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ESCOLA HOJE
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Presidente da República Federativa do Brasil
Fernando Henrique Cardoso
Ministro da Educação e do Desporto
Paulo Renato Souza
Secretário-Executivo
Luciano Oliva Patrício
SUPERVISÃO TÉCNICA
Secretaria de Educação à Distância
Secretário
Pedro Paulo Popovic
Departamento de Inovações Educacionais
Diretora
Mindé Bauday de Menezes
Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais- INEP
Diretor Executivo
Og Roberto Dória
PROJETO TV ESCOLA
Ministério da Educação e do Desporto
Secretaria de Comunicação Social da
Presidência da República
Fundação Roquette Pinto
CONSULTORES
Coordenação geral Isa
Grinspum Ferraz
Autoria Professora
Marília Batista Cançado
Criação gráfica
Victor Nosek
Editoração eletrônica
Peter Kompier
Revisão João
Batista César
APOIO FINANCEIRO E DISTRIBUIÇÃO
Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais - INEP
Campus da UnB - Acesso Sul - Asa Norte
70910-900-Brasília-DF
FAX: (061) 273 3233
TELEX 612459 IPEQ BR
Este caderno complementa as séries da programação da TV Escola.
Informações: Tel.:
0800 61 6161
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO......................................................................... ..............................5
A DIRETORA- ............................................................................................................7
AS DIVERSAS DIMENSÕES DO TRABALHO ESCOLAR -
IDENTIFICANDO O EIXO CENTRAL DA ESCOLA........................................... ........12
COMO FAZER TUDO AO MESMO TEMPO E UMA COISA DE CADA VEZ............17
A REUNO COM OS SEGMENTOS........................................................................21
A REUNO GERAL .................................................................................................28
RESOLVENDO OS PROBLEMAS COLETIVAMENTE................................................34
A MAIOR VIRTUDE, A PACIÊNCIA..........................................................................40
O GRUPO DE REPRESENTANTES..............................................................................46
ACREDITAR NAS CRIANÇAS...................................................................................53
A REPROVAÇÃO.....................................................................................................60
A INDISCIPLINA .......................................................................................................67
ESCOLA E SOCIEDADE...........................................................................................74
O GRANDE PROJETO .............................................................................................81
ENTREVISTANDO EDUCADORES -I...........................................................................87
ENTREVISTANDO EDUCADORES - ll.........................................................................91
BIBLIOGRAFIA..........................................................................................................94
APRESENTAÇÃO
Para analisar questões relativas à gestão escolar, vamos recorrer ao auxílio de
uma pequena estória de ficção
1
contada em 13 capítulos seqüenciais. Nessa
estória são apresentadas duas personagens centrais: D. Dirce, a diretora, e
Zezé, sua secretária. D. Dirce é uma diretora tradicional, séria, consciente de
suas responsabilidades, pessoa esforçada, que aparenta uma prontidão que
nem sempre tem. Diretora já há alguns anos, queixa-se sempre da sobrecarga
de trabalho. Compartilha sua sala com Zezé, pessoa de origem humilde, que
quase não fala, mas surpreende com atitudes inesperadas, observações
inteligentes e sarcásticas.
Diante dos diversos problemas e conflitos vividos pela escola, D. Dirce e
Zezé, imbuídas de um verdadeiro desejo de mudança, passam a coordenar
um processo de transformação que caminha no sentido de construção de uma
escola competente. Nesse processo, a diretora e todos na escola repensam
valores e procedimentos, redescobrindo o papel da escola e suas verdadeiras
funções.
O recurso à ficção é uma tentativa de tornar uma compreensão mais clara da
mensagem que se quer transmitir, sem prejuízo do rigor analítico. Três
objetivos centrais são almejados:
facilitar a identificação de diretores e professores com determinados
comportamentos que têm se mostrado ineficazes para a transformação da
escola;
contribuir para uma compreensão dos pensamentos e das crenças que
estão nas origens de tais comportamentos;
contribuir para a elaboração de novos conceitos e novos comportamentos
que possam auxiliar diretores e professores em sua busca de construção
de uma escola competente.
Tanto a estória de ficção, quanto as questões temáticas que busca retratar,
têm raízes em experiências reais de profissionais de diversas escolas públicas
do país. São experiências ricas que falam das dificuldades, dos esforços e das
alternativas possíveis para a transformação da
escola pública, em sua busca de uma educação eficaz. Buscou-se aqui
retratar essas experiências através de temas que possibilitem repensar e
reconstruir valores, conceitos e comportamentos.
As experiências de gestão escolar são bastante diversificadas. Em vista
disso, buscou-se ainda tratar de situações que pudessem atender às
necessidades das diferentes escolas, das mais conservadoras às mais
avançadas, na perspectiva do trabalho coletivo e das condições de trabalho.
Os temas são do cotidiano. Esse cotidiano aparentemente simples, mas onde
as grandes propostas se esbarram.
A DIRETORA
A ESCOLA
Essa estória se passa em uma escola pública que, como tantas outras,
experimenta dificuldades profundas. As dificuldades aí encontradas são
conhecidas por quase todas as escolas públicas brasileiras. Afinal qual escola
não convive ou não conviveu com problemas como a falta de merenda e de
professor, reclamações de pais, demandas de secretarias e de políticos,
indisciplina, torneiras estragadas, lâmpadas queimadas, reprovação, dentre
tantos outros?
Sabemos que em alguns estados do país certos problemas já foram superados
graças ao trabalho conjunto de escola, comunidade e secretarias de
Educação. Mas em diversos outros, apesar das tentativas de diretores, pais e
professores, persistem problemas básicos como a falta de merenda e de
pessoal e o atraso no pagamento de salários. Também é grande o número de
escolas que vivem problemas fundamentais de infra-estrutura física, para não
dizer do essencial, que é a questão da aprendizagem e o problema da
reprovação.
Na escola de nossa estória, todas essas dificuldades encontram-se presentes,
avolumando-se em torno da figura da diretora. São tantos os problemas, as
queixas e as solicitações à ela dirigidas, que D. Dirce acaba por sentir-se
completamente aturdida. Mas, por que tanta sobrecarga de trabalho? Quem
lhe impõe isso? Uma escola assim, onde tudo vai parar nas mãos da diretora,
revela que tipo de postura ou comportamento do dirigente? E qual é a
responsabilidade da diretora nessa sobrecarga de trabalho de que tanto se
queixa?
Retratar um dia de trabalho da diretora pode nos auxiliar a compreender
melhor as questões acima.
LUZ E CÂMARA - D. DIRCE ENTRA EM AÇÃO
Enquanto tenta fechar o quadro de reprovação da escola, cobrado com
urgência pela Secretaria de Educação, D. Dirce vê-se interrompida a cada
instante. É a merenda que faltou, o professor que não veio, a mãe
reclamando, o político pressionando, a lâmpada que queimou, a tor-
neira que quebrou, o aluno levado ao gabinete pela professora. Dividida
entre fechar o quadro de reprovação e atender a todas as solicitações, D.
Dirce toma atitudes nem sempre comuns ao cotidiano da diretora: fecha a
porta do gabinete para ter mais tranqüilidade no trabalho, adia o atendimento
da mãe, dispensa a turma em que faltou a professora. Mas, mesmo assim,
não consegue concluir o trabalho iniciado. A cada minuto aparece um novo
problema para resolver. D. Dirce não tem sossego. Mães, professores,
funcionários, políticos, Secretaria, todos dirigem-se à ela. Afinal, é preciso
resolver os problemas da escola. Pressionada por tantas dificuldades, D.
Dirce desespera-se: "EU VOU FICAR LOUCA" é o grito que emite sob o
olhar perspicaz de Zezé, sua secretária.
CARREGANDO A ESCOLA NAS COSTAS -O
ESFORÇO CENTRALIZADOR
A forma como os problemas apresentam-se para D. Dirce revela o seu estilo
tradicional e centralizador de administrar a escola. A sobrecarga deve-se, em
boa parte, à centralização excessiva. Todos os problemas são por ela
absorvidos e há uma expectativa de toda a escola no sentido de ser ela a
única responsável pela resolução dos mesmos.
Alimentando essa imagem, D. Dirce vai abarcando tudo. Mas quem
centraliza, carrega, o peso sozinho. E nem sempre consegue segurar a carga
que impõe a si mesmo. O desespero de D. Dirce é sinal disso. Mas, se a
centralização é tão desgastante, por que D. Dirce age assim? Onde e com
quem aprendeu a centralizar?
CENTRALIZAÇÃO - UMA APRENDIZAGEM HISTÓRICA
A centralização é uma forma de gestão que revela uma expectativa clara não
só da diretora mas de todos na escola em relação ao seu papel de única
responsável pelos problemas existentes. Tal expectativa é encontrada em
diversas escolas do País, e isso possui algumas razões. Uma delas é a forma
autoritária de governar que vigorou durante anos no Brasil, criando uma
relação entre governantes e governados bastante centralizadora. Impedida de
participar e de colaborar, a população foi, com o tempo, desaprendendo
coisas importantes como a própria participação e o exercício da autonomia.
A escola vai fazer igual ao país. Como o governo, também o diretor passa a
centralizar e tomar as decisões sozinho, excluindo pais, professores,
funcionários e alunos da participação.
Esses segmentos, por sua vez, acabam por atribuir ao dirigente o direito e a
responsabilidade de responder por tudo sozinho. E quando tentam fazer
diferente, encontram em atitudes solitárias ou esforços individuais a saída
para uma vontade de participar, o que nem sempre dá os resultados
esperados.
Há alguns anos que a sociedade brasileira vem transformando-se, buscando
romper com o modo centralizador de governar. Mas os valores autoritários
por nós aprendidos e incorporados modificam-se a passos lentos. Esses
valores apresentam-se no cotidiano da escola como se fossem algo natural e
até mesmo desejável. Muitas diretoras, como D. Dirce, não compreendem o
que pode haver de errado no fato de centralizar. Por um lado, isso ocorre
devido à falta de clareza sobre a influência exercida pelo modelo político
autoritário que vigorou durante anos. Por outro, há também a falta de clareza
sobre a função do diretor em uma escola pública. Afinal, é conveniente e até
mesmo correto que a diretora tenha conhecimento de todos os problemas da
escola. E também sua função buscar resolvê-los da melhor forma possível.
Então, o que há de errado em centralizar? Mas, será que carregando a escola
nas costas, ou seja, centralizando, D. Dirce estará realmente conhecendo e
resolvendo os problemas?
ADMINISTRANDO PROBLEMAS - MANUTENÇÃO X SUPERAÇÃO
Mesmo fazendo tudo certo conforme o modelo centralizador, alguma coisa
não funciona bem. Há anos que D. Dirce esforça-se sozinha para dar conta
de tudo. E há anos que depara-se com a permanência dos mesmos problemas.
O que acontece é que a forma como interage com eles não vem dando muito
resultado. Por exemplo, ir para à sala de aula ou dispensar os alunos cujo
professor não veio, não resolve o problema da falta de professor. Ficar com o
aluno no gabinete não resolve o problema da indisciplina. Fechar o quadro
de reprovação com esmero e pontualidade não resolve o problema da
aprendizagem. Atender ou não o pedido
do político não resolve o problema de vagas.
Mas podemos, com o exemplo de D. Dirce, aprender algumas coisas.
Interagindo com os problemas de forma centralizadora, D. Dirce está, na
verdade, fazendo basicamente duas coisas:
a- apagando fogo (ou a falsa superação dos problemas);
b- ocupando o lugar do outro (o trabalho deseducativo).
Tudo isso vai ter conseqüências para D. Dirce e a escola. Vamos tentar
analisar uma de cada vez.
a- Apagando fogo
Um primeiro engano que pode surgir na forma centralizada de dirigir a
escola é confundir o ato de "apagar fogo" com a superação de problemas.
Enquanto estiver apagando fogo, a diretora mantém a escola em um ritmo de
funcionamento que apenas conserva o que existe, mas não transforma. E não
transforma porque intervém nos problemas de forma superficial e provisória,
reprimindo momentaneamente a sua manifestação. Por exemplo, ficar com o
Zé Carlos no gabinete e dar uma bronca nele "apaga" provisoriamente o
"fogo" do Zé Carlos e da professora. No entanto, deixa intacto o problema da
indisciplina, pois não atua no cerne da questão, que é a relação professor-
aluno. Hoje é o Zé Carlos, amanhã é o Pedro, depois a Izabel e assim por
diante. Esse procedimento gera desgaste na diretora e na escola como um
todo. Desgaste porque é todo um esforço que não dá resultados concretos,
frustando os educadores em sua vontade de ver verdadeiramente resolvidos
os problemas educativos.
b- Ocupando o lugar do outro - (ou o trabalho deseducativo)
Ao tentar resolver sozinha questões como a falta da professora e a
indisciplina, D. Dirce, necessariamente, mantém com elas um contato
superficial. Sozinha, a diretora pode resolver problemas de torneira quebrada
e lâmpada queimada. Mas em situações onde as dificuldades existentes
nascem de uma relação entre pessoas, é necessário a participação de todos os
envolvidos. E isto que possibilitará sair de um tratamento superficial em
direção à um entendimento mais profundo dos problemas, o que trará a
possibilidade de sua real superação.
Buscando resolver sozinha os problemas, D. Dirce, apesar de toda a sua
boa vontade, não só sobrecarrega-se como impede que os educadores, pais e
alunos, assumam suas próprias responsabilidades.
Tirar das pessoas a responsabilidade que têm, pelo bem estar de um espaço
que é comum a todos, é um ato que deseduca não só a criança mas o próprio
adulto. Isso impede que as pessoas cresçam, tenham autonomia, cumpram
suas funções e seus deveres. Contribui ainda para reforçar a ilusão de que
ela, diretora, é a única responsável pelos problemas existentes.
QUAL É, AFINAL, O PAPEL DO DIRETOR?
Uma atitude D. Dirce terá que tomar. Ficar louca não é a solução nem para
ela, nem para a escola. As conseqüências da centralização são indesejáveis,
prejudiciais e devem ser evitadas: sobrecarga de trabalho, dificuldades em
concluir tarefas iniciadas, desgaste físico e emocional, manutenção dos
problemas e tratamento superficial dos mesmos, reforço de uma relação de
dependência, criação do desinteresse, reforço do individualismo. Com
certeza D. Dirce encontrará um caminho que vai ao encontro do real
cumprimento de sua função. Para isto basta querer. Vamos ver como fará.
AS DIVERSAS DIMENSÕES DO
TRABALHO ESCOLAR - IDENTIFICANDO
O EIXO CENTRAL DA ESCOLA
SAINDO DO CAOS - D. DIRCE DÁ OS PRIMEIROS PASSOS
Diante de tantos problemas e ciente do próprio desgaste, D. Dirce percebe a
necessidade de realizar mudanças. Ainda sem ter muita clareza sobre o
melhor caminho a ser seguido, aventura uns primeiros passos em direção à
um novo procedimento.
É assim que, após o grito de desabafo, D. Dirce procura acalmar-se. De
cabeça baixa, olhos fechados, respira profundamente. Concentrada, visualiza
sobre sua mesa, como num sonho, todos os problemas que a perturbaram.
De repente, abre os olhos levantando-se vagarosamente. Em seu rosto, a
expressão de quem tomou uma importante decisão. D. Dirce, compenetrada,
dá a volta em torno da mesa debruçando-se sobre a parafernália de coisas
supostamente presentes, como se quisesse abraçar tudo aquilo. De repente,
fica ereta e, olhando para o alto, grita por Zezé, que se mostra pronta para
servir. Sob os aplausos da secretária, D. Dirce declara decidida:
"TEMOS QUE POR ORDEM NESSA CONFUSÃO!"
E é com a ajuda de Zezé que começa a tentativa de organização de todos
aqueles problemas. Sob o título de questões administrativas coloca a
panela vazia, a lâmpada, a torneira, a cobrança da Secretaria. Na dimensão
social, as latas atiradas pela comunidade, a mãe que reclama da professora,
os Boletins de Ocorrência e Furtos, o pedido de vagas do político. Na
dimensão pedagógica, o desenho do Zé Carlos, o quadro de reprovação, a
falta do professor. D. Dirce olha para esta classificação e fica hesitante. A
falta de professor e o quadro de reprovação são questões administrativas ou
pedagógicas? Pensati-va, resolve classificá-los em ambos os lugares. A
diretora olha para tudo aquilo satisfeita.
Mas, porque D. Dirce resolve começar por esse caminho? Em que essa
classificação contribui para organizar melhor o seu trabalho e o da escola?
Antes de entrar mais diretamente nessa análise, é interessante contextualizar
primeiro o espaço escolar no interior do qual tal classificação vai se dar.
A CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO ESCOLAR
A escola é um espaço constituído por diversas dimensões, todas entrelaçadas.
Pode-se destacar algumas principais, como as dimensões pedagógica,
política, social, cultural, administrativa e humana.
Por dimensão pedagógica compreende-se o processo ensino-aprendizagem,
com todas as variáveis que o constitui, como por exemplo, a organização dos
conhecimentos, do espaço e do tempo escolar, a relação professor-aluno, a
metodologia de ensino.
Por dimensão administrativa entende-se as questões de infra-estrutura e de
pessoal, como os problemas hidráulicos e elétricos, merenda, quadro de
pessoal, dentre outros.
No campo político, situam-se as relações de poder e o processo decisório.
No social, a relação com a comunidade escolar em um sentido bem amplo: a
relação interna entre professores, alunos e funcionários e a relação
estabelecida com pais, moradores próximos à escola, Secretaria de Educação
e sociedade em geral. Também estão incluídas as experiências sociais de
todos os segmentos, ou seja, suas origens de classe, suas condições de
moradia, trabalho, lazer.
No campo cultural, estão as raízes e vivências que promovem a elevação do
Homem, conferindo-lhe uma identidade social e cultural. Por exemplo, suas
tradições religiosas, políticas, expressões artísticas, hábitos alimentares.
E na dimensão humana, os sentimentos, desejos, dificuldades pessoais, os
conceitos e preconceitos que povoam o íntimo de cada um de nós.
Cada dimensão destas é constituída por elementos ou traços das demais,
encontrando-se em um permanente movimento de associação e influências
mútuas.
O processo de ensino, por exemplo, se dá partir da realidade cultural e social
de alunos e professores, bem como de suas condições humanas, e de
trabalho.
CONHECENDO A ESCOLA - O AUXÍLIO DA CLASSIFICAÇÃO
Em se tratando de escola, a divisão entre essas instâncias tem uma função
didática. A rigor, não há uma separação rígida entre elas. D. Dirce ilustra
bem essa questão quando fica em dúvida sobre onde situar o problema da
falta do professor, o qual possui implicações tanto administrativas como
pedagógicas.
Além disto, tudo o que acontece na escola tem um caráter educativo.
Educativo porque qualquer acontecimento vai exercer uma influência nas
relações de trabalho e na qualidade do mesmo. Mas então, porque
classificar? Algumas razões podem ser apontadas:
a importância de se compreender a escola enquanto espaço constituído
por diversas instâncias, todas inter-relacionadas;
• a necessidade de distinguir a dimensão central da escola daquelas que
constituem os meios necessários à sua realização;
a importância de saber responder com equilíbrio por todas as dimensões,
sem perder de vista o eixo central da escola e para o qual todos os outros
devem convergir.
Nesse capítulo serão destacadas as dimensões pedagógica, administrativa e
social. Tal delimitação deve-se ao fato de que as experiências concretas das
escolas apontam para uma problemática bem emergente em torno delas.
D. DIRCE IDENTIFICA A FINALIDADE BÁSICA DA ESCOLA
Ao fazer o exercício da classificação, D. Dirce é levada a refletir sobre a
dimensão central da escola. Lado a lado com os problemas administrativos,
a reprovação ressalta aos olhos da diretora. Nesse momento, D. Dirce
reconhece que seu envolvimento maior tem sido com os problemas
administrativos. E não é para menos. Afinal, a demanda maior que recai
sobre ela é no sentido de resolver os problemas emergentes de infra-
estrutura e de pessoal, e não os de aprendizagem.
Para D. Dirce, questões pedagógicas sempre foram da alçada dos professores
e especialistas. Além disso, são os problemas administrativos os que
apresentam resultados mais visíveis e imediatos. E para completar, não
trazem conflitos, como no caso da reprovação, quando emergem concepções
polêmicas sobre o processo de aprendizagem, disciplina, relação professor-
aluno, preconceitos em relação às experiências de vida de pais e alunos.
Diante dessas questões, recolocar o debate sobre a dimensão central da
escola é fundamental tanto para o trabalho da diretora quanto para a
transformação da instituição escolar.
A DIMENSÃO PEDAGÓGICA -O EIXO CENTRAL
DA ESCOLA X A INVERSÃO DE VALORES
Dizer que o pedagógico é o eixo central da instituição escolar e que as
questões administrativas são atividades-meios para a sua realização parece
uma conversa vã. Afinal, essa constatação é de uma obviedade cristalina e
com certeza não há quem duvide disso. Mas a prática parece demonstrar que
tal reconhecimento é apenas aparente. Observa-se, muitas vezes, uma
inversão de valores em relação ao grau de importância de cada uma dessas
instâncias, e até mesmo uma indistinção entre elas. É como se tudo fosse
uma coisa só. Tal fato tem levado a diretora a agir de forma fragmentada,
privilegiando ora uma ora outra dimensão.
Alguns exemplos concretos podem ilustrar melhor essa questão.
OS DIVERSOS TIPOS DE DIREÇÃO
Quantas vezes a diretora dedica-se de corpo e alma aos problemas de
merenda, da lâmpada, da torneira e do porteiro, sem encontrar tempo para
resolver questões pedagógicas fundamentais, como a reprovação e a não
aprendizagem?
Ou então, quantas diretoras têm uma relação conservadora com o
pedagógico, dedicando-se à ele apenas no sentido de manter a situação
existente, com seu histórico de reprovação e exclusão e não para transformá-
lo? Sem tocar no X da questão, o currículo e a reprovação, a diretora
envolve-se com o pedagógico de forma superficial.
Um outro exemplo são os diretores que têm um bom relacionamento com a
comunidade, recebem bem os pais, emprestam quadra de esportes, têm uma
relação harmoniosa com os professores, fazem grupos de relação
interpessoal, amizade com os alunos... enquanto a reprovação é uma das
mais altas. Tem escola que é até democrática, com colegiado e participação
coletiva nas decisões, mas continua acreditando que é natural a não
aprendizagem e a reprovação escolar.
REVENDO O PAPEL DA DIRETORA
Todas essas situações revelam uma inversão de valores, um desconhe-
cimento do eixo central da escola e um distanciamento de sua finalidade
maior.
Sem dúvida que garantir o funcionamento social e administrativo é
essencial. Mas pode tornar-se um equívoco quando passa a ser um fim em si
mesmo. E fundamental que a diretora pergunte sempre em que medida sua
atuação nas questões administrativas e sociais têm contribuído para o êxito
do trabalho pedagógico. Em outras palavras, é importante saber relacionar,
sempre, as questões administrativas e sociais com o desempenho
pedagógico. Tudo deve existir e acontecer visando a esse objetivo central.
Negligenciar o administrativo ou o social, porém, seria um outro equívoco.
Há diretores que abraçam o trabalho pedagógico, deixando a escola cair em
um verdadeiro caos administrativo. E uma atitude que deseduca porque
desorganiza a escola, é desrespeitoso com os alunos, professores,
funcionários e pais e com o próprio processo pedagógico.
Cuidar dos problemas administrativos e da relação com a comunidade
escolar objetivando um bom desempenho pedagógico é tarefa fundamental
da direção. E um procedimento essencial para a construção de uma escola
competente.
Mas, como poderá a diretora responder por tudo isso? É responsabilidade
apenas dela? D. Dirce poderá nos auxiliar na continuidade dessa análise.
Vamos acompanhar os seus próximos passos?
COMO FAZER TUDO AO MESMO
TEMPO E UMA COISA DE CADA VEZ
BUSCANDO A CONTRIBUIÇÃO DE TODOS -O
SEGUNDO PASSO DE D. DIRCE
Após classificar os problemas, D. Dirce organiza uma agenda com o intuito
de distribuir melhor o tempo, para resolver cada conjunto de questões. Tendo
em vista a classificação feita, vai anotando uma série de providências a
serem tomadas: horário para atender os pais; horário para as tarefas
burocráticas e administrativas; plano para melhorar a relação com a
comunidade; o que fazer em caso de indisciplina; como diminuir a
reprovação?
Em seguida mostra o caderno para Zezé perguntando, apreensiva, como
poderá resolver tudo aquilo e ainda mais sozinha. "Mas nem resolver e nem
sozinha", pensa Zezé silenciosa. Inclui, em seguida, um novo título na
agenda: "O QUE É QUE CADA UM VAI FAZER (QUEM PODE AJUDAR
NISSO OU NAQUILO?)". Em seguida, entrega para D. Dirce uma caixa que
acabara de confeccionar. Sobre ela coloca a etiqueta: CAIXA DE CRÍTICAS
E SUGESTÕES - SE VOCÊ FOSSE DIRETOR, O QUE FARIA PARA
RESOLVER OS PROBLEMAS DA ESCOLA.
D. Dirce vibra com o caminho apontado por Zezé. Para resolver tudo ao
mesmo tempo e uma coisa de cada vez, só contando com a contribuição de
todos. A caixa de críticas e sugestões é um passo inicial. Animada, D. Dirce
distribui pela escola caixas para alunos, pais, professores e funcionários.
D. Dirce dá assim os primeiros passos no sentido da descentralização: ouvir
os diversos segmentos da escola. O que dirão eles? Será essa consulta
suficiente para uma administração equilibrada?
CRÍTICAS E MAIS CRÍTICAS -A PRIMEIRA
MANIFESTAÇÃO É DE INSATISFAÇÃO
Após aguardar ansiosamente pelas respostas, chega o momento de abrir as
caixas. Lendo os bilhetes, D. Dirce surpreende-se: só aparecem críticas. Dos
professores as queixas principais são: falta de tempo para
estudos e troca de experiências; diretora só se preocupa com questões
administrativas; escola desorganizada; diretora autoritária; indisciplina;
crianças não aprendem; pais e crianças desinteressados.
Dos funcionários: salário ruim; falta de material; todo mundo suja, bem que
podia ajudar. Dos pais: "as professoras não ensinam direito"; "muita taxa
para pagar e material para comprar"; "a escola não aceita a opinião dos
pais"; "professor falta muito"; "escola só chama para reclamar dos filhos".
Dos alunos: falta merenda; aulas chatas; porque a gente leva bomba?; não
tem recreio; muita bagunça na sala.
D. Dirce fica perplexa. No coração desperta um sentimento de decepção.
Jamais poderia imaginai" que as pessoas com quem trabalha há anos
pudessem manifestar tanta insatisfação assim, e justo sob a sua gestão. Não
consegue entender também como conseguiu passar tanto tempo sem enxergar
isso. Como pode ser tão cega? E porque tanta queixa assim?
LIBERANDO AS INSATISFAÇÕES
É a primeira vez, na escola onde D. Dirce é diretora, que professores, alunos,
pais e funcionários são chamados a dar as suas opiniões sobre a escola e a
forma de dirigi-la. É normal que, nesse primeiro momento, as pessoas
liberem de forma intensa e até indesejável, descontentamentos retidos há
anos.
Mas conflitos estão presentes em qualquer lugar onde convivem pessoas. O
que vai fazer diferença é a qualidade e a intensidade com que se manifestam.
O ato de não revelá-los não significa que não existam. Estão apenas sendo
reprimidos.
Reprimir os descontentamentos e os conflitos existentes em nome de uma
falsa harmonia, em nada contribui para sua superação. Pelo contrário, serve
para alimentá-los. Pressionados, podem explodir a qualquer momento. É o
que se vê em determinadas agressões da comunidade, indisciplina de alunos,
apatia ou agressão de professores, funcionários e até mesmo diretores. Ou
então, podem manifestar-se através de procedimentos indesejáveis, como a
fofoca, a crítica destrutiva, conversas no corredor, mau humor, má vontade,
competição, reclamações mútuas.
O que acontece com D. Dirce ilustra bem isso. Queixas, críticas, acusações
mútuas mostraram que a escola estava acumulando insatisfações. Ou seja,
revelaram a inexistência de um espaço coletivo onde as insatisfações
pudessem ser debatidas e superadas.
UM TRABALHO DE FAXINA
O que D. Dirce está começando a aprender é que, ao abrir espaço da fala
para todos os setores da escola, ela está, na verdade, abrindo o canal para a
manifestação de conflitos e contradições antes reprimidos.
Trata-se de um trabalho de faxina onde toda a desordem é revista e
reorganizada. Diferentemente da centralização, não esconde o lixo para
manter a falsa idéia de uma casa limpa e coesa.
Mas sem dúvida é um trabalho muito mais difícil e que vai exigir da diretora
e de todos paciência e habilidade.
A ESCOLA É UM LUGAR DE CONFLITOS
Na escola, existem interesses e necessidades diferenciados, que muitas vezes
se chocam. Por exemplo, em relação ao recreio. Para as crianças o recreio é
fundamental: libera as energias, descansa do tempo prolongado de
concentração, socializa e descontrai.
Mas muitas escolas estão acabando com o recreio. Isto para atender a uma
necessidade do professor que trabalha em duas escolas diferentes ou locais
distantes, e que, por causa disto, precisa sair mais cedo. Suprimir o recreio
surge como a solução mais fácil para resolver o problema do professor. Mas,
e o aluno?
Assim como este, são inúmeros os exemplos de choque de interesses entre
diretores, professores, alunos, pais, funcionários, governos. Saber atuar em
seu interior com equilíbrio não é tarefa fácil, mas é possível a todos.
COMO ATUAR NO INTERIOR DE CONFLITOS
Não existem receitas sobre a melhor forma de administrar conflitos, mesmo
porque isto vai depender do equilíbrio, maturidade e sabedoria de cada um.
Mas essa sabedoria pode ser aprendida.
A experiência de escolas e diretores vem deixando algumas lições impor-
tantes. Uma delas é saber atuar com justiça nas diferenças de interesses entre
os vários segmentos. Para isso, o diretor não pode perder de vista o interesse
maior da Educação, que deve estar acima dos interesses individuais. Ou seja,
a garantia do direito ao conhecimento científico, ético e cultural. Esta é uma
responsabilidade da qual o diretor não pode se omitir.
O diretor deve ser mediador, não tomando partido de grupos que queiram
impor interesses contrários ou privilégios pessoais.
É importante ainda evitar que os conflitos caiam para o campo pessoal e do
desrespeito. É necessário educar a si próprio e a todos para o respeito
profissional e pessoal, dando exemplos práticos de coerência com valores
fundamentais para convivência humana, como o respeito, a generosidade, a
tolerância, a humildade, a justiça.
D. DIRCE LIDERA MUDANÇAS DE EXPECTATIVA EM RELAÇÃO AO
SEU PAPEL
Enquanto dirigente, D. Dirce inicia uma importante liderança. Desce do
pedestal e toma a iniciativa de escutar o outro, de abrir o espaço da fala, de
legitimar os conflitos. Começa assim, a mudar a expectativa da escola em
relação ao seu papel de única responsável pelos problemas existentes.
Mas, apenas ouvir a escola através de bilhetes não é o suficiente. Foi o passo
inicial que D. Dirce conseguiu dar. Nesse sentido, o recurso à caixa de
críticas e sugestões cumpriu um papel importante. Através dela, a diretora
percebeu o grau de insatisfação e de conflitos existentes. Descobriu ainda
que a escola não tinha a harmonia que supunha e que as pessoas faziam
sérias críticas à sua administração. Foi, assim, um marco fundamental que
instaura o nascimento de uma nova gestão.
Mas a diretora compreende também que apenas ouvir as pessoas não basta.
Pelo contrário, as caixas revelaram mais problemas ainda. Para de fato
resolver tudo ao mesmo tempo e uma coisa de cada vez um novo passo é
necessário:
D. Dirce resolve marcar uma reunião com cada segmento para que eles
mesmos possam resolver os problemas que denunciam.Esse gesto marca o
início de uma nova gestão.
A REUNIÃO COM OS SEGMENTOS
D. DIRCE E A REUNIÃO COM OS PROFESSORES
D. Dirce chega à sala onde vai ocorrer a reunião. Ainda tem poucas pessoas,
algumas conversando, outras isoladas, outra preenchendo o diário de classe
no colo. D. Dirce, ansiosa, olha para o relógio, enquanto mais pessoas vão
entrando aos poucos e vagarosamente.
D. Dirce, meio nervosa, inicia a reunião: "Bom pessoal,vocês mandaram
críticas e sugestões... Vamos discutir tudo isto?"
Nesse momento, quem estava conversando passa a conversar mais baixinho,
com a mão em concha, cobrindo o lado da boca. Quem estava fazendo outras
tarefas, como preenchendo o diário, faz uma breve interrupção. Algumas
professoras olham ansiosas para ela.
D. Dirce passa a ler os bilhetes que recebeu através das caixas de críticas e
sugestões. A medida em que vai lendo, os professores começam a conversar
entre si, falando todos ao mesmo tempo. Os temas são polêmicos.
D. Dirce tenta por ordem na reunião, pedindo silêncio. Com todos falando ao
mesmo tempo, diz ela, é impossível chegar a um entendimento. Em seguida,
mostra o quadro que fez com a classificação dos diversos problemas que
enfrenta em seu dia a dia. Explica porque recorreu à caixa de críticas e
sugestões e fala de sua surpresa ante o grau de insatisfação existente.
Em vista disso, continua ela, decidiu reunir com cada segmento para que eles
mesmos decidissem sobre o que fazer.Por fim, pede a participação e o
compromisso de todos no sentido de auxiliá-la a resolver os problemas
existentes. Destaca a necessidade de se rever o processo pedagógico e o
papel da escola, apresentando o quadro de reprovação e evasão escolar.
Diante dessas colocações, alguns professores, sentindo-se cobrados,
começam a levantar uma série de obstáculos ao desempenho de suas
funções: salários baixos; 13° atrasado; alunos indisciplinados; correria; falta
de tempo.
"Com tudo isso", dizem alguns deles, "como pode a senhora pedir
compromisso e participação? Quem tem compromisso conosco?"
D. Dirce tenta mostrar que há críticas ao processo pedagógico da escola.
Nesse momento, lê os bilhetes dos pais e alunos. Enquanto alguns profes-
sores procuram ouvir essas críticas, reconhecendo a pertinência de várias
delas, a maioria tenta justificar-se: "os pais não têm o direito de interferir no
trabalho da gente"; " tem professor que chega atrasado prejudicando as
aulas"; "são os ônibus que não funcionam nessa cidade"; "os alunos são
indisciplinados demais; e a senhora também não ajuda muito".
A reunião termina sem que nada fosse concluído. De volta a sua sala, D.
Dirce comenta com Zezé:
"É muito problema Zezé! E muito problema! É engraçado... os professores
reclamaram de todo mundo. Dos pais, dos alunos, de mim, é claro, dos
funcionários, do governo, dos ônibus... e até uns dos outros. Já viu isso?
Como vou contar com eles, se eles não querem contribuir?"
Mas foram apenas os professores que fizeram tantas reclamações? E os
outros segmentos?
AS REUNIÕES COM ALUNOS, PAIS E FUNCIONÁRIOS
A cada reunião, D. Dirce retorna à sua sala mais desanimada. A reclamação
é geral e as reuniões terminam sem que nada seja resolvido.
"Os alunos", diz ela, "reclamaram de todo mundo. Dos professores, do
porteiro, das merendeiras... de mim, é claro... dos ônibus e até uns dos
outros... da bagunça que eles mesmos fazem! Já viu isso Zezé?"
"E agora essa! Os pais reclamaram de tudo. De mim, é claro, dos
professores, do governo, do filho dos outros... e até da reunião... horário
ruim, reunião demorada... Já viu isso Zezé? A gente quer ser democrática..."
Com os funcionários é a mesma coisa: reclamações de professores e alunos,
das salas que deixam desorganizadas, dos salários e até da diretoria, que é
mais boazinha com determinados servidores.
Diante dessas reuniões, D. Dirce entra em um estado de profunda reflexão.
Busca o isolamento em uma sala de aula vazia, quando todos
já se foram. Ali começa a andar obsessiva, de um lado para o outro.
D. Dirce está preocupada. As reuniões com os segmentos não atingiram seu
objetivo. Evidenciaram ainda mais as insatisfações. Para completar, há o
desinteresse do professor e os conflitos com os pais. E agora?
O MITO DO DESINTERESSE DO PROFESSOR
D. Dirce tem razão em estar tão apreensiva. Ter uma compreensão clara
sobre essas questões é fundamental para que possa prosseguir em seu
propósito de dividir responsabilidades. Vamos auxiliá-la nessa análise.
Um primeiro ponto a ser abordado é o predomínio de um discurso que atribui
à escola e aos seus profissionais um lugar de incompetência e
descompromisso. Esse discurso, na verdade, oculta uma realidade muito
mais rica e complexa do que aquela apresentada de modo tão linear,
superficial e genérica.
A força desse mito, que trabalha contra a educação pública através da
desvalorização de seus profissionais, é sutil e profunda. Aos poucos vai
instalando-se na mente de diversos educadores, pais e sociedade, que o
repetem automaticamente, sem uma reflexão sobre o seu significado e
veracidade. E o que é mais grave, a partir dessa crença todos passam a
relacionar-se com os professores através da ótica do desinteresse e do
descompromisso.
Afinal, a quem interessa dizer que os profissionais da educação pública são
descompromissados? De que dado da realidade parte essa afirmação? Que
outra realidade, muito mais complexa, esses estigmas ocultam?
O PROFESSOR É INTERESSADO E COMPROMETIDO
São inúmeros os exemplos de profissionais que, apesar dos salários baixos,
tudo fazem para garantir aos alunos uma boa educação, conseguindo
resultados notáveis e belos trabalhos. Publicações da UNICEF, revistas
educativas e pesquisas acadêmicas comprovam essas afirmações.
São também inúmeros os professores que procuram manter-se atualizados
nos estudos, sacrificando-se à noite, aproveitando as filas de banco, o
percurso do ônibus e os fins de semana.
Exemplos não faltam de professores que lutam para a democratização
da escola, insistindo em contribuir e participar.
Mas, porque então a própria escola deixa-se influenciar pelo discurso do
desinteresse? Algumas razões podem ser apontadas.
A TENDÊNCIA À GENERALIZAÇÃO
Existem diretores que diante de um, dois ou três casos mais difíceis, passam
a proclamar, dramaticamente, o "desinteresse dos professores". D. Dirce é
assim. Porque alguns professores demonstraram resistência, pensou logo no
desinteresse de todos.
Mas não são apenas diretores que padecem do impulso de transformar
exceções em regras, minoria em maioria, enfim, de exagerar. As pessoas, de
um modo geral, generalizam.
Se os diretores quiserem ser rigorosos e colocar os pingos nos is, vão
constatar que, em cada escola, a maioria dos professores é comprometida:
cumpre horário, planeja aulas, se esforça com os alunos, participa de
reciclagens.
O importante é trabalhar no coletivo os procedimentos que possam estar
prejudicando os alunos e comprometendo conquistas profissionais. Este é
um ato que educa a todos. Afinal, cuidar do bom funcionamento da escola é
um dever de todos os educadores. Assim, é importante cuidar para que o
horário de estudos e planejamentos coletivos sejam cumpridos, evitando-se o
seu uso para resolução de problemas pessoais. Da mesma forma, deve-se
debater, no coletivo, contradições existentes, como a de determinados
educadores que, no discurso, denunciam as injustiças sociais, a opressão da
classe trabalhadora e o autoritarismo de governos e diretores, mas na prática
da sala de aula reprovam grande número de filhos de trabalhadores, faltam às
aulas ou chegam periodicamente atrasados.
É também importante que o diretor examine em que medida sua conduta
pode estar contribuindo para afastar o professor da participação.
O FALSO DESINTERESSE
Se o diretor queixa-se do desinteresse, é importante que se pergunte em que
medida a forma como dirige a escola tem excluído o professor da
participação, quebrando-lhe todas as iniciativas de contribuição. É
necessário que o diretor abra os canais de participação. Centralizando,
respondendo por tudo sozinho e não confiando na competência dos demais,
estará contribuindo para a formação do chamado desinteresse e
descompromisso de que tanto se queixa.
Pode-se analisar o desinteresse, por fim, enquanto a manifestação de uma
revolta pelas precárias condições de trabalho. Mas revolta não é desinteresse.
Necessário é trabalhar com o professor para que possa discernir o lugar
apropriado para a manifestação e a organização dessa insatisfação, sem
prejuízo de seu trabalho junto ao aluno.
AS CONTRADIÇÕES DE TODOS NÓS
A relação com o professor certamente será beneficiada se o diretor puder
examinar as suas próprias reações diante de situações semelhantes às vividas
por aquele profissional.
A busca da coerência entre aquilo que exigimos do outro e de nós mesmos é
uma condição fundamental para um trabalho mais justo e solidário. Assim,
se o diretor tem queixas em relação ao horário feito pelo professor, é bom
verificar como ele, diretor, cumpre o seu horário. Da mesma forma, como
age em relação ao cumprimento dos demais deveres, os sentimentos
experimentados em relação aos salários, a postura em reuniões. É também
interessante relembrar como era seu comportamento frente à escola, ao
diretor, alunos e pais antes de ser diretor.
Esse é um exercício que a todos auxilia nos momentos de conflitos, dando-
nos condição de neles atuarmos de forma mais justa e equilibrada.
SOBRE A PARTICIPAÇÃO DOS PAIS
Dizer que é importante a participação dos pais na escola não é novidade
alguma. Todas as escolas buscam essa integração. O necessário é discernir
de qual participação se está falando.
Os pais agora são chamados não mais simplesmente para ouvir queixas dos
filhos ou ajudar nos mutirões. O que se propõe é que participem das
reflexões sobre os problemas da escola e das decisões a serem tomadas. Foi
o que tentou D. Dirce nas reuniões com os segmentos, sem que tenha obtido
os resultados desejados.
Mas essa forma de integração dos pais à escola encontra uma série de
obstáculos. Por exemplo, os pais têm o direito de interferir no trabalho
docente. Há também o fato de os pais padecerem, assim como o professor,
do estigma de desinteressados. Por detrás dessas afirmações, encontra-se a
crença na incapacidade dos pais, principalmente os analfabetos, em
acompanhar os debates educativos. Afinal, que contribuição podem dar?
A COMPETÊNCIA DOS PAIS
Para falar da competência dos pais, vamos recorrer ao auxílio de uma
analogia com a medicina.
Provavelmente nenhum professor ou diretor de 1° e 2° graus é médico.
Pode-se dizer que esses profissionais são, em certo sentido, analfabetos em
medicina. No entanto, todos eles sentem-se no direito de avaliar os hospitais
que freqüentam: sua organização; higiene; o respeito e a educação com que
são atendidos; a disciplina.
Da mesma forma, têm competência para avaliar o trabalho do médico: se é
um médico que falta ou atrasa nas consultas, deixando-os esperarem durante
horas; se houve igualdade no atendimento, sem privilégios para outros
pacientes, ou posturas diferenciadas em relação às consultas particulares; se
foram recebidos com educação; se o tratamento está dando certo ou não; se a
saúde está melhorando.
E todos gostam de ouvir a opinião do médico; compreender os termos
técnicos empregados e compreender as necessidades dos exames pedidos; as
previsões sobre o estado de saúde; o porquê desse ou daquele remédio e do
tratamento prescrito; de ser chamado pelo nome.
Todos sabem do mal que faz à saúde ser atendido por um médico ríspido e
insensível. Sabem ainda o bem que faz quando esse profissional demonstra
interesse, carinho e otimismo em relação à capacidade do organismo de
recuperar-se. Com auto-estima elevada tudo fica mais fácil.
E NA ESCOLA, COMO É?
Mesmo não sendo especialistas em educação - e nem se pretende isso - os
pais são capazes de avaliar se uma escola é organizada ou não; se há
indisciplina e cumprimento dos deveres; se estão sendo
bem recebidos ou não. Querem também saber sobre o "tratamento"
pedagógico dado aos filhos: se eles estão aprendendo ou não; porque é esse
método e não aquele. Para eles o carinho, a atenção e a expectativa positiva
em relação a capacidade de aprendizagem das crianças vão fazer uma
enorme diferença.
Não se pretende que os pais sejam professores nem que interfiram em seus
conhecimentos técnicos. Trata-se de reconhecer a competência e o direito
que têm de avaliar, dentro das dimensões analisadas, o trabalho escolar.
Os pais têm um saber real e competente, que deve ser respeitado. É um saber
diferente, que completa os demais saberes, auxiliando no conhecimento
sobre a escola e em sua transformação.
OS LIMITES DAS REUNIÕES POR SEGMENTOS
Reuniões com os segmentos são importantes. Mas sozinhas não conseguem
proporcionar a todos um conhecimento global da escola. Nelas prevalece um
conhecimento parcial e fragmentado. Daí o seu limite para a transformação
da escola.
Para haver uma integração e solidariedade entre as pessoas, é preciso um
encontro onde todos possam falar de seus pontos de vistas, suas
insatisfações, seus sucessos, dificuldades e experiências.
O espaço coletivo é esse espaço de troca. Trocando experiências, o grupo vai
constituindo um conhecimento amplo, profundo e global da escola,
adquirindo mais condições para decidir. Dessa forma se fará possível a
compreensão dos comportamentos de cada um, em substituição às acusações.
D. DIRCE VISUALIZA UMA SAÍDA
Em seu isolamento, D. Dirce descobre a saída para o impasse das reuniões
com os segmentos: "Se todo mundo reclama de todo mundo para mim, agora
vão reclamar uns para os outros."
Como se estivesse iluminada, vira-se decidida e forte, saindo da sala. Em
seus pensamentos, uma manifestação de vaidade faz-se presente ao
vangloriar-se satisfeita:
"QUE GENIAL! EU SOU DEMAIS, VIU!"
A REUNIÃO GERAL
A REUNIÃO
D. Dirce, apreensiva, olha para o relógio. Está na hora da reunião geral. Pede
encarecidamente a Zezé que a acompanhe. Zezé pega no armário um
caderno de atas e ambas dirigem-se ao auditório da escola. D. Dirce está
insegura e Zezé discretamente orgulhosa pelo pedido de ajuda.
A sala já está repleta de gente, com várias pessoas chegando. D. Dirce, dado
ao seu nervosismo, hesita um pouco antes de começar a reunião, quando
uma professora pergunta timidamente: "Mas, afinal, para que essa reunião?"
A diretora, já mais encorajada, lembra todo o processo vivido até ali.
Ressalta o fato de ter percebido, nas reuniões com os segmentos, a
necessidade de uma reunião onde todos pudessem debater em conjunto as
reclamações mútuas.
Enquanto D. Dirce expõe os acontecimentos, vão surgindo conversas
paralelas e pessoas querendo falar ao mesmo tempo, em um processo de
dispersão semelhante ao ocorrido nas reuniões anteriores. D. Dirce
compreende, pelas recentes experiências, a necessidade de estabelecer uma
regra geral. Para falar, é preciso levantar a mão e Zezé vai anotando os
nomes. Assim, em reuniões muito cheias, é possível um falar de cada vez.
Um professor pede a palavra. Sugere menos alunos na sala.
O debate prossegue: "O problema não é a quantidade, mas a indisciplina."
"Até banheiro as crianças já quebraram."
"Em escola particular isso não acontece."
D. Dirce, sonhadora, passa a recordar os seus velhos tempos de escola.
Percebendo a dispersão que vai surgindo, Zezé chama a atenção de D. Dirce,
que tenta retomar o tema iniciado: número de alunos na sala. Mas, em
poucos instantes, a reunião começa novamente a dispersar-se.
O assunto salta de um tema para outro, em uma livre associação de palavras,
chegando até a organização da próxima festa junina.
Enquanto isso, sem entender nada do que está acontecendo, uma mãe vai
imaginando a cena de uma escola desintegrando-se. Timidamente, levanta a
mão e pergunta: "Mas para que serve a escola?"
Essa pergunta soa como uma explosão. Uma professora responde,
gravemente, em tom pomposo, que "a escola serve para formar o cidadão
consciente dos seus direitos e deveres, capaz de transformar a sociedade em
um mundo justo e igualitário."
Diante dessa resposta, a mãe senta-se tímida e encolhida. Mas, apesar da
vergonha, pede novamente a palavra. Levanta-se titubeando, olhando para o
chão e fala: "Eu pensava... eu pensava só que... a escola servia para
ensinar!"
Esta fala soa como bomba, contrapondo-se ao discurso formal da professora.
Diante de rostos atônitos, Zezé sai correndo. Entra na sala de D. Dirce, pega
o quadro de reprovação e evasão da escola e retorna rapidamente para a
reunião. D. Dirce exibe o quadro para a platéia. Nele está escrito: índice de
reprovação de 1
a
a 4
a
série: 46%. Evasão: 20%.
D. Dirce pergunta: "Porque a escola está ensinando tão pouco?"
Uma professora rompe o silêncio e responde: "Dá salário e material que o
resto a gente resolve."
Diante do apoio recebido pela maioria dos presentes, D. Dirce sugere uma
pauta para a reunião: salário e material.
ORGANIZANDO AS REUNIÕES
Uma dificuldade encontrada por diversos diretores refere-se à coordenação
das reuniões coletivas. O nervosismo de D. Dirce é sinal dessa dificuldade.
Como ficou demonstrado nas reuniões com os segmentos e no início da
reunião geral, existe uma forte tendência à dispersão, às conversas paralelas,
à falta de objetividade. Porém, um mínimo de disciplina é essencial para que
possa haver de fato a constituição de uma coletivida-
de capaz de refletir e deliberar sobre os problemas existentes. Esta disciplina
é uma aprendizagem que só acontece com a prática.
Nas reuniões coletivas é possível perceber a presença de um forte
individualismo. Essa conduta, em parte, nos foi transmitida por anos de
regime autoritário.
E marcante a dificuldade que temos em escutar o outro, em fazer silêncio,
em esperar a vez de falar, em dialogar com o coletivo e não com a pessoa do
lado ou da frente. Sem perceber, retomamos as conversas paralelas ou
mudamos de assunto sem termos aprofundado ou concluído o tema anterior.
Muitas vezes, deixamos também de prestar atenção em quem está fazendo o
uso da palavra, principalmente quando discordamos do que diz. Ou só
acompanhamos as falas que nos interessam diretamente, desprezando
assuntos importantes para outros, mas não para nós.
OBSERVAR A SI PRÓPRIO
O exercício de observar a si próprio nas reuniões é interessante para o
trabalho do diretor e do professor em sala de aula. Quantas vezes nós,
educadores, não conseguimos manter a disciplina em reuniões e encontros
coletivos, e exigimos de nossos alunos comportamentos que não
conseguimos ter. Por exemplo, escutar o colega, falar um de cada vez, não
se distrair com outra coisa enquanto alguém estiver falando.
Muitas vezes somos até rígidos com eles, exigindo silêncio absoluto. Sem
percebermos nossa própria incoerência, nos irritamos com suas dificuldades
- que são as mesmas que temos. Mas, enquanto estivermos mantendo essa
contradição, será que estaremos de fato educando os alunos para a
convivência coletiva? Ou será que, de alguma forma, passamos para eles
uma dupla mensagem? Está aí uma questão a ser refletida por todos nós.
Mas uma coisa é certa: essa disciplina tão importante para assegurar uma
reunião proveitosa constrói-se no próprio exercício das reuniões e não fora
delas. Para aprender, basta ter disposição para o trabalho participativo e ficar
atento em relação às próprias atitudes.
O ESFORÇO DE D. DIRCE Apesar de seus medos e
apreensões, a diretora prossegue em seu
propósito de descentralizar e dividir responsabilidades. Nesse processo,
todos vão adquirindo mais disciplina e experiência.
Algumas regras importantes puderam ser estabelecidas:
ata nas reuniões;
abrir inscrições para o uso da palavra (principalmente em reuniões mais
polêmicas);
ter uma pauta definida para evitar a dispersão;
falar um de cada vez e dentro do tema.
Em uma reunião organizada, fica mais fácil concentrar-se em torno de temas
que realmente tem importância para a escola. E assim que, entre regras
estabelecidas e uma ainda dispersão dos assuntos tratados, a reunião geral
volta-se para uma discussão central: o papel da escola.
A FUNÇÃO DA ESCOLA - O INÍCIO DE UMA REFLEXÃO COLETIVA
Afinal, para que serve a escola? E a partir dessa pergunta que a escola é
levada a centrar-se sobre si mesma, refletindo sobre sua função mais
essencial. De um certo modo, tal indagação impõe um rompimento à
dispersão porque traz para o centro das atenções a própria razão de ser da
escola. E, portanto, uma discussão que integra.
Mas, apesar de ser uma discussão tão vital para a escola, o seu significado
não é tão evidente assim.
O DISCURSO VAZIO X O SENTIDO DAS PALAVRAS
A maioria dos educadores, quando indagados sobre o papel da escola, trazem
na ponta da língua a resposta: "formar o cidadão consciente de seus direitos e
deveres, capaz de lutar por uma sociedade justa e igualitária". Foi esta a
resposta pomposa dada pela professora na reunião geral. Porém, quando
indagados sobre o significado de cada conceito presente nessa definição,
surgem lacunas que denunciam um desconhecimento daquilo que está sendo
dito.
Um bom exercício a ser feito pelas escolas nas reuniões coletivas é esse: a
cada discussão perguntar sempre pelo sentido dos conceitos e das palavras
que estão sendo pronunciados e verificar se concordam ou não
com eles. Essas atitudes são fundamentais para se estabelecer uma coerência
entre o discurso e a prática.
Repetir palavras e conceitos sem uma compreensão de seus significados é
esvaziar a força transformadora das palavras, reduzindo-as a um mero
invólucro. É substituir a ação pela palavra vazia. É, enfim, transformar os
conceitos em meros chavões.
CONFERINDO ALGUNS CONCEITOS
Por exemplo, em relação ao papel da escola (definido pela professora) é
importante fazer algumas indagações: o que é cidadania? O que é
conscientizar? O que é uma sociedade justa e igualitária? As ações
desenvolvidas nas escolas guardam correspondência com cada um desses
conceitos?
Para exemplificar melhor, vamos fazer um exercício com o conceito de
cidadania. Oe origem grega, o cidadão é aquele que delibera sobre o destino
da Cidade. Ser cidadão é essencialmente participar das decisões. E um
direito e um dever. Cidadão, portanto, é um conceito que remete a noção de
direitos, deveres e participação.
Se é papel da escola formar cidadãos, em que medida ela tem assegurado aos
alunos o direito e o dever de participarem das decisões, educando-os, na
prática, para a cidadania? Como, onde e quando eles são chamados a
decidirem?
Só se aprende a ser cidadão participando das decisões. E o local para isso é a
escola, no momento atual do aluno. Mas o que se verifica é que, muitas
vezes, a escola quer o aluno participativo apenas "lá fora", na sociedade, e
não na escola. Nela o aluno não pode participar de decisões e, às vezes, é até
criticado por atuar em grêmios e partidos políticos. Não há aí uma
contradição entre o conceito de cidadania e a sua prática na escola?
QUE EXEMPLOS DE CIDADANIA ESTAMOS DANDO?
Uma outra pergunta importante que deve ser feita é o exemplo que nós,
educadores, temos dado aos alunos. Nesse sentido, é importante verificar em
que medida participamos com responsabilidade nas decisões da escola,
dando testemunho prático do exercício da cidadania. Em que medida
lutamos por uma sociedade justa e solidária. Verificar, em nossa
prática, se estamos contribuindo para fazer da escola um lugar também justo
e igualitário ou se atuamos de forma a discriminar e negar direitos dos
alunos. A não aprendizagem e os altos índices de reprovação dizem o que em
relação a esse nosso ideal?
A COERÊNCIA ENTRE O DISCURSO E A PRÁTICA
A busca permanente do sentido das palavras é condição essencial para
estabelecermos uma coerência com a prática que queremos exercer. É por
isso que a resposta da mãe, em sua simplicidade, surge mais verdadeira e
plena de sentido.
A escola existe para ensinar. Diante dessa definição clara, não há como
ocultar-se atrás de conceitos abstratos, apesar de logicamente corretos. A
atitude de Zezé ao buscar o quadro de reprovação é uma forma de colocar
frente a frente o discurso da escola e a prática existente.
Cabe à escola aprofundar essa reflexão. A pergunta feita por D. Dirce aponta
um caminho importante: porque a escola está ensinando tão pouco? Em
outras palavras, quais as causas da não aprendizagem? Responder
consequentemente essas perguntas é responder pelo papel da escola. É, nesse
sentido, reencontrar a sua essência e a sua razão de ser.
REFLETINDO COLETIVAMENTE SOBRE O PAPEL DA ESCOLA
Para que a escola se transforme em sua totalidade, é essencial que a reflexão
sobre o seu papel seja feita coletivamente. Mudanças isoladas de um ou
outro professor, apesar de importantes, não transformam a escola enquanto
instituição.
A escola far-se-á coesa, integrada e competente, quando todos souberem
reconhecer a sua finalidade.
Apesar das especificidades de cada momento histórico e de cada
comunidade, a escola tem sempre uma função básica e universal, que deve
ser reconhecida por todos: a de garantir o direito ao saber científico, cultural
e ético.
A construção desse conhecimento é um processo longo que requer
perseverança. Dar esse exemplo, garantindo os espaços para o debate
coletivo, é uma importante contribuição da diretora.
RESOLVENDO OS PROBLEMAS
COLETIVAMENTE
A REUNIÃO GERAL
Caminhando de forma mais organizada, a reunião dá continuidade ao debate
sobre a pauta estabelecida: salário e material. D. Dirce, bem mais à vontade,
coordena com firmeza a reunião. Uma professora pede a palavra: "Por acaso
nós aqui podemos decidir sobre salário?" Uma outra fala em tom mais
conformado: "Isso é com o governo." Uma mãe tenta contribuir: "É preciso
unir e lutar." Retomando a palavra, a primeira professora sugere: "A gente
precisa ter voz no sindicato." A mãe solidária, acrescenta: "A comunidade
tem que ajudar na luta."
A QUESTÃO SALARIAL - AS CONDIÇÕES DE VIDA DO
PROFESSOR E DO ALUNO
Alguns avanços em relação à discussão sobre salários são, assim, realizados:
a importância do apoio da comunidade; a necessidade de discernir o local
apropriado para as discussões salariais - o sindicato.
De fato, é necessário situar cada coisa no seu devido lugar. Mas isso não
impede que na escola também se discuta as condições de trabalho e de vida
dos professores. O importante é discernir quais os momentos e os espaços
adequados para cada discussão, não evitando o debate pedagógico em nome
das precárias condições de trabalho.
A denúncia organizada dessas condições deve ocorrer simultaneamente à
uma busca de soluções para os problemas de aprendizagem. Em outras
palavras, trata-se de não fazer da denúncia um pretexto para o imobilismo
frente aos graves problemas do ensino.
É preciso cuidar para que a justa indignação do professor frente à exploração
a que está submetido não se transforme em uma revolta injustamente
transferida para os alunos e pais. Dito de outra forma, cuidar para que de
oprimidos não passem a opressores.
Mas nem sempre é fácil fazer essa separação.
A LUTA POR SALÁRIOS É CONCOMITANTE À
LUTA A FAVOR DO ALUNO
Professores e pais compartilham de uma mesma experiência social de
exploração, ainda que em graus diferenciados. Os pais, em sua maioria,
vivem em condições mais precárias do que o professor. Mesmo assim, lutam
para manter o filho na escola. Nessa perseverança, revelam a importância
atribuída à educação e a confiança que depositam no trabalho da escola.
A dor que sentem frente a não aprendizagem dos filhos é uma dor que pode
ser evitada. Aprofundar a reflexão sobre as causas da reprovação é um
procedimento que pode gerar mudanças em relação à aprendizagem.
Na escola onde D. Dirce é diretora, essa discussão foi iniciada. Salário e
material foram as primeiras causas apontadas. Com certeza não são as
únicas, mas foram aquelas que a reunião conseguiu identificar nesse primeiro
momento. Aos poucos, a diretora e toda a escola vão aprofundando o debate
em busca de novas respostas.
MERENDA ESCOLAR
Obedecendo a ordem de inscrições, várias pessoas falam a respeito da falta
de merenda. D. Dirce levanta a mão e procura alguém para autorizar a sua
fala, dando exemplo de uma postura democrática. Participa em condições de
igualdade com os demais, mesmo sendo a diretora. Acaba cutucando Zezé,
que anota tudo na ata, como que pedindo ordem para falar. Zezé concede a
fala com naturalidade e volta às suas anotações.
D. Dirce relata diversas providências tomadas: centenas de ofícios para a
Secretaria, ida de pessoal até lá, e "até dinheiro meu já dei", diz ela. "Mas
vira e mexe falta merenda. O que podemos fazer?"
Um professor alega que isso é responsabilidade do governo e não da escola.
Em seguida, uma merendeira relata uma história. Trata-se de uma horta feita
em uma escola onde algumas crianças até desmaiavam de fome. Na horta
também se plantava chá para dor de barriga. Os pais doavam mandioca e às
vezes ovos.
Após esse relato, várias propostas começam a surgir: horta, buscar
doações junto à comunidade, realizar um festa junina para arrecadar
mantimentos. Zezé anota tudo com entusiasmo. D. Dirce confere as
anotações excitada.
DESCRUZANDO OS BRAÇOS
A saída da posição de impotência frente aos problemas atribuídos ao
governo é um importante avanço na escola onde D. Dirce é diretora. É
possível sair das queixas e das lamentações diante das faltas existentes.
Buscando a contribuição de todos, e de fato querendo, uma alternativa é
sempre encontrada.
Sem dúvida, o professor tem razão ao referir-se à omissão do governo. Tal
omissão tem que ser denunciada e cobrada. Mas até lá, o que pode a escola
fazer?
Com certeza não é omitir-se. Cruzar os braços e ficar lamentando não ajuda
em nada na resolução do problema. É possível combinar as duas coisas:
continuar a pressionar o governo para o cumprimento de seu dever e, ao
mesmo tempo, contornar internamente o problema tendo em vista os direitos
e o bem estar da criança.
MATERIAL DIDÁTICO
Também diante desse tema várias pessoas se manifestaram. É um assunto
que agita a reunião. A fala de uma professora, assim como a da merendeira,
traz uma importante contribuição. Conta ela a história de uma amiga,
professora de artes, que teve a idéia de fazer alguns mapas com as crianças.
Era muito grande a falta desse material na escola. A experiência foi um
sucesso. "O mais engraçado", diz ela, "é que as crianças mais difíceis
começaram a se interessar pelas aulas. Tornaram-se craques em desenho e
eram os melhores alunos para entender mapas."
Após esse relato, vão surgindo novas sugestões: tampinhas de garrafas para
fazer ábacos, tabuleiro de damas e histórias em quadrinhos, contando a
história do Brasil, feitos pelos alunos para serem usados como material
didático em outras aulas.
O QUE A ESCOLA TEM Assim como na escola
de D. Dirce, vários diretores e professores
queixam-se da falta de material didático. Mas existem situações onde tais
queixas não se justificam. Por exemplo, quando reclamam da falta de livros
sem que tenham se lembrado de visitar a biblioteca da escola. Ou então,
quando lutam por laboratórios que depois não são utilizados. Às vezes,
queixam-se da falta de material mas não recorrem aos trabalhos de sucata
feitos pela professora de artes e alunos.
Para administrar a escola com equilíbrio, é importante que o diretor e todos
os educadores percebam a existência dessas incoerências.
QUE FALTA É ESSA?
É interessante observar uma tendência em enxergar apenas o que falta. Em
conseqüência, a dificuldade em valorizar o que há de bom. É como se
existisse uma proibição oculta em reconhecer coisas boas na escola pública,
prevalecendo a tendência em invalidar o bom e ressaltar o negativo.
Uma imagem que pode ajudar é a de um copo semi-cheio. Frente a ele,
algumas pessoas vêem apenas a parte que falta preencher e não a quantidade
de água existente. Reclamam com tanta veemência da parte que falta que
chegam a passar a idéia de que o copo está completamente vazio. E nem
sempre gostam que lhe mostrem a água presente.
A questão do material é, em muitos casos, semelhante à essa estória.
Mas como pode ser visto pelo relato da professora e merendeira, não são
todas as escolas e profissionais que têm dificuldades em valorizar o próprio
trabalho. Vários deles realizam experiências alternativas e superam as
dificuldades com competência.
Mas também na escola de D. Dirce as coisas começam a mudar. Na reunião
coletiva vão sendo despertados outros sentimentos e posturas.
OS GANHOS EDUCATIVOS NA
ELABORAÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO
Recursos didáticos é um termo muitas vezes confundido com material
concreto. Recursos didáticos é um termo mais apropriado e abrangente,
comportando inúmeras situações, como a experiência
de vida dos alunos, a natureza, acontecimentos imprevistos em sala de aula e
na escola.
Por exemplo, é possível ensinar as estações do ano às crianças pedindo a
elas que na primavera tragam uma flor para a sala de aula. Ou fazer de uma
pedra jogada na escola um tema para discussão, tanto da pedra enquanto
matéria, como da pedra enquanto símbolo de uma relação conflituosa entre a
escola e a comunidade.
Além desses aspectos, é bastante educativo possibilitar às crianças a
oportunidade delas próprias produzirem o material de que necessitam.
Algumas vantagens foram mostradas pela professora na reunião:
desenvolve a capacidade criativa dos alunos e professores;
possibilita a aprendizagem do tema estudado no próprio ato de elaboração
do material a ser utilizado;
integra o saber e o saber fazer - aprender fazendo;
cria espaços coletivos e solidários de criação;
fortalece na criança o elo entre Homem e Natureza, na medida em que à
ela recorre para buscar as condições de sua aprendizagem;
recicla material descartável, transformando prováveis lixos em material
de estudo;
constitui uma resistência ao consumo exacerbante;
recupera o valor e a beleza do trabalho artesanal;
possibilita a integração entre as pessoas e as diversas áreas do ensino;
contribui na solução de problemas de indisciplina;
cria o interesse pelo estudo.
NA REUNIÃO GERAL, A SOLIDARIEDADE ENTRE PAIS,
PROFESSÔRES, FUNCIONÁRIOS E ALUNOS
Desde o momento em que foi aberto o espaço da fala e da participação, as
pessoas começam, aos poucos, a manifestar o seu desejo de contri-
buir e a sua generosidade. Soluções não imaginadas por D. Dirce são dadas
por outros profissionais. A escola vai fazendo o seu próprio caminho. Nesse
sentido, a experiência coletiva é uma prática verdadeiramente educativa
porque permite extrair das pessoas aquilo que elas têm de melhor. Propicia a
divisão de responsabilidades, a solidariedade, o compromisso, a construção
de um conhecimento comum a todos.
EXEMPLO DE D. DIRCE
D. Dirce está feliz. Encontrou na reunião soluções para problemas que não
conseguia resolver sozinha. Agora sim, começa a "fazer tudo ao mesmo
tempo e uma coisa de cada vez". Já não está mais sozinha, pois está
aprendendo a dividir responsabilidades e a confiar nas pessoas.
Mas esses avanços não significam que a escola vive em um mar de rosas. O
processo é longo, conflituoso, cheio de avanços e recuos. Com todas as suas
vantagens, o trabalho coletivo não é um santo milagreiro. No próximo
capítulo, vamos tratar um pouco dessa questão.
A MAIOR VIRTUDE, A PACIÊNCIA
DEPOIS DA REUNIÃO GERAL...
Em sua sala, D. Dirce verifica o quadro de reprovação da escola quando é
interrompida por uma merendeira: "A merenda ainda não chegou", diz ela.
D. Dirce pega o telefone para tomar providências, mas e novamente
interrompida por um professor: "Como é que vou dar educação física sem
bola?"
D. Dirce desliga o telefone aflita. Faz um sinal para Zezé que vai ao armário
e entrega umas notas para D. Dirce. A diretora dirige-se à professora, estica
a mão. Mas de repente, muda de idéia e fala decidida: "E não dá para dar
aula sem bola? Não tem atividade física sem bola?!?"A professora retira-se e
D. Dirce pensa: "Mas para que é que serviu a reunião?"
Uma professora entra neste instante. Quer saber a data da próxima reunião
geral. D. Dirce informa e pergunta quando vai poder colher na horta que
começou a ser feita na escola. Diante da resposta, D. Dirce dá um suspiro de
desânimo. Ainda vai demorar muito.
Zezé, sonhadora, imagina um refeitório repleto de comida, um prato cheio,
uma dispensa com enorme estoque de arroz, feijão, farinha, açúcar, óleos,
enlatados...
É interrompida por uma professora protestando, indignada, pelo atraso do
13°.
D. Dirce faz um gesto de quem não está sabendo de nada. "Mas a Secretaria
prometeu", diz ela. Indignada, a professora começa a falar alterada, ficando
cada vez mais nervosa. D. Dirce olha para a professora e para Zezé, levanta-
se com as mãos na cintura e dirige-se à professora: "E é por isso que você
deixou as crianças sozinhas? E assim que vai falar com elas também? E o
sindicato?"
A professora lembra da reunião e, desajeitada, volta para a sala de aula.
D. Dirce dá um suspiro e faz gesto de desânimo: "Mas Zezé, as pessoas
continuam iguais, os professores reclamam, tudo vem parar em minhas
mãos! Mas para que é que serviu a reunião?"
A MAIOR VIRTUDE, A PACIÊNCIA
- Para alcançar os objetivos a que se propôs, D. Dirce precisa entender que a
reunião geral não é palavra mágica que faz as pessoas mudarem de uma hora
para outra.
A transformação das pessoas é um processo longo, cheio de idas e vindas. É
preciso ter paciência, compreensão e tolerância. Mesmo porque as
dificuldades não são apenas dos outros, mas de todos nós, inclusive da
diretora.
Também os diretores manifestam contradições e resistências às mudanças,
principalmente no que diz respeito à democratização da escola.
Por exemplo, ao mesmo tempo em que falam a favor da democracia, alegam
a sua impossibilidade devido à imaturidade, o despreparo e o desinteresse
das pessoas.
Às vezes afirmam que a escola vai virar uma bagunça. E muitos não vêem
com bons olhos os alunos mais participantes, que querem organizar grêmios
ou que participam de partidos políticos.
No discurso, concordam plenamente com a democracia. Porém, na prática,
preferem continuar centralizando, aguardando o momento ideal. E esse
momento, para eles, acontecerá quando todos estiverem prontos.
TAMBÉM A DEMOCRACIA SE APRENDE FAZENDO
Não existe o futuro ideal ou as pessoas ideais para que a democracia • possa
começar. O seu momento ideal é sempre o presente, com as pessoas presentes.
Assim como só aprendemos a nadar, nadando; a andar, andando; a ser
diretor, digirindo a escola; a ser professor, dando aula; a ser mãe; criando
filhos; só aprendemos a ser democráticos no exercício da democracia. As
pessoas se preparam para ela é na prática. É na prática, diante de atitudes
infantis ou equivocadas, que todos vão se corrigindo
mutuamente para uma convivência mais equilibrada e generosa.
Adiando, jamais veremos esse momento ideal acontecer.
É importante ter cuidado com a impaciência de querer que as coisas e as
pessoas mudem de acordo com o nosso ritmo e vontade. Não adianta
forçar além das possibilidades de cada um, assim como não adianta
apressar o crescimento de uma criança, de uma árvore ou de uma flor.
Tudo acontece a seu tempo.
PARA MUDAR É PRECISO PERSEVERAR
Nem sempre nossa prática anda lado a lado com o desejo de mudança
expresso em nossas palavras. Quando menos esperamos, estamos
repetindo hábitos e comportamentos antigos.
A prática muda mais lentamente do que o discurso. O importante é
compreender o porque do descompasso entre o que se fala e o que se
faz, buscando analisar as razões dessa incoerência.
Às vezes, tal descompasso deve-se ao fato de as pessoas não estarem
suficientemente convencidas da mudança proposta. Aparentemente
sim, mas no fundo não têm convicção. E nossa prática é, em parte,
conduzida por nossas crenças mais profundas.
Outras vezes até acreditam nas novas idéias, mas ainda em um plano
bem racional ou superficial. Os sentimentos continuam relacionados
aos pensamentos anteriores. Um tempo é necessário para que novos
valores entrem para o nosso coração, substituindo não só as crenças,
mas os sentimentos a elas relacionados.
Há também o medo do novo. As idéias podem até ser boas, mas
assustam. É mais cômodo e seguro agarrar-se ao habitual e familiar,
onde se encontra mais segurança. O medo do novo, de arriscar, de não
saber como fazer e nem em que vai dar, muitas vezes nos paralisa. Isso
é natural.
Afinal, o medo de arriscar e de errar nos foi ensinado desde a infância,
principalmente nas escolas. Ali aprendemos a repetir respostas prontas
e iguais as que a professora queria e a fazer idêntico ao modelo dos
livros didáticos.
Qualquer tentativa de realizar as tarefas de forma diferente das esperadas era
repreendida por gestos, palavras, notas baixas, canetas vermelhas. Às vezes
até com castigos e dúvidas sobre a nossa inteligência e capacidade de
aprender.
É portanto natural que tenhamos nos tornado adultos sem criatividade e
inseguros diante de situações que exigem de nós respostas diferentes dos
modelos prontos.
O MEDO DA ONÇA
É importante desenvolver a compreensão de que o novo movimenta o mundo
para mudanças que favorecem nosso bem estar e desenvolvimento.
Mudança é movimento e movimento é vida. Ficar parado, estagnado, é uma
forma de morrer.
Na aprendizagem do novo, os chamados erros são positivos e inevitáveis.
Erros, nesses casos, são tentativas de acerto e, por isso, necessários à
aprendizagem. E é graças a eles que novos conhecimentos são elaborados e
descobertas são feitas. A descoberta de nosso país, por exemplo, foi fruto de
um erro. E o avião, resultado de uma utopia.
Depois de conquistados, parecem fáceis. Mas toda grande mudança e
descobertas nasceram de muitos esforços, superação de obstáculos,
persistência, convicção no objetivo, firmeza.
Ousar fazer diferente, ousar errar, é uma das grandes contribuições que
podemos dar ao desenvolvimento do mundo e das pessoas. É preciso criar
coragem e sair de trilhas já aprendidas, sem ter medo da onça
2
. É também
preciso deixar de beber café requentado por preguiça.
Preguiça de mudar porque vai exigir mais esforços, novas buscas, novas
formas de pensar, novas pesquisas de materiais alternativos, conflitos com as
pessoas.
AJUDANDO A ESCOLA A MUDAR
Em se tratando de escola, é importante dar às pessoas as condições para que
possam ir superando todas essas dificuldades. É necessário facilitar a elas o
contato com o novo.
Cabe à diretora proporcionar os momentos de troca de experiência; grupos
de estudos; buscar textos para leitura; não discriminar professoras mais
resistentes ou convictas do seu jeito tradicional; valorizar o que há de
positivo em qualquer trabalho, seja tradicional ou moderno; saber questionar
e avaliar em conjunto resultados negativos de qualquer prática; aprender
com os professores.
A TRANSFORMAÇÃO DE D. DIRCE
D. Dirce é uma diretora que vem passando por mudanças profundas. Dentro
dela, cresce a convicção do caminho escolhido para a gestão da escola. Por
estar certa do seu querer, mantém-se firme em seus objetivos, apesar dos
altos e baixos da caminhada.
Às vezes, vem um desânimo e uma decepção. Outras, uma não compreensão
dos acontecimentos e medo; ilusões se desfazendo; atrito com os
professores. Mas surge também a alegria de estar reencontrando sua função
e contribuindo para a transformação da escola.
Com o tempo e sempre perseverando, vai adquirindo independência e
firmeza em suas ações. Essa autonomia de D. Dirce aumenta na medida em
que formula suas próprias idéias sobre a realidade e aquilo que deseja.
E por ter idéias próprias, ela consegue ir desvencilhando-se de situações
conflituosas ou mais difíceis, transformando-as a seu favor. Quando as
pessoas pensam com as próprias cabeças, fica mais fácil ser criativas.
Aliás, é esta a única possibilidade de criação. Enquanto nossas idéias não
são nossas, mas dos outros, não conseguimos nos movimentar frente aos
desafios que a realidade coloca. O pensamento fica rígido e não flui porque
não encontra em si próprio o aprofundamento e a convicção necessárias para
responder, de forma criativa, aos problemas colocados.
A MUDANÇA DE EXPECTATIVA EM
RELAÇÃO AO PAPEL DA DIRETORA
Ao não tomar para si os problemas que continuam sendo levados até ela, D.
Dirce contribui para o processo de mudança de expectativa em relação ao
seu papel de única responsável pelos problemas da escola.
É dessa forma que aos poucos toda a escola vai aprendendo a não
atribuir à ela esse lugar.
A medida em que descentraliza, D. Dirce deixa espaços para outras pessoas e
órgãos se responsabilizarem pelo bom funcionamento da escola, como a
reunião geral, o sindicato, os professores.
As soluções não são mais "coisas" da diretora, mas de todos, discutidas e
aprovadas em reunião.
Nesse processo, um novo parceiro vai ser constituído na escola: o grupo de
representantes que, a partir de então, irá dirigir a escola com D. Dirce.
O GRUPO DE REPRESENTANTES
A ELEIÇÃO DO GRUPO DE REPRESENTANTES
É dia 8, 20 horas. Nessa noite a reunião geral acontece mais agitada do que
nunca.
Ela está avaliando as decisões tomadas na reunião anterior.
D. Dirce expõe a repetição de problemas que vivenciou desde o último
encontro, alguns deles já supostamente resolvidos pela assembléia, como a
falta de merenda, a elaboração de material didático alternativo, a luta no
sindicato. Relata também que as pessoas ainda estão muito dependentes
dela.
Uma professora pede a palavra. Para ela, a reunião geral tirou boas
propostas mas tem que organizar mais.
Em seguida, um pai fala da necessidade de definir melhor os responsáveis
pelas coisas. "A escola é grande, são muitas pessoas e não dá para ficar
reunindo sempre.", continua ele.
E no decorrer deste debate que a reunião toma uma importante decisão:
eleger um grupo de representantes para dirigir a escola com D. Dirce. Esse
grupo deverá ser composto por pais, alunos, professores e funcionários.
O PAPEL DO GRUPO DE REPRESENTANTES
O grupo de representantes, que em algumas escolas chama-se Colegiado ou
Conselho de Escola, tem funções bem definidas. É ele quem tomas as
decisões que vão interferir na vida da comunidade escolar. Torna-se,
portanto, a nova direção da escola.
A diretora participa desse grupo como membro nato (não é eleita) e
coordena suas reuniões. Mas participa em condições de igualdade. Como
todos os outros membros, tem que respeitar a vez de falar e as decisões do
grupo, mesmo quando estiver em desacordo com elas.
O grupo de representantes deve refletir e decidir sobre questões pedagógicas
e administrativas, como: sistema de avaliação; projeto
pedagógico; capacitação; currículo; faltas e atrasos; caixa escolar e
regimento, dentre outros.
Mas sua função mais essencial é trabalhar para que a escola cumpra seu
papel, garantindo a aprendizagem de todas as crianças. De nada adianta
democratizar a escola, abrindo os canais de participação para a comunidade,
se for para manter o mesmo projeto pedagógico que reprova em massa e
exclui os alunos do acesso aos conhecimentos básicos.
COLEGIADO E AUTONOMIA
O poder de decisão do grupo de representantes não é absoluto. Suas decisões
não podem ir contra a função da escola; as leis que regem a sociedade
brasileira; o Estado e o Município; o Regimento da Escola; os princípios
éticos.
Por exemplo, o Colegiado não tem o poder de fazer da escola um clube de
lazer. Não pode também alterar dias letivos estabelecidos por lei. Tem ainda
que respeitar critérios de transferência de professores estabelecidos pela
Secretaria de Educação, que, de preferência, deve estabelecê-los em comum
acordo com as escolas. Deve respeitar também os critérios de lotação de
professor nos turnos de acordo com o Regimento da Escola.
O grupo de representantes não pode usar seu poder de decisão para
discriminar alunos por motivos de raça, condições sociais, indisciplina. Ele
não tem, por exemplo, o poder de expulsar alunos, uma vez que a
permanência na escola é um direito constitucional.
Cabe ao Colegiado, caso discorde de leis ou decretos que estejam
prejudicando o bom funcionamento da escola, lutar por sua reformulação.
Para isto, é bom buscar a união com as outras escolas e o entendimento com
a Secretaria de Educação.
A IMPORTÂNCIA DO COLEGIADO
O Colegiado é uma nova forma de organizar a gestão da escola através da
divisão de responsabilidades. Através dele é possível ampliar as
possibilidades de soluções dos problemas e reforçar compromissos.
O espaço coletivo, como o Colegiado, cria a possibilidade de mudança
porque permite a união entre as pessoas. Quanto mais pessoas estiverem
pensando juntas, contribuindo, mais fácil fica superar as dificuldades.
Exemplo disso é a reunião geral, onde professores, pais e funcionários deram
sugestões que não haviam sido pensadas por D. Dirce. Assim, cada um
contribui com sua experiência, conhecimentos, pontos de vista...
Com o Colegiado, a escola também pode tornar-se mais justa porque nele
estão representados os interesses dos diversos segmentos. As decisões são
tomadas tendo em vista os interesses de todos, ou da maioria, e não os
interesses de um ou outro segmento.
É justo ainda porque o processo decisório, ao tornar-se público, torna-se
transparente, isto é, do conhecimento de todos.
Pode-se ressaltar, por fim, o fato de que as decisões tomadas, estejam certas
ou não, passam a ser de responsabilidade de todos, o que aprofunda o
comprometimento da comunidade escolar com a educação pública.
Mas essas vantagens não significam que o Colegiado vai resolver todos os
problemas da escola. Como já foi dito, ele vai contribuir, mas não solucionar
de forma mágica.
OS LIMITES DO COLEGIADO
É impossível para o Colegiado, assim como para a reunião geral, resolver
todos os problemas da instituição escolar, e isto por dois motivos centrais.
Primeiro, porque tem problemas que não dependem só da escola, como
deficiências no quadro de pessoal, salários baixos, atraso do 13
o
,
manutenção da escola, ampliação dos espaços físicos, mobiliário, etc.
Segundo, porque, como vimos no capítulo anterior, a escola só muda quando
as pessoas também mudam. E isso não ocorre de uma hora para outra.
Existem resistências e dificuldades.
As experiências de Colegiado em diversos estados brasileiros revelam
algumas delas:
reforçar o poder da diretora, que manipula o colegiado a seu favor;
discriminar alunos e elitizar a escola;
intimidar a participação de pais e alunos, demonstrando impaciência com
suas opiniões e recusa sistemática de suas propostas (sobre a competência
dos pais, ver capítulo VII);
sobrepor interesses dos professores e funcionários aos dos alunos e pais,
tornando-se um órgão de defesa dos interesses daqueles segmentos. Em
outras palavras, usar do espaço coletivo para a defesa dos interesses
particulares;
tomar decisões contrárias às leis.
MAIS UMA VEZ, A PACIÊNCIA É A MAIOR VIRTUDE
Democracia exige paciência e confiança no processo. A conquista de um
espírito de coletividade e valores éticos é uma luta longa e difícil. É, em
certo sentido, lutar contra a maré.
Por isso é essencial a paciência. Paciência com as nossas tentativas de
superação do individualismo, do egoísmo, da intolerância.
Paciência com os encontros coletivos porque somente neles reside a
esperança de nos transformarmos em seres melhores. É o coletivo que nos
educa.
É nele que aprendemos a respeitar a opinião do outro; a escutar; a trocar; a
contribuir e a receber contribuição; a ter humildade diante de uma proposta
recusada, aceitando decisões contrárias às nossas; a ser tolerantes; a entender
e respeitar as questões do outro; a decidir em benefício de todos, do coletivo;
a ter paciência. Podemos aprender ainda a equilibrar as necessidades de cada
um com as do grupo.
O Colegiado amadurece de acordo com o amadurecimento de cada um. Não
se pode desistir diante dos obstáculos e das dificuldades de crescimento.
Recuar significa permanecer eternamente primitivos, pequenos e
incompetentes para o exercício da generosidade e do respeito.
Cabe ressaltar, por fim, que o Colegiado não garante, por si só, a
democracia. Ele é um passo importante, mas não suficiente. A existência da
democracia vai depender da forma como as pessoas se comportam no
Colegiado: se respeitam as diversas opiniões; se as informações são passadas
com clareza; se as decisões são tomadas em favor da
coletividade e dos interesses maiores da Educação.
Em outras palavras, a qualidade do Colegiado, assim como a do Congresso,
da Câmara e do Governo, vai depender da qualidade das pessoas.
A PARTICIPAÇÃO NAS DECISÕES ENQUANTO DIREITO E DEVER
Nem todas as diretoras ficam felizes com a organização de um grupo de
representantes, como ficou D. Dirce.
É comum o medo de perder a autoridade, o poder, o respeito e a própria
função. "Se existe um Colegiado, para que serve a diretora?", perguntar elas.
De fato, quando o diretor divide responsabilidades ele perde um certo poder:
o poder de decidir sozinho. Mas não perde o poder de mandar. A diferença é
que agora ele manda tendo como referência as decisões do grupo e não as
suas vontades particulares. E isso está correto. Afinal, a escola pública não é
propriedade do diretor nem de ninguém.
Público é aquilo que é de todos. E esse "todos", na escola é o aluno, o
professor, o pai, o funcionário, o diretor. Porque então apenas um ou alguns
decidirem sozinhos?
Decidir sozinho na escola pública significa negar ao outro o direito e o dever
de participar e zelar por um espaço que também lhe pertence.
Nada justifica essa exclusão, a qual não pode ser feita em nome de supostos
desinteresses de professores e pais, analfabetismo e incompetência,
imaturidade e indisciplina.
Cabe à diretora, pelo contrário, garantir a defesa dos direitos de participação
de cada segmento, assim como cobrar o cumprimento de seus deveres.
A AUTORIDADE DA DIRETORA
Com o Colegiado, a diretora perde o poder de decidir sozinha, mas não
perde a autoridade.
Autoridade, diferentemente de autoritarismo, é o reconhecimento que
se tem pelo desempenho das funções de determinada pessoa. Em outras
palavras, tem a autoridade aquele que desempenha com competência as suas
funções.
O diretor, por ser diretor, tem a autoridade legal do cargo, assim como o
prefeito, governador, professor. Mas pode não ter a autoridade legítima, que
nasce do reconhecimento pelo bom desempenho das funções.
E quais são as funções do diretor em uma escola onde tem colegiado?
"... o bom diretor não é aquele que procura resolver todos os problemas pela
comunidade, mas o que consegue mais participação de todos."
3
Mas, como já vimos, é também sua responsabilidade fazer prevalecer as
decisões do grupo de representantes; esclarecê-lo sobre os limites e as
possibilidades conferidos por lei; zelar para que as decisões sejam justas e a
favor da coletividade; passar informações; não tomar partido de nenhum
grupo específico; resolver os problemas mais emergenciais de infra-estrutura;
garantir a participação de todos.
E ainda sua função coordenar as reuniões de forma a garantir a todos o uso
da palavra e o diálogo, evitando que as opiniões dadas caiam no vazio, não
sendo debatidas nem avaliadas pelos demais.
No Colegiado, o diretor deve evitar ainda inibir os participantes com suas
opiniões logo no início das reuniões. A diretora ainda exerce um poder
muito grande nas pessoas e sua fala inicial pode levar o grupo de
representantes a decidir aquilo que ela quer.
ASSEMBLÉIA ESCOLAR
As reuniões gerais que aconteceram na escola de D. Dirce são também
conhecidas como ASSEMBLÉIA ESCOLAR. Diferentemente do Colegiado,
na ASSEMBLÉIA ESCOLAR a participação não é através de representantes
eleitos.
Todos os pais, alunos, professores e funcionários são chamados a participar
e decidir. Por isso o nome de ASSEMBLÉIA.
A ASSEMBLÉIA ESCOLAR é o órgão que possui maior poder de decisão
dentro da escola. Pode até modificar uma decisão do colegiado.
Normalmente ela se reúne duas vezes por ano.
Decide sobre calendário, projeto pedagógico, prestação de contas e outras
discussões importantes. Mas pode também, principalmente em escolas
menores, reunir-se mais vezes. Esta é uma decisão da própria
ASSEMBLÉIA.
Na escola onde D. Dirce é diretora, a ASSEMBLÉIA optou reunir-se duas
vezes por ano, elegendo o grupo de representantes para as reuniões mensais.
A escola agora possui uma gestão colegiada. O que mais falta para que possa
cumprir sua função, tornando-se uma escola competente?
ACREDITAR NAS CRIANÇAS
A FESTA JUNINA
Uma importante decisão do grupo de representantes foi a realização de uma
festa junina para arrecadar mantimentos. A professora Rita e D. Carmo, mãe
de um aluno, ficaram encarregadas de coordenar a festa.
Rita está feliz com as mudanças de D. Dirce e da escola. Sempre quiz fazer
um trabalho diferente e percebe que agora vai ter apoio. Foi com boa
vontade que aceitou a coordenação da festa.
D. Carmo é mãe de muitos filhos e lava roupa para fora. Mas arruma tempo
para tudo. É reflexiva, muito calma, fala e faz tudo devagar.
Andando pela escola, conversam sobre a festa junina. Rita pergunta como
vão fazer. Carmo : "Olha Rita, só não dá para fazer como a do ano passado...
como foi ruim!"
Rita, de repente, exclama: "Vamos mudar tudo! D. Carmo, quem é que gosta
mais de festa?" "Primeiro é a criançada", responde ela. "Então, são as
crianças que devem fazer a festa", diz Rita.
A FESTA É DAS CRIANÇAS
O clima na festa é alegre e descontraído. Crianças sorrindo recortam
bandeirinhas, juntam madeira para a fogueira e confeccionam convites com
suas próprias letras.
Professoras animadas preparam comidas e bebidas com as merendeiras. D.
Dirce, do alto de uma escada, prega um varal de bandeirinhas, enquanto os
pais lêem os convites sorridentes.
Crianças maqueiam-se umas às outras.
Pais e crianças montam barracas, comidas e bebidas.
A festa é um sucesso. No ar, o ruído alegre das risadas de crianças
brincando.
Na quadrilha, crianças dançam com adultos, pais com professores. Em
um canto do pátio, amontoam-se mantimentos de todo o tipo. D. Carmo e
Rita abraçam-se eufóricas.
UMA ALEGRE VITÓRIA DO TRABALHO COLETIVO
A falta de merenda está resolvida por um bom tempo. Em união, a escola
conseguiu superar um problema que era motivo de dor de cabeça para D.
Dirce.
Rita e D. Carmo, por sua vez, trouxeram uma grande contribuição para
todos. Demonstraram que o trabalho coletivo pode e deve ir além do grupo
de representantes e da reunião geral.
Esse é um dos objetivos da democratização: democratizar não só as decisões
de direção mas a sala de aula e as atividade extra-classe, enfim, todas as
dimensões da escola.
CRIANDO A APATIA E O DESINTERESSE
Nós adultos, normalmente, gostamos que tudo caminhe conforme as nossas
vontades.
Diante de um outro adulto, em uma relação de igualdade, fica mais difícil
impor o nosso modo de pensar. Mas diante de crianças ou de pessoas
submetidas à nossa autoridade ou mais dóceis, quase sempre nos impo-
mos... Sem perceber, bloqueamos os projetos e os sonhos dessas pessoas.
Frustadas, respondem às nossas idéias com a apatia e o desinteresse. E não é
para menos. A mensagem que estamos passando é a de que aquilo que
trazem dentro de si não tem valor. Ou seja, que a sua contribuição é
desnecessária. Pior ainda, que não têm nada para oferecer.
A não ser o seu corpo feito máquina para executar as nossas vontades.
Esvaziados de sua humanidade - seus desejos, sentimentos, idéias - a
sensação é de ofensa e nulidade. Afinal, o que cada um tem dentro de si
talvez seja, para cada pessoa, o que há de mais importante.
COMO AS FAMÍLIAS EDUCAM?
Mas procedimentos assim existem não apenas nas escolas, onde ainda é
comum a prática de levar tudo pronto para as crianças
4
.Também nas
famílias esse procedimento é comum. Ele nasce de uma idéia de
educação bastante generalizada, que trata a criança como uma tábua rasa que
nada conhece. Cabe ao adulto depositar nela todo o conhecimento. Da
criança nada se espera.
Para haver mudanças é preciso reconhecer que são necessários esforços para
nos desfazermos dessas crenças tão arraigadas. Um primeiro passo é nos
conscientizarmos de sua existência.
O PLANEJAMENTO COLETIVO
O sucesso da festa junina demonstrou a importância do planejamento
coletivo para a realização de uma trabalho verdadeiramente educativo.
Quando as pessoas participam do planejamento, elas identificam-se com
aquilo que está sendo feito. Naquele produto tem um pouquinho de seus
sentimentos, de sua criação. For isso, o compromisso e o interesse são
diferentes. As pessoas cuidam dessa realização como se estivessem cuidando
delas próprias.
Assim, se quisermos verdadeiramente educar, é necessário que deixemos de
impor arbitrariamente as nossas vontades, cedendo a vez para a vontade do
outro.
E para isso é preciso que o adulto deixe de se julgar dono da verdade,
abrindo mão da vaidade de ter a "sua idéia" realizada e admirada.
É necessário dar lugar à idéia do outro, deixar que outros brilhos apareçam.
É fundamental que as crianças passem pela experiência de verem realizadas
as suas idéias e vontades. Deixar a criança estar no mundo como alguém
capaz de realizar sonhos, de projetar.
A IMPORTÂNCIA DO LIMITE
E necessário não confundir o respeito aos sentimentos e desejos da criança
com a falta de limites. E condição fundamental de saúde mental aprender
que vontade alguma pode existir soberana. A falta de limites é prejudicial à
criança e tem conseqüências drásticas em toda a sua vida adulta.
Trata-se de aprender a equilibrar a vontade própria com a do outro, ou seja,
aprender a relacionar-se. Saber ceder quando necessário e reconhe-
cer quando a vontade do outro é mais pertinente, sensata e melhor para o
momento, sem que isto signifique uma ameaça à nossa auto-imagem. E
aprender, enfim, que ninguém é perfeito e que é da nossa condição humana a
incompletude. Com o outro nos completamos e com o outro revezamos os
momentos de predomínio das diferentes vontades.
E também com o outro que podemos construir idéias e vontades semelhantes
quando refletimos, coletivamente, sobre o que é mais justo e ético para todos
nós
A EXPERIÊNCIA DA PROFESSORA VERA
Na semana que sucedeu à festa junina, D. Dirce, voltando para a escola,
depara-se com um grupo de crianças fazendo pipas. Ela fica surpreendida
com a capacidade dessas crianças de realizar um trabalho tão minucioso e
que requer enorme concentração. Além disto, tem ainda o desenrolar de um
ritual chamado BATIZADO DA PIPA.
O sonho das crianças era homenagear D. Dirce pela festa, batizando a pipa
com o seu nome.
D, Dirce entra na escola, derretendo de felicidade.
Rita, que a aguardava ansiosa, anda rápido até ela e começa a contar, muito
excitada, o caso de uma professora.
"Eu estive na escola do Jardim Amaro. Você não imagina que coisa incrível
está acontecendo lá!
Havia uma classe, como aquela que temos aqui na escola, para onde iam
todas as crianças mais fraquinhas. Você sabe, aquelas mais lerdinhas,
repetentes, que nenhuma professora quer pegar..."
D. Dirce faz que sim com a cabeça enquanto Rita continua falando:
"Aí, apareceu uma professora já não tão nova, aparentemente tradicional.
Fez questão de pegar essa classe e se propôs a alfabetizar aquelas crianças
em um semestre! Ninguém acreditou que daria certo.
Primeiro ela fez um acordo com todo mundo para referir-se a essas crianças
como "inteligentes", "espertas", "educadas", e nunca mais chamá-las de
"imaturas", de "burras", "difíceis", "repetentes". E todos concordaram.
Quando uma criança faltava, fazia o possível para ir até a casa dela ver o que
estava acontecendo. E quando algumas crianças ficavam cansadas de ficar
sentadas, deixava ir para o fundo da sala assistir a aula em pé.
Nunca, nunca, ela dizia que a criança fez errado. Tudo que era feito por elas
era, por princípio, bom! Por exemplo, ao contrário do que queria a cartilha,
uma criança pintou o patinho de preto. Vera disse que estava lindo e, em
seguida, começou a conversar com a criança para entender porque ele
escolheu aquela cor - conhecer sua história, sabe? E nos cadernos dos alunos
ela sempre escrevia bom, ótimo, muito bom.
Os alunos não queriam saber de mais ninguém: era Vera prá lá, Vera prá cá.
E o que é incrível, é que antes do fun do semestre TODOS estavam
alfabetizados."
DE VOLTA A SUA SALA...
D. Dirce entra em sua sala. Sua cabeça está transbordando de pensamentos.
Lembra da festa junina, do ritual da pipa, da capacidade das crianças de
fazerem coisas tão complexas fora da escola, da reprovação, do relato de
Rita e de sua boa vontade em fazer diferente.
Olha pensativa para Zezé que a observa curiosa.
D. Dirce, decidida, dirige-se à Zezé: "precisamos pensar melhor em nossos
alunos. É tanta indisciplina e reprovação! Mas como eles se mostraram
interessados depois da festa! Tem alguma coisa de errado conosco! Zezé,
precisamos discutir tudo isso com o grupo de representantes!".
D. Dirce olha pela janela. Seu olhar vagueia pelo céu azul e branco. No alto,
ela vê uma linda pipa colorida. Na cabeça de D. Dirce, desta vez a
homenageada é a professora Vera.
O RÓTULO - CONSTRUINDO A AUTO-IMAGEM NEGATIVA
As crianças acreditam em tudo que lhes dizemos. Cada palavra possui uma
influência muito grande sobre ela. Se dissermos que são levadas, incapazes e
burras, elas vão se comportar como se fossem levadas, incapazes e burras. É
a isso que chamamos internalizar.
As palavras que dizemos à crianças funcionam como um espelho,
dando à elas a imagem que farão de si próprias. Mas não só as palavras.
Também o espaço físico que lhes destinamos tem esse efeito. Com o tempo,
a criança acaba por se identificar com o ambiente que freqüenta: se está na
pior sala da escola, como é a dos "repetentes", ela acredita que também é
pior e deve dar o pior de si.
Mas na verdade, a criança não é incapaz. Ela está apenas respondendo da
forma como o adulto espera que responda. O rótulo fixa a criança naquele
lugar esperado e desde então, é difícil para ela romper essa armadilha.
Cercada por palavras negativas, a criança acaba tomando-se um problema.
A DIFICULDADE É DO ADULTO
Quando rotulamos, estamos dando mostras de uma dificuldade que é muito
mais nossa, do adulto, do que da criança. Somos nós que não conseguimos
ensinar. E não conseguimos ensinar porque não acreditamos suficientemente
na competência das crianças.
Às vezes desistimos delas até no início do ano, quando sentenciamos "essas
crianças não vão conseguir se alfabetizar."
E é interessante que normalmente essa descrença do adulto é voltada para as
crianças mais pobres, negras e humildes. E importante que os educadores
revejam pressupostos como esses, que associam pobreza com incapacidade.
A EXPECTATIVA POSITIVA - LIBERTANDO A CRIANÇA
Acreditar na criança é essencial para que ocorra aprendizagem. Essa crença
não é uma ilusão. A criança merece crédito e isso tem alguns fundamentos:
A criança é uma fonte de riqueza, criatividade e sensibilidade. São
capazes de se organizar, manifestam desejos de participar e de contribuir.
A festa junina e o batizado evidenciam isto.
Qualquer material de sucata ou de artes colocados em suas mãos
transformam-se em objetos ricos de significado e beleza. Mas para
conseguir enxergar, é necessário abrir mão de conceitos padronizados
sobre o belo. É justamente com os padrões estéticos estabelecidos que a
liberdade criativa das crianças vem romper.
Toda criança é inteligente. Existe um conceito que diz ser a inteligência a
manifestação de um desejo de conhecer e de aprender
5
. E
isso toda criança tem.
• A inteligência se expressa através de perguntas. Perguntando, a criança
demonstra desejo de conhecer. A inteligência não é estática, como uma
mesa. Ela aumenta a medida em que aumentam nossos conhecimentos,
em que perguntamos. Por isso a importância de responder com respeito e
atenção às perguntas das crianças. Ironizar e perder a paciência pode
inibi-las em suas perguntas e assim, bloquear a inteligência.
Mesmo as crianças que apresentam dificuldades mais especiais possuem
inteligência. Experiências pedagógicas têm mostrado que limites
orgânicos podem ser, em parte, superados. Vai depender do trabalho
educativo que for feito.
Cabe às escolas, juntamente com as Secretarias de Educação, buscar
atender à essas necessidades mais específicas.
A expectativa positiva favorece a auto-imagem, o que é essencial para a
confiança em si mesmo e, em conseqüência, para a aprendizagem. É o
que fica demonstrado com o trabalho de Vera. Nesse trabalho fica
destacada a importância da disponibilidade para a relação afetiva e para o
carinho. Da mesma forma, a importância de desmontar rótulos negativos;
de valorizar tudo que faz; de dirigir-se às crianças com palavras positivas
e carinhosas e de conhecer e acompanhar sua vida pessoal.
• As crianças possuem uma competência e um conhecimento que não só
antecedem a sua ida à escola como se manifestam fora dela. O Batizado
da Pipa é um exemplo claro disso.
O PAPEL DA DIRETORA
Não é a toa que Rita dirige-se confiante à D. Dirce para falar da experiência
de Vera. A professora percebe na diretora uma aliada para seus desejos de
fazer uma educação diferente.
Percebe que D. Dirce quer não apenas democratizar as decisões mas também
o ensino - ou seja, garantir a aprendizagem real de todas as crianças.
Conhecer essas experiências, valorizar as iniciativas como as de Rita, buscar
discutir a questão do ensino e da reprovação com o grupo de representantes
são procedimentos fundamentais da diretora.
A REPROVAÇÃO
D. DIRCE CAMINHA PELA ESCOLA...
Andando pela escola D. Dirce repara na sujeira do pátio e corredores, nos
vidros quebrados e num grupo de adolescentes que joga pedras.
Diante dessas cenas, começa a refletir novamente sobre uma questão que a
tem preocupado já há algum tempo. Trata-se da escola que quer construir e
da diretora que deseja ser.
De uma coisa ela tem certeza: não quer uma escola limpa, organizada e com
um bom relacionamento com os pais, mas com altos índices de reprovação,
crianças tristes e rotuladas.
Recorda do primeiro dia em que classificou os problemas da escola em
administrativos, sociais e pedagógicos. Foi quando percebeu a sua dimensão
básica - a dimensão pedagógica.
E para isto agora que ela quer se voltar.
DE REPENTE, UMA DISCUSSÃO
D. Dirce é interrompida em seus pensamentos pela discussão entre duas
professoras:
A - "Os alunos que você me passou são um problema. Eles não sabem
nada."
B - "Você não sabe dar continuidade ao processo?"
A - "Que processo? Que troço é esse de processo?"
B - "Pega os alunos onde estão e continua a aprendizagem!"
A - "E o programa da quarta série? Mando para o espaço?"
DE VOLTA À SUA SALA
D. Dirce entra agitada dentro da sala. Pega a bandeira do Brasil, toma certa
distância e começa a falar com Zezé: - "Imagina Zezé, eu quero que um
aluno saia daqui e chegue até lá", e aponta para a bandeira.
D. Dirce dá dois passos para a frente: "mas a criança só consegue chegar até
aqui. Aí como ela não chegou até lá..." . D.Dirce volta os dois passos para
trás: "É reprovada e tem que começar tudo de novo."
Zezé fica boquiaberta como quem cai em si.
"No outro ano", continua D. Dirce, dirigindo-se para perto da bandeira,
quase tocando-a com as mãos, "dá mais cinco passos. Falta pouco, mas ainda
não consegue chegar. O que acontece novamente? Volta tudo para trás outra
vez."
Entendeu o drama, Zezé? Como é que desata o nó? Reprova ou dá
continuidade?"
Reprovar ou dar continuidade - é esse o grande debate para o qual se voltam
hoje diversos educadores. Mas para poder aprofundar essa discussão é
importante rever um pouco da história que deu origem a tudo isso - a
reprovação e as suas causas. E por esse ponto que vamos começar.
AS CAUSAS DA REPROVAÇÃO
Os índices de reprovação no Brasil mantêm taxas próximas a 50% há
décadas. Quanto à evasão, tem girado em torno de 20%. Diante desses
índices, diversos educadores realizaram pesquisas buscando analisar as
causas da reprovação e propor alternativas. Tais pesquisas enriqueceram a
literatura nacional nos anos 70 e 80, sendo seus resultados bastante
conhecidos. Algumas idéias básicas e unânimes merecem destaque.
A reprovação em massa ocorre apenas nas escolas públicas, atingindo as
crianças de precárias condições de vida.
Existe um preconceito em relação à capacidade de aprendizagem dessas
crianças. A sua linguagem, hábitos, comportamentos, modo de vestir e de
alimentar, enfim, as suas condições de vida, são interpretados como
obstáculos à aprendizagem.
Em sua formação, a professora aprende a ensinar para crianças que
possuem um outro padrão de vida: bem alimentada, com linguagem igual
à da professora, pais que ajudam em casa.
Na escola pública, ela depara-se com uma realidade bem diferente
daquela que aprendeu nos cursos. As crianças reais que encontra desafiam
a sua didática e seus métodos de ensino. Com elas nada
disso funciona bem e tanto a professora quanto a escola acreditam que o
problema é da criança. • Inicia-se aí um choque entre a escola e a criança.
Quem perde é essa última. Acreditando estar certa e a criança errada, a
escola não modifica-se. Repete o mesmo modelo de ensino e, em conseqüên-
cia, o mesmo resultado: os altos índices de reprovação e evasão.
APROFUNDANDO O CONHECIMENTO - AS CAUSAS MATERIAIS E
ESTRUTURAIS
Para as causas anteriormente citadas, algumas soluções foram apontadas:
capacitar o professor para atuar junto às crianças das escolas públicas;
reformular metodologias e sistemas de avaliação, rever o currículo e
organização das turmas, dentre outras.
Em contrapartida, foram denunciadas outras causas, também importantes, de
ordem material: as precárias condições de trabalho, como os baixos salários e
o quadro de pessoal incompleto; a estrutura de ensino; a organização do
trabalho escolar e do processo pedagógico.
As soluções aqui também foram vislumbradas: suprir as escolas de suas
necessidades materiais e rever a estrutura de ensino, mais especificamente, a
organização seriada.
QUAIS AS CAUSAS MAIS IMPORTANTES?
Acontece entre os educadores uma certa disputa pelas causas mais
determinantes da reprovação e seus principais responsáveis.
Alguns defendem bravamente os baixos salários e a falta de material, como a
professora da escola de D. Dirce. Alegam inclusive que resolvendo isto todo
o resto estará automaticamente solucionado. O responsável aqui é o governo.
Outros responsabilizam a falta de merenda, a fome, a pobreza dos alunos. A
culpa aqui é da família, do próprio aluno e das suas condições de vida.
Há os que atribuem as causas da reprovação ao método de ensino, sistema de
avaliação, capacitação do professor, relação professor-aluno. O culpado
passa a ser o professor.
Há aqueles que reduzem as causas da reprovação ao sistema de seriação
a exploração a que está submetido, é de natureza ética. A criança não pode
ser punida pelas injustiças presentes no trabalho educativo.
PARA ALÉM DA REPROVAÇÃO - A APRENDIZAGEM
O absurdo histórico e humano que é a reprovação fez com que todas as
atenções se voltassem para essa questão. São várias as escolas e Secretarias
de Ensino que vêm conjugando esforços para a superação desse problema.
Mas é importante não esquecer que reprovação/promoção é diferente de
aprendizagem. Pode-se acabar com a reprovação sem que isto resolva o
problema da aprendizagem e do conhecimento.
Acabai" com a reprovação não é o mais difícil. Aliás é até simples - um
decreto governamental pode fazer isto da noite para o dia. Mas para haver a
universalização do conhecimento, ou seja, a garantia de que todas as
crianças aprendam os conhecimentos necessários para viver no mundo atual,
é necessário algo mais do que reprovar ou não reprovar. É preciso ensinar de
fato. E para isto o trabalho do professor é essencial.
Para contar com o professor, duas condições são essenciais:
1- sua disponibilidade em optar pela saída ética, ou seja, romper o círculo
vicioso de omissão pelo fracasso escolar, posicionando-se a favor do aluno;
2 - compreender as injustiças presentes no ato de reprovar.
Sobre essas injustiças é que falaremos a seguir.
DAR CONTINUIDADE AO PROCESSO - UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA
Muitos diretores e professores têm receio da proposta de continuidade por
achar que isto pode empobrecer o ensino. Dar continuidade significa, para
eles, passar o aluno de qualquer jeito.
Também D. Dirce fica em dúvida. Se a criança não atingiu os pré-requisitos,
como pode pular uma parte e seguir em frente? Como desatar este nó?
Mas o engano é justamente esse: dar continuidade ao processo não significa
pular etapas. O que se pretende é reorganizar o processo de
1
ensino de tal forma que o aluno possa seguir em frente e dar seqüência ao
que já sabe, sem ter que voltar tudo para trás.
PORQUE REPROVAR É INJUSTO
Quando uma criança é reprovada vários procedimentos injustos estão sendo
feitos. Vamos destacar alguns deles.
A ESCOLA VALORIZA O QUE A CRIANÇA NÃO SABE
Ao reprovar, a escola demonstra que o mais importante para ela é o que a
criança não sabe. O que aprendeu é totalmente desconsiderado, não servindo
para nada. Exemplo disso é a forma como organiza o sistema de promoção:
se a criança não aprendeu determinados pré-requisitos, não há promoção,
mesmo que tenha aprendido várias coisas e avançado em relação ao seu
estágio inicial.
Por que, ao contrário, a escola não aprova a criança pelo que ela já sabe,
valorizando assim a sua aprendizagem?
A escola é lugar de aprendizagem. É, portanto, lugar do não saber, lugar do
erro. Porque então castigar o aluno com a reprovação pelo que ele não sabe?
• ENSINO INADEQUADO
Reprovação é também injusta porque o que a criança não sabe é muitas
vezes resultado de um processo de ensino inadequado. Por exemplo, o apego
de certos professores às respostas padrão, ou às próprias verdades e formas
de conhecer, reprimindo respostas alternativas e desvalorizando o saber e as
experiências de vida da criança. Existem hoje, diversos educadores que
revêem metodologia de ensino, sistema de avaliação, recursos didáticos,
reconhecendo a sua inadequação para as crianças de escola pública.
E preciso estar atento à realidade de vida da criança para efetuar o ensino na
sala de aula. Um exemplo ilustrativo é o caso de uma professora que pediu
aos alunos o desenho de um corpo humano. Um deles desenhou a mão de
um homem. A professora, que normalmente corrigiria como errado - não era
a resposta esperada - resolveu conversar com a criança. Com ela ficou
sabendo que o pai a espancava quase diariamente!
Para a criança, a mão que espanca é o corpo humano. E isto não pode ser
considerado uma resposta errada.
AUTO-IMAGEM NEGATIVA E DESESTÍMULO
Reprovar é também injusto pelo desestímulo e pela auto-imagem negativa
que a criança vai adquirindo. Contribuem para isso os rótulos que começam
a ser usados para identificar a criança reprovada: "imatura", "atrasada",
"lenta", "repetente". Também contribuem as ameaças e castigos que recebem
dos pais, como espancamentos e ameaças de mandar para a Febem.
Após reprovações sucessivas e esforços inúteis, o desestímulo é inevitável.
Sozinha nessa armadilha que a aprisiona e humilha, resta à criança a saída
pela porta da rebeldia ou da apatia. Comportamentos como desatenção,
bagunça, recusa em fazer o que o professor pede vão ser comuns.
Em uma tentativa solitária de salvar algo de bom de si mesma, a criança atua
como se estivesse dizendo, através desses comportamentos, que ela não
aprende porque não quer, e não porque é incapaz.
REPROVADA NA VIDA E NA ESCOLA
O que a criança vive na escola é a extensão do que vive na vida. O ciclo de
violência a que está submetida, como a fome, moradia precária e trabalho
precoce, discriminação, delinqüência, rótulos (pivete, favelado), vai ter
continuidade dentro da escola. A reprovação e os rotulos' fazem parte desse
ciclo.
Nessa instituição a criança tem reforçada uma imagem de inferioridade
social e humana, e acaba por atribuir a si própria a culpa pelo fracasso que
outros lhe impõem.
E comum ver as crianças referindo-se a si mesmas como "burras", "cabeça
ruim" ou buscando em alguma fantasia a explicação para a "cabeça dura"
que têm.
ACREDITAR NA CRIANÇA - ROMPENDO COM O PRECONCEITO
Para haver promoção e aprendizagem, é condição essencial acreditar
no potencial e na inteligência do aluno pobre.
Enquanto houver algum preconceito em relação às suas capacidades e
experiências de vida, será muito difícil haver aprendizagem, mesmo que se
consiga acabar com a reprovação.
No capítulo anterior foi analisado o papel fundamental que tem a expectativa
positiva do professor em relação ao aluno, o afeto, o carinho, as palavras
positivas, o acompanhamento de sua vida, a valorização de suas respostas e
experiências pessoais, sociais e culturais. É esse o pano de fundo para a
aprendizagem.
Analisar as causas do preconceito em relação a criança pobre é um bom
exercício. Ele pode auxiliai" a escola a superar os "problemas" de aprendi-
zagem e indisciplina. Voltaremos a falar sobre isto no próximo capítulo.
O PAPEL DA DIRETORA
D. Dirce, com razão, retoma os temas da reprovação e da aprendizagem, os
quais vêm merecendo, já há algum tempo, a sua atenção.
A decisão de levar essa discussão para o grupo de representantes é
fundamental. Este é um importante papel da diretora: contribuir para que a
escola reveja o processo pedagógico, garantindo a aprendizagem de todas as
crianças.
Para isso é necessário abrir na escola o debate sobre a reprovação e a não
aprendizagem, buscando conhecer as suas causas e organizando as ações
alternativas para a sua superação. E não esquecer de uma discussão
fundamental, que são as causas dos preconceitos em relação a criança pobre.
A INDISCIPLINA
DE VOLTA AO GABINETE... D.
Dirce trabalha, satisfeita, em sua sala.
Entra uma professora nervosa puxando um aluno pelo braço: "ele estava
estragando o jardim!!!", exclama ela.
D. Dirce acomoda o Zé Carlos em uma cadeira, olha para ele, olha para a
professora, põe a mão na cintura e pergunta: "e o que você falou com ele?"
A professora responde: "que ele não tem jeito e que eu ia levá-lo para a
diretora".
Zezé acompanha tudo atenta.
D. Dirce sai com a professora para fora e a interpela: "e isso é caso para
diretora, Mara?"
"Já estou cansada desse menino", responde ela.
"Mara, primeiro esse menino tem nome", diz D. Dirce. "E depois, você não é
educadora?"
-" Bom, é que às vezes não dá..."
"Dá sim. Vai conversar com ele direito e tentar entender porque ele estava
estragando o jardim."
Zé Carlos, que já esperava ficar de castigo no gabinete, olha perplexo para
D. Dirce, que olha para ele e o entrega de volta para a professora. "Como a
diretora mudou!", pensa ele boquiaberto.
AS LEMBRANÇAS DE ZEZÉ
Zezé, pensativa, vai aos poucos recordando-se de um acontecimento
ocorrido em uma escola em que já trabalhou:
"Uma professora reclama com um pai, que tem o filho ao lado, apavorado:
"nunca vi um menino tão terrível! Indisciplinado! Não aprende! Bate nos
colegas!"
Quando chegam em casa, o menino leva uma surra do pai, que xinga e faz
ameaças. A criança chora.
De volta à escola o menino bate em uma criança menor. A professora pega o
menino pela orelha, dá uma bronca e manda chamar novamente o pai, que
bate no filho, que novamente bate no colega...
De uma última vez em que apanhou, o menino chega à escola, com um pau.
Começou a bater em uma carteira de sala de aula e em uma bonita planta do
jardim. "
Zezé fica triste: "para que serve a escola? O que é ser educador afinal?"
EDUCAR OU PUNIR
Diante da indisciplina, muitas vezes, nós, educadores, deixamos de
aproveitar a oportunidade para conhecer e orientar os alunos e, ao contrário,
os punimos. Educar é um ato muito mais difícil do que punir. Exige
paciência, compreensão, disponibilidade para escutar e aconselhar.
A punição não educa. Ela apenas reprime a manifestação de uma conduta
considerada indesejável, mas não a modifica. Pelo contrário, pode até
agravá-la.
Conforme nos ensinou D. Dirce, educar é identificar, através do diálogo, os
acontecimentos que levaram a criança a agir daquela forma.
Os limites necessários à formação de uma criança devem acontecer com a
intenção de educá-la e não puni-la. E para isso é preciso sermos justos,
firmes mas amorosos. E é importante que ela compreenda o motivo pelo qual
está sendo repreendida.
VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA
A criança devolve para o mundo aquilo que recebeu. Se o que tem para dar é
agressividade, alguma forma de agressão a está atingindo.
O caso do aluno Zé Carlos, tão comum nas escolas públicas, ilustra bem
algumas das razões que estão nas origens dos comportamentos agressivos
dos alunos.
Histórias de crianças com dramas de vida profundos, como pais que as
espancam e brigam entre si, alcoolismo, fome, batidas policiais, dentre
outras, povoam o universo das escolas.
Diante de tantas dificuldades, a criança, muitas vezes, chega a um estado
limite de resistência emocional. Como saída, pode explodir ou implodir. E na
escola nem sempre encontra o respeito pelas suas dificuldades. Ao contrário,
é exigida ainda mais, repreendida ou punida pelo seu comportamento, sem
que possa desabafar, explicar ou compreender tudo que lhe atormenta o
coração.
Pressionada também pela escola, a criança chega ao seu limite.
A IMPORTÂNCIA DA FALA
A criança precisa falar. Educar é deixá-la expressar, pelas palavras, a
violência que a faz sofrer. Caso contrário, ela o fará através de atos.
É preciso escutar a criança, procurar conversar com ela e dar à ela a
condição de compreender os acontecimentos nem sempre bons que a
envolvem. E este é um trabalho do professor e não só do diretor.
QUANDO A VIOLÊNCIA ESTÁ NA ESCOLA
Nem sempre a violência que está na base da conduta do aluno tem origens
na família ou apenas nela.
Às vezes ela está na própria escola. Alguns focos de violência dessa
instituição já são conhecidos: a reprovação; os rótulos; os preconceitos em
relação à criança pobre; a indiferença dos adultos frente aos seus problemas;
a desvalorização de suas experiências sociais e culturais; a não confiança em
seu potencial; dentre outros.
A indisciplina do aluno surge assim associada à outras formas de agressão
proveniente do mundo adulto.
DESORIENTANDO OS PAIS
Um outro foco importante de violência foi trazido por Zezé em suas
recordações. Trata-se das reclamações que muitas vezes são feitas aos pais
de forma inadequada.
Muitas vezes os pais dos alunos também estão em um ponto limite de
resistência física e mental dado à gravidade de suas condições de vida.
São pais esgotados por um trabalho estafante, salários mínimos que não dão
para nada, panelas vazias em casa, ônibus cheios, distância, refúgio na
bebida, problemas em casa...
Uma reclamação do filho vai ser, para muitos desses pais, a gota d'água que
faltava para entornar tanto sofrimento contido.
E preciso que a escola busque uma forma de orientar os pais e não, ao
contrário, desorientá-los.
A escola e os educadores cumprem o seu papel quando compreendem o
drama das condições de vida da população brasileira e, a partir dessa
compreensão, reconhecem a necessidade de auxiliá-los. A escola tem um
papel educativo junto às famílias, que é o de ajudá-las na educação de seus
filhos e na melhoria de suas condições de vida.
O AFETO Tudo o que foi dito até agora
aponta para um único ponto central: o afeto.
Afeto, escuta, confiança e trabalho coletivo são, portanto, ingredientes
básicos para a superação dos problemas de indisciplina. Trabalhar bem essa
receita vai depender, em parte do empenho e do querer de cada um. Em parte
porque problemas de comportamento de crianças normalmente atingem os
adultos em suas próprias dificuldades emocionais, o que gera angústia e
impaciência. Por isso é importante que também os educadores possam falar
de suas dificuldades, adquirindo assim as condições para lidar com as
crianças com o cuidado e atenção de que tanto necessitam.
Uma condição especial é romper com os preconceitos que estão im-
pregnados dentro de nós e que nos afastam da criança pobre.
É preciso buscar romper com os valores negativos impostos pela excessiva
valorização do dinheiro e daqueles que o tem.
É necessário, por fim, compreender a influência que ainda exerce em nós o
período escravocrata da história de nosso país. Muitos de nossos
preconceitos têm origem na mentalidade escravista que ainda vigora.
Os trabalhadores ou a população pobre não atingiram, ainda, a condição real
de cidadãos. São pagos, vistos e tratados como se fossem
escravos. Os benefícios sociais, como a escola e a merenda, ainda são tidos
por muitos como favor e não direito.
Buscar modificar essa mentalidade e ver em cada pai e criança pobre um
cidadão com direitos, é um exercício fundamental para uma relação de
respeito. Respeito esse essencial para que a escola seja também respeitada, e
não agredida, por alunos e comunidade.
O PAPEL DA DIRETORA
D. Dirce está cada dia mais exemplar. As atitudes que tomou, como não
ficar com o Zé Carlos e orientar a professora para uma conversa educativa
com ele, é o melhor que pode fazer para si mesma, para o aluno e para a
professora.
Valorizar o professor, reconhecer sua importância e saber dizer isto à ele
pode melhorar muitas coisas na escola.
Mas outras soluções importantes vão ainda chamar a atenção de D. Dirce.
Vamos acompanhá-la mais um pouco pela escola.
SEGUINDO COM D. DIRCE
D. Dirce passa por uma sala que está na maior bagunça. É a sala dos
repetentes. Reflete algo rápido e retoma sua caminhada. Repara de repente
em umas crianças pulando o muro da escola enquanto outras começam a
jogar pedras ali dentro. Elas riem, estão contentes.
D. Dirce para e reflete: "engraçado, são quase todos repetentes... por que
eles gostam de agredir a escola?".
D. Dirce passa por uma porta por onde houve uma criança xingando a
professora e, em seguida, a professora gritando. Nesse instante ela sai de
dentro da sala irritada: "Dirce! Dirce! Assim não dá! Ninguém agüenta mais
o Bira!"
"Isso é assunto para a próxima reunião", pensa D. Dirce, "que aliás é hoje"
NA REUNIÃO
D. Dirce relata as cenas de indisciplina que presenciou e o pedido de
expulsão de Bira...
Diante de várias colocações pedindo a expulsão do aluno, D. Dirce pondera:
"mas não é justamente esta criança que precisa ser educada? Vocês
repararam que os alunos problemas são os repetentes?"
Encorajada pelo posicionamento firme da diretora, uma professora pede para
dar seu testemunho: Ela conta a história de Carlão, irmão de Bira, "uma
criança mais terrível ainda", diz ela. "Eu odiava ele. Um dia trouxe um
pintinho para dentro da sala no lugar dos cadernos. O bichinho piava e os
alunos riam. A aula foi para o espaço. Meu primeiro impulso foi mandar ele
embora com pintinho e tudo!"
Entre risadas do grupo, a professora declara que "a minha curiosidade foi
maior que a raiva e perguntei o que o pintainho fazia ali..."
Zezé pensa com júbilo: "BENDITA CURIOSIDADE"
"Ele explicou que trocou o pintinho por umas garrafas que a mãe juntava
para vender. A mãe, brava, disse que quando ele fosse para a escola ia meter
o pinto na panela."
Enquanto alguns riam, Zezé faz cara de quem vai chorar. "Aí eu propus ficar
com o pintinho na minha casa e que ele podia visitar o bichinho quando
quisesse. Gente, o que esse menino mudou... ele simplesmente passou a me
amar!"
A professora levanta-se e fala: "comigo ele virou ótimo aluno! Eu sei que
aprendi duas coisas: que criança assim está pedindo ajuda e que a gente tem
que aprender a ouvir; o problema mesmo é o afeto!"
"Acho que tem muita coisa para pensar antes de expulsar uma criança", diz
D. Dirce. Por exemplo, "porque alguns professores ficam tão bravos com os
alunos; porque as crianças mais "difíceis" são as que sempre são reprovadas;
qual a responsabilidade da escola e do professor."
Todos concordam com D. Dirce. Uma professora pede a palavra: "Não era
bom a gente envolver os alunos nessa discussão?"
Diante da aprovação geral, é marcada uma Assembléia de alunos para o
debate sobre indisciplina.
EXPERIÊNCIA DE VIDA TAMBÉM FAZ PARTE DO PROGRAMA
Ter um tempo dentro de sala de aula para a escuta das histórias de vida das
crianças é muito importante. Isto não significa que "a aula foi para o
espaço", pois tais histórias também são aulas, são conteúdos.
As professoras, muitas vezes, ficam presas ao programa formal e não
entendem que as experiências de vida dos alunos também devem fazer parte
do programa. Por isso, impedem a sua manifestação em sala, gerando
distâncias entre o programa da escola e a realidade de vida das crianças.
REPROVAÇÃO E INDISCIPLINA
Não é por mero acaso que os alunos vistos por D. Dirce agredindo a escola
são os repetentes. A relação é de causa e efeito.
A reprovação, como foi visto no capítulo anterior, é um ato de injustiça
sentido pelo aluno como algo que o violenta.
Por isso expulsar não é a saída. Além de ser inconstitucional, é injusto.
Antes de tudo é preciso que as escola reveja as suas responsabilidades. Para
completar, não são justamente essas crianças que mais precisam ser
educadas pela escola, como pergunta D. Dirce?
O PAPEL DO GRUPO DE REPRESENTANTES A cada
reunião, o valor do trabalho coletivo vai ficando mais evidente.
Trocando idéias e experiências, as pessoas adquirem maior compreensão e
clareza sobre os problemas da escola. Adquirem assim, condições para
decidirem de forma mais justa.
Exemplo disso é o relato da professora que tanto contribui para que o aluno
não fosse expulso. Outro exemplo é a decisão de realizar uma assembléia
para envolver os alunos no debate sobre indisciplina, democratizando ainda
mais o trabalho da escola.
A escola de D. Dirce está construindo a si própria nesse processo coletivo.
Cada vez mais aproxima-se da compreensão de sua verdadeira função.
ESCOLA E SOCIEDADE
D. DIRCE E ZEZÉ
PASSEIAM PELA CIDADE
D. Dirce e Zezé passeiam alegremente pela cidade. Elas vão de braços
dados, atentas a tudo. Param sobre um elevado e do alto olham para a cidade
em movimento.
As duas começam a refletir sobre o mundo: "De que vive tanta gente?"
,"Como nós sobrevivemos?", "Como é que tudo isso funciona sem parar?".
D. Dirce acompanha essa última fala com um gesto largo, apontando o
mundo com as mãos.
DE VOLTA À ESCOLA...
D. Dirce anda de um lado para outro dentro de uma sala de aula vazia. Em
sua cabeça, as indagações continuam: "a luz nas cidades funcionam sem
parar; os carros continuam a andar - será que nunca acaba o combustível?";
"Todos os dias tem água nas torneiras?"
"O comércio, as indústrias...", "Nunca acaba o papel na papelaria..." , "Nem
o vidro na vidraçaria!"
Em seguida, D. Dirce começa a fazer algumas relações: para a luz nas
cidades existe a Companhia de Eletricidade; combustível -Companhia de
Petróleo; água - Companhia de Água e Esgoto; telefone - Companhia
Telefônica; papel - Fábricas de Papel; vidro -Fábrica de Vidro.
"Mas quem é responsável por fazer tudo isso funcionar?, " indaga ela. Uma
imagem de uma multidão de trabalhadores de diversas profissões 2vem
imediatamente à sua cabeça. "São eles que mantêm o mundo rodando!".
Com a mão no queixo, expressão triste, entra em um profundo estado de
reflexão: "E a escola? Em que ela contribui para manter o mundo
funcionando? Como sobrevive? E ela, D. Dirce? Qual a sua parte nesta
história toda?"
DE VOLTA À SUA SALA...
Ainda pensando sobre a escola, em como funciona e sobrevive, D. Dirce
visualiza uma ilustração de dezenas de crianças, uma atrás da outra, entrando
por uma porta onde se lê ENTRADA.
Em seguida, imagina uma outra tira bem menos apertada de crianças saindo
por debaixo de uma placa onde se lê EVASÃO. De outra porta, escrito
SAÍDA, uma nova fila de pessoas, já adolescentes, bem menor do que a
primeira.
D. Dirce, assustada, vai imaginando uma cena com o som de um trem, onde,
feito autômatos, ENTRA ALUNO, SAI ALUNO... ENTRA ALUNO, SAI
ALUNO... ENTRA ALUNO, SAI ALUNO...
"Mas a escola é uma máquina?", exclama ela.
A FUNÇÃO DA ESCOLA
D. Dirce faz uma descoberta importante sobre o papel da escola. Se ela não
ensinar bem, nada no mundo funciona bem.
Mas o que deve a escola ensinar? O que o mundo espera dela?
O que é da ESSÊNCIA DA ESCOLA?
Em um certo sentido, a escola pode ser comparada à humanidade. Assim
como os homens, também as escolas, apesar de toda a diferença existente
entre elas, possuem uma essência comum. Essa essência não se modifica -
ela é a mesma em qualquer tempo e parte do mundo.
O que é da natureza da escola e que vai constituir a sua função básica, é o
seu dever de garantir a todos o direito aos conhecimentos científicos, éticos
e culturais.
Quais são esses conhecimentos e a forma de garantir a sua aprendizagem é
que vão depender de cada momento histórico, bem como das necessidades
específicas de cada comunidade escolar.
ESCOLA HOJE E SOCIEDADE
O desenvolvimento social exige cada vez mais uma formação sólida, ampla
e profunda de seus membros.
O mundo está mudando velozmente. São foguetes espaciais, computadores,
fax, telefone celular, TV a cabo, máquinas de lavar roupas e louça,
microondas, raio laser, cartões magnéticos e tantas outras invenções,
algumas até inacreditáveis.
O computador está cada dia mais presente nas casas e nas escolas. Até os
brinquedos das crianças baseiam-se nessas invenções.
E com a tecnologia, a distância entre os países e as pessoas diminui.
Qualquer um pode saber o que acontece no mundo inteiro sem sair de casa.
E possível conhecer e conversar com o mundo do próprio lar.
E é nessa direção que o mundo caminha. É como a invenção da roda. Não
tem mais volta para trás, hoje, ninguém mais consegue viver e se locomover
sem recorrer a uma carroça, bicicleta, trem, carro, ônibus ou avião.
Da mesma forma, hoje a sobrevivência das pessoas e do mundo depende
cada vez mais das novas descobertas tecnológicas. Tudo é inventado,
documentado, mostrado e divulgado a partir delas.
Cresce a necessidade de se conhecer novas línguas e a cultura dos diferentes
povos.
São essas algumas das necessidades de conhecimentos do mundo de hoje. A
Nação que não conseguir responder a tais exigências, fica para trás.
Sociedade alguma progride se não tiver pessoas capazes de realizar o
trabalho que o desenvolvimento tecnológico e cultural requer. Foi o que
compreendeu D. Dirce.
Assim, países como o Brasil correm o risco de ficar cada vez mais em
situação de desigualdade em relação aos países ricos. E o que é pior, ver
aumentada a pobreza da população.
ANALFABETISMO NO BRASIL - O MAIOR SURREALISMO
O nosso caso é sério, principalmente se considerarmos os altos índices de
reprovação existentes.
Nem o básico, o feijão com arroz, estamos conseguindo dar em um mundo
cada vez mais sofisticado. Habilidades mínimas necessárias a
todo esse desenvolvimento, como leitura escrita, interpretação e operações,
não estão sendo aprendidos com a qualidade necessária.
Diante de uma realidade cada dia mais computadorizada, o analfabetismo e a
baixa escolaridade apresentam-se em todo o seu absurdo.
Tal realidade fica ainda mais aberrante, quando consideramos que a escrita e
a leitura, inventadas há séculos antes de Cristo, são até hoje desconhecidas
de um número significativo de pessoas.
A beira do ano 2000, séc. XXI depois de Cristo, ainda não conseguimos
ensinar descobertas tão antigas e garantir o direito à um conhecimento tão
essencial.
A FUNÇÃO EDUCATIVA DA ESCOLA
As transformações tecnológicas, econômicas e culturais colocam cada vez
mais a necessidade do conhecimento ético e da educação do homem em toda
a sua multiplicidade.
Para além dos conteúdos científicos, a escola possui uma função formadora.
O homem é um ser rico em necessidades e capacidades físicas. emocionais,
culturais, espirituais e intelectuais.
Buscar uma educação equilibrada, que atenda a essa multiplicidade, é
fundamental para a sua formação. Educar em sentido mais amplo significa
considerar as diversas experiências sociais, culturais e intelectuais do aluno.
Ou seja, respeitar suas histórias de vida, linguagem e costumes, condições
sociais, moradia e lazer.
Significa incluir essas experiências no programa de ensino, ter um tempo
para elas, organizá-las em atividades pedagógicas (como a história do
pintinho contada no capítulo X).
Deve ainda proporcionar aos alunos novas experiências que possam
enriquecer seu universo de conhecimentos, como idas a museus, teatros,
passeios pela cidade. Deve, por fim, levar até eles experiências não tão
acessíveis, mas também presentes no mundo.
ESCOLA E ÉTICA Todas essas experiências e
conhecimentos devem ter uma razão de ser:
buscar construir um mundo melhor, pessoas melhores, mais justas e mais
felizes.
O desenvolvimento tecnológico e econômico não trouxe, por si só, o
desenvolvimento do homem do ponto de vista ético. A sociedade vive crises
de valores que a escola não pode ignorar, como a violência, a competição, a
corrupção, a mentira, a inveja, a vaidade, as drogas. A escola é um local
privilegiado para a construção de novos valores e condutas. Tem coisas que
apenas se aprende na escola.
Cabe a ela rever valores que são essenciais para o bem estar de todos, dando
o testemunho prático de valores como a generosidade, a justiça, a alegria, a
união.
O homem deve ser parte fundamental do currículo.
O QUE APENAS A ESCOLA PODE FAZER
Determinados conteúdos podem até ser aprendidos em casa, nos livros e
computadores, com a ajuda dos pais. Mas isto em se tratando de famílias
com recursos econômicos bem diferentes da maioria da população.
Para essa maioria, a escola é ainda o único local onde é possível encontrar
esses conhecimentos organizados e sistematizados.
Principalmente no mundo de hoje, onde o volume de informações e
conhecimentos é cada vez maior.
Mas, o que é mais importante, é apenas na escola que o conhecimento vai se
dar através de uma experiência coletiva. E é no coletivo que se abre para o
homem a possibilidade de se formar a partir de princípios éticos
fundamentais para a vida em sociedade. E nesse espaço que tendências
individualistas podem ser educadas.
A escola, talvez mais do que a família, é por princípio o lugar que nos educa
para a coletividade. Ali podemos aprender o básico da condição humana, que
é ser, de fato, um ser social, que sabe viver com os outros e dividir espaços.
Através dos conteúdos científicos e culturais, e para além deles, a
escola pode informar e formar o homem para um mundo melhor, para
sermos pessoas melhores.
QUANDO O ESTADO NÃO CUMPRE O SEU PAPEL
Muitas vezes o Estado denuncia e cobra da escola o cumprimento de suas
funções mas, contraditoriamente, nem sempre cumpre o seu papel junto ao
cidadão, à sociedade e à própria escola.
Muitas vezes, procura atender a interesses que não são os da coletividade ou
da maioria da população brasileira, mas sim interesses particulares de uma
minoria.
Com isso, deixa a escola sem os recursos necessários ao seu bom
funcionamento, como salários dignos, recursos materiais, merenda,
reformas, manutenção, quadro de pessoal completo, mobiliário...
ESCOLA-SOCIEDADE-CIDADÃO - A RESPONSABILIDADE É DE
TODOS E DE CADA UM
A relação entre escola, sociedade e indivíduo é bastante íntima. É
inseparável.
A sociedade, para sobreviver e se transformar, precisa da escola e dos
indivíduos. A escola, para sobreviver e cumprir seu papel, precisa da Nação
e das pessoas. E as pessoas, por sua vez, precisam da escola e da Nação.
Quando uma deixa de cumprir o seu papel isso tráz conseqüências para as
demais.
Escola e sociedade não são entidades abstratas. Quem as constituem são
pessoas concretas, com suas qualidades, contradições, imperfeições.
Se a Nação e a escola não cumprem a sua função, é porque as pessoas não
estão cumprindo com os seus deveres.
Escola e Nação só vão se transformar plenamente quando as pessoas, em
seus diferentes cargos sociais - governo, comércio, faculdades, associações,
escolas - também se transformarem.
Mas esse é um processo longo de construção de consciências e posturas
éticas. Até lá, é preciso que cada um faça a sua parte e tenha a sua
própria ética. Ou seja, fazer o que é correto porque é justo, mesmo que
ninguém o faça.
O PAPEL DE D. DIRCE
D. Dirce faz opção pela ética. Ela vai ao encontro de si mesma, de suas
responsabilidades com a escola e o mundo.
A contribuição que pode dar para a vida é a mesma que pode dar à escola,
qual seja, lutar para que ela cumpra a sua função e para que ela própria, D.
Dirce, também cumpra o seu papel.
Quando D. Dirce vê a cidade, ela vê a si mesma. O mundo funciona porque
D. Dirce funciona e porque todos nós funcionamos em nossas atribuições.
A qualidade do mundo é a qualidade da escola, que é a qualidade das
pessoas.
Fazer um projeto para transformar a escola, conforme propôs D. Dirce, é na
verdade, fazer um projeto para transformar as pessoas. E, nessa medida,
transformar o mundo.
O GRANDE PROJETO
Este é o último capítulo dessa breve estória de ficção. Aqui nos despedimos
de D. Dirce, Zezé e toda a escola. Mas é uma despedida bonita. Ela nos deixa
de presente a proposta de construção coletiva de um Projeto Pedagógico com
o objetivo de fazer a escola cumprir a sua função.
NA REUNIÃO GERAL
Em um quadro está escrito: Projeto Pedagógico - COMO ESTÁ NOSSA
ESCOLA.; COMO ELA DEVE SER PARA SERVIR A TODOS; QUAIS
OS PASSOS PARA LEVÁ-LA AO SEU IDEAL.
D. Dirce vira-se para a sala repleta de gente. Ela fala entusiasmada.
As pessoas ouvem atentamente, algumas arregalam os olhos. D. Dirce
continua a falar: "Qual a coisa mais importante que podemos fazer pela
nossa sociedade, pela Nação?"
A platéia se agita com sinais de espanto e adesão: "Nós aqui temos
autonomia para definir como deve ser o trabalho mais importante... do
mundo! Vamos lá?"
O QUE É UM PROJETO PEDAGÓGICO
Projeto Pedagógico não é palavra mágica. É uma proposta de trabalho
coletivo que busca encontrar respostas para questões cruciais da escola,
como o seu papel, as dificuldades em cumpri-lo e as alternativas possíveis.
Como tudo, sua qualidade vai depender das pessoas com ele envolvidas.
O Projeto é feito no momento em que a escola reconhece que não pode mais
ficar indiferente ao fracasso da escola, como se não tivesse nada a ver com
isso, aguardando parada que apenas o governo faça alguma coisa. É o
momento da faxina, quando a escola volta-se para si mesma e busca se
reorganizar.
Fazer Projeto é se responsabilizar pela iniciativa da mudança. Os projetos
devem ser globais e coletivos, isto é, expressar os objetivos da
escola como um todo e não os objetivos de áreas ou segmentos. É o coletivo
que deve definir, aprovar e executar os objetivos propostos.
Projeto Pedagógico é uma atividade viva e dinâmica, que reúne toda a
comunidade escolar na construção coletiva da escola.
Construção, porque a escola, assim como as pessoas e o mundo, não está
pronta. Ela está em constante transformação. Tem coisas boas que deve
manter, coisas que deve modificar e outras que deve adquirir. Vive assim um
movimento contínuo de manutenção, transformação e criação.
SONHO E A REALIDADE
Muitas escolas reclamam da distância existente entre aquilo que projetou e a
prática. Mas a distância entre o sonho e a realidade não é um defeito - é
natural. Uma diferença vai sempre existir e isto não é necessariamente uma
incoerência.
Os sonhos, quando transportados para a experiência concreta, são
inevitavelmente modificados por acontecimentos imprevisíveis no campo
das idéias. E isto acontece não apenas com os projetos da escola. É em tudo
na vida.
Por exemplo, o filho real não é aquele idealizado pelos pais; o amor ideal
não é igual ao sonhado.
O que precisa ser avaliado é a qualidade da distância existente. Isto é
importante para que a prática não perca o ideal de vista, tornando-se, ao
contrário, a sua negação.
ALGUMAS CONTRADIÇÕES
As experiências de escolas que têm projetos revelam algumas das origens
das contradições entre o ideal e a prática. Há, por exemplo, a apropriação de
discursos prontos e avançados sem uma compreensão do seu significado. A
escola está impregnada de chavões e isto provoca uma distância entre aquilo
que apregoam e a prática.
Há também o fato de que nem sempre existe uma relação direta entre as
ações do projeto e os objetivos propostos.
Pode-se citar ainda o fato de que muitas vezes o projeto não é feito
coletivamente, mas por um grupo restrito. Predomina a visão do projeto
enquanto documento técnico de especialistas em educação. O resultado é um
documento frio e autoritário.
COMO FAZER Um Projeto
Pedagógico possui três partes essenciais:
a escola que temos (a escola real)
a escola que queremos (a escola ideal)
as ações a serem desenvolvidas (a passagem)
Toda escola possui um projeto, seja ele explícito ou não. Esse projeto está
expresso na forma como a escola se organiza e nos resultados que apresenta,
como por exemplo, os altos índices de reprovação, as condições precárias de
trabalho, a gestão autoritária, a não aprendizagem.
Um projeto de escola é a própria escola. Ou, em outras palavras, cada escola
é a expressão de um projeto.
A FUNÇÃO DA ESCOLA - A ESCOLA QUE QUEREMOS
A escola ideal é aquela que cumpre a sua função. Essa função já está
historicamente determinada, não cabendo à escola reinventar a roda. Em
qualquer tempo e lugar, a escola tem uma base comum, universal: garantir o
direito de aprendizagem dos conhecimentos científicos, culturais e éticos a
todas as crianças.
Em um projeto, cabe à escola associar essa base comum e universal às
mudanças históricas, adaptando-a e integrando-a às exigências de cada
momento, país e comunidade local.
A discussão sobre a função da escola é um momento muito importante na
construção do Projeto
6
. E ela que vai determinar toda a sua qualidade. A
escola deve fazê-la com cuidado e em profundidade, evitando a repetição de
chavões e discursos prontos. Necessário é refletir sobre o significado de cada
palavra, como por exemplo: O que é educar?; O que é cidadão?; O que é o
conhecimento?; Quais os conhecimentos necessários na sociedade de hoje?;
Qual a melhor metodologia e didática para assegurar a aprendizagem dos
conhecimentos?; Qual a melhor forma de avaliá-los?
Aprofundar tais questões é uma condição essencial para que haja uma
coerência entre o discurso e a prática.
Dessa discussão, o próximo passo é avaliar em que medida a escola real está
ou não de acordo com o papel da escola.
A ESCOLA REAL
Conhecer a escola real é conhecer os momentos ou as situações nos quais ela
não vem cumprindo a sua função e o porquê desse distanciamento. É analisar
as diversas dimensões do trabalho escolar (pedagógico, administrativo,
social...), identificando seus principais problemas e suas causas.
É reconhecer ainda as experiências positivas que têm contribuído para a
escola cumprir o seu papel.
É por fim, conhecer os alunos, sua família, a comunidade onde fica a escola.
E importante ressaltar que a análise da escola real, assim como o reconhe-
cimento daquilo que é problema, só será possível se houver clareza sobre a
verdadeira função da escola. A avaliação da escola real é comparativa. Ela se
dá tendo como referência um outro modelo de escola.
AS AÇÕES - REALIZANDO A PASSAGEM
Ação é a ponte entre a escola que temos e a escola que queremos. É o
caminho por onde vamos seguir. É o que fazer e como fazer para atingir os
objetivos propostos, objetivos esses que são idênticos à própria função da
escola.
E através de ações claras e objetivas que será possível a passagem da escola
real para a ideal, ou seja, para a sua transformação.
Muitas vezes, professores e diretores querem mudar a escola e resolver os
problemas de aprendizagem, mas as ações escolhidas não dão os resultados
esperados.
Quando isso ocorre é importante rever não só as ações que foram feitas,
mas, principalmente, o pano de fundo onde se dá o essencial da
aprendizagem: a forma como a escola está organizada; a relação professor-
aluno; as crenças e preconceitos em relação à capacidade de (aprendizagem
da criança; dentre outros. Em outras palavras, mudar apenas as ações, mesmo
que de forma técnica e científica, não resolve. As ações têm que traduzir
mudanças mais profundas.
Outro ponto importante é relacionar as ações com as causas dos problemas
que impedem a escola de cumprir o seu papel. Por exemplo, se a reprovação é
um desses problemas, quais são as causas da reprovação? Se forem
apontados, entre outros, o sistema de avaliação e a organização seriada,
analisar então quais as ações necessárias para modificar tanto um quanto
outro.
É também fundamental definir, para cada ação, o onde e quando serão
realizadas. Da mesma forma, os responsáveis mais diretos pela sua
coordenação.
A CONSTRUÇÃO COLETIVA - A PASSAGEM DO EU AO NÓS Um
projeto de escola só será competente se for coletivo.
Além da participação ser um direito de todos, é no coletivo que um
conhecimento mais global e verdadeiro da escola é construído. E esse
movimento, onde se entrelaçam os diversos saberes que cada um possui, que
cria a possibilidade de um conhecimento comum a todos. É através da
participação que cada pessoa é respeitada enquanto indivíduo e enquanto
integrante de um corpo maior e coletivo, que é a escola.
É nesse espaço que aprendemos a estabelecer um acordo entre as diversas
vontades, os diversos EU, em busca de uma vontade comum a todos, de um
NÓS. Vontade essa que, para ser respeitada, tem que ser compreendida. E,
para isso, construída em comum acordo. Assim fica mais fácil gostar da
escola e lutar por ela, em conjunto.
Mas é também necessário que seja uma vontade justa: uma vontade que
reconheça as necessidades maiores da coletividade escolar, da Educação e
Sociedade.
À D. DIRCE, COM CARINHO
D. Dirce não é apenas uma personagem de ficção. Ela representa diversas
diretoras que vêm assumindo e liderando um processo de transformação
pessoal e coletivo na busca incessante de constituição de uma escola
competente. D. Dirce envolve toda a escola nessa busca, fazendo todos
crescerem junto com ela. Muda a expectativa em relação ao seu papel de
única responsável pelos problemas, divide responsabilidades, dirige a escola
com o grupo de representantes em condições de igualdade. Ela compreendeu
que a escola é de todos e que a função básica do diretor é criar as condições
para a participação coletiva nas decisões.
E o que é mais importante, entendeu que a democratização das decisões só
faz sentido se for com o objetivo de garantir a democratização do conhe-
cimento. E o que a escola tentará fazer através do Projeto Pedagógico.
A INVENÇÃO DEMOCRÁTICA
Alguns diretores vêem a democracia e a participação coletiva como
exigência do governo ou algo que vai bagunçar a escola.
A democracia, na verdade, é uma construção histórica da humanidade que
nela insiste há séculos. Inventada pelos gregos por volta do séc. V a.C, ela
permanece na história como algo que insiste.
Todos os grandes acontecimentos políticos giram em torno da liberdade do
homem de decidir sobre o seu próprio destino. Transformar essa liberdade
em um direito respeitado por todos tem sido uma luta constante, seja na
Grécia do séc. IV, seja na Revolução Francesa do séc. XVIII, nas
experiências democráticas dos países desenvolvidos, nas idas e vindas
democráticas dos países com tradição autoritária, como o Brasil.
Os colegiados de Escola, as Assembléias Escolares e os projetos coletivos
nascem sob essa inspiração.
A democracia possui em si mesma uma natureza educativa.
As dificuldades existentes não podem ser colocadas como obstáculos
intransponíveis.
ENTREVISTANDO EDUCADORES -1
Nesse capítulo é transcrita uma entrevista com a educadora que vem
participando diretamente da luta pela construção de uma escola competente:
Maria Lisboa de Oliveira.
Conhecer suas idéias sobre a escola hoje pode auxiliar os educadores em seu
trabalho.
"A ESCOLA ESSENCIALMENTE TEM QUE PASSAR CONHECI-
MENTOS"
Maria Lisboa de Oliveira é professora da Faculdade de Educação da UFMG.
Foi secretária adjunta da Educação do Estado de Minas Gerais no período
83-86 e secretária Municipal de Educação de Belo Horizonte, no período 89-
92.
Atualmente é delegada da DEMEC-MG.
Participou diretamente da história de criação dos colegiados e eleição direta
para diretores de escolas públicas de 1
o
e 2 ° graus de Belo Horizonte.
P - Qual a origem da criação dos colegiados em Minas Gerais? R - Minas
Gerais foi o primeiro Estado a viver uma experiência mais organizada de
colegiado no Brasil. Foi em 1983, período em que se lutava contra a
ditadura. A resistência à esse regime construía uma proposta de decisões
coletivas e compartilhadas, que pudesse democratizar a sociedade em todos
os níveis.
Nós, da Secretaria, compartilhávamos da idéia da participação. Entendíamos
que a escola vivia sufocada, cumprindo ordens, seguindo tudo que estava
previamente determinado. Esta avaliação gerou uma proposta de ouvir a
escola, os problemas que enfrentava e suas propostas de solução.
P - O que significou ouvir as escolas?
R - Essa escuta não foi por amostragem. Queríamos escutar todas elas. Só
esse movimento de perguntar e propor a discussão já era um sinal, para as
escolas, de que as coisas estavam mudando. Era a Secretaria, ou
seja, o governo, querendo que a escola participasse de sua própria
construção. Esse movimento foi resultado da primeira eleição direta para
governo de Estado após tantos anos de ditadura. A forma que encontramos
para ouvir todas as escolas foi o Congresso. Para esse encontro não tínhamos
roteiro pré-determinado. A escola ia dizer tudo que quisesse.
P - Como foi organizado o Congresso?
R - Foi em três níveis: escola, municipal e regional. Em todos eles a
participação de pais, alunos, professores, diretores, funcionários. Faziam
discussões e tiravam as representações a cada nível, até a participação no
Congresso.
Em uma sala de aula com mais de 60 pessoas, foi feita a redação final do
documento, aprovado pela plenária. Tudo que as escolas discutiram desde os
primeiros momentos foi mantido. Um desses pontos foi a criação dos
colegiados. Esse Congresso foi um marco dentro da história do país.
P - De onde veio tanta convicção na idéia de participação ? R - Primeiro, é
uma idéia que surge no bojo da luta contra a ditadura, ou seja, como um
direito de todos decidirem o seu destino. Segundo, é uma concepção
pedagógica. Acredito que somente quando as pessoas são colocadas diante
de um problema como responsáveis por sua solução, é que vão fazer um
exercício de reflexão e de pensamento. É apenas desta forma que existe
crescimento, inclusive intelectual.
P - Você pode dar um exemplo prático ?
R - É muito diferente quando você diz para a escola: agora vão
trabalhar com o Projeto Alfa. Fica todo mundo pelejando, vendo se
entende ou se não entende, e na hora de aplicar, não dá certo. É aquela
confusão. O professor consulta daqui e dali e fica sem saber se é ele que
não está dando conta.
Quando um projeto vem para ser cumprido corre o risco de não ser
dada a condição de sua reconstrução.
O colegiado surge como uma tentativa de reconquistar a autonomia
das pessoas e das escolas. Propostas como essa, depois de um
autoritarismo grande, onde, as pessoas não podiam pensar e, quando
o faziam, tinham seus pensamentos distorcidos, recoloca o respeito e o
crédito nas pessoas.
p - Por que você acredita tanto assim nas pessoas?
R - Porque acredito em mim. Tudo que posso fazer, construir, todos também
podem. Todos somos iguais. O ser humano tem uma base comum:
inteligência, emoção, afetividade. E tudo é educável, construído.
p - E o que é educar?
R - Só existe educação quando o educador oferece uma série de instrumentos
a quem está sendo educado, de tal forma que o educando, apropriando-se
dele, passa a integrar o conjunto de cidadãos. Esse conjunto, coletivamente,
continua construindo outros instrumentos. Na escola, o instrumento mais
importante é o conhecimento. Ao apropriar-se dele, cada um integra-se aos
demais cidadãos que também têm esse domínio, dando continuidade à
construção de novos conhecimentos. É algo dinâmico, em constante
movimento.
p - Quais as condições para a escola cumprir o seu papel? R - A educação é
um processo que faz o aluno passar por uma certa organização escolar, por
uma instituição que tem uma estrutura, um funcionamento, pessoas que
cuidam dela. A criança passa por tudo isso vivenciando e quando vivência,
está aprendendo. Assim, a forma como a escola está organizada para o aluno
aprender é fundamental para a aprendizagem.
Se está organizada de forma autoritária, individualista, com poder
centralizado, sem respeitar o aluno ou considerando-o como um objeto que
passa, que está ali apenas para ser moldado e jogado lá fora, ele vai aprender
de um jeito.
Mas se está organizada em torno de problemas que ele próprio tem que
ajudar a resolver, mesmo que ainda não tenha o conhecimento suficiente
para isso - mesmo porque ele vai construindo esse conhecimento nesse
processo - ele vai ter uma outra aprendizagem. Muito mais dinâmica e
produtiva.
P - Mas qual é mesmo o papel da escola?
R - A escola essencialmente tem que passar conhecimentos que a
humanidade vem produzindo. Ela existe para isso. Como esse conhecimento
não é uma produção individual, não tem dono, é social e historicamente
construído, é também importante que as pessoas adquiram esse
conhecimento dentro desse contexto social e coletivo.
P - Sobre o papel da diretora?
R - Uma direção tem que estar muito convencida de que o processo tem
que ser esse: acreditar no todo da escola enquanto um corpo em
movimento, em crescimento.
Acreditar no aluno e na possibilidade de suas potencialidades serem
sempre atualizadas.
Ter o respeito pelos pais, alunos, professores, funcionários e pelo
coletivo.
P - O que é o respeito?
R - E acreditar, e essa crença tem que se manifestar nas atitudes, na
forma como se conduzem as coisas.
O diretor pode e deve reconhecer que, pela sua posição, ele sabe mais.
O que não pode é transformar isso em um instrumento para calar a
boca dos demais.
Essa condição de saber mais foi dada à ele pelo próprio exercício da
direção: ele recebe mais informações; é mais exigido; participa mais; é
convocado pela Secretaria; tem a oportunidade de ver o conjunto e
atuar na globalidade da escola.
P - Qual a sua opinião sobre a TV ESCOLA ?
R - E o grande canal que o MEC está criando para a construção de um
projeto nacional de escola e de uma escola nacional. Na medida em que é
democratizante, chega a todas as escolas com uma discussão sobre o que ela
é e como pode ser, cria a possibilidade de todas terem uma base comum, um
ponto de partida comum. É claro que os objetivos propostos serão ampliados
e enriquecidos pelo debate. Ela não vai impor, mas levar um conhecimento
que cria e amplia as possibilidades existentes na escola.
ENTREVISTANDO EDUCADORES - ll
Nesse capítulo é transcrita uma entrevista com um educador que vem
participando diretamente da luta pela construção de uma escola competente:
Antônio Gomes da Costa.
"PROCURE COLOCAR AS PESSOAS NO CORAÇÃO DE SEU TRABALHO"
Antônio Gomes da Costa é pedagogo.
Foi presidente da Febem-MG; oficial de projetos da UNICEF; diretor
executivo e presidente do CBIA (Centro Brasileiro para a Infância e
Adolescência). Atualmente é diretor- presidente da Modus Faciendi, sua
empresa de consultoria e consultor independente da OIT (Organização
Internacional do Trabalho) e do UNICEF, prestando serviços de consultoria
a vários países.
É autor de vários livros sobre os direitos da população infanto-juvenil.
Participou do grupo de redação do Estatuto da Criança e do Adolescente,
considerada por ele sua mais rica experiência.
P - Enquanto profissional, com vasta experiência no campo educativo, requisi-
tado por órgãos internacionais (UNICEF) e nacionais (MEC), como você
avalia a educação pública no Brasil?
R - Eu avalio a escola pública no Brasil dos nossos dias como resultante da
maneira de ver, sentir e cuidar da educação, que predominou em nosso país
na últimas décadas. Nos anos cinqüenta a situação do Brasil era invejável,
quando nos comparávamos por exemplo, com a Coréia, Taiwan e Cingapura.
Hoje 92% dos jovens coreanos concluem o segundo grau. O que aconteceu
com eles e conosco nesse período? Creio que a grande diferença entre os
tigres asiáticos e as onças latino-americanas foi que, enquanto eles pensaram
na construção de uma escola pública de qualidade para todos, como
condição para o desenvolvimento econômico, as onças latino-americanas,
entre elas o Brasil, optaram por enriquecer primeiro para somente depois
construir uma escola de qualidade para todos. Os resultados dessa opção
foram um modelo de desenvolvimento equivocado e uma escola pública a
quem foram negadas as condições para satisfazer as necessidades básicas de
aprendizagem de grande parte da população.
Essa opção insensata refletiu-se sobre a sala de aula de maneira dramática.
Expandimos quantitativamente o nosso sistema de ensino, mas não criamos
as condições adequadas em termos de valorização do profissional do
magistério (remuneração, carreira, capacitação e condições de trabalho),
para assegurar uma educação fundamental de qualidade para todas as
crianças e adolescentes.
A expressão mensurável dessa má qualidade do ensino é a repetência, cujo
preço é pago por todos nós. Em primeiro lugar o preço humano. O aluno que
repete vê destruídos seu autoconceito, sua auto-estima e sua autoconfiança.
Em segundo lugar, o preço social. Cada aluno que repete uma vez, repete
duas, repete três e deixa a escola sem completar o ensino fundamental,
torna-se um brasileiro a mais despreparado para a vida. O preço político são
as conseqüências do voto equivocado das pessoas despreparadas. Na
democracia o soberano é o povo. O país que não educa o soberano está
condenado a ser dirigido por uma elite política perdulária e despreparada,
incapaz de servir ao interesse público. O preço econômico da repetência
decorre da soma do custo para o sistema dos anos perdidos por aqueles que
deixam a escola sem terminar a oitava série. São 2,5 bilhões de dólares por
ano, dinheiro que poderia ser gasto no aumento da remuneração dos
professores e na melhoria das condições de ensino em nossas escolas.
P - O que é necessário fazer para que a escola garanta a aprendizagem de todos
os alunos?
R - No nível macropolítico, é preciso repensar a estrutura e o funcionamento
do sistema de ensino, buscando adequá-lo às grande transições de paradigma
decorrentes das mudanças econômicas, tecnológicas, sociais, políticas e
culturais, que vêem marcando o Brasil e o mundo nesta reta final do século e
do milênio. O nível macropolítico refere-se às grandes decisões a serem
tomadas nos níveis da União e dos Estados. O nível micropolítico refere-se
às relações da escola com a família, a comunidade e o poder público local,
visando inserir a escola na vida da comunidade e a comunidade na vida da
escola, de modo a potencializar recursos e energias em função da melhoria
da qualidade do ensino. O nível molecular abrange a relação professor-aluno
e seu entorno institucional: técnicos, funcionários e diretores. O principal
critério de avaliação de qualquer mudança, em qualquer instância deve ser a
pergunta: como isso afeta a sala de aula? Como isso chega ao professor e ao
aluno?
Sempre é bom lembrar que a escola só é boa quando a aluno aprende e que
qualquer criança capaz de brincar e brigar é também capaz de aprender. Sem
simplificações e sem reducionismos, é necessário revisitar o tema dos
conteúdos, dos métodos e da qualidade das relações professor-aluno.
p - Que contribuição (dicas) pode ser dada à diretora para o bom desempenho
de seu trabalho?
R - Primeira: Não abra mão de fazer tudo ao mesmo tempo e uma coisa de
cada vez. O único caminho para isso é fazer uma gestão participativa.
Delegue, confie e cobre.
Segunda: Atue nas três grandes frentes: nas relações da escola com o
sistema; nas relações da escola com as famílias, a comunidade e o poder
público local; na construção coletiva e implementação do projeto
pedagógico na escola.
Terceira: Procure colocar as pessoas no coração do seu trabalho admi-
nistrativo e pedagógico. As pessoas (alunos, pais, professores, técnicos e
funcionários) são a vida, a fonte do sentido e o suporte da significação da
missão da instituição escolar. O autoconceito, a auto-estima e a
autoconfiança de todos e de cada um devem ser considerados elementos
essenciais e decisivos do equilíbrio escolar.
P - O que pensa sobre a TV-ESCOLA ?
R - Penso que a TV-ESCOLA é a grande chance de o Brasil atingir a escala
no desenvolvimento de novas capacidades nos profissionais que atuam na
educação básica. Suas potencialidades, porém, vão muito além desse
patamar. Ela poderá vir a tornar-se o grande eixo motor das mudanças de
conteúdo, método e gestão, que a nossa realidade necessita e requer. O Brasil
está no caminho certo e não está parado. A TV-ESCOLA pode e deve ser o
grande acelerador desse processo.
1) Essa estória foi criada por Marcos Pompéia, roteirista da Série ESCOLA HOJE.
2) ALVES, Rubens. Boca do Forno In GROSSI, Esther P. et all (org) Paixão de aprender Petrópolis, R.J. Vozes,
1992. pp.249/251
3) Eleições Diretas. In Caderno Pedagógico. n°03. Belo Horizonte, agosto 1992. Secretaria Municipal de
Educação
4) Cabe ressaltar que vêm crescendo práticas alternativas que buscam envolver a criança no planejamento e na
execução do trabalho pedagógico.
5) Fernandez, Álicia - Entrevista as Jornal Estado de Minas - 11/09/94
6) Sobre a função da escola - ver capítulo anterior
BIBLIOGRAFIA
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ANOTAÇÕES
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Brasília, Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação à
Distância, [ 1996]. 94 p. (Cadernos da TV Escola)
1. Administração escolar. 2. Administração participativa. I. Ministério
da Educação e do Desporto. Secretaria da Educação à Distância. II. Série.
CDU: 371.11: 371.671.12
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