Carlos - Diga. Continue. A minha situação miserável, a situação que no primeiro
momento envaidece, mas que só se compreende depois. Diga. Ela é a grande dama, que
esqueceu alguns meses o seu dever. Eu sou o rapaz sem conseqüências. Bem vestido,
filho de boa família, mas sem profissão e sem dinheiro. Quando vem o interesse, allons
oust! Seja cavalheiro e passe muito bem. Simplesmente o inferior! Ah! Meu caro barão,
você não compreenderá nunca a fúria de amar, quando a gente se sente inferior. É uma
miséria, é um nojo, é um desespero. A maioria dos desclassificados vem do amor em que
eram inferiores. Eu sou inferior. Eu não tenho dinheiro. Se ela fosse rica, eu seria apenas
o preferido, o manteúdo! Oh! Sim. Havia de bater-lhe para mostrar que antes de ser dela,
ela é minha. Há mais porém. Sou o preferido secreto que ela arreda para casar com
outro. E então tudo quanto ainda tenho de nobre, que é um desesperado orgulho, me
sobe à cabeça. Tenho ciúmes, ciúmes idiotas, sem razão de ser. Ë uma luta. Vou quase a
ceder e de repente vem-me palpável a lembrança dela e dele, que é estúpido, que é rico.
Estúpido, rico e forte... Penso que ele sabe, que ele me despreza. Penso que ela acabará
desprezando-me também, satisfeita em tudo com um espírito que se deixe dominar, com
o dinheiro para gastar e além disso, com um homem forte e moço! Meu Deus! Eu já sabia
que ela ia casar. Ao ver esse pobre diabo, que só a leva pelo dinheiro e pela posição,
adivinhei. Então agarrei-me aos últimos instantes de dúvida, desejei-a como quem rouba,
violei-lhe a fraqueza como um salteador, entontecia de.medo, de susto, de pavor...
Belfort (frio) - E vai tranqüilamente deixá-la em paz!
Carlos - Como?
Belfort - Para que esse desespero? Você é moço. A juventude pensa que tudo acaba,
quando tudo continua. Para que tanto drama? Raramente as mulheres valem uma
loucura. Talvez por isso não há mulher que não tenha enlouquecido um homem. Ou dois.
Ou mesmo três. Mas não importa. As mulheres são pequenos vasos de cristal
transparente.
Não tem cor. Nós é que lhes pomos a tinta da nossa ilusão. Vemo-las azuis, rosas, ou
negras. retirada a tinta, meu rapaz, os vasos continuam sem cor. Você é um
temperamento que eu conheço bem. Ela porém é um pouco diversa de você. Acabou.
Acabou tudo. Retire a tinta. Outros amores virão. E o que fizer sofrer a outras mulheres
compensá-lo-á do que não pode mais fazer a Hortência.
Carlos - O senhor não acredita na minha dor, barão?
Belfort - Meu caro Carlos, decididamente exagera.
Carlos - Exagero?
Belfort - Não quererá fazer-me crer numa paixão fatal por Hortência. Conheço-o muito
bem. Uma paixão fatal é profundamente aborrecido_ Trata-se de uma conquista
mundana, aquilo por que vocês todos almejam: a mulher bonita de sociedade, que se
assalta uma noite de baile, que se envolve em luxúrias aprendidas nas pensões, e que se
conserva mesmo às escondidas como um brasão, porque posa bem. Oh! não!
Interromper-me para quê? É exatamente isso. depois a paixão ocupa. Entra uma Renée e
uma Glória qualquer e sempre elegante, o luxo gratuito de uma senhora a quem se
domina pela revelação libidinosa, pelo próprio terror do escândalo...
Carlos - Barão! Não me confunda com essa gente. O seu ceticismo aniquila a vontade
que tenho de convencê-lo! Não! Eu não quero impedir a felicidade dela, eu sei que sou
transitório, que não devo ser levado em conta.-Ela pode casar. Mas não com aquele, não
com ele. Esse não! não!
Belfort - Por que?
Carlos - Não sei! Já não sei o que digo! Mas não. É instintivo, é uma revolta furiosa.
Belfort - Uma pequena revolta. Compreende-se. Outro qualquer não reuniria as
qualidades que tanto o incomodam no José É por conseqüência uma questão de
despeito, de vaidade. Tanto mais dolorosa quando é na _sombra, sem que ninguém
saiba. Mas por isso mesmo nobre, mais nobre. Hortência falou-me do receio que o seu
ciúme lhe causa. Teme desgraças, horrores. Logo a tranqüilizei lembrando: Carlos é um
cavalheiro. A nossa palestra tem esse fim. Você vai deixar de ameaças que não são um