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PUBLICAÇÕES DA CAPES
Série Estudos e Ensaios
1. O Ensino, o Trabalho, a População e a Renda — Dr.
Américo Barbosa — 1953.
2. Sôbre o Problema de Como Financiar a Educação do
Povo Brasileiro — Prof. Anisio Teixeira — 1953.
3. O Ensino de Engenharia no Brasil — Prof. Paulo Sá —
1954.
4. O Ensino de , Engenharia no Brasil — Prof. Paulo Sá
— Vol. I — 1955.
5. O Ensino de Engenharia no Brasil — Prof. Paulo Sá —
Vol. II — 1955.
6. As Ciências Sociais no Brasil, — Prof. L. A. Costa Pinto
e Dr. Edison Carneiro — 1955.
7. Doze Ensaios sôbre Educação e Tecnologia.
Série Levantamentos e Análises
1. Pesquisas a propósito da seleção de alunos para o
I.T.A. — Prof. Dwane S. Collins — 1954. 2 a 23 —
Estudos de Desenvolvimento Regional.
(Rio Grande do Sul — Santa Catarina — Mato Grosso —
Bahia — Minas Gerais — Rio de Janeiro — Alagoas —
Piaui — Paraíba — Amazonas — Maranhão — Ceará —
Espírito Santo — Paraná — Pará — Rio Grande do Norte —
São Paulo —- Sergipe — Distrito Federal — Goiás —
Pernambuco — Territórios).
Série Informação
1. Documentos Iniciais — 1952.
2. Estabelecimentos de Ensino Superior — 1954.
3. Estabelecimentos de Ensino Superior — 1955.
4. Estabelecimentos de Ensino Superior — 1956.
5. Instituições de Pesquisa — 1957.
6. Estabelecimentos de Ensino Superior — 1958.
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CAPES
CAMPANHA NACIONAL DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DB NÍVEL SUPERIOR
ESTUDOS DE
DESENVOLVIMENTO REGIONAL
(TERRITÓRIOS FEDERAIS)
SÉRIE LEVANTAMENTOS E ANÁLISES - 23
1959
APRESENTAÇÃO
Aspirando a contribuir para a adequada expansão dos quadros
brasileiros de nivel superior, em decorrência mesma dos propósitos
que determinaram a sua criação, teria necessáriamente a CAPES de
preocupar-se com o fator essencial a orientar aquêle objetivo, isto
é, as necessidades nacionais de pessoal de alta qualificação, nos
vários campos de atividade.
Estudar e estimar essas necessidades tornava-se, assim, uma
das tarefas básicas e permanentes desta Campanha.
Sentiu-se, desde logo, entretanto, a complexidade do encargo,
face aos múltiplos fatôres a equacionarem o problema em jogo,
circunstância que nos alertou no sentido de se evitarem as usuais
formulações à base de metas estabelecidas segundo índices ou
padrões prevalentes em outros países, critério evidentemente
simplista, mesmo quando processadas as correções propostas a
desfazer as inevitáveis disparidades estruturais e conjunturais dos
complexos geo-sócio-econômicos em comparação, dada a ineficácia
destes singelos ajustamentos face à complicada multimotivação
daquelas diferenças.
Procurou-se, em conseqüência, uma aproximação direta do
problema, fazendo-se com que a pesquisa partisse do estudo dos
fatôres que fundamentariam porque a condicionavam a
estimativa das nossas necessidades de pessoal qualificado. Visando
simultâneamente uma avaliação regional e nacional, projetou-se
coletar e equacionar dados e fatos que definissem as condições
naturais, geográficas e demográficas, bem como o status e as
tendências do desenvolvimento econômico e social,
sob os seus diversos aspectos, nas várias Unidades da Federação. À
luz dessas informações, seriam então examinados os problemas das
necessidades de pessoal superior e da formação do mesmo, global e
setorialmente, no que respeita aos vários campos de atividade.
Dada a inexistência de levantamentos sistemáticos, que
reunissem para cada Estado ou Território os dados requeridos,
decidiu a CAPES promovê-los, para tal contratando os serviços da
organização especializada "Serviços de Planejamento, Engenheiros
e Economistas Associados" (SPL), que se responsabilizou pela
elaboração de 22 monografias uma para cada Estado, uma para
os Territórios e outra para o Distrito Federal — was quais, de
acôrdo com o plano adiante exposto, e sob o titulo geral de "Estudos
de Desenvolvimento Regional", se coletariam os dados e
informações já referidas e se analisariam fatôres e tendências do
desenvolvimento, nas várias Unidades, em função das necessidades
de pessoal de nível superior.
Em monografia adicional, síntese e fecho das demais, serão
especificamente expostas os conclusões finais do estudo, quanto às
necessidades de pessoal, considerado o problema, não somente do
ponto de vista regional, como no seu aspecto setorial.
Obedeceu a elaboração das monografias ao seguinte piano
geral:
I Generalidades
A Características geográficas B
Características demográficas
II A renda, a capitalização e o consumo A
A evolução da renda B A utilização
da renda
III Fatôres da produção
A Problemas de mão-de-obra B
Recursos interiores disponíveis
C Capital acumulado D
Meios de transporte E
Problemas de energia F
Fatôres institucionais
IV O Mercado
A Condições da oferta
B Características da procura
C Intercâmbio externo
V O desenvolvimento econômico e a necessidade de
técnicos
A Tendências do desenvolvimento B Efeitos
do desenvolvimento econômico C Produção
atual dos quadros técnicos D Necessidade de
novos quadros
VI Observações finais e anexos.
A presente monografia, relativa aos Territórios Federais, é um
dos seis trabalhos que completam a série de publicações intitulada
"Estudos de Desenvolvimento Regional", com o qual terá esta
Campanha terminado a apresentação de um levantamento que,
embora reclamado pelos interessados, até hoje não fora promovido
em âmbito nacional, e de acôrdo com planos e métodos uniformes
para tôdas as Unidades consideradas.
Em breve, será dada à publicidade a monografia relativa às
necessidades de pessoal qualificado, já referida, baseada nas
conclusões retiradas dos presentes estudos.
Espera a CAPES que, além do seu objetivo imediato de
formulação de bases para analise e estimativa das necessidades de
pessoal qualificado, venham os "Estudos de Desenvolvimento
Regional" servir aos estudiosos dos assuntos brasileiros, pelo que
lhes possam valer no esclarecimento dos problemas a que se
dedicam, os dados, fatos e considerações que reúnem e divulgam.
Integram o grupo de especialistas que elaborou as mono-
grafias, nomes como Américo Barbosa de Oliveira, Alexandre
Fontana Beltrão, Tomás Pompeu Accioly Borges e Moacir Paixão e
Silva, cuja citação dispensa comentários, conhecidas que são a
seriedade e a competência profissional com que já se
desincumbiram de análogas tarefas anteriores. Caberá, entretanto,
ao público leitor julgar do mérito e da utilidade do trabalho
apresentado.
NOTA EXPLICATIVA
A presente monografia, elaborada sob a orientação e responsabilidade dos
técnicos Américo Barbosa de Oliveira, Alexandre Fontana Beltrão, Tomás
Pompeu Accioly Borges e Moacir Paixão e Silva, obedece a um sumário de
exposição simplificado, em comparação com o esquema adotado nas demais
monografias desta série. O desenvolvimento de cada item teria que ser menos
extenso, tendo em vista que o volume abrange o estudo dos quatro Territórios
Federais. Por outro lado, não existem dados sôbre a Contabilidade social dos
Territórios, computados englobadamente nos dados referentes aos Estados de
que foram desmembrados.
Não obstante as limitações de custo do presente trabalho e considerando as
restrições acima indicadas, procuramos formular um diagnóstico da economia
de cada Território, indicando as peculiaridades da produção, do balanço de
recursos e do consumo. Trata-se de um apanhado preliminar que deverá servir a
novos estudos e pesquisas sôbre essas áreas.
O índice da monografia simplifica o sumário-padrão adotado para as vinte
e uma monografias anteriores desta série programada pela CAPES. A
Introdução apresenta os traços marcantes que definem o caráter da economia
das quatro Unidades, em seus aspectos comuns e em suas particularidades mais
evidentes. Em seguida, é dedicado um capítulo para cada Território, sendo
examinados, em itens particulares, os dados geográficos e demográficos, fatôres
de produção e mercado. O desenvolvimento de cada item obedeceu, em cada
caso, à maior ou menor importância do tema a examinar, considerando o
incipiente estágio de evolução da economia dos Territórios. Finalmente,
dedicamos um
capítulo ao exame global das perspectivas de desenvolvimento econômico das
quatro áreas. Pela inexistência de dados, foi eliminado do esquema a estimativa
da projeção macro-econômica do desenvolvimento.
Registramos a colaboração eficiente, nesta monografia, dos técnicos José
Zacarias Sá Carvalho e Eduardo Ferreira dos Santos.
Para atender ao objetivo da CAPES deveríamos levar o exame da
atualidade econômica das regiões até ao campo das instituições sócio-
econômicas de modo a poder concluir pelo estudo das questões da educação no
âmbito de cada monografia. Tal desiderato — melhor examinada a relação entre
a economia regional, de um lado, e a procura e oferta de técnicos, de outro —
foi colocado como assunto de um estudo especial, que está sendo elaborado pela
nossa equipe técnica.
Agradecemos a opinião crítica do geógrafo Antônio Teixeira Guerra.
SPL — SERVIÇOS DE PLANEJAMENTO
ENGENHEIROS E ECONOMISTAS ASSOCIADOS
RELAÇÃO DAS FONTES
Abreviaturas Nomes completos e endereços
1) BCA Banco de Crédito da Amazônia
Rua da Assembléia, 62 — Rio de Janeiro, D.P.
2) BNDE Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
Rua Sete de Setembro, 48 — Rio de Janeiro, D.F.
3) CNE Conselho Nacional de Estatística
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
4) CNG Conselho Nacional de Geografia
Av. Beira Mar, 436 — Rio de Janeiro, D.F.
5) DNER Departamento Nacional de Estradas de Rodagem
Ministério de Viação e Obras Públicas
Av. Presidente Vargas, 522 — Rio de Janeiro, D.F.
6) DNPRC Departamento Nacional de Portos, Rios e Canais
4.º Distrito — Fortaleza — Ceará
7) ICOMI Indústria e Comércio de Minérios S.A.
Av. Presidente Vargas, 290 — 8.° andar — Rio de Janeiro D.F.
8) IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Av. Franklin Roosevelt, 166 — Rio de Janeiro, D.F.
9) RGA Representação do Govêrno do Amapá
Av. Nilo Peçanha 155, 8.° andar — Rio de Janeiro, D.F.
10) SEEF Serviço de Estatística Econômica Financeira
Ministério da Fazenda Palácio da Fazenda, 11.
0
andar — Rio de
Janeiro, D.F.
11) SGE
Serviço de Geografia e Estatística (do Amapá)
Macapá, Território do Amapá
Abreviaturas Nomes completos e endereços
12) SEP Serviço de Estatística da Produção
Ministério da Agricultura
Largo da Misericórdia — Rio de Janeiro, D.F.
13) SNR Serviço Nacional de Recenseamento
Av. Pasteur, 400 — Rio de Janeiro, D.F.
14) SPVEA Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia
Belém, Pará
ÍNDICE
INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 17
CAPÍTULO I
O TERRITÓRIO DO ACRE.......................................... 21
A — GENERALIDADES ............................................................................................... 21
B — FATÔRES DA PRODUÇÃO .................................................................................... 25
População e mão-de-obra ............................................................................ 25
Recursos naturais ...................................................................................... 29
Transportes ............................................................................................... 31
Capital e investimentos .............................................................................. 33
Fatôres institucionais ................................................................................. 34
C — O MERCADO ........................................................................................................ 37
Produção extrativa .................................................................................... 37
Produção agropecuária ................................................................................ 41
Relações de intercâmbio ............................................................................. 43
CAPITULO II
O TERRITÓRIO DE RONDÔNIA .................................... 45
A — GENERALIDADES ............................................................................................... 45
B — FATÔRES DA PRODUÇÃO .................................................................................... 49
População e mão-de-obra ......................................................................... 49
Recursos naturais ......................................................................................... 52
Transportes ............................................................................................... 52
Capital e investimentos ............................................................................... 55
C — O MERCADO ........................................................................................................ 56
CAPITULO III
O TERRITÓRIO DO RIO BRANCO ...................................... 61
A — GENERALIDADES ............................................................................................... 61
B — FATÔRES DA PRODUÇÃO .................................................................................... 65
C — O MERCADO ......................................................................................................... 68
CAPÍTULO IV
O TERRITÓRIO DO AMAPÁ ..................................... 71
A — GENERALIDADES ............................................................................................... 71
B — FATÔRES DA PRODUÇÃO ................................................................................... 75
População e mão-de-obra ......................................................................... 75
Mão-de-obra da ICOMI ............................................................................ 77
Recursos naturais .......................................................................................... 78
Manganês .................................................................................................. 79
Outras riquezas minerais .......................................................................... 82
Transportes ................................................................................................. 83
Energia ...................................................................................................... 85
Capital e investimentos .............................................................................. 85
C — O MERCADO ......................................................................................................... 87
Produção extrativa mineral ........................................................................ 87
Produção extrativa vegetal ........................................................................... 90
Produção agropecuária ............................................................................... 90
Relações de intercâmbio .............................................................................. 92
CAPITULO V
O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO .............................. 94
RELAÇÃO DE QUADROS
INTRODUÇÃO I — TERRITÓRIOS — ÁREA,
POPULAÇÃO E PRODUÇÃO PRIMARIA 20
CAPÍTULO I O
TERRITÓRIO DO ACRE
I — ACRE E BRASIL — POPULAÇÃO PRESENTE NAS DATAS DOS
RECENSEAMENTOS GERAIS DE 1920, 1940 E 1950 .................................. 25
II — ACRE — DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO POR MUNICÍPIOS,
EM 1950 ....................................................................................................... 26
III — ACRE — MÃO-DE-OBRA OCUPADA — 1940-1950 ....................................... 28
IV — ACRE — ESTRUTURA DA PROPRIEDADE DA TERRA ............................. 35
V — ACRE — PRODUÇÃO DE BORRACHA .......................................................... 38
VI — ACRE — PRODUÇÃO DE CASTANHA ............................................................. 40
VII — ACRE — PRODUÇÃO AGRÍCOLA EM 1957 ..................................................... 41
VIU — ACRE — COMÉRCIO DE CABOTAGEM ......................................................... 43
CAPÍTULO II O TERRITÓRIO DE
RONDÔNIA
I — RONDÔNIA — MÃO-DE-OBRA OCUPADA EM 1950 ................................ 51
II — RONDÔNIA — RECEITA E DESPESA DA E. F. MADEIRA —
MAMORÉ ......................................................................................................... 55
III — RONDÔNIA — PRODUÇÃO DE BORRACHA ............................................... 56
IV — RONDÔNIA — PRODUÇÃO DE CASTANHA-DO-PARÁ ............................ 58
V — RONDÔNIA — COMÉRCIO DE CABOTAGEM .............................................. 59
VI — RONDÔNIA — DESTINO DAS EXPORTAÇÕES E PROCEDÊNCIA
DAS IMPORTAÇÕES POR UNIDADE DA FEDERAÇÃO EM 1956 60
CAPITULO III O
TERRITÓRIO DO RIO BRANCO
I — RIO BRANCO — MÃO-DE-OBRA OCUPADA, EM 1950 .............................. 66
II RIO BRANCO — COMÉRCIO DE CABOTAGEM .......................................... 70
CAPITULO IV O
TERRITÓRIO DO AMAPA
I AMAPA — MÃO-DE-OBRA OCUPADA EM 1950 ....................................... 77
II — AMAPA — BALANÇO COMERCIAL ................................................................ 92
INTRODUÇÃO
Resolvemos incluir os Territórios do Acre, Rondônia, Rio Branco e
Amapá, numa única monografia, tendo em vista que estas Unidades Federativas
fazem parte de uma mesma região — a Amazônia, e apresentam no conjunto
problemas econômicos comuns.
O exame da economia dos Territórios numa só monografia justifica-se não
apenas porque sendo parte de uma mesma região, apresentam problemas
comuns, como também porque a fraca densidade demográfica e econômica das
quatro Unidades impõe um exame simplificado dos embriões de ocupação ali
registrados. Acusando um nível de ocupação de menos de 1 habitante por
quilômetro quadrado, a quase totalidade das suas áreas permanece alheia a
qualquer exploração econômica.
Ao abordar os problemas demográficos e econômicos dos Territórios não
foi possível aplicar o esquema adotado nas outras monografias desta série da
CAPES. Assim, por exemplo, não fizemos observações sôbre a formação e a
distribuição da renda territorial porque não existem dados de renda territorial,
em separado, para as Unidades aqui estudadas, englobadas na renda territorial
dos Estados de Amazonas (Acre, Rondônia e Rio Branco) e do Pará (Amapá).
As próprias deficiências da estatística justificam tal procedimento.
Nestas circunstâncias, ficamos impossibilitados de estabelecer hipóteses de
desenvolvimento macro-econòmico e, por isso, limitamo-nos a algumas
considerações sôbre os prognósticos de evolução da e alguns dos ramos mais
importantes da economia primária dos Territórios, em especial, a borracha e o
minério de manganês.
É de todo oportuno esclarecer que, se bem fossem aceitáveis como
representativas da atividade econômica global as estimativas de renda territorial,
dado o caráter mercantil da produção básica dos Territó-
rios, não teria cabimento a observação minuciosa da formação e distribuição da
renda, utilizando os conceitos fundamentais da contabilidade social, tal a
dificuldade em identificar e mensurar os fatôres, em face da extrema rarefação
econômica existente. Em certa medida, o Amapá poderia ser considerado uma
exceção, em vista da clara delimitação do fator dinâmico da sua economia,
representado pelas inversões ali aplicadas sob a direção da emprêsa
concessionária da exploração do manganês.
Algumas atividades produtivas muito conhecidas como complementares do
trabalho do homem na floresta (caça, pesca, roçado) se bem que tenham grande
significado na alimentação das populações, não mereceram a nossa atenção, em
profundidade, porquanto os dados disponíveis não traduzem a verdadeira
importância econômica das mesmas. Em nenhum dos Territórios fizemos
referência à indústria de transformação, peia simples razão de que, na verdade,
ela ainda está ausente nos Territórios, salvo nas incipientes unidades que se
dedicam quase que exclusivamente ao preparo de produtos alimentares (carne,
farinha, pão ete).
Quanto aos fatôres institucionais apenas deixamos transparecer o papel do
B.C.A. no fomento da hèveacultura e a ação governamental contrária ao
monopólio da terra, no Acre, ou favorável ao aproveitamento dos recursos
energéticos, no Amapá. A contribuição da S.P. V.E.A. para o desenvolvimento
dos Territórios não pôde ser mensurada fora dos recursos estipulados no 1.°
Plano Qüinqüenal (1955-1959) elaborado por esse órgão, dadas as dificuldades
em balancear as dotações realmente recebidas pelos Territórios. Por certo a
contribuição terá sido inferior às mencionadas no referido Plano, em virtude do
grande atraso na entrega das parcelas atinentes a cada trecho da imensa região
abrangida em sua área de ação.
Até bem recentemente a produção extrativa vegetal e a produção pecuária
eram os esteios da renda dos Territórios: a produção extrativa vegetal (coleta do
látex e da castanha) para o Acre e Rondônia e a pecuária (criação de bovinos)
para o Amapá e o Rio Branco, sendo relativamente importante, neste último,
também a garimpagem. As duas atividades básicas estão voltadas, a primeira,
no sentido da expor-
tação para o Sul do País (borracha) e o mercado estrangeiro (castanha) e a
segunda, para o que se pode chamar de mercado regional amazônico.
Com o início da exploração do manganês pela IGOMI, em 1957, a
produção extrativa mineral, atividade até então de reduzida expressão, embora
tradicional no Rio Branco e no Amapá, sob a forma de garim-pagem, passou a
constituir a principal fonte geradora de renda no Amapá. Com a exploração do
manganês foi introduzida no Território uma técnica moderna, contrastando com
os métodos primitivos de produção até então praticados.
Apresentamos, a seguir, alguns dados sôbre os Territórios. A simples
comparação basta para caracterizar as diferenças básicas entre eles (quadro I).
O povoamento do Acre abrange período mais largo, tendo sido facilitado
pelas excelentes condições de acesso às áreas do Alto Juruá e do Alto Purus, que
se tornaram atrativos no início do século, para a exploração de ricos seringais. A
ocupação dos demais Territórios foi dificultada (cachoeiras dos rios Madeira,
Branco, Araguari, Jari), sendo de observar, nas suas florestas, uma menor
densidade de seringueiras de boa qualidade, fator relevante, porquanto a
exploração da borracha Coi o móvel inicial do povoamento da Amazônia.
O exame particular de cada Território apresentado nos capítulos desta
monografia, impõe o exame mais amplo da economia extrativa da borracha
(Acre e Rondônia) da exploração pecuária, principal atividade no Rio Branco, e
da mineração e comercialização do minério do manganês, no Amapá. A
importância da nova economia extrativa, no Amapá, correspondendo a um valor
duas vêzes superior ao da produção de borracha e castanha e de tôda a
agropecuária das 4 Unidades, impõe um exame mais minucioso.
O estudo da economia destas Unidades, baseado nas tentativas já feitas
para a aceleração do seu desenvolvimento, permite formular algumas condições
que autorizariam a introdução da técnica moderna no processo de extração dos
produtos básicos, a fim de ser obtido um maior nível de renda por unidade de
fôrça de trabalho ocupada. No Capítulo final da monografia, tentamos apresentar
sugestões no campo da política de desenvolvimento econômico dos
Territórios.
CAPÍTULO I O TERRITÓRIO
DO ACRE
A — GENERALIDADES
O Território do Acre é o mais antigo da Federação e foi integrado nos
limites do Brasil em 1903 com a assinatura do Tratado de Petrópolis. Está
localizado na Amazônia Ocidental entre os paralelos de 7°07'08" S e 11°08'45"
S e os meridianos de 66°37'45" e 73°59'32", tendo uma área de 152 589 km
2
correspondendo a 4,2% da área da Amazônia e a 1,8% da superfície do País. Ao
norte limita-se com o Estado do Amazonas, a leste com o Território de
Rondônia, ao sul com as Repúblicas do Peru e da Bolívia, e a oeste com a
República do Peru. Na fronteira oeste encontra-se o ponto mais ocidental do
Brasil.
Os rios desempenham papel decisivo na ocupação do território. Os dois
grandes rios da bacia Amazônica que atravessam o Acre são o Purus e o Juruá,
afluentes do Solimões, cuja importância destacaremos em outro capítulo. Entre
os menores ressaltam o rio Acre, afluente do Purus, que corta uma zona rica em
borracha silvestre, e o Abunã, afluente do Madeira, que permite a ligação com
Porto Velho.
Os cursos dos altos rios serviram à conquista do Território pelos
seringueiros e até alguns decênios atrás eram o único meio de acesso ao Acre.
Como todos correm no sentido do nordeste as comunicações ao longo do
Território por via fluvial são impossíveis. Por essa razão é que no Acre se
formaram duas regiões de vida distintas uma da outra, que se uniam econômica
e socialmente na longínqua cidade de Manaus, para onde fluía todo o contacto
com o resto do País. Só com a expansão do transporte aéreo e a abertura de
rodovias é que vão sendo superados os obstáculos geográficos que se opõem à
completa integração do Território.
2
O Acre é todo coberto de florestas tropicais que encerram espécimes de
apreciável valor comercial como a seringueira, o castanheiro, a copaiba, o cedro
e tantas outras madeiras de lei. Se bem que não se possa falar de devastação do
revestimento floristico, cabe assinalar no Território um desflorestamento
desregrado devido à técnica empregada com a grande rotação de terras e o
rápido esgotamento do solo (1).
No Território do Acre dominam grandes áreas de terra firme; como tal,
pouco se encontram as chamadas "várzeas" tão comuns no Baixo Amazonas. Os
seus solos de terra firme parecem ser mais férteis do que os do resto da
Amazônia e ainda não sofreram um acentuado processo de laterização. No
entanto, efetuada uma exploração agrícola irracional muito cedo são inutilizados
pela erosão e a exaustão. Aliás em alguns lugares, especialmente em áreas de
colônia agrícola, são visíveis os inconvenientes da exploração dos solos por
métodos rotineiros.
O Território compreende parte da planície amazônica em que dominam as
formas planas, ainda que, por vêzes, sensivelmente onduladas. As maiores
elevações são encontradas na serra do Divisor, na fronteira com o Peru. Pelos
dados a seguir, observamos que mais de metade da área do Território se situa
entre as cotas de 201 e 300 metros de altitude (2) :
O clima é úmido, de temperatura elevada e intensa precipitação
pluviomètrica. No entanto, não são registradas grandes máximas absolutas e na
época da "friagem", fenômeno que ocorre em meados do ano, a temperatura cai
sensivelmente. Em 1957 a média das máximas
(1) Antônio Teixeira Guerra — "Estudo Geográfico do Território do Acre", I.B.G.E.
(2) "Anuário Estatístico do Brasil" — 1952.
foi de 30° e a das mínimas, de 20°, na Capital do Territòrio. A altura total da
precipitação atingiu l 642 mm e a média da umidade relativa foi de 88%.
Como em tôda Amazônia, no Acre apenas são conhecidas duas estações: o
"verão" ou estação sêca, e o "inverno" ou estação chuvosa. O período das
chuvas é bem mais longo do que o da estiagem, pois dura 7 ou 9 meses. A forte
insolação anual, a alta umidade e as intensas precipitações proporcionam boas
condições para a existência da floresta densa e compacta que caracteriza o
sudoeste da Amazônia. Estes elementos metereológicos condicionam o
chamado complexo patogênico tropical (1).
O C.N.G. dividiu o Território em duas zonas fisiográficas, Alto Purus e
Alto Juruá, que abrangem as bacias dos respectivos rios, apresentando a
seguinte divisão administrativa, em 1950 (2) :
A primeira zona é a mais rica, pois, além de produzir mais borracha que a
segunda, ainda conta com a exploração dos castanheiros, árvores desconhecidas
nos lados do Alto Juruá. Além do mais, nela está localizada Rio Branco, Capital
do Território.
O processo de urbanização encontra-se bastante retardado. Em 1950 mais
de 80% da população vivia na zona rural, presa à incipiente
(1) Antônio Teixeira Guerra, obra citada.
(2) "Anuário Estatístico do Brasil" — 1953.
economia extrativista. As cidades têm pequena expressão. As mais importantes
são Rio Branco (9 000 habitantes) e Cruzeiro do Sul (4 000 habitantes).
B — FATÔRES DA PRODUÇÃO
População e mão-de-obra — A ocupação humana do Acre pràticamente
teve início a partir de 1877, ano em que o Nordeste foi assolado por forte seca e
muitos naturais da região emigraram para o Acre, em busca da seringueira. Os
"cearenses" — como são chamados no Território os nordestinos — formaram o
elemento povoador básico do Território.
Enquanto durou a fase áurea da borracha houve um fluxo mais ou menos
constante de migrantes. Mas, assim que começou a debacle da economia da
borracha, no segundo decênio do século, o Acre passou a perder gente, pois os
baixos preços do látex não compensavam os sacrifícios da vida na floresta. Por
isso, o Censo de 1940 acusou, em relação a 1920, decréscimo de população
(quase 13 000 pessoas) e a posição relativa do Território no plano nacional
baixou para 0,1%, conforme mostra o quadro I.
I — ACRE E BRASIL — POPULAÇÃO PRESENTE NAS DATAS DOS
RECENSEAMENTOS GERAIS DE 1920, 1940 e 1950
Como decorrência da "batalha da borracha", houve um fluxo migratório
para o Território, durante a Segunda Guerra Mundial, contribuindo para elevar
de 44% a população entre 1940 e 1950 apesar das perdas por morte ou pelo
retorno, que somam a milhares de pessoas. A prote-
ção oficial à extração do látex que se seguiu à extinção dos Acôrdos de
Washington evitou uma debandada maior de trabalhadores dos seringais.
Em 1950, o Território tinha uma população de 115 000 pessoas distribuída
ao longo dos rios ou disseminada na floresta. Os rios mais habitados são o Acre,
próximo à cidade de Rio Branco e Xapuri, e Juruá, nas proximidades da cidade
de Cruzeiro do Sul. O quadro II dá-nos uma idéia da distribuição municipal da
população em 1950.
A zona do Alto Purus detinha 56% da população do Território.
Relativamente também era a mais habitada, pois acusou uma densidade
demográfica de 0,81 hab./km
2
, quando no Alto Juruá se constatou 0,69 hab./km
2
.
Sena Madureira é o município de menor índice de ocupação humana.
O crescimento da população acreana dependeu muito, no passado, das
migrações internas. Presentemente o incremento resulta, na maior parte, da
elevada taxa de natalidade. Em 1950, os naturais do Acre formavam 73% da
população do Território, enquanto os "cearenses" só representavam 17%. A
seguir damos os principais contingentes de
naturais de outras Unidades, presentes no Acre, naquela data e que totalizavam
91% do número de habitantes não acreanos do Território (1) :
Ceará ............................... 14 221
Amazonas ...................... 6 786
Rio Grande do Norte . . 2 227
Pará ................................ 1949
Paraíba ............................. 1454
Na composição por sexos da população acreana, há um desequilíbrio. O
Censo registrou a presença de 62 000 homens e de apenas 52 000 mulheres, o
que se explica pelo fato de que as condições de vida e trabalho nos seringais não
são próprios para indivíduos do sexo feminino e não raro o seringueiro vive
isolado no meio da floresta.
Na data do último Censo, 39 000 pessoas, ou sejam, 34% da população
total, estavam ocupadas em atividades produtivas, conforme o quadro III
adiante. Por outro lado, 81% da mão-de-obra estava ocupada no setor primário,
15% no setor terciário e 4% no setor secundário.
Causa surprêsa que a mão-de-obra, entre 1940 e 1950, tenha aumentado
apenas de 27% quando a população total cresceu de 44%, como assinalamos
antes.
No setor primário, as atividades agropecuárias são mais procuradas pelos
naturais da terra. A coleta da borracha e da castanha é uma tarefa que absorve a
maioria dos nordestinos. Estes só entram na lavoura quando frustrados nas suas
aspirações de extratores. Mas, assim mesmo, não perdem o hábito da coleta do
látex.
O seringueiro é, pois, o trabalhador típico, responsável pelo aproveitamento
da riqueza básica do Acre. Via de regra, um extrator de borracha cuida de duas a
três "estradas" de seringa e produz de 400 a 800 quilos de borracha por safra
(2). No máximo o caboclo pode cortar a árvore num período de 9 meses e com
o início das chuvas deixa a
(1) S.N.R..
(2) Roberto Galvão, "Aspectos da Economia da Borracha no Território do Acre'', in
Revista Brasileira de Geografia, de abril-junho de 1955.
extração do látex e passa à coleta da castanha, onde isso é possível. Em caso
contrário passa a cuidar da roça de subsistência, na qual planta mandioca, milho,
arroz e feijão. Outra atividade complementar do seringueiro é a caça e a pesca.
Em razão da baixa produtividade verificada na coleta do látex o seringueiro
percebe uma remuneração que só dá para sustentar um padrão de vida primitivo.
Na ausência de pesquisas de campo neste setor, podemos tentar uma idéia da
renda do seringueiro a partir da sua produção média anual (digamos 600 quilos)
e do valor médio da borracha, deduzida a remuneração do seringalista (35%, na
pior das hipóteses). Dêste modo chegamos à conclusão de que em 1957 o serin-
gueiro comum teve uma renda média de 16.200 cruzeiros (1.400 cruzeiros por
mês). O pauperismo em que vive o seringueiro também se deve às condições em
que é obrigado a comprar bens de consumo dos seringalistas, reduzindo-se o
poder de compra do dinheiro pela ação especulativa dêsses últimos. O custo de
vida reinante em Rio Branco — um dos mais elevados do País — evidencia o
mesmo fenômeno da ausência de um aparelho distribuidor e comercial
autônomo.
Recursos naturais — São pràticamente desconhecidas as reservas minerais
do Acre. Os recursos naturais que o Território utiliza e que tem sustentado a sua
economia são os florestais, que colocam a indústria extrativa vegetal como a
atividade fundamental da população acreana. A insuficiência de meios e as
dificuldades de transporte, porém, são fatôres que limitam por demais o
aproveitamento das imensas riquezas vegetais. No caso da hévea, por exemplo,
surgiu tôda uma conjuntura que desfavorece e desencoraja — dada a inevitável
elevação dos custos marginais de produção — o aproveitamento das
seringueiras nativas, isto apesar do incremento da procura interna de borracha
natural. Não resta dúvida de que às condições de funcionamento da indústria
extrativa da borracha se contrapõem as exigências do mercado interno, das quais
se origina a condenação do sistema de economia coletora reinante no Acre e em
tôda a Amazônia.
A seringueira é encontrada na bacia dos rios Purus, Juruá e Madeira. Porém
em densidades diferentes, de modo que, mais precisamente, surge em melhores
condições de exploração nos altos vales dos rios
Abunã, Acre, Purus, Juruá e seus afluentes. A maior abundância de héveas nota-
se na zona compreendida entre o Iaco e o Abunã.
De um modo geral a exploração das árvores é feita em regime de grande
propriedade, ficando o seringueiro na obrigação de entregar a sua safra ao
proprietário ou arrendatário do seringal, de quem recebe crédito. O seringalista
vende a borracha ao B.C.A. e paga ao seringueiro um preço que oscila entre 60 e
75% do preço pago pelo B.C.A..
O seringal é dividido em "estradas" cujo número de seringueiras varia
muito, podendo ter de 80 a 200 pés ou mesmo 250, como no Abunã. Nesta área,
devido à maior concentração das árvores, há seringueiros que conseguem
produzir até 1 500 quilos de borracha por safra, o dobro, pois, da média
encontrada para os seringueiros acreanos (1).
Os tipos da borracha produzida no Território são o "caucho", "fina em
pela", "sernambí caucho", "sernambí rama" e "sernambí seringa". A coagulação
ainda é feita pelo processo da defumação. Mas o Govêrno está interessado em
difundir o processo de coagulação e defumação do látex por meio do ácido
pirolenhoso bruto, ácido obtido pela queima de madeira e côcos, também
conhecido por "processo Arantes". Se bem que êste processo diminua o esfôrço
do seringueiro e dê um produto de ampla aceitação na indústria de artefatos de
borracha — o "laminado Arantes" — a sua difusão encontra resistência por parte
dos seringalistas que não querem aplicar dinheiro na compra de destiladores
especiais, e tampouco dispensar cuidados com a necessária secagem à sombra.
Além do mais, faz-se mister o transporte do produto em porões enxutos de
embarcações o que nem sempre é possível.
As precárias condições de transporte dificultam o escoamento da produção
de borracha. O transporte das "pelas" (2) até à sede do seringal é feito em lombo
de burro ou nas costas do próprio seringueiro ; da sede do seringal em diante é
feito em "balsas" ou em batelões a motor. A precariedade dos transportes é uma
das causas do baixo rendimento dos seringais. Em alguns deles apenas é
aproveitada a décima parte do número de "estradas" que possuem. Aliás, são
muito raros os seringais que funcionam em regime de plena produção.
(1) Antônio Teixeira Guerra, obra citada.
(2) Bolas de látex coagulado.
Não conhecemos nenhuma estimativa do número de seringueiras nativas
em produção ou disponíveis. Tomando por base uma produtividade média de 2
quilos de látex por hévea, poderíamos supor que em 1957 foram cortadas mais
ou menos 5 milhões de seringueiras.
Os castanheiros aparecem em abundância na área dos rios Acre e Abunã e
dos rios Purus e Pauini. Mas, são inteiramente desconhecidos na zona do Alto
Juruá. O seu aproveitamento consiste na coleta dos ouriços que caem
naturalmente e contêm de 15 a 20 castanhas, podendo um homem colher quase
duas barricas por dia (1).
Entre as madeiras exploradas no Território figuram o aguano, o cedro, a
maçaranduba, o cumaru, o mulateiro, o angelim, a sucupira, o louro e outras. As
duas primeiras são as mais importantes e destinam-se às serrarias de Manaus e
Itacoatiara, de onde são exportadas depois de beneficiadas. O aguano já foi boa
fonte de renda para o município de Tarauacá. A sua exploração caiu com a
baixa dos preços.
O método de extração das árvores é rudimentar, sendo usadas serras
manuais e, assim mesmo, só nos centros mais adiantados.
Transportes — Apesar de ser cortado por inúmeros rios, o Acre enfrenta
graves problemas de transporte. Já vimos que a direção única dos cursos dos rios
determinou a formação de duas zonas bastante diferenciadas. Porém não é êste o
aspecto mais sensível da questão. De qualquer forma as comunicações fluviais
do Alto Purus e do Alto Juruá com Manaus seguem o curso dos rios.
Vejamos quais as dificuldades que se opõem ao aproveitamento útil e
econômico das aquavias, principalmente das que servem Rio Branco e Cruzeiro
do Sul. Aparentemente, as vias fluviais garantem ao Acre um sistema de
transporte fácil e barato. A realidade, porém, é que o sistema fluvial sofre
alterações nos altos rios que transtornam sèriamente o transporte. As variações
das descargas são responsáveis pela falta de regularidade do tráfego. Na época
do "verão", que compreende a menor parte do ano, nos altos dos rios não podem
navegar batelões de mais de duas toneladas. Os batelões preferidos para o trans-
porte, de 6 a 15 toneladas, só podem circular no "inverno", quando se
(1) Cel. Lima Figueiredo — "O Acre e suas Possibilidades", in "Revista
Brasileira de Geografia", abril de 1940.
avolumam as águas dos rios. Além de reduzir o número de embarcações em
movimento, a variação da descarga afeta os transportes onerando os fretes e
prolongando as viagens.
Com relação ao tempo de viagem, de dezembro a abril ("inverno") vai-se
de Manaus a Brasiléia em 700 horas; de maio a novembro ("verão") essa mesma
viagem é feita entre 900 e 1200 horas. No tocante aos fretes, são mais elevados
no "verão" porque o transporte é mais lento e mais difícil.
O problema complica-se pelo estado de conservação das embarcações
utilizadas. Na sua maioria pertencentes ao S.N.A.P.P. aa embarcações
ultrapassam o limite de idade útil. Funcionam à lenha, combustível oneroso e
que não dá rendimento. Os portos fluviais, em número de 13, não possuem
instalações adequadas e quase sempre se resumem num barranco por onde se
fazem as operações de carga e descarga.
Nos dados a seguir, temos o movimento de entrada de navios no porto de
Rio Branco, nos últimos anos (1) :
Tonelagem
N.° de de registro
Anos navios (1000 t)
1955 521 17
1956 448 15
1957 431 16
Na atual situação, o transporte fluvial entre as cidades de Rio Branco e
Cruzeiro do Sul leva um mínimo de 30 dias. É que só se pode ir de uma cidade a
outra descendo o rio Purus até o Solimões*e depois, subindo o rio Juruá. Por
avião o percurso faz-se em menos de 4 horas. .
São essas dificuldades que levaram o Govêrno territorial a elaborar um
plano rodoviário capaz de, pelo menos, quebrar o isolamento existente entre a
zona do Alto Purus e do Alto Juruá.
O plano rodoviário consiste, essencialmente, na construção da rodovia
Plácido de Castro (BR-29), que virá de Rondônia e fará a ligação do Alto Purus
com o Alto Juruá, beirando a fronteira peruana. Por
(1) "Anuário Estatístico do Brasil" — 1958.
outro lado, cogita-se de fazer uma ligação com o porto de Lábrea, no Amazonas,
que durante todo o ano permanece franqueado a embarcações de até 600 t. A
rodovia Plácido de Castro passará pelo Abunã sem qualquer influência sôbre o
escoamento da produção de borracha dessa área. Até agora o escoamento é feito
pelo rio para Porto Velho e não é de se presumir que por causa da estrada passe
a ser feito por Rio Branco, pois isso significaria onerar o custo de transferência
do produto.
Capital e investimentos — Numa economia extrativista vegetal, o capital é
o fator mais escasso. A produção obtém-se com parcelas mínimas de
instrumentos de trabalho e cabe ao homem fazer tudo ou quase tudo por seu
próprio esfôrço. A máquina não encontra condições favoráveis para penetrar no
seringal, dado o sistema de relações que impera entre seringueiros e
seringalistas. Ao primeiro cabe suportar todos os riscos da atividade no seio da
floresta, enquanto o segundo se limita a participar dos seus êxitos. Quando o
empresário — no caso o seringalista — não precisa de outros recursos do que o
necessário para financiar a fôrça do trabalho durante uma safra a fim de poder
exercer a sua função, é claro que resistirá a qualquer inversão real, ainda mais se
o protecionismo oficial age no sentido de resguardar a estrutura produtiva de
baixo rendimento que o sustenta. Essa a razão pela qual não há da parte dos
seringalistas iniciativas tendentes à melhoria da qualidade do produto, através da
aplicação do "processo Arantes". Note-se que a inversão representada pela
aquisição dos destiladores especiais não implicaria num sério esfôrço de
capitalização (1). Em conclusão, a própria natureza do sistema em vigor no
Território não comporta um processo dinâmico de capitalização apoiado na
iniciativa privada.
O levantamento dos capiteis aplicados, feito pelo Censo, revela o quanto é
acentuada a rarefação dêste fator de produção. Em 1950 os stocks de capital
podiam ser estimados em 105 milhões de cruzeiros, a preços históricos, com a
seguinte distribuição (2) :
(1) No início dêste decênio um destilador especial montado devia custar cêrca de Cr$
5.000,00 e um aparelho destes é suficiente para um seringal de 100 toneladas de produção.
(2) S.N.R..
Stock de
Setores capital
(Cr$ milhões)
Agricultura .................... 48
Indústria ......................... 8
Comércio ....................... 41
Serviços ......................... 8
Total ..................... 105
Não está considerado nessa estimativa o valor das construções urbanas.
Estas, contudo, eram em número de 25 000 e de estrutura muito pobre, na sua
grande maioria casas de madeira.
Apesar do processo de capitalização ser incipiente, a poupança deve
apresentar margens elevadas, como se depreenderá dos saldos do comér
cio de cabotagem constantes do item D. A parte da renda não consu
mida é, todavia, exportada para Manaus e Belém, centros que dominam
o comércio da borracha na Amazônia. O dinheiro que o seringalista
»
ganha no Território é transferido para essas praças, e às vêzes mesmo para
outros centros do Nordeste e Sul (Rio e São Paulo).
A importância dos recursos exportados para o Pará e o Amazonas, no
conjunto da economia do Território, ressalta quando se comparam os saldos da
balança comercial com o valor da produção da borracha. Em 1956, pouco faltou
para que o saldo do comércio de cabotagem fosse igual ao valor da safra de
goma elástica.
Já que o extrativismo vegetal se caracteriza pela baixa capitalização no
setor primário, só se pode esperar qualquer intensificação dos investimentos
através da ação do Poder Público, promovendo a ampliação da infra-estrutura
econômica, com uma política de desenvolvimento. Todavia, tanto o Govêrno
territorial (por carência de recursos) quanto o Govêrno Federal não têm
investido o suficiente para alterar a fisionomia econômica do Acre. No 1.° Plano
Qüinqüenal da S.P. V.E.A. (1955-1959), por exemplo, apenas foram destinados
ao Território 85 milhões de cruzeiros para investimentos de rodovias (66
milhões), aeroportos (4 milhões) e energia (15 milhões).
Fatôres institucionais — O extrativismo levou à formação de uma estrutura
de propriedade da terra em que predominam os latifúndios.
O grau de concentração da terra pode ser observado nos dados do Censo
Agrícola de 1950, expostos no quadro IV. Nesse ano, 201 estabelecimentos
agropecuários (12% do número total) possuíam uma área de 8 milhões de
hectares, equivalendo a 92% da área total dos estabelecimentos recenseados.
À primeira vista pode parecer excessiva uma área de 10 000 hectares, em
comparação com as regiões, onde a lavoura e a pecuária são as atividades
predominantes. Na Amazônia, um seringal daquelas proporções será
considerado "pequeno", levando-se em consideração as condições de exploração
extrativista. Para cada seringueiro são necessários em média 225 ha, área
ocupada por 3 "estradas" ou 450 árvores. Assim sendo, num seringal nativo de
10 000 hectares podem trabalhar, quando muito, 44 extratores.
Se a extração da borracha silvestre condiciona a formação de grandes
propriedades, já a hèveacultura permite instalar-se o regime de pequena
propriedade. Segundo estimativa da S.P.V.E.A. um hectare comporta, em
média, 500 seringueiras plantadas e bastam 1 000 árvores para ocupar um
seringueiro (1).
A desvalorização da borracha silvestre criou problemas que vieram a ter
repercussão sôbre a estrutura da propriedade rural. Na medida em que baixava o
nível de emprêgo nos seringais, a fôrça de trabalho
(1) Estamos considerando a densidade média de um seringal plantado, entre 6 e 15 anos de
vida.
disponível que não emigrava do Território procurava ocupar-se de atividades
agrícolas. Para isso penetrava e se instalava nos seringais à volta dos núcleos
urbanos. À visto disso, o Poder Público resolveu comprar esses seringais a fim
de evitar atritos entre posseiros e proprietários, e promover a colonização de
caráter agrícola.
Essa a razão da existência das colônias Seringal Emprêsa (80 000 ha) e
Guiomar dos Santos, em Rio Branco; Porto Manso (2 000 ha) e Santo Antônio
(143 ha), em Xapuri; Seringal Nazaré (900 ha), em Brasiléia; Japiim (1500 ha) e
Rodrigues Alves (1300 ha), em Cruzeiro do Sul; Assis Vasconcelos (100 ha),
em Feijó; Fazenda Modêlo e Fazenda Agricultura, em Serra Madureira (1).
Infelizmente a ação do Poder Público no sentido de promover a
fragmentação das grandes propriedades carece de suficiente amplitude. A
assistência concedida ao colono é precária, tanto do ponto de vista técnico
quanto material. Para receber o título de propriedade nas "terras florestais" os
colonos dedicados à extração da borracha têm de fazer o plantio de seringueiras.
Com esta medida espera-se que dentro em breve o grosso da produção de látex
das colônias agrícolas seja de seringueiras plantadas.
Vale acrescentar que para o plantio de pequenos seringais os agricultores
contam com a ajuda do B.C.A. que criou planos de financiamento para o plantio
de seringais de 1, 4 e 24 hectares. A política do B.C.A. de estimular a criação de
pequenos seringais é criticada sob a alegação de que o melhor seria a formação
de grandes seringais de plantação, como os existentes na Malásia. Entretanto,
cabe assinalar que, do ponto de vista social e econômico, o pequeno seringal
plantado significa um passo no sentido de substituir a condenada indústria
extrativa da borracha. A falta de recursos tem tolhido a iniciativa privada no
plantio de seringueiras e por isso é que o B.C.A. cogita de fundar a He-veabrás,
sociedade anônima com capital inicial de 150 milhões de cruzeiros, que se
destinaria fundamentalmente ao plantio racional de seringueiras (2).
(1) Antônio Teixeira Guerra, obra citada.
(2) Relatório do B.C.A., exercício de 1957.
O vuito das operações do B.C.A. no Acre tem crescido sensivelmente,
como se depreende da evolução do montante das operações da Carteira de
Crédito Geral (1) :
Cr$
Anos milhões
1954 48
1955 82
1956 158
1957 246
No último ano da série, o Acre foi contemplado com 4,5% dos
financiamentos concedidos pela aludida Carteira.
C — O MERCADO
Produção extrativa — Os produtos das atividades extrativas (borracha,
castanha, peixe, couros e peles etc.) compõem o grosso da oferta local de bens.
Isso decorre do próprio fundamento da economia acreana que é a coleta de
riquezas vegetais, na qual está empenhada a maioria da população ativa.
A borracha é o principal produto do Território. Conforme o quadro V, em
1957 foram produzidas 10 270 t de borracha no valor de 428 milhões de
cruzeiros. O Acre é o maior produtor de borracha natural com cêrca de um têrço
da produção do País. Nesse total é ainda inexpressiva a participação da borracha
cultivada. Em 1955, apenas existiam no Território 9 000 pés de seringueiras
plantadas sob financiamento e orientação do B.C.A., contra 899 000 em tôda a
Amazônia (2).
A atual produção situa-se nos níveis da registrada na fase áurea da
borracha, quando o Acre produzia de 10 a 11 000 toneladas de borracha por ano.
Daquela época para cá a produção tem flutuado bastante. A economia do
produto revigorou-se durante a Segunda Guerra Mundial. Os altos preços e as
necessidades da indústria bélica justi-
(1) Relatório do B.C.A., exercício de 1957.
(2) Relatório do B.C.A., exercício de 1955.
3
Fonte: "Anuários Estatísticos do Brasil".
ficavam o custo elevado da implantação de mão-de-obra adicional, representada
pelo migrante nordestino. A partir de 1948, porém, houve um declínio da
produção que se deteve em 1952, graças às medidas de amparo aos seringalistas
adotadas pelo Poder Público. A garantia de preços estáveis e de financiamento
tem contribuído para manter a produção na casa das 10 000 t anuais.
Os seringalistas, no entanto, afirmam que se o crédito fornecido pelo
B.C.A. fosse ampliado haveria maior utilização dos seringais e,
conseqüentemente, aumento de produção. Não resta a menor dúvida de que, nas
condições em que funciona a exploração da borracha silvestre, é necessário
ampliar o financiamento a fim de que aumente a oferta do produto. Mas, como
lembramos acima, o acréscimo da produção far--se-á em regime de custos
marginais crescentes, determinando alta de preços e reflexos negativos sôbre a
indústria nacional de artefatos da borracha (1). Nestas circunstâncias, a
ampliação do financiamento significaria o encorajamento de uma estrutura
produtiva desde há muito condenada.
(1) O sobrepreço de 30% concedido em 1954 não foi incorporado de pronto ao preço da
borracha e foi compensado peia diferença de preços da borracha importada.
A solução para o problema do aumento da produção de borracha natural
consiste na plantação de seringueiras. No entanto, os passos dados nesse sentido,
no Acre, são muito limitados. Uma das razões para o lento progresso da
hèveacultura na Amazônia é que ainda não foi encontrado um tipo de árvore
plantada que concorra, em têrmos de produtividade, com a árvore silvestre. É
sabido que uma "estrada" de 150 seringueiras plantadas produz de 3 a 6 litros de
leite de seringa, contra 10 a 40 litros da mesma "estrada" de seringueiras
silvestres (1). Demais são necessários imensos recursos financeiros para pro-
mover a hèveacultura.
O custo de uma seringueira plantada foi estimado em 30 cruzeiros no ano
de 1951.
O grosso da produção de borracha do Acre é do tipo "fina em pela". A
"fina laminada" sómente foi produzida no município de Rio Branco, em área de
fácil acesso. Êste tipo está bem colocado na tabela de preços do B.C.A. e seria
interessante, pois, que a sua produção fosse incentivada. Para isso é preciso que
os produtores assimilem a técnica do "processo Arantes".
A zona do Alto Purus produz duas vêzes mais borracha do que a zona do
Alto Juruá. O município de maior produção é o da Capital, que inclui áreas dos
rios Abunã e Acre. Convém esclarecer que, transportada por via fluvial para
Porto Velho, a safra da área do rio Abunã é computada nas estatísticas como
produção do Território de Rondônia.
A coleta da castanha é uma atividade subsidiária do seringueiro. Seu
volume de produção depende muito da oscilação dos preços no mercado. Se os
preços são bons o caboclo intensifica a apanha dos ouriços; do contrário passa a
dar mais atenção às culturas de subsistência. Em 1957, foram colhidas 5 000 t de
castanha no valor de 61 milhões de cruzeiros. No quadro VI nota-se que a
melhoria de preços verificada a partir de 1954 contribuiu para sustentar níveis
mais elevados de produção.
(1) Sócrates Bonfim — "Um esbôço da vida Amazônica", in Subsídios para o
Planejamento da Amazônia. Rio, 1954.
Fonte: "Anuários Estatísticos do Brasil".
O problema da castanha não pode ser visto unicamente sob o ângulo dos
preços de mercado. Os métodos de exploração do produto precisam ser
renovados para permitir ganhar-se posição na concorrência com outras
oleaginosas no mercado internacional. A castanha é mal acondicionada nos
centros produtores e quando chega a Manaus, depois de viajar muitos dias em
porões fechados, apresenta sinais de deterioração por fungos e mofos. Para o
estrangeiro também segue em porões impróprios e o resultado é que às vêzes
chega na praça de destino com mais de 10% de deterioração e, portanto,
desvalorizada e sujeita à devolução.
A caça e a pesca são praticadas pelos habitantes da zona rural, com o
propósito de obter carne fresca. Para 1957 foi computada uma produção de
pescado de 272 t no valor de 7 milhões de cruzeiros. Estas cifras, no entanto,
longe estão de refletir a verdadeira importância da pesca do Acre. O caráter
individual dessa atividade suplementar impede que a mesma seja dimensionada
com presteza.
Nos rios do Acre são pescados: pirarucu, carauaçu, tambaqui, tucunaré,
curimatã, piau, surubim, pacu, jundiá e traca já.
Produção agropecuária — ùltimamente, a atividade agrícola ganhou certo
interêsse sob a pressão das dificuldades de transporte, os altos preços dos
gêneros alimentícios importados e o crescimento dos núcleos urbanos. No
entanto, a lavoura é ainda suplementar em relação à atividade extrativista.
Mesmo nas chamadas colônias agrícolas, o colono dedica-se mais à coleta de
produtos florestais e à caça, deixando para segundo plano as atividades
agropastoris.
No Território pratica-se a lavoura de enxada e o sistema de exploração do
solo é o das culturas itinerantes. Uma área é cultivada consecutivamente durante
3 aros, no máximo, e volta a ser utilizada depois da recuperação natural. O
caboclo prefere plantar anualmente em "terras de matas" e prepara a área de
plantio com a "derrubada" e a "queimada". O resultado é que o solo utilizado se
desgasta rapidamente e passa a constituir área de magra pastagem, dada a
ausência de qualquer cuidado racional.
Em 1957 a produção de 14 gêneros agrícolas somou 158 milhões de
cruzeiros e ocupou uma área cultivada de 13 000 hectares. Os principais
produtos cultivados são a mandioca, o milho, o arroz e o feijão, como se
observa no quadro VII.
VII — ACRE — PRODUÇÃO AGRÍCOLA EM 1957
Fonte: "Anuário Estatístico do Brasil" — 1958.
(1) Abacaxi, banana, batata-doce, cacau, café, cana-de-açúcar, cebola, côco-da--baía, fumo
em fôlha e laranja.
Diante de tão baixos níveis de produção, que não dão para atender ao
consumo interno de alimentos vegetais, o Acre precisa de importar gêneros de
outras regiões do País e do estrangeiro (Bolívia). Da região Sul são adquiridos
arroz, batata-inglêsa e cebola, e, da Bolívia, cebola, manteiga e batata-inglêsa,
produtos destinados às cidades de Brasiléia e de Xapuri. Devido à longa
distância a percorrer, os fretes oneram as mercadorias numa média de 50%
sôbre o preço de varejo.
Se bem haja roças nos seringais que atenuam a gravidade do problema da
manutenção do extrativista, ainda assim o abastecimento depende das
importações. Em vista das deficiências de abastecimento, as mercadorias são
vendidas nos seringais a preços muito superiores aos dos centros abastecedores.
A criação depara com um obstáculo sério que é a falta de campos naturais.
Os campos abertos nas matas são fàcilmente invadidos pela capoeira, em áreas
não esgotadas pela lavoura, e têm uma capacidade de suporte que não vai além
de duas reses por hectare. Essas pastagens artificiais exigem no mínimo uma
roçagem por ano.
O interêsse despertado pela pecuária deriva da necessidade de utilizar as
terras cansadas pela lavoura e de atender ao consumo de carne dos centros
urbanos. No Território não há fazendas de gado. A criação de gado leiteiro
realiza-se em pequenas propriedades em volta da cidade de Rio Branco. A
população pecuária, em 1957, compunha-se de 34 000 bovinos, 2 000 eqüinos, 6
000 muares, 84 000 suínos, 15 000 ovinos e 1 000 caprinos. Para que o rebanho
bovino possa atender às necessidades regionais deverá ser aumentado de 4
vêzes. Em face da deficiência do criatório local os acreanos são obrigados a
comprar gado no Amazonas e na Bolívia.
O gado importado do Amazonas provém do município de Eirunepé e serve
para abastecer as cidades do Alto Juruá, especialmente Cruzeiro do Sul. O gado
importado da Bolívia é oriundo de Moscos e destina-se ao abastecimento do
Alto Purus.
A produção de carnes alcançou, em 1957, um total de 919 t, no valor de 40
milhões de cruzeiros, distribuídas do seguinte modo (1) :
(1) "Anuário Estatístico do Brasil" — 1958.
A carne preparada é consumida na sua quase totalidade pela população urbana.
No interior, a caça, a pesca e o gado menor, são as únicas fontes de suprimento
das necessidades de carne.
Relações de intercâmbio — Quase todo o comércio do Território é feito
por água. Pelo que podemos observar no quadro VIII o Acre enquadra-se na
categoria das Unidades da Federação exportadoras de recursos. Em todos os
anos da série a balança comercial acusou saldos
VIII — ACRE — COMÉRCIO DE CABOTAGEM
Fontes: "Anuários Estatísticos do Brasil" e "Mensários Estatísticos" do S.E.E.F. do
Ministério da Fazenda.
Obs.: As estatísticas do comércio de cabotagem não computam a borracha que é
encaminhada para Porto Velho pelo rio Abunã que, inclusive, como esclarecemos no item C, é
considerada produção do Território de Rondônia.
positivos (1). Em 1956 o saldo foi de 324 milhões de cruzeiros, como resultado
de uma exportação de 631 milhões e uma importação de 367 milhões de
cruzeiros.
A pauta de exportação do Território resume-se fundamentalmente na
borracha, castanha, madeira, couros e peles. Estes produtos são todos exportados
para Manaus e Belém, que são entrepostos comerciais da bacia amazônica. É de
ver, porém, que as relações de comércio se fazem de preferência com Belém,
apesar de Manaus estar mais próximo. Isto comprova-se através do montante
das exportações para cada Unidade, em milhões de cruzeiros (2) :
Unidades de
destino 1955 1956
Amazonas ............... 133 191
Pará ........................... 114 440
Enquanto as exportações convergem na totalidade para o Amazonas e o
Pará, as importações apresentam-se diversificadas quanto à procedência. Assim
é que as Unidades que mais exportaram por cabotagem para o Território, em
1956 foram: Pará (116 milhões), Amazonas (92 milhões), Ceará (33 milhões),
São Paulo (32 milhões) e Distrito Federal (29 milhões).
Na composição das exportações do Território ressalta a preponderância da
borracha com cêrca de 80% do valor total. A economia do Acre depende em alto
grau das relações de intercâmbio, pois exporta quase tudo que produz e importa
quase tudo que consome. O comércio com o estrangeiro limita-se a transações
com a Bolívia (gado em pé e gêneros alimentícios) freqüentemente de caráter
ilegal, não computadas nas estatísticas.
(1) Fazemos abstração do comércio por vias internas dada a sua insignificancia.
(2) "Mensário Estatístico" do Ministério da Fazenda, n.° 79.
CAPÍTULO II
O TERRITÓRIO DE RONDÔNIA
A — GENERALIDADES
O Território de Rondônia é o de maior superfície, tendo uma área de 242
983 km
2
correspondente a 2,9% do território nacional. Foi criado em 1943 e está
situado na Amazônia Ocidental entre os paralelos de 7
o
55' 30" S e 13° 41' 30" S
e os meridianos de 59° 50' 45" e 66° 45' 00", a noroeste de Mato Grosso. Foi
formado com terras dos municípios de Humaitá e Pôrto Velho (Amazonas), e
Alto Madeira e Mato Grosso (Mato Grosso). Limita-se ao norte com o
Amazonas, a leste e sudeste com Mato Grosso, ao sul e ao oeste com a Bolívia,
e ao noroeste com o Acre.
O Território é coberto quase totalmente por florestas. Estima-se em apenas
2% a parte da área não coberta de modo contínuo pela floresta tropical, que se
estende pelos largos vales dos rios Guaporé, Ma-moré e Madeira, e seus
afluentes orientais, inclusive pelo norte e nordeste da Bolívia, acompanhando os
vales dos afluentes e subafluentes do Guaporé e do Mamoré, até às suas
nascentes acima dos 3 000 metros de altitude, nas encostas dos Andes. A hiléia
sofre soluções de continuidade nos topos tabulares dos chapadões, onde cede
lugar a formações consideradas de transição entre a mata e o campo. No fundo
do vale do Guaporé é interrompida por grandes e freqüentes manchas de campos
alagáveis (1).
(1) Lúcio de Castro Soares: "Limites Meridionais e Orientais da Área de Ocorrência da
Floresta Amazônica em Território Brasileiro", separata da Revista Brasileira de Geografia n.° 1,
ano XV.
Em regra a topografia do Território não é acidentada e a paisagem local
conserva a monotonia própria da Amazônia, não obstante a presença de duas
serras: a dos Pacaás Novos e a dos Parecia. No alto da chapada dos Parecis
surgem grandes extensões de campos cerrados e de cerradões. Da área do
Território 66% estão compreendidos entre as cotas dos 101 e 300 metros de
altitude (1) :
Cotas (m) Area (km
2
) %
Até 100 11 290 4
101 a 200 72 542 29
201 a 300 95 026 37
301 a 600 70 374 28
601 a 900 4 931 2
Para salientar certos contrastes de configuração os geógrafos dividem o
Território em 4 zonas, a saber (2) :
1 — planície amazônica,
2 — encosta setentrional do planalto brasileiro,
3 — chapada dos Parecis,
4 — vale do Guaporé.
A zona da planície amazônica abrange o norte do Território e compõe-se de
"terras firmes" de formas planas, constituídas por sedimentos areno-argilosos na
parte mais superficial e de material mais argiloso em certa profundidade.
A zona da encosta setentrional do planalto brasileiro fica ao sul da anterior,
abarcando o noroeste do Território, e é atravessada pela Estrada de Ferro
Madeira — Mamoré. Nela o complexo cristalino brasileiro aflora em grandes
trechos desde Santo Antônio da Madeira até um pouco ao sul de Guajará-mirim.
A zona da chapada dos Parecis é formada de uma língua de terrenos
sedimentares que vem de Mato Grosso e segue na direção do noroeste. A
chapada representa o resíduo de um planalto dissecado por alguns rios e o solo é
essencialmente arenoso.
(1) "Anuário Estatístico do Brasil" — 1952.
(2) Divisão feita pelo Professor Fábio de Macedo Soares Guimarães.
A zona do vale do Guaporé constitui uma vasta planície que vai desde a
encosta do escarpamento da chapada dos Parecis até aos primeiros contrafortes
dos Andes, na Bolívia, penetrando, também, por Mato Grosso. Aí a drenagem
do Guaporé faz-se com dificuldade, dando margem ao aparecimento de
numerosos lagos temporários (1).
Os principais rios que atravessam o Território são o Madeira, formado pela
reunião do Mamoré e do Beni, o Mamoré e o seu afluente Guaporé. De modo
direto ou indireto todos os rios que cortam o Guaporé vão desaguar no Madeira.
Êste rio tem importância estratégica no sistema de comunicações da região, pois
através dele é que se fazem as comunicações fluviais com a região Norte e, por
assim dizer, com o resto do País. Porém a sua utilização como via de transporte
sofre solução de continuidade a montante de Porto Velho. Entre Porto Velho e
Guajará-mirim existem 17 corredeiras e duas cachoeiras.
Com respeito à hidrografia cumpre assinalar, ainda, a existência de dois
tipos principais de drenagem: um de escoamento lento da água, que ocorre na
planície dos rios Mamoré e Guaporé, e outro de escoamento rápido, verificado
na quase totalidade dos rios que descem das chapadas dos Parecis e Pacaás
Novos. Na maioria dos rios o período da cheia ocorre de fins de novembro até
início de abril, época em que as águas começam a descer. A estiagem que daí se
segue provoca perturbações no sistema de transporte fluvial.
O aproveitamento dos solos para fins produtivos oferece os mesmos
problemas assinalados em relação ao Acre, em virtude dos métodos de cultivo
empregados. O processo de perda de silica e de concentração de hidróxidos de
ferro e de alumínio, sob a forma de cascalho de nódulos, blocos ou crostas
contínuas, denominado de laterização, tende a transformar a área coberta de
floresta em futuros campos cerrados, devido à derrubada indiscriminada das
matas.
O clima do Território é quente e úmido com curta estação seca, com a
particularidade de constituir uma transição entre o clima da Amazônia e o do
Brasil Central. Em 1952, a estação meteorológica de Porto Velho registrou 32°
para a média das máximas e 21° para a média
(1) Antônio Teixeira Guerra: "Observações Geográficas sôbre o Território do Guaporé", in
Revista Brasileira de Geografia, abril-junho de 1953.
das mínimas. A temperatura chega a cair a menos de 10° por ocasião da
"friagem" (1), causando intensa sensação de frio devido à elevada umidade do ar
(84%).
Em Rondônia que apresenta uma alta coluna pluviométrica (2 462 mm), as
chuvas são regularmente distribuídas. Ao Norte do Território chove mais do que
ao Sul, razão por que em Porto Velho a estação seca está restrita a 3 meses
(junho a agosto), enquanto em Vilhena, no chapadão dos Parecis, se estende por
4 meses (maio a agosto).
O Território divide-se em apenas dois municípios (2) :
Em 1950, viviam no quadro urbano e suburbano 37% da população total. O
centro urbano mais desenvolvido (Porto Velho, Capital do Território) possuía 10
036 habitantes. Na cidade de Guajará-mirim registrou-se 2 582 pessoas.
A cidade de Porto Velho atua como entreposto comercial do noroeste da
Bolívia. Para isso concorre o fato de ser ponto terminal da navegação no
Madeira e ponto inicial da E.F. Madeira — Mamoré.
B — FATÔRES DA PRODUÇÃO
População e mão-de-obra — A ocupação do Território verificou-se no início do
século, na fase da valorização da borracha. No entanto, a penetração do
elemento humano pelos principais cursos de água foi muito lenta, devido aos
obstáculos naturais e às dificuldades no trato com as tribos indígenas da região.
Em 1950, o Censo registrou em Rondônia uma população de 36 935 pessoas (20
916 homens e 16 019 mu(l) Êste fenômeno é provocado por massas de ar frio
provenientes da Patagônia que penetram na bacia amazônica através da depressão
formada pelo vale do Guaporé.
(2) "Anuário Estatístico do Brasil" — 1953.
lheres) correspondente a 0,07% da população do País. Deve ser salientado o
enorme contingente de naturais de outras Unidades da Federação, tanto assim
que na data do último Censo os naturais do Território apenas representavam
15% da população total. As Unidades da Federação que mais contribuíram para
a expansão demográfica do Território forarn o Amazonas, Mato Grosso, Ceará e
Pará. Em 1950 era o seguinte o número de naturais dêsses Estados presentes no
Território (1) :
Unidades da Federação Indivíduos
Amazonas ................................... 12 026
Mato Grosso ................................ 6 160
Ceará ......................................... 3 258
Pará .............................................. 2 327
Os dados sôbre a densidade demográfica do Território, por ocasião do
Censo de 1950 são os seguintes (2) :
Municipios Habitantes Hab./km
2
Guajará-mirim .............. 9 691 0,11
Porto Velho....................... 27 244 0,18
Território ................. 36 935 0,15
Com a média de 1 habitante para cada 7 km
2
, o Território tem sua
população radicada nas margens do rio Madeira e seus afluentes, sendo os mais
habitados, no município de Guajará-mirim, os rios Pacaás Novos e São Miguel,
e no município de Porto Velho, os rios Candeias e Jamari, nos quais as mais
povoadas áreas se localizam nos altos cursos, onde há grandes seringais.
As estimativas sôbre a população indígena são muito precárias, oscilando
entre 10 000 e 50 000 silvícolas. Em número relativamente elevado,
provavelmente dominam cêrca de um terço do Território. A presença do índio
atemoriza o seringueiro, desencorajando-o a penetrar mais a fundo na floresta.
(1) S.N.R.
(2) "Anuário Estatístico do Brasil" — 1953.
Em 1950, a população ativa do Território compreendia 14 577 pessoas ou
sejam 39% da população total. A maioria estava ocupada na extração de
produtos da floresta (borracha, castanha, ipecacuanha) e o setor primário retinha
66% dos efetivos (ver quadro I).
O seringueiro de Rondônia vive numa absoluta dependência da produção
da borracha, em menor escala da coleta da castanha, a não ser quando os preços
desta estão em alta, sendo quase nula a sua atividade agrícola. Assim é que, nos
meses das chuvas intensas (outubro a março), prefere abandonar os seringais e
emigrar para os centros urbanos, onde gasta o pouco dinheiro que ganhou na
safra da borracha. Quando trabalha no seringal o extrator fica inteiramente
absorvido pela coleta do látex, saindo da cabana de madrugada para cortar a
árvore e voltando à tarde para defumar o látex até ao findar do dia.
Com a descoberta de diamantes no Alto Jiparaná, a partir de 1951,
aumentou considerávelmente o número de "faiscadores" no Território.
Fonte: Censos de 1950.
(1) Agricultura e Indústrias Extrativas. Usamos o critério adotado pelo Centro de Estudos
da F.G.V.: Homens maiores de 15 anos, Censo Demográfico; Homens menores de 15 anos, Censo
Agrícola; Mulheres, Censo Agrícola.
(2) Pela dificuldade em se criar um critério objetivo, resolvemos usar os dados do Censo
Demográfico, embora não nos pareçam estes muito próximos da realidade para êste ano.
(3) Incluímos neste ramo: Prestação de Serviços, Profissões Liberais, Atividades Sociais,
Administração Pública e Defesa Nacional.
Recursos naturais — Os recursos vegetais são a fonte de quase tôda a
riqueza do Território. Seringueira, caucho, balata, castanheiro, ipecacuanha e
madeiras de lei são as espécies que atraem o homem à floresta, fazendo-o
desprezar as demais atividades rurais por serem menos rendosas que a coleta de
produtos silvestres. A seringueira é a mais importante riqueza local, sendo
encontrada abundantemente nos largos vales dos rios Jaciparaná, Candeias,
Jamari, Preto, Roosevelt e Jiparaná.
O sistema da exploração dos seringais é idêntico ao que observamos em
relação ao Acre. Apenas cabe acrescentar que, sendo de um modo geral,
administrado de forma individual, na verdade funciona na base de relações de
produção pré-capitalistas. Um dos maiores seringais do Território está
organizado sob a forma de sociedade limitada (Jaciparaná Ltda.) e emprega mais
de 300 seringueiros aos quais paga 60% do valor líquido da produção. O lucro
da emprêsa não deriva apenas da diferença do preço da borracha que retém,
mas, também, da sua atividade como estabelecimento comercial, vendendo a
preços elevados as utilidades indispensáveis aos seringueiros.
As riquezas minerais são pouco conhecidas devido às dificuldades de
penetração no interior da floresta. O único recurso mineral explorado é o
diamante, no distrito de Rondônia. Também há indicações de ocorrência de
diamantes nos rios Jiparaná, Alto Guaporé, Jamari, Jaciparaná e Cobixi. Na
localidade chamada Fortaleza foi assinalada a presença de mica em abundância,
e na vila de Rama-Rama e adjacências foram encontradas amostras de hematita
e magnetita. Perto de Oriente foram colhidas amostras de cassiterita que na
análise química revelaram alto teor (1).
O Território tem um potencial hidráulico estimado em 1 500 000
C.V..
Transportes — Já tivemos oportunidade de assinalar a importância
estratégica do rio Madeira, utilizado como via de acesso a Manaus. Êste rio foi
sulcado por transatlânticos por ocasião da construção da ferrovia Madeira—
Mamoré e atualmente é navegado por vapores do
(1) Clara Martins Pandolfo — "Recursos Minerais da Região Amazônica", Belém, 1955.
S.N.A.P.P. de 500 a 1000 tonelaldas. Sujeito a variações de descarga, é
franqueado à navegação em apenas 5 meses do ano. Os afluentes Jiparaná e
Jamari só podem ser navegados por pequenas embarcações de 200 a 500
toneladas nos seus baixos cursos, assim mesmo apenas na ocasião das cheias. O
Mamoré é navegável sómente a montante do Guajará-mirim, por causa das
cachoeiras e corredeiras a que nos referimos atrás.
Dos 6 portos fluviais do Território o mais importante é o de Porto Velho,
administrado pela ferrovia, o qual registrou nos últimos anos o seguinte
movimento (1) :
Tonelagem
N.° de de registro
Anos ¡navios (1 000 t)
1955 122 21
1956 105 34
1957 105 23
As ligações rodoviárias ainda não têm expressão nos sistemas de transporte
local. Em 1957 apenas estavam em tráfego 508 km de estradas de rodagem,
sendo 262 km de estradas federais e 246 de estradas municipais. Da BR-29, que
ligará o Acre a Mato Grosso, via Rondônia. estavam construídos 16 km, de
Abunã à divisa do Território, e 185 km, de Porto Velho a Caritianas. A
concretização desta grande rodovia poderá fazer de Porto Velho o entreposto
comercial do Alto Purus, visto que o Madeira tem boas condições de
navegabilidade até Porto Velho e, mais tarde, permitirá o abastecimento da parte
mais ocidental da Amazônia, por via terrestre, com mercadorias provenientes do
Sul, via Cuiabá.
No sistema de transporte sobressai a E. F. Madeira—Mamoré, construída
em obediência a uma cláusula do Tratado de Petrópolis. Apesar do seu fraco
movimento, é a única via de escoamento da produção do noroeste da Bolívia e
de Mato Grosso, em direção ao oceano. Contorna os trechos encachoeirados dos
rios Madeira e Mamoré, inacessíveis à navegação franca.
(1) "Anuário Estatístico do Brasil", 1958.
4
A ferrovia começou a ser construída em 1907 e só foi terminada em 1912.
As condições de insalubridade da zona que atravessa contribuíram para a
lentidão da construção. A maior parte dos trabalhadores empregados na obra
eram estrangeiros, muitos deles habituados a trabalhar em regiões insalubres.
Uma publicação da Brasil Railway Company dava conta que, de 1907 a 1912,
morreram 1 593 pessoas empenhadas nos trabalhos da estrada (1).
A ferrovia é de linha singela, bitola de 1 metro, e tem 366 km de extensão.
Para aquilatar a reduzida expressão econômica da estrada, basta comparar o seu
volume de tráfego com o de outras ferrovias, no ano de 1956 (2) :
t-km/km
E. P. Madeira — Mamoré .. 17 051
E. F. Goiás ............................... 382 942
Santos a Jundiaí ........................ 2 866 756
Apesar do minguado volume, o transporte remunerado de mercadorias tem
crescido sensivelmente no período 1952-1956 (3) :
Anos 1 000 t/km
1952 4 610
1953 5 104
1954 4 644
1955 4 761
1956 6 240
A borracha ocupa cêrca de 90% do tráfego remunerado de mercadorias. A
estrada transporta borracha de Rondônia, da Bolívia e do Acre (a dêste último
procede da margem esquerda do Abunã). Os maiores embarques do produto
fazem-se na estação de Guajará-mirim, ponto terminal da estrada.
A ferrovia utiliza máquinas a vapor e neste decênio foi reforçada peia
aquisição de 12 unidades de 30 toneladas e substituiu 100 000 dormentes, por
conta de verbas do Plano Salte. É propósito do Govêrno
(1) Antônio Teixeira Guerra, obra citada.
(2) "Estatística das Estradas de Ferro do Brasil", 1952-1956.
(3) Idem.
Federal elaborar um programa de reaparelhamento da estrada à altura das
necessidades reais dos transportes, lançando mão de recursos da S.P.V.E.A.
(1).
A situação financeira da ferrovia, é expressa nos dados do quadro II
referente aos exercícios financeiros de 1952-1956. Nos 5 anos, a receita global
correspondeu a menos de 20% da despesa total.
II — RONDÔNIA — RECEITA E DESPESA DA E. F. MADEIRA
— M AMORÉ
(Cr$ 1.000)
Anos Receita Despesa Saldo
1952 7.261 29.041 — 21.780
1953 6.849 36.628 — 29.779
1954 7.087 47.932 — 40.845
1955 6.772 59.569 — 52.797
1956 8.778 92.119 — 83.341
Total 36.747 338.289 — 201.542
Fonte: "Estatística das Estradas de Ferro do Brasil", 1952-1956.
O maior item da despesa é o relativo ao pagamento do pessoal que em
1956 abrangeu 67% da despesa total. Neste ano, a estrada acusou uma média
mensal de 808 empregados.
Capital e investimentos — No quadro de uma economia quase primitiva
como a de Rondônia perde significação o conceito de stock de capital. Apesar
disso, queremos referir-nos aos resultados do processo de acumulação que
acompanha o crescimento das atividades urbanas e a expansão dos meios de
transporte.
Pelo Censo, em 1950, havia no Território um total de 52 milhões de
cruzeiros de capital aplicados, assim distribuídos: na agricultura, 12 milhões, na
indústria, 5 milhões, no comércio, 23 milhões, e nos serviços, 7 milhões. Não
nos aventuramos a fazer estimativas sôbre o valor das construções urbanas e do
patrimônio da ferrovia Madeira—Mamoré por falta de informações adequadas.
(1) "Estradas de Ferro do Brasil" — 1956.
O setor público tem concorrido para o processo de acumulação no
Território. Entre os investimentos mais expressivos contam-se a abertura da
rodovia BR-29 e o reaparelhamento da Madeira—Mamoré, pelo Govêrno
Federal. No 1.° Plano Qüinqüenal da S.P.V.E.A. (1955--1959) foram destinados
142 milhões de cruzeiros para investimentos em transportes e energia, assim
distribuídos: 27 milhões em rodovias, 76 milhões na ferrovia, 4 milhões em
aeroportos e 35 milhões em energia. Como se vê, a Madeira—Mamoré
absorverá a metade dos investimentos programados pela S.P.V.E.A..
C — O MERCADO
A oferta local de bens compõe-se quase inteiramente de produtos
extrativos, principalmente borracha e castanha, pouco valor tendo a produção de
madeiras, couros e peles e pescado. O Território ocupa posição de relevo na
produção nacional de borracha, sendo a terceira Unidade da Federação que mais
produz goma elástica. Segundo o quadro III, em 1957, Rondônia produziu 6 000
toneladas no valor de 271 milhões de cruzeiros, equivalentes a cêrca de um
quinto da safra nacional.
Fonte: "Anuários Estatísticos do Brasil".
No Território, verificam-se os fenômenos de estagnação da economia da
borracha mencionados no capítulo relativo ao Acre, com a diferença de que em
Rondônia a escassez de braços tem servido para justificar os atuais níveis de
produção.
Dentro das presentes condições em que se faz a coleta do látex não é
possível elevar a margem da remuneração do seringueiro. Enquanto a economia
da borracha propiciar baixa remuneração não so pode esperar um afluxo de
braços para os seringais. Não será suficiente que o Poder Público intervenha no
problema como está pretendendo fazer, através do B.C.A., ajudando
financeiramente a colocação de migrantes nos seringais. Em 1957 o B.C.A.
empregou meio milhão de cruzeiros no encaminhamento de novos trabalhadores
para os seringais de Rondônia. No entanto, o próprio B.C.A. reconhece que não
tem conseguido êxitos palpáveis no sentido de aliviar a falta de mão-de-obra.
Os seringais plantados, que poderão dar ao seringueiro outras condições de
vida e melhor remuneração, ainda estão em fase embrionária. Até 1955, haviam
sido plantadas sob financiamento e orientação do B. C. A. apenas 123 000
seringueiras. Em 1957, o B. C. A. apenas despendeu um milhão de cruzeiros
para a formação de seringais de cultura, em Rondônia.
Rondônia é o único Território que dispõe de uma usina de beneficiamento
da borracha financiada pelo B.C.A.. Situada em Porto Velho, a referida usina
lavou 3 561 toneladas de goma em 1957, volume correspondente a 54% da safra
do ano (1).
O desinterêsse dos seringueiros pela coleta da castanha revela-se nos
números do quadro IV. Em 1957, a oferta de castanha proveniente de Rondônia
foi inferior a um terço da safra do Território do Acre.
A agricultura praticada no Território é bastante incipiente. A produção de
1957, referente a 11 culturas, não foi além de 14 milhões de cruzeiros e apenas
cobriu uma área de 1 500 hectares. Como decorrência disso, é acentuada, ainda
mais do que no caso do Acre, a dependência de produtos alimentares
importados.
(1) Relatório do B.C.A., exercício de 1957.
IV — RONDÔNIA — PRODUÇÃO DE CASTANHA-DO-PARÁ
Quantidade Valor
Anos (t) (Cr$ 1 000)
1948
182
566
1949
654
1.809
1950
1 099
3.958
1951
1 612
8.219
1952
1 597
8.073
1953
759
4.250
1954
1 869
15.218
1955
1 370
12.051
1956
1 746
23.168
1957
1 620
17.519
Fonte: "Anuários Estatísticos do Brasil".
Há razões que levam o caboclo a preterir o cultivo agrícola. No seringal,
não é viável o cultivo da terra, nem pode o trabalhador esperar meses até à
colheita. Por isso, sempre que surge uma oportunidade, larga o trato da terra e
vai para o seringal. Isso acontece inclusive com os lavradores das colônias
agrícolas. Como só conseguem o título de proprietários dos lotes após 10 anos
de cultivo prevalece a atração pela aventura do látex.
As autoridades pretendem incentivar a atividade agrícola com a
organização de colônias. Os resultados ainda são negativos e sómente algumas
áreas das colônias Candeias (perto do Porto Velho) e da colônia Presidente
Dutra (próximo a Guajará-mirim) estão exploradas. É de ver que em Rondônia a
formação de colônias agrícolas não tem o mesmo sentido de combate ao
latifúndio que se observa no Acre. O que se procura apenas é garantir uma fonte
interna de suprimento de gêneros agrícolas.
O criatório quase não existe no Território, limitando-se, em 1957, a um
rebanho de 9 000 bovinos e 14 000 suínos, entre outros. A carência de pastos é
considerada a causa principal do atraso da pecuária. Segundo estudos do I.A.N.,
os campos do rio Guaporé podem suportar
75 000 cabeças de gado, sendo mais ricos em forrageiras do que os da ilha de
Marajó e do Território do Rio Branco (1).
O abastecimento de carne para as cidades de Porto Velho e Guajará--mirim
baseava-se na importação de gado da Bolivia. Em 1957, a produção de carne
pela indústria de alimentação atingiu 952 toneladas no valor de 35 milhões de
cruzeiros (2) :
Relações de intercâmbio — Na apreciação das relações de intercâmbio do
Território, limitamo-nos a algumas observações sôbre o movimento estatístico
do comércio de cabotagem (quadro V). O Território mantém uma balança
comercial positiva sendo, portanto, exporta-
V — RONDÔNIA — COMÉRCIO DE CABOTAGEM
Fontes: "Anuários Estatísticos do Brasil" e "Mensários Estatísticos" do S.E. E.F. do
Ministério da Fazenda.
(1) Observação do I.A.N., transcrita por Antônio Teixeira Guerra, ob. cit..
(2) "Anuário Estatístico do Brasil", 1958.
dor de recursos. Em 1956, exportou 283 milhões de cruzeiros e importou 257
milhões, em mercadorias, ficando um saldo favorável de 26 milhões.
O quadro VI mostra-nos que as praças de Manaus e Belém exercem grande
influência no comércio de importação do Território, mas que o mesmo não
acontece quanto ao comércio de exportação. Com efeito, enquanto do Amazonas
e do Pará procederam 69% das importações de mercadorias, para as mesmas
Unidades Federativas apenas se destinaram 44% das exportações por
cabotagem. Mais da metade das exportações (56%) foi feita para São Paulo, que
é a Unidade que mais compra borracha de Rondônia. No comércio da borracha,
o Território dispõe de uma usina de lavagem do produto, o que permite a venda
direta aos centros consumidores.
VI — RONDÔNIA — DESTINO DAS EXPORTAÇÕES E PROCEDÊNCIA DAS IMPORTAÇÕES
POR UNIDADE DA FEDERAÇÃO EM 1956
(milhões de cruzeiros)
Na Amazônia, Belém é a praça com a qual o Território mais comercia.
Infelizmente não temos elementos para apreciar a importância do movimento
comercial com a Bolívia.
CAPÍTULO III O TERRITÓRIO DO RIO
BRANCO
A — GENERALIDADES
O Território do Rio Branco, com a superficie de 230 660 km
2
(2,7%
do territòrio nacional), foi criado em 1943, abrangendo áreas dos mu
nicípios amazonenses de Boa Vista, Moura e Barcelos. Está situado na
Amazônia Setentrional, entre os paralelos de 5
o
16' 19" N e lº 27' 00" S
e os meridianos de 58° 58' 30" E e 64° 39' 30" O, tendo por limites : ao
norte e noroeste a Venezuela, a leste a Guiana Inglêsa, a sodoeste o
Pará e ao sul e sudoeste o Amazonas.
Do ponto de vista fisiográfico, pode ser dividido em 3 zonas:
1 — montanhosa
2 — penepiano
3 — planície sedimentar
A zona montanhosa compreende as serras situadas ao norte do Território,
onde são encontradas rochas do complexo cristalino, dos períodos arqueano e
algonquiano.
A zona do penepiano abrange tôda uma área de terrenos antigos bastante
desgastados pela erosão, situada ao sul e a leste da cadeia de montanhas, quase
tôda ela coberta de vegetação campestre.
A zona da planície sedimentar compreende a faixa marginal do rio Branco
e do rio Negro, constituída pelo manto sedimentar terciário. Em grande parte a
planície é alagada nas margens dos rios (1).
(1) Antônio Teixeira Guerra: "Estudo Geográfico do Território do Rio Branco", I.B.G.E..
A distribuição da área do Território, segundo a altitude, mostra o
predomínio da planície e do penepiano (1) :
Cotas (m) Área (km
2
) %
Até 100 24 500 11
101 a 200 104 428 49
201 a 300 53 578 25
301 a 600 19 127 9
601 a 900 10 708 5
901 e mais 1 975 1
As principais serras do rio Branco são a Parima e a Paracãima, pertencentes
ao sistema Parima. O ponto culminante é o monte Ro-roima com 2 875 metros.
O mais importante curso de água que atravessa o Território é o rio Branco,
formado pela reunião dos rios Uraricuera e Tacutu. Tem 640 km de curso e é o
principal afluente da margem esquerda do rio Negro. Através dele é que se
fazem as comunicações entre a Capital do Território e a cidade de Manaus. Da
mesma forma que os demais cursos de água situados na periferia da bacia
amazônica, está sujeito a profundas variações de nível que afetam sobremodo o
transporte de carga na época do "verão".
O trecho do baixo rio Branco, desde a foz até Caracaral, é caracterizado
pela presença de barrancos no "verão" e corta uma zona de topografia
sensivelmente aplainada; no curso médio encontram-se as corredeiras em que as
águas cortam as rochas do embasamento cristalino. O alto rio Branco corta uma
larga extensão do penepiano.
O período das cheias, na bacia do rio Branco, vai de março a setembro. As
águas atingem o nível mais elevado em junho. No período seco, de outubro a
fevereiro, as águas baixam tanto que se torna impossível a navegação franca até
Caracaraí. Os bancos de areia põem em perigo as embarcações de maior calado.
A floresta cobre 72% da superfície do Rio Branco, ressaltando, na área
restante, a vegetação de campo e o cerrado. A densa floresta encontrada no
baixo rio Branco é um prolongamento da floresta hileia-
(1) "Anuário Estatístico do Brasil", 1953.
na e a diversidade de vegetação entre o Sul e o Norte do Território prende-se à
diversidade do clima. Na planície chove mais, de modo que a elevada umidade
favorece o desenvolvimento da mata frondosa. Não se trata, pois, de que os
solos da plalnície sejam mais ricos. A floresta desaparece um pouco acima de
Caracaraí para dar lugar à vegetação campestre.
Os campos do Rio Branco são famosos pela possibilidade que oferecem
para o criatório, mas estão degradados pelo uso sistemático do fogo. Abrangem
solos pouco úmidos e não proporcionam gramíneas ricas em nutrientes para o
gado. Esta deficiência dos pastos naturais não permitem que os animais aí
criados tenham porte avantajado. Apesar disso, a principal riqueza do Território
é o seu rebanho bovino.
No Rio Branco, enquanto na zona dos campos o clima se apresenta quente
e úmido, com longa estação seca no verão, na planície sedimentar, a estação
seca é de menor duração, com totais pluviométricos anuais que favorecem a
existência da floresta densa. Êste último é um clima de transição para o
registrado no alto rio Negro (clima equatorial super úmido sem estação seca).
No penepiano, a umidade relativa do ar é bem menor do que na planície
sedimentar, visto que nesta última chove mais. Às vêzes passam-se 4 meses sem
que caia qualquer chuva nos campos do Rio Branco. Para se precaver contra os
rigores da estação seca, os fazendeiros costumam criar o gado junto às
depressões do penepiano, onde se acumulam águas das chuvas. Em 1957, a esta-
ção metereológica de Boa Vista registrou uma altura pluviomètrica total de 2
462 mm ; quanto à temperatura, no mesmo ano, foi de 30,8°C a média das
máximas e de 24,5° a média das mínimas.
O Território tem dois municípios: Boa Vista com 157 000 km
2
e Caracaraí
com 74 000 km
2
. O primeiro é o mais próspero, pois abrange a zona dos
campos, onde domina a pecuária, e das montanhas, que tem a garimpagem como
principal atividade. O segundo é muito pouco explorado, apesar das riquezas
vegetais que encerra. Uma grande área do Território, situada a noroeste,
permanece praticamente desconhecida.
B — FATÔRES DA PRODUÇÃO
O Rio Branco é o menos povoado dos Territórios. Em 1950, segundo o
Censo, tinha uma população de 18 116 habitantes, correspondente a 0,03% da
população do País, disseminada pelos campos ou espalhada pelas margens de
alguns rios da planície. O baixo índice de ocupação do Território constata-se
pelos números abaixo (1) :
Municipios Habitantes Hab./km
2
Boa Vista ...................... 17 247 0,11
Caracaral ....................... 869 0,01
Território ............ 18 116 0,08
Assim é que, em 1950, havia em média 8 habitantes por 100 km
2
, no
Território. Cêrca de 95% da população encontrava-se no município de Boa
Vista, sendo a Capital o único núcleo urbano então existente.
Na cidade de Boa Vista estavam presentes 5 000 pessoas, na data do
Censo, de modo que 28% da população do Território pertencia ao quadro
urbano. É interessante assinalar que o aumento de população notado no decênio
intercensitário foi devido, pràticamente, ao crescimento da população da
Capital. Nos campos, o número de habitantes manteve-se quase estável em
razão da crise prolongada que a pecuária vem experimentando.
Segundo revela o quadro I, a população ativa, em 1950, compreendia cêrca
de 7 000 pessoas que representavam 36% da população total. 75% da fôrça de
trabalho estavam ocupadas nas atividades primárias (extrativismo vegetal,
mineração, pecuária e lavoura). Os trabalhadores ligados ao criatório constituem
uma população sedentária, enquanto os "faiscadores" formam um contingente
flutuante.
(1) "Anuário Estatístico do Brasil", 1953.
I — RIO BRANCO — MÃO-DE-OBRA OCUPADA, EM 1950
(1) Agricultura e indústrias extrativas. Usamos o critério adotado pelo Centro de Estudos
da F. G. V.: 1950 — Homens maiores de 15 anos, Censo Demográfico; Homens menores de 15
anos, Censo Agrícola; Mulheres, Censo Agrícola.
(2) pela dificuldade de se criar um critério objetivo, resolvemos usar os dados do Censo
Demográfico de 1950, embora não nos pareçam estes muito próximos à realidade no que diz
respeito às mulheres.
(3) Incluímos neste ramo: Prestação de Serviços, Profissões Liberais, Atividades Sociais,
Administração Pública e Defesa Nacional.
Apesar de ter 72% do seu território coberto pela floresta, o Rio Branco não
dispõe de grandes concentrações de seringueiras, razão por que a produção
extrativa de borracha é inexpressiva. A Hévea Bentha-miana, a sorva e a balata,
são árvores encontradas com relativa abundância, porém têm o inconveniente de
produzir menos látex, e de qualidade inferior à da Hevea Brasiliensis.
Os recursos minerais do Território são representados, principalmente, pelas
jazidas de ouro e diamante exploradas de longa data na serra do Tepequém, no
alto Surumu e nos rios Meang. Maú e Quinô. Os "faiscadores" que trabalham
por conta própria vendem a sua produção aos "diamantários", compradores
avulsos de pedras, ao passo que os vinculados a emprêsas são obrigados a
vender a sua produção ao minerador, recebendo 50% do valor das pedras.
No Território, existem várias jazidas de diatomito, em particular na área de
Boa Vista. A principal delas está situada em Puraqué, entre os rios Surumu,
Tacutu e Maú, com 1 a 2 metros de espessura e um volume provável de 50 000
m
3
de minério de boa qualidade (1).
A circulação de riquezas sofre com as dificuldades de transporte e os
elevados fretes que incidem sôbre as mercadorias. No rio Branco, a navegação é
franca da foz até Caracaral. Dêste ponto até Bôca da Estrada, no trecho
encachoeirado, a navegação torna-se muito perigosa. Assim, pràticamente há
uma interrupção nas comunicações fluviais entre Manaus e Boa Vista. Para
contornar êste obstáculo, está em construção uma rodovia entre Boa Vista e
Caracaraí, em condições técnicas de baixo padrão. Êste último porto fluvial, que
é o ponto terminal do trecho francamente navegável do rio Branco, comporta
embarcações de 3 pés de calado em plena estiagem.
A atual rêde de transporte não oferece segurança de tráfego em nenhuma
estação. No inverno, o tráfego de embarcações pelo rio Branco melhora mas, em
virtude das abundantes chuvas que caem, as populações dos campos ficam
inteiramente isoladas. No verão, melhora o transporte terrestre na zona dos
campos porém o transporte fluvial, com a excessiva queda do nível das águas,
torna-se precário. Durante as cheias são gastos de 8 a 10 dias de viagem entre
Manaus e Boa Vista; na vazante, são necessários de 15 a 20 dias (2).
O problema dos transportes assume aspectos dramáticos quando se trata de
abastecer os garimpeiros nas montanhas. As mercadorias têm de ser
transportadas por "comboios" de bois desde Bôca da Mata até o garimpo.
No Plano Rodoviário Nacional está prevista a construção de uma estrada, a
BR-17, que ligará Manaus a Boa Vista, e ainda se estenderá até São Salvador,
na fronteira com a Guiana Inglêsa. O primeiro trecho tende a contornar as
dificuldades de navegação no rio Branco durante a vazante e o segundo
permitirá que a zona do garimpo comercie com a cidade de Georgetown, porto
de mar servido pela navegação oceânica.
(1) Clara Martins Pandolfo: "Recursos Mineirais da Amazônia", Belém, 1955.
(2) Antônio Teixeira Guerra, ob. cit..
No l.° Plano Qüinqüenal da S.P.V.E.A. (1955-1959) forarn consignados
45 milhões de cruzeiros para a abertura de estradas no Rio Branco, incluindo a
construção da ligação Boa Vista—São Salvador e a reconstrução da ligação Boa
Vista—Caracarai.
C — O MERCADO
A principal atividade econômica no Território é a pecuária, praticada nos
campos do alto rio Branco, desde longa data. Infelizmente o desconhecimento da
técnica de criação racional, por parte dos fazendeiros e criadores, não permitiu
que o mais importante recurso natural do Rio Branco fosse aproveitado com
bom rendimento. O abandono em que foi deixado o gado, criado à solta sem
qualquer trato ou cuidado, fêz com que o falado rebanho de 300 000 cabeças,
provavelmente existente na década dos anos 30, ficasse reduzido à metade, nos
dias atuais. Alguns estudiosos chegam a estimar que, se fossem ado-tados novos
métodos de criação, os campos do alto rio Branco poderiam suportar um
rebanho de 3 milhões de bovinos.
Os campos deixam a desejar em matéria de qualidade de gramínea. A falta
de calcário no solo é de tal monta que não raro as reses revelam uma ossatura
frágil. De modo geral, o gado prefere os campos de baixada onde encontra
gramíneas macias e tenras. Nos campos altos o capim apresenta-se um pouco
endurecido em virtude da sistemática queimada dos campos. Esse processo de
degradação das pastagens continua e os fazendeiros e criadores resistem ao
plantio de forrageiras que garantam bom pasto ao gado, principalmente no
verão, quando as pastagens naturais secam ràpidamente.
Na serrania, há campos com melhor forragem do que na chapada, porém,
por causa das condições topográficas, são impróprios para a criação em larga
escala.
O gado bovino criado no Território é o "pé-duro", de porte acanhado, para
corte. Em média, o peso de um bovino é de 170 kg. A baixa produtividade do
rebanho é atribuída de um lado, à falta de cruzamento com tipos raciados, e de
outro, à pobreza das forrageiras nativas. O Govêrno local tem adquirido
reprodutores de raça para incen-
tivar o raciamento. No entanto, os efeitos dessa medida são diminutos, em parte
devido à resistência dos fazendeiros, sintetizada na frase: "o gado é que faz o
criador".
O rebanho rio-branquense tem sido dizimado pelo ataque da raiva. O
descuido das condições sanitárias e a falta de vacinação preventiva têm
facilitado a ação destrutiva dessa epizootia. Às vêzes a raiva dizima o gado de
fazendas inteiras e o mais curioso é que os criadores assistem ao flagelo de
braços cruzados.
Em 1957 a população pecuária do Território resumia-se a 140 000 bovinos,
000 eqüinos, 4 000 asininos, 2 000 muares, 12 000 suínos, 4 000 ovinos e 1 000
caprinos. Os campos do Rio Branco são o maior fornecedor de gado para
Manaus. O gado é transportado em pé até Boa Vista e de lá transportado para
Manaus em embarcações especiais chamadas "boieiras".
A produção de carnes para consumo local, em 1957, montou a 586
toneladas, no valor de 16 milhões de cruzeiros (1) :
Reses Carne Valor
Espécies abatidas preparada (t) (Cr$ 1 000)
Bovinos ........................... 3 949 573 15.748
Suínos .............................. 429 13 450
Ovinos.............................. 17 0 12
Total .................... 4 395 586 16.210
A atividade agrícola é incipiente, bastando citar que, em 1957, a produção
dos 11 gêneros mais importantes foi da ordem de 14 milhões de cruzeiros. A
lavoura implantada nas colônias agrícolas fundadas pelo Govêrno visa a garantir
o abastecimento de Boa Vista.
A produção extrativa vegetal predomina no baixo rio Branco e o seu
principal produto é a castanha. A safra de 1957 foi da ordem de 11 milhões de
cruzeiros.
Relações de intercâmbio — O comércio de cabotagem do Território é
deficitário. Não dispondo de uma riqueza de fácil colocação no inerii)
"Anuário Estatístico do Brasil", 1958.
cado nacional, como a borracha, produto que sustenta a economia dos
Territórios do Acre e Rondônia, o Rio Branco permanece como importador de
recursos.
II
RIO BRANCO — COMÉRCIO DE CABOTAGEM
Fonte: "Anuários Estatísticos do Brasil".
No último ano da série, o Território pôde pagar menos de um terço das
importações com o produto das exportações regionais. Em anos anteriores, as
importações tiveram de ser cobertas quase que totalmente com recursos externos
em face do diminuto volume das exportações. O Território não dispõe de
recursos próprios para manter a sua população, mesmo em seu baixo padrão de
vida atual.
O grosso das exportações do Território é constituído da venda do gado em
pé para Manaus e de diamantes. O contrôle sôbre êste último produto é precário
e provavelmente as atividades de contrabando de gado e minérios contribuem
para deformar as estatísticas de exportação.
A quase totalidade da exportação destina-se ao Estado do Amazonas. O
comércio de importação também é feito em grande parte com o Amazonas, mas
o Território importa gêneros do Ceará e do Distrito Federal.
CAPITULO IV O TERRITÓRIO
DO AMAPÁ
A _ GENERALIDADES
O Território do Amapá, com a área de 137 303 km
2
, correspondente a 1,6%
do território nacional, foi criado em 1943 pelo desdobramento de um pedaço do
Estado do Pará. Tem por coordenadas geográficas os paralelos de 4
o
20' 45" W e
1
o
13' 30" S e os meridianos de 49° 54' 45" E e 54° 47' 30" O, e por limite: ao
norte, as Guianas Holandesa e Francesa, a leste, o Oceano Atlântico, e ao sul e a
oeste, o Pará.
No Territòrio a diversidade de paisagem física pode ser resumida em dois
tipos, que são: o penepiano e a planície sedimentar.
O penepiano, com a altitude média de 150 m, caracteriza-se por um relevo
levemente ondulado, em grande parte coberto pela floresta hi-leiana, que desce
na direção leste-sul. As maiores alturas do relevo cristalino são encontradas a
noroeste, na serra do Tumucumaque, cujos contrafortes avançam para o sul e o
nordeste. Esta serra é um importante divisor entre as águas da bacia do
Amazonas e das bacias das Guianas.
A planicie sedimentar abrange a área situada entre a borda do penepiano e
o oceano Atlântico, a leste, e o rio Amazonas, ao sul, faixa essa caracterizada
pelas extensas superficies planas quase ao nível do mar. Na planície, o traço
distintivo é a existência de uma faixa de terras firmes e outras de baixadas
inundáveis, que surgem desde o rio Oiapoc, ao norte, até o rio Jari, ao sul. As
terras alagáveis ocupam maior extensão na orla atlântica, onde predominam os
pântanos e lagos
(Região dos Lagos), do que na margem do Amazonas, onde, quase sempre, os
barrancos são relativamente altos e marcam seguramente o leito dos rios (1).
Segundo a altitude a área do Território distribui-se assim (2) :
Cotas (m) Área (km
2
) %
Até 100 60 310 44
101 a 200 38 029 28
201 a 300 31 603 23
301 a 600 7 477 5
A rêde hidrográfica é bastante densa, graças à intensa pluviosida-de, e conta
com grandes e volumosos rios como o Oiapoc, Araguari, Jari e outros. Os rios
atingem a descarga máxima nos meses de janeiro a junho, período em que
ocorrem as cheias, não chegando a provocar vastas inundações. É dificultada a
drenagem na planície om virtude da acumulação de sedimentos na foz. Na
Região dos Lagos, o escoamento das águas sofre com a obstrução progressiva.
Por ocasião da lua nova, verifica-se com grande ímpeto o fenômeno da
pororoca. Os solos do Amapá são classificados em autóctones e alóctones. Os
primeiros resultam da decomposição, no próprio local, da rocha matriz e cobrem
a área do penepiano, ao passo que os segundos se formaram pela deposição de
material aluvial e são encontrados na planície sedimentar (terras firmes e
várzeas) e no penepiano (ao longo dos rios). De um modo geral os solos do
Território são ácidos, compactos e pobres em bases trocáveis, não sendo
próprios para a agricultura. Além do mais, estão em adiantado processo de
lateralização, exceção feita dos solos de várzea, ainda não aproveitados para o
cultivo por causa das inundações a que estão sujeitos. Os solos de terra firme
empobrecem--se ràpidamente, quando cultivados, em virtude da forte lixiviação
provocada pela intensa precipitação pluviométrica. Assim é que uma área
desflorestada não suporta mais do que 3 anos de cultivo. Nas várzeas, não existe
problema de esgotamento dos solos porque, com as inundada Antônio Teixeira
Guerra: "Estudo Geográfico do Território do Amapá", I.B.G.E., 1954.
(2) "Anuário Estatístico do Brasil", 1953.
— 74 —
ções, há uma constante deposição de fertilizantes, carregados em suspensão
pelas águas. Dada a impossibilidade de contrôle das inundações diárias, os
caboclos habitualmente plantam nas terras firmes.
Dentro da planície inundável surgem pontos elevados chamados tesos, os
quais, durante todo o ano, ficam a descoberto das águas de inundação. Esses
solos são semelhantes aos das planícies não inundáveis e servem para a criação
de gado ou o cultivo da mandioca.
O clima do Amapá é quente úmido, com um período seco de curta duração.
Em 1957, a estação meteorológica de Macapá registrou os seguintes dados: 28°6
para a média das máximas, 21°6 para a média das mínimas, e 2 427 mm para a
altura da precipitação pluviométrica.
A maior parte do Território está coberta pela floresta tropical. É o que
confirmam os dados seguintes (1) :
Revestimento Àrea
floristico (km
2
) %
Floresta .......................... 97 240 73
Campos ........................ 16 239 12
Cerrados ........................... 12 869 10
Vegetação litorânea ... 7 448 5
A floresta compreende as matas de terra firme, de várzea e de igapó, com
árvores que alcançam 30 a 40 m de altura e devem a sua pujança à elevada
umidade.
A vegetação campestre surge na borda e no interior do penepiano, nas
cabeceiras dos rios que descem da serra do Tumucumaque. A existência de
campos cerrados numa região de clima tão úmido é explicada pela falta de
porosidade do solo, conjugado à ação destrutiva do homem. Nos campos
inundáveis da Região dos Lagos, a vegetação típica é constituída pelas
canaranas, que servem de alimento para o gado.
O Conselho Nacional de Geografia engloba o Território em uma única
zona fisiográfica, composta, em 1950, dos seguintes municípios:
(1) "Anuário Estatístico do Brasil", 1953.
Área
Municípios (km
2
) %
Amapá ........................... 39 978 29
Macapá ......................... 27 163 20
Mazagão ...................... 44 421 33
Oiapoc ......................... 24 346 18
No entanto, a distribuição das atividades produtivas está tão diferenciada
com base na localização de recursos naturais que é perfeitamente possível
identificar três zonas geo-econômicas:
1 — Zona extrativa vegetal — Situada entre os rios Jari e Vila Nova, vive
fundamentalmente da coleta de látex nos baixos cursos e da apanha da castanha
nos médios e altos cursos.
2 — Zona de extração mineral — Compreende as imensas reservas de
manganês da Serra do Navio, em fase de exploração, as jazidas de ferro da bacia
do rio Vila Nova, em Santa Maria de Vila Nova, e o médio curso do Oiapoc e os
altos cursos do Calçoene e Cassiporé, onde vive uma população voltada para a
"faiscação" do ouro.
3 — Zona da pecuária — Abrange os campos do Macapá e da Região dos
Lagos, sendo nela predominante a criação de bovinos.
Com a exploração de jazidas manganezíferas, as características
fundamentais da economia do Território sofreram alterações básicas. A pecuária
e o extrativismo primitivo continuaram a abranger o maior volume de emprêgo,
mas a mineração do manganês, em bases capitalistas, passou a ser a principal
fonte de renda do Amapá.
B — FATÔRES DA PRODUÇÃO
População e mão-de-obra — O povoamento do Território repete as
peculiaridades demográficas verificadas em tôda a região amazônica. A densa
floresta não permitiu que os agrupamentos humanos se instalassem além das
margens dos médios e baixos cursos dos rios, onde existiam riquezas vegetais a
explorar a curta distância da via natural de transporte. Até hoje os altos rios
permanecem desabitados, salvo quando a notícia da existência de pedras e
metais preciosos leva grupos humanos e aventurarem-se em alguns deles.
A pouca população do Território distribui-se principalmente noa campos de
Macapá e na Região dos Lagos. Em 1950, o Censo registrou um total de 37 477
pessoas presentes no Amapá, correspondente a menos de 0,1% da população do
País. Nos anos posteriores, entretanto, acentuou-se o fluxo imigratório
provocado pela exploração das jazidas de manganês. A população aumentou em
ritmo acelerado, admitindo-se que tenha atingido, em 1957, mais de 50 000
pessoas.
Em 1950, a densidade demográfica dos seus quatro municípios atingia os
seguintes níveis (1) :
Municipios Habitantes Hab.km
2
Amapá ........................... 8 794 0,22
Macapá ............................ 20 594 0,76
Mazagão ......................... 5 105 0,12
Oiapoc .......................... 2 984 0,12
Território ..................... 37 477 0,27
O município de Macapá é o mais habitado, vindo a seguir o de Amapá. Os
municípios de menor índice de ocupação humana abrangiam as áreas do
extrativismo vegetal (Mazagão) e da garimpagem (Oiapoc). A densidade
demográfica de Macapá tende a aumentar porque nesse município é que está
sendo feita a exploração do manganês.
Em 1950, a população urbanizada era formada por 14 000 pessoas (37% do
total), sendo que 10 000 residiam na cidade de Macapá, Capital do Território.
Ainda na data do último Censo, a população ativa do Amapá somava 12
000 indivíduos, o que dava uma taxa de emprêgo de 32% para o Território.
Segundo o quadro I, 58% da mão-de-obra estava ocupada no setor primário,
formado, principalmente, pelo criatório e o extrativismo. Observe-se que, na
época do Censo, não se tinha processado a montagem das instalações da ICOMI
que corresponderia, já em 1957--1958, a uma modificação radical da estrutura
do emprêgo no Território.
(1) "Anuário Estatístico do Brasil", 1953.
Mão-de-obra da ICOMI — A concessionária da exploração do minério
de manganês, em fins de 1958, ocupava 2 700 pessoas, das quais 669 estavam
ligadas a operações industriais (mecânica, ferrovia, porto e mineração), 946
estavam empenhadas na construção civil (especialmente a construção de duas
vilas) e 1 085 se dedicavam a outras atividades (direção técnica, administração,
vigilância, serviços de saúde, de educação, e atividades sociais em geral).
I — AMAPA — MÃO-DE-OBRA OCUPADA EM 1950
Fonte: Censos de 1950.
(1) Agricultura e Indústrias Extrativas. Usamos o critério adotado pelo Centro de Estudos
da F.G.V.: 1950 — Homens maiores de 15 anos, Censo Demográfico; Homens menores de 15
anos, Censo Agrícola; Mulheres, Censo Agrícola.
(2) pela dificuldade em se criar um critério objetivo, resolvemos usar os dados do Censo
Demográfico de 1950, embora não nos pareçam estes muito próximos da realidade para êste
ano.
(3) Incluímos neste ramo: Prestação de Serviços, Profissões Liberais, Atividades Sociais,
Administração Pública e Defesa Nacional.
A renda dos empregados da ICOMI é maior que a soma de salários e
ordenados percebidos. Isto porque para realizar um investimento tão grande
numa área desocupada, a ICOMI teve de assumir o encargo de serviços
assistenciais, educacionais, sanitários e outros de caráter social, que
correspondem à concessão de subsídios aos empregados da emprêsa. Os
encargos sociais dessa entidade têm-se revelado tão vultosos
que provocam uma distorção nos seus custos de produção. Assim, os custos
diretos são subestimados, quando computam apenas os gastos produtivos.
Para corrigir essa situação, será indispensável reajustar as atividades da
Emprêsa, de modo a colocá-la dentro dos marcos de um estabelecimento
industrial, transferindo a terceiros, tanto quanto possível, os ônus dos serviços
de natureza social e aumentando, em contrapartida, a remuneração direta da
mão-de-obra, com base nos diferenciais de produtividade em lugar da simples
qualificação social do beneficiário dêsses serviços.
A exploração do manganês provocou deslocamentos na estrutura da mão-
de-obra do Amapá. Atraídos por melhores salários e melhores condições de vida,
trabalhadores do campo e da floresta trocaram as suas atividades tradicionais
pelo trabalho na mina de manganês, na estrada de ferro ou no porto de embarque
do minério. Inicialmente, a mão-de-obra local só pôde ser aproveitada nos
trabalhos mais rudes. Quase tôdas as pessoas ocupadas em trabalho qualificado
tiveram de ser arregimentadas, em outras Unidades da Federação. Aos poucos,
no entanto, a Emprêsa vai preparando os naturais do lugar para tarefas
qualificadas.
Considerando uma média de 4 pessoas por família entre os empregados da
ICOMI, pode-se estimar que, presentemente, cêrca de 10 000 pessoas vivem
diretamente da atividade da Emprêsa. O afluxo de parentes dos empregados da
ICOMI e a natural atração exercida sôbre a mão-de-obra flutuante da região
ocasiona um excedente populacional, com reflexos sôbre os programas de
construção de casas e de instalação de serviços públicos, tornando necessários
novos investimentos no setor. A ICOMI já iniciou a construção de duas vilas
destinadas ao pessoal da Companhia e com capacidade de abrigar, em conjunto,
cêrca de 2 000 pessoas.
Recursos naturais — Sem computar, nas atuais circunstâncias, a exploração
da seringueira e do castanheiro, no Amapá, em virtude da baixa remuneração
que proporcionam aos extratores, as riquezas florestais mais importantes são as
madeiras de lei para as quais existem excelentes oportunidades comerciais, tanto
no País como no exterior.
Para conhecer as possibilidades e vantagens da exploração madei-reira, o
Govêrno territorial mandou proceder ao inventário florestal de uma área de 50
000 hectares compreendida entre os rios Amapari, Ma-tapi e Cupixi. Ficou então
constatado que a floresta observada tem uma densidade de 81 m
3
/ha de árvores
de mais de 55 cm de diâmetro e que 12 essenciais (1) são responsáveis por 55%
do volume total de madeira que daí se pode extrair. O volume de madeira por
unidade de superfície é menor do que o encontrado em outras partes da Ama-
zônia. Porém, o predomínio de 12 espécies e certas facilidades de acesso à área
em apreço (próxima da estrada de ferro) dão condições para o aproveitamento
industrial em bases econômicas (2).
Manganês — Os recursos minerais do Amapá é que justificam, em nossos
dias, a importância econômica crescente da região e o atual surto de colonização
e desenvolvimento econômico, calçado na exploração das jazidas de manganês.
As principais jazidas de manganês, cuja exploração foi iniciada em 1957, são as
da Serra do Navio, às margens do rio Amapari, distante cêrca de 200
quilômetros da cidade de Macapá. Descobertas em 1945, foram declaradas
reserva nacional pelo Decreto--lei n.° 9 868 de 13 de setembro de 1946. O
direito de exploração foi concedido à ICOMI, emprêsa de mineração sediada em
Belo Horizonte, vencedora da concorrência aberta pelo Govêrno territorial e da
qual participaram outras duas emprêsas: a Cia. Meridional de Mineração,
subsidiária da United States Steel Corp., e a Hanna Exploration Co., ambas
norte-americanas.
A concessão abrange uma área de 2 500 hectares e foi dada pelo prazo de
50 anos, devendo todo o patrimônio da ICOMI reverter ao Govêrno territorial
com a expiração do contrato. A exploração do manganês do Amapá importou
em modificações na composição da ICOMI. Dela passou a participar a
Bethlehem Steel com 49% do capital social de 200 milhões de cruzeiros,
enquanto os restantes 51% ficaram em
(1) Em ordem de importância: angelim-pedra, cupiúba, maçaranduba, quaru-bas, cumaru,
louro-vermelho, acaciquara, louros, matamatá, caraiperana, acapu e faveiras.
(2) A. de Miranda Bastos: "Inventário Florestal da Região Amapari — Matapi —
Cupixi", Rio, 1958,
mãos da Companhia Auxiliar de Emprêsas de Mineração, holding que congrega
os sócios primitivos da ICOMI que estende a sua fiscalização sôbre duas outras
emprêsas do grupo nacional, ambas em atividade no Estado de Minas Gerais.
Assim ficou assegurada a liderança do capital nacional no empreendimento,
visto como a participação majoritária cabe a uma sociedade de brasileiros (1).
As razões invocadas para justificar a associação das duas emprêsas foram a
necessidade de obter recursos financeiros e garantir a venda do manganês no
exterior do País, visto que a indústria nacional não está em condições de
absorver a produção da ICOMI. Todavia, as compras da Bethlehem Steel estão
aquém das quantidades anuais que a ICOMI tem exportado anualmente (1957-
1958).
Pelo contrato firmado em 6 de junho de 1950 entre a ICOMI e o Govêrno
territorial, a emprêsa assumiu a obrigação de pagar pelo arrendamento das
jazidas, a título de royalty, uma importância equivalente a 4% ou 5% do valor da
venda do minério posto a bordo no porto de embarque. A ICOMI só pagará 4%
se inverter no Amapá 20% dos lucros resultantes da exploração do minério. No
caso de as exportações ultrapassarem 500 000 toneladas anuais a ICOMI pagará
um royalty adicional de 5% sôbre os excedentes, e então, neste caso, o royalty
passa a ser de 10% para as quantidades exportadas além das 500 000 toneladas
anuais (2).
Ainda pelo contrato, a ICOMI ganhou o direito de explorar as jazidas, sob
a forma de arrendamento, a partir de 6 de maio de 1953, e de exportar
anualmente 500 000 toneladas de minério, quota que poderá ser elevada ao
máximo de 1 milhão de toneladas anuais, até 1965, por motivos ligados ao
problema do financiamento do empreendimento. As terras necessárias à
construção da estrada de ferro e do
(1) Alguns estudiosos do assunto, entre os quais o economista Edouard E. Urech, no 1.°
volume do "Esboço do Plano de Industrialização do Território do Amapá", interpretam
errôneamente que a Bethlehem Steel participa do capital da Companhia Auxiliar de Emprêsas de
Mineração. Na realidade, esta emprêsa não tem nenhum papel prático, salvo o de unificar o poder
decisório do capital-ações das suas emprêsas subordinadas por brasileiros.
(2) Janari Gentil Nunes: "A verdade sôbre o Manganês do Amapá", 1959.
embarcadouro de minério foram cedidas gratuitamente pelo Govêrno territorial.
As pesquisas realizadas pela ICOMI cobriram 65% da área demarcada de 2
500 hectares e ampliaram a estimativa inicial de possança de 10 milhões para 15
milhões de toneladas métricas de minério com teor superior a 46%. Porém, a
própria ICOMI julga que no local há uma reserva provável de 30 milhões de
toneladas econômicamente aproveitáveis. As análises típicas do minério de
manganês da Serra do Navio revelam as seguintes composições (1) :
Mn Fe Si 02 Al OS
Minério tipo exportação .... 46,8 3,2 3,6 10,6
Minério de alto teor .................... 57,5 1,6 0,5 2,8
Minério de baixo teor ................. 33,9 9,3 7,9 13,8
Como vemos, trata-se de um minério de elevado teor de manganês,
contendo ferro e silica em proporções úteis para o fabrico de ligas.
As rochas manganíferas da Serra do Navio surgem, com raras exceções, no
alto dos montes, e ocorrem sob diversas formas, das quais as mais interessantes,
do ponto de vista econômico, são as de: 1) afloramentos 2) matações {boulders)
pouco distantes da formação, 3) de rolamentos (boulders que rolaram encosta
abaixo dos afloramentos) e 4) de granzon (nódulos concrecionários sôbre o
solo). A maior parte do minério encontrado pode ser lavrada a céu aberto (2).
A exploração do minério está sendo feita desde janeiro de 1957, dentro da
mais moderna técnica de mineração. O conjunto industrial instalado para a
extração e embarque do minério compreende a mina, a estrada de ferro e o porto
de minério, tudo construído pela ICOMI no espaço de 30 meses entre 1954 e
1956. Note-se que os estudos técnicos que antecederam previam uma duração
de 48 meses. Tôdas as operações industriais do conjunto (perfuração, remoção,
britagem, lavagem, classificação, transporte e embarque) são completamente
mecanizadas, com o auxílio de modernos equipamentos, na quase totalidade
(1) "O Manganês do Amapá", publicação da ICOMI.
(2) "Depósito de Manganês do Distrito da Serra do Navio, Território Federal do Amapá",
por John Van Dorr e outros.
de procedência norte-americana. Desde a extração até ao embarque, o minério
não sofre o contacto da mão do homem.
Na mina, a ICOMI está capacitada a produzir cêrca de 700 000 toneladas
de minério por ano, com um turno de 8 horas por dia. Na hipótese de ser
mantida, durante o prazo da concessão, uma exportação média anual de 500 000
toneladas de minério, em 50 anos terão sido retirados 25 milhões de toneladas de
minério, ou sejam 83% da reserva provável de 30 milhões de toneladas.
Tomando por base o valor médio da tonelada de minério (US| 38,00), os 30
milhões de toneladas representam uma receita cambial provável de mais de 1
bilhão de dólares.
Outras riquezas minerais — Nos altos cursos do rio Calçoene e Cassiporé,
e no médio curso do rio Oiapoc, a extração do ouro constitui uma atividade
praticada desde o tempo em que a zona era objeto de contestação por parte do
Govêrno francês. O sistema de lavrar por garimpagem, ainda em vigor, é
responsável pela baixa produtividade da mineração do ouro, ora em decadência,
não obstante terem sido descobertos novos veios perto do lugar Gaivota e no
Igarapé do Leon. Amostras de material dêste último revelaram a presença de até
148 g de ouro por tonelada (1).
Em Santa Maria do Vila Nova foi prospectada pela Hanna Exploration
Company uma jazida de hematita de alto teor (cêrca de 70% de ferro), tendo 9,6
milhões de toneladas de minério econômicamente aproveitável. A jazida dista
80 quilômetros da cidade de Macapá e 40 quilômetros do leito da estrada de
ferro, e o maior problema para a sua exploração é o dos transportes. Atualmente,
a extração de hematita é muito pequena, estando em estudo a possibilidade do
seu maior aproveitamento.
Outras riquezas minerais do Território, de valor comercial, são o diamante,
cujo reinicio de exploração exige a instalação de uma usina de lavagem em
Santa Maria, e a cassiterita, extraída numa área de terreno bastante acidentado,
às margens dos rios Amapari e Araguari.
(1) Fritz Louis Ackermann: "Recursos Minerais do Território Federal do Amapá",
Rio, 1948.
Transportes — Não obstante a abertura de algumas rodovias e da ferrovia,
que reforçaram sobremodo o sistema de transportes do Território, os rios
co'ntinuaram a desempenhar importante papel como via de comunicação,
malgrado os inconvenientes da queda do nível das águas por ocasião da vazante
e das muitas corredeiras que interrompem a navegação franca. Os principais rios
oferecem boas condições de navegabilidade nos seus baixos cursos. Assim é que
são navegáveis sem solução de continuidade, 130 km do rio Jari, 200 do rio
Araguari e 70 do rio Oiapoc (1).
O baixo Jari pode ser navegado por embarcações de até 600 toneladas, mas
as corredeiras, de um modo geral, só podem ser vencidas, e com grande esfôrço,
por pequenas ubás e motores de popa. A entrada e a subida das embarcações de
cabotagem nos rios está subordinada aos movimentos de maré.
O traçado das rodovias está relacionado com a necessidade de corrigir as
insuficiências da bacia navegável e estabelecer ligações rápidas entre o sul e o
norte do Território. A principal rodovia é a BR-15 que parte de Macapá, passa
por Amapá e vai até Lourenço. O trecho daí até à fronteira ainda está em
construção.
Em 1957, a rêde rodoviária do Território compunha-se de 930 km de
estradas em tráfego, sendo 447 de rodovias federais e 483 de rodovias
municipais.
A E.F. Amapá tem uma bitola de 1,4m e 194 km de extensão, em linha
singela. Como ferrovia industrial, tem atualmente uma capacidade de transporte
de 700 000 toneladas de minério por ano, além de 200 000 de mercadorias de
outras classes. O material rodante da estrada compõe-se, principalmente, de 3
locomotivas Diesel elétricas, 80 vagões de minério, 10 vagões para lastro e 12
pranchas. Os vagões da ferrovia apanham o minério em silos, na mina, e
descarregam-no nos depósitos do porto de Macapá, de onde é carregado para os
porões dos navios por intermédio de correias transportadoras. Em 1957, a
ferrovia transportou 104 000 passageiros e 820 000 toneladas de carga (2).
(1) "Relatório Sintético de 1955", do Govêrno do Território.
(2) "Anuário Estatístico do Amapá", 1958.
O porto de minérios, em Santana, é constituído de um pier fixo de 83 m de
comprimento, servido por um guindaste destinado ao movimento de mercadorias
e equipamentos, e de um pier flutuante de 247 metros usado para o
carregamento de minérios e a descarga de combustíveis. O sistema de correias
transportadoras tem uma capacidade teórica de 2 000 toneladas de minério por
hora. Em frente ao pier, a profundidade mínima das águas é de 10 metros. Para
tornar mais rápido o acesso dos barcos que demandam o porto de Macapá, o
canal Norte do rio Amazonas foi aberto à navegação de embarcações de grande
porte, após um trabalho de balizamento adequado. O Canal Norte veio encurtar
de 72 horas o roteiro dos navios oceânicos que se destinam ao interior da
Amazônia.
Anteriormente, a navegação tinha de ser feita pelos furos de Breves,
devendo os navios que carregavam minério no porto de Santana não ultrapassar
de 8 000 toneladas. Na atualidade, o transporte de minério é feito em navios de
20 000 toneladas, podendo ter acesso ao porto navios de até 45 000 toneladas.
Até ao presente, o navio de maior capacidade que embarcou minério em Macapá
tinha 32 600 toneladas. Para dar uma idéia da eficiência do sistema de
carregamento empregado, basta dizer que esse navio foi carregado em apenas 20
horas quando num porto como o do Rio de Janeiro talvez fossem gastos 20 dias.
Tanto a rapidez da operação de embarque quanto o emprêgo de navios de grande
tonelagem contribuem para a redução dos custos de distribuição do minério.
Essa é uma das razões pelas quais atualmente são dispendidos 4 dólares de frete
por tonelada exportada, quando em 1957 eram gastos entre 5 e 6 dólares.
A exportação de minérios contribuiu para aumentar a tonelagem dos navios
entrados no porto de Macapá. É o que ressalta do movimento de entradas de
navios, no último triênio (1) :
Tonelagem
N.° de de registro
Anos navios (1 000)
1955 1 l11 79
1956 1 160 59
1957 1 062 370
(1) "Anuário Estatistico do Brasil", 1958.
O Govêrno Federal pretende construir um porto comercial em Macapá,
estando em andamento os estudos, a cargo do D.N.P.R.C.. Esse porto poderá
vir a ser um importante ponto de apoio à navegação oceânica.
Energia — A fim de assegurar uma base energética para as indústrias que
venham a ser instaladas no Território, o Govêrno local resolveu construir uma
usina hidrelétrica (com potência de 100 000 c.v., aproveitados 50 000 c.v. na 1.
a
fase) no rio Araguari, a jusante da cachoeira do Paredão. A barragem de
contenção das águas terá 374 metros de comprimento e a usina poderá atender
centros de carga que estiverem localizados num raio de até 150 km (1).
O B.N.D.E, não aceitou a justificativa econômica para a efetivação de um
empréstimo com êste fim. Apesar disso, o Govêrno territorial resolveu levar
avante o projeto que será executado sob a responsabilidade da Companhia de
Eletricidade do Amapá (C.E.A.), sociedade de economia mista, organizada
em 1956 com um capital de 500 milhões de cruzeiros. O capital deverá ser
subscrito pelo Govêrno do Território, majoritariamente, e pela S.P.V.E.A.
(2).
A concorrência para a construção da usina já foi aberta e o Govêrno espera
que a 1.
a
fase seja concluída em 1963.
Capital e investimentos — Antes do ciclo do manganês havia, no
Território, uma acentuada rarefação de capital, da qual nos dá idéia o Censo de
1950. O capital aplicado na agricultura, indústria, comércio e serviços montava
a apenas 32 milhões de cruzeiros. A própria natureza das atividades até então
praticadas (extrativismo primitivo e pecuária extensiva) não exigia grande
capitalização. Admitindo a computação do valor dos rebanhos, podemos
acrescentar à cifra indicada mais cêrca de 50 milhões de cruzeiros, na época do
Censo, o que não altera o quadro em exame.
Com a mineração do manganês, em base tecnológica moderna, a
composição dos fatôres modificou-se bruscamente, com a elevada soma
(1) "Aproveitamento Hidrelétrico no Rio Araguari", proposta de empréstimo apresentada
ao B.N.D.E, pelo Govêrno do Amapá.
(2) Estatutos da C.E.A..
6
de capital representada pelas inversões da ICOMI, totalizando a importância de
US$ 55 milhões, equivalentes a mais de 1 bilhão de cruzeiros, até 1956. Nos
anos seguintes, a mesma Emprêsa já havia investido em obras complementares à
indústria de extração e transportes de minérios uma quantia superior a 500
milhões de cruzeiros.
Sem um investimento de tal ordem não seria possível a exploração do
manganês do Amapá. Isto porque o empreendimento foi realizado num deserto
verde, onde eram nulas as economias externas (escolas, habitações, estradas,
instalações sanitárias etc). Assim a dimensão do investimento foi subordinada às
condições locais. Num outro local com vida econômica e social intensas,
certamente seria possível obter o mesmo nível de produção mediante a aplicação
de um investimento muito menor.
A fim de realizar tão vultoso empate de capital, a ICOMI levantou no
Export Import Bank um empréstimo de 67,5 milhões de dólares, a juros de 4,5%
ao ano, para ser liquidado até 1965. Como condição para a obtenção do
financiamento, o Govêrno Federal teve de autorizar a aplicação de parte das
divisas da exportação do manganês (15 dólares por tonelada) no pagamento dos
serviços do empréstimo.
Por sua vez, a ICOMI foi obrigada a dar garantia de colocação do minério
no mercado internacional, o que fêz, firmando um contrato com o Defense
Materials Procurement Agency (D.M.P.A.), pelo qual êste órgão do Govêrno
americano se comprometeu a absorver os primeiros 5,5 milhões de toneladas do
minério exportado até 1965 ou até data anterior ao pagamento do empréstimo,
ao preço CIF-Baltimore de 65 centavos por unidade de manganês. Isto no caso
de a ICOMI não encontrar outros compradores para essa quantidade de minério.
A par dessa obrigação, o D.M.P.A. ganhou opção para adquirir 30% dos
referidos 5,5 milhões de toneladas com um desconto de 10% sôbre o preço do
mercado internacional na ocasião da entrega, desde que o preço líquido não seja
inferior ao preço garantido (1).
Do empréstimo obtido no Eximbank, a ICOMI só utilizou US$ 55 milhões.
A emprêsa resolveu reduzir a rneta de produção, a nível de maior prudência, em
vista dos elevados encargos financeiros que deve-
(1) Janari Gentil Nunes: "A verdade sôbre o manganês do Amapá".
ria enfrentar. Os US$ 67,5 milhões deveriam cobrir o custo dos equipamentos e
instalações em condições de assegurar uma exportação anual de 1 milhão de
toneladas de minério. Limitando os saques ao total de US$ 55 milhões, a
Emprêsa procurou situar em bases realistas o plano de amortização desse débito.
A par do investimento industrial, representado pelo custo das instalações e
do equipamento para a mina, a ferrovia e o porto, a ICOMI realiza outros
investimentos de caráter social. Dentre estes, o mais importante é a construção
de duas vilas para abrigar os seus empregados, uma na Serra do Navio e outra
em Macapá, as quais deverão estar concluídas até 1961, estimando-se o seu
custo global em cêrca de um bilhão de cruzeiros.
Os royalties pagos pela ICOMI ao Govêrno do Território destinam-se a um
fundo especial para cobrir o custo da construção do Sistema Hidrelétrico do
Paredão. O custo do projeto foi orçado grosseiramente em 1,8 bilhões de
cruzeiros.
A massa dos investimentos realizados pela União tem sido diminuta,
atingindo cêrca de 26 milhões de cruzeiros em 1956. No entanto, o Amapá é o
Território mais contemplado com verbas da União. Para o qüinqüênio 1955-
1959 a S.P.V.E.A. programou a aplicação de 139 milhões de cruzeiros, no
Amapá, no setor de energia e transporte.
C — O MERCADO
Produção extrativa mineral — Por falta de dados precisos sôbre a produção
de ouro e pela pouca importância de outros minerais extraídos no Amapá,
vamos considerar apenas os dados da oferta de minério de manganês nos dois
primeiros anos de operação industrial da ICOMI, em milhares de toneladas (1) :
Anos Produção Exportação
1957 726 665
1958 595 606
(1) Dados fornecidos pela ICOMI.
A queda da produção e da exportação foi conseqüência da retração no
mercado internacional do minério, que se mantém até aos dias atuais.
É propósito da Emprêsa manter a produção do minério ao redor das 650
000 t por ano, porquanto neste nível obterá o melhor rendimento do
equipamento empregado. No entanto, poderá aumentar fàcilmente o nível da
produção para 1 milhão de toneladas por ano, mediante um pequeno
investimento adicional. As operações de britagem, assim como as do porto de
embarque estão em condições de atender ao acréscimo de produção dentro de
um regime normal de trabalho. O britador primário da mina tem capacidade para
tratar 400 t de minério por hora, ou 3 200 t de minério por dia de 8 horas.
Entretanto, a produção diária não vai além de 2 200 t. A fim de elevar a
produção na mina, a ICOMI teria de adquirir material para a extração do minério
(escavadeiras, caminhões, perfuratrizes etc). Com maior número de vagões, a
estrada de ferro poderá transportar 1 milhão de toneladas de minério. É grande a
folga da via permanente descendo da Serra do Navio apenas uma composição
por dia, carregada de minério.
As condições de mercado afastam qualquer hipótese de aumento da oferta
do minério. Só mesmo a eventualidade de conflitos armados justificaria, por
motivos estratégicos, que fossem realizados novos investimentos industriais pela
ICOMI. É necessário frisar que o atual nível de produção é mantido graças ao
contrato de compra e venda de minério firmado com o Defense Materials
Procurement Agency. Sem êste acôrdo, a ICOMI estaria impossibilitada de
manter o atual nível de produção nas presentes condições de crise no mercado
internacional.
É preciso acentuar que, sem garantia antecipada de venda do minério, não
seria possível realizar um tal investimento industrial, por causa das variações de
custos de produção, nos diferentes níveis da procura. Estima-se que uma queda
de 50% no nível de produção pode acarretar um aumento de mais de 80% no
custo unitário do minério, o que resulta do elevado peso dos custos fixos.
A ICOMI ocupa o segundo lugar entre os maiores produtores individuais
de divisas no País. Em dois anos de operação, proporcionou uma receita cambial
bruta de 69 milhões de dólares. Descontadas as parcelas reservadas para os
serviços do empréstimo tomado no Banco de Exportação e Importação,
encontramos uma receita líquida de 50
milhões de dólares. Por conta do minério exportado, a ICOMI pagou de
royalties ao Govêrno do Amapá a importância de 229 milhões de cruzeiros (115
milhões em 1957 e 114 milhões em 1958) (1).
O minério tem sido vendido ao Govêrno norte-americano, à Bethlehem
Steel e a usinas européias. Devido à crise reinante no mercado internacional,
atualmente o Govêrno norte-americano é o único comprador, em virtude do
contrato firmado entre a ICOMI e o D.M.P.A.. Habitualmente, o minério é
vendido a preço FOB, porém, no caso do Govêrno norte-americano, a venda faz-
se a preço CIF. O D.M.P.A. está pagando 77 cents por unidade de manganês, ou
sejam 38 dólares por tonelada de minério desembarcada nos Estados Unidos (2).
O preço pago pelo D.M.P.A. ultrapassa de pouco o preço médio da tonelada de
minério exportada em 1957, descontando-se nas transações com o mesmo, as
despesas de frete e seguro, que correm por conta da ICOMI.
Em cumprimento ao seu contrato com o D.M.P.A., espera-se que a
emprêsa venha a vender 2 milhões de toneladas de minério, no máximo, ao
invés de 5,5 milhões de toneladas previstas pelo contrato, admitindo que a
retração do mercado internacional não seja de longa duração. O acúmulo de
stocks por parte das grandes usinas siderúrgicas, durante a crise de Suez e a
depressão econômica surgida nos Estados Unidos, em 1958, foram os motivos
principais dessa retração. A normalização do mercado internacional permitirá à
ICOMI retomar, até 1960, o ritmo das suas exportações.
A posição do Brasil no mercado estadunidense é das melhores possíveis,
porquanto o seu maior concorrente, a Índia, está em posição de franca
inferioridade. O minério brasileiro é de mais elevado teor (49%) do que o
indiano e conta com a garantia de contratos de compra a têrmo. No entanto, a
competição pelo domínio do principal mercado consumidor de manganês
poderá trazer conseqüências negativas aos países produtores. Consta que a Índia
pretende forçar a venda do minério a preços inferiores aos prevalecentes no
mercado internacional, em épo-
(1) Dados fornecidos pela ICOMI.
(2) O D.M.P.A. paga mais 12 cents por unidade de manganês, sôbre o preço mínimo de
65 cents, referido no item anterior, calculado o referido preço pelo índice de desvalorização do
dólar.
cas normais, através da redução de fretes ferroviários e outras medidas, ao
mesmo tempo que busca firmar contratos de compensação com os Estados
Unidos.
Produção extrativa vegetal — Consiste essencialmente na coleta da
borracha e da castanha. A oferta dêsses produtos de exportação é muito pequena,
não tendo ultrapassado, em 1957, o valor de 33 milhões de cruzeiros (22
milhões, de borracha e 11 de castanha). Observa-se, nesse ramo, a
preponderância quase total da Emprêsa de Comércio e Navegação do Jari Ltda.,
que pràticamente é dona de todos os seringais e castanhais do vale do Jari. Os
seringais e castanhais são arrendados aos caboclos, que ficam na obrigação de
vender tôda a sua produção e de comprar utilidades e gêneros nos barracões da
citada Emprêsa.
Iniciou-se, no Amapá, em 1952, um programa de plantio intensivo e
racional de seringueiras, existindo, em 1955, cêrca de 2,5 milhões de pés de
seringueiras plantadas (1). Desse total, presumivelmente 10% foram plantados
sob financiamento e orientação do B.C.A..
Produção agropecuária — A pobreza dos solos de terra firme, que são os
de mais fácil uso, não favorece a expansão das atividades agrícolas. As
experiências realizadas, até agora, não deram resultados animadores. O estímulo
governamental, através da criação de colônias agrícolas e da assistência técnica
aos lavradores, não tem alcançado êxito. Por esa razão, a oferta de bens
agrícolas ainda está muito aquém das necessidades da população local. Em
1957, a produção dos 13 principais gêneros montou a 65 milhões de cruzeiros e
ocupou uma área cultivada de 6 700 hectares. Desse total, 44 milhões referiam-
se à produção de mandioca.
Para se ter uma idéia mais precisa da pobreza da terra firme em bases
trocáveis, basta dizer que a terceira colheita, na mesma área, é de resultados
duvidosos, obrigando a rotação da terra como necessidade imperiosa imposta ao
caboclo pela natureza (2).
(1) Relatório Sintético, de 1955, do Govêrno do Território Federal do Amapá.
(2) Antônio Teixeira Guerra, obra citada.
A deficiência da produção de gêneros de subsistência também contribuiu
para o alargamento das funções da ICOMI, que teve de cuidar do abastecimento
do seu pessoal, importando do Pará e do Sul do País produtos alimentícios e
promovendo a implantação de lavouras e granjas. É provável que, em virtude
desse esfôrço, dentro de 3 anos a Emprêsa esteja produzindo legumes, verduras
e frutas, em quantidades suficientes para atender ao consumo dos seus
empregados e da população terciária que atua em função do empreendimento
ICOMI, no Território.
A pecuária é praticada de modo primitivo e consiste, essencialmente, na
criação de gado crioulo ou "pé-duro" para corte. Os animais são criados à solta,
em pastos naturais, sem receber quaisquer cuidados. Em 1957, a população
pecuária do Território compunha-se de 55 000 bovinos, 4 000 eqüinos, 25 000
suínos, 2 000 ovinos e 2 000 caprinos. A proporção de cêrca de um bovino por
habitante possibilita a auto-suficiência em matéria de abastecimento de carne.
No decênio passado a situação era melhor, pois em 1944 havia 1,8 bovino por
habitante, coeficiente que suplantava o da maioria dos Estados (1).
A produtividade do rebanho bovino é baixa e para isso concorre a falta de
racionamento e a carência de bons pastos. Medidas estão sendo tomadas no
sentido de introduzir reprodutores de raça e difundir o plantio de pastos.
As terras disponíveis para o criatório são os campos firmes e os campos
alagados. Estes últimos são preferidos porque possuem gramíneas de maior
valor nutritivo. A influência de cada um deles sôbre o crescimento do gado é
marcante: bastam 3 anos para o gado criado nos campos alagados atingir o peso
bom para o corte, enquanto nos campos firmes são necessários 5 anos. As
vantagens dos campos alagados fizeram com que a pecuária do Território se
concentrasse na Região dos Lagos.
Em 1957 foram produzidas 1 305 toneladas de carne preparada no valor de
39 milhões de cruzeiros, como segue (2) :
(1) Relatório das Atividades do Govêrno do Território Federal do Amapá, em 1944.
(2) "Anuário Estatístico do Brasil", 1958.
Carne
Reses preparada Valor
Espécies abatidas (t) (Cr$ 1 000)
Bovinos ...................... 7 979 1066 32.545
Suínos ......................... 8 578 239 6.195
Ovinos ........................ 7 0 2
Caprinos ..................... 1 0 0
Total .................. 16 565 1 305 38.742
Relações de intercâmbio — O balanço comercial do Território costumava
ser deficitário, o que quer dizer que o Amapá era uma Unidade Federativa
importadora de recursos, dependendo, para sobreviver, das despesas efetuadas
pela União com pessoal e investimentos na área. Até 1953, o vulto das
transações com o estrangeiro e o resto do País era quase nulo, tendo crescido
acentuadamente nos anos subseqüentes em virtude das importações de
equipamentos e combustíveis necessários à exploração do manganês e, já em
1957, com a entrada em operação do empreendimento ICOMI.
II — AMAPA — BALANÇO COMERCIAL (Cr$
milhões)
Exportação Importação
Anos Saldo
1952
Estrangeiro
0
,
8
Cabotagem
21,2
Estrangeiro
0,0
Cabotagem
49,5
27,5
1953 2,9 35,9
57,0 18,2
1954 0,0 42,6 108,7 105,8 — 171,9
1955 0,4 37,5 172,6 130,9 — 265,6
1956 0,4 21,8 106,5 205,3 — 230,2
1957 1.740,9 53,8 64,6 287,1 + 1.443,0
Fontes: "Anuários Estatísticos do Brasil" e "Mensários Estatísticos do S.E. E.F." do
Ministério da Fazenda.
Em 1957, com o início da exportação, em larga escala, de minério de
manganês, o Território passou da condição de importador para a de exportador
de recursos.
Em conseqüência da exploração promovida pela ICOMI, o manganês
passou a figurar no comércio exterior do País como o 7.° principal produto de
exportação. É o que se constata dos seguintes dados referentes ao valor da
exportação, em milhões de dólares (1) :
Parece que as estatísticas oficiais subestimam o valor da exportação de
minério de manganês. Segundo os dados da ICOMI, os embarques de minério
totalizaram 40 milhões de dólares em 1957 e 31 milhões de dólares em 1958. O
acréscimo registrado (30 milhões de dólares), em 1957, é inferior em 10 milhões
às cifras indicadas pela Emprêsa.
No comércio com o território nacional as principais relações de
intercâmbio do Amapá são com o Pará, cabendo a esta Unidade, em 1956, 94%
da exportação e 59% da importação, por via de cabotagem. A praça de Belém
recebe todo o ouro, castanha e borracha, produzidos no Território.
(1) "Exposição Geral da Situação Econômica do Brasil" 1957, Conselho Nacional de
Economia.
CAPITULO V
O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
A observação da utilização dos fatôres e das condições do mercado, feita
nos capítulos precedentes, conduz a algumas generalizações acerca do problema
do desenvolvimento econômico dos Territórios através da indicação dos
objetivos, das peculiaridades e processos de incremento do produto e da renda.
A seguir damos algumas dessas formulações:
1. Substituição da coleta de látex, atividade incapaz de assegurar ao
extrator um nível de vida e de civilização pela cultura da seringueira segundo
processo racional.
2. Estímulo à propriedade agrícola de caráter não latifundiário, nas
possibilidades dos centros urbanos, aptos a absorver a produção da agricultura
de subsistência.
3. Melhoria da produtividade do rebanho bovino com o raciamento do
gado e o plantio de pastagens de elevado teor nutritivo.
4. Capitalização em âmbito territorial da renda gerada na exploração dos
principais produtos de exportação (borracha, castanha, manganês).
É claro que esses aspectos são comuns a todos os Territórios e, em cada um
deles, têm importância distinta. Assim é que, se a substituição da atividade
extrativa da borracha pela heveacultura se apresenta como problema econômico
fundamental do Acre e Rondônia, perde significação no Rio Branco e no
Amapá.
O combate ao latifúndio assume importância no Acre, com o crescimento
dos centros urbanos e a decisão do Govêrno de formar colônias agrícolas. A
melhoria da produtividade do rebanho bovino é mais sentida no Território do
Rio Branco, guardando certa importância relativa no Amapá, mesmo após o
advento da exploração do manganês. A capita-
lização local da renda dos produtos de exportação é o problema fundamental do
Amapá, mas, também, não deixa de ser importante para o Acre e Rondônia.
A difusão da lavoura de produtos de subsistência tem em vista garantir o
suprimento de gêneros alimentícios por preços inferiores aos dos importados,
baixando o custo da vida nas cidades, hoje situado em níveis dos mais altos do
País. Por outro lado, o plantio da seringueira, com a instituição da produção
racional da borracha, embora não alcance o rendimento acusado pelas
plantações do Oriente, sem dúvida alguma terá um rendimento bem maior do
que o processo primitivo de coleta de látex no seio da floresta.
A difusão da hèveacultura ressente-se da carência de recursos financeiros.
A seringueira plantada só começa a produzir no 6.° ano, e só atinge pleno
rendimento depois do 15.° ano. Durante esse prazo, morrem cêrca de 50% dos
pés inicialmente plantados. Até ao 5.° ano, portanto, o plantador de seringueira
precisa ser financiado em parcelas anuais equivalentes a 20% do custo total da
formação do seringal. Em 1957, esse custo era estimado à razão de Cr$
20.000,00 por hectare, por meio de uma atualização grosseira do cálculo
efetuado pela S.P.V. E.A. em 1951. Considerando que, num hectare, subsistam
320 árvores a partir do 15.° ano de formação do seringal e que um seringueiro
possa cortar em média 1000 árvores dispostas racionalmente, temos que seriam
necessários Cr$ 60.000,00, em 1957, para formar um seringal plantado de 3
hectares.
De posse dêste dado, fácil será avaliar o significado do esfôrço despendido
pelo B.C.A. no sentido de amparar financeiramente a difusão da hèveacultura.
Em 1957, o valor dos contratos de financiamento de seringais plantados, nos
Territórios, firmados pelo B.C.A., apenas alcançava 1 milhão de cruzeiros,
correspondendo, quando muito, a um plantio de 50 hectares. Como se vê, é
reduzido o esfôrço financeiro do B.C.A. no fomento da hèveacultura na região.
A conveniência da hèveacultura faz-se sentir tanto no plano social, por tirar
o extrator do isolamento na floresta, quanto no plano econômico, ao propiciar
maior remuneração ao trabalho e melhor padrão de vida à coletividade. Supondo
que, na pior das hipóteses, cada pé de hévea dê um rendimento médio anual de 2
quilos, num seringal de 3 hectares o seringueiro pode obter uma renda bruta de
Cr$ 84.000,00.
a preços de 1957, renda 5 vêzes maior do que a recebida por um extra-tor de
látex, naquele ano, no Acre, segundo cálculo que apresentamos em outro trecho
dêste estudo.
Em suma, a hèveacultura pode proporcionar melhores níveis de renda e de
produção, por unidade de fôrça de trabalho ocupada. Ao mesmo tempo, provoca
modificação básica no tradicional mecanismo de distribuição da renda da
borracha, ao permitir a supressão do papel do seringalista, em relação aos
pequenos seringais (de 3 hectares).
Há ainda um outro aspecto a considerar e que é o efeito da pequena lavoura
da borracha sôbre o dispêndio territorial. Como é sabido, os grandes
seringalistas transferem as suas poupanças para Manaus e Belém, deixando de
aplicá-las na fonte de produção. Por essa razão as áreas onde impera o
extrativismo permanecem sem qualquer indício de capitalização. Passando os
pequenos produtores de borracha a perceber a renda hoje absorvida pelos
seringalistas é bem provável que os Territórios do Acre e Rondônia deixem de
ser exportadores de recursos.
A carência de informações impede qualquer previsão quanto à produção da
borracha plantada. pela mesma razão deixamos de considerar o esfôrço do Poder
Público e dos criadores para elevar a produtividade do gado de corte.
De todos os Territórios o que oferece melhores perspectivas de de-
senvolvimento é o Amapá. Os recursos minerais e vegetais, o potencial
hidráulico do Araguari e a renda proveniente da exploração do manganês,
formam os principais esteios da política econômica do Govêrno territorial.
Julgando possível a implantação de algumas unidades fabris, foi elaborado um
esboço de Plano de Industrialização do Território, compreendendo o
aproveitamento dos minérios e dos óleos e gorduras vegetais. Consta que grupos
privados estão interessados na exploração de recursos locais, embora, até ao
presente, nenhum empreendimento tenha sido concretizado.
Foi cogitada, recentemente, a implantação de uma indústria de ferro-liga,
em condições de dispensar ou reduzir a exportação do minério bruto. Todavia, as
deficiências do mercado nacional e a peculiaridade do mercado internacional
não recomendam a produção de ferro-liga em grande quantidade. O consumo
nacional do produto ainda é pequeno e as grandes siderúrgicas estrangeiras
possuem fornos de redução do minério de manganês e não pretendem ficar na
dependência de importa-
ção de ferro-liga. De modo que só será exeqüível a implantação da indústria de
ferro-liga no Amapá quando ficar assegurado mercado interno para o produto.
Alguns técnicos admitem a possibilidade de êxito de uma usina com capacidade
de 20 000 toneladas de ferro-liga por ano.
Ao encarar-se o problema do desenvolvimento do Amapá, cabe indagar
qual será o papel da ICOMI no progresso futuro do Território. Pelo que
expusemos no Capítulo dedicado a esse Território, ficou claro que a Emprêsa
provocou um extraordinário surto econômico nessa Unidade retirando-a, por
assim dizer, da condição de área abandonada e isolada dentro do País, para um
estágio de intenso desenvolvimento. As dimensões econômicas da ICOMI são
tais, em relação ao que existia no Território, que, pràticamente, ela constitui o
fator decisivo da vida social e econômica amapaense. Vale recordar que 10 000
pessoas vivem diretamente das atividades da Emprêsa e que, em 1957, o valor
da exportação do manganês foi duas vêzes maior do que o valor da produção de
borracha do conjunto dos Territórios.
Pelo fato de estar instalada numa área quase deserta a ICOMI tem
exercido, ao lado da função de emprêsa, grande parte da função de govêrno.
Essa duplicidade de funções, como não podia deixar de ser, impõe aos
empresários da ICOMI e aos dirigentes políticos e administrativos do Território,
uma elevada compreensão dos respectivos papéis e tarefas.
O conflito entre a fôrça do poder econômico, representado pela ICOMI, e
o poder político, cioso de sua autoridade, provocaria, sem dúvida, enormes
prejuízos à economia territorial.
Os royalties de manganês são o maior recurso financeiro de que dispõe o
Govêrno territorial para promover o progresso material do Território. Admitindo
que, de 1957 a 1965, a ICOMI exporte perto de 6 milhões de toneladas de
minério, o Poder Público local receberá, nesse período, a importância de 1 035
milhões de cruzeiros a título de royalties e pagamento do imposto de produção
mineral ("bôca da mina"), como serie (1) :
(1) Tomamos por base o valor FOB da tonelada exportada em 1957.
Govêrno do Território Cr$ milhões
5% por 500 000 toneladas anuais ...................................... 603
10% sôbre o excedente de 500 000 toneladas anuais 362
Prefeitura de Macapá
Quota de 3% do imposto de produção................................. 70
Total ....................................................................... 1.035
Os royalties a serem recebidos até 1965 darão para cobrir a metade do
custo previsto da construção da usina do Paredão. Até 1980 o Govêrno não
poderá fazer outro uso deles senão na aplicação do Sistema Hidrelétrico do
Paredão, visto que serão transferidos automàticamente para a CE.A. (1).
O Sistema Hidrelétrico do Paredão é considerado um projeto arrojado em
vista do atual nível da demanda da energia e da incerteza quanto à realização dos
investimentos industriais por grupos privados. Atualmente a demanda na área, a
ser atendida pelo sistema, corresponde a cêrca de 10 000 kW. Uma usina de
ferro-liga para 20 000 toneladas exigiria mais 10 000 kW. Como se vê, mesmo
que fosse realizado êste empreendimento industrial, cêrca da metade da potência
da usina do Paredão, na sua 1.
a
fase, ficaria disponível, ressalvadas outras aplica-
ções baseadas em empreendimentos de que não temos conhecimento.
(1) Relatório Sintético de 1955 do Govêrno do Território Federal do Amapá.
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