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Chá, construiria um palacete elegante, gracioso. rendilhado, à oriental, que sobressaísse,
que levasse de vencida esses barracões de tijolos, esses monstrengos impossíveis que
por aí avultam, chatos, extravagantes, à fazendeira, à cosmopolita, sem higiene, sem
arquitetura, sem gosto. Fá-lo-ia sob a direção de Ramos de Azevedo, tomaria para
decoradores e ornamentistas Aurélio de Figueiredo e Almeida Júnior
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. Trastejá-lo-ia
de jacarandá preto, encerado, com esculpidos foscos. Faria comprar nas ventes de Paris,
por agentes entendidos, secretárias, mesinhas de legítimo Boule.
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Teria couros
lavrados de Córdova, tapetes da Pérsia e dos Gobelins,
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fukusas do Japão. Sobre os
consolos, sobre os dunquerques,
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em vitrinas, em armários de pau-ferro rendilhado,
em étagères,
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pelas paredes, por toda a parte semearia porcelanas profusamente,
prodigamente – as da China com o seu branco leitoso, de creme, com as suas cores
alegres suavissimamente vividas, as do Japão, rubro e ouro, magníficas, provocadoras,
luxuosas, fascinantes: os grés de Satzuma,
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artísticos, trabalhos árabes pelo estilo,
europeus quase pela correção do desenho. Procuraria vasos, pratos da pasta tenra de
Sèvres, ornamentados por Bouchet, por Armand, por Chavaux
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pai, pelos dois Sioux;
contrapor-lhes-ia as porcelanas da fábrica real de Berlim e da imperial de Viena, azuis-
de-rei aquelas, estas cor de sangue tirante a ferrugem; enriquecer-se-ia de figurinhas de
Saxe, ideais, finamente acabadas, deliciosíssimas. Apascentaria os olhos na pátina
untuosa dos bronzes do Japão, nas formas tão verdadeiras, tão humanas da estatuária
grega, matematicamente reduzidas em bronze por Colas e Barbedienne. Possuiria
mármores de Falconet,
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terracotas de Clodion,
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netskés,
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velhíssimos, rendilhados,
microscópicos, prodigiosos. Mirar-se-ia em espelhos de Veneza, guardaria perfumes em
frasquinhos facetados de cristal da Boêmia. Pejaria os escrínios, as vide-poches,
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de
jóias antigas, de crisólitas
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e brilhantes engastados em prata, de velhos relicários de
ouro do Porto.
Teria cavalos de preço, iria à Ponte Grande, à Penha, à Vila Mariana em um
huit-ressorts
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parisiense sem rival, tirado por urcos
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pur sang,
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enormes, calorosos,
de cor escura, de pelo muito fino.
Far-se-ia notar pelas toilettes elegantíssimas, arriscadas, escandalosas mesmo.
Viajaria pela Europa toda, passaria um verão em S. Petersburgo, um inverno em
Nizza, subiria ao Jungfrau, jogaria em Monte-Carlo.
Havia de voltar, de oferecer banquetes; havia de chocar paladares, habituados ao
picadinho e ao lombo de porco, dando-lhes arenques fumados, caviar, perdizes
faisandées,
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calhandras
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assadas com os intestinos, todos os mil inventos dos finos
gastrônomos do velho mundo: seus convivas haviam de beber Johannisberg, Tokai,
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José de Almeida Júnior (1850-99), pintor paulista, um dos maiores do Segundo Reinado.
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Andrè Charles Boule (16442-1732), entalhador francês, célebre por seus trabalhos em ébano.
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Célebre manufatura parisiense fundada no século XV, símbolo internacional de qualidade.
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Armário de portas envidraçadas.
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Estante de prateleiras abertas e sem portas, para exibição de objetos decorativos.
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No texto: tipo de cerâmica dura e opaca.
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François Chaveau (1613-73), gravador francês.
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Etienne Maurice Falconet (1716-91), escultor francês.
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Claude Michel Clodion (1738-1814), escultor francês.
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Miniaturas japonesas esculpidas em marfim ou madeira preciosa.
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No texto: pequeno móvel de dormitório, onde se esvazia o que se leva nos bolsos.
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Pedra semipreciosa de cores diversas e beleza rara. Berilo.
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Tipo de carruagem de luxo, com carro de oito molas.
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Cavalo grande e belo.
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Puro-sangue.
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Carne ligeiramente passada, tida como ideal para a degustação das aves selvagens.
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Ave de porte médio, encontrada na Europa e Ásia.