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Assim passaram-se meses, sem que houvesse novidade. O Timóteo vivia
em muito boa paz com o Joaquim Paulista, que, tendo muito bom coração, nem de
leve cismava que seu camarada lhe guardasse ódio.
Um dia, porém, Joaquim Paulista teve ordem do comandante do
destacamento para marchar para a cidade de Goiás. Carolina, que era capaz do dar
a vida por ele, jurou que havia de acompanhá-lo. O Timóteo danou. Viu que não era
possível guardar para mais tarde o cumprimento de sua tenção danada, jurou que
ele havia de acabar desgraçado, mas que Joaquim Paulista e Carolina não haviam
de ir viver sossegados longe dele, e assim combinou, com outro camarada, tão bom
ou pior do que ele, para dar cabo do pobre rapaz.
Nas vésperas da partida, os dois convidaram ao Joaquim para irem ao mato
caçar. Joaquim Paulista, que não maliciava nada, aceitou o convite, e no outro dia,
de manhã, saíram os três a caçar pelo mato. Só voltaram no outro dia de manhã,
mais dois somente; Joaquim Paulista, esse tinha ficado, Deus sabe aonde.
Vieram contando, com lágrimas nos olhos, que uma cascavel tinha mordido
Joaquim Paulista em duas partes, e que o pobre rapaz, sem que eles pudessem
valer-lhe, em poucas horas tinha expirado, no meio do mato; que não podendo
carregar o corpo, porque era muito longe, e temendo que o não pudessem encontrar
mais, e que os bichos o comessem, o tinham enterrado lá mesmo; e, para prova
disso, mostravam a camisa do desgraçado, toda manchada de sangue preto
envenenado.
Mentira tudo!... O caso foi este, como depois se soube.
Quando os dois malvados já estavam bem longe por essa mata abaixo,
deitaram a mão no Joaquim Paulista, o agarraram, e amarraram em uma árvore.
Enquanto estavam nesta lida, o coitado do rapaz, que não podia resistir àqueles dois
ursos, pedia por quantos santos há que não judiassem com ele, que não sabia que
mal tinha feito a seus camaradas, que se era por causa da Carolina ele jurava nunca
mais pôr os olhos nela, e iria embora para Goiás, sem ao menos dizer-lhe adeus.
Era à toa. Os dois malvados nem ao menos lhe davam resposta.
O camarada de Timóteo era mandigueiro e curado de cobra, pegava ai no
mais grosso jaracuçu ou cascavel, as enrolava no braço, no pescoço, metia a
cabeça, delas dentro da boca, brincava e judiava com elas de toda a maneira, sem
que lhe fizessem mal algum. Na hora em que ele enxergava uma cobra, bastava
pregar os olhos nela, a cobra não se mexia do lugar. Em cima de tudo, o diabo do
soldado sabia um assovio com que chamava cobra, quando queria.
A hora que ele dava esse assovio, se havia por ali perto alguma cobra, havia
de aparecer por força. Dizem que ele tinha parte com o diabo, e todo mundo tinha
medo dele como do próprio capeta.
Depois que amarraram bem amarrado o pobre Joaquim Paulista, o
camarada do Timóteo desceu pelas furnas de uns grotões abaixo, e andou — por lá
muito tempo, assoviando o tal assovio que ele conhecia. O Timóteo ficou de
sentinela ao Joaquim Paulista, que estava caladinho, coitado encomendando sua
alma a Deus. Quando o soldado voltou, trazia em cada uma das ma os, apertado
pela garganta, uma cascavel mais grossa do que esta minha perna. Os bichos
desesperados batiam e se enrolavam pelo corpo do soldado, que nessa hora devia
estar medonho que nem o diabo.
Então Joaquim Paulista compreendeu que qualidade de morte lhe iam dar
aqueles dois desalmados. Pediu, rogou, mas debalde, que, se queriam matá-lo,
pregassem-lhe uma bala na cabeça, ou enterrassem-lhe uma faca no coração por
piedade, mas não o fizeram morrer de um modo tão cruel.