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Fazendo um futuro melhor
Thereza Aguilar(*)
Observando o número significativo de crianças e adolescente que deixam suas comunidades
seguindo em direção às ruas a procura de melhores oportunidades de sobrevivência.
Constatando-se a ausência de propostas sócio educativas e culturais que visem a fixação destas
crianças em suas casas junto às famílias, que em sua maioria encontra-se em situação de
pobreza, mas que trata-se de peça fundamental para o desenvolvimento dessas crianças.
Deparam-se ainda, no seu dia a dia com a realidade da violência causada pela ação dos
traficantes em suas comunidades.
Diante destas questões, logo foi verificado a necessidade de uma imediata intervenção direta, ou
seja, agir rápido antes que crianças e jovens moradores das favelas as quais foram selecionadas
para o desenvolvimento do programa, saíssem de suas casas movidos pelas diversas seduções
que a rua apresenta ou mesmo antes que fossem recrutados para fazerem parte do mundo do
tráfico.
No Brasil, a entrada de crianças e jovens de classe social mais baixa no mercado de trabalho é,
de forma geral bastante traumática. Ou ela se dá através de uma verdadeira exploração de uma
mão de obra frágil e imatura, ou se dá através do ingresso na marginalidade, esta por sua vez,
vem somada a uma discriminação racial e social.
Frente a este contexto político e social gravíssimo, pensamos na idéia de se realizar uma ação
social, cultural e educativa, partindo de uma visão global da problemática e que, efetivamente,
execute alternativas que tenham como proposta realizar uma profissionalização para impulsionar
e concretizar o restabelecimento da cidadania.
Geralmente, os programas de geração de renda são os esforços mais comuns para por no
mercado de trabalho, em sua maioria no informal (vendedores ambulantes, guardadores de
carros, etc) jovens e até crianças advindas das classes populares.
O projeto Dançando para não dançar, por meio de suas ações, tem como finalidade propiciar
uma política de acesso. Acesso aos conhecimentos, que a classe social da qual pertencem,
j
amais seria capaz de possibilitar aos jovens talentosos ou com o mínimo de aptidão para
ingressarem numa profissão que no máximo podia surgir em suas vidas como sonho. Acesso a
entrada em um mercado de trabalho que historicamente vem sendo ocupado por quem pertence
às classes com maior poder aquisitivo. Com raras exceções, verifica-se, ao longo da história do
Brasil, a presença de crianças e jovens pertencentes às camadas mais pobres, freqüentarem o
espaço do tradicional Teatro Municipal. Nem como público, tão pouco como alunos da escola de
dança.
O que há de mais significante neste projeto está não só no fato de o mesmo já vir acontecendo há
5 anos consecutivos e ter integrado um grupo de alunos de 31 crianças das 4 favelas trabalhadas,
na escola de dança Maria Olenewa do Teatro Municipal.
Isto não significa que necessariamente todas as crianças e jovens que deste projeto participarem,
terão assegurados a possibilidade de ingressarem em uma vida artística, neste caso de
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bailarinos, e garantirão permanência neste mercado. Entretanto, poderão participar
democraticamente de uma atividade artística que até então não lhes era permitida. Poderão
ainda, utilizar os conhecimentos adquiridos nas aulas de balé clássico para um possível
investimento em outras áreas a fins tais como, professores, preparadores físicos, circo, teatro,
música, e principalmente conhecer uma outra realidade, que com certeza se apresenta menos
cruel do que aquela que estão acostumados a lidar no dia a dia das favelas.
O projeto Dançando para não dançar se propõe ainda, a dar suporte sócio-educativo às crianças
e adolescentes, juntamente com suas famílias. Fazendo com que as famílias participem de forma
efetiva, comprometida e principalmente como estimuladora fundamental para que o aluno cresça
e apareça, mas desta vez nas manchetes de jornais como um cidadão que através de seu talento
melhorou sua qualidade de vida, e não mais como um inimigo da sociedade.
Tudo isto só foi possível porque o Projeto foi formado por uma equipe de profissionais
competentes que deram conta, não só do desenvolvimento da atividade em si, as aulas de dança,
mas também aos jovens que enfrentam a difícil e nova relação estabelecida entre a criança e o
jovem atendido, com a realidade que vai encontrar ao freqüentar as aulas na escola de dança do
Teatro municipal. Para tal contamos como principal instrumento de apoio, o fato da dança através
de uma linguagem muito própria, ter o poder de trabalhar a auto-estima numa relação mútua entre
o psico e o social. Assim como, oferece no seu desenvolvimento uma relação direta com o auto-
conhecimento, com momentos de prazer e alegria funcionando ainda como estimuladora da vida
e do verdadeiro sentido de cidadania.
O Projeto Dançando para não Dançar vem há 05 (cinco) anos desenvolvendo suas ações, com
100 (cem) crianças, moradoras das seguintes favelas do Rio de Janeiro : Pavão-Pavãozinho,
Cantagalo, Rocinha e Mangueira.
Desde 1997, o Projeto implantou suas ações em uma importante comunidade do Rio de Janeiro.
Utilizando uma sala do CIEP Nação Mangueirense, na vila Olímpica da Mangueira, o ?Dançando
para não Dançar? pôde estender suas propostas a 40 (quarenta) crianças moradoras do Morro da
Mangueira.
Ainda neste ano, foram inscritas mais 12 (doze) crianças para participarem da prova de seleção
da Escola de Dança Maria Olenewa, cujo a especialidade está em preparar o aluno para o
ingressar no Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Fato que resultou na
aprovação de 100% do total de encaminhados, chegando a um número de 31 (trinta e um) alunos
aprovados naquele tão concorrido concurso.
Diante do elevado número de aprovação, consequentemente aumentou a procura pelo projeto. O
interesse de meninos e meninas dentro das comunidades cresceu, tendo como resultado a
inscrição de mais de 200 crianças, que aguardam vaga.
Podemos constatar avanços significativos, referentes aos problemas comportamentais que
havíamos observado no início do trabalho. Do ponto de vista técnico, durante as 5 horas
semanais de trabalho, ressaltamos o domínio da linguagem básica do ballet, a correção das
posturas, amadurecimento muscular, noção e adoção natural do trabalho em equipe e
flexibilidade.
A alimentação e a saúde dessas crianças também teve que ser garantida, pois participar de aulas
de ballet, ou qualquer outra atividade que demande exercício físico, a criança precisa,
necessariamente, de uma boa alimentação e bom estado de saúde. Para tal, o projeto contou
com cestas básicas doadas pela empresa Nestlé.
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Para fechar o ano (1997) de sucesso e dar maior incentivo às crianças do projeto, foi realizado um
espetáculo ao ar livre, em frente a escola de samba Estação Primeira da Mangueira, com a
participação dos bailarinos Ana Botafogo e Paulo Rodrigues, primeiro e primeira bailarina do
Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Além das solistas Raquel Ribeiro, Cristiane Kintam e com 80
(oitenta) crianças do Projeto.
No ano de 98, as aulas foram mantidas, a procura por vagas continuou intensa e fechamos o 1º
semestre com uma apresentação no Teatro Nelson Rodrigues, onde houve presença marcante de
300 pessoas, vindas das comunidades contempladas com o projeto.
O encerramento do segundo semestre foi com chave de ouro, foi feito uma apresentação, no
parque Garota de Ipanema no Arpoador, com as presenças de Ana Botafogo e Marcelo Mizaillidis,
primeira bailarina e primeiro bailarino do Brasil, respectivamente. Além das 100 (cem) crianças e
do grupo de dança de Eugênia Feodorova. O espetáculo teve uma grande aceitação de público e
da imprensa em geral. O que significa para a nossa satisfação, que já começa a haver uma
sensibilização maior dos moradores com relação a importância deste trabalho.
No inicio de 99, sete crianças do projeto foram escolhidas para fazerem um estágio de quinze dias
na Staatliche Ballettschule Berlin na Alemanha, uma das melhores escola de balé do mundo. As
crianças têm uma técnica tão boa que duas crianças receberam um convite para estudarem na
Staatliche Ballettschule Berlim. No mês de novembro 2 meninas da favela do Cantagalo
embarcaram para Berlim para estudarem durante um ano. Oportunidade que qualquer criança da
classe média gostaria de ter.
No mês de junho /99 veio ao Rio de Janeiro para dar aulas de balé nas comunidades onde
funciona o Dançando para não dançar a diretora geral do Ballet de Camaguey de Cuba, Regina
Balaguer Sánchez. Também, recebemos a visita da companhia jovem do Nederlands Dans
Theater da Holanda no morro do Cantagalo que dançou com as crianças do projeto.
O reconhecimento da importância do projeto veio no mês de outubro, com a assinatura do
contrato de patrocínio com a BR PETROBRAS para todo o ano de 2000, possibilitando a melhoria
nos serviços prestados a esta camada da população, tão sofrida pelos contrastes sociais
estabelecidos no dia a dia. Fica claro que para termos um Brasil sem tantas diferenças, basta
cada um fazer o seu papel de cidadão, e saber cobrar do Governo, concientemente, o seu papel.
Propostas alternativas existem.
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(*) - Thereza Aguilar é bailarina, idealizadora e coordenadora do Projeto Dançando para não
dançar, na cidade do Rio de Janeiro.
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