 1870.
RENDIMENTO DAS MINHAS OBRAS
Pupilas Folhetins 27$000
» 1ª edição (dinheiro) 119$215
» 70 exemplares 35$000
» 2.» edição (dinheiro) 246S080
» 6 exemplares 3$000
430$295
Família Inglesa Folhetins 40$000
» » 1.» edição (dinheiro) 288$705
» » 27 exemplares 16$200
344$905
Morgadinha Folhetins 50$000
» 1.» edição (adiantamento) 150$000
» » » 90$000
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Serões Em dinheiro ...
» 80 exemplares
» Folhetins
150$000
35$000
16$000
AUSÊNCIAS
1863 Ovar.
1864 Felgueiras, Amarante, Leiria, Alcobaça, Batalha, Nazaré, Aveiro,
Ovar.
1865 Felgueiras,
1866
1867 Aveiro, Ovar, Vila do Conde, Póvoa.
1868 Matosinhos, Leça, Lisboa.
1869 Lisboa, Funchal, Coimbra, Fânzeres.
1869-1870 —Lisboa, Funchal.
Quando uma nação forte e vigorosa, no gozo da sua autonomia,
respirando a aura vivificadora da liberdade, é invadida pela agressão
estrangeira; quando o despotismo e a servidão se aproximam, a campo
descoberto, dos seus muros, estes transformam-se em baluartes, a
reacção é pronta e eficaz, cada indivíduo é um soldado, cada soldado
cinge-se da coroa dos heróis e o sangue, patriótica e generosamente
vertido no altar da pátria, reverdece salutarmente as palmas da vitó-
ria. Mas se o mal se aproximou obscura e lentamente, se o veneno se
inoculou gota a gota nos espíritos, pervertendo-os, infeccionando-os;
se rastejou como a serpente; se a falsa doutrina foi insidiosamente
segredada no confessionário, pregada do púlpito, administrada em
sacrílega comunhão com a hóstia consagrada; se as gerações novas
a bebem na educação, dirigida por a hipocrisia, a vida da nação defi-
nha, os espíritos aviltam-se, os sentimentos nobres perdem-se, a alma
adormece voluptuosamente numa inacção vergonhosa ou, se um dia
um excesso de opressão a faz acordar, se pretende reagir, o esforço
momentâneoo a salva, antes acaba de a deprimir.
A luta é ainda gloriosa, mas improfícua e talvez prejudicial. Disto,
a Europa nos ofereceu há pouco um triste exemplo.
No mundo fisiológico há também umas e outras destas comoções,
bem comparáveis às comoções políticas a que nos referimos. Às vezes
o mal vem do exterior, acomete subitamente, violento sim, mas decla-
rado, franco, sumário. Então a economia, na presença do perigo, rica
de todos os seus recursos, forte de toda a sua energia,e em jogo
toda a sua actividade de que está de posse. E o combate trava-se,
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pronto, violento, muitas vezes eficaz. A febre é o tipo destas revoluções
fisiológicas.
Mas se as causas obraram lentamente, se desde o primeiro e mis-
terioso instante da existência, esse momento que encerra séculos, o
da fecundação, se assenhoreou da organização, se perverteu o leite
materno, se infeccionou as fontes de toda a substância, viciando o ar,
envenenando as águas... então o organismo cede-lhe pouco a pouco,
segue, sem reagir, um plano de vida mórbida, ou, quando reage, está
longe de manifestar aquelas eficazes e salutares sinergias que deci-
dem os fenómenos mórbidos como se estivessem despedaçados os
laços da unidade vital. É uma reacção anormal, irregular, aquela que
muitas vezes afronta (?) a subjeição do corpo. (?)
Os organismos, em certas moléstias crónicas,o um exemplo
destas outras comoções.
*
* *
Baixou do ministério do reino aos estabelecimentos de instrução
superior uma portaria mandando-os consultar sobre um plano geral
de reforma e nela o ministro deixou transparecer o seu pensamento
em relação aos destinos de cada um desses estabelecimentos.
Prepara-se pois uma reforma radical na instrução pública do
País; desde a instrução primária, ao descurada sempre dos nossos
governos, até à instrução superior,o longe ainda entres do que
devia ser. A portaria é a aurora de um clarão que promete iluminar-
-nos para a legislatura seguinte; faremos votos para queo seja ape-
nas uma aurora boreal, como a que aparece aos navegadores dos
mares do norte para, momentos depois, se resolver em trevas.
O convite que o ministério do reino fez às escolas e às acade-
mias, vimoss fazê-lo aqui a toda a Imprensa, a todos os publicistas,
a todos os pensadores do reino e principalmente aos das províncias
do norte, que mais que nenhunsm razões para se ocuparem desta
tentativa de reforma.
O nosso país é pequeno em área; mas ainda assim parece que
jáo é um só o dialecto que se fala em todas as regiões dele. Pala-
vras há que, segundo as latitudes em que se pronunciam, assim tomam
diversas acepções.
A palavra reforma está neste caso.
Quando pelas secretarias do Terreiro do Paço, pelos gabinetes
dos ministros, pelas salas e corredores das duas câmaras e pelas pra-
ças e teatros principia a vogar esta palavra reforma os ouvidos da
capita! escutam-na com prazer; mas, se os ventos a transmitem às pro-
víncias, se os ecos da Imprensa a repercutem, é raro queo estre-
meçam de apreensões os espíritos menos timoratos.
De onde provém esta diferença?
É que ha muito as reformas manifestam-se em Lisboa por amplia-
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ção nos quadros dos funcionários, aumento da despesa pública, ele-
vação das cifras de vencimentos, criação de sinecuras, com que a pro-
verbial indolência dos nossos compatriotas do sul se pressente lison-
jeada. Para nós, porém, os que vivemos longe do sol, aquele belo e
fomentador sol da capital, diversa e quase antinómica acepção tem a
palavra, quando a procuramos no dicionário, que por experiência sabe-
mos ser o mais fiel.
Em tudo é assim. Como a antiga Roma, que fora da sua cidade
o via senão países bárbaros, Lisboa para lá dos seus muros, esquece
que existe o País e procura só por si absorver tudo.
*
* *
We view the world with our own eyes, each of us; and we
make from wifhin us the world we see. A weary heart gets no gladness
out of sunshine; a selfish man is sceptical about friendship, as a man
with no ear doesn't care for music.
Thackeray The english humourísts of the
eighteen century (pág. 39 Swift).
*
* *
Les éléments de la conjecture au sujet de telle ou telle action
sont, d'une part, ce que l'on croit savoir du caractere de celui qui l'a
fait; de 1'autre, le caractere de celui qui la juge. Les bons supposent
volontiers de bons motifs; les méchants ou les sots en supposent de
méchants ou de sots. De même qu'on ne trouve dans un livre qu'autant
d'esprit que l'on en a, on ne peut aussi sentir que dans la mesure de son
propre mérite ou de sa propre délicatesse, le mérite et la délicatesse
d'autrui. Attendez-vous donc à ce que les gents sans esprit et sans cceur,
c'est-à-dire un três grand nombre de gens, supposent à vos actions les
motifs mesqums qui réglent les leurs.
Émile Deschanel Étude
sur le Rochefoucauld.
*
Causou-me vivo prazer a leitura dos dois trechos que transcrevi,
por me ter encontrado no pensamento com os seus ilustres autores,
quando escrevi na Morgadinha:
«É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem
no desinteresse dos outros!
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«Não há explicação mais difícil de ser recebida do que a que s
e
fundamenta em um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade,
«É preciso que duvidemos muito des mesmos para assim des-
confiarmos do próximo. Porque afinal o que é verdade, é que a mais
exacta e infalível ciência do coração humano só se adquire pelo estudo
do próprio coração; esse é o único que nos está bem patente. É por
isso que as melhores almaso de ordinário as mais crentes.
«Um homem a quem a desconfiança tenazmente escuda contra
todas as aparências de virtude, ainda as mais insinuantes, tem jáo
inquinado o coração como supõe o dos outros.»
*
Li ainda no estudo de Deschanel:
Chamfort conte quelque part ceci: «Mr. Th. me disait un jour
qu'en general dans la société, lorsqu'on avait fait quelque action hon-
nête et courageuse par un motif digne d'elle, c'est-à-dire três noble,
il fallait que celui qui avait fait cette action lui prétat, pour adoucir l'en-
vie, quelque motif moins honnête et plus vulgaíre.
*
Este pensamento devido a um autor desconhecido, igualmente
me causou satisfação por haver também posto na boca de Jenny na
Família Inglesa:
«O mundo é assim. Dá-se-lhe a verdadeira explicação dos factos,
raras vezes a acredita. Forja-se outra, às vezes menos natural e plausí-
vel, quase sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira é gene-
rosa e nobre e a falsa interesseira e mesquinha.»
E na de Mr. Richard:
«E julgas tu que a gratidão é facto mais natural para o mundo do
que a iniciativa no benefício? Se subtraíres da explicação o elemento
interesse, o facto será incompreensível.»
*
Quand un discours naturel peint une passion ou un effet, on trouve
dans soi même la vérité de ce qu'on entend, qu'y était sans qu'on le
sut, et on se sent porte à aimer celui qui nous le fait sentir. Car il ne
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nous fait pas montre de son bien, mais du notre et ainsi ce bienfait
nous le rend aimable; outre que cette communauté d'intélligence que
nous avons avec lui, incline nécessairement le coeur à 1'aimer.
Pascal Pensées VII du 1 article
Edit. Bibl. Nation., pág. 33.
Quand on voit le style naturel on est tout étonné et ravi; car on
s'attendait de voir un auteur et on trouve un homme; au lieu que ceux
qui ont le goút bon et qui en voyant un livre croient voir un homme,
sont surpris de trouver un auteur plus poetico quam humane locuttes est.
Idem VIII, pág. 33.
II y en a qui masquent toute la nature. II n'y a point de roi parmi
eux, mais un auguste monarque; point de Paris, mais une capitale de
royaume. II y a des endroits ou il faut appeler Paris, Paris, et d'autres
ou il faut l'appeler capitale du royaume.
Idem IX, pág. 34.
Transcrevi estes pensamentos de Pascal por me parecerem mais
segura guia literária do que os conselhos que me deram alguns críticos
em público e em particular, de ataviar mais o meu estilo nos romances
que escrevo porque o achavam demasiado desornado. Em contraposi-
ção tinha a maioria dos leitores a convencer-me de que o êxito de alguns
dos meus livros era principalmente devido a essa pobreza de ornatos
e arabescos, que me apontavam os censores. Muita vez ouvi dizerem-me
que liam com prazer os romances que eu escrevia porque os enten-
diam do princípio até ao fim. Pareceu-me entrever nos pensamentos de
Pascal mais a confirmação do pensar do vulgo do que o dos críticos.
Funchal, 27 de Outubro.
We are so fond of him because we laugh at him so.
Thackeray Engl. humourist 100.
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Acho um pensamento profundamente verdadeiro nesta frase
Thackeray.
*
Acabo de ler pela primeira vez na Histoire de Sibylle de Octávio
Feuillet o seguinte:
«En été, quand 1'aube s'est levée radieuse dans un azur ímma-
culé, les prernières heures du jour ont une pureté et un calme que l'on
croirait éternels. Cependant des brises folies se levent tout-à-coup,
inclinent les herbes et agitent le feuiilage, des roseaux blanchâtres
s'entrecroisent dans le ciei d'un horizon à 1'autre, comme des voiles
tendus soudain par de mains invisibles. On s'inquiete et l'on se dit qui
pourrait bien venir de l'orage dans la journée.»
Ora em 1866 havia eu escrito na Família Inglesa, a págs. 268:
«No Estio dos nossos climas amanhece às vezes o dia puro e for-
mosíssimo; ou é azul, resplendentes os raios do Sol; tépida e perfu-
mada a viração que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco
parece que o Sol desmaia, que desbota o azul do céu, que nos abafa
a atmosfera inflamada; acumulam-se no horizonte e espalham-se depois
por todo o firmamento nuvens de um azulado de chumbo; forma-se a
trovoada.»
O símile è aplicado por Octávio Feuillet a indicar-nos a revo-
lução que se operou na infância de Sibylle, depois dos seis anos.
No meu romance escrevi eu:
«Esta manhã de Cecília foi bem semelhante a um destes dias de
Verão.»
Com estas e outras descobertas aprende-se, à custa própria, a
o ser precipitado em atribuir propósitos de plagiário a quem ino-
centemente muitas vezes o foi. Ninguém se deve persuadir de que,
depois de tantos séculos de literatura, ainda qualquer possa ter pensa-
mentos ou conceber imagens absolutamente novos. Esta, de mais a
mais, que é já chamada por Octávio Feuillet une vieille image.
Funchal, Dezembro de 1869.
*
S'il y avait un lieu dans l'univers ou un homme put n'avoir sous
les yeux que 1'aspect des grandes scènes de la nature et 1'espectacle
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d'honnêtes gens, il serait difficile que son âme, si bouleversée qu'on
la suppose, n'y recouvrat pas un peu de paix et de confiance.
Oct. Feuillet Hist. de Sibylle, pág. 339.
O romancista convencido desta verdade, deve empregar o poder
criador da sua imaginação em realizar esse lugar bem-aventurado, onde
se possa passar mentalmente algum tempo da vida e colher parte dos
benéficos frutos queo ridente realidade prometeria. O autor das
linhas citadas assim o faz e eu conheço, por experiência, o efeito salu-
tar dos seus livros.
Pourvu que tout vienne se reunir dans un même noeud facile à
saisir, la simplicité d'une action dépend beaucoup moins du nombre
des intérêts et des personnages qu'y concourent que du jeu naturel
et clair des ressorts qui la font mouvoir. Mais, de plus, il ne faut
jamais oublier que 1'unité par Shakespeare consiste dans une idée
dominante qui, se reproduisant sous diverses formes, ramène, con-
tinue, redouble sans cesse la même impression.
Guizot Notice sur le Roi Lear.
Parece-me verdadeira esta observação do erudito tradutor de
Shakespeare. E se ela se pode admitir em relação ao drama, onde a
acção tem necessidade de se restringir, com muita mais razão vigora
no romance cujo plano é naturalmente mais vasto e permite mais expla-
nação. É por isso queo posso concordar com os que taxam de falta
de unidade o meu romance A Morgadinha. Todas as personagens e
episódios nele introduzidos estão ligados por interesses comuns e
subordinados a uma ideia principal. Essa é a unidade que eu procuro
sempre realizar.
Funchal—Janeiro de 1870.
No difuso e confuso livro de critica de Luciano Cordeiro, lê-se a
pág. 240: «O chamado romance de costumes, geralmente variante
bucólica daquela (a feição social), desfastio da literatura burguesa,
sem alcance crítico»... É uma das muitas leviandades e fraquezas
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de critério do que a si mesmo se apresenta como o reformador da
crítica.
Os romances de costumes, bem compreendidos, pintando a
maneira de viver e o pensar comum dos povos, sobre serem de irre-
sistível interesse para a actualidade e os que mais prontamente adqui-
rem oso disputados foros de popularidade,o mina preciosa para o
estudo da época fornecida aos vindouros. Se as idades passadas da
nossa literatura cultivassem o género, importante subsídio colheriam
nele os historiadores, que tanto se queixam da aridez das crónicas e
dos escritos literários desses tempos.
Estou convencido de que é mais provável que a posteridade leia
com mais interesse o romance de costumes, queo chega ao alcance
da critica do Sr. Luciano Cordeiro, do que, com seriedade, os ditames,
que uma pretensiosa e pedantesca coorte de rapazelhos, lhe está ditando,
cá do nosso século, como se gozassem do privilégio de videntes.
Funchal Março de 1870.
ÍNDICE DAS CARTAS LITERÁRIAS A PROPÓSITO DOS MEUS LIVROS
1.ª Soromenho 15- 4-67
2.ª A. Herculano 4- 5-67
3.ª —A. Soromenho 6- 5-67
4.ª Soromenho 27- 5-67
5.ª —João Bastos 26-10-67
6.ª —A. F. de Castilho 30-10-67
7.ª Soromenho 1-11-67
8.ª —A. F. de Castilho 4-11-67
9.ª Soromenho 10-11-67
10.ª —Tomás de Carvalho 14-11-67
11.ª —E. Biester 14-11-67
12.ª —A. F. de Castilho 19-11-67
13.ª Soromenho 26-11-67
14.ª—Augusto Malheiro 28-11-67
15.ª —Mendes Leal 2-12-67
16.ª Teixeira de Vasconcelos 2-12-67
17.ª Alexandre da Conceição 2-12-67
18.ª —A. F. de Castilho 4-12-67
19.ª —Silva Ferraz 8-12-67
20.ª —Tomás Ribeiro 15-12-67
21.ª —Soromenho 18-12-67
22.ª Faustino de Novais 23-12-67
23.ª —Luciano Cordeiro 28-12-67
24.ª Soromenho ?- 1-68
25.ª —Ed. A. Falcão 17- 1-68
26.ª Biester 7- 2-68
27.ª —Biester 22- 2-68
28.ª —Biester 9- 3-68
29.ª Faustino Novais 23- 3-68
INÉDITOS E ESPARSOS
Abade de Santa Maria de Pigeiros(?) 3- 4-68
Custódio José Duarte 13- 4-68
João Bastos 30- 6-68
João Bastos 13- 7-68
A. F. de Castilho 15- 7-68
Soromenho 16- 7-68
Júlio de Castilho 21- 8-68
Tomás Ribeiro 15-12-68
Júlio de Castilho.. 4- 4-69
Direct. do gab. port. de Ieit. do Maranhão 24- 5-69
Teixeira de Vasconcelos 29- 7-69
Das cartas mencionadas nesta relação existiam
na posse da família de Júlio Dinis apenas as
duas que em seguida se publicam, do poeta
portuense Faustino Xavier de Novais.
II.m° Sr.
Rio de Janeiro, 23 de Dezembro de 1867.
o sei se lhe será completamente estranho o nome que assina
carta. Nessa hipóteseo algumas palavras necessárias como
exórdio ao assunto que me move a escrever-lhe.
Sou natural do Porto, lá passei a infância e a parte melhor da
mocidade. Filho de um pobre e honrado artista tive por brasões os
calos que me deixara nas mãos o uso da ferramenta empregada no
trabalho de ourivesaria, de que vivi muitos anos. Estudei as primeiras
letras apenas. Apareceu-me tarde a paixão pela literatura e se hoje
o sou inteiramente ignorante, devo o pouquíssimo que sei à per-
severança com que me dediquei, em horas vagas, à leitura de bons
livros e à convivência que tive com literatos, e especialmente com
Camilo Castelo Branco, a quem posso chamar mestre, como lhe chamo
amigo. Publiquei dois volumes de versos satíricos e rabisquei por aí
muito papel em jornais.
Loucuras do coração me impeliram a deixar a pátria em 1858,
dirigindo-me para aqui, onde me tenho conservado sempre e onde
me esperam sete palmos de terra que o mundoo poderá negar-me.
A minha saída foi traduzida aí como ambição, ou antes cobiça.
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Eu deixei ao mundo a liberdade da tradução, escondendo as minhas
mágoas ondeo pudesse perturbá-las o sarcasmo dos moralistas de
máscara.
Tenho sido sempre infeliz, estou pobríssimo e altamente conven-
cido que assim morrerei.
Cansado de dissabores, vivo retirado do mundo, que só frequento
no exercício de um emprego que me dá a subsistência. Abandonei a
literatura, sem prejuízo para mim nem para ela e perdi de todo a
vontade de escrever. Ao terminar esta página, perguntaria V, S.\ se
tivesse a quem, com que fim o estou eu maçando com esta narração
biográfica. Eu lhe digo. Quis mostrar-lhe que sei ler, que tenho cora-
ção e que sou fanático por Camilo Castelo Branco, para lhe dar depois
os mais sinceros parabéns pelo resultado do seu trabalho literário As
Pupilas do Senhor Reitor.
Aindao vi aqui anunciado o livro à venda mas foi-me confiado
um exemplar, de cinco que vieram para o Gabinete de Leitura, e li-o
com prazer e com entusiasmo.
Sinceramente lhe digo que hâ muito tempoo encontrei um
livroo precioso como o seu.
Acresce em mim a circunstância de me serem muito conhecidos
os costumes do campo, que por várias vezes observei de perto e
detidamente quando eu achava poesia em tudo o que a tinha.
Admirei, pois, a extrema verdade das suas descrições e lem-
brei-me com saudade de colegas que conheci do Reitor, do João
Semana e do José das Dornas.
É impossível que V. S.*o seja filho do José das Dornas; mesmo
porque dizem os jornais que o autor do romance se chama Joaquim
Guilherme Gomes Coelho e é lente na Escola Médico-Cirúrgica do
Porto. Médico também era o Daniel.
Aceite, pois, os meus sinceros parabéns e creia que conto no
número das minhas mágoas a impossibilidade em que estou de dar-lhe
um abraço.
Oxalá que a vida lhe corra próspera e desassombrada e que a
sua robusta inteligência continue, com mais frutos como aquele, a enri-
quecer a nossa literatura.
o estes os mais ardentes votos de um homem que V. S."
obrigou a assinar-se
Amigo e ardente admirador
Faustino Xavier de Novais,
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Amigo Senhor Gomes Coelho.
Rio —Março 23-1868.
Satisfez-me, penhorou-me, encantou-me a sua carta de 26 de
'Fevereiro último. É o seu retrato moral. De nada mais preciso para
avaliá-lo como homem, como, pelas Pupilas, o tinha avaliado como
escritor.
Vejo que compreendeu bem a sinceridade das minhas palavras
a carta que lhe dirigi, inspirada pelo entusiasmo que me causara o
eu magnífico livro.
o sou lisonjeiro nem pretendo mostrar-me. A um literato de
grande e antiga nomeada,o haveria entusiasmo que me impelisse a
escrever naquele sentido,o havendo entres relações de amizade.
Receava que me julgasse adulador, ou charlatão, porque a um
homem notável nunca se apresenta, prestando-lhe homenagem, o obs-
curo e ignorante. Nesses casos eu mesmo julgo mal muitas vezes. Se
o conheço de perto o que se apresenta, fico em dúvida se vai ver,
ou mostrar-se. Cedi, pois, ao impulso do entusiasmo que me inspirara
o livro, porque a modéstia do autor se revelava no pseudónimo.
Os seus apontamentos biográficos é que vieram tarde. Quando
lhe escrevi perguntei daqui a meu irmão Miguel Novais se o conhecia
e pedi-lhe informações a seu respeito. Deu-mas imediatamente recor-
dando-me também a antiga actriz do Teatro de Camões, de que me
lembro perfeitamente. As suas feições de então desenhava-as eu ainda
agora, se fosse conhecedor da arte. As de hoje, porém, devem ser
outras, que eu queria ver copiadas pela fotografia.
Se eu lhe merecesse essa prova de estima!
Estou ansioso por ver mais trabalhos literários seus. Os corres-
pondentes do Porto para os jornais daqui anunciaram a próxima publi-
cação de outro seu romance, já publicado em folhetins, intitulado
Uma Família de Ingleses no Porto.—É verdade que vai aparecer?
Desejo-o ardentemente.
Louvo sinceramente a resolução em que está deo adoptar a
literatura como profissão, que oo pode ser em Portugal, e menos,
muito menos, aqui.
Aceite um conselho que lhe oferece a amizade, auxiliada pela
experiência. Conserve sempre essas ideias. Tome como extraordiná-
rio o lucro que lhe advenha da literatura e nunca o espere para ocor-
rer às necessidades da vida. A inspiração desaparece no momento em
que a atenção do escritor começa a fixar-se no interesse que lhe dará
INÉDITOS E ESPARSOS
a sua obra, calculando antecipadamente a aplicação que há-de dar ao
produto.
Chegada essa ocasião, o escritoro escreve trabalha. E esse
trabalho é de todos o mais mal remunerado.
Estimei saber que convive ainda com o Augusto Luso e com o
Custódio Passos, duas recordações vivas de dois amigos mortos.
Ainda bem que em ambos sobra o merecimento próprio, diante
do que se modifica a saudade.
Abrace-os em meu nome, assim como ao Nogueira Lima, António
Correia e mais amigos que se lembrarem de mim. Eu recordo-me de
todos eles.
Se quiser escrever-me algumas vezes, creia que o prazer de ler
as suas cartas me distrairá do desalento em que vivo, sem esperança
em coisa alguma e, com mágoa o digo, quase sem as crenças que
outrora me tornavam feliz.
Agradecendo-lhe as suas benévolas expressões termino pedindo-
-lhe que no número dos seus afeiçoados conte afoitamente o seu
Amigo e admirador
F. X. de Novais.
IDEIAS QUE ME OCORREM
Extracto de um livro manuscrito.
ENHO ouvido dizer que à índole do romance repugna a lentidão
no suceder das cenas e episódios; que num género de litera-
tura, como é aquele, o leitor quer depressa chegar ao desen-
ace e impacienta-se quando o autor entra em profusas descrições, em
análises de caracteres, ou em divagações metafísicas.
Já me apontaram isto em processo de crítica feita a um dos
meus livros.
Examinei com cuidado os argumentos que se apresentaram e, na
melhor boa, pensei nisto alguns dias. Acabei por convencer-me de
queo tinham razão os censores.
Se foi bem tirada a conclusão,o sei; mas que a adoptei com
sincera convicção, posso afirmá-lo.
Ainda que suspeito, devo, primeiro que tudo, declarar queo
sei bem por que se há-de julgar o romance uma forma literária menos
grave e perfeita que as outras quando ela pode conter em si, em boa
e fecunda harmonia, as qualidades de todas.
Este descrédito do romance, que seguindo, com mais ou menos
fidelidade os modelos de Walter Scott, é a forma literária verdadeira-
mente característica dos nossos tempos, provém dos abusos dos roman-
cistas que, possuídos por uma falsa ideia, julgaram ser a imaginação
a única base do romance.
Pensaram e pensam estes que o romance é o enredo e esta ideia
generalizou-se e radicou-se a tal ponto que muitos críticos, aliás ilus-
trados, fizeram e fazem, talvez irreflectidamente, artigos de legislação
literária inspirados por ela.
Parece-me que a opinião que me suscitou estas reflexões está
nesse caso. O romance é o enredo? tudo o maiso condições secun-
dárias, elementos indispensáveis para que a acção principie, para que
INÉDITOS E ESPARSOS
o nó se aperte e enfim para que o desenlace termine a obra ? Por isso
se clama contra o romancista se a acçãoo caminha durante dois,
três ou mais capítulos; por isso se diz, em ar de censura, ao autor,
como se a descoberta o devesse desgostar: —já sei o fim do romance;
F. casa com L... M. perdoa ao filho, etc, etc.
Porque é que está em deplorável e espantosa decadência o
romance de imaginação?
Porque se tem derrancado o género até às indigestas e escan-
dalosas produções de Ponson du Terrail?
Exactamente poro pretenderem prender o leitor senão pela
sucessão rápida das peripécias e dos lances imprevistos.
Nem uma análise de caracteres, nem um curto olhar lançado ao
íntimo do coração humano a devassar o que lá é de costume encon-
trar-se eo nenhuma dessas monstruosidades, que poderiam ter exis-
tido num ou noutro coração, mas por excepção, e que o leitoro tem
decerto no seu.
o caluniem o público dizendo que é só desse alimento que ele
digere.o é assim.s sois que o alimentais há muito nesse vicioso
regímen, que, sem dar sólida nutrição, estraga o paladar, cuja sensibi-
lidade embotada exige estímulos cada vez mais acres e irritantes.
Há uma lei do gosto literário em que eu acredito firmemente.
O excepcional, o extravagante, o desregradoo é o que desperta
nos leitores ou nos espectadores o mais verdadeiro, o mais dura-
douro interesse; pelo contrário, é o comum, o vulgar na justa acep-
ção do termo.
Quando encontramos em um livro pensamentos que já tivemos um
dia, sentimos agradável surpresa, como ao darmos em um lugar, ines-
peradamente, com uma pessoa conhecida; quando no carácter, no cora-
ção de uma personagem literária há alguma coisa que é nossa, quando
nos reconhecemos em parte personificados numa criação, redobra o
interesse com que o acompanhamos nas peripécias do drama.
É por isso que eu gosto dos romances lentos, em que o autor
nos identifica bem com as personagens entre quem se passa a acção,
antes de a travar.
Depois desta iniciação, creiam-no ou experimentem-no, excita-
-nos mais interesse um simplíssimo drama que se passe entre esses
indivíduos, do que uma violenta e ultradramática tragédia em que
tomam parte personagens que o autor apenas nos faz conhecer pelos
nomes.
Querem um exemplo a corroborar a minha opinião, queo é
só minha?
Muita vez haveis de ter ouvido contar um caso notável, acompa-
nhado das mais curiosíssimas circunstâncias, um grande e horroroso
crime, por exemplo, acontecido entre pessoas que voso desconhe-
cidas. O caso é de si bastante para vos espantar, independentemente
das personagens e, efectivamente, por um momento pasmais do que
ouvis. Mas a impressão embota-se, extingue-se e cedo pensais em outra
coisa, porque ignorando o carácter das pessoas a quem mais direc-
tamente o caso afecta,o podeis prever a natureza das paixões (?)
que elas suscitaram.o as conheceis (?) antes para poder calcular
o reflexo psicológico desse facto.
Contem-vos, porém, um acontecimento muito mais simples, um
destes casos comuns na história de todas as famílias, mas que se refere
a pessoas de cujo carácter, de cujo viver, de cujos hábitos estais bem
ao facto e a notícia vos impressionará muito mais do que a outra e cor-
rereis de memória, uma por uma, aquelas pessoas, calculando e pre-
vendo pelo conhecimento que tendes delas o estado em que esse acon-
tecimento as conservará.
Isto reproduz-se no sucesso literário de um livro de romance.
As complicadas peripécias de uma história à Ponson du Terrail ator-
doam-vos, como a descrição de um crime horroroso cometido a dis-
tância da vossa terra; mas deixai passar oito dias sobre essa leitura
eo vos ficará dela memória porque nunca chegastes a conhecer e
fixar, a estimar portanto, as pessoas entre quem ele se travou.
Pelo contrário, dos simples episódios de um romance como o
Vigário de Waksfield e tantos outros da escola genuinamente inglesa,
fica-vos uma como memória saudosa, porque aquelas figuras que vistes
em acção, que sofreram e choraram, eram já de há muito conhecidas
vossas e tínheis tido tempo durante a acção lenta da história para lhes
conhecer bem o carácter antes de as ver sofrer.
Mas os episódios indiferentes, queo conduzem ao enredo?
Para que roubar tempo com eles?
Para aumentar o efeito das cenas principais. Insensivelmente,
sofreis a influêndia deles.
Ainda outro exemplo, tirado da vida real: Suponde que tendes
um vizinho a quem, por involuntária e distraída observação, tendes
descoberto certos hábitos. Vede-lo sair a certas horas, falar de certa
maneira, parar em certas lojas, etc, etc.o factos indiferentes em que
maquinalmente atentais.
Uma manhã dizem-vos que este homem teve o prémio grande
da lotaria, por exemplo, ou outro facto análogo. E todos os pormenores
do viver desse homem vos acodem à memória e a todos ligais valor,
ao referi-los aos vossos amigos, e destas particularidades indiferentes
resulta mais interesse para o episódio principal.
; É por estas e análogas reflexões que euo posso concordar
com os críticos a que me referi. *
1
Assinalamos com um sina! interrogativo as palavras queo temos a certeza
de haver fielmente decifrado.
O autor nos seus livros manuscritos escrevia com muita rapidez e usava numerosas
e curtas abreviaturas de difícil decifração.
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
Conseguir com meios naturais e conhecidos um resultado daque-
les ; comover e excitar o interesse sem recorrer ao extravagante nem
sair da órbita do verosímil; pintar com cores próprias um quadro da
vida e como perfeita perspectiva que a ilusão seja completa,o
requer isto mais imaginação,o exige mais esforço de inteligência
do que a concepção desses romances desregrados em que todas as
lembranças se aproveitam sem as sujeitar ao critério da lógica literá-
ria, em que o autor tem sempre um subterfúgio ào para se desem-
baraçar das veredas sem salda onde a sua inteligência imprudente o
conduziu ?
Parece poder servir-me de um símile para confirmar a minha
ideia. Nos espectáculos de prestidigitação tendes visto alguns artistas
trabalharem rodeados de uma multidão de acessórios complicadís-
simos? mesas com fundos falsos, caixas de todos os tamanhos, maqui-
nismo igualmente misterioso, armas de fogo de construção particular,
etc, etc?
Conquantoo saibais trabalhar com esses aparelhos de magia
branca, desde logo acreditais queo eles os principais elementos
do espectáculo eo admirais demasiadamente a prestidigitação do
artista.
Vedes, porém, outros apresentarem-se diante de vós, sem apa-
rato, com fato simples, mãos nuas, uma mesa sem falso, etc, etc, e
surpreender-vos aliás, tanto como o outro, com sortes maravilhosas.
A este aplaudis com mais entusiasmo e vontade porque aplaudis
um verdadeiro artista. Admirais o resultado de estudos e esforços de
longo tempo para, como simples meios, vos maravilhar assim.
Dizei agora seo vos moverá também o mesmo sentimento a
aplaudir mais o escritor consciencioso que vos comove com os recur-
sos naturais que lhe fornece a observação do homem, do que o peloti-
queiro literário que recorre para vos prender e maravilhar a todas
as extravagâncias possíveis?
Funchal, Novembro de 1869.
*
Muitos autores de romances e dramas julgam que os amantes
em literatura escusam de ter carácter próprio. A heroína é uma rapa-
riga que ama, o herói é um rapaz que a ama a ela. A linguagem de
um e de outro é sempre mais ou menos casta e liricamente erótica.
Encontram-se, falam de amor; separam-se, falam um do outro eo
m ocasião de revelar ao leitor mais nenhuma qualidade do seu carác-
ter, senão a de estarem apaixonados.
Resulta daqui que em vez de serem criaturas humanas, vivas,
dominadas por uma paixão, que combinada com o seu carácter indi-
INÉDITOS E ESPARSOS
vidual as leva a actuarem de determinada maneira,o simples perso-
nificações do amor, frias e incapazes de comover, como alegoria, como
personagens abstractas daqueles poemas em que falam as virtudes e
os vícios personificados.
O leitoro pode fixar uma feição característica desse par, cujos
infortúnios, tribulações e felicidade ou infelicidade final, compõem a
narração e, por isso, dias depois da leitura, evaporaram-se essas ima-
gens, como a de uma prova fotográficao fixada e confundem-se no
vago em que já se haviam perdido as feições de outros muitos ternos
casais, cuja sorte já anteriormente o tinha igualmente comovido.
Desenganem-se... Para que o romance ou o drama produzam pro-
fundo e duradouro interesse, é indispensável desenhar bem as feições
características das personagens e dar-lhes um colorido de carnação
que simule a vida. Ao ser assim, a alma assiste indiferente à leitura
ou à representação.
Funchal, Novembro de 1869.
*
Nos meus romanceso há indivíduos caracterizadamente maus.
o tenho pintado crimes; quando muito, vícios. Alguém há que me
tem feito o favor de me louvar essa falta como virtude, como se andasse
nisso propósito literário. Verdadeiramenteo.
o penso que o estudo moral de uma alma criminosa ou per-
versao seja digno da arte. O que me custa a admitir, ao ser como
excepção rara,o os tiranos sem lógica, sem motivo, que amam o
mal por instinto e sem que à prática dele sejam levados por o impulso
de uma paixão.
A razão por que fogem do campo da minha imaginação aqueles
tipos é outra. Tanto eu me deleito em conceber um carácter com que
simpatize, em o encarar por todas as suas faces para asr em evi-
dência aos olhos do leitor, em vê-lo em acção e em harmonizar o diá-
logo com esse carácter, quanto me repugna e enfastia o demorar o
pensamento em um tipo antipático, em um carácter revoltante, em
uma destas criaturas em cuja contemplação a alma se enoja ou se
indigna.
O artista deve vencer essa repugnância, se a arte o exigir. Eu,
porém, que procuro na cultura das letras distracção eo a tomo por
ofício, quero condescender com os meus prazeres, sem que deixe por
isso de admirar as concepções magníficas dos romancistas que sabem
pintar o mal e a perversidade, sempre que o fazem, por assim dizer,
logicamente.
Funchal, Novembro de 1869.
INÉDITOS E ESPARSOS
Lendo um rápido estudo biográfico de Thackeray sobre os escri-
tores humoristas ingleses do século XVIIIe as notas que o acompa-
nham, algumas das quais constam de cartas dos próprios escritores,
lembrei-me da miséria da vida literária do nosso país, onde a pre-
ciosa correspondência dos nossos homens de letras raras vezes se
salva para a posteridade.
Quem, por exemplo, que se tenha lembrado de coligir as
cartas particulares de Garrett, que por tantos motivos deviam ser um
elemento poderoso para a apreciação daquele vulto literário e para a
da história da literatura moderna em Portugal, de que ele foi o prin-
cipal instituidor?
Devíamos aprender com os estrangeiros a dar o devido valor a
estas origens preciosas de informação para a crítica e para a história.
Funchal, 3 de Janeiro de 1869.
*
Acabo de ler o romance de Octávio Feuillet Histoire de Sibylle,
A morte da heroína no desenlaceo me parece muito justificada
pelas regras naturais da arte. O problema principal do romance estava
resolvido da maneira que o autor julgou plausível resolvê-lo. O cepti-
cismo religioso de Raul era o obstáculo único para a felicidade dos
dois amantes. Esperava-se que a influência poderosa de Sibylle, já
provada com o doido Feray, com o reitor Renaud, com os duques de
Vargnes e com a duquesa Clotilde, se exercesse também sobre Raul,
cujo ânimo mais do que os outros, devia sujeitar-se à catecjuese
daquela mulher que ele idolatrava. Restava saber as circunstâncias
que deviam cooperar para a conversão, que conspiração de influên-
cias poderia incutir naturalmente a fé em uma alma generosa, leal,
incapaz de hipocrisia e de simular, por interesse, uma unção reli-
giosa queo sentisse. Que bálsamo havia de curar aquele cancro da
dúvida num coração que lamentava sinceramente a perda das passa-
das crenças?
Conseguiu-se tudo isso. Após uma crise violenta em que a des-
crença do homem da sociedade parecia mais radicada, o simples
espectáculo da mulher que ele amava, desfalecida pela comoção, numa
pobre choupana, à borda do mar, ao calor de uma fogueira, bastou
para fazer penetrar a luz da fé naquele coração assombrado pela
dúvida e para prostrar de joelhos em oração sentida, esse homem
queo cria em Deus. Bem ou mal, o problema estava pois resolvido.
INÉDITOS E ESPARSOS
Inesperadamente, porém, surge mais uma entidade no romance; apa-
rece uma febre perniciosa que em duas páginas sacrifica a heroína e
dissipa as esperanças de felicidade que finalmente parecia sorrirem
aos simpáticos amantes.
Revolta-me a brutalidade desta febre paludosa.
Que papel literário representa ela aqui? Por acaso a morte de
Sibylle era necessária para a conversão de Raul? Não; e tanto que,
só depois de se haver bem verificado essa conversão, é que Sibylle
pediu ao reitor que lhe abençoasse a união, e que o reitor se resolveu
a fazê-lo.
Completaria ela o carácter da heroína, como uma consequên-
cia necessária da sua exaltação mórbida, da sua esquisita sensibili-
dade?
Mas trata-se de uma infecção palustre, da prosaica realidade
de uma perniciosa, que nada tem que ver com os caracteres dos
doentes.
Consolidar-se-iam mais firmemente as crenças do convertido com
a morte daquela, cuja influência lhe abrira o coração ao raiar da?
É duvidosa a hipótese e no mesmo romance há um exemplo de
que nem sempre os golpes da adversidade fortalecem o ânimo para
a; antes às vezes fazem descrer da justiça divina e da existência de
um Deus que premeia os bons. Este exemplo é o do doido Feray. As
crenças, ainda tíbias de Raul,o se fortaleceriam mais na vida de
paz e ventura, que o futuro lhe prometia, do que com aquele doloroso
transe, com aquele inesperado fugir da felicidade, no momento em
que julgava possuí-la?
o é o mero desgosto de ver acabar mal o romance o que me
leva a estas reflexões. Eu concebo os fins trágicos, que concorrem
para o desenvolvimento da ideia primordial da obra literária, quando
o a consequência lógica das situações dramáticas imaginadas ou o
complemento do desenho de um carácter. Comove-me o lutuoso fim
dos amores de Lucy Ashton, de Paulo e Virgínia, de Eurico e Hermen-
garda e de Madalena de Vilhena.
Suprimi o fim trágico destas e análogas concepções literárias e
alterar-lhes-eis completamente a índole e falsear-lhes-eis a significa-
ção artística.
Na história de Sibylle, porém,o se dá o mesmo caso.
A febre perniciosa é um acidente brutal que nada significa, que
o em razão de ser, debaixo do ponto de vista da arte, que aflige
sem comover. É uma simples impertinência do autor.
Na vida real há disso; mas estes tristes acidentes da vida, quando
entram no campo literário, precisam representar aí algum papel; de
outra formaoo mais do que uma desagradável e cruel inuti-
lidade.
Funchal, 4 de Dezembro de 1869.
INÉDITOS E ESPARSOS
*
A ausência prolongada, digam o que quiserem, é prejudicial
as mais estreitas amizades. A conveniência habitual, pelo contrário
fomenta-as.
Separaram-se dois amigos íntimos. Ao principio escrevem-se todos
os dias e enchem folhas e folhas de papel com mútuas expansões; pouco
a pouco, as cartas resumem-se e rareiam, e mais tarde deixam de
escrever quandoom necessidade que a isso os impila. Nenhum
quererá admitir que a amizade sofreu a menor quebra da sua parte,
«Que excelente rapaz aquele, dirá um do outro; palavra de honra que
é dos poucos amigos que tenho... Esta minha preguiça em escrever.
Há tanto tempo que lheo dou notícias minhas nem dele as tenho».
Ora, na minha opinião, muito enfraquecida está já a amizade que
nem tem força para dissipar a preguiça de escrever. É da experiência
de todos o prazer que se encontra em escrever a qualquer pessoa,
quando deveras a trazemos no coração.
Funchal, Janeiro 1870.
*
* *
Quando escrevo, é para mim estimulo o completo segredo. Se por
acaso durante o trabalho sou traído por alguma indiscrição, sinto-mo
esfriar e durante dias repugna-me o assunto, que até então me atraia.
o compreendo como, pelo contrário, muitos autores gostam de
fazer constar queo encetar uma obra e estimam até que o público
seja informado, passo a passo, do progresso do seu trabalho.
Todos os dias leio nas gazetas de notícias uma ou outra dessas
revelações literárias, atrás das quais andam os noticiaristas. «Consta-
-nos que o Sr. F. vai escrever um drama que tem por título «As misé-
rias dos ricos». O Sr. C. concluiu já o primeiro acto de um drama, que
nos dizem ser magnifico. O Sr. B. leu ontem a alguns amigos as pri-
meiras cenas do seu drama e viu coroada pelos aplausos deles a sua
magnífica concepção», etc, etc.
Estas e análogas participações, que parece alentarem muitos, a
mim dissipariam aquele misterioso prestigio que tem o trabalho discreto.
Já experimentei este efeito de indiscrição alheia. Escrevia «A Mor-
gadinha dos Canaviais» e entregava-me com ardor ao trabalho. Um
dia o correspondente portuense do «Jornal do Comércio», de Lisboa,
noticiou ao público que eu andava escrevendo um novo romance assim
intitulado.
Causou-me uma desagradável surpresa a revelação e por muitos
diaso me apeteceu trabalhar.
INÉDITOS E ESPARSOS
A razão principal deste efeito em mim, está em me serem insu-
portáveis todas as espécies de peias neste género de trabalho.
Quero absoluta liberdade para alterar, modificar, inverter e até
abandonar um assunto desde que me desagrada. E esta liberdade é
sempre tanto mais restrita, quanto mais informado está o público da
natureza e do progresso da obra.
A cada momento inquirirão sobre o provável termo do livro em
que se trabalha. Se, condescendendo com uma dessas passageiras
indisposições para escrever, que atacam mais ou menos todos os
homens de letras, se interromper a obra, terá de sofrer-se a imperti-
nência dos queo compreendem que a composição literáriao é
tarefa de empreitada para a qualo se precise consultar a aptidão.
Se é conhecido um capítulo do romance, antes de completo este,
á quase é vedado ao autor alterá-lo, ainda quando assim o exija um
melhor plano que lhe ocorra ou mais perfeita harmonia do todo alte-
rada em ulteriores capítulos.
Enquanto o manuscrito é só conhecido do autor, este decide desa-
--ontado os incidentes que durante a composição sobrevêm, guia-se
pela ideia literária que concebeu, e mutila, suprime ou acrescenta
conforme convém ao completo desenvolvimento dessa ideia.
Se mais alguém foi admitido à confidência do segredo literário,
vem uma consideração a mais perturbar a livre acçãoo necessária
ao autor: «Assim ficava melhor, pensa ele muita vez, mas F. gostou
tanto deste capítulo que havia de estranhar que eu o modificasse ou
suprimisse». E o capítulo fica em atenção ao tal F.
Quantos defeitos descobre muitas vezes a crítica queo tive-
ram outra razão de existir?
Depois, o prestígio de uma obra literária perde sempre com a
assistência do leitor às minúcias da composição. Ler hoje uma cena
de paixão violenta, amanhã, ao repetir a leitura, encontrar a mesma
cena conduzida por outra forma, dissipa a ilusão, deixa ver muito a
arte, que só deve mostrar a sua obra depois de removidos da oficina
os instrumentos e mais aprestos com que trabalha.
Guarde-se, pois, muito escrupulosamente o autor de devassar
os segredos da sua elaboração literária e só apareça ao público para
lhe apresentar completa a nova criação. Siga o exemplo que lhe dá a
natureza, queo avara se mostra dos mistérios da formação dos seres,
para a celebração dos quais como que, mais do que para outros, se
recata e concentra.
Funchal, Janeiro 1870.
A publicação de um livro, por muita glória e proveito que traga
ao autor, é sempre uma espécie de profanação desses filhos queridos
INÉDITOS E ESPARSOS
da fantasia, que ele velava e acalentava com um verdadeiro amor
de pai.
Há uma espécie de antagonismo nos sentimentos de alma com
que o autor vê sair do recato do seu gabinete para o mundo da publi-
cidade o manuscrito a que dedicou longas horas de meditação e de
vigília. Por um lado experimenta-se a satisfação que acompanha
sempre a realização de qualquer projecto.
Para o público foi escrito o livro; o dia em que ao público se
entrega é pois um dia de vitória. Porém, ao mesmo tempo uma certa
melancolia, uma quase saudade nos punge nesse momento solene.
Toda aquela gente que vivia só para nós, vai ser o alvo da observação
de milhares de pessoas. O mundo onde só os nossos olhares penetra-
vam, vai ser devassado por olhares curiosos; cessa de alguma maneira
o império absoluto da nossa vontade no destino daquelas criaturas.
Daí em diante jáoo exclusivamente nossas. Emancipam-se.
Eu, pelo menos, que nunca me enfado de reler o manuscrito em
que trabalho, só com esforço consigo levar ao fim um capítulo de
romance meu, depois de publicado e conhecido. Sinto queo tenho
tanto amor àquela gente, como tinha antes de a introduzir no mundo;
que é menos minha do que era.
O autor está no caso de um pai que educa esmeradamente uma
filha estremecida para fazer dela um dia uma esposa ee digna
destes sagrados nomes. Anseia pelo momento de a entregar a um
marido que a estime e faça feliz. Chega, enfim, esse dia, realiza-se
sob os melhores auspícios o desejado casamento e o pai, sem dei-
xar de agradecer a Deus a realização de seus desejos, sente o
coração oprimido todo o dia. E, ao entregar nos braços do esposo
a virgem que para ele com tanto amor educou, parece-lhe quase
praticar uma profanação. Fica menos sua aquela filha que lhe era a
melhor parte da vida e desvanece-se aquele casto perfume virginal
que o enlevava.
Desde esse dia o seu amor por elao pode deixar de sofrer
uma leve diminuição porqueo e o único a amá-la e a enlevar-se nos
seus encantos.
Funchal, Janeiro de 1870.
Há livros queo monumentos e livros queo instrumentos.
Os primeiros levantam-se a perpetuar a memória de uma literatura,
ainda mesmo que se extinga a nacionalidade a que pertencia. Pri-
morosamente trabalhados, constituídos por os materiais mais duráveis,
é antes para o futuro que eles se erigem do que para os contem-
porâneos, cuja maioria nem sempre os compreende.
INÉDITOS E ESPARSOS
Os livros instrumentos são, pelo contrário, para andarem nas
mãos de todos, para o uso quotidiano, para educarem, civilizarem e
doutrinarem as massas.
Daí, dessa diversidade de destinos, vem a diversidade de exi-
gências a que uns e outros devem satisfazer.
O livro instrumento precisa ser popular, escrito na linguagem do
dia, ao alcance das inteligências da época, de fácil trato em suma. Os
extremos de lavor, que ornam o monumento, podem ser prejudiciais
ao instrumento que, menos ambicioso, deve contentar-se com mais
modesta execução.
À crítica compete ter isto em vista para que lheo suceda ins-
taurar processo a um livro que se destina a instrumento, como se na
mente do autor estivesse a ideia de levantar com ele um monumento
à posteridade.
Grande e bom serviço prestam já os autores que conseguem
escrever livros para o seu tempo, de cuja leitura possa resultar algum
bem para quem os.
Direi até que esta turba mais obscura de autoreso é menos
útil à sociedade do que os raros génios que a alumiam de quando em
quando e que, se o progresso da humanidade estivesse só confiado
a estes excepcionais luminares, nem sempre compreendidos por os
seus contemporâneos, decertoo estaria ainda no grau que já atin-
giu. Se os arquitectos levantassem somente pirâmides e monumentos
e desprezassem a construção de casas e outras edificações mais modes-
tas, a civilizaçãoo lhes seria devedora de tantos benefícios. Um povo
pode viver sem monumentos; maso sem as construções que as
primeiras necessidades da natureza exigem.
O símile é de fácil e óbvia aplicação.
Funchal, Fevereiro de 1870.
Há uma idade em que a mulher gosta mais de ser namorada do
que amada. Entre um amor recatado e reverente e um galanteio indis-
creto e ostensivo,o hesita; prefere o segundo. O que lhe enche o
coraçãoo é o amor; é a vaidade. Lisonjeia-a o culto que recebe
e quer que as outras mulheres a vejam triunfante. O mais puro e dedi-
cado amor que lhe tributassemo a satisfaria, se fosse ignorado pelo
Quando um homem de afeições sinceras e profundas se apai-
xona por uma destas mulheres, pode ter a certeza de que principia
para ele uma dolorosa provação.
Funchal, Março de 1870.
ESCRITOS INCOMPLETOS
Uma parte do drama Bolo Quente, escrito aos
17 anos de idade. Acção passada no Minho.
ACTO II
CENA I
Francisco, criado, pondo a mesa para uma ceia que o filho da fidalga
oferece em sua casa aos primos de Lisboa, seus hóspedes.
João, primo de Francisco.
JOÃO
Então como é isto? Eleso ceiam senão fruta?
FRANCISCO
Não, homem. A fruta põe-se na mesa, com flores e com os vinhos,
e o mais é servido por fora.
JOÃO
Por fora? Então eles ceiam fora de casa em depois comer a
fruta aqui?
FRANCISCO
Ora adeus! Tu és tolo? Ceiam aqui; mas os pratos trazem-se à
volta da mesa para cada um se servir do que quiser.
JOÃO
Ah! agora entendo. Mas que moda! Antes me quero com a moda
da aldeia, porque a gente, tendo a comida defronte de uma pessoa,
sabe logo o que vai comer.
INÉDITOS E ESPARSOS
FRANCISCO
Tudo vai do costume... Os fidalgosm outra criação. Estão afei-
tos a coisas que a gente só conhece nas cidades... E, é verdade, como
vai o negócio do teu casamento ? Dá-me cá essa garrafa. A coisa faz-se
ouo se faz ?
JOÃO
Nem eu sei, Francisco, nem eu sei. Vontade tenho eu e mais a
namorada. O pai tambémo vai longe disso: mas... falta o principal.
FRANCISCO
Aquilo com que se compram os melões? Chega para cá essas
cadeiras,
JOÃO
Tal e qual.
FRANCISCO
Tuo tens nada, e ela nada tem, e a genteo vive do ar.
JOÃO
Pois é assim, é, Mas eu estouo farto de esperar pela sorte,
que nunca me favorece, que às vezes cuido que, depois de casado
ela me virá, e por isso acho que...
FRANCISCO
Ora adeus;o faças tolices. O orvalhoo mata a sede, nem
tiram a fome as raízes do monte. Vê lá se vais dar por aí alguma cabe-
çada. Toma conta!
JOÃO
o tenhas medo.o que, ainda que eu quisesse dá-la, tanto
juizo tem a minha rapariga queo deixava. E depois o tio Marcos é
quem manda, e ele já me disse que enquanto euo ganhar para sus-
tentar minha mulher,o quer ouvir falar em tal casamento.
FRANCISCO
E tuo tens feito diligências para arranjar emprego?
JOÃO
Ora se tenho ! Mas tanto faz. Ninguém me quer,
INÉDITOS E ESPARSOS
FRANCISCO
JOÃO
É poro estar arrumado.
FRANCISCO
Ora essa! Explica-me isso.
JOÃO
Pois é como te digo. Quando um homem tem um emprego menos
mau, há quem lhe ofereça outro melhor porque, diz lá consigo: O patrão
que o tem em casa é porque ele é bom. Convém-me ainda que lhe
pague mais alguma coisa, porque isto de meter vadios em casa é arris-
cado...'Vês tu? De maneira que um homemo arranja emprego exac-
tamente porque precisa dele.
FRANCISCO
A modo que tens razão. Hei-de falar à fidalga e tu também lhe
podes pedir. Olha ela aí vem.o fujas! Deixa-te ficar que elao
repara nisso. É uma santa senhora. Se ela te falar, tens de a tratar por
excelência.
CENA II
Os mesmos e D. Joana
D. JOANA
Olhe la, Francisco,o ponha na mesa vinhos muito fortes nem
comidas indigestas. De noite é preciso toda a cautela.o me agra-
dam nada estas ceias. É isto que estraga por aí tantos rapazes que, aos
vinte anos, já andam cheios de achaques, como se fossem velhos...
Quem é este rapaz?
FRANCISCO
É meu primo, minha senhora.
D. JOANA
Ah sim; já me falou nele... Chama-se... João.
Porquê?
INÉDITOS E ESPARSOS
JOÃO
João do Choupelo, minha senhora, para a servir.
D. JOANA
É isso mesmo, que está para casar...
FRANCISCO
Com a filha do mestre-escola, o mestre Marcos. É este mesmo.
D. JOANA
E então porqueo casaram ainda? A sua noiva é uma bonita
rapariga e um belo coração. O pai é um santo e honrado velho a
quem minha família muito deve. Em tempos aflitivos foi ele que nos
valeu. É verdade. Das suas mãos caridosas recebemos, eu e os
meus, a esmola doo e do abrigo. Vai muito bem, João; melhor
noivao encontra, por mais que procure.
JOÃO
Diz bem, minha senhora. Por essa estou eu.
D. JOANA
Pois olhe, eu tenho deveres a cumprir para com essa família e
muito desejo cumpri-los. Avise-me com antecedência, e, se quiserem,
já me ofereço para madrinha. Quando será, pouco mais ou menos?
JOÃO
Ó minha senhora, muito obrigado poro grande favor... Eu sei
la quando nos casaremos?
FRANCISCO (a meia voz)
Sabes que mais? Conta-lhe tudo que talvez seja bom.
D. JOANA
O que diz, Francisco?
FRANCISCO
Euo sei se devo servir a maionese de lagosta que é um
dos pratos da ceia.
INÉDITOS E ESPARSOS
D. JOANA
Ai não, não. Credo! É tudo quanto há de mais indigesto à noite.
Nem lhe fale nela, ouviu? Mas então o que é que estorva o seu casa-
mento, João?
Assim como assim, visto vossa... vossa...
FRANCISCO
Excelência.
Visto que vossa excelência tanto se interessa por nós, com
sua licença, vou contar-lhe tudo, toda a verdade, com o coração
nas mãos.
D. JOANA
Isso mesmo é o que eu quero. Fale à vontade.
Pois, minha senhora, como o outro que diz, eu sou um pobre
rapaz e mais nada. Sabe a senhora?
D. JOANA
Pobre, honrado...
La issoo é para me gabar...
D. JOANA
E trabalhador...
Isso é que não.
D. JOANA
Como não?
Para ser trabalhador, faz míngua trabalhar, para trabalhar é pre-
ciso que haja em que e para haver em què e necessário que alguém
no-lo queira dar, percebe vossa...
FRANCISCO
Excelência.
INÉDITOS E ESPARSOS
JOÃO
Vossa excelência?
D. JOANA
Pobre rapaz! Está então desarrumado?
JOÃO
Estou, sim, minha senhora.
D. JOANA
E é por isso queo casa? Mas parece impossível! Poiso
há por aí tantos modos de vida?
JOÃO
Isto em mim é a minha sina. O que quer a senhora?
D. JOANA
Ah! não, não...o diga isso, João. Neste mundoo há sinas
nem para o bem nem para o mal. Dores todos as sentem, lágrimas
todos as choram, e risos... vamos, tambémo há almao atribulada
queo tenha conhecido o prazer que dá uma alegria verdadeira
JOÃO
Pois quer vossa... vossa excelência ouvir? Depois me dirá se isto
é sina ouo é sina.s éramos três os filhos de minha santa mãe,
que Deus tenha;o é verdade, Francisco?
FRANCISCO
Sim, a tia Quitéria, tua mãe, teve três filhos.
JOÃO
Eu era o mais novo. Meu pai, Deus lhe perdoe, era pedreiro;
meus irmãos, um era aprendiz do mesmo ofício, o outro quis embar-
car. Vai eu, tinha dez anos e aí cai meu pai dumas obras abaixo e
morreu no hospital; o nosso José teve a febre no Brasil e lá se foi
também, e o nosso Manuel, que ia principiando a endireitar a vida,
deram-lhe na cidade as bexigas e morreu queimadinho, que nem eu
quero que me lembre. E aí fiquei eu com a minha pobree que se
matava a chorar. Bom. Vai eu, quis ir para a cidade aprender um ofício
INÉDITOS E ESPARSOS
Mas corno havia de ser se a minha santa criatura me ficou cega de
repente ? Havia de deixá-la ? Coitadinha! Aqui na terra há gente cari-
dosa queo nos deixava morrer de fome. Na cozinha do lavrador
ha sempre, como a senhora sabe, sobras deo e de caldo para os
que oso têm.
Andava eu pois com ela de porta em porta, meio envergonhado
quando via passar os rapazes da minha idade com a saca dos livros
da aula ou com a ferramenta do ofício; mas que havia eu de fazer?
Chamavam-me o rapaz da cega ou o João da cega.
Era um desprezado que nem companheiros tinha para brincar!
Um dia, depois de muito sofrer, levou-me Deus para si aquela
desgraçadinha que sempre me teve a seu lado até ao último suspiro.
3om, agora que estás só no mundo trata da vida, João, dizia eu para
mim. Mas quem me queria? Roto e pedinte, achavam-me taludo para
aprendiz e estragado na vadiagem, Eu bem lhes dizia que nada mais
tinha feito que o meu dever servindo de bordão a uma pobre cega,
que me tinha só a mim, e que istoo era coisa ruim nem crime. Mata-
vam-me a fome mas ninguém me queria! Até que um bom homem,
velho carpinteiro, teve compaixão de mim e aceitou-me. Principiei
então a trabalhar e a andar mais contente. Cuidei até que estava feliz
para o resto da vida.
Foi por esse tempo que eu vi a filha do mestre Marcos e logo
fiquei doido por ela. Até com ela sonhava! Mas nunca futurei que ela
fizesse caso de mim. Se andavam tantos a arrastar-lhe a asa, tantos, e
todos eram mais do que eu! Mas, veja a senhora aquele coração! Foi
para mim, que era o mais pobre e desgraçado do rancho, que ela
se inclinou.
Uma tarde, havia festa no adro, entrei a sentir-meo triste,o
triste, que peguei em mim e fui parar ao cemitério ondeo estava
ninguém, porque toda a gente andava a divertir-se e a dançar
na festa.
Vai senão quando, quem me há-de ali aparecer? Era ela, a filha
do mestre Marcos. Eu fiquei sem pinga de sangue e, vai ela, diz-me
assim com aquela voz que sabe dizer as coisas: «Que está aqui a fazer
no cemitério, João, em que está a pensar?» Penso, menina, disse-lhe
eu, que estou só no mundo,o,o, que era bem melhor para
mim me fosse deitar ali ao pó de minha mãe. «Ainda é cedo para pro-
curar companhia no cemitério disse-me ela;—já todos os vivos
ha negaram?»
Nem eu me atrevo a pedi-la.—«Pois nisso é que faz mal».
E que tenho eu para agradar a alguém? —«O seu bom coração, a sua
alma, João», e nisto foi-se embora. Olhe, minha senhora, que isto pas-
sou-se assim tal como lhe estou contando e vai daí principiou esta nossa
inclinação e ela tais artes empregou que até o tio Marcos entrou a
querer-me bem. Vai depois, sucede, por minha desgraça, andar eu
a trabalhar de carpinteiro em casa do fidalgo de Altotojo quando desa-
INÉDITOS E ESPARSOS
pareceu lá de uma gaveta uma porção de notas que valiam muito
dinheiro.
Fez-se muito barulho em toda a casa, procura daqui, procura
dacolá, perguntam estes, revistam aqueles. Foi um caso falado em toda
a aldeia e vai, de repente o fidalgo entra a olhar para mim carrancudo
e no dia seguinte manda-me despedir. Perguntei porquê, ninguém
me respondeu. Imagine a senhora o que isto deu que falar depois
do que se tinha passado. Como eu estava inocente,o podia futurar
que na terra todos me chamavam ladrão. O próprio mestre Marcos
o me acusava, sim, mas tinha para mim uns modoso secos,o
zangados que eu logo entendi tudo. Estava perdido.o sei comoo
rebentei de dor, logo ali. Saltaram-me as lágrimas dos olhos quando
me lembrei que a Ana também me havia de julgar ladrão e, como um
desesperado, corri em busca dela. Mal a topei, gritei-lhe de longe:
Ó menina, olhe que eu... Elao me deixou continuar. Cala-te, João,
cala-te, disse-me ela, chorando tanto como eu,o me digas nada
porqueo te julgo culpado.o te desculpes comigo porque eu
conheço-te e sei queo podes deixar de estar inocente.
Ouvindo-lhe estas palavraso boas,o sei o que teveo em.
mim parao ir a correr dizer a toda a gente: Sabem que mais ? Se
querem acreditar que eu sou um ladrão, acreditem.o se me importa
o ques todos pensais porque já sei que a Anao pensa como vós.
Mas, enfim, ela acalmou-me, e disse-me mesmo que era mister
convencer os outros, poiso tinham os mesmos motivos que ela para
o acreditar o que se dizia na terra. Fui então procurar o fidalgo mas
o me quis ver. Vai um dia, olhe, senhora, que até custa a acreditar,
ao acabar a missa, estava o adro cheio de gente e o fidalgo vinha a
sair. A Ana põe-se-lhe diante no caminho e diz-lhe em voz alta que
todos ouviram: «Sr. D. Álvaro, queira perdoar. Corre a fama em toda
a aldeia que o fidalgo acusa aquele rapaz que está ali» e apontou
para mim, que estava a um canto muito envergonhado «de ter feito
o roubo de dinheiro em casa do fidalgo. Ele é meu noivo e está
inocente, que o sei eu, que o vou jurar porque sei a alma que ali
está. Por aí todos o acusam e o Sr. D. Álvaro, se é um homem de
honra,o pode mentir e há-de aqui, diante de toda esta gente,
declarar que eleo é o ladrão, porque é impossível que oo
saiba, e que, se despediu aquele rapaz de sua casa, foi por outro
motivo. Responda, fidalgo, mas lembre-se que vem da missa e que
esteve ajoelhado no altar do Santíssimo».
Se a senhora quer ver?! Toda a gente pasmada, a Ana a olhar
direita para ele e o fidalgo, enfiado, fez-se vermelho, depois branco,
tremeu, suou e afinal disse assim esta fala: —«Esse rapaz é inocente.
O roubo foi feito por pessoa de casa. E eu quis desviar suspeitas.
Peço-lhe perdão».
Afinal, sabe a senhora? o ladrão tinha sido o filho dele, para extra-
vagâncias, O fidalgo ficouo envergonhado que deixou a aldeia e
INÉDITOS E ESPARSOS
o voltou. Veja a senhora como eu fiquei contente e todos ficaram ali
sabendo que eu era o noivo da Ana. Mas isto foi há três meses e nada
arranjei ainda porque a família do fidalgo faz-me guerra, por vingança,
porque se veio a saber que foram eles que aconselharam o fidalgo a
fazer o que ele fez, parao dar que falar contra o filho, que era
vergonha para todos os parentes.
D. JOANA
Sabe que é simpática e comovente a sua história ?
JOÃO
Assim Deus salve a minha alma como é verdade tudo quanto
disse.
D. JOANA
Acredito. E como a história me interessa, por ambos, pela pureza
e generosidade dos seus sentimentos, prometo-lhes para ela um agra-
dável final.
JOÃO
O que diz, minha senhora?
D. JOANA
Nunca lhe contaram histórias em pequeno, João?
JOÃO
Contaram, sim, minha senhora. Ainda me lembro daquela da
Gata Borralheira que minha mãezinha nos contava nas noites de
Inverno.
D. JOANA
Então há-de saber que há sempre um rapaz que gosta de uma
rapariga. Se eles casam, a história acaba bem e, seo casam... o
fim é triste e faz chorar quem a ouve.
JOÃO
Quer então vossa... excelência dizer...
D. JOANA
Que a sua história há-de acabar bem.
INÉDITOS E ESPARSOS
JOÃO
Mas...
D. JOANA
Mau; se se diz logo tudo, o fimo tem graça nenhuma.
JOÃO (querendo beijar-lhe a mão)
Ó minha protectora I
D. JOANA (retirando-se)
Está bom, está bom.o gosto disso. Ande, vá à sua vida e
guarde antes esse beijo para a sua desposada.
FRANCISCO
Então euo te disse que era melhor contar-lhe tudo?
JOÃO (sorrindo)
Dá-me um abraço. Agora começo a acreditar que sou feliz e
vou a correr contar tudo à minha Ana.
Ouve-se-lhe a voz dentro, cantando.
Quem se ri, está contente.
Quem está contente é feliz;
Mas... cala-te, coração,
O que senteso se diz.
O ROMANCE DE UM GUARDA-BARREIRA
dos meus amigos, mártir entusiasta da caça, que tem sofrido
com uma resignação heróica aguaceiros diluviais, sóis calcula-
dores, ventos de assolar cidades, que vadeia rios, escala mon-
tes, embrenha-se em matas gigantes, atola-se em brejos pérfidos, aspira
miasmas sezonáticos, come oo negro do lavrador hospitaleiro, sem o
menor quebrantamento de ânimo, instigado pelo ardor da perseguição
das lebres, codornizes e galinholas; amigo cruel que tem feito de mim
uma vítima da estopante odisseia das suas façanhas venatórias, que me
quer obrigar a decorar as biografias de quantos podengos e perdiguei-
rosm sido os companheiros das suas excursões intermináveis; um
amigo como decerto o leitor há-de ter algum, contou-me há dias uma
pequena história que eu, por minha vez, vou contar ao leitor,
É curta,o lhe roubará meia hora ao seu tempoo ocupado.
Há meses, no tempo do Inverno, tinha este Actéon, inexorável
flagelo das tímidas lebres do monte, saldo a montear de espingarda
ao ombro, botas de água, polvorinho a tiracolo, chapéu largo, san-
duíches de queijo londrino na saca e vinho no pichei, despedindo-se
da família assim como se fosse empreender uma exploração aos pólos.
Seo houve lágrimas na despedida é porque o hábito desses aparta-
mentos costumou os olhos ao chorar. Apenas a mãe, boa senhora,
toda votada a coisas domésticas, contraste perfeito com a bossa aven-
tureira e viajante de seu único filho, lhe disse do alto das escadas ao
vê-lo sair:
Olha lá se tens cautela com essa arma, meu filho... Sempre que
e lembra que um dia...
A história contou-a a boa senhora às meninas de casa que, sen-
das a trabalhar em costura, contavam mentalmente os dias que falta-
para o desejado domingo.
INÉDITOS E ESPARSOS
Sossegue o leitor queo pretendo arrancá-lo do mole repouso
do seu gabinete para o constranger a seguir o meu amigo no fadigoso
exercício de sua paixão dominante. Esteja descansado. Saiba que tem
em mim um homem que odeia a caça e que por coisa nenhuma se deci-
diria a servir-lhe de companheiro nestas excursões sanguinárias e
laboriosas.
Demais, seria mal escolhido o dia para tentar o passeio, porque o
meu amigo, segundo ele mesmo confessou, esteve de uma infelicidade
excepcional. Era quase noite e nem lhe tinha aparecido caça de jeito,
nem a pouca que pôde ver conseguira fazer pontaria certeira.
Imaginem o desespero e mau humor com que ele voltava a casa.
Este mau humor para alguma coisa lhe havia de dar. Chegando à base
de um monte de onde se descia para a estrada, o meu amigo, em vez de
o costear até ao lugar onde ele se nivelava com o caminho, pretendeu
imprudentemente descê-lo ali mesmo. Principiou a segurar-se aos tron-
cos das giestas, a firmar oss nalgumas raízes de pinheiros que rom-
piam a parede saibrosa do caminho; mas, a uma vara de altura do
solo, o pé resvalou, as mãoso puderam sustentar o peso do corpo e
o desapontado caçador veio cair no chão, sentindo uma dor agudís-
sima na articulação do pé direito com a perna, que o fez involunta-
riamente soltar um gemido.
—Estou arranjado!—disse ele.—Uma fractura pelo menos. Qua-
renta dias de imobilidade e de entalação !
E faltou-lhe o ânimo para se mexer e verificar se efectivamente
tinha fracturado o.
Quanto tempo assim esteve ? Quando os romancistas fazem esta per-
gunta é sinal de que se lheso pode responder. É o caso em que estou.
Umas crianças que vinham do monte viram aquele homem esti-
rado e deitaram a correr, gritando:
Um homem morto! Um homem morto!
O meu amigo deixou-as gritar. Tinha procurado mover o pé e
julgou que oo sentia. ,
Adeus! Este já meo pertence. Declarou-se independente
da metrópole. Faz bem.o lhe durará muito a autonomia.
Esta reflexão parece muito ligeira nas circunstâncias sérias em que
se encontrava o meu amigo. E o que é certo é queo tinha nada tran-
quilo o espírito quando pronunciara estas palavras. Depois lembrou-se
do tratamento de fracturas, da cara do seu facultativo, das pessoas que
o iriam visitar durante o processo de consolidação da sua tíbia e já
procurava saber qual o seu passatempo nessas horas de forçado ócio.
É ocasião de ler um romance do Ponson du Terrail. F. irá
lá por casa para jogarmos uma partida de xadrez. Peço a C. que me
empreste o estereoscópio...
Foi interrompido nestas cogitações pelo ruído de uns passos apres-
sados e vozes confusas e cedo se viu rodeado por um magote de povo,
capitaneado ao que parecia por um velho de bigode branco e espin-
INÉDITOS E ESPARSOS
garda ao ombro, vestido com o uniforme de guarda das barreiras
municipais.
Ó criatura de Cristo, você ainda vive ? Foi a interrogação
que lhe dirigiu este homem.
Eu julgo que sim.
E o outro fugiu ?
O outro?
O assassino!
Qual assassino ?
Adeus minha vida! Entãoo o mataram ?
Eu julgo que não.
Então que está você ai a fazer ? — exclamou já meio descon-
fiado o velho guarda.
Eu... estou a pensar.
A pensar !—disseram os circunstantes espantados com a extra-
vagância da resposta.
A pensar em quê? —perguntou o velho guarda-barreira adian-
tando-se.
A pensar... ai!... nos grandes serviços que prestam... ai!... ai!...
ai!... à humanidade esses modestos filantropos... ai!... ai!... a quem
chamamos cadeirinhas... ai!... ai!... ai!...—Estes ais eram desafiados
pelas pungentes dores da articulação tíbio-társica direita do meu amigo.
Está bêbedo! murmurou o guarda aos que o rodeavam e
depois, dirigindo-se ao meu amigo:
Levante-se e ande daí.
Isso é bom de dizer. Andar! É dos maiores prazeres deste
mundo, é; mas...
Vamos e aproximando-se dele puxou-o por um braço.
Ai...
ai... ai...
O que é ? disse o velho, largando-o.
Poiso vê que tenho um pé...
Dois vejo eu.
Pois está enganado, porque um já meo pertence, porque
está quebrado.
Oh diabo! Isso então é mais sério.
A quem você o diz! E muito sério porque perdi o meu rico.
Tem razão: visto isso... Eh! rapazes, levantem este senhor e
levem-no para o meu quarto.
Ai... ai... Esperem... Façam isso com jeito!
Peguem nele com cautela e aviem-se.
Para encurtar razões: passada meia hora estava o meu amigo
deitado na enxerga do guarda-barreira, com o pé ligado com panos
embebidos em água fria.
A lesãoo passava afinal de uma distensão de ligamentos.
{Não continua).
O RAMO DAS MAIAS
Q
UE aparência festivalo aos campos as giestas quando em Maio
ostentam as vistosas galas da sua vigorosa florescência!
Que profusão de corolas amarelas naquele verde,o
verde, dos ramos tenazes!
É por certo a flor mais alegre que a natureza produz; por isso
lhe querem as galhofeiras raparigas do campo, onde nunca foi moda
a melancolia.
Aí está a violeta; é uma flor bonita sem dúvida, mas triste. A mim
só o cheiro da violeta me faz cismar, deste cismar que os Franceses
chamam rêverie e queso sei bem que nome lhe damos. É a razão
por que os poetas a cantam. Os poetaso habitualmente inclinados à
tristeza e às coisas que a suscitem.
As rosasm já um aspecto mais risonho, é verdade, mas ainda
comedido ou, como hoje se diz, guardam as conveniências nas suas
alegrias. É um júbilo grave aquele seu.
Uma elegante pode irrepreensivelmente trazer no chapéu uma
rosa artificial; maso la dizer-lhe que traga um ramo de maias!
É que as maiaso alegres à moda dos campos, que é a verda-
deira moda de o ser, a mais racional. É ali que o contentamento seo
revela em um simples e espremido sorriso, mas em prolongadas e
altissonantes gargalhadas; é ali que se usam os lenços escarlates e
amarelos, e se odeiam as cores escuras; que se canta desde o nascer
do Sol até ao nascer das estrelas e onde, no fim da vida, se tem rido
mais do que chorado, a ponto de fazer duvidar da exactidão do epí-
teto de vale de lágrimas com que o cristianismo designa o mundo em
que vivemos.
Ora eu tenho, em muitas coisas, gostos campesinos; é por
isso que poucas flores me agradam tanto como as flores das maias.
É que as maiaso alegres à moda dos campos,..
INÉDITOS E ESPARSOS
perdoe-me a leitora delicada esta confissão de mau gosto, mas
sincera.
Tenho-lhe afeição deveras á despretensiosa flor.
o é uma alegria estudada aquela sua; é uma alegria expan-
siva, lhana, sem refolhos, sem momices afectadas; alegria de flor mon-
tanhesa, enfim.
O ar das montanhas é inimigo do cerimonial, que prescreve
até as maneiras próprias de manifestarmos nossos prazeres e nossas
penas!
A gargalhada de um highlander produziria uma irritação de ner-
vos em um homem das planícies; ao pé das flores de jardins e de
estufa, as singelas maias haviam de ser estranhadas e escarnecidas;
seriam como uma camponesa de cores viçosas e sadias numa reunião
dessas formosuras pálidas e franzinas que povoam os salões.
Decididamente o gosto está estragado! Poiso é nestas últimas
que os poetas vão, de ordinário, escolher tipos para heroínas de
poemas e romances ?! Como seo fossem belezas degeneradas!
Como se nossae Eva, que é de supor ter sido o ideal da beleza
feminina,o tivesse possuído uma organização robusta, excelente
carnação e cores para invejar. A saúde é para mim como um comple-
mento da beleza.
Era já opinião dos antigos que a perfeição dos organismos
depende de quatro condições: integridade, força, beleza e saúde;
reparem bem e saúde.
A febre, os espasmos, a histeria, a demência, podem excitar-me
a compaixão pelos infelizes que as padecem, mas daí a adoptar como
rigor de estética a necessidade de uma destas moléstias para cada
protagonista de romance, vai muito longe.
Vejam as mulheres da Bíblia; que poéticos e interessantes
tipos aqueles! E sabem de alguma cuja saúde melindrosa nos sus-
cite apreensões?
Em toda a literatura clássica pouco há que ver com a medicina.
Se algumas doenças por lá aparecem, encaram-se literariamente,o
se lhes desenvolve a patogenia com um rigor científico digno de uma
memória académica.o se vêem ali conferências de médicos, estu-
pendos récipes, nem frascos medicinais e tisanas por cima das mesas;
as rubricas dos autores dramáticoso obrigam as actrizes a tossirem
de vez em quando para forçar o interesse dos espectadores, incomo-
dando-os.
O delírio de Orestes, prudentemente atribuído às fúrias,o era
explicado ao público por nenhuma teoria médica.
Hoje, então, um médico tomando o pulso, percutindo e auscul-
tando a protagonista doente, é uma cena de efeito seguro. Digam-me
se no teatro clássico viram alguma vez entrar em cena Hipócrates,
Galeno, Celso, Ambrósio Pare e outros vultos da extensa galeria médica
que havia já então ? É que a doençao estava em moda. Hojeo há
INÉDITOS E ESPARSOS
autor que, ao querer arriscar o interesse inspirado pela sua heroína,
se atreva a fazê-la sã e escorreita; pelo menos uma doença nervosa é
inevitável. Eu por mim julgo ser isto uma perversão de gosto. Enga-
nar-me-ei ?
É uma igual perversão que faz com que as flores das maiaso
sejam apreciadas,o estejam na moda.o alegres e garridas como
qualquer lavradeira em dia de romaria. Excitam de longe as vistas
com a cor viva de suas pétalas, destacando-se do fundo verde-escuro
das folhas e dos ramos.
Ora venham cá dizer-me queoo flores bonitas! Eu tenho
por elas uma afeição desinteressada, sincera, que data de mui-
tos anos.
Criança ainda, nunca voltava do campo, no fim de uma tarde
de Maio, queo viesse adornado das prazenteiras flores; mais tarde,
em certa época em que me quiseram ensinar botânica, nunca tive
coração para dilacerar a bicos de alfinetes essas pobres flores alpes-
tres com o único fim, o mais fútil de quantos pode imaginar uma ciên-
cia, de substituir o nome prático que lhe dá o povo, por o nome
pedante da nomenclatura técnica.
O botânico! Nunca vi gente mais fleumàticamente cruel! Com
que indiferença eles partem uma manhã para o campo, munidos do
indispensável estojo, que me produz o efeito de um aparelho de tor-
turas em tribunal inquisitorial, e atravessam planícies, trepam colinas
e outeiros, profundam vales, devassam moitas, costeiam rios, colhendo
quantas flores encontram, sem que o belo das cores ou o inebriante
dos perfumes lhes mereçam uma exclamação de prazer. Com que
selvagem sangue-frio procedem a esta provisão de plantas, que amon-
toam sem gosto em suas caixas de folha ou de cartão, e voltam à
cidade carregados de modestas presas para, fechados no seu gabi-
nete, encetarem o seu trabalho de destruição!
Já os viram alguma vez postos à obra ? Que espectáculo!
Nas suas mãos as pobres floreso torturadas, despedaçadas,
como as vítimas nos circos pelas garras das feras ; pétala a pétala caem
desfolhadas; os bicos de alfinetes movidos por mãos sem piedade
rasgam-lhes os cálices, destroem-lhes os nectários, penetram nos ová-
rios que rompem, disseminam-lhes os grãos, gérmenes de futuras flores
que sem remorsos aniquilam, estendem-lhes os restos inanimados sob
o campo do microscópio e, com a placidez do filósofo e uma insen-
sibilidade de selvagens, examinam as ruínas de uma bela obra.
E para quê, santo Deus? Que buscam eles nestes trabalhos de
destruição? Um nome, um nome pedantesco, bárbaro, inarmónico,
prosaico, nome de bulir com os nervos, nome que fomenta as silaba-
das, para o aplicarem, sem compaixão nem consciência, à obra mais
singela, poética e despretensiosa da natureza!
Eu quando vejo a ciência ocupar-se com os fósseis, com os mas-
todontes, os pterodáctilos, digo comigo: sois dignos um do outro; mas,
INÉDITOS E ESPARSOS
quando volta as suas iras classificadoras contra as flores, lamento-lhe
a barbaridade.
De todas as vezes que eu ia a colher uma dessas vitimas inofen-
sivas de uma ciência cruel, parecia-me vê-las animarem-se, ergue-
rem-se na haste para me olharem, rociadas de gotas de orvalho que
semelhavam lágrimas, e dizerem-me:
Tem piedade de nós! Que as borboletas e as abelhas nos
beijem, namoradas dos nossos matizes e perfumes. Se esse beijo nos
der a morte, embora; morreremos em um estremecimento de prazer.
Se nos colhe ao delicada da virgem que fantasia amores. Se em
breve nos espera o esquecimento e o desprezo... ao menos fomos
por um instante amadas. Que nos desfolhe a brisa na corrente dos
arroios... partirá com nossos perfumes e embalsamará com eles os
prados e os bosques. É uma espécie de imortalidade que nos dá...
Mas tu... para que nos cortas? Em criança amavas-nos e, como as
borboletas, deixavas-te namorar das nossas cores viçosas e dos nos-
sos aromas; então éramoss as primeiras a inclinarmo-nos na tua
passagem para te desafiar os afagos e para morrermos amadas; mas
hoje é com fria indiferença que nos procuras, que nos vens separar
da haste para nos desfolhar sem, dilacerar-nos, sepultar-nos entre
as folhas de um herbário, sem vida, sem perfumes, esqueleto do que
fomos, pálidas múmias que ufanamente designais com um nome, só
de per si capaz de nos fazer murchar. Oh! tem piedade de nós!
Esta voz das plantas fez-me desgostar da botânica, que penso
ser a ciência mais bárbara que ainda inventaram homens.
Um dia em que numa destas explorações científicas chegara a
vez das pobres maias de serem classificadas, a tal voz que eu escutei
pareceu falar mais alto; a ponto queo pude resolver-me a despeda-
çá-las para as classificar. Se eu as conhecia de criança! Era quase um
sacrilégio.
Com este culto pelas flores em geral e esta afeição pelas maias
em particular, tinha eu ido passar ao campo os mais floridos meses
do ano.
Todos os dias o Sol, despontando por cima da crista dos outeiros,
me encontrava sentado ou, mais rigorosamente, deitado nas pedras
musgosas de um muro derrocado ou junto ao tronco meio carcomido
de algum carvalho secular.
Um frondoso e ameníssimo vale seguia em sinuosidades por entre
duas colinas, em cujas fraldas e encostas rompia uma vigorosa vege-
tação de sovereiros e carvalhos e cujos cimos eram coroados pelas
elegantes umbelas de pinheiros mansos que faziam lembrar uma vila
napolitana. As arcadas de um extenso aqueduto avistavam-se ao longe
e, através delas, descobria-se àquela hora umu sem nuvens apa-
vonado pelos nascentes clarões da luz oriental. Enchia as espessuras
do vale e das encostas fronteiras um enxame de pássaros, cujos gor-
jeios se confundiam, combinavam, ou afrouxando, ou crescendo, e
INÉDITOS E ESPARSOS
produzindo sempre a harmonia na dissonância, coisa que a arte julga
um absurdo, mas que a natureza entende e realiza.
Era no último dia de Abril. Flores em profusão esmaltavam de
variado matiz o fundo verde da relva.
Havia lugares em que o campo tinha reflexos dourados, roxos
azuis, de magníficos efeitos e lá estavam também dispersas pela colina
e debruçadas sobre o vale as minhas queridas flores das maias, todas
alegres e festivas.
Eu estava enfeitiçado com o que via. Todo me embevecia a
seguir com a vista uma rosa que o vento desfolhara no rio e que,
arrebatada pela corrente ia, bem longe da roseira que a produzira,
exalar o último alento; outras vezes acompanhava a abelha no seu
adejar de flor em flor ou o movimento da sombra da folhagem agi-
tada projectando-se sobre a relva do chão.
(Não conclui).
PECADOS LITERÁRIOS
Programa de um conto para os novos Serões
da Província.
PAULO AMÉRICO encetou prematuramente a vida de escritor.
Criança ainda, já firmava com o seu nome escritos de todo o
género. Perdeu cedo aquele virginal pudor que éo salutar
reserva para os escritores incipientes. Costumou-se ao público, aos
risos e zombarias de críticos e já oo magoavam os golpes com que
o feriam, quando entrou na idade da adolescência.
Imaginação viva e espirito cultivado, Paulo Américo tornou-se
um escritor distinto mas pouco simpático.
A única família que conhecera fora um tio velho e egoísta, que
o lhe soubera semear no coração sentimentos ternos e nobres.o
havia carinhos de mulher nas suas recordações de infância. De pequeno
se familiarizou com o vício e aos vinte anos achava-se um desiludido.
Assim, os seus livros eram eivados de cepticismo e desconso-
adores. Romances à imitação dos de uma certa escola francesa, em
que o vício se adorna de galas sedutoras e a virtude é tratada com
risos de zombaria, eram a sua produção favorita. A mocidade pro-
curava-os com avidez, porque tinham para ela a sedução do vício.
Paulo Américo tornou-se um escritor conhecido, lido clandestinamente
selos filhos, temido e abominado pelos pais.
Um dia chegou à cidade uma viúva rica e muito requestada por
os pretendentes a casamentos vantajosos, um dos quais era Paulo Amé-
rico. A viúva manifestou por ele alguma predilecção mas depressa o
desiludiu, declarando-lhe que nunca tencionara casar-se segunda vez.
Que a razão da simpatia que manifestava por ele, era a compaixão que
ele lhe inspirava. Paulo Américo pede-lhe a explicação destas palavras
e ela diz-lhe que, estudando-o e conhecendo as suas obras,o o
supunha um cínico, mas apenas um infeliz que nunca amara e que daí
provinha o seu desespero.
INÉDITOS E ESPARSOS
Paulo Américo concorda em parte e a viúva, depois de vários
conselhos, acaba por decidi-lo a ir passar algum tempo à terra dela
na província.
Paulo Américo vai. A mudança de hábitos e de meio faz dele um
outro homem e, tempos depois, apaixona-se por uma menina, filha de
um facultativo pobre, casa burguêsmente e propõe-se sinceramente a
realizar o tipo de marido de que tanto zombara.
Escreveu ainda um romance de género inteiramente oposto aos
antecedentes, no que procurou esmerar-se como em nenhum. O público
porém, repudiou-o, achando que o autor estava fora do seu género.
Isto desgostou Paulo Américo que nunca mais escreveu.
Passaram-se anos e Paulo Américo teve uma filha cuja educação
absorvia todos os seus desvelos. A filha cresceu e era a mais formosa
e ingénua criança que pode causar o enlevo de um pai. Paulo Américo
era verdadeiramente feliz, quando um dia a filha o surpreende pedin-
do-lhe para ler os romances que ele publicara em tempo. Paulo Amé-
rico assusta-se. Cônscio dos seus delitos, nunca falara a filha nas suas
obras. Tremia só de imaginar que os seus livros chegassem às mãos
da filha. Esta, porém, ouvira a uma menina de Lisboa, que passara
alguns dias na sua terra, falar deles e agora ansiava por lê-los.
Principiou uma verdadeira tortura para Paulo Américo, uma
quase expiação. Falou nisso à mulher e ambos procuraram desva-
necer aquela ideia na filha.
Um dia Paulo Américo entra no quarto da filha e vê um livro em
cima da banca; repara, era justamente o mais escandaloso dos seus
romances. O pobre pai tem quase uma síncope. A mulher acode e
faz-lhe ver que o livro está ainda por abrir. Informando-se, soube que
a filha aindao o vira e que o livro tinha chegado momentos antes
remetido pela menina de Lisboa. É subtraído o livro juntamente com
um bilhete em que lho anunciavam como o melhor do pai. Ae tem
a lembrança de o substituir pelo último romance, único honesto, que
publicou Paulo Américo e deste modo a filha pôde ler um livro do pai,
sem perigo para a reputação paterna.
UM RETÁBULO DE ALDEIA
Programa de um conto para os novos Serões
da Província.
(I) Uma irmandade ou confraria de certa paróquia rural, pro-
curando dar aplicação ao dinheiro que tinha em cofre, convoca assem-
bleia para se discutir o assunto. Aventam-se vários e desencontrados
alvitres e afinal resolve-se mandar pintar à cidade um retábulo para o
altar da santa sob cuja invocação se erigiu a irmandade.
(II) Os mordomos dirigem-se para esse fim a um proprietário
da localidade que, passando metade do ano em Lisboa, estava no caso
de melhor do que eles arranjar artista para a execução da obra. Assim
se fez. O proprietário escreve a um rapaz seu amigo, discípulo da
Escola de Belas-Artes, para se encarregar da pintura do retábulo e,
tendo de partir para o estrangeiro, oferece ao amigo a sua casa na
aldeia para lhe servir de atelier.
(III) O artista aceita, encantado com a perspectiva do tempo
delicioso que vai passar no campo e ao mesmo tempo orgulhoso de
encontrar finalmente uma tela, uma obra de mais fôlego do que os
retratos de burgueses a cuja confecção se via constrangido a aplicar
os seus talentos.
(IV) Parte para a aldeia. Aloja-se na casa senhorial que o amigo
deixou vaga à sua disposição. Toma as medidas da obra, estuda a luz
e procura informar-se da história da santa.
(V) Contam-lhe a lenda respectiva.
(VI) O artista percorre, solitário, os montes da aldeia, à procura
de inspiração. O povo principia a notá-lo e a desconfiar dos seus modos.
A inspiração chegou. A santa fora pastora e o artista, um dia,
depara com uma linda serrana adormecida sobre uns pitorescos
rochedos e rodeada de numeroso gado. Vê realizado o tipo que se
esforçara por conceber. Ali mesmo o esboça rapidamente e sente
que venceu a primeira dificuldade da obra.
VOL. II —19
INÉDITOS E ESPARSOS
Então ? — O recém-chegado responde com a primeira copla
da xácara de Claralinda.
Uma voz parece contestá-lo cantando a segunda. É de um outro
cavaleiro que chega em trajos de viagem, inculcando ter caminhado
muito. Os primeiros interrogam-no. O recém-chegado é novo ainda,
alegre e descuidado. Responde que chegou há pouco de Paris, onde
seguiu o estudo da medicina, que é nascido em Évora e que vem para
viver na corte. Que sabendo em Lisboa que ela estava em Almeirim,
para ali se dirigia, porém que o seu cavalo precisa de pronto socorro,
razão pela qual eleo passará mais além de uma pequena taberna,
que avista dali, sem recuperar novas forças. Com mais algumas pala-
vras afastam-se, os primeiros em direcção a Almeirim e o último na
da taberna.
Apesar das fortes pancadas que o fatigado cavaleiro descarrega
na porta da taberna, estao se abre logo. Porfiando, aparece-lhe
uma gorda personagem de fartos bigodes e aspecto marcial que, em
português, com ressaibos de castelhano, lhe pergunta rudemente o
que quer. Repouso e comida para mim e para o meu cavalo.
O estalajadeiro fez uma visagem como se o requerimento o lançasse
em dificuldades imprevistas. A taberna parece estar inteiramente des-
provida do necessário. O cavaleiro, João de Évora, estranha o seu hos-
pedeiro e a singularidade da recepção.
Aindao tinham chegado a um acordo quando subitamente entrou
na taberna um embuçado, em vestidos de paisano, queo reparando
em João de Évora, rompe em exclamações contra o rei e a corte de
Portugal e Castela e lamenta apaixonadamente a Excelente Senhora, a
quem se mostra devotado do fundo de alma. O estalajadeiro faz-lhe
sinais que eleo compreende até que por acaso repara em João
de Évora. Surpreende-se e instintivamente leva ao à adaga. João de
Évora procura tranquilizá-lo e inspirar-lhe confiança, dizendo que tem
vivido fora de Portugal e que é inteiramente alheio aos negócios polí-
ticos, queo compreendera o segredo que pressentira, nem, que o
compreendesse, era de ânimo a abusar dele.
O espanhol retira-se um pouco mais tranquilo para mudar de trajo.
Rompe a tempestade e uma chuva diluviai. Quando o fingido esta-
lajadeiro vai fechar a porta, uma nova personagem entra na taberna
fugindo à chuva. Descobre-se e João de Évora e ele acham-se conhe-
cidos. Dois anos antes o recém-chegado, agora oficial da casa do Duque
de Beja, D. Manuel, tinha ido a Paris fazendo parte da embaixada man-
dada por D. João II a Carlos VIII por causa da prisão de Maximiliano
em Bruges. Foi lá que tomou conhecimento e amizade com João de
Évora, então estudante.
O desconhecido espanhol volta, já vestido de cavaleiro e por
sua vez Filipe do Casal (o recém-chegado) o reconhece e mostra estar
ao facto do segredo dele. O espanhol afecta-se contrariado por ver as
relações de intimidade de Filipe e João de Évora. Filipe tranquiliza-c
INÉDITOS E ESPARSOS
relativamente' ao carácter do seu amigo e o fidalgo castelhano resolve-se
a ser franco. Confessa que vive na corte, onde procura desviar de si
todas as suspeitas, mas que é um dos últimos e fiéis partidários da
causa da infeliz D. Joana de Castela e que jurou empregar todos os
esforços para a tirar da clausura em que vive encerrada, Para isso faz
visitas frequentes ao convento sob disfarce e, parao atrair suspeitas,
tomou esta pequena casa isolada onde se disfarça, encarregando o seu
criado fiel D. Manrique Pantalon, do papel de taberneiro. Foi no con-
vento de Santarém que Filipe, que tinha lá uma parente, chegara a
descobrir D. Pedro Aires ser o burguês disfarçado e o seu segredo.
Filipe procura convencer D. Pedro da loucura dos seus projectos, mas
encontra nele um paladino de antigos tempos pronto a desafiar o
poder reunido de Portugal e Castela em favor da dama de quem
traz a divisa.
D. Pedro retira-se deixando a casa aos dois amigos que por algum
tempo continuam as suas conferências.
João de Évora admira a dedicação do castelhano. Filipe observa,
sorrindo, que ali há um pouco de amor também. João de Évora espan-
ta-se da loucura daquele amor e, às observações de Filipe de que os
há mais loucos e mais fatais, descobre que o seu amigo está apaixo-
nado e convida-o à confidência.
Filipe conta-lhe que tendo sido há pouco tempo enviado a Cas-
tela por negócios do Duque D. Manuel salvara por acaso da persegui-
ção da Inquisição a velha mulher e a filha de um célebre judeu que
fora queimado dias antes em Sevilha. Ao princípio a compaixão e mais
tarde um amor nascente pela judia levaram-no a prometer-lhes condu-
zi-la a um porto de onde pudessem procurar um asilo seguro. Che-
gando a Portugal, para onde tinham vindo já avisos de Castela e fazen-
do-se aqui, desde 1485, severa inquirição e justiça sobre os judeus
refugiados de Espanha, que fossem mais culpados de heresias, foi-lhe
mister todo o recato parao atrair suspeitas. Apenas confiou este
segredo a D. Manuel e enquanto preparava ama embarcação em Lis-
boa para transportar as fugitivas, abrigara-se numa pobre casa de um
pescador de Alfange onde a bela judia, sob o nome de Clara, passava
por amante clandestina de um alto senhor da corte insinuação que
teve de fazer entrever ao pescador para lhe vencer os escrúpulos.
Agora confessava Filipe que nas vésperas de as ver partir hesi-
tava e que a sua paixão crescera a ponto queo podia afirmar que,
se Ester lhe confessasse amá-lo como ele a amava a ela,o fugiria
também do reino, confiando-se às cegas àquele amor e ao seu destino.
João de Évora procura combater-lhe aquela paixão, mas encon-
trou o seu amigo profundamente possuído por ela. Nisto ouvem um
estrépito de cavalos que passam.
No entretanto a tempestade serena, a noite é já adiantada e Filipe
.propõe a João de Évora que o acompanhe a casa de Ester. João de
Évora aceita e partem.
INÉDITOS E ESPARSOS
*
* *
Chegam a casa do pescador. Tudo é silencioso. A porta está
aberta e dentro tudo é escuridade. Apenas algumas brasas no lar.
Filipe chama por Ester e ninguém lhe responde. Chama por Débora,
a velha judia. Uma voz seca e severa responde desta vez. Ao mesmo
tempo o fogo do lar ateia-se em alguma lenha aindao queimada e
alumia de uma luz amarela o recinto. A velha mulher está acocorada
junto ao lar com os cotovelos apoiados nos joelhos e a barba nas
mãos. Há no olhar dela um fulgor sinistro.
Filipe pergunta por Ester. Partiu responde a velha. Pergun-
ta-lhe para onde e como partira. Para a perdição e nos braços do
seu amante.
Durante a tempestade Ester havia abandonado a casa e ae
para fugir com um jovem cavaleiro que a requestara e por quem ela
se apaixonara a ponto deo poder deixar Portugal como Filipe
combinara.
Filipe desespera-se, blasfema, chora e jura vingar-se. A velha
parece insensível e lança-lhe em rosto a fraqueza, afirmando-lhe que
a vingança de Deus correrá atrás deles. Passado ternpo Filipe acon-
selha-lhe que fuja, que ele procurará a filha. Ela recusa e diz queo
deixará aquele lugar, pois ali espera a filha culpada e o seu roubador
porque a vingança de Deus lhos trará ali, mortos ou vivos, e que, só
então, abandonará esta terra.
Filipe exorta-a debalde. Ela diz-lhe queo procure a filha, que
é inútil o esforço. Espera que a vingança de Deus a trará. Impossível
demovê-la desta resolução.
Filipeo sabe que partido seguir. João de Évora, combinando
este acontecimento com o que ouvira aos da cavalgada com quem se
encontrara, insinua a Filipe que Ester fora raptada por pessoas da
corte e que lá a encontrará. Filipe propõe-se a seguir para Almeirim
mas pede a João de Évora que vá a Lisboa para ver se descobre os
fugitivos e ao mesmo tempo para dar aviso contrário ao barco que
destinara à fugida das israelitas. João de Évora condescende e com-
binando encontrarem-se em Évora, separam-se.
Termina o prólogo.
*
* *
Passaram-se alguns dias. A corte está toda em Évora. João de
Évora, de volta da sua comissão, entra pela primeira vez, depois que
dali saiu criança, na sua cidade natal. É noite; depois de errar ao acaso
pelas ruas estreitas e escuras, pára em uma taberna onde abundam os
grupos populares e entra para descansar. A conversa corre animada.
ÍNÉDITOS E ESPARSOS
Fala-se em negócios da corte; respiram-se mal extintos ódios contra
Castela, mas com desejos de paz. Superstições, alvoroços pelas festas
próximas e amor pelo rei, do qual se referem várias anedotas. Mur-
mura-se da nobreza, cujos excessos no último reinado se referem.
Contam-se vagamente os casos dos Duques de Bragança e Viseu. Uma
personagem que parecia de autoridade entre os do grupo, fixa aten-
tamente João de Évora e dirige-lhe a palavra. João de Évora entra na
conversa e granjeia simpatias pelo que conta de Paris. Este interlo-
cutor e João de Évora ficams depois que os populares se retiram.
Tomado de súbita afeição por João de Évora, o seu recém-conhecido
oferece-lhe o seu valimento no Paço, onde ele é benquisto por S. A. e
conta-lhe a origem deste valimento:
Em 1475, no ano do casamento de D. João II, era este homem,
que se chama Vaz Gil, escudeiro de um fidalgo de Évora, que se
apaixonara por uma mulher da burguesia de extraordinária beleza
mas que debalde requestava. Esta mulher principiou a ser requestada
também por muita gente da corte e também pelo próprio D. João, então
príncipe, ao qual ela afinal cedeu, recebendo-o muita vez de noite
em sua casa. O amo de Vaz Gil, sabendo das visitas nocturnas a Mar-
garida, reuniu uma noite com ele, Vaz Gil e outro escudeiro, homem
de prodigiosa força, e postos de emboscada, esperaram o visitador
nocturno. Vaz Gil ignorava a jerarquia do homem que estavam espe-
rando. Noite alta, chegaram três embuçados e a luta travou-se. Vaz
Gil fez o que pôde, mas foi rudemente mimoseado com um enorme
golpe que, por pouco, lhe decepava uma orelha. Caiu sem sentidos e
o soube, senão depois, que os seus companheiros, mais felizes,
tinham fugido à aproximação dos guardas e que, passados dias, haviam
desaparecido de Évora.
Mestre António, físico do Paço, então judeu, mas que anos depois
veio a receber o baptismo, sendo o rei padrinho e servindo-lhe de
toalha a própria manga da camisa real, obedecendo às ordens de
D. João, que a todos os físicos ordenara que lhe dessem parte de
quantos feridos de espada tratassem naqueles dias, denunciou Vaz
Gil, a quem D. João mandou chamar e, em vez de o castigar, reve-
lou-se-lhe como o adversário da véspera e recebeu-o como oficial da
sua casa, contentando-se apenas em o alcunhar pela enorme cicatriz
aberta pela espada do rei e, invertendo-lhe os dois nomes do seu ape-
lido Vaz Gil de Gilvaz. Desde então gozava Vaz Gil do seu emprego
e das boas graças de S. A. e nunca mais ouvira falar do amo, da rapa-
riga, nem dos seus companheiros da briga.
João de Évora agradece e aceita o oferecimento de Vaz Gil e
combina encontrar-se com ele no dia seguinte de manhã, ali mesmo
na taberna, para ser introduzido na corte, sob os auspícios deo
valente personagem. Pede-lhe instruções para atinar com o convento
de Santa Maria do Espinheiro, onde é esperado por um parente seu,
e os dois separam-se em cordial amizade.
INÉDITOS E ESPARSOS
(Note-se que as portas fecham-se e Santa Maria está fora dos
muros).
*
* *
João de Évora é recebido em Santa Maria do Espinheiro por
Frei Domingos, homem de quem recebia todos os recursos de vida e
de educação. O frade mostra prazer em vê-lo, mas apesar das boas
palavras que lhe dirige, há pouco de afectuoso na voz e na expressão
desse homem. Durante a ceia com que recebe o jovem doutor e a que
este faz a devida honra, o frade deixa entrever-lhe a ideia de que
alguma coisa tem a exigir dele em troca de tantos serviços prestados.
João de Évora conserva no diálogo uma leviandade que exaspera o
frade. O frade principia a dar as razões que o levaram a fazer seguir
João de Évora a carreira da medicina e associa esta resolução a vagos
pensamentos de vingança, que excitam a desconfiança de João de
Évora, o qual lhe afirma nunca abusará da sua profissão para fins
menos honrosos. O frade ridiculariza as ideias de pundonor e João de
Évora começa a achar no frade um ar e expressão diabólicos e franca-
mente lho declara, O frade transige a princípio, mas quando por suas
explicações João de Évora parece mais tranquilo, volta de novo à
questão e afirma a João de Évora que ele tem uma história que deve-
ria procurar saber e que exige uma vingança. Que ae dele fora
vítima de um homem que a lançou na miséria e na infâmia e que
perseguiu sem piedade todos os membros da sua família. E esse
homem ainda vive. João de Évora pergunta-lhe por que oo fez
cavaleiro para que pedisse razão no campo a esse homem. O frade
responde que era impossível atingi-lo em salto de leão e só em
meneios de serpente. João de Évora declara francamente a sua repug-
nância por vinganças dessa ordem. Frei Domingos responde-lhe ironi-
camente, que é melhor aceitar a desonra e a miséria dae e repri-
mir o impulso de filho pundonoroso que lhe reclama a vingança. João
de Évora pergunta-lhe se suae ainda existe. O frade afirma-lho
mas assegura-lhe que nunca ele lhe revelará o nome, sem que pri-
meiro tenha jurado solenemente vingá-la. João de Évora hesita porque
lhe repugna o papel de traição que o frade lhe destina. Depois de
alguns momentos de luta, o frade concede-lhe tempo para decidir e
deixa-o. João de Évora adormece e o frade, vendo-o adormecido,
observa-o com desprezo e censura o seu carácter que ele alcunha
de covarde. Em seguida encaminha-se para a cela do prior.
*
O prior do convento era um antigo partidário do Duque de
Bragança e mais ainda do Cardeal de Alpedrinha, neste tempo em
INÉDITOS E ESPARSOS
grande valimento em Roma; apoiara deveras as lucubrações políticas
do duque chegando a fazer da sua cela o lugar do conciliábulo dos
nobres, mas, como político que era,o concedera confiança nem
aprovação à malograda e louca empresa do Duque de Viseu, à qual
o astuto amigo do Cardeal D. Jorgeo viu alcance político. A entre-
vista de Frei Domingos com o prior é toda política. Frei Domingos
procura ressuscitar o partido da alta nobreza, ferido de morte nas pes-
soas dos seus mais poderosos representantes. O prior pondera-lhe a
inanidade destes projectos. Recorda-lhe a próxima aliança de Castela
e Portugal, que vem destruir o antigo elemento em que se firmara
o Duque de Bragança. Refere-se à pouca importância dos actuais
nobres, uns devotados ao rei que os exaltou, outros incapazes de
qualquer acção por covardia e falta de chefe. Frei Domingos lembra
D. Manuel. O prior responde que o mais conveniente é lançar sobre
outros fundamentos os projectos de resistência. Que a ocasião das
revoluções declaradas passou. A decadência da nobreza feudalo
é obra de D. João II; e obra do tempo. A classe média julga que a
queda do feudalismo é já a aurora de um dia de glória. O principal é
fazer-lhe mentida a esperança, deixar cair o feudalismo mas evitar
que o municipalismo lhe venha ocupar o lugar. Para isso, é procurar
dominar a realeza, sendo a ocasião propícia para o clero dominar.
Estava a declinar o reinado actual. Precisava-se de paciência para con-
temporizar e ir fazendo a sementeira para o reinado futuro. D. Afonso
era um ânimo fraco e fácil de vencer. Convinha segurá-lo. D. Manuel,
personagem de influência, que bem podia tomar um dia o caminho
do trono, era também uma presa que seo devia perder de vista.
A grande influência do cardeal em Roma, o aumento de poder
que ia cada vez mais tomando a inquisição, preparavam o terreno.
Frei Domingos, lembrou seo conviria antecipar os acontecimentos
apressando o reinado do fraco. O prior, como prudente, iludiu a per-
gunta e recomendou a Frei Domingos que, como director espiritual
de Justa Rodrigues, ama de D. Manuel, procurasse dominar o espírito
do duque. Frei Domingos aludiu, sorrindo, às inclinações do duque
para a corte de Castela e em especialidade para alguém dessa corte
que em breve estaria em Portugal (primeira alusão à paixão de
D. Manuel pela infanta D. Isabel). O prior acolheu com um sorriso favo-
rável a alusão e aconselhou que seo perdesse de vista e, por sua
vez, dá informações sobre o carácter fanático da infanta. O frade
retira-se da cela do prior e, a sós, mostra um soberano desprezo por
todas estas vistas políticas, das quais ele procura servir-se como instru-
mentos da sua vingança particular.
INÉDITOS E ESPARSOS
*
No dia seguinte ergue-se João de Évora, ainda preocupado pela
conversação que tivera com o frade na véspera, mas, por disposição
natural, resolvido a distrair-se, toma o caminho da cidade para com-
parecer no lugar marcado a Gil Vaz. No entretantoo adopta reso-
lução alguma enquanto à proposta do frade.
Meio distraído, acha-se à porta da Sé (ou S. Francisco) onde entra
a fazer oração. Impressões que recebe no interior deste templo. Ora
com fervor para que Deus decida na sua consciência a luta que as
palavras do frade nela despertaram e lhe mande a inspiração. No
momento em que está ajoelhado, passam por ele Marta e D. Briolanja.
Sensação que lhe causa Marta e o sentido misterioso que liga às pala-
vras que ela ia dizendo a sua tia. Levanta-se, segue-a até à porta e
avança, colocando-se de lado para a ver passar. Marta repara no ardor
com que ele a fita e baixa os olhos. Afagos de Marta a uma criança
pobre. João de Évora, obedecendo a um impulso irresistível, cobre de
beijos a criança que Marta afagara. Confusão de Marta. João de Évora
propõe-se segui-la. Nisto dobram a esquina três cavaleiros que corte-
jam Marta, descendo um do estribo para lhe falar. João de Évora fita-o
com despeito, queo passa despercebido pelos dois outros cavalei-
ros, que se sorriem e comunicam entre si. Quando Marta continua o
seu caminho, João de Évora, que a vai seguir, é impedido pelos três
cavaleiros, um dos quais o interroga impertinentemente (era o que
falara a Marta). João de Évora responde-lhe com soberba, dizendo-lhe
que «as cabeças dos vilões andam mais elevadas desde que princi-
piaram a rolar pelos cadafalsos e nos desvãos de janelas as dos fidal-
gos e cavaleiros». Esta alusão ao suplício do Duque de Bragança e
assassínio do Duque de Viseu, fez empalidecer o cavaleiro aparente-
mente mais moço, enquanto que um dos outros levou com ímpeto a
o à espada e correu para João de Évora. Aquele, que parecia exer-
cer alguma autoridade nos outros dois, sustém-no e murmura-lhe algu-
mas palavras ao ouvido, fitando em João de Évora um olhar de orgulho
soberano. Neste momento desembocava de uma outra rua uma guarda
de ginetes comandada por Fernão Martim Mascarenhas, o qual fez res-
peitosa cortesia aos três cavaleiros. João de Évora, ainda na posição
defensiva que o gesto do fidalgo lhe fizera tomar, saiu da sua abstrac-
ção à voz de um homem que lhe falava da porta de uma casa junto da
qual se ia dando o conflito. Este homem aconselhava-lhe se aprovei-
tasse da distracção ocorrida para sair do campo que a sua imprudên-
cia lhe tinha tornado perigoso. João de Évora reconhece no monitor
André Girarte, o taberneiro da véspera. Interroga-o sobre o sentido
das suas palavras e dele sabe que dos três cavaleiros, um é o Duque
de Beja, D. Manuel, irmão do Duque de Viseu, assassinado pelo rei
INÉDITOS E ESPARSOS
em Setúbal, os outros, D. João e D. Nuno Manuel, filhos de Justa Rodri-
gues, a ama de D. Manuel e ambos íntimos do duque.
João de Évora segue o aviso de Girarte e entra na taberna, a qual
era de mais a mais o ponto de reunião marcado por Gil Vaz. Esteo
se fez esperar e, alegando para desculpa da demora de alguns minu-
tos as suas ocupações no Paço, onde a proximidade das festas do casa-
mento do príncipe traz tudo atarefado, põe-se à disposição de João de
Évora para o servir na sua introdução na corte. João de Évora emo
procura saber dele quem seja a desconhecida da; as suas indi-
cações, bastante vagas, a nada conduzem o espírito preguiçoso de
Gil Vaz.
*
Gil Vaz entra com João de Évora no Paço. Grande movimento de
pajens e cavaleiros nos corredores e antecâmaras. Impressões de João
de Évora. Gil Vaz serve-lhe de cicerone, mas João de Évora vai sus
peitando que a sua importância na corteo éo grande como ele
dava a entender. Afinal Gil Vaz aproximou-se de um pajem muito moço
e de aspecto agradável e maneiras corteses e procurou servir-se do
seu intermédio para abrir a João de Évora o acesso do gabinete real.
Este pajem é Garcia de Resende, então moço de câmara do rei. Gar-
cia de Resende manifestou a opinião de que seria difícil naquele dia
receber audiência, porquanto o rei está muito ocupado. Que está tra-
tando com Martinho de Castelo Branco e Henrique de Figueiredo dos
grandes preparativos da festa, dos quais Garcia fala com volubilidade
de pajem e entusiasmo de mancebo e que além disso tinham vindo
noticias de Aveiro de que a infanta D. Joana estava mui gravemente
doente e que por isso S. A. tencionava ouvir em seguida mestre Antó-
nio para irem vê-la ao convento alguns dos médicos da corte. Que
depois tinha o rei de conferenciar com o seu conselho a respeito de
negócios de África, dizendo-se que se tratava de tomar Targa e Camice,
sendo a empresa confiada a D. Fernando de Meneses. Gil Vaz pergun-
tou se mestre António já tinha chegado, respondendo Garcia de Resende
que já há muito aguardava o rei no gabinete particular. Nisto os portei-
ros anunciam o rei que atravessou a antecâmara, dirigindo a palavra a
alguns nobres. Impressões de João de Évora.
Passado algum tempo sai da câmara mestre António. Gil Vaz apro-
xima-se dele e apresenta-lhe João de Évora. Mestre António, a princí-
pio distraído, atende com deferência João de Évora desde que o sabe
doutor em Paris; pratica com ele sobre algumas notabilidades médi-
cas da Universidade e promete-lhe o seu valimento. Em seguida, como
se lhe ocorresse um pensamento, pergunta-lhe se tem alguma dúvida
em sair por alguns dias de Évora, numa comissão que o pode adian-
tar no favor real. João de Évora,o obstante se lembrar da sua des-
conhecida,o se atreve a recusar. Mestre António diz-lhe então que
INÉDITOS E ESPARSOS
tendo de partir para Aveiro para observar a infanta D. Joana, que se
dizia em perigo de vida, fora encarregado por el-rei de escolher, além
do Dr. Lucena, físico-mor, um outro físico de confiança que o acompa-
nhasse e que ele iria dar parte a el-rei da sua escolha de João de
Évora se este aceitasse acompanhá-lo. João de Évora aceita e agra-
dece. Mestre António volta à câmara real e traz a concessão do rei.
Gil Vaz, orgulhoso pelo resultado da sua intervenção, convida João de
Évora para jantar em casa de um amigo. Mestre António combina para
o dia seguinte a partida.
*
No entretanto D. Manuel e os seus companheiros continuam caval-
gando até saírem as portas da cidade e procuram os arrabaldes. Con-
versam com familiaridade sobre o encontro com João de Évora e pre-
tensões do povo, sobre algumas lendas que certos pontos de Évora
lhes fazem lembrar. A qualquer alusão sobre as próximas festas anu-
via-se o rosto de D. Manuel. Chegam a uma casa dos arrabaldes. É a
casa de Justa Rodrigues. Entram. Justa recebe-os com alegria e na
conversação revela as suas tenções de se retirar do mundo e encer-
rar-se no convento que projecta edificar. Frei Domingos aparece na
sala e saúda D. Manuel. Este mostra-se constrangido na presença dele.
Justa retira-se. A conversa declina para uma feição política, procurando
o frade e os filhos de Justa instigar o ânimo do duque para tomar a
direcção da resistência às pretensões da monarquia. O duque mostra
reserva e prudência. O frade alude aos boatos da próxima morte da
infanta D. Joana e que depois desse acontecimento D. João II tencio-
nava chamar à corte o seu bastardo D. Jorge, ainda em poder de sua
irmã, para o ter mais próximo dos degraus do trono, para que, dado
algum caso imprevisto, possa tolher o passo a alguém que S. A.o
gostaria de ver sentar-se nele. D. Manuelo pode inteiramente ocul-
tar o seu desgosto ao ouvir isto. D. João e D. Nuno clamam contra as
pretensões reais. O frade fingindo tranquilizá-los, lembra, hipocrita-
mente, que o próximo casamento do príncipe D. Afonso tirará toda
a importância à medida, assegurando um herdeiro directo ao trono.
O tiroo errou o alvo porque D. Manuel, mal podendo reprimir a
sua comoção, chega a soltar algumas palavras imprudentes que a che-
gada de Justa Rodrigues lhe faz reprimir. Justa vê o duque abatido e
procura alentá-lo com a esperança de um brilhante futuro, que é nela
um presságio. O duque mostra que a posição que ocupa, rodeado de
suspeitas e vigilâncias, lheo deixará nunca abalançar-se a grandes
empresas. Justa diz-lhe que tenha fé na sua estrela. Frei Domingos,
entrando na conversa, pergunta se D. Manuel já consultou o célebre
astrólogo judeu que vive junto a uma das portas da cidade, mais afa-
mado que o próprio Galeotti (?) é um verdadeiro profeta. Excita ao
duque e aos fidalgos o desejo de o consultarem e sai.
INÉDITOS E ESPARSOS
*
Frei Domingos, deixando os nobres em casa de Justa Rodrigues,
foi procurar o astrólogo judeu. A habitação desteo desdizia nada
da pragmática astrológica. O frade entra como para consultar o astró-
logo ; mas, sentando-se, principiou a blasonar de céptico e a ridicula-
rizar a ciência do sábio. Este irrita-se. O frade mostra-se conhecedor
de alquimia e de astrologia judiciária e revela-se ao astrólogo como
um competidor respeitável. Este pergunta-lhe o que o levou a pro-
curá-lo. Frei Domingos responde-lhe que a vontade de lhe prestar um
serviço. Pergunta-lhe o astrólogo qual. Frei Domingos diz-lhe que lhe
vem ler o horóscopo. O astrólogo dispensa-o. O frade insiste e diz-lhe
que ele também possui a ciência judiciária e que esta prevê que o
astrólogo está sob uma fatal influência e que ao longe avista o clarão
da fogueira com que se castigam os heréticos. O astrólogo, judeu refu-
giado de Castela, perturba-se e olha com suspeita para o frade. Este
tranquiliza-o assegurando que está para com ele nas melhores inten-
ções e que a prova é vir ensinar-lhe novos e mais seguros processos
astrológicos do que os da antiga ciência. O astrólogo desconfia que
alguma tenção oculta trouxe o frade ali e prepara-se para escutá-lo.
Este aconselha-o a queo fite tantas vezes os astros, mas que pro-
cure achar a previsão dos acontecimentos humanos nos sinais terre-
nos. Que escute mais os homens como melhores guias e conselheiros
para formular os seus vaticínios. Que, por exemplo,o despreze os
avisos, ainda dos mais humildes. Que se ele um dia viesse dizer-lhe
que três nobres, disfarçados, tencionavam procurá-lo numa certa noite,
todos ambiciosos mas prudentes e dissimulados e que a dois podia,
sem receio de desagrado, predizer honras, grandezas e favor real,
sendo provável que o futuroo deixasse muito mentiroso o vaticínio,
mas que a um, ao que trouxesse por exemplo um anel de esmeralda,
o futuro devia ser mais prometedor, elevá-lo, elevá-lo ao mais alto,
o duvidando para isso derrubar alguns obstáculos que lhe tolhiam o
passo, aos últimos degraus—sem dizer a maneira como deixando
apenas entrever que um pouco de boa vontade da parte do consul-
tante, alguma condescendência para com os amigos, facilitaria o
acesso. Que procedendo assim se faria uma astrologia menos visio-
nária. O astrólogo compreendeu o frade e prometeu aproveitar a
lição. Frei Domingos retira-se. O astrólogo, como para se vingar da
superioridade que o frade assumia sobre ele, disse-lhe à saída, que,
enquanto ele falara lhe estivera lendo o horóscopo. Frei Domingos
pergunta-lhe com desprezo o que tinha descoberto. Que a vossa
cabeça anda arriscada, reverendo nono—foi a resposta do astrólogo,
dita com uma simplicidade velhaca. O frade encolheu os ombros coro
desdém e prometeu voltar.
INÉDITOS E ESPARSOS
*
* *
Segundo o frade tinha predito os três nobreso faltaram à con-
sulta do astrólogo. Este, avisado por Frei Domingos, preparou-se para
os receber, fingindo ignorar que debaixo das capas de cavaleiros se
ocultavam três grandes personagens. Promete a D. João e D. Nuno um
futuro de glória, de poder e de valimento real. D. João afecta descrença
e numa frase dá a conhecer a D. Manuel a causa, que é o seu pouco
valimento com D. João II. O astrólogo fala num reinado em que os aba-
tidos serão exaltados, os expatriados restituídos à pátria e honradas
as memórias dos condenados. A predição do judeu causa sensação e
D. Manuel, ao adiantar-se para ouvir o seu horóscopo, tremia. O judeu
permanece por muito tempo silencioso ante a contemplação dos astros,
depois volta para D. Manuel os olhos espantados e fita de novo os astros.
Em seguida mostra-se confundido e hesita em formular a sua predição.
D. Manuel insiste. O judeu diz-lhe que o vê subir a um pontoo alto
que mal acredita em seus olhos, que o que é impossível se realiza, que
todos os obstáculos se aplanam no caminho, que os que julgaram ferir
a árvore só deram mais vigor ao novo rebento, que ele seria o Ven-
turoso, pois que ambições de poder, de glória, de riqueza e até de
amor, tudo realizaria; que o mundo se alargaria para se lhe subme-
ter ao seu império, que o seu nome voaria a partes ignoradas e que
a paz sorriria (?) à sombra do seu manto real. D. Manuel pálido, inter-
rompe o judeu, ao ouvi-lo pronunciar esta profecia, perguntando-lhe
se sabe quem ele é. O astrólogo responde que o ignora mas que os
astros falam claro e que mostram nele um rei. Os nobres retiram-se
impressionados e D. Manuel recompensou generosamente a predição
do astrólogo. Quando eles saem o astrólogo abre um gabinete onde
o frade se ocultou e pergunta-lhe, sorrindo: Que dizes da pro-
fecia? Representais optimamente, mestre, Dir-vos-iam verdadeira-
mente inspirado.
*
*
Transporta-se a cena ao paço e à câmara de D. João II. O rei está
encostado, consultando um livro de onde transcreve nomes para um
rol. Em, por detrás da cadeira real, está Garcia de Resende, com
uma pena molhada em tinta, pronta para substituir aquela com que S. A.
escreve desde que esta seque. D. João mostra-se preocupado no tra-
balho. Como Garcia desviasse o rosto parao ler o que o rei escre-
via,o lhe deu a pena a tempo. S. A. repreendeu-o e mandou-o
olhar, queo se trigava (?) dele e diz-lhe que terminara a lista dos
oficiais da casa do príncipe, escolhendo-os do livro particular em que
se registam os homens queo para os ofícios e que o incluíra a ele
INÉDITOS E ESPARSOS
Garcia de Resende. O pajem mostra-se sentido por ter de deixar o ser-
viço de S. A. e abandonar o Paço. O rei fala-lhe afectuosamente e diz-
-lhe que o continuará a proteger e que vivendo D. Afonso juntamente
com ele rei,o terá Garcia de sair do Paço. D. João II, cansado de
trabalhar, recosta-se numa cadeira de braços e convida Garcia de
Resende a cantar-lhe algumas canções. Garcia canta. O rei faz algu-
mas observações sobre a importância da poesia, afirmando o muito
apreço em que tem a arte. Garcia faz ao rei a confidência de que
também compõe. O rei deseja ouvir-lhe as suas produções. Garcia
obedece. O rei aplaude-o e faz-lhe os maiores elogios, falando dele
com louvor Rui de Pina, que entra na câmara, ee a par os seus
méritos de cronista e de trovador.
*
*
Rui de Pina chama a atenção do rei para os negócios sérios e
de política. Fala-se do casamento e da paz com Castela. Alude-se aos
reparos de Castela em quanto às fortificações na fronteira. Combina-se
a resposta. Em seguida entram Henrique de Figueiredo e Martinho
de Castelo Branco. S. A. dá algumas instruções para as festas do casa-
mento. Antão de Faria vem depois com o prior do Crato e Fernão Mar-
tins de Mascarenhas; fala-se em negócios de política em África, França,
Roma e Inglaterra, na doença da infanta D. Joana e probabilidades
da sua morte. O rei manifesta a vontade de educar na corte D. Jorge.
Observações do prior do Crato sobre a repugnância da rainha. Antão
de Faria aconselha S. A. que procure a rainha e cavalheiramente lhe
peça para receber o bastardo. Depois de algumas hesitações S. A.
adopta o conselho. O rei fica só com Antão de Faria. O privado é mais
explícito agora, desvanece ao rei os receios que podia ter de encon-
trar da parte da rainha uma resistência que o humilhasse. A existência
em Évora de uma filha natural do Duque de Viseu, que a rainha e
D. Manuel, irmão do duque, para subtraírem à perseguição, que
receiam do rei, fazem educar como filha do antigo médico da infanta
D. Beatriz, sua mãe, torna a rainha cautelosa e pouco disposta a exa-
cerbar o ânimo de seu esposo. Antão de Faria, há muito ao facto da
existência daquela filha natural de D. Diogo, comunicou o segredo
ao rei que, fingindo ignorá-lo, principiou a encher de honras e distin-
ções o Dr. Lucena, a ponto de o atrair a si e, a pretexto desta pro-
tecção encarregou-se de lhe casar a filha com um dos pajens de sua
casa muito favorito de S. A. Estas vistas contrariavam muito a rainha e
D. Manuel, o qual favorecia as aspirações de D. João Manuel, colaço
do duque, ào da filha de D. Diogo e viam no casamento, que S. A.
premeditava, uma aliança desigual. O rei sabia-o, o que mais o fazia
insistir no seu projecto. Despedindo Antão de Faria, o rei mandou, por
Garcia de Resende, parte à rainha que a iria procurar e chamou Antão
INÉDITOS E ESPARSOS
de Figueiredo, moço do guarda-roupa, para que o vestisse. Era este
o noivo destinado por S. A. à filha suposta do Dr. Lucena. Era um rapaz
cheio de vícios que, por uma destas singularidades frequentes nos
homens mais severos, era muito predilecto do rei, com quem tinha
grande familiaridade. Antão de Figueiredo tardou em responder ao
chamamento do rei. S. A. repreendeu-o. O pajem defende-se seca-
mente. O rei, vestindo-se, pergunta-lhe o motivo do seu desgosto.
Queixa-se o pajem de que S. A. sendo eleo bom servidor,o lhe
dava mais que 1500 rs. de moradia, sem tença nem outra coisa.
O rei, sorrindo, pergunta-lhe quem lhe sustenta seis homens de
capa, seis moços, quatro escravos e duas escravas brancas e dois
ginetes e duas azémolas? Ao enleio de Antão, o rei acrescentou que
se calasse que ele dispunha do seu guarda-roupa para tudo porque
ele lhe fazia disso mercê eo porque o ignorasse; portantoo
tinha razão de queixa poro receber mais tença. Acabando de ves-
tir-se tomou a direcção dos aposentos da rainha.
Antes de receber o aviso da visita do rei, a rainha estava só com
uma das suas mais intimas damas. Adormecida, com a cabeça sobre
os joelhos da rainha, está a filha de D. Álvaro de Bragança, que ficou
em Portugal e foi sempre educada na corte. A rainha afaga tristemente
a cabeça da criança e suspira. A dama interroga-a por esta tristeza.
A rainha diz que esta criança lhe faz sempre pena; que a acha triste
por dormir assim sobre um regaço real. As feridas que as últimas
lutas do rei e dos nobres abriram no coração da pobre princesao
fecharam ainda; ainda estão iminentes as lágrimas pela sorte desgra-
çada de seu irmão e dos seus, lágrimas que diante do esposo, que
deveria ser o confidente das suas penas, ela tinha que reprimir.
Lamenta a realeza; sem elao teriam tido lugar as cena3 que lhe
despedaçavam o coração. Recorda-se de que um destino fatal parece
pesar sobre a sua família. Lembra-se dos infortúnios da rainha Isabel,
mulher de Afonso V, da época de lutas e dissensões em que se fez
o casamento com D. João e, chorando, lamentao ter a obscuridade
de uma aldeã. Em seguida tira do seio uma carta de sua mãe, a infanta
D. Beatriz, que lhe fala no filho natural de D. Diogo, que vive obscu-
ramente em Pinhel e lhe pede que vigie sempre por D. Manuel e
por a filha natural a que já nos referimos no capítulo antecedente.
Mostra a incerteza das suas acções. Vê essa pobre rapariga próxima
a ser sacrificada à vontade de el-rei e nem ousa manifestar a sua
opinião e o seu interesse por ela, com receio de excitar descon-
fianças. É neste momento que recebe o aviso da visita do rei; oculta
apressadamente a carta da infanta e acorda a criança para que vá ao
encontro do rei a beijar-lhe a mão.
INÉDITOS E ESPARSOS
«
» *
D. João II entra no aposento da rainha com o sorriso nos lábios;
depois de afagar a criança, que lhe beija a mão, corteja a rainha, sen-
ta-se junto dela e informa-se com interesse da sua saúde. Diz-lhe que
a sua ocupação nos preparativos da festa lhe impediu de a visitar mais
cedo. Dá-lhe conta de alguns projectos meditados para os festejos e
pede-lhe mesmo um conselho. Diz que tenciona permitir o uso de
sedas e pergunta à rainha se já viu as quem chegado do estrangeiro.
Encaminhando a conversa para o assunto que o trouxe ali, manifesta o
receio de que algum desgosto venha transtornar estas festas, pois
que as notícias vindas de Aveiro a respeito da saúde da infantao
más. A rainha mostra-se sinceramente sentida. D. João, ponderando os
resultados daquela morte, menciona o nome de D. Jorge. A rainha
o pôde reprimir um movimento de desgosto que o rei fingeo
perceber. Continua, pedindo desculpa à rainha por se referir a um
assunto de antigas dissensões conjugais, felizmente hoje acabadas, .
mas que, enfim, é pai e como talo pode ver sem apreensões a
pobre criança privada do benéfico carinho da sua santa irmã, D. Joana;
que, confiando no ânimo generoso da rainha, ousava vir pedir-lhe que
abrisse os braços àquele pobre órfão, que ia ficar sem as caricias de
uma mulher de que tanto precisava. A rainhao pôde suster as lágri-
mas à ideia do sacrifício que se exige dela e lembra a D. João que ela
lhe supõe um coração diferente do coração humano; que já sacrificcu
muito à realeza, as saudades, a afeição fraternal e o orgulho de esposa;
pede-lhe que ao sujeite a uma nova humilhação. D. João afirma-lhe
queo se humilha perdoando nobremente antigas culpas e esten-
dendo ao a uma criança, que ao ofendeu. E julgais que lhe
posso abrir o coração também ? exclama a rainha. O rei diz-lhe
que sim, porque lhe conhece a generosidade e depois, como exemplo,
mostrou como ela trata em sua casa a filha de D. Álvaro, de quem
recebeu muitas injúrias e que de Castela ousou escrever-lhe uma
carta insolente.
A rainhao pôde deixar de perguntar-lhe por queo estende
a mesma generosidade ao bastardo de Portel (primeiro do Duque de
Viseu). D. João, já menos bondoso, responde-lhe que pela tranquili-
dade do reino; que a infanta D. Beatriz (perdoasse-lhe falar assim de
sua mãe) tinha já dado provas de leveza, deixando apoderar-se a cabeça
de seu filho de ideias loucas que lha perderam; que, por felicidade
desse bastardo, julgava bom arredá-lo dessas influências perigosas.
Por isso achara aplicável a receita que a infanta e os reis de Castela
em tempo aconselhavam para seu filho D. Jorge. A rainha observa-lhe
que, para quem vem pedir o esquecimento, ele se mostra muito lem-
brado. D. João afirma que sabe esquecer eo hesita em fazê-lo quando
INÉDITOS E ESPARSOS
só tem a sacrificar o seu orgulho. Que às vezes chega a ser dema-
siado confiado. Acaso manifestou alguma má vontade contra D. Manuel?
o o educou junto de si,o lhe deu aumento e riqueza? — o que o
o impede de conspirar um pouco, acrescenta sorrindo. A rainha
defende o irmão, dizendo injusta a acusação. O rei tranquiliza-a dizendo
que é leve o pecado do duque, apenas o de escutar às vezes, com
complacência, as lisonjas de certos amigos imprudentes eo afastar
de si alguns visionários perigosos; mas que confia no bom senso e
juízo do duque, queo dará passo algum que o comprometa. Enquanto
a chamarem-lhe cruel, repare a rainha que nem para todos os bastar-
dos da família dele, ele se apresenta como perseguidor. A insinuação,
que parece referir-se à filha do Duque de Viseu, aterra D. Leonor,
que emo procura ler no rosto de el-rei o sentido daquelas palavras.
D. João repete o pedido de chamar à corte D. Jorge. A rainha, ainda
atemorizada com o que ouvira, acede, acrescentando que ele será o
companheiro de jogos de Beatriz, a filha de D. Álvaro. D. João beija
ao à rainha, com tanta galantaria e afecto que a comove até às
lágrimas.
Nisto entra na sala D. Afonso. É ainda muito moço, formoso, mas
efeminado, traja com um apuro excessivo cetins e arminhos e em tudo
mostra delicadeza. Aproxima-se do rei e da rainha e corteja-os com
respeito, mas ao mesmo tempo com certa petulância de filho amimado.
A rainha olha-o com amor. D. João, que o viu entrar, acolheu-o com um
olhar de profundo afecto, mas com uma certa severidade perguntou-
-lhe, apontando para o cinto desarmado, onde tinha deixado a espada?
D. Afonso sorriu e respondeu que achava impróprio do trato domés-
tico uma arma de ofensa ou defesa, quando se vivia em completa har-
monia. O rei recorda-lhe que já mais do que uma vez o encontrara
desarmado e que, para um futuro rei de uma nação, que conquistou,
palmo a palmo, o solo que ocupa e que vai, dia a dia, alargando à
custa do sangue dos infiéis, é uma triste garantia. D. Afonso observa
ao rei, com certa confiança, que eleo tem culpa em ter nascido em
época de menos guerras e cavalarias e que talvez a sua pouca tendên-
cia para as armas provenha de ter visto, quando começava a fazer uso
da razão, infringirem-se as regras de cavalaria na pessoa de D. Joana
de Castela que se sacrificara ao bem do estado, o que mostrava que
essa devia ser a razão principal das acções de um rei. D. João II mos-
trou-se irritado com a atrevida alusão do filho. A rainha interveio sor-
rindo, lembrando a D. Afonso que esse acto político lhe preparara a
felicidade, assegurando-lhe o próximo casamento na casa de Castela.
o sou eu que o censuro! exclamou o príncipe. Vejo antes
nele uma justificação do meu amor pela paz, cujo reinado chegou.
O rei, mais severo, replicou que o amor pela paz obriga muitas vezes
à guerra e queo é cuidando de enfeites e galas próprias de mulhe-
res que os grandes reis se formam. D. Afonso pergunta ao rei qual a
razão por que ele repreendeu um dos moços da sua câmara por usar
INÉDITOS E ESPARSOS
espada, sendo criança. Porqueo quero vê-las empunhadas por
quem aso saiba honrar, brandindo-as. Espero que o meu filhoo
esteja neste caso eo esqueça que é neto de Afonso V, do Infante
D. Pedro, de D. João I e que da sua idade fui eu armado cavaleiro na
mesquita de Arzila, onde combati ao lado dos mais valentes. Visi-
velmente irritado, D. João retirou-se recomendando a rainha que se
esforçasse por criar um rei como o povo havia mister.
*
A rainha, ficando só com o filho, chama-o para junto de si. Afonso
senta-se-lhe aoss em um tamborete raso. A rainha passando-lhe a
o pelos cabelos, censura-lhe os modos de acolher as observações
de el-rei. Afonso desculpa-se, perguntando se seu pai o desejaria ver
de armadura e viseira calada ao vir receber as bênçãos de sua mãe.
A rainha sorri com complacência, mas adverte-o que o rei vê com
desgosto o muito cuidado que o príncipe dá aos enfeites, que D. João
é inimigo de homens efeminados, que olha para a companhia que
D. Afonso mais frequenta, com desgosto visível. Afonso defende os
seus amigos. Prosseguem estes conselhos maternais e terminam por
a rainha dar o seu parecer sobre o costume que D. Afonso tenciona
usar por ocasião das festas e sobre os lenços bordados de que S. A.
usa e contra os quais tinha acabado de falar, contando o que o rei
dissera a um fidalgo que os usava.
Anuncia-se D. Manuel. A rainha recebe o irmão com evidentes
sínais de afecto. Pede-lhe, sorrindo, que venha em seu auxílio para
fazer do príncipe um homem, comunicando àquela cabeça leve um
pouco do seu juízo. O duque responde em favor de D. Afonso. Este
agradece, e acrescenta que o duque alguma coisa tem na consciência
que lheo permite aceitar os gabos da rainha. A razão desta alusão
é que o príncipe, que desde já podemos dizer o raptador da judia
Ester, julgou que esta era amante de D. Manuel, por mal interpretadas
informações colhidas. D. Manuelo entendeu o verdadeiro sentido
da alusão e fitou o príncipe,o ousando acreditar e ao mesmo tempo
receando, que ele pudera referir-se ao mais recôndito segredo do
seu coração, ao seu amor a Isabel de Castela, que sentia desde criança
quando a vira em Moura nos tempos das Terçarias. No entretanto, o
príncipe, sempre inquieto, levantou-se para brincar com Beatriz, que
adormecera no berço, passando-lhe pelas faces a ponta de um lenço
ao de leve.
D. Manuel, aproximando-se da rainha, perguntou-lhe se era
verdade que el-rei tencionava chamar D. Jorge à corte. A rainha res-
pondeu-lhe afirmativamente. E V. A. consente? disse D. Manuel
com desgosto, Assim é preciso. Sempre humilhações, exclama
D Manuel, suspirando. D. Leonor recorda-lhe que elesm alguém
INÉDITOS E ESPARSOS
a proteger e que por isso convémo irritar el-rei, contrariando-o.
D. Manuel diz à rainha constar que D. João tencionava apressar o
casamento de sua sobrinha Marta com Antão de Figueiredo. Também
se lhe consentiria isso? A rainha promete opor-se formalmente. Nisto
Beatriz queixa-se de D. Afonso. A rainha repreende o filho e pede a
D. Manuel que se retire com ele. Depois de a cortejarem saem os dois.
*
*
Pelo corredor que conduz aos aposentos do duque, D. Afonso,
apoiando-se no seu braço e precedido por pajens com tochas e segui-
dos por oficiais de armas em riste, vai conversando com D. Manuel,
queixando-se das injustiças de opinião que lhe atribui a ele príncipe,
uma cabeça estouvada, em quanto que muito levianamente concede a
D. Manuel uma prudência e sisudez, que em parte é simulada.
D. Manuel sorri e pergunta-lhe em que fundamenta o seu modo de
pensar. Afonso responde vagamente, referindo-se por obscuras alu-
sões à desconhecida de Almeirim que ele diz estar agora"»mais perto
do amor que a procura. O duque julga que D. Afonso suspeita alguma
coisa do seu secreto amor pela princesa e confunde-se. Esta confusão
aumenta o bom humor do príncipe que se despede do duque, rindo
de boa vontade.
Filipe do Casal, um dos oficiais que mais de perto seguia os
reais parentes, pôde ouvir a conversa dos dois e por ela ficou sus-
peitando ser D. Manuel o raptador.
D. Afonso seguiu até chegar aos seus aposentos. Aparência des-
tes ; o luxo. A corte de D. Afonso é demasiado jovial. Todos elegan-
tes, moços e estouvados. D. Afonso entretém-se com eles de aven-
turas amorosas. Referem-se a Ester, que se sabe estar em Évora.
Afonso mostra-se enfadado dela e julga conveniente, atendendo ao seu
próximo casamento, livrar-se de todos os laços importunos. Antão de
Figueiredo, um dos mais afeiçoados ao príncipe, pede-lhe autorização
para se encarregar dessa empresa. O príncipe sorri e lembra-lhe
que ele está igualmente em vésperas de casar. Antão encolhe os
ombros respondendo que lhe pesam pouco esses laços eo receia
que o estorvem.
Depois de alguma discussão, organiza-se um bando para irem
tentar a empresa de remirem o príncipe das ligações amorosas que
o prendem. E com a maior alegria saem do quarto para se espa-
lharem pelas ruas de Évora,
(Fim do programa do 1.° volume).
Esboço de um programa para o conto A vida
nas terras pequenas.
Cap. I Quem eram Estêvão e Adelina. Motivos da sua partida
para a vila de Meloais do Duque. Sentimentos de um e de outro.
Cap. II A chegada. Aspecto da vila. Comentários do público.
A casa. A vizinhança. A senhoria. Visita do boticário e da sua gente.
Reflexões de Estêvão e de Adelina.
Cap. III Estêvão é levado pelo boticário à câmara. O presi-
dente. Vítor de Ansão e o que se diz dele. Desilusões de Estêvão.
Estêvão entra em exercício.
Cap. IV — A visita da família do administrador. Tipos. Conver-
sação. O reverso da medalha. Fala-se no presidente, no boticário e
em Vítor de Ansão. Convite. Comentários da vizinhança.
Cap. V Os serões de Estêvão. Uma tentação. Catequese incons-
ciente de Adelina, Resoluções de Estêvão. Na botica.
Cap. VI — A visita ao boticário. Confidências de Matilde e Adelina.
Conselhos desta. Despeitos de Joana. Procedimento de Estêvão. Joga-se
o quino. Murmura-se do administrador. Reflexões dos irmãos em casa.
Cap. VII O serão em casa do administrador. A família. O dele-
gado. O juiz e Eurico. Charadas e recitação. Murmura-se do presi-
dente e do boticário. Oposição ao clube. A Sociedade Filotécnica.
Oferecimento a Estêvão. O doutor Venceslau e os sonetos.
Cap. VIII Clínica de Estêvão. Em casa da moleira. O cónego e
a viúva. Entrevista com Joana. Conselhos de Estêvão. Desfeitas de
Matilde. Desgosto de Estêvão contra o boticário.
Cap. IX No clube. O que se diz de Estêvão. Desgosto do pre-
sidente...
Adelina encontra Vítor em casa da moleira. Carta de Vítor a
Estevão pedindo-lhe para deixar voltar a irmã, que eleo voltará.
INÉDITOS E ESPARSOS
Carta anónima a Adelina participando-lhe os sacrifícios de Estêvão.
Resolução de Adelina. As jóiaso parar às mãos de Vítor. Suspeitas
de Estêvão. Vítor convence o Dr. Venceslau a deixar-se operar.
PERSONAGENS
Adelina Dezoito anos, bondosa, sem afectação. Cheia de boa
fé para com todos. Passando através do mal e das intrigas sem sus-
peitar-lhe a existência. Confia no irmão como num herói.
Estêvão Espírito honesto, maso entusiasta. Incapaz de uma
paixão extrema; mas com o coração amoldado para sentimentos bran-
dos, O amor fraterno é o mais ardente afecto que lá encerra. Pode
sacrificar-se mas reflectidamente ou como obedecendo a um dever e
o por irresistível impulso de entusiasmo.o forma sonhos dourados
nem ambiciosos. Homem para transigir com o mundo tal como ele é.
Vítor de Ansão Rapaz de excelente educação e hábitos da
moda. Vive na província porque os seus tereso lhe permitem
viver em Lisboa. Convive pouco, É mais entusiasta do que Estêvão;
mas exigente em relação ao futuro. Pouco dissimulado. Mais querido
entre a classe baixa do que entre a média, que,o obstante, se
lisonjeia sempre que lhe merece atenções, o que raras vezes sucede.
Estouvado nos seus primeiros dias da mocidade.
D. Roberta de Ansão Senhora de fina educação e profundo
bom senso. As provações da sua vida têm-lhe dado uma têmpera de
tolerância e uma repugnância à convivência que perfeitamente se
identifica com o génio de Vítor, por quem é extremosa.
Baltasar Boticário. Génio vivo e forte, fácil em encolerizar-se.
Homem político e a alma do presidente da camara. Exerce descarada-
mente a medicina e promove guerra aos médicos que lheo nisso, à
mão. Gosta de fazer ostentação da sua liberalidade. Descura um pouco
a farmácia.
D. Maria do Céu Mulher dele.. Tipo de burguesa faladora,
curiosa e maledicente. Exaltando a importância do marido, mas sem-
pre deixando entrever que é de procedência superior à dele; mas
queo olhou a isso porque a verdadeira distinção está no saber e
na inteligência.
Matilde e Joana As filhas. Ambas curiosas janeleiras e amigas
de namorar. Matilde, de melhor fundo, tem uma afeição sincera pelo
praticante da botica, a qual,o obstante temporárias infidelidades,
sobrevive sempre no seu coração. Joana é menos ingénua. Aspira a
um casamento vantajoso. Odeia mais cordialmente do que a irmã, a
filha do administrador, e ambiciona o afecto de Estêvão. Em tempo
namorou-a Vítor de Ansão.
INÉDITOS E ESPARSOS
Belchior Azevedo O administrador. Homem muito preocupado
da sua posição oficial, falando a todo o momento dos seus ofícios ao
governador civil e ao governo. Com pretensões a conhecedor dos
negócios públicos e dos usos diplomáticos.
D. Heloísa Sua mulher. Senhora de educação literária mas sem
senso. Preciosa ridícula. Discorre em literatura e pretende que a sua
casa seja um grémio literário. Escolheu para os filhos nomes român-
ticos. Casa bem mobilada, mas sem feição característica.
Julieta Filha do administrador. Participa um pouco das qualida-
des da mãe. Aspirações a espirituosa e julga-se muito superior a todas
as raparigas da vila. Fala sempre em Lisboa, teatros, etc. Antigo namoro
de Vítor de Ansão.
Eurico O irmão de Julieta. Estudante dos primeiros anos da
Universidade. Um pouco pedante com pretensões a falar de tudo com
eloquência.
O Zé do boticário Pobre rapaz que ama sinceramente a filha
mais nova do patrão. Aflige-se quando ela lhe é infiel e perdoa-lhe,
de todas as vezes, as infidelidades.
Dominguinhos da Praça Um pateta. Cavalheiro servente de
quase todas as meninas da vila. Adivinha charadas figuradas, faz flo-
res de papel, arma e enfeita altares, superintende em todas as fun-
ções. Recita ao piano.
O delegado Rapaz namorador, cujo maior prazer é conversar
com senhoras. Conviva do administrador e sarcástico contra o partido
do presidente. Fala muito no seu tio do Supremo Tribunal.
O juiz Surdo. Apaixonado do voltarete e contando sempre as
mesmas histórias.
O presidente da câmara Criatura cheia de importância e no
fundo um parvo, que o boticário move à vontade. Proprietário rico e
influente na terra.
O cónego—Velho rabugento e sem contemplações com ninguém.
A viúva Mulher positiva e metódica.
Dr. Venceslau Poço de direito rábula. Metrificador de sonetos
a propósito de tudo.
O capitão do destacamento Gordo e comodista.
Adelina Luta contra o seu amor a Vítor pelo mau conceito em
que o fazem ter as intrigantes.
Estêvão Preocupado com a felicidade da irmã, faz por vencer
todas as causas pessoais de desgosto. Só se exalta quando supõe amea-
çada a felicidade de Adelina.
Vítor—Deixa-se possuir cada vez mais pelo amor a Adelina, cuja
frieza oo aflige.
D. Roberta Ambiciona que o casamento de Vítor lhe dê
mais uma filha e netos que suavizem a velhice. Aprova a escolha
INÉDITOS E ESPARSOS
do filho e condescende com Vítor em salvar Adelina de -censuras
públicas.
Joana Odeia Adelina quando suspeita do seu amor a Vítor.
Odeia Estêvão por este a haver razoavelmente dissuadido do seu
amor.
Julieta Tem quase os mesmos motivos que Joana.
Baltasar—O seu desgosto contra Estêvão procede da intimação
do administrador para se coibir de exercer a medicina e do parecer
sobre a criação de porcos.
O. Heloísa Suspeitas sobre as tenções de Estêvão em relação
ao cónego.
A VIDA NAS TERRAS PEQUENAS
Dois capítulos de um conto.
I
TINHA vinte e quatro anos Estêvão de Urzeiros quando recebeu,
legalmente selado e rubricado, um diploma que o declarava
apto para tratar de medicina e de cirurgia em todo o conti-
nente, ilhas e mais possessões do reino.
Concluíra, sem prémios nem erres, a sua formatura na Escola do
Porto, à custa de alguns sacrifícios do pai, que nesta cidade exercia
com escrupuloso zelo um modesto emprego público.
Durante o tirocínio escolar, Estêvãoo se apaixonara por a
ciência, nem prometera ser homem para a fazer progredir; mas é
certo também queo a odiava, nem lhe negava as atenções devi-
das. Convivia com ela, como a grande maioria dos maridos convi-
vem com as suas mulheres, sem extremos de paixão mas também
sem as tratarem mal.
Meses antes do ultimato dos seus estudos, sofreu Estêvão um
golpe, que sobre doloroso que lhe foi para o coração, veio estor-
var-lhe com um embaraçoso tropeço os primeiros passos na carreira
da vida.
Morreu-lhe quase de repente o pai, deixando-lhe por única
herança uma irmã de dezoito anos, tendo por dote bondade e for-
mosura e que, além do irmão, ninguém mais possuía no mundo a
quem legitimamente se encostasse.
Estêvão recebeu-a com os braços abertos e as lágrimas nos
olhos.
Adelina, que assim se chamava a órfã, desorientada por uma
perda que nunca previra, em que nunca pensara, cingiu-se estreita-
INÉDITOS E ESPARSOS
mente ao peito do irmão, onde sentia bater um coração movido por
os mesmos afectos que a atribulavam, e a consciência desta simpatia
mais lhe engrossava o pranto.
—Não chores, minha pobre Adelina dizia-lhe Estêvão,o como-
vido como elao chores que enquanto eu puder...
Ai,o é o medo do que vem que me faz chorar, Estêvão; é
a saudade do que passou. Eu bem sei que tu me protegerás, tu que és
o bom; e se tu me protegeres, que posso eu recear ?
Esta ingénua confiança no valor do braço a que se apoiava era
sincera na inexperiente criança. E o mais é que ao ouvir aquelas pala-
vras, Estêvão sentia com o simpático orgulho que lhe vinha da cons-
ciência da sua superioridade, o alento de uma nobre coragem. Olhou
para a formosa cabeça que, para chorar, se lhe ocultou no seio, e con-
vencia-se de que em ser a providência daquela orfandade, no velar,
trabalhar, sacrificar-se pela felicidade dela, havia para a alma uma
suave e consoladora tarefa, no preenchimento da qual encontraria
a melhor recompensa a esperar no mundo; porque, se para cá do
túmulo há alguma coisa que se possa chamaru e Inferno, é na
própria consciência que se encontra.
o se julgue, porém, que Estêvãoo antevia sombras quando
alongava a vista pela desconhecida vastidão do futuro.
Antevia-as e bem cerradas!
O leitor experiente do mundoo sóo estranhará estas apreen-
sões, mas antes será capaz de com antecipação indicar os fortes moti-
vos que Estêvão tinha para senti-las.
É uma época solene a da entrada na vida social.
Até àquele momento teve-se por viver o sonhar. Acorda-se então.
É um segundo nascimento quase; é a transmigração da alma
humana para um mundo novo.
Eo há-de ela estremecer na passagem?
Tendes reparado alguma vez nesses pobres emigrantes que,
seduzidos pelos ouropéis de enganosas esperanças, saem meninos
das sombras da sua aldeia e vêm, em folgada peregrinação, até ao
porto de mar onde os espera o navio que tem de os levar a praias
desconhecidas?
Antes de verem o oceano, essas imprevidentes crianças vinham
alegres, riam, cantavam, sem saudades da sua terra, sem terrores do
futuro e suspirando só pelo fim da jornada, que a sua impaciência
alonga desesperadoramente. Mas, à vista do mar, dessa imensidade
de águas que nunca tinham sonhado; à vista do navio, essa move-
diça habitação, que por muito tempo vai ser a sua; quando lhes dizem
quem de perder-se como um ponto naquele horizonte vago, indis-
tinto e solenemente monótono, ao grado daquelas ondas irrequietas,
baixa-lhes ao coração uma nuvem de tristeza, corre-lhes os membros
um estremecimento de receio; assaltam-nos as primeiras saudades, que
o para as tristezas do desterro o que os vapores do Outonoo para
INÉDITOS E ESPARSOS
as cruezas do Inverno, chama-os então da aldeia que abandonaram uma
voz desvanecida em que se confundem o canto das aves, o ciciar dos
arvoredos e o sussurrar das fontes e dos ribeiros.
Assim na vida.s todos, iludidos como essas crianças, vimos
dos risonhos vergéis da infância, através das floridas e pitorescas
veredas da juventude, ansiosos por chegar ao termo da jornada e
confiamo-nos às ondas deste oceano do mundo, em demanda deo
sei que nunca realizado futuro.o nos retêm as flores que se debru-
çam dos caminhos; quando muito, colhemo-las distraídos e sem pie-
dade as desfolhamos, deixando-as no chão murchas e esquecidas, e
seguimos sempre com os olhos e com o pensamento no termo da
estrada que trilhamos.
Mas ao chegarmos à praia, ao vermos diante des as grandes
águas e os que nos precederam, em luta já com elas, ora elevando-se-
-lhes no dorso, ora engolfando-se-lhes no seio, apodera-se-nos então
do coração um certo pavor, fogem-nos dos lábios o riso e o canto
e também sentimos as primeiras saudades do passado, as primeiras
apreensões do futuro.
Estêvão de Urzeiros achava-se neste momento crítico.
E davam-se com ele circunstâncias que mais crítico o tor-
navam.
O coração humano, digam o que quiserem os que o taxam de
egoísta, desfalece menos ante a perspectiva dos perigos quando é
único a arrostá-los, do que quando a tempestade que ameaça feri-lo,
atinge também outro a que os afectos o ligam.
O nosso espírito prevê melhor o futuro quando nenhum outro
futuro depende dele; concebe e previne melhor as eventualidades,
calcula melhor o alcance e a compreensão da desgraça, porque pelo
conhecimento que tem de si, pode pressentir o mal que ele lhe cau-
sará. Mas, se mais alguém sofre connosco, comoo temos consciên-
cia do sentir dos outros, nem podemos antever neles a intensidade
do mal, mais nos assusta o pensamento do futuro porque há nele uma
maior porção de desconhecido e o desconhecido é o eterno terror do
homem.
Estêvão podia fazer entrar como elemento dos seus cálculos do
futuro a sensibilidade do próprio coração, maso a do coração de
Adelina.
Deus só sabia até que ponto qualquer sucesso possível afectaria
aquela delicadíssima índole feminina.
Isto o fazia receoso.
Depois vinha a natureza da missão social que lhe cumpria desem-
penhar.
É natural que o confrangimento de coração que à semelhança
do actor novel, experimenta todo o homem, ao entrar em cena neste
grande teatro da sociedade, seja tanto mais intenso e doloroso quanto
maior é a importância do papel que vai representar.
INÉDITOS E ESPARSOS
No teatro o actor encarregado de um papel sem importância,
de entregar uma mensagem, de anunciar a entrada de uma figura
do drama, queo tem de falar ao coração do público,o pode
sentir a comoção que sente o protagonista, em quem todos os olhos
se fitam, cujas palavras e gestosm de dirigir-se aos afectos, de
excitar a sensibilidade, de desencadear as paixões no público que
o escuta.
E, sendo assim, concebem-se mais justificadas e mais angustiosas
apreensões do que as do estudante de medicina de ontem a quem a
faculdade, em cujo seio viveu descuidado, lhe diz, separando-o de si
e impelindo-o às lutas sociais:—«parte, lida; é tempo de experimen-
tares as armas que te confiei».
O queo estremecer nesse momento solene, o que seo sentir
hesitante, impressionado por uma íntima desconfiança em si próprio,
nas suas forças e faculdades,o é digno de ser médico porqueo
compreende nem compreenderá nunca o alcance da missão que vai
desempenhar.
Na vida que o esperao há afecto humano com queo tenha
de confrontar-se, desgraça que lheo projecte no caminho o seu
triste reflexo, interesse queo possa depender dos seus actos,
segredo queo possa ser confiado à sua lealdade. Abrir-lhe-ão um
dia a porta de uma casa a esperança e as bênçãos; fechar-lha-ão
amanhã a ingratidão e as injúrias; recebê-lo-á hoje aqui o desespero,
acolá o crime, além a miséria e, como um espectro implacável, lhe
surgirá a cada momento a morte, sob formas sempre diversas e sem-
pre pavorosas, cingida com a capela virginal umas vezes, coroada
outras pelass de velhice, animada por o sorriso da infância ou
sinistra com os vestígios do crime.
Vai pois viver em uma atmosfera de afectos, mover-se no íntimo
seio das famílias, onde cada movimento levanta um capricho, magoa
um preconceito, agita um interesse ou revolta uma paixão.
O que, sabendo isto, aceita com desassombro a missão, ouo
tem inteligência para a compreender, ou possui um carácter de deplo-
rável natureza.
Estêvãoo estava em nenhum destes casos. Ao seu carácter
faltava-lhe, diga-se a verdade, um elemento dos mais poderosos para,
na sua situação, lhe infundir coragem: a paixão do ideal.
Os que no mundo perseguem esta luminosa visão, esta fada
atraente e sedutora, aqueles cujas vistas penetram através do mundo
das realidades e além dele, descobrem um mundo novo, o mundo
das ilusões e da poesia, sentem-se, ao empreender uma destas tare-
fas árduas e dolorosas, rodeados de um prestígio que lhes dá alentos
e, longe de desanimarem, mais se lhes exalta o ânimo com as prova-
ções da vida. Estas frontes humanas parecem ambicionar uma coroa,
seja embora de espinhos, que misturem o seu pungir às embriaga-
doras comoções da glória.
INÉDITOS E ESPARSOS
Estêvão, porém, era um homem positivo. A imaginaçãoo lhe
coloria a perspectiva com tintas suas; deixava-lhe o colorido real.
Antes da morte do pai, Estêvão, olhando friamente para o futuro,
concebera uns projectos que nada tinham de ambiciosos. Conten-
tava-se em estabelecer-se como facultativo municipal em qualquer
terra da província e realizar aí um casamento, senão rico, reme-
diado, emborao presidissem às núpcias nem a beleza da noiva
nem a intensa paixão do coração.
Ao sentir-se o amparo de Adelina, Estêvão, sem renunciar de
todo aos seus projectos, recuou para mais remota época a realização
de parte deles e tomou para primeira tarefa a felicidade da irmã.
Para estes brandos afectos tinha ele coração, queo para paixões
violentas.
Era honrado, prudente, exacto no cumprimento dos seus deve-
res, regular na divisão do seu trabalho; um destes espíritoso raros
hoje em que os hábitos sociais eo sei que auras que se respiram
nas cidades, fazemo predominantes os temperamentos nervosos,
com as suas alternativas de desalento e de coragem, de actividade e
de indolência, queo os deixa trabalhar com regular constância em
qualquer obra empreendida. Mas por isso mesmo que via tudo fria-
mente, Estêvãoo desconhecia as muitas dificuldades com que tinha
de lutar.
Oferecera-se-lhe um partido municipal na vila de Meloais do
Duque, pseudónimo que adoptamos para comodidade da narração e
por julgarmos queo pertence a trato algum de terra na corografia
pátria. Estêvão escreveu ao presidente da câmara, este respondeu-
-lhe, entraram em negociações e enfim Estêvão foi nomeado superin-
tendente da saúde pública da mencionada vila.
Apurou, a muito custo, o dinheiro preciso para as despesas de
instalação e de transporte, preparou a bagagem e partiu na companhia
da irmã para a sua nova terra, levando em dois baús todos os seus
haveres, em sete ou oito livros a sua ciência e numa pequena caixa
de folha os seus diplomas de formatura e de nomeação de facultativo
municipal.
Estêvão ia grave e meditabundo. Interrogava-se intimamente,
achava-se inexperiente; procurava pesar a ciência com que podia
contar, achava-ao leve! E aos ouvidos soava-lhe lugubremente
como formidável memento, pronunciado pela boca de espectro per-
seguidor, o aforismo hipocràtico: Vita brevis, ars longa, occasio
celers, experímentum pericolosum, judicium difficile.
Estas cinco breves orações eram como badaladas a dobrar por
finados; faziam-no esmorecer.
Adelina, pelo contrário, ia descuidada e distraída pelas impres-
sões da jornada. A alegria dos dezoito anos principiava já a romper a
nuvem de luto com que a morte do pai a assombrara. Os sorrisos
vinham-lhe já aos lábios talhados para eles.
INÉDITOS E ESPARSOS
Elao sentia apreensões pelo futuro. Tal era a confiança que
depositava em Estêvão queo concebia perigos que eleo pudesse
arrostar, desgraça que a ferisse sobo valiosa protecção.
O irmão com a sua robustez, com a sua juventude, com a sua
ciência, com a sua posição social, era para a ingénua criança um
herói, que lhe inspirava coragem, a qual florescia em sorrisos naquela
expressiva e simpática fisionomia. Porque era deveras simpática Ade-
lina com os seus olhos negros e amoráveis que temperavam sempre,
pela expressão de bondade que tinham, o sorriso da travessura e ino-
fensiva malícia que às vezes lhe brincava nos lábios juvenis.
Era Adelina uma destas raparigas delicadas de compleição mas
em quem a delicadeza nada tem de mórbido; ondeo dominao
absolutamente o sistema nervoso que as torne escravas das suas capri-
chosas determinações.
Com este carácter, Adelina era para Estêvão uma óptima compa-
nheira de jornada, temperando com o seu bom humor as impaciências
do irmão.
11
Q
UER-ME parecer que poucos leitores necessitarão que eu lhes
descreva as impressões recebidas por um pobre viajante,
extenuado pelas fadigas de uma fastidiosa jornada, descon-
juntado pelo chouto de uma cavalgadura manhosa, numa palavra,
mal disposto do corpo e do espírito, ao entrar de noite em uma
vila do interior da província.
Uma vila! Perdoem-me as muitas pessoas estimáveis constran-
gidas pelos fados a contar num desses circulozinhos sociais os tre-
zentos sessenta e cinco dias do ano, mas a minha sinceridade cons-
trange-me a declará-lo: uma vila é a mais impertinente localidade
em que um homem pode desgastar as rodas do seu complicado
mecanismo.
Ainda se é uma dessas povoações, de onde se escuta o rugir do
mar vizinho e que participa do ar de família quem todas as terras
marítimas, um ar alegre, desafogado, que é como o sorriso das povoa-
ções, modifica-se um pouco a feição característica e a almao se acha
oprimida ao encerrar-se ali.
Mas, se é uma terra bem encravada no centro da província, uma
dessas pinhas de casas velhas, cortadas por quatro ruas tortuosas e
doze vielas intransitáveis, que de quando em quando interrompem o
curso de uma estrada, se é uma terra bem sertaneja, onde em geral
se fala do mar como de uma coisa mitológica, uma vila com uns forais
e um pelourinho e uns fidalgos e uns pardieiros que foram uns palá-
cios, uma vila, enfim, perfeito espécime do género, eo excepção,
INÉDITOS E ESPARSOS
duvido que haja coração despreocupado queo se sinta opresso ao
entranhar-se nela. Ora a vila de Meloais do Duque era tudo isto.
Por isso Estêvão e até a própria Adelina, cediam a uma opres-
sora melancolia quando as cavalgaduras que os transportavam come-
çaram a trilhar o lajedo das ruas estreitas eo iluminadas da terra
que tinha de ser o campo de manobras do novo facultativo.
Adelina, a jovial Adelina, olhava para as casas altas e velhas
que parecia curvarem-se para a verem passar, procurava devassar o
segredo das adufas e crivos discretos que sentia entreabrirem-se a
satisfazer curiosidades de quem por dentro deles se ocultava, perdia
o olhar nas lojas funebremente esclarecidas por uma mortiça luz de
azeite, que desenhava em escuro o grupo de fregueses estacionados
noo da porta a desfiar a crónica do dia, e a pobre rapariga,o
sequiosa de espectáculos alegres, experimentava esta aura de tris-
teza, que precede às vezes uma explosão de pranto. Mas cedo triun-
fava desta influência com uma reflexão jovial.
Olha, Estêvão, repara dizia ela, mostrando ao irmão uma
casa por diante da qual passavam naquele momento esta casa,
com aquela janela aberta e assim corcovada,o te parece mesmo
uma velha a tossir?
Estêvão desviou o olhar distraído para a casa em questão e res-
pondeu com um sorriso à lembrança da irmã.
Ao passarem os nossos dois desconfortados viajantes, deixavam
atrás de si uma esteira de comentários trocados de adufa para adufa,
de uma loja para outra, da rua para as janelas, ou entre os grupos
que estacionavam nas esquinas e largos.
É ele, é dizia, por exemplo, uma voz de mulher que saía
através de uns crivos meio descerrados.
Bem disse o Chico do boticário que eles vinham hoje res-
pondia outra voz da água-furtada fronteira.
Vai na burra do Zé Domingues.
E a madama é mulher dele?
Pelos modos dizem que é irmã.
E tem só aquela ?
Tem. O pai morreu no outro dia.
E ele é novo ainda ?
É uma criança; pois se ainda ontem, se pode dizer, acabou
os estudos.
Hum! E então já lheo assim o partido ?
Mais adiante ficou a dizer um caixeiro de balcão para a menina
da casa defronte, com quem provavelmente tinha de vir a casar.
É o médico novo.
Ai é ?! E a senhora que vai com ele ?
Diz que é irmã.
Ele é solteiro, Manelzinho?
INÉDITOS E ESPARSOS
É, sim, menina; veja se lhe serve.
Orao é por isso. Também!
Não,o se constranja; a irmã também é solteira.
Adeus, adeus;o se ponha a brincar. Olhe, viu se ela ia de
chapéu ?
Para lhe falar a verdade,o reparei. Acho que não; levava
assim uma manta ..
Um cachené ?
Não, menina. Era assim uma coisa... seria um cachené, seria.
Mas olhe, o vestido era de fazenda?
Isso agora é que euo sei, menina.
Um homem, que, ao dobrar uma esquina, parara para os ver pas-
sar, disse, entrando depois na loja próxima, para outro que, embru-
lhado num capote e calçado com socos e meias de, estava sentado
no banco da porta :
Então chegou o bicho?
Quê?
O cirurgião novo.
Ai, pois era esse que ai passou? Ora com Deus venha.
Seo for melhor do que o outro...
Hã-de ser como todos; o melhor sempre éo lhes cair nas
mãos.
Isto daqui até que se ponha ao facto da natureza das pessoas!
A resposta foi um prolongado assobio, acompanhado de um movi-
mento da cabeça sobre o dorso.
Quemo ? quemo ? perguntava, incorporando-se no
grupo que se formara numa esquina, um indivíduo que os vira passar.
É o cirurgião do Porto responderam-lhe.
Ai, é verdade. Ele sempre vai morar para a casa da Teresa
do Carniceiro?
Vai. O presidente lá lhe arranjou esse negócio.
Qual presidente; foi o Baltasar boticário que é afinal quem
ganha com o negócio.
Ai sim; porque a Teresa deve-lhe umas dez moedas.
Por quanto anda aquela casa ?
Ele alugou-a por nove moedas.
Oh! que logração!
Pois vedes! Aquele menino!
Uma ou outra palavra destes variados diálogos, a que ele dava
motivo, chegavam aos ouvidos de Estêvão e mostravam-lhe que pouco
teria já que informar aquela gente a respeito da biografia própria,o
adiantada a vinha já encontrar.
A cavalgada prosseguia entretanto ao longo da rua principal da
vila, a qual abundava em lojas de ferradores e quase impedida de
três em três portas por uma recua de cavalgaduras de carga, entre-
gues à própria discrição à porta das tabernas e alquiles, Sons predo-
INÉDITOS E ESPARSOS
minantes: o das campainhas das alimárias, o das ferraduras na calçada
e o das pragas dos almocreves. Cheiro: o de palha curtida e da erva
segada nas estrebarias.
Quase ao fim desta rua e no ponto mais estreito dela havia uma
casa de triste aparência, tendo defronte outras casas mais altas a
assombrarem-na.
Pararam. Tinham chegado ao termo da jornada.
As janelas e portas da vizinhança trasbordavam de curiosos.
Estêvão desmontou e foi ajudar a irmã a saltar em terra.
Esta, ao ver a fachada da casa em que ia entrar, sentiu a impres-
o de um pesadelo.
A senhoria, com uma vela acesa na mão, a qual, com a outra,
resguardava das correntes de vento, veio ao limiar da porta a rece-
ber os seus inquilinos.
Estêvão, depois de a cumprimentar, dispunha-se a vencer o
íngreme lanço de escadas que o deviam conduzir aos aposentos supe-
riores e, nesse intuito, segurava-se já ao corrimão de corda que
seguia junto à parede salitrosa.
Adelina imitava-o.
Ouviram porém atrás de si a voz da senhoria, que, antes de reti-
rar-se, dava as boas noites à vizinhança. Voltaram-se logo e por um
acto de cortesia imitaram-na.
Imediatamente rompeu das janelas das casas vizinhas um coro
de vozes de todos os timbres, de homens, de mulheres, de novos, de
velhos e de crianças a corresponderem-lhes à saudação.
Dentro de alguns minutos mais, achavam-se os dois irmãos ins-
talados na sua nova residência.
Era uma sala baixa e desguarnecida, com janelas acanhadas
olhando para a rua, duas alcovas e um corredor, na extensão do qual
havia dois quartos pequenos e no fim a cozinha e uma exígua casa
de jantar.
A senhoria, que para ceder o andar nobre aos inquilinos, passava
a habitar os baixos da casa, andou de luz em punho a mostrar-lhes
toda a topografia do lugar, demorando-se muito em explicações e
comentários a propósito de cada compartimento.
Adelina, conquanto sentisse que lhe passava ao coração o des-
conforto que a rodeava, fazia frente à verbosa rendatária, respondia-
-lhe e interrogava-a com o insinuante tom de bondade que lhe era
natural.
Estêvãoo se forçava a tanto; ouvia mudo e soturno as diva-
gações da velha;o sei se lhes prestava atenção.
Ela falava por ambos. Em menos de um quarto de hora, operando
as mais rápidas e imprevistas transições, conseguiu esboçar a pró-
pria história genealógica, a descrição minuciosa da doença e morte
do marido, a relação comentada das pessoas que tinham morado já
naquela casa, idem dos facultativos que tinham precedido Estêvão,
VOL. II 20
INÉDITOS E ESPARSOS
das qualidades do último; a rápida resenha das principais famílias da
terra e dos seus parentescos no Porto.
Estêvãoo pôde mais tempo lutar. Deixou-se cair extenuado
sobre um baú e declarou os irresistíveis desejos que tinha de dormir.
Adelina olhou, compadecida, para o irmão.
Pois pudera não! disse a implacável senhoria—quem vem
de uma caminhada dessas! Eu nunca na minha vida dormio bem
como em uma ocasião em que fui ao Porto pelo Entrudo. Umas senhoras
minhas amigas, que lhe chamam aqui as Aparícias.o sei sem
ouvido falar?
Estêvãoo respondeu.
Adelina disse, sentando-se também no outro baú da jornada que
estava no meio da sala:
o ; daquio conhecemos ninguém.
Elasm a ser primas dos Borges do Porto; esses conhecem?
Lá há muitos Borges disse Estêvão, bocejando e com mau
humor.
o uns quem negócio para o Brasil insistiu a senhoria
e aguardou a ver se com esta particularidade ficava elucidada a ques-
o dos Borges.
Comoo observasse indícios disso, continuou:
Quem uma filha casada e outra solteira?
Nova pausa.
Um deles chama-se António e outro José ?
Idem.
Pois eleso muito conhecidos.
Adelina acudiu:
Sim, mas como o Porto é muito grande...
Até um tio deleso sei o que é la do governo de Lisboa...
Bem, mas então que fizeram esses Lopes? perguntou Estêvão.
Lopes!o é Lopes, é Borges. Por isso o senhoro conhecia!
Borges, Borges; um homem bem apessoado. Aindao aparentados
com os Cardosos. Esses conhecem decerto?
o sei; pode ser.
Que tem um filho que é oficial da tropa, que anda a cavalo.
Estêvão trocou com a irmã um olhar de lástima.
Adelina interveio.
Mas dizia a Sr. Teresa que tinha ido ao Porto...
Fui com as tais senhoras. Elas andavam a perseguir-me para
irmos e uma vez em casa do sr. major... Conhecem o sr. major, um
que é...
Sim, sim, que é da tropa; esse conheço; lembro-me de ter
ouvido falar nele apressou-se a dizer Estêvão para conjurar o ven-
daval de explicações que via iminente.
E a senhoria em pé no limiar da porta, como quem está para sair,
preparava-se para entrar na interminável divagação sobre a sua ida
INÉDITOS E ESPARSOS
ao Porto, sem atenção à fadiga manifesta dos seus dois inquilinos,
que mal a ouviam.
No meio, porém, desta divagação interrompeu-a o ruído de
passos na escada e uma voz varonil que bradava de baixo:
Dá licença, sr. doutor?
Ai que é o Sr. Baltasar, boticário! exclamou a Sr." Teresa,
acudindo alvoroçada a alumiar a escada, que estalava sob o peso do
recém-chegado.
o se incomode,o se incomode dizia ele, subindo.
Estêvão e Adelina levantaram-se a receber a visita.
Ora muito boas noites—disse, entrando na sala, um homem
baixo e gordo, vivo de movimentos e de fisionomia jovial; e sempre
voz em grita, prosseguiu
Eu sou o Baltasar, boticário, estabelecido nesta freguesia há
vinte e dois anos, que os faz para o Santiago, moro aqui mesmo
defronte e venho oferecer, em meu nome e no de minha mulher,
aquela fraca choupana para tudo aquilo em que lhes possa ser útil.
Estêvão e Adelina agradeceram com reconhecimento.
o tem que agradecer continuou o Sr. Baltasar; isto é
sincero.s cáo somos de cerimónias. Eu sei o que é isto de
uma mudança, apesar de que estou naquela casa, vai fazer para o
S. Miguel quinze anos; mas até assentar, também corri fadário... Isso,
antes que as coisas entrem na ordem, é uma consumição.
Isso é verdade disse Adelina,—Temos para uma semana.
Só se dá por a falta das coisas quando se precisa delas.
Ora pois aí está; por isso è que eu digo. Ó Sr.' Teresa, então
o prepara o chá para esta senhora? Provavelmente tomam chá à
noite?
Sim; costumamos tomar respondeu Estêvão.
Eu logo vi. É o sistema da cidade. Eu cáo posso costumar-me.
Aqui onde me vê já estou ceado. E lá a minha patroa é o mesmo. As
pequenas é que jáo tanto...
—Ah! tem meninas, Sr. ...
Baltasar, um seu criado, minha senhora.
Sr. Baltasar concluiu Adelina.
Tenho, tenho, por meus pecados. Tenho duas raparigas. Elas
queriam cá vir agora, porém...
Então porqueo vieram ? perguntou Adelina.
Davam-nos muito prazer secundou Estêvão, com pouca sin-
ceridade.
O boticário chegou à janela e berrou para defronte:
Ó meninas!
Meu pai ?! responderam duas frescas vozes de mulher.
Então vinde e digam à mãe.
Voltando-se para dentro, continuou, passeando de um para outro
lado da sala e fazendo estalar as articulações dos dedos.
INÉDITOS E ESPARSOS
Pois é verdade... Com que entãom para esta nossa terra...
Eu lhe digo; isto por aqui aindao é mau de todo. A questão
é uma pessoa dar-se bem. Olhe que ainda há por estes sítios um
par de famílias, queo fazem maus lucros a um facultativo; o
ponto está que ele se acredite e queira trabalhar. Ora o sr. doutor
está novo...
Ah! eo me falta vontade de trabalhai", pode crê-lo.
Pois bom é isso. Aqui o que há de pioro as intrigas.
Ai, sim?
Issoo falemos. Com certa gente é preciso viver com toda
a cautela. Foi o que perdeu o outro que daqui saiu; principiou a fre-
quentar certa roda, a meter-se com certa gente...
Ouviram-se risos e vozes na escada, o ranger de saias engoma-
das, o raspar dos sapatos no lajedo do portal e, pouco depois, entra-
vam a mulher e as meninas do boticário, que beijaram e abraçaram
Adelina e cumprimentaram cerimoniàticamente Estêvão.
A Sr.' Teresa foi buscar aos quartos cadeiras para todos e o cír-
culo formou-se.
As meninas eram duas formosuras vulgares, rosadas, sadias, de
cabelos escuros, bonitos dentes e riso pronto; ae uma senhora
gorda, de voz arrastada e ditos sentenciosos.
Entraram logo em conversa com Adelina, contando-lhe o que
tinham dito umas às outras em relação a esta visita, porqueo tinham
vindo logo e a pressa com que resolveram vir, e falavam quase a um
tempo.
E a Joaninha queria vestir-se dizia uma.
Euo me queria vestir. Olha a mentirosa! atalhou a outra.
Eu disse-lhe: Ó menina, deixa-te agora disso
Eu vim como estava notou a mãe.
E eu também acudiu a Joaninha.—Mas é que esta Matilde
tem um costume... Credo!...
Deixe falar; é cisma dela.
Escusas de negar.
Tu é que negas que te foste vestir.
E a dar-lhel Olhe, sabe? É que eu estava de avental.
Olha, olha! Lá vem ela com o avental! Poiso foste! Ela já
tinha dobrado o avental na cesta da meia.
É mentira. Entãoo tinha o avental verde ?
Qual avental verde?
Qual há-de ser ? O das florzinhas.
Ora viva, esse ainda ontem o deste a lavar.
Olha a mentirosa! já viram? Se eu até hoje te disse assim...
Adelina ouvia toda esta discussão, à qual debalde tentaríamos
transmitir toda a vida que o atabalhoado do diálogo lhe dava e, como
o pudesse intervir, limitava-se a olhar para as contendoras com um
sorriso de amabilidade.
INÉDITOS E ESPARSOS
Ae foi quem cortou o diálogo, dizendo para Adelina:
Não, que isto é sempre assim; em se tratando de sair, jáo
sabem o que fazem.
Ora ae também! Ela é que.,.
E começou nova discussão, digna em volubilidade da prece-
dente.
O boticário, que estivera falando com Estêvão a respeito das
pessoas da terra, disse para a senhoria, no tom de familiaridade de
quem está na sua casa:
Ó Sr.ª Teresa, olhe se dá andamento a isto que esta senhora
há-de querer acomodar-se.
Eu vou disse a senhoria. E então sempre hão-de que-
rer o chá?
Pois então ? já disseram que sim.
Eu o que sinto é estar aindao estranha nesta casa disse
Adelina que nem sei se posso ou devo pedir-lhes o favor de nos
fazerem companhia.
Ora essa é boa acudiu a senhora do boticário.
Então euo sei o que é isso? E até, deixe-me então dizer-lhe,
que é provável que sintam a falta de muita coisa eom mais do que
mandar ali defronte. Olhe, ó senhora Teresa, tem cá serviço de chá
em termos?
Eu... assim ele remedeie.
Nada, nada; sabe que mais? Ó Joaninha, chega a casa e manda
trazer o aparelho azul. Leva a chave do guarda-louça; toma, é esta.
Adelina e Estêvão debalde quiseram opor-se ao oferecimento.
Estava aberto o dique aos obséquios, difícil era retê-los.
As meninas andaram para cá e para, trazendo isto e aquilo.
Ae dava-lhes ordens sobre ordens na sala, repetia-lhas do patamar
quando elas desciam a escada; vinha explicá-las ou modificá-las à
janela, quando já iam na rua, ou ainda quando elas já lhe respondiam
das janelas da casa.
Graças a esta febre obsequiadora tudo se resolveu. A senhora do
boticário em tudos a suao metódica e administradora. Infundiu
o chá, cortou as tostas, teimou em fazer uma cama, deitou ao a um
móvel, que, a conselho seu, se mudou de um para outro quarto, pre-
parou as lamparinas e mil outros serviços. As meninas eram diligen-
tes correios e atravessaram a rua um sem-número de vezes e quase
nunca com as mãos vazias. O boticário era mais pronto em dar ordens
do que em executá-las e foi pródigo em conselhos em relação a
melhoramentos futuros.
Feito o chá, a família do Sr. Baltasaro se recusou a tomar
parte nele.
De maneira que Estêvão e Adelina, logo na primeira noite da
chegada, tiveram reunião em casa e só conseguiram descansar de
tantos obséquios perto das dez horas.
INÉDITOS E ESPARSOS
famílias de pescadores, longe de imprimirem aparências de vida e
animação à feição severa e melancólica do quadro, antes parecia
concorrer para lha exagerar, talvez recordando épocas de maior
movimento na praia e fazendo, pelo contraste, sentir o seu actual
abandono.
As companhaso trabalhavam naquela tarde. Os arrais, estu-
dando com os olhos experimentados a cor do céu, o rumo do vento,
a forma das nuvens e a ondulação particular das vagas, prudente-
mente mandaram recolher as lanchas à praia. Estao apresentava,
portanto, aquele laborioso tumulto e confusa agitação que acompanha
sempre o trabalho das pescarias.
Apenas algumas crianças de pernas nuas, crestadas pelo sol e
pelas brisas marítimas, lutavam umas com as outras na areia ou brin-
cavam com as ondas, ora correndo para elas, ora fugindo-lhes, mas
nem sempre com a presteza necessária para no movimento do fluxo
o serem alcançadas, acontecimento que era sempre saudado com
estrepitosas gargalhadas e apupos. Dos pescadores, uns haviam ido
saborear à vila o tempo de tréguas que lhes concedera o mar, outros
refocilavam-se na taberna da tia Salgada, a mais afamada da costa do
Furadouro, com longas e preciosas libações do vinho da Bairrada que
desafiava competências com os mais acreditados que se vendiam na
vila; finalmente alguns mais sóbrios, dispersos em grupos na praia,
conversavam tranquilamente, quandoo dormiam ao som monótono
das ondas e na convidativa cama de areia solta, queo confortavel-
mente se lhes amoldava às formas do corpo.
O grupo, de onde haviam partido as poucas palavras que pude-
mos ainda escutar, era um daqueles em que mais intensamente pare-
ciam absorvidas as atenções pelo assunto que se discutia. Na posição
e no gesto de quase todos os que o formavam, revelava-se uma ávida
curiosidade e o velho Cabaça, que tinha a palavra naquela ocasião,
assumira certo ar de gravidade queo concorria pouco para o
efeito produzido.
Era o tio Cabaça uma bela figura de velho, alentado e musculoso
e de uma robustez de organização que reagia ainda, vitoriosamente,
contra o peso dos anos.
Era tido em grande conta na companha,o só pelo muito que
entendia de coisas do mar, como pelo bem que sabia contar histórias
curiosas, crónicas dos tempos passados, recebidas por tradição dos
seus pais e que de boa vontade transmitia aos moços, que o escuta-
vam sempre atentos, embebidos naquelas recordações, quase todas
aloriosas para a gente do mar.
Desta vez, porém, o objecto da narração parecia ter encontrado
incrédulos entre o auditório, cujo cepticismo chegara a manifestar-se
por aquela exclamação de dúvida, com que abrimos o primeiro capí-
tulo desta singela e despretensiosa história.
INÉDITOS E ESPARSOS
O velho protestara, como vimos, pela veracidade do facto; mas
ainda assim, encontrou uma voz de incrédulo que redarguiu:
Essa lá me custa a crer, ti'Cabaça. Eu sei que há muitas estra-
nhas e esquisitas castas de peixes lá por esses mares de Cristo. Velho
o sou eu nesta vida de pescador e, contudo, posso já dizer, sem me
gabar, que tenho visto alguma coisa e queo ando nisto de todo às
cegas. Vi já alguns peixes levantarem voo como os pássaros, outros
eriçados de espinhos, que nem ouriços; já experimentei o abalo que
causam as tremelgas vivas quando se lhes toca com o, e até um dia
me mostraram de longe o chafariz de água que fazem as baleias ao
respirar; mas agora as tais sereias... na verdade... peixes que falam
e que cantam como a gente!...
Que falam e que cantam, sim, senhor, que falam e que cantam.
então que falar e que cantar!o é lá qualquer coisa! Eu só queria
que vocês ouvissem o meu pai, que Deus haja, contar o caso.
Mas então diga-nos mais por miúdo como isso foi exclamou
do lado um jovem pescador, que se mostrava excessivamente inte-
ressado com a história e mais disposto do que o seu companheiro a
acreditar na existência do fabuloso animal de que falara o velho.
O tio Cabaça sacudiu fleumàticamente a cinza do seu volumoso
cachimbo, soprou ao tubo para o desimpedir, fez nova provisão de
tabaco e acendeu-o tudo isto com movimentos pausados e, depois
de expelir a primeira baforada, principiou, revestindo-se da devida
gravidade, a narração que se lhe pedira.
O caso que lhes vou contar sucedeu, pelos modos, no tempo
em que meu avô era ainda rapaz. Vai por isso... Eu sei lá!?... há mais
de um cento de anos bem contados. Tinham ido certa tarde as compa-
nhas para o mar. Nos lanços da manhã a safra havia sido pequena,
apesar de ter esperado que a sardinha, fugindo à trovoada que toda
a semana andara pelo mar alto, viesse em abundância à costa. Mas,
como talo sucedera, tiveram de se fazer de tarde os barcos mais ao
largo. Estava um tempo assim como hoje: os ares soturnos, o vento
sul e o mar picado. Laigaram-se as redes e seria aí pelo fim da tarde
quando de novo remaram para a praia. Chegao chega, desem-
barcao desembarca, era já lusco-fusco. O mar começou então a
levantar-se mais, sem que tivesse havido mudança de vento ou coisa
que fosse motivo para isso. Os homens mais entendidos das compa-
nhaso podiam dizer o que adivinhava o mar, que assimo do pé
para ao se fizera ruim. Este dizia uma coisa, aquele dizia outra,
tantas cabeças, tantas sentenças, e ninguém se entendia.
No entretanto puxavam-se as redes para terra: a canalha fazia,
cantando, a algazarra do costume, os homens berravam como... vocês
berram ainda agora, rapazes... eis senão quando... "
Um movimento de curiosidade se manifestou na assembleia
ando o velho Cabaça chegou a este tópico da sua descrição, que
ele, como profundo conhecedor da arte de impressionar os auditórios,
INÉDITOS E ESPARSOS
soube fazer valer por uma pausa conveniente e uma particular e
expressiva inflexão de voz.
Depois correu a vista por todos aqueles rostos, eloquentes de
curiosidade e, satisfeito consigo pelos dotes oratórios de que se per-
cebia possuidor, continuou:
Eis senão quando, principiou-se a ouvir uma música, a modo
de música de igreja.
De instrumental, ti'Cabaça?
Não, homem, daquela música que se toca nas igrejas do Porto.
Já sei, é a dos realejos.
o é dos realejos, não; é dos orgos, orgos emendou um
outro, melhor informado sobre a matéria.
Pois é verdade ! continuou o orador. Começou-se a ouvir
aquela música e logo todos se calaram a escutar. Pareceu-lhes depois
mais uma voz de mulher que chorava e que rompia em altas queixas.
Olharam em redor para ver de onde partia aquilo e quanto mais olha-
vam mais se lhes afigurava virem do mar os tais choros e gemidos.
Contudo, por mais que reparassem para as ondas, nada podiam enxer-
gar. Continuavam puxando as redes e continuavam a ouvir as vozes,
que cada vez aumentavam mais. Havia já quem pensasse ser feitiçaria
aquilo.
Feitiçaria, sim. Bem me fio eu nisso disse,o desmentindo
o seu provado cepticismo, o mesmo pescador que pusera em dúvida
a existência das sereias.
O velho Cabaça julgou do seu dever corrigir a incredulidade
deste companheiro, a qual lhe ia parecendo demasiada.
Homem, sabes que mais? Pede a Deus para queo venhas
à tua custa a fiar-te em bruxedos e feitiços. Tu fazes-te muito valente,
meu rapazote, mas acautela-te, porque um dia...—E operando uma
rápida diversão no curso das suas ideias, o velho prosseguiu:
Mas no meio deste que será queo será estavam as
redes chegando à praia; o pranto ouvia-se ainda mais claro, até que
enfim... viram os pescadores a coisa mais maravilhosa, que ainda apa-
receu na costa.
Era a sereia? perguntaram, a um tempo, com ansiosa curio-
sidade alguns impacientes, cujo ânimo lheso deixara sofrer as delon-
gas da narração.
O tio Cabaça continuou imperturbável.
Viram um animal que da cinta para baixo era um peixe completo.
Um peixe?!
Sem tirar nem pôr, escamas, cauda, barbatanas, finalmente tudo.
Ah! Barbatanas também?
Também barbatanas.
E da cinta para cima ?
Da cinta para cima era a mulher mais bonita que se tem visto
no mundo.
INÉDITOS E ESPARSOS
Ah!
Ora essa!
Isso era arte do Diabo!
E então tinha cabelo e dentes e...
Era uma mulher perfeita;o lhes estou eu a dizer?
Vou-me por esse mundo!
Olhem os meus pecados!
E então falava, ti'Cabaça?
Pois dela é que vinha a tal carpideira e os tais choros que
te disse.
Ah! Estou para morrer.
Eu se visse tal estarrecia.
E que dizia ela, ti'Cabaça?
Chorava e carpia-se que metia mesmo. Toda a sua pena
era tirarem-na do mar. O que ela pedia é que a soltassem da rede e
que a deixassem voltar para a água, pois só lá é que podia viver.
E ela falava assim como a gente, ti'Cabaça?
Pois então ? E com uma voz e de uma maneira que fazia mesmo
enternecer os mais empedernidos. E o narrador, forçando a voz a
um desafinado falsete, para lhe dar a mais feminil modulação de que
ela era susceptível, tentou, pouco modestamente, reproduzir o timbre
fascinador da sereia, dizendo, conforme a tradição que fielmente
conservara:
«Ai, soltai-me, soltai-me dizia ela deixai-me voltar para
o mar, que, se me levais para terra, eu morrerei logo.»
Pobre rapariga!
Pobre peixe! emendou outro.
E porque há-de ser peixe eo rapariga?
O quê ? O quê ? Aquilo tem la alma ?
Eu sei lá se ela tem alma ?
Que dizes tu, homem, nem que fosse gente cristã!
Mas ela que falava...
Isso é por artes do Mafarrico.
O velho Cabaça prosseguiu, depois de terminada esta acidental
discussão psicológica:
Houve ainda assim quem quisesse tirá-la para seco, mas tais
foram os seus queixumes, que o arrais, comovido, mandou soltá-la
da rede.
E era muito grande, ti'Cabaça?
Assim como uma corvina... taluda.
Está feito!
Logo que se viu livre continuou o orador fugiu nadando,
como um peixe que era, mas a cantar e com tanta aquela que nem
música de anjos dou pode sero linda. Era um cantar de tal casta,
que toda a companha se deixou ficar a escutá-lo, sem se lhe importar
com a sardinha que já estava na areia. As cachopas da vila, que tinham
INÉDITOS E ESPARSOS
vindo aos caminhos para o Carregal,o queriam saber de outra coisa
queo fosse ouvir aquela voz. E assim ficaram todos postos enquanto
ela se pôde ouvir e só depois se deitaram ao trabalho, ainda que com
bem pouca alma.
Foi então que um pescador velho disse ser aquilo uma sereia e
que bem mal tinham feito em a deixar fugir, pois de nada sabiao
perigoso para os marinheiros como encontrá-las no mar largo ou
escutá-las muito tempo.
Então o que fazem elas, ti'Cabaça? —perguntou um dos pes-
cadores mais jovens e que de todos parecia também o mais interes-
sado pela narração.
Com aqueles cantos respondeu o interpelado pelos modos
atordoam a gente, que fica assim como com uma bebedeira.o se faz
mais coisa com coisa,o se atina com o governo do leme, nem com
o das velas ou dos remos. Neste comenos elas levantam o mar e um
homem vai para os peixinhos que é mesmo uma consolação.
E nunca mais voltou à costa essa... esse peixe? perguntou
ainda o mesmo pescador.
Nunca mais até hoje. Ele anda sempre muito ao largo e só
quando alguma trovoada forte o escorraça é que foge para as costas.
Seguiram-se vários comentários sobre a plausibilidade do caso.
O tio Cabaça contara-o com tal acento de convicção, e erao pouco
dado a gracejos o velho pescador, que todo o auditório se sentiu incli-
nado a admitir o carácter verídico do facto extraordinário que lhe
acabara de ser narrado.
Depois de muito conversar, dispersou-se finalmente o grupo,
aí pelo cerrar da noite, e a taberna da tia Salgada viu aumentar o
número dos hóspedes e o das bocas que faziam justiça, por palavras
e obras, às excelências do seu Bairrada.
Na praia apenas ficaram dois homens.
Um era o tio Cabaça, que, sentado, com as mãos entrelaçadas
por diante dos joelhos e o cachimbo pendente dos lábios crestados,
olhava para as ondas que se sucediam na areia e parecia absorvido em
profunda meditação.
Este hábito de cismar gera-o a continuada contemplação das cenas
marítimas.
O homem que vive e envelhece a escutar aquela música das
ondas, que do alvorecer ao crepúsculo é embalado por elas, o que
alternadamente as conheceu afáveis e irritadas, que delas recebeu
carícias e ameaças e as viu ora suavemente iluminadas pelo luar, ora
reflectindo a luz sinistra dos relâmpagos, surpreende-se muitas vezes
nestas silenciosas e inexprimíveis divagações do espírito,o frequen-
tes nos poetas.
Em todos os portos de mar se encontram, ao fim da tarde, desses
velhos cismadores que, aparentemente atentos nas formas em que se
condensa no ar o fumo do seu cachimbo, trazem por bem longe o
INÉDITOS E ESPARSOS
pensamento, "alvez que a colher saudades nas recordações daquele
viver incerto de marinheiro, para cujas laboriosas peripécias os anos
os invalidaram.
O velho Cabaça principiava a pensar nessa época próxima, na qual
lhe havia de fraquejar o braço que ainda movia vigorosamente o remo;
nesses longos dias, em que, preso à terra, se veria obrigado a ocu-
par-se num trabalho de mulheres, reparando as redes da companha,
Aquele futuro tranquilo, reservado à sua velhice, entristecia-o,
como, nos tempos de brios cavalheirosos, desanimava o guerreiro a
ideia de uma morte queo fosse no meio da refrega e disputada até
ao último suspiro com feitos de arrojada bravura.
Por isso o tio Cabaça tinha frequentes momentos de melancolia.
O outro homem era o pescador moço, a quem tanto interessara
a história da sereia, contada pelo primeiro, havia pouco, e que, desde
que a ouvira, parecia haver ficado sob o domínio de uma profunda
impressão.
A alta estatura deste jovem pescador, as suas formas bem desen-
volvidas e a fisionomia expressiva de inteligência e vivacidade, davam-
-lhe um certo ar de nobreza e resolução que fazia lembrar aquele
célebre herói napolitano, o ousado e patriótico Mazaniello.
As amplas e pitorescas vestes de pescador deixavam sobressair
todas as vantagens da sua vigorosa e excelente corporatura.
Era uma organização cheia de vida e de robustez, a daquele moço,
em cujo rosto trigueiro e imberbe se desenhavam neste momento os
sinais evidentes, ainda que desvanecidos, de uma certa preocupação
de espírito.
Por baixo do clássico gorro de lã escarlate saíam-lhe profusos
os cabelos, que lhe vinham quase pousar nos ombros. Com os braços
cruzados e a fronte pendida, este homem passeava silencioso no extremo
da praia,o próximo das ondas, que estas, nos maiores fluxos, che-
gavam a alcançá-lo sem que mesmo assim conseguissem distraí-lo
daquela abstracção em que parecia concentrado.
Este pescador que com o velho Cabaça ficou na praia, o Pedro
do Ramires, andava, de há tempo, apreensivo e taciturno. Possuía
instintos de poeta, o malfadado.
Eram esses instintos que o impeliam para aquela irresistível ten-
dência à solidão, os que lhe faziam perceber, no som plangente das
vagas, modulações, para as quais os seus companheiroso tinham
sentidos organizados, que por muito tempo o conservavam imóvel, a
seguir com a vista aquelas ondas espumosas que se desfaziam na
areia, as formas extravagantes das nuvens, os contrastes surpreen-
dentes da luz que as atravessa ou se reflecte nelas, colorindo-as com
inimitável paleta, a curva descrita na amplidão pela ave aquática de
voo rápido, e até o estalai do trovão e o fuzilar dos relâmpagos em
noites de tempestade.
INÉDITOS E ESPARSOS
Pedro sentia, e por infelicidade sua, sentia com excesso. Este
mundo, evidentementeo foi feito para quem sente assim! Aceitava,
porém, as impressões que recebia sem se lembrar de as discutir;
aceitava-as como um quase fatalismo, que nem lhe deixava pensar na
possibilidade de se subtrair a elas.
Via que por toda a parte o acompanhava uma como atmosfera
de inebriantes aspirações' e recebia a influência balsâmica desse
ambiente sem se interrogar sobre a natureza dele.
Sentia, sem a conhecer, a poesia da natureza, a que se revela
em cores, em sons e em perfumes e que desperta a poesia do senti-
mento em almas organizadas para esses sublimes acordes. Era um
poeta sem ter a consciência de o ser, sem ter sequer a consciência da
poesia.
Quando esta espécie de encarnação de um segundo verbo,
mistério original dos entes privilegiados que se dizem poetas, se
opera em espíritos que a educaçãoo vem cultivar depois, sur-
gem caracteres, como o de Pedro, nos quais se passam os mais estra-
nhos e admiráveis fenómenos que pode oferecer ao estudo a natureza
humana.
É uma luta contínua, um antagonismo inútil, um combater deses-
perado de aspirações que se estorcem impotentes sob a cadeia que
lhes sopeia os esforços. Algemados Prometeus quem por principal
suplício os irrealizáveis anelos do seu próprio génio! Tântalos, sequio-
sos de um ignoto licor, que adivinham, sem o conhecer, como o alívio
único à ansiedade que os martiriza!
Mas em que andavas tu a cismar agora que nem sequer me
vias, deo perto que estavas?
Diga-me, ti'Cabaça, sempre será verdade que existem sereias?
O interrogado, recebendo à queima-roupa a interpelação, vaci-
lou um bocado; assumiu, porém, em breve, todo o seu sangue-frio e
respondeu:
Conquanto eu aso visse, nem ouvisse nunca é nem disso
me resta pena creio que as, pelo que já disse do que muita vez
ouvi contar a meu pai — o Senhor o chame a si.
E é certo que esses peixes ou essas mulheres, queo sei
ao certo como lhes chame, cantam às maravilhas?
Assim o dizem. Pelos modos é com esses cantares que elas
perdem os navegantes no alto mar. Poucoso os quem força para
aso seguir, só para escutar-lhes aquela música de anjos.
Pedro ficou novamente silencioso e pensativo. O velho pescador
respeitou por algum tempo aquele silêncio, mas enfim dirigiu ao seu
companheiro uma súbita interrogação.
Mas para que diabo queres tu saber isso, rapaz?
É porque...—Pedro ia a responder, mas outra vez hesitou.
Porque é ? Fala!
Olhe, ti'Cabaça. Vou dizer-lhe uma coisa: maso se ponha
INÉDITOS E ESPARSOS
a rir de mim, que juro-lhe, por minha mãe, ser verdade tudo quanto
me ouvir.
Fala, rapaz respondeu o tio Cabaça, que tomou logo um
ar sisudo e grave, ao ouvir a invocação a que recorrera Pedro e já
deveras interessado pela comunicação que ia receber. Fala, que
eu te escuto.
É que eu... ouvi já cantar uma sereia, ti'Cabaça disse Pedro
em tom misterioso e interrogando ao mesmo tempo a fisionomia do
velho, a ver o género de impressão que esta nova produzira nele.
Ouviste cantar uma sereia! disse João Cabaça deveras sur-
preendido. Quando?
Há algumas noites a fio que a escuto,
Onde?'
Aqui, da praia. É uma música de anjos que vem das ondas.
Uma música como ainda ao ouvi em parte alguma.o é alegre e
divertida, como a das festas e arraiais; nem séria e de devoção, como
a que cantam as mulheres na vila à missa do dia, ao consagrar da hóstia
e do cálix; mas é uma música triste, saudosa, uma música que me faz
chorar. A voz que canta parece de mulher, mas, ao ouvi-la, até chego
a esquecer-me do lugar em que estou. Sabe? A praia, o mar, as estre-
las, o céu, tudo desaparece diante de mim. Parece-me que então só
sei viver para ouvir aquela voz no meio do barulho das ondas, que
o consegue abafá-la. Procuro, apesar da escuridão da noite, desco-
brir a mulher, se é mulher, eu sei? a fada, talvez o anjo, que canta
assim, mas nada pude ainda ver. Sinto em mim uma coisa queo sei
bem dizer o que é. Queria seguir aquela voz. Tenho sentido desejos
de me deitar às ondas para ouvir de mais perto aquele cantar divino.
É quase uma tentaçãoo forte que lhe tenho resistido a custo eo
sei se alguma vez...
O velho pescador segurou com ímpeto no braço de Pedro, como
se naquele momento o visse já próximo a seguir a voz que perfida-
mente o atraía.
Que te livre Deus de tal, rapaz! exclamou João Cabaça.
o te disse eu que corre à sua perdição quem se deixar levar por
esse canto que parece de anjos, mas que é antes de demónios?
Pedro prosseguiu:
Eu perguntava há muito a mim mesmo que mistério seria
aquele. Ao princípio julguei que fosse um engano dos meus ouvidos.
Os ventos da noite e o barulho das ondas soam às vezes de maneira
que semelham uma música a distância, mas era diferente o que eu
ouvia; os pássaros do mar, gemendo às noites pelas praias, imitam
também queixumes e gemidos, mas eu que nasci e tenho vivido a
escutá-los, bem lhes sei distinguir o canto; se o tempo é sossegado
e o vento favorável, o cantar dos marinheiros de algumas embar-
cações que pairam ao largo, chega-nos aos ouvidos confuso e quase
sumido; mas a música que eu escutavao era para se confundir com
INÉDITOS E ESPARSOS
aquela. Era de mulher a voz, mas o estilo do cantaro era o da nossa
terra. Nunca até então o tinha eu escutado,o sei até se em alguma
parte do mundo se canta assim. Quando há pouco lhe ouvi a história da
sereia, foi como se uma luz me alumiasse na escuridão em que estava.
É aquele, deve ser aquele o canto de que falavam os antigos pescado-
res. Nem eu sei que outro possa haver mais para nos confundir e per-
der. Bem vejo que pode ser perigosa para os marinheiros, porque,
digo-lhe uma coisa, se aquela voz cantasse do fundo de um abismo,
parece-me que poucos se venceriam para, levados por ela, seo
precipitarem.
*
A praia estava, enfim, completamente deserta.
O vento tinha virado a oeste. Nuvens cada vez mais negras e
grandes como montanhas, levantavam-se do ocidente, semelhantes a
informes monstros marinhos, surgindo do seio das águas. Bandos de
aves aquáticas ora baixavam o voo ligeiro até roçarem com as asas
pela superfície das ondas, ora se erguiam a perderem-se de vista no
espaço nebuloso, onde por algum tempo volteavam em curvas compli-
cadas ; depois soltando gritos agudos e lastimosos, desciam de novo
em parábolas de extensa curvatura, para colherem do oceano a presa
que com o olhar penetrante haviam descoberto da altura em que se
libravam.
Por toda aquela imensa amplidão de água nem uma vela, nem
um pequeno barco sequer; na longa planície de areia que forma esta
povoação da costa, eram os palheiros escuros e fechados, as lanchas
em seco ou alguma embarcação, ainda de menor lote, a única diver-
o que encontrava a vista cansada da monotonia da perspectiva.
Haviam chegado as horas talhadas para o descanso e os pesca-
dores, que tinham com o sono antigas dívidas a solver, encerravam-se
nas acanhadas recoletas, onde quase miraculosamente se albergam
numerosas famílias desta pobre gente e, dentro em pouco, estavam
experimentando quanto é fácil a um espírito tranquilo e a um corpo
fatigado encontrarem as restauradoras delícias do sono, ainda que em
camas bem pouco de apetecer.
A Pedro do Ramires, porém, sobrava-lhe imaginação para oo
deixar,o facilmente como os seus companheiros, saborear este pra-
zer. As horas da noite eram as suas horas predilectas, eram as suas
horas de vida. Então podia ele, sem despertar estranhezas, ficar imó-
vel a olhar para as ondas, essas suas companheiras inseparáveis, com
as quais brincara tantas vezes em criança e que pareciam conservar
ainda para ele uma linguagem misteriosa, corresponder-lhe, saudá-lo
como a um antigo conhecimento.
Aquele carácter, essencialmente contemplativo, sentia-se livre e
desafogado então.o havia ninguém a espiar-lhe no semblante o
INÉDITOS E ESPARSOS
refluxo dos encontrados pensamentos que de contínuo o assaltavam;
ninguém a perguntar-lhe a causa, por ele mesmo talvez ignorada,
de um sorriso instantâneo, de uma melancolia mais duradoura, e às
vezes até de uma lágrima, em que a sua tristeza habitual parecia de
quando em quando condensar-se, raras crises que por momentos lhe
desanuviavam o espírito visionário.
Por isso caminhava longas horas pensativo pelo ermo da costa,
Parecia procurar acalmar, por esta forma, a vaga inquietação
que sentia em si. Como se aquela ânsia que o devorava fora a neces-
sidade de movimento!
Pobre alma! Iludia-se na sua ignorância. A actividade a que ten-
diam as suas aspiraçõeso era aquela;o se realiza assim. O movi-
mento dos afectos, as lutas da inteligência, o estímulo da glória, os
gozos da vida do espirito, tudo isso ela procurava, mas, cega, andava
tacteando um caminho bem longe do que a devia conduzir ali. Como
o teria de sucumbir no empenho! Comoo cairia exausta de for-
ças, e abatida pelo desalento! Que vale ao febricitante a incoerente
convulsão em que se revolve no leito? Mitigam-lhe, acaso, esses
movimentos o angustioso escaldar do fogo que lhe circula nas veias ?
No mesmo caso estava Pedro ao procurar satisfazer os seus indeci-
fráveis anelos, correndo pela beira-mar, às vezes possuído de uma
verdadeira alucinação.
Esta noite, em que tivera lugar o diálogo entre ele e o velho João
Cabaça, foi uma daquelas em que Pedro do Ramires prolongou até
horas adiantadas o seu passeio habitual, seguindo para o sul da costa.
Absorvido em seus pensamentos, caminhou insensivelmente a
passos rápidos e desiguais, até deixar a uma grande distância os
palheiros da povoação do Furadouro.
Por este tempo já a escuridade da noite era completa, anteci-
pada, como fora, pelos cúmulos de nuvens que, partindo do oci-
dente, se tinham, em pouco, espalhado por toda a abóbada celeste.
O jovem pescador parou enfim; parou e pôs-se a olhar vaga-
mente para o mar,- como se de mistura com o clamor das ondas, espe-
rasse receber alguma voz que lhe fosse destinada.
Depois quase se deixou cair na areia da praia e pousando a
cabeça nas mãos encruzadas, deitou-se e fitou os olhos nas nuvens,
como se nas formas irregulares que elas desenhavam no espaço esti-
vesse lendo uma página misteriosa escrita em caracteres desconhe-
cidos.
E assim se conservou durante horas,o o inquietando a violên-
cia do vento húmido que lhe açoutava as faces, os gritos roucos e
angustiados de alguma ave que fugia à borrasca iminente, nem o
rumor surdo que já se escutava de quando em quando, eco ameaça-
dor de tempestades longínquas.
Mas, de súbito, estremeceu, levantou sobressaltado a cabeça e,
recostando-se ao braço, trémulo de inquietação, dirigiu a vista para
INÉDITOS E ESPARSOS
aquele espaço tenebroso que se estendia diante dele, como preten-
dendo devassar na obscuridade da noite o que quer que fosse que
o repentinamente o arrancava da imóvel contemplação em que se
conservava havia tanto.
A noite foi, porém, discreta;o ergueu uma só ponta do seu
manto para revelar o mistério. Pedro continuava na mesma posição
o expressiva de ávida curiosidade que de repente tomara.
Pouco a pouco as notas maviosas de um cantar distante chega-
ram, como um eco ainda mal apreciável, aos ouvidos atentos do
pescador.
Escutando-o, ele erguia-se fremente e agitado sobre os joelhos
e, de mãos postas e a cabeça inclinada na direcção de onde chegava
esta voz, conservava-se imóvel e em profundo recolhimento, como um
eleito do Senhor, recebendo em êxtase a inspiração divina. Aquele
som contrastava, na sua melodia e suavidade, com o bramir discorde
das vagas, que batiam violentas na praia.
Dir-se-ia o canto de algumas dessas fadas que, segundo as cren-
ças populares, atravessam extensas regiões marítimas em fantástica via-
gem e sob um fatal encantamento.
Pedro escutava embevecido aquela música cuja toada lhe era
estranha e de um estilo inteiramente diverso do das canções popula-
res, únicas que até então ele tinha conhecido.
Falava-lhe por isso poderosamente à imaginação esse canto, cujas
palavras a distância lheo permitia ainda perceber,
A invisível cantora parecia aproximar-se; percebiam-se agora
melhor as modulações so.ioros:Ssimas daquela voz potente e argen-
tina que conseguia dominar o ruído das vagas e que se estendia ao
longe pela praia, como à procura de um eco que a. repercutisse.
Agora já a letra da canção podia ser percebida. Mas, se o estilo
pouco vulgar daquela música causara já estranheza e influíra poderosa-
mente no ânimo agora excitado do moço pescador, a linguagem des-
conhecida de que era acompanhadao lhe produzia,menor impressão.
Ignorava o que dizia, mas achava-lhe qualidades musicais que o enle-
vavam ao escutá-la. Era uma linguagem cujas palavras pareciam ter um
sentido universalmente apreciado, emo perfeita e inexplicável con-
cordância pareciam estar com as ideias e sentimentos que exprimiam,
De repente pareceu-lhe distinguir um ruído, como o do bater de
remos na água e, com a vista excitada de pescador, julgou reconhecer,
o obstante o tenebroso da noite, uma forma negra movendo-se no
cimo das ondas, erguendo-se, abaixando-se, desaparecendo para tor-
nar a surgir e a elevar-se e como demandando a praia com esforços
porfiados!
Pedro fitou aquele objecto com ansiedade. Nas formas mal
distintas, nos movimentos, no som particular que produzia ao caminhar,
INÉDITOS E ESPARSOS
dividindo as águas, parecia-lhe um destes pequenos barcos que os
pescadores chamam chinchorro, frágeis esquifes em que esta intré-
pida gente do mar tantas vezes arrosta, a esforços de poucos braços,
com a violência das ondas.
Impelido pela força do vento e pelo esforço dos remos, este
barco cada vez se aproximava mais da praia. Pedroo sabia ainda
era dele que partira o canto que havia seis noites o trazia enlevado
pela solidão da costa marítima e que, depois da história narrada pelo
tio João Cabaça, muito seriamente atribuía já à soberba e artificiosa
filha das ondas, de que se julgava vítima.
À medida, porém, que ele se avizinhava, pôde perceber o som
'e várias vozes de timbre diverso empenhadas num diálogo animado;
e, cedo, a pouca distância a que já vogava da costa tornou distintas
seguintes palavras:
Eu bem disse à Madama que era perigoso o passeio numa
noite destas. O maro é o rio, e...
Isto dizia uma voz rouca e áspera, à qual outra de timbre melo-
dioso e vibrante, e que evidentemente pertencia à pessoa a quem fora
dirigida a insinuação, respondeu:
Acaso me competirá a mim dar ânimo a homens, que, desde
lança, vivem no mar? Que vergonha!E riu-se. Estas palavras
foram ditas com uma certa inflexão, que denunciava a origem estran-
eira da que as pronunciara.
Pedro reconheceu nesta voz a da cantora desconhecida e o cora-
ção sobressaltava-se-lhe a escutá-la.
A voz rouca respondeu à arguição que a outra lhe fizera:
Não, Madama,o somoss que temos medo do mar e tanto
queo pusemos pecha em a trazermos aqui. Mas por um divertimento,
brincar assim com as ondas; escolher uma noite escura, fria e ventosa
para vir cantar desta forma ao ar livre, quando estão aí à porta tantas
de luar claro, como o dia! A falar a verdade...
Uma risada jovial respondeu à observação e a mesma voz femi-
nima replicou:
Parece-lhes tudo isto uma loucura,o é assim ? Pobres homens!
E talvez tenham razão. Mas eu quero satisfazer as minhas loucuras
todas. Sinto nisto um prazer!... Maso se inquietem. Eu conheço
alguma coisa o mar e sei ler na direcção do vento e no aspecto das
nuvens as mudanças prováveis do tempo. Estudei as tempestades da
minha terra. Nasci comos à beira-mar. Meus pais eram pescadores
também. O berço que me embalou nos meus primeiros sonos foi o
barco em que toda a minha família se transportava; a rede a coberta
única em que muita vez me envolveram para dormir. Aprendi assim,
de pequena, esta música das ondas, de pequena me costumei a cantar
com elas. Depois que a sorte me impeliu nesta vida artística, errante
e aventureira que tenho seguido,o esqueci nunca as predilecções
os meus primeiros anos. Sou como as aves aquáticas; ando sempre
INÉDITOS E ESPARSOS
junto às costas marítimas. A escola em que aprendi foi a escola do mar;
o me quero longe deste mestre inspirado que me ensinou a arte
sublime da música. Parece-me que lhe sei já compreender os segredos
todos; cada praia revela-me um novo mistério de arte. As ondas do
Adriático, o mar da minha terra,o cantam como as outras. O mar
é como o povo. Em cada país tem a música popular um génio próprio,
uma índole especial. Assim também o mar. Tenho escutado as ondas
de quase todas as praias da Europa. O mar Negro, o Mediterrâneo, o
Báltico, a Mancha, o Atlântico, todosm uma modulação sua e que me
parece já distinguir. Nuns é mais majestosa e terrível a música das
tempestades; outrosm mais suaves harmonias nas noites sossega-
das de calma. Já vêem que eu e o mar somos antigos companhei-
ros. Ele entende-me e eu também o compreendo. Sosseguem, pois;
euo me iludo com a sua agitação desta noite. Bem cedo o vere-
mos tranquilo.
Os pescadoreso responderam. Estranhas lhe deviam parecer
estas palavras, incompreensíveis até. A mulher que as pronunciara
num tom de voz em que se revelava toda a exaltação de um carácter
entusiasta e ardente, falava mais a si própria do que às rudes inteligên-
cias dos seus companheiros nesta extraordinária excursão marítima.
Pedro escutava, porém, aquelas palavras, com um entusiasmo de
artista apaixonado e como que se lhe comunicava o fogo oculto da ima-
ginação que as ditava. Sobressaltavam-no, como se lhe oferecessem
a inesperada solução de um enigma em que, muito havia, lidava a
sua inteligência. É que o mar também lhe falava. Ele pressentia-lhe
uma linguagem que procurava adivinhar. Longas horas passava nas
praias a escutar aquele rumor melancólico e solene e perguntava às
vezes a si próprio o que o retinha ali. As palavras da cantora pareciam
ter sido a resposta aguardada, há muito, àquela tácita interrogação
da sua consciência.
Havia, pois, mais alguém que, como ele, escutava as ondas e se
deliciava com a sua harmonia?
Passado algum tempo, a noite, como se quisesse confirmar o
prognóstico da desconhecida, principiou a serenar um pouco mais,
abrandou a violência da ventania e as ondas vinham já quebrar-se com
menos força nas areias da praia.
Vejamos disse a cantora que lhes dizia eu, homens sem
confiança no mar? Aí temos o vento sul para nos ajudar na volta. A que
distância estamos de Espinho?
A légua e meia, Madama; ali mais adiante estão os palheiros
do Furadouro.
Voltemos.o lhes disse eu que era desnecessário aproxi-
marmo-nos tanto da costa ? Ao largo ! Ao largo!
Os pescadores obedeceram-lhe, o barco sulcou as ondas afas-
tando-se da praia, o rumor das vozes tomou-se cada vez menos dis-
INÉDITOS E ESPARSOS
tinto, mais confusa a forma escura do barco, até que enfim tudo se
confundiu na escuridão da noite e no rumor monótono das vagas, já
menos impetuosas.
Pedro ainda por muito tempo interrogou aquelas trevas e aquele
ruído confuso do mar...
Era uma formosíssima noite de luar, aquela!
A alvacenta nebrina que se condensara na atmosfera aumentava
o aspecto teatral da cena, difundindo em toda ela um certo colorido
vaporoso de surpreendente efeito artístico.
As vagas onde a luz se quebrava em multiplicados e cintilantes
reflexos, estendiam-se languidamente pela praia, com um brando mur-
múrio. Das pequenas cataratas que, ao dobrarem-se sobre si, produ-
ziam as ondas, levantava-se um orvalho denso que retratava a luz
num íris desvanecido. Alvejavam ao longo da costa flocos de espuma
que, num lento refluxo, desciam de novo às águas, até que outra vaga
os impelia mais longe.
Tudo era solidão! No mar, na praia e no céu! O mar sem um
barco, a praia sem uma habitação, ou sem uma estrela! E a Lua,
como uma lâmpada mortiça pendente da vasta abóbada de um templo
deserto, alumiava esta majestosa e imponente solidão!
Pedro caminhava rápido por este vasto areal da praia e nem
sentia o seu isolamento, que povoada levava a fantasia por mil ima-
gens e pensamentos encontrados.
Era noite avançada quando chegou à vista dos palheiros de
Espinho.
Palpitava-lhe de ansiedade o coração ao aproximar-se daquele
lugar.
Aquelas sombras escuras em que se destacavam no horizonte,
tingido de um azul-pálido pelos reflexos do luar os palheiros desta
parte do litoral, envolviam uma mulher que, sem o suspeitar, se trans-
formara em objecto de um culto fervoroso para um mancebo em cujo
coração virgem pela primeira vez se ateara a chama ardente de uma
paixão definida.
Pela primeira vez Pedro afrouxou a velocidade dos seus passos
e parou levando ao ao coração como para lhe sentir as palpitações
agitadas e irregulares.
Dominando esta comoção momentânea, prosseguiu, porém, na
sua marcha e penetrou no centro da povoação. Estava quase deserta
àquela hora. Pedro correu, como em delírio, todas aquelas estreitas
e turtuosas ruas de areia, que seguiam por entre os palheiros, e
parou em toda a parte onde imaginava encontrar aquela queo
ansiosamente procurava.
Em cada sombra que se destacava noo esclarecido de uma
INÉDITOS E ESPARSOS
janela, supunha ver o perfil da mulher a quem consagrara todos os
afectos do coração, todos os seus pensamentos e aspirações.
Cansou-o esta inútil pesquisa, desalentou-o este baldado pro-
curar, e quase se deixou cair, extenuado de forças e de esperanças,
junto à porta de um pequeno palheiro situado no extremo oposto da
povoação. Assim permaneceu alguns minutos sem consciência do que
se passava em torno de si, pensando no destino da sua paixão insen-
sata e absorvido por amargas ideias de que tantas vezez se lhe ali-
mentava a imaginação.
Pouco a pouco principiou a despertar-lhe a atenção, até ali
poderosamente distraída, um rumor de vozes que vinham do interior
do palheiro à porta do qual se encostara. Uma das que falavao
lhe era desconhecida e esta circunstância operou uma salutar diversão
naquele preocupado pensamento, afugentando-lhe por instantes o tro-
pel de ideias negras que o assombravam.
Aplicando o ouvido à porta detrás da qual lhe chegava aquele
sussurro, Pedro pôs-se a escutar, com mal reprimida curiosidade, o
que se dizia lá dentro.
Sabes que a Madama nos tomou outra vez o barco para todo
o resto da semana? dizia uma das vozes.
Outra vez ?! Julguei que desde aquela noite de ventania lhe
passara o gosto por estes passeios.
Enquanto a mim aquilo é mania. Poisos tu como elao
aproveitou as belas noites quem estado e agora diz que quer o
barco, quer chova, quer vente?...
Estas estrangeirasm destas coisas. Ela, pelos modos, é alguma
princesa; paga que nem uma rainha.
O sor Morgado que aqui esteve a banhos o ano passado disse
no outro dia que a conhece do Porto. É uma fidalga estrangeira que
anda a viajar.
. Há gente que vem a este mundo só para passar vida de
rosas.
E aborrecem-se dele. É ver como ela acha gosto naquilo que
nos dá pena as outros. Deu-lhe para cantar no mar!
E olha que lá isso!... Sempre canta que é um gosto ouvi-la.
Mas para que lhe havia de dar! Cantar no mar! A falar a ver-
dade... Aquilo nem sei o que parece!
Deixa, homem. Paras tem sido uma providência; àss
pescas que tem havido, de muito nosm valido os tais passeios da
Madama.
Mas também caro pagamos esses lucros, que quando ela
empreende demorar-se por, nem que a levássemos a Lisboa a
satisfaríamos.
E entãoo há mar que a intimide. Uma mulhero animosa
ainda estou para ver.
Sempre é estrangeira! Será ela cristã ?
INÉDITOS E ESPARSOS
Ih!os como fala tanto na Virgem ? E as esmolas que!
Não, isso, boa senhora é ela. Verdade, verdade.
Isso é. Tirante lá aquela veneta!...
Quem tem dinheiro nem sabe em que o há-de gastar,
Quanto tempo se conservará ela ainda aqui na praia ?
Disse-me que até ao fim da semana. Depois vai para o Porto.
Nem eu sei como se tem demorado tanto, agora queo é
tempo de banhos, e tudo isto está deserto.
Pedro escutava, com indescritível avidez, este diálogo dos pes-
cadores; esforçava-se poro perder uma só das particularidades
referidas nele, relativas à desconhecida viajante.
Nas disposições de espírito em que o apaixonado moço estava
naquele momento, o nome só da pessoa que assim nos traz, como os
dele, avassalados os pensamentos,o é escutado sem uma extrema e
agradável comoção.
Recolhia, como revelações preciosas, tudo quanto diziam os pes-
cadores e ardia em desejos de lhes dirigir milhares de interrogações
a respeito da mulher que eles tinham a ventura de transportar no seu
barco às horas solenes da noite e pela majestosa solidão do mar. Por-
que preçoo pagaria ele esse invejado prazer!
Desta quase extática contemplação foi finalmente arrebatado pelas
vozes de um piano que partiam do palheiro próximo. Pedro estreme-
ceu, escutando os prelúdios que umao exercitada extraía das
teclas sonoras.
Poucas vezes, se algumas, Pedro tinha ouvido um piano. Aqueles
sons encantavam-no, estimulavam-lhe os vivíssimos instintos musicais
que possuía, ignorando-os, essa alma nobre de artista, criada para
grandes concepções, que o destino impossibilitava de realizar, con-
denando-a totalmente a sucumbir de contínuo nos esforços a que, por
instinto, obedecia, desconhecendo sempre o alvo em que eles se con-
vergiam.
Depois teve um pressentimento de que ao que despertava
do silêncio da noite aquela suave harmonia era a da mulher que ele
procurava.
Que febril agitação então a sua! Era uma quase vertigem o que
!
ele experimentava!
Ela aí principiou a cantar. E então é como os rouxinóis... Canta
só de noite disse um dos pescadores cujo diálogo Pedro estivera
escutando.
Então a mesma voz, que tantas vezes o apaixonado moço escutara
na praia, e que por muito tempo julgara um mistério do mar, princi-
piou cantando, acompanhada, desta vez, pelos acordes sonorosos do
piano, que mais a fazia sobressair.
Agora o estilo da música era suave e melancólico; era a canção
da rosa, a ária formosíssima da qual Flotow fez o motivo de toda a sua
ópera, a Marta, e que rarosm o poder de escutar sem que se
INÉDITOS E ESPARSOS
sintam possuídos de uma profunda comoção e com disposições para
lágrimas.
A artista cantava-a na letra italiana da ópera, cuja tradução é,
aproximadamente, a seguinte:
Aqui,, virgínea rosa,
Como podes florescer I
Inda em botão desditosa,
E já próxima a morrer !
Em vez do orvalho da vida
Cresta-te a neve e o tufão
É já sobre a haste pendida
Incidias a fronte ao chão!
Escutando aquela música elegíaca e sentida, Pedro experimentou
uma comoção ainda mais profunda que das outras vezes;o com-
preendendo a letra italiana do canto, tal era a expressão da cantora
e a eloquência da música que ele ouvia-a com intenso recolhimento,
como se escutasse a voz do seu próprio coração. Esquecia-se de
tudo, como nos esquecemos, levados pela corrente dos nossos pensa-
mentos, a escutar a nossa própria consciência.
Quando as últimas notas deste canto magoado se desvaneceram,
confundindo-se com o murmúrio do mar, Pedro, voltando a si do
êxtase em que esta música o arrebatara, sentiu que as lágrimas lhe
banhavam as faces.
Que é isto, meu Deus? exclamou o pobre adolescente com
um acento de desespero. —Porque me faz chorar esta música? Por-
que me sinto entristecer sempre que a oiço cantar, a esta mulher
queo conheço, que nem sequer ainda a vi? Que homem sou eu,
o singular! Jesus, Jesus! Será isto uma loucura?
Tudo na praia recaíra em profundo silêncio. Pedro, com os olhos
postos na janela obscura, conservava-se imóvel, como se temesse des-
vanecer uma visão deliciosa ou quisesse recolher as últimas e imper-
ceptíveis vibrações sonoras que um sentido superiormente organizado
lhe permitia ainda apreciar.
Principiava a tingir-se o horizonte dos rubores da madrugada e
Pedro emo se esforçava por se arrancar dali. Prendia-o uma espe-
rança; a de entrever, por instantes que fosse, a mulher por quem con-
ceberao violenta paixão; instava com ele, para partir, aquela espécie
de pudor do coração, com que de todas as vistas procuramos escon-
der os menores vestígios de um primeiro amor, tanto mais ardente-
mente quanto maior é a sua candura e quanto mais digno ele é da
nobreza de sentimentos próprios da juventude.
Era já manhã alta quando Pedro voltou ao Furadouro.
Notaram a sua falta na companha, que à hora do costume se fizera
ao mar e, segundo a lei, foi multado na parte do quinhão que lhe tocava.
INÉDITOS E ESPARSOS
Na noite desse dia reproduziu-se para Pedro a aparição do mar.
Foi pela altura dos palheiros, então ainda desertos, de Maceda
e Cortegaça, que ele a veio encontrar.
A noite estava tranquila, o mar sereno. A claridade da Lua,
penas velada por um transparente cendal de tenuíssima nebrina, per-
mitiu distinguir o vulto da cantora que, recostada à proa, entoava
ma música cheia de entusiasmo e energia, uma espécie de hino
patriótico, a cujas palavras ela sabia comunicar todo o fervor do seu
animo exaltado. Ainda desta vez foi contagioso para o impressionável
moço o sentimento que em todo aquele canto se reflectia.
Assim como na véspera a melancolia do canto lhe havia feito
assomar aos olhos lágrimas incompreensíveis, agora a energia, o
ardor com que as palavras pátria e liberdade eram pronunciadas pela
cantora, comunicaram-se ao enlevado mancebo, que experimentava
um desses voluptuosos estremecimentos e sensações indefiníveis que
ressentimos nos movimentos de entusiasmo, e nos transformam, e nos
sublimam, elevando-nos acima des mesmos e fazendo-nos capazes
de superiores concepções e empenhos.
Ele caminhava na praia como atraído por aquela harmonia sedu-
tora. Ela fugia-lhe. O barco movia-se em direcção ao norte. Pedro
seguia-o, seguia-o com uma velocidade que só lhe podia vir da aluci-
nação que o dominava. Já mal se percebia o canto, já quase se tornara
indistinto o barco de onde aquela música partia e Pedro, com o olhar
fixo naquele ponto e com os ouvidos atentos à desvanecida harmonia,
caminhava ainda, e caminhou sempre, até que um súbito obstáculo
lhe tolheu os passos.
Estava defronte da Barrinha.
Quem viajasse há anos por esta parte da província da Beira, deve
conhecer, por tradição, senão por experiência, o ponto do litoral que
recebeu este nome e onde tantos episódios, uns cómicos e outros trá-
gicos, se sucederam, antes que se construísse a ponte que hoje o via-
jante, ao percorrer a linha férrea, próximo à estação de Esmoriz, des-
cobre desenhando os seus quatro arcos sobre o fundo esverdeado das
aguas do oceano.
A Barrinha é uma estreita abertura cavada pelo mar na costa de
areia, interrompida neste ponto, e por a qual ele se precipita, vaga a
vaga, em um pequeno golfo que se estende para o norte e para o sul,
separando dois extensos cabos de areia fronteiros um ao outro. Nas
marés brandas, e quando o mar é pouco agitado, esta abertura é
vadeável e os viandantes, aproveitando o refluxo, quase a pé enxuta
atravessam,o incólumes como Moisés atravessou as ondas do mar
Vermelho; mas uma hesitação, uma demora pode ser-lhe fatal; se a
INÉDITOS E ESPARSOS
vaga volta com um pouco mais de violência, envolve o incauto eo
poucas vezes o arrasta consigo.
Nas marés vivas, porém, e quando as correntes marítimaso
mais fortes, a passagem torna-se impossível, ao ser nos barcos que
estacionam no pequeno golfo, e cujas águas nem sempreo plácidas,
recebendo a agitação que o oceano, em completa comunicação com
elas, lhes transmite.
Ora nesta noite era a Barrinha intransitável; ainda entãoo
existia a ponte que hoje permite fácil passagem em toda a ocasião, e
o mar era abundante.
E, contudo, Pedro hesitou ainda, como se tentasse lutar com a
natureza no obstáculo que ela lhe oferecia. Mas o canto cessara de
todo, a vista jáo distinguia no mar o menor vestígio do barco; o
alento que animara até ali o pobre vagabundo abandonou-o todo à
languidez da sua definhada saúde.
Em algumas das noites sucessivas, tranquilas como esta, voltaram
de novo o barco e a cantora. Pedro procurou-os com o mesmo fervor,
escutou-a com o mesmo recolhimento, viu-a afastar-se com a mesma
ou mais intensa saudade.
E o pobre pescador abatia-se a olhos vistos.
João Cabaça vivia taciturno e oprimido, preso às suas crenças e
preconceitos, sentindo o estado de Pedro, a quem de cada vez mais
se sentia afeiçoado.
! Na opinião do velho, opinião que eleo revelava parao excitar
terrores ou causar maiores desgraças, era evidente ser tudo aquilo
malefícios da sereia. Ao que já soubera pela comunicação que lhe
tinha feito Pedro, acresceu uma nova circunstância, que muito influiu
para corroborar esta crença no ânimo do velho pescador.
É que ele também a ouvira, também em uma das últimas noites
lhe escutara o canto eo lhe ficou dúvida que' era' de sereia, pois
nunca tinha ouvido mulher cantar assim e muito mais no mar e por tais
horas da noite.
O velho tinha sido obrigado a ir a Espinho e, ao voltar, aí pró-
ximo da capela da Senhora Aparecida, principiou a ouvir aquele
canto que o sobressaltou; aplicou o ouvido e percebeu-o mais dis-
tante. O velho ficou aterrado! Quanto mais involuntariamente o delei-
tava aquela música, tanto maior vulto tomavam as suas apreensões.
Considerava-se já perdido, mas teve uma inspiração salvadora: correu
para a pequena ermida, que lhe estava próxima, e, ajoelhando-se na
entrada,s o pensamento na Virgem e serviu-se do expediente que,
segundo a fábula, tinha utilizado um companheiro de Ulisses em uma
situação idêntica. A prática surtiu efeito. Quando o velho destapou
os ouvidos, jáo se percebia o canto; tinha, pois, esconjurado o
malefício.
Prosseguiu no seu caminho, mas sempre inquieto.
Nessa noiteo pôde conciliar o sono. Volvia-se e revolvia-se no
INÉDITOS E ESPARSOS
eito, fechava os olhos e escondia a cabeça no travesseiro... Debalde...
Era sempre aquela ideia a afugentar-lhe o sono; afigurava-se-lhe ainda
ouvir aquela voz e o pobre velho principiava a imaginar-se enfeitiçado.
Fez o sinal da cruz, encomendou-se à Virgem e ao Pedro Santo
que, antes de ser Papa, fora pescador; mas parece que desta vez tinha
de ser ineficazo valiosa intercessão. Depois lembrava-se de Pedro,
bom do velho, e compreendia como ele devia andar perdido,
quando a si próprio nem a reflexão nem o peso dos anos lhe foram
preservativo contra a influência daquela endemoninhada tentadora.
Se, próximo à manhã, João Cabaça conseguiu dormir, foi de um
sonoo agitado,o cheio de sonos febris e assustadores que, longe
de o restaurar, o fatigou...
Quando apareceu diante dos da companha, perguntaram-lhe de
todos os lados se estava doente.
Esta pergunta desagradou ao velho.
Doente! E que me acham vocês para o pensarem ?
Está amarelo, o ti'Cabaça, que nem uma cidra e tem cara de
quem lidou com bruxas.
Malditas, malditas! Só de as ouvir uma vez, já assim me
puseram! exclamou o velho,o podendo reprimir uma indignação.
Quem? Quem? perguntaram várias vozes com grande curio-
sidade.
João Cabaça apenas respondeu:
Ninguém, ninguém. Eu cá me entendo.
Vejam como deveria ter adquirido firmeza a crença de João
Cabaça, quando juntara à experiência de estranhos a sua própria
experiência.
Procurou Pedro e, desta vez, foi eloquente na prédica em que
lhe pintou com as mais vivas cores os artifícios das sereias, e pediu-
lhe que resistisse àquela tentação que lhe viria a ser funesta. Que ele
próprio, por a ter ouvido uma noite, se sentira incomodado e que,
portanto, tomasse tento, que mais sujeita ao perigo andava a juventude
do que a idade em que alvejam os cabelos e a fronte enruga e verga
sob a pressão 'dos anos.
Estas e outras muitas coisas dizia o bom do velho, mas o seu
companheiro escutava-as distraído e provavelmente sem ter sequer
consciência do que elas significavam. A abstracção de Pedro aumen-
tara de ponto a fazer julgar a todos que ele transpusera as raias da
loucura.
Tudo fazia maquinalmente; se respondia às perguntas que lhe
dirigiam era como se aso houvesse compreendido.
Esta distracção continuada, que o alheava ao trato usual dos
seus companheiros, acabou por o isolar completamente, pois todos
pareciam experimentar um certo afastamento por aquele carácter
excessivãmente concentrado eo sujeito a aberrações que se asse-
melhavam a uma verdadeira loucura.
INÉDITOS E ESPARSOS
Apesar das recomendações de João Cabaça, já a noite veio
encontrar a Pedro no seu posto de vigia.
A tarde estivera magnífica.
No firmamento límpidoo se formara uma só dessas pequenas
nuvens queo o primeiro assomo da cólera dos elementos. Reinava
uma calmaria completa ainda no princípio da noite.
A atmosfera tépida e asfixianteo era agitada pela menor vira-
ção ; as ondas, como que dominadas pela geral languidez da natureza,
estendiam-se lentamente na praia com suave murmúr-io.
E, contudo, no meio desta tranquilidade, Pedro sentia-se inquieto,
como se alguma coisa pressentisse ameaçando-o de um perigo latente.
As organizações impressionáveiso formadas por estas misteriosas
percepções, que seo explicam.
Por um instinto, semelhante ao das aves que volteiam sobre as
praias ainda quando a tempestade está longe, mas que elas pressen-
tem,o as ilude as aparências de bonança que ou às vezes ofe-
rece ; o que quer que seja de invisível lhes prognostica as tormentas.
Aonde se engana a experiência dos anos, realiza-a a voz profé-
tica destes inexplicáveis instintos.
Nesta noite Pedro sentia-se triste, e experimentava um secreto
medo que a si próprio admirava.
o sei o que descobria no cintilar das estrelas, que o assustava;
a voz das vagas, na sua aparente suavidade, parecia-lhe murmurar
ameaças surdas; o sorriso da natureza dir-se-ia um sorriso traiçoeiro;
o lhe infundia confiança.
Passeava na praia, com os olhos fitos naquela imensa super-
fície líquida de onde lhe tinham vindo os únicos momentos de feli-
cidade que entrevira na vida. Mas comprimia-se-lhe desta vez o
coração respirando a inflamada atmosfera daquela noite de sinistra
influência.
Esta vez os temores que ressentia, na aparência mal fundados,
pouco a pouco os principiou a justificar o novo aspecto que foram
tomando o mar e o firmamento.
Levantou-se do sul uma viração, ao princípio branda, mas que
adquiriu gradualmente mais intensidade, turbando a limpidez dou
com um sem-número de pequenas nuvens que coalhavam a imensa
abóbada que se descobria dali. A forma, a disposição destas nuvens
era de um agouro pouco seguro para os olhos amestrados. Pedro sur-
preendeu toda a significação destes sintomas dou e via confirmados
por eles os seus vagos terrores de há pouco.
Temia já que o barco, cujo aparecimento eleo ardentemente
esperava,o viesse aquela noite, e só com esta lembrança sentia-se
desfalecer.
Era como se aquela esperança, se aquele gozo de momentos fosse
o único laço que já agora o prendia à vida.
Pensar que lhe poderia faltar era para ele a origem de uma tris-
INÉDITOS E ESPARSOS
tezao íntima, de umao absoluta desesperança, que na morte ante-
via o único alívio a esperar, depois deo dolorosa desilusão.
Mas, no meio destas apreensões, puderam seus olhos desco-
brir, apesar da cerração cada vez mais densa que principiava a ocul-
tar-lhe o mar, uma forma que lhe pareceu a do barco que aguardava
com tanto fervor.
Trémulo de ansiedade indizível, se aproximou da beira-mar,
fazendo excessivos esforços, para devassar o fundo impenetrável
daquela escuridão.
O coração dizia-lhe que era aquela a aparição pela qual espe-
rava, no seu palpitar ansiado, e na misteriosa sensação que ressentia.
De repente, como respondendo à tácita interrogação daquela
alma apaixonada, e impelindo-a a extremos de júbilo indefinível, a
conhecida voz feminima principiou cantando uma evocação à tem-
pestade, que se poderia traduzir assim:
« Vinde I Soprai furiosos,
Ventos de tempestade
Ergue-te, majestade !
Ergue-te, ó vasto mar !
Passai, legiões de nuvens!
Velai ou de estrelas!
Ó gemo das procelas !
Vem, quero-ta saudar!
«A luz fatal do raio
Guie o meu barco apenas I
E rujam como hienas
As vagas ao redor...
Pairem nos ar's fatídicos
As aves de carnagem.
E cave-se a voragem
Com súbito fragor !
«Surjam do fundo abismo
Os pavorosos vultos
Dos náufragos sepultos
Dos mares na amplidão !
Responda à voz das águas
Fermentes, agitadas,
O silvo das rajadas,
Os brados do trovão !
«Do arcanjo de extermínio
O gládio chamejante
Ostente-se radiante
De ameaçadora luz !
Da tempestade às fúrias
Assistirei sorrindo,
E bradarei: «Bem-vindo!»
Ao génio que a conduz!
INÉDITOS E ESPARSOS
«Bem-vindo, sim, que eu sinto
No seio, mais violenta,
Uma cruel tormenta,
A luta das paixões !
Procuro o mar furioso
Como um seguro asilo 1
Arrosto-o, eo vacilo
Das ondas aos baldoes !
Como se efectivamente a tempestade obedecesse a esta evo-
cação singular, um violento tufão do sul veio encapelar as ondas já
inquietas, encobrindo com a sua voz poderosa as últimas notas da
canção.
O barco jogava nas ondas agitadas de uma maneira assustadora.
Os remadores faziam esforços poderosos para resistirem à violência
das ondas e, pelos seus movimentos, denotavam a pouca tranquili-
dade de espírito que possuíam.
Nos intervalos das rajadas, algumas palavras destacadas da tumul-
tuosa discussão e ordens encontradas da manobra que se trocavam
entre eles, vinham até aos ouvidos de Pedro, que principiava a inquie-
tar-se pela sorte daquela a quem votara todos os seus pensamentos, a
quem consagrara inteiros os tesouros de seus ardentes afectos.
Temo-la connosco! dizia um dos remadores. E esta é de
respeito!
Quem o havia de dizer, com a noite que estava I
Já meo agrada muito, a falar a verdade...
Neste ponto, nova rajada impediu que chegasse à praia o resto
do diálogo.
Quando, por sua vez, serenou, era a voz da cantora a que se
ouvia dizer:
Hei-de ser eu ainda desta vez que lhes dê ânimo ? Homens há
tanto no mar e que aindaom confiança neste seu companheiro de
juventude! Sosseguem, eu lhes asseguro que...
O fuzilar de um relâmpago, que iluminou com o clarão sinistro
toda a extensa amplidão do mar, interrompeu estas palavras; e, ins-
tintivamente, a cantora levou as mãos aos olhos, exclamando:
Jesus!
O ruído ensurdecedor de um altíssono trovão acabou de deso-
rientar os pescadores, em cujo manobrar inconsequente se reconhe-
cia toda a turbação de ânimo que sentiam.
Pedro examinava com indescritível ansiedade o resultado daquela
luta de súbito travada entre os elementos enfurecidos e a força humana.
Palpitava-lhe violentamente o coração com a lembrança do perigo que
aquele barco corria e, por vezes, uma força instintiva o aproximava
1
Esta poesia vem publicada nas últimas edições das Poesias de Júlio Dínis com
o titulo Evocação à tempestade. Deve ter sido escrita em Ovar em 1863.
INÉDITOS E ESPARSOS
das ondas, como para voar em socorro daquela existência, à qualo
indissoluvelmente deixara ligar a sua.
o é possível vencer este mar! Faz-te à terra, Lourenço, que
eu já mal posso segurar o remo I
É melhor, é melhor. A terral
Vira!—bradaram os outros.
Quando, seguindo esta nova ordem de manobra, o barco se vol-
tou para demandar a praia, um forte tufão de vento soprouo de
súbito e com tal violência que, apanhando de lado o barco, por pouco
o virava.
Um dos homens, que se achava desprevenido,o pôde resistir
ao impulso e caiu ao mar.
Santa Virgem!—bradou com voz angustiada a jovem italiana.
Acudam!
A este grito sucederam as exclamações dos remadores, que se
esforçaram para salvar o seu companheiro. Este pôde voltar ao cimo
da água a tempo de se encontrar ainda a pouca distância do barco e,
firmando-se sobre a borda, saltou para dentro. A escuridão da noite
era completa.
Pedro ouviu da praia o grito angustiado da cantora, o qual lhe
penetrou até ao coração.
Ouviu as vozes confusas dos remadores e uma ideia terrível lhe
passou pelo espírito. Pensou que aquela mulher desconhecida havia
caído às ondas e lutava nesse momento com a violência do mar.
Pedro era um dos melhores nadadores do Furadouro. De pequeno
fazia admirar os mais hábeis pela maneira como se confiava ao seio das
ondas quando mais inquietas, e como que brincava com elas.
o hesitou muito tempo; correu como um louco ao longo da
praia e deitou-se ao mar, nadando na direcção do barco.
Guiava-o o som das vozes dos remadores no meio daquelas trevas
que o rodeavam.
Mas, passados os primeiros momentos, Pedro sentiu que o aban-
donavam as forças em que, por hábito, confiara. Mal fundada espe-
rança fora esta sua!
O pobre moço jáo era aquele pescador robusto e vigoroso
para quem um remo era um brinco de criança, e que fazia inveja aos
mais alentados, por aquela força muscular que subjugava a violência
das vagas; tinham-no alquebrado as vigílias contínuas e os extremos
da paixão que lhe absorveram todas as faculdades daquela alma até
então virgem de afectoso poderosos. Agora sentia-se desfalecer.
A meio caminho da praia ao barco que procurava, já os movimentos
lhe eram dificultosos e um certo atordoamento de cabeça lhe impedia
regularizá-los.
Já o animava apenas aquela força instintiva que nos estimula em
situações desesperadas.
De quando em quando deixava-se tomar de um desalentoo
INÉDITOS E ESPARSOS
completo que a custo sufocava a tentação de se deixar vencer pela
força da corrente e baixar, sem esforços de resistência, ao túmulo
que se lhe cavava aos pés. Depois a voz do instinto reanimava a ener-
gia de lutar, quando ele já deixava pender exaustos os músculos e se
sentia sucumbir.
Renovava-se então aquele combate singular, terrível e solene,
cujos resultadoso podiam ser duvidosos.
O mar parecia deleitar-se em atormentar a sua vítima antes de a
devorar. Uma vaga impetuosa anulava em um momento os esforços de
muitos; depois abrandava-se, como deixando-se vencer, para cedo
redobrar de violência e subjugá-lo.
A situação do infeliz era desesperada.
No seu espírito principiavam a suceder-se, em confuso tropel,
cujo rápido voltear lhe fazia sentir uma verdadeira vertigem, mil ima-
gens variadas, origem de quantas ideias nos últimos tempos lhe haviam
preocupado o pensamento.
Por momentos esquecia-se já do fim a que tendiam todos estes
esforços extenuantes que estava empregando, perdia a consciência da
sua situação precária, duvidava da iminência do perigo, parecia-lhe
um sonho tudo o que estava passando por ele e como se esforçava
por acordar. Mas cedo aparecia-lhe a realidade mais amarga ainda,
torturava-lhe o coração um paroxismo de desespero.
Vinham-lhe as saudades de um passado que havia esquecido,
surgiam-lhe os terrores de um futuro que ia devassar.
Dúvidas, superstições, preconceitos, tudo lhe assaltava a cons-
ciência e o fazia delirar. Depois a lembrança daquela a cuja salvação
sacrificara a sua existência surgia-lhe de repente como um clarão nas
trevas que o cercavam e por instantes lhe comunicava uma energia
improfícua. Era um lidar inútil, aquele. Já sem consciência dos rumos,
o vendo,o ouvindo nada que lhe indicasse a direcção na qual
devia fazer convergir os seus esforços, lutava por instinto; mas o
espírito alucinado jáo presidia à luta. Os membros enregelados,
entorpecidos, exaustos,o lhe permitiam uma muito mais longa resis-
tência.
Subitamente um relâmpago prolongado iluminou o vasto teatro
desta cena terrível. Aos olhos de Pedro, já meio velados pela angús-
tia, mostrou-se bem claro e próximo o barco queo energicamente
demandava e sentada nele a mulher por quem votava em sacrifício
a própria vida, depois de lhe ter tributado todos os tesouros da
sua alma.
Um novo relâmpago reflectiu a sua luz fulgurante nas feições
simpaticamente belas daquela mulher extraordinária.
Este resultado reanimou por instantes as forças já abatidas do
náufrago. Pela primeira vez lhe era dado contemplar o rosto daquela
por quem concebeu umao singular paixão. Essa vista fascinou-o!
Com uma energia quase sobre-humana, segurou-se à borda do
INÉDITOS E ESPARSOS
barco, quando este se abaixava obedecendo à ondulação das vagas,
e, com os olhos espantados, fitou aquela mulher, cuja voz o enfeitiçava
e, como a da sereia, parecia arrastá-lo a uma inevitável perdição.
Ela também o viu.
Batia-lhe em cheio no rosto, desfigurado singularmente pelos afec-
tos que então se combatiam tumultuosos e contrários naquele peito, um
novo clarão de relâmpago.
A cantora deu um grito ao descobrir aquela inesperada aparição.
Por um instinto de compaixão estendeu as mãos ao náufrago.
O barco, neste mesmo instante, executou um movimento; as for-
ças de Pedro abandonaram-no; quebrara-lhas de todo a violência da
última comoção que recebeu. Soltou as mãos do bordo do barco, o
qual lhe passou por cima do corpo.
Esperem! Esperem! bradou angustiada a cantora. Um
homem no mar!
Os pescadores pararam e olharam uns para os outros, como
contando-se.
Estamos todos responderam depois. A Madama enga-
nou-se.
Vi-o!o foi ilusão! Segurou-se à borda do barco, agora
mesmo! Valham-lhe! Tenham piedade dele !
Os pescadores estenderam as vistas por toda a extensão do mar,
que os relâmpagos iluminavam por intervalos, maso descobriram
vestígios do náufrago. Demais eles tinham pressa de ser a salvo
eo depositavam demasiada confiança no sossego de espírito da
cantora para supor queo fosse possível uma ilusão da sua parte.
Passado tempo, o maior furor da tempestade abrandara, os pes-
cadores puderam vencer a resistência do mar e, algumas horas
depois, desembarcavam na praia de Espinho, jurando nunca mais tor-
narem a meter-se ao mar numa noite como aquela por dinheiro
nenhum deste mundo.
O ânimo da cantorao era desta vez contrário a iguais dispo-
sições de espírito.
Impressionara-a demasiado aquela figura do náufrago que entre-
vira e que elao acreditava haver sido alucinação dos sentidos;
impressionara-a, sobretudo, a estranha expressão daquela fisionomia
descomposta, onde parecia reflectir-se, entre os tormentos da agonia,
um certo reflexo de inexplicável voluptuosidade.
*
Era já dia claro quando as companhas se reuniram na praia,
preparando-se para se fazerem ao mar.
O tempo melhorara. E do aspecto dou tiravam os entendidos
prognósticos favoráveis.
VOL..
II
21
INÉDITOS E ESPARSOS
Um grupo de pescadores no qual se contava o nosso conhecido
João Cabaça, caminhava, conversando, em direcção à beira-mar. A tro-
voada da véspera era o assunto discutido.
E então que te parece a trovoada desta noite ? perguntava
um dos mais idosos.
S. Jerónimo ! Alguns trovões estalaram mesmo em cima dos
palheiros. Julguei queo ficaria um só de!
Vinha puxada do sul com uma força !
Mas deixa! Era precisa para limpar os ares. Olha que
manhã está hoje!o há-de ser pequena a safra.
É precisa, é precisa. Olha, o pior é dos que ela apanhou no
mar disse João Cabaça, meneando a cabeça.
Lá isso é verdade ! Mas que remédio!
Andem mais depressa, rapazes! Olhai que os barcos estão
prontos.o vêem?
Mas que diabo fazem aqueles ali, ao pé do mar?
Para que será que eles olham assim?
A curiosidade apressou o passo aos pescadores, que correram
em direcção ao ponto da costa onde muitos dos da companha já esta-
vam reunidos.
Que é ? Que é ? perguntavam uns aos outros, amontoan-
do-se, comprimindo-se, empurrando-se, sem obterem a explicação
que desejavam.
Aquilo é afogado decerto... dizia um pescador novo, depois
de aplicar a vista por algum tempo a um objecto que boiava nas águas.
Estas palavras excitaram a curiosidade de João Cabaça, que se
aproximou do que as dissera, como disfarçada curiosidade.
Mostra-me o que tu dizes que é um afogado, Luís do Moleiro.,.
TRECHOS
Tirados de dois manuscritos referentes aos
romances Pupilas e Morgadinha.
!
D. DOROTEIA
E disso se poderia gabar quem há cinco anos fosse admitido na
sala de recepção da sr." morgada das Fontainhas, Doroteia
de Melo Carragena e Sousa de França e Albergaria, às horas
em que se tomava o chá. O solar da septuagenária, representante de
tantos nomes ilustres, ficava situado nos subúrbios da vila de Ovar,
pátria da nobre fidalga, e onde seu pai foi capitão-mor em tempos
cuja memória arrancava, a cada passo, do peito de D. Doroteia um
suspiro de saudosa significação.
D. Doroteiao tinha cabedal para sustentar com o devido esplen-
dor e galhardia a sua árvore genealógicao carregada de nobilíssi-
mas produções; era-lhe insuportável a vista do luxo que ostentavam
famílias cujos mais próximos ascendenteso se cobriam diante dos
seus; e, na impossibilidade de os sobrepujar em luxo e magnificên-
cias, ela preferia encerrar-se em uma quase completa reclusão, sob
o pretexto de um desapego ao mundo e descrença em coisas e pes-
soas, digna, tanto na manifestação como na sinceridade, de um dos
nossos cépticos de vinte anos.
Enclausurava-se, pois, D. Doroteia com as suas pratas, os seus
vestidos, cuja moda estava esquecida há vinte anos, os seus gatos, os
seus criados e os seus móveis, e lançava, da sua clausura, olhares de
soberano desdém para o resto do mundo.
O acesso às salas desguarnecidas da aristocrática morgada era
INÉDITOS E ESPARSOS
dificílimo. Frequentavam-nas, a titulo de amigos, apenas um padre
meio fidalgo, dois velhos fidalgotes, igualmente ilustres e igualmente
pobres, que passavam o tempo a consumir os restos de uma fortuna
que demandas e hipotecas haviam, de ano para ano, reduzido em pro-
porção assustadora, a título de familiares, que nunca se deviam esque-
cer do favor que recebiam nisso, sob pena de lhes ser lembrado, com
severas admoestações, um boticário da vila e um doutor que ajudava
a morgada a perder várias demandas e lhe preparava o andamento
de outras.
O lugar onde, de ordinário, se reunia esta escolhida assembleia,
era uma pequena sala quadrada, de soalho nu e carcomido, tecto de
castanho pintado de branco, e altas paredes que uma série de qua-
dros adornava, de caixilhos negros, contendo umas péssimas litogra-
fias, escandalosamente coloridas, das passagens mais interessantes da
parábola do filho pródigo.
A mobília desta sala mostrava uma variedade prodigiosa; o
canapé de mogno era flanqueado por duas cadeiras de pau-preto de
estilo inteiramente diverso; em volta da sala, cadeiras de variadas
qualidades, e junto ao canapé, um pequeno tapete que revelava lon-
gos anos de serviço no desbotado das cores. Sobre uma pequena
mesa, uma redoma onde se abrigava umo João de marfim, e ao
lado dois castiçais de prata ofuscantemente polidos.
Logo ao princípio da noite, às horas em que, quando o vento
o era contrário, chegavam à solidão do solar da morgada os sons
das ave-marias da igreja de Ovar, a mesa puxava-se para junto do
canapé, os habituais convivas acercavam-se dela e a criada trazia os
preparativos do chá.
D. Doroteia dignava-se prepará-lo e servi-lo com hospitaleira
amabilidade e a conversa principiava a tomar uma vivacidade mais
considerável, graças à confortável infusão e ao delicioso doce com
que a verbosidade dos circunstantes era alimentada. D. Doroteia,
constrangida pelas circunstâncias a prescindir de muitas ostentações,
limitava-se a caprichar no bem servido do chá, e em mostrar, no ser-
viço magnífico de prata e porcelana, uma passada riqueza de que hoje
restavam apenas raros espécimes. Educada num convento de Aveiro,
D. Doroteia trouxera de lá uma qualidade apreciável, a de saber pre-
parar uma infinita variedade de doce que lhe granjeara entre a vizi-
nhança uma merecida reputação.
D. Doroteia tinha sido casada com um coronel de milícias que a
deixou viúva passado pouco tempo e do qual lhe ficou um filho único
para educar e imensas dívidas a satisfazer.
A decadência da sua fortuna principiava daí; procuradores às
mãos de quem a confiou continuaram a obra até ao ponto em que então
se encontrava.
O filho da sr.ª morgada, na impossibilidade de viver da sua for-
tuna, foi obrigado a seguir uma carreira. A única que pareceu à des-
INÉDITOS E ESPARSOS
cendente dos Carragenas digna deo alta linhagem foi a das armas.
Duarte foi enviado para Lisboa e recomendado a um titular, seu primo
em terceiro grau, e entrou para o Colégio dos Nobres.
*
* *
D. Doroteia, como estes monumentos antigos que o vandalismo
e o gosto estragado dos modernosm coberto de emplastagens de
cal e gesso que lhes ocultam o estilo da época, encobria, sob pastas de
algodão, tranças de ébano, e marcas de carmim, os vestígios que ates-
tavam a idade deste espécime de arquitectura viva.o havia a nobre
morgada abdicado de todas as velhas pretensões de elegância com que
tanto brilhara nos salões do tempo de D. Carlota Joaquina e conser-
vava ainda a tal respeito uma excelente opinião de si, corroborada
pelas lisonjas aduladoras dos seus comensais, a quem as deliciosas
sensações que o doce modelo de D. Doroteia produziam no paladar,
exigiam tal retribuição.
Acabara justamente de encetar uma destas finezas insinuadoras
a descendente da produtiva enxertia de tantos troncos ilustres, na oca-
sião em ques também penetrámos neste salão privilegiado que o
espirito nivelador da épocao modificara ainda. A fineza partira de
um dos fidalgos que, com a boca cheia de toucinho do céu, deveu talvez
a esta circunstância a doçura do cumprimento.
A morgada sorriu com um gesto de amabilidade de outros tem-
pos e respondeu, oferecendo ao galanteador uma fatia de pão-de-ló:
Vamos, Sr. de Refojos. Agora compete-me pagar doçura com
doçura. Este pão-de-ló coberto...
O fidalgo estendeu ao e agradeceu com os olhos a oferta,
Com os olhos, poderia dizer, parodiando o poeta, porque a boca lhe
atravancavam de doces uns fragmentos volumosos.
O Sr. de Refojos disse o outro fidalgo que se reputava seu
rival nas boas graças de D. Doroteia o Sr. de Refojos é muito feliz.
Os seus galanteios são-lhe pagos com usura.
Doçura, quer dizer, Sr. de Alpedrinha respondeu o interpe-
lado tendo conseguido desembaraçar a língua o suficiente para pro-
nunciar estas palavras.
Deixe, primo disse D. Doroteia para o segundo que falara.
Longe de me arruinar com os juros que pago, ainda me considero
em dívida; e como gosto de ser leal em minhas contas, vai o Sr. de Refo-
jos dar-me o prazer de aceitar esta pêra de doce.
O Sr. de Refojoso recusou esse prazer à sua amável parenta.
O morgado de Alpedrinha mostrava-se impaciente. D. Doroteia acal-
mou-o voltando-se para ele com um sorriso:
O primo Henrique quer ter o martírio de me servir o açúcar ?
O primo Henrique apressou-se em satisfazer o convite e endirei-
INÉDITOS E ESPARSOS
tando-se na cadeira meditou uma resposta galanteadora. Mas a imagi-
nação do bom do morgadoo era para pressas. Em casa, no silêncio
de um gabinete, era fertilíssimo em ditos lisonjeiros e finezas de bom
gosto que, se viessem em tempo oportuno, dever-lhe-iam ter valido
mais do que uma fortuna amorosa; mas na ocasião era de uma esteri-
lidade desesperadora.
Os mártires... dizia ele, sem poder encontrar o fio do galan-
teio os mártires... os mártires...
Fala-nos de Marrocos, Sr. de Alpedrinha? perguntou com
ares de simplicidade o doutor, ao passo que escolhia do tabuleiro o
mais bem recheado covilhete que o adornava.
O Sr. de Alpedrinha, já embaraçado com a perspectiva de um
galanteio, acabou de perder-se com a interpelação do doutor.o
sabia conservar o seu sangue-frio na presença de um aparte.
De Marrocos,o senhor. Em Marrocos... em Marrocos...
balbuciou o Sr. de Alpedrinha, tendo Marrocos atravancado na gar-
ganta como tivera os mártires. Forao infeliz na execução do epi-
grama como no galanteio.
Felizmente que uma rajada do oeste, seguida de um desses agua-
ceiros de que este vento é tantas vezes acompanhado, veio operar uma
natural diversão no diálogo, com grande aprazimento do Sr. de Alpe-
drinha, que decididamenteo era para respostas de momento.
O boticário foi o primeiro a fazer sobre o tempo uma observação
importante.
Esta é a mais fresca de hoje! Estão-se a preparar os caminhos
para regressarmos à vila!
Isto é nuvem que passa e como as terras estão secaso for-
mam lama acrescentou o doutor em tom de confiança.
Deixe chover, Sr. Bento Firmino disse D. Doroteia pousando
a xícara deixe chover que bem precisado estava o trigo e o milho.
Que seo perca tudo já agora que se foi a colheita do centeio e da
cevada.
Tem razão V. Ex.*, minha senhora. Istoo é chuva, é maná.
Até as hortaliças estavam secas que metiam.
Ai, primo Alexandre, que tempos estes! Parece o fim do mundo!
Olhe aquelas minhas terras das Leivas que me chegaram a render três
e quatro carros deo macho e este ano nem um terço, nem a quarta
parte talvez me produzirão.
Que quer, prima, é como o vinho da Bairrada. Este ano nem
uma pipa me veio.
E então os braços estãoo caros! disse o Sr. de Alpedrinha
que estendia a xícara para, pela quarta vez, a encher de chá.
O doutor, que se ocupava agora a palitar os dentes, tomou
também parte na conversa.
E o sustento! A carne sobe a um preço extraordinário; o vinho
está pelo que se sabe; a fruta vai toda para o embarque; o pescado...
INÉDITOS E ESPARSOS
O pescado disse o boticário interrompendo-o o pescado
come-se em toda a parte menos aqui na vila. Mal os marinhões chegam
aos Campos já ele está todo vendido para esses homens das estradas
que juraram fazer-nos morrer de fome, pois levam-nos quanto peixe
se vem ali vender. E quem há que lhes pode cobrir o lanço ? Homens
ordinários como eles são!
Má praga esta das estradas acrescentou D. Doroteia, sus-
pirando. Há pouco, as de macadame, agora as de ferro, amanhã as
de ouro... e as nossas terras a partirem-se, a retalharem-se que faz
mesmo enegrecer o coração ao vê-las.
Mas eles indemnizam os proprietários disse o doutor, que
sabia ser esta a objecção mais insuportável para D. Doroteia.
Indemnizam! Tem graça a palavra, doutor. Dez-réis de mel
coado por um terreno onde se empregavam para mais de quatro alquei-
res de semeadura. Indemnizam! O Demo os indemnize a eles quando
mesmo pagassem o valor do terreno! Pagam-me o desgosto de ver as
terras retalhadas? E as despesas, ao fabricá-las,o aumentaram?
E então para quê? Poiso se ia até hoje ao Porto e a Lisboa pelos
caminhos que havia?
O padre que estivera calado lendo um número do Direito, único
jornal, no Porto, órgão do partido legitimista, levantou a cabeça a esta
apóstrofe da sr." morgada contra o progresso e acrescentou:
Hoje é a época das estradas, menos a da virtude onde crescem
cardos e abrolhos de pouco calcada que vai. Edificam-se imensos
casarões para teatros, para palácios e para estações; eo se edificam
igrejas nem capelas. A época vai boa,o tem dúvida nenhuma! Boa
para esses pássaros de arribação quem do estrangeiro chupar-nos
a última gota de sangue e bom para os pedreiros....
E em tom de aparte acrescentou:
... livres!
E continuou a ler com frieza imperturbável um artigo de fundo
da política cediça que acabara de parafrasear.
D. Doroteia, que vivia em eterna admiração da eloquência, pro-
fundeza de vistas e pureza de sentimentos do seu confessor, abanou
a cabeça e suspirou melancolicamente, o que exprimia adesão com-
pleta às palavras pronunciadas e de comiseração pelos destinos futuros
da sociedade actual.
Por isso nos castiga Deus, por isso deu um ano de sequeiro
e o mar...
INÉDITOS E ESPARSOS
II
AS DUAS MANAS
Q
UE santa paz de espírito gozavam as sr.
as
D. Quitéria e D. Geno-
veva na sua casa de Alvapenha aí pelo correr do ano de 1847!
Ambas solteiras e quinquagenárias, ambas muito aferradas
aos seus hábitos, muito tementes a Deus e inimigas da murmuração, as
duas irmãs passavam uma vida, onde se descobria um suave cheiro de
santidade, como o da alfazema que perfumava as suas gavetas e repas-
sava a roupa branca pela qual elas velavam com escrupuloso carinho.
A inalterável harmonia mantida há muitos anos entre elas, dava
que entender a quantos as conheciam. E com razão, poiso é vulgar
observá-la em casos tais, quando a idade e o humor naturalmente um
tanto acre das velhas celibatárias, justificam as pequenas imperti-
nências que, sem outro auxílio, bastam já para originar tempestades
no seio das famílias.
As duas irmãs, porém, tinham o bom senso e abnegação suficientes
para fazerem mútuos sacrifícios em honra dos seus pequenos caprichos,
inclinações ou antipatias. Há vinte e tantos anos que viviam ali isoladas
na companhia apenas de uma criadao velha como elas, e em todo esse
tempoo se ouvira dentro daquelas paredes uma só palavra que, por
mais alto pronunciada ou por significar uma menos evangélica paciên-
cia, destoasse da invariável monotonia dos seus diálogos habituais.
Era um exemplo edificante que elas davam aos seus vizinhos
que, devorados por demandas entre primos, irmãos, pais e filhos, tios
e sobrinhos, mostravam claramente, por seus actos, que era semente
caída em amaldiçoado terreno.
Estas discórdias intestinas entre as famílias de seu conhecimento
faziam suspirar as senhoras de Alvapenha e aumentavam o número
de padre-nossos com que toda a noite se faziam lembrar dos santos
de quem eram validas, pedindo a felicidade dos outros, tanto ou mais
ainda que a sua.
A alma ia-lhes toda nestas orações. Ouvir rezar as duas irmãs,
era escutar uma resenha das diferentes calamidades que afligem o
género humano e que elas pretendiam desta maneira evitar. Um
padre-nosso ao Marçal para que nos livre do fogo; outro a Santa
Luzia milagrosa para que nos defenda da cegueira; outro ao Brás
para nos proteger das doenças da garganta; um padre-nosso por
todos os que andam sobre as águas do mar; outro por os pobres sem
abrigo nem alimento; outro pelos órfãos; outro pelos doentes; um
pelos bons, outro pelos maus; um pelos vivos, outro pelos mortos;
INÉDITOS E ESPARSOS
um pelos justos, outro pelas almas do Purgatório;o hesitando
mesmo a sua clemência a transpor as portas do Inferno e pedir tam-
m a remissão dos condenados; enfim, depois desta enumeração,
um último padre-nosso compreendia todos aqueleso mencionados
por esquecidos, que pudessem necessitar das suas orações.
D. Genoveva, mais velha três anos que sua irmã, era a des-
penseira e superintendente dos negócios caseiros. D. Quitéria ocupa-
va-se das contas e direcção dos contratos monetários, arrecadação
de rendas, etc, etc.
Elas tinham uma fortuna sofrível que,o obstante as respecti-
vas omissões que o seu procurador lhes fazia, bastava de sobra para
elas, cujas necessidades eram limitadas.
Havia quem tivesse já dado a entender a estas senhoras quão
mal administrada lhes andava a fortuna nas mãos daquele homem...
que fazia render os seus serviços.
A estes avisos razoáveis as boas irmãs respondiam sorrindo.
Deixá-lo, deixá-lo.s estamos costumadas com ele eo
nos poderíamos entender com outro.
Nestes caracteres o hábito impera como senhor despótico.
A sociedade habitual das boas senhoras era, como já disse, a sua
criada Antónia; tipo de criada velha bastante comum, para dispensar
descrição. Nesta preponderava um pouco o elemento malicioso e
murmurador, sempre vantajosamente combatido pelo espirito tole-
rantemente conciliador das suas amas, que a repreendiam com seve-
ridade.
Os negócios de lavoura andavam a cargo de um jovial hortelão
que, de quando em quando, subia às salas a divertir as senhoras de
Alvapenha com as suas rústicas franquezas e simplórias observações.
Além disto, apenas recebiam como visitas alguns, poucos, vizi-
nhos, entre os quais olhavam como valido um modesto rapaz de vinte
anos, futuro ministro do altar, para o que se habilitava no Porto...
Tinham há pouco acabado de almoçar as senhoras de Alvapenha
e preparavam-se para se votarem à labutação da casa, quando Antónia,
com a roca à cinta, entrou na sala tossindo, como quem preparava a
voz para dar uma novidade.
Uma continuada convivência tinha habilitado as suas amas a deci-
frar a significação destes modos de expressão da criada: era uma
semiótica muito do seu conhecimento. Por isso D. Genoveva, que,
naquele momento, fechava o armário onde arrecadara o açucareiro,
manteigueira e o bule, voltou-se para a recém-chegada, dirigindo-
e um interrogatório:
Então que temos ?
Antónia tossiu de novo, como para se ver livre de um importuno
cataarro que ameaçava interrompê-la no meio da novidade e explicou:
Sabem quem chegou?
D. Genoveva encolheu os ombros em resposta.
INÉDITOS E ESPARSOS
Ora! Poiso se lembram?o sabem que estamos em Julho?
E que tem isso ?
Pois em Julho quem é que chega ?
É o Verão disse, da sala próxima, a voz de D. Quitéria, que
escutara a conversa.
O Verão?! observou a criada meio espinhada.—Bem digo
eu! Ó senhoras, pois na verdade...
, vá —disse D. Genoveva, queo gostava de enigmas.
Deixe-se disso. Se quer dizer, diga. Se não, trate da sua vida que eu
tenho mais que fazer...
Chegou o Sr. Valentim. Ora, quem havia de ser! As senhoras
às vezes...
Esta nova efectivamente parecia de interesse para as duas irmãs.
D. Genoveva, queo concedeu grande atenção até aí à criada, vol-
tou-se agora risonha para ela.
Ah! Chegou? Quando?
Esta manhã, disse-mo o padeiro, que o viu passar...
D. Quitéria também entrou na sala a perguntar com carinhosa
solicitude:
E virá bom,o sabe ?
Bem vê a senhora que euo lhe pus ainda olho. Digo o que
me contaram.
Pobre rapaz! observou D. Genoveva. Aquele é um cora-
ção de pomba, é um bom-serás, como se contam poucos.
E que vocação aquela para a vida eclesiástica! Senhor o ajude!
Enquanto a isso observou a criada, que era a céptica da casa
veremos. Estes rapazes novos mudam de tenções de um momento
para o outro.
o aquele! replicou D. Genoveva.
Também digo apoiou a irmã.
E que gosto para aquela pobre mãe, que tantos sacrifícios tem
feito para o sustentar nos estudos!
Bem lhe valeriam eles se as senhoras oo socorressem!
disse Antónia, queo gostava de ocultar benefícios.
. Pois, Deus nos aceite a boa vontade eo é preciso que
ninguém o saiba. Você gosta muito de dar à língua, mulher! obser-
vou D. Quitéria com algum azedume.
*
Era Valentim que entrava na sala, com expressão de íntimo con-
tentamento no rosto, eo sei que suave alegria no coração, como
sempre sentia ao entrar na casa de Alvapenha.
As duas irmãs acercaram-se dele com ansiosa solicitude.
Pareciam devorar-lhe aquela fisionomia plácida, queo reflectia
INÉDITOS E ESPARSOS
nada das tempestades interiores, se as havia; pois podiam ter-se ori-
ginado naquele peito que de pequeno se conhecera votado às coisas
divinas e aceitara, sem exteriorização de saudade pelas coisas terre-
nas, o destino que lhe haviam traçado no berço.
Valentim nunca deixara perceber que o amito lhe pesava nos
ombros, que as mãos lhe vacilavam a sustentar o cálix, o símbolo da
, nem que as lágrimas humedeciam, em noites de angustiosas vigí-
lias, o leito solitário.
Se era mártir, tinha a fortaleza do martírio; se, sob o crepe do
sacerdote, lhe palpitava o coração, ainda rico de vida, nem no rubor
das faces se lhe traía essa agitação comprimida.
E por isso lhe festejavam a vinda e suspiravam por o glorioso
dia em que o tinham de ver, revestido de todas as dignidades sacerdo-
tais, entrar, pela primeira vez, no altar do Senhor, pagar com a sagrada
bênção as carinhosas bênçãos maternais e as de tantos que o viam
caminhar seguro pelo caminho da.
D. Genoveva, depois de muito o observar em silêncio, e de o fazer
sentar na mais cómoda cadeira da sala, ficando ela em pé defronte
do futuro sacerdote, e nisto acompanhada por sua irmã, passou a infor-
mar-se do adiantamento de Valentim na carreira eclesiástica.
Então, então, quando temos missa nova?
Quando mo permitir a idade. Aindao tenho 25 anos.
Eu peço a Deus que meo chame à sua divina presença antes
de receber de suas mãos, Valentim, a bênção paroquial disse D. Qui-
téria, que tinha esperança de que o cuidado da abadia passasse, em
pouco, às mãos do jovem sacerdote.
Valentim sorriu.
É uma profecia? Deus a realize. Ser-me-ia grato consagrar-me
ao serviço de Deus na mesma terra onde recebi as primeiras noções
da religião; poder socorrer com as consolações da fé aqueles a quem
antigas afeições me ligam.
E espero em Deus que o há-de permitir. E então o senhor
abade há-de ver como lhe querem os fregueses!
—Muito contente devia ficar suae ao vê-lo hoje ! Pobre mulher!
É uma consolação para a sua velhice. E ela que tantas consumições
teve noutras idades!
Minha mãe!—disse Valentim, com voz afectuosa. Quando,
ao abraçar o sacerdócio, eu tivesse de consumar grandes sacrifícios,
a sua alegria mos compensaria de sobra; e eu ainda teria de agradecer
a Deus a constância que me concedeu...
As palavras de Valentim suspiravam uma melancolia vaga de
mais para ser percebida pelas senhoras de Alvapenha, que se exul-
taram com a evangélica vocaçãp do mancebo.
No momento em que Valentim se dispunha ar termo à sua
visita, soaram à porta duas sonoras pancadas que puseram em exci-
tação os nervos da parte feminina da assembleia.
INÉDITOS E ESPARSOS
Era o portador de uma carta do correio.
A chegada de uma carta era um acontecimento em Alvapenha.
As duas irmãs perdiam-se em conjecturas sobre o objecto e procedên-
cia da epístola, antes de se resolverem a adoptar a única medida que
as poderia esclarecer: a sua leitura.
Uma carta! Que lhe parece, mana Genoveva, de onde pode
ela vir?
Eu sei, menina. Do procurador...
Não, por certo que não. E daí...
Valentim, que reparara no carimbo, observou que ela vinha
de Lisboa.
Nova surpresa.
De Lisboa?
De quem pode ser então ?
Antónia notou com timidez:
Da mana das senhoras, talvez...
Da Anica disse D. Quitéria com estupefacção.
Esta admiração explica-se, sabendo-se que há muitos anos
as irmãs da provínciao se correspondiam com a mana da
corte.
Pois na verdade será da mana Anica? Lê, Quitéria!
Leia, mana Genoveva, leia!
Não. Lê tu. E senão... deixa estar. O Valentim,o?
Mas... quem sabe... que negócios... observou o interpelado.
Connoscoo há segredos. E demais, se os houvesse, era a
um sacerdote que os confiávamos.
Leia, Valentim, leia!...
Valentim cedeu e abriu a carta.
No fim da página lia-se a assinatura de João Soares de Carvalho.
Ai, é do mano João? Acaso a Anica estará doente? Leia,
leia!...
Valentim leu:
« Estimadíssimas manas:
«Desejo-lhes saúde e felicidades. Há muito queo recebo
notícias suas e espero queo sejams as primeiras que
obtiver.
«Escrevo-lhes para lhes pedir um obséquio e ouso confiar
que serei atendido pelas manas,o obstanteo lho merecer.
Sua mana e minha mulher acha-se presentemente algum tanto adoen-
tada, a ponto de me causar receios; os médicos votam por ares de
campo e ela lembrou-se da casa onde passou grande parte da sua
vida e na qual deixou pessoas por muitos respeitos dignas do amor
que ela sempre lhes tributou. Se as manas virem queo há
inconveniente em nos receber aí por algum tempo, peço-lhes mo
INÉDITOS E ESPARSOS
queiram participar e por isso lhe ficará muito obrigado aquele que
se confessa
« Seu mano e muito atencioso criado,
«Lisboa, 17 de Julho de 1852.
«João Soares de Carvalho. »
A leitura terminada, houve um solene silêncio na assembleia.
s hábitos pacíficos e monotonamente uniformes das senhoras de
'Alvapenha esta carta produziu o efeito de uma completa subversão.
Por algum tempo se conservaram mudas, poro saberem o que
haviam de dizer ou de pensar de tudo aquilo.
D. Genoveva mantinha-se na mesma atitude de religiosa atenção
com que escutara a leitura, enquanto os dedos polegares descreviam
maquinalmente, em volta um do outro, círculos intermináveis.
D. Quitéria, com a boca semiaberta, os olhos espantados, o
queixo apoiado sobre ao direita,o se mostrava em menor
grau de abstracção.
Antónia, cujos olhos oscilavam de uma para a outra, parecia
ansiosa por escutar a resposta.
D. Genoveva foi a primeira que interrompeu o silêncio, mas
nao ainda para decidir coisa nenhuma. Voltando-se para Valentim,
cujo pensamento se diria muito longe dali, disse:
Ora faz favor de tornar a ler. Tenha paciência.
A importância desta medida era contestável; mas passou sem
oposição.
Valentim obedeceu.
As coisas ameaçavam permanecer em statu quo, como... outras
muitas coisas.
D. Quitéria desta vez foi mais além que sua irmã.
o tem que ver, mana Genoveva; que venham, que venham,
coitados.
Pois, porque não? respondeu esta, como se achasse muito
natural o que ainda agora a deixara toda perplexa. É dizer-lhe
que sim.
Mas... balbuciou Antónia.
A observaçãoo foi admitida.
Mas... disse D. Quitériao temos senão que escrever-
lhes e preparar-lhes os quartos.
Eles trarão a pequena? observou D. Genoveva.
Pois haviam de deixá-la, mana Genoveva?
E a coisa ficou discutida.
Valentim pôde enfim retirar-se, deixando aquela boa gente toda
atrapalhada com a repentina nova da chegada dos seus próximos
parentes da capital.
INÉDITOS E ESPARSOS
Quem sacrificou, com menos resignação, os seus hábitos de
pacífico remanso foi a velha Antónia...
De resolver responder ao rico capitalista lisboeta ar em prá-
tica a medida ia grande distância.
As senhoras de Alvapenha nunca haviam cultivado a epistolografia
e era empresa esta, de escrever uma carta, digna de muito meditar.
D. Genoveva lembrou-se de Valentim, mas, chegado de pouco,
o pobre rapaz precisava de todo o tempo para visitas e descanso.
E que rude fadigao era o redigir uma carta para o mano João
Soares !
Nada! Nem que nos custe, mana Quitéria, vamos atirar-nos a
isto. Escreve tu, que tens melhor letra, que eu dito.
E D. Quitéria, depois de procurar o tinteiro, que,o sendo ali
traste de primeira necessidade,o se achava à mão, dobrou com toda
a arte uma folha de papel, molhou a pena e esperou.
D. Genoveva assoou-se, tossiu, esfregou a testa e disse:
Põe-lá.
E parou.
O quê? perguntou D. Quitéria.
Espera.
Novo silêncio, durante o qual D. Genoveva tornou a assoar-se,
a tossir e a esfregar a testa.
D. Quitéria experimentou a pena fazendo S S.
e lá disse, pela segunda vez, D. Genoveva.
Depois de outra pausa, continuou:
Estimadíssimo mano do coração.
Do coração repetiu D. Quitéria, depois de escrever,
Puseste?
Pus.
Bem. Recebemos a sua carta...
Carta... repetiu o eco.
E por ela tivemos notícia...
Notícia...
De que a mana Anica...
Anica...
Se acha adoentada.
A... do... en... ta... da...
Se os médicos dizem...
Dizem...
Que os ares do campo lhe fazem bem...
Bem...
Esta casa aqui está...
Está...
Que pobre como é...
-É...
Os há-de receber com prazer...
INÉDITOS E ESPARSOS
Neste ponto D. Quitériao apoiou a redacção e, como um depu-
tado discutindo a resposta ao discurso da coroa, observou, pousando
a pena:
Ó mana Genoveva,o é melhor dizer gente em vez de casa ?
Sim, pois a casao é que sente prazer...
Dizes bem, mana Quitéria, mas agora como há-de ser?
Emenda-se.
Ora lê do princípio e tem paciência.
D. Quitéria leu o que tinha escrito.
A emenda foi adoptada e modificou-se o último parágrafo da
seguinte maneira: esta casa que aqui está, pobre como é, e a gente dela
que os há-de receber com prazer.
D. Genoveva continuou:
Por isso, mano, quando quiser...
Quiser...
Utilizar-se do nosso fraco préstimo... E acrescentou: Olhe
que préstimo é palavra grega, mana.
E então? disse D. Quitéria, queo pôde tirar nenhum coro-
lário da observação.
D. Genoveva elucidou:
É que escreve-se com ípsilo.
Ah! É verdade! disse D. Quitéria, escrevendo em virtude
da nota: o nosso fraco prestymo.
Acredite que o veremos com júbilo.
É grega também, mana?
.
E D. Quitéria escreveu jubylo.
Recomendações à mana Anica e muitos beijos à Laurinha e
façam por vir o mais cedo que puderem
Puderem.
Suas manas que muito o estimam e muito reconhecidas aos
seus obséquios.
Obséquios. Agora assine, mana...
D. Genoveva aproximou-se da mesa e, depois de ter puxado a
escrita assinou com ao trémula: Genoveva Martins.
Depois seguiu-se a colocação das vírgulas, tarefa importante de
que as boas senhoras se saíram sofrivelmente, colocando vírgulas
quase de duas em duas palavras, sistema de ortografiao bom como
outro qualquer, visto queo temos nenhum.
Antónia foi chamada para ouvir a leitura e todas três admiraram
a redacção da carta, queo duvidaram em considerar um modelo
no género.
INÉDITOS E ESPARSOS
III
A CHEGADA
D
IFÍCIL empresa seria tentar descrever o alvoroço que ia naquele
momento em Alvapenha. O sangue-frio das boas senhoras aban-
donou-as completamente quando noticiaram a chegada da caval-
gada. Antónia, cuja vida isolada a tinha tornado um pouco insociável,
correu a esconder-se na cozinha. D. Genoveva, que tremia com a lem-
brança deo receber condignamente os seus cunhado e mana, foi
ter com o Santo António, a quem fez uma prece do coração para que
ao desamparasse.
D. Quitéria foi quem mostrou ali mais firmeza. Puxou para diante
os folhos da sua touca, arrojou a distância o avental do serviço, e gal-
gando as escadas, postou-se à porta a esperar os recém-chegados.
Elao queria acreditar os seus olhos, quando viu aproximar-se, em
rápido trote, a gentil amazona da cavalgada.
Jesus, santo nome de Jesus! Ela vai despedaçar-se! mur-
murou D. Quitéria, e principiou a encomendar a cavaleira à
Senhora da Nazaré, que valeu a Fuas Roupinho num caso idên-
tico, quando esta, por um ágil movimento, se desapeou, atirando as
rédeas para as mãos de um criado e num momento a boa senhora
se viu rodeada por os braços da elegante menina, que a beijava
com efusão.
o me conhece, pois não? dizia ela, da completa estupe-
facção da pobre senhora que nunca na sua vida vira aqueles trajos!
Com qual das minhas tias falo eu?
D. Quitéria caiu em si. Era pois a menina.
Pois tu és a Laura!o crescida! E afastando-a de si para
a ver melhor, exclamava, benzendo-se: Em nome do Padre e do
Filho e do Espírito Santo! Pois tu és a Laura ?!
Laura, uma vez que este é o seu nome, continuava a sorrir-se e
parecia deleitar-se com a estupefacção de sua tia.
Ó mana Genoveva bradou esta para as escadas. Venha
ver, venha ver, ande cá depressa!
Ah! Então é a tia Quitéria exclamou Laura, apertando-a de
novo nos braços.
D. Quitéria desta vez correspondeu a esta prova de efusão.
A mana Genoveva decidiu-se enfim a descer com a protecção
de Santo António e houve repetição da cena.
Elas olhavam assim para Laura como para uma coisa bonita que
nunca tinham visto e pareciam estranhar-lhe sobretudo a altura. De
INÉDITOS E ESPARSOS
acto as duas irmãs,o tendo ouvido falar de Laura senão quando
esta era criança, costumaram-se a imaginá-la ainda nessa idade, esque-
cendo-se que, desde então, se haviam passado quinze anos.
Antónia, debruçada no corrimão da escada, espreitava para baixo,
surpreendida pelo chapéu e vestido de Laura, maso ousava apro-
ximar-se.
No entretanto chegara o resto da cavalgada. João Soares de Car-
valho cumprimentou com afecto, ainda que menos expansivo, suas
cunhadas, e, apeando-se, ajudou a descer sua mulher, a quem as
duas irmãs receberam nos braços, derramando lágrimas de enterne-
cimento.
Ana Soares, irmã mais nova das senhoras de Alvapenha, enfra-
quecida pela doença, trémula pela emoção que a vista dos sítios onde
passara a infância e de pessoaso queridas lhe determinava, vaci-
lou aos primeiros passos que deu. Laura apressou-se a dar-lhe o braço,
que ela parecia preferir e, enquanto João Soares dava ordens em baixo
aos criados, tendentes à melhor acomodação das cavalgaduras, ae
e a filha, precedidas pelas boas senhoras que, à vista de sua irmã,
puseram de parte todo o estudo da etiqueta constrangida, para segui-
rem apenas os ditames do instinto, entraram na sala verde destinada
ao alojamento dos hóspedes.
Depois de conduzir suae a uma cadeira de braços, objecto
de antiga existência na casa, Laura aproximou-se da janela a contem-
plar a perspectiva campestre que se descobria de.
D. Ana, no meio de suas irmãs, passeava por toda aquela sala
olhares de um sentimento exaltado e susceptível, que todas as orga-
nizações recebem quando afectadas por estas doenças que lavram
latentes na economia, em sintomas que atormentam em acessos ou
paroxismos, mas apenas gastam as forças do corpo para exaltar as
do espírito.
Então está muito doentinha, mana Anica ? perguntou D. Geno
veva, com inflexão de voz carinhosa.
. —Não muito respondeu a irmã.—Apenas uma fraqueza que
estes ares do campo hão-de curar, espero eu.
Hão-de, hão-de ; Nosso Senhor há-de permiti-lo acrescentou
D. Quitéria.
Os ares do campo ? Eo é só isso continuou a doente e a
companhia das manas e a lembrança daqueles tempos que aqui pas-
sámos juntas e em que havemos de falar muito,o é verdade?
As duas senhoras sorriram, fazendo um gesto de aquiescência.
E também a companhia da... E a bondosa senhora procurou
com os olhares alguém na sala, queo encontrou. Que é dela?
Quem? perguntou D. Quitéria.A Laurinha?
Não... Antónia porqueo aparece?
! —Eu nem sei—disse a irmã, levantando-se. Querem ver que
a mulher tem vergonha? E, chegando à porta, chamou pela criada,
INÉDITOS E ESPARSOS
no interior da qual se travava, efectivamente, naquele instante uma
luta entre os desejos de ver a sua ama de outros tempos e o seu
acanhamento.
Enfim sempre veio trazida a reboque por D. Quitéria.
Está muito estranha, esta menina disse D. Quitéria ao entrar
na sala.
Venha, Antónia! Já se esqueceu de mim?
Quem, eu, minha senhora? Euo me esqueço assim depressa.
Entãoo fuja, venha.
Antónia ganhou ânimo e aproximou-se. Laura voltara-se e exami-
nava com interesse a criada, em que suae lhe falara bastas vezes.
Antónia cumprimentou-a o mais lisonjeiramente que pôde,
E a conversa generalizou-se.
João Soares de Carvalho entrou, por sua vez, na sala.
As cunhadas levantaram-se ao vê-lo.
Por quem são, manas. Nada de cerimónias. Laura disse,
voltando-se para a filha uma das tuas malas já está desimpedida.
Laura pediu para a conduzirem ao quarto que lhe era destinado
e Antónia, que terminou o seu estudado cumprimento ao cunhado das
senhoras, foi por estas mandada a acompanhá-la. Subindo as escadas
com a vivacidade que se traía em todos os seus gestos e movimentos,
Laura dirigiu a palavra a Antónia:
Já principio por lhe dar incómodo, Sr.' Antónia...
D. Quitéria foi em diligência ao quarto da gentil rapariga e des-
pertou-a daquela quase abstracção em que ela se achava.
Credo, menina! Olha se o ar da noite te vai fazer mal. Sempre
ouvi dizer que esta hora das trindades é mal-azada a quem a ela se
expõe.
Laura sorriu.
Sossegue, minha tia, a mim nada me faz mal e depois...
este espectáculo é novo para mim, que tenho vividoo pouco no
campo.
D. Quitéria aproximou-se para ver o espectáculo de que falava
a sobrinha. É de crer que oo achasse empolgante, pois observou:
Mas istoo horas de descer, menina. Vai-se tomar o chá.
Ae está inquieta.
Eu vou, eu vou, minha tia; só o tempo de mudar de fato.
D. Quitéria desceu, de novo, à sala onde serenou o ânimo da irmã.
Além da família havia apenas naquele momento, na sala, o reitor,
que conversava em assuntos sérios com o comerciante lisbonense, e
sua sobrinha que, à fé de historiador, eu afirmo ser tal, embora, como
todos os homens, o nosso reitoro escapasse às línguas viperinas de
seus desmoralizados fregueses.
Esta menina fora mandada convidar pelas senhoras de Alvapenha,
porque as suas muitas prendas a faziam uma companhia conveniente
INÉDITOS E ESPARSOS
para Laura, queo podia encontrar no resto da assembleia elemen-
toso adequados para seu entretenimento.
Inês dispensa descrição. Era uma mulher como há muitas. Nem
feia que incomodasse a vista, nem bela que entusiasmasse. Tinha uma
fisionomia vulgar, destas que zombam da arte dos pintores... ' Os
dotes espirituais orçavam pelos corpóreos;o tinha instintos que a
chamassem ao mal, nem inteligência para compreender o bem.
O seu sistema era um indiferentismo por tudo e por todos, que nada
vencia.
Quando Laura entrou na sala, trazia um vestido de cassa branca,
liso e singelo; os cabelos sem um único adorno, mais sobressaindo
pelo contraste da enfeitada cabeça de Inês. Laura foi sentar-se junto
da sobrinha do reitor, depois de ter cumprimentado as novas persona-
gens da roda das tias.
Entre as duas raparigas travou-se um diálogo, indiferente à
primeira vista, mas cujas primeiras palavras bastaram a Laura para
formar ideia do carácter ridiculamente pretensioso da sua interlo-
cutora.
Inês mostrava-se em atitude deo ser compreendida naquela
terra de selvagens, ondeo havia uma única inteligência culta.
o faz ideia, menina dizia ela suspirando e com um gesto
de enfado com que gente rústica se lida aqui; vejo-me obrigada a
viver isolada, porque esta sociedade e convivência estupidifica, longe
de civilizar.
Sim? respondia Laura. Depois perguntou, com um certo
sabor de zombaria, que Inêso compreendeu:
Veio há muito do colégio, menina?
Há seis meses.
Ah!
Este monossílabo mostrava que Laura tinha achado a explicação
do soberbo spleen da colegial. A vida do colégio, na verdade, um
certo verniz de pedantaria que só o tempo ou o bom gosto natural
fazem perder.
Momentos depois, uma nova visita entrou no círculo que se for-
mara na sala.
Era Valentim.
Nas maneiras do protegido das senhoras de Alvapenha havia um
certo acanhamentoo desgracioso, filho da natural timidez daquele
carácter singular. Graças ao muito que dele haviam já dito as santas
cunhadas de João Soares e que o reitor confirmara, o acolhimento que
recebeu Valentim foi mais que favorável.
D. Ana Soares, sobretudo, quis que viesse para ao pé de si. Os
doentes gostam de quem lhes faça lembrar a religião, cujos auxílios
1
É difícil compreender o manuscrito nesta passagem.
INÉDITOS E ESPARSOS
eles talvez em pouco tempo exijam, e a vocação de Valentim para a
vida da Igreja, apregoada por suas irmãs, valeram-lhe no ânimo de
D. Ana Soares uma certa veneração que elao disfarçava.
IV
VALENTIM
A
pobre mulhero via neste mundo senão o filho. De cada vez
que o via entrar ressentia uma alegria nova.
Boas noites,e disse Valentim, sentando-se junto
dela e segurando-lhe as mãos entre as suas.
Como vens frio, filho. Faz-te mal este ar dos campos assim
o tarde.
Frio? É um engano! Veja! E levou-lhe as mãos à fronte.
A testa escalda. Tanto pior. Recolhe-te, Valentim; parece que
teo sentes bem.
Sinto; e, se ae quisesse, podíamos ficar um pouco mais a
conversar. Há ocasiões em queo gosto de estar. Tenho pensa-
mentos...
Pois sim, filho, sim.o te fazendo isso mal...
o faz, mãe,o faz.
Ora diz-me, Valentim: tu pareces-me triste. Que tens, filho?
Eu bem sei que sou uma pobre mulher, queo sei como hei-de
dizer-te para te consolar. Mas olha,o sei porque é, mas umae
sempre atina com palavras para consolar seus filhos...
Valentim levou aos lábios ao de sua mãe.
É assim, mãe. O que nos consolaoo as palavras, é o
amor que nelas verte o coração. Às vezes uma só palavra é mais rica
de sentimentos que longas frases e discursos.
Pois então, filho, diz-me o que assim te fazo triste.
Triste ? Pois acha que quem, como eu, se destina ao ser-
viço de Deus pode acolher a alegria infundada que os prazeres nos
fazem sentir?
A seriedade cabe bem aos sacerdotes, mas há também uma
alegria que nos dá a consciência quando está de bem com Deus
e consigo mesma; uma alegria séria... que nem outro nome lhe sei
eu dar a essa...
E essa, mãe, quem a pode ter? Pois quem tem a consciência
o pura que lheo sinta a voz a todo o instante?
Olha disse a pobree depois de fitar em Valentim uns
olhos perscrutadores tu sabes que o meu maior desejo é ver-te
INÉDITOS E ESPARSOS
seguir essa santa carreira a que te destinas. Mas, vê bem, se para isso
tens de fazer sacrifícios para que te faltam as forças e teo sentes
com ânimo para a seguir até ao fim,..
E parava dizendo isto, como se, para concluir, tivesse de fazer
um esforço superior...
Então, filho, então... pára...
Valentimo respondeu. Deixando pender a cabeça, parecia
meditar nas últimas palavras de sua mãe, que era o mesmo que, há
muito tempo, lhe murmurava baixinho a consciência.
Terminada esta meditação silenciosa, ergueu a cabeça. Havia
resignação na sua fisionomia.
Não. Eu posso ter instantes de fraqueza; mas espero meo
abandonarão inteiramente as forças. Desanimadoo cedo, para as
primeiras dificuldades... Pois que esperava eu?o as devia ter
previsto eo as previ, de facto? Não, mãe, ainda meo falece
o ânimo,
Espero em Deus que nunca te abandonará. Mas de onde vens
tu, que assim te pusesteo triste?
De casa das senhoras de Alvapenha.
Ah!o havia gente de fora esta noite? Pareceu-me ouvir
dizer...
Havia... A família de Lisboa...
E Valentim calou-se de novo, como se lhe acudissem outra vez
as imagens tumultuosas que as palavras de suae tinham, em parte,
afugentado.
Boa noite,e disse o inquieto jovem, levantando-se com
vivacidade.
Vai deitar-te, vai, filho, que bem o precisas tu. Deus queira
queo seja doença, isso.
Valentim retirou-se para o seu quarto, simples aposento despido
de ornatos e que denunciava os hábitos simples da vida do pobre
adolescente. Uma mesa, um leito e poucas cadeiras eram toda a
mobília.
De uma das paredes nuas pendia, um crucifixo que ele recebera
de sua mãe, e sobre a mesa alguns papéis dispersos, em desordem,
revelavam laboriosas vigílias a que se entregava o melancólico pro-
tegido das senhoras de Alvapenha.
Valentim, entrando no quarto, sentou-se à mesa. Deixou pender
a cabeça sobre as mãos e por tanto tempo se manteve assim imóvel
que, quando enfim se ergueu, já os primeiros alvores do dia pene-
travam pelas frestas das janelas.
INÉDITOS E ESPARSOS
*
Foi num destes momentos em que a ideia de Valentim seguia a
sua melancólica propensão, que Laura, tentando arrebatá-lo daquele
desconforto em que o via mergulhado, lhe disse sorrindo:
Vamos, Sr. Valentim, eu e meu pai já explanámos as nossas
predilecções literárias; queremos saber as suas. Recite-nos alguma
coisa.o lhe ocorre nada?
Valentim ergueu a cabeça a estas palavras e sorriu.
Havia naquele sorriso uma expressão de amargura sensível aos
olhos menos perspicazes. Laura observou-o atentamente.
Agora mesmo me estavam ocorrendo disse Valentim com
o tom melancólico que lhe era habitual umas estâncias irregulares
cujo autor ignoro. Quero-lhes pelo assunto.
Qual é ? perguntou Laura com interesse.
É uma elegia sobre o túmulo de um padre.
Ah! disse Laura fixando os seus olhares sobre o rosto do
mancebo. Recite, recite...
Valentim correu ao pela fronte, que deixou ficar encostada,
enquanto que, com a voz vagarosa, e repassada de tristeza, o olhar
perdido no espaço, recitou as singelas quadras que., na véspera, lhe
haviam sido ditadas pelo coração junto ao túmulo onde tantas vezes
parou, a meditar no seu destino.
O BOM REITOR
Sabem a história triste
Do bom reitor?
Mísero! toda a vida
Levou com dor.
Fez quanto bem podia...
Mas... afinal,
Morre, e na pobre campa,
Nem um sinal!
Nem uma cruz, ao menos,
Se ergue do chão!
Geme-lhe só no túmulo
A viração.
Vedes além, no vale,
Junto ao rosal,
Flórea que há desfolhado
O vendaval?
INÉDITOS E ESPARSOS
Cobrem-lhe a lousa fria,
A criação
Só lhe venera as cinzas
Co'ignota mão.
Pobres que tanto amava
Nunca, ao passar,
Curvam a fronte e ajoelham
Para rezar.
Nunca, ao nascer do dia,
O lavrador
Passa e lamenta a sorte
Do bom reitor.
Nem, do cair da tarde,
À ténue luz,
Serve, de triste lâmpada,
Humilde cruz.
Há nesta vida amarga
Sortes assim...
Vive-se num martírio.
Morre-se enfim.
Sem que memória fique
Para dizer
Às gerações futuras
Nosso sofrer.
E calou-se. Todos pareciam respeitar aquele silêncio e fitavam
em Valentim olhares de solícito interesse.
Laura foi quem primeiro rompeu este prolongado silêncio.
E o resto? disse ela,o desviando a vista de Valentim.
Este estremeceu como se uma voz o despertasse de um sonho.
Ergueu a cabeça e, corando levemente, respondeu com aparente
indiferença:
O resto é curto, é uma súplica apenas.E acrescentou:
Quem me escutar, se, um dia,
Ao vale for,
Reze sentida prece
Ao bom reitor.
Laura conservou-se pensativa depois que Valentim terminou a
última estância.
João Soares interrogou-o sobre o autor daquela poesia.
Ignoro-o respondeu Valentim; mas tendo-se, por acaso, os
seus olhares encontrado com os de Laura, baixou os olhos com
embaraço.
«Entendo murmurou esta para consigo.—Parece-me que
atinei enfim com a verdadeira causa daquela tristeza. Veremos.»
A noite ia-se adiantando.
INÉDITOS E ESPARSOS
D. Ana Soares retirara-se com suas irmãs e apenas se demo-
ravam na sala Valentim, Laura e seu pai. Tinham descoberto a maneira
de .conciliar com os seus, os hábitos regulares das senhoras de Alva-
penha. João Soares retirara-se um tanto para o lado a examinar umas
cartas que recebera de Lisboa naquela tarde, e mostrava-se absor-
vido na leitura.
Laura e Valentim acharam-se, quase sós, na presença um do outro.
É uma história singela, mas triste a que nos contou.
Valentim ergueu a cabeça ouvindo isto, como se correspondesse
ao que ele próprio estava pensando naquele momento.
Eu sempre pensei continuou Laura queoo menos
para lamentar estes mártires de espírito, deixe-me assim chamar-lhes,
que se estorcem nas angústias de uma tortura moral, do que aqueles
cujo martírio todos lamentam porque todos os compreendem.
É certo disse Valentim sofre-se mais talvez quando se
sofre uma dor que muitos julgam fingida e de que muitoso fazem
ideia sequer.
E, contudo, quem sabe? —disse Laura, como se os seus pen-
samentos tomassem uma outra direcção. Quem sabe se o pobre rei-
tor, se existiu, como creio, se julgava a si mesmo infeliz! O poeta
imaginava-o assim, porque o imaginou por si. O bom homem talvez
nunca aspirasse a esta espécie de imortalidade que é o sonho dou-
rado das almas jovens e entusiastas; e talvez se achasseo feliz com
esse olvido que sucedeu à morte, como com a obscuridade que o
envolveu em vida.
Valentim corou a estas palavras.
Laura prosseguiu:
Eu tenho por costume procurar ler, através das obras, os
pensamentos dos autores; nos romances, nos poemas, toda a minha
atenção se fixa nas personagens que o autor parece tratar mais do
coração. É a essas que ele encarrega de exprimir os seus próprios
sentimentos; é pois nas acções e nas palavras destas que eu busco
descobri-los.
Valentim escutava Laura com um interesse queo procurava
disfarçar.
Ela continuou:
Este sistemao digo queo possa falhar, mas acerto muitas
vezes. Por exemplo, quer que lhe diga como eu imagino o autor
daquela poesia que recitou há pouco? E tenho pena que oo
conheça para me desenganar seo adivinhei.
Diga disse Valentim com um visível movimento de curio-
sidade diga...
Laura notou-o e, afectando um ar indiferente, prosseguiu:
Imagino-o um homem ainda jovem, por circunstâncias espe-
ciais votado a viver em uma esfera obscura e que sente em si alguma
coisa que o proclama capaz de aspirações mais subidas. Este homem
INÉDITOS E ESPARSOS
ainda muito novo, mas que a glória já embriaga,o renuncia, sem
um doloroso sacrifício, a esses dourados futuros que a sua imagina-
ção insiste em lhe representar; mas foge-lhes talvez por um exagerado
sentimento de dever, talvez porque se julgue ligado por uma força
maior a uma missão que exige dele esses sacrifícios... E todos faz,
mas ao mesmo tempo despedaça-lhe o coração cada um que realiza...
*
* *
As senhoras de Alvapenha davam lições de madrugação ao pró
prio dia. Ainda o Solo pensava em alumiar a Terra, já elas salta-
vam fora do leito a procederem aos seus trabalhos domésticos. Era
interessante ver as duas irmãs, à luz duvidosa que antecede a aurora,
combinada com os amortecidos raios de uma quase extinta lampa-
rina, passarem e perpassarem naquele quarto, sem despertarem o
menor ruído que pudesse acordar os hóspedes cujo aposento era
subjacente ao seu. O diálogo que se trocava entre elas,o longo e
com frequentes intermitências, era pronunciado em uma voz baixa,
como se se tratasse de mistérios espantosos.
Na manhã seguinte à noite em que se passou o capítulo prece-
dente, a azáfama que ia no quarto das irmãs de D. Ana Soares era
maior ainda que a de costume. Havia nos seus movimentos uma viva-
cidade de que elas seo julgavam capazes e uma pressa notável de
terminar a arrumação em que se mostravam empenhadas.
É que naquele dia era um domingoo tardou que na torre
da igreja paroquial se ouvissem tocar as badaladas que chamam os
fiéis à missa primeira.
Envolvidas nas suas longas capas de pano e cobrindo a cabeça
com um modesto lenço de cor escura, as senhoras de Alvapenha, cha-
mando Antónia, que lheso ficava atrás em hábitos madrugadores, e
depois de recomendar ao Sr. Vicente a vigilância da casa, saíram atra-
s dos campos e dirigiram-se à igreja, ainda então quase vazia.
Começaram as suas rezas pieparatórias, encomendando-se a
todos os santos e santas que existiam nos altares e mesmo a alguns
que alio tinham representantes.
Nestes actos de piedade cristã punham as senhoras de Alvape-
nha toda a atenção. Olhos no altar, pensamento no Céu, bem podia
abalar-se o templo nos seus alicerces que se lheso desviaria a
cabeça num movimento de justificada distracção.
Também ninguém as interrompia, inteiramente entregues àquela
santa abstracção. Deixemo-lass também por um pouco e aproxi-
memo-nos de um outro grupo que ali junto da pia baptismal dá largas
à verbosidade de que participa cada uma das três personagens de
que ele é formado.
INÉDITOS E ESPARSOS
Bento Crispim é um deles, outro o seu amigo José da Fábrica, o
terceiro o boticário Bartolomeu, todos importantes personagens da
terra, três caudilhos que os candidatoso dispensam em épocas
eleitorais.
Bento Crispim tem a palavra, quando nos acercamos. O boticá-
rio luta com os restos de um catarro matinal e José da Fábrica abre,
de quando em quando, a boca, ruidosa manifestação de simpatia pelo
travesseiro que abandonou há pouco.
V
O PEQUENO ÂNGELO
E
NTÃO era este o juízo que o menino me prometia ter?o
sabe que é até um pecado zombar assim de um velho?
Quando o papá me perguntar como o Ângelo se tem por-
tado, o que hei-de dizer? Ora vamos. Reze outra vez ao seu anjo da
guarda eo faça mais travessuras destas, que parecem muito mal
a um menino bem-educado.
O pequeno Ângelo, sinceramente contrito, juntou as mãos e
principiou rezando a oração ao seu anjo custódio com verdadeiro
fervor:
Anjo da minha guarda, por Deus enviado a proteger-me com
as tuas asas brancas, vela por mim enquanto eu durmo e guarda-me
dos maus sonhos como dos maus pensamentos, conduzindo-me pela
o no caminho do dever,o me abandonando nas aflições nem nas
alegrias, mostrando-me sempre ou através das penas e dos pra-
zeres da Terra e ensinando-me a recebê-los como dao do Senhor.
Em seguida, benzeu-se devotamente e beijando ao que sua
e lhe estendia, recebeu por bênção beijos e afagos em que parecia
esgotarem-se todos os tesouros maternais.
Bem dizia ae em tom já carinhoso, anediando com os
dedos as longas madeixas da criança agora vai-te deitar queo
horas. Eo faças arengar a Doroteia, não? Olha que tens de te con-
fessar este ano e vê lá se queres ir logo da primeira vez carregado
de culpas. Se tiveres juizo hei-de mandar-te vir de Lisboa uma galga-
zinha preta...
Ai, mande, mande, mamã. E eu hei-de pôr-lhe, ao pescoço,
uma golazinha de veludo vermelho, sim?
Pois sim, mas...
E um guizo ?o é bonito um guizo também ?
INÉDITOS E ESPARSOS
Também, mas é se...
Sim, mas olhe, mamã. E um casaco para o frio...
Também há-de ter um casaco.
E de que cor, mamã, de que cor há-de ser ?
s veremos.
Azul, sim, mamã?
Pois seja azul, mas...
Olhe, mamã, e... e... como se há-de chamar?
Tu o dirás.
Borboleta não, pois não?
Como quiseres...
Não, Borboleta não... Andorinha é mais bonito, poiso é?
o é feio...
Há-de ser Andorinha... e... o casaco há-de ter fitas, mamã?
Sim, há-de ter...
Ah! E...o sei que queria dizer... Ah!... E quando a manda
vir, mamã?
Breve, se tiveres juízo.
Tenho. A mamã verá. Olhe, vou-me já deitar e prometoo
dizer nem uma palavra a Doroteia.
Não, poiso lhe hás-de dar as boas noites ? O que euo
quero é que tesr a conversar e a rir até que horas.
o ponho, não... Ora há-de ver!
Pois hei-de ver.
Nisto entrou na sala Torcato, seguido de Doroteia, antiga criada
da casa, mulher baixa, de uma gordurao extremamente vulgar e
cores florescentes, em cuja fisionomia alegre transluzia um génio
bonacheirão e o contentamento de si e de sua sorte verdadeiramente
digno de inveja.
—Doroteia disse-lhe a senhora, pousando o filho no chão depois
de um último beijo vá deitar este menino eo se me ponha agora
a contar-lhe histórias. Estragam-me as crianças com esses contos de
feiticeiras; fazem-nas umas medrosas que seo atrevem a passar,
às escuras, por um corredor ou a ficar de noite só num quarto.,
Ângelo, e olhe o que eu lhe recomendei. Daqui a pouco irei ver se o
menino está sossegado.
Boas noites, mamã.
Adeus, filho, boas noites.
E beijando-o ainda outra vez, entregou-o a Doroteia, que saiu
com ele da sala.
Sabes, Doroteia disse-lhe pelo caminho a criança, a quem
o júbilo quase obrigava a saltar; a mamã vai mandar-me vir uma
galguinha preta que se há-de chamar Andorinha. Tu é que lhe hás-de
dar de comer... Não, não... isso hei-de ser eu... Tu... hás-de fazer-lhe
uma goleira de veludo... ou então...
O resto dos projectos já seo ouviu na sala.
INÉDITOS E ESPARSOS
Cedo, porém, uma prolongada risada de Doroteia veio mostrar
que o pequeno Ângeloo cumpria escrupulosamente a promessa
que fizera momentos antes.
VI
APRESENTAÇÃO
M
AS com razão terá o leitor estranhado queo sem-cerimónia o
tenhamos introduzido numa casa e feito assistir a algumas cenas
da vida doméstica de uma família, sem previamente o apre-
sentarmos.
o obstante, serão as principais personagens que teremos de
encontrar no decurso desta narração.
Passo, desde, a emendar esta falta de método, o que farei o mais
sucintamente que possa, por saber que, regra geral,oo bem rece-
bidas estas notas explicativas.
Ela torna-se, contudo, indispensável.
O palacete, em cujo salão principal surpreendemos dor-
mindo a sono solto o nosso conhecido Torcato, pertencia a João
Mexia de Melo e Moita, conde de Aveleiras, o mais benquisto
proprietário da sua comarca. João de Alvito, ou, como ele pró-
prio se assinava por uma inofensiva veleidade aristocrática. D. João
de Alvito, era um homem de quarenta e tantos anos, ainda vigoroso
e activo, de maneiras corteses, ânimo generoso e resoluções ina-
baláveis.
De estatura elevada e de porte airoso, ele possuía as aparências
de um verdadeiro fidalgo.
D. João de Alvito era legitimista, mais por tradição do que por.
crença, embora quisesse sustentar o contrário. Repugnava-lhe mudar
de ideias políticas em que fora educado, parecia-lhe uma quase apos-
tasia para a qual lhe faltava o ânimo e que lhe reprovava com ante-
cipação a consciência. Era, porém, do número daqueles que transigia
com o estado actual dos negócios políticos, a ponto de aceitar, por
vezes, uma candidatura às cortes e prestar o juramento exigido,o
sei se com reservas mentais.
Como deputado, granjeara sempre merecidos créditos. Era um
orador pouco vulgar e nunca negociara com o mandato, vendendo o
seu voto para utilidade sua ou dos protegidos. Solícito em promover
os interesses locais do círculo que o elegera,o tentou nunca ante-
por-lhes os interesses gerais do País. Nem os governos nem a oposição
INÉDITOS E ESPARSOS
contavam com ele, porque de um momento para outro era-lhe infiel
por consciência...
Em famíliao era menos exemplar. Quando oo chamavam
à capital os trabalhos parlamentares recolhia-se à obscuridade da vida
provinciana, todo absorvido no afecto da esposa e na educação dos
filhos que, em pessoa, dirigia.
Ao apartar-se deles borbulhavam-lhe as lágrimas nos olhos e a
custo podia pronunciar as palavras de despedida.
O carácter de D. Luísa oferecia a maior conformidade possível
com o de seu marido.
Era a mesma gravidade, as mesmas maneiras afáveis e delicadas,
o mesmo coração compassivo, os mesmos impulsos generosos. Conser-
vava em todos os seus actos uma certa majestade natural, que impri-
mia às afeições, que geralmente inspirava, um cunho de veneração.
O seu nome adquirira já um verdadeiro prestigio entre os infelizes,
que erao solícita em socorrer...
Adelaide fora educada por sua mãe, que se esmerara em for-
mar-lhe o coração de que hoje tanto se descura na pretensiosa edu-
cação dos colégios que recebem raparigas.
Adelaideo era destas presumidas que, aos quinze anos, nos
cumprimentam em francês e travam connosco um diálogo moldado
pelos do Guia de Conversação, que dançam uma valsa e garganteiam
uma cavatina de um modo elegantemente detestável, o que as autoriza
a falarem da prima-dona da companhia lírica com conhecimento de
causa e desdenhosas superioridades, que...
Que mal-educados corações palpitam por baixo daqueles aperta-
dos espartilhos!
Perdoem-me as amáveis leitoras que foram confiadas a um colé-
gio se eu tenho saudades da educação mais patriarcal de outros tempos
em que as mãeso abdicavamo completamente do seu dever de
instruidoras da infância.
As meninas ficavam talvez falando um pouco mais defeituosa-
mente o francês, porém, quer-nos parecer que ficavam sentindo e
amando melhor, mais pelo coração e menos pela fantasia.
Mas voltemos a Adelaide.
Esta aprendeu noutra e na melhor das escolas: tivera por mestra
ae que a educara à sua semelhança.
Adelaide lia poucos romances e mal suspeitava até, quando em
companhia de D. Luísa socorria os seus pobres amigos doentes, quase
mortos de fome e de frio, que estava imitando esta ou aquela heroína
de quem nunca ouvira falar.
Tais coisas fazia-as naturalmente, sem ao menos se lembrar do
efeito que poderiam produzir.o tinha culpa no interesse que a todos
inspirava.
Adelaide cantava como os passarinhos que, no laranjal fronteiro
à sua janela pareciam, de contínuo, provocá-la. Desafiava-lhe hinos a
INÉDITOS E ESPARSOS
verdura do arvoredo, o rumorejar das fontes e as meias-tintas das
madrugadas e dos crepúsculos. Cantava para acalentar as criancinhas
nuas e tiritando de frio que ia procurar às choupanas, como uma presa
que arrebata à miséria; cantava para entreter as raparigas da sua idade
que se enlevavam a ouvi-la ou quando seu pai manifestava desejos de
escutá-la. Eram quase sempre singelas canções e toadas populares que
ela preferia outro ponto em que infringia o sancionado código da
elegância, queo admite que se cante senão em língua estrangeira.
*
Subindo da pouco confortável sala dos retratos, D. Luísa entrou
na câmara imediata, cujo aspecto contrastava notavelmente com o
daquela. Quanto ali tudo respirava tristeza e abandono, aqui se
denunciavam as aparências da vida em cada particularidade, a mais
insignificante. Nas luzes, nas flores, nos tapetes, nos estofos e almo-
fadas das cadeiras e sofás, no papel de custo que forrava as pare-
des, nas cortinas de damasco que adornavam as janelas, no magnífico
piano Erard, aberto ainda, no fogão consolador, tudo indicava que a
imaginação esgotara todos os recursos para reunir a elegância à
comodidade.
Era a antecâmara de D. Luísa o ponto de reunião da família, onde
tinham lugar os prolongados serões do Inverno, as lições nocturnas
de Ângelo e as leituras em comum feitas em voz alta por D. João de
Alvito, e escutadas com religiosa atenção, e até os concertos familiares
em que a voz de Adelaide. .
Adelaide disse D. Luísa passado algum tempo esta soli-
o em que vivemos aqui é demasiado triste para a tua juventude.
Nessa idade amam-se, é verdade, as flores e o canto das aves
que se vêem e escutam em abundância da janela do teu quarto.
o as primeiras a dar-te os bons dias todas as madrugadas,o as
primeiras amigas que nos saúdam; mas o coração também nos pede
afectos, que a nenhuma convivência que temos aqui teo permite
activar...
Que diz, mamã? Faltam-me por acaso afectos nesta casa? Afei-
ções de pai, de mãe; do Ângelo; a do velho Torcato, da Doroteia, de...
Enganar-me-ei acreditando que todos aqui me querem ?
Não, filha,o te- engana a consciência quando assim to afirma.
Mas falta-te uma amiga a quemo hesites em confiar todos os teus
pensamentos, diante de quemo cores quando, com a penetração
da amizade,, te devassar alguns que reserves ocultos.
Eo tenho eu essa amiga? disse Adelaide, baixando os
olhos um tanto confusa, como se temesse denunciar na expressão deles
um pensamento diverso do que ia exprimir. Quando é que a mamã
se recusou a escutar-me as confidências de todas as minhas penas e
prazeres; desde quando é que o seu coração deixou de participar
de todos os sentimentos do meu?
Canta, Adelaide, a primeira canção que te lembrar. Aquela
que ontem cantaste quando te recolheste ao teu quarto. Lembras-te
dela?
Estas palavras pareciam ocasionar em Adelaide uma inexplicá-
vel confusão.
o me recordo bem... respondeu ela, desviando os olhos
dos de sua mãe.
D. Luísa continuou:
A canção das Andorinhas, julgo eu...
Ah! Essa! disse Adelaide como se lhe repugnasse aceder
ao convite de sua mãe.
Gostei ontem de te ouvir. Se teo custasse...
Adelaide encaminhou-se para o piano com visível constrangi-
mento. Sentou-se e principiou a preludiar.
Suae fitava os olhos nela e sorria-se vendo aquele enleio,
como se compreendesse a causa que o ocasionava.
Cedo a voz argentina de Adelaide, interrompendo o silêncio da
noite, principiou a cantar, em toada popular, a seguinte canção conhe-
cida nos arredores:
Volta andorinha aos países
Dos perfumados verdores,
Ondem mais viço as flores
Onde tem mais luz o céu...
Cruza o mar, que a Primavera
Já ri nos vales e outeiros
. Dispersando os nevoeiros
Em que o Inverno os envolveu...
INÉDITOS E ESPARSOS
CARTAS LITERÁRIAS
Vol.II - 22
COISAS VERDADEIRAS"
Ao folhetinista (Ramalho Ortigão) do «Jornal do Porto»
Publicada sob o pseudónimo de Diana de
Aveleda, naquele jornal, em 25 de Feve-
reiro de 1863.
II."'- Sr.
tempos escreveu V. S." no «Jornal do Porto» um folhetim,
onde debaixo da pérfida e insinuante epigrafe: Coisas inocentes
dizia as falsidades mais abominavelmente culpáveis que eu tenho
lido em folhetins, dos quaiso é, de ordinário, a inocência a feição
característica.
Logo eu duvidei da sinceridade e exactidão do titulo, quando no
curto argumento que se lhe segue e no qual se acha em resumo, como
é de estilo, o tema da subsequente dissertação, vi duas palavras que
quase nunca se juntam sem prejuízo reciproco para as ideias que
designam: a filosofia e a mulher.
É sabido que uma eterna pendência, perpetuada através dos
séculos, lavra entre nós, as mulheres, e os filósofos, essa porção
mais impertinentemente pretensiosa do sexo feio, do qual V. S." é
um exemplar.
E isto vem de longe!
Recebi ontem o escrito, que hoje se publica com este título e que será concluído
a folha de amanhã. Era ele acompanhado de uma carta muito elegante igualmente assi-
nada pela autora. Aplaudo-me de haver escrito com o título de «Coisas inocentes» a baga-
tela que me proporcionou esta honra. Ignoro se Diana de Aveleda ó um pseudónimo ou
um nome. Basta-me também saber que é uma senhora quem o escreve.
Em um folhetim que hei-de publicar brevemente, buscarei provar que fui mal
compreendido e mal analisado pela minha leritora e colaboradora excelente. No entanto
Curvo-me
1
muito respeitosamente diante da fineza que acabo de receber e ponho o meu
cordial agradecimento aoss de Diana dei Aveleda.
Ramalho Ortigão.
INÉDITOS E ESPARSOS
Veja o que disse Salomão, citado por V. S.\ Salomão que, a
acreditarmos as letras sagradas, tinha motivos para falar des com
mais conhecimento do causa; recorde-se de Aristóteles, o maior folheti-
nista do seu tempo, o qual nos supunha uma obra por concluir nas
oficinas da natureza; repare como Demócrito... também trazido a juízo
há poucos dias por V. S.", Demócrito que, dizem, em tudo achava pasto
para a sua alacridade, chegou a arrancar os olhos, falo também sob
a responsabilidade de Tertuliano e de V, S.", parao ver mulher
nenhuma, lembrança que V. S." muito ajuizadamente taxou de estúpida,
com grande aprazimento meu.
E depois disto, depois de tantas causas de agravo, com que olhos
poderemoss encarar os filósofos e a filosofia,o me dirá?
Poucoso os que, à imitação dos três que mencionei, seo dis-
traíram em seus momentos de pedantesco spleen à custa des outras
mulheres, caluniando-nos, ensaiando em nossa humilde personalidade
as suas aguadas vocações epigramáticas, tentando até ter espírito,
que ó o ponto mais alto a que podem subir as aspirações de um
filósofo.
Acerca das mulheres e dos médicos, toda a gente se julga com
direito para gracejar. É balda antiga! O epigrama a nosso respeito
tornou-se juntamente com as observações sobre o bom e o mau tempo,
um lugar comum de todas as conversas fúteis, assunto acomodado à
inteligência de todos os parvos e excelente material para o tiroteio de
banalidades, remoques alambicados e galanteadoras sandices, que
fazem as delicias dos nossos encasacados frequentadores de bailes.
E a culpa disso tiveram-na os filósofos com suas sumarentas sen-
tenças e apotegmas absurdos. Pois quem mais?
É irreconciliável já agora esta aversão que nos separa deles; um
ódio perpétuo cavará entros um abismo imensurável. Nunca seus
livros terão acesso em nossos gabinetes, nunca repousarão às nossas
cabeceiras ou em nossos cestos de costura.
Podem-se esfalfar e mumificar, esses senhores, à vontade, em
estupendas elucubrações sobre a identidade do eu e do não eu, sobre
os fins finais, as essências e as modalidades e quantas outras extrava-
gâncias lhes acudam à ideia, que nunca farão com que uma mulher,
verdadeiramente digna deste nome, lhes conceda um só momento de
suas horas de deliciosos e frequentes ócios.
Repare que digo uma mulher verdadeiramente digna deste nome ;
porque é notório que muitas há que oo merecem.
o essas tais, ridículos disparates da natureza que se descuidou,
insuflando em formas femininas um espírito varonil com todas as suas
impertinências e engravatadas predilecções.
Assim: há mulheres que, como M.
ml!
Dacier, sabem o grego e tra-
duzem Homero! Que abominável saber! Outras, como a nossa Alcipe,
que entendia o latimI Algumas até, ó monstruosa aberração! que
chegam, comoo sei que marquesa parisiense, a comentar o próprio
INÉDITOS E ESPARSOS
Newton e a lidar com fórmulas algébricas; isto com grande aplauso
dos filósofos, a quem essas tais agradam!
o exactamente as que eu detesto; a respeito das quais penso
como Aristóteles,o serem mais que homens abortidos. Contra elas
protesto! Nunca impassível as verei agremiadas a um sexo que, à custa
de muitos esforços e sacrifícios, conseguiu adquirir uma tríplice quali-
ficação, da qual deve justamente ufanar-se: a de belo e por isso deve-
mos protestar contra as feias, tomadas como espécime do género; a
de amável e por isso protestaremos sempre contra as eruditas e ver-
sadas em línguas mortas ou em ciências espinhosas; e a de frágil e por
isso protestaremos também contra as chamadas mulheres fortes, muito
do gosto aliás dos senhores poetas. Sim; deve saber que nunca pude
simpatizar com as Judites, Joanas d'Arc, Carlotas Cordays e outras
heroínas que adquiriram grande reputação entre as mulheres, justa-
mente por oo saberem ser.
Para mim, a mulher verdadeira é, por exemplo, aquela Licínia
de um romance de Mery, que adormeceu enquanto um filósofo laquista
lhe lia uma dissertação sobre os sonhos e que, dormindo, converteu o
tal filósofo à razão.
É a mulher como a Ifigénia do teatro grego que, votada à morte,
chora, ajoelha-se, procura comover, implora a vida, lamenta as flores
que vai deixar, o esplendor do dia, a claridade do céu, os prazeres
gozados e tantos outros, vagamente entrevistos ainda e de que o futuro
lhe falava. Lamentos que, como diz Saint-Marc Girardin há-de sempre
repetir toda a rapariga moribunda, porqueo saudades pelos bens
mais universais e mais doces da vida.
Esta ó que é a verdadeira mulher, a mulher frágil eo as estói-
cas heroínas que tanto vos despertam a atenção e o interesse.
A mulher digna de o ser é aquela em cuja ortografia os eruditos
tenham que lamentar a ignorância absoluta das letras gregas e latinas,
a que dos jornais políticos só lê o folhetim, a que de um livro passa em
claro os prólogos, quee de parte as considerações filosóficas dos
romancistas para seguir o entrecho do romance; que perde de vista
a ideia metafísica do autor, parao ver nos acontecimentos narrados
senão acontecimentos; a queo tem o ridículo descoco de repetir
após a leitura o qu'est ce que cela prouve de filosófica e insuportável
memória. É a que folga com os casamentos no final da novela, chora
sinceramente a morte da heroína, sonha com a beleza do herói e odeia
do coração o pai, o tio, tutor ou conselho de família que se opõe à rea-
lização dos castos desejos dos dois amantes.
É assim que eu compreendo a mulher, pois é assim que eu sou
formada, eu e as minhas amigas todas. Ora é exactamente o contrário
disto que os senhores nos fazem. Quer para bem, quer para mal, nunca
os poetas, romancistas e filósofos, nos pintam tais como somos. É vulgar
chamarem-nos anjos e demónios, raríssimo que nos chamem simples-
mente mulheres.
INÉDITOS E ESPARSOS
Por saber isto e o mais que vem dito, foi que logo principiei a
agourar mal da apregoada inocência do folhetim que V. S.* assinava e
no qual se prometia uma confrontação entre a mulher e a filosofia.
A leitura dele veio mostrar-me que, se em parte me enganara,
fora em parte fatídico o meu pressentimento.
De facto, V. S.* principia bem. Começa a rir dos filósofos, que é
passatempo inocente e para o qual eu me sinto sempre nas melhores
disposições de espirito; duvida da ciência desses moralistas antigos e
modernos, que tanto falaram da mulher eo pouco a conheceram, do
que muitos deixaram irrecusáveis e eloquentes testemunhos; ocupa-
ram-se, diz pouco mais ou menos V. S.*, de uma mulher queo existe,
de uma mulher imaginária, mulher de convenção, mulher mito, feita
à imagem da fantasia deles, que aqui para nós, digo eu agora,o for-
nece grandes modelos; e ai está o que eles fiseram.
E eu a gostar de ouvi-lo! Oh! 3e gostava!
Tratava-se pois de refazer o trabalho desde o princípio; pro-
pôs-se V. S.' a isso, adoptando o método analítico para chegar ao des-
cobrimento da verdade. Logo meo agradou a escolha. Receei que
analisando meia dúzia de mulheres, se apressasse a generalizar, arvo-
rando a excepção em regra e caindo no mesmo defeito dos filósofos
que combatia e que me parece terem pecado por analíticos de mais.
Contudo entrei de ânimo folgado no corrente das considerações
que sobre o assunto V. S.' expendeu.
Cedo perdi as ilusões que me seguiram até ali.
Ainda desta vezo nos faziam justiça.
Era ainda a mesma fisiologia da mulher—aleijão, da mulher
anomalia, da mulher extravagância eo da mulher mulher, a
única que,o obstante, mais importaria conhecer a um verdadeiro
fisiologista.
Meu marido possui um livro de um tal Geoffroy de Saint-Hilaire.
que trata de todas as monstruosidades humanas: é horrível! Pois as
suas fisiologias da mulher, meus caros senhores, fazem-me lembrar
este livro. Pode ser que tenham um valor cientifico igual ao dele, o
qual valor, aqui para nós, eu aindao pude compreender bem
qual seja.
Depois de acabar de ler o folhetim de V, S.", tive vontade de
lhe responder imediatamente para refutar, um por um, os aforismos
com que termina, dos quais nenhum lhe posso admitir; mas há tanto
tempo que perdi o hábito destes empreendimentos, que me custou a
decidir-me.
Se fosse noutro tempo!...
Noutro tempo era eu também mulher excepção, mulher extra-
vagância, ou como quiser chamar-lhe. Febricitava-me a vacina do
romanticismo, como lhe chamou Garrett, o Jenner da nossa litera-
tura, e dava-me então para velar noites inteiras à janela, entre os
ramos de trepadeiras que me enfloravam o balcão, vestida com um
INÉDITOS E ESPARSOS
penteador branco, os cabelos soltos, a face encostada ào e de
olhos fitos na Lua, naquela mesma Lua que andava então tanto na
moda. Escrevi-lhe uma balada sentimental eo como as de Alfredo
Musset, que nos acessos desse derrancado romanticismo, lhe chamou
quantas extravagâncias e nomes feios lhe vieram à cabeça, tais como:
o ponto de letra !, olho do céu zanaga, máscara de um querubim, sonsa,
bola, aranha sem pernas e relógio dos condenados eo sei que mais
injúrias. Eu não;o ofendi as conveniências, que se devem ter, para
com um astro fêmea. A minha balada publiquei-a na Miscelânea Poética,
vasto viveiro de poetas e poetisas que havia por aquele tempo no Porto.
Um critico de então, o qual V. S.» conhece muito bem, fez-me o
favor de me profetizar um auspicioso futuro literário. O crítico enga-
nou-se, acontecimento vulgar nos críticos, assim como eu também me
enganei com ele; pois agoirando-lhe igualmente pela minha parte, em
vista das suas tendências romântica?, a elaboração futura de dez volu-
mes de poesias sentimentais, v n'e dramas ultra-românticos e ultra-
-históricos, etc, etc, vejo-o hoje todo entregue a estudos paleográ-
ficos, entre pergaminhos amarelos e monstruosos in-fólios, anotando e
discutindo bulas e pastorais e correspondendo-se com bispos, arce-
bispos e eminentíssimos dignitários da cúria.
Se fosse nesse tempo, em que despedi o meu facultativo de par-
tido por me dizer um dia que para ele o coração era apenas «um mús-
culo oco, com suas^fibras e válvulas e o principal motor do movimento
sanguíneo»,o teriam mediado tantos dias entre a leitura do folhe-
tim de V. S.» e a minha refutação; mas hoje, que me deixei de versos
para tratar dos filhos, que a realidade de um marido expeliu do meu
coração os luminosos fantasmas ideais, belos como o arcanjoo Miguel,
que estavam comigo, quando todos me julgavam solitária; hoje que as
canseiras domésticas meo deixam tempo para inventar tormentos
imaginários, hesitei, poro saber se meo abandonaria o fôlego
antes de levar ao fim o empreendimento. Por isso deixei passar tanto
tempo sem responder, por isso nunca responderia talvez, se meo
instigassem algumas amigas, igualmente escandalizadas como eu corn
a falsa fisiologia da mulher, exposta por V. S.».
Fisiologia da mulher! Principiaremos por aqui.
De duas uma, ou a mulhero é uma entidade moralmente dis-
tinta do homem e então para que tentar presentear-nos com as honras
de uma fisiologia especial? Ou o é e cumpre nesse caso que as des-
cobertas fisiológicas que nos disserem respeito, nos sejam exclusivas,
capazes de caracterizar o sexo, de lhe fazer perder o aspecto nebu-
loso, de que alguns teimam em revesti-lo chamando à mulher um mito
e ficando muito satisfeitos de si, como se tivessem dito alguma coisa
de jeito.
Orao estão nesse caso muitas das suas observações, meu caro
senhor, as quaiso igualmente aplicáveis aos homens e, desde então,
impróprias de uma fisiologia especial do sexo amável.
INÉDITOS E ESPARSOS
Vamos por ordem:
Rompe V. S.« por a seguinte proposição: Toda a mulher que
cora não é inocente.
Segue-se uma definição da inocência e uma teoria do pudor,
teoria contra a qual nos revoltamoss todas com as reminiscências
de nossos sentimentos passados.
O pudor é instintivo na mulher, precede a razão que o explica.
Cora-se, sem saber porquê, como a criança chora de medo antes de
ter conhecimento do perigo. Os caracteres mais feminilmente delica-
dos, ou, como quiser, mais delicadamente feminis, recebem da natu-
reza a faculdade de corar de pejo, como um sexto sentido, que lhes
faz pressentir um mal ainda para eles indeterminado.o como estas
organizações excessivamente nervosas que experimentam sensações
indefiníveis na aproximação das tempestades e enquanto umu ainda
límpido aso revela às minuciosas observações dos homens enten-
didos. É uma faculdade misteriosa esta de corar, própria da mulher,
como a contractilidade da sensitiva; é como o instinto da andorinha
que a impele à procura de climas novos, sem conceber o perigo que
corre persistindo nas mesmas florestas, cuja verdura começa apenas
a desbotar.
Adora o pudor, diz V. S.», mas prefere-lhe a inocência. E aonde
é que a vai reconhecer, essa apreciável inocência? Na mulher que
o cora ?! Pois deveras pensa isso ? Custa-me a acreditar que nos
falasse sincero! Nem sequer lhe ocorreram à ideia aqueles belos ver-
sos que Racines na boca de Fedra e que Scribe fez repetir a
Lecouvreur, quando na presença do amante comum, fulminava com
um gesto a sua poderosa rival:
... Je ne suis point de ces femmes hardies
Qui goutant dans le crime une tranquille paix,
Ont su se feire un front qui «ne rougil jamais».
Fedrao era inocente mas ainda seo supunhao culpada
que lá nem sequer corasse. Era um resto de inocência, que lhe ficava
ainda, e esse rubor que lhe tinge as faces, é justamente o que em nosso
conceito a salva, o que nos comove uma fibra oculta do coração.
Veja comoo as coisas. Eu, se tivesse de fazer um aforismo
sobre o pudor, proporia o seguinte para substituir o que analiso:
Toda a mulher que não cora ou é idiota ou desfaçada.
Umao cora porque seus instintos embotadoso lhe facultam
essas delicadas impressões, exclusivas das organizações mais perfeitas,
tem a inocência da ovelha inocência mais que modesta para inspirar
poetas. Outrao cora porque um perfeito conhecimento do mal a
familiarizou de há muito com ele;o relações antigas; estasom
inocência. Se estivessem no teatro que V. S.
a
imaginou, esteja certo
que se haviam de rir às escâncaras, ou baixar hipocritamente os olhos,
INÉDITOS E ESPARSOS
corar é queo poderiam; é um recurso de queo dispõe quem
quer. É pois pela candura destas que V. S.» opta? Deve ser, sob pena
de se mostrar inconsequente. E tem alma para preferir essa candura
à castidade, que é a inocência que cora?
Dir-se-ia que V. S." pertence a uma seita de literatos que, por
comodidade própria, exigem tais condições a uma rapariga para lhe
passarem diploma de inocência, que o mesmo vale negar a exis-
tência dessa qualidade neste mundo sublunar. Ora negada ela, ficam
esses senhores mais -à vontade poro terem tantas contemplações
a guardar.
Alphonse Kajrr, por exemplo, que nunca foi modelo em platonis-
mos e que, estou certa, V. S.
a
o quereria tomar como norma em
costumes, dir-se-ia, ao ouvi-lo, o homem mais pechoso em matérias de
virgindade, que ainda apareceu no mundo e, se não, oiça esses
versos, queo dele: descrevem-nos a virgem que diz imaginar.
Vierge d'âme et de corps, ignorante, ignorèe
Vierge de ses propres dèsirs,
Vierge qu'aucun n'a vue et dèsirèe,
Vierge qui n'a jamais étê même effleurêe
Par de iointains soupirsl
E mais adiante:
Car je n'appelle pas vierge une jeune filie
Qui donne des cheveux à son petit cousin
Ou qui chaque matin se rencontre et babille
Avec un ecolier dans le fond du jardin;
J'n'apelle pas vierge une filie qui donne
Un coup d'ceil au miroir sitôt que quelqu'un sonne.
Pour celui-ci d'abord, pour Ia première fois
Elle voulait être belie et parèe;
Par cet autre sa main en dansant fut serrèe;
Ceiui-la vit sa jambe un certain jour qu'au bois
On montait à cheval; un autre eut un sourire;
Un autre s'empara, tout en feignant de rire
D'une fleur morte sur son sein;
Un autre ose baiser sa main
Dans ces jeux innocents, source de tant de fièvres
Qui troubíent les jeunes sens
Un monsieur a baisé, devant les grands parents
Tout en baissant la joue, un peu la com des lèvres;
On a rougi vingt fois, d'un gest ou d'un rega rd ;
On a recu des vers et rendu de la prose...
Conceda-me queo prossiga na citação, parao ser forçada a
corar — o que me faria descer consideravelmente no conceito de V. S.°.
O que, de mim para mim fiquei julgando, ao ler esses versos,
foi queo extremas exigências tinham por certo um fim reservado,
o qual me parece haver descoberto, e vem a ser: que elevandoo
INÉDITOS É ESPARSOS
alto o tipo de absoluta virgindade,o alto que foge da Terra
;
para se
misturar com os anjos, o escritor pretendia talvez desculpar-se a si
próprio do pouco respeito que lhe impunham as virgindades reais,
que se encontram neste mundo, de onde muito há se retirou o abso-
luto; queria talvez abafar remorsos que lhe falavam de tantas sacrifi-
cadas por ele, em seus momentos de irreverente cepticismo.
E esta consideração me fez formular o seguinte aforismo, que ofe-
reço hoje como pendant ao de V. S.* sobre o pudor feminino:
Os mais pechosos em matérias de inocência e virgindade são
justamente os menos dispostos a respeitá-las.
o queira, porém, ver nisto a menor alusão pessoal. Eu abro
uma excepção para o delicado folhetinista do «Jornal do Porto», seme-
lhante àquela em que teve a bondade de incluir as senhoras portuenses.
Vamos adiante
Estou suspeitando que V. S.* há-de ter já feito reparo em me ver
tanto em dia com os escritos da Boémia literária de Paris, e terá feito
suas considerações, repletas de bom senso, sobre a inconveniência
de tais leituras para uma senhora.o pode deixar de estar pensando
isto, uma vez que é de opinião que «um livro escondido no estojo de
costura ou aberto na gaveta do toucador, pode fazer ajuizar de como
pensa nesse dia a dona do toucador e do estojo». Asserção, que vol-
tarei a discutir mais tarde.
Por agora, deixe-me observar-lhe que sou mãe, que também
creio, como o senhor, «que um mau livro é mais perigoso do que
geralmente se julga» e é esse talvez o único ponto em que estamos
de acordo, por ser uma verdade antiga e quase uma banalidade e
que por isso preciso conhecê-los, esses maus livros, para os arredar
do quarto de minhas filhas.
Dos bons livros tem-se dito muita vez:
La mère en permettra la lecture à sa filie.
Isto faz supor que as mães precisam ler tudo para saber escolher.
E por estas considerações sou naturalmente conduzida a examinar
outra das proposições de V. S.*.
«A mulher virtuosa, que acompanha e convive com a mulher
leviana, tem por força defeito grave; ou lhe tomou o exemplo ou
se julga exemplar. Uma coisa exclui a outra mas qualquer delas é
péssima.»
Pobres mães que chegastes a reconhecer em vossas filhas os
graves sintomas da leviandade; tendes de hoje por diante de cessar
a vossa abençoada obra de educação sob pena de se vos apegar o
mal que pretendíeis curar ou serdes tidas na conta de presumidas.
Eu tenho duas filhas, Ernestina e Luísa Ernestina é de uma sisu-
dez de carácter, de uma constância nos afectos, de uma perseverança
nos sentimentos bons, que a mim e a todos que a conhecem, impõe,
apesar dos seus quinze anos apenas, uma certa veneração. Luísa é boa
também, mas afectada de-leviandade, que cedo principiou a inquietar
INÉDITOS E ESPARSOS
aquela pobre cabeça. Sei que é volúvel, sinto apreensões pelo seu
futuro, temo, se temo! que pode vir a causar o infortúnio dos que lhe
confiarem o seu amor, fazendo-os sacrificar, a um mero capricho, a
uma fantasia momentânea, a mais violenta paixão que se possa inspirar.
E sabe a única esperança que me restava ainda? Era a influência bené-
fica de Ernestina; confiava nela para dominar ass tendências da
irmã,o por meio de prédicas presumidas e ridículas, mas com a
silenciosa eloquência do exemplo, género de educação que, sem repa-
rarmos, pouco a pouco se apodera des e cedo nos tem avassalado
inteiramente, operando em nossos pensamentos uma completa meta-
morfose. Sempre que as via juntas, as duas irmãs, parecia-me aquilo
a realização de uma vista providencial, imaginava o anjo a purificar
a pecadora. E hei-de acaso, de hoje em diante, ver em lugar disso a
pecadora a contaminar o anjo? Não; é desconsoladora de mais essa
maneira de pensar. Eu continuarei sem receio a reunir as duas irmãs,
folgarei sempre que as vir juntas; porque ainda acredito no poder
do bem e espero que Ernestina há-de vencer.
Agora seguem-se algumas observações acerca da mulher, colhi-
das no teatro. Permita-me desde já que lhe diga que foi péssima a
escolha do terreno para as explorações a que V. S.
a
se propôs.
O teatro é fértil em observações paras outras, queo para
os senhores. A plateia! Que mau posto de observação!
Basta reparar na posição forçada e violenta em queo obriga-
dos a manterem-se os homens que aspiram a observar-nos no teatro.
Em, com a cabeça em fadigosa extensão, o binóculo sustentado a
uma altura, necessariamente incomodativa, as costas voltadas para o
palco, circunstância que os obriga a interromper o seu exame durante
todo o tempo do espectáculo para só o continuar nos intervalos, é essa
uma espécie de observação de astrólogo, falsa como todas as deles.
s porém estudamos-vos dos camarotes o mais comodamente possível.
Basta-nos baixar os olhos, toda a plateia nos fica aos pés; obser-
vamos-vos justamente quando menos o suspeitais, quando, distraídos,
esqueceis o vosso belo ar de convenção e, sem o saber, vos achais
revestidos das aparências que melhor se harmonizam com o vosso
carácter e indiscretamente o denunciam. Oh!s temos nesse ponto
uma superioridade inquestionável e só a cedemos aos espectadores
das varandas.
Esses sim! O folhetinista deve trepar ali, se quiser estudar os mis-
térios de uma noite de teatro; lá é o terreno dos verdadeiros filósofos.
Aquelas gargalhadas estrepitosas, que dali rebentam de quando em
quando, nada vos dizem? Pois a mim causam-me um efeito formidável!
o é sem um certo terror que às vezes ouso profundar as vistas nas
meias trevas daquele recinto, de onde com olhos de águia, vos con-
templam desapiedados observadores! Doem-me bem mais as tais gar-
galhadas do que me afligem todas as vossas baterias de binóculos
impertinentemente assestados contra os nossos camarotes.
INÉDITOS E ESPARSOS
Pobre gente das plateias! míseros diletantes da superior! mostrai-
-nos o resultado das vossas observações, forçosamente mesquinhas.
Aí estão duas:
1." «A mulher que, na ópera, compassa o andamento da música
com o bambear da cabeça ou com o rufo dos dedos no parapeito do
camarote, ou é mestra de música, ou é pretensiosa.»
E foi para isto que passastes uma noite inteira a incomodar-nos
com o vosso binóculo?
Realmenteo valia a pena.
Esta ó uma das tais leis da fisiologia da mulher que passam
por serem comuns ao homem e portantoo servem para caracte-
rizar o sexo.
Contudo é necessário em todo o caso fazer-lhe uma modificação;
pois tenho bons fundamentos para pensar que os que procedem na
ópera, como V. S.* diz,o os mais crassamente ignorantes dos princi-
pais rudimentos de arte. Deixe ir só o pretensioso e suprima o pro-
fessor de música e ter-se-ão encontrado as nossas observações.
Mas, nesse sentido, quanto mais rica é a minha ciência!
Que belos aforismoso poderia eu fazer a respeito: dos que
entram na plateia de chapéu na cabeça, quando o pano já está em cima,
despertando-nos a atenção com o ruidoso bater de seus tacões; dos
que murmuram uns bravos em voz cavernosa, assim como um aparte
de tirano, e isto nos momentos em que o silêncio é geral; dos que fixam
impertinentemente o binóculo na prima-dona, ou na cantora predilecta
do público, a darem-se as aparências de preferidos ou profundamente
engolfados nas intrigas de bastidor; dos que desviam os olhos do palco
para os fitarem nos camarotes justamente quando todos seguem mais
ávidos o espectáculo; dos que trauteiam a letra da cavatina antes que
os cantores, esperando pelo compasso, voltem à boca de cena do seu
passeio obrigado aos bastidores do fundo e principiem a gargantear;
dos que de vez em quando fazem uma cara feia, dando a entender
que o seu ouvido admiravelmente acústico, percebera uma desafina-
ção ignorada pelos profanos; dos que se levantam antes dos fins dos
actos, demonstrando que, sem a advertência do apito, já sabem quando
eles estão próximos a terminar; dos que percorrem numa noite os
sessenta camarotes das três primeiras ordens, e nem sequer elevam
as vistas para a quarta, como se ignorassem até a sua existência, dos
que dizem meia dúzia de palavras em italiano e tratam familiarmente
com o artista de moda, etc.
Era obra esta para mais vagar eo a desenvolverei por agora.
Vamos à 2.* observação:
«Aquela que ao findar o espectáculo vira as costas ao seu
marido e levanta silenciosamente os braços para receber a capa que
sabe já com certeza ele lhe lançará nos ombros, é mulher de mau
génio que domina e subjuga o osso do seu osso e de quem é lícito sus-
peitar que o espanca muita vez.»
INÉDITOS E ESPARSOS
Queira confrontar essa proposição com a reciproca que ofereço
a V. S.\
«O marido que, ao findar o espectáculo,o tem a delicadeza
de lançar nos ombros de sua mulher a capa de salda, é homem mal-
criado, que despreza e maltrata o osso de seu osso e de quem é lícito
suspeitar que a espanca muitas vezes.»
Sendo os dois aforismos verdadeiros, todos os ménages devem
ser de uma amabilidade!...
Quer-me antes parecer que amboso falsos e que entre casados
reina em geral a mais beatifica harmonia e invejável concórdia.
Há mais uma observação relativa aos livros, à qual já aludi. Essa
é recolhida fora dos teatros.
Nada nos revela também de característico a respeito das mulhe-
res, por ser comum e até mais peculiar aos homens.
E senão, diga-me:o vê por aí tantos que se julgam Chattertons ?
tantos que macaqueiam os heróis de Byron? outros que batem na
cabeça, como André Chónier e teimam, contra a opinião pública, qu'il
y a pourtant quelque chose là ?o os houveo tolos que se fizeram
salteadores, depois de lerem Schiller; ou se suicidaram para tomarem
as românticas aparências de Werther? Extremos de imitação de que
uma mulher nunca seria capaz.
Permita-me que passe por hoje em claro a observação relativa
aos dentes negros e às bocas grandes porque, quando se discute
abstractamente a mulher—a mulher-tipo—deve supor-se sempre bela,
como já disse no princípio da minha carta.
A respeito das mulheres faladoras e das mudas, o que, em tudo
o que V. S." disse há de verdade é admiravelmente aplicável também
ao sexo masculino. E reparo até que é lustamente aos folhetinistas que
parecem referir-se os caracteres apontados por V. S." «Homem que
fala muito de si e de todos e ri descomedidamente de tudo, incluindo
as coisas mais sérias e lúgubres».
As conclusões que V. S.
a
tirar portanto a respeito de tais mulhe-
res, eu as aplicarei pela minha parte a tais homens.
Em quanto ao silêncio das mulheres remeto V. S." para a máxima
grega, que dizia ser essa qualidade o melhor ornato do sexo.
D>ana de Aveleda.
COISAS INOCENTES
.A filosofia e a mulherSistemas empregados
para descobrir a verdade. Transcrito, com
autorização do seu autor, do Jornal do Porto,
de 21 de Janeiro de 1863,
«Não me
i
abalanço eu a decidir até que ponto um homem pode
conhecer outro homem, e muito menos, se é possível, que um homem
conheça uma mulher.
Dá-se uma coisa:
O nosce te ipsum tem atravessado séculos sempre venerado
pelos estudantes de lógica como o verbo supremo da filosofia copio-
samente transcendental e bojudamente séria.
Aquela compendiosa sentença do filósofo é ainda hoje tida por
alguns crendeiros simplórios e ainda por um ou outro engenho agudo,
mas de bom comer, como o teorema sumo em que poder a mira, a
atrevida, a esfomeada, a insaciável ciência humana.
Pois se o meu curto juízo meo engana, a razão da populari-
dade deste preceito está na rasteira faculdade que ele barateia a qual-
quer joão-ninguém de considerar-se impunemente sábio.
É verdade,o há dúvida alguma em ser verdade, que os sábios
desmereceram muito a consideração pública e que o respeito que a
gente lhes tem anda muito caldeado de galhofa depois que ultima-
mente se descobriu que eleso prestavam para nada, os maganões
dos sábios.
Mas com ser pequena e desasseada esta pobre vaidade da sabe-
doria, aqueles a querem queom coisa melhor para desejar.
Pelo que foram os ignorantes, segundo eu alcanço, que deram
ao nosce te ipsum a celebridade que lhe anda aforada.
Tanto que o ouviram gostaram daquilo, quiseram-no para si, e
adoptaram-no para ornamento e lustre da sua inteligência e juízo,
INÉDITOS E ESPARSOS
assim como também pegaram na moda das calças largas as pessoas
cambaias e des volumosos. «Vamos, isto disfarça» foi o sentido
deles.
Estas grandes verdades que passam em julgado, eo confir-
madas por sentença no tribunal da opinião pública, por via de regra,
o mentiras. Haja vista aos rifões. Eu lembro-me apenas de um que
seja absolutamente verdadeiro, que é o seguinte: Dá Deus o frio con-
forme a roupa. É rigorosamente assim: está provado que quem tem
pouca roupa tem muito frio e quem tem muitao tem frio nenhum.
Este é excepção.
Ora no fim de tudo conhecer-se a si mesmo devemos desen-
ganar-nos de que é fácil e vulgaríssima coisa. O que é peregrino,
excepcional, raríssimo, é haver homem que seo conheça perfeita
e cabalmente.
Encontra-se um toleirão com fumos de avisado.
Vemo-lo entrar em todas as discussões de chapéu na cabeça,
como conhecido velho, avassalar a conversação, puxá-la para diante
de si, trinchar o assunto para os convivas; e é então o caso de cuidar
a gente que aquele homem se,o conhece. Conhece ! conhece ! e sabe
profundamente que é um parvo. Olhem lá se ele se apresenta alguma
vez qual é. se ele se faz bonacheirão ou simples! Faz-se atilado é o que
ele se faz; faz-se vivo, sagaz, fura-paredes. Atabafar a penúria de den-
tro e èncampar-nos como possa o fingimento de fora é no que ele cuida.
E esse cuidar é de tolo, mas de tolo que se conhece.
Há em todos os corações uma latente corda sumamente boa e
uma outra sumamente má que ninguém mostra aos seus amigos mais
particulares e mais íntimos. Costumamos tanto as nossas índoles à
estreiteza de molduragem comum ee que já nos envergonhamos
de parecermoso bons como às vezes somos, eo maus como fre-
quentemente nos vemos.
Quantos milhões de homens terão passado a vida a fingir! Quan-
tos idearam um tipo que lhes pareceu bom e consumiram depois a
existência, trazendo ajustada à face a máscara daquele herói filho da
sua imaginação! Quantos terão rido e quantos chorado ao cotejar
perante a consciência o que intimamenteo e o queo no mundo!
Venera a sociedade este que morreu esmagado pelo sobrepeso
de uma honradez medíocre, e que, obedecendo ao natural pendor da
vontade, teria desafogadamente sido um salteador insigne; e é des-
prezado aquele, transviado em diversa trilha, que mais mau é pelo
que finge ser do que por aquilo que realmente é.
Dizia o Agostinho de Macedo, metendo o caso a chacota, segundo
era useiro, que Larochefoucauld era moquenco como um padre da
companhia de Jesus.o quero desfazer das mordeduras de anava-
lhada memória com que o célebre crítico assinalava o transeunte, mas
nunca puderam nem o José Agostinho, nem o próprio Lamartine, con-
vencer-me a mim de queo fosse um discreto pensador aquele duque
4
INÉDITOS E ESPARSOS
Larochefoucauld. Ainda me recordo que lá reprega ele a minha asse-
veração em uma notável máxima, cuja substância é esta: O hábito de
encobrir os nossos pensamentos muitas vezes faz com que os oculte-
mos as mesmos.
Ocultamos e fechamos os olhos e dizemo-nos até que oso
vemos; ressaltos da nossa vaidade tantas vezes atarantada entre o
aplauso do mundo, que nos laureia, e a íntima corrimaça da consciên-
cia, que nos escarniça e apupa!
Ora vá lá agora cada um conhecer assim os outros como se
conhece a si!
Os escritores que melhor demonstram conhecer o coração humano
fizeram um estudo de introversão, e leram na sua alma os ditames da
doutrina que pregoam.
Isto é estudar o coração, isto é talvez conhecer o homem, mas a
grande ciência, a que dificilmente se atinge, e que mais importava
alcançar, tem outro fim. O seu objecto é conhecer um certo homem e
principalmente conhecer uma certa e determinada mulher.
Alphonse Karr, o conhecido autor de dois excelentes e bem pen-
sados livros Les lemmes e Encore les femmes consta que se divor-
ciara no fim do primeiro ano de casado. O simpático escritor conhecia
as mulheres... excepto uma, a que mais lhe convinha conhecer, a que
ele escolheu para si.
Molière, queo fundamente conhecia o coração humano e a
sociedade, sabe-se queo gozou a felicidade conjugal.
Labruyère, o imortal autor dos Caracteres, receou tanto iludir-se
que se conservou celibatário.
Todos os moralistas do meu conhecimento consumiram a exis-
tência a estudar a mulher, a qual mulher dos moralistas, cá no meu
entender, é um mito, é um ser mitológico, é um ente de convenção
que euo encontrei nunca no mundo.
O resultado é que as opiniões divergem porque seo conhece
o assunto, os tiros encontram-se porque seo vê o alvo. Jáo há
argumento nem a favor nem contra, queo esteja refutado.
Que importa que Malherbe escrevesse esta linda frase a favor
da mulher: «Deus, que se arrependeu de fazer o homem,o se arre-
pendeu nunca de ter feito a mulher?» Acodem a isso os pessimistas
que foi justamente para se desfazer do primeiro que o Criador imagi-
nou a segunda; e Aristóteles lá diz claramente que a natureza só pro-
duz mulheres, quandoo consegue fazer homens. O príncipe de Ligne
assegura que, seguindo-se durante a sua vida cem pessoas de cada
sexo hão-de encontrar-se vinte vezes mais virtudes no sexo feminino
do que no sexo feio, e Salomão assevera-nos que em mil homens encon-
trou um bom, e que em todas as mulhereso encontrou boa nenhuma.
Balzac, a quem seo pode negar toda a competência nestas matérias,
Balzac, que é geralmente tido como um dos mais sagazes observado-
res da sociedade e do coração humano, diz què' a mulher ó a criação
INÉDITOS E ESPARSOS
transitória entre o homem e o anjo, e chama-lhe a mais perfeita das
criaturas, ao passo queo Jerónimo, grande santo e grande doutor,
escreveu que a mulher de boa índole é mais rara do que a esfinge.
Espero eu que as minhas amáveis leitoras seo sensibilizem
rom os argumentos que meramente reproduzo.o se entende o que
fica dito com nenhuma de V. Ex.
as
. Tudo isto é a respeito da mulher,
quer dizer: a respeito do mito, que é como se disséssemos a respeito
da Lua.
No tempo em que me dei a estes conspícuos estudos segui eu
uma senda diversa e procurei conhecer por mera observação a feição
predominante no carácter das pessoas que via, antes de falar-lhes ou
de perguntar quem fossem.
O método para estes trabalhos é o analítico puro. A dificuldade
do sistema consiste em descobrir as grandes causas nos efeitos míni-
mos, em conhecer o gigante pela unha.
Vou com inicicar ao leitor o resultado das minhas observações,
resutado por cuja infalibilidade eu me responsabilizo porque está já
confirmada e consagrada pelos factos.
Pensa-se geralmente que o rubor que sobe às faces da donzela
é um respiro de candura que lhe perfuma como olores dou a alma
virgem. Eu estabeleço a respeito do rubor o axioma seguinte:
Toda a mulher que cora não é inocente.
Inocência na acepção em que tomamos a palavra, quer dizer
ignorância do que é impuro. Quem cora ao ouvir uma impudência,
claro é que distingue, e quem distingue duas coisas conhece-as ambas.
Tenho notado que uma criança de quatro anoso cora nunca,
e que as meninas só principiam a corar depois queo para a mestra.
o se pense que eu venho aqui a menosprezar o pudor. Oh! eu
adoro o pudor!... mas prefiro a inocência.
Duas meninas igualmente bem educadas, igualmente conhece-
doras e respeitadoras da sua dignidade ouvem no palco de um teatro
uma dessas frases ambíguas criadas por gamenho indecente e expos-
tas em farsícula de cordel para regalo de paladares broeiros; a plateia
escancara uma gargalhada estrepitosamente galega; uma das meninas
corou, a outra pôs-se a rir daquela bulha. Pensem os outros a seu
modo, eu opto pela candura da que riu, e deixo que vá jurar quem
quiser a inocência da que está vermelha.
Releva que estejamos precavidos sempre contra estes abusões,
queo copiosos e vulgaríssimos, como brevemente demonstrarei
em um capítulo ad hoc.
A verdade apresenta característicos infalíveis e de todo o ponto
concludentes.
Por exemplo:
A mulher que na ópera compassa o andamento da música com o
bambear da cabeça ou com o rufo dos dedos no parapeito do cama-
rote ou é mestra de música ou pretensiosa.
INÉDITOS E ESPARSOS
A mulher virtuosa que acompanha e convive com mulher leviana
tem por força defeito grave: ou lhe tomou o exemplo, ou se julga
exemplar. Uma coisa encobre a outra, mas qualquer delas é péssima.
Aquela que, ao findar o espectáculo vira as costas a seu marido
e levanta silenciosamente os braços para receber a capa que sabe já
com certeza que ele lhe lançará nos ombros, é mulher de mau génio,
que domina e subjuga o osso do seu osso, e de quem é lícito suspeitar
que o espancou alguma vez. *
As meninas contemplativas que lêem romances, ou se julgam
semelhantes às heroínas deles ou procuram fingir que o são. Daqui
resulta que pelo livro escondido no estojo da costura ou aberto no
toucador, podemos ajuizar como pensa nesse dia a dona do toucador
e do estojo.
Ainda resulta outra coisa, mas essao vem ao ponto, e é que
um livro mau é muito mais perigoso do que geralmente se cuida.
Os bonitos dentes e a boca pequenam a desconveniência de
aconselhar sorrisos demasiadamente frequentes. As senhoras de maus
denteso sempre de uma compostura irrepreensível. As meninas de
boca grande chegam a ser presumidas no seu recato e tenho obser-
vado que afectam quase todas uma melancolia sobremaneira cómica.
Há dois tipos que eu frequentemente encontro. Um é a mulher
que fala muito de si e de todos, e ri descomedidamente de tudo o que
eu lhe digo, incluídas as coisas mais sérias e mais lúgubres; o outro é
aquela que só fala ao ouvido de uma amiga que tem junto de si, eo
entra na conversação comum, senão para enviusar os beiços, figurar
com eles um canudo e gotejar de longe em longe a palavra sim ou a
palavra não, isto é, despender da voz o estrito necessário para com-
prar o silêncio.o os dois extremos a tocarem-se pelo ridículo
que pertence a ambos, é a boca demasiadamente graciosa e a boca
sem graça nenhuma, é o dente alvíssimo e dente negro.
Ninguém me diga que o silêncio aturado e pertinaz inculca dis-
crição. A senhora que nunca tira as luvas tem a pele áspera ou as
unhas mal talhadas; a queo fala nunca, tenho para mim que troca
o b pelo v ou que é tátara.»
J. D. Ramalho Ortigão.
1
Este tipo, assim como alguns outros de que terei de ocupar-me, para bem da
ciência,o existe no Porto. O autor destas linhas estima por muitos títulos as senhoras
portuenses, e respeita e venera sobretudo os seus elevados dotes como esposas virtuo-
síssimas.
A CIÊNCIA A DAR RAZÃO AOS POETAS
Cartas ao redactor do «Jornal do Porto»
!
Meu amigo:
Nestes tempos que correm, asados para toda a espécie de luta,
é de alegrar deveras a notícia de uma reconciliação cordial entre
inimigos velhos. O ditado português, Ódio velho não cansa, que o
Sr. Rebelo da Silva tomou para epígrafe do seu primeiro romance,
sofre felizmente ainda de quando em quando notáveis desmentidos.
A nossa época está presenciando fenómenos bastante singulares.
Enquanto por um lado, eo perto de nós, vemos o espectáculo des-
consolador de um inglório e já fastidioso certame entre os nossos lite-
ratos, contenda desapiedada e nem sempre cortês, de onde as reputa-
ções feitas saem enxovalhadas, as nascentes, feridas talvez de morte
pela dureza do combate, e só incólume quem nada arriscou, por nada
ter que perder; lá por fora, mostram-se-nos insòlitamente amáveis
para com as fantasias dos poetas até os seus antigos adversários os
homens da ciência!
É já um facto reconhecido o da galantaria da ciência contempo-
ea. Esta sisuda dona, a quem dantes as harmonias da lira român-
tica escandalizavam os ouvidos, demasiado escrupulosos, já lhes sorri
e despojada de velharias pedantescas, vai reconhecendo que, sob
aparências frívolas maso obstante ouo sei se por isso mesmo,
1
Publicada em Dezembro de 1879 e acompanhada da seguinte nota da redacção:
«Entre os manuscritos de Júlio Dinis, que vimos há pouco, encontramos as duas
cartas que vamos publicar, escritas em 1864, as quais deveriam ser seguidas de outras,
e se perderam se porventura chegaram a ser escritas.»
INÉDITOS E ESPARSOS
agradáveis, a musa dos poetas e romancistas costuma às vezes dizer
coisas, que valem bem a pena de ser atendidas.
o concorda, meu amigo, que estes factoso uma feliz com-
pensação para aqueles outros, que eu lamentava? Quando lavre no
seio de um povo a guerra civil, ao menos que ande ele em paz com
os seus vizinhos da fronteira.
Se estiver para me ouvir, quero entretê-lo hoje a respeito de
uma destas finezas da ciência à literatura.
Trata-se do coração, assunto ao qual, sem flagrante injustiça, se
o poderá negar o epíteto de palpitante.
Há-de saber, que entre os poetas e fisiologistas reinava de há muito
grande divergência em quanto à maneira de conceber a vida do coração.
Cada estância de poema erótico, na qual era referido àquela
víscera o misterioso e delicadíssimo mundo dos afectos, passava por
uma verdadeira blasfémia científica; cada soneto de Petrarca, ou medi-
tação de Lamartine, cada estrofe de Byron, de Zorrilla ou de Musset,
em que se via escrito o nome deste órgão, único que os poetas cínicos
disputam aos sábios, eram para estes atrevidas heresias, e quando
muito perdoadas, corno uma leviandade sem consequências, por aquela
espécie de tolerância, com que se perdoa um absurdo se é dito pela
boca de uma mulher bonita.
Ora, devemos confessá-lo, algumas dessas formas poéticas, dessas
frases sonoras relativas ao coração, eram deo impertinente arrojo,
de desplanteo provocador que seo podia de todo culpar o fisio-
logista que, mais insofridamente cioso das prerrogativas da ciência,
franzisse o sobrolho a essas veleidades literárias da atrevida coorte
de poetas, romancistas e folhetinistas, pretéritos e contemporâneos;
o se lhe podia estranhar demasiado que ralhasse ao ver, que sem
ao menos terem notícia de Harvey, esses estouvados se punham assim
a falar no coração que, ignorando quais e quantos os tubos arteriais
e venosos que se continuam com este músculo oco, quantas as válvulas
que lhe fecham as cavidades, os planos de fibras que o constituem, se
apregoavam por, urbi et orbi, profundos conhecedores desse órgão
que nunca sequer tinham visto dissecar.
Quem tivesse vagar para se deitar à colheita de várias asserções,
a respeito do coração pelos livros dos prosadores e dos poetas, teria
tarefa para longo tempo e curiosíssima e instrutiva.
Se mo permite, recordar-lhe-ei alguns exemplos colhidos em
livros familiares a todos nós, e que por acaso tenho à mão:
Lamartine fala-nos em uma das suas melhores Meditações de
um coração: lasse de tout, même de 1'espérance. A patologia dei-
xava-o dizer, mas nunca tomou a sério a frase. Se falassem nisso a
Barillaud estou certo que se punha a rir.
Une tristesse vague, une ombre de malheur
Comme un frisson sur l'eau courut sur tout inon coeur
INÉDITOS E ESPARSOS
Dizia ainda o mesmo admirável poeta no seu inspirado livro
o Jocelyn.
o havia, porém, médico que visse nestes dois alexandrinos a
expressão de um facto digno de ser arquivado. Uma sombra de des-
graça sobre o coração; eis aí um fenómeno que sem dúvida o mais
experimentado especialista confessaria ignorar.
Abre-se o Camões, do Almeida Garrett livro do qualo sei
se os contendores da actual questão literária já fizeram também pata-
ratas para se acometerem depara-se logo ao princípio com estes
singularíssimos versos:
Saudade
Misterioso númen que aviventas
Corações que estalaram e gotejam
o já sangue de vida mas delgado
Soro de estanques lágrimas...
Veja o que aí vai! O anatómico intransigível, ao ler isto,o
podia deixar de se afligir. Imaginava sentir as glândulas lacrimais a
estremecerem no canto das órbitas e protestarem contra uma tal usur-
pação de direitos; e ele achava-lhes razão, achava-lhes razão contra
Garrett e contra Lamartine, que é relapso nesta ordem de pecados,
porque no Rafael tinha também escrito:
Dans cette larme qui tombe toule chaude de votre coeur sur ma main
O Sr. Alexandre Herculano, carácter sisudo e o mais severamente
português dos nossos tempos,o era isento de culpa perante o tri-
bunal dos científicos escrupulosos. Em uma passagem da Harpa do
Crente parece tentado a atribuir ao coraçãoo sei que usos vocais
e arvorá-lo em habitação de memória; tentativa que a ciência moderna,
nisto mais intolerante que algumas das suas ascendentes,o podia
acolher sem protestar.
A passagem a que me refiro está nestes dois versos:
Que férreo coração esquece a terra
Que lhe escutou os infantis suspiros.
Pois Vítor Hugo ? Esse génio queo bem e tanto à vontade sabe
manejar a arma perigosa das antíteses e das imagens, tantas vezes
fatal aos menos destros e experientes, e cujos arrojos líricos chegam
a espantar, a intimidar até os mais dispostos a admirá-los, comoo
havia de escandalizar os fiéis respeitadores da frase ao pé da letra!
Nas Contemplações, por exemplo, fala-nos ele de uma rapariga
que, em apaixonado colóquio com o amante, lhe diz entre outras
coisas:
Oh! de mon cceur leve les chastes voiles
Si tu savais comme il est plein d'ètoilest
INÉDITOS E ESPARSOS
Com estes dois versos também os astrónomos tinham que ver.
Ora é verdade que Lamartine, que é tido por mais moderado
do que o autor dos Miseráveis, já também dissera no Rafael:
«Eu sentia que nunca mais haveria noite nem frialdade em meu
coração, porque ele (Júlio) af luziria sempre.»
Diga-me seo tinham alguma desculpa os que protestavam con-
tra tais liberdades?
A anatomia, que há tantos anos anda a estudar o coração pelo
escalpelo e pelo microscópio, e que algum proveito julga haver tirado
já desse estudo, devia encolher os ombros de apiedada, ouvindo o
Sr. Mendes Leal começar assim a primeira das suas Indianas:
Foi-se a têmpera dos peitos
Dos portugueses leões;
Quem sabe de que eram feitos
Seus robustos corações?
Quem sabe de que eram feitos! Se elao veio a campo a elu-
cidar esta dúvida, foi por uma espécie de contemplação delicada, por
uma abstenção, como a do astrónomo cortês, diante de quem uma
senhorae em dúvida a exactidão das suas previsões.
O nosso Camões usou também de iguais liberdades para com o
coração. Recorda-se, por exemplo, daquele:
Tu, só tu, puro amor, com força crua
Que os corações humanos tanto obriga?
Filinto pinta-nos o coração devorado por consumições:
As penas e os cuidados que os humanos
Corações remordiam como abrolhos.
Bocage descrevendo-nos a agonia de Leandro:
e de Hero o nome
Do ansioso coração num ai lhe arranca.
A ciência ainda mal conformada com este ai, saído do coração,
achou-se na presença de Espronceda, que, pelo contrário, lhe falava
de um outro que para lá entrava:
un ay
Que penetra el corazon
INÉDITOS E ESPARSOS
E já que estamos de volta com o lírico espanhol,o posso resis-
tir ao desejo de transcrever por inteiro a sentidíssima quintilha do
Estudiante de Salamanca, como mais outra heresia fisiológica, e das
mais arrojadas:
Hojas dei arbol caídas
Juguetes del viento son
Las illusiones perdidas
Ayl son ojas desprendidas
De! arbol del corazon.
Com certezao era da árvore circulatória que o poeta falou e
por conseguinte delito.
Fazer falar o coração em um aperto amigável de mão. é também
frequente nos poetas.
Garrett, por duas vezes que eu saiba, deixou entrever tentação
de encerrar a alma inteira dentro do coração. Foi na D. Branca
Que a alma nesses países regelados
(Refere-se à Inglaterra).
Toda no coraçãoo vem aos lábios
E noutro lugar:
...quando a alma inteira
Rompe do coração e acode aos lábios.
No mesmo poema ainda,o hesita emr na boca do próprio
Diabo, em uma ocasião em que o maligno espírito sentia o alvoroço
das pulsações cardíacas de um cavaleiro, que fugia com uma beleza
nos braços, as seguintes palavras:
«Tu que bates assim, má tenção levas.»
Autorizar com o nome do Diabo, que dizem ser de peso em coi-
sas destas, uma opinião que de encontro à ciência, atribui ao coração
tenções reservadas é muito sério.
Muitas outras amostras, como estas, se podiam trazer para aquí,
respigando-as pelos poetas de todas as nações e de todas as idades.
Estas, porém, bastam para nos levar a conceder, que provas evi-
dentes de tolerância deu ainda assim a ciência, ouvindo quase resig-
nada estas heterodoxas interpretações do coração eo saindo a campo
a combatê-las.
Diga-me como podia ser agradável a qualquer erudito, rígido
observador do suum cuique, ouvir falar de Balzac, o romancista, que
provavelmente nunca viu um stothoscopo, nem teve notícias do plessi-
INÉDITOS E ESPARSOS
metro do Sr. Piorny, imortal descoberta que, à falta de épicos, o pró-
prio autor celebrou em alexandrinos, e ouvir falar de Balzac, mas
como? Como de um profundo conhecedor do coração humano, repu-
tação adquirida com detrimento de Andral, de Bouillaud, de Laenec,
de Beau e tantos que por longa experiência clínica a mereciam.
Caprichos de opinião pública! Mas o certo é que essas gratui-
tas ideias, assim espalhadas pelos poetas, ganharam raízes profundas,
vulgarizaram-se e ao lado do coração fisiológico, científico, ortodoxo,
órgão motor da circulação sanguínea, de há muito se insinuara outro,
um coração convencional, romântico, poético, sem foro de ciência,
contra o qual do ádito do santuário se fulminaria a excomunhão, se
ele manifestasse tentações de lá entrar.
Seja porém dito em seu abono que nunca as manifestou; proce-
deu, como esses escritores, queridos das multidões e a quem as aca-
demias repelem, deviam todos proceder.
Agora é justo confessar que dos dois corações, o mais popular
e simpático,o era decerto o primeiro, o legal, o académico.
Que dama namorada, quee extremosa, que poeta inspirado,
que guerreiro sob o domínio da paixão de glória, que expatriado
consumido pelas saudades da sua terra, que nauta, suspirando no
meio da sublime mas desconsoladora solidão das vagas, aceitaria sem
repugnância, aquele coração máquina, músculo, órgão impulsor do
sangue e nada mais, que lhe apresentavam os sábios?
Embora lho vitalizassem um pouco ultimamente,o era ainda
nada, para aquele irresistível instinto que lhes pedia mais.
Verdade é que já lhoo apresentavam como uma simples
máquina hidráulica, uma espécie de bomba aspirante e expelente,
concepçãoo grosseiramente materialista que revoltou os próprios
fisiologistas; mas, em todo o caso, melhor enervado e vivificado,
promovido da categoria de máquina à de órgão, do mundo físico e
mecânico ao vital; era ainda o órgão da circulação eo passava daí.
Os poetas deixavam dizer os fisiologistas e continuavam na sua
propaganda e o vulgo aplaudia-os com alma e identificava-se com
aquelas crenças poéticas, sem cuidar do seu carácter hipotético.
Quantas vezes os adeptos da ciência, os discípulos em via de inicia-
ção, punham de lado, na banca do estudo, as páginas de ciência posi-
tiva sobre a vida do coração, para saborearem furtivamente a fisiologia
de contrabando, que em todas as línguas do mundo mortas e vivas os
poetas oferecem às imaginações seduzidas.
Mas o encanto era ainda poderoso; revelava-se por provas ainda
mais evidentes.
Os próprios sacerdotes, os que proclamavam o interdito contra
as falsas doutrinas, os que dentro do templo nunca permitiriam a
entrada a essas metrificadas fisiologias do coraçãoo obstante lá
terem entrado coisas muito menos racionais e em estilo incompara-
velmente pior os próprios sacerdotes digo, fecharam muita vez
INÉDITOS E ESPARSOS
sobre si as portas do santuário e iam-se a praticar amavelmente com
esses livres-pensadores e poetas paradoxais, agradados, sem saber
porque, daqueles mesmos paradoxos, contra os quais seriam inexo-
ráveis quando chamados a juízo no tribunal da ciência,
Muitos foram até os que aprenderam a falar essa mesma lingua-
gem profana, espécie de gíria poética que condenavam como ímpia,
herética e atentatória contra os dogmas da fisiologia.
Haller, por exemplo, a quem principalmente se deve uma das
mais fecundas revoluções que tem sofrido a ciência da vida foi poeta
também. E ainda hoje parece que os seus compatriotas mais o conhe-
cem por essa qualidade, do que por aquela que lhe granjeou, na his-
tória da ciência, um nome imorredouro.
Ora ser poeta, sem falar alguma vez do coração à maneira dos
poetas,o sei bem como possa ser. Desejava agora consultar as pro-
duções literárias deste sábio alemão, a ver se o encontrava, como sus-
peito, em flagrante delito de lesa-fisiologia, justamente naquele artigo,
que, como poucos, ele tinha razão e interesse de respeitar.
Mas, no meio de tudo isto, uma coisao perdoo eu aos homens
de ciência que é oo haverem meditado sobre quais pudessem
ser os fundamentos desta crençao geral que, a seu pesar, domina
até o homem mais versado nas teorias científicas, e no próprio selva-
gem se manifesta, pois que na sua mímica expressão, ao sobre o
lado em que pulsa o coração, traduz a existência de um sentimento de
afecto, de amizade, de amor, de dedicação gesto, que o actor mais
exercitado, pelo estudo, em exprimir vivamente as paixões humanas,
o se esquece de imitar.
II
Dizia eu que quando um facto se apresenta assim com um tal
carácter de generalidade, quando umo completo assentimento aceita
a interpretação unânime a expressão nímia que parece confirmá-lo,
o obstante os protestos da ciência, quando os mais rigorosos nem
sempreo demasiado austeros na observação dos preceitos da moral
cientifica se assim lhes posso chamar que proclamam, à ciência
compete reflectir sobre este facto, e fiel ao seu programa de análise
filosófica, procurar-lhe a razão de ser.
Época houve em que a ciência deu provas de querer congra-
çar-se neste ponto com a poesia, direi até, foi talvez quem deu o
exemplo destas teorias hoje olhadas por cima do ombro pelos sábios
intolerantes, Mas em que tempo foi isto? Quando as ciências naturais
eram poesia também eo haviam adquirido ainda este ar severo e
grave que hoje as caracteriza. Filósofos e poetas eram à porfia quais
deixariam mais à solta correr a imaginação. Foi quando Platão, desen-
INÉDITOS E ESPARSOS
volvendo, o sistema de Pitágoras, colocava no coração a parte da alma
de onde a generosidade, a coragem, a cólera dependiam; e Aristó-
teles supunha que dele nasciam as paixões, que era essa a urna onde
o fogo natural era mantido. Depois disso ainda sob a influência de
Galeno que tinha muito de poeta também — a ciência fazia sair do
coração uns certos espíritos que eram alguma coisa mais subtil e poé-
tico do que o sangue; mas ultimamente, orgulhosa com as últimas
riquezas adquiridas, ensoberbeceu-se e rejeitou com desdém e ate
pouca delicadeza os enfeites que, em épocas de privação,o duvi-
dara aceitar de sua mais leviana, mas, e talvez que por isso mesmo,
mais sedutora rival.
Mas enfim a nossa época é, por mais que façam, uma época de
reconciliação e tolerância. Os homens de ciência e os poetas dão-se
finalmente as mãos e fazem concessões mútuas.
Nunca se viramo amigos e reciprocamente lisonjeiros.
Os poetas celebram em verso teorias que dantes apenas conse-
guiam ser prosaicamente expostas nas páginas pouco elegantes dos
livros eruditos.
Em um interessante opúsculo de Aug. Langel que, sob o título de
Problèmes de la natvre, foi há pouco editado por Balliere na Biblio-
teca de Filosofia Contemporânea, já o autor faz notar esta crescente
popularidade das ciências, como um dos fenómenos mais singulares
da nossa época:
Observa-nos, como o historiador Michelet, que a opinião pública
de França (como a de Portugal)o está ainda resolvida a aceitar como
um velho estonteado e treslido e a romancista George Sand, ambos
na idade em que é lícito repousar no seio da glória adquirida, se dei-
taram à obra e deixando um o domínio da história, outro o da paixão,
entraram no reino sempre virgem da natureza.
«Euo sou daqueles, concluiu o autor citado, que censuram ou
temem estas excursões um pouco aventurosas no terreno da obser-
vação e da experiência.
«A ciência é invulnerável; se pode desprezar os golpes dos seus
inimigos, porque lhes havia de temer os amplexos demasiado apaixo-
nados? Pode ficar nua como a verdade, mas as suas formas nobres
conservam-se ainda visíveis debaixo da ténue púrpura que a imagi-
nação lhe deita aos ombros. Jáo naturalista com Goethe, Byron e
Lamartine, a poesia, ainda mais o ficou nos versos de Vítor Hugo. Deu
uma voz harmoniosa,o só ao Homem, mas a tudo quanto vive, e
aos mares, aos ventos, às estrelas e até à própria Terra.»
Isto em relação aos poetas; em quanto aos homens de ciência
vemo-los a atenderem mais cuidadosamente ao estilo eo despre-
zarem, nem afugentarem as imagens quando estas travessas se lhes
põem a voejar em torno da sua secretária.
Os médicos, sobretudo,m ido longe nesta via de concessões.
Um professor agregado na Universidade de Medicina de Paris,
INÉDITOS E ESPARSOS
os dúvida nenhuma em tomar para epígrafe de um livro de filo-
sofia médica, uma quadra de Gerard de Nerval!
Gerard de Nerval! o tradutor e amigo de Henry Heine, o infeliz
poeta mais uma alma do que um homem, como Heine dizia dele,
cuja morte trágica roubou à França um dos mais prometedores talen-
tos líricos da época? Gerard de Nerval, o suicida da ignóbil rua de
la Vieille lanterne, levado àquele acto de desespero pela pobreza um
pouco, mas por um desses ocultos padecimentos queo um mistério
para as organizações menos delicadas? E forneceu epígrafe, para uma
obra de ciência!
É verdade. Aindao vai longe a época em que os próprios
que mais ornavam a literatura, os menos severos para com as produ-
ções dos engenhos literários, que olhavam como fúteis,o se atre-
veriam a passar além da citação latina. Quando muito teriam escrito:
Mens agitat molem et magno se corpore mistet
em vez da quadra romântica que escolheu Bouchut.
Espere, enfin, mon ame, espere
Du doute brise le reseau,
Non, ce globe n'est pas ton père
Le nid na pas crèe l'oiseau.
Rasga da dúvida as redes!
Espera, ó minh'alma, espera.
Tu da Terrao procedes,
O ninho as aveso gera.
Eu considero o facto desta epígrafe como o maior preito pres-
tado até hoje por homens de ciência à escola romântica actual.
Aos médicos competia dar destes exemplos. Os filhos de Esculá-
pio deviam lembrar-se, como bem diz L. Peine, de que Apolo, pai do
semideus, estabelece o estreito parentesco entre a poesia e a arte
salutar.
Ora o número dos médicos poetas tem sido bastante avultado,
mas é certo queo andavam com franqueza e à vontade nesta
empresa de conciliação.
Quando muito metrificavam ciência, o que é uma tarefa perigosa
de tentar, pois dá muitas vezes em resultado espécimes como este
do Sr. Piorry:
Le diamant gazeux et le pur oxigene,
Se mariant à 1'hydrogène,
Se groupèrent en végetaux;
..L'azote. .elastique fluide
Se mêtamorphosant en matière liquide,
S'y joigni' pour former les corps des animaux.
INÉDITOS E ESPARSOS
o lhe parece que estamos em plena inspiração lírica? Outros
sabiam ser alternadamente poetas e eruditos; duas entidades reuni-
das no mesmo indivíduo mas em completa independência. Nos seus
versos ninguém podia descobrir a sombra do barrete de doutor e ao
escreverem obras de ciência tinham o cuidado de apagar cautelosa-
mente o facho da imaginação.
Hoje a fusão é mais natural e desassombrada.
Por isso era esta mais que nenhuma a época destinada para que
a face poética do coração, até agora deixado na sombra pelos homens
de ciência, se adiantasse para o campo luminoso da observação e da
análise; e a crença unânime da opinião viesse pedir à ciência a sua
razão de ser.
E quem se encarregou de estudar o problema?
Exemplo eloquente de conciliação de que falamos!
Foi Claude Bernard. Se por acaso sabe quem é Claud Bernard
há-de por certo admirar-se.
Claude Bernard é um fisiologista mais que tudo experimental,
um homem costumado a manejar o escalpelo, a empregar os reagen-
tes, a manipular o microscópio; um homem a quem as vivissecçõeso
comovem e que, no Colégio de França, prossegue imperturbável uma
das suas interessantes e proveitosíssimas lições, sem que o afectem os
gritos dos animais que se estorcem mutilados, vítimas de uma demons-
tração fisiológica; sem que hesite em sacrificar nas aras da ciência,
desde a, um pobre e fleumático animal já chamado por alguém o
Job da fisiologia, até ao cão, o fiel companheiro, o amigo dedicado do
homem, até ao inofensivo coelho, e até, isto sobretudo poucas leitoras
lhe perdoariam, até à pomba, o símbolo de inocência, querida das
almas ternas e pelas quais os poetas mitológicos faziam mover o coche
de Cítera.
Pois foi este homem, de quem uma senhora diziao possuir cora-
ção, que há pouco na Sorbona inaugurou uma lição por estas palavras :
«Para o fisiologista o coração é o órgão central da circulação do
sangue. Mas, por um singular privilégio, que com nenhum outro apa-
relho orgânico se, a palavra coração passou, da linguagem do fisio-
logista, para a do poeta, romancista, e homem de sociedade, com acep-
ções muito diversas. O coraçãoo seria somente um motor vital impe-
lindo o líquido sanguíneo a todas as partes do corpo que anima, mas
também a sede e o emblema dos mais nobres sentimentos e dos mais
ternos de nossa alma. O esludo do coração humanoo deveria ser
somente o objecto do anatómico e do fisiologista, mas servir também
de base a todas as concepções do filósofo, a todas as inspirações do
poeta e do artista.
«A fisiologia deverá desvanecer-nos estas ilusões e mostrar-nos
que o papel sentimental atribuído em todos os tempos ao coração,
INÉDITOS E ESPARSOS
o passa de uma acção puramente arbitrária? Numa palavra, teremos
a assinalar uma contradição completa e peremptória entre a ciência e
à arte, entre o sentimento e a razão ? Em quanto a mimo creio na
possibilidade dessa contradição. A verdadeo pode diferir de si
mesmo e a verdade do sábioo poderia contradizer a verdade do
artista. Pelo contrário, eu creio que a ciência que provém de uma
fonte pura, para todos se fará luminosa, e que ciência e arte por
toda a parte se darão as mãos interpretando-se e explicando-se uma
pela outra.
«Euo procurarei negar sistematicamente, em nome da ciência,
o que em nome da arte se tenha dito sobre o coração, considerado
como órgão destinado a exprimir nossos sentimentos e afeições. Pelo
contrário, desejaria demonstrar a arte pela ciência, tentando explicar
por meio da fisiologia o que até ao presenteo passava de uma sim-
ples intuição do espirito. Empresa difícil, também temerária até, por
causa do estado ainda hojeo pouco avançado da ciência dos fenó-
menos vitais.
«Entretanto a beleza da questão e os clarões que a fisiologia, me
parece, já poder lançar sobre ela, tudo me determina e anima.»
E efectivamente, depois da primeira parte da sua prelecção, na
qual, debaixo do ponto de vista anatómico, tratou do coração e da
sua fisiologia oficial, isto é, das suas funções como órgão impulsor do
sangue parte a queo me referirei, por ser para as leitoras a parte
antipática do órgão — o célebre membro do Instituto entrou na questão
pendente, a propósito das relações do coração com o sistema nervoso
e particularmente com o cérebro.
Um dia Davy, depois de uma longa meditação sobre as proprie-
dades e usos do sangue, este mais que todos importantíssimo líquido
orgânico,o pôde deixar de escrever:'
It is a mysterious fluid the blood.
Bem se podia, parodiando o médico;inglês, exclamar também:
É um misterioso órgão o coração.
Basta que é ele o infatigável obreiro'desta complicadíssima ofi-
cina orgânica; o que primeiro se ergue paira o trabalho no ainda mal
distinto crepúsculo da vida embrionária; o último a despegar da tarefa
quando os outros já repousam no sono da morte. O primum vivens
e o ultimum moriens, como bem o chamou Haller que, como médico e
poeta, o conhecia bem, Haller, essa delicada organização germânica,
a quem o grito da dor e a vista do sangue afastou sempre do anfiteatro
para onde aliás o chamava a vasta profundeza dos seus conhecimentos
médicos, e a ardente ansiedade do seu amor de saber.
As primeiras palpitações, comparáveis às primeiras oscilações do
pêndulo regulador da vida, começam.quando ainda o coração mal se
desenha no campo germinal e pelas;suas exíguas dimensões recebe
INÉDITOS E ESPARSOS
ainda o nome de ponto punctum saliens. Na galinha... (não se revol-
tem as leitoras se concluímos do coração da galinha para o coração
humano; debaixo do ponto de vista circulatórioo é que eles se dis-
tinguem) ; na galinha nas primeiras vinte seis ou trinta horas de incuba-
ção manifesta-se o fenómeno.
Depois de definitivamente organizado e desenvolvido o coração
continua no seu lidar incessante, sem precisar dessas interrupções
reparadoras que exigem os outros músculos, após um exercício con-
tinuado.
As pernas do mais maravilhoso andarilho vergam-se no fim de um
excessivo trabalho; o braço do mais aguerrido campeador cai desfa-
lecido depois de brandir por muito tempo o pesado montante a dece-
par cabeças de inimigos; a voz dos mais vigorosos tribunos abando-
na-os depois de uma oração muito prolongada; finalmente a fadiga, a
impossibilidade do exercício produzida pelo exercício, parece a lei
geral do funcionar dos órgãos, o cunho da fraqueza humana impresso
em cada peça da máquina. E só o coraçãoo cansa! só este órgão,
cujo trabalho violento e rápido, cujas contracções vigorosas e suces-
sivas, pareciam mais próprias para o extenuarem e exigirem a influên-
cia benéfica de um repouso vivificador, é o que produz o suplício de
Ixion, começando incessantemente a tarefa terminada; como se a cons-
ciência da sua responsabilidade o impedisse de adormecer; ele é
sempre vigilante, desconhece a inacção proveitosa do sono. O sono
para eleo é somente a imagem da morte, mas a morte verdadeira.
Outro facto singular da vida deste órgão, facto em que Cláudio Ber-
nard crê» piamente, conquanto nem todos os fisiologistas o acompa-
nhemo longe, é a emancipação do coração, permita-se-me esta lin-
guagem, da tutela administrativa do sistema nervoso. Como potência
que é, o coração trata de igual para igual com o cérebro, essa
outra potência que impõe leis a todos os órgãos. Contrai com ele
relações muito íntimas, mas sem fazer cessão completa de sua espon-
taneidade.
O movimento nos outros músculos tem sempre por facto anterior
o da excitação dos cordões nervosos que os prendem aos grandes
centros inervadores.
Ora estes nervos e centros nervosos excitam-se por meios diver-
sos acções mecânicas, agentes químicos, estímulos eléctricos, tudo
pode dar o efeito final, o encurtamento, a contracção do músculo onde
o nervo se ramifica e por ela o movimento desta ou daquela parte
do corpo. E independente destes estímulos artificiais, os mesmos efei
tos se produzem quando só à evocação da vontade, parte do cérebro
a corrente misteriosa pelo mesmo caminho dos nervos, para diversos
pontos da massa muscular.
Pois o coração, diz Cláudio Bernard, reproduzindo neste ponto
uma já antiga teoria de Haller, o coração é independente do cérebro
e nisto se extrema dos órgãos seus congéneres.
INÉDITOS E ESPARSOS
Arrancado do peito de um animal bate ainda sobre a mesa da
dissecção e por tempo considerável. Este facto, porém, já há muito
sabido, presta-se a outras explicações eo resolve imediatamente a
questão no sentido favorável à opinião halleriana.
Mas, diz Bernard, ses pusermos a nu os nervos que se dis-
tribuem no coração, nervos que se chamam pneumogástricos...
o queiram mal à ciência por inventar este nome na verdade pouco
eufónico; ainda ela aqui teve algumas contemplações para com as exi-
gências da harmonia, que se fosse obedecer ao pensamento de que
se inspirou ao formá-lo, teria de lhe multiplicar muito mais as síla-
bas ; mas, dizia eu, se descobrirmos os pneumogástricos e aplicarmos
sobre eles os estímulos ordinários, em vez da exacerbação de con-
tracção cardíaca que seria de esperar, o que se observa? a suspensão
súbita das suas pulsações; as quais só continuam depois de cessar o
estímulo, se a impressão recebidao foio forte ouo continuada
que trouxesse consigo a suspensão definitiva e com ela a morte.
Este facto mostra no coração uma certa disposição para contra-
riar as ordens nervosas, efectivamente singular. Bem merecia um nome
feminino uma víscera assim!
Se repetirmos a experiência, observaremos o mesmo resultado,
somente cada vez menos pronunciado. Sucede com todos os músculos
que a repetição de uma impressão estimuladora embota a faculdade
de a ressentir.
Com o coração sucede o mesmo; somente como ele revela a
influência recebidao pela acção, mas pela supressão dela, a indife-
rença adquirida evidencia-se aqui pela continuação das pulsações sob
a influência dos estímulos.
Os queo querem admitir em todo o seu valor a lei de inde-
pendência que Bernard admite em relação ao coração, recordam a
existência de uma outra espécie de nervo neste órgão, nervo que
desta vez tem um nome a fazê-lo benquisto dos mais exigentes;
chama-se o grande simpático. Mas sigamos Bernard, que foi esse o
nosso intento.
Nestes estudos sobre o coração em geral e o humano em parti-
cular, os homens da ciência moderna tiveram um valiosíssimo cola-
borador. Graças a ele muitos destes pontos da fisiologia do coração
adquiriram um grau de exactidão até agora nunca obtido. Imagine de
que colaborador eu falo ? Do mais competente neste assunto; do pró-
prio coração.
É facto; o coração auxiliou com as suas memórias, escritas por
ele mesmo, o trabalho dos fisiologistas.
As memórias do coração! O coração autobiógrafo!
Sim, senhor. Aquele misterioso órgão, aquela discreta e reser-
vada individualidade, que todos julgavam incapaz de trair um segredo
e tantos se lhe confiavam! cedeu à tentação da época deu em
escritor! Ele próprio, em pessoa, se encarregou de traçar sobre
INÉDITOS E ESPARSOS
um papel com o estilete antigo as suas impressões... vitais. E fê-lo e
tem-no feito na presença de um curso; diante do auditório de Bernard
e de outros fisiologistas experimentadores, que andam agora a ensinar
a escrever a todas as vísceras e órgãos da economia.
O Dr. Marey, laureado pela Academia, afeiçoou a pena e o papel;
pô-la ao alcance do órgão e eleo hesitou; palpitando ora regular
e pausado, ora tumultuoso e rápido, fez as suas confissões, revelou
os seus mistérios.
Graças ao cardiógrafo é o nome do instrumento pode-se já
dizer sem metáfora que se lê no coração humano.
Pressinto o susto que estarão experimentando as leitoras ao ouvi-
rem esta revelação. Ai, que se o coração lhes fala! Se lhe der para
publicar também as suas memórias! O que aío iria, santo Deus!
Ó reservas de tantos tempos, que singulares explicaçõeso recebe-
ríeis ! Como a todos nos surpreenderia o conceito dessas continuadas
charadas, que nós, pobres inteligências, tanto às cegas andamos a
decifrar, sílaba a sílaba—-procurando interpretar um sorriso, um olhar,
uma lágrima, um rubor, um movimento de leque, um movimento de
cortinas, e que tantas desilusões nos preparam!
Já imagino estas interessantes déspotas meditando um sistema
repressivo contra a mania da publicidade que temem; procurando
organizar a censura para vigiar pelas indiscrições do seu coração.
Assusta-as esta liberdade e verdadeiros diplomatas, só querem
deixar falar os lábios, e quando muito os olhos, os quais uma longa
educação já conseguiu há muito diplomatizar, se me permitem esta
expressão.
Mas sosseguem, minhas senhoras, aindao chegou para esse
império despótico que V. Ex.
1
" exercem contra as franquias e liber-
dades dos seus órgãos um novo 93. O coração de V. Ex.
a
» é ainda
demasiadamente feminino, para dizer assim toda a verdade. Mais
concentrado que o dos homens, tem já causado o desespero dos
fisiologistas. Querem ouvir Cláudio Bernard?
Depois de nos descrever o cardiógrafo, esse, para V. Ex.»' anti-
pático instrumento do delito da publicidade dos mistérios do coração,
ele conclui:
«Este instrumento é tanto mais delicado e mais fiel quanto mais
próximo do coração se pode aplicar e menos separado dele fica pelas
paredes do peito. É fácil, pois, de conceber, sem que eu o explique,
por que é mais fácil ler no coração das crianças do que no dos adultos,
e também por que é naturalmente mais difícil ler no coração das
mulheres do que no dos homens.»
A independência que, segundo Bernard, admitimos para o cora-
çãoo se deve entender, repetimos, como absoluta carência de rela-
ções entre ele o o cérebro, este suserano da confederação orgânica.
Nisto se extrema a teoria moderna de outras anteriores, que à
primeira vista parecem manter com ela estreito parentesco,
INÉDITOS E ESPARSOS
Assim, já vimos que as excitações dos nervoso ressentidas,
a seu modo, pelo coração; elas modificam, suspendendo-o, o exer-
cício do próprio órgão. Mas a espontaneidade deste exercício é que
caracteriza a independência.
Nas condições normais, de integridade e normalidade do orga-
nismo, as coisas passam-se de uma maneira análoga à que a experi-
mentação revelou.
Um facto novo entra no fenómeno a sensibilidade.
vol.. II 23
CARTA AO REDACTOR DO «JORNAL DO PORTO»
ACERCA DE VÁRIAS COISAS
Publicada com o pseudónimo de Diana de Ave-
leda, naquele jornal, em 28 de Maio de 1864.
Meu caro redactor:
Permita-me que aproveite hoje meia hora de ociosidade a con-
versar consigo. As outras, mulheres, assiste-nos o inauferível direito
de fazer, de quando em quando, destas exigências e os senhores devem
ser-nos reconhecidos por assim usarmos dele, pois é um dos poucos
ensejos, que se lhes oferecem na prática da vida, de se mostrarem
amáveis coisa da qual os homens sérios e preocupadoso imperti-
nentemente se descuidam.
o espere de mim, estimável redactor, que, sujeitando-me às
praxes geralmente seguidas, principie esta carta por apresentar o
programa que desenvolverei no decurso dela, pondo em relevo a
ideia principal, o pensamento subordinante e, numa palavra, obser-
vando escrupulosamente os ditames de uma lógica inflexível.
Sei que seria mais metódica se o fizesse e contudoo o farei.
Por quem é, deixe-me ser mulher à vontade!
o sabe que odeio a lógica?
Era nome com que antipatizava havia muito, este nome de lógica,
como, regra geral, antipatizo com quase todos os esdrúxulos; mas,
principalmente depois que soube o que a coisa era, subiu a minha
antipatia a um ponto elevadíssimo.
Disseram-me um dia que assim se chamava a arte de cogitar ou
de raciocinar.
Que pretensiosa arte!
Folguei depois muito em saber que um tal Dalembert, o qual,
Deus lhe perdoe, julgo que também foi filósofo, dizia que esta arte só
aproveitava aos que podiam passar sem ela.
INÉDITOS E ESPARSOS
Sabe de alguma outra, da qual se possa dizer o mesmo?
Só se for a dos cabeleireiros, a qual aproveita principalmente
aos calvos, que pareciam ter motivos para, melhor que ninguém, pres-
cindirem dos seus serviços.
Portantoo me exija grandes exibições de lógica, nem me cen-
sure por falta de método.
Programa para quê?
Há lá nada mais desacreditado?
Desde os programas dos ministérios até aos dos pedicuros,
aindao apareceu um que fosse cumprido, por mais compridos
que sejam todos,
o me leve a mal o calembur, que prometoo abusar da
indulgência com que mo desculpar.
o farei programa. Está decidido. Vou escrever sem saber
ainda de que tratarei. É a mais agradável maneira de conversar que
eu conheço.
Semelha-se a bordejar sem destino no rio por uma tarde de Pri-
mavera. Primavera? Como me veio esta ideia? Bonita maneira de
gozar a Primavera através das persianas do meu quarto! A primavera
das cidades! Que insípida paródia à primavera dos campos !
Faz-me lembrar estas paisagens de teatro, onde a luz dos
substitui a aurora e as árvores de lona, na sua imobilidade, exigem do
espectador a força de concepção necessária para as supor rumo-
rejando :
Ai o campo! o campo!
Há um ano fui eu lá passar alguns meses. Aconselharam-mo os
facultativos, a pretexto de combater as tendências de uma diátese
hereditária; — o termo é deles. Ora eu, confesso-o, tenho a fragili-
dade de os respeitar, temer e servir.
Era também em plena Primavera! O campo estava esplendida-
mente verde, ou magnificamente azul.
Que madrugadas! Que crepúsculos! Como eu me sentia bem no
meio de tantas maravilhas! Como se me inoculava a vida da natureza
inteira! Aqueles ares embalsamados, infiltrando-se por entre a espes-
sura dos arvoredos; aquela relva, humedecida como orvalho matutino,
aqueles arbustos que, quando eu passava, me faziam a delicada sur-
presa de me cobrirem de pétalas esfolhadas, como se eu fosse uma
prima-dona em noite de seu beneficio; aquele inimitável concerto de
pássaros, insectos, brisas, ribeiros, açudes e campanários; aquela tur-
bamulta de borboletas e abelhas com suas valsas extravagantes por
sobre moitas enfloradas; aquelas criancinhas loiras e meias nuas que
me surgiam de toda a parte, como espontâneas produções do campo,
a rirem por entre os silvados em que colhiam amoras, do meio das
searas onde pareciam flutuar em um oceano de verdura, a esprei-
tarem-me da copa frondosa dos carvalhos e castanheiros, como estas
cabeças de querubins que marchetam o pedestal de nuvens de Nossa
INÉDITOS E ESPARSOS
Senhora da Conceição; a saudarem-me, batendo as palmas quando
me viam passar pela margem dos pequenos rios, onde se banhavam
nuas, tudo isto, meu caro redactor, me deliciava; tudo isto operou em
mim uma metamorfose completa. Hábitos, gostos, pensamentos, tudo
senti eu que se me ia pouco a pouco modificando...o sei se para
bem se para mal.
Era outra, muito outra do que fora. Desconhecia-me'
o encontrava prazer em tantas coisas que apreciava na cidade
e descobria, em outras, belezas que até então ignorava!
o me viessem falar, por exemplo, em monumentos de arqui-
tectura ou modelos de estatuária. Arteso estas que nasceram nas
cidades, que para as cidades vivem, sérias e graves de mais para se
darem naqueles ares campestres, onde tudo é ligeiro, folgazão e jovial.
Produziriam lá o mesmo desgraçado efeito, que uma daquelas
elegantes dos arredores, que eu via a cada passo, exibindo por mon-
tes e vales o seu vestido de moire e xale de tonquin, ridículas futi-
lidades, no meio das futilidades sublimes da natureza: flores, perfumes
e harmonias.
O que sobretudo me agradava então era o desenho ligeiro, esbo-
çado apenas, ao correr do crayon; o ornato fantasiado e caprichoso,
como os arrendilhados irregulares que descrevem na relva as sombras
da folhagem; as aguarelas em que o pincel copiara a traços rápidos as
paisagens mais campestres; agradava-me a simples obra de talha que
adornava as colunatas dos altares na igreja paroquial, e a cruz rústica
a marcar no cemitério o lugar onde a genuflexão e a prece de um
amigo pode ser mais grata à memória do morto.
Pois em música? Pode acreditar queo trocaria então por uma
composição de Bellini, cantada pelo melhor tenor do mundo, as can-
tilenas singelíssimas que as raparigas entoavam por lá em coro ao
voltarem às trindades do trabalho ou nos serões nocturnos? Mais
ainda, e agora hesito deveras ao fazer a confissão, achava até...
desculpem-me os legisladores municipais, achava no chiar dos carros
ao longe uma harmonia inexprimível. Às vezes chegava a impres-
sionar-me mais... ó génio da arte, perdoa-me, que me parece vou
ser herética!... do que me lembro ter-me impressionado a rabeca
de Sivori, quando me entusiasmou no Porto.
De igual influência se ressentiam as minhas predilecções literárias.
Quer saber?o me foi possível apreciar a leitura de Notre-
-Dame, por exemplo: o Chatterton do A. de Vigny, também oo
compreendia; Ponsard, achava-o de gelo; o monge de Cistero me
satisfez como dantes; Byron parecia-me falso; Balzac raras vezes cor-
respondia aos meus desejos. Falava-seo pouco de árvores e cam-
pinas em quase todos aqueles livros; tantas vezes me apareciam
edifícios, praças e salões em vez de choupanas, florestas e lares, que
euo me dava bem com eles. Achava-os deslocados. Que querem?
Pus-me então a reflectir.
INÉDITOS E ESPARSOS
Isto que era em mim apenas uma feição passageira do gosto,
feição acidental, como o novo sistema de vida que levava, para quantos
o seria permanente? Quantos, desejando ler, teriam procurado
sempre em vão, como eu somente procurava agora, um livro que
pudessem compreender, ao alcance da sua inteligência, à altura do
seu sentimento, queo saísse da esfera dos seus hábitos ?
Quantos poderiam repetir aquela sublime exclamação de Reine
Garde, a simpática costureira para quem Lamartine escreveu o seu
romance Genoveva: Quem nos dará a esmola de um livro?! Que
expressiva frase! Sempre que a recordo me sinto comovida até às
lágrimas. Quem me dera poder satisfazer aquela sede de espírito!
Aflige-me então a minha incapacidade, como quando, em criança, um
velho mendigo se chegava a mim pedindo-me esmola, que euo
tinha para lhe dar.
Ora se o povo francês, pela boca de Reine Garde ou pela boca
de Lamartine pedia assim a esmola de um livro, que fará o nosso
povo, coitado, para o qual escasseiam muito mais ainda os alimentos
intelectuais.
Como os nossos escritores se lembram pouco dele!
Bem o sentia eu quando esgotava a pequena biblioteca que da
cidade levara comigo, escolhida segundo as minhas predilecções ante-
riores, e desesperava de encontrar um livro que me servisse.
Apareceu um finalmente, um livro, cujo autor abençoarei com
todas as veras do meu coração. Infeliz! Morreu.
A meu ver desapareceu com ele um dos mais prometedores
talentos de romancista popular, quem surgido entre nós. O autor
era Rodrigo Paganino, o livro Os Contos do Tio Joaquim.
A Imprensa havia recomendado pouco este livro.
Tem desses descuidos a Imprensa. Lio-o por isso sem a menor
prevenção favorável. Mas era justamente um livro assim que Reine
Garde pedia; é deste género de literatura que o povo precisa; é por
esta forma que se resolve a importante questão das subsistências inte-
lectuais,o menos valiosa do que a que ocupa as atenções dos eco-
nomistas.
Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusíadas e o
poema do Sr. Tomás Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois
seria preferível como livro para leitura nas aulas de instrução primária.
Todos se lembram dessas renhidas controvérsias. Eu por mim
nunca pude tomá-las a sério naquele ponto. Achei sempre muita graça
ao empenho em que via metidos os críticos. Quem se podia conven-
cer seriamente de que qualquer daqueles excelentes livros fosse pró-
prio para as inteligências infantis dos pequenos leitores?
Um com o seu sabor clássico e épico e suas comparações mitoló-
gicas, o outro com o seu pronunciadíssimo carácter de lirismo e suas
imagens românticas e arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas
apreensões aos mestres, por um ou outro episódio, que, baldados os
INÉDITOS E ESPARSOS
esforços dos críticos, ninguém poderá considerar como demasiado
edificantes.
Ora quando eu li o livro de Faganino pareceu-me encontrar nele
justamente tudo o que debalde os críticos procuravam nos outros.
Aquele, sim, era um livro verdadeiramente escrito para o povo e para
as crianças! livro em que a atenção se prende pela verdade, em que
o gosto se educa pelo estilo, em que o sentimento se cultiva por uma
moral sem liga, porque é a moral do decálogo e do evangelho: livro
escrito segundo o programa estabelecido por Lamartine naquele belo
prefácio da Genoveva e talvez mais fielmente observado ainda por o
nosso romancista do que por o próprio legislador.
Lembro-me bem que o li a um rancho de raparigas do campo e
pude observar como elas o compreendiam sem custo.o havia uma
palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que lhes causasse
estranheza, as imagens faziam-nas sorrir pela exactidão, como sorri-
mos ao ver o retrato fiel de uma pessoa conhecida;o eram carac-
teres extravagantes, paixões excepcionais, situações inesperadas e
únicas o que assim lhes absorvia a atenção; pelo contrário, era por
aquelas personagens pensarem, sentirem e viverem como elas, que
tanto lhes interessava o livro.
Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam: aquele
volume, escrito para se ler no campo, como eu o li, junto à fogueira
que crepita no lar, sobre a ponte rústica que atravessa o ribeiro ou
no degrau da ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a
aldeia toda, passou quase desapercebido no mundo das letras.o
suscitou esse murmúrio literário, que acompanha certas obras felizes,
murmúrio em que se reúne o louvor à maledicência, a hipérbole lau-
datória à calúnia escandalosa, os guindados elogios às censuras exa-
geradas. Foi um livro anunciado apenas, lido por poucos, comprado
por menos, livro cujo autoro tem o seu retrato gravado na Revista
Contemporânea e que portanto quem quer tem o direito de desco-
nhecer. E, apesar de tudo isso, aquele livro, como disseo sei quem
a respeito deo sei que obra, era alguma coisa mais do que um bom
livro, era uma boa acção!
Aceitem-se-me estas palavraso a título de critica literária
Deus me defenda de pretensões a esse género mas como um
tributo rendido à memória de um escritor infeliz, a quem sou deve-
dora de algumas horas de incomparável prazer, que a sua leitura me
proporcionou.
*
Já que estou em maré de comunicar-lhe as minhas impressões
daquela época, permita-me que lhe refira uma outra observação, que
então principiei a fazer e que desse tempo para cá tenho tido o des-
gosto de ver confirmada muita vez.
INÉDITOS E ESPARSOS
Depois da leitura dos romances, havia eu passado para a leitura
das poesias, e pela primeira vez notei, dolorosa descoberta! que uma
terrível doença lavrava em grande número dos jovens poetas, de cujas
produções me havia rodeado.
Quando menos o esperava, saiam-me filósofos! Filósofos a faze-
rem versos!
Cada poesia era a exposição de uma teoria de metafísica ultra-
germânica, uma argumentação de sofista, e até, quando Deus queria,
o desenvolvimento de qualquer princípio de ciência politica; e nós,
as mulheres, que nos afizéramos a contar com os poetas do nosso
lado, a acharmo-nos abandonadas por eles!
É uma das faces mais peculiares do nosso tempo.
Singularíssima face!
Os homens de ciência amenizam-se; perdem a clássica e quase
selvagem esquivança que os caracterizava; as teorias outrora inaces-
síveis, procuram revesti-las hoje de formas elegantes que deleitam,
que atraem, que seduzem; e os poetas, pelo contrário, fazem-se biso-
nhos, científicos, dissertam, discutem, demonstram, concluem em verso
e ninguém os entende.
Quantas vezes eu, mulher, eu, que aborreço as torturas da inte-
ligência, me ponho a ler o Michelet, o Babinet, o sr. visconde de Vila
Maior, o Sr. Lapa e outros cultores da ciência inteligível e amável, de
preferência a muitos dos nossos poetas, que meo muito mais que
entender j Como eu tinha vontade de dizer-lhes:
«Não vos desenganareis, meus caros poetas, que trilhais um cami-
nho errado? Se renegais as nossas bandeiras, se desertais das nossas
coortes, correis à vossa perdição.
«Gloriosa ala dos namorados,o vedes que as vitórias alcan-
çadas, as deveis principalmente a essa antiga e simpática divisa do
vosso estandarte?
«Olhai: crede-me, os filósofos nunca, por mais que teimeis, acei-
tarão as vossas teorias metrificadas; os governos, tambémo espe-
reis que tomem a sério os vossos sistemas de organização social. Só
s é que vos sabemos ter na importância que mereceis e contudo
assim vos descuidais de escrever para nós?
«É uma ingratidão indesculpável e da qual tereis ainda de dar
estreitas contas um dia.»
Pois o amor, pois a natureza, pois a Pátria, pois a liberdade, pois
Deus, jáo serão fontes perenes da mais verdadeira inspiração?
Estarão esgotados esses inesgotáveis assuntos? Porque os pon-
des de parte? ou, quando os tratais, porque os transformais em tema
de dissertações, em vez de motivos para cantos? Discutis o amor, dis-
cutis a liberdade, discutis Deus, maso os cantais.
Quase nunca os cantais. Já vos envergonhais de ser simples-
mente poetas!
Mas, reparai:
INÉDITOS E ESPARSOS
Quando foi que Soares de Passos, esse grande talento lírico, que
s todos admirais, se elevou mais alto nos voos da sua poderosa ima-
ginação de poeta?
o foi, quando, erguendo os olhos ao Céu, se sentiu inspirado
pelo magnificente espectáculo do firmamento, e nas páginas abertas
desse «livro do infinito» leu uma hossana ao Criador?
o foi, quando volvendo as vistas para o passado as fixou no
maior e mais sublime vulto da nossa história pátria, em Camões, e,
sondando o «estreito espaço» daquele seio heróico, lhe compreendeu,
com instintos de poeta, a «imensidade do tormento» que lá ia?
É um poeta a revelar-nos os mistérios do coração de outro
poeta, emo soleníssimo instante.
Escutai-o, que vos será utilíssima a lição.
Que viu ele a combater-se naquela grande alma «como o vento
nas ondas do oceano»? Que imagens a povoavam?
O amor da Pátria, a ingratidão doa homens
Natércia, a glória, as ilusões passadas
E a Pátria
Exalando moribunda
Seu último gemido.
s provavelmenteo teríeis resistido à tentação de nos pintar
Camões lutando também com alguns desses insolúveis problemas de
esfinge, como o «ío be or not to be» de Hamlet.
Ora confessai:o é verdade queo teríeis resistido ?
Mas o Camões de Soares de Passoso morre como o seu
Sócrates.
O sentimento predomina naquele, e o sentimentoo discute.
O primeiro era um poeta, o segundo era um filósofo.
Ao filósofo competia morrer rodeado dos seus discípulos; a
morte era a última lição que lhes dava; ao poeta competia morrer
pronunciando aquele
«Pátria querida, morreremos juntos»!
Assim o compreendeu Soares de Passos e assim o tinha já com-
preendido Garrett ao terminar também o seu poema com a sentida
exclamação do grande épico:
...,,Pátria, ao menos,
juntos morreremos.
Para Camões, Natércia e Portugal! Amor e Pátria para todos os
poetas! E que alma inspirada de poesia deixaria de ter um cântico a
sagrar-lhes ?
INÉDITOS E ESPARSOS
o queirais que seja a vossa; é impossível que elao proteste
contra a tirania dos vossos caprichos. Quereis saber agora como a
natureza também inspirou Soares de Passos? Vede-o no Buçaco, sen-
tindo-se estremecer ao escutar o solene rumorejar dos cedros; vede-o,
quando, servindo-me de suas próprias palavras:
Mais longe deste mundo
Mais próximo dos Céus
Ali, meditabundo
Se erguia aoss de Deus.
Reparai também como ele lhe consagrava um cântico, quando a
viu despir melancólica no Outono as suas galas festivas e misturar já
com as primeiras lágrimas de orvalho os seus últimos sorrisos; como
ela o inspirava na Primavera, ao cingir alvoroçada as suas vestes de
verdura e adornando-se de flores. O passado brilhante e o incerto
porvir da pátria; a fé na redenção, a liberdade, o amor nas suas mais
puras e delicadas sensações, a solene comoção do momento da par-
tida, a saudade... eis as principais notas daqueles seus cantos harmo-
niosos, notas que em todos os peitos, patentes à poesia, despertarão
sempre um eco, que todas as almas repercutirão.
No volume de Soares de Passoso há uma só poesia que
nós, as mulheres,o compreendamos: nos vossos, auspiciosos
talentos literários que surgis agora, quantas se contarão, se continuais
assim ?
É um pedido de mulher,o é um conselho de crítico, o que eu
registo aqui.
Por amor de Deus,o nos abandoneis, poetas! Olhai que somos
s as vossas mais fiéis aliadas,s as que temos sempre protestado
contra o ostracismo a que muitos homens sisudos vosm votado
por vezes.
Vítor Hugo, entre as suas poesias transcendentes e metafísicas,
tem composições para nós. Nos volumes das Contemplações, porven-
tura os mais filosóficos de todos os seus, há pequenas poesias ques
talvez julgásseis indignas da vossa empertigada seriedade. Ficam-vos
o mal esses ares catedráticos, meus queridos poetas !o que se
soubésseis como vos ficam mall
Disseram-me que era a escola de Vítor Hugo, a que seguis.
Que Deus perdoe ao ilustre poeta, se ele concorreu para vos
r assim. Mas eu julgo-o inocente.
Que culpa teria Leotard, por exemplo, se algum imprudente,
querendo imitá-lo nos seus voos de trapézio, quebrasse as pernas às
primeiras tentativas?
Dos imitadores de Píndaro, dizia Horácio, segundo eu vejo numa
tradução de Garrettoo agora julgar que eu sei latim «que
INÉDITOS E ESPARSOS
se fiavam em asas que tinham pegado com cera e que, novos ícaros,
viriam a ter a sorte deste».
Se se chegasse um dia a dizer o mesmo de vós?
Perdoai-me este mau humor impertinente; mas se a poesia lírica
era a minha leitura favorita es ma preparais de maneira que eu
tenho de renunciar a ela!
Respeitai a pronunciada individualidade poética de Vítor Hugo
e desenvolvei a vossa, que é melhor.o vedes que estais fazendo
torturas ao vosso talento, o qual tem faculdades de sobra para ser
original ?
Tudo isto que eu pensava o ano passado, penso ainda agora,
porque vejo aumentar de intensidade a febre filosófica de alguns dos
nossos poetas.
As justas e torneios da Idade-Média acabaram.s resignamo-
-nos. Os gabinetes diplomáticos usurparam-nos o direito de decidir
das contendas.
A humanidade pouco lucrou com a mudança de júri. Nós, se
pudéssemos,o teríamos deixado esmagar a Polónia e tomaríamos
decerto o partido do fraco nessa desigual e antipática luta travada
na Dinamarca; ou, pelo menos, faríamos observar as leis da cava-
laria, queo esquecidas andam nestes tempos. Mas enfim resigne-
mo-nos.
Restavam-nos os certames literários, competia-nos naturalmente
cingir os lauréis à fronte do vencedor, pagar-lhes os brios do com-
bate com um gesto, com uma flor, com um sorriso; mas se eles jáo
combatem por nós? se abjuraram o nosso culto? se nos falam uma lin-
guagem queso compreendemos ?! se nos querem iniciar nos
dogmas da sua filosofia abstrusa, nebulosa, ininteligível ?!
Assistiremos impassíveis a mais esta nova usurpação? Eu não,
por certo, e peço-lhe licença, meu caro redactor, já que as minhas
ideias tomaram tal direcção, para dedicar o resto desta carta às lei-
toras do seu jornal.
Sim, quero promover uma cruzada feminina, cujos destinos deve-
o ser brilhantíssimos.
De nós, des todas, minhas amáveis leitoras, é que deve partir
a desejada e salutar reacção. Olhai que nos querem privar da poesia
que se canta, dando-nos a poesia que se estuda. Vede que os poetas
nos fogem, justamente na ocasião em que os homens da ciência se
estavam fazendo galanteadores e amáveis, pensai no que disto pode
resultar e empenhai toda a força dos vossos atractivos para conjurar
esse mal.
O queo poderá conseguir um olhar, um sorriso, um pedido,
uma simples insinuação, um arrufo, uma lágrima... sim, até uma lágrima
das vossas?
Por amor de Deus, chorai, chorai se tanto preciso for, mas sal-
vai-me a poesia da doença que a corrói, transformai-me estes poetas,
INÉDITOS E ESPARSOS
de reformadores em amantes, e tereis conseguido tudo, tereis operado
uma das mais salutares revoluções que sem visto no mundo.
E permita-me que com esta peroração fique hoje por aqui, amigo
redactor, confessando-me
Maio de 1864.
Sua toda dedicada
Diana de Aveleda.
IMPRESSÕES DO CAMPO
A CECÍLIA
Transcrita do «Jornal do Porto», de 1 de
Agosto de 1864.
!
...Levantava-me então pela manhã cedo e ia passear.
No campo farias o mesmo, acredita. Perderias também esses
enraizados hábitos de vida da cidade, queo escrupulosamente res-
peitas em ti. Se éo fácil sair no campo!o imaginas!
Passa-se,o naturalmente,o sem se sentir, da sala para a rua,
que nem a tua indolência se intimidaria com a ideia, como sucede ai.
Era levantar-se a gente da mesa de costura,r o primeiro cha-
u que encontrasse à mão, e, sem consultar o espelho, ir por esses
campos fora, comendo cerejas, como uma criança e sem a afectada
compostura a que somos obrigadas aqui.
O meu passeio favorito era por uma extensa avenida de casta-
nheiros que havia .nas imediações. Que majestade a daquelas árvores!
Quantas vezes me lembrei das árvores anãs do teu jardim, disso
a que tu chamas pomposamente a tua floresta.
A tua floresta, Cecília! Floresta de tangerinas e lilases!
Valha-te Deus, minha pretensiosa! Se as devesas e soutos, que
vi por, soubessem do insulto!
Quase sempre saía, levando apenas um livro comigo.
Esta faculdade de sair! Atreves-te a marcar-lhe o preço ?
,, repara bem! Só por meio dos campos, só à sombra dos
bosques, só pelas margens arrelvadas dos ribeiros! Que vida! Que
INÉDITOS E ESPARSOS
desafogo! Que liberdade de respirar e, o que é mais ainda, de
cismar!
Às vezes sentava-me para ler no primeiro lugar pitoresco que
encontrava; um tronco de árvore derrubada, uma pedra musgosa,
um cômoro virente, tudo me oferecia uma convidativa estação.
Passados momentos, era sabido, achava-me rodeada de crian-
cinhas, rotas e quase nuas, que me contemplavam admiradas.
Pegava na mais pequena ao colo e beijava-a. As outras riam e
olhavam-se, como espantadas de me verem fazer aquilo.
Distribuía por cada uma delas uma pequena moeda de cobre e
aí se dispersava, saltando, aquela turba infantil, como um bando de
pássaros que se levantam de uma seara, inquietos pela voz do lavra-
dor.o cabiam em si de contentes, as pobrezinhas, com a inesperada
fortuna e corriam apressadas a comunicar a nova ãs mães, que as aca-
riciavam.
Pobres crianças! Contava muitos amigos neste pequenino povo,
o fazes ideia. Tinha entre eles uma popularidade! Basta que te diga
que já me saudavam pelo nome quando me viam passar e todas as
manhãs me vinham trazer raminhos de malmequeres, margaridas e
violetas silvestres, ufanas com o presente e orgulhosas pelo prazer
com que eu o recebia.
Prazer sincero, podes acreditá-lo. Olha que nunca apreciei tanto as
mais bonitas camélias do teu jardim, desculpa-me a confissão, como estas
floritas selvagens e sem perfumes que tinha então sempre no quarto.
Outro espectáculo que me atraía sempre a atenção, era o das
lavadeiras. Que alegria aquela! Ai, Cecília, Cecília, como é ridículo o
nosso sentimentalismo e vaporosa melancolia das cidades! Pois que
quer dizer isto, queo existia enquanto os romancistas e poetas oo
inventaram, mas de que logo a humanidade se apropriou, como faz
sempre a tudo quanto é afectado e piegas, como se apropria dos enfei-
tes com que a imaginação estragada de qualquer modista parisiense
se lembra de adornar as cabeças de suas freguesas ?
Que quer dizer isto, que passa por uma coisa muito natural e a
que eufònicamente se chama: devaneios, tristezas vagas, aspirações
ignotas, anseio sem motivo, lágrimas inexplicáveis eo sei que mais,
queo está, queo pode estar na natureza humana, a qual é espon-
taneamente alegre e expansiva e só disposta a ser afectada por infor-
túnios reais eo por males, como esses, fictícios e fantásticos?
É falso. Tudo isso é falso e forçado como um pé de chinesa.
Reconheci-o então e cheguei a envergonhar-me de ter, eu tam-
bém, por vezes julgado ser uma vítima desse mal da moda, queo
tem, queo pode ter a mínima razão de ser. Arrebiques de caracte-
res românticos que destoam no meio da simplicidade do viver campe-
sino e... nada mais.
No caminho que eu frequentemente seguia nestes meus passeios
matutinos há uma pequena ponte de pedra de dois arcos, por baixo
INÉDITOS E ESPARSOS
da qual corre mansamente o rio da aldeia. Rio sem nome ! Por isso
mesmo eu lhe queria.o compreendes isto? Um rio sem nome, um
rio queo vem nas cartas geográficas, virgem das explorações e
estudos dos engenheiros hidráulicos, conservando toda a poesia dos
primeiros tempos!... É quase um tesouro oculto e temo sei quê de
misterioso que, por isso mesmo, me atraía.
As margens elevam-se, de um e outro lado, em suavíssimos decli-
ves, orlam-nas renques de álamos aos quais as vides se abraçam estrei-
tamente, debruçando-se depois em viçosos íestões a tocarem quase na
água. Pequenas ilhas, todas floridas e ramosas, agrupam-se na mais
graciosa miniatura de arquipélago, que se pode conceber.
Nesta parte do rio e àquela hora da manhã era certo encontra-
rem-se, a lavar e a cantar, as mais bonitas raparigas do sítio eo
desafogada e jovialmente o faziam que comunicavam alegria aos mais
hipocondríacos.
Que pureza e frescura de timbre em algumas daquelas vozes!
Eu só queria que as ouvisses. Tu, que em gosto musicalo fazes
envergonhar a tua canonizada homónima, minha Cecília, confessarias
que é raro encontrar mais simpática voz de contralto do que a da
Margarida, a filha da minha lavadeira.
Vejo-te sorrir ao ler isto.o me acreditas, bem sei.
Os preconceitos artísticos... Maso tens razão.
Outra vez te falarei ainda de Margarida. Tenho uma pequena
história a contar-te a respeito dela. É uma curta história de amores.
Agora não.
Como eu dizia, demorava-me muito naquele sítio. Aprazia-me em
escutar aquelas singelas cançõeso graciosas algumas — e sem
autor, que se saiba; poetas e maestros desconhecidos e às vezes bem
dignos de celebridade, vamos.
O amor é o tema favorito destas composições. Recordo-me ainda
de uma quadra que muitas vezes ouvi e à qual achava uma certa ele-
gância e singeleza de dizer inexprimíveis.
A ver se concordas comigo. Era assim:
Os teus olhos, negros, negros
o gentios da Guiné.
Da Guiné por serem negros.
Gentios poro ter.
Cito-te de preferência este por estarem no referido caso os teus
olhos, que, em sua negrura, revelam uma incredulidade verdadeira-
mente gentílica, incredulidade de que só aqueles ares de campo te
podem vir a curar.
Sim, minha Cecília, sim; devias ir ao campo para dar largas a
essa bondade de coração que possuis, mas que o espartilho com-
prime. É certo. Em quanto a mim o espartilhoo influi só na arcadura
das costelas, como pensa o meu facultativo, mas no carácter moral das
INÉDITOS E ESPARSOS
mulheres também e muito. Pois um coração comprimido, encaniçado,
entalado entre varas deo e baleia pode lá bater livre, ter estas
expansões de bondade, estas explosões de sentimento, que alegram,
que fazem bem, que aliviam?
Eu pelo menos sinto-me em geral de tanto mais endurecida dis-
posição de ânimo, quanto mais apertada ando. Nos bailes, por exem-
plo, reconheço em mim uma malignidade de Mefistófeles e a causa é
essa;o sei de outra.
Depois os teus instintos de artista, adormecidos no teu bonito e
confortável quarto da cidade, inebriados na atmosfera do «patchouly»
e água-de-colónia que o perfuma, despertariam por. Verias. Isso
com certeza.
, que tens tu a inspirar-te? a ramagem do papel das paredes,
as rosáceas do tapete, os acantos do estuque, as florestas e lagos das
gravuras encaixilhadas, os gorjeios de uma avezita aprisionada, as flo-
res agrupadas com artifício e esmero em jarras de porcelana, montes de
cadernos de música, o piano aberto... que inspirações, meu Deus! que
inspirações, comparadas com a grandeza das que se recebem no campo!
Os nossos artistas poetas, pintores e músicoso em geral
como tu. Encontro-os nas praças do Porto, estacionados nas lojas mais
concorridas, nos teatros, frequentam os cafés, dizem-me... mas no
campo, na presença desses magníficos espectáculos da natureza que
os inspirariam, a escutarem as lições desta grande mestra da arte...
só por uma casualidade, de que eles próprios se admiram.
As vezes penso, por exemplo, vendo elevar-se como violento
impulso de inspiração entre os nossos actuais poetas um dos mais
jovens, mais verdadeiros e o mais injustamente deslembrado no areó-
pago dos promulgadores de diplomas de celebridades contemporâ-
neas, numa palavra, Guilherme Braga, pois que para ti basta dizer-lhe
o nome para dizer tudo; penso a que altura prodigiosa o veríamoss
subir, se fosse de quando em quando, vigorizar ao ar livre do campo
aquele seu talento;o robusto que nem os hábitos indolentes da vida
urbana conseguem amortecer.
Dos nossos pintores ainda encontrei às vezes por aqueles lugares
o Resende, sobraçando a sua pasta de esboços ou parado diante de
uma paisagem surpreendente.
Basta vê-lo em verdadeiro êxtase diante de um efeito qualquer
de luz, para se lhe reconhecer as pronunciadas tendências artísticas
que possui.
A projecção da sombra de uma nuvem, numa parte do horizonte,
o colorido do ocidente no crepúsculo, o efeito da atmosfera nas tintas
sob que se apresentam desenhadas as montanhas distantes... é o bas-
tante para o arrebatar.
E é contagioso aquele entusiasmo. Tenho-o sentido.
Mas, perdoa-me a digressão, sabes que é modo meu e que já
agorao perco. Eu continuo.
Da ponte de que te falei seguia eu pela encosta de uma pequena
colina, debaixo de um continuado toldo de verdura, parando, de
momento a momento, para colher uma flor ou um desses bonitos
insectos de asas cintilantes e matizadas que brilham como pedras
preciosas. Outras vezes era a ouvir o rouxinol. O rouxinol, perce-
bes? o verdadeiro rouxinol, a filomela clássica, o rouxinol, que eu
quase cheguei a pensar ser um mito, o rouxinol de que tanto se fala
na cidade e que a máxima parte da gente que fala dele nunca ouviu.
Ia até jurar que neste caso está a maioria dos nossos poetas. Ó imper-
doável descuido!
Numa planura em que terminava a colina, estava o cemitério da
paróquia, um cemitério de aldeia;o to descrevo. Imagina-lo sem
isso,o é verdade?
Continuava-se com o cemitério um prado extenso, todo orlado
de álamos gigantes e revestido de relva. Era no meio dele que se ele-
vava a velha igreja paroquial, cujo estado de ruína, devido à sua
remota antiguidade, a fizera, de há muito, abandonar de pároco e paro-
quianos. Em mais completa ruína se achava ainda a casa do último
abade, que, apesar disso, ali vivera sempre e atrás de cujo féretro se
haviam fechado as portas da residência para nunca mais se abrirem.
O novo abade vivia próximo à capela, para onde provisoriamente
se transferiu a sede paroquial; ficava um quarto de légua afastada
da primeira e mais no centro do povoado, que, como acontece tantas
vezes, pouco a pouco se deslocara, abandonando a sua antiga igreja
em torno à qual primitivamente se havia agrupado e procurando apro-
ximar-se da estrada principal que passava perto; de maneira que hoje
só se encontram nas proximidades do velho templo meia dúzia de par-
dieiros desertos eo arruinados como ele, os quaiso ao sítio um
aspecto melancólico.
A mudança da paróquia, que se dizia provisória, prometia tor-
nar-se efectiva. O novo abadeo manifestava desejos de viver no
ermo em que jazia a sua verdadeira residência e menos ainda os fre-
gueses de ir ouvir missao distante, quando mais perto de casa a
podiam ter.
Folgavam com a resolução as corujas e os mochos, agora senho-
res absolutos daquelas ruínas; e uma multidão de répteis, rastejando
em liberdade por baixo das pequenas moitas de ortigas, parietárias
e leitugas que rebentavam luxuosamente de entre os montões de tijolo
e caliça do tecto desmoronado que se acumulavam no chão.
Subia eu esta colina e sentava-me no último degrau de pedra que
havia à porta da casa arruinada e ficava horas esquecidas a contemplar
tudo aquilo, que estava diante de mim e que mal te posso descrever.
Deste ponto dominava-se a aldeia toda. As suaves ondulações
daquele terreno, pitorescamente acidentado, eram todas forradas de
folhagem viçosa; as casas alvíssimas disseminadas por aquela verdura,
tinham um aspecto festivo, que consolava o coração. O pequeno rio
INÉDITOS E ESPARSOS
que atravessava a aldeia em tortuosos meandros, o meu rio anónimo,
cortado a cada passo por pontes rústicas e açudes, fazia mais apra-
zível a cena; nas relvas de um verde magnífico, verdadeira relva
inglesa, alvejavam as roupas estendidas por lavadeiras madruga-
doras ; numerosas manadas de gado pastavam por lameiros extensos
e a sons de frauta pastoril, a frauta primitiva, nobilitada há pouco
por um artista inspirado, vinha ecoar nas concavidades da colina e
desafiar as vozes das aves escondidas na impenetrável espessura dos
arbustos que a guarneciam.
O colorido da aurora animava, poetizava tudo isto, tornava tudo
surpreendente, inimitável. Nunca em paleta alguma de artista se com-
binaram tintas assim.
Digo-te, minha Cecília, que raras vezes me tenho sentidoo
comovida como me sentia então.
Uma manhã levara comigo o Jocelin, aquele teu livro predilecto,
mas do qual mais gostarias ainda, se o lesses ali. Olha que há nele
coisas que eu só então compreendi e que tinham escapado à apre-
ciação que dele fazíamos nas nossas leituras em comum. Lembras-te?
Garrett tem razão quando diz que certos livros devem ler-se em certos
lugares e de certo modo.
Eu por mim, se for ao Buçaco, hei-de levar comigo La chute d'un
ange. Quero ler debaixo daqueles cedros seculares a magnífica des-
crição do Líbano primitivo, visto que já desesperei de o fazer no pró-
prio Líbano.
Mas... por Buçaco, sabes tu que estou com medo de lá ir? Este
caminho de ferro povoou-me aquelas solidões majestosas e despoe-
tizou-mas; estou vendo. Temo de encontrar por lá uma família bur-
guesa jantando à sombra dos cedros como jantaria à sombra de qual-
quer parreiral, com a mesma insensibilidade, com a mesma irreve-
rência, e, o que é pior, dormindo a sesta depois. Tremo de encontrar
meninas a jogar as escondidas e a cabra-cega naquela famosa mata,
rapazes jogando a bola ou homesns sérios a lerem jornais e a tomarem
café para auxiliarem a digestão. Se tal me acontecesse... ficava doente
oito dias. Por isso tremo de lá ir. Continuemos.
Tinha eu comigo o Jocelyn, que abri ao acaso. Li algumas páginas
das mais apaixonadas daquele belo livro e fiquei-me a cismar, sabes
em quê? Nos destinos do padre,o do padre vulgar e prosaico que
vemos todos os dias; mas do padre ideal, irrealizável talvez como a
gente concebe e como quase acredito que jáo existe. Um padre
como Jocelyn; com travadas lutas, com íntimas tempestades no coração
e com a impassível serenidade e brandura no semblante; como esse
pároco obscuro, que Genoveva servia e de cuja juventude o leitor do
inspirado poema de Lamartine sabia bastante já para mais admirar a
heroicidade daquela vida tranquila, para cismar no que havia de ir no
coração do malfadado quando lhe pairava nos lábios um sorriso de
placidez que enganava, de benevolência que atraía; esse homem sem-
INÉDITOS E ESPARSOS
pre votado à consolação dos outros, ele, o desconfortado, que abafou
no crepe as revelações dos seus tormentos.
Pensava nisto, Cecilia, nestes martírios obscuros e ignorados;
nestes heróis que seo celebram, nestes poemas que seo escre-
vem, nestas lágrimas que se escondem, nestes suspiros que se aba-
fam... pensava nisto e comovia-me.
Quem pudesse devassar os dramas íntimos de algumas isoladas
residências rurais! E isto a ocorrer-me e logo a lembrança de que
justamente naquele momento estava eu sentada talvez nas ruínas
de um desses teatros, onde dolorosos dramas íntimos se tinham
passado.
A vida solitária do último pároco, aquele seu apego à velha igreja
e residência, que ambas ameaçavam a cada instante sepultá-lo nas suas
ruínas, a pouca memória que deixara de si... tudo parecia conspi-
rar-se para fazer-me crer ter sido este um daqueles heróis em que
eu pensava, um daqueles mártires sem panegiristas, vítimas sacrifi-
cadas sem deixarem vestígios que lhes prolonguem, mais que a vida,
a memória entre os que ficam, quando ao perpetuem.
Sob o domínio desta ideia, levantei-me e possuiua de certa
inquietação, olhei para aquelas paredes arruinadas, como se a ver
ae elas encontrariam uma voz com que me dissessem: «É verdade!
padeceu»; como se pudesse descobrir ainda vestígios de lágrimas
vertidas em segredo ; como se a tristeza de um olhar se pudesse impri-
mir, pela continuação, nos objectos em que se fixa.
E queres que te diga? Pareceu-me então que alguma coisa havia
efectivamente naquelas pedras soltas, queo podia ter outra origem.
Puerilidade minha,o é verdade? Mas olha, Cecília, eu às vezes
penso:
Quem sabe que mistérios terá ainda a devassar a ciência?
Sabes tu? Tenho sempre escrúpulos de me rir dos visionários
e utopistas; receio que os vindouros se riam do meu riso. Isto de ver
as coisas só à luz da ocasião tem seus inconvenientes também.
O que é certo é que me pus a examinar as paredes com atenção
e quase com supersticioso temor.
Aindao durava um quarto de hora este exame, quando fiz uma
descoberta.
Próximo a um dos ângulos da parede reconheci, em letras a lápis
quase desvanecido o que quer que era escrito. Corri para elas com
uma sofreguidão queo descrevo.
o foi sem dificuldade que consegui ler e às vezes adivinhar o
que elas diziam.
Eram versos.
Pareciam uma resposta às minhas mudas interrogações. Se o
espírito das ruínas me ouviria?
Aí tos copio da minha carteira, onde então os escrevi com ao
trémula e em sobressalto:
INÉDITOS E ESPARSOS
O BOM REITOR
Sabem a história triste
Do bom reitor?
Mísero ! toda a vida
Levou com dor.
Fez quanto bem podia...
Mas... afinal
Morre, e na pobre campa
Nem um sinal.
Nem uma cruz ao meno3
Se ergue do chão !
Geme-lhe só no túmulo
A viração.
Vedes, além... na relva
Junto ao rosal
Flores que há desfolhado
O vendaval?
Cobrem-lhe a lousa humilde:
A criação
Paga-lhe assim a dívida
De compaixão.
Pobres que amava tanto,
Nunca ao passar
Choram, curvando a fronte
Para rezar,
Nunca, ao romper do dia
O lavrador
Pára e lamenta a sorte
Do bom reitor.
As criancinhas nuas
Que estremeceu
Já nem sequer se lembram
Do nome seu.
No salgueiral vizinho,
Aor do Sol,
Vai-lhe carpir saudades
O rouxinol.
Lágrimas, pobre campa!
Ai,o as tem,
Só de manhã o orvalho
Rociá-la vem.
INÉDITOS E ESPARSOS
Da solitária Lua
A triste luz
Grava-lhe em vagas sombras
Estranha cruz.
E ele repousa, dorme...
Vive no Céu;
Dorme esquecido e humilde
Como viveu.
Há nesta vida amarga
Sortes assim,
Vive-se num martírio,
Morre-se enfim...
Sem que memória fique
Para dizer
Às gerações que passam
Nosso viver.
Quem me escutar se um dia
Ao prado for
Ore pelo descanso
Do bom reitor.
o te copio a poesia seo por lhe andar ligada uma das mais
profundas e indeléveis impressões que trouxe do campo.
Queo escreveu estes versos? Ignoro. Alguém que passou e
que, como eu, se sentiu arrebatar por a mesma série de pensamentos,
dominar pela mesma ordem de impressões.
Na aldeiao sóo há quem faça versos, mas atéo sei de
quem os leia.
O primeiro leitor desta pequena produção fui por certo eu.
Que te direi mais? Vais rir da minha simplicidade. Desci ao
cemitério, procurei, adivinhei o lugar onde o velho pároco repou-
sava e... cumpri o desejo do poeta, ajoelhei e orei. Depois colhi da
roseira próxima quantas flores ela tinha e esfolhei-as na campa.
Era talvez a primeira homenagem que recebia o bom velho.
Ser-lhe-ia ao menos grata? Gosto de acreditar que sim.
Adeus, minha boa Cecília, até cedo; pois bem sabes que fiz voto
de te comunicar as minhas impressões do campo, a ver se te converto.
Porto, Julho de 1864.
Diana de Aveleda.
INÉDITOS E ESPARSOS
*
Publicada em 21 de Agosto de 1864 no «Jor-
nal do Porto».
Ai está como tu és. Falei-te de tanta coisa na minha última carta,
empreguei todos os meus esforços em excitar o teu interesse a favor
de um pobre e obscuro pároco, ou antes da sua memóriao mal con-
servada entre os homens... e tu vais logo ocupar a imaginação... com
o quê? Com uma palavra que eu soltei ao acaso, uma promessa que
fiz, talvez sem pensar em satisfazê-la; e agora já meo deixas, impa-
cientas-te, agitas-te, interrogas-me, persegues-me para que eu te fale...
nos amores de Margarida.
Mas sabes o que me custa, filha? é supores tu talvez que é a his-
tória de uns amores românticos, que eu tenho para te contar. E com
certeza que o supões, de outra sorteo insistirias assim. Que sei eu?
Imaginas que enquanto examinava o rol da minha lavadeira descobri
na filha dela uma Virgínia, uma Graziela, uma dessas raras pérolas de
que os romancistas se apoderam sôfregos e que os leitores com mais
sofreguidão contemplam e admiram ? Pérolas na maior parte artificiais,
sempre to irei dizendo. Estás fantasiando cenas de requintado senti-
mentalismo, frases de delicada ingenuidade, frases que estão mesmo
a pedir que Manuela Rei as pronuncie, porque só na boca dela real-
çam com toda a sua graciosa singeleza; e vais decerto ficar... ficar...
sim, ficar desapontada quando souberes o que é.
Primeiro que tudo preciso dizer-te que Margarida nada tem de
vaporoso, silfídico, e franzino;o é destas mulheres nevoeiros que
nos aparecem nos romances e que nos conservam em continuado
sobressalto, receando que o menor raio de Sol as evapore, que o
mais leve sopro de vento as desvaneça.
Margaridao é pálida,o tosse,o tem ataques nervosos,
dorme tranquilamente, tem digestões fáceis e ri com todas as veras
do coração, quando há motivo para o riso.
Jás queo tem nenhum dos requisitos das heroínas de
romances sentimentais. Margaridao permanece em contemplações
extáticas diante da luz poética da Lua. Quando a, sai-lhe esponta-
neamente dos lábios, quando muito, uma saudação como esta:
Ó luar da meia-noite,
Tu és o meu inimigo,
Estou ã porta de quem amo,
o posso falar contigo,
INÉDITOS E ESPARSOS
que dantes visitava apenas os velhos, fez-lhe a fineza de o acalentar
no berço? É muito para agradecer, porque ela sempre antipatizou
com crianças. Dé-me licença, Sr. F..., o meu par vem buscar-me.
Bem vê que ainda danço. Observe-me, mas... por quem é, seja
benigno.
E o meu filósofo assesta a luneta, senta-se a um canto e observa.
Que pena que conserve inéditos os sumarentos frutos da sua
observação nocturna!
Mas o que eu lhe dizia era verdade; ainda danço; mas, aqui para
nós,o danço à minha vontade.
A dançao é,o deva ser isto assim.
Antigamente é que se compreendia o dançar. Basta dizer que
o havia quem de o fazer se envergonhasse.
Em quanto a mim, aquele século de Luís XIVo se chamou o
grande século só por as grandezas políticas, militares, financeiras e
literárias do reinado desse monarca. Concorreram, e muito, para lhe
granjearem o epíteto, as festas esplêndidas de Fouquet, as noites
deslumbrantes de Versalhes e aqueles bailados que Molière era cons-
trangido a entremear nas suas comédias para satisfazer a mania coreo-
gráfica da corte e nos quais tomava parte o próprio rei, transfigurado
em pastor; dessa graciosa raça de pastores que povoavam os tablados
daquele tempo. E julgas que Luís XIV era lá homem que dançasse como
qualquer dos nossos partners da actualidade executa um fastidioso
solo? Qual! dançava saltando, rodopiando e cabriolando, que é a ver-
dadeira maneira de dançar.
Dançar, dançava David à frente da arca da aliança e vejam lá os
nossos elegantes se se lhes mete na cabeça deixarem aos vindouros
memória de si, mais acatada e sisuda do que a do rei salmista.
Sisudos e até sombrios foram D. Pedro ! e D. João II e digam-me
se eleso dançaram com toda a agilidade dos seus músculos.
D. Pedro, o terrível D. Pedro, o amante de D. Inês, tomava parte
em folias populares, e D. João II só deixou de dançar quando a gordura
o impediu de o fazer, diz o cronista, o que prova queo se conten-
tava com dançar, passeando.
E depois... que santos e singelíssimos costumes aqueles! As mais
honradas e respeitáveis damaso punham muito em saírem à rua
de pandeiro nao e em festivais coreias por ocasião de regozijos
públicos.
Uma tal D. Briolanja Henriques, que eu quisera dar por modelo
às elegantes dos nossos dias, fê-lo nas ruas de Évora, diante de
D. João II, o qual tanto folgou com a lembrança, que a tomou nas ancas
do seu cavalo e assim a levou aos paços.
Ora a isto é que eu chamo compreender o dançar.
No século passado...
Ai, perdão, perdão! esquecia-me que estás impaciente, que estás
febril, que estás frenética, por euo entrar no assunto.
INÉDITOS E ESPARSOS
Venham os amores de Margarida à barra. Vamos lá aos amores
de Margarida.
Desci ao largo para gozar mais de perto daquela alegria. Marga-
rida veio ter comigo. Estava ofegante.
Bravo! disse-lhe eu, estiveste inimitável, sabes? Nunca admi-
rei tanto a tua agilidade na dança, nem a tua voz no canto!
Está a mangar ?
Falo séria. Muito alegre te principiou hoje o dia!
Que diz, senhora; alegre ! Não, ao que hoje tenho chorado já...
Mas... nesse caso, Margarida, se essaso as tuas tristezas,
o me darás uma amostra das tuas alegrias?
Então ? a gente precisa de se distrair. Isso! De que vale
dar-se uma pessoa à melancolia?o remedeia nada e...
E posso saber a causa das tuas tristezas ? atalhei eu.
Ai, porque não? julguei até que a sabia. É que ontem pren-
deram o Luis... a senhora conhece-o...
Bem sei, o teu conversado. Mas... prenderam-no porquê?
Prenderam-no para soldado.
Para soldado?!
É verdade, minha senhora. Veja o pobre rapaz que éo
sossegado,o bom,o metido consigo. Aquilo é mesmo um cora-
ção de pomba. Que vai ele fazer com uma espingarda, ele que nem
aos pardais atira? No dia em que ele matar alguém na guerra,
estala-lhe o coração de pena, assim como me estalaria a mim se o
matassem a ele.
Sossega, Margarida, os nossos soldadoso matam ninguém...
na guerra; felizmenteo lheso ocasião para isso. Morrer, isso lá
morrem... mas como toda a gente, como qualquer des pode morrer.
Tu estás muito nova; dentro em cinco anos Luís obtém a baixa e estão
muito em idade de se casarem.
Dentro em cinco anos! Ora! daqui até, tinha ele tempo de
me esquecer. Longe da vista...
Nem parao longe vai que voso possais ver e visitar. Do
Porto aqui é um passeio e assimo tens probabilidades de ser esque-
cida, falando-lhe a miúdo.
Falar-lhe? Que diz, senhora? Sendo ele soldado!
Ah! então?
Não, isso é que não, senhora. Que diriam por aí se me vissem
a falar com um soldado?
Mas sendo esse soldado um rapaz da terra, sendo Luís...
Nem assim. Isso parece muito mal.
Mas então... estás resolvida a romper para sempre com ele?
Eu! Agora estou.
Maso dizes que os cinco anos de ausência..,
Mas é que eu... Olhe, tenho a dizer-lhe e a pedir-lhe uma
coisa... Agora vou dançar, mas volto.
INÉDITOS E ESPARSOS
E, dizendo assim, afastou-se de mim a saltar e, dentro em pouco,
escutava-lhe já a voz cantando:
Água leva o ribeirinho
Pra regar o laranjal;
As pena3 do amor que eu peno
Hão-de acabar afinal.
Aí está, pensava eu comigo,o lá acusar aquele coração de
insensibilidade. É próprio da natureza humana esta inconstância na
dor; cada vez mais o acredito. Percebo o gesto que fazes ao leres
isto, Cecília. Eu bem sei. Entreso menos vulgares estas súbitas
transições, mas... será porque o nosso coração seja menos volúvel?
Que te parece, Cecília, será? Fala-me com franqueza. Eu, pela minha
parte, hesito em afirmá-lo.o haverá antes ems um pouco de
afectação também?
A sociedade para tudo faz regulamentos, é a sua mania; em tudo
quer as aparências salvas. Decreta que o órfão seja inconsolável
durante seis meses, e mânda-o vestir de rigoroso; outros seis
meses quer que os empregue a consolar-se, sem o conseguir de todo,
e traje luto aliviado; passado o ano, deve considerar-se consolado,
e permite-lhe esquecer completamente os pais falecidos. Para irmãos
reduz apenas a metade estas manifestações de saudade. Se durante o
prazo em que nos manda ser tristes, se infringe a mais pequena cláu-
sula do seu regulamento funerário, estigmatiza a infracção com severi-
dade ; mas, se no fim desse tempo, nunca mais se venera a memória
do morto, pouco se lhe importa com isso,o se julga autorizada a
censurar porque se teve para com ela as atenções reclamadas.
Ora muitas das nossas inconsoláveis amantes, repara que ainda
o digo todas, bem vontade tinham de fazer como Margarida, mas
a moda tem exigências! e por isso conservam a tristeza por tempo
conveniente... Margarida queo sabia afectar o queo sentia, ia
assim alternando com suas lamentações as cantigas festivais que a dis-
traiam. Fazia ela muito bem.
Quando de novo se interrompeu a dança, voltou a procurar-me.
Então que me querias tu pedir ?
Olhe; lembrou-me uma coisa. Disseram-me que quem dero
sei quantas moedas se livra de soldado. Ora o rapaz, coitado,o as tem.
Sabe Deus como ele se arranja com o pouco que ganha. Mas aquela
senhora que era minha madrinha, quando morreu, deixou-me um ourito,
que eu tenho no fundo da caixa, porque afinal a gente anda cá no tra-
balho e quase nunca traz aquilo. Lembrou-me que se o vendesse...
Então queres desfazer-te do teu ouro, Margarida? Mas
repara bem.
Ora, senhora, então? É bom tê-lo para as ocasiões. E esta é
uma. Luís é trabalhador. Eu... vendendo o meu ouro... perco, é ver-
dade; mas, quem sabe? Talvez ainda venha a ganhar.
INÉDITOS E ESPARSOS
Como ?
Por isto. Olhe, deixando ele de ser soldado e casando comigo,
eu por um lado e ele por outro, iremos mareando a nossa vida melhor;
e em pouco tempo poderei comprar ainda mais ouro do que tenho
agora. Em quanto que ficando ele soldado...
E então que me querias tu pedir?
Era para que falasse a minhae nisso. Eu tenho medo que
ela meo deixe.
Terminei este diálogo, como tu o terminarias, Cecília; apertei
Margarida nos braços e prometi-lhe colaborar naquela boa acção.
Margarida voltou a dançar. Dançar outra vez! Ainda! Que incons-
tância!o é verdade? Mas quantas das nossas belas apaixonadas,
que se privariam de dançar oito dias depois da ausência de um namo-
rado como Luis,o teriam coração para se desfazerem... do seu leque
que fosse, mesmo sabendo que esse pequeno sacrifício lho restituiria?
o te ofendas por quem és, nem tu nem as tuas amigas; repara
queo disse todas.
Eu voltei para casa e pus-me a pensar nisto. Contei tudo a meu
marido e deixei-lhe perceber desejos de poupar este sacrifício à rapa-
riga, adiantando ele o dinheiro para a soltura.
Sabes o que ele me respondeu ?
«Deixa-a. Esse sacrifício de agora é uma garantia para a sua
felicidade futura. Dá-lhe direitos a exigi-la daquele por quem assim o
realiza». Em vista deste parecer, resolvi falar àe e, com algumas
dificuldades, sempre obtive o seu consentimento.
Meu marido encarregou-se de comprar, ele próprio, o ouro que
pagou por um preço muito superior ao seu valor e que conserva ainda
em seu poder, desconfio que para fazer presente dele a Margarida
no dia do seu noivado.
Luís foi efectivamente livre. Comoveu-me vê-lo chorar de alegria
aoss da sua desposada. Por nossa intervenção conseguiu uma colo-
cação mais lucrativa do que a que tinha, Arrendou uma quinta e sus-
peito que já capitaliza um poucochito. O rapazo deseja casar sem
ter algum pequeno dote a oferecer àquela que se sacrificou por ele.
Ora aqui tens o que eu te queria contar dos amores de Marga-
rida. Bems queo há aqui nada de romântico; é uma história que
a gente conta sem perceber que a está contando e da mesma maneira
a escuta,o desprovida ela é de situações que afectem a imaginação.
o me queiras mal por te haver feito conceber esperanças, que
o pude realizar. Eu prometo nunca mais cair nessa imprudência.
Adeus, Cecília, adeus que se eu continuo a falaro acabo hoje;
até outra vez.
Porto, Agosto de 1864. Tua afeiçoada
Diana de Aveleda.
INÉDITOS E ESPARSOS
*
* *
Publicada no «Jornal do Porto» em 11 de
Janeiro de 1865.
Fragmento de uma carta queo era para
ser publicada.
III
Já que me falaste em música na tua última carta,o quero ter-
minar esta sem te dizer quais os meus pensamentos actuais sobre o
assunto.
Repara que digo actuais. É que eu sou já cautelosa. Receio
que a minha versatilidade, que sou a primeira a reconhecer, me ponha
em contradição comigo mesma dentro em pouco tempo.
Vamos por isso firmando desde já a cláusula que me seja depois
desculpa. Tratemos pois de música.
Poucas como tu estão no caso de falar nisto; poucas, menos do
que eu, no de te responder.
Sabes que estou muito longe de ser uma mulher da moda. Sou
uma mulher do antigo sistema e nada mais.
Meus pais entenderam que me seria mais útil uma educação que
me tornasse prestável, quando os anos da juventude meo garan-
tissem já um bill de indemnidade para a minha inaptidão, do que
rodear-me desses mil pequenos dotes que até aos vinte anos nos ser-
vem de alguma coisa, mas que, depois de certa idade, infalivelmente
nos abandonam, deixando-nos então mais desacompanhadas e indefe-
sas que nunca.
Meu pai teve, por exemplo, o mau gosto de me mandar ensinar
a cozinhar; minhaeo abdicou nas directoras do colégio o cui-
dado da minha educação. Coitada! dizia ela queo me poderia for-
maro bem a inteligência, mas que o coração, tinha fé que o formaria
melhor.
Em quanto ao primeiro artigo da sua piedosa e sincera crença,
acredito-o porque esta inteligênciao saiu lá de grandes forças.
Reconheço-me, em desenvolvimento intelectual, muito aquém de
todas as mulheres da geração nova, que falam francês com uma acen-
tuação de parisiense pur sang; copiam a dois crayons cabeças de
Julien e discutem Meyerbeer, Rossini com um desplante admirável.
Ultimamente parece que até se filiam nas lojas maçónicas pelo
menos assim mo afirmaram.
INÉDITOS E ESPARSOS
o sei se tu também estarás já iniciada nos mistérios do grande
Oriente.
Agora sim, acredito na regeneração da pátria. Çà irà.
Mas em todo o caso, bem sei que euo posso discutir música
contigo; nem é essa a minha tenção.
Com este génio que Deus me deu hei-de isso sim dizer
tudo o que penso, que a maiso pode ninguém ser obrigado.
Respondo-te como te responderia se me falasses nisso em um
daqueles despretensiosos colóquios que tantas vezes temos tido em
que até os maiores absurdos e atrevidos paradoxoso aventados
sem a menor responsabilidade, sem incorrermos na censura de nin-
guém. Porque hei-de ter mais escrúpulos escrevendo-te do que
falando-te ?
Acaso terá uma carta mais fundadas pretensões à imortalidade
do que um diálogo ? As palavras voam, os escritos ficam. Histórias!
Se os escritos ficassem todos, em pouco tempo o mundo seria uma
papeleira. Só fica o que merece ficar.
Há palavras que atravessaram séculos e escritos que nem duram
dias. Mas vamos ao assunto.
Tu entraste em plenos mistérios da arte, Cecília. Admirei-te mas
compreendi-te mal. Via-te cá de baixo, subir,o te pude seguir.
O mau humor que dai me resultou, explica talvez a direcção, que
estranharás em minhas ideias.
E depois eu recebi a tua carta em uma época em que andava
preocupada por um pensamento, que alguns meses de vida campes-
tre me haviam sugerido. Foi talvez por isso queo pude apreciar
as tuas teorias musicais, como as apreciaria aí debaixo das mesmas
impressões sob que as meditaste e formulaste.
Ocupava-me muito da música popular, cuja singeleza e originali-
dade me tinham enamorado.
Sabes que eu em música tenho o mau gosto, que só a ti muito
baixinho confessarei, de preferir a execução fiel e correcta de qual-
quer trecho lírico que me agrade, às brilhantes fioritures e variações
de fantasia com que um artista de génio consegue revelá-lo, sacrifi-
cando aos meus ouvidos profanos o motivo musical que lhe serve
de pretexto.
É por uma razão análoga àquela que me faz preferir o ondeado
natural das tuas belas tranças negras ao impertinente e caprichoso fri-
sado com que as martirizas em uma noite de baile.
Espero que a comparação me faça perdoar a heresia de arte,
que acima julgo que pronunciei.
Podes ver que com estas decididas tendências para tudo que é
natural e singelo, estou muito arriscada a apaixonar-me pela música
popular, por essa caprichosa e ligeira música que voga nos ares com
todos os mais rumores de que a escola romântica há tempos os traz
povoados.
INÉDITOS E ESPARSOS
Ora, apaixonada assim, diz-me se me era possível escutar com
a reverência de discípula ignorante, a erudita dissertação, a que o
último concertista, de quem eu te pedi informações, deu lugar.
Esses períodos da rua apreciável carta vieram despertar-me de
uma espécie de sonho — e digo sonho poro saber bem como hei-de
traduzir de outra maneira aquela eloquente rêverie dos Franceses
em que me deixara arrebatar; é natural que respondesse com a rabu-
gice própria do despertar.
Vinhas fazer-me a apologia da música científica, académica, clás-
sica, entendida só por os raros iniciados nos mistérios do contraponto,
e eu, que estava a escutar uma cantilena aldeã repassada de poesia,
impacientei-me, reagi.
Contrariedade por contrariedade, minha querida. Agora hás-de
ouvir-me tu. Vê se a tua ciência musical te dá a solução do seguinte
problema que era o que me preocupava. É como respondo à tua dis-
sertação. Este problema em que eu muitas vezes cismo e para o
qual peço a tua cooperação é o da origem da música popular.
Sabes-me dizer qual o maestro inspirado dessas toadas singelas
que se cantam ao bater das roupas nos ribeiros, ao esfolhar das espi-
gas nas eiras, ao espadelar do linho nos serões?
E terão elas compositor? Chego a duvidá-lo.
Ouve a minha teoria:
Às vezes lembra-me que o povo é como os pássaros, que ame-
nizam a espessura das selvas. Qual deles foi o autor desses quebros
e gorjeios que todos repetem? Quais os maestros? Quais os discí-
pulos?o há distinção. Cantam assim porque lhes está na natureza
aquele cantar, porque as vozes do campo desafiam um eco e eles res-
pondem-lhes, como a concavidade da colina responde aos ventos que
bafejam. Ai está.
Assim me parece o povo.
Uma noite penso eu as brisas adormentadas mal fazem ciciar
os olmedos da campina; os ribeiros afagam serenamente, e murmu-
rando apenas, os musgos húmidos das levadas; cintilam as estrelas
no azul-escuro do céu; prorrompe das moitas e silvados um concerto
magnífico de insectos... e o povo sente vagamente a poesia da hora,
a poesia da noite, a poesia da natureza.
Sente-a o velho pensativo à soleira da porta, balanceando lenta-
mente nos joelhos um gracioso grupo de netos adormecidos, sente-a
a mãe, jovem e desvelada, ao acalentar o filho no berço e fitando os
olhos na mais brilhante dessas estrelas, como se ali se escrevera o
destino daquela criança que estremece; sente-a a aldeã namorada
aspirando os aromas que dos alegretes do jardim lhe sobem até ao
peitoril da janela, onde se esquece a devanear; sente-a a própria
infância, deixando os brinquedos ruidosos, falando baixo, escutando,
cismando...—Este cismar da infância! este cismar da infância! Que
gérmen de futuros pensamentos!
Nessa noite pois, em uma noite assim, opera-se o mistério, o
génio popular estremece, visita-o o fogo sagrado, a brisa da noite
acorda a estátua de Mémnon; e então, no mesmo instante, no instante
solene, um canto vem naturalmente aos lábios desses numerosos poe-
tas, que todos sentiram e cismaram.
Do balcão enflorado, do limiar da porta, de junto dos berços, dos
largos, das encruzilhadas, prorrompe uma voz; o ancião, a donzela, a
mãe, as crianças cantam a um tempo e uma nova música nasce então,
suave, saudosa, melancólica, como as maviosíssimas notas daquela noite
que a inspirou.
Todos compuseram, todos imitaram. Mistérios das multidões!
Decifre-os quem puder. Euo os discuto; creio neles, como outros
tantos artigos de.
Como explicar de outra sorte as nenhumas reclamações de pro-
priedade,o naturais à vaidade humana, e que, até no seio das mais
doutas academias, consomem a máxima parte do tempo, que devia
ser votado a investigações mais úteis, do que as de prioridade entre
dois inventores litigantes ?
o sei.
Que melancolia a de alguns daqueles cantares; que festiva graça
a de outros ! Lembra-me que uma noite deixara eu aberta a janela do
meu quarto vinha-me de fora umo suave perfume de laranjeiras
queo tive coragem para fechá-la o rouxinol, esse poeta dos bos-
ques, o chefe da escola romântica entre aquela sonora turba, porque
o sofre modular as suas canções por formas sempre as mesmas,
antes as varia, segundo as aspirações do seu génio, o rouxinol estava
admirável!
As folhas brincavam com a luz do luar e desenhavam no corti-
nado do meu leito uma renda buliçosa de extravagantes ramagens.
Cedi à influência languescente e deliciosa daquela noite de Estio.
Adormeci. Por altas horas acordei ao som de uma cantiga aldeã.
Entoava-a uma voz feminina, cujo timbre melodioso e juvenil me
comoveu como ainda nenhuma prima-dona. Perdão, perdão, reconsi-
derei a tempo. É certo, porém, que me comoveu aquela voz. Durante
o meu sono a luz desaparecera e agora cintilavam algumas estrelas
pálidas, procurando combater infrutuosamente a escuridão mais intensa
que precede o amanhecer.
o pude resistir, corri à janela.
A voz partia já de mais distante. Era a de uma jovem lavadeira,
que ia para as presas lavar.
Olhei o relógio; pouco passava das quatro horas!
Pobre rapariga! Ela aí ia sozinha votar-se ao trabalho! Aos
dezoito anos, repara tu e todas as tuas elegantes companheiras; à
hora em ques apagais a luz, ainda com a imaginação alvoroçada
pelas aventuras da mais simpática personagem do romance que vos
disputou ao sono, à hora em que desprendeis o enfeite que vos ador-
INÉDITOS E ESPARSOS
nou as tranças no baile e vos despis, cismando na frase de leviano
galanteio que vos segredou o último valsista, ela, coitada! ergue-se
para ir lavar, ergue-se para atravessar sozinha os caminhos ermos,
cujo aspecto bastaria para vos desafiar um ataque de nervos, melin-
drosas organizações.
Muito felizes sois! muito malfadada é ela!
E contudo.,. —vede. De quando em quando o vosso silêncio
é interrompido por um suspiro, queo podeis reprimir; caís em
desalento no sofá vizinho do leito e apodera-se des uma tristeza
que vos faz chorar.
E ela ? ela canta, ela desperta, cantando os ecos escondidos pelas
quebradas e afugenta os espectros sinistros que povoavam os recan-
tos obscuros.
Mas é queso podeis cantar como ela, por isso tambémo
tendes aquelas expansões que distraem e aliviam.
Cantar! Pobres meninas! Se vos ensinam a cantar em italiano!
Se a moda, essa tirânica divindade que do alto do seu trono de ren-
das e vidrilhos vos impõe um código absurdo, menospreza a nossa
harmoniosa língua! Se para saudardes a Lua precisais de lhe chamar
casta diva e repetir a letra de Felice Romani! se só com o auxílio
dos libretos e martirizando a língua do Dante podeis celebrar Deus,
as flores, as estrelas, o mar! Se vos ensinam a erguer-vos às onze
horas! Se vos mostram as belezas do amanhecer nas gravuras ingle-
sas ou, quando muito, no poliorama que adorna uma das mesas do
vosso salão! Se só vedes o mar quando apequenado pela afluência de
banhistas! Se vos mandam cantar ao espelho para estudardes o gesto
conveniente a uma. cantora que tem escola! Se quando cantais tendes
na ideia tudo menos o canto!
Oh!so podeis,so sabeis cantar!
Com todo o vosso estudo ficais suplantadas por tantas espontâ-
neas cantoras que abundam nos campos.
Aindao encontrei artista de profissão que afinal de contaso
fizesse caretas a cantar e aindao vi rapariga aldeã queo fosse
mais bonita cantando. Porque é isto? O artifício mata-vos.
Eo é só a letra estrangeira que neutraliza paras todo o
efeito calmante que um antigo ditado português de tempos imemo-
riais concede ao canto, é também a música estrangeira.
Da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha, de
toda a parte aceitais de bom grado a música; só desdenhosamente
sorris para a queo é de importação.
Ao lado do vosso piano, se se depara com alguma composição
firmada com um nome português, é como envergonhada e escondida
nas rimas de cadernos onde, em grande tipo, se lêem os nomes de
compositores de fora, nem sempre dignos de celebridade.
Mas seso temos música popular disse-me ainda há
pouco um dos nossos melhores talentos musicais.o o contestei;
seria arrojo da leiga, heresia de profana. Houve quem, sem o saber,
lhe respondesse e pela Imprensa que a fizesse ele. O artista
lendo o conselho, encolheu os ombros e riu-se. Desta vez tinha razão.
Como! fazer música popular! Pois a música popular faz-se ? Se ela
o existe, haveria génioo superior que a tirasse do nada?
Mas,o existirá de facto? Ai é que se resume a questão. Pois
será este nosso povo um povo queo canta? ou para cantar irá
pedir trovas emprestadas às outras nações?
Responde por mim essa harmonia que sai dos campos, que nos
enche os ouvidos, que anima o trabalho das ceifas, das esfolhadas,
das malhas... Música rudimentar dizem-me. Concordo. Mas é que
seo vai assim de repente à ópera.
Exigir de um compositor que escreva uma ópera com música
nacional é exigir muito, é marcar-lhe uma meta superior às forças de
qualquer artista.
Fossem lá dizer aos escritores de língua portuguesa, esses que
balbuciavam as primícias da poesia nacional, ao autor daquela canção
do Figueiredo das Donas por exemplo se é que depois da opinião
de um nosso ilustre crítico ainda lhe podemos dar o foro de nacio-
nalidade fossem lá dizer-lhe:
Escrevei um poema épico nacional! Tomai fôlego, fazei o que
fez Homero, o que fez Virgílio.
Mas a aveo sobe às alturas logo ao primeiro voo.
Camões só podia nascer quando nasceu.
o digais, pois, aos nossos compositores: Escrevei óperas nacio-
nais. Isso é exigir-lhes o impossível mas dizei-lhe: Escrevei tro-
vas, escrevei canções, escrevei cantigas... porque deveraso sei
por que se há-der de parte esta palavra e esta coisao genuina-
mente portuguesa — a cantiga deveras queo sei.
s que falais em romanzas, em cavatinas, em rondós, em bar-
carolas, sentis um certo escrúpulo de mau gosto em falar de cantigas.
Pois eu, se estivesse no vosso lugar, legisladores do gosto,o
o sentiria; eu havia de dizer desafogadamente aos nossos talentos
artísticos: Fazei música para cantigas inspirando-vos do gosto popu-
lar, subireis depois às composições líricas ligeiras e mais tarde, no
futuro, os nossos netos aplaudirão a verdadeira ópera nacional
antes disso tentá-lo é absurdo.
As artesm todas a sua infância. E Deus nos livre de crianças
assenhoradas que é a mais antipática espécie de Preciosas ridículas
que eu conheço.
Mas atendei a queo é só dos compositores que depende a
reforma.
Algunsm feito as primeiras tentativas, mas como lutar entre a
tremenda potestade que se chama a moda ?
Ainda me recordo de um malicioso sorriso que te vi nos lábios
quando em certa reunião uma senhora teve a coragem de cantar deli-
VOL. n — 24
INÉDITOS E ESPARSOS
ciosamente a canção do Marujo, do drama de César de Lacerda. Sor-
risos como esse é que estragam tudo, Cecília.
Momentos depois ouvias, já muito sisuda e atenta, uma pequena
ária francesa, destas que os editores de romances publicam nas capas
dos seus feuilletons e que se podem cantar sem ofensa do bom-tom
porqueo francesas.
Eu tenho vontade de promover uma revolução proclamando
neste sentido:
Senhores folhetinistas, é necessário convencer as nossas ele-
gantes queo é de mau gosto cantar em música portuguesa poesia
portuguesa; ridiculizai muito embora a Jovem Lília e as antigas modi-
nhas, mas substituí-lhe canções nacionais como elas.o vos mostreis
benignos somente para com os ohimés, infelices, míseros, mios con-
tentos e addios das letras italianas.
A moda é um potentado. Para a combater é preciso uma aliança
poderosa, poderosíssima.
o exijais de ninguém desacompanhado essa façanha de Hér-
cules.o há forças isoladas que bastem.
so criareis música nacional nos salões e gabinetes. Desen-
ganai-vos. Ide ao campo e às ruas, percorrei as províncias e depois
ponde à moda a Euterpe rústica que tiverdes encontrado por, per-
fumando-a e apresentando-a com a etiqueta do estilo, na sociedade
elegante.
É uma subservivência necessária. A musa popular, para se tornar
nacional, tem de sujeitar-se a essas formalidades. Os promulgadores
dos diplomaso lho dispensam. Sujeite-se, que faz bem. Coloque-se
à moda, depois o resto virá naturalmente.
Aí tens o meu modo de pensar.
Em troca da tua dissertação científico-artística, que me impacien-
tou por ininteligível dou-te uma opinião de leiga que te revol-
tará por absurda.
Estamos quites.
Até outra ocasião.
Continuo a ser toda ao teu, dispor.
Janeiro de 1865.
Diana de Aveleda.
UMA DAS MINHAS MADRUGADAS
CARTA A CECÍLIA
(Inédita)
Na antevéspera da nossa partida, o administrador, vindo visi-
tar-nos, perguntou-nos quais os nossos projectos para o dia seguinte.
O arranjo das malas, respondeu-lhe a L... sorrindo.
Por amor de Deus ;—disse aquele jovial companheiro dos nos-
sos serões da aldeia. Por amor de Deus! V. Ex.
as
fazem-me recor-
dar o tempo das liteiras e das jornadas com almocreves, os meus bons
tempos de Coimbra. O arranjo das malas ! isso, actualmente, é obra de
uma hora quando muito.
Mas também que mais curiosidades nos pode oferecer a sua
terra meu caro senhor doutor? A seus olhos triplicemente investiga-
dores de arqueólogo, de naturalista e de poeta, que poderá ter ainda
escapado ?
O mosteiro.
O mosteiro ?!
Escuso dizer-te, Cecília, que ficámos já sem a menor vontade
de contrariar o nosso cicerone. Eu a acabar de pronunciar aquela
palavra mágica mosteiro e logo um mundo todo de fantasia,
como se evocado por um condão misterioso, a surgir-me, a encan-
tar-me, a pedir-me toda a atenção aos meus sentidos distraídos... Um
mosteiro ! Es há ums ali, ignorando-lhe a existência.
Sabe, doutor disse-lhe eu que é indesculpável a levian-
dade com que até hoje se tem conservado silencioso em relação a
esse mosteiro? Não'nos podia ter prevenido da existência dele, para
eu ao menos me preparar com a leitura ale Walter Scott e ir bem pre-
venida do espírito fantasioso que concebeu a «Dama do Lago», aquela
deliciosa criação?
INÉDITOS E ESPARSOS
Seria uma triste desilusão para V. Ex.
as
quando vissem as
mudanças que o tempo exerceu naquele antigo retiro de virgens.
E de mais a mais mosteiro de monjas extintas! Ó doutor, cada
vez estou menos disposta a perdoar-lhe. O tempo! as mudanças do
tempo? Tem graça. Tanto melhor. Hera pelos muros,o é isso que
quer dizer? Estátuas derrubadas, fustes partidos, capitéis despedaça-
dos nos lajedos, baldaquins e cornijas servindo de asilo às aves? Tudo
isso aumenta prodigiosamente o interesse da cena. Pois uma lenda
bem conservada na memória do povo vizinho, cheia de maravilhoso,
cheia de fantástico. Diga, diga se há em toda esta sua terra, a que
tanto quer, coisa mais digna de se mostrar e menos capaz de se
esquecer ?
Infelizmente, minha senhora continuava o desapiedado dou-
tor, parecendo deliciar-se em destruir todas estas minhas fantasias
com a indiferença revoltante do botânico que desconjunta a mais bela
flor do campo para inútil crueldade para a classificar. Infeliz-
mente, minha senhora, o mosteiro onde desejo conduzi-las oferece
pouco alimento à curiosidade justificadamente feminil de V. Ex.as.o
é a poesia do tempo que se respira ali. Desta vez deu-lhe o mitológico
velho para ser utilitário e esqueceu os seus antigos brios de poeta.
Verão V. Ex.as a cerca aproveitada para hortas, transformadas as celas
em tulhas e vivendas de rendeiros e a igreja invadida pela cal e pelo
desastrado pincel do único artista da localidade.
Nesse casoo vamos.
Porque não? disse a L... deixa falar o doutor. Eu te pro-
meto que a poesia e a saudade do passado conseguirão romper toda
essa grande camada de prosa. Os perfumes de uma e de outra hão-de
subir ao ar com os vapores que de tarde se elevam de entre o milho
desses mesmos campos, penetrar nas celas com os últimos raios de
sol, voejar na igreja com as partículas coloridas da poeira que a clari-
dade de uma fresta venha iluminar.
Bravo! exclamou o doutor. Com essa boa vontade, minhas
senhoras,o há poesia que seo encontre.
Emprazamo-lo para amanhã, doutor.
Em coragem de madrugar ?
Boa! Ao romper do dia estaremos prontas.
Então, até ao romper do dia de amanhã.
Tu sabes como eu sou, Cecília, podes imaginar em que azáfama
andou toda aquela noite a minha fantasia. Eu que aindao consegui
olhar com indiferença para o convento de Monchique, do Porto,o
obstante estar desde criança habituada com aquelas ruínas e apesar
da influência do Trem, da Alfândega e de tudo, como poderia receber
de ânimo frio a inesperada promessa de um mosteiro retirado, quase
destruído, talvez ignorado de todos ou pelo menos ignorado por mim,
Porque para mim é de facto nova a existência do convento de... das...
Entãoo queres tu ver que nem nome lhe posso dar!
INÉDITOS E ESPARSOS
Pois é verdade, satisfiz-me com a denominação genérica de mos-
teiro e nem me lembrou perguntar qual a invocação sob que foi eri-
gido aquele obscuro asilo de almas tímidas e qual a ordem monástica
que por tanto tempo o habitou.
Mas que importa?o é também uma memória arqueológica que
eu te escrevo. É uma carta, como todas as minhas, como todas as tuas
em que se diz tudo quanto lembra eo se fica responsável por nada
do que esqueceu.
Mas, como eu te dizia, cismei e sonhei em monjas toda a noite.
Lembrou-me efectivamente Walter Scott e lembrou-me também
Meyerbeer.
A dança fantástica que no quarto acto do Roberto fascinava o
filho de Bertrand e cuja música, por uma diabólica coincidência, a
L... lhe deu para tocar essa noite no piano, parecia atordoar-me
também.
Acordei deste sono pouco restaurador quando me vieram dizer
que principiava a madrugada e que há muito havia luz no quarto do
doutor.
Tuo sabes bem ao certo o que é uma madrugada, tu a quem
vai despertar no teu tranquilíssimo bairro o ruído das dez horas da
manhã; nem eu me proponho a fazer-te a análise dos encontrados
sentimentos que nos agitam em tais ocasiões. Dir-te-ei, de passa-
gem, que parece que naqueles momentos a habitual corrente das
nossas ideias muda de direcção. Costumadas a pensar no meio de um
determinado grupo de condições, de luz, de movimento, de vida, quase
sempre as mesmas, quando em presença de condiçõeso outras das
ordinárias, comoo as de uma madrugada, como que os nossos pen-
samentos tomam uma diversa feição e novas soluções a problemas,
que tínhamos por definitivamente resolvidos, avultam e avultam sob
um aspectoo luminoso que todos os mais ofusca.
Istoo é filosofia, sossega; é a simples expressão do que eu
senti quando acordada por L... me dispunha,o sem um pouco de má
vontade, a cumprir a promessa feita na véspera ao doutor.
AL... estava admirada do meu silêncio, pois desde que principiara
a vestir-meo lhe dera uma palavra.
Em que pensas tu? disse-me por fim, impaciente se isso
o é ainda sonhar.
o é, não. Queres saber? Penso que talvezo tiveram razão
os que mandaram fechar as portas dos conventos e proibiram as
profissões.
AL... obrigou-me a repetir esta resposta.
Que extravagante reflexão política é essa tua agora?!
É que eu, por mais que tenha estado a recordar-me dos argu-
mentos pelos quais havia conseguido, julgava eu, convencer-me da
utilidade de tal reforma,o os encontro.
Vê se os deixaste no travesseiro disse a L..., rindo.
INÉDITOS E ESPARSOS
Olha que te falo séria!
Nesse caso dir-te-ei que a razão mais justificativa, a meu ver, é
a de nos ter proporcionado esta visita matinal, que espero será deli-
ciosa. Porque, olha que se existissem lá freiras queo fossem pena-
das, tudo mudava.
Eu odeio, como sabes, os doces e os conceitos das freiras e deci-
didamenteo acompanharia o doutor, se me esperassem lá essas
duas espécies de gulodices.
o gostei da feição jocosa que a L... continuava a dar à conversa,
e por isso calei-me.
A ditadura de D. Pedro IV estava a ser julgada no tribunal da
minha consciência.
Bems que o momento era solene.
Tal se manifestou em mim desta vez a influência da madrugada.
Mais poder do que as jovialidades de L... teve porém a voz do admi-
nistrador cantando junto de nossas janelas como o baixo no primeiro
acto do Trovador:
Alerta! Alerta!
Respondemos-lhe pondo os chapéus e apresentando-nos na rua.
Vamos a saber, doutor, inventou alguma bonita mentira para
nos contar quando estivermos no mosteiro?
Eu?!
Sim; é impossível que há tanto tempo nesta terra tenha resis-
tido à tentação de meditar a esse respeito algum romance.
Um romance meditado no gabinete da administração! Nem
V. Ex." sabe o que pede.
Nesse caso medite-o no caminho porqueo posso dispensar
uma história quando visito ruínas.
É um mau sistema. O mais interessante é fantasiá-la cada um a
seu modo na ocasião. É a maneira melhor de nos satisfazer. Eu por
mim tenho sempre achado muito aquém do merecimento da cena as
lendas dos sítios que visito.
E neste conversar fomoss matando o tempo do nosso curto
passeio.
Como sabes estávamos no Outono e as manhãs eram já repas-
sadas daquela suavíssima poesia da tua estação predilecta.
O caminho que seguíamos, ora por vales cheios de sombras e
de mistérios, ora por planuras desafogadas, compensaria de sobra
o sacrifício da madrugada, quando a visita do mosteiro noso reser-
vasse outra compensação.
Àquela hora do dia há mais vida nos campos do que nesses magní-
ficos sarcófagos que se chamam cidades.
Cantam nos montes os guardadores de gado, nos ribeiros as lava-
deiras, os lavradores nos campos e o moleiro ao ruído das levadas
despedaçando-se nas rodas das azenhas.
Depois e melhor que todos cantam as aves e tantas eo variadas
INÉDITOS E ESPARSOS
na cor, no canto e no voo que euo sei como há naturalistas que as
conheçam a todas, se é verdade o que se diz.
Eu sinto-me outra em passeios assim, inteiramente outra.
Pois há lá prazer como o de internar-se a gente por entre campos
orlados de moitas viçosas, sebes naturais do onde se debruçam as
rosas e as madressilvas seduzindo com seus perfumes o caminhante,
que raro deixa de ceder aos encantos destas formosas flores, colhen-
do-as na passagem?
A luz do Sol coada pelas frondes dos álamos e castanheiros e das
vides que estreitamente abraçadas com eles suspendem no caminho
seus festões verdejantes, cheios de cachos prometedores, derrama
uma meia claridade nestas veredas pouco frequentadas e por isso
mesmo gratas talvez às recordações de muitos amantes campesinos.
Numa manhã bem clara, passando por uma rua assim, Cecília,
parece-me que com os insectos que a minha chegada vai perturbar e
que, impacientes, ou amedrontados, se põem a voltear-me em torno
da cabeça, se ergue também um enxame de memórias agradáveis que
me ficaram pelos campos nos poucos mas deliciosos momentos da
minha vida que tenho passado, turba inquieta que me envolve, que
me embriaga, que me arrebata, no seu voo vertiginoso longe, ai bem
longe do presente, da realidade, do mundo.
Digo-te uma coisa; então reproduzem-se em mim aquelas intensas
e desanuviadas alegrias de criança queo depressa os anos modifi-
cam, alegrias espontâneas sem pensamento reservado, sem explica-
ção possível, que seo reprimem, que rompem em risos, em cantos,
em jogos, alegrias de causa toda interior que nenhum travo perturba.
Depois de algum tempo de caminho o administrador, que dirigia
o rancho, retrocedeu a com uma fisionomia entre risonha e contra-
riada disse:
Uma dificuldade imprevista!
Qual é ? perguntámoss a um tempo.
Nada menos que uma cancela a transpor e uma cancela que
seo pode abrir.
Saudámo-la com uma exclamação de prazer que deixou embara-
çado o administrador, homem comodista, que desejaria ver alisar-se-
-lhe debaixo doss em suave macadame todos os caminhos e arra-
sarem-se-lhe os mais insignificantes estorvos, qualquer que fosse o
ponto do universo para onde a necessidade ou o capricho o pudes-
sem um dia levar.
Então que é isso? Pois deveraso as amedronta uma cancela? !
Está a gracejar disse a L... Pelo contrário acolhemo-la como
um interessante episódio no decurso de um poema.
Ah!... pois estão nessas disposições? Então eu lhes prometo
dificuldades, verdadeiros episódios para o poema, inclusive um ata-
que de cães de quinta.
Menos isso exclamou a L... já quase séria.
INÉDITOS E ESPARSOS
Devo porém confessar-te que efectivamente foi com o coração
folgado que eu vi surgir a dificuldade da cancela. Que queres tu?
Outra puerilidade minha.
Nisto conservo todos os instintos de criança. É sabido que nada
há mais fastidioso para estes pequenos entes, cujos instintos naturais
aindao foram falsificados pelo prosaísmo da vida ordinária e pela
influência das ocupações que, tantas vezes com bem pouco fundamento,
se dizem mais graves que as deles, como a seguir um caminho fácil,
cómodo, feito de propósito, trilhado por toda a gente. Eles odeiam as
estradas principais, acham-nas monótonas, sem acidentes, sérias de
mais para eles, essas risonhas criaturas de Deus.
E se não, observa aos domingos qualquer desses numerosos
grupos de famílias burguesas que transpõem as barreiras da nossa
cidade e se espalham nos arrabaldes para sobre a mesa de lousa e à
sombra das frondosas ramadas dos deliciosos retiros campestres,
celebrarem o bom repasto patriarcal a que classicamente se chama
merenda. Enquanto os pais e as mães seguem em linha recta pelo
meio da estrada conversando, aqueles, do tempo do cerco, do estado
das novidades agrícolas e das questões do abade com a confraria do
Sacramento e da confraria com o abade e estas, das criadas, das nove-
nas e das teias de pano de linho que deitaram esse ano; enquanto as
meninas donzelas, de braço dado, e languidamente apoiadas uma na
outra, entregues a confidências de tal ordem que nem se atrevem a
fitar-se, quando muito descrevem ziguezagues caminhando obliqua-
mente entre os dois lados da estrada; o rancho infantil, turbulento,
ruidoso, indomável, borboleteia em torno de uns e de outros, amea-
çando-lhes perturbar estonteados cometas, a regularidade da trajec-
tória que seguiam. Trepa aos muros, salta aos valados, interna-se nos
campos, explora os caminhos vicinais, desaparece atrás de um cômoro,
surge às gargalhadas do alto de outro mais distante, pendura-se das
árvores, rebola-se na relva, atola-se nos lameiros, rasga-se pelo tojo
e silvas, indiferente aos gritos, exclamações, ameaças e até às cor-
recções maternas e paternas.
E se, por acaso, a pacifica caravana depara com uma dessas can-
celas rústicas como a que tínhamos diante de nós, enquanto os papás
se preparam para abri-la, já as crianças am cavalgado, receando
perder a ocasião de uma nova peripécia que vem aumentar o interesse
do passeio.
Efectivamente abrir uma cancela é uma vulgaridade, é o que
todos os dias cada um faz em sua própria casa e uma excursão nos
arrabaldes, sendo um facto excepcional no curso monótono da vida,
a regra manda evitar tudo quanto seja vulgar.
Eu sou ainda como eles, essas criaturas sem presunção, queo
m pejo de brincar, saltar um muro, sendo possível, transpor uma
cancela, franquear um valado de silvas, vadear um ribeiro... que impa-
gáveis prazeres!
INÉDITOS E ESPARSOS
Passados momentos achávamo-nos em plena campina.
Tínhamos diante des a indicar-nos o caminho um desses estrei-
tos carreiros conservado entre terras cultivadas para o serviço das
lavouras. De um lado e de outro eleva-se-nos o milho até aos joelhos.
Em torno uma imensa planície verde onde só alvejavam as camisas
brancas dos sachadores dispersos em numerosos grupos em toda ela.
As improvisadas cantigas com que esta gente se anima no tra-
balho cruzavam-se em disputado certame, interrompido de quando em
quando por um coro de sonoras gargalhadas.
O sossego da hora, a vastidão do horizonte do lugar e o timbre
puro daquelas vozes deixavam ir ao longe, muito ao longe, esses vilan-
cetes cantados na popular toada da Cana-Verde. Percebiam-se ainda
distintamente das colinas circunvizinhas, cujos ecos as repetiam como
se participando da contenda.
Altos castanheiros, cuja plena florescência os tingia naquele
tempo de reflexos dourados e as faias de tronco liso que, agitadas pela
viração, ofereciam alternadamente aos raios solares as duas faces da
sua folhagem bicolor, repartiam em figuras irregulares toda esta pla-
nície. Aqui e ali uma pequena casa branca em cujo telhado se beijavam
as pombas e volitavam as andorinhas, que vinham aninhar-se-lhe nos
beirais. Nos quinteiros adjacentes misturava-se com o agradável ruído
de vozes infantis o cantar do galo respondido por o de outros mais
afastados.
Depois eiras extensas onde numerosas raparigas ripavam o
linho colhido de pouco, cabanas e colmo de tentarem o pincel de um
artista, medas de palha dispostas em longas fileiras, que vistas de noite
à luz fantástica da Lua, tantas vezes se me afiguravam compridas pro-
cissões de monges brancos, aspecto que, sabe Deus, quanta supers-
tição tem fomentado por! Plena aldeia enfim, plena aldeia da nossa
terra, fértil, risonha, amena, abundante em verdura, em flores e em
água, onde a luz e as sombras se casam em misteriosa combinação;
cheia de vagos rumores de folhas agitadas, de arroios invisíveis, de
gorjeios de aves, de tudo o que consola, de tudo o que nos dá vida.
*
Tendo atravessado os campos subimos por entre giestas e urzes
em flor e à sombra de magníficas carvalheiras, o mais frondoso dos
outeiros que os limitavam e, atraídos pelo longínquo rumor de uma
queda de água fomos ladeando a encosta até encontrarmos a corrente
de onde esse rumor partia.
Era para ver a agilidade com que eu e L... descíamos então a ver-
tente oposta da colina, seguindo sempre a beira da levada, com grande
susto da parte do doutor que, a cada momento, estava esperando ver-
-nos despenhadas no abismo.
INÉDITOS E ESPARSOS
Cautela! cautela! bradou ele de longe, embaraçado em afas-
tar os estorvos que lhe interrompiam a passagem.
De quando em quando voltávamo-nos. Víamo-lo apegado aos tron-
cos das giestas, deixando-se escorregar docemente pelo suave declive
todo arrelvado e que ele insultou com o nome de despenhadeiro. A nossa
hilaridade saudava-o então cá de baixo.
A corrente era a cada passo interrompida por açudes e moinhos,
atravessada por pontes rústicas, oculta às vezes pelos arbustos das
margens e, dos sitios mais profundos, soltava do seio os amieiros sem-
pre ávidos e insaciáveis de frescura.
Conduziu-nos finalmente este caminho a uma devesa na qual ces-
saram as tribulações do administrador. O mau humor que a descida
lhe tinha exacerbado desvaneceu-se totalmente no remanso que o
esperava ali eo foi ele o que menos se riu dos seus passados ter-
rores e apreensões.
Mas que devesa aquela, Cecília! Que íntimo recolhimento ! Que
misteriosa tranquilidade! Os rouxinóis, ocultos na copa espessíssima
de carvalhos seculares, cantavam à porfia sem que a nossa presença
os inquietasse. A andorinha dos bosques, cheia de confiança, passava
ao nosso lado perseguindo os insectos com aquela graciosa agilidade
de movimentos, que nos encanta nela. De quando em quando uma
folha seca, uma lande desprendida da árvore vinham cair-nos aos
pés; um raio de Sol que, atravessando já amortecido aquele arren-
dado de verdura, descia a procurar na relva a florinha cor de anil que
o sei que nome bárbaro tem em botânica, traçava obliquamente no
recinto assombrado pelo arvoredo uma coluna luminosa que se dissera
fuste tombado de um templo em ruínas. Insectos de cor variada, cujos
zumbidos eram o maior rumor daquela solidão, seduzidos por este
raio de luz procuravam-no com ansiedade e vertigem.
Instintivamente falávamos baixo ali.
Subjuga-nos tanta solenidade, intimida-nos, sentimo-nos pequenos
e;..A caminho! a caminho!—foi a exclamação que ruidosamente
nos arrancou da silenciosa abstracção em que pouco a pouco nos dei-
xáramos cair.
Desnecessário será dizer-te que foi do doutor que ela partiu.
Para tanto só a coragem dele.
A terra da promissãoo está longe continuou, apontando
por entre um claro que deixava a folhagem.
Olhámos nessa direcção. Descobrimos ao longe a grimpa e toda
a parte superior de um velho campanário. Saiu-nos dos lábios uma
exclamação de prazer a mim e à L...
O mosteiro ?
O próprio.
A estas duas palavras sucedeu o silêncio. Com os olhos fitos
naquele enegrecido edifício que, pouco a pouco, parecia ir-se des-
pojando à nossa vista do invólucro da folhagem que ao princípio no-lo
INÉDITOS E ESPARSOS 747
encobria, fomos caminhando para ele de novo, possuídas daquela
mesma impressão que sentíramos na véspera.
Perdoa à minha ignorância de arquitectura se omito a minuciosa
descrição daquele vetusto convento, transformado hoje em uma dúzia
de coisas muito diversas, que nem já te sei enumerar.o perdes
muito, tu, nem perde a arte com a lacuna porque afinal de contas
conhecia-se pelo que vimos ainda dele que o convento nunca passou
de uma dessas construções irregularíssirnas, acanhadas, sem estilo,
que um pensamento religioso erguia a cada canto para abrigo dos
foragidos aos tormentos mundanos e nos quais se procurava simboli-
zar o desapego ãs vaidades da Terra na ausência completa da menor
beleza arquitectónica. Extensas paredes crivadas de janelas mesqui-
nhas, carência absoluta de simetria nas construções posteriores à do
edifício principal, assim uma coisa à semelhança do convento de Cor-
pus Christi em Vila Nova de Gaia e mais nada.
Tinha alguma razão o administrador quando nos falava no carác-
ter prosaico das modificações que o tempo introduzira neste mosteiro.
Nada do grandioso das ruínas! renovações escandalosas, verda-
deiros sacrilégios de arte, isso, muitas. Montes de palha por toda a
parte e a vegetação das hortaliças de uma exuberância insolente!
AL... bem se esforçava por reconstituir um romance com o pouco
que via; mas as galinhas que esgaravatavam nos claustros dilacera-
vam-lho à nascença. É uma ave essencialmente burguesa a galinha.
o há lenda que possa florescer onde constantemente cacarejam
estes prosaicos bipedes.
AL... chegou a desesperar.
Visto isso, nem uma pedra histórica, nem uma memória ligada
a estas paredes. Ó doutor, compadeça-se desta nossa ansiedade.
Recorde, descubra, invente um romance dizia eu.
Eu só conheço o lugar como a matriz de um círculo eleitoral
e ligada a este recinto só posso recordar-me da história das eleições
passadas.
Cheguei a odiar o administrador ao ouvir-lhe dizer isto.
Silêncio ! Nada de profanações.
E contudo estas naves disse a L... entrando na igreja, efecti-
vamente a parte mais solene do edifícioo ainda assim longas, ele-
vadas bastante, convenientemente obscuras. Nem as reformas tolas dos
restauradores conseguiram privá-las de uma certa majestade e poesia.
Doutor, doutor, eu quero levar daqui alguma impressão mais dura-
doura !o saio sem isso.
E, dizendo estas palavras, encaminhou-se para uma capela mal
alumiada por um lampadário antigo e aindao visitada por nós.
Seguimo-la. À entrada, porém, a imprevista aparição de um vulto
fez-nos recuar.o era afinal nenhuma alma do outro mundo,o
somente um rapaz muito pálido, vestido com singeleza, o qual com um
sorriso modesto e melancólico nos cortejou.
O doutor correspondeu-lhe com um gesto de afabilidade.
Quem é este homem ? perguntei ao doutor quando o recém-
-aparecido se afastou de nós.
É o mestre-escola da aldeia.
Ninguém o dirá! Tem uma fisionomia inteligente.
E desta vezo fica mal Laváter.
Deveras? Mas... mestre-escola!
Então que quer? Com aquele estofo disse o doutor, apon-
tando para ele que já ia à porta da igreja fazia-se talvez um bom
académico, fazia. Mas amarraram-no à atafona das primeiras letras.
Nisto saía a L... da capela, verdadeiramente desesperada.
o há meio de tirar coisa alguma destas paredes. Temos de
nos resignar a partir com as nossas carteiras em branco. Incomode,
sacuda a sua imaginação para nos mentir, doutor, ande. Invente, seja
amável uma vez na vida.
o sou poeta e V. Ex.
as
perderam talvez a ocasião de satisfa-
zeremo inofensivo desejo deixando sair esse rapaz.
Quê! Pois é também poeta! exclamei, admirada.
Afiança-me que pode dizer-nos alguma coisa interessante ?
perguntou a L...
Aqui, para o que V. Ex.
as
desejam, ou ele ou ninguém.
Pois vou chamá-lo.
E a L... com aquele estouvamento que lhe conheces dirigiu-se
para a porta, sem fazer caso das minhas observações e dentro em
pouco voltava com o pálido mestre-escola, singularmente embaraçado
com a assistência que se lhe pedia.
Emprazamo-lo disse a L..., usando das maneiras convenien-
temente familiares com que logo à primeira entrevista saber à von-
tade os seus interlocutores. Emprazamo-lo para que nos tire destas
paredes, destas naves, destas abóbadas uma memória, uma lenda,
um drama, seja o que for. Porque, há-de concordar, ir a gente daqui
sem qualquer destas coisas é desagradável, é impertinente, é triste.
O professor sorriu e naturalmente dirigiu o olhar para a capela
de onde o víramos sair.
Dali ? — exclamou a L... que lhe seguira o olhar. —Bem me quis
parecer. Há um ar de mistério naquele altar,; mas já procurei e nada vi.
Quer V. Ex.' que as paredes falem, sem se lembrar que elas
só dizem o que a gente lhe ordena.
Cale-se, doutor. Os códigos asfixiaram-lhe toda a poesia que
talvez em tempos felizes existiu em si. E seo experimentemos. Glose
este mote alambicado:
Saudade, cruel saudade
Tormento da minha vida.
o sou capaz de a satisfazer ao ser que me conceda algu-
mas semanas para procurar inspiração nos autos administrativos e par-
tes dos regedores.
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
Então, silêncio! Este senhor, tenho fé que satisfará gentilmente
a nossa curiosidade. Ou eleo fosse um poeta!
Poeta! disse timidamente o interpelado.
Sim. Sabemo-lo porque o doutor o denunciou e denunciava-o
até esta sua visita solitária à capela de onde há pouco saiu. Vamos,
diga-nos, o que há nela de interessante?
O mancebo continuou a sorrir e parecia hesitar em tomar uma
resolução. Depois, corando levemente, tirou de um livro que trazia
nao um pequeno papel, no qual se enfileiravam linhas regulares
de uma letra miúda mas de traço firme e entregou-o sem pronunciar
uma só palavra à L,.., que se apoderou dele com vivacidade. Como
menor presteza nos aproximámos eu e o doutor e por cima do ombro
da L... fomos acompanhando a leitura das seguintes quadras, leitura a
que ela procedeu com voz profundamente comovida
A NOVIÇA
«Oh! vem, querida irmã; do santuário do templo
Já desce a receber-te o celestial esposo.
Vem ser da nossa fé sublime e vivo exemplo;
Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.
«Vem; dos círios à luz, ao som de alegres hinos,
Cinge o hábito escuro, emblema da humildade,
E, abrasada no ardor dos teus estos divinos
Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade.
«Esposa do Senhor, virgem cândida e pura,
Do teu noviciado expiram hoje os dias.
o tremas ao fitar as portas da clausura,
Também na estreita cela há grandes alegrias.»
Assim das monjas soa o religioso canto:
Juntas, em procissão pelas extensas naves
Espalham-se na igreja as vozes do hino santo
Melancólica voz de aprisionadas aves.
Caído o longou por sobre a fronte airosa
Caminha lentamente a pálida noviça;
Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,
Um como cintilar de lâmpada mortiça.
Sobe os degraus do altar, humilde se ajoelha
E ao culto fervoroso as tranças sacrifica.
«Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,
Teus tesouros d'amor nas asas santifica.»
E o coro ergue outra vez o ritual hosana,
Entre nuvens de incenso, à voz do órgão sagrado;
Responde-lhe o rezar de multidão profana,
Que transpôs curiosa o pórtico elevado.
INÉDITOS E ESPARSOS
A cerimónia é finda; a monja de joelhos
Permanece, inclinada a face para a terra;
Era no ocaso o Sol; e seus clarões vermelhos
Vinham tingir o altar, ungindo ao longe a serra.
Longo tempo ali esteve, as pálpebras descidas,
. Imóvel, silenciosa, em êxtase absorta,
Ergueram-na afinal as monjas comovidas;
Doloroso mistério, a pobre estava morta!
Tinha ouo razão ? exclamou a L..., elevando ao ar o papel
assim que acabou de o ler.
Todos instintivamente procurámos o autor. Havia desaparecido.
Estupefactos olhámo-nos em silêncio sem saber o que pensar
desta surpresa. Bem longe estava eu naquele momento de encontrar
um metrificador de alexandrinos !
Agora o que me apetecia decifrar disse eu ao doutor era
o mistério deste melancólico e simpático mestre-escola.
Se V. Ex.* ordena, porei em acção os meus cabos de polícia
para qualquer dia me habilitar a revelar-lho, já se sabe, em estilo de
relatório administrativo,
Pois olhe, esse mistério preocupa-me pouco disse L... o
que pretendo é saber os fundamentos disto — e apontou para o papel
que conservava na mão.
Fantasias disse o doutor.
E como diz isso! Fantasias! E é coisa de pouco valor isto de
fantasias? Assim fantasia quem quer? Pois há três horas estou eu a
pedir-lhe que fantasie e o doutor sem me fazer essa fineza que, pelos
modos, lhe parece fácil tarefa. Ora, na verdade,o lhe mereço essa
crueza de frase que me está revoltando.
Por amor de Deus,o me condene, minha senhora. Ninguém
admira mais do que eu as obras de imaginação; mas como vejo que
V. Ex." quer achar forçosamente razão de ser a uma coisa que a con-
m em si, é por isso que eu...
Mas ele olhava insistentemente para esta capela. Deve estar
aqui a explicação que procuramos.
Vamos disse eu tenha a condescendência de procurar
connosco.
Mas procurar o quê ?
O mistério.
Mas que mistério ?
O vestígio do drama denunciado nestes versos disse a L...
Venha, acompanhe-nos.
Investigámos tudo. Eu, pela minha parte, nada encontrava. AL...
o era mais feliz. De repente o doutor perguntou, no tom de indi-
ferença que lhe dera para afectar naquela manhã;
Serve-lhes uma inscrição tumular ?
INÉDITOS E ESPARSOS
Uma inscrição? exclamou a L... —Pois que mais poderemos
querer ? Está decifrado o enigma! Leia, leia depressa.
Hic jacet principiou a dizer o doutor.
Latim, doutor! exclamámoss a um tempo, com o mais
justificado dos terrores.
Eu traduzirei, que até aí ainda chega a minha sabedoria.
O pior é que as letras estão quase todas safadas. Aqui jaz... a irmã
Maria de...o sei quê... Nasceu aos... do ano do Senhor de mil seis-
centos e... tantos, professou aos... tantos de tal e morreu in codem
no mesmo dia. Pater noster.
Vitória! exclamou a L... com um grito que ecoou por toda
a igreja. Até que enfim! Esta pedra com o seu eloquente laconismo
vale um tesouro!
Que entusiasmo!o o compreendo dizia o doutor, sorrindo.
Que grande significação acha V. Ex." nessa descoberta?
Que significação ? Poiso vê nela confirmada a interessante
história contada nestes versos? Desvendado o doloroso mistério que
matou aquela pobre mártir no próprio dia do seu noviciado?
Romances, romances... poesia, minha senhora. Se V. Ex.
a
quer, eu
vou glosar-lhe mais prosaicamente este epitáfio. Era talvez uma menina...
Cale-se, bárbaro! Que aflição!o lhe perdoaria nunca se
me tirasse a memória agradável que afinal consegui levar daqui.
E, sabe? Vou rezar por aquela desventurada.
E a L..., ajoelhando junto ao altar da capela, pôs-se a rezar.
No entretanto dizia eu ao doutor:
O que me parece interessante, curioso e, quem sabe se huma-
nitário até, é estudar o carácter e história deste mestre-escolao triste
quanto simpático. Porqueo há-de dar-se a essa tarefa, doutor?
Estava pensando agora nisso mesmo. Alguma coisa que sei
já dele excita-me a curiosidade.
Então diga o que sabe, diga.
Deixe-me investigar o que me falta saber para então lhe contar
a história completa.
E prometeo se esquecer ?
Prometo.
1
Dou-lhe então quinze dias.
Será pouco; mas farei a diligência poro faltar.
Ao sair da igreja ainda fomos à escola da aldeia procurar o profes-
sor, maso o encontrámos. Voltámos em seguida para casa. AL... com
a poesia e com a sincera crença na história da noviça, história que ficará
sempre misteriosa se algum romancista ao quiser decifrar, e eu inte-
ressada em conhecer a vida deste mestre-escola e insistindo com o dou-
tor para seo demorar em satisfazer estao justificada curiosidade.
Se ele cumprir a promessa, terás cedo, minha Cecília, notícias
minhas.
Diana de Aveleda.
CARTAS À VONTADE
A CECÍLIA
Publicada em 10 de Julho de 1867 no sema-
nário «Mocidade».
AMAS, MESTRAS E MARIDOS
Vais gritar: paradoxo! ao ouvir-me afirmar, Cecília, que da
maneira por que as coisas vão, cedo veremos desaparecer da cena
social essa poética e amável entidade, esse tipo afectuoso e cândido
a que chamamos mãe.
Pois é com íntimo convencimento que to digo, acredita, e com
doloroso aperto de coração também. A mãe, a mulher sublime, que
tantas vezes inspirara o escopro, o pincel e a pena, que a arte aureo-
lava de prestígios ao apresentar-no-la espiando com antecipada ale-
gria o primeiro sorrir da criança adormecida ou apertando-a amorosa-
mente ao seio, àquele seio que pela segunda vez a faria mãe; o anjo
da guarda que velava com carinhosa solicitude o sucessivo desabro-
char da inteligência do ente fraco, que a natureza e a sociedade colo-
caram sob a sua protecção e assim fazia a abençoada sementeira de
afectos, que deviam mais tarde florescer e frutificar; a confidente natu-
ral dos primeiros segredos do coração, que nasce para a vida dos
objectos; a fada que pela magia do seu amor extremoso, debaixo da
sua suavidade, serenava a revolta das paixões, tornava salutar o
fogo que pudera ser destruidor, essae tende a desaparecer; mais
algum tempo e tornar-se-á lendária. Matam-na, anulam-na os hábitos
actuais.
Um dia virá em que o poeta, tocado pela majestade daquele
INÉDITOS E ESPARSOS
tipo, pelo augusto daquela missão,o poderá exclamar, dirigindo-se
a elas, como aindao há muito o fazia um poeta portuense;
Ó santas que embalais o berço das crianças !
Não; porque aso encontrará aí junto desse berço, de onde
a moda terá conseguido arrancá-las para as substituir pela ama mer-
cenária.
Ao coroar-se de flores de laranjeira, a noiva dos nossos diaso
principia vida nova; para elao se fecham as portas dos bailes e dos
salões. Espera que os vagidos infantis ao afastem de, retendo-a
no gineceu, porque em outros ouvidos declinará a impertinência de
os escutar, em outros seios o encargo de os satisfazer;o será ela
que escutará enlevada, que procurará decifrar as primeiras mal arti-
culadas sílabas do pequeno ser que desperta à luz do mundo, não,
que mais agradáveis lheo as frases completas, inteligíveis, tornea-
das, elegantes, pelas quais recebe nas salas a afirmação de que é
ainda bela.
Bela ! E precisa que lho afirmem! Como se a verdadeira mater-
nidadeo devera ter sempre a consciência de que o é! juram-lhe
que perante o viço exuberante da sua formosura, ninguém a acredi-
taráe e isto lisonjeia-a!
Corre-se deste nome sagrado que em casa, a todo o momento,
lhe está apregoando entre choros e sorrisos essa criança queo sabe
ser lisonjeira, calando-ol'
Este continuado memento quia mater es se me é lícito falar
latim, impacienta-a! Pobre senhora! Ela tem razão. Como seo bas-
tassem para preocupá-la e afligi-la os descuidos e as imperfeições
da costureira!
Olha, Cecília, no pequeno drama íntimo, que o nascimento de
uma criança faz representar sob cada tecto, o papel mais simpático
é, quanto a mim, o da ama.
Ela, a quem muitas vezes a miséria obriga a recusar o seio ao
próprio filho para o oferecer ao de outra mulher que, quase sempre,
voluntariamente o nega ao seu, olha ao princípio com desculpável
aversão para este inocente usurpador que se lhe pendura ao colo;
mas pouco a pouco afaz-se àquele olhar carinhoso que a fita; àquele
sorriso que inscientemente a consola quando a saudade lhe está ainda
orvalhando de lágrimas os olhos; àquelas pequenas mãos, que a afa-
gam ; àqueles lábios que a beijam; e ela, a pobre, a rude mulher,
chega a persuadir-se que um milagre de Deus permitiu que o espírito
de seu filho viesse animar este corpo débil, que voasse evocado pelo
amor materno, a acolher-se ao seu abrigo, e iludida, apaixonada, já
o distingue entre os dois, já sente de novo estremecer suas entra-
1
Guilherme Braga
INÉDITOS E ESPARSOS
nhas dee a cada grito aflitivo do infante, inundar-se-lhe de júbilo
o coração, a cada sorriso de alegria! Enquanto ae verdadeira se
embriaga no volutear das valsas, que a arrebatam de sala em sala,
como em nuvens de harmonias e perfumes, ela, à luz da lamparina
doméstica, acalenta-lhe o sono do filho, cantando uma daquelas melan-
cólicas e populares cantilenas, que ae ignora, pois só lhe ensina-
ram a cantar romanzas, baladas e rondós, em italiano. Ora o estilo do
cantar da óperao é muito próprio para acalentar crianças, e neste
ponto, é uma providência que ae seo julgue obrigada a soltar
junto do berço as notas que foram aplaudidas na sala.
Assim decorrem meses de íntima convivência da ama e da
criança. Fora um pensamento de interesse que trouxera aquela mulher
àquela casa; mas agora um laço mais forte a retém ali, prende-a um
sentimento generoso como poucos; e é quando o laço é mais forte, é
quando o amor a estreita à criança, à qual cedeu porção de sua vida,
que um dia lhe dizem «Parte!».
O amor que ela viu nascer, que cultivou com alegria,o lhe
era destinado; arrancar-lho-ão do seio, embora este fique sangrando
ao separar das raízes. A afeição daquela criança é como a planta
estimada que recebe de um terreno a seiva que a faz vigorosa e a
outro concede mais tarde a sombra da sua folhagem e o perfume
das suas flores.
Pobre mulher! Curvando resignada a cabeça à crueldade da sua
sorte, parte, acompanhada de saudades, como com elas viera. Rega
segunda vez de lágrimas o limiar daquela porta. Encontra lá sentada,
onde a deixara, a imagem da melancolia, que lhe estende novamente
a mão.
E a mãe, ae elegante, recebe então nos braços a criança,
que passada já a idade dos primeiros vagidos, é menos exigente e
incómoda; agora já diverte pelos seus ditos e brinquedos; é uma dis-
tracção para a indolente senhora. Mas como todas as distracções repe-
tidas cansam, estas mesmas graças infantis acabam por aborrecê-la.
Depois vem a época da educação e esta exige cuidados e aten-
ções para as quais falta a paciência à nervosa dama, que, sem grande
prejuízo dos negócios do toucador, seo poderia entregar a eles.
Novas exigências sérias obrigam portanto a uma nova abdicação.
Deixando o regaço materno é a criança entregue aos cuidados
de: uma mestra.
Uma mestra! Valha-nos Deus! nesta personagem nem sequer
encontra a poesia da ama. É um tipo exótico e de procedência britâ-
nica principalmente, que eu do coração detesto. As melhoreso pas-
sam de um código vivo de regras e máximas de bem viver, frio,
rígido, inflexível, impertinente, antipático.
A preceptora, que ensina como se dança, como se reza, como
se fala, como se corteja, como se deve sorrir e atéo sei se como
se deve chorar, esmera-se principalmente em insinuar no ânimo de
INÉDITOS E ESPARSOS
suas educandas os princípios de hipocrisia social, que se chama a eti-
queta, e esforça-se por sufocar tudo o queo impulsos naturais,
espontâneos de um coração sensível. Das suas mãos saem destas rapa-
rigas ques todos os dias encontramos na sociedade em que cada
gesto, cada palavra, cada movimento, cada sorriso, é regulado pelas
prescrições de uma coisa, que se chama por aí—uma educação distinta.
Pobres meninas! Constrange-as, mais do que o espartilho, uma
absurda pragmática, à qual se deixou usurpar o lugar da verda-
deira moral.
Daím essas reservas, menos modestas e cândidas do que as
expressões cheias de confiança, de quem muitas vezeso desvia os
olhos do mal, por o desconhecer; daím esses ouropéis da inteli-
gência, com que se procura encobrir a nudez, em que deixaram o
coração.
A língua francesa, uma geografia comezinha, uma história do
Museu das Famílias, as primeiras noções de desenho eo sei o que
mais, soma total, uma pedantaria que desespera, um falar de tudo com
suposição de que de tudo se sabe, eis a grande ciência por cuja aqui-
sição as tristes raparigas pagam o exorbitante preço das carícias mater-
nas ! Cada composição francesa, insulsa e descorada, que a mestra
aplaude como um modelo de linguagem e de estilo, foi escrita à custa
de um grande sacrifício; foi preciso resignar por ela o ensino afável
mas insinuante, despretensioso mas contínuo, livre mas indelével
que umae verdadeira sabe fazer com um sorriso, com uma oração,
com uma esmola e com o exemplo.
Malfadadas mães, que estais por vossas próprias mãos rasgando
a alva túnica da pureza, ou mágico da poesia com que o nosso amor
vos revestira! Já voso víamos junto dos berços e ainda agora vos
o encontramos a presidir aos jogos, a dirigir as primeiras preces
1
,
a formar o coração dessas pequenas mulheres, que um dia em sua
consciência vos julgarão e condenarão por lhes terdes privado assim
a infância de afectos e carinhos.
Que mal compreendeis a vossa missão sagrada!
Abdicastes a vossa dignidade abençoada, perante a instituição
dos colégios. Os colégios! Perdoa-me, minha boa Cecília, seo posso
calar a minha aversão por esta palavra e por a coisa que ela exprime
os colégios.
O colégio é uma empresa industrial, que se propõe formar inte-
ligências e corações para a sociedade. E como os forma ela? Muitas
vezes ouvi da tua boca humorística a descrição dos seus processos.
As regras da ciência e os preceitos da moralo formulados em
comum e horas fixas por dia a todos os que ali concorrem; observa-se
nisso a escrupulosa regularidade de um estabelecimento industrial.
A regra do ensino é inflexível, inalterável, única.o se modifica
para amoldar-se às desigualdades de aptidões e caracteres de cada
discípulo, que para tanto falta o tempo e a paciência.
INÉDITOS E ESPARSOS
o se procura combater o mal, sob as suas formas mais ocultas
e dissimuladas; institui-se contra ele uma batalha organizada e geral.
É sob um fogo cerrado de preceitos e conselhos, registados no
programa, artilharia formidável cujo estrondo é repercutido ao longe,
que se procura a vitória dos bons princípios. Ora o inimigo é arteiro e
dado à guerra de emboscadas. Deixa troar nos ares os canhões da
educação oficial, mostra-se subjugado pelos princípios que lheo
respeitávelmente impostos e, oculto em algum lugar inacesso às metra-
lhadas disciplinares, espera por ocasião favorável para desenrolar
aos ventos a sua bandeira de guerrilha.
Porque o desgraçado estava intimidado, maso convertido, se
o aparecia era por prudência eo porque tivesse deposto as armas
e renunciado à rebelião. Para o converter, para tornar impossível a
insubordinação futura, era mister substituir o general que com as bocas
dos seus canhões e espingardas defende todas as estradas e caminhos
e o obriga a viver oculto pelas cavernas e florestas, pele missionário
que se aventura à longa, laboriosa e até terrível peregrinação do deserto,
que fosse procurar o rebelde ao seu esconderijo, que se aproximasse
dele com o sorriso nos lábios e a fé no olhar; que lhe falasse com amor
e brandura, sem se deixar intimidar nem desalentar pelas primeiras
resistências e defecções; que dali seo levantasse sem o trazer con-
sigo pela mão, humilde, resignado, mais do que resignado, contente
pela estrada ampla da virtude para o bom caminho da felicidade.
Mas este papel de missionário só umae o pode desempenhar.
Esta obra de persuasão, eo de repressão, só do ensino individual,
doméstico, íntimo pode ser exigida.
A directora do colégio contenta-se com a submissão aparente,
com a obediência explícita;o gasta tempo nas delicadas e metafí-
sicas sondagens das consciências sempre que a rebelião seo revele
em actos, embora esteja nos espíritos. Proclama a ordem.
É uma espécie de ordem de Varsóvia. É o Evangelho imposto
a lançadas e pelouros eo pelo poder de catequese. Os actos de
submissão da educandao muitas vezes comparáveis à missa hugue-
note de Henrique IV.
Nem outra coisa se podia exigir destas casas de educação.
O ensino nos colégios há-de ser forçosamente administrado como
a alimentação em refeitório. Mal da instituidora se ia a fazer cozinha a
parte segundo os gostos e talvez as necessidades de organização de
cada educanda. A tantoo vai o seu compromisso. Só as mães sabem
temperar diferentemente o prato de cada filho, só elas igualmente
sabem ministrar, sob formas diversas, a cada um o ensino dos pre-
ceitos invariáveis de uma sã moral.
A este deve o ensino ser feito com sorrisos; àquele quase que
com lágrimas; umas vezes uma súplica vale um código de preceitos;
outras, uma palavra severa, um gesto de desagrado, corrigem mais
que todas as clássicas penalidades do colégio. Mas a preceptora tem
por prática adoptadao tomar estas fases diversas, o que, segundo
ela, seria indigno da sua gravidade e importância profissional.
o ri,o chora eo suplica; endireita-se, franze o sobrolho
e repreende com a mesma voz com que manda trabalhar, manda
brincar, manda rezar, manda até dormir. Sempre o regulamento,
sempre a disciplina!
Oh! eu abomino os colégios e por isso é que morro de simpa-
tias por todas as privilegiadas que, como tu, Cecília, saíram daquelas
casas com os afectos do coração salvos e com o espírito livre de pedan-
tescos preconceitos, numa palavra,o propriamente tu como se
nunca tivesses saído de junto de tua mãe, que só a chorar se resignava
ao sacrifício de te apartar de si.
A mestra é quando muito como o director de uma oficina de fun-
dição que recebe de fora os moldes em que tem de vazar os metais
mais diversos confiados aos seus cadinhos e procede a essa obra com
escrúpulo, mas sem aspirações; ae é o artista, que a golpe de
cinzel vai modelando a sua obra, vendo-a tomar vulto e expressão
com estremecimentos de entusiasmo. A inspiração nunca a abandona,
a cada instante o génio lhe formula um preceito, a cada instante lhe
modifica outros. É mais íntima a sua relação com a obra que produz,
porque ela é efectivamente a realização de um pensamento seu; é
como que uma parte de si mesma numa existência independente.
Deixem embora às mestras o cuidado de dar às jovens educan-
das esse verniz de educação que as tornará bem vistas na sociedade,
quando as mães lhoo saibam dar, maso lhes confiem o resto,o
lhes confiem sobretudo o coração, que é mais uma vez deixar de ser
mãe, renunciar a um dos mais santos, mais invejados direitos da mater-
nidade.
Mas enfim volta a casa com quinze anos a filha que aos oito se sepa-
rara da vigilância materna.
Como vem prendada! Sabe dançar, tocar piano, bordar, cantar,
falar francês, inglês e italiano, sabe que o mundo é uma esfera, que o
descobridor da América foi Cristóvão Colombo, que Sampetersburgo
é a capital da Rússia, que Napoleão perdeu a batalha de Waterloo, sabe
de cor os nomes de todos os poetas e romancistas notáveis da França
e Inglaterra, sabe tudo que a mestra lhe ensinou e muita coisa que
lhe deixou aprender. Traz os baús cheios de livros de devoção fran-
ceses, volumes de Bonald, de Lorgnes e Dupanloup e de envolta a
literatura de Alphonse Karr e Teoph. Gautier e a ciência de Figuier e
da Biblioteca das Maravilhas.
Numa palavra, vem uma menina da sociedade elegante, mais
devota que religiosa. Costumada ao culto do regulamento, sujeitar-
-lhe-á também o cumprimento dos seus deveres para com a divindade.
Fora das horas de devoçãoo lhe deixará remorsos um estouvamento,
um pecado de maledicência, uma inveja implacável; porém, nos momen-
tos decretados para o culto, a mais inocente e involuntária distracção
INÉDITOS E ESPARSOS
lhe avultaria como uma tentação diabólica, como um delito para ser
expiado por jejuns e cilícios. É moral de ocasião, infelizmente muito
na moda.
Eis a ocasião escolhida pelae para fazer valer os seus direi-
tos, para principiar a colher os frutos apetecidos do amor filial. Agora
sim, que é uma inteligência desenvolvida, que saberá apreciar devi-
damente os extremos maternais, que com a dedicação de filha lhe
recompensará o ter pago a sua amamentação a uma pobre mulher
de quem já ninguém se lembra, e despendido avultadas mensalidades
para a aquisição daquela geografia, daquela história, daquela educa-
ção que todos admiram. Enfim, chega o tempo de principiar ae a
ser mãe, tarefa que até agora tem adiado. É, porém, tarde para isso.
O coração da menina já começou vida nova, passou a oportunidade
para essas suavíssimas afeições que, cultivadas a tempo, deixam ves-
tígios eternos mas queo podem desenvolver-se quando semeadas
tarde.
O ideal revestiu novas formas,o o podereiss realizar. Pobres
mães e dignas de piedade sois decerto, se a peito tomais a tentativa.
Um dia aparece um homem a pedir-vos ao de vossa filha.
Este homem, ou seja impelido a dar este passo pelas incitações apai-
xonadas da menina, ou pelos cálculos positivos do pai, é em todo o caso
mais um rival vosso e desta vez aquele que nunca vos restituirá a filha
que ides confiar-lhe.
«Por este deixarás pai e mãe», esta lei quase fatal a ques todas,
mães e filhas, nos curvamos resignadas, era uma lei, cujo cumprimento
nunca deixava de ser selado com lágrimas de tristeza e de saudade.
Es mesmo tendes-vos esforçado por lhe facilitar a execução.
Afastando des o berço de vossos filhos, negando-lhes o seio, con-
fiando a estranhos a sua educação, deixando a outros tomar o lugar
de confidente dos primeiros segredos, anulais-vos ante seus olhos,
e quando um dia aparece o homem, que as separará de vós, dei-
xam-vos quase sem uma lágrima, porque mal vos conhecem, porque
se acostumaram a orar, a pensar, a chorar e a sorrir longe de vós, sem
vós, que de pequenas as repelistes.
É muitas vezes então que começa o vosso castigo. Os anos mos-
tram-vos a inanidade dos gozos do mundo em que viveis, pedem-vos
e ensinam-vos a apreciar a concentração do lar doméstico, a alegria
íntima, o amor dos filhos; mas é tarde.
Quando os procurais com sincero amor, fogem-vos eles.
Então, se a cegueira e a loucura da vaidade voso acompanhar
até ao limiar do túmulo, só vos resta ser ae dos vossos netos.
É frequente de facto, Cecília, vermos muitas dessas mulheres a
quem as loucas exigências da moda trouxeram sempre arredadas dos
deveres da maternidade, tornarem-se depois as mães estremecidas
dos filhos de seus filhos, pagando assim tarde à natureza o tributo que,
quase sacrllegamente, até ali lhe haviam negado.
INÉDITOS E ESPARSOS
É tempo de terminar esta carta, Cecília, queo tem a pretensão
de te moralizar. Tu és destas índoles privilegiadas que saem intactas
de todas ass influências.
Vives no mundo onde a moda é soberana e contudo, vê a fé que
eu tenho em ti, estou certa que, se um dia fores mãe, evitarás que te
usurpem o amor dos teus filhos essas duas rivais da maternidade — a
ama e a mestra e, se o fizeres, está certa que nunca to usurpará intei-
ramente o rival, quase sempre vitorioso o marido.
A afeição filial, duplamente confirmada pelo estado de amamenta-
ções e dos ensinoso murchará nunca, ainda mesmo que passe sobre
ela o vento esterilizador da paixão.
Adeus até breve.
Tua sempre
Diana de Aveleda.
CARTAS PARA A MINHA FAMÍLIA
Meu amigo
Voltámos ontem do campo sem que merecêssemos à política o
favor da tua presença, por poucos dias que fosse.
As pequenas chegaram boas e parece-me queo demasiado
saudosas dos prazeres e das belezas campestres.
Éo raro que raparigas de dezasseis anos amem a bucólica!
E é pena, que se me enchia o coração de alegria e de confiança,
quando as via a elas à sombra daquelas árvores salutares, respirando
com desafogo um ar embalsamado e vivificador.
o sei como me persuadia de que era impossível que elas me
adoecessem ali.
Sabes, meu amigo, aqueles meus continuados sustos, aqueles
meus escuros pressentimentos pela saúde dos nossos filhos, motivo
de me ralhares tantas vezes? Pois nunca os senti.
O campo era para mim como uma destas pessoas de juízo a quem
se deixa entregue um filho, quando a necessidade nos obriga a sepa-
rar-nos dele por momentos.
Olhava para aquelas velhas e frondosas árvores e parecia-me achar-
-lhes uns ares protectores e amigáveis que me inspiravam confiança.
Dir-se-ia que ao abrigarem minhas filhas na sua sombra me
diziam: Deixa-as connosco que tas protegeremos.
Mas enfim viemos; aqui estamos outra vez nesta terra do Porto e
aqui estaremos até à hora de emalarmos para qualquer praia de banhos.
E tu em Lisboa, e tu ocupado em acudir à Pátria, meu bom amigo,
e esquecendo por ela um poucochinho a família.
É uma virtude cívica a venerar em ti, Gustavo? Será? Eu sei?
Desculpa-me mas, como sabes,o morro de amores pela polí-
INÉDITOS E ESPARSOS
tica. Ou euo fora mulher, com quem em geral os políticoso bem
pouco amáveis.
Além de que a política ocupa-se de umas pequeninas coisas, que
são, sem contestação, as mais detestáveis de todas as coisas pequeninas.
Mas deixemos por hoje as minhas reflexões e reparos sobre
politica, Gustavo, e façamos como é nosso costume, quando aqui estás.
Lembras-te? Depois do chá conversamos às vezes horas esque-
cidas sobre os acontecimentos do dia, ora domésticos, ora civis, ora
alegres, ora tristes, e dizemos tudo quanto nos acode à ideia, sem
observância de programa nem de método, sem escrúpulos de estilo
e até sem rigoroso respeito pela coerência lógica da opinião.
Se a politica teo derrancou ainda de todo a bondade natural
e teo cerrou a alma às expansões afectuosas, ser-te-á agradável a
leitura das minhas cartas escritas, como conversamos, à vontade.
Escrever-te-ei sob a impressão dominante do dia.
A de hoje é pouco agradável.
Como te disse, chegamos do campo e as pequenas vinham ver-
dadeiramente ansiosas pelas distracções da cidade.
Andavam-me a falar em toilettes e teatros havia oito dias,
o tive remédio senão condescender.
Ao entrarmos na cidade depararam-se-nos nas esquinas uns car-
tazes enormes, anunciando no teatro deo João a Grã-Duquesa de
Gerolstein.
As pequenas fitaram-me uns olhos eloquentes.
Este olhar, as saudades que eu deveras sentia já por aquele nosso
elegante teatro e este titulo Grã-Duquesa, que há tanto tempo me anda
nos ouvidos como um zumbir de importuno mosquito volteando em torno
de mim, formaram a minha resolução de ir ao teatro essa mesma noite.
Fui; fomos e que doida alegria a da Ernestina e da Luísa! Pobres
pequenas! apesar de todo o prazer que me vem sempre da vossa ale-
gria, quis mal a mim mesma por ter cedido à tentação desta vez.
O Gustavo, tu que viste já a Grã-Duquesa,o adivinharás o resto
da minha carta? Tu que tens vivo o sentimento e o respeito da arte,
que te entusiasmas pelo belo, que concebes o que deve ser o teatro
na sociedade,o voltaste de assistir a essa híbrida e absurda compo-
sição teatral, como eu vim ontem de? com desgosto, com tédio, com
indignação, duvidando do progresso da arte, acreditando na total
degeneração do gosto entre nós?
Que época atravessamos, meu amigo?
Que cidade de quase cem mil almas é esta em que só se aplaude
o disparate ? Há nada mais vergonhoso do que uma crónica da última
época teatral no Porto ?
Dois êxitos brilhantes a caracterizam: O jovem Telémaco e a Grã-
-Duquesa, dois disparates, duas irreverências para com o bom senso,
para com o bom gosto, para com a arte nobre e digna, para com a arte
que se respeita!
INÉDITOS E ESPARSOS
Maso é isto uma imoralidade também?
Poiso é certo que as belas artesm uma missão social a
preencher?
o é certo que encaminhá-las erradamente é ofender o interesse
público ?
o é verdade que progride na carreira da civilização um povo,
cujo bom gosto e instintos se educam e aperfeiçoam pela arte e que
se deprava e desmoraliza o que se costuma a insultá-la?
Que malévolo espírito move então os artistas a perverterem
assim o gosto em vez de o educar? a porem às ordens do despropó-
sito e do desconchavo as harmonias da música, a cadência da poesia,
as ilusões da pintura, numa palavra, todos os prestígios da arte ?
E ilumina-se para isto um teatro! e enfeitam-se as senhoras nos
toucadores! e rodam as carruagens nas ruas e avilta-se uma orquestra
para acompanhar o carro do triunfo do disparate!
E no dia seguinte emprega-se tipo para falar no assunto!
Acabou pois a religião da arte entre nós?
Poiso é a arte uma religião também?
o haverá ninguém a quem estas orgias aflijam e revoltem,
como o austero, o fervente sacerdote que visse o tripúdio profanando
o lugar de augustos sacrifícios ?
Esta aberração do gosto público, este desvairamento que invade
todas as cabeças, esses excessos e abusos que fazem recuar séculos
o nosso progresso artístico, dura, reina, propaga-se, sem que uma
coorte de leais entusiastas e vigorosos lutadores se levante para com-
bater a todo o transe o mal deplorável! combatê-lo através de sacri-
fícios, combatê-lo apesar da indiferença ou das repugnâncias do público,
combatê-lo como combateu Garrett, como combateu Vítor Hugo, como
combateram todos quantos tentaram uma reforma literária útil e eficaz.
Pois tinha fé que venceriam, se bem de alma e com boa coragem
o tentassem! Os instintos da arteo morrem no povo; adormecem
às vezes; mas é pronto o seu acordar, se os desperta uma voz altí-
loqua animada por uma verdadeira crença, por uma sincera e pura
intenção.
É preciso pronto remédio para este mal, que é grave.
Há muito que lavra, revelado por essas produções mórbidas da
arte, que se chamam paródias e disparates, galhas venenosas que
vegetam sobre os ramos viçosos de uma literatura e lhe roubam a
seiva dissipando-a em excrescências balofas e inúteis como bugalhos
ou prejudiciais como esses cogumelos destruidores das searas.
Isto acusa uma debilidade crescente na imaginação dos autores
e uma assustadora irreverência nas massas para tudo quanto há de
belo e portanto de venerável.
Afadiga-se um compositor em traduzir pela música as paixões
violentas, os efeitos suaves, as tristezas e os júbilos, que formam o
drama da vida. Exaltado, febril, na excitação nervosa que acompanha
INÉDITOS E ESPARSOS
os mistérios da concepção,o vive senão para aquela ideia, através
da qual antevê o esplendor da glória. A inspiração visita-o, ilumina-lhe
as noites deo longas e laboriosas vigílias e após esta aurora, surge
a obra de arte esplêndida, impregnada do pensamento do artista, cheia
de vida e de futuro e anelando levantar o voo em busca de mais amplos
horizontes, por um instinto como o da ave que, ainda com pouco vigor
para bater as asas, já estremece seduzida pelo espaço vasto que a
rodeia.
Um dia parte a filha predilecta. Separa-se dela a procurar a rea-
lização da sua última metamorfose, a sua encarnação final.
Chega ao teatro perante uma multidão que a aguarda despre-
venida ; revela-se enfim, primeiro timidamente como se as nervosas
pulsações do compositor naquele momento se reflectissem na obra;
pouco a pouco ganha coragem e desassombro; fala, penetra nos cora-
ções, subjuga os sentidos, domina as massas, e o sonho da ambição
do artista realiza-se e compensa-lhe as vigílias de muitas noites uma
só noite de glória.
Mas, a um canto da sala, no meio desse mesmo entusiasmo e delí-
rio, há um coração frio e incapaz de sentir, que seo comove; há
um olhar maligno que estuda a comoção da plateia eo se fascina;
há um pensamento satânico que premedita uma obra sacrílega.
E uma noite basta a esse espírito para consumar a obra fácil,
ímpia, fatal à arte, perversa e imoral que premeditou:
A mesma música concebida para exprimir sentimentos e paixões
elevados e nobres é por ele rebaixada às vulgares, ridículas e insulsas
peripécias de um enredo chocho e rasteiro; e a musa que nas vestes
alvíssimas com que a inspiração a cingira, arrebatara a multidão, agora,
irreverentemente, vestida com o jaleque multicor de truão e atada ao
pelourinho das praças, recebe as alvares e insultuosas gargalhadas
dos mesmos que a adoraram e que experimentam um maligno prazer
em desprestigiar o seu ídolo.
E quando de novo se apresenta aos mesmos olhares, sob as suas
primeiras vestes, há sempre quem se recorde de a ter visto já de outra
maneira, e ainda então o riso a insulta.
o é esta uma acção altamente condenável?
o é quase o mesmo que expor em completa nudez aos olhos
cinicamente curiosos do povo uma virgem ingénua e pura, cuja ino-
cência os mais ousados respeitam e condená-la assim a corar eter-
namente ao recordar a sua involuntária aviltação?
E esta profanação é a última recompensa que recebe o artista
pelas suas fadigas!
Nos seus sonhos de glóriao contara com o apupar das turbas!
E consente-se o atentado! Eo se protege a obra do génio de
o irreverentes ataques?
Estes insultos tem-nos recebido com a música, a poesia também.
A paródia nada respeita. Os mais belos tipos, as mais ideais concep-
INÉDITOS E ESPARSOS
ções, as mais brilhantes imagens que tem concebido uma fantasia de
poeta, de dramaturgo, de romancista, tudo ela abocanha e profana.
Para fazer rir as turbas, os truões dos nossos dias, ignorantes
dos verdadeiros mistérios da arte, destituídos de engenho, incapazes
de produzir nada útil, especulam com os contrastes irreverentes e
fazem rir como o macaco porque irrisòriamente imita as visagens do
homem, como o papagaio porque de igual forma, lhe imita a fala!
E todos riem, ainda que me quer parecer que no peito de lodos
se esconde certo desgosto, como o que eu sinto e em geral toda a gente,
perante essas duas paródias do homem, que nos apresenta a natureza.
Quem há que experimente por um mono a mesma afeição que tem a
um cão? Ou que ligue a um papagaio o interesse que lhe inspira o
original e inspiradíssimo rouxinol?
Em geral é o gosto duvidoso de um embarcadiço ou sertanejo da
América que mais os aprecia.
Mas ao lado da paródia nasce o disparate. É mais um passo dado
pela arte no caminho da devassidão.
A musa perde então todo o casto pudor que caracterizava as
nove filhas de Júpiter.
Ei-la no palco, desgrenhada, descomposta, ébria, rouca da orgia
e do tripúdio, soltando como a bacante cantigas licenciosas e risadas
cínicas. Reparem para aqueles gestos, para aquelas maneiras, para
aquelas danças e digam se ó esta a musa que se respeita, se é esta a
musa que civiliza.
E é no mesmo tablado onde nos apareceu já a severa e nobre
Melpómene, no palco onde se nos revelou o génio de Donizetti, de
Bellini, de Meyerbeer; em que o drama leal e consciencioso nos tem
por vezes comovido e onde havemos aplaudido a boa e salutar comé-
dia; é a esse mesmo tablado que deixaram subir a embriagada?!
Eo receiam queo volte ao templo assim profanado a arte
que se preza?
Fechem antes os teatros, fechem-nos, porque os espectáculos
assimoo os que civilizam, corrompem;o educam, pervertem.
Sabes tu, meu amigo? estou em acreditar que vamos a respeito
de arte num período de retrocesso.
o sei se te lembras de que nos nossos tempos de criança havia
nesta hojeo enfastiada cidade uma companhia lírica italiana e uma
companhia nacional. Tenho uma vaga ideia de que o teatro português,
bom ou mau que fosse, era então concorrido, que ninguém se enver-
gonhava de o frequentar e de se interessar por os assuntos teatrais.
A arteo florescia, é certo, mas encontrava no interesse do público
uma garantia da sua regeneração. Pouco a pouco abandonaram o tea-
tro nacional e só foi moda tratar do teatro lírico. Hoje nem desse.
De maneira que no decurso de um ano, abrem-se três ou quatro
vezes as portas dos nossos teatros e lançam-se ao difícil e apurado
paladar do nosso público delicados manjares como este: «El joven
INÉDITOS E ESPARSOS
Telémaco», «Franchifredo», «Os sete castelos do Diabo», a «Grã-
-Duquesa»; amanhã o «Barba-Azul» eo sei quantas mais paródias,
mágicas e disparates e tudo isto condimentado com uma especiaria de
cenas cómicas insulsas e farsas sem sabor, em que um falso cómico
usurpa o lugar do cómico de bom quilate.
E o talento de alguns bons actores que temos, a corromper-se a
falta de exercício nobre e consciencioso da arte!
Diz-me tu quantas vezes encontras o Taborda desempenhando
um papel digno dele?
Do coração abomino todos os colaboradores desta obra ímpia
da depravação da arte.o perdoo, por exemplo, a Offenbach o
aceder ao derrancado gosto da época, pondo ao serviço dele o seu
grande talento musical. Um homem verdadeiramente artista nunca o
teria consentido.
O sacerdote que, para satisfazer os caprichos de uma companhia
de ébrios, consente em entoar salmos e antífonas na sala de uma
orgia, avilta a religião de que é ministro e polui os lábios que nunca
mais celebrarão nos altares com a pureza digna do sacrifício.
Mas, dizem os homens para quem as regras do bom gostoo
mudáveis e chegam todos os anos com os figurinos de Paris e das
capitais à moda, que escrúpuloso esses de portuguesa puritana?
Acasoo se aplaude hoje a «Grã-Duquesa» em Paris? o «Barba-
-Azul»? e todo este género a que tanta aversão mostras?
E que me importa ? Se fosse certo como dizem, que em Paris é
este o gosto dominante, o queo posso ainda acreditar, se fosse
certo que o mais espirituoso povo do mundo precisava já para excitar
a sua embotada sensibilidade, destes derrancados produtos de uma
arte aleijada e doentia, euo duvidaria dizer que a arte estava em
lamentável decadência lá também; que a imaginação parisiense sen-
tia-se esgotada e o gosto em via de perder-se.
Se em vez de ser só Paris, toda a Europa, todo o mundo aplau-
disse estes escândalos, ainda assim a consciência nos dizia que toda a
Europa, que todo o mundo estava em declinação em assuntos de arte
e de gosto porqueoo de convenção as regras do belo. Há em
s alguma coisa que no-las formula, que no-lo ensina a reconhecer
e que nos dá a coragem e a convicção para nos revoltarmos contra
a opinião geral, quando a sentimos extraviada da verdadeira e recta
estrada que o gosto e a razão lhe traçaram.
Maso é assim,o pode ser assim! Em Paris ao lado do mal está
o remédio; ao lado da arte doente e degenerada, a arte sã e vigorosa.
Entres o mal é maior porque, nação de pouca gente, quando
o mau gosto estabelece uma corrente para os teatros, desaparece o
bom gosto, à falta de quem o siga.
E depoiss hoje estamos em um período de educação artística,
desfavorável à verdadeira arte e no qual estes excessoso perigo-
síssimos.
INÉDITOS E ESPARSOS
O gosto de uma nação corre fases como o gosto de qualquer indi-
víduo. Em criança, por exemplo, o teatro interessa-nos de uma maneira
diversa daquela por que nos influi adultos. É o enredo do drama que
nos comove eo as belezas literárias,o o mérito dos artistas que,
se nos influem, é sem que o percebamos. Choramos as desgraças
da protagonista, odiamos o tirano, aflige-nos como real a morte das
personagens simpáticas, trememos ante a perspectiva de um duelo e
recolhemos a casa alegres ou tristes, conforme a natureza do desfecho.
Esta ingenuidade dissipa-se cedo; substitui-a mais tarde o gosto
pelas belezas da composição e da execução. Este, porém, forma-se
mais lentamente do que se dissipa a primitiva ilusão de que falámos.
Daqui resulta haver um período de transição em que já noso ilude o
enredo como em criança nem ainda nos comovem as belezas literá-
rias, como quando o bom gosto se formou em nós.
Nesse período frequenta-se o teatro com insensibilidade artística,
apreciam-se tanto os intervalos como os actos, é indiferente perder
uma cena inteira ou no principio ou no fim e, se a modas isso em
costume, adopta-se o costume da melhor vontade.
Então aplaude-se tudo quanto a moda recomenda, o entusiasmo
o é espontâneo, é de convenção e antes de saber se nos devemos
arrebatar, perguntamos se o que vemos já arrebatou alguém que auto-
rize o entusiasmo.
O nosso povo na sua educação artística está quase neste caso,
acha-se neste antipático e estéril período de transição.
Perdeu já aquela ingenuidade dos bons tempos em que corria
aos teatros interessado pelas peripécias dos grandes dramas em que
chorava e ria e se indignava com diversos episódios que presenciava
de boa; em queo completamente encarnava nos actores as per-
sonagens do drama, que nem os distinguia.
Eleo queria então saber quem era o autor da obra dramática,
que o interessava. Esquecia-se até de que um drama precisa de ter
um autor.
Estava na infância do gosto, nem os teatros eram então con-
corridos.
Desenvolveu-se, porém, o nosso público e hoje já assiste com o
sorriso céptico aos espectáculos; já tem vergonha de os tomar a sério,
de chorar nas cenas sentimentais, de rir abertamente nas cómicas.
Mas, por infelicidade, o bom gostoo veio ainda ocupar o terreno
para fazer florescer a arte.o há ainda bastante amor e conheci-
mento dela para manter entres um teatro permanente.
Quem dá as leis, quem domina exclusivamente é a moda. Aplau-
de-se o bom e o mau, contanto que a moda o recomende.
o capazes de fazer hoje uma ovação à Ristòri e passar a noite
seguinte a ouvir em delírio as intermináveis e insulsas coplas de Telé-
maco na ilha de Calipso.
Ponham pois em moda o bom, os legisladores da moda,
INÉDITOS E ESPARSOS
Perdoa-me demorar tanto esta minha conversa, Gustavo; mas
sabes que eu tenho destas indignações a que preciso dar expansão.
Custa-me ver que, reconhecendo o mal que está corrompendo
entres a arte nascente,o se organize entre os nossos homens de
letras uma cruzada leal e corajosa, tendo por divisa a arte e comba-
tendo sem quartel nem misericórdia o mau gosto que nos vem do
estrangeiro de mistura com os chignons e os mais artigos da moda.
Adeus que chegam visitas a que tenho de atender; até breve.
Porto, 6 de Setembro de 1868.
Diana de Aveleda.
A ILHA DA MADEIRA
Funchal, Março 1870
Meu amigo
Recordo-me de lhe haver prometido, ao separarmo-nos, escre-
ver-lhe de quando em quando desta ilha, onde pela segunda vez
abordei, à procura do ideal que se chama saúde.
Tarde me lembrei do cumprimento da promessa; mas a tempo
vai ainda.
o é uma monografia que eu vou fazer. Deixarei em paz a
constituição geológica, a flora, a fauna da ilha e todas as questões
médicas, económicas e políticas que se prendem a este torrão fertilís-
simo. O meu intento é mais modesto.
Quero mostrar-lhe a Madeira através das individualissimas impres-
sões que o meu espírito recebe nela e isto sem plano, sem método,
sem coordenação didáctica e só conforme a corrente irregular e capri-
chosa das minhas ideias.
Fazer-lhe esta observação equivale a avisá-lo de queo serão
de tintas muito vivas os quadros que traçarei.
A imaginação de um valetudinario tinge de cores amortecidas
as mais ridentes paisagens e as cenas mais pitorescas que observa;
para ele o brilho do Sol é visto como através de um cristal corado;
percebe as gradações de luz, mas sempre sob o tom uniforme e som-
brio do cristal, que neste caso se chama: preocupação.
As viagens, esse sonho dourado que tanto seduz a imaginação
da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes
e bater asas em demanda de climas novos, transforma-se em amarga
proscrição, sempre que as empreendemos, forçados por uma triste
necessidade e partimos levando o espírito assombrado por uma ideia,
ou antes, por um pressentimento doloroso,
INÉDITOS E ESPARSOS
Nada então nos compensa as lágrimas da despedida e o cruel
confrangimento do coração, que responde ao último adeus do amigo
que, de olhos húmidos, nos acena da gare do caminho de ferro ou nos
aperta ao no tombadilho do vapor. Partimos com a alma oprimida
e sem aqueles voluptuosos estremecimentos de júbilo que se mistu-
ram às saudades de quem se aparta dos seus, seduzido pelo prazer
de viajar.
Quando se perde de vista a terra em que nos ficaram todos os
afectos Íntimos, parece-nos escutar uma voz interior a perguntar-nos
se voltaremos a vê-la. Eo há um clarão de esperança a responder
a essa interrogação!
Que tristeza a daquele instante!
Depois o mar, o mar, esse imenso foco de melancolias, acaba de
escurecer-nos o pensamento!
Olhar em roda eo avistar um só desses objectos que nos
falam do passado, da família, do remanso doméstico!
Ver tudo em movimento, tudo em irrequietação, tudo revolto!
Ter necessidade, para satisfazer a instintiva ânsia de repouso que sen-
timos, de elevar os olhos para o Céu, como faz o homem desalen-
tado pelo tumultuar das vagas da vida e que considera aquela outra
pátria como o único lugar do verdadeiro repouso. Impressõeso
estas queo dissipam as nuvens do nosso horizonte, antes mais as
carregam.
Apesar da sua grandiosa solenidade, o oceano é um desconso-
la,dor companheiro para a alma naquelas disposições.
Por isso quando, ao amanhecer de um desses dias longos e deso-
ladores se avista além, muito além no horizonte, uma sombra mal dis-
tinta, através da qual só o olhar amestrado do marinheiro consegue
distinguir a terra demandada, saúda-se essa sombra como uma pro-
messa de redenção.
Todos os olhos a procuram com ansiedade e, à medida que ela
se ergue e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas
naturais, revelando-se enfim, tal qual é, entre o azul do mar e o azul
do céu, dissipa-se a mais e mais a cerração da melancolia que nos
pousava no coração.
Como a ave, extenuada de longa travessia por sobre mares vas-
tíssimos, abate o voo a repousar na terra que lhe surge do seio das
ondas, assim o espírito, cansado daquela imensidade e irrequieta
agitação das águas, voa a engolfar-se no regaço das verduras que
parece haverem enfim obedecido à evocação das suas nostálgicas
saudades.
Quando a formosa ilha da Madeira, levantando-se da espuma
do mar como a mitológica Citereia, crescia paras a receber-nos,
abrindo o seu seio,benéfico e maternal aos desconfortados que nela
só depositavam as suas derradeiras esperanças, sentíamos todos pene-
trar-nos o coração um desses suaves prazeres como o que nos pro-
VOL. II 25
INÉDITOS E ESPARSOS
duz, no meio de uma turba de estranhos, o encontro de um rosto e
de um sorriso de amigo.
Formava um consolador contraste com a tremenda severidade
do mar a amena perspectiva da ilha!
Horas depois de a avistar, a marcha rápida do vapor fez-nos
dobrar o cabo deo Lourenço; transpondo o amplo pórtico que ele
forma com o grupo das penhascosas Desertas, sentira-se uma súbita
mudança de clima, como se de repente se tivessem vencido muitos
graus de latitude. Afagou-nos a face a brisa tépida e perfumada da
ilha, aspirámos com prazer o hálito acalentador e salutífero desta fada
marítima; achávamo-nos sob o seu abençoado encantamento, reco-
nhecíamos enfim a Madeira!
A costa do sul ia passando em revista com as suas rochas escar-
padas, as suas ribeiras profundas, a sua vegetação vigorosa, as suas
formidáveis quebradas e os altos picos onde pousam as nuvens, os
vales fertilíssimos e as povoações graciosas.
Momentos depois, vencida a ponta do Garajão, as casas e as
quintas do Funchal, iluminadas por. um esplêndido sol de Outono, que
dourava as extensas plantações de cana, saudaram-nos por sua vez.
A magia do espectáculo emudecera-nos. De um lado o mar, do
outro as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade
sorrindo, coroo a criança adormecida entre os pais, que a defendem
e acalentam.
Dentro em pouco pousávamos pé em terra.
o é grata a impressão recebida ao desembarcar. Costumados
aos extensos e alvejantes areais das nossas praiaso ricas de formo-
síssimas conchas e em cujas penhas se formam aquários naturais, onde
aos raios do Sol as actínias matizadas escondem os seus braços gela-
tinosos e as algas crescem em delicadíssimas arborizações, costuma-
dos às praias risonhas que atraem as mulheres e as crianças com o
animado e variadíssimo espectáculo que lhes oferecem e os abun-
dantes tesouros de pedrarias que escondem nas suas móveis areias,
afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra, formada de calhaus
roliços, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais
queo o principal atractivo da beira-mar.
Esta pedra escura parece conservar ainda evidentes os vestígios
do cataclismo vulcânico que a arremessou à superfície das águas. Dir-
-se-ia que ainda está defumada e quente do fogo do imenso forno em
que foi fundida. Ao seu aspecto comprime-se o coração do viajante.
Entrámos na cidade. Há umo sei quê de melancólico no
aspecto dela. Por isso mesmo que é a generosa consoladora de tantos
aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e
que de toda a parte do mundo correm a abrigar-se ao seu calor
salutar, por isso mesmo, parece anuviar-lhe os sorrisos aquele ar
de piedade e de compaixão que é, por assim 'dizer, a alegria da
caridade.
INÉDITOS E ESPARSOS
o nos sentimos impelidos a saudá-la com um cântico festivo,
com uma aclamação de prazer; mas apenas com uma serena comoção,
igual àquela com que se beija ao generosa que se estende a socor-
rer-nos ou a enxugar-nos as lágrimas.
Ó Funchal! Que tristes dramas sem passado à luz do teu sol
benéfico! Que lutuosos desenlaces de tantas histórias de paixões!
Que de lágrimas ardentes caídas no teu solo sequioso que se apressa
a escondê-las discreto! E à sombra das tuas árvores quantas frontes
escaldando de febre vergaram sob o peso da cruel melancolia!
Ilusões desvanecidas, esperanças desfolhadas, sonhos de amor,
de glória, de felicidade, dos quais se desperta à beira do túmulo, tudo
tens presenciado, ó humanitária cidade! E debaixo dos cedros e
ciprestes dos teus cemitérios dormem o último sono muitos mártires
sem que as lágrimas dos que os amaram lhes caiam na campa como
tributo.
Dai vem a simpatia e a tristeza que inspiras. As tuas virtudes
como irmã de caridade que consagra os dias ao cumprimento de uma
missão cristianíssima, brilham entre cenas e espectáculos de deso-
lação e de dor.
Este carácter da cidade avulta aos primeiros passos dados no
interior dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras
pálidas, emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transporta-
das em redes, encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa medi-
tação, ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na
praia;o ingleses cadavéricos, alemães diáfanos, portugueses des-
carnados, brasileiros, norte-americanos, russos;o velhos, adultos,
crianças, vaporosas belezas femininas de todas as partes do mundo,
todos a convencer-nos de que estamos na città dolente; mas no pór-
tico destao se lê gravado o dístico desesperador que o poeta ins-
creveu no da região das tormentas eternas. Pelo contrário, à entrada
aqui, revestem-se de esperança os próprios condenados.
Para que a Madeira nos sorria, para que nos apareça formosa
como a descreve o poeta inglês e fragrante como uma verdadeira flor
do oceano, é necessário sair do recinto da cidade, procurar as fregue-
sias rurais, subir as íngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar
então a vista pelos formosíssimos vales queo descobrindo o seio
fecundíssimo aos nossos olhos maravilhados,
Que vigor e variedade de vegetação !
O verde dourado da cana realça entre as diferentes cambiantes
da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira de Africa
agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bana-
neira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de viço nos
mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as
laranjeiras odoríferas. As rosas, as malvas, as madressilvas florescem
espontâneas à beira dos caminhos; debruçam-se dos muros as «bou-
gainvillias» entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaran-
INÉDITOS E ESPARSOS
jadas das bignónias; tudo tem um ar de festa e alegria. A choça mais
humilde tem um jardim à entrada; as flores sorriem à porta dos ricos
e dos pobres.
E quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnifico
aspecto do país. De um lado vemos aos nossos pés, o mar liso como
um espelho, azul como safira, limitado ao longe pelo grupo das
Desertas vagamente tingidas do azulado da distância; do outro as
altas serranias que rompem as nuvens e cujos cimos tantas vezes tinge
a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos em fundas que-
bradas, sulcados em ribeiras pelas torrentes do Inverno, uma vege-
tação exuberante, cheia de vida, encobrindo aqui uma casa isolada,
enfeitando além uma povoação risonha, que se agrupa em torno de
um campanário.
Então sim, então a atmosfera embriaga, o peito aspira com volup-
tuosidade esse ar balsâmico, o espírito liberta-se de todas as apreen-
sões que nos gelavam os sorrisos nos lábios e goza-se despreocupado
do mais surpreendente espectáculo que pode imaginar-se.
Maso é só a natureza queo afável e acariciadora se mostra
aos desesperados enfermos que se refugiam aqui; impressões igual-
mente gratas, igualmente consoladoras lhesm de origem diversa.
É geral a simpatia que os doentes inspiram à gente da Madeira.
Se os doces afectos de família, se os carinhos de uma esposa, de uma
e ou de uma filha se podem substituir no mundo, é aqui a terra para
tentar a experiência.
Sentis que vos rodeia uma atmosfera de simpatia. Pessoas que
nunca vos falaram, queo conheceis, seguem passo a passo, com
sincero interesse, os progressos das vossas melhoras ou as alterna-
tivas do vosso padecimento.
Com o olhar que a experiência tem amestrado, estudam-vos no
semblante as probabilidades de bom ou mau êxito na luta pertinaz da
natureza contra o influxo fatal que vos subjuga. E esse prognóstico é
quase sempre infalível.
Rara é a família que, levada por generosa curiosidade, seo
informe com o médico que a visita ou com os proprietários dos hotéis,
do estado dos estrangeiros doentes.
Nestas vitórias do clima sobre a doença, estão empenhados os
brios e o principal brasão da terra, e o amor pátrio é um sentimento
profundamente entranhado no coração deste povo. Uma cura operada
é um triunfo e todos a conservam na tradição gloriosa da terra com
simpático e louvável orgulho.
A simpatia vai ainda mais longe, revela-se sob mais cordial mani-
festação, exerce-se mais eficaz e abençoada ainda. As formosas madei-
renses, e quem, tendo visitado esta terra,o conservará memória
delas? condescendem muita vez em animar a alma desolada dos soli-
tários enfermos com o raio vivificador dos seus olhares magnéticos.
Amoráveis, movidas por uma generosa simpatia, exaltadas pelo entu-
INÉDITOS E ESPARSOS
siasmo natural a um coração de rapariga, acalentam muitas vezes esses
amores que elas bem sabem ser sem futuro, e iluminam os últimos dias
de uma triste existência com a doce luz do mais casto e imaculado
afecto. Quantos que morriam longe dos seus com o coração partido de
saudades, lhes devem os últimos doces sonhos da sua vida, as derra-
deiras ilusões e um tributo de lágrimas na campa?
Anjos adoráveis, corações generosos,s concorreis com o
tesouro dos vossos afectos para a santa missão que se desempenha
aqui. Às vezes sob a influência do vosso amor, voltam as cores às
faces desmaiadas, um sangue novo circula nas veias exauridas e por
um milagre de afecto renasce para a vida o que a ciência já condenara.
Outros sucumbem, mas tendo ao menos nos lábios um nome
querido, no pensamento uma imagem e no coração a esperança de
queo ficará sem sentido para todos a inscrição funerária que lhes
gravarem na lousa.
Abençoadas sejais pelo conforto que tendes dado ãs almas tristes,
que sucumbiam à míngua dele!
Reparo porém agora, meu amigo, no tom elegíaco que vai
tomando a missiva. Será prudente parar aqui, procurando para outra
vez ser mais alegre.
Seu do coração
J
D.
CARTAS PARTICULARES
A SEU PAI QUANDO TEVE NOTÍCIAS
DA SUA NOMEAÇÃO DE DEMONSTRA-
DOR DA ESCOLA MÉDICA DO PORTO
Papá
A estas horas é provável que já saiba que estou despachado.
o tinha informado inexactamente o amigo do Teixeira Pinto, quando
disse que na quinta-feira se assinava o decreto da minha nomeação.
É com a data de 20 que ele vem no Diário de 22.
Esse mesmo rapaz escreveu de Lisboa e eu acabo de ver o
Diário. O amanuense da Escola escreveu-me também. Finalmente está
decidido; acabaram-se todas as dúvidas e inquietações.
Nesta ocasião em que o meu futuro se fixou,o posso deixar de
me recordar do muito que devo ao Papá pelos sacrifícios feitos por mim.
Alegra-me duplamente o resultado deste meu empenho porque,
com o prazer que me causa, sei queo menos intenso havia de pro-
duzir no Papá, que até agorao improfícuos tinha visto ficarem os
seus grandes esforços para a felicidade dos filhos.
Meus irmãos foram privados,o sei por que vistas providen-
ciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educação que
lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificouo novos, parece
ter-me reservado, como que para realizar em mim a recompensa que
lhe merecia a resignação do Papá.
Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar queo me faltará
a vida e a saúde para poder cumprir essa missão talvez providencial.
Creia que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacri-
fícios e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava
o mos fazer sentir.
INÉDITOS E ESPARSOS
Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me
que cumpra com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente
a mão.
Seu filho grato e afectuoso
Joaquim
Felgueiras, 24 de Julho de 1865.
'
A SEU PAI, DE FINS DE MARÇO DE 1868, DEPOIS
DA REPRESENTAÇÃO DAS «PUPILAS» EM LISBOA
(Inédita)
Papá
Continuo a passar bem e por enquantoo posso dizer quando
partirei.
As «Pupilas» foram bem desempenhadas e prometem dar à
empresa bastantes enchentes.
Do que se passou na noite em que eu lá estive dá conta exacta
a noticia que envio, a qual foi publicada por um Diário daqui. Ontem
esperavam-me à noite em casa do Mendes Leal, mas como às segundas-
-feiras é lá reunião de etiqueta, a que se vai de casaca e em rigor, fui
para o teatro francês e dei por desculpa queo queria deixar a com-
panhia com quem tinha vindo a Lisboa.
No teatro da Trindade, no sábado, pediu-me o Mendes Leal para
ir ao camarote dele, visto esteo poder deixar só as senhoras com
quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e
entre elas, o Chamiço. O Castilho já me veio visitar.
As «Pupilas» foram postas em cena com bastante fidelidade de
vestuário e de costumes.
O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava
bastante animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reco-
nhecer. No 6.° quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe
beija a mão,o me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao
palco onde fiquei todo o quadro final.
Peço recomendações a toda a família e ao tio Bernardo.
Peço também que mande entregar ao Dr. Reimão os livros que
ai deixei para ele e que se alguém aí for procurar os exemplares da
Dissertação do Ilídio, lhe entreguem os que estão em um dos armários
inferiores da estante.
Queo esqueça também mandar-me esfregar o quarto.
Seu f.o ob.te
Joaquim.
INÉDITOS E ESPARSOS
A SUA SOBRINHA ANA C. GOMES COELHO
!
Anitas
Cumprindo a promessa que te fiz hoje mesmo,o me quis deitar
sem primeiro te escrever. Cheguei a salvamento a esta terra, tendo
engolido muito pó pelo caminho, petisco de que, nem por isso, fiquei
gostando.
Ceei bem e espero dormir melhor.
A estas horas em que te estou a escrever já tu deves estar
sonhando com a cabeça no travesseiro. Estimarei saber que sonhaste
em coisas agradáveis e que acordaste pela manhã satisfeita da
tua vida.
Espero que te lembres de mim ainda que seja só quando almo-
çares emo João Novo e tiveres de fazer por ti mesma as tuas fatias.
Adeus por hoje. Manda-me dizer as flores que tens feito e reco-
menda-me à Mamã, a quem hei-de escrever breve, e aos teus dois
manos e, se teo esqueceres, faz também as visitas do costume às
pessoas que sabes.
O Guilherme ' disse-me o número da vossa casa em Monchique,
mas esqueceu-me. Vê se mo mandas dizer na tua carta, que podes
dar ao Josèzinho
!
para ma enviar com a dele.
Adeus.
Ovar, 7-5-63.
Teu tio e muito amigo
Joaquim.
1
Irmão de Anilas, que foi, mais tarde, o almirante Guilherme Gomes Coelho.
3
José Joaquim Pinto Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
II
Anitas
Devia-le já ter respondido, mas que queres? Tenho tanta gente
a satisfazer! Hoje, porém, acordei de madrugada e vendo em cima da
mesa três meias cartas dirigidas à Madrinha, Guilhermina e Quina,
resolvi juntar-lhe outra meia para ti e mandá-las todas dentro de um
envelope comum seguir viagem para o Porto. Pensar nisto e executá-lo
foi obra de um momento. Seguia-se ver no que te devia falar. Como
andas presentemente a fazer flores na mestra, resolvi descrever-te as
flores naturais que enchem de perfume o quarto aonde eu durmo.
Tenho um ramo em água numa jarra de louça, outro, mais
pequeno, em um vidro.o rosas de cheiro que, pelas dimensões,
semelham couves-tronchudas, rosas-de-alexandria, cravos vermelhos
e cravinas brancas e roxas, malmequeres de olho verde, ervilhas de
cheiro, flor de romã, um ramito de camarinhas, flores de espinheiro
e amores-perfeitos, etc.
Jás queo me faltam aqui flores.o sou eu que as colho,
masm aqui o atencioso cuidado de mas renovarem logo que
murcham.
A manhã de hoje está excelente para passeio e eu vou ver se
as minhas pernas se convencem a transplantar-me até qualquer parte
que elas queiram. Coitadas! Ainda estão um pouco ressentidas de uma
passeata que eu lhes obriguei a fazer a noite passada a um quarto de
légua da vila, de onde voltei à meia-noite para casa.
Está-me bulindo com os nervos uma campainha deo sei que
cavalgadura que prenderam junto da minha porta; a minha impaciência
nem me deixa escrever com o vagar que desejava.
Outra vez serei mais extenso se tu responderes a esta pequena
carta com outra o maior que possas fazê-la.
Adeus.
Ovar, 16-5-63.
Teu tio mt.o teu amigo
Joaquim.
III
Anitas
Antes de mais nada vou ralhar contigo; maso te assustes que
é trovoada que passa depressa. Vou ralhar contigo, por me estares
na tua carta a repetir a cada passo que meo esqueça de ti.
INÉDITOS E ESPARSOS
Isto faz-me acreditar que pudeste supor que, sem a tua recomen-
dação, tal coisa me poderia acontecer. Se assim foi, merecias que eu
te esquecesse um momento, ao menos, para justificar as tuas suspeitas;
mas comoo tenho essa certeza, continuarei lembrando-me sempre.
E para to provar, vou eu perguntar-te se te recordas daquelas noites,
em que eu tinha teatro e em que, até às sete horas, te ajudava a estudar
a tua lição para o dia seguinte e a rir um bocado com novidades que
te contava da mestra, ou de quando eu te ajudava a subir as escadas
para irmos cear.
Se te lembras disto, como acredito, sabe que eu também oo
esqueço, antes pelo contrário, o tenho sempre na ideia.
Quando chegar ao Porto espero ver o teu ramo concluído e
principiada uma obra nova. Repara que estamos no tempo das flores,
e que se nestes elaso se produzem depressa, muito menos
quando o tempo lhes correr mais desfavorável.
Estava quase para apostar que ontem de tarde (quinta-feira),
quando rebentou aquela fortíssima trovoada, ouvi, no intervalo de dois
enormes trovões, uma voz a gritar, que me pareceu a tua. Seria pos-
sível?o sei. Espero que francamente me digas se, de facto, choraste,
porque, nesse caso,o me enganaram os meus ouvidos.
Quando parti do Porto tinha-te dito queo empregasses ninguém
a auxiliar-te na redacção e escrita das cartas que me mandasses. Na
segunda, que recebi ontem, vejo com certeza queo andou ajuda
de estranhos; em quanto à primeira, restam-me certas desconfianças
que espero desvanecerás, pois estou resolvido a acreditar-te, se na
próxima carta mo afirmares. Adeus, por hoje.
Ovar, 21-5-63.
Teu tio que te manda um beijo
Joaquim.
IV
Anitas
o me queiras mal poro te haver escrito há muito. Longe de
me esquecer de ti, antes pelo contrário és uma das pessoas por quem
sinto aqui mais saudades.
O cuidado que tens tido em me escreveres aprecio-o eu como
uma prova evidente da amizade de que te sou devedor.
Mas olha, tu bem sabes que preciso de escrever a tanta gente
queo tenho remédio senão deixar de vez em quando alguma mais
mal servida. Mas, contando eu com a benevolência da tua amizade
INÉDITOS E ESPARSOS
espero alcançar facilmente o perdão das minhas culpas e até me está
parecendo que já estou perdoado. Enganar-me-ei ?
À mamã já há muito eu queria escrever, mas mal tenho tempo
de escrever ao José Pinto, de quem recebo cartas todos os dias. Jás
que este fica, por isso, em primeiro lugar. Depois soube que o Gui-
lhermino está muito mal e como conheço a amizade que lhe tem a tua
mamã, calculei que ela deveria estar no Candal junto dele e com pouco
vagar para ler cartas minhas ou escrever-me em resposta. Eis o motivo
por que lheo tenho escrito eo por ter afrouxado a amizade que
lhe tributo.
Diz-lhe tu isto mesmo e dá-)he muitas saudades da minha parte
e também aos teus manos, e tu imagina que recebes um beijo do
Ovar, 7-6-63.
teu tio e teu verdadeiro amigo
Joaquim.
V
Anitas
Seo foi imediatamente depois que cheguei, pouco tempo deixei
passar sem te escrever.
Vim encontrar tudo aqui como tinha deixado. O Leão continua a
dormir pelos cantos, os galos a estudar solfa, o sineiro a tocar ao meio-
-dia, dizendo que vai jantar, as cascas a estalarem, etc. Mas que admira
que tudo por aqui esteja na mesma se aí no Porto euo encontrei
também mudança alguma?
Há agora por aqui menos flores. As mesmas dáliaso acabando
e o mesmo acontece à grande aluvião de suspiros que este ano
houve.
Que mes tu de novo? Já principiaste a bordar? E em quanto
à saúde tua, da mamã e dos manos, que me dizes tu?
Tinha chegado a este ponto da minha carta e vieram-me dizer
que estavam a procurar-me as senhoras .. Imagina a cara que eu fiz!
Temos maçada e eu estou com bem pouca disposição para as aturar.
Eu desejava que esta gente se zangasse comigo por qualquer razão
para deixar de me visitar tanto amiúde.
Mas enfim, armemo-nos de resignação e vamos aturá-las. Daqui
a pouco estou eu a abrir a boca que é uma coisa por maior, de mais
a mais hoje que ando com defluxo! Vamos, a ver se elas me acham
mais airosinho, e capaz de dar um passeiinho por causa da saudinha,
INÉDITOS E ESPARSOS
Adeus até logo. Vou impô-las o mais depressa que possa e depois
acabar esta carta dizendo-te o que passei com elas.
29-7-63. 7 1/2 horas da manhã.
8 !/2 horas.
Felizmente já láo ! Ofereciam-se para me acompanhar ao mar,
num diinha airoso para espairecer um bocadinho.
Era o que me faltava!
Faz muitas recomendações minhas à Mamã e aos manos e aceita,
com as recomendações de todos os daqui, um beijo do
teu tio e teu verdadeiro amigo
Joaquim.
P. S. Como esta carta deve chegar ai à quinta-feira, mando-a
para Monchique por ser provável que estejas.
VI
Anitas
Na carta que a mamã devia receber ontem falava-lhe já na tua
vinda aqui. Veremos o que ela me responde. Deus queira queo
espere muito tempo pela resposta.
Desde que aqui estou tenho passeado pouco e confesso-me dessa
falta, fazendo já acto de contrição por causa dela; é que ainda meo
fui sentar debaixo dos álamos da igreja e por issoo sei bem em que
estado se achará a covinha que fizeste. Hei-de brevemente ir exa-
minar isso com vagar.
Faz visitas minhas à Quina e diz-lhe que mem dado aqui
aqueles frenesis de escacha-pessegueiros, mas queo tenho encon-
trado umao caritativa que se tenha querido deixar esmigalhar. É uma
falta que noto em Ovar, esta das mãos suficientemente senhoras de si,
parao se importarem com um osso partido ou outra bagatela de
igual jaez.
Faz também muitas recomendações à Mamã, manos e ao tio
Eduardo e tu faz por teres saúde, que isto de andar doente é uma
INÉDITOS E ESPARSOS
coisao velha que é impossível que ainda se use. É como as cin-
tas de bico!
E até outro dia que vou agora para a missa.
Imagina que recebes um beijo do
Ovar, 2-8-63.
teu tio e muito teu amigo
Joaquim.
VII
Anitas
Apesar de te haver escrito ainda há pouco, como foste pronta a
responder-me, escrevo-te de novo, prometendo-te desde já dar-te
poucas novidades porque aso sei. Já fui à igreja e lá procurei no
adro a covita, que estava quase desvanecida; renovei-a, mas à pressa,
porqueo era ocasião de me demorar.
É preciso que saibas que estamos em meados de Agosto e que os
álamos jáooo copados, nemo verdes como eram em Julho,
por isso a sombra no adro, à hora do meio-dia,o éo agradável
como no tempo em que nos íamos lá sentar.
Morreu uma irmã ao Sr. Mendonça e por isso jáo é ele que
toca o sino, enquanto estiver de luto, quero dizer, nos oito dias desti-
nados a receber visitas de pêsames. O que o substitui jáo diz como
ele vou jantar e vou jantar ques tantas vezes ouvíamos, quando
vínhamos pela ponte da Graça.
Também já aquio está a família Correia. Foi tudo para o Porto
passar os de Agosto.
Já chegou de Coimbra o primo do Antoninho e por aqui está
quase sempre. Agora mesmo, 4 horas da tarde, já está nos Campos,
onde dorme todas as noites.
A bicharia toda passa sem-novidade, à excepção de um ou outro
frango que se tem comido com arroz, prato excelente, que recomendo
aos portuenses.
A prima e a tia mandam-te muitas visitas. Já no outro dia me
tinham incumbido de te responder às perguntas que mandaste fazer-
-lhes por mim. A resposta deves sabê-la.
Em quanto ao que me dizes de euo me lembrar de ti, só tenho
a responder que, para castigar a tua dúvida, era bem feito que eu te
fizesse falar verdade, esquecendo-me. Mas seria isso para ti um grande
castigo? Também duvido, assim como tu duvidaste, da minha amizade.
Ora vamos, faz por ter saúde, ganha as cores melhores que pos-
INÉDITOS E ESPARSOS
sas e deixa correr o mundo como ele quiser; além disso todas as vezes
que possas lembra-te do
teu tio e amigo afectuoso
Joaquim.
Ovar, 9 de Agosto de 1863.
VIII
Anitas
o te escrevi logo que cheguei, maso te fiz esperar muito,
porque é esta a terceira carta que mando para o correio.
Dizendo-te que cheguei a salvamento a esta vila de Ovar e que
continuo gozando uma feliz disposição de corpo e de espírito, dou-te
a única notícia que neste momento me é possível dar-te; ao ser
que desejes que eu te fale no tempo porque nesse caso dir-te-ei que
anteontem e ontem choveu desenganadamente, coisa de que muito
gostei por já estar mal habituado a essas finezas do Inverno, do qual
vou sentindo saudades.
Ontem de tarde parecia-me um dia de magustos, pela escuridão,
pela chuva e até pelo tocar dos sinos a defuntos. Tinha morridoo
sei quem e, em homenagem, todos os sinos da terra executavam cabrio-
las atordoadoras.
Hoje aparece o tempo com uma cara menos rabugenta, mas já
se pode andar pelas ruas sem receio de morrer de calor ou de voltar
para casa com uma cor semelhante à de uma batata assada na fornalha.
Tudo isto me indica que o Verão anda fazendo as suas despedidas,
porque em breve nos vai deixar. Que, que; para falar a verdade,
euo hei-de morrer de saudades.
Brevemente haverá cá em casa a primeira desfolhada; o outro
sinal de que está o Inverno à porta. Eu já vou vestindo o meu casaco
grosso para o receber como é devido, no momento de ele vir para aí
de um momento para o outro.
E tu que fazes ? Quando principiam as tuas férias e que fazes depois
delas principiarem? Vens a Ovar, vais tomar banhos ou em que outra
coisa te ocupas ? Responde-me a estas perguntas, quando me escreveres.
Faz visitas à mamã, tia, manos e a toda a família e supõe que te dá
um abraço
Ovar, 28-8-1863.
o teu tio e sempre muito teu amigo
Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
IX
Anitas
Escrevo-te hoje somente, e é provável que só recebas esta carta
quando o Papá ' receber a que ontem lhe escrevi. O correio fecha a
mala ãs 4 horas da tarde e depois desse tempo é que eu a sobrescritei.
Estou bom; ontem tive muito frio, mas o dia aparece hoje com
melhor cara e pede-me desculpa deo me ter recebido amavelmente.
Estou convencido que é uma imprudência confiar emo Pedro
para fazer viagens. O velho porteiro douo entende dessas coisas
e, apesar de ter sido pescador, dá vento e chuva à gente, como se
fossem coisas muito cómodas.
Tu deves achar-me razão, se te lembrares daquela manhã pas-
sada em Ovar.
Acabei agora de almoçar eo almocei mal. Ontem dormi deveras
e acho-me por isso melhor. Daqui a pouco vou passear.o te posso
dizer se já principiei a engordar, mas julgo que sim; contudo por
enquanto ainda a roupa que trouxe me serve.
Escreve-me brevemente, dando-me notícias tuas, da mamã e dos
manos. A todos me recomendo. Diz-me se o Guilherme já fez exame
e o que o Alberto faz por ai,
E adeus que esperam por mim. Torno a repetir, escreve-me e
o te esqueças do
Felgueiras, 1-7-1865.
teu tio e muito teu amigo
Joaquim.
X
Anitas
Principio a escrever-te esta carta sem saber ao certo se a mandarei
hoje para o correio. A razão é porque tenho de sair eo sei se, quando
voltar, ainda irei a tempo de a remeter. Agorao o faço porque nem
vagar tenho para a completar. Estou de chapéu na cabeça e em ordem
de marcha. Há dias escrevi ao Guilherme uma carta à qual ele ainda
o respondeu.o estou decidido a perdoar-lhe essao grave falta
de cuidado. Espero que lho faças sentir.
1
O pai da Júlio Dinis vivia no Porto, ao lado da neta,
INÉDITOS E ESPARSOS
Agradeço-te o abraço que me mandaste e hoje, quando voltar do
meu passeio, espero trazer-te um de igual natureza em paga do teu.
l
Na tua última carta falavas-me em uma visita que ias fazer; quero
saber os pormenores dessa visita.
Manda-me também dizer se tens ido às terças-feiras lá por casa
e se aos domingos tens ido à missa aos Congregados.
Conta-me a vida do Alberto, a quem deve ter feito alguma falta
o escritório deo João Novo. Ele vai ainda ao Figueiredo? Diz-lhe
que quando quiser que vá lá pelo meu quarto e leve os livros que lhe
parecer, que eu dei ordem ao meu bibliotecário, para seo opor.
Sábado e domingoo estou provavelmente em Felgueiras; conto
ir a Guimarães e às Caldas.
a
Se me escreveres, podes contudo fazê-lo
para aqui, porque às vezes é provável que haja mudança...
Eu já para o fim dos provavelmente volto para o Porto; em
antes não, ao haver alguma razão mais forte que me obrigue a fazê-lo.
Agradece por mim as recomendações que me mandaram, e a
todos me recomendo também.
Quando puderes, escreve ao teu tio e muito amigo
Felgueiras, 20 de Julho de 1865.
Joaquim.
P. S. Ai vai o abraço.
XI
Anitas
Recebi a meia carta que me escreveste, inspirada por um pouco
de mau humor imperdoável. Eu por aqui tenho andado e passeado
com o fim de me curar como um presunto.
O certo é que, graças ao vento, sol e ar do mar, que tenho
apanhado, estou negro, vermelho e feio de meter. Quando aí chegar
ninguém me há-de conhecer.
Ao prazer que a tua carta me deu, podia muito bem reunir-se
o de receber directamente notícias tuas; mas julgaste desnecessário
dizer-me se passavas bem, seo tinhas dor de cabeça, de dentes,
sono, preguiça ou outra coisa assim.
É verdade que se algum desses males que afligem a humanidade
passasse sobre ti,o terias coragem de encher a terceira página
1
Junto a esta carta, o dentro de um envelope, está cuidadosamente guardado
um abraço de vide que o tempo tem poupado.
a
Devem ser as Caldas de Vizela.
INÉDITOS E ESPARSOS
daquela carta que tu e o papá me enviaram; mas enfim sempre é bom
dizeres as coisas.
Como vai a mamã ? E comoo os teus irmãos ? Aqui estão dois
assuntos para meia página pelo menos.
Agradeço-te a saúde que me fizeste e que eu espero pagar-te
de hoje a vinte dias. Diz ao Guilherme que, se ainda for a tempo, lhe
mando de cá os meus emboras pelos seus (?) anos; e ao Alberto que
o me conserve nenhum vestigio de tosse quando eu voltar ao Porto.
Adeus; vou almoçar. Quando quiseres e puderes faz por escre-
veres que nisso mes muito prazer. Se te guardares para quinta-
-feira é provável que jáo me escrevas para Aveiro.
Visitas para todos e acredita na sincera amizade do
Aveiro, 17-9-66.
teu velho tio
Joaquim.
XII
Anitas
Recebi a tua carta esta manhã, antes de almoçar e ainda agora,
depois da ceia, lhe vou responder. Este sábado há-de ficar-me para
sempre impresso na memória; um dia de Inverno declarado: chuva
a cântaros, vento desesperado, nuvens como montanhas e eu a abrir
a boca desde pela manhã até à noite! Que dia! Decididamente a minha
excursão está a findar por este ano. O vento está sul e por conseguinte
sopra-me para o Porto. Qualquer dia da semana em que vamos entrar,
uma rajada de vento dá comigo nas Devesas, isso. Escusas pois de
recear que eu deixe de comparecer a 7 de Outubro, que antes desse
dia eu conto estar convosco.
Estimei que nada tivesses a dizer-me dos manos, razão evidente
de que estão de saúde. Recomenda-me a todos e diz-lhes que eu
continuo bem, o que dentro em pouco lhes assegurarei de viva voz.
Agradeço-te o prazer que me deste com a tua carta, que foi um bom
emprego da quinta-feira. Até breve.
Ovar, 22 de Setembro de 1866,
às dez horas da noite, depois de cear
e ao som da chuva.
Teu tio, muito mal disposto com o Outono,
Joaquim G. Gomes Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
XIII
Anitas
Para te provar queo me esqueci do dia 7 de Outubro, apesar
de neste ano a tua presença moo lembrar, ofereço-te essas duas
flores que sobre as verdadeiras sóm a vantagem de serem um pouco
mais duradouras.
Como por essa particularidade representam melhor do que as
outras a minha afeição, preferi-as; que, seo fosse por isso, dar-te-ia
a primeira flor de campo que encontrasse à mão, certo de que tuo
me aceitarias com menor vontade o presente, ao qual só dás, como
deves, o valor de amizade.
7-10-67.
Teu tio e muito teu amigo
Joaquim G. Comes Coelho.
A SEU PRIMO JOSÉ JOAQUIM PINTO COELHO
!
Meu José
Ocupado a redigir ofícios prosaicamente sensaborões, foi-se-me
a semana toda sem conseguir da musa, com a qual ando mal-avindo
há muito tempo, a fineza de me auxiliar a celebrar em verso o teu
aniversário. Pouco exigia dela; contentava-me com ser servido como
nos anos anteriores, porque por experiência sabia poder contar com
a tua indulgência. Nem assim!
Desde que esta caprichosa me viu um pouco inclinado para a
prosa, sua rival, deu em fazer pouco caso de mim e vinga-seo me
acudindo em ocasiões de apertos. Queixa-se de que eu só me sirvo
dela para oo chega; de que fazendo falar em prosa as persona-
gens dos meus romances, só a vou incomodar quando elas estão de
maré para cantar cantigas; acrescenta queo está para isso e que
já que eu por a prosa a tenho abandonado, que com a prosa me
entenda agora.
Eu ponderei-lhe que, se me dou melhor com a prosa, é porque
esta é mais condescendente, mais pronta em correr, quando eu a
chamo e que, seo faço dela tudo quanto quero, é certo que a mui-
tas coisas ela se presta a que a musa seo sujeitaria. Apesar dos
meus arrazoados,o quis atender-me. Pedia-lhe rimas, negava-mas;
instava com ela para que forjasse um verso, batia-mo de mais na
bigorna a ponto de me sair esticado; atenazava-o até fazê-lo coxo, tor-
cido, sem tom nem som. Depois de mil diabruras, terminou por me
negar redondamente os seus serviços.
Em vista disto que partido tinha eu a tomar? Contar-te sincera-
mente o que se passou e justificar-me assim da minha falta.
INÉDITOS E ESPARSOS
Ocorreu-me, porém, fazer isto mesmo por escrito para deixar
documento da minha boa vontade que correspondesse ao ano de 1867
e ao mesmo tempo para mostrar à musa que efectivamente cá me
arranjei com a prosa;o muito bem, é certo, mas tambémo muito
pior do que por ela musa seria servido.
O que desde já prometo éo me reconciliaro cedo com a
ingrata. Negar-me um favoro simples! Eu só lhe pedia que me ensi-
nasse a dizer em verso que folgava poder mais uma vez celebrar o
teu aniversário; que por muito tempo esperava ainda fazê-lo. Pedia-
-lhe para me ajudar a passar em revista o ano que passou, a fazer
balanço ãs penas e prazeres experimentados nele; a mostrar assim
que felizmente estes excederam aquelas, que a doençao veio
assombrar de nuvens muito pesadas o nosso firmamento, que antes
nos sorriu mais benignamente a sorte, abrindo-nos mais largos hori-
zontes às nossas aspirações. Que aplicando as faculdades a tarefas difí-
ceis, mas mais nobres e elevadas,o vimos esgotarem-se emo os
nossos esforços. Que hoje mesmo estamos em vésperas de novos
sucessos. Eu esperando a todo o momento que uma família inteira e
principalmente duas raparigas, ' filhas queridas da minha imaginação,
me venham pedir as bênçãos paternais para se apresentarem em
público, que sabe Deus como as tratará; tu, esperando que fazendo
justiça ao teu finalmente já reconhecido merecimento, te venham ele-
var ao lugar que em glorioso combate conquistaste e para o qual
parece que vistas providenciais te andaram a reservar até agora.
Podem ser ainda iludidas essas esperanças, mas o que elaso
já é anúncio de uma nova ordem de coisas que, mais cedo ou mais
tarde, se realizará. Por isso aceitemo-las como um dos mais saborosos
manjares deste banquete de família.
É pois o dia de hoje um dia feliz. Se algumas aspirações houver
ainda por satisfazer,o seja isso motivo para turbar a festa. Aspira-
ções há de natureza tal queo devemos procurar satisfazer porque
melhor é esperar que a Providência, sob a aparência do acaso, as
realize. Quando não, corre-se o risco de terríveis enganos.
Tudo isto era o que eu desejava que a musa me ajudasse a
dizer e que, por sua recusa, fui obrigado a exprimi-lo por este modo.
Confio que me aceitarás o tributo como se valor tivesse.
20 de Outubro de 1867.
Teu primo e amigo
Joaquim.
! Alusão ao romance As Pupilas do Sr. Reitor.
INÉDITOS E ESPARSOS
II .
Meu caro José
Como os vapores da carreira de Áfricaom dia certo de
chegar aqui, vou principiar a escrever-te parao perder a ocasião de
te mandar notícias minhas. Nada se tem passado de novo que mereça
menção, mas, ainda assim, conversaremos; da mesma maneira que eu
para ir a tua casao esperava por ter noticias a dar-te, também devo
prescindir dessa condição para escrever-te.
É verdade que tu estás numa fase da vida em que menos se
sente a necessidade de conversar, mas eu é queo posso prescindir
desse prazer, eu que vivo isolado de antigos amigos e convivendo
com pessoas que apenas conheço há quinze dias.
Reli a Morgadinha, a qual saiu bastante maltratada da composi-
ção, o queo admira, atendendo à maneira por que foram revistas
as provas.
o calculo a sensação que produzirá o livro e quase estimo
estar longe de Lisboa e Porto para me ver livre, pelo menos, dos
comentários orais. Os críticos, prevejo o que dirão. A complacência
com que foram acolhidas as Pupilas há-de ser descontada em todas as
publicações que eu fizer. A amortização principiou com a Família
Inglesa e há-de continuar.
O Funchal aindao é a localidade mais própria para eu fugir
às apreciações oficiosas dos meus escritos. Aqui lera-se já as Pupilas
e meia hora depois que desembarquei corria na cidade a notícia da
minha chegada.o te pareça o facto extraordinário; aqui os dias da
chegada dos vapores de Portugalo dias solenes. Enquanto seo
sabe tudo que de novo dizem os jornais e a gente que chegou,o
acalma a febre que corre a população. Ora o Damião Moreira, lendo
a lista dos passageiros e conhecendo o meu nome, disse na alfân-
dega que tinha chegado o autor das Pupilas. Meia hora depois de eu
entrar em casa, veio um rapaz daqui, de propósito, dar a noticia às
minhas patroas, que já conheciam o livro. Depois houve quem,o
tendo ainda lido o livro, sentisse desejos de o ler por verem o autor.
Isto tem dado lugar a cumprimentos na rua (felizmenteo mem
obrigado a visitas) que eu dispensava por que aindao aprendi a
responder-lhes.
Renovo o pedido que te fiz de dois exemplares da Morgadinha
porqueo posso deixar de oferecer um ao Damião Moreira e outro
ao cónego Abel, rapaz muito ilustrado, pois ambos mem feito exce-
lente companhia.
Entreguei aqui as três cartas que trouxe do Plácido; entreguei-as
parao fazer dar cavaco ao Nogueira Lima e fugir a alguma rabugice
futura por causa disso. Valeram-me a maçada de bater às portas dos
INÉDITOS E ESPARSOS
sobreditos sujeitos e um bilhete de visita de cada um. Engano-me ; um
deles, que é médico, fez-me mais um favor:o me encontrando em
casa, deixou dito que voltaria no outro dia depois das quatro. Perdi o
passeio desse dia por causa dele e o homemo apareceu.
Jás quanto valem as tais cartas de recomendação.
Outro facto galante: Julgo que o João Bastos em Lisboa pediu a
um tal Roberto de Campos, que euo conheço, para me recomendar
aqui. O homem por amabilidade escreveu cartas como se eu fosse
conhecido e amigo pessoal dele. De maneira que, de vez em quando,
aparece-me em casa um ou outro indivíduo oforecendo-me os seus
serviços, a pedido do nosso comum amigo Campos. Eu fico numa
posição falsa; se lhe digo que oo conheço, o homem fica a olhar
para mim com cara esquisita, como me aconteceu com o primeiro; se
me dou por conhecido, sujeito-me a uma pergunta como ontem um
deles me fez: Como ficou o Roberto ? Ao que eu respondi, com
a maior naturalidade: Bom e mudei de assunto.
Aqui passo uma vida muito monótona. Já vou adquirindo hábitos
eo é sem esforço queo faço em um dia o que fiz no antecedente.
Leio pouco eo escrevo, nem penso em escrever. O meu fastio lite-
rário é mortal. Na tua carta, modificando o plano do Gramaxo, como
os nossos ministros modificam o contrato de Sueste, falas-me em escre-
ver pequenos romances, poesias, miscelâneas... Santo Deus! Era uma
ampliação eo uma divisão de trabalho! Eu ainda concebo que se um
dia, no decurso de um dos meus passeios me ocorresse um assunto
que me namorasse, a ideia principal de um enredo, eu encontrasse
depois algum prazer em digeri-la, ampliá-la e organizá-la e alguma
facilidade em pô-la em execução. Mas conceber cada dia um enredo-
zinho de curto fôlego e tratá-lo em poucas páginas, brincar com um
assunto ligeiro e tirar dal um folhetim publicável, isso jáo é para
mim, acredita. Sinto que vou perdendo a pouco e pouco uma certa
leveza de espírito necessária para escritos dessa ordem. O cabelo
vai-me caindo, embranquecendo a barba, os trintam aí perto, a
sombra da doençao deixou de escurecer o sol dos meus dias e
tudo isto me torna pouco disposto para a literatura amena.
As minhas patroasm alguns livros de literatura que euo li
ainda, poiso senti ainda desejos de os ler.
Aquio há livreiros, ao ser de livros de escola, por isso
o tenho grande esperança de modificar o meu actual estado de
aversão literária.
0 Francisco Luís Gomes está aqui no Funchal. Fiquei desapon-
tado quando o vi. É uma figura que ninguém, sem se voltar para
trás depois dele passar. Imagina tu um esqueleto, no rigor da palavra,
alto, esguio; as pernas a vergarem-se-lhe sob o peso do corpo, a
roupa a flutuar-lhe como se pendurada de um prego, a cor de cobre
própria dos índios: os dentes descarnados e salientes. Faz medo, coi-
tado ! Ninguém dirá que está ali um homem de inteligência.
INÉDITOS E ESPARSOS
Eu vou tendo mais força e verdadeiramente só agora principio
a sentir os benéficos efeitos do clima da Madeira. Tenho a respiração
mais livre.
Estamos na semana santa, que eu tomara ver terminada porque
o estou para estas solenidades. Quero-me no tempo em que cada
qual faz o que quer. Estas semanas em que todos fazem o mesmoo
insuportáveis.
Tu com mais razão deves desejar o fim deste tempo, pois é de
crer que se lhe siga o período da tua felicidade. Confio que tu goza-
s enfim da ventura que há tanto procuras em vão.
Agrada-me a ideia de voltar em Maio ao Porto e encontrar em
tua casa mais alguém a acolher-me. Isso me compensará as faltas que
encontrarei na minha, faltas que, para o princípio do ano lectivo pró-
ximo, aumentarão.
Eu às vezes penso neste isolamento crescente em que me vou
vendo, nesta diminuição incessante de amigos e de parentes que se
faz em volta de mim e pergunto a mim mesmo a que ponto chegará
isto e que influência exercerá no meu espírito? Cada vez sinto em
mim menos disposição para contrair afeições novas; receio chegar a
um estado de misantropia que é quase uma loucura.
Adeus. Escreve-me no paquete de 5. Lembra-me a todos e
acredita que tens no Funchal um coração a desejar-te venturas, que
é o do teu
Amigo do c.
Joaquim.
Suplemento Afinal só hoje 5 de Abril chegou o carroção! Mais
duas palavras. Segundo o combinado, é hoje o dia do teu casamento. '
Nessa suposição beberei hoje pela tua felicidade futura, porque, a pre-
sente, essa, tens tu segura. Acredita que sinto deveraso te poder
dar hoje um abraço; reservá-lo-ei para a volta. Eu vou vivendo. Estes
últimos dias um pouco encatarroado, graças a um exame que me quis
fazer o Dr. Pita e que me obrigou a estar despido alguns quartos de
hora. Esta medicina é uma coisao doentia!
Afinal disse o mesmo que os outros: Cautela com o lado direito.
Pomadas, fricções, óleo, e Inverno na Madeira. Adeus.
Funchal, 5 de Abril de 1869.
Teu primo e amigo
Joaquim.
1
Alusão ao casamento de seu primo com D. Maria da Glória Rodrigues de Freitas.
irmã do falecido professor e publicista Rodrigues de Freitas.
INÉDITOS E ESPARSOS
III
Meu José
Cá estou outra vez na ínclita Ulisseia a ouvir os gritos dos vendi-
lhões que possuem a propriedade de me irritar os nervos mais do que
os de outra qualquer parte. A viagemo foi; apenas nos incomo-
dou o calor e o andamento de carroção do comboio, que nos trouxe a
Lisboa, julgo que em 14 horas.
Travámos amigáveis relações os companheiros de carruagem.
Éramos eu, o Alberto, o Correia, o governador civil de Viana, que se
mudava para Faro e um ex-militar, major julgo eu, hoje empregado da
alfândega de Lisboa, que recolhia de Leça, onde estivera a banhos com
a esposa, para reassumir as suas funções.
A senhora tinha lido os meus livros e sabendo, por acaso, quem
eu era, incitou o marido a vir cumprimentar-me. Este apresentou-se-me
como o mais íntimo amigo de A. Herculano, o que me fez supor que
seria o compadre Filipe Sousa, que com o mestre forma aquele duun-
virato de homens honrados que há em Portugal. Afinal soube que era
o major Lima.
A senhora veio também à fala; era natural da ilha da Madeira e
conversámos muito a respeito da ilha.
O governador civil, cujo nome, graças à minha ignorância de
coisas políticas,o sei, era um rapaz sans laçon. O Correia na mesma;
de maneira que formávamos um amigável clube, que já considerava
como intruso qualquer passageiro que entrava em jornada de uma
estação para outra.
Vim para o hotel Aliança. Dormi excelentemente e agora prepa-
ro-me para almoçar
Lisboa —Hotel Aliança, 13 de Outubro de 1869.
Teu primo e amigo do coração
Joaquim.
IV
Lisboa—Hotel Aliança, 26 de Maio de 1870.
Meu caro José
o sei por que recebi só hoje, 26, a tua carta expedida a 24. Já
estranhava a falta de notícias tuas e tinha mandado ao correio saber
se havia cartas para mim.
INÉDITOS E ESPARSOS
Por aqui estou ainda e provavelmente até 2.» feira, em que ten-
ciono partir caminho do Porto,o sei se com escala por alguma parte.
o tenho passado pior; apenas com muito calor e muita sede,
que me obriga a meter no estômago toda a qualidade de bebidas.
Aindao fui ao teatro. Às oito horas, a força do hábito arrasta-me
para casa eo quero saber de coisa alguma mais. Lisboa aindao
me pôde fascinar.o me sinto bem aqui. Podia aproveitar o tempo
para ver muita coisa que aindao vi, mas falta-me a vontade e limi-
to-me ao Chiado e Passeio Público.
Seo tivesse a certeza de que no Porto as distracções serão para
mim da mesma força já lá estava. Mas acho certo prazer em conservar
este desejo de voltar a ver esses sítios, porque sinto que, satisfeito ele,
o tenho mais a aspirar e então o fastio é mais completo ainda.
Estimo o que me dizes das melhoras da prima Glória. Espero que
progridam e que cedo ela se encontre restabelecida.
o me lembra se te tinha ouo falado nos Serões da Província.
Recebi-os eo me desagradou a impressão.
Tenho aqui falado com o Diogo ' que está um politicão dos dia-
bos. Andando-se com ele pela rua é-se obrigado a parar de três em três
passos para cumprimentar outros politicões, desses que enxameiam
as ruas da Baixa.
No outro dia achei graça a mim mesmo. Tinha o Diogo vindo
visitar-me e estava sentado à janela do meu quarto e eu a pouca dis-
tância. Nomeio da conversa, ele interrompeu-se, bradando para a rua:
Adeus, o Saraiva, como vai isso? Era o Saraiva de Carvalho que
passava. Bastava-me erguer um pouco a cabeça para ver o homem,
vulto notável da facção Viseu. Poiso me mexi porque naturalmente
o senti vontade de fazê-lo. O Diogo como que estranhou a minha indi-
ferença, porque me perguntou: Tu conheces o Saraiva de Car-
valho ? Respondi-lhe que não. Eleo disse nada, mas creio queo
pode conceber um tal grau de indiferentismo.
O Papá já daqui partiu, levando os pássaros africanos que foram
meus companheiros durante o meu exílio na Madeira.
Os Fidalgos da Casa Mourisca entram no Porto mais próximos
do termo da sua educação do que eu supunha. Aqui mesmo, ao som
infernal das rodas dos trens e carroças e dos pregões lisboetas, tenho
trabalhado neles.
Fico por aqui poro ter mais que dizer.
Recomenda-me a todos.
Teu primo e amigo
Joaquim.
! Diogo de Macedo, engenheiro florestal e deputado por Vila Nova de Gaia.
INÉDITOS E ESPARSOS
V
Meu caro José
Peço-te que ofereças, em meu nome, à tua Augusta esse espé-
cime da indústria principal da Madeira. Lembrei-me da minha pequena
prima, assim que mo mostraram, e trouxe-o para lho dar, como uma
prova de que, antes de conhecê-la, a tinha já no pensamento.
Aproveitando o dia do aniversário da prima para esta humilde
manifestação do meu afecto pela vossa pequena, é com o fim de me
valer dos bons olhares, com que num dia destes tudo se, para dar
algum valor ao meu presente. Adeus, até logo.
26 de Junho de 1870.
Teu primo e amigo
Joaquim.
A SUA MADRINHA D. RITA DE CÁSSIA PINTO COELHO
!
Ritinha
o quero que me acuse na minha volta deo haver consagrado,
a escrever-lhe, alguns minutos das minhas inumeráveis horas de ócio.
Euo sou remisso em escrever; é para mim um entretenimento agra-
dável e muito mais pela esperança, que me alimenta depois, de uma
resposta que me causa sempre verdadeiro prazer.
Mas que lhe direi eu nesta carta? Que presentemente me sinto
com saúde, corado e com um apetite devorador? É uma notíciao
curta que nem três linhas ocupou. Que neste momento me estão ator-
doando os ouvidos as mulheres da vila, cantando ladainhas numa capela
vizinha ? Mas que interesse pode causar isso à Ritinha ? Sabe o que mais ?
Vou contar-lhe como passei a noite de ontem.
Imagina talvez que foi alguma noite aventurosa que faça arrepiar
os cabelos só de a recordar ? Pois engana-se; passei-a fazendo casi-
nhas de cartas com uma menina de quatro anos! E o mais é que a passei
sofrivelmente. De cada vez que o edifício se desmoronava, eram gar-
galhadas intermináveis da parte da criança, às quais eu e os pais nos
associávamos irresistivelmente. Foi isto em casa de um irmão do
Correia que vive aqui na vila.
Já vê a Ritinha que com pouco me satisfaço. É certo que quando
1
Senhora de raras virtudes muito ilustrada e inteligente, irmã consanguínea de
José Joaquim Pinto Coelho, primo e íntimo amigo de Júlio Dinis. Faleceu no Porto em 15 de
Agosto de 1874 com 49 anos de idade, sendo mais velha 14 anos do que Júlio Dinis. Estas
cartas e as precedentes a Pinto Coelho foram ofertadas aos sobrinhos, herdeiros do Júlio
Dinis, por seu primo o Sr. Carlos Rodrigues de Freitas Pinto Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
me deitei estava contente, porqueo sei de alegria mais contagiosa
do que a das crianças.
Perguntaram-me já aqui a razão por que divertindo-me eu com
o pouco, me conservava ainda solteiro. Foi uma senhora que me
fez a pergunta. Eu respondi que, por muitas razões, sendo uma, a
deo encontrar ainda uma senhora que fosseo fácil de contentar.
Eu reservava as outras razões para o caso em que ela se declarasse
nessas circunstâncias, o que felizmenteo fez.
Ontem fui ao mar; maso vi a pesca da sardinha. Estou receando
que parta sem assistir a esse espectáculo.
o sei quando partirei para Aveiro; em todo o caso escreva-me
a Ritinha para aqui, que é mais que provável encontrar-me ainda.
Ovar, 14 de Maio de 1863.
Seu afilhado e amigo afectuoso
Joaquim.
II
Ovar, 31 de Maio de 1863.
Ritinha
A sua terceira cartao escrita em resposta a nenhuma minha,
mas espontaneamente ditada pelo desejo de conversar comigo, foi,
por esse mesmo facto, uma das que mais apreciei. Deus queira que
mais vezes a continuem visitando essas felizes disposições de ânimo,
que me proporcionaram um dos mais gratos passatempos de que posso
gozar na vila.
É para mim um prazer inexprimível receber cartas do Porto,
sobretudo aquelas em que foi colaborador o coração e nas quais
transbordam sobre o papel as efusões da alma, sem as reservas ridí-
culas, impostas por uma mal-entendida gravidade. Esses colóquios
silenciosos que certos espíritos bem formados travam com a natu-
reza, sobretudo na solidão dos campos e durante a mudez de uma
noite de Estio,o os que eu desejo ver também trocarem-se entre
amigos e conhecidos de muitos anos. Estas pequenas confidências,
que indiferentes chamam futilidades,o entre pessoas que se esti-
mam e compreendem assunto de agradáveis conversações.
Eu também sinto aspirações iguais às suas; também quisera por
futuro a vida tranquila do campo e os afectos de uma família eleita pelo
coração para satisfazer esta necessidade de viver por os outros e para
VOL. n —28
INÉDITOS E ESPARSOS
os outros, que é um dos impulsos mais irresistíveis da natureza humana.
Trocar o rumorejar das turbas por o rumorejar das folhas; viver, amar
e até sofrer já que o sofrimento é elemento indispensável na liga
das nossas sensações mas à sombra de árvores e no meio da pura
atmosfera e aprazível solidão dos campos, é o ideal dos meus sonhos
do futuro, ideal que receio nunca chegue a realizar-se.
E maiso sou eu daqueles que descrêem do futuro. Tenho direi-
tos a esperar dele um quinhão de felicidade que o passado me negou.
E aqui baixinho sempre lhe direi que o espero. É uma ilusão talvez da
minha parte; eu sei que há enteso malfadados que desta vida só
chegam a conhecer as lágrimas; sei que mais do que um deserdado
da fortuna podia dizer de si o que dizia um poeta:
Au banquet de la We, infortune convive,
1'apparus un jour et meurs!
meurs et dans la tombe oú lentement i'arrive
Nul viendra verser des fleurs.
Mas há ems sempre um fundo de esperança que noso deixa
acreditar no mal senão quando nos achamos face a face com ele.
É por isso queo desanimo e diante dou que me encobre o
futuro, estou como o espectador aguardando com ansiedade que corra
o pano para assistir ao espectáculo que veio presenciar e que espera
há-de corresponder à sua expectativa.
Se alguma vez sinto disposições para a poesia é quando penso
isto. A primeira que em Ovar pude escrever foi expressando este
mesmo pensamento.
O meu passado foi pouco abundante de flores; uma só persiste,
a qual nasceu no meio da aridez e contudo vicejou e conserva ainda a
frescura primitiva; é a esperança, a mais fragrante das que podem
amenizar a longa campina que atravessamos na vida. Esperarei pois e
direi aos outros que esperem.
Basta por hoje.
Seu amigo e afilhado
Joaquim.
III
Ovar, 10 de Junho de 1863.
Ritinha
Novamente me quis proporcionar o prazer de ler uma sua carta
e pela minha parte novamente lhe agradeço também os momentos de
inefável e suave gozo que ao lê-la experimentei. A amizade faz-lhe ver
INÉDITOS E ESPARSOS
nas que recebe de mim um merecimento que elas por certo estão
muito longe de possuir, mas essas próprias expressões, que eu reco-
nheço imerecidas, são-me em extremo gratas por me provarem eviden-
temente quanto me devo ufanar dos sentimentos que as ditam. Apesar
de tudoo pude eu, ao que vi, desvanecer inteiramente aquelas nuven-
zitas que lhe escureciam o horizonte e,o obstante quanto disse a bem
do futuro e do Inverno, a Ritinha conservou a sua pouca confiança no
primeiro e muito má vontade ao segundo.o lhe serviu a metáfora do
terreno fértil e abençoado que mesmo no rigor do Inverno se reveste
de folhas e de flores. Valha-nos Deus com tanta descrença!
Eu a pregar, fé viva e cega no futuro, para com mais resigna-
ção suportarmos as amarguras do presente e acalmarmos o mais pos-
sível o acerbo das saudades do passado e estes incrédulos que me
o atendem!
Eu morro de simpatias por aqueles bem-aventurados crentes
que vendo quebrar-se-lhes nas mãos o ramo florido de esperanças a
que se apoiavam, estendem-nas de pronto a outro para se apoiarem
de novo. Há-oso pertinazes que, infelizes com os pais, apelam para
a felicidade de esposos, infelizes como esposos, esperam nas doçuras
de paternidade; se os filhos lhas negam, voltam-se para os netos, até
que no fim da vida, quando todo o apoio lhes falta, voltam-se para o
u e esperam só em Deus!
Tudo isto é esperar, tudo é apelar para o futuro das injustiças do
presente e se os tribunais rejeitam a apelação,o o fará decerto o
Tribunal Supremo, sempre aberto e patente, diz a revelação cristã, aos
desafortunados deste mundo. Viver de esperança em esperança é o
volutear da borboleta de flor em flor; viver sem fé e com o desalento
na alma, é o arrastar lento e penoso da lagarta, à qual só faltam as asas
para se transformar naquela. No caso em que falávamos há também
umas asas e pode haver uma metamorfoseo admirável como a do
insecto; as asaso as crenças no futuro; prendei-as a vós, cépticos e
desesperados, vereis como vos sentis mais ligeiros.
E esta constância na fé é fértil em bons e alegres pensamentos;
por ela todas as quadras da vida se adornarão de suas flores e a exis-
tência se assemelhará a estas roseiras de todo o ano, às quaisoo
indispensáveis os orvalhos vivificadores da Primavera, nem os raios
do sol ardente do Estio para florescerem. Encontram-nas cobertas de
flor os vendavais do Outono e os furacões do Inverno ainda aso
vêemo despidas queo tenham algumas pétalas desmaiadas para
alastrar na relva das campinas mais próximas.
Abençoadas roseiras! Disse-me já aqui alguém que eram estas
rosas as flores que preferia às outras, por serem de todas as estações.
Quemo há-de simpatizar com elas? Os mais tristes deste mundo
simpatizam com aqueles que no meio da adversidade conservam nos
lábios um sorriso de conforto e resignação; estas roseiras fazem lem-
brar os privilegiados de que falo.
INÉDITOS E ESPARSOS
Mas aqui estou eu a devanear eo longe já do assunto primi-
tivo ! Desculpe-me esta sem-cerimónia de conversar; autoriza-a a ami-
zade que lhe tributo e a confiança que deposito na sua.
Faça o mesmo, fale comigo como costumamos falar coms mes-
mos em horas de silêncio e longe do rumor e vozearia do mundo.
o há maneira de falar menos lógica nem mais deleitável.
A ordem nas cartas, o método ao escrever a pessoas de amizade
fazem-me lembrar as ruas direitas e os círculos e elipses bem tra-
çados e com um rigor geométrico irrepreensível de um jardim da
cidade, regular mas fastidioso; esta confusão e desordem, este suces-
sivo afastar e aproximar de um mesmo assunto, parece-se com a tor-
tuosidade e curvatura das ruas e avenidas de um parque inglês, irre-
gulares mas deliciosas.
Aceite-me a intenção e fazendo-me recomendado a todos, receba
as saudades do
Seu amigo e afilhado
Joaquim.
IV
Ritinha
Estou-lhe em dívida há já bastante tempo. Seo fosse confiar
na bondade do credor seria com verdadeiras apreensões que hoje
lhe iria falar. Mas conheço-o há tanto que meo falece o ânimo ainda.
As suas cartas são-me em extremo agradáveis; fala-se muito nelas
em coisas do coração e eu por enquanto, fraqueza própria da idade,
aindao pude habituar-me a fazer menos caso deste simpático órgão,
o desprezado hoje em dia.
Que quer? Pelo coração é que principia a vida e pelo coração
é que ela termina. Ama-se antes de conhecer, antes de pensar e quando
a inteligência se embotou pela proximidade da morte, o coração con-
serva os seus afectos, como o legado precioso que lhe resta de outras
mais felizes idades.
Venha pois a colaboração do coração nas cartas que me escreve-
rem, que por certoo hei-de ser eu que me queixe do colaborador.
Eu também quero dar-lhe um lugar nas minhas,o pondo dificuldades
a tudo quanto ele me ditar. Poderia ser inconveniente para com outros
o processo,o para com a Ritinha e para com todos quantos se inte-
ressam por as sensações íntimas que constituem os diversos episódios
desta segunda vida, que os biógrafos ignoram, mas que a memória do
indivíduo que as experimentou retém mais religiosamente do que os
factos sucedidos e fases variadas da vida social. Mas desta vez o meu
coração pouco tem a dizer de novo. Repetir os sabidos protestos de
INÉDITOS E ESPARSOS
amizade que sente e que desde os primeiros anos sentiu germinar
dentro em si, seria insistir em assuntos sabidos e a inteligênciao lhe
agradeceria o auxílio na confecção desta carta. Novos sentimentos a
revelar, uma destas confissões gerais feitas de amigo para amigo e
que tantas vezes nos aliviam do peso de certas apreensões que nos
importunam, fá-la-ia se tivesse tido vagar para proceder a um exame
de consciência escrupuloso e para me interrogar a mim próprio a
respeito de alguns pontos obscuros desta vida latente, ou vida do
coração, como lhe chamam.
Mas diz-me a Anitas ' que para uma confissão bem feitao
necessárias quatro coisas: 1.ª Exame de consciência, 2.ª confis-
o de boca, 3.ª dor de coração, 4.ª — a satisfação da obra. Já disse
queo fiz ainda o exame de consciência; a confissão de bocao
a posso igualmente fazer, por isso que estou longe; restam-me a dor
de coração, de queo estou de todo isento, e a satisfação da obra,
queo sei bem o que é. A Anitas diz-me que é satisfazer a penitência
que nos dá o confessor e além desta outras muitas para desconto dos
nossos pecados.o sei qual a penitência que a Ritinha me imporia,
se eu conseguisse fazer a confissão, mas que eu faria a diligência para
a satisfazer é certo. Em todo o caso terei de adiar esta confissão, visto
a ausência dos predicados para ela sair bem feita.
Ontem escrevi ao José, convidando-o a vir ter comigo uma noite.
Escusado é dizer que a presença da Ritinhao me causaria pequeno
prazer. Então sim que melhor poderia eu realizar o queo pude
nesta carta, apesar dos bons desejos. Mas é que nem sempre a gente
tem aquelas disposições de espírito necessárias para todos os intentos
e hoje as minhaso avessas a confidências. Com vontade as faria de
viva voz, mas a maneira lenta por que elas se fazem por escritoo
pode ser suportada pela minha impaciência, queo sei porquê acor-
dou esta manhã muito excitada.
Até breve. Peço recomendações para toda a família e envio-lhe
com esta carta as saudades do
Seu afilhado e sincero amigo
Joaquim.
Ovar, 17 de Junho de 1863.
V
Ritinha
Eu nem sei como me hei-de apresentar diante de si depois de
lhe ter desobedecido, usando de um prazo bem mais longo do que
Sua sobrinha, que tinha então 13 anos incompletos.
INÉDITOS E ESPARSOS
o que me concedeu para voltar ao Porto. Mas acredite queo esfria-
ram em mim aqueles desejos de tornar a ver reproduzidos os meus
hábitos de vida portuense, daquela vida pachorrenta que eu vivia
com meia dúzia de pessoas íntimas e com meia dúzia de livros e folhas
de papel. Tenciono voltar breve; quando,o o digo ao certo para
o faltar a uma promessa. Prometer é sempre perigoso. Há tantas
contingências na vida queo sei que haja promessas em cuja esta-
bilidade nos possamos fiar. Nem quando essas promessaso ditadas
pelo coração. Eu, que simpatizo com ele, reconheço, porém, que é
o inconstante e susceptível de se esquecer, que sempre hei-de fazer
por ser muito prudente em promessas de que ele seja a garantia. E já
que falamos nisto, na última carta sua disse-me que voltasse breve
para o Porto e queo levasse muitas saudades de Ovar. Essas, peço-
-lhe agora que mas deixe levar num cantinho da bagagem. Passar
mais de dois meses longe do Porto e da companhia daquelas pes-
soas que mais estimo e no fim deo longa ausência voltar sem
uma recordação saudosa como recompensa dela, seria infelicidade
de mais. Deixe-mas levar; é um pequeno ramo de flores silvestres
que destino para o meu cofre de recordações; pouco lugar ocupam
e o perfume que exalam éo disfarçado e subtil que poucos o per-
ceberão. Há flores assim que só os sentidos muito delicados lhes
reconhecem o perfume e, se certos sentimentos se podem dizer
flores da alma também nem todos os sentidos interiores estão edu-
cados para as pressentir.
Mas a Ritinha há-de reconhecê-las e decertoo rirá da pobreza
do meu ramo. Para quem gosta deveras das flores, nem só as dos
jardinso de apreciar; as pobres que nascem sem cultura pelos
camposm às vezes mais suave perfume no meio da sua singeleza.
Adeus. Faça-me lembrado de toda a família e receba as sauda-
des do
Seu afilhado e amigo sincero
Joaquim.
Ovar, 13 de Julho de 1863.
VI
Ritinha
Partindo do Porto era com tenções deo deixar passar o dia 29
de Julho sem ir conversar com os meus amigos da Rua de S. Miguel. '
A facilidade de transportes com que actualmente se percorre o
espaço que me separa do Porto, fazia-me supor a possibilidade de
1
Família Pinto Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
realizar este intento, mas agora mesmo me acabo de convencer que
talvezo seja deo fácil realização como julgava. Ainda bemo
tinha dado meia dúzia de passos em Ovar, ja me tomavam, com pro-
jectos meditados antecipadamente, os primeiros dias que devia aqui
passar. Ainda amanhã farei uma tentativa, mas como desconfio do bom
êxito dela, escrever-lhe-ei hoje, porque no caso de eu pessoalmente
meo encontrar com a mais família a festejar o dia que tantas vezes
tenho festejado,o ao menos as minhas palavras associar-se às que
outros de viva voz lhe dirigirem congratulando-a. Hojeo escreverei
a mais ninguém, travarei consigo uma destas conversações fáceis em
que nada nos constrange, em que é desnecessário reler o que se escre-
veu por se estar certo da indulgência de quem recebe a carta. Con-
versemos pois; suponha que me sentei no seu quarto e principiei um
destes diálogos em que seo discute nada interessante, no sentido
utilitário da palavra e que,o obstante, tanto nos interessam.
Um dia de anos é sempre um dia de recordações; poucaso
as almaso desprovidas de alegrias no passado que nestes dias se
o sintam dominadas pelo sentimento delicado e ao mesmo tempo
delicioso e amargo ques chamamos saudade. Lembram todos os
momentos passados nestes dias consagrados aos afectos da família.
E nos intervalos das manifestações da alegria presente, uma certa
melancolia nos acomete e o espírito, a furto, realiza as suas excursões
nas regiões encantadas de um passado que para sempre volveu.
Mas esta contemplação do tempo passado tem seus encantos, é
uma satisfação para os infelizes do mundo recordarem-se que houve
uma época em que provaram a felicidade. A ilusão às vezes éo com-
pleta que chegamos a imaginar-nos transportados a essas épocas que
passaram e cujo verdadeiro valor só apreciamos agora.
Por isso euo interrompo essas meditações a que involuntária e
irresistivelmente nos entregamos nestes dias ; elasm bastante de agra-
dável na sua melancolia. Respeito-as, como desejo que façam às minhas,
Ora está-me a parecer que no dia em que receber esta minha
carta há-de ter experimentado alguma coisa disto que digo. Alguns
dias do passado hão-de surgir-lhe, mas já com as alegrias de então
coloridas com as mágicas tintas com que o tempo completa as suas
obras. Nesses momentos é justificada a melancolia e justo é que se
respeite.o a sentir seria uma ingratidão para com o passado, de
que só as almas menos delicadamente formadas seriam susceptíveis.
Mas, de quando em quando, afastam-se essas nuvens que nos escu-
recem a perspectiva e por alguns instantes entregamo-nos todos à
comunhão de alegrias, que nos nossos mais próximos parentes e
amigos íntimos se manifestam nestes dias,
Domine-se, Rifinha; faça por momentos calar as recordações que
a impelem à melancolia e aceite os gozos, ainda que limitados, do pre-
sente, com fé e esperança.o estas duas irmãs as melhores compa-
nheiras que podemos tomar para as jornadas da vida. Mesmo quando
INÉDITOS E ESPARSOS
percorramos caminhos agros e juncados de espinhos,o enlevados
vamos que nem reparamos que osso lacerados pelo trilho que
pisamos e, fitos os olhos na extremidade da estrada, que às vezes
nem chegamos a atingir, esquecemos as dificuldades e estorvos com
que lutamos no presente.
Ai bem adados os tristes
Que nunca perdem a esp'rança;
Sempre com fé no Futuro
Nunca o sofrimento os cansa.
Nunca lhes falece o alento,
O alento quase divino.
Nunca nas mãos se lhes verga
O bordão do peregrino.
E como o antigo romeiro,
Visitando a Palestina,
Pisava os areais ardentes
Com resignação divina.
Assim eles, esp' rançados
Num porvir longínquo ainda,
Passam afoitos na viagem
Com uma fé que nunca finda.
E quantos, quantoso morrem
Por esse extenso deserto!
Quantos sucumbem cansados
Quando se migavam perto!
Mas embora sucumbindo,
Vendo a morte que se avança,
O som que lhes sai dos lábios
É ainda um hino d'espsrança.
Poís quando de todo findam
As esperanças da Terra
A alma aspira os perfumes
Daquelas que ou encerra.
Confiemos, pois, confiemos.
o abatamos a fronte.
Esperemos que o Sol ressurja
Dum ponto do horizonte.
Se lhe agradarem estes versos, mal alinhavados, recompense-me
enviando no seu dia de festa uma saudosa lembrança
Ao seu afilhado e íntimo amigo
Joaquim.
Ovar, 23 de Julho de 1863,
INÉDITOS E ESPARSOS
VII
Ritinha
É à pressa que lhe escrevo hoje, pois oiço já tocar o sino para
a missa eo quero faltar a este dever de católico que quase todos os
domingos observo.
A missa ouvida aqui na igreja recorda-me a deo Francisco, à
qual se prendem já tantas memórias de outros tempos queo posso
entrar ali sem experimentar uma certa comoção.
Neste ponto sou como a Ritinha; simpatizo com o sino deo Fran-
cisco. ' Parece-me que ele sabe parte da minha vida; aqueles santos
conhecem-me e quando voltar ao Porto e entrar na igreja, onde há
tantos anos eles existem, quase espero vê-los saudarem-me como a
um amigo velho.
Quantas vezes, encostado ãs grades da nave direita daquela
igreja, quando ainda ela está despovoada de fiéis e portanto mostrando
melhor toda a solene severidade da sua arquitectura, eu deixo correr
o pensamento pelo passado onde me surgem, à luz da saudade, as
imagens daqueles que, em tempos mais felizes, ali encontrava tam-
bém. Tem-me acontecido engolfar-meo profundamente nestas refle-
xões que quase perco a consciência do lugar onde estou e me julgo
transportado a um passado de que nunca me recordei sem uma triste
desilusão pela aridez do presente. Agora, porém, reparo que há-de
estar notando na minha linguagem uma diferença considerável compa-
rando-a com a que empregava nas primeiras cartas que lhe escrevi.
Então, fazia a apologia do futuro, hoje faço o elogio do passado.
Ora quem fala muito no que foi, é porque se sente pouco de ânimo
para se ocupar do que há-de ser. Quem sai de um enterro pouco pode
desejar assistir a um baptizado. Mas é que efectivamente nestes últimos
tempos euo tenho podido gabar-me de possuir, no grau que reco-
mendava aos outros, a primeira daquelas três virtudes, queo a
quem as possuir deveras a felicidade que é possível na Terra e que,
seo se enganam os vistos e entendidos em assuntos teológicos, lhes
devem abrir também as portas do Céu.
0 José promete-me uma descompostura por causa disto; aguar-
do-a com impaciência a ver se terá o poder de me curar.
Eu confio que a doençao seja de desesperar e que, mesmo
sem medicamentos, ela passaria; contudo sempre é bomo confiar
demasiadamente nas forças medicatrizes da natureza. Em medicina
euo sou dos mais amigos de medicamentar a humanidade enferma,
mas tambémo deixo as coisas correrem à sua vontade e, sendo pre-
ciso, até um cáustico receito. Ora nestas doenças morais há também
1
Do extinto convento de Sao Francisco.
INÉDITOS E ESPARSOS
os seus cáusticos e Deus queira que eles meo sejam nunca precisos,
poiso seria o medo que me faria recusá-los. Por isso se souber de
algum abençoado medicamento moral que me possa curar, receite-mo
sem escrúpulo. Verá como eu me sujeito ao tratamento com a obediente
submissão do enfermo
Que a Ritinha é bom médico para estas moléstias conjecturo-o,
por saber que tem experiência de sobra; resta-me provar-lhe que sou
bom doente, o que eu próprio ignoro.
Adeus, por hoje; recomende-me a todos e transmita-lhes também
as saudades do
Seu afilhado e amigo verdadeiro
Joaquim.
Ovar, 9 de Agosto de 1863. '
VIII
Funchal, 19 de Abril de 1870.
Ritinha
Recebi com muito prazer a sua carta como a de uma das pessoas
que mais estimo e à qual me prendem laços de amizade e afeições e
memórias comuns.
Na vida desconsolada e insípida que aqui passo há verdadeira-
mente só duas ocasiões de satisfação para mim. A primeira é quando
recebo e leio com ardor as cartas da família e dos amigos; a segunda
é em alguns momentos em que me esqueço da realidade em que vivo,
por muito me engolfar em um certo mundo que ando construindo e
na convivência de umas criaturas que me devem a tal ou qual exis-
tência de que principiam a gozar. *
Já vê que eu também tenho filhos e experimento um pálido
reflexo dos gozos da paternidade, que na sua mais intensa manifes-
tação está agora saboreando o nosso caro José.
Estes meus filhosm a vantagem de só chorarem quando eu
quero e nas ocasiões que lheso por mim impostas. Penso como pai
no destino que lhes devo dar; mas tenho nisso mais directa e segura
intervenção do que os verdadeiros pais am em relação a seus
filhos.. Enfim vou-me contentando com esta meia paternidade, assim
como o faço com todos os gozos da vida, dos quais uso somente em
meia força parao prejudicar a minha saúde.
1
Referência ao romance Os Fidalgos da Casa Mourisca.
INÉDITOS E ESPARSOS
E contudo imagino que deve ser agradável principiar outra vez a
viver na vida de um filho. Ainda há pouco tempo um amigo meu, que
é pai, me escrevia dizendo-me que sofrera mais uma vez os incómodos
da dentição, porque sentira tudo quanto a filha sentia ao romper-lhe
os primeiros dentes.o esses gozos e impressões que se preparam
para o José, para quem os sucessivos períodos da existência da filha
o ser como que uma recapitulação da própria existência.
O que é pena é que estes prazereso puros e consoladores
sejam amargurados pela doença, essa terrível perseguidora de nossa
família, à quals devemos os únicos infortúnios que nos tem feito
sofrer.
Espero, porém, que a crise passará e que cedo nessa casao
haja sombras a escurecer o tentador quadro de família que nela se
encerra.
Peço-lhe que se incumba em meu nome de recomendar pru-
dência ao José nos seus desvelos, aliás naturalíssimos, e coragem a
prima Glória.
A sua nova afilhada dê um beijo de mando de um afilhado mais
antigo e a toda a família muitas saudades. Creia sempre na afeição
que lhe tributa
Seu afilhado e muito amigo
Joaquim.
A ALEXANDRE HERCULANO
Recebi ontem uma carta do meu amigo A. Soromenho, na qual
ele teve a bondade de me comunicar a opinião, em extremo lisonjeira,
que V. Ex.* formava de uma produção literária minha «As Pupilas
do Senhor Reitor» que eu lhe pedira para sujeitar à valiosa apre-
ciação de V. Ex.*.
Quando o alvoroço em que a noticia me deixou alvoroço a
que neste caso,o sei de espírito que fosse superior me permitiu,
serenando, conceber um pensamento, foi o primeiro o de agradecer
do coração a benevolência de tal juízo, tanto mais para apreciar,
quanto, vindo da origem que vem, é além de uma grande recom-
pensa a um pequeno trabalho, um grande estimulo para trabalhos
novos.
Peço pois a V. Ex.* que se digne aceitar por isso a minha pro-
funda gratidão.
Mas o primeiro obséquio recebido anima-me a rogar mais um.
É que me seja permitido, quando publique em volume o meu romance,
fazê-lo aparecer, dedicando-o a V. Ex.*, sob a égide de um nomeo
justa e unanimemente respeitado.
Nisto há uma espécie de restituição também. Este romance das
«Pupilas» é a realização de um pensamento, filho das impressões que,
desde a idade de doze anos, tenho recebido das sucessivas leituras
do «Pároco de Aldeia». O meu reitoro fez mais do que seguir,
a passo incerto, as fundas pisadas que o inimitável tipo criado por
V. Ex.* deixou na sua passagem.
Mais de uma razão milita a favor do meu pedido; tenho fé que
meo será recusado.
INÉDITOS E ESPARSOS
Além de que, estas minhas pobres «Pupilas»o podiam encon-
trar asilo mais do seu gosto, do que na solidão de Vale de Lobos.
Seria crueldade cerrar-lho.
Ser-me-á dado encaminhá-las para?
Porto, 7 de Abril de 1867.
De V. Ex.'
O mais obscuro e obrigado discípulo
Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
AO SR. VISCONDE DE CASTILHO (JÚLIO)
!
Meu amigo
A extrema bondade, com que me tratou durante a minha demora
em Lisboa, anima-me a escrever-lhe para lhe pedir mais um obséquio :
é o de me desculpar para com seu bondoso pai, o Ex.
mo
Sr. António
Feliciano de Castilho, poro concorrer ao serão do Sr. Latino Coelho
na noite de domingo. Realizou-se o que eu previra, fui obrigado a
partir nesse mesmo dia. Fiquei assim privado do prazer de ouvir mais
uma obra-prima da benemérita e incansável pena do nosso grande
lírico.
Chegaram-me aqui os ecos dos aplausos, com que a leitura foi
a cada momento interrompida, e fizeram-me sentir inveja dos que
assistiram a ela.
Faço votos para que cedo possa pagar a minha dívida, aplau-
dindo no teatro o queo pude aplaudir na sala.
Rogo-lhe o obséquio de transmitir os meus respeitos a seu pai
e à sua Ex.
ma
esposa, cujo afável acolhimento recordarei sempre reco-
nhecido.
Se aqui no Porto de algum préstimo lhe puderem ser os meus
serviços, disponha de quem é
seu amigo agradecido e sincero admirador
Joaquim Guilherme Comes Coelho.
Porto, 1 de Abril de 1868.
INÉDITOS E ESPARSOS
II
Meu caro Túlio de Castilho
Estava fora do Porto quando me procurou a sua amável e apre-
ciável carta. Remeteram-ma para a praia de Leça da Palmeira, onde
eu me refugiara dos ardores caniculares de Agosto.o foi das menos
agradáveis impressões que trouxe deste desafogados de férias
as que a leitura da sua carta me proporcionou;o que eu me con-
vencesse de que me eram cabidas aquelas expressões, de que se
serve em toda ela a meu respeito; mas porque, interpretando-as como
sintomas da sua amizade, lisonjeava-me a interpretação, como homem
que ainda sou sensível à aquisição de um amigo.
Agradeço-lha pois por tal motivo e prometo nunca deixar de
ser grato ao afectuoso acolhimento que fez ao meu livro, como o sou
ao que meses antes lhe mereceu já o seu autor.
Recorda-me um projecto que formei em Março de voltar a Lisboa,
quando melhor pudesse travar relações com ela; e bem vontade tinha
eu já de realizar esse projecto. Mas no estado actual do serviço no
estabelecimento científico a que pertenço, onde estão tantas vagas
por preencher,o posso ainda saber se conseguirei já nestes meses
próximos satisfazer o meu desejo.
Seo puder em pessoa aceitar o seu tentador convite de
ir visitá-lo à solidão onde se refugiou, creia que em espírito o
vou visitar, muita vez, eu que por índole e por hábito fujo aos ajun-
tamentos e me comprazo nas solidões afectuosas, como essa que me
descreve. Nesse ponto há parentesco nas nossas tendências, ao que
parece.
O que lhe desejo é que Deus o livre dass interpretações
a que as índoles assim andam sujeitas e de que eu já tenho sido
vitima.
Adeus, até à vista ou até quando a sua amizade quiser de alguma
maneira lembrar-se de mim.
Peço o apreciável favor de transmitir a sua esposa os meus res-
peitosos cumprimentos e de me fazer lembrado de seu Ex.mo pai e
manos.
, Obsequeia-me dispondo da amizade pouco valiosa do
seu af.° e reconhecido amigo
Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
Porto, 12 de Setembro de 1868.
INÉDITOS E ESPARSOS
III
Meu amigo
Há perto de dois meses que tive o prazer de receber o volume
das suas poesias com uma delicada e lisonjeira dedicatória.
Aindao acusei a recepção dele, nem lhe agradeci o obséquio
do oferecimento, porque desde então tenho lutado com uma pertinaz
moléstia- de que ainda hoje me considero mal convalescente. Sem
poder sair, sem poder ler nem escrever, imagine a agradável vida
que tenho passado este Inverno, tendo por única distracção ver cair
uma chuva torrencial e incessante e ouvir o assobiar do sul nas jane-
las do meu quarto.
Desejo do coração que em toda a sua vida o meu amigoo
experimente uma pequeníssima fracção sequer dos tormentos morais,
ainda maiores de que os físicos, que eu tenho experimentado, desde
fins de Outubro.
No meio disto tudo era-me delicioso alívio ouvir ler, nos momen-
tos em que o meu espírito serenava mais, algumas das belas compo-
sições do seu livro, em tudo digno de ser firmado com o nome de
Castilho.
O meu amigoo podia esquecer o «Noblesse oblige» de fidal-
guia antiga. O meu amigo cumpriu admiravelmente as exigências lite-
rárias do seu ilustre nome...
Que os primeiros versoso sejam os últimos é quanto eu
desejo e espero e julgo que comigo todos quantos os lerem.
Perdoe-me sero lacónico. Sinto ainda tremer ao e receio
que a medicina me ralhe. Fico por aqui.
Se o tempo melhorar, talvez, seguindo o conselho da ciência, fuja
por algum tempo dos meus pátrios nevoeiros e vá respirar em Lisboa
um ar mais adequado aos meus pobres pulmões.
Nesse caso espero aceitará um abraço do
seu mt,o am.° e adm.
or
/. G. Gomes Coelho.
Porto, 1 de Janeiro de 1869.
INÉDITOS E ESPARSOS
IV
Meu caro Júlio de Castilho
Resolvi. Parto na sexta-feira.
o se incomode, porém, para obter-me as informações em que
falámos. Encontrei há dias um patrício meu, chegado recentemente
da Madeira, que me deu as precisas indicações para eu me orientar
na ilha.
Agradeço-lhe porém cordialmente os seus oferecimentos, como
se deles me utilizasse.
Ponho à sua disposição, e de todos os seus, os meus fracos ser
viços na ilha.
Recomende-me a seu ilustre pai e manos e creia-me
seu sincero e reconhecido amigo
Gomes Coelho,
Lisboa, 2-3-69.
V
Funchal, 10 de Abril de 1869
Meu caro Júlio
Recebi com inexprimível prazer a sua carta. Na monótona vida
que passo nesta ilha, é a chegada dos vapores de Portugal o aconte-
cimento que mais me alvoroça o coração.
Nunca tinha experimentado o que é passar quinze dias em abso-
luta ignorância do que vai nas casas por onde deixamos os mais Ínti-
mos e sagrados afectos de alma. É desesperador!
Viver no meio de uma população obsequiadora e afável, mas
ondeo vemos um só rosto que conhecêssemos quinze dias antes,
olhar em roda des e encontrar para todos os lados o mar, a sepa-
rar-nos cruelmente dos nossos amigos, e somente em raros dias, à
espera dos quais se passam melancolicamente os outros, avistar ao
longe uma nuvenzinha de fumo a prometer-nos as almejadas novas...
é um estado de tal influência sobre a inervação que, em grande parte,
anula os benéficos efeitos deste maravilhoso clima.
INÉDITOS E ESPARSOS
Sim, meu amigo, tenho aqui sofrido repetidos acessos da minha
já agora habitual e incurável doença a melancolia ou mais prosai-
camente a hipocondria.
Imagine pois com que ânsia rasgo os sobrescritos das cartas que
recebo e vou ao fim da página procurar o nome de um amigo.
Desta vez li, entre outros, o seu, e saudei-o como uma visita
bem-vinda à minha solidão.
A agradável impressão com que encetei a leitura, desvaneceram-na
as primeiras páginas da carta em que me fala da doença de seu pai.
A notícia magoar-me-ia, quando ainda me ligassem a ele os
simples laços que unem leitores e autores, laços que no caso actual,
datam do tempo das minhas primeiras leituras.
Mas depois de me ter sido dado o conhecer pessoalmente o
escritor, depois de ter recebido dele as mais lisonjeiras provas de
simpatia, depois de o ter visto na vida de família e admirado como
pai, quem há muito admirava como poeta, a impressão foi e devia ser
muito mais profunda.
Felizmente creio que será apenas uma nuvem que passa nou
da sua felicidade doméstica, meu amigo, essa que o faz triste. Das
suas próprias palavras, assim o julgo. Os meus votos reúnem-se aos
seus para que cedo possa seu pai entregar-se inteiro à família, à pátria
e à humanidade.
Deixe-me passar em claro o muito que diz do meu livro, que
o malfadado foi, que nem as provas lhe vi. Tenho aqui um exemplar,
mas é tal o meu indiferentismo ou, melhor direi, o meu fastio literário,
que ainda nem ânimo tive para o passar por os olhos.
Dizem-me, porém, que lheo faltam delitos tipográficos de
assustar.
As suas observações parecem-me justas e sinto somente queo
desse mais largas à sua franqueza ou perdesse o medo de me ferir a
susceptibilidade de escritor, de todas a mais sujeita a pruridos.
Mas, ó meu caro Júlio, o meu estado de espírito actual torna-me
inteiramente insensível aos encantos do elogio e aos amargores da
censura. Os críticos mais atrabiliários podem dar sem comiseração,
queo num homem, senão morto, pelo menos profundamente anes-
tesiado.
Em quanto ao conselho de reforma para uma segunda edição,
o o seguirei, ainda quando o meu livro tenha de ter uma segunda
edição, caso muito hipotético. Eu tinha havia muito por sistemao
alterar, senão em coisas mínimas, qualquer livro que publicasse.
Os leitores e compradores da primeira ediçãom direito a
que nas subsequentes seo dê nem mais nem menos do que o
que apareceu na primeira. A ausência de um aleijão que se mutilou,
julgando melhorar a obra, é às vezes lamentada por um leitor singular,
Depois, formada uma vez opinião a respeito de um livro, de nada valem
reformas para a modificar; morre ou vive agarrado a ela.
INÉDITOS E ESPARSOS
Esta era, como disse, a minha opinião, a qual folguei de encon-
trar confirmada numa das páginas do Werther. Vendo-a autorizada por
Gcethe, adoptei-a para o meu credo literário e custa-me sempre mentir
a um dos artigos dos meus credos, de qualquer natureza que sejam.
Demais a uma obra daquelas faz já o autor muito favor, se a relê,
depois de publicada; reformá-la é importância demasiada.
Adeus; peço que me faça lembrado de seu pai e de seu mano,
que transmita os meus respeitos a sua Ex.esposa,e e mana e
creia sempre na afeição e simpatia do
seu reconhecido amigo
Comes Coelho.
P. S.—Esquecia-me agradecer-lhe o oferecimento que me fez de
tratar da prorrogação da minha licença. Tenho, porém, necessidade
de ir em Maio ao Porto.
No Inverno talvez volte à ilha. C. C.
VI
Meu caro Júlio
Escrevo-lhe para me congratular consigo e com os seus pelo
restabelecimento do seu bom pai.
Passei em Lisboa, de volta da Madeira, na época em que os
jornais do dia o davam por seriamente doente. Foi isto o que me
impediu de realizar a tenção com que vinha de ir visitá-lo.
Em transes de família, como aquele por que a sua estava pas-
sando, só os muito íntimoso bem-vindos à cabeceira do enfermo.
Eu receava ser importuno;o fui.
Segui, porém, ansiosamente a sucessão das fases da moléstia,
tal como a imprensa periódica a descrevia; e agora que dela soube
ter entrado em convalescença o ilustre doente, é que entendi poder
associar a minha voz às de tantos que o estavam felicitando, exprimir-
-lhe o júbilo com que recebi a boa nova, boao só para a família,
como para a pátria, que como tal a saúda.
Adeus, meu amigo;o lhe quero roubar mais tempo, que todo
ele deve parecer pouco para as alegrias domésticas.
Disponha sempre do
Seu amigo muito reconhecido e admirador
Joaquim Guilherme Comes Coelho.
Porto, 18 de Junho de 1869.
AO SR. JOSÉ PEDRO DA COSTA BASTO
!
Funchal, 20 de Janeiro de 1869.
Meu caro amigo
Julguei queo teria tempo de lhe escrever por este correio e
por isso lavrei na carta para o Soromenho um pós-escrito, que esta
carta inutiliza. O mar do Funchal quis finalmente mostrar-se com cara
de mar, que ainda lheo conhecia; salta, ronca e espuma de maneira
que o vapor aindao pôde descarregar e portantoo sai amanhã.
Em tal caso, aproveito, com muito prazer, a ocasião para responder
à sua carta, a qual recebi com tanto maior prazer, quanto mais inespe-
rada foi a surpresa.
Falo-lhe com franqueza;o sei porque, tinha o meu amigo na
conta de remisso nestas coisas de epistolografia e por isso fiquei extre-
mamente penhorado, assim que li o seu nome por baixo de uma carta,
cuja letra desconheci. Creia que do coração lhe agradeço a lembrança.
o sabe o prazer com que se recebem aqui as cartas dos amigos.
É geralmente um dia de febre o da chegada dos vapores. O motivo
principal da sua carta aumenta o meu reconhecimento. Uma fineza
igual devo ao Soromenho, que também me mandou uma receita expe-
rimentada com eficácia em doenças análogas à minha. Isto prova-me
que por aí ando eu ainda na lembrança dos amigos eo posso ser
indiferente a provas tais.
Sabia da receita do bálsamo. É também aqui muito aconselhada,
o que depõe a favor dela por serem nesta terra todos especialistas de
moléstias pulmonares.
INÉDITOS E ESPARSOS
Aindao o experimentei porque tenho sentido melhoras sine
arte e, quando isto sucede, entendo eu, apesar das minhas cartas e
insígnias professorais, queo é prudente entrar a medicina em cena.
O copo de vinho do Porto bebo eu todos os dias,o em jejum mas
ao jantar e desseo tenho nada a dizer, queo seja em seu louvor.
Riro podia eu da sua receita, porque há tantas razões para aceitar
essa como muitas que os médicos formulam.
o crimine a autora do romance em que falei ao Soromenho.
A impressão que me causou o parágrafo que citeio foi profunda.
Notei-a por achar singular a- lembrança, que teve a autora, de me
mandar o livro em que escrevera aquilo quandoo sabia em que
estado de doença ele me viria encontrar.
Tenho vontade de seguir os conselhos que me dá relativos a
trabalhos literários porque hoje a única maneira de minorar os sintomas
morais da minha doença, é andar com a cabeça pelos mundos da ima-
ginação. E, se puder, hei-de fazê-lo, mais para distracção do que para
glória minha e muito menos do Pais. (Esta foi a frase mais maliciosa
da sua carta).
Retribua ao mestre as suas recomendações. É-me grato saber
que ele ainda conserva uma recordação do seu hóspede de Vale de
Lobos,
Um abraço a seu irmão e creia-me
Seu muito amigo
Gomes Coelho.
II
Meu caro amigo
Agradecido pela sua carta e desde já lhe peço desculpa do que,
estouvadamente, disse na minha anterior a respeito de preguiça em
escrever.
Creia queo ia naquelas palavras a menor intenção de ofen-
dê-lo. Reconheço que, se havia motivo para tal censura, era antes da
minha parte, porque deixei sem resposta uma carta sua do ano pas-
sado. Qual fora a razão dessa faltao posso eu já descobrir; mas
aquele ano foi para mim uma época excepcional; nem eu sei como
ainda tive cabeça para algumas coisas que durante ele fiz. Por isso
o se poderá, sem demasiada severidade, tornar-me responsável
por o que então pratiquei ou deixei de praticar e nem da sua já
provada bondade para comigo espero tais rigores.
O meu estado de saúde tem-se ressentido bastante do Inverno
que aqui tem feito,oo rigoroso como no continente, mas excessivo
INÉDITOS E ESPARSOS
para a ilha, ondeo há memória, mesmo entre os velhos, de outro
Inverno igual.
Espero contudo que estes incidentes desfavoráveiso conse-
guirão agravar o meu estado a ponto de fazer-me arrepender de ter
vindo à Madeira.
Confio que os dois meses que me faltam para terminar o tempo
desta estação higiénica me desforrarão do tempo perdido.
Distracções somente aqui no-las fornece a luta eleitoral desca-
belada e furiosa como em poucas partes. A política da ilha é das mais
malcriadas que tenho visto. As gazetas mimoseiam-se com epítetos,
um só dos quais daria fundamento suficiente para uma polícia correc-
cional. Euo pude ainda interessar-me por esta contenda, nem
tomar partido entre o décimo quarto morgado do Caniço e Dr. Afon-
seca de um lado e o Herédia e um tal Dr. Vieira do outro, de maneira
que falta-me este meio de diversão e fica-me só o recurso de con-
tar os dias que me faltam para mudar de vida e de terra.
o lhe tomo mais tempo; ficarei por aqui, pedindo-lhe que
acredite sempre, e apesar de tudo, na sinceridade da afeição do
Seu muito amigo
Comes Coelho.
Funchal, 20 de Março de 1870.
III
Meu amigo
Principio a escrever-lhe às 11 horas da noite.o é porque tenha
coisa importante a comunicar-lhe mas porque de dia o tempo em que
o tenho que fazer na escola passo-o estendido em um canapé, deli-
ciando-me na leitura dos periódicos políticos onde se narram as herói-
cas façanhas da ditadura que felizmente nos rege ou contemplando
a grata perspectiva de uma próxima suspensão de pagamentos. Eo
há arrancar-me desta indolência.
E contudo sentia vontade de escrever-lhe para saber de si e de
seu mano e do Soromenho e para lhe agradecer a carta que me
escreveu.
Faço-o agora. Peço-lhe para me desculpar o cumpriro tardia-
mente este dever. Em falta estou também para com seu mano, a quem
aindao dei os parabéns pela justiça que lhe fizeram; que isto de
fazerem justiça a um homem é negócio muito para parabéns em um
país de pataratas como está sendo o nosso.
INÉDITOS E ESPARSOS
Peço-lhe que lhe dê por mim um abraço exprimindo a minha
sincera congratulação.
Falando de mim, tenho a dizer-lhe que vou muito sofrivelmente.
Tive um pequeno incómodo há perto de um mês, mas já me restabe-
leci e hoje estou melhor do que antes de o experimentar. Se assim
continuar,o tenho razão de queixa.
Espero que a sua saúde e a dos seus seja boa e que o meu amigo
goze daquela satisfação de espirito que pode gozar um homem de
boas intenções em um pais como o nosso e numa época de tanta pouca-
-vergonha.
Aceite muitas saudades deste
Seu amigo muito obrigado e afeiçoado
Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
Porto, 14 de Julho de 1870, 11 horas da noite
IV
Meu caro amigo
Aí vai a minha vera efígie, Oxalá que eu possa sempre satisfazer
o prontamente os seus desejos.
Mas como o tempoo vai para desinteresses, lembro-lhe que é
de justiça recompensar-me mandando-me também o seu retrato, que
aindao tenho, e obter-me o de seu mano, cuja dívida está há muito
mais tempo em aberto.
Tenho passado sofrivelmente apesar de permanecer no Porto
em consequência de um incómodo de meu pai. Espero, porém, por
estes dias ir para mais perto de árvores e para mais longe dos polí-
ticos, se é que antes algum inesperado acontecimento meo obri-
gar a vestir a farda miliciana e a imobilizar-me.
Os lavradores queixam-se da falta de água; eu, porém,o posso
deixar de me congratular por causa disso; quando a atmosfera se
carrega de vapores é quando passo mal. O pior é que se vai aproxi-
mando o tempo de emigrar e esta vida de ave de arribação principia
a bulir-me com os nervos. Resignemo-nos, porém, que é o grande
remédio das coisas queo o têm.
Pela sua carta vejo que tem passado bem e que se retemperou
naqueles bons ares de Vale de Lobos. E seu mano?o aproveita
algum tempo para descansar? Passará toda a estação entre os perga-
minhos da Torre?
INÉDITOS E ESPARSOS
Escuso de dizer-lhe que desejo me faça lembrado dele, assim
como do Soromenho, queo sei com certeza se ainda vive.
Disponha de mim e creia sempre na verdadeira estima do
Seu amigo muito do coração
Joaquim G. Gomes Coelho.
Porto, 11 de Agosto de 1870.
V
Meu amigo
Recebi a sua carta e cordialmente lhe agradeço o interesse que
toma pela minha saúde.
Como para justificar o requerimento que eu fiz a pedir licença
para ir para a Madeira, fugindo ao Inverno de Portugal, aumen-
tou-se-me a tosse nestes últimos dias e com ela vieram umas dores
musculares que me atormentam bastante.
A sua ideia a respeito do Algarveo me desagradava inteira-
mente. Era uma maneira de me tornar menos custoso o exílio, variando
as impressões recebidas durante os meses de Inverno; maso confio
demasiado nas comodidades que podem encontrar-se nas nossas cida-
des do Algarve; além de que, presentemente, a epidemia anda por
aquelas paragens e eu respeito muito a ilustre viajante.
Enfim cruzemos mais uma vez as ondas em demanda daquela
pérola do Oceano, onde já tenho passado horas de fastidiosa melan-
colia. Mas respira-se melhor, que é o essencial.
Breve tenciono vê-lo. Os meus papéis já andam pela secretaria.
Aguardo a decisão do Bispo.
Talvez a 11 de Outubro aí esteja.
Adeus. Creia-me sempre
Seu amigo do coração
Joaquim G. Gomes Coelho.
Porto, 30 de Setembro de 1870.
INÉDITOS E ESPARSOS
VI
Meu caro amigo
Escrevo-lhe a participar-lhe que vou vivendo sofrivelmente. Já
sofri um defluxo depois que cheguei, mas felizmenteo teve grande
importância. Agora estou em um dos melhores períodos dos meus
habituais incómodos; tusso somente a horas certas e tenho o resto do
dia livre. É ao que aspiro; com saúde mais apurada jáo conto.
Assim esta se mantivesse.
Este ano a afluência de doentes à Madeira é considerável. Estão
todas as casas alugadas e as hospedarias bem fornecidas. Esta circuns-
tância que é lisonjeira para os que vivem à custa desta melancólica e
desalentada colónia, para mimo é muito agradável, porque aumenta
o número das caras amarelas e das organizações deterioradas que
encontro todos os dias pelas ruas. As vezes o Funchal parece-me uma
verdadeira citta dolente na qual pesa uma nuvem de melancolia, que
seo evita.
Faleceu há poucos dias o pobre Galhardo. Há um ano que che-
gou pela segunda vez à Madeira. Este ano foi para ele um período de
contínuos padecimentos. Ultimamente sobreveio-lhe uma complicação
cerebral, que lhe fez perder a razão e a que sucumbiu dentro de
poucos dias. Pobre rapaz; era um simpático companheiro.
Deixemos, porém, estas ideias tristes.o falemos nos negócios
da política interna, que enjoam, nem da externa, que indignam. Fale-
mos de si e dos seus. Como passa? Como passa seu mano? Como
seo com o inverno de Lisboa? Responda-me a tudo isso quando me
escrever. Faça-me lembrado de seu mano João e do Soromenho, se
o vir. No caso de falar com o mestreo se esqueça também de lhe
transmitir os meus respectivos cumprimentos.
Fico por aqui parao o maçar mais; só lhe peço que seo
esqueça de um retrato em que lhe tenho falado.
Seu amigo reconhecido
Gomes Coelho.
Funchal, 19 de Novembro de 1870.
INÉDITOS E ESPARSOS
VII
Meu bom amigo
o quero deixar passar o vapor sem dar sinal de mim.
Serei lacónico parao o maçar. A minha saúde continua no
mesmo estado longe do tipo ideal a que jáo aspiro mas supor-
tável para quem como eu se contenta com pouco.
O tempo vai aqui de Primavera e nestas condições passo
sempre melhor. Sensaboria a maiso poder, mas já estou habi-
tuado a isso.
Diga-me o amigo como passa, assim como seu mano, a quem me
recomendo e agradeço o cuidado que tem tido de me escrever.
Aqui fico à espera que me ocupe, dando ensejo a satisfazer a
boa vontade que tem de lhe servir para alguma coisa ao
Seu amigo do coração
Joaquim C. Gomes Coelho.
Funchal, 19 de Janeiro de 1871.
VIII
Meu bom amigo
Recebi com prazer o seu retrato para o qual tinha, havia tanto
tempo, lugar reservado. Foi-me agradável ver um rosto amigo, prin-
cipalmente porque as minhas disposições de espírito eram tristes
naquele momento. A causa do silêncio que tenho guardado em
dois ou três paquetes sucessivos foi a da minha doença. Os de
Fevereiro foi ums de provação para mim. Tive todos os sinto-
mas mais apoquentadores que podem afligir um mortal. Nevral-
gias, espasmos, dores viscerais e afinal mais tosse, mais catarro,
mais expectoração, fraqueza, emagrecimento e um estado nervoso
que mal me deixava falar e escrever e que por issoo me deixou
cumprir para com os meus amigos os deveres que a amizade me
impunha.
Agora vou melhor, mas devagar. Confio em Abril e Maio. Eis o
motivo da minha falta que espero me desculparão.
INÉDITOS E ESPARSOS
Mostre esta carta a seu mano, a quem escreverei pelo paquete
seguinte.
Fico por aqui, parao abusar das minhas poucas forças.
Adeus, um abraço a seu mano e receba outro do
seu amigo muito reconhecido
Joaquim G. Comes Coelho.
Funchal, 19 de Março de 1871.
A JOÃO PEDRO BASTO
!
Porto, 10 de Julho de 1868.
Ex.
mo
Sr. e amigo
Tive há dias o prazer de receber uma carta sua, escrita para me
agradecer uma coisa naturalíssima, mas que, no seu entender,o
tinha fácil explicação.
Se a modéstia o. impede de admitir outra causa a explicar o apa-
recimento do meu livro em sua casa, espero queo me quererá dar
o desgosto de nem a amizade considerar como razão bastante.
Agradeço as expressões em extremo lisonjeiras que me dirige
falando dos meus escritos e deixe-me também recorrer à amizade
para explicar por ela, com satisfação minha, algumas frases de que se
serviu, capazes de assustar as modéstias menos sujeitas a sobressaltos.
Agora, em quanto às reflexões que me faz a respeito do carácter
de Henrique de Souselas, a seu ver tomado por mim como tipo dos
rapazes de Lisboa, confesso que me magoaram, e resolvi logo escre-
ver-lhe mais extensamente a este respeito, porque de maneira alguma
podia resignar-me a deixar pesar sobre mimo antipática respon-
sabilidade.
o foi minha intenção caracterizar os rapazes de Lisboa pelo
tipo que escolhi para o meu romance. Em Lisboa o fiz nascer como o
poderia ter feito nascer no Porto ou em Paris, sem ter por isso de o
alterar profundamente. Em Henrique quis eu personificar um tipo dos
nossos dias, indígena de todas as cidades, que eu tenho encontrado
aqui, como por certo o meu amigo há-de ter encontrado em Lisboa.
INÉDITOS E ESPARSOS
Fazê-lo oriundo de uma aldeia seria absurdo, porque a vida das
cidades é que os gera, como gera as tísicas; e assim como nem todos
os cidadãoso tísicos, nem as cidades detestáveis por aquela molés-
tia lá se dar, também nem todos os lisbonenseso Henrique de Sou-
selas, nem Lisboa um foco de corrupção de onde ninguém sai ileso.
o é até novo este tipo nos meus romances. Os defeitos de
Henrique são, atentas as diferenças de temperamento, os de Daniel
nas Pupilas, os de Carlos na Família Inglesa.
Estes dois era o Porto que os tinha estragado. Henrique veio
assim de Lisboa.
Seria da minha parte mais do que uma leviandade; seria uma
grosseira ingratidão se,o conhecendo Lisboa senão pelos obsé-
quios espontâneos e desinteressados que dela tenho recebido, me
atrevesse a caluniá-la assim.
Talo foi nem podia ser a minha intenção, creia.
Quando tiver mais tempo e paciência do que tenho agora, tor-
narei a ler os folhetins a ver se, contra a minha vontade, alguma
expressão, falseando o sentido do meu pensamento, deu ao tipo de
Henrique de Souselas o carácter que lhe encontrou. Se a descobrir,
gostosamente a sacrificarei.
Agora espero que, acreditando queo vê em mim o propósito
que lhe pareceu ver, sirva de fiador das minhas intenções, se porven-
tura mais alguém formar idêntica suposição, o que muito me pesaria.
Peço-lhe desculpa da extensão desta carta e rogo-lhe que dis-
ponha de quem é
De V. Ex.'
amigo muito reconhecido
Joaquim Guilherme Gomes Coelho.
II
Meu caro amigo
Recebi com vivo prazer a sua carta do 3 do corrente. Assim ela
o fosseo lacónica! Se pudesse imaginar o que eu e os meus com-
panheiros de infortúnio e de exílio sentimos ao receber a correspon-
dência de Portugal, a sofreguidão com que devoramos as cartas dos
amigos, o pesar que nos fica ao terminar a leitura, poro a podermos
prolongar, decerto seria menos conciso e faria o sacrifício de me dedi-
car a folha inteira do papel. Ainda assim creia que do coração lhe agra-
deço a lembrança com a qual mais uma prova me deu da sua amizade.
Por o mesmo paquete que me trouxe a sua carta, veio-me a triste
notícia do falecimento de uma pessoa de minha família. Três dias
depois faleceu na casa em que moro aqui, um dos meus companheiros,
INÉDITOS E ESPARSOS
patrício, doente como eu, e que partira do Porto no mesmo dia e viera
para a ilha no mesmo vapor em que eu vim.
Euo podia ser de todo indiferente à influência moral destes
dois acontecimentos.
A doença aindao conseguiu dar ao meu espírito a conveniente
dose de estoicismo para encarar filosoficamente casos como estes.
A isto e à acção de uma semana de chuva que me obrigou ao sair
de casa, atribuo eu a reprodução de um dos meus incómodos do cos-
tume que desta vez, para variar, combati com ventosas nas costas e
umas pílulas, secundum artem. Parece-me ter conseguido ganhar mais
esta batalha. O Waterloo aindao chegou para mim. Resta-me ainda
o efeito moral da refrega, o qual hojeo tem já a intensidade de
outros tempos, graças ãs leis do hábito, que é das primordiais em
fisiologia e julgo que em outras regiões também.
Como em crises tais os médicos recomendam aos doentes que
pensem o menos possível, eu tenho sido obrigado a passar o tempo
à janela vendo cair a chuva e passar alguma notabilidade local em
azáfama política, no sincero intuito de salvar a pátria. Já vê que é uma
diversão inocente e mais peitoral do que a de escrever romances,
ao que me dizem.
Perdoe-me se nestas disposições de espírito me atrevi a escre-
ver-lhe. As manifestações de spleen às vezes apagam-se e o melhor
é cada um guardá-lo para si.
Peço-lhe que me desculpe com o Soromenho poro lhe escre-
ver desta vez. Faça-me lembrado de seu mano e do Mestre e creia
sempre na verdadeira amizade do
Seu do coração
Joaquim C. Gomes Coelho.
Funchal, 20 de Fevereiro de 1870.
III
Funchal, 20 de Março de 1870.
Meu caro amigo
Agora tenho um defluxo, um defluxo em forma, com todo o cor-
tejo de sintomas que o caracterizam. À inconstância do tempo que aqui
tem feito devo esta fineza. Os naturais da Madeira, ciosos do afamado
clima da sua terra, andam este ano como envergonhados com os
despropósitos meteorológicos que a ilha está oferecendo aos estran-
INÉDITOS E ESPARSOS
geiros. Cansam-se a clamar que é isto um facto excepcional e que em
toda a parte tem sido rigoroso o Inverno este ano. Apesar de estar
convencido de ambas as coisas, descarrego o meu mau humor blasfe-
mando da apregoada suavidade deste clima, o que ninguém daqui
ouve com indiferença. Dou, porém, graças a Deus por ter saído de
Portugal, em vista do que daí me pintam das proezas do Inverno.
O Dr. Pita jáo exercia cargo algum na Escola desta cidade.
Havia alguns anos que se jubilara. A Escola está actualmente servida
por um só professor, que desempenha as funções de todo o pessoal.
Em tais circunstânciaso me seria talvez difícil obter comissão para
fazer serviço aqui; e, se para o ano voltar, é provável que o tente.
Há apenas uma dificuldade, queo é insuperável, e vem a ser que
os professores da Escolao obrigados ao serviço do hospital da Mise-
ricórdia, e isso é que de modo algum me convém. Quando ai passar
de volta para o Porto, tenciono sondar o terreno a respeito disto.
o tenho ainda coragem para passar um Inverno em Portugal
e este expediente de licenças a longo prazoo pode repetir-se
perpetuamente.
o me surpreendeu o que me escreve relativamente à ópera do
M. Angelo. Apesar deo conhecer a música, calculava que devia ser
esse o efeito dela, a julgar por outras composições que ouvira.
Sobre o conhecimento dos segredos de arte que lhe reconhecem
os mestres,o digo nada porque sou leigo. É preciso, porém, que o
advirta de que M. Ângelo tem lábia para enrodilhar os mais espertos.
O Soromenho fala-me, por ouvir dizer, de alguns acontecimentos
teatrais da presente época. Como é provável que o meu amigo assis-
tisse a alguns, peço-lhe que, se tiver paciência de me escrever, me
informe do que há de verdade nos juízos dos periódicos que eu vejo
tentados a registar o ano de 1869-70 como o de uma nova restaura-
ção do teatro português.
É tempo de concluir esta que jáo vai pequena. Desculpe a
maçada e creia-me sempre
Seu muito amigo do c.
Joaquim G. Comes Coelho.
IV
Meu caro amigo
Esta éo somente um boletim sanitário, que para maiso tenho
tempo; ainda que tal razão a mim próprio me esteja parecendo impos-
sível, costumado como estou a ter tempo para tudo e para mais
alguma coisa.
A partida de um meu companheiro neste vapor tem-me obrigado
INÉDITOS E ESPARSOS
a consagrar as últimas horas de uma pacífica e agradável camara-
dagem de seis meses a certos projectos havia muito meditados, mas
cuja execução ficou para a última hora. O caso é esse.
Agora, pois, somente lhe digo que vou alguma coisa melhor do
defluxo que me atacou em Março e que de tal intensidade foi que me
fez emagrecer. Agora estou reduzido a sorte de uma personagem das
Pupilas e obrigado a tomar arsénico. O João da Esquina está vingado.
Conto partir daqui no vapor de Maio. Terei então o prazer de
o abraçar em Lisboa, onde me demorarei alguns dias a descansar.
Adeus; peço-lhe que mostre esta carta ao Soromenho para
constar. Tenciono escrever-lhe pelo vapor de África. Muitas sauda-
des a seu mano José e ao Soromenho e creia-me sempre
Seu m.
to
am.° e obrigado
Comes Coelho.
Funchal, 20 de Abril de 1870.
V
Meu caro amigo
Recebi com prazer a sua carta e peço desculpa poro lhe ter
ainda escrito, desde que daí vim.o foram incómodos de saúde que
me impediram de o fazer, apenas a invencível indolência que me ataca
intensamente nesta boa terra do Porto e sob o calor tropical que está
fazendo.
Escrevi há dias ao Soromenho e por sinal que aindao tive
resposta.
Por enquantoo tenho sofrido com a mudança de clima. Bom
será que continue passando como até aqui.
E como tem passado o meu amigo nestes dias abrasadores?
Esqueceu-se na sua carta de me informar a esse respeito.
Agora tudo corre sem novidade, apesar da ditadura e das suas
rasgadas iniciativas. Graças a Deus que já aparece quem legisle a
respeito de capelos. Bom será que aumente o número das borlas dou-
torais, porque há por aí muitas longas orelhas que reclamam aquele
decente resguardo.
Adeus, recomende-me a seu mano e disponha do
Seu amigo muito reconhecido
Joaquim C. Gomes Coelho.
Porto, 20 de Junho de 1870.
INÉDITOS E ESPARSOS
VI
Meu caro amigo
Recebi com prazer a sua carta. Na que há pouco tempo escrevi
a seu mano pedia-lhe notícias do meu amigo, mas ainda aso tinha
obtido. Mais agradável me foi recebê-las directamente.
Diz-me, porém, que estes últimos tempos têm-lhe sido uma época
de borrasca. Dar-se-á que se tenham agravado os seus incómodos?
Acusa-me de demasiado lacónico a respeito das coisas que tocam
pela minha saúde eo repara que incorre na mesma falta.
O calor excessivo que tem feitoo pode ser para mim motivo
de queixa, porquanto é justamente nesses dias que me sinto melhor.
Tenho aqui passado algumas semanas como nem na Madeira passei
ainda; desde, porém, que aparecem os primeiros nevoeiros, tudo se
transtorna e exacerbam-se os meus incómodos.
Tenho conseguido, sem prejuizo de saúde, fazer algum leve ser-
viço na Escola, o que me tem posto um pouco mais em paz com a
minha consciência, queo se conforma, de todo em todo, com a
força da abstenção em que há dois anos me conservo.
Conto brevemente retirar-me para o campo para aí passar o
resto do Verão. Em princípios de Outubro, se as coisas no país o per-
mitirem, seguirei mais uma vez a estrada do exílio a que a minha
doença me condena. Por essa ocasião espero vê-lo e abraçá-lo em
Lisboa.
Já na carta que escrevi a seu mano pedi para ele lhe transmitir
os meus parabéns pela justiça que lhe fizeram,o sei se com grande
vontade; agora peço que invertendo os papéis, o meu amigo trans-
mita a ele iguais parabéns por idêntico motivo.
Aqui fica ao seu dispor e desejoso de lhe poder servir para
alguma coisa
O seu amigo muito reconhecido
Joaquim C. Comes Coelho.
Porto, 25 de Julho de 1870.
Vol, II 27
INÉDITOS E ESPARSOS
VII
Porto, 13 de Setembro de 1870.
Meu caro amigo
Recebi a sua carta no dia seguinte àquele em que recolhi ao
Porto, depois de alguns dias passados no campo. É um hábito higiénico,
que eu desejava que o meu amigo também observasse, este de res-
pirar algum tempo os ares dos bosques. Vejo pela sua carta queo
o fez este ano; respeitando os motivos que o detiveram em Lisboa,
cordialmente lhe aconselho que faça, de quando em quando, l'école
buissonnière, que isso é também um dever para' quem possui umas
organizações exigentes como as nossas.
O meu estado de saúde é satisfatório. Desde o período mais
grave da minha doença, ainda meo sentio bom como agora
me sinto.
Apesar disso,o me deixo iludir até ao ponto de tentar passar
aqui o próximo Inverno. Preparo os elementos para requerer uma nova
licença e, se o báculo episcopalo cair muito pesado sobre os vadios
involuntários, conto fazer-me ao largo em Outubro. Por essa ocasião
espero vê-lo e abraçá-lo.
o lhe tiro mais tempo; termino por aqui, pedindo-lhe que me
faça lembrado de seu mano José, de quem desejava saber se está de
posse de um retrato que lhe mandei e se deu ou tenciona dar cumpri-
mento ao pedido, que por essa ocasião lhe fiz.
Adeus; disponha do
Seu sincero amigo
Joaquim G. Gomes Coelho.
VIII
Meu caro amigo
Mil agradecimentos pelo seu retrato. Entre os retratos dos poucos
amigos que tenho tido e dos pouquíssimos que me restam, faltava-me
o seu e o de seu mano. Por isso fui importuno em reclamá-lo.
Os princípios de Setembro deram-me a entender que, em rela-
ção à campanha do Inverno, eu estavao preparado como a França
para a campanha da Prússia. Estou encatarroado e endefluxado imper-
tinentemente.
INÉDITOS E ESPARSOS
Já requeri a licença. O Tomás de Carvalho informou-me que
provavelmenteo a obteria às mãos lavadas. Para o desembaraçar
nas negociações com o Bispo, dei-lhe para ponto de partida a seguinte
base: Através de todos os obstáculos e sacrifícios, estou resolvido a
passar seis meses na Madeira. Aguardo as condições.
Seu mano falou-me há dias no Algarve. Se há mais tempo tivesse
meditado nessa ideia, talvez tentasse o clima daquela província. Agora,
porém, é tarde; tenho planos feitos para o Inverno na Madeira eo
os revogo. Além de que o Algarve está ameaçado de invasão de epide-
mia e da invasão espanhola e eu tomara que me deixassem em santa
paz todos os flagelos e conflitos provocados pela natureza ou pela
humanidade.
o lhe quero tirar mais tempo. Adeus. Breve o verei e abra-
çarei. Creia-me sempre
Seu muito amigo
Joaquim G. Gomes Coelho.
Porto, 29 de Setembro de 1870.
IX
Meu caro amigo
Esta éo somente para noticiar-lhe que cheguei a salvamento. Cá
estou outra vez. O tempo está magnífico. O apetite é bom e o meu
estado de saúde satisfatório. Com bons auspícios inauguro esta época;
veremos se os resultados oso desmentem.
Fico hoje por aqui, pedindo-lhe que me faça lembrado de seu
mano e que me creia sempre
Seu amigo muito reconhecido
Joaquim G. Gomes Coelho
Funchal, 18 de Outubro de 1870.
X
Meu caro amigo
Apesar da chuva torrencial que aqui tem caído vou passando
regularmente. Agora o tempo está magnífico e portanto espero passar
melhor.
Quando oiço falar do frio rigoroso que aí tem feito aplaudo-me
por haver saído de Portugal. Espero que esses rigoreso tenham
prejudicado a sua saúde.
Quando me escrevero se esqueça de informar-me a esse
respeito.
Fico hoje por aqui. Recomende-me a seu mano e disponha do
Seu amigo muito obrigado
Joaquim C. Comes Coelho.
Funchal, 29 de Dezembro de 1870.
XI
Meu bom amigo
Agradeço-lhe a sua afectuosa carta, muito mais apreciada neste
estado físico e moral em que nos conserva uma morosa convalescença.
Os incómodos de Fevereiro e Março puseram-me em tal fraqueza que
o sei se os restos de Abril e parte de Maio conseguirão compensar
o mal feito e deixar-rne entrar em Portugal de maneira queo dê que
recear aos meus amigos. Estou muito magro, trémulo e fraco. Persiste,
ainda que em menor grau, um incómodo de ventre que me enfraque-
ceu e exacerbou-se-me o padecimento pulmonar, aumentando a expec-
toração.
Mudei de casa; aproximei-me mais do campo, alojando-me em
uma hospedaria inglesa. Tenho, pelo menos, tirado já desta mudança
a vantagem que produz a variedade de perspectiva de hábito e de
comidas, etc, etc, em quem está dominado por uma pesada melan-
colia. Acho-me mais animado e como melhor.
Aí tem o relatório do meu estado.
Diga-me também como passa o seu mano, a quem me recomendo.
Como sempre o conta em Maio abraçar aí o seu talvez mais
magro, mas sempre no mesmo grau
Amigo sincero
Joaquim C. pomes Coelho.
Funchal, 17 de Abril de 1871.
Abro a carta a 19 para dar conta dos dias últimos. Parece que
o reais as melhoras que vou sentindo. Ontem fui abaixo à cidade e
todos foram acordes em achar-me muito mais animado. Dou-lhe esta
nova para atenuar a cor negra em que escrevi a carta.
G. C.
INÉDITOS E ESPARSOS
XII
Porto, 3 de Junho de 1871.
Meu amigo
Vim encontrar o Inverno no Porto. Aindao sai. A prolongação
desta vida sedentária desafiou-me uma dor ciática na perna esquerda
que às vezes me incomoda deveras.
Tenciono safar-me quanto antes deste pátrio torrão e ir buscar
aos ares lavados do campo alimento e alívio. É provável que já tenha
emagrecido nestes oito dias portuenses.
Diga-me agora como tem passado o seu mano, a quem peço para *
me recomendar.
Por hojeo sou mais extenso porque tenho de escrever para a
Madeira.
Disponha sempre do
Seu muito amigo
Joaquim G. Gomes Coelho.
XIII
Meu bom amigo
A minha perna esquerda tem-me obrigado a um silêncio con-
trário à minha vontade. Mas por tal maneira me traz impaciente esta
ciática, que se apoderou de mim desde que cheguei ao Porto, que
até escrever uma carta me é tarefa de monta.
Fugi do centro da cidade para passear e arejar e hás e meio
que estou encerrado em uma casa dos arrabaldes, sem poder sair e
andando apegado a um pau e a gemer a cada passo.
Veja como se dispõem as coisas para a convalescença que eu
vinha procurar.
De mais a mais o Verão está despropositado e o vento alterna
com a chuva e com os nevoeiros escandalosamente.
A mestrança médica tem feito o que pode eo foi muito.
Esperemos.
E agora que falei de mim, cumprindo a sua amável recomenda-
ção, deixe-me pedir-lhe novas suas e do seu mano.
Que faz? Ainda seo desentranhou de entre os pergaminhos
para ir gozar algum tempo os ares do campo?
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
o deixe de observar esta prática indispensável a umas orga-
nizações fracas comoo as nossas.
Nada mais tenho a dizer-lhe. Estou completamente separado do
mundo e parece-me que pouco haveria para contar-lhe, ainda que
vivesse nele. É o sabido de todos os dias.
o lhe tiro mais tempo; fico hoje por aqui, pedindo-lhe que
acredite sempre na sincera estima do
Seu amigo muito reconhecido
Joaquim G. Gomes Coelho.
Porto, 25 de Julho de 1871.
A EUGÉNIO LUSO
Meu caro Eugénio
Andava com vontade de conversar consigo. Separámo-nos em
Aveiro, mas de uma maneira queo permitia uma despedida secun-
dum artem. Lembra-se? Você estava metido dentro de uma carruagem,
eu sobre a plataforma de uma estação de caminho de ferro onde pela
primeira vez havia pousado os pés,
o lá despedir-se em termos, dadas essas circunstâncias!
Ouve-se o silvo da locomotiva e... tudo desaparece sem dar tempo a
dizerem-se as coisas mais importantes, que, segundo a regra, ficam
para o fim.
Uma das coisas que, por exemplo, me esqueceu dizer-lhe era
que me escrevesse. Vocêo é homem que o faça, sem lho recomen-
darem, assim espontaneamente, como o estou fazendo.
Cada vez mais me convenço de que sou um homem extraordi-
nário ! Basta esta disposição para escrever cartas que há muito conheço
em mim. Nos outroso vejo isto. Por muito contente me dou quando
respondem às minhas.
Experimentemos se você está neste ponto em melhor estado
do que há dois anos, época em que eu lhe escrevi, esperando até hoje
a resposta. Experimentemos.
A dificuldade está em encontrar assunto. Vive-seo monotona-
mente aqui!o faz ideia. O meu único passatempo é o cavaco noc-
turno em casa do nosso amigo Passos, onde a concorrência de sócios
é cada vez mais limitada.
De dia estou por casa e frequentes vezes divirto-me a recordar
os episódios românticos daquela nossa aindao descrita digressão.
A catástrofe do caminho na estrada de Pombal a Leiria, os esquecimen-
INÉDITOS E ESPARSOS
tos e abstracções de Manuela Rey; ' as efusões de incómoda amizade
daquele espirituoso alcobacense, os sorrisos da sua inocente patrícia;
a cerveja de Bass, o arrebatamento amoroso do jumento que eu caval-
guei ; os percevejos da Batalha e a lâmpada romana que tanto sorria a
seu mano Augusto, aquelas barbacãs arruinadas do castelo de Leiria,
de onde caíam pedras de instante a instante; tudo isto e outras muitas
coisas se me renovam na memória, sem que as possam ofuscar as outras
recordações, embora mais recentes, que me ficaram de Aveiro, da
sua ria, do seu mexilhão, dos seus ovos moles e sobretudo das suas
belas trigueiras. Porque de factoo sei se concorda comigo, em
Aveiro há trigueiras como em parte nenhuma. Pois nem elas me fazem
esquecer da nossa excursão e das impressões que me ficaram desses
dias que passámos juntos.
Diga-me você se o mesmo sucede consigo e sirva isso de pre-
texto para escrever ao
Seu amigo e companheiro de viagem
Joaquim G. Comes Coelho.
Porto, 27 de Outubro de 1864.
1
Vide a carta IX a Custódio Passos.
840
A CUSTÓDIO PASSOS
Transcritas do Portugal Artístico.
!
Meu Passos
Escrevo-te de Ovar, onde estou desde quinta-feira às sete e meia
horas da tarde.
A vilao me parece de todo feia.
Verdade é que eu fazia dela uma ideiao desfavorável que
pouco bastou para me satisfazer.
De saúde vou alguma coisa melhor; contudo tenho tido ainda por
aqui as minhas horas do célebre incómodo nervoso, que mais fre-
quentemente experimentava.
Nesses momentos sinto vontade de retroceder para o Porto,o
aborrecido me vejo com todos e com tudo.
Tenho convivido com gente com quem mal me entendo; sou
obrigado a admirar tudo quanto querem que admire. As horríveis
figuras dos judeus que estão nos Passos deram-me que entender. Eu
lia na cara dos que mas mostraram que as mais eloquentes interjei-
ções, de que pude dispor, estavam muito longe de exprimir a admi-
ração que eles julgavam dever esperar de mim.
Eu, por minha vontade, passava o tempo debaixo de um laranjal
que há na casa onde moro e no qual, desde pela manhã até à noite,
canta um rouxinol. Mas as visitas a fazer e a recebero mo per-
mitem.
O doutor Zagalo, meu principal cicerone, é um tanto original.
Tem-me maçado horrivelmente com as suas apologias ao século xix
e ao poder inventivo dos homens; é o Eugénio Pelletan cá da terra.
Falei aqui com o José Correia, que me pareceu um tanto arre-
pendido de ter deixado Aveiro.
INÉDITOS E ESPARSOS
Se falares com meu tio Bernardo ' e ele te perguntar se eu tenho
escrito, diz-lhe que sim e que te contei maravilhas da terra. É uma
coisa que o lisonjeia e que é de fácil execução.
Aqui já me valeu simpatias gerais o ter dito, logo que cheguei,
que do pouco que tinha visto da vila fizera dela um excelente conceito.
Ora, tendo chegado de noite, euo tinha visto coisa alguma.
Houve logo quem propusesse o vir eu residir para aqui.
Custou-me a achar um fundamento para declinaro risonha
perspectiva.
Se me escreveres, manda-me novas tuas e da tua família e
também do Augusto Luso. Se escreveres ao Teixeira Pinto, que a
estas horas deve ir a caminho do Fundão, recomenda-me. Adeus.
Ovar, 11 de Maio de 1863.
Teu amigo do coração
Coelho.
P. S. Desculpa-me para com o Azevedo por meo ter ido
despedir dele quando parti.
II
Meu Passos
Entre as poucas distracções que esta vila oferece aos seus visi-
tantes, nenhuma tanto do meu gosto como a da chegada do correio.
Todos os dias me levanto mais cedo para estar às nove horas
na loja em que se distribuem as cartas. Imagina tu uma pequena sala
humildemente mobilada, com bancos e mesa de pinho e uma estante
ao fundo contendo in-fólios de formidável aspecto. Um homem idoso,
a quem chamam aqui doutor, mas de cujo grau aindao tirei infor-
mações, como decerto teria já feito um nosso conhecido, toma fleumà-
ticamente a sua pitada, conservando ele só uma imperturbável indife-
rença no meio da ansiedade de quantos o rodeiam.
Mais de trinta pessoas, homens, mulheres e crianças, sentadas
no chão, no limiar da porta e na rua, fitam com impaciência a esquina
de onde deve surgir o portador das cartas.
Quando este aparece, todos se levantam a um tempo, e api-
nham-se sobre o mostrador, como se pretendessem abafar o pobre
do doutor.
Este, cônscio da importância da sua pessoa, retira-se, de uma
maneira grave, ao seu gabinete, sujeita as cartas recebidas a uma tal
ou qual classificação e volta para distribuí-las. É o caso de repetir aqui
» Farmacêutico da Rua do Loureiro, no Porto, e natural de Ovar. já falecido.
INÉDITOS E ESPARSOS
pela milionésima vez o Conticuere omnes perfeitamente aplicável à
situação. O homem lê pausadamente o nome da pessoa a quem vem a
carta sobrescritada, estende-se um braço, entrega-se a carta e, ãs
vezes, é ali mesmo aberta e lida. À medida que o maço se vai
esgotando, é para ver as transições por que passa a fisionomia dos
que ainda nada receberam desde que principia o receio até quando
se desvanece de todo a última esperança.
Faz pena vè-los partiro desconsolados. Escuso dizer-te que
euo sou simples espectador desta cena, mas actor e dos mais
possuídos do seu papel. É com uma quase sofreguidão que eu recebo
a correspondência do Porto, que leio ali mesmo pela primeira vez.
Na quinta-feira proporcionaste-me tu um prazer com a tua carta,
cuja letra imediatamente conheci. Li-a no correio, reli-a no adro da
igreja, enquanto esperava pela missa e, logo que acabei de jantar,
tornei a lê-la, e ainda quando me preparei para lhe responder.
Sob o pretexto de dormir a sesta, pude reservar para mim o
tempo que medeia entre o jantar e as cinco horas da tarde; é então
que leio, escrevo, ouo faço nada, o que é também um passa-
tempo. Seo fora isto, prevejo que me obrigariam a ver quantos
nichos e oratórios tem a vila ou quantos quintalejos quis a sorte que
meus parentes, próximos e remotos, possuíssem aqui na terra.
o me aborrece escrever para o Porto; é um trabalho como o
das sementeiras, que se faz com a esperança da colheita futura. Actual-
mente estou em correspondência com toda a minha família, inclusive
com meus três sobrinhos, de quem tenho recebido pequenas cartas
que mem feito rir.
Por felicidade minha encontrei aqui o José Correia, em casa de
quem passo as noites, conversando em família e formando castelos
de cartas com dois galantes filhitos que ele tem. É uma vida morna a
que se passa aqui.
Para falar a verdade, nem sei bem o que me obriga a demorar-me
ainda; é certo, porém, que, tencionando partir para Aveiro no domingo
que passou, ainda para domingo que vem tenho um passeio projec-
tado com á família Correia eo posso dizer em que dia da semana
próxima seguirei viagem.
Têm-se-me proporcionado ocasiões de fazer algumas visitas e
frequentar certas partidas que há por aqui às noites, mas tenho-me
abstido de as frequentar por me parecer um passatempo sensabo-
o para quem, mesmo no Porto,o morre de amores por esse
género de divertimentos. Mais depressa me verão a escolher feijões
na casa da eira, como ontem fiz, ou a conversar no escritório do
recebedor de décimas, grande original que vim encontrar aqui, um
verdadeiro tipo de romance. Chama-se o Sr. Tomé Simões. Fui-lhe
apresentado pelo Correia.
Participo das tuas apreensões em quanto ao Teixeira Pinto;
também me parece que, depois de tantas hesitações da parte dele,
INÉDITOS E ESPARSOS
escolheu mal a carreira que lhe convinha. Concebo quanto lhe devia
ter custado deixar o Porto pelo seu desterro para o Fundão. Sinto a
sua partida também pelae a quem ela deve ter causado um pesar
difícil de desvanecer.
Tens falado com o Alfredo Cardoso? Acaso voltará ele deve-
ras aos hábitos literários há tanto tempo perdidos? O quintal que
ele possui aqui está perfeitamente situado e, sobretudo,o povoado
de rouxinóis, que, por vezes, me tenho sentado na borda de uma
ponte que lhe fica próxima para os ouvir cantar.
Escrevi ao Nogueira Lima; tinha-lho prometido e fi-lo com vontade
por saber que é homem exacto em suas contas epistolares; eo há
para mim prazer como é o de receber cartas.o sei já o que lhe
disse; nada de interessante. As minhas cartaso escritas para ter
direito a uma resposta; poiso me querendo meter a descrever a vila
de Ovar,o sei o que hei-de dizer em quatro ou seis páginas de papel.
Há oito dias que estou em uma rigorosa abstinência de notícias
do reino e estrangeiro; podia mandar que me enviassem para aqui
os jornais, maso quis. Esta ignorância é também higiénica.o
há digestõeso boas como as da gente queo lê folhas depois
de jantar. Parece-me queo digeririao bem um cozinhado de
enguias que comi, se estivesse a ler O Comércio do Porto.
Agora estou à espera que dêem quatro horas, para ir com a
família Correia a uma aldeola das imediações que me dizem ser um
sítio pitoresco. Vamos visitar uma tal Sr.* D..., filha de um já falecido
capitão-mor e que tem presunções de nobrezao arreigadas, que
o se digna visitar a maior parte das famílias da vila. É uma pre-
ciosa ridícula, cuja única boa qualidade é fazer muito bem doce,
graças à sua educação do convento.
Visitei aqui o Fonseca; é sempre o mesmo homem. Ainda hoje
fala de suas passadas glórias de empresário, e nos tempos de sau-
dosa recordação, em que ele tocava rabeca no teatro académico.
Fizeste-me tu um convite na tua carta, que eu de boa vontade acei-
taria, se as minhas disposições de espírito, neste momento, me auxilias-
sem no empenho. Animaste-me a escrever. Com essas tenções vinha
eu e até esperava encontrar na localidade os fundamentos da obra.
Todos os dias, depois de jantar, me conservo meia hora pelo
menos conversando com a santa gente em casa de quem estou hospe-
dado, interrogando-a sobre costumes da terra, crenças e factos suce-
didos ; mas, por enquanto, a colheita que fiz é escassa e duvido que
por ela me seja possível mais tarde fazer obra.
Precisava para isso demorar-me mais tempo por aqui, o queo
me seria demasiado aprazível.
Por enquanto nada escrevi e até pouco tenho lido. Mas quem da
tais conselhos, porque oso adopta? Acaso terás tu chegado já a
atingir aquele grau de desalento de que me falas? Odiar-te-ás a ti
próprio?
INÉDITOS E ESPARSOS
Ora vamos; esse excesso de misantropia é indesculpável, sobre-
tudo em quem só precisa de um pequeno esforço para avivar um entu-
siasmo que pode ter adormecido por instantes, mas queo creio se
tenha extinto de todo.
Ovar, 16-5-1863.
Teu amigo do coração
Coelho.
III
Meu Passos
Antes de mais nada quero agradecer-te o interesse que espon-
taneamente tomaste por o negócio de meu primo, que um mau fado
parecia apostado a contrariar em tudo.
Enviei-lhe imediatamente o pós-escrito incluso na tua carta e
imagino ter mandado com ele uma nova duplamente agradável para
aquele padecente, de quem tenho recebido cartas escritas em cima
de lençóis e travesseiros, o ditadas por um espirito em luta com os
dissabores de uma impertinente e complicada moléstia.
Há pessoas com quem a sorte se diverte, sujeitando-as a toda a
espécie de provações. Se ao fim destas ainda lhes fica um resto de
paciência,o verdadeiramente admiráveis. Meu primo está neste
caso; poucos terão gozado menos e suportado mais. '
Há dias recebi uma carta do meu tio Bernardo em resposta a
outra que eu lhe escrevera, agradecendo-lhe os oferecimentos que
em nome dele me fizera aqui em Ovar o seu procurador.
Há um período nesta carta que ipsis verbis transcreverei, até
porque a redacção tem o estilo do homem.
«Agora falarei na demanda passada e injustamente vencida
em primeira instância; falo do concurso; já se fala pouco nele; mara-
vilhaso três dias, diz o ditado, mas ainda de quando em quando
lá leva a sua trincadela algum dos lentes. Quemo quer ser lobo
o lhe veste a pele;o tem nenhuma folha do Porto falado nisso,
mas há desconfianças de que a Gazeta Homeopática o venha a fazer;
o Jornal do Comércio, de Lisboa, já o fez. É de 13 do corrente.»
Este período, com sua linguagem um tanto imaginosa, veio-me
recordar uma coisa que, para te falar a verdade, me ia passando da
ideia, e uma vez que assim aconteceu, sempre desejaria saber o que
disse o Jornal do Comércio provavelmente na correspondência do Fr.
Se o leste diz-me em duas palavras o que é.
Favoravelmente para as terras, mas desfavoravelmente para mim,
temos a chuva connosco.
> Referência a José Joaquim Pinto Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
O que seja Ovar em dias de chuva, e consequentemente o que
seja a minha vida nesta vila, poderás tu facilmente julgá-lo; o que neste
caso, ao contrário daquele de que falou Camões, vale muito mais que
experimentá-lo.
O dia de quarta-feira e a noite passei-os eu verdadeiramente
enclausurado, receando aventurar-me nos arquipélagos insidiosos
em que se haviam transformado as ruas desta vila.
Conto por toda a semana que vem partir para Aveiro.
Eu tenho evidentemente tendências para estacionar. Estou aqui
há quinze dias, conheço queo me tenho divertido demasiado, e
vou ficando, e custa-me resolver a continuar a jornada.
O prazer que experimento nesta vida que levo em Ovar, pode-se
comparar ao de um banho tépido; agrada-me, adormecendo-me.
Porque dormir durmo-lhe bem agora. Felizmente que jáo
tenho tido daquelas insónias insuportáveis que, entre vários incómodos
que me afligiam,o eram dos menores.
Será radical esta cura? Veremos.
O Nogueira Lima já me escreveu.o desmentiu para comigo
a sua infalibilidade epistolar. Pediu-me ele daqui algumas curiosidades
arqueológicas; vejo-me, porém,o incapaz de o satisfazer como ao
Augusto Luso na sua encomenda de moluscos. Tudo o que encontro
seria muito novo para um museu de arquelogia e velhíssimo para um
de história natural.
Verdade é que os meus olhosom os predicados de olhos
exploradores e que eu respeito muito os lodos desta terra para os
revolver à procura de caracóis.
Terá sido mais feliz neste particular o Outeiro em Lisboa?
Que é feito dele?
Acabaria já de catequizar o Gaspar Pereira e viverá ainda nas
delícias de Cápua, esquecido do Porto, de Fânzeres e de si próprio?
Quem por certoo está a estas horaso filosoficamente resig-
nado como o padre Outeiro é o Teixeira Pinto.
Tens notícias dele?
Já cairia no Fundão?
Estou curioso por saber qual a natureza das impressões que ele rece-
beu da terra que vai ser talvez por muito tempo a sua pátria de adopção.
o sabia da estreia do Noronha; sinto que se metesse a fazer
a corte à poesia quandoo bem se dava com a música.
É uma infidelidade indesculpável. O pior dos maleso é que
a amante lhe seja pouco fiel, mas sim que a esposa ressentida se vin-
gue, atraiçoando-o também.
Acontece disso às vezes e é sempre uma calamidade.
Aindao procurei o original de que me falaste na tua última
carta; sei, porém, onde mora e tenciono visitá-lo antes de me reti-
rar. Apresento-me sob a tua protecção.
Tenho notado que em Ovar os tiposo degeneraram ainda.
INÉDITOS E ESPARSOS
Entre os males que traz a civilização consigo, um deles é, a meu
ver, a deterioração dos tipos clássicos. No Porto já seo distingue
facilmente um médico de um advogado, este de um boticário ou de
um padre; a confusãoo vem só do vestuário, que todos capricham
em fazer à moda, vem dos hábitos, dos assuntos predilectos de con-
versação, dos gostos e opiniões que dantes variavam em cada classe
e hoje tendem cada v»3Z mais a tornarem-se comuns a todos,
Em Ovaro é assim.
O médico é ainda aqui o antigo médico que se denuncia às pri-
meiras palavras; o merceeiro apresenta todos os caracteres próprios
da espécie; o padre é o padre tipo; o doutor em direito, ao qual se
reserva aqui o nome de bacharel, conserva ilesa a sua bacharelice.
o podia deixar a terra sem observar o boticário, que espero
será um bom exemplar; pois mesmo no Porto é a classe que menos
se tem adulterado. O Sr. Teixeira de Pinho será pois o escolhido
para este filosófico estudo.
Mas falemos sério. Ovar tem efectivamente mais que notar em
quanto a homens do que em quanto a coisas. Há mais biografias exce-
lentes e aproveitáveis do que pontos de vista. Estou fatigado de tantas
planícies; é uma monotonia afinal, e, às vezes, chego a sentir desejas
de exclamar, quando me mostram qualquer subúrbio da vila:
Uma montanha, pelo amor de Deus!
Aveiro julgo que é a mesma coisa. Se for ao Buçaco, o contraste
deve fazer-mo apreciar ainda mais.
E como o Buçaco é uma solidão e esta é favorável à poesia,o
estranhas que eu salte dela para o assunto de que te ocupaste, inci-
tado por mim, no final da tua carta.
O je n'écris... pourquoi? n'en sais rien. Parce qu'il ne le faut
pas, com que, invertendo as palavras de Chatterton, pretendes res-
ponder à minha pergunta, seria razão plausível e irrespondível, se
eu pudesse acreditar que ela ou outra qualquer te tem de facto
impedido de escrever.
Permite-me usar da franqueza que me concede a amizade para
te dizer queo o creio.
Em quanto à possibilidade de escrever em termos, de que dizes
ser o primeiro a duvidar, também me parece seres tu o mais incom-
petente juiz para a avaliares, pois julgo que o homem que crê dema-
siado nas suas forças e se satisfaz completamente com as suas pro-
duções é, como diz o Herculano, impotente e incapaz de qualquer
educação literária.
E com isto termino.
Ovar, 11 de Maio de 1863.
Teu amigo do coração
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
IV
Meu Passos
Recebi a tua carta ainda na vila de Ovar, o que deve causar
estranheza a quem saiba, como tu, que as primeiras impressões que
recebi, chegando a esta terra, estavam muito longe de serem convi-
dativas deo longa demora.
Mas é que, felizmente, as impressõesoo as mesmas hoje do
que eram então. Ovar é uma vila e é uma aldeia. Pode-se aqui viver
segundo as predilecções de cada um, uma vida de cidade pequena,
ou uma vida de aldeia. No primeiro caso frequentam-se os salões da
localidade, discute-se o que faz a Câmara, o que disse o administra-
dor, quanto custou o chapéu do Sr. F..., as dimensões do balão da
Sr.' C..., etc, etc....; no segundo assiste-se às lavouras, às ceifas, às
regas; conversa-se com os jornaleiros sobre as novidades agrícolas,
escuta-se o estalar das cascas nas fogueiras..., etc etc.
Nos primeiros dias que passei aqui tive de viver do primeiro
modo, aborreci-me; agora felizmente que me deixaram viver do
segundo, seo posso dizer que me divirto excessivamente, afirmo
queo me enfastiei ainda.
Tu que, por vontade, trocarias a vida do Porto pela de Paranhos,
que tantas vezes fizeste diante de mim a apologia da aldeia,o estra-
nharás por certo estes gostos campesinos, que mem conservado por
aqui esquecido dos tempos da cidade, ainda que muito lembrado das
afeições que deixei por.
Pelo menos, se os estranhas em mim, deves compreendê-los por ti.
Se alguma coisa podia convir ao estado do meu espírito era isto.
Este não fazei nada com faculdade de fazer tudo, de que tenho gozado
em Ovar, espero será eficacíssimo para completar a cura de uma
doença, que hoje me vou quase convencendo ter sido mais de imagi-
nação do que real.
Tenho lido pouco; completei ontem Le monde tel qu'il será, do
Souvestre, que trouxe de tua casa, leitura que, numa localidade como
esta, tem mais sabor picante do que em qualquer grande cidade.
Tenho escrito cartas. Como costumo responder com exacta pon-
tualidade às que recebo, calculo o número delas, avaliando-o por o
destas últimas, em quarenta e tantas, sem exageração.o me enfada
esta tarefa; é um passatempo para depois de jantar e cear, com que
me tenho dado bem.
Espero que me recomendes ao Teixeira Pinto, logo que lhe
escrevas. Quando estiver no Porto eu próprio lhe escreverei, o que
o faço daqui, porque, estando a partir mais dia menos dia,o lhe
poderia indicar o local para onde ele devia dirigir a resposta.
Escrevi há dias novamente ao Nogueira Lima.o lhe dizia nada
de novo, porque nada tinha que lhe dizer; francamente confesso que
é para obter uma resposta que eu escrevo, pois, para encher uma
carta dirigida daqui para o Porto, é necessárior em tratos as facul-
dades da nossa imaginação.
Em mim têm-se operado algumas mudanças físicas, segundo dizem
as pessoas com quem convivo; acham-me mais gordo e mais trigueiro. \
É questão de colorido local, que olhos mais habituados decidi-
o depois.
Meu primo pergunta-me em uma carta, se tu me poderias incul-
car um bom procurador em Lisboa para, no caso de obter o des-
pacho que requer, lhe tratar dos diferentes negócios necessários.
O Azevedo falou-me no dele; masoo mal agoirados os ser-
viços do Azevedo nesta questão, que meu primo, com alguns funda-
mentos, hesita em lhos aceitar desta vez, quanto mais queo pouco
asseguradas as informações que o próprio Azevedo dá do homem.
Informa-me do que pensas a este respeito, ou informa meu primo
que, provavelmente, encontrando-te te falará nisso.
Recomenda-me ao Luso, Freitas, A. Cardoso, Falcão e Azevedo,
quando os vejas por. Estimei saber que o Falcão se decidia a ir ao
concurso de desenho.
Deus queira que se repita o caso do tertius gaudet para lição dos
maquinadores de nichos que deviam dar ao Diabo a resolução do Falcão.
o posso deixar de falar do padre Outeiro. Aquele seu sono
é admirável! Que bom frade ali se perdeu! O ministro que oo des-
pachar pratica uma asneira redonda. Daquele estofo faz-se tudo quanto
se quiser; até um pastor de povos, pois ainda que o seu sono habitual
o pareça grande penhor de salvação das ovelhas, tem tanto de con-
tagioso que é de esperar consiga adormecer os próprios lobos.
Se quando escreveres souberes de alguma notícia palpitante da
actualidade,o te esqueças de ma comunicar; tudo para mim é novo,
visto queo leio jornais.
Adeus, acredita na minha amizade e dispõe
Do teu do coração
Coelho.
Ovar, 3 de Junho de 1863.
V
Meu Passos
O Teixeira Pinto escreveu-me; a carta veio-me ter aqui. Ontem
respondi-lhe maso sabia se bastaria designar no sobrescrito o
nome da vila onde ele está ou mais alguma coisa, para maior segu-
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
rança, resolvi enviar-te a carta para lhe fazeres no sobrescrito as
modificações que julgares necessárias. Peço-te para, em seguida, a
mandares para o correio, porque desejavao demorar muito a
resposta.
Soube aqui a velhacada do Adriano no negócio do meu primo;
o me surpreendeu demasiado, poiso sei porque, nunca agoirei
bem de toda esta história.
Parece-me que meu primo fez bem em resignar a cadeira; a
postao erao boa que valesse a pena aceitá-la à custa de uma
humilhação e com um futuro incerto. Eu pelo menos teria feito o
mesmo.
É já assunto aborrecido este de concursos.
o há um só em queo se dêem destas pequenas misérias
que enojam e revoltam. Eu desejava mandá-los, para sempre, ao
Diabo, maso posso e, em breve, talvez estarei a braços com outro.
Seja o que Deus quiser, direi eu com um pouco daquela filosofiao
fértil em consolações e que me parece ser a causa principal da gor-
dura de um nosso amigo abade que a estas horas está lutando com
o calor da capital.
Parece-me que jáo vou a Aveiro. Um parente meu em casa
de quem tencionava hospedar-me, tem de partir para Lisboa. Man-
dou-me dizer que ficava a casa às minhas ordens; ora isto é motivo
para nem sequer entrar na cidade, pois teria de aceitar o convite o
que,, na ausência dele, meo convém. Como me acho restabelecido,
demorar-me-ei aqui mais alguns dias e depois voltarei para o Porto,
de que tenho já minhas saudades.
Adeus. Hojeo posso ser mais extenso. Faz por me escreveres.
Acredita na amizade
do teu do coração
Coelho.
Ovar, 12 de Junho de 1863.
VI
Meu Passos
Estou em atraso de cartas com tanta gente que me tem escrito
que chego a envergonhar-me. Mas apoderou-se de mim aquela inac-
ção que me impossibilita de escrever, apesar deo haver ocupação
alguma a obrigar-nos a abandonar o deliciosoo fazer nada que eu
o sei que seja menos doce em Portugal do que debaixo do firma-
mento napolitano; contudo, um esforço faz-se; muito mais quando
sabemos que depois do primeiro movimento nos agradará a empresa.
É como o levantar-se a gente de madrugada: damos os parabéns a
s mesmos quando, tendo-o conseguido, aspiramos o ar perfumado
e refrigerante da manhã, mas é necessário lutar para nos furtarmos
às doçuras do sono matutino.
Assim me acontece agora.
Eu bem sei que me é sempre agradável conversar contigo desta
maneira, já que a ausência me privou de o fazer de outra; mas sen-
tar-me a escrever é uma resolução que exige de mim certo esforço
que muitas vezes tenho tentado em vão. Agora, porém, 10 horas da
noite do dia 3 de Julho, consegui vencer esta poderosa apatia e escre-
ver-te, prometendo-te desde jáo te dar notícia alguma palpitante da
actualidade vareira, a mais insípida das actualidades.
Sabia já que tinhas passado um dia na vila, mas soube-o oito dias
depois que tal sucedeu. Meu Pai havia-me dito que tu e o Augusto
Luso tencionáveis ir a Estarreja e eu resolvera procurar-vos na esta-
ção, ou à ida ou à volta dos comboios, mas exactamente a essa hora
vi-me impossibilitado de o fazer, por visitas que fui obrigado a receber
e a fazer com a minha família que, como sabes, passou aqui esse mesmo
dia. O acaso fez com que, passandos na vila às mesmas horas, nos
desencontrássemos. Disseram-me já que o Luso tencionava reproduzir
o passeio, mas tenho-o emo procurado nos dias de maior concor-
rência ; decerto que esfriou nos seus projectos, ainda que me parecia
que, se eleo perdeu o amor aos moluscos, lucrava em explorar estes
lugares, que, apesar da inutilidade das minhas tentativas, julgoo
deixariam sem recompensa as fadigas de um naturalista experiente e
apaixonado como ele é.
A mim, a quem falta a experiência e a paixão, sóm aparecido
alguns indivíduos de tal classe, notáveis pela vulgaridade; na classe
dos insectos tenho num vidro quatro personagens a que se chama
aqui brancas loiras, cujo nome cientifico ignoro.o sei se fazem parte
da colecção do Augusto. Sempre hei-de ver se lhas levo.
Cumpre fazer aqui uma advertênciao necessária como a
daquele educador de focas que recomendava que aso confundis-
sem com o tigre marinho, e é queo se devem confundir as men-
cionadas brancas loiras, com cabras loiras, bicharoco cornudo, a
que se chama em Ovar, eo sei se em mais partes, carocha.o
os conhecimentos de história natural que tenho adquirido desde que
estou aqui.
Ainda hoje pergunto a mim mesmo o que me tem retido tanto
tempo nesta vila e, para te falar com franqueza,o obtenho de mim
mesmo resposta satisfatória.
Eu que parti do Porto com o ânimo votado a grandes cometimen-
tos e quase decidido a correr as sete partidas, como o infante D. Pedro,
fiquei-me por aqui a engordar e a ganhar cor, até voltar ao Porto,
levando em branco as minhas impressões de viagem, e tendo em pers-
pectiva a rude e ansiosa tarefa de explicar a mil e uma pessoas a razão
por queo passei de Ovar.
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
Tu podes-me fazer um favor; a todos quantos te falarem de mim,
irás explicando os motivos que me determinaram a isso. É trabalho
que me poupas, o que eu de todo o coração te agradecerei. Mas
agora me lembro que tu próprio os ignoras talvez. Aí vão, pois, em
poucas palavras, alguns deles, que te poderão servir no caso que me
queiras fazer o favor que te peço.
Em primeiro lugar, desde que principiei a sentir que robustecia
em Ovar, fui adiando a minha partida, intimidado pelas descrições
tétricas que os facultativos daqui me faziam de Aveiro; em segundo
lugar concorreram cartas de família em que se me pedia que me demo-
rasse até que se pusesse em exploração o caminho de ferro, para me
visitarem; em terceiro, a saída de Aveiro de um primo em casa de
quem me tinha de hospedar, porque na ausência dele seria eu obri-
gado a aceitar a hospitalidade da família, que conheço pouco ou nada
e, por isso, a viver pouco à vontade, condição indispensável para eu
viver bem.
Deixemos as outras razões, porque me parecem menos fortes
do que estas e apontemos só mais uma para confirmar todas as outras;
o as saudades do Porto, que já meo deixam viver muito satisfeito
longe dele.
Já me fazem falta aqueles hábitos da vida pacífica e monótona
que vivia aí e, quando me lembro de voltar, já sinto uma certa alegria
interior. Isto acaba de me provar que a minha cura é radical.
Dos males físicos é indício suficiente de cura a boa carnação
quem admirado em mim; dos morais julgo ser indícioo menos
eloquente esta vontade de tornar à vida portuense com todas as
suas maçadas e até com a convicção de que dentro em pouco me
enfastiará.
Quando isto se dá comigo, que estou aqui por vontade própria e
que dentro de uma hora posso satisfazer estes desejos, que fará com
o nosso Teixeira Pinto, o desterrado no Fundão?
Há dias recebi dele uma carta de três folhas de papel. O pobre
rapaz até mostrava saudades doo João da Lapa! É o ideal da saudade.
Confesso-te que, entre tanta coisa de que sinto saudades,o entra
em linha de conta oo lamentado arraial da alameda da Lapa.
Sempre me lembro daquela noite deo João, do ano passado
em que eu, tu, e o Azevedo estivemos sentados num banco da Praça
da Farinha, qual des mais aborrecido e morto por se deitar. Recor-
do-me ainda que se falou na cólera-morbo e no vómito negro, assunto
que mostrava bem as disposições lúgubres do nosso espírito naquela
noite.
Este ano estive aqui também num arraial. Calcula como me havia
de divertir. As orvalhadas eram boas de mais. O santo excedeu-se.
Por pouco me ia constipando, por ter caído na patetice de esperar
pelo fogo preso que um curioso da vila fez para delícias dos devotos
do santo,
INÉDITOS E ESPARSOS
Aindao respondi também ao T. Pinto nem ao Nogueira Lima,
a quem peço-te que digas que brevemente conto esorever-lhe, talvez
que a última carta, poiso conto demorar-me muito mais aqui.
Adeus; recomenda-me ao Augusto e a todos os rapazes conhe-
cidos e, se puderes, escreve ao teu
amigo do coração
Coelho.
Ovar, 3 de Julho de 1863.
VII
Meu Passos
Um impertinente defluxo, acompanhado de um aparatoso cortejo
de sintomas febris, quase me impossibilitou até hoje de escrever aos
amigos, com quem sempre me é grato conversar por esta forma, já
que meo é possível fazê-lo de outra.
Verdade é que na minha situação e com o género de vida que
passo aqui é uma empresa difícil esta de encher algumas páginas
capazes de merecerem a atenção de quem viva no Porto onde, por
mais monótono que seja o modo de viver, sempre há tema para escre-
ver todos os dias um noticiário, coisa que, afirmo-o, seria, nesta terra,
absolutamente impossível. Mas como tu és daquelas pessoas, com
quem eu me entretenho horas, sem dar nem receber uma única
novidade, com quem converso à vontade, sem dar tratos à imagina-
ção para escolher um assunto, resolvo-me a escrever-te, apesar desta
completa pobreza de notícias, e firmemente convencido que, depois
da leitura,o terá aumentado com a menor partícula a massa dos
teus conhecimentos.
o te farei uma descrição da minha vida aqui. Mentindo e poeti-
zando um pouco, talvez me fosse possível transformá-la num idílio, que
teria a realidade de todos os idílios, mas limitando-me a dizer a ver-
dade, descreveria apenas uma coisa monótona e sem sabor, que torna-
ria *para quem a ouvisse,o admirável a conformidade do meu carác-
ter, com a do nosso reverendo amigo padre Outeiro, que eu nunca
me cansarei de apreciar como modelo de filósofos. Mas, em todo o
caso, abster-me-ei da descrição e deixo a cargo da tua imaginação
esse trabalho. É certo queo serás tu, ao que me parece, a pessoa
que mais estranhará esta minha maneira de viver; sempre te conheci
tendência para a vida do campo e verdadeira antipatia para com a
das cidades e julgo que aindao se operou nos teus gostos umao
completa metamorfose que hoje te seja incompreensível que se possa
viver assim.
INÉDITOS E ESPARSOS
Com o Teixeira Pinto ou com o Nogueira Lima, muda o caso de
figura; o primeiro altamente proclamou sempre a sua pouca simpatia
pela vida do campo; e o segundo, apesar de dizer que suspira por
ela, parece-me que está numa completa ilusão.
Ele imagina-a à maneira dos poetas e estou queo a aceitaria
de boa vontade tal como ela é em toda a parte e como ela foi e será
em todos os tempos; bem menos poética do que se pinta nas bucóli-
cas e nas poesias pastorais.
Uma das mais tristes necessidades é a que nos obriga a prescin-
dir de muitos dotes poéticos para encontrar uma Filis, por quem
romanticamente nos possamos apaixonar. Que sacrifícios tem de fazer
a imaginação à prosaica realidade!
Ora existem imaginações pouco dispostas a fazerem destes sacri-
fícios e que exigem a exacta realização do que haviam concebido sob
pena de rejeitar o que se lhes apresenta; e pode ser que me engane,
mas parece-me que a imaginação do nosso amigo Nogueira Lima é
uma dessas. A falar a verdade lá custa ter a gente de se contentar com
uma Graziela imensamente aquém da que Lamartine nos diz ter encon-
trado ; mas desde que nos convençamos que Lamartine mentiu um
bocado, é mais fácil conformar-nos com as inevitáveis exigências da
realidade.
Vejo agora que está quase concluída a quarta página da minha
carta, e, falando francamente, nem eu sei bem com quê.
Aproveitarei o que me falta para te pedir que me escrevas
sem muita demora, dando-me notícias tuas, que me recomendes ao
Eugénio, Luso e Alfredo Cardoso e que, se te decidires a vir aqui
algum dia, mo mandes dizer antecipadamente, para te procurar na
estação.
Adeus, por hoje ; qualquer destes dias escrevo ao Nogueira Lima;
enquanto oo faço, espero ser-lhe recomendado por ti e igualmente
a toda a tua família.
Teu amigo do- coração
Coelho.
Ovar, 4 de Agosto de 1863.
VIII
Meu Passos
Ontem noo Lázaro estive para dar espectáculo caindo ao chão
com um delíquio.
INÉDITOS E ESPARSOS
Valeu-me entrar numa loja de carpinteiro e sentar-me.
Por causa distoo posso saber de ti e de tua mana; manda-me
noticias pelo portador desta.
Teu do coração
Coelho.
(Som data, mas deve ser de Março de 1864).
IX
Leiria, 10 de Setembro de 1864.
Passos
o três horas da tarde do dia 10 de Setembro de 1864. Esta-
mos em Leiria na Nova Reforma da Hospedaria de João António de
Oliveira. O Augusto Luso dorme, o Alfredo suspeito que se prepara
para o imitar, o Eugénio, meu colaborador, está sentado à janela com
o seu chapéu inglês e com algumas tendências para meditações poéti-
cas, e ouvindo embevecido as notas suavíssimas de um piano dedi-
lhado pela menina mais velha do governador civil, nosso vizinho.
Eu escrevo-te sobre a cama em que durmo e serve-me de pasta
o opúsculo de Morelet, que faz parte da bagagem do Luso.
O Eugénioo pode ocultar que se sente desapontado por ver
que, afinal de contas, a gente de Leiria tem uma configuração vulgar
eo se torna distinta por nenhuma particularidade de organização
que pudesse impressionar a imaginação apática deste touriste blasé.
Já o ouvi dizer que, enquantoo chegar a uma terra em que sejam
todos pretos,o se dá por satisfeito.
Admirámos o Castelo e o Passeio Público.o nos tem causado
sensação as belezas femininas, que parece quererem satisfazer os gos-
tos do Eugénio, apresentando-se-nos todas meias pretas.
Puseram-nos, ao princípio, em dieta forçada de galinha e arroz.
Agora, felizmente, já nos fazem concessão de alguma vaca. O vinho
de Torres Novas,o sendo demasiado do nosso agrado, substi-
tuíram-no por o de Porto Moniz, com vantagem para o nosso
paladar.
O Luso afirma que é este um vinho puro.s bebemo-lo acre-
ditando na afirmação, que era o único partido razoável que podía-
mos tomar.
O Eugénio vai na crença de que comeu já aqui carne de rino-
ceronte ; é uma ilusão agradável que euo me sinto com ânimo de
desvanecer.
INÉDITOS E ESPARSOS
O Luso tem feito grande colheita de moluscos fluviais e terres-
tres. O Eugénio fez a aquisição de uma flor-de-lis do capitel de uma
coluna do castelo, que julgo destina ao Nogueira Lima.
Tem causado grande estranheza ver o Luso e o Alfredo agacha-
dos pelos ribeiros fazendo aquisição de moluscos. Esta gente, em quanto
a mim, imagina que o Lis é abundante em pérolas e palpita-me que
logo ques voltemos costas, correm a ver se as encontram também.
Na hospedaria em que estamos há uma rapariga que, por ser
filha do antigo estalajadeiro chamado Manuel Rei, o Eugénio, com todo
o rigor de uma dedução de filósofo, entendeu que se devia chamar
Manuela Rei.s todos aceitamos a denominação e já nem concebe-
mos que se possa chamar de outra sorte. É ela actualmente o objecto
dos pensamentos eróticos do nosso amigo,o obstante ser casada.
{Seguem-se algumas linhas escritas por Eugénio Fernandes da Silva).
X
Aveiro, 28 de Setembro de 1864.
Meu Passos
Escrevo-te de Aveiro.o 7 horas da manhã do histórico dia de
o Miguel. Acabo de me levantar. Acordou-me o silvo da locomotiva.
Abri de par em par as janelas a um sol desmaiado que me anuncia o
Inverno.
A primeira coisa que este sol alumiou para mim, foi a folha de
papel em que te escrevo; aproveito-a como vês, consagrando-te
neste dia os meus primeiros pensamentos e o meu primeiro quarto
de hora.
Aveiro causou-me uma impressão agradável ao sair da estação;
menos agradável ao internar-me no coração da cidade, horrível vendo
chover a cântaros na manhã de ontem, e imensas nuvens cor de chumbo
a amontoarem-se sobre a minha cabeça, mas, sobretudo intensamente
aprazível, quando, depois de estiar, subi pela margem do rio e atra-
vessei a ponte da Gafanha para visitar uma elegante propriedade rural
que o primo, em casa de quem estou hospedado, teve o bom gosto
de edificar ali.
Imaginei-me transportado à Holanda, onde, como sabes, nunca
fui, mas que suponho deve ser assim uma coisa nos sítios em que
for bela.
Proponho-me visitar hoje os túmulos de Santa Joana e o de José
Estêvão, duas peregrinações que euo podia deixar de fazer desde
que vim aqui.
A casa em que eu moro fica fronteira à que pertenceu ao José
INÉDITOS E ESPARSOS
Estêvão. Há ainda vestígios das obras que ele projectava fazer-lhe e
que, por sua morte, ficaram incompletas. Tudo isto se vendeu, e
dizem-me por uma ninharia.
Cheguei a Aveiro um pouco dominado pela apreensão de que
talvez viesse ser infeccionado pelos eflúvios pantanosos da terra e cair
atacado pelas sezões, circunstância que,o obstante o colorido local
que me havia de dar, nem por isso me havia de ser muito agradável.
Nada, porém, de novo me tem por enquanto sucedido, e con-
tinuo passando bem, e, o que é mais, engordando.
E tu? Estás ainda em Paranhos? Sentes alguma mudança para
melhor nos teus impertinentes incómodos? Aconselho-te a que teo
atemorizes à perspectiva de um Inverno na aldeia; por feio que seja
sempre é melhor que o da cidade, principalmente para quem, como
tu,o goza nela aquilo que para a maioria das pessoas torna prefe-
rível a última.
Tua mana continua melhor?
O Eugénio, de quem fui companheiro de viagem de Ovar até
Aveiro, deu-me notícias favoráveis dela e espero que melhor as daria
hoje se a visse.
o tardará muito que eu te procure ou no Porto ou em Para-
nhos. Está a expirar os de Setembro e eu dou em breve por
terminada a minha excursão.
Se falares com o Nogueira Lima recomenda-me e diz-lhe que o
azulejo da cozinha dos Bernardos de Alcobaça lhe será entregue
depois da minha chegada ao Porto.
Recomenda-me igualmente, tendo ocasião, ao Augusto e ao Alfredo
e, se puderes, escreve ao
teu amigo do coração
J. C. Gomes Coelho.
XI
Felgueiras, 9 de Julho de 1865,
Meu Passos
Depois de ter colaborado naquele aranzel que te enviámos
daqui, julgava-me obrigado a escrever-te uma carta séria, o que faço
hoje, enquanto o Teixeira Pinto está rabiscando em uns autos com
aquela escandalosa letra que ele arranjou.
1
«Coisas jocosas, que parecem sérias», publicadas em 4 folhetins no «Jornal
do Porto» em Novembro e Dezembro de 1879,
INÉDITOS E ESPARSOS
Tenciono também escrever brevemente ao Nogueira Lima, a
quem te peço para, desde, me fazeres recomendado.
Neste momento estão caminhando os eleitores para a urna, sem
grande consciência da importância da sua missão. Ainda agora o obser-
vei ao Teixeira Pintoo há soberano mais modesto e despido de
soberbas e orgulhos do que o povo soberano.
Era interessante o quadro que, esta manhã, se podia observar
no adro da igreja paroquial.
As freguesias chegavam aos magotes, capitaneadas por um cau-
dilho que pisava o terreno com certos ares de general, marchando à
frente de um exército.
Que figuras! Quando me lembrava que cada um daqueles elei-
tores trazia no bolso uma lista com o nome de Roque Joaquim Fernan-
des Tomás, e me punha a comparar aquelas individualidades, a do
eleitor e a do eleito, quando via a distância que os separava, a
completa ignorância em que estava um das qualidades e até da
existência do outro,o podia deixar de fazer as minhas reflexões
sobre o muito que distava ainda da ideia constitucional à realidade.
Aqui, o candidato oposicionista parece haver desistido à última
hora; quando oo fizesse, poucos votos arranjaria em todo o círculo,
segundo afiançam os influentes.
Dai resulta um sossego que deve contrastar com a balbúrdia que
a estas horas vai decerto pelo Porto.
Estou com curiosidade de saber o resultado daí, principalmente
no círculo de Cedofeita.
E deixemos agora o assunto eleitoral.
Tenho passeado muito por aqui e obrigado a passear o Teixeira
Pinto, cujos hábitos sedentáriosm sido altamente perturbados com
a minha presença.
O queo consegui foi obrigá-lo a assistir ao levantar do Sol.
Há dias em que, às oito horas, ainda ninguém o ouve, o que, na
verdade, é um escândalo para quem vive nesta terrao abundante
em passeios lindíssimos.
Que istoo te faça julgar que eu, pela minha parte, vou sau-
dar a aurora para as cumeadas dos montes ou nas profundidades
dos vales.
Aindao venci esta irresolução que me é natural e em virtude
da qual me conservo em casa, apesar de me levantar às 7 horas.
Saímos mais tarde. Estou convencido que passamos aqui por
dois grandes originalões. Têm-nos visto sentados pelas devesas e
pelos montes a ler, e isto deve ser, aqui, uma prova irrecusável de
alguma perversão de faculdades.
Eu tenho feito grandes prelecções ao Teixeira Pinto a respeito
do que é incompatível com a poesia, mas aquele seu comodismo reage
contra os preceitos que eu lhe proclamo. Teima em seguir os caminhos
trilhados, negando os atractivos do desconhecido, e à sombra da mais
INÉDITOS E ESPARSOS
poética devesa, quando parece mais entusiasmado pelo gorjear dos pás-
saros, sorve a sua pitada com a mais prosaica satisfação deste mundo.
É um escândalo.
Ainda até hojeo tive notícia de terem ido para Lisboa os papéis
relativos ao meu concurso. Que genteo atada!
Deus queira que meo seja prejudicial tal demora.
Adeus. Escreve quando puderes ao teu
amigo do coração
J. G. Gomes Coelho.
XII
Felgueiras, 22 de Julho de 1865.
Meu Passos
Amanheceu um dia macambúzio. A chuva ameaça-nos a ponto
de recearmos sair.
O Teixeira Pinto já escreveu em um papel, com a máxima correc-
ção de que ele é susceptível, Batalhoz e Carlos Ramires.
o dez horas. Passa um carro chiando impertinentemente. Digo
como tu:
Quoties fastidiosa ipsa pulcherrima natura!
Li de princípio a fim o «Jornal do Porto» e o «Comércio» de ontem;
arrostei ainda com a insipidez do «Diário de Lisboa», que havia de
fazer mais? Tinha diante de mim esta folha de papel, pousei-a em cima
de um volume das Causas célebres e principiei a escrever-te.
Mas a grande dificuldade é encontrar assunto.
Tuo me agradecerias uma descrição do campo, nem quando
ma agradecesses, eu me meteria nessas águas mornas do descritivo
e da bucólica.
É verdade que ontem nos demos um pouco a esse género de
literatura, porque, tendo trazido eu dai um volume do Parnaso, lemos
à sombra de uma devesa algumas das mais inocentes composições
líricas do Gonzaga e Bernardim Ribeiro.
Podes pois avaliar que os nossos hábitos competem actualmente
em singeleza com os das sociedades primitivas.
O Teixeira Pinto reage um pouco contra o romântico.o se
conforma com sentar-se na relva; lamenta que em todos os lugares
pitorescos que visitao haja uma cadeira de palhinha para se sentar.
Então sim, que apreciaria deveras a natureza eo repetiria como
Múcio Cévola:
Quoties
INÉDITOS E ESPARSOS
Prefere sempre as estradas aos caminhos abertos pela natureza,
privando-se voluntariamente das grandes impressões que recebe o
viajante dos variadíssimos acidentes desses caminhos. Levanta-se às
nove horas e ainda com saudades do leito; finalmente está impregnado
de prosa até à medula dos ossos.
Acabo de lhe ler este período e a consciênciao o deixou
protestar.
O Coelho que estava engasgado sem saber como havia de acabar
esta carta, por estar desabituado de escrever com seriedade, pediu-me
para eu a continuar e encher o resto do papel que falta, porque, como
sabes, não carta séria que não encha as quatro páginas.
Acedi ao pedido e vou tratar de encher o resto do papel. Não
tenho assunto, nem sei bem sobre o que hei-de escrever, mas lá,
vamos a ver o que sai.
Dizia o Coelho que a consciência me não deixou protestar. Pobre
da consciência. Se não fosse a consciência, eu protestava, mas não
protesto por causa da consciência.
O Coelho incumbe-me de te pedir o favor de ofereceres em seu
nome ao Nogueira Lima uma cópia da cabeça do Holofernes que foi
achada nos arquivos municipais.
Ora o diabo! E falta ainda tanto papel! Como hei-de eu fazer?
Vou rectificar eo ratificar o que disse o Teixeira Pinto.
A cabeçao é oferecida por mim, como se pode ver no verso
da sobredita.
Ainda faltam nove linhas e eu, a falar a verdade,o sei como
hei-de enchê-las.
A coisa custa; mas sempre se hão-de encher; mais por aqui,
mais por ali; esforço por cá, esforço de lá.
Oh Diabo! e agora que se me deparava o assunto e a musa me
começou a inspirar!
Para outra vez será.
Joaquim G. Gomes Coelho.
Miguel Teixeira Pinto.
XIII
Felgueiras, 26 de Agosto de 1865.
Meu Passos
Devo-te duas cartas. Vou responder-te à última, porque é dívida
mais urgente.
Conquantoo fosses o primeiro a dar-me a boa nova do meu
despacho, acredita que nem por isso me foi menos agradável a tua carta.
INÉDITOS E ESPARSOS
Sente-se sempre prazer em receber cartas das pessoas que noso
caras, e em ocasiões como esta, porque, neste momento, estou pas-
sando provas de que os nossos sentimentoso partilhados por elas.
Eu também faço justiça ao Júlio Gomes. O processo do meu con-
curso foi para Lisboa no dia 9 de Julho, exactamente quando no país
se decidiam os destinos da Pátria. É fácil de imaginar que em todos
os onze dias que se seguiram, até à data do meu despacho,o
faltaram preocupações e cuidados ao bom do ministro, desde as car-
tas e panfletos dos Tanas despeitados, até às hipócritas artimanhas
dos grandes estadistas que o rodeiam.
Pois apesar de tudo e de todos, o homem despachou-me.
Hei-de sustentar a todo o mundo que o Júlio Gomes é um minis-
tro' de grandes iniciativas e de medidas rasgadas.
Mas agora falando sério: foi um momento dos poucos felizes
da minha vida aquele em que obtive a certeza de que estava des-
pachado. Tinha-me quase habituado a acreditar na impossibilidade
da coisa e tanto que, nem depois de obter a votação favorável da
Escola, a desconfiança me abandonou.
Agora é que principio a convencer-me de que efectivamente
estou dentro.
Como pelo mesmo caso em que se faz a pergunta se deve dar a
resposta,o te responderei aqui à carta que ontem me escreveste.
Reservo-me para outro dia. Contudo sempre te direi que me causou
grande prazer a sua recepção porque vi nela uma prova das tuas boas
disposições no momento em que a escreveste.
Há meses que, nem que te pagassem, conseguirias escrever uma
carta como aquela que nos fez passar alguns instantes agradavelmente.
A que o Teixeira Pinto recebeu, verdadeiramente bafejada pelos ven-
tos da Alemanha, confirmou-me nesta opinião comum.
Ainda bem. Gosto de te ver assim, com disposições para rir e
para fugir àquela indiferença para com tudo, e pertinaz aborreci-
mento que tantas vezes te ameaça.
Para o princípio da semana que vem conto chegar ao Porto e
ser-me-ia muito agradável achar-te ainda nessa boa disposição de
ânimo, em que me parece estás.
Antes de chegar, espero responder-te à epístola com toda a viva-
cidade que a musa indignada me inspirar.
Recomenda-me ao Nogueira Lima e diz-lhe que está próxima
a naufragar a sua pontualidade epistolográfica.
O Teixeira Pinto observa-me que a carta vai grande e que, com
menos palavras, ele mata um homem, digo, dá conta de um homem,
digo, dá conta da morte de um homem, sem deixar nada por dizer.
Por isso termino aqui.
Teu amigo do coração
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
XIV
Porto, 10 de Outubro de 1866.
Meu Passos
Intimidou-me o aspecto da noite. Resolvi evitar-lhe os afagos.
Como, porém, tinha de mandar aí buscar o boletim, sempre quis
escrever-te para que tuo fosses às vezes atribuir a coisa mais
séria a minha falta.
o tive mais nenhum incómodo, além dos da imaginação, a qual,
como eu conjecturava, lidou toda a noite. Esses mesmos mos curou
em grande parte o Reis, com quem falei esta manhã. Espero dormir
bem esta noite e o mesmo te deseja
O teu do coração
Coelho.
XV
(Dias depois)
Passos
Conquanto meo possa dizer pior, julgo prudente, atendendo
à persistência da febre e a certo mal-estar indefinível, principiar a
usar o óleo de fígado de bacalhau, se o estômagoo protestar con-
tra ele.
O meu criado vai para o trazer dal. Adeus.
Teu do coração
Coelho.
XVI
Lisboa, 11 de Março de 1868.
Passos
Cá estou! O Silva veio comigo afinal. A viagem foi cómoda. No
mesmo carro veio o Gustavo Nogueira Soares, lendo constantemente
as «Pupilas». Na estação de Santa Apolónia, ao despedirmo-nos, o
homem tratou-me pelo nome e ofereceu-me os seus serviços. Estou
pois descoberto. Veremos o que daí resulta. Confio, porém, que a
política me valerá.
INÉDITOS E ESPARSOS
Para esta noite há muitos espectáculos. Além das «Pupilas», !
que conto ir ver, temos o Arco da Velha do Noronha, o benefício do
Rosa em D. Maria, etc, etc.
o derivativos tranquilizadores. Adeus. O Silva pede para ser
lembrado.
Recomenda-me ao Luso, Nogueira Lima e Albuquerque.
Teu amigo
Coelho.
XVII
Lisboa, 25 de Março de 1868.
Passos
Pelos jornais de 10 réis deves já saber o que se passou na noite
da primeira representação das «Pupilas», à parte algumas particula-
ridades que depois te contarei. Andei, como imaginas, metido numa
dança curiosíssima.
2
Na segunda-feira, dia de recepção em casa do Mendes Leal, era
esperado por este que fizera convites especiais, alegando a minha
apresentação, como o facto principal da noite.
Fui para o teatro francês, onde vi os convidados diplomatica-
mente vestidos de casaca e colete branco.
1
Foi a primeira representação no teatro da Trindade, a que J. Dinis queria assistir
incógnito, do drama As Pupilas do Sr. Reitor, extraído do seu romance por Ernesto Biester.
O «Diário Popular» de 24 de Março de 1868 escreveu a propósito da representa-
ção de «As Pupilas do Sr. Reitor»:
«Desde o final do primeiro acto até que o pano baixou terminando o espectáculo,
os aplausos repetidos e entusiásticos testemunharam o prazer com que era recebida a
produção que o Sr. Biester com tanta habilidade desentranhou daquela crónica de aldeia.
que num só dia deu nome ao que a havia escrito. Na primeira representação o público
chamou, no fim do terceiro quadro, o Sr. Biester, que veio à cena agradecer. Quando nova-
mente foi chamado no fim do sexto quadro, sabendo já que o célebre autor do romance
o Sr. Gomes Coelho (Júlio Dinis) se achava na plateia, veio ao palco o Sr. Biester, pediu
silêncio, e disse mais ou menos as seguintes palavras:
«Aquele que realmente merece os vossos aplausos está entre nós. Euo fiz mais
que apresentar debaixo da forma dramática um dos mais notáveis livros que sem publi-
cado neste país. A esse escritor já curvado dos aplausos públicos peço eu agora a honra
de permitir-me que o apresente neste lugar ao público que o deseja ver.»
A plateia levantou-se para aplaudir o Sr. Biester e o Sr. Gomes Coelho, que se
recusou a subir ao palco. Veio buscá-lo à plateia o Sr. Biester e mal apareceram ambos
no palco, o entusiasmo do público chegou ao delírio. A todos comovia a modéstia dos
dois escritores; um escondendo-se na plateia e furtando-se aos aplausos, outro preten-
dendo que toda a glória coubesse ao Sr. Gomes Coelho.
Os actores que ainda estavam em cena abraçaram o Sr. Gomes Coelho, que pro-
fundamente comovido mal podia proferir uma palavra.
INÉDITOS E ESPARSOS
Olhei para a minha modestíssima aparência e... vim para casa.
O Tomás de Carvalho insistiu comigo para que fosse; o Castilho
mandou-me pedir o mesmo. Eu dei uma desculpa absurda e vim para
casa.o sei como seria recebido o desacato. Ontem, sondando o
Biester, pareceu-me queo estava muito horrorizado.
Agora entrou o Soromenho com um jornal em que se contradiz
tudo quanto acabo de te dizer. Eles que o dizem é porque o sabem.
Como verás pelo sobredito Diário, eu fui a casa do Mendes Leal,
gostei de ir e parti para o Porto. Ficam pois revogadas todas as asser-
ções em contrário...
Diz-me mais ainda o Soromenho que escapei a uma poesia à
queima-roupa, disparadao sei por quem. Talvez pelo próprio
Mendes Leal. Que choque!
O mesmo Soromenho anuncia-me a visita de um inglês, parente
de Lorde Stanley, que aqui está estudando a história dos descobri-
mentos portugueses, o qual inglês tem a excentricidade de querer
traduzir as « Pupilas ».
O homem, pelos modos, já ontem me procurou. Entendendo per-
feitamente o português lido,o percebe palavra do pronunciado.
Há-de ser curiosa a entrevista. Adeus. Faz-me lembrado ao Luso e
recebe do Soromenho e Silva muitas lembranças. O Silva talvez parta
amanhã; eu ainda fico.
Teu amigo do coração
Coelho.
XVIII
Meu Passos
Como sabes estamos em Matosinhos desde quinta-feira. No nosso
programa de vida, religiosa e uniformemente executado, compreen-
de-se o banho do Eugénio, tendo-me por espectador, na praia de Mato-
sinhos ; a passagem para Leça, onde vamos ver tomar banho os outros
banhistas; o almoço obrigado a café com leite e ao com manteiga;
passeios extensos e variados, marítimos, bucólicos, fluviais e geórgi-
cos, cortados pelos mais variados episódios; jantar modesto e bur-
guês, durante o qual eu e o Eugénio discutimos pontos importantíssi-
mos, verbi gratía: se quando está a chover se molha mais quem vai
devagar ou quem corre, se ele desejava ser grilo, se nos havemos de
entregar a bebidas alcoólicas, etc, etc.
A patroa, a Sr.* D. Ana, vem dar-nos cavaco no fim. É viúva de
um mestre-escola; dá também mestra, ou antes a menina sua filha.
É a Sr.* D. Ana uma boa senhora, cuja única impertinência, a meu ver,
é a de querer ques conheçamos toda a gente do Porto, o que a
INÉDITOS E ESPARSOS
arrasta através de uma fieira de parentescos e relações dos sujeitos
que cita, que é de desesperar.
Passeamos depois do jantar (janta na linguagem da patroa),
vamos ao correio buscar o «Jornal do Porto» e alguma carta de algum
excêntrico que por acaso se lembra de nos escrever.
Tomamos chá às 9 horas, entremeado com um cavaco análogo
ao do jantar e, ãs 11 horas, mais bocado menos bocado, deitamo-nos.
Escusado é dizer que a todo o momento jogamos o xadrez, no
qual eu estou revelando uma inaptidão escandalosa. Em raros momen-
tos rilha o Eugénio um bocado das viagens ao Oriente, de Lamartine,
e eu uma poesia de Schiller ou uma carta persa de Montesquieu. Mas
isto em doses mínimas parao fazer mal.
O Eugénio andava com um prurido de ir ao Porto e já hoje falava
em chegar ai amanhã. Euo estou resolvido a acompanhá-lo. Pare-
ce-me, porém, queo irá ele também amanhã ainda.
Eu confesso que aindao me aborreci. Quero ir ao Mindelo,
onde o imortal D. Pedro fez aquela fala do «respeito ao altar eo
sei que mais» e, se o tempo o permitir, a Leixões, que o Almeida
Garrett tornou célebre.
Acabamos de tomar o chá. O tempo serenou um pouco. Dentro
de poucas horas estamos a dormir. Adeus.
Matosinhos, 12 de Agosto de 1868, às 9 da noite.
Teu do coração
Coelho.
XIX
Porto Novembro de 1868.
Meu Passos
Espero que se resolva breve esse impertinente incómodo que
te retém na cama. Anda o azango connosco. A minha tosse também
continua; a cerveja, porém, modificou milagrosamente, para bem,
as disposições do meu estômago; ainda queo em grande escala
seguem as melhoras. Resignemo-nos. Sintoo te poder visitar hoje;
verei se amanhã o faço antes do conselho.
Aí vai o livro do Ramalho.o me ocorre mais nada para te
mandar.
Teu do coração
Coelho.
VOL,. II 28
XX
(Sem data)
Passos
Depois do estado em que ontem dizias achar-te, é de crer que
viesse um período de remissão e alívio. Manda-me dizer de qualquer
maneira, por boca seo estiveres para escrever, se de facto te
achas melhor.
Eu continuo na mesma. A chuva e o frio de hojeo me deixa-
ram sair.
Até quando durarão estas nossas provações? Eu que me queixo
dos meus incómodos, acredita que avalio bem quanto deverás ter
sofrido, tu em quem eleso mil vezes mais exasperadores.
Teu do coração
Coelho.
XXI
Passos
O nevoeiro desta manhã obrigou-me a sair de casa só ao meio-
-dia, hora do conselho na Escola. Ainda assim era tal o frio que ia nas
ruas, que eu, que passara um pouco melhor a noite, senti que se agra-
vava algum tanto a tosse, concorrendo para o mesmo fim o conselho.
Manda-me dizer como passaste a noite e como estás actualmente
e se conseguiste ler o livro que me pediste.o sei se te deva mandar
mais algum, mas a falar a verdadeo tenho a certeza de o ter.
Alguns colegas falaram-me num passeio a Lisboa, outros, o José
Frutuoso, a Setúbal. Agradou-me mais este; mas... resolver-me-ei?
o posso dizer.o me lembro de atravessar uma época de tanto e
o profundo aborrecimento como esta.
Nem eu posso dizer o que quero.
Adeus. Se te custar a escrever manda-me de boca novas tuas e
diz-me se ainda estás na cama.
Teu do coração
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
XXII
Passos
Que novas mes hoje de ti?
Passo mais outro dia inteiro em casa e,o sei se por influência
desta vida de reclusão, e de quase absoluta separação em que estou
da humanidade, têm-se-me exacerbado os meus humores negros e
estou, pelo menos moralmente, algum tanto pior,
Adeus; agradeço-te o lembrares-te de mim no meio dos teus
incómodos, que aliás creio que eram bastantes parao te deixarem
pensar em outra coisa. O que me dizes em relação a Setúbal é exacto.
Havia de custar-me a partir para. O que farei?o sei.
Vou vivendo nisto, até que uma causa maior me obrigue a tomar
um partido.
Adeus; seria o meu primeiro prazer neste dia se me mandasses
dizer que estavas melhor.
Teu do coração
Coelho.
XXIII
Passos
A tua carta é um bom sintoma. Espero que se sucedam seme-
lhantes ou melhores e que cedo te aches restabelecido.
Aplaudo a tua resolução de ir a Braga.
Euo sei como vou; os assistentesoo os que me retêm
em casa; é antes um desânimo que eu próprioo explico. Amanhã
talvez saia.
Sei de ti todos os dias por notícias que dá o Luso a meu sobrinho.
o te tenho escrito para teo incomodar. Até breve,
Teu do coração
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
XXIV
Porto, 29 de Novembro de 1868.
Meu caro Passos
Eram tenções minhas ir ver-te ontem, quer o tempo permitisse
quer não, porque ia de cadeirinha, seo pudesse ir a. Mandei
pedir ao Silva para te dizer a razão por que oo podia fazer. Um
ataque de hemoptise, maior do que os que tenho tido, obriga-me a
estar em casa e na cama.o sei qual será o resultado disto. Os colegas
dão-me as melhores informações do meu estado, mas que outra coisa
hão-de eles fazer?
Em todo o caso é certo que me deu parao desanimar de todo.
Acredita que uma das maiores mortificações que sinto é a de teo
poder ver antes da tua partida. Tuo tens motivos parao confiar
na operação. É simples, aindao houve um caso em que elao apro-
veitasse tanto nos da clínica do Alves Passos como nos do Almeida e
até nos do José Frutuoso, que, conquantoo seja operador, já a tem
praticado três vezes.
o sei se poderás ler o que escrevo, por isso que estou escre-
vendo na cama. Adeus, até à vista.
Espero que ainda passaremos muitas noites juntos, naqueles
nossos inofensivos colóquios. E, para então, terás tu mais saúde do
que a que há muito tempo gozas
Creio-o firmemente.
Recebe um abraço do teu verdadeiro amigo do coração.
Coelho.
XXV
Porto, 2 de Dezembro de 1868.
Meu caro Passos
(Para Braga).
Foi-me em extremo agradável receber a tua carta justamente no
momento em que esperava notícias tuas, que mandei saber a tua casa.
Quando receberes esta minha é de crer que estejas mais satisfeito de
espírito pelo bom êxito da operação, na qual eu firmemente creio.
INÉDITOS E ESPARSOS
Julguei que o Silva tinha ido também contigo, mas da tua carta parece
concluir-se estar só aí o Luso. Mal sabes quanto estimo que te tenha
acompanhado, porque o seu ânimo forte é um excelente companheiro
para os desalentados como nós, e muito mais porque há nele, além
disso, uma verdadeira amizade que também dá alento.
Eu para aqui estou no estado habitual de espírito que podes ima-
ginar, achando-me consideravelmente melhor na presença dos colegas
e horas depois da visita deles, piorando, quando anoitece e pela
madrugada, em que os diabos negros se apoderam de mim.
Quando me achar meio restabelecido sairei do Porto e, actual-
mente, a vida que mais me sorri é uma vida bem aldeã e bem esque-
cida do mundo. "
Se tuo puderes, o Luso que me mande dizer o que se passar
com a operação.
Teu muito do coração verdadeiro amigo
Coelho
XXVI
Porto, 16 de Dezembro de 1868.
Passos
Quero saber de ti.o te tenho escrito porque me constou que
te recomendaramo escrever eo queria que a minha carta fosse
motivo a obrigar-te porventura a infringir o preceito médico.
Eu julgo que vou melhor; asseguram-me os colegas que seo
fartam de clamar contra a minha imaginação como a moléstia principal
de que padeço. Há verdade nisto, quero crê-lo, ainda queo no grau
em que eles dizem.
Em todo o caso, o dia nasceu hoje bonito e o Sol dá esperanças e
ânimo. Creio nas nossas convalescenças e na continuação, mais ou
menos remota, daqueles cavacos e passeios e da nossa velha e imper-
turbada amizade.
Teu amigo do coração
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
XXVII
.
Porto, 20 de Dezembro de 1868.
Meu caro Passos
Vi pela tua carta, que me veio agradavelmente acordar na manhã
de hoje, que és, como eu, dotado de pouca fé no alívio dos sofrimentos
próprios. Eu também, por mais que me assegurem os colegas e amigos
que vou melhor, aindao pude acreditar firmemente que possa voltar
para mim a vida de outros tempos.
Imagino quanto te há-de afligir o isolamento em que estás. A isso
é que me parece de necessidade atender. O Luso, cujas férias estão
à porta,o voltará a passar contigo alguns dias?
É homem que só vi uma vez depois que veio.
Tem-me causado impressão esse abandono de amigos em que
me vejo.
Sou visitado por muitos médicos, mas uma fatalidade fez com que
o pudesse ver a meu lado os rapazes com quem convivia.
Adeus.o me escrevas, no caso disso te incomodar, mas
nesse caso vê se achas meio de informar do teu estado de saúde o
Teu amigo do coração
Coelho.
XXVIII
Porto, 5 de Janeiro de 1869.
Meu Passos
Sei que vais bom. Que passeias como o judeu errante e que te
preparas para comer como Brillat Savarin. Parabéns, do coração tos
dou, acredita.
Na qualidade de amigo e de convalescente, sou eu quem, com
mais convicção, posso dizer-te: parabéns.
Dizem-me que vens brevemente. Em parte estimo, porque estou
ansioso por te ver, o queo faço desde aquele memorável passeio
que demos juntos; em parte, porém, desejaria que ficasses mais tempo
. Receio que tornes aos teus hábitos sedentários, voltando ao Porto.
INÉDITOS E ESPARSOS
O ideal dos projectos era se, voltando do norte, tu te resolvesses
a partir para o sul, para onde, mais dia menos dia, tenciono emalar.
Os colegas prometem-me o desaparecimento dos poucos sintomas que
ainda me restam, se for passar os meses de Inverno nas proximi-
dades de Lisboa.
Ando em correspondência activa com os meus amigos da capital
para que me descubram no Lumiar ou em Benfica um canto onde
me meta.
Por isso sorri-me a ideia de viver algum tempo fora deste berço
de muralhas e, logo que possa, parto.
Ao ser a felicidade de te ter por companheiro de viagem,
espero que, ao menos desta vez,o me sucedao te ver antes da
partida.
Adeus até à vista.
Teu do coração
Coelho.
XXIX
Lisboa, 10 de Fevereiro de 1869.
Meu Passos
Estou em Lisboa há quase oito dias, na Rua Direita da Graça, à
Cruz dos 4 Caminhos, n.° 35.o sei se estou melhor, julgo que, por
enquanto, pouca diferença faz o meu estado físico do que era. Como,
porém, os novos hábitos de vida mem constrangido o espirito a
desviar-se da direcção em que,, tudo o encaminhava, sinto menos
apreensões ordinariamente, e estou mais disposto a aguardar os factos
à proporção e medida que eles sucederem.
o é campo o sítio em que habito, nem sei a que distância de
casa o encontrarei, o tal campo; pois que aindao passeei, porque
nestes dias de Carnaval era perigoso o passeio em Lisboa.
Verei hoje quarta-feira o que. Tenho empregado o tempo a
ler um romance do Dickens traduzido em francês, e a passear no
quintal pertencente à casa em que moro. As minhas patroas tinham
pretensões a quererem viver muito em família comigo; mas eu fui-lhes
dando a conhecer o meu génio sorumbático e elas estão quase edu-
cadas para aceitarem esse facto como natural.
O Soromenho e o João Basto já me procuraram e recomen-
dam-se-te,
Diz-me como tens passado e em que alturas vai o teu projecto
de imigração do Porto.
INÉDITOS E ESPARSOS
Teu pai vai melhor? Como passa o Luso e o Silva? Tudo isso
me interessa, como podes supor, e espero que, se tiveres disposição
para me escreveres, me informarás de tudo circunstanciadamente.
Pareceu-me ver no outro dia o Silva Ferraz no Rossio,o me
cheguei, porém, a ele, porqueo estava com vontade de falar a
ninguém.
A altura em que estou parece-me que me livrará das visitas e
cumprimentos dos meus amigos de Peniche, circunstância que me é
agradável.
Eu devo passar entre esta gente por um lobo selvagem. No outro
dia deu-se um facto que me fez rir quando pensei depois nele.
Querendo encarregar alguém de me abreviar a licença no
Ministério do Reino, lembrei-me do T. de Carvalho que me ficava
perto de casa e que tem a bossa da prestabilidade. Efectivamente o
homem prestou-se a falar nisso ao Latino Coelho, dispensando-me
assim de correr para as secretarias, que era o que eu queria evitar.
Mas vamos ao caso: em meio da conversa anunciou-me ele, como
uma grande nova, que o Camilo Castelo Branco estava também em
Lisboa. À vista da minha indiferença eleo pôde deixar de pergun-
tar-me se euo tinha relações com ele. «Poucas» foi a minha res-
posta. Logo depois segunda notícia de polpa: o Ramalho Ortigão
morava perto da casa para onde ia. A mesma indiferença da minha
parte; a mesma pergunta da parte dele, à qual eu respondi: «Algu-
mas». Que pensaria o homem consigo?
Adeus que o papel está no fim. Quando puderes dá-me o prazer
de receber notícias.
Teu amigo do coração
Gomes Coelho.
XXX
Lisboa, R. Direita da Graça, 35.
18 de Fevereiro de 1869.
Meu Passos
A solidão longe dos homens é para mim uma coisa agradável;
a solidão no meio deles, reconheço agora, que é uma tortura sui gene-
s que desconsola e impacienta. Cruzar nas ruas com milhares de
pessoas azafamadas, que correm, e falam, e riem, e barafustam eo
conhecer nenhuma, e ter a certeza de que em nenhuma existe por
s um sentimento leve que seja de simpatia,o é demasiado
agradável.
INÉDITOS E ESPARSOS
Depois quando a gente vê uma pessoa que conhece, embora
o lhe fale, segue por algum tempo pensando nela, em alguma
particularidade da sua vida e, insensivelmente, distrai-se; mas se
estas caras, que eu vejo por aqui,o para mim como um livro
em alemão, cujos caractereso me é dado decifrar, como hei-de
eu distrair-me ao vê-las? O resultado é adquirir, depois de se pas-
sear algum tempo na Baixa, um certo grau de irritação nervosa,
que eu novamente comparo ao que me produziria uma biblioteca,
em que me fechassem, toda composta de livros em língua desco-
nhecida.
Quando por acaso ponho a vista em uma cara que conheço,
sinto uma impressão esquisita e nova.
Foi decerto este fenómeno que produziu a efusão com que se
deu um encontro entre mim e um homem a quem, aí no Porto, sou
inteiramente indiferente. Quem nos visse havia de tomar-nos por ami-
gos Íntimos. Foi o Coutinho de Madureira, que encontrei quaseo
perdido como eu neste redemoinho da cidade baixa.
Ainda outro fenómeno quase do mesmo género. Ontem descendo
o Chiado, esbarrei cara a cara como menor personagem do que
Camilo Castelo Branco. Se fosse no Porto, saudar-nos-íamos muito ceri-
moniàticamente e passaríamos. Aqui foi outra coisa. O amável roman-
cista dirigiu-se-me com maneiraso afáveis, que dir-se-ia sentir um
real prazer em me encontrar.
Queixou-se-me por miúdo dos seus males físicos, que o tinham
obrigado também a vir a Lisboa; das suas apreensões a respeito de
uma suposta doença de espinha medular (e alguns fundamentos tem
para a suposição), das canseiras que lhe tinha dado a doença de um
filho, obrigando-o isso a dias de continuada vigília; informou-se dos
meus padecimentos, deu-me conselhos, sentiu do coração que a minha
doença meo deixasse escrever; e terminou oferecendo-me a sua
casa. Separámo-nos como grandes amigos, depois de um tête-á-tête
de um quarto de hora.
O homem está realmente muito escavacado. Ele diz que morre
saciado porque soube viver muito em 42 anos.
Ora aqui tens os fenómenos deste viver excepcional que eu
estou experimentando.
As minhas melhorasoo grandes, conquanto tenha conse-
guido afazer-me a hábitos de vida de quem tem saúde, o que acre-
dito ser meia cura; contudoo me satisfazem ainda os meus canais
brônquicos.
Adeus,o prolongo mais esta 'carta porqueo posso escrever
muito ou porque receio fazê-lo.
Teu amigo do coração
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
XXXI
Lisboa, 28 de Fevereiro de 1869.
Meu Passos
Escrevo-te por que tenho que te comunicar. Dizias-me na tua
carta, que recebi ontem, que desejavas que eu saísse de Lisboa; pois
bem, ontem mesmo escrevi eu à minha família, dizendo-lhe que estava
resolvido a fazê-lo. E sabes para onde vou? Deixemo-nos de Setúbal
e de Abrantes; visto que me resolvi a expatriar-me (perdoe-me o
Porto oo ter experimentado ainda as tristezas do exílio), faço um
sacrifício um pouco maior, imprimo à minha irresolução um solavanco
de mais força e vou para a Madeira. Istoo é motivado por agrava-
ção de incómodo, pelo contrário, acho-me melhor e o Dr. May Figueira
que me examinou, foi em tudo de acordo com os colegas dai. Foi ele,
porém, o que me convenceu de que pouco lucrava em estar em Lisboa
e que, visto que procurava ares mais salutares, fosse para a Madeira.
A ideia figurou-se-me ao princípio uma aventesma; depois prin-
cipiei a voltá-la de todos os lados, a ponderar tudo que se me sugeria.
e acabei por me convencer de que o passo era naturalíssimo e racional.
A única dureza que lhe encontro é a despesa, queo é pequena;
mas para quem anda como euo desapegado ao dinheiro, o sacri-
fício de algumas economiaso é o mais custoso. Demais, eu estou
aqui vivendo caro e estupidamente há perto de um mês; e afinal estou
a ver que passava o tempo e eu entrava no Porto a tossir, coisa que me
seria muito desagradável.
Sabes o que completava admiravelmente o meu plano e me faria
adoptar este partido ainda com mais vontade do que o que adopto ? Era
se tivesse um companheiro como tu. Que belos dois meses passaría-
mos naquela ilha quase encantada, sentindo-nos convalescer do corpo
e do espírito! Também me lembro do Luso, que muito teria que explo-
rar por. Sinto, no caso de realizar como espero, a minha ida,o
possuir mais extensos conhecimentos de História Natural para poder
ser de algum préstimo ao nosso amigo. Em todo o caso diz-lhe tu, que
se me quiser dar algumas indicações ou fazer alguma incumbência,
muito desejaria servi-lo.
Antipatizo um pouco com a ideia de uma viagem marítima, porém,
o May disse-me que o mesmo abalo do enjoo me era útil.
Estou, pois, quase decidido. Sexta-feira parte o paquete. Talvez
que de hoje a oito dias já eu vá «longe, por esse azul dos vastos
mares, na solidão melancólica das águas» se bem me lembro ainda
dos versos de Garrett.
INÉDITOS E ESPARSOS
Sinto que teu pai seo resolvesse a ir para a Foz com o Moniz.
o será possível resolvê-lo ainda? Seria útil para ambos e para ti.
Em todo o caso, meu Passos, toma uma resolução. Sai dessa vida;
o te deixes outra vez dominar por os velhos hábitos que mais te
custarão depois a modificar.
Quando se venceu o primeiro esforçoo se deve parar. Eu por
mim o digo. Quantas vezes aí no Porto me falaram em ir à Madeira.
Nunca pensei a sério na proposta. Desde que venci a primeira bata-
lha e cheguei a Lisboa, achei a coisa natural.
Escrevi a meu primo para me mandar um dinheiro que aí tenho.
Lembrei-lhe o Cruz Coutinho para, por os seus correspondentes, me
fazer a remessa, mas se por qualquer motivo oo puder fazer é pro-
vável que meu primo te vá incomodar. Seo for isso custoso, obse-
queias-me aceitando a comissão.
Adeus. Recomenda-me a teu pai, ao Luso e ao Silva e escre-
vam-me, se alguma coisa quiserem da Madeira, até quinta ou sexta-
-feira, porque, se partir, parto neste último dia. Recebe um abraço
cordial do
Teu velho amigo
/. C. Gomes Coelho.
XXXII
Lisboa, 5 de Março de 1869.
Meu Passos
Quando receberes esta carta já eu irei por sobre as ondas,
aturdido e enjoado. O Nogueira Lima falou-me assustadoramente da
viagem por o vapor de África «Mau tratamento! mau cheiro! com-
panhia de degredados!» Aqui anda, decerto, a cor negra da paleta
do nosso amigo. Em todo o caso vou. Pouco cuidado dá o tratamento
a um homem que espera ir enjoado toda a viagem. Em quanto aos
degredados... às vezesoo os piores membros da sociedade os
indivíduos dessa classe. Li o que me dizes das tuas esperanças de
viver na Madeira. Facilmente as poderás realizar. Euo tanto; o
Estado exige a minha fixação no Porto. Ao ser que realize um fan-
tasioso projecto financeiro que ontem li em uma carta do Gramacho.
O Gramacho tem suas utopias. Falava-me em converter em ins-
crições a propriedade dos meus romances e em escrever depois um
por ano, para viver dois ou três anos seguidos na Madeira, com o fim
de alterar a minha organização e criar um temperamento novo. Como
ae, desde o momento em que me resolvesse a fazer da literatura modo
INÉDITOS E ESPARSOS
de vida eu, ipso facto, meo tornasse incapaz de escrever duas
linhas ?!
Contememo-nos com estas escapadelas que, no estado das coisas
no nosso pais, jáoo pequeno arrojo. O mais será o que Deus quiser.
o é amor ao Porto o que me prende. A minha família é cada
vez mais limitada. Seo fosse meu pai, talvez me resolvesse a dar
um golpe de estado desses que me atrairiam dos homens sensatos o
epíteto de pateta. Meu pai, porém, está hoje mais isolado que nunca.
Eu imagino o quanto lhe há-de ter custado a separação, a um tempo,
do filho e da neta. Basta que se diga que foi isso o que o obrigou a
vir a Lisboa, onde ontem me apareceu. Como lhe custaria se a minha
ausência fosse permanente!
Meu primo, um dos mais honrados caracteres que eu conheço,
e um dos meus mais dedicados amigos, sentiria também a minha
ausência; mas esse tem cedo uma compensação que lhe abrandaria
esse pesar. Em segredo te digo que ele arroja-se a resolver o pro-
blema que eu e tu há tanto tempo inutilmente discutimos. Para prin-
cípios de Abril casa com a irmã do Rodrigues de Freitas. É a pri-
meira loucura económica, que eu conheço em meu primo. Pelo lado
da poesia e sentimento é um casamento simpático.
Se ele tiver saúde confio ainda, que, graças aos hábitos de eco-
nomia de ambos os cônjuges, as finanças correrão menos mal.
Estes homens de carácter severom destas resoluções. Eu pen-
saria anos. Meu primo reso'.veu-se em meses.
Jás que deixo o Porto, quando o santo matrimónio me prin-
cipia a esvoaçar por casa. É agouro; dir-se-ia que fujo dele.
Ai tens quais as impressões, sob que parto. Vou recheado de
cartas de recomendação. Só por intervenção do Nogueira Lima recebi
três. Algumas ficam na carteira.
Adeus, recebe um abraço que, com a mais sincera afeição, te
dá o teu velho amigo
Coelho.
P. S. Escreve-me por os vapores que tocam na Madeira e reco-
menda-me ao Luso, Silva, Albuquerque e a teu pai.
XXXIII
Funchal, 19 de Março de 1869
Meu Passos
Estou finalmente na Madeira e arrependido de ter gasto, quase
inutilmente, ums em Lisboa.
INÉDITOS E ESPARSOS
A viagem foi excelente na opinião de todos quantos vinham a
bordo; ao que eu somente observo: «Que faria se fosse mál»
Decididamente o maro é o meu elemento; perdoem-me os nave-
gadores, nossos avós. O surpreendente eo gabado espectáculo, que
se goza do convés de um navio, quando nada mais se avista além do
u e mar, achei-o monótono. O mar parecia-me até menos majestoso
e o horizonte mais limitado do que quando os observo das praias, o
que julgo explicável por uma lei óptica. É verdade que eu trazia a
cabeça atordoada, e ia de mau humor, e só por um esforço de filosófica
curiosidade é que pude erguer-me por um momento do beliche para
contemplar o padre Oceano.
Quando no dia seguinte repetia o esforço, figurava-se-me estar
ainda no mesmo sítio da véspera, o que me fazia o efeito de um longo
diálogo no teatro, que nos obriga a dizer muito baixo para o nosso
vizinho: «não é feio, mas já era bem bom que acabasse».
Graças a esta indisposição de ânimo com que ia contra o líquido
elemento, foi com verdadeiro prazer que, na manhã do dia 8, me achei
à vista da formosíssima ilha da Madeira.
Sossega,o tenho a presunção de te descrever a ilha, que já é
como Paris, uma coisa que seo descreve. Deixa-me, porém, dizer-te
que o campoo me fez esquecer o Minho ainda.
A vegetaçãoo é aqui mais abundante, o que é, é mais variada
porque reúne a flora dos climas quentes. Isto é o que lhe dá um aspecto
novo paras e que me agrada imenso. As casas de campo, num gosto
inglês, com os mais bonitos jardins que eu tenho visto, descobrindo-se
por entre plantações de cana e adornadas por altas palmeiras, bana-
neiras e outras árvores tropicais,o de um efeito surpreendente.
Para viver bem na Madeira é preciso viver num desses cottages,
porque a cidade é feiíssima.
Há dias estive numa dessas pequenas quintas, a melhor das
imediações.
Pertence a um inglês chamado Dário, que tem a coragem de
viver em Málaga.
o ta sei descrever. Só te digo que, ao sair de, parecia-me
que acordava de um sonho.
Como, bebo e, se aindao estou livre da tosse, sinto-me mais
forte e bem disposto. Nos dois meses que tenho ainda para me demo-
rar aqui, espero restabelecer-me.
O que eu desejava era voltar para o Inverno, mas alugando uma
dessas casas de campo que por aí vejo. Dizem-me que a coisa é muito
realizável, porque a vida aqui é barata e, sobretudo, se duas pessoas
viverem juntas, mais suave lhes fica.
Vê portanto se te vais resolvendo, porque nesse caso volto deci-
didamente.
Aindao vi o Barão, que sei que, para Maio, vai para Portugal,
tendo eu assim o gosto de o ter por companheiro de viagem. A esta-
INÉDITOS E ESPARSOS
ção está ainda pouco adiantada para permitir passeios ao sertão, por
isso aindao vi o interior da ilha.
Nada ainda pude obter para o Luso em resultado disso. Além
de que a Madeira estáo explorada, que se me metesse a arranjar
alguma coisa, arriscava-me a ir carregado de muitas ninharias.
O Dr. Lowe e sua esposa por aqui andam. É a mais perfeita cari-
catura inglesa que tenho visto este erudito par. A mulher sobretudo
é indescritível.
Qualquer dia vou ver o grande til de que me falaste. Dizem-me
que, a catorze léguas da cidade, há árvores que se julgam do tempo
do descobrimento da Madeira e que, em certos vales,m aparecido
troncos carbonizados do incêndio dessa época. Desejava muito ver
isso, mas a viagemo é cómoda, ainda que se vá de rede, que e
aqui o meio de transporte usual.
Adeus. Recomenda-me ao Luso, Silva e Albuquerque eo te
esqueças de me escrever no paquete de 5 ou de 15 pelo menos.
Manda-me notícias de teu pai.
Teu do coração
Coelho.
XXXIV
Funchal, 18 de Abril de 1869.
Meu caro Passos
Dizes-me tu na tua carta, que se esta ilha pertencesse aos Ingle-
ses, os meios de comunicação com a metrópoleo seriamo escassos
como os ques temos daqui para Portugal; sabe pois que os nossos
caros aliadoso esperaram que lhes pertencesse a ilha para multi-
plicarem o número de vasos que a frequentam. Em quanto nós, os Por-
tugueses, só sabemos noticias dos nossos duas vezes no mês, a colónia
inglesa daqui tem-nas de Inglaterra quase de oito em oito dias, e, às
vezes, com intervalos mais curtos. A cada momento fundeiam na baía
do Funchal vapores ingleses, ou de guerra ou mercantes, que andam
na carreira de África eo para o Cabo da Boa Esperança, ou de lá
voltam.
Causam-me inveja aqueles diabos, que a cada momento me apa-
recem nas ruas a lerem a correspondência que receberam. Porque
devo dizer-te que o momento de maior prazer que experimento aqui
é quando recebo cartas de Portugal.o fazes ideia o que é ver cor-
rer quinze dias sem saber o que terá acontecido àqueles a quem nos
liga a amizade, e, no fim deles, ouvir dizer que está fundeado o vapor
INÉDITOS E ESPARSOS
que nos traz essas noticias. Esse dia é um dia perdido para tudo que
o seja esperar pela distribuição das cartas, lê-las e relê-las. Eu
quase fico com febre quando chega a noite;o exagero. Sucedeu-me
isso no dia 8 deste mês, quando recebi 10 cartas do Porto.
A vida que passo aqui é altamente monótona. Tenho adquirido
alguns conhecimentos, maso me satisfazem. Euo tenho a quali-
dade, que admiro em certa gente, de apreciar a convivência, sejam
quais forem as pessoas com quem convivem; para mim só é real-
mente agradável a convivência com pessoas muito íntimas, com quem
se esteja à vontade e despido de tudo que se pareça com etiqueta.
Outra qualquer fatiga-me. Jás pois que hei-de andar por aqui
quase sempre fatigado.
Causa estranheza o euo frequentar, aos domingos de tarde,
o Passeio Público, onde toca a música e vai toda a sociedade elegante
da terra. Mas eu prefiro ficar em casa ou passear para fora da cidade
. O passeio é um largo plantado de árvores, metido entre casas
pouco elegantes, e com um aspecto triste a que ainda meo pude
costumar!
Por isso tenho também saudades dos nossos cavacos, dos nossos
passeios, e dos nossos passatempos, a meu ver, únicos no seu género,
Se tu aqui estivesses poderíamos passar então alguns dias agra
dáveis.
Eu estou assim meio resolvido a vir passar aqui o Inverno pró-
ximo. Se então se modificassem as circunstâncias da tua vida, que hoje
te prendem ao Porto, e me acompanhasses, talvez se pudesse arranjar
uma casinha nas proximidades da cidade e aí rusticaríamos, longe
das conversas sobre a política, que até aqui me perseguem.
Que praga! Atravessar o mar numa viagem de três dias e,
quando se espera estar longe dos questionantes de política de fre-
guesia, vir encontrar exactamente o mesmo aqui! Maçam-me com as
probabilidades de vitória do Lampreia contra o Agostinho de Orneias,
morgado do Caniço; com as cartas do centro ao Bispo e do Bispo ao
centro, e isto desde pela manhã ate à noite. Eu, às vezes, olho para
as ilhas Desertas, que me ficam fronteiras, três enormes rochedos,
onde ninguém habita, e apetece-me viver ali parao ouvir falar
em eleições e deputados.
A estas horas devem estar decididos os destinos políticos da
nossa terra. Ouvi dizer aqui que o Aires se propunha outra vez. Cairia
nessa?
O Porto está eminentemente casamenteiro. Neste paquete che-
garam-me muitas novas matrimoniais. O José Carlos mandou-me dois
cartões a dar parte do seu casamento. Meu primo noticiava-me que o
dele se efectuaria a 5 de Abril e, no mesmo dia, tinha lugar o do Albu-
querque !
Caiu pois aquele colosso que eu julgava inabalável! Baqueou
uma das mais seguras colunas do celibato! A nossa tripeça descambou
INÉDITOS E ESPARSOS
por o pé mais sólido! Afinal ninguém pode reputar-se imune. Que
destinos nos reservarão os fados?
Eu, quando penso nas soluções queo dando a este grande
problema da vida os nossos amigos, perco-me em longas medi-
tações.
Veio-me ter aqui uma carta que o... me escreveu para Lisboa.
Entre outras coisas, dá-me parte de que tem uma filha, por quem é
doido. Isto sem que me fale nae nem no casamento!
Triste consequência lógica da esquisita posição em que ele se
colocou.
Sabes tu que, pensando nisto, me pareceu que ae há-de ser
mais prejudicada do que favorecida pela existência da filha, no con-
ceito do nosso amigo? Quanto mais amor ele tiver à criança, mais
custoso lhe será pensar que dae venha para ela alguma mancha
que a sociedade tem sempre cuidado de notar.
Fiquei numa posição pior do que estava para com o... depois
desta carta. Se ele meo fala na mulher, como posso eu falar-lhe
nela?... Seo falo,o é o mesmo que uma triste declaração de
que acho o assunto espinhoso? Se eu tivesse descaro bastante e
menos consideração pelo... fingir-me-ia admirado e pedir-lhe-ia expli-
cações sobre o nascimento da criança. Era o que naturalmente faria
se a nova realmente me tivesse surpreendido. Mas repugna-me este
jogo de comédia.
Assim pois dei-lhe os parabéns pela existência da filha e guar-
dei descrição a respeito de assuntos correlativos.
Escrevo ao Luso neste mesmo paquete. As razões por que oo
fizera antes digo-lhas na carta eo as verdadeiras. Eu sei que o Luso
o é muito amigo de maçadas epistolares e receei servir-lhe de
incómodo, escrevendo-lhe. Mas uma cartao é coisa que seo
vença e por isso sempre lhe destinei uma folha de papel.
Deu-me cuidado o que me dizes do Eugénio. Participa-me o mais
que vieres a saber.
Espero receber melhores notícias a teu respeito e de teu pai,
cujo incómodo confio diminuirá com o melhor tempo. O frio que me
dizem ter feito, é, decerto, a causa principal dos teus incómodos
e dos dele.
Agradou-me o que me dizes das impressões que te causou a.
leitura da «Morgadinha»;o por me convencer de que ela tenha o
merecimento que a tua amizade lhe ache; mas por isso mesmo que
vi na ilusão uma prova dessa amizade.
O Júlio de Castilho escreveu-me. Diz-me que o pai está com
um antraz e que, nos intervalos das suas dores só tem querido ouvir
ler o meu romance. Depois passa a levar o livro ao sétimo céu;
mas temendo que, deixando-me lá, eu me despenhasse, põe-me,
com muito jeitinho cá em baixo, dizendo-me a medo que o romance,
dos dois terços para diante, tem acumulações de episódios, precipi-
tacões, confusão, faltas de perspectiva e que eu devo reformá-lo
para outra vez.
Adeus. Escreve-me e Deus queira que mes boas novas a teu
respeito e de teu pai, a quem me recomendo.
Teu do coração
Coelho.
Parece-me queo te disse que vou melhor.o tenho tempo
de verificar e por isso o digo aqui.
XXXV
Funchal, 5 de Maio de 1869.
Meu Passos
Remeto-te a minha vera efígie tirada pelo sol de África. Por ela
verás que a doençao me transfigurou demasiadamente o físico; em
quanto ao moral, parece-me que alguma mudança houve. O sorumba-
tismo aumentou consideravelmente.
Estamos nos de Maio, no fim do qual tenciono voltar ao
Porto. A minha cara pátria reclama-me e eu obedeço à reclamação
ainda queo de todo em todo tranquilo de espírito. Vou firme-
mente resolvido a voltar no Inverno e demorar-me aqui talvez seis
meses. Veremos se as delicias dessa Cápua me obrigam a mudar
de tenção. O que te digo é que a humanidade é a coisa mais monó-
tona que. Eu imaginava que a ilha da Madeira teria costumes
novos para mim; que haveria nesta sociedade uma feição especial.
Nada disso; os mesmos cavacos políticos nas praças, as mesmas
cerimónias nas salas de partidas, as mesmas bisbilhotices nas lojas,
onde se reúne a élite funchalense. É o Porto sem tirar nem pôr,
com a única diferença de se entrar ainda mais pelo Intimo das
casas para assoalhar o que por lá vai.
Uma noite houve aqui um baile em casa de um morgado. Os
morgados andam por cá a rodo. Pois ao almoço do dia seguinte eu
sabia das minhas patroas, que aliáso tinham lá ido, as mínimas
particularidades da soirée. As informações distribuem-se aqui às
horas do leite e doo quente.
A natureza compensa as impertinências desta sociedade. Mas
o é fácil a um doente passear no campo. Passeios a péo impra-
ticáveis, graças às pavorosas subidas que por toda a parte se encon-
INEDITOS E ESPARSOS
tram. A redeo éo cómoda como parece; os carros sem rodas
o podem vencer todos os caminhos. Depois um homem habitua-se,
como ai no Porto, a dar todos os dias a mesma volta e acabou-se.
Outra impertinência do Funchal é a conversa forçada em doen-
ças do peito. Todos os dias os doentes se encontram nas ruas e
informam-se reciprocamente de quanto tossiram, de como passaram
a noite, da maior ou menor pressão que sentem, e de mil peque-
nas coisas a que os doenteso importância.o há meio de fugir
disto.
Apesar de tudo. eu devo ser grato a este clima, que, se meo
curou de todo, deu-me mais vigor e mais resolução. Conto voltar a 20
de Maio, e conto voltar melhor. Estou ansioso por te ver e abraçar,
assim como ao Luso, Silva e todos com quem me entendo. Adeus, ate
então. Espero carta tua no vapor de 5 e que mes boas informações
a teu respeito e de teu pai, a quem me recomendo.
Teu do coração
Coelho.
XXXVI
Lisboa, 23 de Maio de 1869.
Meu Passos
Voltei da Madeira. Estou em Lisboa, onde tenciono demorar-me
alguns dias para descansar da viagem e para me afazer aos ares do
continente. Por toda esta semana conto, porém, estar no Porto.
Meu pai veio esperar-me e eu,o só para acompanhá-lo, como
porque me tarda ver alguns amigos de que há tanto vivo separado,
queria seguir com ele para, mas foram gerais as recomendações
para que me demorasse e euo quis tentar a providência ou a
física.
Volto melhor, mas volto com tenções de me expatriar de novo
no Inverno; ainda que me assusta a ideia da viagem marítima, de
enjoativa memória. Decididamente o mar foi feito para os peixes e
quejandos, e quanto às focaso podem servir de regra aos mamí-
feros deste mundo.
As condições desta última viagem foram memoráveis.
Acrescia ao incómodo próprio a circunstância de ir cercado
de poitrinaires, sete em número, que formavam um concerto de
catarros e de tosse admirável!
Estou com vontade de cortar a viagem para o Porto em duas.
INÉDITOS E ESPARSOS
Hesito onde pararei. Se tu tivesses ocasião de dar uma passeata
algures, podias tirar-me desta hesitação. Que dizes?
Adeus, até breve; faz-me lembrado do Luso, a quemo perdoo
oo me ter escrito para a Madeira, recomendando-me igualmente
ao Silva e a teu pai, cujas melhoras muito estimei e dispõe do
Teu velho e sincero amigo
Coelho.
P. S. Tencionava escrever ao Nogueira Lima,o tenho, porém,
actualmente papel à mão. Portanto junto às mais recomendações outras
para ele.
XXXVII
Lisboa, 27 de Maio de 1869.
Passos
Em suplemento ao telegrama que te mandei e cuja resposta
acabo de receber, escrevo-te para te dizer que ainda queo saiba
quaiso as vossas tenções relativas à demora em Coimbra eu, de ante-
mão, aprovo tudo quanto resolveres. O que peço é que depois de cal-
culares o dia que estaremos no Porto, mandes disso aviso a minha casa.
Adeus. Recomenda-me ao Luso, Silva, Nogueira Lima e aceita
recomendações do Soromenho e Basto (João).
Teu amigo do coração
Coelho.
XXXVIII
S. Salvador de Fânzeres, 24 de Agosto de 1869. (Residência
paroquial).
Meu caro Passos
O Luso tem novamente sido ameaçado de dores de queixos e,
por isso, pede que lhe mandes doze papéis de sulfato, como os de
costume.
.
INÉDITOS E ESPARSOS
Eu também, ao acordar, fui mimoseado com um leve incómodo,
para meo esquecer de que sou doente, como às vezes estou pró-
ximo a convencer-me. Por isso e por a trovoada matinal, gorou-se a
projectada pescaria e limitou-se o divertimento do dia a simples
passeio campestre.o tenho remédio, parao desconsiderar de
todo em todo a medicina, em que cada vez creio menos, senão
esfregar-me com alguma coisa que me evite a repetição da pouco
agradável surpresa de ontem; por isso peço-te que me mandes uma
porção de óleo de cróton. O meu estado de espíritoo é mau;
digo-te com sinceridade. Já me vou costumando ãs peripécias da
minha doença; aceito-as como factos habituais. O nosso bom abade
continua aflito com o calor, desconfiado com a política moderna, e
preocupado com a engorda dos seus porcos. Pede-me ele que tu
lhe mandes comprar um rol para a roupa da lavadeira, desses que
m os objectos pintados, para suprir a falta de ciência das letras
de Clemência; quer também umao de papel fino para cartas e
um maço de envelopes.
Adeus. Visitas ao Eugénio, que espero que tenha menos pressa
de deixar o Porto.
Recomenda-me a teu pai, que estimarei saber que experimenta
melhoras.
Teu do coração
Coelho.
XXXIX
Lisboa, 14 de Outubro de 1869.
Meu Passos
Para ter jus a uma carta tua no primeiro paquete que partir
para a Madeira, vou escrever-te uma pequena carta. A minha jornada
feita debaixo de um calor insuportável, ainda que principiada sob um
nevoeiro de cortar à faca, acabou por afinar o meu defluxo, que
tomou as sérias proporções de uma constipação. Felizmente uma
noite bem passada apressou o período da cocção e por isso estou
mais aliviado.
Parto efectivamente sexta-feira às 8 horas da manhã. Conto
que o vómito marítimo deve fazer-me bem ao estômago, que anda
avesso à comida e a simpatizar com as teorias alimentícias do nosso
amigo Luso.
O Soromenho é o mesmo homem. Traz atrancada na garganta a
questão Barata e já por causa dela escreveu para França, Itália e
Alemanha.
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
Vi o Ramalho Ortigão na Biblioteca da Academia. Correu para
mim com os braços abertos e com uma expansão de me deixar sensi-
bilizado. Achei-o adoentado; mais magro e sem cor. Leu diante de
mim e do Soromenho o original de um folhetim sobre o Fr. Caetano
Brandão, em que dá no Gaio de uma maneira desapiedada e naquele
estilo irritante com que ele costuma escrever as suas descomposturas
literárias. Se o folhetim se publicar temos provavelmente polémica lite-
rária, como a do D. Jaime.
Quero ver se vou hoje ver o drama.
O João Basto e Soromenho recomendam-se-te muito.
Espero que tenhas passado melhor, assim como teu pai. Reco-
menda-me ao Luso, Silva e Albuquerque e dispõe do
Teu amigo do coração
Coelho.
XL
Funchal, 19 de Outubro de 1869.
Meu Passos
Cheguei ao Funchal na manhã de domingo, depois de 48 horas
de uma excelente viagem. Paguei ao mar o meu tributo no primeiro
dia, mas em seguida, fiquei fino e fui até jantar e almoçar à mesa com
os mais companheiros. O tempo aqui vai magnífico. É um gosto abrir
pela manhã a janela a este ar. Tenho muito boas esperanças de me
aborrecer o melhor possível nesta boa terra.
Durante a viagem assisti a uma das mais graciosas cenas cómi-
cas que tenho presenciado. Eram onze horas da noite e travou-se
entre o Barão de Castelo de Paiva e um alemão, que é administrador
da Casa dos Orneias na Madeira, um diálogo cómico, sobre frenolo-
gia, metafísica e teologia, no que, para complemento da obra, interveio
o Conde de Sabugal, que é o tipo de doidivanas mais bem acentuado
que se pode conceber. Foi soberbo. O alemão, com a ingenuidade da
sua nação, dizia ao Barão queo lhe leria os Novíssimos por coisa
alguma deste mundo; o Barão retorquia-lhe que talvez lucrasse com
a leitura; o alemão dizia-lhe que um homem, que estudou medicina e
história natural,o podia escrever coisa que prestasse em teologia.
O Barão alegou sete ou oito anos de estudo que lhe absorveram os
Novíssimos. O Conde de Sabugal perguntou-lhe o que queria dizer
Novíssimos; o Barão, tomando a coisa a sério, principiou a explica.-
INÉDITOS E ESPARSOS
dizendo, que o primeiro era a morte, fim necessário do homem. Acudiu
o alemão, perguntando se tinha levado oito anos a fazer aquela des-
coberta. O Barão zangou-se. Depois,o sei já como, formulou o Barão
a proposição de que Deus dá a todos um bocadinho de juízo, mas que
os homens fazem mau uso dele. O alemão contestou falando em tempe-
ramentos e frenologia; o Barão, espinhado, advertiu-o de que estava em
frente de um homem que sabia anatomia e acreditava em Deus. Nisto
entra de novo o Conde de Sabugal na câmara e o Barão recorre a este
e pergunta-lhe seo concordava em que Deus tinha dado a toda a
gente um bocadinho de juizo? Como é isso? respondeu-lhe o Conde,
então V. Ex.* suprime assim de repente os idiotas deste mundo?
O Barão ficou embatucado.
Finalmente o diálogo podia ser todo transcrito que ficava per-
feito para uma comédia.
É esta a principal impressão da minha viagem, por isso ta des-
crevo. O maiso tem crónica possível.
Vamos andando de saúde. Recomenda-me ao Luso, Silva e Albu-
querque.
Escreve-me no paquete de 5 de Abril e manda-me dizer como
estás e como está teu pai, a quem me recomendarás.
Teu amigo do coração
Coelho.
XLI
Funchal, 19 de Novembro de 1869.
Meu caro Passos
o preciso dizer-te a impressão dolorosa que me causou a tua
carta. Antes de a abrir já conhecia a triste notícia que ela continha, e a
sua leitura acabou de me magoar, por o profundo e justificado desa-
lento que denunciava em ti.
Pela primeira vez faltei a teu lado nesses dias de luto, por que
tantas vezes temos passado. Senti-o; parecia-me que a minha presença
te poderia ser de algum alívio, porque para ti eu sou daqueles diante
de quem se chora e seo procura reprimir a dor. Duas coisas me
preocuparam, depois que soube esta triste notícia; pensava no que
devias estar sofrendo, e acredita que, infelizmente,o me é difícil
compreender toda a intensidade dos teus desgostos, e pensava também
na resolução que tomarias agora. Por o vapor de 25o recebi noti-
cias a teu respeito.
INÉDITOS E ESPARSOS
Persiste, pois, para mim, a ansiedade neste ponto. Euo ouso
hoje dar conselhos, porque achoo incertos todos os caminhos no
mundo, queo sei qual se deva aconselhar. Contudo, a tua vida tem
sido até hoje uma sequência de sacrifícios realizados com a maior
abnegação.
É tempo de viveres para ti. O coração jáo te impõe deveres;
ainda mesmo quando pudesses ser egoísta, já ninguém tinha direito
de to estranhar. Tinhas obtido bem caro o direito de o ser. Maso
está no teu carácter iro longe e receio até que fiques muito aquém
do que exigem de ti a saúde do corpo e a tranquilidade do espírito.
Acredita que temo deveras que o desalento nem te.deixe lutar
contra a espécie de fatalidade que te tem perseguido. Toma uma reso-
lução, rompe o circulo em que tens vivido, adquire hábitos novos.
É urna necessidade urgente para ti. Deus queira que a realizes.
Se teo custar, escreve-me informando-me da tua resolução.
Infelizmente só a 8 de Dezembro posso ter notícias tuas !
Vê se, para então, me podes escrever. Se te der prazer desaba-
far com um velho amigo, escreve-me uma longa carta; se, pelo con-
trário, aindao tiveres ânimo para isso, duas linhas apenas. De qual-
quer das maneiras satisfarei a ansiedade em que fico poro longo
espaço de tempo.
Adeus, meu Passos; recebe de longe o mais sentido abraço do
Teu amigo do coração
Coelho.
XLII
Funchal, 19 de Dezembro de 1869.
Meu Passos
Comoveu-me maso me surpreendeu a tua carta de 3 de
Dezembro.
A nossa velha amizade permite-me já prever, até certo ponto,
qual a tua maneira de sentir e de pensar em dadas situações
da vida.
Antes que me escrevesses, tinha eu pensado muita vez em ti,
nas muitas horas em que estou comigo e com a lembrança dos amigos
ausentes, e eram aquelas mesmas palavras as que se me figurava
escutar da tua boca, quando, pela imaginação me transportava ai, ao
teu lado, a prestar-te o único e bem pouco valioso serviço que um
amigo pode prestar em casos tais, o de abrir o coração às expansões
do coração que sofre e de as. colher com sincera simpatia.
INÉDITOS E ESPARSOS
Pedes-me desculpa de haver talvez com as tuas palavras ferido
as minhas crenças.o feriste.
Eu, meu Passos,o quero blasonar de céptico, porque creio
até que oo sou. É certo, porém, queo possuo tais eo melin-
drosas crenças, que as tuas palavras pudessem assustar. Tenho às
vezes, sondando-me com o firme intento de me conhecer, chegado
quase a acreditar que estou vivendo em uma santa ilusão, supondo-me
menos céptico do que outros que oo mais manifestamente. Desvio,
porém, sempre que posso, o espirito destas sondagens, porque pre-
firo iludir-me e ignorar o que lá vai no fundo. Dai vem oo me cho-
carem as expressões de desalento ou descrença dos outros, e muito
menos quandoo fortes motivos há para elas, como os que tens.
Pedes-me que te fale de mim. Pouco tenho que dizer-te. Vou
vivendo. A Madeirao reserva para mim um daqueles milagres,
cuja tradição passa de família para família e se perpetua através dos
séculos.o passo mal, porém nunca livre de achaques. Nos hábitos
monótonos da minha vida actual encontro certo prazer, porqueo
me tentam já as emoções das vidas agitadas. Esta separação em que
estou do mundo quadra-se bastante com as exigências do meu espí-
rito. A ideia de ter de voltar um dia a ocupar o meu lugar na socie-
dade é que me aparece já sob um aspectoo estranho, queo posso
conformar-me com ela.o sei o que terá de suceder, mas, se esti-
ver destinado para me demorar mais anos cá neste mundo, muito
singular terá de ser a minha vida, porque o ano que está a findar
tirou-me a aptidão para viver como vivia até àquela época.
Tenho tentado escrever, para me distrair. Enfada-me, porém,
agora, em pouco tempo, a tarefa que dantes tanto me entretinha. Isto
é mal que seo cura.
Peço-te que me escrevas quando possas. Dá-me parte das reso-
luções que tomares e de tudo o que te disser respeito, na certeza de
que tudo imensamente me interessa.
Disse-me meu primo que estavas meio resolvido a ires viver
algum tempo no campo. Quando maiso seja, senão para atenderes
à tua saúde, acho que farias bem se fosses.'
Adeus, meu Passos,o escrevo mais,o só porque estou can-
sado, mas porque talvez já vá longa de mais esta carta para a justi-
ficada impaciência do teu espírito. Crê-me sempre
Teu amigo do coração
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
XLIII
Funchal, 19 de Janeiro de 1870.
Meu caro Passos
o passados três meses depois que estou nesta terra, onde
duas vezes, no decurso de um ano, mem trazido os caprichos
da sorte.
Quero acreditar que a minha saúde aproveitou com isso e que
só por uma impertinente exigência de valetudinário é que eu ainda
murmuro pelo pouco que obtive. Tenho diante de mim três ou quatro
meses mais, para me saturar bem da monotonia deste viver e habi-
litar-me até a achar o Porto divertido, qualidade que há muitoo
tenho o gosto de conhecer-lhe. Por enquanto tenho saudades dos
parentes e dos amigos maso as tenho do Porto. Se me fosse dado
escolher, preferia trazer para aqui as pessoas que meo caras a ir
eu para ai viver com elas.
Que me perdoe o berço de muralhas este desapego de filho.
Uma outra coisa pela qual sinto ter esfriado muito em mim o entu-
siasmo, é o professorado. A augusta missão oferece-me poucos atrac-
tivos, desde que a minha saúdeo me permite entregar-me a ela
como deve ser. Professor para traduzir compêndios e marcar lições
a dedo,o tenho vontade de ser. Confesso-te que, se nessas vira-
voltas de serviço público e reformas que por aí vão, eu pudesse apro-
veitar ensejo para dizer adeus ao Porto e à toga,o o deixava fugir.
Tu, que me pareceo te expatriarias com muito maior repug-
nância, lutas ainda com certa irresolução que aliás concebo muito bem.
Digam o que disserem,o é somente a velhice que é escrava dos
hábitos;s todos o somos e em todas as idades. Eu tomaria mais
depressa o partido de abandonar o Porto, para sempre, depois de
estar já fora dele, do que se estivesse vivendo essa vida invariável e
fastidiosa que aí vivo. Em todo o caso, euo desespero de te ver
cortar por hesitações, principalmente depois que os banhos de mar
te obrigarem a mudar de hábitos e derem à vontade aquela espécie
de tensão elástica, que o monótono viver da cidade parece tirar-lhe.
E eu que farei? Que farei no Verão? Que farei no Inverno
seguinte?o sei;o posso saber, porqueo conto já comigo e
portantoo formulo projectos. Veremos. A falar a verdade eu sou
o inimigo do frio, que me há-de custar a prescindir na época dele
do benefício desta ilha, onde, devo dizer, apesar do Inverno relati-
vamente desfavorável que tem feito este ano, aindao senti coisa
que em Portugal merecesse o nome de frio. Ponho-me à janela todas
as manhãs logo que me levanto, e, depois de almoçar, saio fora e vou
com a roupa que a! trouxe no Verão. Mas quem sabe os humores com
que eu estarei em Outubro futuro?
Deixa-me dizer-te que tenho escrito alguma coisa. Disse há pouco,
em uma carta que escrevi ao Nogueira Lima, que era esse o único
vício que tinha. E é assim. Há poucos momentos de mais felicidade
para mim hoje, do que aqueles em que me absorve a atenção a com-
posição de um romance. Consigo às vezes vero distintas as perso-
nagens que criei, que parece-me chegar quase a convencer-me de
que elas existem. E com essa gente dou-meo bem!
Francamente te confesso que o prazer que me causam os aplau-
sos do público, apesar deo ter a pretensiosa vaidade de dizer que
meo indiferentes, é inferior a este de que te falo. Para mim o dia
em que principio a perder o interesse por a gente que figura nos
meus livros é aquele em que os entrego ao público. Havia de suce-
der-me o mesmo se educasse uma filha, Procuraria casá-la bem, mas
o dia do casamento seria para mim o de um cruel desprestígio.
Tenho algumas esperanças, seo tiver por aí alguma macacoa,
de voltar ao Porto com um novo livro em bom andamento.
Alguma coisa há-de fazer quem nada faz. Agora deixa-me falar-te
de alguns amigos. Que é feito do Teixeira Pinto? Escrevi-lhe daqui,
o me deu resposta. Paciência. Ao Lusoo escrevo porqueo
precisa disso para ter notícias minhas e porque sei, por experiência,
queo fazia jus a uma carta dele. Ora para escrever sem recompensa
é que euo estou, porque às vezes há correios em que eu envio doze
e treze cartas e isso sempre tira tempo e cansa. Peço-te por isso que
me faças lembrado deste e do Silva. Já estive para escrever a este,
mas lembrei-me de que talvez a carta o vá encontrar em ocasião de
afazeres e lhe dê trabalho para responder-me. Recomenda-me também
ao Albuquerque, de quemo tenho tido notícias.
E tu, sempre que possas, escreve-me, porque sabes já que pou-
caso as cartas que espero mais ansiosamente e que leio com maior
prazer. Dezassete ou dezoito anos de inalterável amizade dão-me
direito a pedir que me dediques alguns momentos, escrevendo-me,
sem que forces o humor em que estiveres. Escreve-me como sentires.
Teu velho amigo do coração
Joaquim G. Gomes Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
XLIV
Funchal, 20 de Fevereiro de 1870.
Meu caro Passos
Escrevo-te debaixo de impressões pouco agradáveis. Desde o
dia 9 em que recebi a correspondência do Porto, até hoje, conspi-
raram-se variadas circunstâncias para me levarem o espírito àquele
grau de melancolia já de há muito meu conhecido. A noticia do fale-
cimento de minha tia abriu este triste período, queo sei quando
acabará.o podia ser indiferente aquele acontecimento, apesar de
esperado. Quandoo bastasse uma convivência de muitos anos
para me fazer sentir a falta daquela pobre senhora, a lembrança de
que, há justamente um ano, eu a via de dia e de noite ao lado do meu
leito, como incansável enfermeira, mal pensando em que mais cedo
seria vítima do que o doente que desveladamente tratava, essa lem-
brançao podia deixar de despertar-me as mais vivas saudades. Há
em todas as famílias umas modestas criaturas que vivem uma existên-
cia obscura no interior das casas e em ques mal pensamos, quando
temos saúde e andamos distraídos por os nossos projectos, mais ou
menos ambiciosos, ou sob o domínio de paixões, mais ou menos arden-
tes.o essas, porém, aquelas com quem afinal nos achamos, quando
caímos doentes e sentimos que, um por um, nos abandonam aqueles
projectos e se amortece o ardor daquelas paixões. Os benefícios que
então se recebem delaso de tal ordem, que seria uma ingratidão
esquecê-los, quando de novo volta a época de podermos prescindir
deles. Eu, pela minha parte,o os esqueço, porque aindao perdi
de vista esse período de provação que, mais tarde ou mais cedo, sei
que há-de voltar para mim.
A este motivo de verdadeiro pesar, sucedeu um outro. Um dos
meus companheiros de casa, que partira do Porto no mesmo dia em
que eu, e no mesmo dia aqui chegara, hospedando-se na mesma
casa, faleceu na madrugada do dia 12, depois de, por muitos dias,
nos apresentar o triste quadro de uma lenta destruição. Como deves
imaginar, esse acontecimentoo pôde ser impunemente apreciado
por quem, como eu, tem a imaginação naquela grande susceptibili-
dade que lhe dá a doença. O que é certo é que me tenho sentido
pior, a ponto de uma destas manhãs ter o desgosto de ver repro-
duzido um daqueles incómodos que de quando em quando me visi-
tam, aos quais aindao pude habituar-me completamente, Acho-me
já um pouco melhor, pelo menos fisicamente, porquanto o estado
do espírito é pouco satisfatório. O tempo que ultimamente aqui tem
feito concorre para me manter em tais disposições, obrigando-me,
INÉDITOS E ESPARSOS
por causa da muita chuva, a conservar-me em casa na mais estúpida
ociosidade.
Como é natural, nestas longas horas que vou consumindo sem
fazer nada, têm-me passado pela ideia os projectos mais extrava-
gantes. Felizmente, porém, a descrença que tenho de acertar com o
melhor caminho neste labirinto da vida traz-me em uma irresolução,
que meo deixar em prática nenhum daqueles projectos.
Fico por aqui porque nada mais te posso dizer, sem correr o
risco deo ter papel para escrever tudo o que penso.
Adeus, crê sempre na sincera amizade do
Teu velho amigo do coração
Joaquim G. G. Coelho.
XLV
Funchal, 20 de Março de 1870.
Meu caro Passos
Estarás doente? Há dois correios queo recebo notícias tuas
nem directas, nem indirectas. Com tais cores me pintam o Inverno
que ai tem feito que eu, sabendo o mal que tes com os rigores
dessa estação, algumas apreensões tenho sentido em vista do teu
silêncio. Espero, porém, que breve mas desvaneças. Aqui mesmo na
terra privilegiada do tempo ameno, tem sido este ano o Inverno incons-
tante e chuvoso, como em qualquer lugarejo menos benquisto de Deus.
Graças a essas inconstâncias apanhei um tremendo defluxo que há uma
semana me apoquenta deveras. Escrevo-te hoje constipado, malaca-
fento... Isto no dia em que me passa à porta a procissão dos Passos!
Aí já o povo soberano elegeu os seus representantes. O padre
Aireso foi feliz no Porto; em compensação, os povos de Tondela
simpatizaram com ele. Gostei que ele saísse... A comédia principia
agora. No Porto, o Sousa a pedir constituintes, de companhia com o
Rocha Pinto; o Guilherme Braga, a dirigir o movimento republicano,
o Vieira de Castro a pregar aos peixinhos, fornecem assuntos para
óperas cómicas, que é pena perderem-se. Pois a última do Bispo com
o Saldanha? Bem pode ir o Bispo cavars de burro que para mim
já ficou julgado.
Felizmente a literatura floresce.
O teatro nacional regenerou-se, dizem as gazetas; o T. de V.
escreve uma comédia por dia e descobriu o segredo de extrair um
drama daquela coisa que ele publicou intitulada As duas facadas.
O Gaio inventou a comédia alegórica; o Pinheiro Chagas escreveu a
Judia de que dizem ter o Herculano dito maravilhas, o queo obsta a
que o discípulo querido do mestre, escrevendo-me dela, lhe chamasse
uma Judiaria. O Luciano Cordeiro saiu-se com o seu livro de crítica
no qual se trata de tudo e se chama ao Garrett ignorante e pateta, ou
coisa que o valha. Leste este volume? Recomendo-te, sobretudo o
programa que vem no fim para anunciar o segundo volume da obra.
Está soberbo.
Adeus, fala-me de ti e recomenda-me ao Luso, Silva Albuquerque
e Nogueira Lima.
Teu velho amigo
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
A CUSTÓDIO PASSOS
(Inéditas)
XLVI
Funchal, 18 de Abril de 1870.
Meu caro Passos
Causou-me surpresa e prazer a resolução que tomaste de inter-
romperes a apatia de tua vida por uma excursão pela província.
Creio na eficácia do remédio para curar certos estados de corpo
e de espírito muito meus e teus conhecidos.
Quem poucos laços tem a prendê-lo a casa deve compensar a
falta de gozos domésticos usando, tanto quanto puder, da liberdade
que dolorosamente adquiriu.
Vê se insistes nesses novos hábitos queo podem deixar de
te serem salutares.
De tantos remédios que há tempos para cá eu tenho experimen-
tado, é esse o único em cujos efeitos curativos verdadeiramente creio.
A respeito de todos os outros, tenho o desconsolo de estar cada vez
mais céptico.
Os de Março atrasou algum tanto a marcha das minhas melho-
ras, graças a uma intensa constipação que me atacou. Achei-me no
ponto de partida e agora espero que o resto de Abril e parte de Maio
me façam recuperar o perdido.
Adeus, recomenda-me ao Luso, Silva. Albuquerque, etc, etc, e
crê na amizade
Do teu velho amigo
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
XLVII
Lisboa, Hotel Aliança, 22 de Maio de 1870.
Meu Passos
Cheguei a Lisboa; o João também veio... Eleo trouxe, ao que
me parece, gratas impressões da Madeira. Aquilo só serve para um
homem como eu aclimatado com o aborrecimento e que só aspira a
que o deixem aborrecer-se em paz.
Uma das coisas que me afina é a exclamação de certa gente que
o concebe que eu possa viver de certa forma. Ora é boa! Também
o concebo os mistérios do catolicismo e cá me vou conformando
com eles, segundo posso, isto é,o pensando nisso.'
Vim encontrar o Saldanha a salvar a Pátria! Soube-o ainda a bordo
em Belém...
Escreve-me para aqui, onde conto demorar-me oito dias a des-
cansar e a enfastiar-me de uma maneira diversa.
Adeus. Recomenda-me, etc, etc.
Teu do coração velho amigo
Coelho.
XLVIII
Lisboa, 27 de Maio de 1870.
Meu Passos
Parao perder a ocasião de te escrever pelo correio de hoje,
aproveito estas meias folhas de papel, único que tenho em casa.
O João partiu esta manhã; julgo que foi com tenção de visitar o
Buçaco, tencionando somente recolher ao Porto no fim da semana. Eu
marquei para dia da minha partida a segunda-feira, salvo se alguma
imperiosa circunstância me impedir. Desejo cortar a jornada para me
o maçar, mas aindao resolvi em que ponto lhe darei o corte, se
em Coimbra, se no Buçaco, ou se em Aveiro.
Se é certo que tencionas vir a alguma estação esperar-me, diz-me
aonde vens, para ver se isso me tira desta hesitação.
Por aqui, singular sintoma do estado do espírito público! está
tudo em calmaria. O povo assistiu ao golpe de estado do marechal
INÉDITOS E ESPARSOS
com a maior indiferença deste mundo. Cada qual continuou com o seu
modo de vida e com os seus hábitos de distracção como se nada fosse.
Os políticos, a quem esta espécie de Rocambole,o interminável
eo multiforme como o do colega Ponson, mandou sair da Câmara,
enchem o Passeio Público, onde fazem politica de todos os feitios.
O Diogo de Macedo é dos mais activos fabricantes.
Ontemo sei se haveria vivório em D. Maria por se representar a
D. Filipa de Vilhena. Que venham para cá os Espanhóis e verão o que vai.
Os homens pertencentes ao nosso grupo, o dos narizes torcidos,
cada vez os encontro mais dignos de pertencer-lhe.
O Soromenho já protestouo escrever mais em português e a
sua descrença de hoje já nem respeita uma certa individualidade, que
foi por muito tempo para ele impecável. Fiquei banzado quando falei
com ele e banzado continuo a andar com o que por aqui estou ouvindo.
Parece-me que chegou enfim o governo que vem cumprir aquele
programa do Junot e que até o Algarve terá o tal Camões, que se lhe
anda a prometer há tanto.
O Saldanha é homem para nomear um Camões para cada provín-
cia, e tendo por companheiros o Peniche e quejandos, o queo fara
Os homeopatas devem folgar porque chegou enfim a época de
verem elevada à altura de ciência oficial a sua geringonça médica,
que nos países sérios já está fora de discussão. As indulgências de
Romao chover sobres e o número de Sés, longe de se reduzir,
como queria o mação do J. Luciano, vai quadruplicar, para maior gló-
ria e esplendor dessa coisa complicada que se chama Igreja Católica,
Apostólica, Romana.
É de se exultar de prazer por ter vivido até este milagroso
ano de 1870.
Fico por aqui...
Teu do coração
Coelho.
XLIX
Vila Nova de Famalicão, 30 de Agosto de 1870.
Meu Passos
A minha vida aqui é, como podes imaginar, das mais regulares
e monótonas.
INÉDITOS E ESPARSOS
Levanto-me às 6 horas, tomo meio quartilho de leite, que é exce-
lente, saio e vou por qualquer das estradas que daqui partem até
encontrar uma quelha lateral que me tente. Interno-me nos campos e
ou subindo, ou descendo, sentando-me aqui, trepando acolá, gozo da
frescura da manhã e dos formosíssimos pontos de vista, que por estes
sítios abundam. Dá-se nestes meus passeios um incidente curioso.
Caminhando sempre em uma direcção, tenho a certeza de ir dar a
uma estrada; fico, porém, na dúvida, ao atingi-la, de que estrada seja
essa, e, desorientado,o sei que rumo siga para voltar à vila. ]á por
duas vezes enganado pelos meus cálculos ia em caminho de Guimarães
e de Barcelos e tive de retroceder depois de interrogar os raros tran-
seuntes que encontrava. e
Volto a casa às 9 horas para almoçar, tarefa de que me desem-
penho briosamente.
Iludo como posso o tempo até às 3 horas, durante o qual Febo
dardeja os seus raios abrasadores; compro papel, levo cartas ao cor-
reio, escrevo, leio, durmo, vou à botica buscar... águas minerais, etc, etc.
Às 3 janto, às 6 saio, às 8 recolho-me, às 9 tomo chá, às 10
deito-me, às 10 e um quarto durmo.
O meu principal conhecimento na vila é o criado Francisco, que
dá muito cavaco e que já se ofereceu para me apresentar ao filho do
patrão da casa—o Augusto cá de casa, como o criado lhe chama, a
fim de ele me apresentar na Assembleia. Essa apresentação na Assem-
bleia foi por mim sujeita ao exame de uma comissão de conveniên-
cias, a qual aindao apresentou o seu relatório.
Ao jantar abordei um brasileiro, que mastigava denodadamente
ao meu lado; principiou a conversa por o assunto vinhos e passou
daí a pouco para assuntos variados.
A loquacidade do homem desenvolveu-se e daí a pouco era eu
que ficava calado.
Adeus; vê se convences o Luso e o Eugénio a aparecerem e
resolve-te também a uma segunda excursão.
Teu amigo
Coelho.
L
Vila Nova de Famalicão, 1 de Setembro de 1870.
Meu Passos
Ontem foi aqui um dia divertido. Houve feira, a qual teve uma
feição política. Os Trovisqueiros tinham uma banda marcial, os con-
VOL. II 29
trários outra, qual delas a melhor. Um padre orou na rua contra os que
à última hora renegam a ditadura de que até aqui eram partidários.
Os garotos andavam em correrias a dar vivas ao Barão de Tro-
visqueira.
No meio disto tudo, o que tem mais graça é que depois da queda
da ditadura, todos se dizem representantes do governo actual.
À feira concorreu muita gente e algumas camponesas que jus-
tificavam o dito de Retzinski.
Estão sendo insuportáveis as noites. Toda a qualidade de barulho
impede um homem de dormir; ontem passei pessimamente. Deitei-me
constipado e febricitante e como se istoo bastasse, era a banda dos
Trovisqueiros, eram as diligências e carros que passavam, hóspedes
que chegavam, uma matilha completa, que traziam uns caçadores, a
ladrar no corredor, tudo ao me deixar sossegar.
A dona da casa já me ofereceu um quarto para dormir mais
longe do tumulto. É provável que me mude.
Esta dona de casa principiou a maçar-me depois que soube que
eu era facultativo, perguntando-me várias coisas a respeito dos seus
três pequenos e dela própria, perguntas a que respondi com aquela
convicção que me inspira a ciência de que sou sacerdote.
O meu sistema de vida continua a ser o mesmo.
Adeus. Dispõe de mim e crê na amizade do
Teu do coração
Coelho.
LI
Vila Nova de Famalicão, 8 de Setembro de 1870.
Meu Passos
Bastará de Vila Nova de Famalicão. Amanhã, 6.* feira, parto para
o Porto.
O tempo prega-me de quando em quando a peça de uma chuva
continuada e obriga-me a passar um dia inteiro na hospedaria. É de
mais até para a minha paciência.
o tenho ido mal por aqui; como e bebo regularmente. As
noticias estupendas do teatro da guerrao mem tirado o sono.
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
Ontem na cama ocorreu-me que afinal de contas o L. Napoleão,
se tivesse a precisa filosofia, devia dar-se por muito contente na sua
residência de Wilhelmhause, salvo erro, que dizem ser uma beleza
e que sem comparação deve ser preferível aos acampamentos em
Metz e Châlons. Quem me dera, no tal castelo, que bem me impor-
tava a mim com o império.
Tenho pena deo ouvir no More os comentários do B... a res-
peito dos últimos acontecimentos. A república salvará a França? Se
queres que te fale a verdade, acredito pouco naquelas repúblicas.
Falta lá o Vítor Hugo, mas aindao é tarde.
Veremos o que sai de toda esta trapalhada.
Vila Nova de Famalicão continua azafamada por causa dos seus
dois barões. Tenho pena deo ter visto essa boa gente a braços com
o patriótico empenho de salvar a pátria.
Adeus até breve. Estou ansioso porque resolvas o teu problema
para que possas gozar do sossego de que precisas. Espero que per-
sistas no intento que me manifestaste na tua carta.
Teu do coração
Coelho.
LII
Lisboa, 14 de Outubro de 1870.
Meu caro Passos
Cheguei a salvamento e estou com regular saúde. Como bem e
durmo menos mal.
Parto para a Madeira, amanhã de manhã.
Encontrei o S... Sabe hoje tantas anedotas pouco favoráveis ao
Herculano, como dantes sabia a favor dele. Que mundo este!
Ontem um literato da capital, o M. de... agarrou-me no Chiado,
encaixou-me em uma loja de tabacos e impingiu-me o enredo de um
drama em 5 actos, que anda meditando ! Fiquei esmagado. Há destes
sinistros em Lisboa. ,
Teu do coração
Coelho.
INÉDITOS E ESPARSOS
LIII
Funchal, 18 de Outubro de 1870.
Meu Passos
Cheguei a salvamento e com feliz viagem. Enjoei no primeiro dia.
Ca estou outra vez e preparado para sete meses de monotonia.
Sucedeu que a casa para onde tencionava ir fosse pequena para
um, quanto mais para dois!
Por isso vim, provisoriamente, para aquela em que tenho passado
os mais anos. Este provisoriamente transformar-se-á em permanente-
mente ? Pode ser; comigo e contigoo frequentes estas transformações
O pobre do padre Mendes está em deplorável estado. Parece-me
queo é este que volta a ver Portugal.
Aindao principiei a tirar das malas os livros e papelada. Estou
ansioso por o fazer porque é afinal com o que me acho e com o que
posso contar.
O tempo está magnífico. Reina aqui ainda o Verão. Queria ver aqui
o Luso a procurar fetos por estas fragas. Se tu e ele aqui estivessem
o pensaria tantas vezes nos sete meses que tenho defronte de mim.
E a tua vida já tomou nova feição? Mudaste de casa?o te
esqueças de me escrever pelo vapor de 5. Diz-me o que fazes e se já
abandonaram o passeio da Cordoaria e que outro lhe preferiram.
Protesto contra o costume de passar as tardes na loja do Rego.
É supremamente insípido. Aconselho-te ques herborizar para a Rua
Costa Cabral e que te ocupes em transformar o teu pequeno jardim
em uma espécie de jardim botânico. Aposto que passaria desaperce-
bido o Inverno, se o fizesses. Prepara-te com socos e meias de lã e
ânimo!
Teu velho amigo do coração
Coelho.
LIV
Funchal, 2 de Novembro de 1870.
Meu Passos
Aproveito a passagem do vapor de Africa para te escrever duas
linhas.
Vou passando como aí passava, dias melhores, dias piores;
impaciente com a falta de notícias e monotonia desta terra.
INÉDITOS E ESPARSOS
Estes primeiros quinze dias pareceram-me uma eternidade.
Li as confissões de Rousseau e o Cromwel de Vítor Hugo.
Perco-me em conjecturas sobre os resultados prováveis do cerco
de Paris e pergunto a mim mesmo se por acaso os vizinhos castelhanos
aindao passariam as fronteiras.
Está resumida a minha vida no Funchal.
Aguardo com impaciência que me informes de tudo. Faz-me
sempre lembrar ao Luso, Silva e Albuquerque se os vires.
Em que nova província da História Natural dirige agora o nosso
amigo Luso as suas sempre gloriosas campanhas?
Adeus, para outra vez serei mais extenso, sem, com certeza, ser
mais noticioso.
Teu amigo do coração
Coelho.
LV
Meu caro Passos
Depois do que me disseste nas tuas últimas cartas, aguardo com
impaciência aquela em que deves pronunciar o Consummatum est,
prenúncio, a meu ver, de um período de plácida felicidade na tua vida.
A inquietação febril em que há tanto tempo te tiveram as dúvidas
e hesitações do teu espírito acalmarão; essas apreensões de catástro-
fes, que te assombram, hão-de dissipar-se e tu acharás que eu tinha
razão ao dizer-te que o passo que, à força de muito pensar nele, nos
costumamos a considerar terrível,o merecia, afinal, o estupendo
conceito que dele fazíamos. É esta a minha convicção e por isso
desejo deveras saber de ti a boa nova de haveres enfim saído da
insustentável situação em que há muitos ambos temos vivido.
Souo desinteressado nisto que te digo, que contra minha con-
veniência falo.
O que será o Porto para mim depois que tu deres por terminada
a tua vida de rapaz, deves imaginá-lo bem tu que desde muitos anos
sabes qual o meu sistema de vida aí e quais os meus passatempos pre-
dilectos. Afasta, porém, da consideração esta ideia para insistir na
urgente necessidade que tens de mudar de hábitos de vida. O futuro
é de Deus, esse eterno Josué, como lhe chama com esquisito sainete
o nosso amigo Nogueira Lima na sua última poesia; mas tanto quanto
é dado a um homem prognosticá-lo, palpita-me que se teo pre-
para muito sombrio. Animo, pois!
Que te direi de mim? Eu vivo aqui no Inverno como mes aí
viver no Verão. A mesma saúde instável, o mesmo aborrecimento, a
mesma indiferença por quase tudo aquilo por que os homens se inte-
ressam. Leio e escrevo às vezes; passeio sempre que o tempo o con-
cede, mas a minha sensibilidade jáo é excitada pelos passeios do
Funchal. Para mim isto agora é já como o Porto.
Precisava de viver com quem me excitasse a arrancar-me destes
hábitos que contraí e me fizesse empreender excursões pelos campos.
A iniciativa, porém, das pessoas com quem mais trato regula por a
minha. Daqui resulta que vou vivendo morna e sornamente.
Este ano a Madeira é uma Babel. Todas as naçõesm aqui
os seus representantes. Há alemães que já adoeceram em conse-
quência das marchas forçadas dos generais de S. M. o Imperador da
Alemanha.
Morreu aqui um médico prussiano esfalfado pelo excessivo tra-
balho dos hospitais de sangue.
O Porto, segundo vejo das locais do Jornal do Porto, passa sem
novidade. Deus o conserve.
Funchal, 20 de Dezembro de 1870.
LVI
-
Funchal, 19 de Janeiro de 1871.
Meu caro Passos
Mais um golpe daqueles que eu e tu conhecemos. Mais uma
pessoa que desaparece do estreito círculo das que estimo deveras.
Quando daí vim, sabia que isto tinha de suceder durante a minha
ausência. O adeus que dei à minha pobre tia, sabia que era o último.
Sabia-o eu e ela também.o me iludiu a comoção e o silêncio com
que se despedia de mim; compreendi-a como se me dissesse tudo o
que tinha no pensamento. Mas tu bem sabes que estas coisas, embora
esperadas, nunca deixam de nos surpreender dolorosamente quando
sucedem. Em cada correio esperava a carta tarjada de preto de meu
primo a participar-me o falecimento dae dele, que o foi quase
minha, e apesar disso causou-me abalo, assim que esta manhã ma
vieram entregar, essa carta fatal.
Parece que nestes momentos morre ems uma infundada espe-
rança emo sei que milagre, que bem sabemos que seo dará.
Custa-me imenso esta perda. Desde a idade de quatro anos que
fiquei seme e nesta minha tia, única que foie também, encontrei
os mesmos extremos que tinha pelos seus próprios filhos. Isto me fez
querer-lhe um pouco mais que às outras, um pouco mais com afeição
de filho.
INÉDITOS E ESPARSOS
INÉDITOS E ESPARSOS
No intervalo de um ano morreram as minhas desveladas enfer-
meiras. Quem sabe se os cuidados que tiveram comigo concorreriam
para mais depressa sucumbirem!
Tu deves imaginar o efeito que produzem no meu espírito estes
sucessos. Sem esperança de um longo futuro, assusta-me a ideia de
sair desta vidao desprendido de afectos. Aqui na Madeira tenho
sido testemunha desse doloroso espectáculo de um homem que morre
longe de parentes e de amigos e tendo à cabeceira uma pessoa estra-
nha e indiferente. Deve ser desesperador. E cada vez estou mais con-
vencido de que essa sorte me está reservada. ' Desejava azedar o
espirito até ao ponto de essa ideia me ser indiferente. Ainda oo
consegui.
Perdoa-me esta carta. É quase um crime chamar-te o pensa-
mento para a beira de uns escuros abismos de onde espontaneamente
te aproximas mais vezes do que convinha à tua saúde e placidez de
espirito; mas experimentei nisto um certo alívio e confiei na tua ami-
zade para me perdoar.
Que mes notícias alegres na primeira carta que me escreve-
res é o que eu mais desejo, e que essas notícias te digam respeito.
Teu amigo do coração
Coelho.
P. S. Esquecia-me dizer-te que de saúde continuo passando
como passava aí no Verão.
LVII
Funchal, 26 de Fevereiro de 1871.
Meu Passos
o te escrevi no vapor passado e escrevo-te pouco neste por
um motivo: tenho estado bastante doente. O que foi nem eu sei bem.
Uma verdadeira tempestade nervosa que caiu sobre o meu organismo
e mos em completa anarquia. Serenada ela, depois das mais estu-
pendas metralhadas de medicina, ficou uma exacerbação do meu
catarro habitual e uma fraqueza devido à doença e ao tratamento, de
que espero sair comendo e passeando.
1
Faleceu oito meses depois, em 12 de Setembro de 1871, no Porto, rodeado de
parentes e de alguns amigos dos mais íntimos,
INÉDITOS E ESPARSOS
Por ora o apetiteo é o que precisava ser; mas vai desenvol-
vendo-se gradualmente.
Emagreci; quase me desconheço quando, ao pentear, me vejo.
Valham-me os meses de Março, Abril e Maio e a atmosfera desta ilha
para me reconduzirem ao estado anterior.
Escuso de te dizer qual teria sido o estado do meu espirito nesta
crise. Deves supô-lo.
Acho-me melhor depois que escrevi esta carta. Despeço-me
por aqui e mando-te com um abraço muitas e verdadeiras saudades.
Teu velho amigo
Coelho.
LVIII
Funchal, 19 de Abril de 1871.
Meu caro Passos
o te escrevi nos vapores passados porque, em parte mal
podia escrever e, em parte, porque entendi que era melhoro
carregar de sombras escuras os teus pensamentos, que eu já previa
estivessem sob a influência habitual e complexa que inclina à melan-
colia. Creio queo me enganei muito. Bom foi, pois, queo te
escrevesse e talvez bom seria que ainda desta vez seguisse o mesmo
exemplo.
O meu estado de saúde ia cada vez pior; sentia-me desfalecer
de dia para dia e jáo tinha coragem para me mirar a um espelho.
A ideia da dissolução orgânica aterra-me. Fiz um esforço; abracei uma
das únicas medidas que mem salvado. Mudei de residência. Deixei
o centro do Funchal, procurei um quarto em um hotel inglês nos subúr-
bios desta cidade e onde é mais fácil passear e gozar das vantagens
do campo.
Principiei a comer melhor, deitei-me ao vinho fraco e forte, à
cerveja, aos ovos e ao leite e consegui cor e mais força (que em
parte também é febre). Dizem-me que vou melhor e aplaudem-me
a resolução.
Agora, o reverso. Na aparência reconheço todas essas vantagens.
A tosse e expectoração continuam, porém; os intestinos estão capri-
chosos e de noite o calor e suoro me deixam. Respiro pior do que
respirava e canso às subidas.
Está empenhada a luta. Veremos o que resulta até 20 de Maio.
INÉDITOS E ESPARSOS
Estou com a resolução de aguardar tranquilamente o Outono em algum
buraco dos subúrbios do Porto. E seja o que Deus quiser.
Em fins de Maio conto ainda poder apertar nos braços os meus
amigos de quem nunca se esquece
O teu velho amigo do coração
Gomes Coelho.
LIX
Lisboa, 24 de Maio de 1871.
Meu Passos
Cheguei a Lisboa. Por toda esta semana espero abraçar-te no Porto.
Meu pai está aqui e como mostra desejos de ir comigo, é prová-
vel queo me demore. Vou pior do que vim, mas melhor do que
estive. De mal com o universo inteiro como nunca estive e resolvido
ao lutar mais tempo contra a força das coisas. Vou procurar um
buraco onde me meta a esperar pelo que Deus quiser que venha.
Adeus, até breve.
Teu do coração
Coelho.
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