A AMA-SECA
Artur Azevedo
O Romualdo, marido de D. Eufêmia, era um rapaz sério, lá isso era, e tão
incapaz de cometer a mais leve infidelidade conjugal como de roubar o sino de
São Francisco de Paula; mas - vejam como o diabo as arma! Um dia D.
Eufêmia foi chamada, a toda a pressa, a Juiz de Fora, para ver o pai que
estava gravemente enfermo, e como o Romualdo não podia naquela ocasião
deixar a casa comercial de que era guarda-livros (estavam a dar balanço),
resignou-se a ver partir a senhora acompanhada pelos três meninos, o Zeca, o
Cazuza, o Bibi, e a ama-seca deste último, que era ainda de colo.
Foi a primeira vez que o Romualdo se separou da família. Custou-lhe muito,
coitado, e mais lhe custou quando, ao cabo de uma semana, D. Eufêmia lhe
escreveu, dizendo que o velho estava livre de perigo, mas a convalescença
seria longa, e o seu dever de filha era ficar junto dele um mês pelo menos.
O Romualdo resignou-se. Que remédio!...
Durante os primeiros tempos saía do escritório e metia-se em casa, mas no
fim de alguns dias entendeu que devia dar alguns passeios pelos arrabaldes,
hoje este, amanhã aquele. Era um meio, como outro qualquer, de iludir a
saudade.
Uma noite coube a vez ao Andaraí Grande. O Romualdo tomou o bonde do
Leopoldo, e teve a fortuna ou a desgraça de se sentar ao lado da mulatinha
mais dengosa e bonita que ainda tentou um marido, cuja mulher estivesse em
Juiz de Fora.
Nessa noite fatal a virtude do Romualdo deu em pantanas: tencionando ele ir
até o fim da linha, como fazia todas as noites, apeou-se na Rua Mariz e
Barros, ali pelas alturas da Travessa de São Salvador. A mulata havia se
apeado algumas braças antes.
E ele viu, à luz de um lampião, o vulto dela saltitante e esquivo, e apressou o
passo para apanhá-la, o que conseguiu facilmente, porque, pelos modos, ela
já contava com isso.
- Boa noite!