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A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS
João do Rio
This is a sensible book. This is a book to improve your mind. I do not tell you all I know, because
I do not want to swamp you with knowledge...
Jerome K. Jerome
A
João Ribeiro
Profunda admiração
JOÃO DO RIO
A RUA
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não
julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é
partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades,
nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia,
mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável
e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se
transforma, tudo varia o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a
ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis.
persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.
A rua!
Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:
Je suís la rue, femme êternellement verte,
Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte
Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis
Que ce pénible monde est monde, je la suis...
A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: "Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as
casas e as povoações por onde se anda e passeia". E Domingos Vieira, citando as Ordenações:
"Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que
correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas". A
obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários são considerados fontes fáceis de
completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte
enciclopédias, manuseei infolios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um
alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações.
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Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em
Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais
variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo
sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é
o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para
ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco
e legendário. Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com
fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os
denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo
estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os
Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos,
impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico
dosxicons futuros. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz,
luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos
pássaros.
A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu
calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de
ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de
suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos
essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das
obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a
majestade dos rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino.
Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe
resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A
rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos
delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar
triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto
da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões tão modesta,
tão lavada, tão risonha, que parece papaguear
com o céu e com os anjos...
A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada
aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dos
silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de grimas, de patifarias e de crimes
irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felino
e risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta
invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que o apelido fatal aos potentados e nunca
teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e
pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’ouro que se
faz lama e torna a ser poeira – a rua criou o garoto!
Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não
basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito
vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo
incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos
esportes – a arte de flanar. É fatigante o exercício?
Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisa nos
quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez
todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! está um verbo universal sem entrada nos
dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e
refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir
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por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha
ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os
ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das
alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico
numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter
acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer
nada e achar absolutamente necessário ir aum sítio lôbrego, para deixar de ir, levado pela
primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de
amor causa inveja.
É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o
inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas
necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela
como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do
café, como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as
preocupações e até os crimes dos transeuntes. É uma espécie de secreta à maneira de
Sherlock Holmes, sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa
bela noite numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde
vai. Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme
possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura,
porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da
cólera e da necessidade do perdão.
O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno "convidado do sereno" de
todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada
rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos
amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi
feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo, sobe para
seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido há uma
serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tanto ver
que os outros quaseo podem entrever, o flâneur reflete. As observações foram guardadas na
placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o flâneur
deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo
a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da
futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...
Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e
imóvel.
Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas. São assim as ruas de todas as
cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.
Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colmeias sociais, de
interesses comerciais, dizem. Mas ninguém o sabe. Um belo dia, alinha-se um tarrascal, corta-
se um trecho de chácara, aterra-se lameiro, e está: nasceu mais uma rua. Nasceu para
evoluir, para ensaiar primeiros passos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade. Os
homens têm no cérebro a sensação dessa semelhança, e assim como dizem de um rapagão:
– Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!
Murmuram:
– Quem há de dizer que esta rua há dez anos só tinha uma casa!
Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas, não se conteve:
É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa a chegar. Quando vim da
província esta rua tinha apenas duas casas no antigo jardim do Convento, e eu tomava chopps
no Guarda Velha a três vinténs!
Eu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os dois primeiros
dentes de um homenzarrão, com uma dentadura capaz atualmente de morder as algibeiras de
uma sociedade inteira. Era a recordação, a saudade do passado começo. nada mais
enternecedor que o princípio de uma rua? É ir vê-lo nos arrabaldes. A princípio capim, um braço
a ligar duas artérias. Percorre-o sem pensar meia dúzia de criaturas. Um dia cercam à beira um
lote de terreno. Surgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra.
Um combustor tremeluz indicando que ela se não deita com as primeiras sombras. Três ou
quatro habitantes proclamam a sua salubridade ou o seu sossego. Os vendedores ambulantes
entram por ali como por terreno novo a conquistar. Aparece a primeira reclamação nos jornais
contra a lama ou o capim. É o batismo. As notas policiais contam que os gatunos deram num
dos seus quintais. É a estréia na celebridade, que exige o calçamento ou o prolongamento da
linha de bondes. E insensivelmente, há na memória da produção, bem nítida, bem pessoal, uma
individualidade topográfica a mais, uma individualidade que tem fisionomia e alma.
Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos
transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-as nascer
sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as ao
cabo de um certo tempo.
Oh! sim, as ruas têm alma! ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres,
delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam
para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas,
spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de
sangue...
Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando parte em
tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras à mais leve sombra de perigo. Esse
beco inferno de pose, de vaidade, de inveja, tem a especialidade da bravata. E fatalmente
oposicionista, criou o boato, o "diz-se..." aterrador e o "fecha-fecha" prudente. Começou por
chamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios muita gente boa. No
tempo em que os seus melhores prédios se alugavam modestamente por dez mil réis, era a Rua
do Gadelha. Podia ser ainda hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número prodigioso de
poetas nefelibatas que a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do
Ouvidor sem que o senado da câmara fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia, como
insulta e aplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos falam de lugar do que
ouve; e parece que cada nome usado foi como a antecipação moral de um dos aspectos atuais
dessa irresponsável artéria da futilidade.
A Rua da Misericórdia, ao contrário, com as suas hospedarias bregas, a miséria, a desgraça
das casas velhas e a cair, os corredores bafientos, é perpetuamente lamentável. Foi a primeira
rua do Rio. Dela partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros, os gananciosos, os
escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imundície, nela desabotoou a flor da
influência jesuítica. Índios batidos, negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, o
primeiro balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um ai! tremendo atirado
aos céus. Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do Paço, dela decorreram, como
de um corpo que sangra, os becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças,
ribeirinhas do mar. Mas, soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes, ela
continuou pelos séculos afora sempre lamentável, e tão augustiosa e franca e verdadeira na sua
dor que os patriotas lisonjeiros e os governos, ninguém, ninguém se lembrou nunca de lhe tirar
das esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha: – Misericórdia!
ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguém dantes
imaginara a Rua dos Ourives; ruas que, pouco honestas no passado, acabaram tomando
vergonha a da Quitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-se do
Açougue Velho, do lnácio Castanheira, do Sucusarrará, do Tomé da Silva, que sei eu? Até
mesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda do Marisco, mas, como certos indivíduos que
organizam o nome conforme a posição que ocupam, cortou o marisco e ficou Quitanda. Há
ruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras a das
Laranjeiras; ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte o
Largo do Moura por exemplo. Foi sempre assim. existiu o Necrotério e antes do Necrotério
se erguia a Forca. Antes da autópsia, o enforcamento. O velho largo macabro, com a alma de
Tropmann e de Jack, depois de matar, avaramente guardou anos e anos, para escalpelá-los,
para chamá-los, para gozá-los, todos os corpos dos desgraçados que se suicidam ou morrem
assassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha também. Mesmo hoje, aberta, alargada
com prédios novos e a trepidação contínua do comércio, de vos dar uma impressão de vago
horror. À noite são mais densas as sombras, as luzes mais vermelhas, as figuras maiores. Por
que terá essa rua um aspecto assim? Oh! Porque foi sempre má, porque foi sempre ali o Aljube,
ali padeceram os negros dos três primeiros trapiches do sal, porque também ali a forca
espalhou a morte!
entretanto outras ruas, que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo sem que
todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Um cavalheiro
salta no Curvelo, vai a até o França, e quando volta todas as ruas perguntam que deseja
ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. Em geral, procura-se o
mistério da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso. As ruas de Santa
Teresa, é descobrir o par e é deitar a rir proclamando aos quatro ventos o acontecimento. Uma
das ruas, mesmo, mais leviana e tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo Rua do
Amor, e a Rua do Amor está na freguesia de S. José. Será exatamente um lugar escolhido
pelo Amor, deus decadente? Talvez não. também na freguesia do Engenho Velho uma rua
intitulada Feliz Lembrança e parece que o a teve, segundo a opinião respeitável da poesia
anônima:
Na Rua Feliz Lembrança
Eu escapei por um triz
De ser mandado à tábua.
Ai! que lembrança infeliz
Tal nome pôr nesta rua!
ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos emprestar a juro, para esconder
quem pede e paga o explorador com ar humilde. Não vos lembrais da Rua do Sacramento, da
rua dos penhores? Uma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte à igreja, casas
velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de ferro, uma ou outra
cara desocupada. E era ali que se empenhavam as jóias, que pobres entes angustiados iam
levar os derradeiros valores com a alma estrangulada de soluços; era ali que refluíam todas as
paixões e todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro...
ruas oradoras, ruas de meeting o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largo de S.
Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade a Rua de
Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nos
vêem –a Travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer
suspeito próximo do centro urbano e como que dele muito afastadas; ruas de paixão romântica,
que pedem virgens loiras e luar.
Qual de vós passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós sentiu o
mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?
A alma da rua é inteiramente sensível a horas tardias. trechos em que a gente passa
como se fosse empurrada, perseguida, corrida são as ruas em que os passos reboam,
repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nosso
encalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras descem o Largo de Paço.
Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dos
baldaquins d’ouro e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por
ali, ao lado da Praia do Peixe, simples vegetação de palhoças, o comércio agitava as suas
primeiras elegâncias e as suas ambições mais fortes. O largo, apesar das reformas, parece
guardar a tradição de dormir cedo. À noite, nada o reanima, nada o levanta. Uma grande
revolução morre no seu bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios
revérberos parece dormitarem, e as sombras que por ali deslizam são trapos da existência
almejando o fim próximo, ladrões sem pousada, imigrantes esfaimados... Deixai esse largo, ide
às ruelas da Misericórdia, trechos da cidade que lembram o Amsterdão sombrio de Rembrandt.
homens em esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. Não nos admiremos.
Somos reflexos. O Beco da Música ou o Beco da Fidalga reproduzem a alma das ruas de
Nápoles, de Florença, das ruas de Portugal, das ruas da África, e até, se acreditarmos na
fantasia de Heródoto, das ruas do antigo Egito. E por quê? Porque são ruas da proximidade do
mar, ruas viajadas, com a visão de outros horizontes. Abri uma dessas pocilgas que são a parte
do seu organismo. Haveis de ver chineses bêbados de ópio, marinheiros embrutecidos pelo
álcool, feiticeiras ululando canções sinistras, toda a estranha vida dos portos de mar. E esses
becos, essas betesgas têm a perfídia dos oceanos, a miséria das imigrações, e o vício, o grande
vício do mar e das colônias...
Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente
católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião. Trafalgar Square,
dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. O mesmo se pode
dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. Há criatura mais sem miolos que
o Largo do Rocio? Devia ser respeitável e austero. Lá, Pedro I, trepado num belo cavalo e com
um belo gesto, mostra aos povos a carta da independência, fingindo dar um grito que nunca
deu. Pois bem: não sujeito mais pândego e menos sério do que o velho ex-Largo do Rocio.
Os seus sentimentos religiosos oscilam entre a depravação e a roleta. Felizmente, outras
redimem a sociedade de pedra e cal, pelo seu culto e o seu fervor. A Rua Benjamin Constant
está neste caso, é entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa. Solene, grave, guarda
três templos, e parece dizer com circunspecção e o ar compenetrado de certos senhores de
todos nós conhecidos:
Faço as obras do Coração de Jesus, creio em Deus, nas orações, nos bentinhos e só não sou
positivista porque é tarde para mudar de crença. Mas respeito muito e admiro Teixeira Mendes...
Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações parciais da pele, dores
fulgurantes, a sensação de um contacto que não existe, a certeza de que chamam por nós. As
ruas têm os rolos, as casas mal assombradas, e até ruas possessas, com o diabo no corpo.
Em S. Luís do Maranhão uma rua sonâmbula muito menos cacete que a ópera célebre do
mesmo nome. Essa rua é a Rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia. Deu-se um
crime horrível. Às dez horas, a rua cai em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue!
sangue!
Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham maiores delírios, mas são
como os homens normais guardam dentro do cérebro todos os pensamentos extravagantes.
Quem se atreveria a resumir o que num minuto pensa de mal, de inconfessável, o mais honesto
cidadão? Entre as ruas existem também as falsas, as hipócritas, com a alma de Tartufo e de
Iago. Por isso os grandes mágicos do interior da África Central, que dos sertões adustos
levavam às cidades inglesas do litoral sacos d’ouro em e grandes macacos tremendos, têm
uma cantiga estranha que vale por uma sentença breve de Catão:
O di ti a uê, chê
F’u, a uá ny
Odé, odá, bi e
Sa lo
Sentença que em eubá, o esperanto das hordas selvagens, quer dizer apenas isto: rua foi feita
para ajuntamentos. Rua é como cobra. Tem veneno. Foge da rua!
Mas o importante, o grave, é ser a rua a causa fundamental da diversidade dos tipos urbanos.
Não sei se lestes um curioso livro de E. Demolins, Comment la route crée le type social. É uma
revolução no ensino da Geografia. "A causa primeira e decisiva da diversidade das raças, diz
ele, é a estrada, o caminho que os homens seguirem. Foi a estrada que criou a raça e o tipo
social. Os grandes caminhos do globo foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos que
transformaram os povos. Os caminhos das grandes estepes asiáticas, das tundras siberianas,
das savanas da América ou das florestas africanas insensivelmente e fatalmente criaram o tipo
tártaro-mongol, o lapão-esquimó, o pele-vermelha, o índio, o negro".
A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho começa a rua, e, por isso, ela
está para a grande cidade como a estrada está para o mundo. Em embrião, é o princípio, a
causa dos pequenos agrupamentos de uma raça idêntica. Daí, em muitos sítios da terra as
aldeias terem o único nome de rua. Quando aumentam e crescem depois, ou pela devoção da
maioria dos habitantes ou por uma impressão de local, acrescentam ao substantivo rua o
complemento que das outras as deve diferençar. Em Portugal esse fato é comum. uma
aldeia de 700 habitantes no Minho que se chama modestamente Rua de S. Jorge, uma outra no
Douro que é a Rua da Lapela, e existem até uma Rua de Cima e uma Rua de Baixo.
Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos seus habitantes, a
inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, bitos, modos, opiniões políticas. Vós todos
deveis ter ouvido ou dito aquela frase:
– Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!
Não é a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! meninas que cheiram a Botafogo, a
Haddock Lobo, a Vila Isabel, como velhas em idênticas condições, como homens
também. A rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social. Todos nós
conhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo à americana, roupas amplas à
inglesa, lencinho minúsculo no punho largo, bengala de volta, pretensões às línguas
estrangeiras, calças dobradas como Eduardo VII e toda a snobopolis do universo. Esse mesmo
rapaz, dadas idênticas posições, é no Largo do Estácio inteiramente diverso. As botas são de
bico fino, os fatos em geral justos, o lenço no bolso de dentro do casaco, o cabelo à meia
cabeleira com muito óleo. Se formos ao Largo do Depósito, esse mesmo rapaz usará lenço de
seda preta, forro na gola do paletot, casaquinho curto e calças obedecendo ao molde corrente
na navegação aérea – calças à balão.
Esses três rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada, às vezes até parentes,
não escolas, não contactos passageiros, não academias que lhes tranformem o gosto
por certa cor de gravatas, a maneira de comer, as expressões, as idéias porque cada rua tem
um stock especial de expressões, de idéias e de gostos. A gente de Botafogo vai às "primeiras"
do Lírico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de Haddock Lobo tem dinheiro mas raramente vai ao
Lírico. Os moradores da Tijuca aplaudem Sarah Bernhardt como um prodígio. Os moradores da
Saúde amam enternecidamente o Dias Braga. As meninas das Laranjeiras valsam ao som das
valsas de Strauss e de Berger, que lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos kursaals.
As meninas dos bailes de Catumbi só conhecem as novidades do senhor Aurélio Cavalcante. As
conversas variam, o amor varia, os ideais são inteiramente outros, e até o namoro, essa
encantadora primeira fase do eclipse do casamento, essa meia ação da simpatia que se funde
em desejo, é abolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das árvores do parque ou no
grande portão, Julieta espera Romeu, elegante e solitária; em Haddock Lobo, Julieta garruleia
em bandos pela calçada; e nas casas humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou todo o
dia pensando nessa hora fugace, pende à janela o seu busto formoso...
Oh! sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos. Um cidadão que tenha passado metade da
existência na Rua do Pau Ferro não se habitua jamais à Rua Marquês de Abrantes! Os
intelectuais sentem esse tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem. Eu
conheci um elegante barão da monarquia, diplomata em perpétua disponibilidade, que a
necessidade forçara a aceitar de certo proprietário o quarto de um cortiço da Rua Bom Jardim.
O pobre homem, com as suas poses à Brummell, sempre de monóculo entalado, era o
escândalo da rua. Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca
ninguém se lembrava de o tratar senão com desconfiança assustada. O barão sentia-se
desesperado e resumira a vida num gozo único: sempre que podia, tomava o bonde de
Botafogo, acendia um charuto, e ia por ali altivo, airoso, com a velha redingote abotoada, a
"caramela" de cristal cintilante... Estava no seu bairro. Até parece, dizia ele, que as pedras me
conhecem!
As pedras! As pedras são a couraça da rua, a resistência que elas apresentam ao novo
transeunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira vez uma rua de arrabalde sem que o vosso
passo fosse hesitante como que, inconscientemente, se habituando ao terreno; refleti nessas
coisas sutis que a vida cria, e haveis de compreender então a razão por que os humildes limitam
todo o seu mundo à rua onde moram, e por que certos tipos, os tipos populares, o são
realmente em determinados quarteirões.
As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os seus habitantes, que até
ruas em conflito com outras. Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra como
para inimigos. Em 1805, um século, era assim: os capoeiras da Praia não podiam passar por
Santa Luzia. No tempo das eleições mais à navalha que à pena, o Largo do Machadinho e a
Rua Pedro Américo eram inimigos irreconciliáveis. Atualmente a sugestão é tal que eles se
intitulam povo. o povo da Rua do Senado, o povo da Travessa do mesmo nome, o povo de
Catumbi. Haveis de ouvir, à noite, um grupo de pequenos valentes armados de vara:
– Vamos embora! O povo da Travessa está conosco.
É a Rua do Senado que, aliada à Travessa, vai sovar a Rua Frei Caneca...
Como outrora os homens, mais ou menos notáveis, tomavam o nome da cidade onde tinham
nascido Tales de Mileto, Luciano de Samosata, Epicarmo de Alexandria os chefes da
capadoçagem juntam hoje ao nome de batismo o nome da sua rua. o Jo do Senado, o
Juca da Harmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime, tornaram-se
célebres dois homens, Carlito e Cardosinho, temidos em toda a cidade, cheia de
Cardosinhos e de Carlitos, porque eram o Carlito e o Cardosinho da Saúde. Direis que é uma
observação puramente local? o, cem vezes não! Em Paris, a Ville-Lumière, os bandos de
assassinos tomam freqüentemente o nome da rua onde se organizaram; em Londres há ruas
dos bairros trágicos com esse predomínio, e na própria história de Bizâncio haveis de encontrar
ruas tão guerreiras que os seus habitantes as juntavam ao nome como um distintivo.
E assim os tipos populares.
Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais vivamente se exteriorizava a
influência psicológica da rua: o Pai da Criança e a Perereca.
O Pai da Criança estava deslocado, na decadência. Esse ser repugnante nascera como uma
depravação da Rua do Ouvidor. Quando o vi doente, nas tascas da Rua Frei Caneca, como
não estava na sua rua, não era mais notável. Os garotos já não riam dele, ninguém o seguia, e o
nojento sujeito conversava nas bodegas, como qualquer mortal, da gatunice dos governos.
fui descobrir a sua celebridade quando o vi em plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindo
insolências, inconcebível de descaro e de náusea. A Perereca, ao contrário. Na Rua do Ouvidor
seria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo, o delírio, a extravagância. Os
malandrins corriam-lhe ao encalço atirando-lhe pedras, os negociantes chegavam às portas,
todas as janelas iluminavam-se de gargalhadas. E por quê? Porque esses tipos são o riso das
ruas e assim como não duas pessoas que riam do mesmo modo não duas ruas cujo riso
seja o mesmo.
Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social, é claro que a
preocupação maior, a associada a todas as outras idéias do ser das cidades, é a rua. Nós
pensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os
ideais, os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de liberdade
e de difamação idéias gerais até a aspiração de dinheiro, de alegria e de amor, idéias
particulares. Instintivamente, quando a criança começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para a
rua! Ainda não fala e a assustam: se você for para a rua encontra o bicho! Se você sair
apanha palmadas! Qual! Não nada! É pilhar um portão aberto que o petiz não se lembra
mais de bichos nem de pancadas!
Sair só é a única preocupação das crianças até uma certa idade. Depois continuar a sair só. E
quando para nós esse prazer se usou, a rua é a nossa própria existência. Nela se fazem
negócios, nela se fala mal do próximo, nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem as
dores e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção.
Quando se encontra o amor
Na rua, sem o saber...
– Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da fúria.
Aí está a rua como expressão da maior calamidade.
– Você está em casa, venha para a rua se é gente!
Aí temos a rua indicando sítio livre para a valentia a substituir o campo de torneio medieval.
– É mais deslavado que as pedras da rua!
Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconcebível.
– É mais velho que uma rua!
Conceito talvez errado porque há ruas que morrem moças.
Às vezes até a rua é a arma que fere e serve de elogio conforme a opinião que dela se tem.
– Ah! minha amiga! Meu filho é muito comportado. Já vai à rua sozinho...
– Ah! meninas, o filho de d. Alice está perdido! Pois se até anda sozinho na rua!
E a rua, impassível, é o mistério, o escândalo, o terror...
Os políticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu, na França; os presidentes de
república, os reis, os papas, no pavor de uma surpresa da rua a bomba, a revolta; os chefes
de polícia são os alucinados permanentes das ruas; todos quantos querem subir, galgar a inútil
e movediça montanha da glória, anseiam pelo juízo da rua, pela aprovação da via pública, e
na patologia nervosa uma vasta parte em que se trata apenas das moléstias produzidas pela
rua, desde a neurastenia até à loucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsessão em que se
condensam todas as nossas ambições. O homem, no desejo de ganhar a vida com mais
abundância ou maior celebridade, precisava interessar à rua. Começou pois fazendo discursos
em plena ágora, discursos que, desde os tempos mais remotos aos meetings contemporâneos
da estátua de José Bonifácio, falam sempre de coisas altivas, generosas e nobres. Um belo dia,
a rua proclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento. Logo, nós assustados,
imaginamos o homem-sandwich, o cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme,
com muita goma e muita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o doce mais
gostoso, o ideal político mais austero, o vinho mais generoso, não em letras impressas mas
com figuras alegóricas, para poupar-lhe o trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignorância, para
alegrá-la. Como se não bastassem o cartaz, a lanterna mágica, o homem-sandwich,
desveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a história e fizemos o jornal esse
formidável folhetim-romance permanente, composto de verdades, mentiras, lisonjas, insultos e
da fantasia dos Gaboriau que somos todos nós...
uma estética da rua, afirmou Bulls. Sim. Há. Porque as atrizes de fama, os oradores mais
populares, os hércules mais cheios de força, os produtos mais evidentes dos blocos comerciais,
vivem de procurar agradá-la. Desse orgulho transitório surgiu para a rua a glória policroma da
arte. O temor de serem esquecidos criou para cada uma a roupagem variada, encheu-as como
Melusinas de pedra, como fadas cruéis que se teme e se satisfaz, de vestidos múltiplos, de
cores variegadas, de fanfreluches de papel, da ardência fulgurante das montras de cambiantes
luzentes; deu-lhes uma perpétua apoteose de sacrifício à espera do milagre do lucro ou da
popularidade. A estética, a ornamentação das ruas, é o resultado do respeito e do medo que
lhes temos...
No espírito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a todos os sentimentos e serve
para todas as comparações. Basta percorrer a poesia anônima para constatar a flagrante
verdade. É quase sempre na rua que se fala mal do próximo. Folheemos uma coleção de fados.
Lá está a idéia:
Adeus, ó Rua Direita
Ó Rua da Murmuração.
Onde se faz audiência
Sem juiz nem escrivão.
Aliás muito tímida, como devendo ser cantada por quem tem culpa no cartório. Mas, se um
apaixonado quer descrever o seu peito, só encontra uma comparação perfeita.
O meu peito é uma rua
Onde o meu bem nunca passa,
É a rua da amargura
Onde passeia a desgraça.
Se sente o apetite de descrever, os espécimens são sem conta.
Na rua do meu amor
Não se pode namorar:
De dia, velhas à porta,
De noite, cães a ladrar.
E é suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da amada e desejando realizar o
impossível para lhe ser agradável, só pôde sussurrar esta vontade meiga:
Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
De pedrinhas de brilhante
Para meu bem passar.
O povo observa também, e diz mais numa quadra do que todos nós a armar o efeito de períodos
brilhantes. Sempre recordarei um tocador de violão a cantar com lágrimas na voz como diante
do inexorável destino:
Vista Alegre é rua morta
A Formosa é feia e brava
A Rua Direita é torta
A do Sabão não se lava...
Toda a psicologia das construções e do alinhamento em quatro versos! A rua chega a preocupar
os loucos. Nos hospícios, onde esses cavalheiros andam doidos por se ver fora, encontrei
planos de ruas ideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me um longo
poema que começava assim:
A rua...
Cumprida, cumprida, atua...
Olê! complicada, complicada, alua
A rua
Nua!
Essa idéia reflete-se nas religiões, nos livros sagrados, na arte de todos os tempos, cada vez
mais afiada, cada vez mais sensível. Na literatura atual a rua é a inspiração dos grandes
artistas, desde Victor Hugo, Balzac e Dickens, até às epopéias de Zola, desde o funambulismo
de Banville até o humorismo de Mark Twain. Não um escritor moderno que não tenha
cantado a rua. Os sonhadores levam mesmo a exagerá-la, e hoje, devido certamente à corrente
socialista, toda uma literatura em que a alma das ruas soluça. Os poetas refinados levam a
mórbida inspiração a cantar os aspectos parciais da rua. Como os românticos cantavam os pés,
os olhos, a boca e outras partes do corpo das apaixonadas, eles cantam o semblante das casas
vazias, os revérberos de gás como Rodenbach:
Le dimanche, en semaine, et par tous les temps
L’un est debout, un autre, il semble, s’agenouille.
Et chacun se sent seul comme dans une foule.
Les revérbéres des banlieues
Sont des cages oú des oiseaux déplient leurs queues.
Os pregões, as calçadas, e houve até um Mário Pederneiras –que nos deu a sutilíssima e
admirável psicologia das árvores urbanas:
Com que magoado encanto
Com que triste saudade
Sobre mim atua
Esta estranha feição das árvores da rua.
E elas são, entretanto,
A única ilusão rural de uma cidade!
As árvores urbanas
São, em geral, conselheiras e frias
Sem as grandes expansões e as grandes alegrias
Das provincianas.
Não têm sequer os plácidos carinhos
Dessas largas manhãs provinciais e enxutas.
Nem a orquestra dos ninhos
Nem a graça vegetal das frutas.
Os artistas modernos não se limitam a exprimir os aspectos proteiformes da rua, a analisar
traço por traço o perfil físico e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal, como
sonharam um mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas de parte
alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem mendigos e sem dinheiro.
Rimbaud, nas Illuminations, teve a idéia da rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céu
cinzento, todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockward,
sonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de sonho, que
Gustavo Khan considera as ruas utópicas e que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho
e infernal sulco descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá
de sindicatos formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de meia
dúzia, serão como os elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através dos
casarões.
Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, na alma
dos poetas, no cérebro das multidões. Quem criou o reclamo? A rua! Quem inventou a
caricatura! A rua! Onde a expansão de todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para
dar a expressão da dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:
A Avenida assombrada e triste da saudade
Onde vem passear a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.
E certo poeta árabe, reconhecendo com a presciência dos vates que a rua nos pode dar a
expressão do sofrimento absoluto como da alegria completa, escreveu a celebrada Praça do
riso ao nascer da aurora; o riso de cristal das crianças, o riso perlado das mulheres, o riso grave
dos homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as árvores também riam no canto dos
pássaros, e a própria umbela azul do céu se estriava d’ouro no imenso riso do sol..
Neste elogio, talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que consegue modificar o
homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmo que a rua
é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda um valor de
sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. ainda uma rua, construída na
imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a
nossa vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo.
Todos acotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz,
atravessando as betesgas do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros
civilizados, encontram-se e se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à vida e ao
Mundo. No traçado das cidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus
rancores. É uma rua esconsa e negra, perdida na treva, com palácios de dor e choupanas de
pranto, cuja existência se conhece não por um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão,
um irredutível sentimento de angústia, cuja travessia não se pode jamais evitar. Correi os mapas
de Atenas, de Roma, de Nínive ou de Babilônia, o mapa das cidades mortas. Termas, canais,
fontes, jardins suspensos, lugares onde se fez negócio, onde se amou, lugares onde se se
cultuaram os deuses tudo desapareceu. Olhai o mapa das cidades modernas. De século em
século a transformação é quase radical. As ruas são perecíveis como os homens. A outra,
porém, essa horrível rua de todos conhecida e odiada, pela qual diariamente passamos, essa é
eterna como o medo, a infâmia, a inveja. Quando Jerusalém fulgia no seu máximo esplendor,
ela existia. Enquanto em Atenas artistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em Roma
a multidão aplaudia os gladiadores triunfais e os césares devassos, na rua aflitiva cuspinhava o
opróbrio e chorava a inocência. Cartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York,
Berlim a têm, cortando a sua alegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos e
todas as belezas. Qual de vós não quebrou, inesperadamente, o ângulo em arestas dessa rua?
Se chorastes, se sofrestes a calúnia, se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a
certeza de que entrastes na obscura via! Ah! Não procureis evita-la! Jamais o conseguireis.
Quanto mais se procura dela sair mais dentro dela se sofre. E não espereis nunca que o mundo
melhore enquanto ela existir. Não é uma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua
interminável, que atravessa cidades, países, continentes, vai de pólo a pólo; em que se
alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas as verdades, onde sofreu Epaminondas e
pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo
treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluços sinistramente ecoem na total ruína, rua das
lágrimas, rua do desespero – interminável rua da Amargura.
O QUE SE VÊ NAS RUAS
Pequenas Profissões
O cigano aproximou-se do catraieiro. No céu, muito azul, o sol derramava toda a sua luz
dourada. Do cais via-se para os lados do mar, cortado de lanchas, de velas brancas, o desenho
multiforme das ilhas verdejantes, dos navios, das fortalezas. Pelos boulevards sucessivos que
vão dar ao cais, a vida tumultuária da cidade vibrava num rumor de apoteose, e era ainda mais
intensa, mais brutal, mais gritada, naquele trecho do Mercado, naquele pedaço da rampa,
viscoso de imundícies e de vícios. O cigano, de frack e chapéu mole, já falara a dois carroceiros
moços e fortes, já se animara a entrar numa taberna de freguesia retumbante. Agora, pelos seus
gestos duros, pelo brilho do olhar, bem se percebia que o catraieiro seria a vítima, a vítima
definitiva, que ele talvez procurasse desde manhã, como um milhafre esfomeado.
Eduardo e eu caminhamos para a rampa, na aragem fina da tarde que se embebia de todos
aqueles cheiros de maresia, de gordura, de aves presas, de verduras. O catraieiro batia
negativamente com a cabeça.
– Uma calça, apenas uma, em muito bom estado.
– Mas eu não quero.
– Ninguém lhe vende mais barato, palavra de honra. E a fazenda? Veja a fazenda.
Desenrolou com cuidado um embrulho de jornal. De dentro surgiu um pedaço de calça cor de
castanha.
Para o serviço! Dois mil réis, dois!...Eu tenho família, mãe, esposa, quatro filhos menores.
Ainda não comi hoje! Olhe, tenho aqui uns anéis...não gosta de anéis?
O catraieiro ficara, sem saber como, com o embrulho das calças, e o seu gesto fraco de
negativa bem anunciava que iria ficar também com um dos anéis. O cigano desabotoara o frack,
cheio de súbito receio.
É um anel de ouro que eu achei, ouro legítimo. Vendo barato: oito mil réis apenas. Tudo dez
mil réis, conta redonda!
O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agitação estranha, agarrando a vítima pelo braço,
pela camisa, dando pulos, para lhe cochichar ao ouvido palavras de maior tentação; ninguém
naquele perpétuo tumulto, ninguém no rumor do estômago da cidade, olhava sequer para o
negócio desesperado de cigano. Eduardo, que nessa tarde passeava comigo, arrastou-me pelo
ex-Largo do Paço, costeando o cais até a velha estação das barcas.
– Admiraste aquele negociante ambulante?
– Admirei um refinado "vigarista"...
Oh! meu amigo, a moral é uma questão de ponto de vista. Aquele cigano faz parte de um
exército de infelizes, a que as condições da vida ou do próprio temperamento, a fatalidade,
enfim, arrasta muita gente. Lembras-te de La romera de Santiago, de Velez de Guevara?
uns versos que bem exprimem o que são essas criaturas:
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos...
É quanto basta como moral. Não sejamos excessivos para os humildes.
O Rio tem também as suas pequenas profissões exóticas, produto da miséria ligada às fábricas
importantes, aos adelos, ao baixo comércio; o Rio, como todas as grandes cidades, esmiúça no
próprio monturo a vida dos desgraçados. Aquelas calças do cigano, deram-lhas ou apanhou-as
ele no monturo, mas como o cigano não faz outra coisa na sua vida senão vender calçar velhas
e anéis de plaquet, tens tu uma profissão da miséria, ou se quiseres, da malandrice que é
sempre a pior das misérias. Muito pobre diabo por pelas praças parece sem ofício, sem
ocupação. Entretanto, coitados! o ofício, as ocupações, não lhes faltam, e honestos,
trabalhosos, inglórios, exigindo o faro dos cães e a argúcia dos reporters.
Todos esses pobres seres vivos tristes vivem do cisco, do que cai nas sarjetas, dos ratos, dos
magros gatos dos telhados, são os heróis da utilidade, os que apanham o inútil para viver, os
inconscientes aplicadores à vida das cidades daquele axioma de Lavoisier: nada se perde na
natureza. A polícia não os prende, e, na boêmia das ruas, os desgraçados são ainda explorados
pelos adelos, pelos ferros-velhos, pelos proprietários das fábricas...
– As pequenas profissões!... É curioso!
As profissões ignoradas. Decerto não conheces os trapeiros sabidos, os apanha-rótulos, os
selistas, os caçadores, as ledoras de buena dicha. Se não fossem o nosso horror, a Diretoria de
Higiene e as blagues das revistas de ano, nem os ratoeiros seriam conhecidos.
Mas, senhor Deus! é uma infinidade, uma infinidade de profissões sem academia! Até parece
que não estamos no Rio de Janeiro...
Coitados! Andam todos na dolorosa academia da miséria, e, tu, até nisso vocações! Os
trapeiros, por exemplo, dividem-se em duas especialidades a dos trapos limpos e a de todos
os trapos. Ainda os cursos suplementares dos apanhadores de papéis, de cavacos e de
chumbo. Alguns envergonham-se de contar a existência esforçada. Outros abundam em
pormenores e são um mundo de velhos desiludidos, de mulheres gastas, de garotos e de
crianças, filhos de família, que saem, por ordem dos pais, com um saco às costas, para cavar a
vida nas horas da limpeza das ruas.
De todas essas pequenas profissões a mais rara e a mais parisiense é a dos caçadores, que
formam o sindicato das goteiras e dos jardins. São os apanhadores de gatos para matar e levar
aos restaurants, já sem pele, onde passam por coelho. Cada gato vale dez tostões no ximo.
Uma das costelas que os fregueses rendosos trincam, à noite, nas salas iluminadas dos
hotéis, vale muito mais. As outras profissões são comuns. Os trapeiros existem desde que nós
possuímos fábricas de papel e fábricas de móveis. Os primeiros apanham trapos, todos os
trapos encontrados na rua, remexem o lixo, arrancam da poeira e do esterco os pedaços de
pano, que serão em pouco alvo papel; os outros têm o serviço mais especial de procurar panos
limpos, trapos em perfeito estado, para vender aos lustradores das fábricas de móveis. As
grandes casas desse gênero compram em porção a traparia limpa. A uns não prejudica a
intempérie, aos segundos a chuva causa prejuízos enormes. Imagina essa pobre gente, quando
chove, quando não há sol, com o céu aberto em cataratas e, em cada rua, uma inundação!
– Falaste, entretanto, dos sabidos?
Ah! os sabidos dedicam-se a pesquisar nos montes de cisco as botas e os sapatos velhos, e
batem-se por duas botas iguais com fúria, porque em geral se encontra uma desirmanada.
Esses infelizes têm preço fixo para o trabalho, uma tarifa geral combinada entre os
compradores, os italianos remendões. Um par de botas, por exemplo, custa 400 réis, um par de
sapatos 200 réis. As classes pobres preferem as botas aos sapatos. Uma bota só, porém, não
se vende por mais de 100 réis.
– Mas é bem pago!
Bem pago? Os italianos vendem as botas, depois de consertadas, por seis e sete mil réis! E o
mesmo que acontece aos molambeiros ambulantes como o cigano que acabamos de ver os
belchiores compram as roupas para vendê-las com quatrocentos por cento de lucro. Há ainda os
selistas e os ratoeiros. Os selistas nãoo os mais esquadrinhadores, os agentes sem lucro do
desfalque para o cofre público e da falsificação para o burguês incauto. Passam o dia perto das
charutarias pesquisando as sarjetas e as calçadas à cata de selos de maços de cigarros e selos
com anéis e os rótulos de charutos. Um cento de selos em perfeito estado vende-se por 200
réis. Os das carteiras de cigarros têm mais um tostão. Os anéis dos charutos servem para
vender uma marca por outra nas charutarias e são pagos cem por 200 réis. Imagina uns cem
selistas à cata de selos intactos das carteirinhas e dos charutos; avalia em 5% os selos perfeitos
de todos os maços de cigarros e de todos os charutos comprados neste país de fumantes; e
calcula, após este pequeno trabalho de estatística, em quanto é defraudada a fazenda nacional
diariamente só por uma das pequenas profissões ignoradas.
– Gente pobre a morrer de fome, coitados...
Oh! não. O pessoal que se dedica ao ofício não se compõe apenas do doloroso bando de pés
descalços, da agonia risonha dos pequenos mendigos. Trabalham também na profissão os
malandros de gravata e roupa alheia, cuja vida passa em parte nos botequins e à porta das
charutarias.
– E é rendoso?
Rendoso, propriamente, não; mas os selistas contam com o natural sentimento de todos os
seres que, em vez de romper, preferem retirar o selo do charuto e rasgar a parte selada das
carteirinhas sem estragar o selo.
– Mas os anéis dos charutos?
Oh! isso então é de primeiríssima. Os selistas têm lugar certo para vender os rótulos dos
charutos Bismarck em Niterói, na Travessa do Senado. casas que passam caixas e caixas
de charutos que nunca foram dessa marca. A mais nova, porém, dessas profissões, que saltam
dos ralos, dos buracos, do cisco da grande cidade, é a dos ratoeiros, o agente de ratos, o
entreposto entre as ratoeiras das estalagens e a Diretoria de Saúde. Ratoeiro não é um cavador
é um negociante. Passeia pela Gamboa, pelas estalagens da Cidade Nova, pelos cortiços e
bibocas da parte velha da urbs, vai até ao subúrbio, tocando um cornetinha com a lata na mão.
Quando está muito cansado, senta-se na calçada e espera tranqüilamente a freguesia,
soprando de espaço a espaço no cornetim.
Não espera muito. Das rótulas quem os chame; à porta das estalagens afluem mulheres e
crianças.
– Ó ratoeiro, aqui tem dez ratos!
– Quanto quer?
– Meia pataca.
– Até logo!
– Mas, ô diabo, olhe que você recebe mais do que isso por um só lá na Higiene.
– E o meu trabalho?
– Uma figa! Eu cá não vou na história de micróbio no pêlo do rato.
– Nem eu. Dou dez tostões por tudo. Serve?
– Heim?
– Serve?
– Rua!
– Mais fica!
E quando o ratoeiro volta, traz o seu dia fartamente ganho...
Tínhamos parado à esquina da Rua Fresca. A vida redobrava de intensidade, não de
trabalho, mas de deboche.
Nos botequins, fonógrafos roufenhos esganiçavam canções picarescas; numa taberna escura
com turcos e fuzileiros navais, dois violões e um cavaquinho repinicavam. Pelas calçadas,
paradas às esquinas, à beira do quiosque, meretrizes de galho de arruda atrás da orelha e
chinelinho na ponta do pé, carregadores espapaçados, rapazes de camisa de meia e calça
branca bombacha com o corpo flexível dos birbantes, marinheiros, bombeiros, túnicas
vermelhas e fuzileiros – uma confusão, uma mistura de cores, de tipos, de vozes, onde a luxúria
crescia.
De repente o meu amigo estacou. Alguns metros adiante, na Rua Fresca, um rapaz doceiro
arriara a caixa, e sentado num portal, entregava o braço aos exercícios de um petiz da altura de
um metro. Junto ao grupo, o cigano, com outro embrulho, falava.
Vês? Aquele pequeno é marcador, faz tatuagens, ganha a sua vida com três agulhas e um
pouco de graxa, metendo coroas, nomes e corações nos braços dos vendedores ociosos. O
cigano molambeiro aproveita o estado de semi-dor e semi-inércia do rapaz para lhe impingir
qualquer um dos seus trapos...um psicólogo, como todos os da sua raça, psicólogo como as
suas irmãs que lêem a buena dicha por um tostão e amam por dez com consentimento deles.
Oh! essas pequenas profissões ignoradas, que são partes integrantes do mecanismo das
grandes cidades!
O Rio pode conhecer muito bem a vida do burguês de Londres, as peças de Paris, a geografia
da Manchúria e o patriotismo japonês. A apostar, porém, que não conhece nem a sua própria
planta, nem a vida de toda essa sociedade, de todos esses meios estranhos e exóticos, de
todas as profissões que constituem o progresso, a dor, a miséria da vasta Babel que se
transforma. E entretanto, meu caro, quanto soluço, quanta ambição, quanto horror e também
quanta compensação na vida humilde que estamos a ver.
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos...
Mas o meu amigo não continuou o fio luminoso de sua filosofia. O catraieiro apareceu rubro de
cólera, e sutilmente cosia-se com as paredes, ao aproximar-se do cigano.
De repente deu um pulo e caiu-lhe em cima de chofre.
– Apanhei-te, gatuno!
O cigano voltara-se lívido. Ao grito do catraieiro acudiam, numa sarabanda de chinelas, fúfias,
rufiões, soldados, ociosos, vendedores ambulantes.
Gatuno! Então vendes como ouro um anel de plaquet? Espera que te vou quebrar os queixos.
Sacudiu-o, atirou-o no ar para apanhá-lo com uma bofetada. O cigano porém caiu num bolo,
distendeu-se e partiu como um raio por entre a aglomeração da gentalha, que ria. O catraieiro,
mais corpulento, mais pesado, precipitou-se também.
Os vagabundos, com o selvagem instinto da caça, que persiste no homem – acompanharam-no.
E pelos boulevards, onde se acendiam os primeiros revérberos, à disparada entre os squares
sucessivos, a ralé dos botequins, aos gritos, deitou na perseguição do pobre cigano molambeiro,
da pobre profissão ignorada, que, como todas as profissões, tem também malandros.
Então Eduardo sentenciou.
Tu não conhecias as pequenas profissões do Rio. A vida de um pobre sujeito deu-te todos
esses úteis conhecimentos. Mas, se esse pobre sujeito não fosse um malandro, não
conhecerias da profissão até mesmo os birbantes.
A moral é uma questão de ponto de vista. Para julgar os homens basta a gente defini-los
segundo os seus sucessivos estados. Se te aprouver definir os profissionais humildes pela tua
última impressão, emprega os mesmos versos de Guevara com uma pequena modificação:
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Corriendo por los caminos...
Os Tatuadores
– Quer marcar?
Era um petiz de doze anos talvez. A roupa em frangalhos, os pés nus, asos pouco limpas e
um certo ar de dignidade na pergunta. O interlocutor, um rapazola louro, com uma dourada
carne de adolescente, sentado a uma porta, indagou:
– Por quanto?
– É conforme, continuou o petiz. É inicial ou coroa?
– É um coração!
– Com nome dentro?
O rapaz hesitou. Depois:
– Sim, com nome: Maria Josefina.
– Fica tudo por uns seis mil réis.
Houve um momento em que se discutiu o preço, e o petiz estava inflexível, quando vindo do
quiosque da esquina um outro se acercou.
– Ó moço, faço eu; não escute embromações!
– Pagará o que quiser, moço.
O rapazola sorria. Afinal resignou-se, arregaçou a manga da camisa de meia, pondo em relevo a
musculatura do braço. O petiz tirou do bolso três agulhas amarradas, um de cálix com
fuligem e começou o trabalho. Era na Rua Clapp, perto do cais, no século XX... A tatuagem!
Será então verdade a frase de Gautier: "o mais bruto homem sente que o ornamento traça uma
linha indelével de separação entre ele e o animal, e quando não pode enfeitar as próprias
roupas recama a pele"?
A palavra tatuagem é relativamente recente. Toda a gente sabe que foi o navegador Loocks que
a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou, termo da Polinésia de tatou ou to tahou,
desenho. Muitos dizem mesmo que a palavra surgiu no ruído perceptível da agulha da pele: tac,
tac. Mas como é ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder o pêlo, descobriu a tatuagem.
Desde os mais remotos tempos vêmo-la a transformar-se: distintivo honorífico entre uns
homens, ferrete de ignomínia entre outros, meio de assustar o adversário para os bretões,
marca de uma classe para selvagens das ilhas Marquesas, vestimenta moralizadora para os
íncolas da Oceânia, sinal de amor, de desprezo, de ódio, bárbara tortura do Oriente, baixa
usança do Ocidente. Na Nova Zelândia é um enfeite; a Inglaterra universaliza o adorno dos
selvagens que colhem o phormium tenax para lhe aumentar a renda, e Eduardo com a âncora e
o dragão no braço esquerdo é só por si um problema de psicologia e de atavismo.
Da tatuagem no Rio faz-se o mais variado estudo da crendice. Por ele se reconstrói a vida
amorosa e social de toda a classe humilde, a classe dos ganhadores, dos viciados, das fúfias de
porta aberta, cuja alegria e cujas dores se desdobram no estreito espaço das alfurjas e das
chombergas, cujas tragédias de amor morrem nos cochicholos sem ar, numa praga que se faz
de lágrimas. A tatuagem é a inviolabilidade do corpo e a história das paixões. Esses riscos nas
peles dos homens e das mulheres dizem as suas aspirações, as suas horas de ócio e a fantasia
da sua arte e a crença na eternidade dos sentimentos são a exteriorização da alma de quem
os traz.
três casos de tatuagem no Rio, completamente diversos na sua significação moral: os
negros, os turcos com o fundo religioso e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos humildes,
que se marcam por crime ou por ociosidade. Os negros guardam a forma fetiche; além dos
golpes sarados com o preservativo do mau olhado, usam figuras complicadas. Alguns, como
o Romão da Rua do Hospício, têm tatuagens feitas cerca de vinte anos, que se conservam
nítidas, apesar da sua cor – com que se confunde a tinta empregada.
Quase todos os negros têm um crucificado. O feiticeiro Ononenê, morador à Rua do Alcântara,
tem do lado esquerdo do peito as armas de Xangô, e Felismina de Oxum a figura complicada da
santa d’água doce. Esses negros explicam ingenuamente a razão das tatuagens. Na coroa
imperial hesitam, coçam a carapinha e murmuram, num arranco de toda a raça, num arranco mil
vezes secular de servilismo inconsciente:
– Eh! Eh! Pedro II não era o dono?
E não se fotografam com um pavor surdo, como se fosse crime usar essas marcas simbólicas.
Os turcos são muçulmanos, maronitas, cismáticos, judeus, e nestas religiões diversas não
gente mais cheia de abusões, de receios, de medos. Nas casas da Rua da Alfândega, Núncio e
Senhor dos Passos, existem, sob o soalho, feitiçarias estranhas, e a tatuagem forra a pele dos
homens como amuletos. Os maronitas pintam iniciais, corações; os cismáticos têm verdadeiros
eikones primitivos nos peitos e nos braços; os outros trazem para o corpo pedaços de
paramentos sagrados. É por exemplo muito comum turco com as mãos franjadas de azul, cinco
franjas nas costas da mão, correspondendo aos cinco dedos. Essas cinco franjas são a
simbolização das franjas da taleth, vestimenta dos Khasan, nas quais está entrançado a fio de
ouro o grande nome de Ihaveh.
A outra camada é a mais numerosa, é toda a classe baixa do Rio os vendedores ambulantes,
os operários, os soldados, os criminosos, os rufiões, as meretrizes. Para marcar tanta gente a
tatuagem tornou-se uma indústria com chefes, subchefes e praticantes.
Quase sempre as primeiras lições vieram das horas de inatividade na cadeia, na penitenciária e
nos quartéis; mas eu contei na Rua Barão de S. Félix, perto do Arsenal de Marinha, e nas
ruelas da Saúde, cerca de trinta marcadores. pequenos de dez, doze anos, que saem de
manhã para o trabalho, encontram os carregadores, os doceiros sentados nos portais.
– Quer marcar? perguntam; e tiram logo do bolso um vidro de tinta e três agulhas.
Muitos portugueses, cujos braços musculosos guardam coroas da sua terra e o seu nome por
extenso, deixaram-se marcar porque não tinham que fazer.
Que quer V.S.? O pequeno estava a arreliar. Marca, moço, marca! E tanto pediu que pôs pra
aí os risquinhos.
Os pequenos, os outros marcadores ambulantes, têm um chefe, o Madruga, que no mês de
abril deste ano fez trezentas e dezenove marcações. Madruga é o exemplo da versatilidade e da
significação miriônima da tatuagem. Tem estado na cadeia várias vezes por questões e
barulhos, vive nas Ruas da Conceição e S. Jorge, tem amantes, compõe modinhas satíricas e é
poeta. É dele este primor, que julga verso:
Venha quanto antes d. Elisa
Enquanto o Chico Passos não atiça
Fogo na cidade...
Homem tão interessante guarda no corpo a síntese dos emblemas das marcações um Cristo
no peito, uma cobra na perna, o signo de Salomão, as cinco chagas, a sereia, e no braço
esquerdo o campo das próprias conquistas. Esse braço é o prolongamento ideográfico do seu
monte de Vênus onde a quiromanciaas batalhas do amor. Quando a mulher lhe desagrada e
acaba com a chelpa, Madruga emprega leite de mulher e sal de azedas, fura de novo a pele,
fica com o braço inchado, mas arranca de lá a cor do nome.
Enquanto andou a fornecer-me o seu profundo saber, Madruga teve três dessas senhoras a
Jandira, a Josefa e a Maria. A primeira a figurar debaixo de um coração foi a Jandira. Um belo
dia a Jandira desaparecia, dando lugar à Josefa, que triunfava em cima, entre as chamas. Um
mês depois a letra J sumira-se e um M dominava no meio do coração.
Os marcadores têm uma tabela especial, o preço fixo do trabalho. As cinco chagas custam
1$000, uma rosa 2$000, o signo de Salomão,o mais comum e o menos compreendido porque
nem um só dos que interroguei o soube explicar, 3$000, as armas da Monarquia e da República
6$ a 8$, e há Cristos para todos os preços.
Os tatuadores têm várias maneiras de tatuar: por picadas, incisão, por queimadura
subepidérmica. As conhecidas entre nós são incisivas nos negros que trouxeram a tradição da
África e, principalmente, as por picadas que se fazem com três agulhas amarradas e embebidas
em graxa, tinta, anil ou fuligem, pólvora, acompanhando o desenho prévio. O marcador trabalha
como as senhoras bordam.
Lombroso diz que a religião, a imitação, o ócio, a vontade,o espírito de corpo ou de seita, as
paixões nobres, as paixões eróticas e o atavismo são as causas mantenedoras dessa usança.
Há uma outra – a sugestão do ambiente. Hoje toda a classe baixa da cidade é tatuada – tatuam-
se marinheiros, e em alguns corpos o romance imageográfico de inversões dramáticas;
tatuam-se soldados, vagabundos, criminosos, barregãs, mas também portugueses chegados da
aldeia com a pele sem mancha, que influência do meio obriga a incrustar no braço coroas do
seu país.
Andei com o Madruga três longos meses pelos meios mais primitivos, entre os atrasados
morais, e nesses atrasados a camada que trabalha braçalmente, os carroceiros, os
carregadores, os filhos dos carroceiros deixaram-se tatuar porque era bonito, e são no fundo
incapazes de ir parar na cadeia por qualquer crime. A outra, a perdida, a maior, o oceano
malandragem e da prostituição é que me proporcionou o ensejo de estudar ao ar livre o que se
pode estudar na abafada atmosfera das prisões. A tatuagem tem nesse meio a significação do
amor, do desprezo, do amuleto, posse, do preservativo, das idéias patrióticas do indivíduo, da
sua qualidade primordial.
Quase todos os rufiões e os rufistas do Rio têm na mão direita entre o polegar e o indicador,
cinco sinais que significam as chagas. Não nenhum que não acredite derrubar o adversário
dando-lhe uma bofetada com a mão assim marcada. O marinheiro Joaquim tem um Senhor
cruficificado no peito e uma cruz negra nas costas. Mandou fazer esse símbolo por esperteza.
Quando sofre castigos, os guardiões sentem-se apavorados e sem coragem de sová-lo.
– Parece que estão dando em Jesus!
A sereia lábia, a cobra atração, o peixe significa ligeireza na água, a âncora e a estrela o
homem do mar, as armas da República ou da Monarquia a sua compreensão política. Pelo
número de coroas da Monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal é monarquista.
Os lugares preferidos são as costas, as pernas, as coxas, os braços, as mãos. Nos braços estão
em geral os nomes das amantes, frases inteiras, como por exemplo esta frase de um soldado
de um regimento de cavalaria: viva o marechal de ferro!... desenhos sensuais, corações. O
tronco é guardado para as coisas importantes, de saudade, de luxúria ou de religião. Hei de
lembrar sempre o Madruga tatuando um funileiro, desejoso de lhe deixar uma estrela no peito.
– No peito não! cuspiu o mulato, no peito eu quero Nossa Senhora!
A sociedade, obedecendo à corrente das modernas idéias criminalistas, olha com desconfiança
a tatuagem. O curioso é que e esses estranhos problemas de psicologia talvez não sejam
nunca explicados o curioso é que os que se deixam tatuar por não terem mais que fazer, em
geral, o elemento puro das aldeias portuguesas, o único quase incontaminável da baixa classe
do Rio, mostram sem o menor receio os braços, enquanto os criminosos, os assassinos, os que
deixaram a ficha no gabinete de antropometria, fazem o possível para ocultá-los e escondem
os desenhos do corpo como um crime. Por quê? Receio de que sejam sinais por onde se faça o
seu reconhecimento? Isso com os da polícia talvez. Mas mesmo com pessoas, cujos intentos
conhecem, o receio persiste, porque decerto eles consideram aquilo a marca de fogo da
sociedade, de cuja tentação foram incapazes de fugir, levados pela inexorável fatalidade.
tatuagens religiosas, de amor, de nomes, de vingança, de desprezo, de profissão, de beleza,
de raça, e tatuagens obscenas.
A vida no seu feroz egoísmo é o que mais nitidamente ideografa a tatuagem.
As meretrizes e os criminosos nesse meio de becos e de facadas têm indeléveis idéias de
perversidade e de amor. Um corpo desses, nu, é um estudo social. As mulheres mandam
marcar corações com o nome dos amantes, brigam, desmancham a tatuagem pelo processo do
Madruga, e marcam o mesmo nome no pé, no calcanhar.
Olha, não venhas com presepadas, meu macacuano. Tenho-te aqui, desgraça! E mostram ao
malandro, batendo com o chinelo, o seu nome odiado.
É a maior das ofensas: nome no calcanhar, roçando a poeira, amassado por todo o peso da
mulher...
ainda a vaidade imitativa. As barregãs das vielas baratas têm sempre um sinalzinho azul na
face. É a pacholice, o grain de beauté, a gracinha, principalmente para as mulatas e as negras
fulas que o consideram o seu maior atrativo. Quando envelhecem, as pobres mulheres mandam
apagar os sinais – porque querem ir limpas para o outro mundo, e a Florinda, pouco falecida,
que rolara quarenta anos nos bordéis de S. Jorge e da Conceição, dizia-me antes de morrer:
Ai, meu senhor, isto é para os homens! Quando se fica velho arranca-se, porque a terra não
vê e Deus não perdoa.
Grande parte desses homens e dessas mulheres têm o delírio mais sensual, fazem os nomes
queridos em partes melindrosas, marcam os membros delicados com punhais, lâmpadas e
outros símbolos. Neste caso eu tenho o Antônio Doceiro, um lindo rapazito que foi bombeiro
depois de ter rolado pelo mundo, e a Anita Pau. Ambos têm desenhos curiosos por todo o corpo,
e a pobre Anita mostra no calcanhar por extenso o nome do pai seus filhos e traz em cada seio
a inicial dos dois pequenos como numa oferenda a sua única oferenda de mãe aos
desgraçados perdidos...
Num meio de tão fraca ilusão, onde as miçangas substituem os pendentifs d’arte e a vida ruge
entre o desejo e o crime, depois de muito os pobres entes marcados como uma cavalhada a
cavalhada da luxúria e do assassínio –, começa a gente a sentir uma concentrada emoção e a
imaginar com inveja o prazer humano, o prazer carnal, que eles terão ao sentir um nome e uma
figura debaixo da pele, inalteráveis e para todo o sempre.
Aquele pequeno impressionou-me de novo na sua profissão estranha. Indaguei:
– Quanto fizeste hoje?
– Hoje fiz doze mil réis.
E eu compreendi que afinal tatuador deve ser uma profissão muito mais interessante que a de
amanuense de secretaria...
Orações
– Que está você a vender?
– Orações, sim senhor.
– Novas?
– Uma nova, sim – a oração dos nove.
Era num canto de rua, por uma tarde de chuva. O pobre garoto, muito magro, com o pescoço
muito comprido, sobraçava o maço de orações, a sorrir.
– Mas, criatura, a oração dos nove foi desmoralizada!
E agora é que se vende mais. Olhe, eu hoje vendi quatrocentos folhetos. Só de oração dos
nove, trezentos e vinte cinco.
Eu acredito nos prodígios. É uma opinião individual mas definitiva. Se a oração dos nove, depois
de assustar toda a cidade e de incomodar o arcebispo, ainda continuava com um tão grande
número de crentes, era porque tinha prodigiosas virtudes. Comprei a oração e estuguei o passo.
Que é afinal uma oração? É um levantamento da alma a Deus com o desejo de o servir e gozar,
e S. João de Damasco já a definia um pedido de coisas convenientes, com medo de que os fiéis
pedissem também inconveniências. Aquele menino magro, naquela esquina de rua, era um dos
insignificantes agentes desse tremendo micróbio da alma.
Si I’on en croit les savants
Pour qui toute la Nature
N’est qu’un bouillon de culture
Mortel aux pauvres vivants.
Quantas orações andam por aí impressas em folhetinhos maus,vendidas nas grandes livrarias e
nos alfarrabistas, exportadas para a província em grossos maços, ou simplesmente
manuscritas, de mão em mão, amarradas ao pescoço dos mortais em forma de breve! Há nessa
estranha literatura edições raras, exemplares únicos que se compram a peso de ouro; orações
árabes dos negros muçulmins, cuja tradução não se vende nem por cinqüenta mil réis; orações
de pragas africanas, para dizer três vezes com um obi na boca; orações para todas as coisas
possíveis e impossíveis. O homem é o animal que acredita principalmente no absurdo. Levei
muito tempo a colecionar essas súplicas bizarras. mais de mil: de S. Bento, de Santa Luzia,
de Santa Helena, Monserrate, S. João Batista, Milagre de Jesus Cristo, Maria Eterna, Santa
Bárbara, Menino Deus, Santa Catarina, Senhora do Socorro, Santa Teresa, S. Antônio, S. Jorge,
Nossa Senhora da Guia, S. Marcos, S. Benedito, Santo Sepulcro, Nossa Senhora do Rosário,
Magnificat, Anjo Custódio, S. Lourenço, S. Joaquim, S. Estevão, Bom Parto, Anunciação para
defumar a casa, Santa Filomena, Conceição, S. Roque, S. Sebastião, S. Anastácio, S. Simão,
Menino Deus contra o sol e o mar salgado, Maria Madalena, Dores, S. Pedro e S. Paulo, S.
Emídio, S. Tiago pelos agonizantes, Sonhos de Nossa Senhora, Juízo Divinal, Perdão Eterno,
Senhor dos Passos, S. Cosme e S. Damião, Nossa Senhora da Glória, que sei eu? até
orações a santos que o Papa desconhece e nunca foram canonizados, como a oração de S.
Gurmim, boa para a dor de calos, e a de S. Puiúna, infalível nas nevralgias. Os homens vivem
no mistério das palavras conciliadoras.
Antes de nascer tem logo a oração do Bom Parto, em que se suplica à Virgem, apelando para o
nascimento de Jesus, um bom sucesso. Toda a mulher que trouxer consigo esta oração no
pescoço, rezando todos os dias 7 ave-marias, e uma salve-rainha, 7 dias antes de parir, terá
sempre junto a seu leito a Virgem Santíssima do Bom Parto.
Acompanham-na a oração para a dentição e a de Nossa Senhora dos Remédios, logo depois de
nascido. Quando fala, decora a oração para ao deitar na cama: "Nesta cama me deito, desta
cama me levanto, a Virgem Nossa Senhora me cubra com o seu manto. Se eu coberto com ele
for não terei medo nem pavor, nem coisa que deste ou outro mundo for" e a oração para
levantar da cama, que se pronuncia mesmo ao ruminar os mais horrendos delitos.
Depois começam os contratos extravagantes, as rezas covardes em que se lisonjeia os santos
para obter deles altos favores e até clamorosas maldades.m a forma de padre-nossos, são
às vezes assinadas por homenzinhos que as precedem de palavras contando o milagre do seu
achado. Não em todo esse baixo mundo de crença uma oração inteiramente altruística ou
desfeita dos egoísmos terrenos. duas existem defendendo apenas a Igreja – a de S. Pedro e
S. Paulo e a de S. Miguel, que por sinal começa neste violento estilo:
Ó arcanjo S. Miguel, meu poderoso protetor, a quem Deus onipotente encarregou a defesa geral
de todos os homens, apesar de terem o Anjo da Guarda, e que sois capitão dos nove casos
angélicos, cuja prerrogativa me animo a suplicar-vos que me perdoeis o atrevimento com que
vos falo apontando-vos a relaxação, atrevimento, altivez e desenvoltura, falta de religião e vícios
de que estão possuídos os corações cristãos...
As outras pedem pelo menos o céu, e estão neste caso modesto a do Rosário e a de São
Benedito. Os autores, porém, prudentemente, numa nota à parte, comunicam aos crentes os
bens de tais rezas:
Quem usar desta oração e rezar com viva fé, ao menos uma vez por semana, não será mordido
por cão danado; se for à guerra não morrerá nem será vencido, não se afogará nem morrerá
queimado, sua casa estará em paz, tudo lhe irá bem, os invejosos, os maus olhos, os mal
intencionados, nem os que usam de maléficos e feitiçarias lhe farão dano algum.
E ainda por cima, se rezar umas ave-marias, terá indulgências.
As outras são verdadeiros requerimentos ou cartas de empenho.
O sujeito reza como vai ao ministro do Interior pedir um lugar de guarda-civil. A bajulação é
quase idêntica. Diante do altar, a humanidade trata de viver da mesma maneira por que vive
diante dos césares, dos senhores feudais ou do chefe de polícia.
Ó incomparável Senhora da Conceição Aparecida, mãe de meu Deus, Rainha dos Anjos,
Advogada dos Pecadores. Refúgio e Consolação dos Aflitos e dos Atribulados ó Virgem
Santíssima cheia de bondade, lançai sobre nós um olhar favorável.
E como um poeta sem emprego diante de um oligarca estadual:
Lembrai-vos, Clementíssima Mãe Aparecida, não constar de todos que a vós têm recorrido e
implorado vossa singular proteção, fosse por vós algum abandonado. Animado por esta
confiança, a vós recorro e vos tomo de hoje para sempre por minha mãe, minha protetora,
minha consolação, meu guia...
Algumas, talvez duvidando do poder dos santos no ócio perpétuo do paraíso, vão diretamente a
Deus, levando-os como simples advogados. Há, por exemplo, a oração de São Elesbão e Santa
Efigênia reunidas não sei por quê. Pois bem. A oração começa assim:
Atendei, ó Deus onipotente, às nossas súplicas, e porque nos confessar réus de muitos
pecados, permiti que sejamos absolvidos deles pelas intercessões dos gloriosos mártires S.
Elesbão e Santa Efigênia e que o precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo fiquemos
lavado e relavado das nossas culpas; limpo e puro mais do que quando nascemos.
Esta petição é um modelo de lisonjearia, de adulação, de humildade postiça, de engrossamento
ao velho potentado de todos os tempos, infinitamente multiplicado nesta democrática época de
potentados! É o supra-sumo do rés-do-chão, é a flor perfeita da maneira de pedir!
Não são, entretanto, Santa Efigênia e São Elesbão os únicos atirados ao secundário papel de
advogados, S. Jerônimo, advogado contra os tremores subterrâneos, também o é, tendo como
compensação um hino.
Jerônimo santo, máximo penitente,
Rogai por nós a Deus eficazmente.
Jerônimo santo, sábio e forte,
Assiste-nos agora e na hora da morte.
E S. Simão, que livra do raio, não faz outra coisa senão pedir a Deus que fulmine apenas os
pára-raios, e Santa Bárbara, coitada, logo que começa a trovejar tem que pedir a Deus menos
barulho para não ouvir este hino fantástico:
Salve, virgem gloriosa
E Bárbara generosa
Do paraíso fresca rosa
Lírio de castidade
Salve ó virgem toda formosa
Lavada na fonte da castidade.
Mas as orações são antes de tudo um meio de remediar o mal. Que faz a oração de São Luís
Gonzaga, praticada pelas meninas do Rio desde o tempo em que a Rua Teófilo Otoni era
musicalmente a Rua das Violas? Remedeia os males de amor. Quando uma rapariga cai de
joelhos e soluça:
Ó Luis santo, adorado de angélicos costumes, eu, indigníssima devota vossa, vos recomendo
singularmente a castidade da minha alma e do meu corpo. Rogo por vossa angélica pureza que
intercedais por mim ante o cordeiro imaculado Cristo Jesus e sua mãe Santíssima Virgem e que
me preserveis de todo o passado grave, não permitindo que eu saia manchada com alguma
nódoa de impureza...
Podeis ter a certeza, ó mortais, que a tentação anda no coração da donzela de tal forma que S.
Luís, apesar de angélico e de santo, chegará fatalmente tarde para a salvar. E assim uma velha
senhora solteira que recitar convictamente a oração de S. Lourenço:
Onipotente Deus, que ao Vosso bem-aventurado mártir S. Lourenço destes esforço para triunfar
dos incêndios e dos seus tormentos, concedei que se extinga em nós o fogo...
Ah! Deus de bondade! esta pobre senhora, assim velha e assim solteira, está muito mal!
S. Luis e S. Lourenço, entretanto, gozam da relativa liberdade de vir quando querem. Santo
Onofre porém, pequeno e barbadinho, vive estrangulado no cós das saias das senhoras para
ouvir todas as manhãs esta suprema ironia súplice:
Meu glorioso Santo Onofre bispo, confessor de meu senhor Jesus Cristo, em Roma fostes aos
pés do padre santo vos ajoelhar, pedistes pão para as solteiras, pão para as casadas, pão para
as viúvas, pão para as donzelas. Pedi para mim também que sou sua inquilina. Meu glorioso
Santo Onofre, vos peço que me deis comida para comer, roupa para vestir, dinheiro para gastar
e graça para vos servir. Amém!
E Santo Onofre não protesta, não grita, não foge, como S. Silvestre, educado na humildade
evangélica, tolera este lamentável pedido:
Valha-me o senhor S. Silvestre, pelas três camisas que veste, no ano de trinta e sete, matastes
e feristes e abrandastes os corações dos mouros, as bocas das serpentes. Assim eu abrandarei
o coração dos meus inimigos que venham ajoelhar-se aos meus pés, porque Deus que é Deus
pode e acaba com tudo que quer, traga teu coração debaixo de teu pé esquerdo...
Que diz o venerável Santo a esse coração sem concordância pronominal metido
miseravelmente debaixo de um pé? Talvez nem saiba a mísera crendice, e ande por cima no
azul, esquecido da maldade humana...As almas, apesar de benditas, porém, por aqui
andaram, já sentiram o amor, o ciúme e o medo, e a oração que as incensa é também velhaca e
cheia de sandices:
Minhas almas santas benditas, aquelas que são do mesmo senhor Jesus Cristo, por aquelas
que morreram enforcadas, por aquelas três almas que morreram degoladas, por aquelas três
almas que morreram a ferro frio, juntas todas três, todas seis a todas nove, para darem três
pancadas no coração dos inimigos, que eles ficarão humildes a mim debaixo de paz e
consolação, a ponto de terem olhos e não me ver, pernas e não me alcançarem, braços e não
me agarrarem – para sempre e sem fim.
Os homens, à solta, no recato das alcovas deliram calmamente. Há gente que antes de sair reza
a oração de S. Jorge, para não ser ofendida pelos seus inimigos, e a de Santa Catarina para
alcançar o perdão dos pecados; há senhoras que aspergem os cantos da casa com água benta,
dizendo a oração da bênção das casas, que consta de 382 palavras, e a oração de Santo
Anastácio contra os demônios; seres pensantes que trazem ao pescoço a oração de S.
Roberto contra os feitiços, oração que, segundo o editor, estava junto a uma "milagrosa carta,
achada em um lugar três léguas distante de S. Marcos, escrita com letras de ouro e pela mão de
Deus Nosso Senhor, Filho da Virgem Maria"!
É pois natural que as almas não se ofendam com um mau pedido e que S. Marcos pobre
santo! sorria quando ouvia à meia-noite esta tremenda oração brava, que lembra as cenas de
enfeitiçamento medievo:
Chamo S. Marcos e S. Manços e seu confidente o anjo mau em meu auxílio para se apoderar
do meu espírito e vida, juntamente com a pessoa que desejo fazer o mal, ou bem e com o dedo
polegar da mão esquerda faço três vezes o Sinal da Cruz e com uma faca de ponta espetada na
porta da rua ou mesa, com um lenço ou guardanapo bem alvo direi as seguintes palavras: Cristo
morreu, Cristo sofreu, Cristo padeceu: assim peço-vos meu gloriosoo Marcos e São Manços
que sofra e padeça os maiores tormentos e torturas deste mundo a pessoa que eu quero para
mim e pegando na faca com toda a fé e coragem que me dá esta Oração darei quatro golpes na
porta, ou mesa e pela quarta vez chamarei São Marcos e São Manços e o anjo mau, para me
dar força e coragem de dizer: "Credo em Cruz" em círculo onde se acha a faca! Amém."
Oh! o poder da palavra pronunciada misteriosamente! Os homens de todos os países, de todas
as terras têm-lhe um terror sagrado. Essas orações ainda guardam um sentido mais ou menos
claro. A maior parte porém é apenas um estranho jogo de disparates, uma trapalhada
alucinante. Há uma oração contra o sol, que ao lê-la sente a gente a vertigem do desequilíbrio:
Deus quando pelo mundo andou muito sol e calor apanhou, encontrou com Nossa Senhora com
que o sol se tiraria com um guardanapo de olhos e copo d’água fria. Sim, como falo verdade
torna o sol a seu lugar, vai esta senhora pelo mar abaixo com o copinho de água fria, o mal que
ela tem no corpo e na cabeça tire de Deus e da Virgem Maria.
É exatamente a maneira rítmica, o disparate deduzido dos literatos do Hospício e até hoje, se eu
percebi que tais palavras são contra o calor, não me foi possível ainda saber o que quer dizer
esta formidável oração do mar sagrado:
Mar sagrado, eu te venho salvar, a tua água te venho pedir para fortuna por Deus para minha
casa levar; para que me dê ouro para guardar e prata para gastar, cobre para dar aos pobres.
Como exemplo de estilo desvairado há, entretanto, outras quase tão lindas como as poesias
nefelibatas, pela sua dolorosa e obtusa ingenuidade. Está neste caso "O Perdão Eterno."
S. José que caminhava com a Virgem Maria
Tanto caminha de noite como de dia
Abre a porta porteiro
Que aqui está a Virgem Maria
Não quis parir na cama
Nem na cortina.
Pariu na manjedoura
Onde o bento boi comia.
Desceram os anjos dos céus, cantando Ave Maria
Subiu para o céu rezando Santa Maria.
O eterno lhe perguntou, como ficou a parida?
Ficou coberto de ouro o seu bento filho
E o berço em que ele embalava era de ouro e latão
Aqui se acaba esta santa oração.
Quem esta oração rezar 7 sexta-feira, da paixão,
E outras tantas carnais,
Tem cem anos de perdão,
Se for seu pai, sua mãe, mais toda a sua geração.
na Ilíada um trecho muito citado e rico de verdades. Homero fala das orações e diz "As
orações são filhas do grande Zeus, filho de Cronos. Capengas, zarolhas, feiarronas ocupam-se
em seguir a fatalidade. A fatalidade é robusta e ágil. Vai muito adiante fazendo aos homens um
mal que as orações remedeiam." É destino do homem rezar, pedir o auxílio do desconhecido
para o bem e para o mal, é sina deste pobre animal, mais carregado de trabalhos que qualquer
outro bicho da terra ou do mar, ter medo e desconfiar das próprias forças. A fatalidade o vai
conduzindo por caminhos que são despenhadeiros às vezes e campos de risos raramente. O
homem chora, ergue os olhos para o azul do céu, a menor das suas ilusões povoa-o de forças
invisíveis e fala, e pede, e suplica. Que importa que diga tolices ou frases lapidares, horrores ou
pensamentos suaves? É preciso remediar a fatalidade.
E é por isso que enquanto existir na terra um farrapo de humanidade, esse farrapo será um
moinho de orações.
É por isso, talvez, que os vendedores de orações acabam mais ou menos supersticiosos dessa
superstição teimosa que acredita apesar de tudo; é por isso que um pobrezinho vendedor
dessas fantasias do pavor ignorante não sai de casa sem recitar à estrela dos pastores estas
precavidas frases:
Desta casa me
aparto em boa
paz boa viagem.
Deus adiante, a
bela cruz atrás eu no meio, altos e
montes para mim sejam. Oremos
bocas de cães e lobos sejam fecha-
das, tenham olhos e não me vejam,
tenham pernas e não me sigam
tenham boca e não me falem,
tenham braços
e não me pe-
guem, tão guar-
dado me vejam
como a Virgem
Maria guardou
o seu amado
filho desde as
portas de Be-
lém até Jeru-
salém.
Amén...
Os Urubus
– Estou esperando!
– Não quero!
– Deixá-lo passar!
– Naufragou!
Eu vinha vindo com o frescor da manhã por aquele trecho da praia de Santa Luzia, tão suave e
tão formoso, onde se amontoam as coisas lúgubres da cidade a Santa Casa, o Necrotério, o
serviço de enterramentos. Entre as árvores fronteiras ao hospital vendedores ambulantes
vociferavam os pregões de canjica, de mingau, de pães doces; dos bondes pejados de gente
saltavam criaturas doentes, paralíticas algumas, de óculos outras. Pelas escadas de pedra
lavada formigava constantemente a turba doente, mostrando as mazelas, como um insulto e
uma afronta aos que estavam sãos, entre os enfermeiros do hospital, de calça de zuarte azul e
dólmã pardo, nédios e sadios. Eu vinha precisamente pensando como gozam saúde os
enfermeiros, e aquelas frases maçônicas fizeram-me mal. Parei, consultei o relógio. Os quatro
tipos não se ralavam mais com a minha presença. Dois olhavam com avidez os bondes que
vinham da Rua do Passeio; dois estavam totalmente voltados para o lado da Faculdade. Ao
aparecer um bonde, um magrinho bradou:
– Largo!
Prestei atenção. Do tramway em movimento saltou um cavalheiro defronte do Necrotério.
– De cima! bradou outro tipo.
– Última! regougou o terceiro.
E cercaram o cavalheiro.
V. Sa. de aceitar um cartãozinho da nossa casa. o precisa de se incomodar. Tratamos
de tudo! Faça negócio comigo!
A um tempo falavam todos, e o cavalheiro, coberto de luto, com o lenço empapado de suor e de
lágrimas, murmurava, como se estivesse a receber pêsames:
– Muito obrigado! Muito obrigado!
Aproximei-me de um dos funcionários do serviço mortuário.
– Que espécie de gente é essa?
– Oh! não conhece? São os urubus!
– Urubus?
– Sim, os corvos.. . É o nome pelo qual são conhecidos aqui agenciadores de coroas e fazendas
para luto. Não é muito numerosa a classe, mas que faro, que atividade!
Totalmente interessado, tive uma dessas exclamações de pasmo que lisonjeiam sempre os
informantes e nada exprimem de definitivo. E sorriu, tossiu e falou. Foi prodigioso.
Os agenciadores de coroas levantam-se de madrugada e compram todos os jornais para ver
quais os homens importantes falecidos na véspera. Defunto pobre não precisa de luxo, e coroa
é luxo. Logo que tomam as notas disparam para a casa do morto e propõem adiantar o que for
necessário para o enterro, com a condição de se lhes comprarem as coroas. Algumas casas
têm mesmo nos cartões os seguintes dizeres encarregam-se de tratar de enterros sem cobrar
comissão de espécie alguma. E os títulos dessas casas davam para um tratado de psicologia
recreativa. os poéticos os delicados, os floridos, os babosos, os fúnebres "Tributo da
Saudade, "Coroa de Violetas", "Flor de Lis", "Bogari", "A Jardineira", "Coroa de Rosas"...
– Mas...e estes homens aqui?
Estes homens são os urubus de Santa Luzia, serviço especial e maçônico. Três ficam à
entrada principal da Santa Casa. Quando avistam um tipo, brada o primeiro: estou esperando!
Se o tipo não tem cara de enterro: o quero! Deixá-lo passar. Se o homem vem de tílburi,
correm até aqui a acompanhá-lo... Se o tílburi segue, bradam: naufragou! E voltam ao lugar
donde não saíram os outros. É interessante ouvir-lhes o diálogo. Tu é que não correste!
Conheço o homem; antes fosse, era meu o negócio...
– Mas é horrível!
É a vida, meu caro. Aqui estacionam sete agentes; o assalto ao freguês vai pela vez, como
aos sábados, nos barbeiros. Quatro oferecem grinaldas aos passageiros que saltam dos
bondes; três aos que vêm a pé. Ao ver o bando ao longe a frase: De cima! que é o sinal. Do
lado de! quando ele salta do lado oposto. Última! quando salta no Necrotério. um dos urubus
acerta, grita: Estou empregado! E feito o negócio o outro avança, dizendo: Grinalda! para obter
como resposta: A tua é minha...
Quando aparece por acaso algum freguês conhecido de um agenciadores dá-se o "combate".
Os três que ficaram "desempregados", desejando "furar" o agenciador amigo, quando não
conseguem convencê-lo arranjam meio de o cacetear até que o negócio não se realize. Nessa
ocasião assistimos a cenas calorosas, a conflitos sérios, em que se faz sentir a intervenção da
polícia. Mas à noite, graças aos deuses, acabado o trabalho, vão todos para a venda do Antônio,
à Rua da Misericórdia, beber cerveja.
– São estes então? fiz, voltando-me.
Estes só, não. outros, os que fazem ponto no Largo da Batalha e rendem estes à hora do
almoço e que têm o posto depois de ter todas as notas dos tipos que estão na secretaria e
tratar de enterros.
– Como os agentes de polícia?
– Tal qual. E terminam sempre com a nota policial: quarenta anos presumíveis.
Rimos ambos. O sol está brilhante e o céu, inteiramente azul, dá-nos desejos de viver e de
compreender a vida pelos seus mais ridentes aspectos.
– Os urubus devem ter nome?
– Têm, são urubus urbanos. Vê o senhor aquele? É o Chico Basílio. Há cerca de 30 anos exerce
a profissão. Está vendo aquele grupo? Encontra o Brasilino, o Caranguejo, o Bilu, o Espanhol
da Saúde, o Mangonga. Os outros são o Joaquim, o Tatuí, o Paulino, o e Lá, o Buriti, o
Manduca.
Neste momento um mocinho de lápis e linguado de papel na mão indagou, entrando:
– Alguma coisa de novo?
– Sim, pode entrar.
O mocinho desapareceu. O complacente informante sorria.
– Outro urubu.
– Outro?
São os que parecem reporters. Vêm para a secretaria da Santa Casa munidos de tiras de
almaço para copiar dos livros os nomes e residências das pessoas mortas, isto é, copiam os
daquelas cujo enterro custar mais de 100$. Saem daqui para o lugar indicado e ficam às portas
à espera que o corpo saia, um, dois, cinco às vezes. Quando o cadáver sai e a família ainda
está aos soluços, embarafustam com as amostras de luto. Contaram-me que chegam à
concorrência, a ver quem faz o luto em 24 horas mais em conta. Neste serviço conheço o
Ferraz, o Saul, o Guedes, o Matos, o Araújo, o Campos, o Mesquita.
Eu ouvia o meu informante um pouco melancólico. Que diabo! Por que urubus, naquele pedaço
da cidade que cheira a cadáveres e a morte?
Não terra onde prospere como nesta a flora dos sem-ofício e dos parasitas que não
trabalham. Esses sujeitinhos vestem bem, dormem bem, chegam a ter opiniões, sistema moral,
idéias políticas. Ninguém lhes pergunta a fonte inexplicável do seu dinheiro. Aqueles pobres
rapazes, lutando pela vida, naquele ambiente atroz da morte, vestindo a libré das pompas
fúnebres, impingindo com um sorriso à tristeza coroas e crepes, só para ganhar honestamente a
vida, eram dignos de respeito. Por que urubus? Maçonaria da sorte, pelotão dos tristes,
seres sem o conforto de uma simpatia, no limite do nada, encarregados de fornecer os símbolos
de uma dor que cada vez a humanidade sente menos.
Despedi-me, comecei a andar devagar. Um dos urubus aproximou-se.
– Estiveram contando coisas a nosso respeito?
– Não, absolutamente.
– Que se há de fazer? A comissão é tão pequena! Quando quiser uma coroa...
– Deus queira que não! fiz assustado.
E apertei a mão do homem urubu com um tremor de superstição e de susto.
Os Mercadores de Livros e a Leitura das Ruas
Exatamente na esquina do teatro S. Pedro, dez anos, Arcanjo, italiano, analfabeto, vende
jornais e livros. É gordo, desconfiado e pançudo. Ao parar outro dia ali, tive curiosidade de ver
os volumes dessa biblioteca popular. Havia algumas patriotadas, a Questão da Bandeira, o
Holocausto, a d. Carmen de B. Lopes, a Vida do Mercador e de Antônio de Pádua, o Evangelho
de um Triste e os Desafogos Líricos. Estavam em exposição, cheios de pó, com as capas
entortadas pelo sol.
– Vende-se tudo isso?
Oh! não. quase um ano que os tenho. Os outros sim modinhas, orações, livros de
sonhos, a História da Princesa Magalona, o Carlos Magno, os testamentos dos bichos.
Levantei as mãos para o u como pedindo testemunho do alto. As obras vendáveis ao povo
deste começo de século eram as mesmas devoradas pelo povo dos meados do século passado!
– Mas não é possível...
– Pode perguntar aos outros vendedores.
Atirei-me a esse inquérito psicológico. Os vendedores de livros são uma chusma incontável que
todas as manhãs se espalha pela cidade, entra nas casas comerciais, sobe aos morros,
percorre os subúrbios, estaciona nos lugares de movimento. alguns anos, esses vendedores
não passavam de meia dúzia de africanos, espapaçados preguiçosamente como o João
Brandão na Praça do Mercado. Hoje, de todas as cores, de todos os feitios, desde os velhos
maníacos aos rapazolas indolentes e aos propagandistas da fé. A venda não é franca senão em
alguns pontos onde se exibem os tabuleiros com as edições falsificadas do Melro de Junqueiro
e da Noite na Taverna. Os outros batem a cidade, oferecendo as obras. E então toda uma
gama de maneiras para passar a fazenda. Os mais atilados, os mais argutos, os mais
incansáveis são os vendedores de Bíblias protestantes, com os bolsos das velhas sobrecasacas
ajoujados de brochuras edificantes.
Ó rapaz, por que não fica com esta Bíblia? Dou-lha por dez tostões. É o livro de Deus, onde
estão as eternas verdades. E se ficar com ela, vai mais este volume de quebra sobre as feras
que devoram o homem, as feras morais...
Os outros não pairam em regiões tão espirituais. os solenes o velho Maia, que aprecia as
encadernações vermelhas; foi guarda-livros e virou para a infelicidade quando, um dia, se
lembrou de decorar todo o dicionário latino de Saraiva. os que têm apelido Espelho de
Psyché, pobre homem, negociante, que a má sorte faz andar agora de cesta ao braço, com uma
fita verde no chapelinho. os escandalosos relapsos o Conegundes, negralhão de
cavanhaque, gritador. os que durante o trabalho percorrem as tabernas, e para impingir aos
caixeiros um dos volumes ingerem em cada uma dois da branca o Artur. os que têm
admirações literárias o Camões, zanaga, que vos recita o I Canto dos Lusíadas de cor. Há os
alegres, um turbilhão deles, que apregoam dois dias na semana para descansar os outros cinco.
os que têm a arte do pregão e, longe de ir com um embrulhinho perguntar à casa do
comprador se quer ficar com a História de Carlos Magno, soltam a voz em gorjeios estentóricos,
como o Noite Sonorosa:
Meu Deus, que noite sonorosa!
O céu está todo estrelado.
Eu com o cavaquinho na mão
E a morena ao lado.
Isto em pleno dia.
Cada sujeito desses pode passar a vida bem. As livrarias vendem baratíssimo os livrecos
procurados. Em cada um, os vendedores ganham, no mínimo, seiscentos por cento. alguns
que, trabalhando com vontade e sabendo lançar as orações, as modinhas ou a inefável
História da Donzela Teodora, arranjam uma diária de dez mil réis, sem grande esforço. Daí, todo
dia aumentar o número de camelots de livros, vir começando a formar-se essa próspera
profissão da miséria que todas as cidades têm, ávida e lamentável, num arregimentar de pobres
propagandistas do Evangelho e do Espiritismo, de homens que a sorte deixou de proteger, de
malandros cínicos, de rapazes vadios.
Os livros, porém, de grande venda ficam sempre os mesmos.
Nós não gostamos de mudar em coisa nenhuma, nem no teatro, nem na paisagem, nem na
literatura. É provável que o divórcio tenha caído por esse inveterado e extraordinário amor de
não mudar, que nos obceca. Desde 1840, o fundo das livrarias ambulantes, as obras de venda
dos camelots têm sido a Princesa Magalona, a Donzela Teodora, a História de Carlos Magno, a
Despedida de João Brandão e a Conversaçâo do Pai Manuel com o Pai José ao todo uns
vinte folhetos sarrabulhentos de crimes e de sandices. Como esforço de invenção e permanente
êxito, apareceram, exportados de Portugal, os testamentos dos bichos, o Conselheiro dos
Amantes e uma sonolenta Disputa divertida das grandes bulhas que teve um homem com sua
mulher por não lhe querer deitar uns fundilhos nos calções velhos.
Essa literatura, vorazmente lida na detenção, nos centros de vadiagem, por homens primitivos,
balbuciada à luz dos candeeiros de querosene nos casebres humildes, piegas, hipócrita e mal
feita, é a sugestionadora de crimes, o impulso à exploração de degenerações sopitadas, o
abismo para a gentalha. Contam na Penitenciária que o Carlito da Saúde, preso a primeira vez
por desordens, ao chegar ao cubículo, mergulhou na leitura do Carlos Magno. Sobreveio-lhe
uma agitação violenta. Ao terminar a leitura anunciou que mataria um homem ao deixar a
detenção. E no dia da saída, alguns passos adiante, esfaqueou um tipo inteiramente
desconhecido. esse Carlos Magno tem causado mais mortes que um batalhão em guerra. A
leitura de todos os folhetos deixa, entretanto, a mesma impressão de sangue, de crime, de
julgamento, de tribunal. Há, por exemplo, uma obra cuja tiragem deixa numa retaguarda
lamentável as consecutivas edições do Cyrano de Bergerac. Intitula-se Maria José, ou a filha
que assassinou, degolou e esquartejou sua própria mãe, Matilde do Rosário da Luz, e começa
como nas feiras: "Atendei, e vereis um crime espantoso, um crime novo, o maior de todos os
crimes!" Essa Maria ainda era a matar uma pessoa. No Carlos Magno um tal Reinaldos,
ensanduichado em frases de louvor a Nosso Senhor, mete-se num rolo doido com os turcos, e o
livro louva-o por ir degolando a cada passo um homem.
Tudo quanto é inferior a calúnia, o falso testemunho, o ódio serve de entrecho a esses
romances mal escritos. Quando a coisa é em verso, toma proporções de puff carnavalesco. A
Despedida do João Brandão à sua mulher, filhos e colegas, com um apêndice em que se
convence o leitor de que João podia ser um herói cristão, é lida nos cortiços com temor e pena.
A primeira quadra da despedida é assim:
Andando eu a passear,
Com amiga do coração.
Dois passos à retaguarda:
Estais preso, João Brandão.
Que se de fazer diante destes quatro versos nefelibatas? A Despedida tem quarenta e nove
quadras, fora a resposta da esposa. Uma mistura paranóica de remorso, de tolices de religião,
saudade e covardia, faz destas quadras o supra-sumo da estética emotiva da turba cujos
sentimentos oscilam entre o temor e a ambição. João Brandão soluça:
Adeus, João Brandão,
Espelho de eu me vestir,
Tu mataste o menino
Que para ti se ficou a rir.
Agora vou degredado,
A paixão é que me mata;
Adeus, Carolina Augusta,
Já não vale a tua prata.
Para alegrar os leitores, esses criminosos anônimos cultivaram o testamento dos bichos.
testamento é uma idéia inteiramente lúgubre. O testamento da pulga, do mosquito ou da
saracura, não seria para fazer rebentar de riso os mortais, nem mesmo agora, neste mortal
período de desinfecções e higiene à outrance. Mas que pensam os senhores dessas
quadrinhas, das quais se venderam mais de cem mil folhetos, das quais diariamente e
perpetuamente se vendem mais volumes que da Canaã de Graça Aranha? Os testamentos são
uma lamentável relação de legados, sem uma graça, sem uma piada, sem um riso.
O galo leva quarenta quadras a deixar coisas; a saracura diz que levava, prazenteira, a cantar
todo o dia dentro do brejo; o macaco fala de hora extrema sem uma careta. Só no testamento do
papagaio há esta observação pessoal, sempre aplicável às câmaras:
Há no mundo papagaios
Que falam todos os dias
E nunca sofrem desmaios
Comendo grossas maquias.
Estes são de Pernambuco,
Falam muito, são mitrados;
Eu falei, mas fui maluco,
Logo paguei meus pecados.
E falam do veneno da literatura francesa, que perde o cérebro das meninas nervosas e aumenta
o nosso crescido número de poetas! Que se dirá dessa literatura pasto mental dos caixeiros
de botequim, dos rapazes do povo, dos vadios, do grosso, enfim, da população? Que se dirá
desses homens que vão inconscientemente ministrando em grandes doses aos cérebros dos
simples a admiração pelo esfaqueamento e o respeito da tolice?
Como eu clamasse contra essa teimosa mania de não mudar as suas predileções, um dos
vendedores ambulantes, o cantante Meu Deus que noite sonorosa, esticou a perna e disse-me:
– Talvez fosse para pior.
Parei convencido, o curso das interrogações. outro filósofo seu rival, Montaigne, assegurava
que mudar é quase sempre uma probabilidade para o pior. Os vendedores de testamentos
passaram a vendê-los como palpites do jogo do bicho, transformando a saracura em avestruz e
a mosca em borboleta. Os jogadores não lêem, mas arruínam as algibeiras. E de qualquer
forma o mal continua a florescer neste baixo mundo, na literatura e fora dela, como o mais
gostoso dos bens. Se nas obras populares aparecer alguma coisa de novo, com certeza
teremos tolices maiores que as anteriores ...
A Pintura das Ruas
duas coisas no mundo verdadeiramente fatigantes: ouvir um tenor célebre e conversar com
pessoas notáveis. Eu tenho medo de pessoas notáveis. Se a notabilidade reside num cavalheiro
dado à poesia, ele e Lecomte de Lisle, ele e Baudelaire, ele e Apolonius de Rodes desprezam a
crítica e o Sr. José Veríssimo; se o sucesso acompanha o indivíduo dado à crítica, este país é
uma cavalariça sem palafreneiros; e se por acaso a fama, que os romanos sábios confundiam
com o falso boato, louva os trabalhos de um pintor, ele como Mantegna, ele como Leonardo Da
Vinci, ele como todos os grandes, tem uma vida de tormentos, de sacrifícios, de ataque aos
seus processos; e jamais se julga recompensado pelo governo, pelo país, pelos
contemporâneos, de ter nascido numa terra de bugres e numa época de revoltante
mercantilismo. É fatigante e talvez pouco útil. Um homem absoluta, totalmente notável é
aceitável através do cartão-postal – porque afinal fala de si, mas fala pouco. Foi, pois, com susto
que ontem, domingo, recebi a proposta de um amigo:
– Vamos ver as grandes decorações dos pintores da cidade?
– Heim? Estás decididamente desvairando. As grandes decorações? Uma visita aos ateliers?
– Não; a outros locais.
– E havemos de encontrar celebridades?
Pois está claro. Não cidade no mundo onde haja mais gente célebre que a cidade de S.
Sebastião. Mas não penses que te arrasto a ver algum Vítor Meireles, alguns Castagnetto
apócrifos ou os trabalhos aclamados pelos jornais. Não! Não é isso. Vamos ver, levemente e
sem custo, os pintores anônimos, os pintores da rua, os heróis da tabuleta, os artistas da arte
prática. É curiosíssimo. lições de filosofia nos borrões sem perspectiva e nas "botas" sem
desenho. Encontrarás a confusão da populaça, os germes de todos os gêneros, todas as
escolas e, por fim, muito menos vaidade que na arte privilegiada.
Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas. Saí,
devagar e a pé, a visitar bodegas reles, lugares bizarros, botequins inconcebíveis, e vim
arrasado de confusão cerebral e de encanto. Quantos pintores pensa a cidade que possui? A
estatística da Escola é falsíssima. Em cada canto de rua depara a gente com a obra de um
pintor, cuja existência é ignorada por toda a gente.
O meu amigo começou por pequenas amostras da arte popular, que eu vira sempre sem prestar
atenção: os macacos trepados em pipas de parati, homens de olho esbugalhado mostrando, sob
o verde das parreiras, a excelência de um quinto de vinho, umas mulheres com molhos de trigo
na mão apainelando interiores de padarias e talvez recordando Ceres, a fecunda. Depois iniciou
a parte segunda:
Vamos entrar agora nas composições das marinhas. Os pintores populares afirmam a sua
individualidade pintando a Guanabara e a praia de Icaraí. Por essas pinturas é que se vê quanto
o "ponto de vista" influi. o Pão de Açúcar redondo como uma bola, no Estácio; o Pão de
Açúcar do feitio de uma valise no Andaraí; e encontras o mesmo Pão, comprido e fino, em S.
Cristóvão. O povo tem uma alta noção dos nossos destinos navais; a sua opinião é exatamente
a mesma que a do ministro da marinha rumo ao mar! Por isso, não Guanabara pintada
pelos cenógrafos da calçada que não tenha à entrada da barra um vaso de guerra. A parreira
como o bêbado tem uma conclusão fatal: carga ao mar!
– E depois?
– Depois entramos nas grandes telas, as grandes telas que a cidade ignora.
Estávamos na Rua do Núncio. O meu excelente amigo fez-me entrar num botequim da esquina
da Rua de S. Pedro e os meus olhos logo se pregaram na parede da casa, alheio ao ruído, ao
vozear, ao estrépito da gente que entrava e saía. Eu estava diante de uma grande pintura mural
comemorativa. O pintor, naturalmente agitado pelo orgulho que se apossou de todos nós ao
vermos a Avenida Central, resolveu pintá-la, torná-la imorredoura, da Rua do Ouvidor à Prainha.
A concepção era grandiosa, o assunto era vasto–o advento do nosso progresso estatelava-se ali
para todo o sempre, enquanto não se demolir a Rua do Núncio. Reparei que a Casa Colombo e
o Primeiro Barateiro eram de uma nitidez de primeiro plano e que aos poucos, em tal
arejamento, os prédios iam fugindo numa confusão precipitada.
Talvez esse grande trabalho tivesse defeitos. Os dos "salões" de toda a parte do mundo também
os têm. Mas quantos artigos admiráveis um crítico poderia escrever a respeito! Havia decerto
naquele deboche de casaria o início da pintura moral, da pintura intuitiva, da pintura política, da
pintura alegórica... Indaguei, rouco:
– Quem fez isto?
– O Paiva, pintor cuja fama é extraordinária entre os colegas.
Voltei-me e de novo fiquei maravilhado. Aquele café não era café, era uma catedral dos grandes
fatos. Na parede fronteira, entre ondas tremendas de um mar muito cinzento rendado de branco,
alguns destroyers rasgavam o azul denso do céu com projeções de holofotes colossais.
– Há coisas piores nos museus.
– Mas isto é digno de uma pinacoteca naval.
O amador, que é o dono do botequim, e o artista cheio de imaginação, que é o Paiva, não se
haviam contentado, porém, com essas duas visões do progresso: a avenida e o holofote. Na
outra parede havia mais uma verdadeira orgia de paisagem: grutas, cascatas, rios marginados
de flores vermelhas, palmas emaranhadas, um pandemônio de cores.
Quando me viu inteiramente assombrado, esse excelente amigo levou-me ao café Paraíso, na
Avenida Floriano.
– Já viste a arte-reclamo, a arte social. Vamos ver a arte patriótica.
– E depois?
– Depois ainda hás de ver os artistas que se repetem, a arte romântica e infernal.
A arte patriótica, ou antes regional, dos pintores da calçada é o desejo, aliás louvável, de
reproduzir nas paredes trechos de aldeia, trechos do estado, trechos da terra em que o
proprietário da casa, ou o pintor, viu a luz. No café Paraíso, o artista, que se chama Viana,
pintou a cidade de Lourenço Marques, vista em conjunto, mas, como qualquer sentimento de
amor naquela elaboração difícil brotasse de súbito no seu coração, Viana colocou à entrada de
Lourenço Marques um couraçado desfraldando ao vento africano o pavilhão do Brasil. Dessas
pinturas uma infinidade e eu vi o sei quantas pontes metálicas do Douro ao atravessar
algumas ruas.
– Entremos neste botequim, aqui à esquina da Rua da Conceição. Vais conhecer o Colon, pintor
espanhol. Colon tem estilo: este painel é um exemplo. Que s? Uma paisagem campestre,
arvoredo muito verde, e ao fundo um castelo com a bandeira da nacionalidade do dono da
casa. É sempre assim. Há outros mais curiosos. O Oliveira completa os trabalhos sempre com
cortinas iguais às que se usavam nos antigos panos de boca dos teatros. O trabalho é o abuso
do azul, desde o azul claro ao azul negro.
– Mas estás a contar os tiques de grandes pintores.
São parecidos. Eu conheço muitos mais: o velho Marcelino, que tem a especialidade de pintar
os homens no pifão; o Henrique da Gama, o primeiro dos nossos fingidores, que faz um metro
de mármore em cada cinco minutos; o Francisco de Paula, que adora os papagaios e faz
caricaturas; o Malheiros, que reúne gatos, cachorros, cascatas e caboclos em cada tela. É o
ideal da arte! São eles os autores dos estandartes dos cordões; são eles que enriquecem!
entraste num desses ateliers, no Cunha dos PP, no Garcia Fernandes da Rua do Senhor dos
Passos? Pois é como um desses studios da Flandres antiga, em que os grandes artistas
assinavam os trabalhos dos discípulos, é como se entrasse na grande manufatura da pintura
assinada. Vamos ao Cunha.
– Não, não, por hoje basta.
– Mas pelo menos vem admirar na Rua Frei Caneca 1660 famoso trabalho do Xavier.
– O famoso trabalho?
Se os outros, que não eram famosos e o eram de Xavier, tanta admiração me haviam
causado, imaginem esse, sendo de Xavier e sendo famoso. Precipitei-me num bonde, saltei
comovido como se me assegurassem que eu iria ver a Joconda de Da Vinci, e, quando os meus
olhos sôfregos pousaram na criação do pintor, uma exclamação abriu-me os lábios e os braços.
Era simplesmente um incêndio, o incêndio de uma cidade inteira, a chama ardente, o fogo
queimando, torcendo, destruindo, desmoronando a cidade do vício. Tudo desaparecia numa
violentação rubra de fornalha candente. Seria o fogo sagrado, a purificar como em Gomorra, ou
o fogo da luxúria, o símbolo devastador das paixões carnais, a reprodução alegórica de como a
licença dos instintos devora e queima a vida?
Xavier fora mais longe. Aquele mar de incêndio, aquele braseiro desesperado e perene era a
fixação do fogo maldito da luxúria, era o fogo de Satanás, porque Satanás, em pessoa, no
primeiro plano, completamente cor de pitanga, com as pernas tortas e o ar furioso, abatia a seus
pés, vestida de azul celeste, uma pobre senhora.
Esse último painel punha-me inteiramente tonto. Mas não é uma das grandes preocupações da
Arte comover os mortais, comovê-los até mais não poder? Xavier comovia, eu estava comovido.
Nem sempre é possível obter tanta coisa nas exposições anuais. O meu amigo levou o excesso
a apresentar-me o ilustre artista.
– Aqui está o Xavier.
Voltei-me.
Os meus sinceros cumprimentos. sopro romântico, imaginação, ardência nesta
decoração, fiz com o ar dogmático dos críticos ignorantes de pintura.
Ingenuamente, Xavier olhou para mim e, primeiro homem que não se julga célebre neste país,
balbuciou:
Eu não sei nada...Isso está para aí...Se soubesse fazer alguma coisa de valor até ficava triste
– só com a idéia de que um dia talvez a levassem do meu país...
Tabuletas
Foi um poeta que considerou as tabuletas os brasões da rua. As tabuletas não eram para a
sua visão apurada um encanto, uma faceirice, que a necessidade e o reclamo incrustaram na
via pública; eram os escudos de uma complicada heráldica urbana, do armorial da democracia e
do agudo arrivismo dos séculos. Desde que um homem realiza a sua obra a terminação de
uma epopéia ou a abertura de uma casa comercial imediatamente o homem batiza-a. No
começo da vida, por instinto, guiado pelos deuses, a sua idéia foi logo a tabuleta. Quem
inventou a tabuleta? Niguém sabe.
É o mesmo que perguntar quem ensinou a criança a gritar quando tem fome. no Oriente elas
existiam, já em Atenas, já em Roma, simples, modestas, mas sempre reclamistas. Depois, como
era de prever, evoluíram: evoluíram de acordo com a evolução do homem, e hoje, que se fazem
concursos de tabuletas e há tabuletas compostas por artistas célebres, hoje, na época em que o
reclamo domina o asfalto, as tabuletas são como reflexos de almas, são todo um tratado de
psicologia urbana. Que desejamos todos nós? Aparecer, vender, ganhar.
A doença tomou proporções tremendas, cresceu, alastrou-se, infeccionou todos os meios, como
um poder corrosivo e fatal. Os próprios doentes também a exploram numa fúria convulsiva de
contaminação. Reparai nos jornais e nas revistas. Andam repletos de fotogravuras e de nomes –
nomes e caras, muitos nomes e muitas caras! A geração faz por conta própria a sua
identificação antropométrica para o futuro. Mas o curioso é ver como a publicação desses
nomes é pedida, é implorada nas salas das redações. Todos os pretextos são plausíveis, desde
a festa a que se não foi até à moléstia inconveniente de que foi operada com feliz êxito a
esposa. O interessante é observar como se almeja um retrato nas folhas, desde as escuras
alamedas do jardim do crime até às garden-parties de caridade, desde os criminosos às almas
angélicas que só pensam no bem. Aparecer! Aparecer!
E na rua, que se vê? O senhor do mundo, o reclamo. Em cada praça onde demoramos os
nossos passos, nas janelas do alto dos telhados, em mudos jogos de luz, os cinematógrafos e
as lanternas mágicas gritam através do écran de um pano qualquer o reclamo de melhor
alfaiate, do melhor livreiro, do melhor revólver. Basta levantar a cabeça. As tabuletas contam a
nossa vida. E nessa babel de apelos à atenção, ressaltam, chocam, vivem estranhamente os
reclamos, extravagantes, as tabuletas disparatadas. Quantas haverá no Rio? Mil, duas mil, que
nos fazem rir. Vai um homem num bonde e de repente, encimando duas portas em grossas
letras estas palavras: Armazém Teoria.
Teoria de que, senhor Deus? um outro tão bizarro quanto este: Casa Tamoio, Grande
Armazém de líquidos comestíveis e miudezas. Como saber que líquidos serão esses
comestíveis, de que a falta de uma vírgula fez um assombro? Faltou a esse pintor o esmero da
padaria do mesmo nome que fez a sua tabuleta em letras de antigo missal para mostrar como
se esmera, ou talvez o descaro deste outro: o maduro cura infalivelmente todas as moléstias
nervosas...
Mas as tabuletas extravagantes são as do pequeno comércio, sem a influência de Paris, a
importação direta e caixeiros elegantes de lenço no punho: as vendas, esta criação nacional, os
botequins baratos, os açougues, os bazares, as hospedarias...Na Rua do Catete uma venda
que se intitula O Leão na Gruta. Por quê? Que tem a batata com o leão que nem ao menos é
conhecido de Daniel? Defronte dessa venda há, entretanto, um café que é apenas Café de
Ambos Mundos. E se não vos bastar um café tão completo, aí temos um mais modesto, na Rua
da Saúde o Café B.T.Q. E sabem que vem a ser o B.T.Q., segundo o proprietário? Botequim
pelas iniciais! Essa nevrose das abreviações não atacou felizmente o dono da casa de pasto da
Rua de S. Cristóvão, que encheu a parede com as seguintes palavras: Restaurant dos Dois
lrmãos Unidos Por...
Unidos por... Pelo quê? Pelo amor, pelo ódio, pela vitória? Não! Unidos Portugueses. Apenas
faltou a parede e ficou o por para atestar que havia boa vontade. A questão, às vezes, é de
haver muita coisa na parede. Assim é que uma casa da Rua do Senhor dos Passos tem este
anúncio: Depósito de aves de penas. É pouco? Um outro assegura: Depósito de galinhas, ovos
e outras aves de penas – o que é, evidentemente, muito mais. Tal excesso chega a prejudicar, e
andasse a higiene a olhar tabuletas, ofício de vadiagem incorrigível, mandaria fechar uma casa
de frutas da Rua Sete, que pespegou esta inconveniência: Grande sortimento de frutas verdes e
secas.
A origem desses títulos é sempre curiosa. Uma casa chama-se Príncipe da Beira porque o seu
proprietário é da Beira, uma venda de Campo Grande tem o título feroz de Grande Cabaceíro
porque perto uma plantação de cabaças; açougue Aliança e Fidelidade porque é um
hábito pôr aliança como título com duas mãos apertadas e fidelidade com um cachorro de língua
de fora, bem no meio da parede. Muitos tomam o título de peças de teatro: Colchoaria Rio Nu,
Casa Guanabarina, venda Cabana do Pai Tomás. A coisa, porém, toma proporções
assombrosas quando o proprietário é pernóstico. Assim, na Rua Visconde do Rio Branco um
armazém Planeta Provisório, e noutra rua Planeta dos Dois Destinos, um título ocultista sibilino;
noCatete, um Açougue Celestial. Essa dependência do firmamento na terra produz um péssimo
efeito e os anjos têm cada braço de meter medo a uma legião da polícia. Outro, porém, é o
Açougue Despique dos Invejosos, e há na Rua da Constituição uma casa de bilhetes intitulada
Casa Idealista, naturalmente porque quem compra bilhetes vive no mundo da lua, e uma
casa de coroas, o Lírio Impermeável e uma outra, Ao Vulcão das 49 Flores. Não é só. Uns
madeireiros puseram no seu depósito este letreiro filosófico, que naturalmente incomodará o
arcebispado: Madeireiros e Materialistas; e uma taberna muito ordinária, centro de
malandrões, em Sapopemba, que se apossou de um título exclusivamente nefelibata: A
Tebaida...
E os afrancesados que denominam as casas de Au Bijou de la Mode; Au Dernier Chic, Queima
Chefe, Maison Moderne da Cidade Nova? E os patrióticos que fazem questão da casa de pasto
ser 1
o
de Dezembro, do açougue ser 1
o
de Janeiro? do restaurante ser Luís de Camões ou
Fagundes Varela? E os engrossadores que intitulam as casas de Afonso Pena durante quatro
anos? E os engraçados, os da laracha boa, que fazem as tabuletas propositalmente erradas,
como um negociante da Rua Chile: Colxoaria de primera Colxães contra purgas e precevejos?
Mas as tabuletas têm uma estranha filosofia; as tabuletas fazem pensar. Há, por exemplo, na
Rua Senador Eusébio, perto da ex-ponte dos Marinheiros, uma hospedaria com este título:
Hotel Livre Câmbio. Quanta coisa pensa a gente conhecendo o negócio e olhando a tabuleta!
A série é nesse ramo curiosíssima. o Locomotora, que é naturalmente rápido; Os Dois
Destinos, a Lua de Prata, o irônico Fidelidade, tendo pintado uma senhora a pender dos
lábios de um senhor... Quantos!
Na Rua Dr. João Ricardo há um restaurante com este título: Restauração da Vitória.
– Por que "restauração da vitória"? indagamos do proprietário, o Sr. Colaço.
Eu explico, diz ele. cerca de 30 anos, os espanhóis invadiram a ilha Terceira. Como eram
poucos os soldados para repelirem o castelhano, os lavradores soltaram todos os touros bravos
na praia da Vitória e dessa maneira os espanhóis fugiram. Os paraguaios resistiram também
tanto tempo por causa dos touros importados da Argentina.
– Tudo tem uma explicação neste mundo!
All right!
Alll right, sim! Os títulos das casas, por mais absurdos, como Filhos do Céu, por exemplo, têm
uma explicação que convence. os nefelibatas, os patrióticos 19 de Janeiro, d. Carlos; o
diplomático União Ibérica, os que engrossam uma certa classe, e até um, na Rua Frei Caneca,
pertencente ao riquíssimo Pinho, cujo título é uma profunda lição filosófica. O hotel intitula-se
Comércio e Arte...
Os pintores dessenero criaram uma especialidade: são os moralistas da decadência e usam
também tabuletas. Um mesmo, talvez por ter sofrido muito de cara alegre, pôs na Rua de S.
Pedro este anúncio: Fulano de Tal, Pintor de Fingimentos. E realmente eles aturam tanto dos
proprietários! Um deles, rapazito inteligente, era encarregado de fazer a fachada da Casa do
Pinto. Fez as letras e pintou um pintainho. O proprietário enfureceu:
– Que tolice é esta?
– Um pinto.
– E que tenho eu com isso?
– O senhor não é Pinto?
– O meu nome é Pinto, mas eu sou galo, muito galo.
Pinte-me aí um galo às direitas!
E outro, encarregado de fazer as letras de uma casa de móveis, vendem-se móveis quando o
negociante veio a ele:
– Você está maluco ou a mangar comigo!
– Por quê?
Que plural é esse? Vendem-se, vendem-se... Quem vende sou eu e sem sócios, ouviu? Corte
o m, ande!
As letras custam dinheiro, custam aos pobres pintores... O rapaz ficou sem o m que fizera com
tanta perícia. Mas também, por que estragar? Em S. Cristóvão havia uma Pharmacia S.
Cristóvão. Desapareceu. Foi a primeira que fez isso na terra, desde que farmácias. Foram
para outros negociantes. Como aproveitar algumas letras? Lembraram foco, e, como a
Academia não chega os seus cuidados ortográficos às tabuletas, arrumaram Phoco de S.
Cristóvão. Estava uma tabuleta nova só com três letras novas.
Os pintores de tabuletas resignam-se. Eles, os escritores desse grande livro colorido da cidade,
têm a paciência lendária dos iluministas medievos, eles fazem parte da grande massa para que
o Reclamo foi criado são pobres. Talvez por isso, um mais ousado, de acordo com certo
açougueiro antigo da Praça da Aclamação, pintando uma vez o letreiro Açougue Pai dos
Pobres, pôs bem no meio uma cabeça de boi colossal, arregalando os olhos, que Homero
achava belos, como o símbolo de todas as resignações...
E é decerto este o lado mais triste das tabuletas brasões da democracia, escudos bizarros da
cidade.
Visões d’Ópio
– Os comedores de ópio?
Era às seis da tarde, defronte do mar. o sol morrera e os espaços eram pálidos e azuis. As
linhas da cidade se adoçavam na claridade de opala da tarde maravilhosa. Ao longe, a bruma
envolvia as fortalezas, escalava os céus, cortava o horizonte numa longa barra cor de malva e,
emergindo dessa agonia de cores, mais negros ou mais vagos, os montes, o Pão de Açúcar, S.
Bento, o Castelo apareciam num tranqüilo esplendor. Nós estávamos em Santa Luzia, defronte
da Misericórdia, onde tínhamos ido ver um pobre rapaz eterômano, encontrado à noite com o
crânio partido numa rua qualquer. A aragem rumorejava em cima a trama das grandes
mangueiras folhudas, dos tamarindeiros e dos flamboyants, e a paisagem tinha um ar de sonho.
Não era a praia dos pescadores e dos vagabundos tão nossa conhecida, era um trecho de
Argel, de Nice, um panorama de visão sob as estrelas doiradas.
Sim, dizia-me o amigo com quem eu estava, o éter é um vício que nos evola, um vício de
aristocracia. Eu conheço outros mais brutais – o ópio, o desespero do ópio.
– Mas aqui!
Aqui. Nunca freqüentou os chins das ruas da cidade velha, nunca conversou com essas caras
cor de goma que param detrás do Necrotério e são perseguidos, a pedrada, pelos ciganos
exploradores? Os senhores não conhecem esta grande cidade que Estácio de defendeu um
dia dos franceses. O Rio é o porto de mar, é cosmópolis num caleidoscópio, é a praia com a
vaza que o oceano lhe traz.
de tudo vícios, horrores, gente de variados matizes, niilistas rumaicos, professores russos
na miséria, anarquistas espanhóis, ciganos debochados. Todas as raças trazem qualidades que
aqui desabrocham numa seiva delirante. Porto de mar, meu caro! Os chineses são o resto da
famosa imigração, vendem peixe na praia e vivem entre a Rua da Misericórdia e a Rua d.
Manuel. As 5 da tarde deixam o trabalho e metem-se em casa para as tremendas fumeries.
Quer vê-los agora?
Não resisti. O meu amigo, a pé, num passo calmo, ia sentenciando:
Tenho a indicação de quatro ou cinco casas. Nós entramos como fornecedores de ópio. Você
veio de Londres, tem um quilo, cerca de 600 gramas de ópio de Bombaim. Eu levo as amostras.
Caminhávamos pela Rua da Misericórdia àquela hora cheia de um movimento febril, nos
corredores das hospedarias, à porta dos botequins, nas furnas das estalagens, à entrada dos
velhos prédios em ruínas.
O meu amigo dobrou uma esquina. Estávamos no Beco dos Ferreiros, uma ruela de cinco
palmos de largura, com casas de dois andares, velhas e a cair. A população desse beco mora
em magotes em cada quarto e pendura a roupa lavada em bambus nas janelas, de modo que a
gente tem a perene impressão de chitas festivas a flamular no alto. portas de hospedarias
sempre fechadas, linhas de fachadas tombando, e a miséria besunta de sujo e de gordura as
antigas pinturas. Um cheiro nauseabundo paira nessa ruela desconhecida.
O meu amigo pára no n
o
19, uma rótula, bate. uma complicação de vozes no interior, e,
passados instantes, ouve-se alguém gritar:
– Que quer?
– João, João está aí?
João e Afonso são dois nomes habituais entre os chins ocidentalizados.
João não mora mais...
– Venha abrir, brada o meu guia com autoridade.
Imediatamente a rótula descerra-se e aparece, como tapando a fenda, uma figura amarela, cor
de gema de ovo batida, com um riso idiota na face, um riso de pavor que lhe deixa ver a dentuça
suja e negra.
– Que quer, senhor?
Tomamos um ar de bonomia e falando como a querer enterrar as palavras naquele crânio
trabucado.
– Chego de Londres, com um quilo de ópio, bom ópio.
– Ópio?... Nós compramos em farmácia... Rua S. Pedro...
– Vendo barato.
Os olhos do celeste arregalam-se amarelos, na amarelidão da face.
– Não compreende.
– Decida, homem...
– Dinheiro, não tem dinheiro.
Desconfiará ele de nós, não acreditará nas nossas palavras? O mesmo sorriso de medo lhe
escancara a boca e lá dentro há cochichos, vozes lívidas...O meu amigo bate-lhe no ombro.
– Deixa ver a casa.
Ele recua trêmulo, agarrando a rótula com as duas mãos, dispara para dentro um fluxo
cuspinhado de palavrinhas rápidas. Outras palavrinhas em tonalidades esquisitas respondem
como pizzicatti de instrumentos de madeira, e a cara reaparece com o sorriso emplastrado:
– Pode entrar, meu senhor.
Entramos de esguelha, e logo a rótula se fecha num quadro inédito. O n
o
19 do Beco dos
Ferreiros é a visão oriental das lôbregas bodegas de Xangai. uma vasta sala estreita e
comprida, inteiramente em treva. A atmosfera pesada, oleosa, quase sufoca. Dois renques de
mesas, com as cabeceiras coladas às paredes, estendem-se até o fundo cobertas de
esteirinhas. Em cada uma dessas mesas, do lado esquerdo, tremeluz a chama de uma candeia
de azeite ou de álcool.
A custo, os nossos olhos acostumam-se à escuridão, acompanham a candelária de luzes até ao
fim, até uma alta parede encardida, e descobrem em cada mesa um cachimbo grande e um
corpo amarelo, nu da cintura para cima, corpo que se levanta assustado, contorcionando os
braços moles. chins magros, chins gordos, de cabelo branco, de caras despeladas, chins
trigueiros, com a pele cor de manga, chins cor de oca, chins com a amarelidão da cera nos
círios.
As mpadas tremem, esticam-se na ânsia de queimar o narcótico mortal. Ao fundo um velho
idiota, com as pernas cruzadas em torno de um balde, atira com dois pauzinhos arroz à boca. O
ambiente tem um cheiro inenarrável, os corpos movem-se como larvas de um pesadelo e essas
quinze caras estúpidas, arrancadas ao bálsamo que lhes cicatriza a alma, olham-nos com o
susto covarde de coolies espancados. E todos murmuram medrosamente, com os pés nus, as
mãos sujas:
– Não tem dinheiro... não tem dinheiro... faz mal!
um mistério de explorações e de horrores nesse pavor dos pobres celestes. O meu amigo
interroga um que parece ter vinte e parece ter sessenta anos, a cara cheia de pregas, como
papel de arroz machucado.
– Como se chama você?
– Tchang... Afonso.
– Quanto pode fumar de ópio?
fuma em casa... um bocadinho só... faz mal! Quanto pode fumar? Duzentas gramas,
pouquinho... Não tem dinheiro.
Sinto náuseas e ao mesmo tempo uma nevrose de crime. A treva da sala torna-se lívida, com
tons azulados. na escuridão uma nuvem de fumo e as bolinhas pardas, queimadas à chama
das candeias, põem uma tontura na furna, dão-me a imperiosa vontade de apertar todos
aqueles pescoços nus e exangues, pescoços viscosos de cadáver onde o veneno gota a gota
dessora.
E as caras continuam emplastradas pelo mesmo sorriso de susto e de súplica, multiplicado em
quinze beiços amarelos, em quinze dentaduras nojentas, em quinze olhos de tormento!
– Senhor, pode ir, pode ir? Nós vamos deitar; pode ir? – suplica Tchang.
Arrasto o guia, fujo ao horror do quadro. A rótula fecha-se sem rumor. Estamos outra vez num
beco infecto de cidade ocidental. Os chins pelas persianas espiam-nos. O meu amigo consulta o
relógio.
Este é o primeiro quadro, o começo. Os chins preparam-se para a intoxicação. Nenhum deles
tinha uma hora de cachimbo. Agora, porém, em outros lugares devem ter chegado ao
embrutecimento, à excitação e ao sonho. Tenho duas casas no meu booknotes, uma na Rua da
Misericórdia, onde os celestes se espancam, jogando o monte com os beiços rubros de mastigar
folhas de bétel, e à Rua d. Manuel n
o
72, onde as fumeries tomam proporções infernais.
Ouço com assombro, duvidando intimamente desse fervilhar de vício, de ninguém ainda
suspeitado. Mas acompanho-o.
A Rua d. Manuel parece a rua de um bairro afastado. O Necrotério com um capinzal cercado de
arame, por trás do qual os ciganos confabulam, tem um ar de subúrbio. Parece que se chegou,
nas pedras irregulares do mau calçamento, olhando os pardieiros seculares, ao fim da cidade.
Nas esquinas, onde larápios, de lenço no pescoço e andar gingante, estragam o tempo com
rameiras de galho de arruda na carapinha, vêem-se pequenas ruas, nascidas dos socalcos do
Castelo, estreitas e sem luz. A noite, na opala do crepúsculo, vai apagando em treva o velho
casaredo.
– É aqui.
O 72 é uma casa em ruína, estridentemente caiada, pendendo para o lado. Tem dois
pavimentos. Subimos os degraus gastos do primeiro, uns degraus quase oblíquos, caminhamos
por um corredor em que o soalho balança e range, vamos até uma espécie de caverna
fedorenta, donde um italiano fazedor de botas mastiga explicações entre duas crianças que
parecem fetos saídos de frascos de álcool. Voltamos à primeira porta, junto á escada, entramos
num quarto forrado imoralmente com um esfarripado tapete de padrão rubro. Aí, um
homenzinho, em mangas de camisa, indaga com a voz aflautada e sibilosa:
– Os moços desejam?
– É você o encarregado?
– Para servir os moços.
– Desejamos os chins.
– Ah! isso, lá em cima, sala da frente. Os porcos estão se opiando.
Vamos aos porcos. Subimos uma outra escada que se divide em dois lances, um para o
nascente outro para o poente. A escada dá num corredor que termina ao fundo numa porta, com
pedaços de pano branco, à guisa de cortina. A atmosfera é esmagadora. Antes de entrar é
violenta a minha repulsa, mas não é possível recuar. Uma voz alegre indaga:
– Quem está aí?
O guia suspende a cortina e nós entramos numa sala quadrada, em que cerca de dez chins,
reclinados em esteirinhas diante das lâmpadas acesas, se narcotizam com o veneno das
dormideiras.
A cena é de um lúgubre exotismo. Os chins estão inteiramente nus, as lâmpadas estrelam a
escuridão de olhos sangrentos, das paredes pendem pedaços de ganga rubra com sentenças
filosóficas rabiscadas a nanquim. O chão está atravancado de bancos e roupas, e os chins
mergulham a plenos estos na estufa dos delírios.
A intoxicação os transforma. Um deles, a cabeça pendente, a língua roxa, as pálpebras
apertadas, ronca estirado, e o seu pescoço amarelo e longo, quebrado pela ponta da mesa,
mostra a papeira mole, como a espera da lâmina de uma faca. Outro, de cócoras, mastigando
pedaços de massa cor de azinhavre, enraivece um cão gordo, sem cauda, um cão que mostra
os dentes, espumando. E mais: um com as pernas cruzadas, lambendo o ópio líquido na
ponta do cachimbo; dois outros deitados, queimando na chama das candeias as porções do
sumo enervante. Estes tentam erguer-se, ao ver-nos, com um idêntico esforço, o semblante
transfigurado.
– Não se levantem, à vontade!
Sussurram palavras de encanto, tombam indiferentes, esticam com o mesmo movimento a mão
cadavérica para a lâmpada e fios de névoa azul sobem ao teto em espirais tênues.
Três, porém, deste bando estão no período da excitação alegre, em que todas as franquezas
são permitidas. Um deles passeia agitado como um homem de negócio. É magro, seco, duro.
– Vem vender ópio? Bom, muito bom... Compro. Ópio bom que não seja de Bengala. Compro.
Logo outro salta, enfiando uma camisola:
– Ah! ah! Traz ópio? Donde?
– Da Sonda...
Os três grupam-se ameaçadoramente em torno de nós, estendendo os braços tão estranhos e
tão molemente mexidos naquele ambiente que eu recuo como se os tentáculos de um polvo
estivessem movendo na escuridão de uma caverna. Mas do outro lado ouve-se o soluço
intercortado de um dos opiados. A sua voz chora palavras vagas.
– Sapan... sapan... Hanoi... tahi...
O chin magro revira os olhos:
Ele está sonhando. Affal está sonhando. Ópio sonho...terra da gente namorada... bonito!
bonito!... Deixa ver amostra.
O meu amigo recua, um corpo baqueia – o do chinês adormecido – e os outros bradam:
– Amostra... você traz amostra!
Sem perder a calma, esse meu esquisito guia mete a mão no bolso da calça, tira um pedaço de
massa envolvido em folhas de dormideira, desdobra-o. Então o delírio propaga-se. O magro chin
ajoelha, os outros também, raspando a massa com as unhas, mergulhando os dedos nas bocas
escuras, num queixume de miséria.
– Dá a amostra...não tem dinheiro...deixa a amostra!
Miseravelmente o clamor de súplica enche o quarto na névoa parda estrelejada de hóstias
sangrentas. Os chins curvam o dorso, mostram os pescoços compridos, como se os
entregassem ao cutelo, e os braços sem músculos raspam o chão, pegando-nos os pés,
implorando a dádiva tremenda. Não posso mais. Cãimbras de estômago fazem-me um enorme
desejo de vomitar. o cheiro do veneno desnorteia. Vejo-me nas ruas de Tien-Tsin, à porta
das cagnas, perseguido pela guarda imperial, tremendo de medo; vejo-me nas bodegas de
Cingapura, com os corpos dos celestes arrastados em djinrickchas, entre malaios loucos
brandindo kriss assassinos! Oh! o veneno sutil, lágrima do sono, resumo do paraíso, grande
matador do oriente! Como eu o ia encontrar num pardieiro de Cosmópolis, estraçalhando uns
pobres trapos das províncias da China!
Apertei a cabeça entre as mãos, abri a boca numa ânsia.
– Vamos, ou eu morro!
O meu amigo, então, empurrou os três chins, atirou-se à janela, abriu-a. Uma lufada de ar
entrou, as lâmpadas tremeram, a nuvem de ópio oscilou, fendeu, esgueirou-se, e eu caí de
bruços, a tremer diante dos chins apavorados e nus.
Fora, as estrelas recamavam de ouro o céu de verão...
Músicos Ambulantes
Músicos ambulantes! Um momento houve em que todos desapareceram, arrastados por uma
súbita voragem. Os cafés viviam sem as harpas clássicas e nas ruas, de raro em raro, um
realejo aparecia. Por quê? Teriam sido absorvidos pelos cafés-cantantes, dominados pelos
prodígios do gramofone essa maravilha do século XIX, que não deixa de ser uma calamidade
para o século XX? Não. Fora apenas uma súbita pausa tão comum na circulação das cidades.
Apesar dos gramofones nos hotéis, nos botequins, nas lojas de calçados, apesar da intensa
multiplicação dos pianos, eles foram voltando, um a um ou em bandos, como as andorinhas
imigrantes, e, de novo, as tascas, as baiúcas, os cafés, os hotéis baratos, encheram-se de
canções, de vozes de violão e de guitarra e, de novo, pelas ruas os realejos, os violinos, as
gaitas, recomeçaram o seu triunfo.
alguns meses mesmo, uma banda alemã, com instrumentos, estantes e desafinações,
atormenta as grandes praças, e eu lobriguei outro dia ainda um bicho lendário por mim julgado
tão desaparecido como o megatério – o homem dos sete instrumentos! E esse homem, cheio de
instrumentos, ia por fora, satisfeito e corado, como se tivesse realizado uma agradável
receita.
Os músicos vieram todos! Não perde a cidade os seus foros de musical o Rio, onde tudo é
música, desde a poética música dos beijos à decisiva música de pancadaria.
Novamente à beira das calçadas a Valsa dos Sinos e O Guarani se desarticulam em velhos
pianos; novamente sujeitos, que parecem cegos, rodam a manivela dos realejos, estendendo a
mão súplice, numa ânsia de miséria; novamente, depois de alguns trechos da sonante Boêmia,
um piresinho de metal se vos oferecerá, desejoso de níqueis. E todos vós, que sois bons, e
todos vós, que gostais de música, haveis de deplorar os coitados que alegram os outros para
viver na miséria, com a alma varada de dor, e todos vós sofrereis a crise de harmonia. Oh! a
música!
Elle mouille comme la pluie, Elle brûle comme le feu.
Uma sanfona faria Harpagon generoso e Lady Macbeth boa.
Esta cidade é essencialmente musical; era impossível passar sem os músicos ambulantes. A
música preside à nossa vida, a música auxilia até a gestação, e, consista apenas na voz como
diz Sócrates, consista, pretende Aristoxeno, na voz e nos movimentos do corpo, ou reúna à voz
os movimentos da alma e do corpo como pensa Teofrasto, tem os caracteres da divindade e
comove as almas. Pitágoras, para que a sua alma constantemente estivesse penetrada de
divindade, tocava cítara antes de dormir e logo ao acordar de novo à cítara se apegava.
Asclepíades, médico, acalmava os espíritos frenéticos empregando a sinfonia, e Herófilo
pretendia que as pulsações das veias se fazem de acordo com o ritmo musical. Os músicos
ambulantes são os descendentes dos tocadores da flauta, caros aos deuses da Hélade.
Não pensemos, porém, romanticamente, que todos os músicos morrem de fome ao cair das
ilusões. Antes pelo contrário. A biografia de cada um serve de assunto a todo o boêmio
desejoso de ser feliz. Quem conhece o Saldanha, um velho português baixo, gordo e cego, que
viola mais de vinte anos com um negro também cego da ilha da Madeira, flautista emérito?
Esses dois cegos eram acompanhados por um guitarrista escovado, que tocava, fazia a
cobrança e ainda por cima era poeta, compunha as cançonetas. Um momento a cidade inteira
cantou a sua célebre quadra:
Zás-trás, zás-trás
Malagueta no cabaz
Com jeito tudo se arranja
Com jeito tudo se faz
o que não o recomenda muito ao senso estético do Rio. Quando os cegos e esse zás-trás
amolavam muito, lá havia sempre algum para gritar:
– Ó Lírico ambulante!
E o Saldanha, pançudo, grave, imperturbável:
– Obrigado pelo elogio!
Pois todo o pessoal enriqueceu. O negro casou em Portugal , o Zás-trás conseguiu tudo com
jeito, e eu fui encontrar o Saldanha aposentado, considerado como um velho artista diante de
um copo de cerveja.
Fizemos várias tournées, disse-me ele, percorremos o Brasil, do Rio Grande ao Pará.
Ajuntamos alguma coisa...
E não se trata de um caso esporádico. O resultado é geral. O José, italiano capenga, que
chegou ao Rio em 1875, alugou, para não trabalhar, um piano de manivela. Em seguida, o seu
espírito inventivo foi até comprar um realejo com bonecos mecânicos, entre os quais havia um
de mão estendida, que engolia as moedas e punha fora outra qualquer coisa. Esse boneco, a
valsa dos Sinos de Corneville, o Caballero de Gracia e o Bendengó deram-lhe uma fortuna. E
José resolveu jogar, à farta, jogar forte.
Jogou tanto que teve de arranjar um sócio, personagem fantástico, que pela alcunha de
Cavalière Midaglia.
O Cavalière gosta também da batota e principalmente do bicho. Até duas horas, dinheiro para o
avestruz; nas primeiras horas da noite, cervejinha na fábrica Santa-Maria; depois, la mare dos
baralhos e dados. Parece incrível que um realejo, moendo os sinos, dinheiro para tantos
vícios. Pois José tem ainda dinheiro para ir à Itália ver Nápoles e depois voltar. Já foi mais de
vinte vezes.
Está claro que a música, tendo por fim adoçar os costumes, não arrasta todos os seus cultores
aos desvarios do monte e da roleta. realejos que sustentam numerosas famílias, como o do
Vicente, italiano falsamente cego, que desconfia dos filhos, joga a bisca a milho nos botequins
das Ruas Formosa e do Areal e adquiriu alguns prédios; realejos escravizadores, como o
do Antônio Capenga, da estação do Mangue, que espanca os dois pequenos cobradores se por
acaso deixam passar um bonde sem lhes dar nada, embora o bondevazio porque Antônio
tem amantes e, à custa de sons que na sua algibeira retinem em moedas, resolveu a vida
epicuristamente nos três princípios fundamentais: mulheres, jogo e vinho; realejos solteiros
malandros, realejos virgens prontos para a fuga.
A música chega mesmo em certos casos a harmonizar dissabores num acorde feliz. É o caso do
Amaral carpinteiro. Este Amaral cortou certa vez a mão com uma enxó. Meteu a dita mão em
ataduras e resolveu nunca mais trabalhar. Ao contrário do pastor Jacó, sete anos levantou de
papo para o ar compondo versinhos; dedicou-se em seguida a vender modinhas era o
Araruama. E nesse serviço descobriu-se vocações musicais.
Hoje é sumidade, é o Caruso das Ruas de S. Jorge e Conceição e não botequim de café a
três vinténs a xícara, onde a sua voz não requebre o
Olé lé lé
Candonga Sinhá.
Nas mesmas condições está o Miguel de Brito. Apesar de português, foi inferior do exército.
Quando deu baixa, comprou um Gramofone para ganhar, como dizia, a vida na roça. Partiu para
o Rio Bonito, alugou um salão e estava exatamente pregando um cartaz à porta, quando ouviu
na casa fronteira tocar um gramofone muito mais aperfeiçoado que o seu. Era a musa da
música decerto que o prevenia, desejosa de evitar um confronto desagradável. Brito arrancou o
cartaz, vendeu o Gramofone, agradeceu à musa e só com sua garganta veio triunfar nas
bodegas do Rio.
As bodegas, como os botequins do tom, toleram de vez em quando os músicos, com a condição
de não lhes pagar nada. Em geral são sempre três – os tercetos célebres. Há na Rua do Senhor
dos Passas o do Amadeu com as duas irmãs, que, por sinal, fugiram; na Avenida Passos
chefiado pelo Barradas, cego – terceto famoso, por ter percorrido todas as cidades de Espanha,
de Portugal, do Chile, do Uruguai, da Argentina e do Brasil; o dabrica de cerveja Oriente, o da
cervejaria Minerva, cujo chefe, o Antônio rabequista, gosta de ser acompanhado de canto. A
cervejaria enche-se de trabalhadores atraídos pela alegria dos sons. Sempre uma canção
melancólica abre um hiato sentimental entre os fandangos e os cakewalks.
Tanto penar, tanto sofrer.
Amor me mata,
Amor me mata.
Eu vou morrer.
Ninguém morre, e um português do Minho que lá passa a noite, brada:
– Eu cá dinheiro não dou, mas se tocar a cana-verde pago a cerveja!
E a cana-verde conclui a canção melancólica.
Oh! eu conheci nessas baiúcas rumorejantes, onde a populaça vive atraída pela música, até um
globe-trotter! Era um veneziano de vinte e três anos, Rafael Angelo, tenor. Nos botequins em
que os proprietários eram portugueses cantava o rebola a bola, nos estabelecimentos
espanhóis, o caballero di gracia me llaman, e, lindo, conquistador, com olhares mortos para as
mulheres, era uma delícia ouvi-lo, derreando os braços para os lados, como cansado de
abraçar, a cantar:
Fra le donne tu sei la piú bella,
Fra le rose tu sei la piú fina
E nel cielo brilhante stella
Nella terra sei nata regina.
A segunda vez que me viu entre os carregadores descalços, Rafael inaugurou o seu mais belo
gesto e disse-me:
Noto a V. Exa. que isto é apenas uma extravagância boêmia. Resolvi percorrer o mundo em
quatros anos, sem ter um vintém de capital. estive em Londres, em New York, em Chicago...
Estou no Rio de Janeiro há um mês. Che belleza.
Era o Phileas Fogg da cançoneta e arranjava dez a quinze mil réis diários, fora as paixões das
damas.
Quase todos esses músicos ambulantes e aventureiros ganham rios de dinheiro, vivendo uma
vida quase lamentável. No forro dos casacos velhos há maços de notas, nos cinturões sebentos,
vales ao portador. O público pára, olha aquela tristeza, imagina no automatismo dos gestos, na
face que pede, no sorriso postiço, a fome dos artistas, a miséria dos deserdados da sorte, e
sonha as agonias, como nas óperas, em que os tenores morrem ao sol, sob um céu lindo,
cantando.
Por trás dessa fachada há tanto interesse como no negociante mais avaro e tanta vaidade como
num artista lírico mais vaidoso porque esses músicos ambulantes, humanos como todos nós,
nascidos neste mesmo século de vaidade, regulam os seus ideais entre a pretensão, o alto juízo
do próprio valor e o número de moedas da coleta. Oh! a música, as árias perdidas no ruído das
ruas...Alguém assegurou que a alma do homem conhece sua natureza pelo canto.
Cheguemos à suave conclusão de que conhece a natureza e o resto. De que serviria um realejo
senão assegurasse ao seu possuidor, além do conhecimento da própria alma, a satisfação do
estômago? talvez em outras terras, mais gastas e mais frias, a miséria dos músicos
ambulantes, sem fogo, sem pão, caindo sob a neve, depois de uma dolorosa vida. Aqui não; os
músicos prosperam, o realejo é uma instituição, e do alto azul, a harmonia bondosa da natureza,
musa da vida e da alegria, derrama o consolo incomparável do calor e da luz. .
Velhos Cocheiros
Outro dia, ao saltar de um tílburi no antigo Largo do Paço, vi na boléia de um vis-à-vis pré-
histórico a ventripotência colossal de um velho cocheiro. As duas mãos gorduchas à altura do
peito como quem vai rezar, enfiado numa roupa esverdinhada, o automedonte roncava. Seria
uma recordação literária ou a memória de uma fisionomia de infância? Seria o cocheiro da Safo,
o irmão mais velho de Simeon, ou simplesmente um velho cocheiro que eu tivesse visto na doce
idade em que todas as emoções são novas? Era difícil adivinhar. Para os cérebros cheios de
literatura, a verdade obumbra-se tanto que é sempre preciso perguntar por ela como o fez
Poncius Pilatos diante de Deus.
Fui para perto do vis-à-vis, bati na perna do velho. Estava feio. O ventre, um ventre fabuloso,
parecia uma talha que lhe tivessem entalhado ao tronco; as pernas, sem movimento, pendiam
como traves; os braços, extremamente desenvolvidos, eram quase maiores que as pernas; e a
caraça vermelha, com tons violáceos, lembrava os carões alegres do Carnaval. Abriu,
entretanto, uma das pálpebras com mau humor e resmungou:
– Pronto!
– Então você não me conhece mais?
– Eu não, senhor.
– Pois eu conheço a você desde menino.
Ele abriu de todo as pálpebras pesadas, um sorriso de alegre bondade passou-lhe pelo lábio.
Saiba vossa senhoria que bem pode ser! Toda essa gente importante de hoje eu conheci
meninos de colégio!
Não sei por que estava meio emocionado.
– E já fez ponto na Estrada de Ferro?
– Há vinte anos, eu e o Bamba.
Encostei-me à boléia do antigo vis-à-vis. Havia vinte anos sim, havia vinte anos que no passar
pela estação de carros os meus olhos de criança se fixaram curiosamente na fisionomia jocunda
de um velho, que naquele tempo era velho e naquele tempo gravemente roncava na boléia
de um carro! Havia vinte anos.
É como lhe digo, afirmava ele. Conhece a filha do barão de Cotegipe? Eu vi aquela santa
criatura menina. Conhece o filho do grande ministro João Alfredo? É meu amigo, dá-me dinheiro
sempre que vem ao Rio. Olhe, de conhecer o Dr. Fernando Mendes de Almeida e mais o
irmão Dr. Cândido. Pois quando eu servia o pai, eles eram meninos de colégio. Há meses eu
disse ao Dr. Fernando tudo isso e ele foi dar um passeio no meu carro e deu-me doces, vinho
do Porto, dinheiro. Estava admirado e ria...
– Como se chama você?
– Braga, eu sou o Braga.
Pobre velho cocheiro a quem se como às crianças doces de confeitaria! Eu continuava
encostado ao vis-à-vis, imensamente triste e com a mesma curiosidade de criança.
Trabalho neste ofício desde 1870. Tinha vinte anos, quando comecei. Toda a minha mocidade
foi acabada aqui.
– E não estás rico?!
– Rico?
Soltou uma gargalhada sonora que lhe balançou o ventre e envermelheceu mais. Os seus olhos
pequenos olhavam-me da boléia com superioridade compassiva. É difícil encontrar um cocheiro
de carro que tenha feito fortuna. Enriquecem os de carroça, os de caminhões. De carro, se citam
dois ou três em trinta anos. O ofício, longe de tornar ágeis os corpos, faz lesões cardíacas,
atrofia as pernas, hipertrofia os braços, de modo que quinze anos de boléia, de visão elevada do
mundo, ao sol e à chuva, estragam e usam um homem como a ferrugem estraga o aço mais
fino. O Braga era um velho trapo encharcado. Tanto ádipo dava-me a impressão de que o pobre
velho devia ter água nos tecidos.
Eu continuava a ouvi-lo. Naquela boléia falava um cultor do quietismo, um renanista que tivesse
compreendido o nirvana. Nem uma ambição, nem um ódio: apenas um sorriso de quem não se
rala com a vida e vem para a rua almejando não encontrar fregueses, para dormir mais à
vontade.
Ah! este carro! murmurei. Quanta história podia você contar. Quantas cenas de amor, quantos
beijos, quantas angústias e quantos crimes!
Este carro não; outros, ou antes, eu. Fui de cocheira, fui de casa particular e trabalhei por
minha conta. Quando caiu o ministério João Alfredo fui eu quem o levou ao Paço. Agora essas
coisas de beijos – noutro tempo era nas berlindas.
– Tinha vontade de saber a sua opinião.
Ele arregalou muito os olhos.
– A respeito de beijos? Sei lá!
– Não, a respeito da Monarquia e da República.
Ele sorriu, pensou.
A Monarquia tinha as suas vantagens. Era mais bonito, era mais solene. Não vá talvez pensar
que eu sou inimigo da República. Mas recorde por exemplo um dia de audiência pública do
imperador. Que bonito! Até era um garbo levar os fregueses lá. Ó Braga, onde estiveste? Fui à
Boa Vista! Hoje todo o mundo entra no palácio do Catete. Não tem importância... É verdade que
o Obá entrava no Paço. Mas era príncipe. E então para conhecer homens importantes! Não
precisava saber-lhes o nome. Os ministros tinham uma farda bonita, o imperador saía de papo
de tucano. Bom tempo aquele! Hoje a gente tem de suar para conhecer um ministro. Parecem-
se todos com os outros homens.
– Talvez não sejam, Braga.
– Quanto às capacidades não digo nada...Mas veja. Por estar perto da secretaria é que conheço
o Müller, um magro, que reforma a cidade. E de todo o ministério só ele. Se isso era possível em
1880! Depois, quer saber? A República trouxe a Bolsa, uma porção de cocheiros estrangeiros,
uns gringos e ingleses de cara raspada, com uns carros que até nem eu lhes sabia o nome!
Despegou as mãos de sobre o peito.
E vão morrendo todas as pessoas notáveis, não mais ninguém notável. restam o sr.
visconde de Barbacena, o sr. marquês de Paranaguá e mais dois outros.
Houve uma longa pausa. Como este cocheiro estava do outro lado da vida! Quinze anos apenas
tinham levado o seu mundo e o seu carro para a velha poeira da história! Ele falava como um
eco, e estava ali, olhando o boulevard reformado, pensando nos bons tempos das missas na
catedral e das moradas reais, hoje ocupadas pela burocracia republicana. . .
– O Braga é o mais velho cocheiro do Rio?
– Não senhor; é o Bamba, que começou em 1864.
Neste momento, outros cocheiros moços, limpos, de grandes calças abombachadas foram
aproximando os carros, com vontade de saber o que retinha um cavalheiro tanto tempo a prosar
com o velho. Logo se fez um barulho de rodas e de vozes.
Ó Braga, ó velho, despacha o freguês! tem aqui um carro bom, vossa senhoria! O Braga,
posso servir?
Braga cruzou outra vez as mãos no peito, com um sereno olhar indiferente. Que dor o havia de
trespassar! Murmurei com pena:
– Bom, adeus, meu Braga. E onde pára o Bamba?
– Na Estrada, pára na Estrada. Às ordens do menino, respondeu ele do alto.
Já agora era impossível deixar de ver o outro, de conhecer o mais antigo cocheiro do Rio! Tomei
um bonde da Central. A tarde morria em lento e vermelho crepúsculo. No céu brilhava a primeira
estrela trêmula e luminosa, e os combustores acendiam a sua luz azul quando saltei na Praça
da Aclamação. E foi um grande trabalho. Eu ia de carro em carro.
– Pode informar onde pára o Bamba?
Uns diziam que o Bamba caíra e fora para o hospital, outros, os moços, riam de que se fosse
procurar um cocheiro inútil como o Bamba, outros asseguravam que o velho o trabalhava
mais. Afinal, quase defronte da porta do Quartel, encontrei um landau empoeirado, desses que
parecem arcas e acomodam à vontade seis pessoas.
Da boléia um mulato velho falava para um gordo ancião, muito gordo, muito estragado...
– Sabe você dizer quem é e onde está o Bamba?
O mulato riu.
– É este, patrão...
O gorduchão abriu a boca, onde faltavam os dentes.
não trabalho de noite: tenho 70 anos. Não vejo. Desde 1864 que estou no serviço. Outro
dia quase morro; caí da boléia. Tenho as pernas duras.
Bamba, meu velho...
– Sou o primeiro cocheiro, o mais velho, não há nenhum mais velho...
Eu voltei-me para o mulato, interroguei-o quase em segredo:
– Mas que diabo vem ele fazer aqui, assim?
O mulato sorriu com tristeza.
Sei ! É o cheiro, vossa senhoria, é o cheiro! Quando a gente começa nesta vida, não pode
viver sem ela...É o cheiro.
A praça vibrava numa estrepitosa animação, os combustores reverberavam em iluminações
fantásticas, e, só, no céu calmo, como uma hóstia de tristeza, a velha lua esticava a triste foice
do seu crescente.
Presepes
Deus vos salve casa santa
Onde Deus fez a morada
Onde mora o bento cálix
E a hóstia consagrada.
Que sabemos nós da Epifania? Homens de leve erudição e de sem vigor, andamos a sutilizar
velhos textos e antigos costumes, e tanto sutilizamos que a dúvida acomete o nosso espírito e a
confusão perturba a viagem dos três Reis com os vestígios das saturnais e das bodas de Caná.
Nem os sacerdotes nos altares nem os eruditos em livros fartos, ninguém hoje conseguirá
explicar claramente a suave aparição e a festa simples que o povo realiza, fazendo vir de alta
montanha, guiados por uma estrela loira, Gaspar, Melchior e Baltasar com a oferenda de ouro,
incenso e mirra para o menino que Herodes perseguirá.
os versículos de Mateus: "Jesus nasceu em Belém de Judá, nos tempos do rei Herodes.
Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo"; sabe-se que presepe significa
etimologicamente estrebaria ou jaula. Os gnósticos vêm, com esses dois elementos, simbólicos,
confusos; os sábios indagam de mais e, enquanto estes esterilmente escrevem páginas
estéreis, os povos criam a legenda suave, e a legenda perdura, cresce, aumenta, esplende
numa doce apoteose de perfumes e de bem.
Os presepes são uma criação popular. Antes dos artistas de Paris e Viena, que expõem nos
salões do Campo de Marte e no Kunstlerhaus, o povo criou nos presepes o anacronismo
religioso, o anacronismo que, segundo la Sizeranne, é a fé; pôs, como Breughel nos Peregrinos
de Emaús e Beraud na Madalena entre os Fariseus, homens de hoje nas cenas do Velho
Testamento.
Os presepes, como as telas do Renascimento, são as reconstituições religiosas com a cor local
contemporânea. Os psicólogos podem psicologar num reisado a alma nacional e a intensidade
da crença. Cristo para os homens simples está sempre, é a perene luz salvadora. Por isso cada
presepe é um mundo onde homens e animais de todas as épocas renovam anualmente a
admiração de um suave milagre.
Fui ver numa das últimas noites de chuva alguns desses mundos de religião e de tradição.
É impossível para os que viram o bumba-meu-boi realizado pelo venerável Melo Morais e o
belicoso Dr. Silvio Romero, quase como uma reconstituição de costumes, imaginar o número de
presepes que este ano tem o Rio. Há para mais de quarenta.
Começamos pelo presepe da Rua Frei Caneca, o Centro Pastoril, que tem uma diretoria
composta dos Srs. Liberato Serra, presidente honorário; Manuel Novela, presidente; mais dos
Srs. Pedro Hugo, Faria, Alfredo Belfort, Manuel de Macedo, Francisco de Paula Azevedo e Raul
Machado. Os ensaios do reisado realizaram-se na Rua Formosa e os diretores alugaram a sala
e a primeira alcova da casa da Rua Frei Caneca apenas para que a festa redobrasse de brilho.
A sala está toda enfeitada, com dois pequenos estrados feitos de madeira, onde devem sentar a
polícia e os reporters, um defronte da outro, sempre juntos e sempre adulados.
Ao fundo ergue-se o presente que toma a alcova. O céu deste ameaça chuva; grossas nuvens
algodoam a sua celestial vastidão. As estrelas, entretanto, mais o sol e mais a lua, numa doce
confraternização, atravessam nuvens e azul com o brilho fulgurante das malacachetas e das
velas – porque são de malacachetas as estrelas, e têm por trás uma vela providencial tanto a lua
como o sol.
Da montanha a pico, por caminhos aspérrimos, vêm descendo os três reis lendários com um ar
açodado de beduínos em fuga, e nessa descida, os seus olhos pintados vão vendo chalets
suíços, animais no pasto, militares posteriores ao império do Tetrarca, mulherinhas gordas de
avental e a luz da estrela que os guia escorrendo do céu em dois grossos fios de prata.
Embaixo, no primeiro plano, um grande movimento. De um lado, ardendo na sombra do
milagre e de alguns copinhos coloridos, está o estábulo, onde se dá o mistério do nascimento de
Deus; de outro, uma fachada de papel de seda, em que eu imagino ver Jerusalém, cujas portas
caíram ao som das trombetas.
O Centro Pastoril tem um reisado em 3 atos, interpretado pela sras. lrma Serra, Georgina do
Nascimento, Maria Fernandes, Elvira de Almeida, Elisa, Adelina, Esmeralda, Constança,
Lauriana e outras meninas. Esse reisado é exatamente um auto como os fazia mestre Gil
Vicente. Os personagens são o Guia, o Pastor Mestre, o Pastor, a Cigana, Diana Pastorinha,
Galeguinho, Galego e Galega. O Natal é apenas o motivo da cena. Trepado na gaiola destinada
à imprensa ausente, diante de gaiola policial deserta, apreciei com sabor a evolução do auto e,
batendo palmas, parecia à minha alma que remontáramos quatrocentos anos, ao tempo em que
d. Manuel oferecia ao Papa elefantes brancos ajaezados d’ouro e o povo acreditava com temor
em Deus.
No primeiro ato trata-se da chegada dos pastores e há o canto do dia:
Salve estrela radiante
Doce infante de alegria,
Salve infante, salve aos homens,
E a doce Virgem Maria.
Depois a Cigana, no 2
o
ato, tem o papel preponderante: esmola, pede, abre a sacola para que
as oferendas caiam, entre as graçolas do Galeguinho, e no fim ficam os pastores todos sabendo
que Jesus nasceu.
Mas ouço por estes montes
Brandas vozes a cantar
Já daqui não me vou
Sem estes sons escutar.
Aí, no Centro Pastoril, a diretoria indica outros presepes. muitos: na Rua Frei Caneca mais
dois; na Rua de Santana três, os n
os
130 e 27; na Rua Bom Jardim mais dois, em S. Diogo três,
e ainda em S. Clemente, em S. Cristovão, no Estácio, em Itapagipe, em Catumbi pobres,
humildes, cheios de pompa, modestos, numa diversidade curiosa e estranha. Conto numa noite
só mais de quarenta.
O reisado faz-se em geral aos sábados, mas os proprietários, que têm Deus na sala, conservam
as casas abertas e iluminadas.
– Dá-me licença?
– É a casa de Deus, pode entrar.
Em alguns, senhoras e crianças olham, sonolentas, o presepe ao fundo, em outros a sala está
inteiramente vazia ou os vigilantes dormem na crepitação das velas. Oh! a estética dos
presepes! Que assombroso charivari de datas, que fonte de idéias e de observações! Em S.
Clemente vem ao estábulo um batalhão francês, no da Rua de Santana, 130, um lago com
repuxo e peixes do tamanho dos reis magos, no da Rua da Imperatriz alguns caçadores e um
padre conversam com S. José; em Itapagipe encontrei uma montanha suíça com uma vaqueira
perto do rei Gaspar.
– Por que fazem presepes? indago.
Uns respondem que por promessa, outros sorriem e não dizem palavra. São os mais
numerosos. E a galeria continua a desfilar presepes que parecem pombais, feitos de arminho
e penas de aves; presepes todos de bolas de prata com bonequinhos de biscuit; presepes
armados com folhas de latão, castiçais com velas acesas e fotografias contemporâneas, tendo
por lagos, pedaços de espelho e o burro da Virgem com um selim à moderna; presepes em que
no meio do capim casas de dois andares com venezianas e caras de raparigas à janela
uma infinidade inacreditável.
O mais interessante, porém, fui encontrar na praia Formosa, centro de um cordão carnavalesco
de negros baianos. Essas criaturas dão-me a honra da sua amizade. O presepe está armado no
quarto da sala de visitas.É inaudito, todo verde com lantejoulas de prata.
O céu, pintado por um artista espontâneo, tem, entre nuvens, sol com uma cara raspada de
americano truster, a lua, maior que o sol, a imagem da Virgem Mãe. Dois raios de filó prata
bambamente pendem do azul sob o estábulo divino, iluminado a giorno. Descendo a montanha,
montados em camelos, vêm os três reis magos, vestidos à turca e o rei apressado é Baltasar, o
preto. Pela encosta do monte as majestades lendárias encontram, sem pasmo, ânimos imperiais
quase atuais: Napoleão na trágica atitude de Santa Helena, a defunta imperatriz do Brasil,
Bismarck com a sua focinheira de molosso desacorrentado, uma bailarina com a perna no ar, e
um boneco de cacete, calças abombachadas e chapéu ao alto... Iluminando a agradável
confusão, velas de estearina morrem em castiçais de cobre.
O grupo carnavalesco chama-se Rei de Ouros. Logo que eu apareço e das janelas
escancaradas a tropa me vê, entoa a canção da entrada:
Tu-tu-tu quem bate à porta
Menina vai ver quem é
É o triunfo Rei de Ouros
Com a sua pastora ao pé.
Dentro move-se, numa alegria carnavalesca, o bando de capoeiras perigosos da Rua da
Conceição, de S. Jorge e da Saúde. A sala tem cadeiras em roda, ornamentadas de cetim
vermelho, cortinas de renda com laçarotes estridentes. As matronas espapaçam-se nas
cadeiras, suando, e, em movimentos nervosos, agitam-se à sua vista mulatinhas de saiote
vermelho, brutamontes de sapatos de entrada baixa e calção de fantasia de velho e de rei dos
diabos. Há um cheiro impertinente de suor e éter floral.
Uma calamistrança pra seu doutô! brada o Dudu, um magro, conhecido por inventar nomes
engraçados, o Bruant da populaça
E a gente do reisado logo batendo palmas, pandeiros e berimbaus:
Ora venha ver o que temos di dá
Garrafas de vinho, doce de araçá.
A manifestação satisfaz. Dudu leva-me quase à força para um lugar de honra e eu vejo uma
mulatinha com o cabelo à Cléo de Merod, enfiada numa confusa roupagem rubra.
– Quem é aquela?
– É Etelvina. Tá servindo de porta-bandeira...
Não era necessária a explicação. O pessoal, quebrando todo em saracoteios exóticos, cantava
com as veias do pescoço saltadas:
Porta-bandeira deu siná,
Deu siná no Humaitá,
Porta-bandeira deu siná,
Deu síná tulou, tulou!
Aproveito a consideração do Dudu para compreender o presepe:
– Por que diabo põem vocês o retrato da imperatriz ali?
– A imperatriz era mãe dos brasileiros e está no céu.
– Mas Napoleão, homem, Napoleão?
– Então, gente, ele não foi rei do mundo? Tudo está ali para honrar o menino Deus.
– A bailarina também?
– A bailarina é enfeite.
– Guardo religiosamente esta profunda resposta.
Os do reisado cantam agora uma certa marcha que faz cócegas. Os versinhos são errados, mas
íntimos e, sibilizados por aquela gente ingenuamente feroz, dão impressões de carícias:
Sussu sossega
Vai dromi teu sono
Está com medo diga,
Quer dinheiro, tome!
Que tem Sussu com a Epifania? Nada. Essas canções, porém, são toda a psicologia de um
povo, e cada uma delas bastaria para lhe contar o servilismo, a carícia temerosa, o instinto da
fatalidade que o amolece, e a ironia, a despreocupada ironia do malandro nacional.
– Mas por que, continuo eu curioso, põem vocês junto do rei Baltasar aquele boneco de cacete?
Aquele é o rei da capoeiragem. Es perto do Rei Baltasar porque deve estar. Rei preto
também viu a estrela. Deus não esqueceu a gente. Ora não sei se V. Sa conhece que Baltasar é
pai da raça preta. Os negros da Angola quando vieram para a Bahia trouxeram uma dança
chamada cungu, em que se ensinava a brigar. Cungu com o tempo virou mandinga e S. Bento.
– Mas que tem tudo isso?...
– Isso, gente, são nomes antigos da capoeiragem. Jogar capoeira é o mesmo que jogar
mandinga.
Rei da capoeiragem tem seu lugar junto de Baltasar. Capoeiragem tem sua religião.
Abri os olhos pasmados. O negro riu.
V. S
a
não conhece a arte? Hoje está por baixo. Valente de verdade mesmo uns dez:
João da Sé, Tito da Praia, Chico Bolivar, Marinho da Silva, Manuel Piquira, Ludgero da Praia,
Manuel Tolo, Moisés, Mariano da Piedade, Cândido Baianinho, outros...Esses "cabras" sabiam
jogar mandinga como homens...
– Então os capoeiras estão nos presepes para acabar com as presepadas...
Sim senhor. Capoeiragem é uma arte, cada movimento tem um nome. É mesmo como sorte
de jogo. Eu agacho, prendo V. S
a
pelas pernas e viro V. S
a
virou balão e eu entrei debaixo. Se
eu cair virei boi. Se eu lançar uma tesoura eu sou um porco, porque tesoura não se usa mais.
Mas posso arrastar-lhe uma tarrafa mestra.
Tarrafa?
É uma rasteira com força. Ou esperar o degas de galho, assim duro, com os braços para o ar
e se for rapaz da luta, passar-lhe o tronco na queda, ou, se for arara, arrumar-lhe mesmo o
bauú, pontapé na pança. Ah! V. S
a
não imagina que porção de nomes tem o jogo. rasteira,
quando é deitada, chama-se banda, quando com força tarrafa, quando no ar para
bater na cara do cabra meia-lua.
– Mas é um jogo bonito! fiz para contentá-lo.
– Vai até o auô, salto mortal, que se inventou na Bahia.
Para aquela lição tão intempestiva, se havia formado um grupo de temperamentos bélicos.
Um rapazola falou.
– E a encruzilhada?
– É verdade, não disseste nada de encruzilhada?
E a discussão cresceu. Parecia que iam brigar.
Fora, a chuva jorrava torrencial. Um relógio pôs-se a bater preguiçosamente meia-noite. As
mulatinhas cantavam tristes:
Meu rei de Ouros quem te matou?
Foi um pobre caçadô.
Mas Dudu saltou para o meio da sala. Houve um choque de palmas. E diante do quarto, onde se
confundia o mundo em adoração a Deus, o negro cantou, acompanhado pelo coro:
Já deu meia-noite
O sol está pendente
Um quilo de carne
Para tanta gente!
Oh! suave ironia dos malandros! Na baiúca havia alegria, parati, álcool, fantasia, talvez o amor
nascido de todas aquelas danças e do insuportável cheiro do éter floral.
Não havia, porém, com que comer. Diante de Jesus, que lhes dera o dia de amanhã, a
queixa se desfazia num quase riso. Um quilo de carne para tanta gente!
Talvez nem isso! Saí, deixei o último presepe.
De longe, a casinhola com as suas iluminações tinha um ar de sonho sob a chuva, um ar de
milagre, o milagre da crença, sempre eterna e vivaz, saudando o natal de Deus através da
ingenuidade dos pobres. Como seria bom dar-lhes de comer, ó Deus poderoso!
Como lhes daria eu um farto jantar se, como eles, não tivesse apenas a esperança de amanhã
obter um quilo de carne só para mim!
Como se Ouve a Missa do "Galo"
A missa do "galo" não começa precisamente à meia-noite e não tem a obrigação de acabar
antes de uma da manhã. A missa só, sem galo, o divino sacrifício de que os casuístas
espanhóis do século XIII faziam a anatomia talvez tivesse em tempos remotos uma hora
precisa, exata, confirmada pelo dogma. O galo, porém, varia e canta, ou adiantado ou com
atraso. Ora, o chamar a missa do Natal de Cristo missa do galo é ainda um costume latino. Os
romanos contavam as horas com uma certa poesia. Logo depois da media nocte, chamavam
eles ao tempo gallicinium, hora em que o galo começa a cantar. A missa realizada, assim, após
a media nocte, ficou sendo a missa do galo, e é ainda o velho e desusado gallicínium que se
recorda quando os sacerdotes levantam a hóstia nos altares, e de capoeira em capoeira, sonoro
e glorioso, se propaga o diálogo dos galos: Cristo nasceu! Onde? Em Belém...
Eu estava exatamente defronte da igreja de Santana, dispondo de um automóvel possante. Era
a mais que alegre hora da meia-noite que alguns temperamentos românticos ainda julgam
sinistra. Aquele trecho da cidade tinha um aspecto festivo, um estranho aspecto de
anormalidade. Das ruas laterais vindo em fila famílias da Cidade Nova, primeiro as crianças,
depois as mocinhas, às vezes ladeadas de mancebos amáveis, depois as matronas
agasalhadas em fichus; vinham marchando como quem vai para a ceifa, grossos machacares,
de chapelão e casaco grosso; vinham gingando negrinhas de vestido gomado; "cabras" de calça
bombacha, velhas pretas embrulhadas em xales. Era como uma série de procissões em que as
irmandades se separavam segundo as classes. No adro, repleto, havia uma mistura de
populaça em festa. Grupos de rapazes berravam graças, bondes paravam despejando gente,
vendedores ambulantes apregoavam doces e comestíveis; todos os rostos abriam-se em
fraterna alegria, e naquela sarabanda humana, naquele vozear estonteante, uma nota
predominava a do namoro. Os rapazes estavam ali para namorar, para aproveitar a ocasião.
Os encontros tinham sido de antemão combinados. Quando um grupo familiar encontrava um
rapaz o oh! seu Antenor! Também por aqui! a resposta: oh! d. Belinha, então também veio!
soavam como quem diz: oh! não faltaste... Havia de resto pares de braço dado, meninas que
murmuravam frases ao lado dos mocetões, sob o olhar protetor das mamães...A missa era um
alegre pretexto e, se na classe burguesa o namoro tinha uma cor tão suave, nas outras
irmandades o entusiasmo era maior. Entrei no templo atrás de um grupo de mocinhos
entusiasmados, um dos quais teimava que havia de apertar, enquanto outro, com uma carta de
alfinetes, asseverava estar disposto a pregar alguns pares. O grupo ria, a igreja estava repleta,
quente, ardendo na nave de humanidade pouco crente, ardendo de doçura superior nas velas
dos altares. Mocinhas irrequietas, rindo, abriam passagem; rapazes lamentavelmente
espirituosos estabeleciam o arrocho, empurrando o corpo como quem vai dançar o cakewalk e
pretalhões de pastinhas, erguendo alto os chapéus de palha, violentavam a massa com os
cotovelos para chegar ao altar-mor. No ar parado um sino bateu. Houve uma interjeição
prolongada da multidão, ia começar a missa. Era a missa do galo nos bairros...
Saí suando, tomei o automóvel, nervoso. Ao lado da máquina, na aglomeração, uma voz de
mulher fez de repente:
– Ai!
– Que é? que foi? bradou um vozeirão formidável.
– Cocoricó! cantou um gaiato.
E entre as gargalhadas de mofa escandalosa, o automóvel rodou.
Parei na catedral. A enchente era tão colossal que havia gente até na rua.
O templo ardia em luzes. De fora viam-se os sacerdotes de sobrepeliz dourada, a candelária
luminosa, os santos, e toda a igreja vibrava das graves harmonias do órgão, realçadas por um
coro abaritonado. A turba tinha outro aspecto. Senhoras de chapéu, cavalheiros sempre com
esse amável ar conquistador que o homem se arroga nas festas públicas, de mistura com
fuzileiros navais, marinheiros alcoolizados, caixeirinhos do comércio de roupa nova e com os
olhos cheios de sono.
Toda essa gente conseguia entrar e sair, fazer como um torvelinho à porta, onde duas senhoras
vestidas de negro, esticando uma sacola, diziam maquinalmente: para a cera!
para a cera!
Ninguém dava, ninguém se ralava. O sopro de excitação dos sentidos parecia recrudescido pelo
sopro musical do orgão. Figuras que saíam da igreja vinham algumas congestas; as que
entravam tinham uma violência aguçada no olhar. Na rua, como que farejando, sujeitos iam e
vinham entre os grupos de malandros ébrios, de negros de capa no braço com um ar de
copeiros de casa rica, de mulheres conversadeiras. Encontro um repórter de jornal.
– Oh! tu também! que pândega, filho! Mas espera...
Indagou com o olhar a rua, sorriu, apertou-me o braço, apressado:
– Até logo.
Dou de frente com um bando de gente de teatro. Uma das atrizes assegura:
– Estou com os braços doendo...
E logo depois, deixando a atriz, encontro o protetor.
Viste-a por aí? Olha aquela família com crianças. nesta terra! Eu não! Ceei com meus
filhos: às dez horas tudo na cama, e às onze deixei de ser pai-de-família.
– Muito bem.
Era a missa do galo na cidade...Que tinha eu? Desgosto? Tristeza? Dor de cabeça? Sei !
Despedi-me do ex-pai-de-família, tomei de novo o automóvel que logo deslizou pela Rua da
Assembléia para cair numa vertiginosa carreira pela Avenida Central.
– Que é aquilo?
– É a missa do convento da Ajuda.
Saltei. A rua estava negra de gente. Os focos elétricos da Avenida mais de sombra enchiam
aquele canto – a porta tão triste onde a turba se acotovelava.
Um sujeito valente pisou três ou quatro pés, barafustou. Acompanhei-o. Era a missa dentro
imersa em tristeza infinda. Até os altares pareciam mais agourentos, até as imagens guardavam
na face uma dor mais amarga. E a missa trespassava a alma, porque, enquanto o sacerdote ia e
vinha no altar, por trás, na sombra, perpetuamente na sombra, morta, enterrada, perdida para o
mundo, a voz das monjas varava o ar como o som de um cristal quebrado, retorcia-se no
sacrifício do louvor do deus que nascera de um seio humano, espiralava como uma contorção
histérica, soluçava cantando...
Ia mais adiante, mas na minha frente um latagão bocejou:
– Que cacetada!
– É verdade, vamo-nos, respondeu a companheira.
– Ainda temos tempo de ir a Copacabana.
Consultou o relógio e começou a sair, imprimindo tal movimento à massa de gente, que eu, com
outros mais, de recuar tanto, me achei de novo na porta triste e humilde.
– Ó José, vamos a Copacabana?
– Anda daí.
Copacabana devia ser divertido. Tomei de novo o automóvel e disse ao chauffeur:
– Para Copacabana.
Naquele delicioso percurso da Avenida Beira-Mar, toda ensopada de luz elétrica, outros
automóveis de toldo arriado, outros carros, outras conduções corriam na mesma direção.
Homens espapaçados nas almofadas davam vivas, mulheres de grandes chapéus estralejavam
risos, era uma estrepitosa e inédita corrida para Cítera. Quando, no fim da avenida, os
automóveis seguiram pelas antigas ruas, cada encontro de bonde era uma catástofre. Os
tramways, apesar de comboiarem três carros, iam com gente até aos tejadilhos, e essa gente
furiosa, numa fúria que lembrava bem a vertigem de Dionísios, berrava, apostrofava, atirava
bengaladas num despejo de corpos e de conveniências. Entretanto, pelas mesmas ruas, a
corrida aumentava e era uma disparada louca entre vociferações, sons de corneta, tren-ten-tens
de bondes, estalar de chicote. Quando passamos o túnel num fracasso de metralha e demos
nos campos de Copacabana, a velocidade foi vertiginosa, e era apenas vagamente que se
divisavam, fugindo à sanha dos fon-fons, ao estrépito das rodas, a linha de fiéis da redondeza
marginando o capinzal e, à esquerda, num diadema de estrelas, a iluminação da Igrejinha.
Recostei-me. O automóvel saltava como um orango ébrio, no piso mau. De repente fez uma
curva e entrou numa rua cheia de gente, de carros, de outros automóveis. Estávamos no grande
sítio.
– É aqui?
– É.
Cerca de três mil pessoas pessoas de todas as classes, desde a mais alta e a mais rica à
mais pobre e à mais baixa, enchia aquele trecho, subia promontório acima. E o aspecto era
edificante. Grupos de rapazes apostavam em altos berros subir à igreja pela rocha; mulheres em
desvario galgavam a correr por outro lado, patinhando a lama viscosa. Todos os trajes, todas as
cores se confundiam num amálgama formidável, todos os temperamentos, todas as taras, todos
os excessos, todas as perversões se entrelaçavam. Quis notar o elemento predominante. Num
trecho havia mais pretas com soldados. Adiante logo, o domínio era de gente de serviço braçal,
um pouco mais longe a tropa se fazia de rapazelhos do comércio e, se dávamos um passo,
outro grupo de mocinhas com senhores conquistadores se nos antolhava. Todo esse pessoal
gritava.
Logo na subida encontrei um meninote engolindo uns restos de vinho do Porto pelo gargalo da
garrafa. Em meio do caminho um grupo do Clube dos Democráticos, de guarda-chuva branco e
preto, tocava guitarras e assobios.
De todos os lados partiam cantos de galo. Os cocoricós clássicos vinham finos, grossos,
roufenhos, em falsete: – Cocoricó! Cocoricô!
–Já ouviste cantar o galo?
– Pois hoje não é a missa dele?
– Cocoricó! pega ele pra capar!
– Pega!
A igrejinha estava toda iluminada exteriormente à luz elétrica. Defronte de sua fachada lateral
haviam armado um botequim. A turba arfava aí, presa entre a bodega e o templo. Quando eu
passei, porém, a bodega fora devorada e bebida. Os caixeiros tinham trepado para os balcões
no desejo de apreciar a cena. Fiz um violento esforço para entrar na igreja. À porta havia uma
verdadeira luta e dentro ninguém se podia mexer. Divisei apenas como indicação humilde do dia
um presepe no lado esquerdo, um presepe com pano de fundo representando fielmente um
trecho de Cascadura, e estava assim embebido, quando de repente estalou o rolo, o rolo rápido
e habitual. Um sujeito apanhara uma bengalada, levantara o guarda-chuva, uma menina gritara:
nunca mais venho à missa! E no roldão da turba medrosa, de novo caí na ladeira, ouvindo os
cocoricós, as chufas, as graças sórdidas:
– Pega pra capar! Cocoricó! Já ouviste o galo?
No céu cor de chumbo, ameaçador de temporais, espocavam girândolas de foguetes. E todo
aquele trecho, mais aquecido, mais feroz, mais cheio de gente redobrava de deboche, de frenesi
pândego, de loucura, quebrando copos, cantando, assobiando, praguejando, ganindo.
Atirei-me dentro do automóvel, exausto. A máquina disparou outra vez, lutando agora contra a
massa dos carros, dos automóveis, dos tramways que chegavam.
– Onde é a Lapa do Desterro?
– Quer ir lá? É uma igreja de gente pobre. E na Lapa.
– Pois vamos lá.
O automóvel quebrou pela Rua da Lapa, parou defronte da velha igreja. Eram duas horas da
manhã. Havia à porta a mesma matula de homens endomingados à espera da conquista, a
mesma sarabanda de sirigaitas. Entrei. O tapete do templo, velho, esfarripado, tinha por cima,
em alguns trechos, folhas de mangueira. No altar-mor, dos lados, entre panos azuis, ardiam dois
bicos auer, e aquela luz azul como transfigurava o rebátulo, os acessórios, os ouros despolidos.
A concorrência era menor, na nave, mulheres de xale formavam roda conversando. Andei por ali
tristemente. Ao sair, porém, vi de joelhos um homem.
De joelhos? Na missa do galo? Deus! Quem seria aquele pobre coitado? Aproximei-me. Era um
rapaz teria no ximo vinte anos. Ao lado o seu chapelão de coco repousava junto à grossa
bengala. No seu corpo ajustava-se demais um grosso fato de inverno aldeão. De mãos postas, a
face ingênua voltada para o altar, esse ser, numa noite báquica, era tão anormal, tão
extraordinário, que eu cheguei bem perto, olhei bem, fui ao ponto de curvar-me para lhe espiar
os olhos. O pobre sobressaltou-se.
– Meu senhor!
– Que está você a fazer aí?
Que estava? Ah? perdão...Estava a rezar, estava a pedir ao Menino Deus que saúdinha
aos pais lá na terra e que me proteja.
– Donde é você?
– Saberá V. S
a
que do Douro, sim senhor.
Falava de joelhos, a sorrir para mim; pobre alma ingênua e pura de aldeia, pobre alma que se ia
putrefazer na grande cidade, único coração que adorara Deus entre as dez mil pessoas vistas
por mim!
Oh! Tive um ímpeto, o desejo de abraçá-lo, a sensação de quem, após uma longa desilusão,
sente viva no abismo fundo a flor maravilhosa. Mas em torno se fazia roda de ociosos, um
sujeito surgira com um riso de troça.
– Pois faz muito bem. Adeus.
– Adeus, meu senhor!
E continuou ó coisa incrível! de joelhos, voltado para Deus, lembrando a sua aldeia,
lembrando os paizinhos, pedindo o bem – enquanto pela cidade inteira as ceatas e as pândegas
desencadeavam os ímpetos desaçaimados...
Cordões
Oh! abre ala!
Que eu quero passá
Estrela d’Alva
Do Carnavá!
Era em plena Rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se, sufocada. Havia
sujeitos congestos, forçando a passagem com os cotovelos, mulheres afogueadas, crianças a
gritar, tipos que berravam pilhérias. A pletora da alegria punha desvarios em todas as faces. Era
provável que do Largo de S. Francisco à Rua Direita dançassem vinte cordões e quarenta
grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinqüenta mil
pessoas. A rua convulsionava-se como se fosse fender, rebentar de luxúria e de barulho. A
atmosfera pesava como chumbo. No alto, arcos de gás besuntavam de uma luz de açafrão as
fachadas dos prédios. Nos estabelecimentos comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas
elétricas despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica, que enlividescia e parecia
convulsionar os movimentos da turba, sob o panejamento multicolor das bandeiras que
adejavam sob o esfarelar constante dos confetti, que, como um irisamento do ar, caíam,
voavam, rodopiavam. Essa iluminação violenta era ainda aquecida pelos braços de luz auer,
pelas vermelhidões de incêndio e as súbitas explosões azuis e verdes dos fogos de Bengala;
era como que arrepiada pela corrida diabólica e incessante dos archotes e das pequenas
lâmpadas portáteis. Serpentinas riscavam o ar; homens passavam empapados d’água, cheios
de confetti; mulheres de chapéu de papel curvavam as nucas à etila dos lança-perfumes, frases
rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros, uivos, guinchos. Um cheiro estranho, misto
de perfume barato, fartum, poeira, álcool, aquecia ainda mais o baixo instinto de promiscuidade.
A rua personalizava-se, tornava-se uma e parecia, toda ela policromada de serpentinas e
confetti, arlequinar o pincho da loucura e do deboche. Nós íamos indo, eu e o meu amigo, nesse
pandemônio. Atrás de nós, sem colarinho, de pijama, bufando, um grupo de rapazes
acadêmicos, futuros diplomatas e futuras glórias nacionais, berrava furioso a cantiga do dia,
essas cantigas que só aparecem no Carnaval:
Há duas coisa
Que me faz chorá
É nó nas tripa
E bataião navá!
De repente, numa esquina, surgira o pavoroso abre-alas, enquanto, acompanhado de urros, de
pandeiros, de xequerês, um outro cordão surgia.
Sou eu! Sou eu!
Sou eu que cheguei aqui
Sou eu Mina de Ouro
Trazendo nosso Bogari.
Era intimativo, definitivo. Havia porém outro. E esse cantava adulçorado:
Meu beija-flor
Pediu para não contar
O meu segredo
A Iaiá.
conto particular.
Iaiá me deixe descansar
Rema, rema, meu amor
Eu sou o rei do pescador.
Na turba compacta o alarma correu. O cordão vinha assustador. A frente um grupo desenfreado
de quatro ou cinco caboclos adolescentes com os sapatos desfeitos e grandes arcos pontudos
corria abrindo as bocas em berros roucos. Depois um negralhão todo de penas, com a face
lustrosa como piche, a gotejar suor, estendia o braço musculoso e nu sustentando o tacape de
ferro. Em seguida gargolejava o grupo vestido de vermelho e amarelo com lantejoulas d’ouro a
chispar no dorso das casacas e grandes cabeleiras de cachos, que se confundiam com a
epiderme num empastamento nauseabundo. Ladeando o bolo, homens em tamancos ou de pés
nus iam por ali, tropeçando, erguendo archotes, carregando serpentes vivas sem os dentes,
lagartos enfeitados, jabutis aterradores com grandes gritos roufenhos.
Abriguei-me a uma porta. Sob a chuva de confetti, o meu companheiro esforçava-se por
alcançar-me.
– Por que foges?
– Oh! estes cordões! Odeio o cordão.
– Não é possível.
– Sério!
Ele parou, sorriu:
Mas que pensas tu? O cordão é o carnaval, o cordão é vida delirante, o cordão é o último elo
das religiões pagãs. Cada um desses pretos ululantes tem por sob a belbutina e o reflexo
discrômico das lantejoulas, tradições milenares; cada preta bêbada, desconjuntando nas
tarlatanas amarfanhadas os quadris largos, recorda o delírio das procissões em Biblos pela
época da primavera e a fúria rábida das bacantes. Eu tenho vontade, quando os vejo passar
zabumbando, chocalhando, berrando, arrastando a apoteose incomensurável do rumor, de os
respeitar, entoando em seu louvor a "prosódia" clássica com as frases de Píndaro salve
grupos floridos, ramos floridos da vida...
Parei a uma porta, estendo as mãos.
É a loucura, não tem dúvida, é a loucura. Pois é possível louvar o agente embrutecedor das
cefalgias e do horror?
Eu adoro o horror. É a única feição verdadeira da humanidade. E por isso adoro os cordões, a
vida paroxismada, todos os sentimentos tendidos, todas as cóleras a rebentar, todas as ternuras
ávidas de torturas.
Achas tu que haveria carnaval se não houvesse os cordões? Achas tu que bastariam os
préstitos idiotas de meia dúzia de senhores que se julgam engraçadíssimos ou esse pesadelo
dos três dias gordos intitulado máscaras de espírito? Mas o Carnaval teria desaparecido, seria
hoje menos que a festa da Glória ou o "bumba-meu-boi" se não fosse o entusiasmo dos grupos
da Gamboa, do Saco, da Saúde, de S. Diogo, da Cidade Nova, esse entusiasmo ardente, que
meses antes dos três dias vem queimando como pequenas fogueiras crepitantes para acabar no
formidável e total incêndio que envolve e estorce a cidade inteira. em todas as sociedades,
em todos os meios, em todos os prazeres, um núcleo dos mais persistentes, que através do
tempo guarda a chama pura do entusiasmo. Os outros são mariposas, aumentam as sombras,
fazem os efeitos.
Os cordões são os núcleos irredutíveis da folia carioca, brotam como um fulgor mais vivo e são
antes de tudo bem do povo, bem da terra, bem da alma encantadora e bárbara do Rio.
Quantos cordões julgas que da Urca ao Caju? Mais de duzentos! E todos, mais de duas
centenas de grupos, são inconscientemente os sacrários da tradição religiosa da dança, de um
costume histórico e de um hábito infiltrado em todo o Brasil.
– Explica-te! bradei eu, fugindo para outra porta, sob uma avalanche de confetti e velhas
serpentinas varridas de uma sacada.
Atrás de mim, todo sujo, com fitas de papel velho pelos ombros, o meu companheiro continuou:
Eu explico. A dança foi sempre uma manifestação cultual. o danças novas; lentas
transformações de antigas atitudes de culto religioso. O bailado clássico das bailarinas do Scala
e da Ópera tem uma série de passos do culto bramânico, o minueto é uma degenerescência da
reverência sacerdotal, e o cakewalk e o maxixe, danças delirantes, têm o seu nascedouro nas
correrias de Dionísios e no pavor dos orixalás da África. A dança saiu dos templos; em todos os
templos se dançou, mesmo nos católicos.
O meu amigo falava intercortado, gesticulando. Começava desconfiar da sua razão. Ele,
entretanto, esticando o dedo, bradava no torvelinho da rua:
O Carnaval é uma festa religiosa, é o misto dos dias sagrados de Afrodita e Dionísios, vem
coroado de pâmpanos e cheirando a luxúria. As mulheres entregam-se; os homens abrem-se;
os instrumentos rugem; estes três dias ardentes, coruscantes são como uma enorme sangria na
congestão dos maus instintos. Os cordões saíram dos templos! Ignoras a origem dos cordões?
Pois eles vêm da festa de N. do Rosário, ainda nos tempos coloniais. Não sei por que os
pretos gostam da N. S
a
do Rosário... naquele tempo gostavam e saíam pelas ruas vestidos
de reis, de bichos, pajens, de guardas, tocando instrumentos africanos, e paravam em frente à
casa do vice-rei a dançar e cantar. De uma feita, pediram ao vice-rei um dos escravos para fazer
de rei. O homem recusou a lisonja que dignificava o servo, mas permitiu os folguedos. E estes
folguedos ainda subsistem com simulacros de batalha, e quase transformados, nas cidades do
interior. Havia uma certa conexão nas frases do cavalheiro que me acompanhava; mas, cada
vez mais receoso da apologia, eu andava agora quase a correr. Tive, porém, de parar. Era o
"Grêmio Carnavalesco Destemidos do lnferno", arrastando seis estandartes cobertos de coroas
de louro. Os homens e as mulheres, vestidos de preto, amarelo e encarnado, pingando suor, zé-
pereiravam:
Os roxinóis estão a cantar
Por cima do carramanchão
Os Destemidos do Inferno
Tenho por eles paixão.
E logo vinha a chula:
Como és tão linda!
Como és formosa!
Olha os destemidos
No galho da rosa.
– Como é idiota!
– É admirável. Os poetas simbolistas são ainda mais obscuros. Ora escuta este, aqui ao lado.
Vinte e sete bombos e tambores rufavam em torno de nós com a fúria macabra de nos
desparafusar os tímpanos. Voltei-me para onde me guiava o dedo conhecedor do Píndaro
daquele desespero e vi que cerca de quarenta seres humanos cantavam com o bio grosso,
úmido de cuspo, estes versos:
Três vezes nove
Vinte e sete
Bela morena
Me empresta seu leque
Eu quero conhecer
Quem é o treme terra?
No campo de batalha
Repentinos dá sinal da guerra.
Entretanto, os Destemidos tinham parado também. Vinham em sentido contrário, fazendo letras
complicadas pela rua forrada de papel policromo, sob a ardência das lâmpadas e dos arcos, o
grupo da "Rainha do Mar" e o grupo dos "Filhos do Relâmpago do Mundo Novo". Os da Rainha
cantavam em bamboleios de onda:
Moreninha bela
Hei de te amar
Sonhando contigo
Nas ondas do mar.
Os do Relâmpago, chocalhando chocalhos, riscando xequedês, berravam mais apressados:
No triná das ave
Vem rompendo a aurora
Ela de saudades
Suspirando chora.
Sou o Ferramenta
Vim de Portugá
O meu balão
Chama Nacioná.
Senhor Deus! Era a loucura, o pandemônio do barulho e da sandice. O fragor porém
aumentava, como se concentrando naquele ponto, e, esticando os pés, eu vi por trás da "Rainha
do Mar" uma serenata, uma autêntica serenata com cavaquinhos, violões, vozes em ritornelo
sustentando fermatas langorosas. Era a "Papoula do Japão":
Toda a gente pressurosa
Procura flor em botão
É uma flor recém-nascida
A papoula do Japão
Docemente se beijava
Uma... rola
Atraída pelo aroma
Da... papoula...
– Vamos embora. Acabo tendo uma vertigem.
Admira a confusão, o caos ululante. Todos os sentimentos todos os fatos do ano
reviravolteiam, esperneiam, enlanguescem, revivem nessas quadras feitas apenas para acertar
com a toada da cantiga. Entretanto, homem frio, é o povo que fala. o que é para ele a maior
parte dos acontecimentos.
– Quantos cordões haverá nesta rua?
Sei quarenta, oitenta, cem, dançando em frente à redação dos jornais. Mas, caramba!
olha o brilho dos grupos, louva-lhes a prosperidade. O cordão da Senhora do Rosário passou ao
cordão de Velhos. Depois dos Velhos os Cucumbis. Depois dos Cucumbis os Vassourinhas.
Hoje são duzentos.
É verdade, com a feição feroz da ironia que esfaqueia os deuses e os céus fiz eu
recordando a frase apologista.
– Sim, porque a origem dos cordões é o Afoxé africano, em que se debocha a religião.
– O Afoxé? insisti, pasmado.
Sim, o Afoxé. É preciso ver nesses bandos mais do que uma correria alegre a psicologia de
um povo. O cordão tem antes de tudo o sentimento da hierarquia e da ordem.
– A ordem na desordem?
É um lema nacional. Cada cordão tem uma diretoria. Para as danças dois fiscais, dois
mestres-sala, um mestre de canto, dois porta-machados, um achinagú ou homem da frente,
vestido ricamente. Aos títulos dos cordões pode-se aplicar uma das leis de filosofia primeira e
concluir daí todas as idéias dominantes na populaça. uma infinidade que são caprichosos e
outros teimosos. Perfeitamente pessoal da lira: Agora é capricho! Quando eu teimo, teimo
mesmo!
Nota depois a preocupação de maravilhar, com ouro, com prata, com diamantes, que infundem
o respeito da riquezaCaju de Ouro, Chuveiro de Ouro, Chuva de Prata, Rosa de Diamantes, e
às vezes coisas excepcionais e únicas Relâmpago do Mundo Novo. Mas o da grossa
população é a flor da gente, tendo da harmonia a constante impressão das gaitas,
cavaquinhos, dos violões, desconhecendo a palavra, talvez apenas sentindo-a como certos
animais que entendem discursos e sofrem a ação dos sons. Há quase tantos cordões intitulados
Flor e Harmonia, como Teimosos e Caprichosos. Um mesmo chama-se Flor da Harmonia,
como há outro intitulador Flor do Café.
Não te parece? Vai-se aos poucos detalhando a alma nacional nos estandartes dos cordões.
Oliveira Gomes, esse ironista sutil, foi mais longe, estudou-lhes a zoologia. Mas, se Flores,
Teimosos, Caprichosos e Harmonias, os que querem espantar com riquezas e festas nunca
vistas, também os preocupados com as vitórias e os triunfos, os que antes de sair são
Filhos do Triunfo da Glória, Vitoriosos das Chamas, Vitória das Belas, Triunfo das Morenas.
– Acho gentil essa preocupação de deixar vencer as mulheres.
A morena é uma preocupação fundamental da canalha. E ainda mais, meu amigo, nenhum
desses grupos intitula-se republicano, Republicanos da Saúde, por exemplo. E sabe por quê?
Porque a massa é monarquista. Em compensação abundam os reis, as rainhas, os vassalos,
reis de ouro, vassalos da aurora, rainhas do mar, patriotas tremendos e a ode ao Brasil vibra
infinita.
Neste momento tínhamos chegado a uma esquina atulhada de gente. Era impossível passar.
Dançando e como que rebentando as fachadas com uma "pancadaria" formidável, estavam os
do "Prazer da Pedra Encantada" e cantavam:
Tanta folia, Nenê!
Tanto namoro;
A "Pedra Encantada", ai! ai!
Coberta de ouro!
E o coro, furioso:
Chegou o povo, Nenê Floreada
É o pessoal, ai! ai!
Da "Pedra Encantada".
Mas a multidão, sufocada, ficava em derredor da "Pedra" entaipada por outros quatro cordões
que se encontravam numa confluência perigosa. Apesar do calor, corria um frio de medo; as
batalhas de confetti cessavam; os gritos, os risos, as piadas apagavam-se, e só, convulsionando
a rua, como que sacudindo as casas, como que subindo ao céus, o batuque confuso, epiléptico,
dos atabaques, "xequedés", pandeiros e tambores, os pancadões dos bombos, os urros das
cantigas berradas para dominar os rivais, entre trilos de apitos, sinais misteriosos cortando a
zabumbada delirante como a chamar cada um dos tipos à realidade de um compromisso
anterior. Eram a "Rosa Branca", negros lantejoulantes da Rua dos Cajueiros, os "Destemidos
das Chamas", os "Amantes do Sereno" e os "Amantes do Beijaflor"! Os negros da "Rosa",
abrindo muito as mandíbulas, cantavam:
No Largo de S. Francisco
Quando a corneta tocou
Era o triunfo "Rosa Branca"
Pela Rua do Ouvidô.
Os "Destemidos", em contraposição, eram patriotas:
Rapaziada, bate,
Bate com maneira
Vamos dar um viva
À bandeira brasileira
Os "Amantes do Sereno", dengosos, suavizavam:
Aonde vais, Sereno
Aonde vais, com teu amor?
Vou ao Campo de Santana
Ver a batalha de flô.
E no meio daquela balbúrdia infernal, como uma nota ácida de turba que chora as suas
desgraças divertindo-se, que soluça cantando, que se mata sem compreender, este soluço
mascarado, esta careta d’Arlequim choroso elevava-se do "Beija-Flor":
A 21 de janeiro
O "Aquidabã" incendiou
Explodiu o paiol de pólvora
Com toda gente naufragou
E o coro:
Os filhinhos choram
Pelos pais queridos.
As viúvas soluçam
Pelos seus maridos.
Era horrível. Fixei bem a face intumescida dos cantores. Nem um deles sentia ou sequer
compreendia a sacrílega menipéia desvairada do ambiente, a alma da turba consegue o
prodígio de ligar o sofrimento e o gozo na mesma lei de fatalidade, o povo diverte-se não
esquecendo as suas chagas, a populaça desta terra de sol encara sem pavor a morte nos
sambas macabros do Carnaval.
Estás atristado pelos versos do "Beija-Flor"? uma porção de grupos que comentam a
catástofre. Ainda instantes passou a "Mina de Ouro". Sabes qual é a marcha dessa
sociedade? Esta sandice tétrica:
Corremos, corremos
Povo brasileiro
Para salvar do "Aquidabâ"
Os patriotas marinheiros.
Isto no carnaval quando todos nós sentimos irreparável a desgraça. Mas o cordão perderia a
sua superioridade de vivo reflexo da turba se não fosse esse misto indecifrável de dor e pesar.
Todos os anos as suas cantigas comemoram as fatalidades culminantes.
Neste momento, porém, os "Amantes de Sereno" resolveram voltar. Houve um trilo de apito, a
turba fendeu-se. Dois rapazinhos vestidos de belbutina começaram a fazer "letra" com grandes
espadas de pau prateado, dando pulos quebrando o corpo. Depois, o achinagú ou homem da
frente, todo coberto de lantejoulas, deu uma volta sob a luz clara da luz elétrica e o bolo todo
golfou diabos, palhaços, mulheres, os pobres que não tinham conseguido fantasias e
carregavam os archotes, os fogos de bengala, as lâmpadas de querosene. A multidão
aproveitou o vazio e precipitou-se. Eu e meu amigo caímos na corrente impetuosa.
Oh! sim! ele tinha razão! O cordão é o carnaval, é o último elo das religiões pagãs, é bem o
conservador do sagrado dia do deboche ritual; o cordão é a nossa alma ardente, luxuriosa,
triste, meio escrava e revoltosa, babando lascívia pelas mulheres e querendo maravilhar,
fanfarrona, meiga, bárbara, lamentável. .
Toda a rua rebentava no estridor dos bombos. Outras canções se ouviam. E, agarrado ao braço
do meu amigo, arrastado pela impetuosa corrente aberta pela passagem dos "Amantes do
Sereno", eu continuei rua abaixo, amarrado ao triunfo e à fúria do cordão!...
TRÊS ASPECTOS DA MISÉRIA
As Mariposas do Luxo
– Olha, Maria...
– É verdade! Que bonito!
As duas raparigas curvam-se para a montra, com os olhos ávidos, um vinco estranho nos lábios.
Por trás do vidro polido, arrumados com arte, entre estatuetas que apresentam pratos com
bugingangas de fantasia e a fantasia policroma de coleções de leques, os desdobramentos das
sedas, das plumas, das guipures, das rendas.
É a hora indecisa em que o dia parece acabar e o movimento febril da Rua do Ouvidor relaxa-
se, de súbito, como um delirante a gozar os minutos de uma breve acalmia. Ainda não
acenderam os combustores, ainda não ardem a sua luz galvânica os focos elétricos. Os relógios
acabaram de bater, apressadamente, seis horas. Na artéria estreita cai a luz acinzentada das
primeiras sombras uma luz muito triste, de saudade e de mágoa. Em algumas casas correm
com fragor as cortinas de ferro. No alto, como o teto custoso do beco interminável, o céu, de
uma pureza admirável, parecendo feito de esmaltes translúcidos superpostos, rebrilha, como
uma jóia em que se tivessem fundido o azul de Nápoles, o verde perverso de Veneza, os ouros
e as pérolas do Oriente.
passaram as professional beauties, cujos nomes os jornais citam; voltaram da sua hora de
costureiro ou de joalheiro as damas do alto tom; e os nomes condecorados da finança e os
condes do Vaticano e os rapazes elegantes e os deliciosos vestidos claros airosamente
ondulantes se sumiram, levados pelos "autos", pelas parelhas fidalgas, pelos bondes
burgueses. A rua tem de tudo isso uma vaga impressão, como se estivesse sob o domínio da
alucinação, vendo passar um préstito que passou. um hiato na feira das vaidades: sem
literatos, sem poses, sem flirts. Passam apenas trabalhadores de volta da faina e operárias que
mourejaram todo o dia.
Os operários vêm talvez mal-arranjados, com a lata do almoço presa ao dedo mínimo. Alguns
vêm de tamancos. Como são feios os operários ao lado dos mocinhos bonitos de ainda
pouco! Vão conversando uns com os outros, ou calados, metidos com o próprio eu. As raparigas
ao contrário: vêm devagar, muito devagar, quase sempre duas a duas, parando de montra em
montra, olhando, discutindo, vendo.
– Repara só, Jesuína.
– Ah! minha filha. Que lindo!...
Ninguém as conhece e ninguém nelas repara, a não ser um ou outro caixeiro em mal de amor
ou algum pícaro sacerdote de conquistas.
Elas, coitaditas! passam todos os dias a essa hora indecisa, parecem sempre pássaros
assustados, tontos de luxo, inebriados de olhar. Que lhes destina no seu mistério a vida cruel?
Trabalho, trabalho; a perdição, que é a mais fácil das hipóteses; a tuberculose ou o
alquebramento numa ninhada de filhos. Aquela rua não as conhecerá jamais. Aquele luxo será
sempre a sua quimera.
São mulheres. Apanham as migalhas da feira. São as anônimas, as fulanitas do gozo, que não
gozam nunca. E então, todo dia, quando céu se rocalha de ouro e andam os relógios pelas
seis horas, haveis vê-las passar, algumas loiras, outras morenas, quase todas mestiças. A idade
dá-lhes a elasticidade dos gestos, o jeito bonito do andar e essa beleza passageira que chamam
do diabo. Os vestidos são pobres: saias escura sempre as mesmas; blusa de chitinha rala.
Nos dias de chuva um parágua e a indefectível pelerine. Mas essa miséria é limpa, escovada.
As botas brilham, a saia não tem uma poeira, as mãos foram cuidadas. nos lóbulos de
algumas orelhas brincos simples, fechando as blusas lavadinhas, broches "montana", donde
escorre o fio de uma chatelaine.
mesmo anéis correntinhas de ouro, pedras que custam barato; coralinas, pis-lazúli,
turquesas falsas. Quantos sacrifícios essa limpeza não representa? Quantas concessões não
atestam, talvez, os modestos pechisbeques!
Elas acordaram cedo, foram trabalhar. Voltam para o lar semconforto, com todas as ardências e
os desejos indomáveis dos vinte anos.
A rua não lhes apresenta o amor, o namoro, o desvio...Apresenta-lhes o luxo. E cada montra
é a hipnose e cada rayon de modas é o foco em torno do qual reviravolteiram e anseiam as
pobres mariposas.
– Ali no fundo, aquele chapéu...
– O que tem uma pluma?
– Sim, uma pluma verde... Deve ser caro, não achas?
São duas raparigas, ambas morenas. A mais alta alisa instintivamente os bandós, sem chapéu,
apenas com pentes de ouro falso. A montra reflete-lhe o perfil entre as plumas, as rendas de
dentro; e enquanto a outra afunda o olhar nos veludos que realçam toda a espetaculização do
luxo, enquanto a outra sofre aquela tortura de Tântalo, ela mira-se, afina com as duas mãos a
cintura, parece pensar coisas graves. Chegam, porém, mais duas. A pobreza feminina não
gosta dos flagrantes de curiosidade invejosa. O par que chega, por último, pára hesitante. A
rapariga alta agarra o braço da outra:
– Anda daí! Pareces criança.
– Que véus, menina! que véus!...
– Vamos. Já escurece.
Param, passos adiante, em frente às enormes vitrinas de uma grande casa de modas. As
montras estão todas de branco, de rosa, de azul; desdobram-se em sinfonias de cores suaves e
claras, dessas cores que alegram a alma. E os tecidos são todos leves irlandas, guipures,
pongées, rendas. Duas bonecas de tamanho natural as deusas do "Chiffon" nos altares da
frivolidade vestem com uma elegância sem par; uma de branco, robe Empire; outra de rosa,
com um chapéu cuja pluma negra deve custar talvez duzentos mil réis.
Quanta coisa! quanta coisa rica! Elas vão para a casa acanhada jantar, aturar as rabugices dos
velhos, despir a blusa de chita a mesma que hão de vestir amanhã...E estão tristes. São os
pássaros sombrios no caminho das tentações. Morde-lhes a alma a grande vontade de possuir,
de ter o esplendor que se lhes nega na polidez espelhante dos vidros.
Por que pobres, se são bonitas, se nasceram também para gozar, para viver?
outros pares gárrulos, alegres, doidivanas, que riem, apontam, esticam o dedo, comentam
alto, divertem-se, talvez mais felizes e sempre mais acompanhadas. O par alegre entontece
diante de uma casa de flores, vendo as grandes corbeilles, o arranjo sutil das avencas, dos
cravos, das angélicas, a graça ornamental dos copos de leite, o horror atraente das parasitas
raras.
– Sessenta mil réis aquela cesta! Que caro! Não é para enterro, pois não?
– Aquilo é para as mesas. Olhe aquela florzinha. Só uma, por vinte mil réis.
– Você acha que comprem?
– Ora, para essa moças...os homens são malucos.
As duas raparigas alegres encontram-se com as duas tristes defronte de uma casa de objetos
de luxo, porcelanas, tapeçarias. Nas montras, com as mesmas atitudes, as estátuas de bronze,
de prata, de terracota, as cerâmicas de cores mais variadas repousam entre tapetes estranhos,
tapetes nunca vistos, que parecem feitos de plumas de chapéu. Que engraçado! Como deve ser
bom pôr os pés na maciez daquela plumagem! As quatro trocam idéias.
– De que será?
A mais pequena lembra perguntar ao caixeiro, muito importante, à porta. As outras tremem.
– Não vá dar uma resposta má...
– Que tem?
Hesita, sorri, indaga:
– O senhor faz favor de dizer... Aqueles tapetes?...
O caixeiro ergue os olhos irônicos.
Bonitos, não é? o de cauda de avestruz. Foram precisos quarenta avestruzes para fazer o
menor. A senhora deseja comprar?
Ela fica envergonhadíssima; as outras também. Todas riem tapando os lábios com o lenço,
muito coradas e muito nervosas.
Comprar! Não ter dinheiro para aquele tapete extravagante parece-lhes ao mesmo tempo
humilhante e engraçado.
– Não, senhor, foi só para saber. Desculpe...
E partem. Seguem como que enleadas naquele enovelamento de coisas capitosas – montras de
rendas, montras de perfumes, montras toilettes, montras de flores a chamá-las, a tentá-las, a
entontecê-las com corrosivo desejo de gozar. Afinal, param nas montras dos ourives.
Toda a atmosfera tomou um tom de cinza escuro. o céu de verão, no alto, parece um
dossel de paraíso, com o azul translúcido a palpitar uma luz misteriosa. começaram a
acender os combustores na rua, as estrelas de ouro ardem no alto. A rua vai de novo
precipitar-se no delírio.
Elas fixam a atenção. Nenhuma das quatro pensa em sorrir. A jóia é a suprema tentação. A
alma da mulher exterioriza-se irresistivelmente diante dos adereços. Os olhos cravam-se
ansiosos, numa atenção comovida que guarda e quer conservar as minúcias mais
insignificantes. A prudência das crianças pobres fá-las reservadas.
– Oh! aquelas pedras negras!
– Três contos!
Depois, como se ao lado um príncipe invisível estivesse a querer recompensar a mais modesta,
comentam as jóias baratas, os objetos de prata, as bolsinhas, os broches com corações, os
anéis insignificantes.
– Ah! se eu pudesse comprar aquele!
– É só quarenta e cinco! E aquele reloginho, vês? de ouro...
Mas, dentro, o joalheiro abre a comunicação elétrica, e de súbito, a vitrina, que morria na
penumbra, acende violenta, crua, brutalmente, fazendo faiscar os ouros, cintilar os brilhantes,
coriscar os rubis, explodir a luz veludosa das safiras, o verde das esmeraldas, as opalas, os
esmaltes, o azul das turquesas. Toda a montra é um tesouro no brilho cegador e alucinante das
pedrarias.
Elas olham sérias, o peito a arfar. Olham muito tempo e, ali, naquele trecho de rua civilizada, as
pedras preciosas operam, nas sedas dos escrínios, os sortilégios cruéis dos antigos ocultistas.
As mãozinhas bonitas apertam o cabo da sombrinha como querendo guardar um pouco de tanto
fulgor; os bios pendem no esforço da atenção; um vinco ávido acentua os semblantes. Onde
estará o príncipe encantador? Onde estará o velho d. João?
Um suspiro mais forte a coragem da que se libertou da hipnose fá-las despegar-se do lugar.
É noite. A rua delira de novo. À porta dos cafés e das confeitarias, homens, homens, um
estridor, uma vozeria. se divisam perfeitamente as pessoas no Largo de S. Francisco onde
estão os bondes para a Cidade Nova, para a Rua da América, para o Saco. Elas tomam um ar
honesto. Os tacões das botinas batem no asfalto. Vão como quem tem pressa, como quem
perdeu muito tempo.
Da Avenida Uruguaiana para diante não olham mais nada, caladas, sem comentários.
Afinal chegam ao Largo. Um adeus, dois beijos, "até amanhã!"
Até amanhã! Sim, elas voltarão amanhã, elas voltam todo dia, elas conhecem nas suas
particularidades todas as montras da feira das tentações; elas continuarão a passar, à hora do
desfalecimento da artéria, mendigas do luxo, eternas fulanitas da vaidade, sempre com a
ambição enganadora de poder gozar as jóias, as plumas, as rendas, as flores.
Elas hão de voltar, pobrezinhas porque a esta hora, no canto do bonde, tendo talvez ao lado o
conquistador de sempre, arfa-lhes o peito e têm as mãos frias com a idéia desse luxo corrosivo.
Hão de voltar, caminho da casa, parando aqui, parando acolá, na embriaguez da tentação
porque a sorte as fez mulheres e as fez pobres, porque a sorte não lhes dá, nesta vida de
engano, senão a miragem do esplendor para perdê-las mais depressa.
E haveis então de vê-las passar, as mariposas do luxo, no seu passinho modesto, duas a duas,
em pequenos grupos, algumas loiras, outras morenas...
Os Trabalhadores de Estiva
Às 5 da manhã ouvia-se um grito de máquina rasgando o ar. o cais, na claridade pálida da
madrugada, regurgitava num vai-e-vem de carregadores, catraieiros, homens de bote e
vagabundos maldormidos à beira dos quiosques. Abriam-se devagar os botequins ainda com os
bicos de gás acesos; no interior os caixeiros, preguiçosos, erguiam os braços com bocejos
largos. Das ruas que vazavam na calçada rebentada do cais, afluía gente, sem cessar, gente
que surgia do nevoeiro, com as mãos nos bolsos, tremendo, gente que se metia pelas bodegas
e parava à beira do quiosque numa grande azáfama. Para o cais da alfândega, ao lado, um
grupo de ociosos olhava através das frinchas de um tapume, rindo a perder; um carregador,
encostado aos umbrais de uma porta, lia, de óculos, o jornal, e todos gritavam, falavam, riam,
agitavam-se na frialdade daquele acordar, enquanto dos botes policrômicos homens de camisa
de meia ofereciam, aos berros, um passeiozinho pela baía. Na curva do horizonte o sol de maio
punha manchas sangrentas e a luz da manhã abria, como desabrocha um lírio, no céu pálido.
Eu resolvera passar o dia com os trabalhadores da estiva e, naquela confusão, via-os vir
chegando a balançar o corpo, com a comida debaixo do braço, muito modestos. Em pouco, a
beira do cais ficou coalhada. Durante a última gréve, um delegado de polícia dissera-me:
– São criaturas ferozes! Nem a tiro.
Eu via, porém, essas fisionomias resignadas à luz do sol e elas me impressionavam de maneira
bem diversa. Homens de excessivo desenvolvimento muscular, eram todos pálidos de um
pálido embaciado como se lhes tivessem pregado à epiderme um papel amarelo, e assim,
encolhidos, com as mãos nos bolsos, pareciam um baixo-relevo de desilusão, uma frisa de
angústia.
Acerquei-me do primeiro, estendi-lhe a mão:
– Posso ir com vocês, para ver?
Ele estendeu também a mão, mão degenerada pelo trabalho, com as falanges recurvas e a
palma calosa e partida.
– Por que não? Vai ver apenas o trabalho, fez com amarga voz.
E quedou-se, outra vez, fumando.
– É agora a partida?
– É.
Entre os botes, dois saveiros enormes, rebocados por uma lancha, esperavam. Metade dos
trabalhadores, aos pulos, bruscamente, saltou para os fardos. Saltei também. Acostumados,
indiferentes à travessia, eles sentaram-se calados, a fumar. Um vento frio cortava a baía. Todo
um mundo de embarcações movia-se, coalhava o mar, riscava a superfície das ondas; lanchas
oficiais em disparada, com a bandeira ao vento; botes, chatas, saveiros, rebocadores.
Passamos perto de uma chata parada e inteiramente coberta de oleados. Um homem, no alto,
estirou o braço, saudando.
– Quem é aquele?
É o José. É chateiro-vigia. Passou todo o dia ali para guardar a mercadoria dos patrões. Os
ladrões são muitos. Então, fica um responsável por tudo, toda a noite, sem dormir, e ganha seis
mil réis. As vezes, os ladrões atacam os vigias acordados e o homem, só, tem que se defender
a revólver.
Civilizado, tive este comentário frio:
– Deve estar com sono, o José.
Qual! Esse é dos que dobra dias e dias. Com mulher e oito filhos precisa trabalhar. Ah! meu
senhor, homens, por este mar afora cujos filhos de seis meses ainda os não conhecem.
Saem de madrugada de casa. O José está à espera que a alfândega tire o termo da carga, que
não é estrangeira.
Outras chatas perdiam-se paradas na claridade do sol. Nós passávamos entre as lanchas. Ao
longe, bandos de gaivotas riscavam o azul do céu e o Cais dos Mineiros se perdia distante da
névoa vaga. Mas nós avistávamos um outro cais com um armazém ao fundo. À beira desse
cais, saveiros enormes esperavam mercadorias; e, em cima, formando um círculo ininterrupto,
homens de braços nus saíam a correr de dentro da casa, atiravam o saco no saveiro, davam a
volta à disparada, tornavam a sair a galope com outro saco, sem cessar, contínuos como a
correia de uma grande máquina. Eram sessenta, oitenta, cem, talvez duzentos. Não os podia
contar. A cara escorrendo suor. Os pobres surgiam do armazém como flechas, como flechas
voltavam. Um clamor subia aos céus apregoando o serviço:
– Um, dois, três, vinte e sete; cinco, vinte, dez, trinta!
E a ronda continuava diabólica.
– Aquela gente não cansa?
– Qual! trabalham assim horas a fio. Cada saco daqueles tem sessenta quilos e para transportá-
lo ao saveiro pagam 60 réis. Alguns pagam menos dão 30 réis, mas, assim mesmo,
quem tire dezesseis mil réis por dia.
O trabalho da estiva é complexo, variado; a estiva da aguardente, do bacalhau, dos cereais,
do algodão; cada uma tem os seus servidores, e homens que servem a certas e
determinadas estivas, sendo por isso apontados.
– É muito, fiz.
Passam dias, porém, sem ter trabalho e imagine quantas corridas são necessárias para
ganhar a quantia fabulosa.
A lancha fizera-se ao largo. Caminhávamos para o poço onde o navio que devia sair naquela
noite fundeava, todo de branco. Era o começo do dia. A bordo ficou um terno de homens, e eu
com eles. O terno divide-se assim: um no guincho, quatro na embarcação, oito no porão e
quatro no convés. Isso quando a carga é seca. Carregava café o vapor.
Logo que o saveiro atracou, eles treparam pelas escadas, rápidos; oito homens desapareceram
na face aberta do porão, despiram-se, enquanto os outros rodeavam o guincho e as correntes
de ferro começavam a ir e vir do porão para o saveiro, do saveiro para o porão, carregadas de
sacas de café. Era regular, matemático, a oscilação de um lento e formidável relógio.
Aqueles seres ligavam-se aos guinchos; eram parte da máquina; agiam inconscientemente.
Quinze minutos depois de iniciado o trabalho, suavam arrancando as camisas. os negros
trabalhavam de tamancos. E não falavam, não tinham palavras inúteis. Quando a ruma estava
feita, erguiam a cabeça e esperavam a nova carga. Que fazer? Aquilo tinha que ser até às 5 da
tarde!
Desci ao porão. Uma atmosfera de caldeira sufocava. Era as correntes caírem do braço de ferro
um dos oito homens precipitava-se, alargava-as, os outros puxavam os sacos.
– Eh! lá!
De novo havia um rolar de ferros no convés, as correntes subiam enquanto eles arrastavam os
sacos. Do alto a claridade caía fazendo uma bolha de luz, que se apagava nas trevas dos
cantos. E a gente, olhando para cima, via encostados cavalheiros de pijama e bonezinho, com
ar de quem descansa do banho a apreciar a faina alheia. Às vezes, as correntes ficavam um
pouco alto. Eles agarravam-se às paredes de ferro com os passos vacilantes entre os sacos e,
estendendo o tronco nu e suarento, as suas mãos preênseis puxavam a carga em esforços
titânicos.
– Eh! lá!
Na embarcação, fora, os mesmos movimentos, o mesmo gasto de forças e de tal forma regular
que em pouco eram movimentos correspondentes, regulados pela trepidação do guincho, os
esforços dos que se esfalfavam no porão e dos que se queimavam ao sol.
Até horas tardes da manhã trabalharam assim, indiferentes aos botes, às lanchas, à animação
especial do navio. Quando chegou a vez da comida, não se reuniram. Os do porão ficaram por
lá mesmo, com a respiração intercortada, resfolegando, engolindo o pão, sem vontade.
Decerto pela minha face eles compreenderam que eu os deplorava. Vagamente, o primeiro
falou; outro disse-me qualquer coisa e eu ouvi as idéias daqueles corpos que o trabalho rebenta.
A principal preocupação desses entes são as firmas dos estivadores. Eles as têm de cor, citam
de seguida, sem errar uma: Carlos Wallace, Melo e François, Bernardino Correia Albino,
Empresa Estivadora, Picasso e C., Romão Conde e C., Wilson, Sons, José Viegas Vaz, Lloyd
Brasileiro, Capton Jones. Em cada uma dessas casas o terno varia de número e até de
vencimentos, como por exemplo o Lloyd, que paga sempre menos que qualquer outra
empresa.
Os homens com quem falava têm uma força de vontade incrível. Fizeram com o próprio esforço
uma classe, impuseram-na. Há doze anos não havia malandro que, pegado na Gamboa, não se
desse logo como trabalhador de estiva. Nesse tempo não havia a associação, não havia o
sentimento de classe e os pobres estrangeiros pegados na Marítima trabalhavam por três mil
réis dez horas de sol a sol. Os operários reuniram-se. Depois da revolta, começou a se fazer
sentir o elemento brasileiro e, desde então, foi uma longa e pertinaz conquista. Um homem
preso, que se diga da estiva, é, horas depois, confrontado com um sócio da União, tem que
apresentar o seu recibo de mês. Hoje, estão todos ligados, exercendo uma mútua policia para a
moralização da classe. A União dos Operários Estivadores consegue, com uns estatutos que a
defendem habilmente, o seu nobre fim. Os defeitos da raça, as disputas, as rusgas são
consideradas penas; a extinção dos tais pequenos roubos, que antigamente eram comuns,
merece um cuidado extremado da União, e todos os sócios, tendo como diretores Bento José
Machado, Antônio da Cruz, Santos Valença, Mateus do Nascimento, Jerônimo Duval, Miguel
Rosso e Ricardo Silva, esforçam-se, estudam, sacrificam-se pelo bem geral.
Que querem eles? Apenas ser considerados homens dignificados pelo esforço e a diminuição
das horas de trabalho, para descansar e para viver. Um deles, magro, de barba inculta, partindo
um pão empapado de suor que lhe gotejava da fronte, falou-me, num grito de franqueza:
O problema social não tem razão de ser aqui? Os senhores não sabem que este país é rico,
mas que se morre de fome? É mais fácil estourar um trabalhador que um larápio? O capital está
nas mãos de grupo restrito e gente demais absolutamente sem trabalho. Não acredite que
nos baste o discurso de alguns senhores que querem ser deputados Vemos claro e, desde que
se começa a ver claro, o problema surge complexo e terrível. A greve, o senhor acha que não
fizemos bem na greve? Eram nove horas de trabalho. De toda a parte do mundo os
embarcadiços diziam que trabalho da estiva era só de sete!
Fizemos mal? Pois ainda não temos o que desejamos.
A máquina, no convés, recomeçara a trabalhar.
– Os patrões não querem saber se ficamos inúteis pelo excesso de serviço. Olhe, vá à Marítima,
ao Mercado. Encontrará muitos dos nossos arrebentados, esmolando, apanhando os restos de
comida. Quando se aproximam das casas às quais deram toda a vida correm-nos!
Que foi fazer lá? Trabalhou? Pagaram-no; rua! Toda a fraternidade universal se cifra neste
horror!
Do alto caíram cinco sacas de café mal presas à corrente. Ele sorriu, amargurado, precipitou-se,
e, de novo, ouviu-se o pavor do guincho sacudindo as correntes donde pendiam dezoito homens
estrompados. Até à tarde, encostado aos sacos, eu vi encher a vastidão do porão bafioso e
escuro. Eles não pararam. Quando deu cinco horas um de barba negra tocou-me no braço:
Por que não se vai? Estão tocando a sineta. Nós ficamos para o serão à noite... Trabalhar até
à meia-noite.
Subi. Os ferros retiniam sempre a música sinistra. Encostados à amurada, damas roçagando
sedas e cavalheiros estrangeiros de smoking, debochavam, em inglês, as belezas da nossa
baía; no bar, literalmente cheio, ao estourar do champagne, um moço vermelho de álcool e de
calor levantava um copo dizendo:
– Saudemos o nosso caro amigo que Paris receberá...
Em derredor do paquete, lanchas, malas, cargas, imprecações, gente querendo empurrar as
bagagens, carregadores, assobios, um brouhaha formidável.
Um cavalheiro cheio de brilhantes, no portaló, perguntou-me se eu não vira a Lola. Desci, meti-
me num bote, fiz dar a volta para ver mais uma vez aquela morte lenta entre os pesos. A tarde
caíra completamente. Ritmados pelo arrastar das correntes, os quatro homens, dirigidos do
convés do steamer, carregavam, tiravam sempre de dentro do saveiro mais sacas, sempre
sacas, com as mãos disformes, as unhas roxas, suando, arrebentando de fadiga.
Um deles, porém, rapaz, quando o meu bote passava por perto do saveiro, curvou-se, com a
fisionomia angustiada, golfando sangue.
– Oh! diabo! fez o outro, voltando-se. O José que não pode mais!
A Fome Negra
De madrugada, escuro ainda, ouviu-se o sinal de acordar. Raros ergueram-se. Tinha havido
serão até a meia-noite. Então, o feitor, um homem magro, corcovado, de tamancos e beiços
finos, o feitor, que ganha duzentos mil réis e acha a vida um paraíso, o sr. Correia, entrou pelo
barracão onde a manada de homens dormia com a roupa suja e ainda empapada do suor da
noite passada.
– Eh! lá! rapazes, acorda! Quem não quiser, roda. Eh lá! Fora!
Houve um rebuliço na furna sem ar. Uns sacudiam os outros amedrontados, com os olhos a
brilhar na face cor de ferrugem; outros, prostrados, nada ouviam, com a boca aberta, babando.
– Ó João, olha o café.
– Olha o café e olha o trabalho! Ai, raios me partam! Era capaz de dormir até amanhã.
Mas, na luz incerta daquele quadrilátero, eles levantavam-se, impelidos pela necessidade
como as feras de uma ménagerie ao chicote do domador. Não lavaram o rosto, não
descansaram. Ainda estremunhados, sorviam uma água quente, da cor do que lhes
impregnava a pele, partindo o pão com escaras da mesma fuligem metálica, e poucos eram os
que se sentavam, com as pernas em compasso, tristes.
Estávamos na ilha da Conceição, no trecho hoje denominado – a Fome Negra. Há ali um grande
depósito de manganês e, do outro lado da pedreira que separa a ilha, um depósito de carvão.
Defronte, a algumas braçadas de remo, fica a Ponta da Areia com a Cantareira, as obras do
porto fechando um largo trecho coalhado de barcos. Para além, no mar tranqüilo, outras ilhas
surgem, onde o trabalho escorcha e esmaga centenas de homens.
Logo depois do café, os pobres seres saem do barracão e vão para a parte norte da ilha, onde a
pedreira refulge. grandes pilhas de blocos de manganês e montes de piquiri em pó, em
lascas finas. No solo, coberto de uma poeira negra com reflexos de bronze, rails para
conduzir os vagonetes do minério até ao lugar da descarga. O manganês, que a lnglaterra cada
vez mais compra ao Brasil, vem de Minas até à Marítima em estrada de ferro; daí é conduzido
em batelões e saveiros até às ilhas Bárbaras e da Conceição, onde fica em depósito.
Quando chega vapor, de novo removem o pedregulho para os saveiros e de lá para o porão dos
navios. Esse trabalho é contínuo, não tem descanso. Os depósitos cheios, sem trabalho de
carga para os navios, os trabalhadores atiram-se à pedreira, à rocha viva. Trabalha-se dez horas
por dia com pequenos intervalos para as refeições, e ganha-se cinco mil réis. Há, além disso, o
desconto da comida, do barracão onde dormem, mil e quinhentos; de modo que o ordenado da
totalidade é de oito mil réis, Os homens gananciosos aproveitam então o serviço da noite, que é
pago até de manhã por três mil e quinhentos e até meia-noite pela metade disso, tendo
naturalmente, o desconto do pão, da carne e do café servido durante o labor,
É uma espécie de gente essa que serve às descargas do carvão e do minério e povoa as ilhas
industriais de baía, seres embrutecidos, apanhados a dedo, incapazes de ter idéias. São quase
todos portugueses e espanhóis que chegam da aldeia, ingênuos. Alguns saltam da proa do
navio para o saveiro do trabalho tremendo, outros aparecem pela Marítima sem saber o que
fazer e são arrebanhados pelos agentes. têm um instinto: juntar dinheiro, a ambição voraz
que os arrebenta de encontro às pedras inutilmente. Uma vez apanhados pelo mecanismo de
aços, ferros e carne humana, uma vez utensílio apropriado ao andamento da máquina, tornam-
se autômatos com a teimosia de objetos movidos a vapor. Não têm nervos, têm molas; não têm
cérebros, têm músculos hipertrofiados. O superintende do serviço berra, de vez em quando:
Isto é para quem quer! Tudo aqui é livre! As coisas estão muito ruins, sujeitemo-nos. Quem
não quiser é livre!
Eles vieram de uma vida de geórgicas paupérrimas. Têm a saudade das vinhas, dos pratos
suaves, o pavor de voltar pobres e, o que é mais, ignoram absolutamente a cidade, o Rio;
limitam o Brasil às ilhas do trabalho, quando muito aos recantos primitivos de Niterói.
homens que, anos depois de desembarcar, nunca pisaram no Rio e outros que, quase uma
existência na ilha, voltaram para a terra com algum dinheiro e a certeza da morte.
Vivem quase nus. No máximo, uma calça em frangalhos e camisa de meia. Os seus
conhecimentos reduzem-se à marreta, à pá, ao dinheiro; o dinheiro que a levanta para o
bem-estar dos capitalistas poderosos; o dinheiro, que os recurva em esforços desesperados,
lavados de suor, para que os patrões tenham carros e bem-estar. Dias inteiros de bote,
estudando a engrenagem dessa vida esfalfante, saltando nos paióis ardentes navios e nas ilhas
inúmeras, esses pobres entes fizeram-me pensar num pesadelo de Wells, a realidade da
História dos Tempos Futuros, o pobre a trabalhar para os sindicatos, máquina incapaz de poder
viver de outro modo, aproveitada e esgotada. Quando um deles é despedido, com a lenta
preparação das palavras sórdidas dos feitores, sente um tão grande vácuo, vê-se de tal forma
só, que vai rogar outra vez para que o admitam.
À proporção que eu os interrogava e o sol acendia labaredas por toda a ilha, a minha
sentimentalidade ia fenecendo. Parte dos trabalhadores atirou-se à pedreira, rebentando as
pedras. As marretas caíam descompassadamente em retintins metálicos nos blocos enormes.
Os outros perdiam-se nas rumas de manganês, agarrando os pedregulhos pesados com as
mãos. As pás raspavam o chão, o piquiri caía pesadamente nos vagonetes, outros puxavam-nos
até a beira d’água, onde as tinas de bronze os esvaziavam nos saveiros.
Durante horas, esse trabalho continuou com uma regularidade alucinante. Não se distinguiam
bem os seres das pedras do manganês: o raspar das pás replicava ao bater das marretas, e
ninguém conversava, ninguém falava! A certa hora do dia veio a comida. Atiraram-se aos pratos
de folha, onde, em água quente, boiavam vagas batatas e vagos pedaços de carne, e um
momento só se ouviu o sôfrego sorver e o mastigar esfomeado.
Acerquei-me de um rapaz.
– O teu nome?
– O meu nome para quê? Não digo a ninguém.
Era a desconfiança incutida pelo gerente, que passeava ao lado, abrindo a chaga do lábio num
sorriso sórdido.
– Que tal achas a sopa?
Bem boa. Cá uma pessoa come. O corpo está acostumado, tem três pães por dia e três vezes
por semana bacalhau.
Engasgou-se com um osso. Meteu a o na goela e eu vi que essa negra mão rebentava em
sangue, rachava, porejando um líquido amarelado.
– Estás ferido?
– É do trabalho. As mãos racham. Eu estou só há três meses. Ainda não acostumei.
– Vais ficar rico?
Os seus olhos brilhavam de ódio, um ódio de escravo e de animal sovado.
Até nem chegam os baús para guardar o ouro. Depois, numa franqueza: ganha-se uma
miséria. O trabalho faz-se, o mestre diz que não há...Mas, o dinheiro mal chega, homem, vai-se
todo no vinho que se manda buscar.
Era horrendo. Fui para outro e ofereci-lhe uma moeda de prata.
– Isso é para mim?
– E, mas se falares a verdade.
– Ai! que falo, meu senhor...
Tinha um olhar verde, perturbado, um olhar de vício secreto.
– Há quanto tempo aqui?
– Vai para dois anos.
– E a cidade não conheces?
– Nunca lá fui, que a perdição anda pelos ares..
Este também se queixa da falta de dinheiro porque manda buscar sempre outro almoço. Quanto
ao trabalho, estão convencidos que neste país não melhor. Vieram para ganhar dinheiro, é
preciso ou morrer ou fazer fortuna. Enquanto falavam, olhavam de soslaio para o Correia e o
Correia torcia o cigarro, à espreita, arrastando os sacos no pó carbonífero.
Deixe que tratar do meu serviço, segredavam eles quando o feitor se aproximava. Ai! que
não me adianta nada estar a contar-lhe a minha vida.
O trabalho recomeçou. O Correia, cozido ao sol, bamboleava a perna, feliz. Como a vida é
banal! Esse Correia é um tipo que existe desde que na sociedade organizada há o intermediário
entre o patrão e o servo, Existirá eternamente, vivendo de migalhas de autoridade contra a vida
e independência dos companheiros de classe.
Às 2 horas da tarde, nessa ilha negra, onde se armazenam o carvão, o manganês e a pedra, o
sol queimava. Vinha do mar, como infestado de luz, um sopro de brasa; ao longe, nas outras
ilhas, o trabalho curvava centenas de corpos, a pele ardia, os pobres homens encobreados, com
olhos injetados, esfalfavam-se, e mestre Correia, dançarinando o seu passinho:
Vamos gente! Eh! nada de perder tempo. V. S
a
não imagina. Ninguém os prende e a ilha está
cheia. Vida boa!
Foram assim até a tarde, parando minutos para logo continuar. Quando escureceu de todo,
acenderam-se as candeias e a cena deu no macabro.
Do alto, o céu coruscava, incrustado de estrelas, um vento glacial passava, fogo-fatuando a
chama tênue das candeias e, na sombra, sombras vagas, de olhar incendido, raspavam o ferro,
arrancando da alma gemidos de esforço. Como se estivesse junto do cabo e um batelão
largasse saltei nele com um punhado de homens.
Íamos a um vapor que partia de madrugada. No mar, a treva mais intensa envolvia o steamer,
um transporte inglês com a carga especial do minério. O comandante fora ao Casino; alguns
boys pouco limpos pendiam da murada com um cozinheiro chinês, de óculos. Uma luz mortiça
iluminava o convés. Tudo parecia dormir. O batelão, porém, atracava, fincavam-se as candeias;
quatro homens ficavam de um lado, quatro de outro, dirigidos um preto que corria pelas bordas
do barco, de tamancos, dando gritos guturais. Os homens nus, suando apesar do vento,
começavam a encher enormes tinas de bronze que o braço de ferro levantava num barulho de
trovoada, despejava, deixava cair outra vez.
Entre a subida e a descida da tina fatal, eu os ouvia:
– O minério! É o mais pesado de todos os trabalhos. Cada pedra pesa quilos. Depois de se lidar
algum tempo com isso, sentem-se os pés e as mãos frios; e o sangue, quando a gente se corta,
aparece amarelo... É a morte.
– De que nacionalidade são vocês?
– Portugueses... Na ilha há poucos espanhóis e homens de cor. Somos nós os fortes.
O fraco, deviam dizer; o fraco dessa lenta agonia de rapazes, de velhos, de pais de famílias
numerosas.
Para os contentar, perguntei:
– Por que não pedem a diminuição das horas de trabalho?
As pás caíram bruscas. Alguns não compreendiam, outros tinham um risinho de descrença:
– Para que, se quase todos se sujeitam?
Mas, um homem de barbas ruivas, tisnado e velho, trepou pelo monte de pedras e estendeu as
mãos:
– Há de chegar o dia, o grande dia!
E rebentou como um doido, aos soluços, diante dos companheiros atônitos.
Sono Calmo
Os delegados de polícia são de vez em quando uns homens amáveis. Esses cavalheiros
chegam mesmo, ao cabo de certo tempo, a conhecer um pouco da sua profissão e um pouco do
trágico horror que a miséria tece na sombra da noite por essa misteriosa cidade. Um delegado,
outro dia, conversando dos aspectos sórdidos do Rio, teve a amabilidade de dizer:
– Quer vir comigo visitar esses círculos infernais?
Não sei se o delegado quis dar-me apenas a nota mundana de visitar a miséria, ou se
realmente, como Virgílio, o seu desejo era guiar-me através de uns tantos círculos de pavor, que
fossem outros tantos ensinamentos. Lembrei-me que Oscar Wilde também visitara as
hospedarias de má fama e que Jean Lorrain se fazia passar aos olhos dos ingênuos como tendo
acompanhado os grão-duques russos nas peregrinações perigosas que Goron guiava.
Era tudo quanto de mais literário e de mais batido. Nas peças francesas dez anos
aparece o jornalista que conduz a gente chique aos lugares macabros; em Paris os repórteres
do Journal andam acompanhados de um apache autêntico. Eu repetiria apenas um gesto que
era quase uma lei. Aceitei.
À hora da noite quando cheguei à delegacia, a autoridade ordenara uma caça aos pivettes,
pobres garotos sem teto, e preparava-se para a excursão com dois amigos, um bacharel e um
adido de legação, tagarela e ingênuo.
O bacharel estava comovido. O adido assegurava que a miséria na Europa porque a
miséria é proporcional à civilização. Ambos de casaca davam ao reles interior do posto um
aspecto estranho. O delegado sorria, preparando com o interesse de um maítre-hôtel o cardápio
das nossas sensações.
Afinal ergueu a bengala.
– Em marcha!
Descemos todos, acompanhados de um cabo de policia e de dois agentes secretos um dos
quais zanaga, com o rosto grosso de calabrês. É perigoso entrar nos covis horrendos, nos
trágicos asilos da miséria. Íamos caminhando pela Rua da Misericórdia, hesitantes ainda diante
das lanternas com vidros vermelhos. Às esquinas, grupos de vagabundos e desordeiros
desapareciam ao nosso apontar e, afundando o olhar pelos becos estreitos em que a rua parece
vazar a sua imundície, por aquela rede de becos, víamos outras lanternas em forma de foice,
alumiando portas equívocas. Havia casas de um pavimento só, de dois, de três; negras,
fechadas, hermeticamente fechadas, pegadas uma à outra, fronteiras, confundindo a luz das
lanternas e a sombra dos balcões. Os nossos passos ressoavam num desencontro nos lajedos
quebrados. A rua, mal iluminada, tinha candeeiros quebrados, sem a capa Auer, de modo que a
brancura de uns focos envermelhecia mais a chama pisca dos outros. Os prédios antigos
pareciam ampararem-se mutuamente, com as fachadas esborcinadas, arrebentadas algumas.
De repente porta abria, tragando, num som cavo, algum retardatário.
Trechos inteiros da calçada, imersos na escuridão, encobrian cafajestes de bombacha branca,
gingando, e constantemente o monótono apito do guarda noturno trilava, corria como um arrepio
na artéria do susto para logo outro responder mais longe e mais longe ainda outro ecoar o seu
áspero trilo. No alto, o céu era misericordiosamente estrelado e uma doce tranqüilidade parecia
escorrer do infinito.
– Há muitos desses covis espalhados pela cidade? indagou advogado, abotoando o mac-
farlane.
– Em todas as zonas, meu caro.
Em cinco noites, visitando-os depressa, informou o agente, V. S
a
não cabo deles. É por
aqui, pela Gamboa, nas ruas centrais, nos bairros pobres. Só na Cidade Nova, que quantidade!
Issoo contando as casas particulares, em que moram vinte e mais pessoas, e não querendo
falar das hospedarias só de gatunos, os "zungas".
– "Zungas"? fez o adido de legação, curioso.
– As hospedarias baratas têm esse nome...Dorme-se até por cem réis. Saiba V. S
a
que a vídinha
dava para uma história.
Mas debaixo de uma das foices de luz, o delegado parara. Estacamos também.
O soldado bateu à porta com a mão espalmada. Houve um longo silêncio. O soldado tornou a
bater. De dentro então uma voz sonolenta indagou:
– Quem é?
– Abra! É a polícia! Abra!
O silêncio continuou. Nervoso, o delegado atirou a bengala à porta.
– Abra já! É o dr. delegado! Abra já!
A porta abriu-se. Barafustamos na meia-luz de um corredor com areia no soalho. O homem que
viera abrir, corpulento, de camisa de meia, esfregou os olhos, deu força ao bico de gás,
encostou-se à mesa forrada de jornais, onde se alinhavam castiçais.
– É o proprietário? indagou o delegado.
– Saiba V. S
a
que não. Sou o encarregado.
– Muita gente?
– Não há mais lugares.
– Deixe ver o livro.
O livro é uma formalidade cômica. A autoridade virou-lhe as páginas, rápido, enquanto os
secretas descansavam as bengalas. O mau cheiro era intenso.
– Mostre-nos isso! fez a autoridade, minutos depois.
– Não há acusação contra a casa, há sr. doutor?
– Não sei, ande.
O encarregado, trêmulo, seguiu à frente, erguendo o castiçal. Abriu uma porta de ferro, fechou-a
de novo, após a nossa passagem. E começamos a ver o rés-do-chão, salas com camas
enfileiradas como nos quartéis, tarimbas com lençóis encardidos, em que dormiam de beiço
aberto, babando, marinheiros, soldados, trabalhadores de face barbuda. Uns cobriam-se até o
pescoço. Outros espapaçavam-se completamente nus.
A mando da autoridade superior, os agentes chegavam a vela bem perto das caras, passavam a
luz por baixo das camas, sacudiam os homens do pesado dormir. Não havia surpresa. Os
pobres entes acordavam e respondiam, quase a roncar outra vez, a razão por que estavam ali,
lamentavelmente. O bacharel estava varado, o adido tinha um ar desprendido. Não tivesse ele
visitado a miséria de Londres e principalmente a de Paris! O delegado, entretanto, gozava
aquele espetáculo.
– Subamos! murmurou.
Trepamos todos por uma escada íngreme. O mau cheiro aumentava. Parecia que o ar rareava,
e, parando um instante, ouvimos a respiração de todo aquele mundo como o afastado resfolegar
de uma grande máquina. Era a seção dos quartos reservados e a sala das esteiras. Os quartos
estreitos, asfixiantes, com camas largas antigas e lençóis por onde corriam percevejos. A
respiração tornava-se difícil.
Quando as camas rangiam muito e custavam a abrir, o agente mais forte empurrava a porta, e, à
luz da vela, encontrávamos quatro e cinco criaturas, emborcadas, suando, de língua de fora;
homens furiosos, cobrindo com o lençol a nudez, mulheres tapando o rosto, marinheiros "que
haviam perdido o bote", um mundo vário e sombrio, gargulejando desculpas, com a garganta
seca. Alguns desses quartos, as dormidas de luxo, tinham entrada pela sala das esteiras, em
que se dorme por oitocentos réis, e essas quatro paredes impressionavam como um pesadelo.
Completamente nua, a sala podia conter trinta pessoas, à vontade, e tinha pelo menos oitenta
nas velhas esteiras atiradas ao soalho.
Os fregueses dormiam todos uns de barriga para o ar, outros de costas, com o lábio no chão
negro, outros de lado, recurvados como arcos de pipa. Estavam alguns vestidos. A maioria
inteiramente nua, fizera dos andrajos travesseiros. Erguendo a vela, o encarregado explicava
que ali o pessoal estava muito bem, e no palor em halo da luz que ele erguia, eu via pés
disformes, mãos de dedos recurvos, troncos suarentos, cabeças numa estranha lassidão
galeria trágica de cabeças embrutecidas, congestas, bufando de boca aberta... De vez em
quando um braço erguia-se no espaço, tombava; faces, em que mais de perto o raio de luz
batia, tinham tremores súbitos – e todos roncavam, afogados em sono.
Um dos agentes sacudiu um rapazola.
– Hein? Já quatro horas? fez o rapaz acordando.
– Que faz aqui?
Espero a hora do bote para a ilha. Sou carvoeiro, sim senhor... Ai! minha mãe! Vão levar-me
preso!
Subitamente, porém, apalpou as algibeiras, olhou-nos ansioso. Tinha sido roubado! Houve um
rebuliço. Como por encanto, homens, havia ainda minutos, a dormir profundamente, acordavam-
se. O sr. delegado, alteando a voz, deu ordem para não deixar sair ninguém sem ser revistado.
O encarregado, com perdão do sr. delegado e das outras senhorias, descompunha o pequeno.
Trouxe dinheiro, maricas? não lhe tenho dito que entregue? É possível ter confiança
nesta súcia. E a minha casa agora, e eu? Besta de uma figa, que não sei onde estou...
Os agentes faziam levantar a canalha, arreliada com o incidente e na luz vaga os perfis
patibulares emergiam com gestos cínicos de espreguiçamento.
Tanto o bacharel como o adido mostravam na face um leve susto. O delegado contemplava-os.
– Que lhes dizia eu? Uma sensação, meus caros, admirável. Subamos ao último andar!
Havia com efeito mais um andar, mas quase não se podia chegar, estando a escada cheia de
corpos, gente enfiada em trapos, se estirava nos degraus, gente que se agarrava aos balaústres
do corrimão mulheres receosas da promiscuidade , de saias enrodilhadas. Os agentes abriam
caminho, acordando a canalha com a ponta dos cacetes. Eu tapava o nariz. A atmosfera
sufocava. Mais um pavimento e arrebentaríamos. Parecia que todas as respirações subiam,
envenenando as escada e o cheiro, o fedor, um fedor fulminante, impregnava-se nas nossas
próprias mãos, desprendia-se das paredes, do assoalho carcomido, do teto, dos corpos sem
limpeza. Em cima, então, era a vertigem. A sala estava cheia. não havia divisões, tabiques,
não se podia andar sem esmagar um corpo vivo. A metade daquele gado humano trabalhava;
rebentava nas descargas dos vapores, enchendo paióis de carvão, carregando fardos. Mais uma
hora e acordaria para esperar no cais os batelões que a levassem ao cepo do labor, em que
empedra o cérebro e rebenta os músculos.
Grande parte desses pobres entes fora atirada ali, no esconderijo daquele covil, pela falta de
fortuna. Para se livrar da polícia, dormiam sem ar, sufocados, na mais repugnante
promiscuidade. E eu, o adido, o bacharel, o delegado amável estávamos a gozar dessa gente o
doloroso espetáculo!
Não se emocione, disse o delegado. por aqui gatunos, assassinos, e coisas ainda mais
nojentas.
Desci. Doíam-me as têmporas. Era impossível o cheiro de todo aquele entulho humano. O adido
precipitou-se também e os outros o seguiram. Embaixo, a vistoria aos fregueses não dera
resultado. O encarregado ainda gritava e o cabo estava nervoso, tendo dado alguns murros.
O dr. delegado teve uma última idéia – a visão de uma cena ainda mais cruel.
– Vamos ver os fundos!
Foi aí então que vimos o sofrer inconsciente e o último grau da miséria. O hospedeiro torpe dizia
que por ali dormiam alguns de favor, mas pelo corredor estreito, em derredor da sentina, no
trecho do quintal, cheio de trapos e de lama, nas lajes, os mendigos, faces escaveiradas e
sujas, acordavam num clamor erguendo as os para o ar. E de tal forma a treva se ligava a
esses espectros da vida que o quadro parecia formar um todo homogêneo e irreal.
– Tudo grátis aos desgraçadinhos, sibilava o homem musculoso.
Curvei-me, perto da latrina. Era uma velha embiocada num capuz preto.
– Quanto pagou v., minha velha?
– O que tinha, filho, o que tinha, dois tostões...
Dei-lhe qualquer coisa, e mais íntima, esticando o pescoço, ela indagou, trêmula:
– Por que será tudo isso? Vão levar-nos presos?
Mas o delegado saíra com os seus convidados. À porta o encarregado esperava. Saí. A
escuridão afogava os prédios, encapuchava os combustores, alongava a rua. Não se sabia onde
acabara o pesadelo, onde começara a realidade.
– Basta, dizia o adido, basta. Já tenho uma dose suficiente.
– Também é tudo a mesma coisa. É ver uma, é ver todas.
– E quem diria? concluiu o bacharel, até então mudo.
Neste momento ouviu-se o grito de pega! Um garoto corria. O cabo precipitou-se.
outros dois soldados vinham em disparada. Era a caçada aos garotos, a "canoa". A "canoa"
vinha perto. Tinham pegado uns vinte vagabundos, e pela calçada, presos, seguidos de
soldados, via-se, como uma serpente macabra, desenrolar-se a série de miseráveis trêmulos de
pavor.
Canalhas! bradou o dr. delegado. E ainda se queixam que os mande prender para dormir na
estação!
– Nós devíamos ter asilos, instruiu o adido.
É verdade, os asilos, a higiene, a limpeza. Tudo isso é bonito. Havemos de ter. Por enquanto
nosso Senhor, lá em cima, que olhe por eles!
As suas mãos, maquinalmente esticaram-se, e os nossos olhos acompanhando aquele gesto
elegante de ceticismo mundano, deram no céu, recamado de ouro. Todas as estrelas
palpitavam, por cima da casaria estendia-se uma poeira de ouro. Naquela chaga incurável,
chaga lamentável da cidade, a luz gotejava do infinito como um bálsamo.
As Mulheres Mendigas
A mendicidade é a exploração mais regular, mais tranqüila desta cidade. Pedir, exclusivamente
pedir, sem ambição aparente e sem vergonha, assim à beira da estrada da vida, parece o mais
rendoso ofício de quantos tenham aparecido; e a própria miséria, no que ela tem de doloroso e
de pungente, sofre com essa exploração.
É preciso estudar a sociedade complicada e diversa dos que pedem esmola, adivinhar até onde
vai a verdade e até onde chega a malandrice, para compreender como a polícia descura o
agasalho da invalidez e a toleima incauta dos que dão esmolas.
Entre os homens mendigos irmãos da opa, agentes de depravação viciados, profissionais de
doenças falsas, mascarando um formidável cenário de dores e de aniquilamento. depois de
um longo convívio é que se pode assistir à iniciação da maçonaria dos miseráveis, os estudos
de extorsão pelo rogo, toda a tática lenta do pedido em nome de Deus que, às vezes, acaba em
pancada. Os homens exploradores não tem brio. As mulheres, quando são realmente
desgraçadas é que não mentem e não fantasiam. São, entretanto, as mais incríveis.
Foi Pietro Mazzoli, um mendigo cínico, que pára sempre no Largo do Capim, quem me apontou
o meio diverso da mendicidade das mulheres. Pietro é baixo, reforçado, corado. Puxa sempre a
suiça potente, com o minúsculo chapeuzinho posto ao lado, sobre a juba enorme e cheia de
lêndeas. É mendigo por desfastio e comodidade. Soldado, fugiu do serviço militar como criado
de bordo. Em Buenos Aires fez-se inculcador de casas suspeitas, porteiro do mesmo gênero,
caften, barítono de café cantante, preso. No Rio, sendo-lhe habitual a prisão, foi cego, torto
das pernas, aleijado de carrinho, corcunda, maneta, atacado do mal de S. Guido. É o Frégoli da
miséria. Antes de se estabelecer mendigo, andou pelo Estado do Rio fazendo dançar um urso
que era um companheiro de malandragens. Essa pilhéria do urso nada autêntico valeu-lhe uma
sova e três anos de prisão. Homem de tal jaez conhece todos os truques, a falsa miséria e a
verdadeira, a exploração e a dor sentida. É ele quem nos inicia.
mendigas burguesas, mendigas mães de família, alugadas, dirigidas por caftens, cegas que
vêem admiravelmente bem, chaguentas lépidas, cartomantes ambulantes, vagabundas, e uma
série de mulheres perdidas cuja estrela escureceu na mais aflitiva desgraça.
Nos pontos dos bondes, pelas ruas, guiadas sempre por crianças de faces inexpressivas, vemos
tristes criaturas com as mãos estendidas, mastigando desejos para a nossa salvação, com a
ajuda de Deus
Há a Antônia Maria, a Zulmira, a viúva Justina, a d. Ambrosina, a excelente e anafada tia Josefa;
umas magras, amparadas aos bordões, chorando humildades; outras gordas, movendo a mole
do corpo com tremidinhos de creme. Às portas das igrejas param, indagam quem entra, a ver se
a missa é de gente rica; postam-se nas escadarias, agachadas, salmodiando funerariamente,
olhando com rancor os mendigos negros roídos de alcoolismo, velhos a tremer de sífilis. A
lista dessas senhoras é interminável, e entre elas, negócios à parte, uma interessante
sociabilidade. Cada uma tem o seu bairro a explorar, a sua igreja, o seu ponto livre de
incômodos imprevistos. Quando aparece alguma neófita, olham-na furiosas e martirizam-na
como nas escolas aos estudantes calouros.
Têm, naturalmente, uma vida regrada a cronômetro suíço, criaturas tão convencidas do seu
ofício. Saem de casa às 6 da manhã, ouvem missa devotamente porque acreditam em Deus e
usam ao peito medalhinhas de santos.
Depois, postam-se à porta até que a última missa tenha dado a receita suficiente às várias
dependências do templo, vão almoçar e começam a peregrinação pelos bondes, de porta em
porta, até à hora de jantar. Uma, a Isabel Ferreira, cabocla esguia e má, pede à noite e confessa
que isso dá uma nota mais lúgubre, mais emocionante ao pedido.
Ao passar por essa gente sentem todos o fraco egoísmo da bondade e, cinco ou seis dias
depois de as conversar, percebe-se que esmolar é apenas uma profissão menos fatigante que
coser ou lavar e sem responsabilidades, na sombra, na pândega. A maior parte dessas
senhoras não tem moléstia alguma; sustenta a casa arrumadinha, canja aos domingos, fatiotas
novas para os grandes dias. São, ou dizem-se, quase sempre viúvas.
Algumas, embrulhadas em xales pretos, acompanhadas de dois ou três petizes, as mais das
vezes alugados como uma certa mulher cor de cera, chamada Rosa percorrem os
estabelecimentos comerciais, ou lugares de agitação; sobem às redações dos jornais, forçando
a esmola, agarrando, implorando. A d. Rosa, para dizer o seu nome e a inaudita felicidade da
vida numa rede de mentiras, arrancou-me cinco mil réis, com precipitação, arte e destreza tais
que, quando dei por mim, ia longe com os petizes e a nota.
Não uma só cuja coleta diária seja menor de dez mil réis, e, cada qual pede a seu modo,
invadindo até as sacristias das igrejas. A Francisca Soares, da igreja de S. Francisco, envolta
em uma mantilha de velho merinó, começa sempre louvando os irmãos benfeitores pintados
pelo sr. Petit.
Que retratos! Estão tal qual, certinhos! Depois, pergunta-nos se não temos coupons de volta dos
bondes, arrisca-se a implorar o tostão em troca do coupon e, quando a moeda, fala mais do
sr. Petit e acha pouco. Outras, dotadas de grande vocação dramática, sussurram, com a face
decomposta, a angústia de um irmão morto em casa, sem dinheiro para o caixão. O resto, sem
inventiva, macaqueia o multiformismo da invalidez, rezando.
A esmola, apesar da crise econômica que os jornais proclamam, subiu. Não há quem moeda
de cobre a um mendigo sem o temor de desgostá-lo ou de levar uma descompostura cheia de
pragas, que nessas bocas repuxadas causam uma dolorosa impressão de dor e de
confrangimento.
Logo de manhã, quando nas torres os sinos tangem, a tropa sobe para a igreja.
– Bom dia, d. Guilhermina.
– Bom dia, d. Antônia. Como vai dos seus incômodos?
– O reumatismo não me deixa. É desta laje fria.
– Que se há de fazer? É a vontade de Deus. Então, hoje, missas boas?
Li no jornal: às nove e meia a do general... Mas, não contemos. Os ricaços estão cada vez
mais sovinas.
Aconchegam-se, tomam posição e, pouco depois, os níqueis começam a cair e as vozes de
dentro dos xales a sussurrar:
– Deus vos acompanhe! Deus lhe pague! Deus lhe dê um bom fim!
até certos lugares rendosos que são vendidos como as cadeiras de engraxate e os fauteuils
de teatro.
As mendigas alugadas são em geral raparigas com disposições lamurientas, velhas cabulosas
aproveitadas pelos agentes da falsa mendicidade, com ordenado fixo e porcentagem sobre a
receita. Encontrei duas moças – uma de Minas, outra da Bahia – Albertina e Josefa, e um bando
de velhas nesse emprego. As raparigas são uma espécie de pupilas da sra. Genoveva que mora
na Gamboa. Josefa, picada de bexiga, espera o meio de se ver fora do jugo; Albertina, tísica,
tossindo e escarrando, apresenta um atestado que a dá por mãe de três filhos.
O atestado é, de resto, um dos meios de embaçamento público.
Certo caften, morador nos subúrbios, chamado Alfredo, tem por sua conta um par de raparigas
a Jovita italiana, e a parda Maria. A Jovita foi, a princípio, criada; fugiu com um rapaz,
abandonou-o e caiu na exploração da mendicidade com o sr. Alfredo. Maria é a história de
Jovita, um pouco mais escurecida. Ambas têm atestado em bela letra, dizendo as graças que
lhes vão por casa e o cadáver à espera do caixão.
Como Jovita é bonita, os subscritores são tão numerosos que pode fazer, sem cuidado, alguns
enterramentos por semana. As 7 da noite, tomam as duas o trem na Central e quando se
sentem seguidas, saltam em estações diferentes, metem-se nos bondes tudo isso muito
alegres e defendendo o sr. Alfredo com grande dedicação.
O gênero é relativamente agradável, à vista dos outros o das vagabundas ladras e das
pitonisas ambulantes, grupo de que são figuras principais as sras. Concha e Natividad,
espanholas, e a sra. Eulália cigana exótica. A sra. Concha, por exemplo, é cleptômana, e,
dessa tara lhe vem a profissão da tara e da inépcia policial. Quando cocotte, Concha teve
amantes ricos e roubava-lhes o relógio, os lenços, os alfinetes, por diversão.
Foi presa por um inglês sisudo, e partiu para Lisboa onde repetiu a cena tantas vezes que aos
poucos se viu na necessidade de voltar ao Brasil como criada. Roubou de novo, foi outra vez
presa e resolveu ser cartomante andarilha, ler a buena dicha pelos bairros pobres, pelas
estalagens, para roubar. É gordinha, anda arrimada a um cacete, fingindo ter úlceras nas
pernas. Aproxima-se, pede a esmola como quem pergunta se as coisas vão mal.
– Deus a favoreça!
– Você tem cara de ser feliz! Vamos ver a suerte del barajo.
E tira do seio um maço de cartas. Quem nestas épocas dispersivas crenças, deixará de saber
da própria sorte? Mandam-na entrar e ela conta histórias às famílias enquanto empalma objetos
e alguns níqueis agradecidos.
Natividad e Eulália seguem o mesmo processo, mas Eulália, aduncamente cigana, nas mãos
deformadas e calosas dos trabalhadores, enquanto as suas apalpam os bolsos do cliente.
Do fundo desse emaranhamento de vício, de malandragem, gatunice, as mulheres realmente
miseráveis são em muito maior número que se pensa, criaturas que rolaram por todas as
infâmias e não sentem, não pensam, despidas da graça e do pudor. Para estas basta um
pão enlameado e um níquel; basta um copo de álcool para as ver taramelar, recordando a
existência passada.
Vivem nas praças, no Campo da Aclamação; dormem nos morros, nos subúrbios, passam à
beira dos quiosques, na Saúde, em S. Diogo, nos grandes centros de multidões baixas,
apanhando as migalhas dos pobres e olhando com avidez o café das companheiras. Eu
encheria tiras de papel sem conta, só com o nome dessas desgraças a quem ninguém pergunta
o nome, senão nas estações, entre cachações de soldados e a pose pantafaçuda dos
inspetores; e seria um livro horrendo, aquele que contasse com a simples verdade todas as
vidas anônimas desses fantásticos seres de agonia e de miséria! Andam por aí ulceradas, sujas,
desgrenhadas, com as faces intumescidas e as bocas arrebentadas pelos socos, corridas a
varadas dos quiosques, vaiadas pela garotada. Nas noites de chuva, sob os açoites da ventania,
aconchegam-se pelos portais, metem-se pelos socavões, tiritando... Às vezes, para cúmulo de
desgraça, aparecem grávidas, sem saber como, à mercê da horda de vagabundos que as viola,
que as tortura, que as bate, sem lhes conceder ao menos a piedade do nojo; e os filhos morrem,
desaparecem, levados na tristura do seu soluçante existir, estrangulados, talvez, nos inúmeros
recantos que a milícia do nosso duplo policiamento ignora.
Acompanhado do cínico Mazzoli, ouvi-lhes as confissões inauditas. Pela noite alta, íamos os
dois para o Largo da Sé, para as beiradas da Santa Casa, e, diante de nós, esses semblantes
alanhados de sofrimento, os olhos em pranto, como um bando de espertos, desvendaram-nos
os paroxismos da vida antiga.
Eram amorosas exploradas, ardendo ainda em raiva passional, eram vítimas do caftismo
sentindo no lábio o freio de lenocínio, eram cocottes do chic, escalavradas de sífilis, na dor do
luxo passado, e velhas, velhas sem pecado, que a miséria, a ingratidão e a misteriosa fatalidade
desfaziam nos mais amargurados transes. Nunca os descabelados românticos imaginaram tão
torvos quadros.
Já quando se lhes pergunta o nome com bondade, a surpresa estala em choro.
Chamo-me Zoarda. Sou cubana. Vim para o Rio com um pelotari. Ao chegar aqui, outro
conquistou-me. Fui explorada por ambos. Eram bonitos, eram fortes! Adoeci; eles tomaram
outra. Quando saí do hospital só pensava em matá-la!
– A quem?
A ela, a outra. Fui, entretanto, presa e novamente segui para a Gamboa, onde cheguei a ser
enfermeira. Quando de lá saí, roída pela moléstia, estava este trapo à espera do Zé-Maria.
– O Zé-Maria?
– Sim, da morte!
Zoarda vive a fingir que tem barriga-d’água.
Josefina Veral, sim, senhor. Vim como criada. Um homem raptou-me; vivi com ele seis anos.
Entreguei-me à prostituição explorada por dois malandros. Roubavam-me, a moléstia acabou a
obra... Não posso trabalhar.
E de dentro de sua negra boca saem descrições satânicas da vida que a inutilizara.
Ema Rosnick, nascida em Budapeste em 1874. Fui enjeitada num corredor. Os moradores
levaram-me à polícia que cuidou de mim. Aos 18 anos casei com Rosnick, um debochado. Uma
vez atirou-me aos braços de um amigo, a quem matou depois por questões de jogo; vim para o
Brasil...Oh! os exploradores. Estou neste estado.
Esta mulher de trinta anos parece ter sessenta.
E outras e outras, floristas ainda moças, velhas que tiveram lar, mulheres passionais ou vítimas
do amor, como nas prosas byronianas de 1830, como nos dramalhões do Recreio, um mundo
de soluços, que, visto, ao nosso cepticismo parece falso.
Certa noite, no Largo da Sé, encontramos junto ao quiosque, cheia de latas velhas e coberta de
andrajos, uma cara de velha boneca aureolada de farripas louras. A cara sinistra falava francês.
Dá-me uma cigarreta, fez com o seu melhor sorriso. Turco? Il y a longtemps!... Oh! Oh! fuma
gianaclis?
Arredou as latas, puxou a traparia e os sacos com o ar de mímica Daynès Grassot.
– Afaste o mendigo, disse baixo, e para a soleira suja: Asseyez-vous. Vous êtes journaliste?
Eu vinha encontrar à espera dos restos de pão uma das mundanas do Alcazar; eu estava
falando com Françoise D’Albigny; a Fran, a levada Fran, que tivera carros e agora discorria, com
um arzinho postiço, da Suzane Castera, de um deputado do norte que ainda hoje figura na
Câmara, de um conhecido jornalista seu amigo!
Desgraças, mon petit! Tenho 65 anos. Casei, sabes, uma loucura! Casei com Maconi, que me
pôs neste estado!
Representando logo, o pobre trapo da luxúria elegante, bateu-me a caixa de cigarretas e
dinheiro, que com um sorriso atroz dizia ser para bonbons.
Eram dez horas da noite. O dono do quiosque fechava as persianas, apagando os bicos de gás.
E, vendo-a naquele gozo, na pantomima do prazer, berrou, de longe:
– Eh! lá, lambisgóia velha, se não te apressas não levas o pão!
Os que Começam...
Não decerto exploração mais dolorosa que a das crianças. Os homens, as mulheres ainda
pantomimam a miséria para lucro próprio. As crianças são lançadas no ofício torpe pelos pais,
por criaturas indignas, e crescem com o vício adaptando a curvilínea e acovardada alma da
mendicidade malandra. Nada mais pavoroso do que este meio em que adolescentes de
dezoito anos e pirralhos de três, garotos amarelos de um lustro de idade e moçoilas púberes
sujeitas a todas as passividades. Essa criançada parece não pensar e nunca ter tido vergonha,
amoldadas para o crime de amanhã, para a prostituição em grande escala. no Rio um
número considerável de pobrezinhos sacrificados, petizes que andam a guiar senhoras
falsamente cegas, punguistas sem proteção, paralíticos, amputados, escrofulosos, gatunos de
sacola, apanhadores de pontas de cigarros, crias de famílias necessitadas, simples vagabundos
à espera de complacências escabrosas, um mundo vário, o olhar de crime, o broto das árvores
que irão obumbrar as galerias da detenção, todo um exército de desbriados e de bandidos, de
prostitutas futuras, galopando pela cidade à cata do pão para os exploradores. Interrogados,
mentem a princípio, negando; depois exageram as falcatruas e acabam a chorar, contando que
são o sustento de uma súcia de criminosos que a polícia não persegue.
A metade desse bando conhece as leis do prefeito, os delegados de polícia e acompanha o
movimento da política indígena, oposicionista e vendo em cada homem importante uma
roubalheira. São em geral os mendigos claramente defeituosos a que falta uma perna, um
braço.
A perda que os tornou inválidos é uma espécie de felicidade, a indolência e o sustento
garantidos.
À beira das calçadas o dia inteiro têm tempo de se tornarem homens e de ler os jornais. Fazem
tudo isso com vagar. Quando um ponto se torna insustentável vão para outros, e entre eles
relações, morféias que se ligam às úlceras, olhos em pus que olham com ternura companheiros
sem braços, e todos guardando a data do desastre que os mutilou, que os fez entrar para a nova
vida com a saudade da vida passada.
Fui encontrar na ponte das barcas Ferry alguns de volta de Niterói. Vinham alegres, batendo
com as muletas, a sacolejar os fartos sacos, na tarde álgida. nessa tarde interroguei seis:
Francisco, antigo peralta da Saúde; Antônio, jovem de dezoito anos, que, graças à falta de uma
perna, trabalha desde os doze; Pedro, pardinho crispinhento, que ri como um suíno e é o
curador de uma senhora idosa; João Justino, sem um braço, e pequenos Felismino e Aurélio.
Voltavam de mendigar.
Francisco é atroz. Míope, com a cara cheia de sulcos, a boca enorme e sem dentes, fuma
cigarros empapados de saliva e tagarela sem descontinuar.
Qual! Niterói não nada. Às vezes tenho que pedir emprestado para voltar. O xará não
permite porém mendigo sem realejo. Eu sou fino. Vou para outro lugar.
– Quantas vezes estiveste na cadeia?
Eu? não senhor! nunca! É verdade que uma vez fui preso por um inspetor viciado... Mas não
estava fazendo nada. Também não me incomodo. Vou, torno a sair. E, sem transição: não
imagina as vezes que tenho sido pegado. O Dr. Paula Pessoa, quando era delegado, dizia:
para pegar essas inutilidades? E eu só esperando. Olhe – morrer de fome é que eu não morro.
– Então já estiveste preso?
Quantas vezes! É preferível a cadeia ao tal Asilo. Antônio é outro gênero, o gênero dulçoroso,
cheio de humildades açucaradas. Repete logo como uma nota policial o esmagamento da
perna. Foi a 11 de novembro de 1897, na esquina da Rua da Uruguaiana. Caiu às 2 e 20 da
tarde, quando passava o bonde chapa tanto.
E diz essas coisas vagamente magoado como se chorasse sem sentir. Mas mente, inventa
nomes, faz-me jurar que não lhe farei mal, entrega-se à minha proteção, de que depende a sua
vida, com uma detestável e beata hipocrisia. Era ajudante de pedreiro. Após o desastre
mandaram-no esmolar no Passeio Público. O pai é trabalhador, ganha quatro mil e quinhentos,
tem oito filhos e a mulher doente.
Ele ajuda com o dinheiro das esmolas. É um dos casos de formação de caráter, de inversão
moral. Adolescente, forte, musculosa, a permanência na mendicidade deu-lhe à voz melopéias
suspirosas e um recheio de votos pela sorte alheia. Não fala um segundo sem pedir a Deus que
nos ajude, sem agradecer em nome de Deus a nossa bondade.
– Ai! Nossa Senhora, juro por Deus que todo o desejo que tenho é trabalhar. .
Simples blague. Dêem-lhe um emprego e rejeitará, inutilizado pela vida de sarjeta, de desbrio,
de inconsciente sem-vergonhice a que o forçou o pai.
Esse bando, porém, é evidentemente defeituoso; ganha dinheiro, como se estivesse empregado
para sustentar a família. o outro, o maior, o infindável, que a polícia parece ignorar, a
exploração capaz de emocionar os delegados nos dramalhões, a indústria da esmola infantil
exercida por um grupo de matronas indignas e de homens criminosos, as criancinhas implumes,
piolhentas e sujas, que saem para a rua às varadas, obrigadas ao sustento de casas inteiras;
a exploração lenta, que ensina os pequenos a roubar e as meninas a se prostituirem; o caftismo
disfarçado, que espanca, maltrata e extorque. É um vasto tremedal a que a retórica sentimental
nada adianta, cujo mal a segurança pública não quer remediar. Basta ter a simples curiosidade
para mergulhar nesse caleidoscópio infinito de cenas torturantes de uma mesma ação, basta
parar a uma esquina e ouvir a narração dessas tragédias vulgares e de fácil remédio.
A série de meninas é enorme, desde as cínicas de face terrosa às ingênuas e lindas.
– Como se chama você?
– Elisinha, sim senhor.
É parda: tem nove anos.
Embrulhada nuns farrapos, a tremer com os beicinhos roxos e as mãos no ar, muito aflita,
parece que lhe vão bater. Mora na Rua Frei Caneca.
Não vai para a casa, não pode ir. A madrinha bate-lhe, tem o corpo cheio de equimoses.
– Quando não arranjo bastante para a madrinha e as filhas, dão-me sovas!
Destes casos muitos com diversas modalidades. Jovita, por exemplo, pede esmola com uma
bandeja dizendo que é missa pedida ou promessa feita. A mulher que a criou e a explora, a
terrível megera Maria Trapo Velho, mora na Rua São Diogo e dá-lhe conselhos de roubo.
Ela diz que, quando encontrar roupas ou outros objetos, meta no saco. Quando passo uma
semana sem levar nada, põe-me de castigo, com os joelhos em cima do milho e sem comer.
Rosinha mora na Rua Formosa. Sai acompanhando uma senhora que finge de cega. A mãe é
negra; ela é alva e todos ficam admirados!
Judite, com oito anos, moradora à Rua da Lapa, andava com o pai pelo subúrbio, tocando
realejo. O pai fingia-se de cego, e como um cidadão descobrisse a patifaria, é ela quem
esmola, atacando as senhoras, pedindo algum dinheiro para ae moribunda. Laura e Amélia,
filhas da senhora Josefina, têm um irmão que aprende o ofício de carpinteiro, moram na Rua da
Providência e passam o dia a arranjar dinheiro para a mamã mais o padrasto.
– E o padrasto, que faz?
– Dá pancada na gente quando não se anda direito.
Estela, mulatinha, vive com uma dama que se diz sua avó, na Rua Senador Eusébio. As vezes
fica até às dez horas da noite à porta da Central, esmolando. Nicota, moradora no Pedregulho,
tem treze anos e perigosa viveza de olhar. A puberdade, a languidez dos membros rijos dão-lhe
receitas grandes. É mandada pelo padrasto, um português chamado Jerônimo, que a industria.
Explora a miséria no jardim de Eros, fazendo tudo quanto a não prejudica definitivamente, à
porta dos quartéis, pelos bairros comerciais, ao escurecer. Confessa que vai abandonar o
Jerônimo pelo sargento Gomes, a quem ama. A lista não tem fim, é o mesmo fato com variantes
secundárias.
Se nessas crianças encontramos o abismo da perdição a tragá-las, nos pequenos vemos um
grande esboço de todos os crimes.
Em quatro dias interrogamos noventa e seis garotos, estrangeiros, negros, mulatos, uma
sociedade movediça e dolorosa. desde os pequenos que sustentam famílias até os gatunos
precoces que se deixam roubar na vermelhinha à beira do cais, entre murros e cachações.
O primeiro a encontrarmos é o negrinho Félix, morador à Rua do Costa, órfão, que vive na casa
de uma família. Como as coisas estão más, sai de sacola, a esmolar e a roubar. Já esteve preso
por apanhar várias amostras de uma loja, mas um moço da polícia, que gosta de uma das
meninas da casa, soltou-o.
– Que fazes hoje?
– Hoje tenho que roubar um queijo. Sinhazinha diz que não apareça sem um queijo.
Armando, petiz de dez anos, diz-se italiano por causa das dúvidas. Pára no Largo da e,
ingenuamente, conta que a família não faz comida três anos. É ele que arranja tudo, fora os
cobres. José Vizuvi, também italiano, é filho do conhecido mendigo Vizuvi. Sai da Rua do
Alcântara, onde mora, às 5 da manhã, à procura dos pães que os padeiros costumam deixar
nas janelas e à porta de certas casas. Quando a janela é alta serve-se de um pau em forma de
ferrão. O pai ensina-o a roubar. Dudu de Oliveira passa o dia no Mercado e nos bairros centrais.
A mãe, fingindo-se de cega, esmola no Largo do Machado. Ele leva recados suspeitos e propõe-
se a misteres ignóbeis.
João Silva, morador à Rua Senador Pompeu, com treze anos, também serve para esses
serviços pouco asseados. A mãe, sem emprego, é espancada pelo amante que lhe arranca todo
o dinheiro. Franzino, doloroso, esse pretinho na ânsia da vida sustenta um caften reles. Todos
esses nomes ignorados escondem dramas pungentes, cenas de horror, vidas perdidas.
A observação de tantos casos não me dava o tipo do explorador, o me mostrava os
peralvilhos que vivem à custa das pobres crianças, receosas de me mostrar as casas onde são
torturadas. Encontrei-o, porém, o tipo ideal, o drama resumo de um estado social, a tragédia
soluçante que cada vez mais se alastra.
Logo no começo da Rua Uruguaiana uma mulher de cor branca, fisionomia torva, sempre
embiocada em panos pretos. Chamam-na a Cameleão, alcunha que lhe ficou do peralta do filho.
Esse ente repelente tem uma estalagem, um prédio; é rica e pede esmola, provando ser viúva
pobre. Quando encontra crianças, leva-as para a casa, um doloroso centro de lenocínio e
velhacaria, a extorqui-las. Presentemente tem cinco petizes, todos menores de doze anos; três
meninos, Alfredo, Felipe e Narciso, e duas meninas, Gertrudes e Madalena. As criancinhas
saem pela manhã, voltam para almoçar, tornam a sair e voltam à noite, para o interrogatório
e a palmatória.
Um dos pequenos mostrou-me o ogre horrendo. Arrastava-se com uma voz pastosa e, quando
me viu, trêmula curvou-se.
– Pelo amor de Deus! uma esmola para os desgraçadinhos!
Os desgraçadinhos, na tarde chuvosa, pareciam transidos.
O vento fustigava-lhes as carnes seminuas e eles, agarrados uns aos outros, na fraternidade do
sofrimento, sem pai, sem mãe, sem amparo, erguiam os olhos para o céu numa angustiosa
súplica.
ONDE ÀS VEZES TERMINA A RUA
Crimes de Amor
Ao entrar no seu gabinete, severamente mobiliado de canela escura, o capitão Meira Lima
disse:
Meu caro amigo, tem você ampla liberdade. Pode ver, interrogar, examinar. agora na
detenção quatrocentos e cinqüenta e quatro detentos, dos quais trezentos e noventa e cinco
homens e cinqüenta e nove mulheres. Antigamente, era maior o número. Nós conseguimos que
se não mantivessem aqui presos à disposição dos delegados sem processo. Mas, ainda assim,
o exército do crime está bem representado. Há gatunos, desordeiros, incendiários, defloradores,
mulheres perdidas, vítimas da sorte, criminosos por amor toda uma flora estranha e curiosa.
Estude você os crimes de amor. Lembra-se de um dramalhão do repertório da Ismênia: Aimée,
ou o assassino por amor? Não é do seu tempo nem do meu, mas comoveu a geração passada
e tem contínuos exemplos nas penitenciárias.
– E nas literaturas.
Pois ver esses criminosos. O assassino por amor é o único delinqüente que confessa o
crime.
Alguns chegam mesmo a reviver detalhes insignificantes. Ao passo que os gatunos, os
incendiários e os homicidas vulgares, mesmo tendo a cumprir sentenças longas, negam sempre
o crime; essas vítimas da paixão não se cansam de contar a sua história, cada vez com maior
número de minúcias e mais abundância de memória.
– Pois, vejamos as vítimas do amor!
O capitão mandou chamar o chefe dos guardas, Antônio Barros, e saímos para o pátio, onde os
presos serventes mourejavam.
– Há uns cinco casos notáveis, informava-se o guarda. Vamos entrar na primeira galeria.
A galeria é um enorme corredor, ladeado de cubículos engradados. A má disposição de luz, com
a claridade da frente e dos fundos e a claridade das prisões, a esse corredor uma perpétua
atmosfera de meia sombra. Através dos muros brancos ouve-se o sussurro das conversas
murmuradas. Barros aponta-me silenciosamente uma das jaulas. Aproximo-me e do fundo vejo
surgir um velho preto, magro, seco, com o olhar ardente e a cabeça branca. Pergunto receoso:
– Por que está aqui?
– Porque matei.
Nas prisões duas coisas revoltantes: o cinismo do que nega e o que confessa como uma
afronta. Aquela frase breve tinha, porém, cunho de uma dolorosa sinceridade.
Eu sou do crime da Estrada Real, continuou o pobre agarrando-se aos varões de ferro.
Chamo-me Salvador Firmino, tenho sessenta e três anos.
– E matou?
– Porque ela quis.
E de repente, como se a lembrança da cena o forçasse a se desculpar, a sua cabeça branca
curvou-se, os seus olhos lampejaram:
Quando eu encontrei Silvéria, era casado e feliz. Abandonei a mulher, para viver com ela.
Silvéria tinha dois filhos. Eduquei-os eu, dei-lhes o sustento, o ensino. Uma casa que consegui
comprar logo passei para o seu nome, e de tudo eu me lembrava que a tornasse feliz. Silvéria
tinha quarenta anos e eu gostava dela. Foi quando apareceu o outro. A mulher ficou com a
cabeça virada, não lhe bastava o meu carinho. Saía só, para passear com ele, não se
importava com o passado, não me falava. O desaforo chegou ao ponto do outro vir trazê-la até à
porta de casa. As vezes, eu os via de longe e entrava no mato para os não encontrar. Que dor!
Eu tinha tanto medo de acabar... Uma noite, ela saiu, esteve na festa de Nossa Senhora e voltou
acompanhada até à porta pelo outro. Eu bem que os vira, mas fingi não saber de nada quando
entrei em casa. Silvéria conversava com a vizinha e dizia: "Mas se eu já lhe disse que podia
vir..." Não pude comer a sopa; fui logo deitar-me. Do quarto via-se a sala, onde dormia o
pequeno filho dela,e não demorou muito tempo que a vizinha não colocassse na cama outro
travesseiro. Eu estava olhando, à luz da lamparina. Deixei passar alguns minutos e disse:
Silvéria, vem-te deitar." Ela não respondeu. "Silvéria, disse que viesses dormir!" "Já vou." De
repente, os cães, no terreiro, começaram a ladrar. Era um alarido. Saltei da cama, agarrei o
revólver. "Quem está aí?" Ela apareceu então: "Deita-te, não é nada." "Qual! Pois se os cães
estão ladrando...É alguém." "Que vais fazer?" "Ver". "Não vás, Firmino não vás, não é nada!" E
agarrava-se ao meu braço. "Como não hei de ir? Se for gatuno? Talvez esteja a roubar a
criação." "Firmino, meu velho, não vás!" Dei-lhe um empurrão, abri a tranca. Na moita, a lua
aclarava as moitas e os cães arfavam cansados. Voltei. Ela estava sentada, chorando. "Tu
desconfias de mim!" "Eu? que falso!" "Tu pensavas que era o Herculano!" "Eu? Nem pensava
nisso!" "Pensavas, sim! E o melhor é acabar com isso. Vou-me embora!" Ela estava à espera de
um pretexto. Para que discussões? Deitei-me outra vez, sem poder dormir. Silvéria continuava
na sala, remexendo os móveis. Pela madrugada, os galos tinham cantado e o luar estava
desmaiado, ouvi que abriam a porta. Ergui-me, corri. Ela ia pela estrada, com a trouxa da roupa,
ia sem se despedir de mim, que lhe dera tudo, ia embora... Deitei a gritar: "Silvéria! Silvéria! Não
vás." "Adeus!" "Mas tu estás maluca, mulher." "Não me fales, estou farta." "Vais para o
Herculano?" "Vou, sim, e agora?" "Um homem que podia ser teu filho!" "Talvez seja mais feliz."
"Silvéria! Silvéria!" "Basta de conversa fiada..." Eu então senti um desespero que me sacudia os
nervos e não pude mais...
Para ouvir a história, encostara a cabeça na pedra em que os varões de ferro se encravavam. O
pobre velho tremia num soluço sem fim. Então, eu lhe estendi a mão sem uma palavra, e segui,
como se tivesse acordado de um horrível pesadelo. O guarda Barros acompanhava-me.
Pobre homem! Tentou suicidar-se e é preciso uma vigilância extrema para que aqui não tente
outra vez contra a própria vida.
os sinais misteriosos com os quais se correspondem os detentos haviam anunciado uma
pessoa estranha ao estabelecimento. Em todos os cubículos, nas galerias, correra o som
anunciador, e nas grades amontoavam-se as caras dos que não serão em breve da sociedade.
Barros parou pouco adiante, apontando-me um homem magro, pálido, com o pescoço
embrulhado num cache-nez. O homem corcovava tossindo, e os seus dois olhos brilhavam
como os de um tísico. Ao lado, um português bem disposto sorria.
– O seu crime?
– Umas rusgas, tentativa de morte, não fui eu...
– E o seu?
– Matei minha mulher.
Esse também confessava. Então era verdade? O crime de amor é o único confessável?
Acerquei-me cheio de simpatia, e o sujeito magro não esperou que eu lhe perguntasse mais
nada. Antes, na ânsia de desabafar, atirou o cache-nez às costas e começou:
Chamo-me Abílio Sarano, sou barbeiro. Sempre fui honesto. É a primeira vez que entro aqui
por causa do crime do Catete. Não sabe? V. S
a
não sabe? Eu namorei uma moça, d. Geraldina,
e com ela casei-me. Dias depois do nosso casamento minha esposa confessou-me que tinha
sido gozada por um negociante, amante de sua própria mãe. Esse homem voltava a persegui-la.
Era de noite, eu voltara do trabalho e amava minha senhora. Foi como se o mundo todo se
desmoronasse. Ela, coitadinha, caíra de joelhos; eu interrogava, querendo saber tudo. "Anda,
fala, dize como foi." O negociante, o biltre forçara-a numa cadeira, e ninguém soubera. Quando
acabou, eu estava sem forças e chorava. "E agora, Geraldina, que será de nós? que vai ser de
nós?" Ela consolava-me. Agora, era esquecer esse sujeito odioso. Acreditei e começamos a
viver a triste vida da dúvida. A mãe infame e a família continuavam, porém, a seduzi-la. Uma
noite, apesar de ser sábado, eu fui cedo para casa. Geraldina estava nervosa. Conversávamos
na sala quando a criada veio dizer que um homem procurava a patroa. "Um homem? Espera,
vou eu mesmo ver quem é." No topo da escada estava um cidadão robusto. "d. Geraldina
está?". Num relâmpago compreendi que era ele. "d. Geraldina? Ah! canalha, espera que eu te
vou dar a Geraldina!" Saquei do revólver, e minha senhora apareceu assustada: "Fuja, seu
Álvaro, fuja! Fuja!". Ela mandava-o fugir. Como um louco, ergui a arma. Ele descia os degraus
da escada e Geraldina tapara-me a passagem. Detonei uma, duas vezes, descemos de roldão.
No patamar, o corpo dele jazia. Matei-o, pensei, acabei a minha vida! E deitei a correr. ..
mais tarde, soube a verdade. As balas tinham ferido minha mulher. Ele fingira-se morto e
escapara são e salvo. É por isso que estou aqui.
O chefe dos guardas chamara-me ao fundo, para a mesa que fica entre as escadas das galerias
superiores.
– Há ainda dois casos interessantes: um menino e uma mulher. Quer ver? Vou mandar buscar o
menino. Sente-se.
Eu sentei-me. Por todas as janelas gradeadas, o sol entrava claro e benfazejo. Minutos depois,
surgia, trazido pelo guarda, um pardinho cor de azeitona, dessas fisionomias honestas, alheias a
devassidões.
– Como se chama?
Ele tomou uma posição respeitosa, falando bem, com desembaraço.
– Chamo-me Alfredo Paulino, sim, senhor. Tenho dezoito anos.
– E já casado?
Casei aos dezesseis. Os meus parentes não queriam, mas depois o pai disse: "É melhor
mesmo. Ao menos, não ficas perdido". Eu ganhava o suficiente para sustentar dignamente a
minha família. Casei. Foi nessa ocasião que o Dr. Constantino Néri me ofereceu o emprego de
copeiro no palácio de Manaus. Aceitei, e voltávamos para o Rio quando a bordo encontramos
um rapaz de dezoito anos, chamado José.
– Era bonito o José?
Era simpático, sim, senhor, não posso negar. Ficamos tão amigos que, ao chegar, ele foi
morar conosco. Primeiro, tudo andou direito, mas depois começaram os cochicos, as frases, as
cartas anônimas. Era preciso tomar uma resolução. Disse ao José que não o podia ter mais em
casa por certas dificuldades. Ele saiu, mas eu sabia que a Adélia lhe falava. Passaram-se
meses nessa tortura. De vez em quando eu a interrogava e sempre obtinha respostas negativas.
Certo dia passei pelo José na rua e ele riu. Em casa pus Adélia em confissão, e ela disse:
mesmo, fizeste bem em pôr esse homem na rua. Andava-me tentanto e foi tão ingrato que nem
se despediu da gente direito." De outra feita, encontrei-os na esquina, conversando e afinal, em
casa. Foi então que eu fiquei desatinado.
Oh! o amor! Eu ouvira o amor sexagenário, o amor doloroso, o amor lilliput desse ménage de
crianças! Todos tinham chegado ao mesmo fim trágico, ontem criaturas dignas, hoje com as
mãos vermelhas de sangue, amanhã condenados por um juiz indiferente. Fiz um gesto. O
pequeno insistiu.
que estou aqui, quero trabalhar. Nunca passei sem trabalhar. Peço a V. S
a
para ver se
entro como servente. Não quero estar no cubículo com aquela gente.
Neste momento traziam uma negra roliça, de dentes afiados, com um sorriso alvar a iluminar-lhe
a cara. Era a Herculana, a autora de um crime célebre. Matara o amante enquanto este dormia,
acendera todas as velas que encontrara e começara a cantar. O amante tinha vinte e três anos.
– E por que foi?
Ora, nós brigamos. Eu gostava dele. Nós brigamos. Um dia, ele me disse uma porção de
nomes. Eu fiquei calada, mas quando o vi deitado, com o pescoço à mostra, roncando, parece
que o diabo me tentou. Eu fui então, com a faca...
Aproximei-me, e bem perto, quase murmurando as palavras:
Diga: era capaz de fazer o mesmo outra vez, de abrir o pescoço do pobre rapaz, de acender
as velas, de cantar? diga: era?
Ela riu como uma fera boceja, e disse num arranco de todo o ser:
– Eu era, sim, senhor...
Que estranha psicologia a dessas flores magníficas do jardim do crime! Que poderoso
transformador o amor! Bem dizia Tennyson ao evocá-lo: Thou madest Life, in man and brute,
thou madest Death... Eu começara a minha visita à beira do desespero, na púrpura de uma
moita de lírios vermelhos.
Com os corações em sangue, vi uma coleção de assassinos, desde um velho lamentável até
uma criança honesta, postos fora da sociedade pelo desvario, pela loucura que a paixão sopra
no mundo. A mulher, que os poetas levam a cantar, Vênus inconsciente e perversa, Lilith,
lendária, surgia nessa ruína, perdendo, estragando, corroendo, matando, e eu sentia, no olhar e
no gesto de cada uma das vítimas do amor, o desejo de guardar o perfil das suas destruidoras.
Oh! esses seres, que Schopenhauer denominava animais de cabelos compridos e idéias curtas,
que formidável obra de destruição cometem! São a torrente a que ninguém pode resistir, a força
dominadora da maldade, os molochs da alegria. As gerações futuras, livres dos nossos velhos
deuses, devem, para que a harmonia as guie, levantar nas cidades um altar votivo onde os
adolescentes possam sacrificar, todas as manhãs à ira de Vênus sanguissedenta.
Mas as minhas reflexões pararam. Como tocasse um sino, pela escada da direita desceu um
cavalheiro elegante que tapava o rosto com o lenço. E logo depois, grácil e airosa, com um rico
vestido preto, caminhou pela galeria, olhando altivamente os presos, uma mulher cuja fronte
parecia a pura fronte da inocência.
O guarda curvou-se:
– O Dr. Saturnino e a esposa...
Eu vira o último crime de amor da detenção.
A Galeria Superior
A galeria superior é dividida por um tapume, com portas de espaço a espaço para o livre trânsito
dos guardas. Os presos não podem ver os cubículos fronteiros. Os olhos abrangem apenas os
muros brancos e a divisão de madeira que barra a cal das paredes. Quando a vigilância diminui,
falam de cubículo para cubículo, atiram por cima do tapume jornais, cartas, recordações.
Estão atualmente na galeria duzentos e trinta e oito detentos. A aglomeração torna-os hostis. Há
confabulações de ódio, murmúrios de raiva, risos que cortam como navalhas. Com o sentido
auditivo educadíssimo, basta que se dirija a palavra baixo a alguém do primeiro cubículo para
que o saibam no último. E então surgem todos, agarram-se às grades, com o olhar escarninho
dos bandidos e a curiosidade má que lhes decompõe a cara.
Ah! essa galeria! Tem qualquer coisa de sinistro e de canalha, um ar de hospedaria da infâmia à
beira da vida. Nos cubículos há, às vezes, dezenove homens condenados por crimes diversos,
desde os defloradores de senhoras de dezoito anos até os ladrões assassinos. A promiscuidade
enoja. No espaço estreito, uns lavam o chão, outros jogam, outros manipulam, com miolo de
pão, santos, flores e pedras de dominó, e ainda os que escrevem planos de fuga, os
professores de roubo, os iniciadores dos vícios, os íntimos passando pelos ombros dos amigos
o braço caricioso... Quantos crimes se premeditam ali? Quantas perversidades rebentam na luz
suja dos cárceres preventivos? Saciados da premeditação, os jornais que lhes citam os
nomes, o desejo de possuir uma arma, desejo capaz de os fazer aguçar asas de caneca, o
aço que prende a piaçava das vassouras, as colheres de sopa, e há ainda o jogo. Nesses
cubículos joga-se mais de quarenta espécies de jogos. Eu só contei trinta e sete, dos quais os
mais originais o camaleão, a mosca, o periquito, o tigre, a escova, o osso, a sueca, o laço, as
três chapas – são prodígios de malandragem. E nenhum deles se recusa aos parceiros. Quando
algum desconhecido passa, deixam tudo, precipitam-se, alguns nus, outros em ceroulas, e
como um panorama sinistro e caótico, negros degenerados, mulatos com contrações de
símios, caras de velhos solenes, caras torpes de gatunos, cretinos babando um riso alvar,
agitados delirantes, e os, mãos estranhas de delinqüentes, finas e tortas umas, grossas
algumas, moles e tenras outras, que se grudam aos varões de ferro com o embate furioso de
um vagalhão.
Vive naquela jaula o crime multiforme. O guarda aponta o Cecílio Orbano Reis, assassino, na
Saúde, de uma mulher que lhe resistira; o João Dedone, facínora cínico; matadores ocasionais,
como Joaquim Santana Araújo, quase demente; o Mirandinha, mulato, passador de moeda
falsa, se faz passar por advogado; o Barãozinho, gatuno; Bouças Passos, ladrão assassino,
Salvador Machado, o íntimo criado da Tina Tatti; negros capangas com as bocas sujas, que
resistem à prisão com fúria; desordeiros temíveis como o Eduardinho da Saúde, retorcendo os
bigodes, cheio de langores; sátiros moços e velhos violadores; o célebre Pitoca, que tem
sessenta e seis entradas; rapazes estelionatários e até desvairados, como João Manuel Soares,
acusado de tentativa de morte na pessoa do Sr. Cantuária, que leva, numa agitação perpétua, a
dizer:
– Eu sei, foi o bicho... foi por causa do bicho, hein? Está claro!
Dois baixos-relevos alucinadores, dois frisos da história do crime de uma cidade, ora alegres,
ora sinistros, como se fossem nascidos da colaboração macabra de um Forain e de um Goya,
dois grandes painéis a gotejar sangue, treva, pus, onde perpassam, com um aspecto de bichos
lendários, os estupradores de duas crianças, de sete e de dez anos.
E em meio do charco, fatalmente destinada a desaparecer, a inocência, atirada ali pela incúria
das autoridades, floresce.
Encontro ao lado de respeitáveis assassinos, de gatunos conhecidos, na tropa lamentável dos
recidivos, crianças ingênuas, rapazes do comércio, vendedores de jornais, uma enorme
quantidade de seres que o desleixo das pretorias torna criminosos. Quase todos estão inclusos,
ou no artigo 393 (crime de vadiagem), ou no 313 (ofensas físicas). Os primeiros não podem ficar
presos mais de trinta dias, os segundos, sendo menores, mais de sete meses. Os processos,
porém, não dão custas, e as pretorias deixam dormir em paz a formação da culpa, enquanto na
indolência dos cubículos, no contacto do crime, rapazes, dias antes honestos, fazem o mais
completo curso de delitos e infâmias de que memória. Chega a revoltar a inconsciência com
que a sociedade esmaga as criaturas desamparadas. Nessa enorme galeria, onde uma eterna
luz lívida espalha um vago horror, vejo caixeiros portugueses com o lápis atrás da orelha, os
olhos cheios de angústia; italianos vendedores de jornais, encolhidos; garçons de restaurant;
operários, entre as caras cínicas dos pivettes reincidentes e os porqueiros do vício que são os
chefes dos cubículos. Todos invariavelmente têm uma frase dolorosa:
– É a primeira vez que eu entro aqui!
E apelam para os guardas, sôfregos, interrogam os outros, trazem o testemunho dos chefes.
Por que estão presos? José, por exemplo, deu com uma correia na mão de um filho do cabo de
um delegado; Pedro e Joaquim, ao saírem do café onde estão empregados, discutiram um
pouco mais alto; Antônio atirou uma tapona à cara de Jorge. na nossa sociedade moços
valentes, cujo sport preferido é provocar desordens: diariamente, senhores respeitáveis atacam-
se a sopapo; jornalistas velho-gênero ameaçam de vez em quando pelas gazetas, falando de
chicote e de pau a propósito de problemas sociais ou estéticos, inteiramente opostos a esses
aviltantes instrumentos de razão bárbara. Nem os moços valentes, nem os senhores
respeitáveis, nem os jornalistas vão sequer à delegacia.
Os desprotegidos da sorte, trabalhadores humildes, entram para a detenção com razões ainda
menos fundadas.
E a detenção é a escola de todas as perdições e de todas as degenerescências.
O ócio dos cubículos é preenchido pelas lições de roubo, pelas perversões do instinto, pelas
histórias exageradas e mentirosas. Um negro, assassino e gatuno, pertencente a qualquer
quadrilha de ladrões, perde um cubículo inteiro, inventando crimes para impressionar,
imaginando armas de asas de lata, criando jogos, armando rolos. Oito dias depois de dar
entrada numa dessas prisões, as pobres vítimas da justiça, quase sempre espíritos incultos,
sabem a técnica e o palavreado dos chicanistas de porta de xadrez para iludir o júri,em com
avidez as notícias de crimes romantizados pelos repórteres e o pavor da pena é o mais intenso
sugestionador da reincidência. Não um ladrão que, interrogado sobre as origens da vocação,
não responda:
– Onde aprendi? foi aqui mesmo, no cubículo.
Recolhida à sombra, nesse venenoso jardim, onde desabrocham todos os delírios, todas as
nevroses, é certo que a criança sem apoio lá fora, hostilizada brutalmente pela sorte, acabará
voltando. Mais de uma vez, na cerimônia indiferente e glacial da saída dos presos, eu ouvi o
chefe dos guardas dizer:
– Vá, e vamos a ver se não voltas.
Como mais de uma vez ouvi o mesmo guarda, quando chegavam novas levas, dizer para umas
caras já sem vergonha:
– Outra vez, seu patife, hein?
Mas que fazer, Deus misericordioso? Nunca, entre nós, ninguém se ocupou com o grande
problema da penitenciária. bem pouco tempo, a detenção, suja e imunda, com cerca de
novecentos presos à disposição de bacharéis delegados, era horrível. Passear pelas galerias
era passear como o Dante pelos círculos do Inferno, e antes do Sr. Meira Lima, cuja
competência não necessita mais de elogio, o cargo de administrador estava destinado a
cidadãos protegidos, sem a mínima noção do que vem a ser um estabelecimento de detenção.
Qual deve ser o papel da polícia numa cidade civilizada? Em todos os congressos
penitenciários, até agora tão úteis como o nosso último latino-americano, ficou claramente
determinado. A polícia é uma instituição preventiva, agindo com o seu poder de intimidação, e o
Dr. Guillaume e o Dr. Baker chegaram, em Estocolmo, às conclusões de que uma boa polícia
tem mais força que o código penal e mais influência que a prisão.
A nossa polícia é o contrário. Para que a detenção resultados, faz-se necessário seja
conforme ao fim predominante da pena, com o firme desejo de reformar e erguer a moral do
culpado. Que fazemos nós? Agarramos uma criança de catorze anos porque deu um cascudo
no vizinho, e calma, indiferente, cinicamente, começamos a levantar a moral desse petiz dando-
lhe como companheiros, durante os dias de uma detenção pouco séria, o Velhinho, punguista
conhecido, o Bexiga Fraga, batedor de carteira e um punhado de desordeiros da Saúde!
A princípio tomei-lhes os nomes: Manuel Fernandes, Antônio Oliveira, Francisco Queirós,
Martins, Francisco Visconti, Antônio Gomes.
Mas era inútil. Para que, se o crime está na própria orgarnização da polícia? Está marcado! E eu
ia deixar esse canto do jardim sinistro quando vi uma pobre criancinha, magra, encostada à
parede, o olhar já a se encher de sombra.
– Como te chamas?
– José Bento.
Tinha catorze anos e era acusado de crime de morte. Fora por acaso, o outro dissera-lhe um
palavrão... Quem sabe lá?
Talvez fosse. E, cheio de piedade, perguntei:
– Vamos lá, diga o que o menino quer. Prometo dar.
Eu? Ah! os outros são maus... são valentes sim, senhor... metem raiva à gente... Até têm
armas escondidas! A gente tem que se defender... Eu tinha vontade... de uma faca...
E cobriu o rosto com as mãos trêmulas.
O Dia das Visitas
A força de policia é aumentada. Quatro ou cinco guardas contêm a multidão ao lado do porteiro,
que distribui os cartões. A onda dos visitantes cresce a cada momento, impaciente e tumultuosa.
São 11 horas da manhã. O sol queima. Há no ar uma poeira sufocadora. O saguão está cheio, a
calçada está cheia. Do outro lado da rua, doceiros, homens de refrescos, vendedores de frutas
estabeleceram as caixas e as latas e mercadejam em alta voz.
Nas soleiras das portas, mulheres gordas à espera, criancinhas choramingas têm o semblante
desolado e triste, mas também sujeitos alegres, peralvilhos de calça balão mastigando
tangerinas e rindo; curiosos olhando a cena, como no espetáculo, e soldados, soldados da
brigada, que passeiam gingando, com os tacões altos e o quepe do lado, por cima da pastinha;
dois turcos vendem imagens de santos, botões, canivetes e fósforos; um italiano, que finge de
cego, instala o realejo, e o filho começa a remoer velhos trechos de ópera, dolorosamente
angustiosos. De vez em quando passa uma carroça ou um enterro, alastrando a rua de poeira.
Mais ao longe, trabalham os condenados da correção na nova fachada, e cada passo que algum
deles dá é logo acompanhado por dois policiais de carabinas embaladas.
O sol é esmagador, pesa como chumbo. Todos esses semblantes têm qualquer coisa de
revoltado e de tímido, de desafio e medo. Percebe-se o terror das pessoas importantes e o
desejo secreto de apedrejá-las, essa mistura antagônica que faz o respeito da ralé.
À porta da detenção, o movimento torna-se cada vez mais difícil e o rumor cresce. Vista de fora,
na semi-sombra, a multidão tem um aspecto estranho e uniforme, parece um quadro
violentamente espatulado pela mesma o delirante. Os olhos raiados de sangue, alegres ou
chorosos, m um mesmo desejo entrar; os corpos, corpos de mulheres, frágeis corpos de
crianças, corpos musculosos de homens, uma vontade forçar a entrada; e todos os gestos,
lentos, dificultosos, presos em encontrões de rancor, exprimem o mesmo anelo, que é o de
entrar.
pragas, frases violentas, mãos que se agarram às roupas de outros, interjeições furiosas; e
de dentro, do mistério do pátio da prisão, vem um clamor formidável e indistinto, que aquece e
fustiga ainda mais o desejo de entrar e de ver. O porteiro, um senhor velho de cavaignac branco,
distribui os cartões irritado e a suar.
– Não deixem passar sem cartão! Não entra ninguém sem cartão!
E os cartões, sebentos, passam das mãos dos guardas para mãos sôfregas dos visitantes,
enquanto na porta de ferro, desesperadamente os que os obtiveram antes procuram entrar
todos a um tempo. Um cheiro especial, misto de fartum de negros e de perfumes baratos, de
suores de mulheres e de roupa suja, enerva, dá-nos visões de pesadelo, crispações de raiva.
Dentro, o pátio está limpo de serventes. Das janelas da secretaria, alguns funcionários deitam
olhares distraídos. Duas filas de criaturas parece ligarem a porta de ferro aos dois portões das
galerias. E nessas galerias o espetáculo é medonho. Dias antes, os presos contam as horas, à
espera desse instante. Uns querem matar saudades, outros contam com os amigos para
mandar vender as suas obras flores de pão, couraçados de pau; outros escreveram toda a
noite cartas anônimas ao chefe de polícia, denunciando companheiros ou inimigos, e anseiam
por alguém para as pôr no correio; e todos, absolutamente todos, acicateados pelo egoísmo,
esperam os presentes, o fumo, o dinheiro, as prendas, como uma obrigação dos que os vão ver.
Os dois portões fecham-se antes de se abrirem os cubículos, e no corredor da grande galeria é
um alarido, um desespero de jaula, com gritos, imprecações gargalhadas, perguntas, risos, o
pandemônio das vozes, enquanto, como uma matilha de lobos, acuada, agarrando-se aos
grossos varões, uns por cima outros, os assassinos, os incendiários, os estupradores, os
desordeiros e os inocentes obrigados à infâmia numa confusão, arquejam na ânsia da liberdade.
De fora, os visitantes não chegam às vezes a se fazer compreender, esmagados uns nos outros,
irritados, sem poder apertar a mão dos amigos.o em geral homens de lenço de seda preta e
chapéu mole, adolescentes arrastando as chinelas, mulheres perdidas, velhos trêmulos. No
alarido, ouvem-se frases breves Ó Juca, trouxeste os cigarros? Ai, meu filho, que saudades
do nosso tempo de cubículo! Sabes quem foi preso ontem? Vê se me arranjas um habeas
com o Benjamim! Estou aqui um mês e três dias! Fala por mim a seu Irineu! Algumas
dessas palavras são vociferadas de longe. Os que tiveram a felicidade de chegar primeiro unem
as mãos entre os ferros, falam devagar. amantes trêmulas, vendo o ciúme nos olhos dos
detentos, pobres esposas, crianças e velhos respeitáveis com a face triste, todos os
sentimentos escachoando, borbulhando, barulhando naquele vórtice de desgraça.
Na outra galeria estão as mulheres. Essas são visitadas por homens, os mesmos sujeitos de
lencinho preto e calça balão, que às vezes visitam num dia quatro e cinco amigos na
detenção. As conversas são mais calmas. Algumas estão por causa dos que as visitam, por
ciúme e pancadas. Têm quase todas esse sorriso estereotipado de resignação e amargura, dos
infelizes que ainda não mediram a extensão da própria infâmia. Do outro lado, os homens
parece estarem ali por obrigação. um eu vi, menino ainda, magro, tísico, com um olho
afundado em pus, que segurava, como para se aquecer, a mão de uma pequena mulatinha. Ela
conversava com outro, sem lhe dar atenção. Afinal, teve um sorriso de piedade.
– E tu, João?
As voltas com o Zé-Maria. Nem você imagina como eu ando. Estou esperando que você
saia, para tirar um pensamento da cabeça...
E as suas mãos agarravam a mão da outra, num gesto de medo e de paixão.
O clamor continuava, fragorava como um oceano que se debatesse contra os altos muros
brancos. O administrador mandara ordem para dar fim à visita. Ainda havia os serventes e os
abastados. De vez em quando, destoando dos casacos-sacos dos malandros, entrava uma
sobrecasaca, algum advogado de porta de xadrez, a farejar a diária de petições de habeas-
corpus, lambiscando delicadezas aos guardas.
alguns desses sujeitos, dizem-me, que até estiveram presos. E conheço um que, tendo
contratado um habeas-corpus por trinta mil réis, não queria que o administrador soltasse o preso
enquanto não o tivesse pago dessa importância.
A nossa atenção voltou-se, porém, para uma austera senhora que descia da secretaria
gravemente, com um embrulho debaixo do braço.
Não conhece? perguntou-me um dos guardas. É missionária protestante. Vem, naturalmente,
pedir ao sr. capitão Meira Lima para falar aos presos. Antigamente vinha mais vezes. Ah! o
senhor nem imagina o que os detentos faziam com ela. Eram troças, pilhérias, arremedavam-na
na bochecha, diziam-lhe desaforos. Por último, sopravam-lhe nos olhos pimenta em pó, através
das grades do cubículo. Ela continuou, impassível, a distribuir folhetos da religião, que o pessoal
transforma em baralhos.
Tenho aqui um para o senhor. Venha cá. É preciso que ela não veja.
Vamos para o saguão. O guarda desdobra por trás da jarra Tiradentes, de Benedito Machado,
um embrulho, e eu vejo valetes, ases e damas admiravelmente pintados em pedaços dos livros
de edificação moral. mesmo um rei de paus que tem nas costas S. Paulo. E no pátio, a
inglesa, na sua obra regeneradora, espera com calma que o administrador consinta em mais
uma distribuição de folhetos, para o fabrico de futuros baralhos!
O clamor das galerias parecia diminuir, enquanto à porta do pátio havia o mesmo atropelo de
pessoas, agora querendo sair. Os protestos prorrompiam entre frases de lera surda e frases
de deboche. Uma rapariga com o filhinho nos braços bradava: Não volto mais! Não falei ao
José. É impossível chegar perto da grade! Contente-se comigo, dona! A mulherzinha vinha
com sede! Ó Antônio, vamos tomar uma lambada! Ih! menino, quebrei água hoje como
quê! E as vozes alçavam-se, cruzavam-se; faziam naquela porta, como a ornamentação da
raiva e da sem-vergonhice um baixo-relevo vivo de entrada de penitenciária, enquanto, suando,
bufando, com os cartões na mão, aquela gente – mulatos, pretos, italianos, portugueses, fúfias e
rufiões, tristes mulheres e trabalhadores de fato endomingado – dava cotoveladas e empurrões,
no desejo cada qual de sair em primeiro lugar.
Um sino pôs-se a tocar. Era o fim da visita. Os sons vibravam, duros, como uma ordem.
sinos que choram, sinos que cantam, sinos que são tristes; há sinos feitos para dobrar a finados,
como os para cantar missas em ões de graça. Aquele sino era um aguilhão. O pátio
esvaziava. A tropa partia, tropa desoladora, amiga do vício e do crime.
Foi então que eu vi aparecer, carregada de embrulhos, com a coifa branca a ondular as duas
grandes asas, a figura de bondade da irmã Paula. O guarda tirara o boné, cheio de um
carinhoso respeito. Os malandros e os desgraçados, ainda à porta, tinham nos olhos uma
expressão de timidez e de alegria.
Bonjour, meu filho, fez a irmã com um gesto cansado. O Sr. administrador? O guarda disse
qualquer coisa, comovido. Ela arrumou embrulhos, enxugou as mãos, subiu as escadas da
secretaria. A sua coifa alva parecia uma grande borboleta branca.
É a única visita que consola os presos, é a única que eles respeitam, murmurava o guarda.
Quando ela fala, tão simples e tão meiga, até as pedras parece quererem-lhe bem. Quando
Jesus passou por este mundo, devia ter sido assim bom para todos os desgraçados.
De novo a coifa apareceu, borboleta de esperança adejando as grandes asas brancas e, como
se fizesse a obra mais natural deste mundo, a irmã Paula disse:
– Vamos ver os desgraçadinhos. Trago-lhes hoje umas coisas. O Sr. administrador é muito bom,
permite.
E assim, tocado pela sua presença, a mim me pareceu que o doloroso canto do jardim do crime
se transformava no horto das rosas de que fala S. Tomás de Kempis...
Versos de Presos
O criminoso é um homem como outro qualquer. No primeiro momento, sob o pavor dos grandes
muros de pedra, com um guarda que nos mostra os indivíduos como se mostrasse as feras de
um domador, a impressão é esmagadora. Vê-se o crime, a ação tremenda ou infame; não se
o homem sem o movimento anormal, que pôs à margem da vida. Quando a gente se habitua a
vê-los e a falar-lhes todo o dia, o terror desaparece. sempre dois homens em cada detento
o que cometeu o crime e o atual, o preso. Os atuais são perfeitamente humanos, uma
variedade da espécie causa sempre náuseas; os ladrões, os "punguistas", os "escrunchantes",
porque dissimulam, mentem e têm, constante no riso e na palavra, um travo de cinismo. Os
outros não. Conversam, contam fatos e pilhérias, arranjam o pretexto de ir lavar a roupa para
apanhar um pouco de sol no lavadouro, são homens capazes até de sentimentos amáveis.
Ora, este país é essencialmente poético. Não há cidadão, mesmo maluco, que não tenha feito
versos. Fazer versos é ter uma qualidade amável. Na detenção, abundam os bardos, os
trovadores, os repentistas e os inspirados. São quase todos brasileiros ou portugueses, criados
na malandragem da Saúde. A média poética é forte. Desordeiros perigosos, assassinos
vulgares compõem quadras ardentes, e poetas de todos os gêneros, desde os plagiários até
os incompreensíveis. Não sei se a timidez ou outra razão mais obscura os faz assinar as
composições poéticas apenas com as iniciais e quando muito com as iniciais precedidas do
nome de batismo.
– Assine você o seu nome por extenso! dizia o guarda.
O poeta detento hesitava, punha as iniciais e, por baixo, entre parêntesis, escrevia o nome. As
iniciais têm que vir fatalmente, são o complemento necessário ao fim da obra, Por quê? E
misterioso, mas verdadeiro.
Os assuntos escolhidos pelas iniciais superiores da detenção abrangem todas as modalidades
do sentir. Como plagiários o Antônio, crime de ferimentos, que se intitula autor da modinha
Nasci para te Amar, – há simbolistas que escrevem coisas destas:
Pobre flor que mal nasceste, fatal
Foi a tua sorte, que o primeiro
Passo que deste com a morte deste.
Deixar-te é coisa triste. Cortar-te?
É coisa forte, pois deixar-te com vida
É deixar-te com a morte.
Há também poetas eróticos, o Chico Bentevi, autor do poema Os Amores de Carlos:
Chiquinha abriu sorrindo
A porta da sua alcova
E Carlos foi logo indo
Com a sede...
Uma sede excessiva! poetas descritivos, trovadores simples, cançonetístas ocasionais,
todos com um sentimento insistente: são patriotas e sofrem injustiça porque nasceram
brasileiros.
O preso Carlos, por exemplo, que se assina Carlos F. P. Nas suas trovas é insistente a
preocupação de que está preso porque é brasileiro. Escolho na sua considerável obra poética
uma modinha cheia de mágoas:
Meus senhores, venham ouvir
Do meu peito uma canção
Tirada por um condenado
Na casa de detenção.
Às mágoas segue-se o estribilho.
São martírios que se passam
Sofrendo profunda dor
Ser preso e condenado
Por vingança é um horror.
Se os martírios fossem enormes, era natural que o Petrarca novo não compusesse quadras;
mas Carlos F. P. é feroz e continua:
Fui preso sem nenhum crime
Remetido para a detenção
Fui condenado a trinta anos
Oh! que dor de coração.
E surge afinal a preocupação, a idéia fixa:
Sou um triste brasileiro
Vítima de perseguição
Sou preso, sou condenado
Por ser filho da nação.
uma porção de modinhas neste gênero. A idéia constante aparece sempre, ou na primeira
ou na última quadra.
Outro poeta, José Domingos Cidade, é descritivo. Como toda a gente sabe, o poema épico
passou literalmente à cançoneta. Virgílio, Lucano, Voltaire e Luís de Camões, se vivessem hoje,
decerto comporiam os trabalhos de Enéias, a Farsala, a Henriade e os feitios de Vasco da
Gama com refrains ao fim dos versos de mais efeito.
Não mais ninguém com coragem para ler um poema heróico, apesar de haver ainda neste
mundo de contradições heróis guerreiros. o povo, a massa ignara, ainda acha prazer em
ver, em rimas, batalhas ou arruaças. José Domingos, no cubículo que o veda à admiração dos
contemporâneos, escreveu Os Sucessos, cançoneta repinicada, para violão e cavaquinho.
Vejam o poder de descritiva de Domingos:
Dia quinze de novembro.
Antes de nascer o sol
Vi toda a cavalaria
De clavinote a tiracol.
Isso é incontestavelmente mais belo que o antigo e clássico começo épico: "Eu canto os feitos,
ou as armas, ou as guerras civis", de todos os vates e de Lucano, que por sinal começa dizendo:
"Eu canto as nossas guerras mais que civis nos campos de Ematia. . ." Cidade foi mais urbano,
mais imediato: cantou a refrega civil da Rua da Passagem com exagero apenas. Na segunda
quadra, a descrição é soluçante:
As pobres mães choravam
E gritavam por Jesus;
O culpado disso tudo
É o Dr. Osvaldo Cruz!
Quando o homem predestinado que se chama Osvaldo Cruz pensou que José Domingos o
amarrasse ao papel de carrasco em plena detenção?
Para o fim, mesmo em verso, o autor é modesto e patriota:
O autor desta modinha
É um pobre sem dinheiro
Já não declaro-lhe o nome,
Sou patriota brasileiro.
Os companheiros do Prata Preta, pessoal da Saúde, são naturalmente repentistas, tocadores de
violão, cabras de serestas e, antes de tudo, garotos, mesmo aos quarenta anos. O malandro
brasileiro é o animal mais curioso do universo, pelas qualidades de indolência, de sensualidade,
de riso, de vivacidade de espírito. As quadras pornográficas são em número extraordinário; as
que exprimem paixão são constantes, posto que o malandro não as faça senão para ser
admirado pelos outros e independente de amar quer senhora das suas relações. Um gatuno
afirmou-me que a modinha A Cor Morena era de seu amigo. Na Cor Morena este
pensamento de um perfume oriental:
Fui condenado
Pela açucena
Por exaltar
A cor morena...
Onde se o bom humour dos presos é principalmente nas quadras sobre acontecimentos
políticos. O guarda Antônio Barros, que se dava ao trabalho de acompanhar as minhas horas de
penitenciária voluntária, forneceu-me as seguintes remetidas por um dos detentos:
Meus amigos e camaradas
As coisas não andam boas
Tomaram Porto-Artur
Na conhecida Gamboa
Logo o Cardoso de Castro
Ao seu Seabra foi falar
Para deportar desordeiros
Para o alto Juruá
Mas eu que não sou de ferro
Meu corpo colei com lacre
Que não gosto de chalaças
Lá nos borrachas do Acre.
O exibicionismo, o reclamo, a vaidade, estas coisas que enlouquecem Sarah Bernhardt e talvez
a todos nós, enlouquecem também presos. a princípio uma hesitação. Depois, os
documentos são abundantes. Ser poeta é ser alguma coisa mais do que preso, e um negralhão
capoeira, um assassino como o Bueno ou o José do Senado, após o testemunho da rima, falam
mais livremente e com maior franqueza. Em duas semanas de detenção colecionei versos para
publicar um copioso cancioneiro da cadeia. poesias de todos os gêneros, desde o lundu
sensual até à nênia chorosa.
Este lundu do famoso Carlos F. P. chega a ser comovente:
Céus...meus! por piedade
Tirai-me desta aflição!
Vós!... socorrei os meus filhos
Das garras da maldição!
E o estribilho mais amargo ainda:
São horas, são horas
São horas de teu embarque
Sinto não ver a partida
Dos desterrados do Acre.
O Dr. Melo Morais, que conhece os segredos do violão, deve decerto imaginar o efeito destas
palavras, à noite, na escuridão com os bordões a vibrar até às estrelas do céu...
O Amor, de resto, inunda o verso detento. por todos os lados choros, soluços, lábios de
coral, saudades, recordações, desesperos, rogos:
Não sejas tão inclemente,
Atende aos gemidos meus.
E um encontrei eu que me repetiu, com os olhos fechados, o seu último repente:
Se eu pudesse desfazer
Tudo aquilo que está feito,
Só assim teu coração
Não veria contrafeito.
Era um rapaz lido, como os rapazes fatais nos romances de 1850, mas com uns biceps de
lutador.
Quantos poetas perdidos para sempre, quanta rima destinada ao olvido da humanidade! Cheio
de interesse, um papel que me caia nas mãos, com erros de ortografia, era para mim precioso.
Mas afinal, um dia, ao sair da detenção com os bolsos cheios de quadras penitenciárias,
remoendo frases de psicologia triste, encontrei no bonde um poeta dos novos, que, vinte e
cinco anos, ataca as escolas velhas.
São uns animais! bradou ele, logo após um aperto de mão imperativo. Este país está todo
errado. mais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos, ali,
com castigos corporais uma vez por mês!
Mal sabia ele que a detenção já está cheia.
As Quatro Idéias Capitais dos Presos
Às vezes, numa volta pelo pátio, a conversar com Obed Cardoso, eu via o elegante Dr.
Saturnino de Matos passar, como se fosse dar milho às pombas. E, se depois de admirar o Dr.
Saturníno apontavam-me, enfiado no zuarte do estabelecimento, com o número de metal à
cinta, um modesto gatuno ou um simples assassino cujo comportamento exemplar os
transformava em serventes, eu deixava o gentil Obed e gozava o calão dessas interessantes
flores de patifaria.
na detenção reincidentes exemplares e casos de psicologia curiosíssimos. O Sargento da
Meia-Noite, ladrão temível, uma espécie de transformista da infâmia, é passar os umbrais do
jardim onde descansa o crime, para se tornar um cordeiro artista, uma espécie de frade
medievo. Recolhido ao cubículo, inaugura logo a sua arte de miolo de pão. Faz flores, bonecos,
santos, animais; pinta-os, remira-os, manda-os vender. Parece regenerado. Todos sabem,
entretanto, que, uma vez livre, o Sargento não resistira à tentação de invadir a casa alheia. Os
"punguistas", inofensivos dentro, tão certos estão de continuar a roubar que o Braga Bexiga
me dizia:
– No dia em que sair, tomo logo um bonde e limpo a primeira carteira.
– Mas é difícil.
– Para quem conhece a arte não dificuldades. Eu trabalho desde criança e tive como
professor o Zezinho.
– Vamos a ver esse trabalho.
Se V. S
a
me licença, eu vou tirar duas notas de duzentos que o sr. Obed pôs agora no
bolso da calça.
Na outra extremidade da sala, Obed, sem que ninguém desse por isso, acabara de contar o seu
dinheiro e de metê-lo no bolso da calça. Bexiga, trêmulo, com os olhinhos piscos, continuava ali
a exercitar as suas criminosas observações. Capoeiras, assassinos, como Carlito e outros,
reincidentes, condenados a trinta anos, exprimem a certeza de que continuarão fora a vida
anterior. Carlito, mesmo, disse-me um dia:
– Deus aperta, mas não enforca!
Máxima muito mais profunda que quantas escritas pelo desfastio erudito do defunto Marquês de
Maricá.
Os cientistas da penitenciária veriam nisso um problema a resolver, o problema de emendar o
criminoso. Um, a quem eu contava o desplante dos recidivos, assegurou-me:
É preciso aplicar o método inglês, as sentenças cumulativas, sistema de penas progressivas
cuja duração é calculada pelo quociente das reincidências. Um preso condenado por ladroeira,
se entrar outra vez pelo mesmo crime, tem a pena duplicada; se entrar terceira, triplicada, e
assim por diante. Isto acabaria com a falha do código, o broquel de defesa dos gatunos, que nos
seus artigos admiráveis tem a generalidade da pena para toda a sorte de escapatórias. Leia o
dr. Monat, antigo diretor geral prisões na Índia; leia Baker, juiz de paz em Gloucester; leia
Browne. As reincidências, eles o provam, diminuíram em toda a Inglaterra.
Outros perdiam-se em frases confusas, falando da necessidade urgente de reformar o nosso
sistema de detenção, de pôr em ação os dois meios definitivos de corrigir: moralizar e intimidar.
Eu achei mais interessante estudar as idéias e os estados da alma dos detentos.
A detenção tem idéias gerais. A primeira, a fundamental, definitiva, é a idéia monárquica. Com
raríssimas exceções, que talvez não existam, todos os presos são radicalmente monarquistas.
Passadores moeda falsa, incendiários, assassinos, gatunos, capoeiras, mulheres abjetas, são
ferventes apóstolos da restauração. Não falam, não fazem meetings, não escrevem artigos
como o Dr. Cândido de Oliveira ou o conselheiro Andrade Figueira sentem intensamente, sem
saber explicar a razão desse amor.
– É verdade; qual o governo que prefere? Eles riem, meio tímidos.
– Eu prefiro a monarquia.
– Por quê?
Sim! Por que malandros da Saúde, menores vagabundos, raparigas de vinte anos que não
podem se recordar do passado regime, são monarquistas? Por que gatunos amestrados
preferiam sua majestade ao dr. Rodrigues Alves? É um mistério que só poderá ter explicação no
próprio sangue da raça, sangue cheio de revoltas e ao mesmo tempo servil; sangue ávido por
gritar não pode! mas desejoso de ter a certeza de um senhor perpétuo.
O fato curioso é que para esta gente, de outro lado da sociedade, não basta pensar, é preciso
trazer a marca das próprias opiniões no lombo. Raríssimos são os presos que na detenção não
são tatuados; raros são aqueles que entre as tatuagens lagartos, corações, sereias, estrelas
não têm no braço ou no peito a coroa imperial.
A outra idéia é a crença de Deus uma verdadeira crise religiosa. Rezar, pedir a Deus a sua
salvação, trazer bentinhos ao pescoço, ter entre os seus papéis imagens sagradas, não
significa, de resto, regeneração.
Homens da espécie do Carlito ou do Cardosinho fazem o sinal da cruz ao levantar da cama para
matar um homem horas depois; Serafim Bueno, um criminoso repugnante, tem uma surda no
milagre e em Nosso Senhor; o Carrasco, gatuno torpe, treme quando se fala no castigo do céu
mas nenhum deles se regenera. Deus é apenas a salvação das suas patifarias na terra, e tanto
é assim que não desordeiro assassino em cuja mão direita não apontem, tatuadas, as cinco
chagas de Cristo. Sabem a interpretação dada a este sinal?
A piedosa interpretação de que com a mão, ajudada por tão grande símbolo, não se atira à cara
de um sujeito uma tapona sem que o contendor não caia ao chão!
Esses pobres entes são o normal. Há, entretanto, verdadeiras crises místicas como a desse
convulsivo tratante Afonso Coelho. Afonso escreve diariamente cartas fervorosas de
regeneração; reza, manda epístolas insultuosas a outros detentos, verberando-os porque a sua
não é forte. Em todas as cartas erros de ortografia lamentáveis e um sopro de milagre. Ao
mesmo tempo, porém, Afonso Coelho esgaravata no pobre cérebro o meio de fugir. Arranja
limas e corta varões de ferro. O administrador, atento, quando o trabalho está pronto, muda-o de
cubículo. Vai ao tribunal e, em caminho, ainda na detenção, atira-se como um tigre, tentando
escalar um portão. Os guardas têm que o puxar pelas pernas e lutar com ele, braço a braço.
Traça planos de fuga, escreve indicações a amigos para abrirem portas num muro, combina
fugas estranhas. O administrador guarda uma porção destas cartas, interceptadas por sua
ordem. Ultimamente, visitado por um jornalista a quem a honra de falar, depois de discutir
direitos, de meter os pés pelas mãos com a sua vaidosa mania de querer ser inteligente, acabou
dizendo:
– Qual, meu amigo, já estou muito conhecido aqui. Se sair, embarco para a Europa. Lá o meio é
maior.
E, cheio de doçura, enquanto desesperadamente a sua esperteza se arremete contra as grades
preventivas, esse mesmo homem sonha com a Virgem, bate nos peitos e faz crer aos ingênuos
ou aos interessados reformadores que é um santo no caminho de Damasco.
A terceira idéia quase obsessiva é a imprensa. os que têm medo de desprezá-la, os que
fingem desprezá-la, os que a esperam aflitos. O jornal é a história diária da outra vida, cheia
de sol e de liberdade; é o meio pelo qual sabem da prisão dos inimigos, do que pensa o mundo
a seu respeito. o há cubículo sem jornais. Um reporter é para essa gente inferior o poder
independente, uma necessidade como a monarquia e o céu. Anunciar um reporter nas galerias
é agitar loucamente os presos. Uns esticam papéis, provando inocência; outros bradam que as
locais de jornais estavam erradas, outros escondem-se, receando ser conhecidos, e é um
alarido de ronda infernal, uma ânsia de olhos, de clamores, de miséria... Os desordeiros
acusados de ferimentos graves, com muitas mortes na consciência são, por sua natureza,
vingativos e conhecem bem os reporters. E, entretanto, apesar das notícias cruéis, nunca
nenhum se atreveu a tentar uma agressão. José do Senado pede:
– É com a imprensa que eu conto. O senhor foi cruel, porque não sabia...
Carlito teve, nesse dia, uma frase completa:
Eu sei que foi o senhor o autor daquela descompostura contra mim, no jornal. Mas também
estou vingado. Se não fosse eu, o sr. não escrevia tanto.
Os outros rojam, como as beatas nos altares dos santos impassíveis.
– Não fale de mim, seu reporter; deixe o meu nome sossegado, não fale!
E no dia seguinte percorrem, loucos, a folha para ver negrejar no papel poderoso a sua
celebridade.
mesmo um preso, Antônio F., que me entregou um artigo de psicologia da imprensa. Antônio
acha que, sendo o papel da imprensa educar os povos, ensinar os homens a serem até bons
esposos, o nosso jornalismo é tudo quanto de errado, de imbecil e de vazio. "Nada!" brada
ele; "que aproveitam à nobreza, ou à plebe, estas banalidades! Nada! Que valem, portanto?
Nada!... E nada, nada e nada milhões de vezes nada repercutia o eco do Prata ao Pará, se não
corrigirem a grande força."
A quarta idéia, a última, é a idéia fixa, a idéia constante de todos os detentos escapar, ficar
livre, burlar a prisão, apanhar novamente a liberdade. Os reincidentes conhecem as coisas do
foro tanto quanto com os advogados de porta de xadrez: sabem chicanas, artigos do código,
contam os dias de prisão, fazem petições de habeas-corpus, assinam declarações de inocência
de outros, para que outros assinem declarações idênticas, vivem numa tensão nervosa
extraordinária. A religião, que lhes a esperança, o jornal, que lhes lembra a rua, acendem a
labareda desse desejo, e é principalmente a idéia da liberdade que modifica o humor dos
presos, que faz freqüentadas as solitárias, que os torna ora alegres, de uma extrema bondade,
ora agitados e terrivelmente maus.
Esses quatro ideais da generalidade dos presos fizeram-me pensar num país dirigido por eles.
Um rei perpétuo governaria os vassalos, por vontade de Deus. Os vassalos teriam a liberdade
de cometer todos os desatinos, confiantes na proteção divina, e a imprensa continuaria
impassível no seu louvável papel de fazer celebridades. Seria muito interessante? Seria quase a
mesma coisa que os governos normais apenas com diferença da polícia na cadeia, como
medida de precaução. Tanto as idéias do povo são idênticas, quer seja ele criminoso quer seja
honesto!
Mulheres Detentas
Quando entramos, algumas detentas lavavam a primeira sala, sob o olhar severo de um guarda.
– Tudo limpo?
– Saiba V. S
a
que ainda não.
– Pois apresse, apresse estas mulheres.
O chão de pedra estava cheio de lama. A água suja escorria da soleira da sala em dois grossos
fios e as mulheres, de saia arregaçada, com pulos estranhos, davam gritinhos estridentes. Um
cheiro especial, esquisito, pairava naquela galeria batida de sol, em que os metais reluziam. Os
guardas tinham a fisionomia fechada.
– Quantas presas?
atualmente cinqüenta e oito, divididas por três salas, uma das quais é enfermaria. À falta de
lugares, a promiscuidade é ignóbil nesses compartimentos transformados em cubículos. A
maioria das detentas, mulatas ou negras, fúfias da última classe, são reincidentes, alcoólicas e
desordeiras. Olho as duas salas com as portas de par em par abertas e fico aterrado. caras
vivas de mulatinhas com olhos libidinosos dos macacos, olhos amortecidos de bode em
faces balofas de aguardente, perfis esqueléticos de antigas belezas de calçada, sorrisos
estúpidos navalhando bocas desdentadas, rostos brancos de medo, beiços trêmulos, e no meio
dessa caricatura do abismo as cabeças oleosas das negras, os narizes chatos, as carapinhas
imundas das negras alcoólicas. Alguns desses entes, lembra-me tê-los visto noutra prisão, no
pátio dos delírios, no hospício. É possível? Haverá loucas na detenção como agitados e
imbecis? O Dr. Afrânio Peixoto, o psiquiatra eminente, dissera-me uma vez, apontando o pátio
do hospício, onde, presas de agitação, as negras corriam clamando horrores aos céus:
algumas que têm quatro e cinco entradas aqui. Saem, tornam a beber e voltam fatalmente.
As mulheres tinham corrido todas para os fundos das salas, casquinando risinhos de medo.
Naquela tropa, as alcóolicas andavam trôpegas, erguendo as saias com um ar palerma. Indiquei
ao guarda uma delas.
– Venha cá, gritou ele.
As mulheres agitaram-se. Eu? Sou eu? Seu guarda, posso ir? O guarda tornou a chamar a
massa abjeta e foi quase empurrada pelas outras que ela veio, meio envergonhada.
– Quantas vezes esteve no hospício?
A negra olhou para nós. Os seus olhos amarelos, raiados de sangue, abriram-se num esforço e
ela balbuciou.
– Duas, sim senhor.
O álcool ou a preparava para a tísica rápida ou, dias depois, atiraria írremissívelmente para o
manicômio.
As outras criaturas, dotadas de curiosidade irresistível, tinham-se aproximado das portas entre
risadinhas e cochichos depravados, e eu pude assim, com calma e tranqüilidade, apreciar e
interrogar todas as flores de enxurrada, todas essas venenosas parasitas do amor torpe num
campo perdido do jardim do crime. Essas mulheres estão na detenção por coisas fúteis, coisas
que cometem diariamente até à cólera final dos inspetores tolerantes ou a vingança de algum
soldadinho apaixonado.
São moradoras do morro da Favela, das ruelas próximas ao quartel general, dos becos que
deságuam no Largo da Lapa, das Ruas da Conceição, S. Jorge e Núncio. Quase sempre
brigavam por causa de uma "tentação" que tentava e pretendia satisfazer as duas. Outras
atiraram-se à cara dos apaixonados num desespero de bebedeira.
– Saiba V. S
a
que da outra vez que estive aqui foi por causa do inspetor. Eu tinha o meu bajoujo;
o bobo cheio de "fobó" estava-se endireitando. Mas veio de carrinho. O diabo vingou-se!
E logo outra, apoplética:
comigo é nove. Não gosto de presepadas. Ele era um rodelista. Quando a gente gosta de
um homem, gosta mesmo, nem que bata o trinta e um.
Falavam uma língua imprevista e curiosa, cuspinhando; e olhando as pobres coitadas, não sabia
eu bem se falava a mulheres velhas ou a mulheres novas, de tal forma aquelas faces e aqueles
corpos estavam arruinados. Perguntei a uma pardinha cujos dentes eram brancos e que devia
Ter sido bonita:
– Como se chama?
– Quantos anos tem?
– Francisca Maria.
– Tenho vinte.
E estava havia cinco naquela vida de horror. E assim a Carmem da Rua Morais e Vale, e assim
a Carmelina com uma navalhada na face, vibrada pela rival enquanto dormia, e assim a velha
Rosa Maria à espera da liberdade apenas para continuar o seu fadário e voltar à detenção.
Todas estão tatuadas, tatuadas nos seios, ombros, tatuadas nos braços, nas pernas, no ventre,
tatuadas nas mãos, algumas até tatuadas na testa. Esses riscos azuis e essas manchas negras
dão-lhes um aspecto bárbaro, um ar selvagem. Nenhuma decerto tem mais família ou amizades
duradouras. A tatuagem para os seus pobres corações apodrecidos é como a exteriorização da
saudade. Muitas têm, entre espadas, cristos, sereias, peixes, coroas imperiais, o nome dos que
lhes deram o ser, o nome dos irmãos, o dos filhos perdidos e dos amantes que se foram: muitas,
nas horas de solidão, têm na própria pele a recordação da eterna dor.
Cavalhada da luxúria, correndo nos recantos da cidade ao lado da morte e do assassinato,
destinada aos fins trágicos da miséria, da sífilis ou do ciúme feroz, os seus próprios corpos são
como o perpétuo símbolo das suas adorações, os altares onde se confundem todos os
sentimentos. A cabocla Carmelina, uma das mais tatuadas, tem de tudo no corpo e até as
falanges formam com iniciais o nome do irmão. Os braços, ela os dedicou ao amor. nomes e
nomes, uns por cima dos outros, alguns apenas em iniciais, outros por extenso. Examinando
esses dois braços de Vênus asquerosa, que com o mesmo delírio e a mesma alma apertaram
na chama da paixão apaixonados diversos, o guarda perguntou, como quem quer decifrar um
enigma:
– E qual destes é querido agora?
Carmelina esticou o braço esquerdo, e todos nós lemos, enquanto ela sorria, o nome de
Narciso, com uma cedilha de mais por baixo do c. A criatura amava um Narciso, e decerto
naquele momento aos seus olhos surgia a imagem desse seu deus temporário.
Eu porém já me nauseara, e Antônio Barros, chefe dos guardas, sempre solícito, levou-me à
enfermaria, onde havia apenas três doentes –a Herculana assassina, a negrinha Gabriela do
Pontes e uma pequena, feia, magra, olheirenta, espapaçada na cama como uma das mias
americanas que o museu guarda na sua seção de etnografia. Essa criaturinha tem quinze anos
e parece ter mil. É dolorosamente irreal. Está condenada por crime de infanticídio. Matou o
próprio filho ao nascer, mas antes devia ter matado outros, como matará os futuros com o seu
olhar de círio perpetuamente ardendo na negridão das olheiras. Ao vê-la, lembra-se a gente das
teorias dos criminalistas passados e principalmente das idéias de Maudsley sobre o crime e a
loucura.
– Como te chamas?
– Olívia.
– Você não gosta das crianças?
Um gesto negativo de cabeça.
– Antes já procurara tomar remédios para abortar, não?
É uma pergunta sem razão de ser. A menina curva a cabeça e desata a chorar. Tudo quanto se
lhe perguntar sobre o seu horror à maternidade, Olívia é incapaz de negar. Não deve estar
nessa enfermaria de detenção, mas num dos pátios do hospício. E, encolhida, com os cabelos
esparsos nos travesseiros, a pele ressequida como um pergaminho muito tempo esfregado por
óleos bárbaros, essa infanticida de quinze anos arreganha a face num ricto de angústia como
um cadáver de asteca ao ressurgir à face da terra.
Neste momento, porém, houve um rebuliço. Chegavam os presos da colônia de Dois Rios à
disposição do chefe. Fora ouviam-se os rugidos de um negro abjeto, o Bronze, enleado numa
camisola-de-força, esperneando, espumando. Dois outros adolescentes bem dispostos, de
chinelos novos que sorriam perfeitamente contentes com a sorte, perfilavam-se ao longe entre
os guardas.
Não tivemos tempo de chegar à janela. Pelo corredor vinham vindo três mulheres. Traziam toda
a roupa de zuarte e um lenço cobrindo o crânio pelado. A primeira era magra, magríssima,
tossindo a cada instante, com as mãos em cruz sobre o peito. De vez em quando parava e a sua
face exprimia a horrenda e inexprimível dor de uma agonia sem fim. A segunda, apagada, com
os braços abertos, parecia não sentir mais as pernas. A última, com uma face de burguesa
honesta na miséria, tinha um ventre enorme, um ventre hidrópico, um ventre colossal. Os
guardas iam-nas tocando.
– Eia! pra diante! eia!
As duas primeiras passaram sem ver, com o olhar insensível. A última parou.
Não posso mais. Vim para fazer operação. Oh! o meu martírio! De qualquer forma, sr. guarda,
eu morro, mas deixe-me ao menos morrer quando chegar a hora definitiva.
– Mas esta mulher é inteligente!
– Pois se até ensina a ler.
Aproximei-me:
Ah! meu caro senhor, por piedade, peça ao ministro o meu perdão. três anos que sofro. O
ódio de um inspetor, a falta de amigos e de proteção reduziram-me a este lamentável estado.
Venho da colônia. Não me trataram como uma presa, trataram-me como uma pessoa digna de
piedade. E apesar disso eu estou assim. Perdão para mim!
– E a senhora chama-se?
– Maria José Correia. Fui professora pública. .
Deus misericordioso! Que fatalidade sinistra arremessara aquele pobre ente inteligente,
descendente de uma família honesta, à tropilha de uma colônia correcional? Que destino
inclemente impele na sombra o homem, forma os vagalhões da popularidade, afoga uns, atira
outros às estrelas e emaranha no dissabor e na tristeza a marcha do maior número? A essa
mulher bastara perder o apoio da sociedade, para acabar no horizonte fechado de correcional
todos os sonhos de ambição, todas as idéias felizes que os pais depositaram no seu espírito.
Que lhe servia a visão superior do mundo na cloaca do crime e da luxúria? Que lhe servia ter
ensinado às crianças o amor das coisas dignas, se o seu fim era acabar no eito da colônia,
cavando a terra entre as desordeiras e as perdidas varridas da cidade?
Tomou-se uma espécie de medo, de fobia neurastênica. Recuei.
O guarda dizia:
Deixa de lambança, Maria. Todos te conhecem. Saiba V. S
a
que é popular nos quiosques da
Estrada de Ferro Central. Vai às cinco da manhã, e deixa de beber quando os quiosques
fecham. Antigamente servia-se da barriga para dizer que estava grávida e ser bem tratada na
delegacia. Agora não há mais disso. É uma alcoólica mais malcriada que qualquer outra.
A mulher calou-se. As outras tinham parado e de repente a tísica, a que tinha na face a
expressão horrenda de uma agonia sem fim, caiu de joelhos soluçando.
Se eu tivesse o meu perdão. Nossa Senhora! não morreria aqui! Se eu tivesse o meu perdão,
eu ia morrer sossegada.
Fora o sol enchia todo o pátio de um esplendor de puro líquido.
A MUSA DAS RUAS
A musa das ruas é a musa que viceja nos becos e rebenta nas praças, entre o barulho da
populaça e a ânsia de todas as nevroses, é a musa igualitária, a musa-povo, que desfaz os fatos
mais graves em lundus e cançonetas, é a única sem pretensões porque se renova como a
própria Vida. Se o Brasil é a terra da poesia, a sua grande cidade é o armazém, o ferro-velho, a
aduana, o belchior, o grande empório das formas poéticas. Nesta Cosmópolis, que é o Rio, a
poesia brota nas classes mais heterogêneas. A câmara regurgita de vates, o hospício tem
dúzias de versejadores, as escolas grosas de nefelibatas, a cadeia fornadas de elegíacos. Onde
for o homem estará à sua espera, definitiva e teimosa, a musa. Se tomardes um bonde
modesto, encontrareis o palpite do bicho em verso nas costas do recibo; se entrais nos
tramways de Botafogo, o recibo convida V. Exa numa quadra a ir a Copacabana. Os cafés são
focos de micróbio rítmico, os blocos de folhinha, as balas de estalo, as adivinhações dos
pássaros sábios, as poliantéias, esse curioso gênero de engrossamento tipográfico e indireto, as
tabuletas, os reclamos, os jornais proclamam incessantemente a preocupação poética da
cidade, o anônimo mas formidável anseio de um milhão de almas pelo ritmo, que é a pulsação
arterial da palavra. O verso domina, o verso rege, o verso é o coração da urbs, o verso está em
toda a parte como o resultado absoluto das circunvoluções da cidade. E a musa urbana, a musa
anônima, é como o riso e o soluço, a chalaça e o suspiro dos sem-nome e dos humildes.
A musa urbana! Ela é a canção, começa com os povos na história, e talvez tivesse, como o
homem, a sua pré-história. Contar-lhe a idade é tentar um mergulho intérmino na clássica noite
dos tempos. O primeiro homem, para dar a expressão à idéia, deu-lhe o ritmo; a primeira tribo,
para exprimir os sentimentos mais complexos, descobriu a cadência. A civilização é a apoteose
do verso popular, porque mais nitidamente acentua a facilidade de exprimir da massa ignorante.
Os gregos faziam modinhas a todo o instante e a todo o propósito, e davam para cada uma
denominação especial. Antes de saber ler tinham o sentimento do metro poético, e é o grave
Aristóteles que nos faz sentir esta ridente idéia: canção e lei eram uma mesma palavra entre os
helenos.
A modinha é o instinto bárbaro de independência e de maravilha no homem. Louva aos deuses,
incita à guerra, canta a mesa, chora desejos de carne, e – ó coisa admirável! – foi ela que trouxe
desde Atenas para os superficiais prazeres de civilização esses sons frívolos que nos cafés-
cantantes nos fazem tanto bem, foi ela que modificou a onomatopéia selvagem, no delicioso
tralalá.
Quando a musa anônima inventou o tralalá, jocunda insignificância, mais vasta, mais profunda
que um etc. na conversa de um embaixador, a musa assegurara para todo o sempre a
imortalidade, e vémo-la zurzir os césares em Roma e bajulá-los também; vêmo-la em plena
Idade Média esconder-se nas pedras das catedrais e florir sob as espadas nuas dos cavaleiros;
vêmo-la irradiar pelo universo início de literaturas, semente de grandes idéias, e nos tempos
modernos fazer-se clava destruidora, bomba revolucionária, impondo a fórmula igualdade,
liberdade, fraternidade.
A canção é a sobrevivência alegre de um gênero comprido e lúgubre chamado poema épico,
que entre nós não tem cultores; a musa do povo tem esse aspecto infinito é o contínuo
epítomeda história.
Cada nação moderna pode esquissar séculos da sua vida mental, política e artística, apenas
com uma coleção de cantigas. A Revolução Francesa que todos teimam em considerar a base
do mundo começou por modas satírícas contra Luís XIV, Richelieu e Mazarino, acentuou-se
contra os favoritos de Luís XV, tornou-se brasa, látego, fogo, vergasta quando Maria Antonieta
enfeitara carneirinhos nos prados cuidados, explodiu em quadras e estribilhos que lembram o
embate de cargas de baionetas e afinal concluiu numa canção guerreira, a Marselhesa, que não
se ouve sem se sentir a irresistível emoção do triunfo, da vitória, da apoteose.
As artes são por excelência ciências de luxo. A modinha, a cançoneta, o verso cantado não é
ciência, não é arte pela sua natureza anônima, defeituosa e manca: é como a voz da cidade,
como a expressão de justiceira de uma entidade a que emprestamos a nossa vida colossal
agrupamento, a formidável aglomeração, a urbs, é uma necessidade de alma urbana e
espontânea vibração da calçada. Se quiserdes saber o que pensou o boulevard durante vinte
anos, comprai esses papeluchos de um sou que os camelots vendem. Há desde a história do
Panamá à questão dos cultos, desde a renúncia de Perier até a condenação de Sarah
Bernhardt.
E se os gregos asseguravam que a poesia é um delírio inspirado pelas musas às almas simples
e virgens, se o Evangelho afirma pretender o céu às crianças e aos que lhes parecem por que
teimaremos nós em dizer que a poesia preferiu o nosso cérebro ensanduichado em literaturas
estrangeiras à alma simples do povo ignorante? Os poetas da calçada são as flores de todo o
ano da cidade, são a sua graça anônima, a sua coquetterie, a sua vaidade anônima e sua
sagração porque afinal o próprio Platão, que julgava Homero um envenenador público,
considerava o poeta um ser leve, alado e sagrado.
É exatamente assim a nossa musa urbana. Dispépticos intelectuais, vêmo-la tristemente à
margem da poesia. Que idade tem ela? Tem séculos e parece nascida ontem, passou por todas
as vicissitudes e chalra como uma criança. Conhecem-lhe a origem? Pois decerto.
A musa renovou aqui o símbolo do filho pródigo. Teve pais notáveis, princípios sérios, e viveu no
palácio dos reis, freqüentou os gênios e os salões fidalgos. Mas um belo dia, sem dizer água-
vai, foi-se, degenerou, pintou o sete, embebedou-se, vive pelas alfurjas e chombergas, afina o
violão em sítios escusos, e ó acontecimento! está forte, está sacudida, é a única musa que
não tem cefaléias e não sofre de artritismo. Quem a criou? Gregório de Matos ao norte fez o
lundu; S. Paulo ao sul o viradinho. A fusão dos dois é a alma do Brasil. Logo que a teve assim
com todos seus encantos, Caldas Barbosa, mulato arcadiano, levou-a para Portugal.
A modinha entrou no paço dos reis, ensandeceu os peraltas e as sécias da decadência
rocalhante do XIX século lusitano. As damas fechavam-se nos quartos e respiravam as
endechas com o prazer de uma ação capitosa; os homens eram convidados para tais atos como
hoje se convida para os five o’c/ock onde flirt. O versinho ingênuo e babado delirava os
baldaquins de trono real e a gracilidade das grandes damas. E como resistir? Como lhe
poderiam resistir meridionais da terra do fado? A Modinha era o soluço, era o gemido, era o riso,
era o suspiro ardente da selva ardente. Nem Lord Beckford, um inglês frio e fatalmente de gelo,
como todos os ingleses, pode resistir, e esquenta e derrete. É dele a mais fogosa descrição de
machucado da nossa canção:
"Quem nunca ouviu", diz, "este original gênero de música, ignorará para sempre as mais
feiticeiras melodias que têm existido desde o tempo dos sibaritas. Consistem em lânguidos e
interrompidos compassos, como se faltasse o lego por excesso de enlevo e a alma anelasse
se unir a outra alma idêntica de algum objeto querido."
"Uma ou duas horas correram quase ímperceptivelmente no deleitoso delírio que aquelas notas
de sereia inspiravam, e não foi sem mágoa que eu vi a companhia dispersa e o encanto
desfeito."
Depois os poetas que sabiam ler continuaram a dar o seu prestígio às sibaríticas melodias que
punham Lord Beckford em delírio e em deleite, e nós vemos toda a escola romântica tomar
inconscientemente na maioria dos seus versos a feição melódica, o metro modinheiro; vemos
aquele pernóstico elegante, o Magalhães dos Suspiros Poéticos, escrever em Roma versos que
estão pedindo cavaquinho, gaforinha e unha grande; vemos Castro Alves criar para esse gênero
canções de uma frescura eterna como a Tirana:
Minha Maria é bonita
Tão bonita assim não há
O beija-flor quando passa
Julga ver o manacá
Minha Maria é morena
Como as tardes de verão
Tem as tranças da palmeira
Quando sopra a viração.
E Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias e Bittencourt da Silva, Ezequiel, Melo Morais, a leva dos
ex-acadêmicos atuais conselheiros, e esse estranho Álvares de Azevedo, o único genial do
bando romântico, o único predestinado como os grandes vates, o único que no choro de praxe
desamargurados de estilo tinha o soluço presciente de uma tumba a abrir-se, o único que
conservava no torvelinho das paixões uma alma de rosa cujo perfume desejava o céu, o único
que hoje, amanhã, ninguém lerá sem sentir o soluço, o travo da morte, o ai! das agonias e a
tristeza que nos causa o desaparecer de um astro, o murchar de uma flor, o tombar de um
pássaro cujo breve cantar não passou de uma alegria em torno do próprio ninho...
Ainda um instante, ligando à sua dualidade, arma de dois gumes, sátira e lirismo, a musa foi a
senhora capaz de entrar num salão e se conservar num ambiente respeitável. A sua paixão
porém levou-a a acompanhar Laurindo Rabelo a maus lugares, o Laurindo cigano dos repentes,
cantador emérito, de quem se tem dito tanto mal, tanto bem e tanta mentira. E de repente
quando se falou num salão de modinhas, as damas coraram e os de família mudaram de
conversa, arredando esse assunto fescenino, imoral, prejudicial à pureza do lar. A modinha dera
na gandaia, a modinha era vagabunda, a modinha descera à ralé, integralmente anônima,
desprezada. Melo Morais empresta a sua companhia de homem sério a tamanha bambochata,
precipita-se nas vielas e bodegas para apanhar a história dos mais célebres e mais notáveis
poetas, que ninguém conhece, e traz-nos naquele seu estilo, tão seu, tão complexo, tão bizarro,
esses curiosos períodos:
"No Olimpo das serenatas do tempo, percebemos neste momento desfilar espectralmente,
orvalhados dos relentos daquelas noites, vultos de transcendente nomeada, excelentes rapazes
que passaram neste mundo para deixar lampejos fugazes e duradouras recordações. E foram
eles pelo crisma popular conhecidos por Zuzu Cavaquinho, Lulu do Saco, Manezinho da Cadeia
Nova ou Manezinho da Guitarra, Menino, Vieira Barbeiro, ainda o Caladinho, o lnácio
Ferreira, o Clementino Lisboa, o Rangel, o Saturnino, o Luisinho, Domingos dos Reis, que
desceram para os túmulos, que ora volteio, agitando os ciprestes que os resguardam sob o céu
sem eco das necrópoles."
A modinha tinha por cultores o Manezinho do Saco e o Zuzu Cavaquinho. Pobre modinha!
Hoje, vinte ou trinta anos depois, é ainda mais abundante, mais popular e mais estranha ao
nosso paladar de estética elevada. Cada cançoneta tem uma porção de pais. A musa urbana, a
musa das ruas, que ri dos grandes fatos e canta os seus amores pelas esquinas, nas noites de
luar, a musa é a de todo um milhão de indivíduos. Nessas quadras mancas vivem o patriotismo,
a fé, a pilhéria e o desejo da populaça, desses versos falhos faz-se a sinfonia da cidade,
proteiforme e sentimental. A modinha e a cançoneta nascem de um balanço de rede, de uma
notícia de jornal, de fato do diaassunto geral –, do namoro e da noite assunto particular. Se
em Paris é a rapsódia da miséria e a vergasta irônica, no Rio é a história viva do carioca, a
evoluir na calçada, romântico, gozador e peralta. A gargalhada da rua faz-se de uma porção de
risos, o soluço da paixão de muitos soluços – a musa é policroma, reflete a população confusa e
babélica tal qual ela é. se não encontram modinhas com a beleza de forma do Talvez não
creias.
Talvez não creias que por ti sou louco
Tens feito pouco porque tu és má
Talvez duvides, mas, donzela, eu juro
Que amor tão puro como o meu não há.
Ou com a graça meio infantil no Tipe-ti:
Coração, que tens com Lília?
Desde que seus olhos vi
Pulas e bates no peito
Tape, tepi, tipi, ti
Coração, não gostes dela
Que ela não gosta de ti.
Os grandes poetas não fazem mais versos para toda gente – o nível intelectual da classe média
subiu assim como a proporção geométrica da sua pretensão, e os vates são parnasianos, são
simbolistas, procuram a forma sensível e a essência oculta.
Em compensação brotam na calçada, como cogumelos, os bardos ocasionais da sátira e da
paixão; e, varejando botequins e ruelas de Suburra outros Zuzus vamos encontrar em pleno
triunfo. Esses vates têm uma só preocupação séria – cantar. Cantam como as cigarras e o canto
dá-lhes para viver no eterno verão desta terra abundante. Quando não dinheiro, inventam
para uma certa sica conhecida os versos do Ferramenta ou Sobe ou Arrebenta, O Roca da
Rua da Carioca, a cantiga Ah! se Fosses Minha, mandam imprimir e vendem tudo por dois
tostões. Admiram-se que eles imprimam e, o que é mais, esgotem edições, milheiros e milheiros
de exemplares? Pois imprimem como qualquer poeta. Apenas eles vendem, e a maioria dos
poetas oferece grátis aos amigos...
Mas os poetas da calçada não imprimem e vendem só. O espírito prático é, evidentemente, um
progresso. Eles, entretanto, progrediram mais. trinta anos o bardo tinha uma gaforinha
oleada e uma unha desapareceram. Ao começo, logo que a musa caiu na populaça, resolvida
a não voltar jamais aos salões, os versos à margem da poesia eram ainda uma qualidade
especial de certo grupo limitado. Hoje a musa é de todo o gênero, o bardo deixou de ser um tipo
porque todos cantam, e a sua história, que ninguém quer saber, é um conjunto de elementos
para a análise da vida urbana.
A musa tem preferidos e tem estetas, tem críticos. Como chovesse muito um dia, acolheu-se a
um desvão de porta. Dentro bebiam. Para beber também, ela cantou, e criou-se o cabaret
nacional, esses estabelecimentos inéditos chamados chopps. Quando o chopp percebeu que
perdia a graça sem ela, a musa da calçada tinha invertido o seu sistema romântico. Outrora ela
bebia para cantar. Agora canta para beber. A indústria, o interesse, o lucro, o lucro, essa
miragem que tanto faz progredir os povos como as literaturas, propagou-a, espalhou-a, tornou-a
torrencial. A musa delira hoje numa ndega infrene, de bodega em bodega, de chopp em
chopp, de tablado em tablado. Nesse turbilhão de bardos e de cantares surgiam alguns mais
dados à evidência o Geraldo, o Eduardo das Neves, o esteta Catulo da Paixão Cearense! O
Geraldo deitou elegância e botinas de polimento; o Eduardo das Neves tinha bombeiro, antes de
ser notável. Quando foi número de music-hall, perdeu a tramontana e andava de smoking azul e
chapéu de seda. A sua fantasia foi mais longe: chegou a publicar um livro intitulado Trovador da
Malandragem, e esse Trovador tem um prefácio cheio de cólera contra pessoas que duvidam da
autoria das suas obras.
"Por que duvidais, diz ele, isto é, não acreditais quando aparece qualquer choro, qualquer
composição minha que cai no goto do público e é decorada, por toda a gente e em toda a parte,
desde nobres salões até pelas esquinas nas horas mortas da noite?"
Ninguém ouviu os choros do Sr. Eduardo nos salões fidalgos mas o Sr. Eduardo tem essa
convicção definitiva, além de muitas outras. Depois de cantar algumas intimidades da sua vida,
chegou mesmo, num lundu intitulado O crioulo, a desvendar o mistério de uma senhora
loucamente apaixonada pela sua voz. No final do negócio a dama murmura:
Diga-me ao menos
Como se chama
E ele, complacente:
Sou o crioulo
Dudu das Neves
Dudu, entretanto canta apenas as suas obras. um outro sujeito, chamado Baiano, que sabe
de cor mais de mil modinhas, e para o qual trabalham a oito mil réis por número, meia dúzia de
poetas que nunca saíram nos suplementos dominicais dos jornais. E se baiano tem essa
prodigiosa memória, o Sr. Catulo, último trovador velho-gênero, é o esteta da trova popular.-
lo recitar O Poeta e a Fidalga, com um copo de chopp na mão, é um desses espetáculos de
brasserie inesquecível. Catulo emaranhou-se no dogma da moda, corrigiu os versos de tudo
quanto era quadra, estudou Bellini, Donnizetti, Verdi, adaptou os nossos versos a trechos de
óperas e, finalmente, compôs traduções livres de Leconte de Lisle para serem recitadas ao
piano! no prefácio da Lira dos Salões, o livro em que se encontra Leconte no pelourinho do
recitativo, a estética fundamental da modinha:
"Julgo difícil, diz ele, e escabroso o trabalho de escrever poesias para adaptar a músicas que
preexistem de muito, e com extrema razão quando essas composições musicais foram
escritas por quem nunca presumiu que elas fossem sacrificadas, isto é, cantadas com letras."
"Canto valsas, schottischs, mazurcas, polcas, romances, árias de óperas, e cheguei ao
esquisitismo de cantar até uma quadrilha inteira."
E mais adiante, no mesmo tom, depois dessa coisa espantosa e pernóstica:
"Vós me pedis, suponde, que eu faça a poesia para certa música. Crede que eu, imediatamente,
sem mais reflexão, empunhe a pluma e a vaze no papel? Não. Há algumas dessas músicas que
me fazem levar horas inteiras a interpretar-lhes os sentimentos, os queixumes, as goas de
que sofrem os seus autores."
"Leitor! ascende a tal culminância o orgulho que tenho de saber poetar para o canto que, sem
acanhamento, teria o desaforo de vos dizer que o dia em que um competente me dissesse: esta
ou aquela frase não foi bem adaptada, não diz o que diz a música, está incolor, esse dia seria o
último da minha vida, porque ou suicidar-me-ia ou sucumbiria de pesar por ver aquele meu
orgulho destronado."
Catulo, hiperestesia da musa urbana, é, apesar de tanta trapalhada, capaz de fazer célebres
vários poetas, quase desconhecido e vive à margem da poesia, poeta da musa anônima, poeta
da calçada...
Porque a musa não se rala com a interpretação de partituras.
Basta-lhe o fato, o sucesso do dia, três gotas de paixão e um violão. Vibra acordes patrióticos, a
dúvida, o desejo, e é o necessário para ser compreendida.
A característica principal dos poetas da calçada é o patriotismo, mas um patriotismo muito
diverso do nosso e mesmo do da populaça –é o amor da pátria escoimado de ódios, o amor
jacobino, o amor esterilizado para os de casa e virulento para os de fora. O homem do povo é no
Brasil discursadoramente patriota. A sua questão principal é o Brasil melhor do que qualquer
outro país. O sucesso e a popularidade de Santos Dumont são devidos menos aos seus
trabalhos de aviação que ao ter causado a admiraçâo de Paris. Para o patriota ele não se fez
admirado – dominou. A popularíssima cançoneta do Beranger das Neves é um atestado:
A Europa curvou-se ante o Brasil
E aclamou parabéns em meigo tom
Brilhou lá no céu mais uma estrela
Apareceu Santos Dumont.
pelo menos duas tolices em tal moxinifada. O music hall ficava, entretanto, apinhado de
jovens soldados, de marinheiros, de mocinhos patriotas; e eu hei de lembrar sempre certa vez
em que, passando pelo café-cantante, ouvi o barulho da apoteose e entrei. Estava o Dudu das
Neves, suado, com a cara de piche a evidenciar trinta e dois dentes de uma alvura admirável, no
meio do palco e em todas as outras dependências do teatros a turba aclamava. O negro
estava sem voz.
Assinalou para sempre o século vinte
O herói que assombrou o mundo inteiro
Mais alto que as nuvens, quase Deus
É Santos Dumont um brasileiro
E após essa rajada de hipérboles ao Dumont que todos nós conhecemos, sportman, elegante,
acionista da Mogiana, bem homem da sua época, eu vi no estridor das aclamações Fausto
Cardoso, poeta, político, patriota, agitar freneticamente um lenço, pálido de emoção... Era a
vitória da calçada, era a poesia alma de todos nós, era o sentimento que brota entre os
paralelepípedos com a seiva e a vida da pátria. Esse patriotismo é a nota persistente dos poetas
sem nome, patriotismo que quer dominar o estrangeiro e jamais exibe, como exibem os
jornalistas, a infâmia dos políticos e as fraquezas dos partidos. A musa urbana enaltece sempre
os seus homens e quando odeia oculta o ódio para não o mostrar aos de fora. Todos os
episódios da revolta foram postos em verso. Floriano tem entre outras aquela quadra:
Quando ele apareceu, altivo e sobranceiro
Valente como as armas, beijando o pavilhão
A pátria suspirou dizendo: ele é o guerreiro
É marechal de ferro, escudo da nação.
É de imaginar por que a pátria suspirosa tinha medo das granadas e odiava Saldanha? Pois
não! Saldanha também tem quadras em que se canta o seu valor épico. Na guerra de Canudos
os garotos diziam a propósito do Conselheiro
Quem será esse selvagem
Esse vulgo santarrão
Que encoberto de coragem
Fere luta no sertão?
para cantar em estilo majestático a morte de Moreira César. A musa tem dignidade a quantos
jornais ensinaria ela! Basta que o sangue apareça para que a vejamos soluçar.
5 de novembro
Data fatal
Em que deu-se a morte
Desse marechal...
Basta que alguém suba para que ela aplauda. Por quê? Porque, além de chorosa, além de
digna, ela também recebeu o vírus que corrompe as camadas superiores, o vírus do
engrossamento. Apenas nela é espontâneo e sem lucro. É o patriotismo bizarro.
A polícia proíbe as agressões às autoridades. Furcy seria um mito na Maison Moderne,
impossível em qualquer brasserie.
O povo, porém, que, como se sabe, é sempre oposicionista, decorou a canção dos presidentes:
1º de março
Foi o dia da eleição,
Foi eleito o Campos Sales
Presidente da nação.
Parabéns ao novo chefe,
Seus passos serão leais,
Como foram os do nosso
Bom Prudente de Morais.
Era bom Floriano, era bom Prudente, foi bom Campos Sales, são bons Rodrigues Alves e o
conselheiro Afonso Pena! Um outro versinho diz:
Mostrou que o Brasil não dorme
Da presidência o bom paulista
E se quer que o mineiro informe
Com ele é tudo fogo, lingüiça!
A musa acaba até com a fama antiga, e se não faz versos diz verdades. Qual de vós teria a
coragem de conservar quand même essa atitude de bondade para com todos os políticos? Esse
esquisito sentimento dos poetas da calçada tem uma seqüência lógica o jacobinismo
pândego, a crítica acerba, toda de alto, com desprezo das coisas estrangeiras. A guerra
hispano-americana foi motivo de um milheiro de cançonetas. Todas afinam por este diapasão:
La Union Española
Lembrou-se de oferecer
Passagens a seus súditos
Para a pátria defender.
Mas eles, que nem lá vão,
Passam cá vida folgada
Quase todos pelotaris
Nos boliches, nas touradas.
Quando por acaso o capadócio ama uma estrangeira, confessa, mas arreliando o seu bem:
Tomei amores com uma argentina
Outro melhor jamais vi no mundo
É terno, gringo, profundo
É também das mais sensuais.
E a volubilidade, a despreocupação, a ironia complacente do malandro nacional exterioriza-se
nas canções resultantes de grandes agitações como as causadas pela lei do selo, a reforma da
higiene, a vacina obrigatória. A musa não se encoleriza, ri. O selo fez compreender ao
malandro que os fornecedores podiam ser multados:
Sapateiro já não pode
Bater sola sossegado
Se não selar as botinas.
Catrapuz! está multado.
Uma das canções mais populares sobre a peste bubônica tem este estribilho:
Os ratos fazem qui, qui, qui,
Qui, qui, qui, qui, qui
As pulgas pulam daqui
Pra ali, dali praqui, daqui prali
Os gatos fazem miau
Miau, miau, miau
Quem inventou a peste bubônica
Merece muito pau.
E a vacina obrigatória, que quase apeia o governo do conselheiro Alves, deu uma infinita série
de quadras livres. Patriota, jacobino, pândego, o atual bardo da calçada gosta exatamente
dessas tolices fesceninas é a tara da modinha desde Gregório de Matos gosta mesmo de
rimar sandices, assim como se , abandonado à margem da poesia, mas todos esses
sentimentos se fundem na sua extrema liberdade, e o bardo abre o coração como uma represa
de lirismo.
Oh! o lirismo das modinhas! Como é possível na miséria da urbs, no pó, na secura, na sujeira
das vielas sórdidas, nas escuras alcovas das hospedarias reles, vibrar tamanha luz de poesia?
O lirismo é uma torrente, uma catadupa a escachoar espumante entre as idéias dos bardos.
Todos os estilos da veia lírica do povo soluçam e choram nas calçadas. Não é possível deixar
de sentir uma infinita amargura, quando nos becos sórdidos, à porta de miseráveis casas, os
soldados consentem que os trovadores cantem, loucos de amor, a pureza da mulher transviada.
Virgem casta eu já fui como tu
Já vivi como os anjos no céu
Esta fronte que vês humilhada
Foi coberta de cândido véu.
Essa idéia lírica e adquirida, idéia datando dos conselheiros românticos e da Dama das
Camélias, não desaparece nunca é a roca em que a musa fia o sentimento nas ruas. os
modinheiros perdem-se num estuário de amor. Tudo é paixão. Há o amor trágico:
É meia-noite; o triste bronze chora
A lua oculta numa nuvem escura.
Calou-se a flauta numa longa queixa
O pobre louco morreu de amargura!
o irônico:
Zombaste, mulher com riso de escárnio
De pobre artista todo fogo e ardor
Amava-o, dizias, julgando talvez
Que do mundo fosse algum rico senhor.
o lírico:
Amo-te, ó virgem, como ama o nauta
À luz da estrela que lhe guia o lar...
o desconsolado:
Nem toda a árvore dá fruta
Nem toda a erva dá flor
Nem toda a mulher bonita
Pode dar constante amor.
ou ainda mais desconsolado:
Perdão, Emília, mas chorar não posso
o triste:
Quisera amar-te mas não posso, Elvira.
Porque gelado tenho o peito meu
o zangado:
A mulher é diabo de saias
Que nasceu para os homens tentar.
É perversa, é maldosa e tem lábia
Que nos faz a cabeça girar.
o idílico:
Chiquinha, se eu te pedisse
De modo que ninguém visse
Um beijo, tu mo negavas?
Ai dava! eu dava...
Idílio que bem se podia comparar às mimas de Herondas, se não fosse a calçada o seu autor...
Todos os tangos, os sambas, os lundus em que se canta a mulata:
É quitute saboroso
É melhor que vatapá
É néctar delicioso
É bom como não
os acanalhadamente amorosos:
Gosto de ti, porque gosto
Porque meu gosto é gostar
Mas tu de mim não te lembras
Por que me fazes penar?
o descritivo:
Numa conchinha de prata
Navegavam dois amantes
Beijando-se docemente
Ao som de magos descantes.
o trocista:
O amor da mulher é cachaça
Que se bebe por frio e calor
O amor da mulher é chalaça
E’ cantiga de mau trovador.
até o ideal:
Poesia, era esse o nome
Dessa mulher ideal
E amando-a sem ser poeta
Fui louco, pequei, fiz mal.
O amor proteiforme, o eterno amor feito de soluços e risos, que Tennyson dizia senhor da vida e
senhor da morte.
nessas modinhas e nessas cançonetas, de par com a paixão, a tristeza e a troça, um milhão
de erros de gramática e de metrificação. O verso é quase ignorado pelo trovadores ocasionais.
Mas que lhes importa isso, se não se importam com a honra, o bem-estar, a glória? Os poetas
não têm versos, têm cavaquinhos, violões e a voz para dobrar e quebrar os nossos nervos. Ao
povo basta a cadência, o som sugestionador que chega a atrair os crocodilos. Uma história sem
sentido como esta
Bolim bolacho, bole em cima,
Bolim bolacho por causa do bole embaixo
Quem não come da castanha caruru
Não percebe do caju
Quem não come do caju
Não percebe do fubá
entusiasma fatalmente os auditórios. Eles, os trovadores, tenham ou não alegria, acham que
tudo tem compensação até na morte:
Vai o pobre para a cova
E o rico para a carneira
Mas ao fim de cinco anos
Ao abrir a salgadeira
Quer do pobre, quer do rico
Há só ossos e caveira.
A despreocupação dessa gente parece viver com uma estranha verdade no lundu popular:
Eu vivo triste como sapo na lagoa
Cantando triste, escondido pelas matas.
Para ver se endireito a minha vida
Vou deixar das malditas serenatas.
O meu nome na Gazeta de Notícias
Ainda hoje eu vi bem declarado:
Ontem, à noite foi preso um vagabundo...
Vagabundo sim! A musa da cidade, a musa constante e anônima, que tange todas as cordas da
vida e é como a alma da multidão, a musa triste é vagabunda, é livre, é pobre, é humilde. E por
isso todos lhe sofrem a ingente fascinação, por isso a voz de um vagabundo, nas noites de luar,
enche de grimas os olhos dos mais frios, por isso ninguém que não a ame flor de ideal
nascida nas sarjetas, sonho perpétuo da cidade à margem da poesia, riso e lágrima, poesia da
encantadora alma das ruas!...
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