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um coração de mulher, mas a sanção da lei natural da mutualidade, que não é impunemente
violada.
Pelo reconhecimento do seu direito, o novo cidadão deu-lhe tudo quanto o homem
civilizado guarda para as sociedades, que lhe garantem o coração e a atividade, o amor e o
trabalho.
Nem ao menos pediu de terra porção maior do que aquela em que cabe a sua enxada,
que em cada sulco abre uma sepultura à tirania e um canal de águas-vivas para a liberdade.
Enquanto, usurariamente como Harpagon
ao seu cofre, alguns ex-senhores agarram-se
tremulamente aos latifúndios; o novo cidadão abre, pelo bem geral, mão de tudo, que ele
podia ambicionar, e está tão pronto a dar o seu suor, como o seu sangue, pela terra que ele até
agora só ocupava pela enfiteuse da morte.
É para fazer bater tumultuariamente o coração o espetáculo deste ano de nossa história.
As instituições brasileiras tinham alguma cousa das nossas florestas tropicais, que,
zombando da sucessão das estações, guardam sempre a mesma folhagem, espreguiçam-se
perpetuamente na mesma tépida umbrosidade, com uns farfalhos lânguidos e amorosos, com
uma eterna orquestra de ninhos. No mais espesso da brenha, uma casa construída com a
despretensão de quem só conta com a visita do sol e dos crepúsculos, das aves e das lianas
floridas, com a serenata dos córregos e das estrelas.
Há um ano, como que a nossa natureza social foi bruscamente enquadrada no
movimento regular do mundo. Começaram as estações evolutivas.
As instituições sofrem a ação do inverno, que as despiu da velha fronde das
superstições e dos preconceitos; que as deixou nuas, tristes, sacudidas pelo vento frio dos
lamentos, anoitadas em penumbra de conspirações.
Muitos já desviaram delas o olhar, imigraram como as andorinhas, para se não
deixarem traspassar do frio do pavor.
Entretanto, este fenômeno é o mais animador.
Como no inverno, a natureza concentra subterraneamente toda sua vitalidade, e não
podendo viver na festa iluminada do ambiente, recolhe-se ao segredo tépido do húmus, onde
elabora a renascença primaveril, que a princípio é feia como a morféia, na erupção das
gêmulas, para depois se converter em esmeraldas sonoras e em arminho perfumado; as nossas
instituições se concentram na administração financeira, amoeda ouro nas suas entranhas, faz
seiva das suas rendas, e apronta-se para dar como saldo das suas angústias presentes estradas
de ferro, que cortem, de extremo a extremo, o território; imigrantes que nos fecundem a alma
e o solo com o seu espírito e com o seu suor; terra que transforme o proletário de hoje no
pequeno proprietário, a válvula da democracia, amanhã.
Tudo quanto estamos vendo é novo. A nação sente-se outra, desde que foi dignificada
pela grande lei.
Ela pensa que se os negros, espécie de Shivas
inconscientes, que com os seus mil
braços, tiraram do nada um mundo novo; se os negros que eram ontem a besta de carga, a
cousa que se vendia, puderam instantaneamente subir de escravos a propulsores do comércio,
das indústrias, das rendas públicas, indiretamente, é certo, mas sensivelmente; muito mais
deve poder o Governo que presidiu essa criação.
É tão honroso o desvario, que é dever perdoá-lo.
Os que se queixam, os que se impacientam, não se lembram de que os negros
receberam, desde o dia da nossa independência, a delegação, humilhante para nós, da
verdadeira soberania humana — o trabalho; que nós praticamos esse erro, em tudo semelhante
ao da Europa, da Ásia e da África antigas, que enfeudaram o deserto ao camelo, e por isso
mesmo levaram séculos à espera de que o gênio do Gama dobrasse o misterioso cabo das
Tormentas.
O camelo atravessava despreocupadamente o deserto, rindo ao simum e às areias em
brasa sem impaciências de oásis porque ele o trazia na própria economia orgânica. O homem