À porta da detenção, o movimento torna-se cada vez mais difícil e o rumor cresce. Vista de fora,
na semi-sombra, a multidão tem um aspecto estranho e uniforme, parece um quadro
violentamente espatulado pela mesma mão delirante. Os olhos raiados de sangue, alegres ou
chorosos, têm um mesmo desejo – entrar; os corpos, corpos de mulheres, frágeis corpos de
crianças, corpos musculosos de homens, uma só vontade – forçar a entrada; e todos os gestos,
lentos, dificultosos, presos em encontrões de rancor, exprimem o mesmo anelo, que é o de
entrar.
Há pragas, frases violentas, mãos que se agarram às roupas de outros, interjeições furiosas; e
de dentro, do mistério do pátio da prisão, vem um clamor formidável e indistinto, que aquece e
fustiga ainda mais o desejo de entrar e de ver. O porteiro, um senhor velho de cavaignac branco,
distribui os cartões irritado e a suar.
– Não deixem passar sem cartão! Não entra ninguém sem cartão!
E os cartões, sebentos, passam das mãos dos guardas para mãos sôfregas dos visitantes,
enquanto na porta de ferro, desesperadamente os que os obtiveram antes procuram entrar
todos a um tempo. Um cheiro especial, misto de fartum de negros e de perfumes baratos, de
suores de mulheres e de roupa suja, enerva, dá-nos visões de pesadelo, crispações de raiva.
Dentro, o pátio está limpo de serventes. Das janelas da secretaria, alguns funcionários deitam
olhares distraídos. Duas filas de criaturas parece ligarem a porta de ferro aos dois portões das
galerias. E nessas galerias o espetáculo é medonho. Dias antes, os presos contam as horas, à
espera desse instante. Uns querem matar saudades, outros contam com os amigos para
mandar vender as suas obras – flores de pão, couraçados de pau; outros escreveram toda a
noite cartas anônimas ao chefe de polícia, denunciando companheiros ou inimigos, e anseiam
por alguém para as pôr no correio; e todos, absolutamente todos, acicateados pelo egoísmo,
esperam os presentes, o fumo, o dinheiro, as prendas, como uma obrigação dos que os vão ver.
Os dois portões fecham-se antes de se abrirem os cubículos, e no corredor da grande galeria é
um alarido, um desespero de jaula, com gritos, imprecações gargalhadas, perguntas, risos, o
pandemônio das vozes, enquanto, como uma matilha de lobos, acuada, agarrando-se aos
grossos varões, uns por cima outros, os assassinos, os incendiários, os estupradores, os
desordeiros e os inocentes obrigados à infâmia numa confusão, arquejam na ânsia da liberdade.
De fora, os visitantes não chegam às vezes a se fazer compreender, esmagados uns nos outros,
irritados, sem poder apertar a mão dos amigos. São em geral homens de lenço de seda preta e
chapéu mole, adolescentes arrastando as chinelas, mulheres perdidas, velhos trêmulos. No
alarido, ouvem-se frases breves – Ó Juca, trouxeste os cigarros? – Ai, meu filho, que saudades
do nosso tempo de cubículo! – Sabes quem foi preso ontem? – Vê se me arranjas um habeas
com o Benjamim! – Estou aqui já há um mês e três dias! Fala por mim a seu Irineu! Algumas
dessas palavras são vociferadas de longe. Os que tiveram a felicidade de chegar primeiro unem
as mãos entre os ferros, falam devagar. Há amantes trêmulas, vendo o ciúme nos olhos dos
detentos, há pobres esposas, há crianças e há velhos respeitáveis com a face triste, todos os
sentimentos escachoando, borbulhando, barulhando naquele vórtice de desgraça.
Na outra galeria estão as mulheres. Essas só são visitadas por homens, os mesmos sujeitos de
lencinho preto e calça balão, que às vezes visitam num só dia quatro e cinco amigos na
detenção. As conversas são mais calmas. Algumas estão lá por causa dos que as visitam, por
ciúme e pancadas. Têm quase todas esse sorriso estereotipado de resignação e amargura, dos
infelizes que ainda não mediram a extensão da própria infâmia. Do outro lado, os homens
parece estarem ali por obrigação. Só um eu vi, menino ainda, magro, tísico, com um olho
afundado em pus, que segurava, como para se aquecer, a mão de uma pequena mulatinha. Ela
conversava com outro, sem lhe dar atenção. Afinal, teve um sorriso de piedade.