JOANA - É de bom aviso, me parece, consultarem-se as mães quando se pretende dispor dos
filhos.
RIBEIRO (Depois de uma pausa.) - Respondo sem retóricas nem palanfrórios. Olhe bem para
mim; parece-lhe que tenho um t na testa?
JOANA - Eu é que lhe devia fazer essa pergunta.
RIBEIRO - Se a fizesse, eu responderia que sim. (Levanta-se.) Era o que faltava! eu, que
envelheci no trabalho, que tenho o espírito amadurecido, devia, para tomar uma resolução cuja
responsabilidade é minha, imediatamente minha, consultar uma senhora, e então uma senhora
quatorze anos mais nova do que eu! (Joana encosta a fronte na mão.) Para quê? Para ouvir
destas e outras. Não! não é bom que dês a nossa filha a esse homem honrado e maduro para
quem a destinaste; vai ao jardim do Santana, vai à Rua do Ouvidor, e procura um peralvilho, um
boneco, e mete-o em casa, e dá-lhe cama, mesa, roupa lavada e engomada, e tua filha, e nossa
filha também! (Pausa, durante a qual passeia de um lado para outro, com as mãos nos bolsos
das calças.) Quando eu a pedi, isto é, quando ma deu seu pai -, lembra-se?... - a senhora batia
com os pés e arrancava os cabelos, maldizendo uma sorte invejável... (Joana encara-o
fixamente.) Invejável, sim, senhora! Tomaram-na muitas, e mais pintadas! Nessa ocasião
consultou seu pai a sua mãe? Diga! (Pausa.) Não consultou, não, senhora! Meu sogro era dos
meus, e minha sogra lia romances, e a senhora também os lê, e sua filha, e nossa filha, que
para isso é que serve o dinheiro que gastei com os mestres.
JOANA - Atende, Manuel... é em nome da felicidade de Belinha que te falo!
RIBEIRO - E nós não fomos tão felizes?
JOANA - Foste-o tu; eu não!
RIBEIRO - Hein?
JOANA - Sim, porque fui sacrificada à vontade de ferro de meu pai; porque fui obrigada a
renunciar a todas as minhas aspirações, e vi desfeitos, como um castelo de fumo, todos os
meus sonhos de ventura. Obedeci. Pois que o tempo se encarrega de tudo aniquilar, sou feliz
agora, sou feliz, entendes? Porque me revejo em minha filha. Muito será condená-la também ao
sacrifício; muito será renovar contra essa pobre criança a penosa situação que precedeu o
nascimento do nosso primeiro filho.
RIBEIRO - Que queres tu dizer, mulher?
JOANA - Só depois do seu nascimento principiei a amar-te. Odiei-te a princípio, porque não te
podia amar; amei-te depois, porque Deus mo ordenava nos sorrisos de nosso filho.
RIBEIRO - A tua situação penosa só durou um ano. É muito sacrificar Belinha a um ano de
provação?