DONA SINFONIA
Ah! Aquela mulher é um monstro. Não é, Sr. Geraldino?
GERALDINO
Decerto.
O BOTICÁRIO
Forca é o que ela merece. (Nesse momento, o velho mendigo deixa cair o cajado. Joaquim Aguaceiro volta-se
para ele ao ouvir o ruído e exclama:)
JOAQUIM AGUACEIRO
E você, pai Tobias, que acha disso tudo?
O MENDIGO
(Olhando-os, lentamente, depois de apanhar o cajado) Essas coisas cá da terra a gente nunca
pode explicar.., nem julgar... Deus é que sabe... (Silêncio.)
DONA RITOCA
(Ao Barbeiro) E depois?
GERALDINO
Depois...? Ele puxava-lhe os cabelos, torcia-lhe os braços, sacudindo-a e repetindo sempre com raiva: “Diga o
nome... Diga o nome..."
O PESCADOR
(Consigo mesmo) Mas por que é que ela não disse?
O BOTICÁRIO
Pudera! Se o Matias pegasse o rapazinho, esborrachava-o com um soco.
GERALDINO
(Prosseguindo) Então, corno ela não queria falar, ele apanhou à parede um grande chicote de couro e começou a
bater-lhe, a bater-lhe até mais não poder. A princípio ela gemia baixinho, mas depois pegou a gritar, a gritar que
era um gosto. Ele só repetia: “Diga o nome... Diga o nome...” E ela nada... Até que o sangue começou a pingar.
DONA RITOCA
O sangue?
DONA EUDÓXIA
Cruzes! (Todos se aproximam do Geraldino, ofegantes. Os peitos arfam, os olhos brilham no crepúsculo.)
GERALDINO
Sim. A cada chibatada, aparecia uma fitinha vermelha que ia escorrendo pelo corpo. Não sei se o Matias tinha
dó, mas ele chorava também. E continuava, de chicote em punho, a dizer, chorando: “O nome... O nome... Diga
o nome... Ela torcia-se no chão, feito cobra. Arrastava-se, agarrava-se a ele, gritando:“ Tem pena! Tem pena!
Matias, eu te amei também!...” Quando o Julinho entrou no quarto, ela estava toda encharcada...
DONA SINFONIA
Encharcada?
GERALDINO
O assoalho estava vermelho, como se tivessem amassado goiaba... (Nesse momento, Dona Ritoca desanda a rir
nervosamente. Todos olham, estupefatos. Geraldino interrompe-se. Mas a risada continua, cada vez mais
nervosa, mais estridente.)
O BOTICÁRIO
Que é, Dona Ritoca?
DONA EUDÓXIA
Está incomodada?