Lola (Entre lágrimas.) — Perder o meu adorado Gouveia! Oh! o senhor pede-me um
sacrifício terrível! (Pausa.) Mas eu compreendo... Assim é necessário... Entre a mulher
perdida e a menina casta e pura. Entre o vício e a virtude, é o vício que deve ceder... Mas o
senhor não imagina como eu amo aquele moço e quantas lágrimas preciso verter para
apagar a lembrança do meu amor desgraçado! (Abraça Eusébio, escondendo o rosto nos
ombros dele, e soluça.) Sou muito infeliz!
Eusébio (Depois de uma pausa, em que faz muitas caretas.) — Então, madama?...
sossegue... A madama não perde nada... (À parte.) Que cangote cheiroso!...
Lola (Olhando para ele, sem tirar a cabeça do ombro.) — Não perco nada? que quer o
senhor dizer com isso?
Eusébio — Quero dizê que... sim... quero dizê... Home, madama, tira a cabeça daí, porque
assim eu não acerto cas palavras!
Lola (Sem tirar a cabeça.) — Sim, a minha porta se fechará ao Gouveia... Juro-lhe que
nunca mais o verei... Mas onde irei achar consolação?... Onde encontrarei uma alma que me
compreenda, um peito que me abrigue, um coração que vibre harmonizado com o meu?
Eusébio — Nós podemo entrá num ajuste.
Lola (Afastando-se dele com ímpeto.) — Um ajuste?! Que ajuste?! O senhor quer talvez
propor-me dinheiro!... Oh! por amor dessa inocente menina, que é sua filha, não insulte,
senhor, os meus sentimentos, não ofenda o que eu tenho de mais sagrado!...
Eusébio (À parte.) — É um pancadão! Seu Gouveia teve bom gosto!...
Lola — O senhor quer que eu deixe o Gouveia porque sua filha o ama e é amada por ele,
não é assim? Pois bem: é seu o Gouveia; dou-lho, mas dou-lho de graça, não exijo a menor
retribuição!
Eusébio — Mas o que vinha propô à madama não era um pagamento, mas uma... Cumo
chama aquilo que se falou cando foi o 13 de Maio? Uma... Ora, sinhô! (Lembrando-se.)
Ah! uma indenização! O caso muda muito de figura!
Lola — Não! — nenhuma indenização pretendo! Mas de ora em diante fecharei o meu
coração aos mancebos da capital, e só amarei (Enquanto fala vai arranjando o laço da
gravata e a barba de Eusébio.) algum homem sério... de meia-idade... filho do campo...
ingênuo... sincero... incapaz de um embuste... (Alisando-lhe o cabelo.) — Oh! Não exigirei
que ele seja belo... Quanto mais feio for, menos ciúmes terei! (Eusébio cai como
desfalecido numa cadeira, e Lola senta-se no colo dele.) A esse hei de amar com frenesi...
com delírio!... (Enche-o de beijos.)
Eusébio (Resistindo e gritando.) — Eu quero i me embora! (Ergue-se.)
Lola — Cala-te, criança louca!...
Eusébio — Criança louca! Uê!...
Lola (Com veemência.) — Desde que transpuseste aquela porta, senti que uma força
misteriosa e magnética me impelia para os teus braços! Ora, o Gouveia! Que me importa a
mim o Gouveia se és meu, se estás preso pela tua Lola, que não te deixará fugir?
Eusébio — Isso tudo é verdade?
Lola — Estes sentimentos não se fingem! Eu adoro-te!
Eusébio — Eu me conheço... já sou um home de idade... não sei falá como os doutô da
capitá federá...
Lola — Mas é isso mesmo o que mais me encanta na tua pessoa!
Eusébio — Quando a esmola é munta, o pobre desconfia.
Lola — Põe à prova o meu amor! Já te não sacrifiquei o Gouveia?
Eusébio — Isso é verdade.